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Dinâmica de Fundações de Plataformas Offshore: Passado, Presente e Futuro

Nelson Szilard Galgoul, Prof. Titular da Universidade Federal Fluminense

1.0 – Introdução

O dimensionamento de fundações de plataformas offshore considerando a ação dinâmica


de ações da natureza é um assunto que requer a consideração da interação solo –
estrutura.

É interessante ressaltar, contudo, que se por um lado os procedimentos de cálculo


associados à prática de projeto evoluíram muito na segunda metade do século 20, por
outro parecem ter estagnado a partir dos anos 80.

Nesta palestra estaremos fazendo uma rápida retrospectiva dessa evolução, ressaltando
aquilo que é, ainda hoje, a prática corrente na maioria das empresas de projeto, que, por
sua vez, é diretamente associada aos programas de computador disponíveis no mercado.

Finalmente será mencionada a tendência da pesquisa em relação a esse assunto e o alvo


desejável para a evolução dessa pesquisa a curto prazo.

2.0 – O Desenvolvimento do Cálculo de Fundações Estaqueadas

O dimensionamento de fundações estaqueadas teve como primeiro método de análise


consistente aquele proposto por Schiel /1/, onde admitia que as estacas eram elementos
bi-rotulados. Não obstante a imprecisão conhecida desta hipótese este foi por vários anos
o principal método lecionado nas escolas de engenharia por ser um dos poucos que
permitiam o desenvolvimento manual dos cálculos.

Com a divulgação dos métodos de análise estrutural computacional passou-se a


considerar as estacas como elementos engastados no solo e rotulados ou engastados no
bloco de coroamento dos mesmos. Surgiram nesta época alguns trabalhando falando a
respeito do comprimento de engastamento equivalente das estacas, dentre os quais pode
ser destacado o de Davisson e Robinson /2/ publicado em 1965.

Uma discussão sobre a validade de uma estaca de comprimento de engastamento exato


em qualquer situação foi apresentada por Marcondes e Galgoul /3/ em 1983, tanto para
estacas isoladas como para grupos de estacas. Mostrou-se ali que a matriz condensada de
uma estaca isolada ou mesmo de um grupo de estacas, considerando o solo não linear ou
linear elástico, podem ser sempre representada por uma das duas estacas apresentadas
nas figuras 1 e 2. A escolha por uma ou outra fica óbvia na medida em que apenas K1 ou
K2 podem ser positivas.
Figura 1 – Matriz de engastamento equivalente para a predominância do cortante

Figura 2 – Matriz de engastamento equivalente para a predominância da flexão

É curioso que passados mais de 40 anos essa ainda é uma das formas de modelagem de
fundações estaqueadas mais usadas por escritórios de engenharia na atualidade.

Ao longo da década de 1970 Matlock /4/ e Reese & Cox /5/ e Diaz /6/ trabalharam
independentemente propondo o uso de uma viga sobre base elástica tomando por base as
equações propostas por Hetényi /7/ em 1936. Os primeiros propuseram uma solução em
diferenças finitas ao passo que uma matriz de rigidez completa foi proposta for Diaz.

Assim sendo, em 1973 o estado da arte previa o cálculo de fundações em estacas como
vigas sobre base elástica de comprimento finito ligadas à superestrutura.

A essa altura as plataformas metálicas offshore fixas já estavam começando a ganhar


grande porte. É importante aqui ressaltar que as forças ambientais nesse caso são pelo
menos da mesma ordem de grandeza do peso próprio da estrutura, pelo que a
consideração do comportamento não linear do solo já se fazia completamente necessária.

Em 1977 Bryant & Matlock /8/ publicaram um resumo de seus trabalhos desenvolvidos ao
longo da década de 70, descrevendo a interação solo estrutura de uma jaqueta com sua
fundação não linear. Neste trabalho considerou-se curvas de atrito axial ao longo da estaca
x deslocamento axial desta (vulgarmente conhecidas hoje como curvas T-Z), curvas de
resistência de ponta x deslocamento axial da ponta (curvas Q-Z) e curvas de pressão
lateral no solo x deslocamento lateral da estaca (curvas P-Y).

O estado da arte do cálculo de fundações em estacas, no meio da década de 70, passou a


levar em conta elementos de comprimento finito de viga sobre base elástica, com curvas
não lineares de solo representando a rigidez variável da base elástica, considerando ainda
os efeitos de segunda ordem da geometria deformada da estaca.

O único problema dessa solução parecia estar concentrada no fato dela abranger estacas
isoladas cujas interação se fazia apenas através da superestrutura à qual estavam ligadas
e não através do solo.

Quando foi dito acima que esse era o “estado da arte” dos anos 70 deveria ter sido feita
uma restrição dizendo tratar-se apenas do mercado offshore. Isso porque tal declaração
não faz justiça a desenvolvimentos paralelos realizados por um australiano de nome
Poulos, que desenvolveu estudos independentes propondo um método de análise de
estaqueamentos baseado nas equações do semi-espaço infinito desenvolvidas por Mindlin
em 1936 /9/.

Embora o método proposto por Poulos não tenha logrado fazer sucesso no mercado
offshore ainda assim reconhece-se aqui que ele tinha uma grande vantagem em relação
aos estudos baseados na análise estrutural com elementos de viga sobre base elástica,
qual seja, levar em conta a influência das pressões produzidas, via solo, por uma estaca
sobre as demais.

Por este mesmo motivo foi para os artigos de Poulos /10 e 11/ que Focht e Koch /12/
olharam quando desenvolveram um método para a avaliação de efeito de grupo entre
estacas próximas, que fez sucesso no mercado offshore.

Basicamente Poulos havia escrito um artigo parametrizado para o estudo de


deslocamentos na cabeça de uma estaca isolada /10/ e outro, com um grupo de estacas,
como base no qual se propõe a calcular como a força aplicada numa estaca se transfere
para as demais, produzindo deslocamentos nas mesmas /11/.

Neste artigo Focht e Koch /12/ introduziram no método de Poulos o comportamento não
linear do solo e um “amolecimento” do solo, através do achatamento das curvas, de modo
a obter no cálculo das estacas isoladas os deslocamentos majorados pelo efeito de grupo
transmitido pelo solo.
Encerrando esse resumo para chegar ao estado da arte do mercado offshore referente ao
cálculo de estaqueamentos de plataformas fixas em nossos dias (o mesmo de 30 anos
atrás) devemos citar a contribuição de O’Neill e Ghazzaly /13/ que generalizaram o método
proposto por Focht e Koch /12/ eliminando a necessidade de consultar as tabelas de
Poulos /10 e 11/, substituindo-as pelas próprias equações de Mindlin /9/.

Uma descrição completa desse método, englobando todos os elementos do “estado da


arte”, foi apresentado por Galgoul e Cronin em /14/. A programação correspondente foi
inserida no sistema SACS desenvolvido pela EDI e permitiu ao autor avaliar
cuidadosamente a sua eficiência.

Depois de algumas avaliações a experiência do autor mostrou que o método, conquanto


aplicável para efeito de grupo axial e lateral não tinha para o problema axial a mesma
precisão que para o lateral. Assim sendo passou a ser usado apenas para o cálculo de
efeito de grupo lateral. Isso não chegava a ser uma restrição pois o espaçamento entre
estacas normalmente é fixado de modo a não haver interação vertical entre as estacas.
3.0 – Análises de Plataformas Onde os Efeitos Dinâmicos Devem Ser Considerados

3.1 – Definição das Análises em Apreço

O dimensionamento de plataformas fixas engloba uma dezena de análises distintas em


várias das quais as ações dinâmicas devem ser consideradas, mas obviamente só aquelas
que dizem à condição “in situ” abrangem a verificação da fundação em estacas. A única
exceção é a análise de estabilidade sem estacas, uma condição temporária durante a
instalação das estacas, onde uma fundação direta (apoio nos “mud-mats” ou seja nas
sapatas provisórias) deve ser avaliada sob as ações de ondas.

Resumindo são quatro as análises que serão consideradas neste capítulo, quais sejam:

a) A análise dinâmica de ondas para condições de tormenta e operação (fundação


estaqueada com interação solo-estrutura);
b) A análise dinâmica de ondas para condições de fadiga (fundação estaqueada com
interação solo-estrutura);
c) A análise de terremoto (fundação estaqueada com interação solo-estrutura)
d) A análise de estabilidade sem estacas (fundação em mud-mats)

3.2 – Análise Dinâmica de Ondas

A forma como a análise dinâmica de ondas será realizada está diretamente associada aos
recursos disponíveis no sistema computacional em uso. Assim sendo a análise pode ser
realizada no domínio do tempo, uma análise tipo “time history” (modal ou não) ou no
domínio da freqüência (análise modal), sendo que nesta última a fundação é substituída
por estacas equivalentes ou por uma matriz de rigidez linearizada. Mesmo que seja
realizada no domínio do tempo ainda assim ela pode ser realizada com uma fundação
linearizada ou com uma fundação não linear cuja rigidez é atualizada passo a passo.

Em termos práticos a análise no domínio da freqüência é a mais comumente realizada pelo


que será esta a que será apresentada a seguir.

Antes que isso possa ser feito, contudo, é necessário explicar a linearização da fundação.
Essa é feita para cargas às quais a análise se destina. Urge ter em mente que quanto
maiores as ondas menos rígida a fundação se torna, por estar sujeita a maior plastificação
do solo. Assim sendo, em princípio seriam necessárias tantas fundações linearizadas
quanto são as ondas a serem consideradas. Na prática, contudo, adota-se uma estratégia
mais conservadora e trabalha-se com uma onda para a linearização a ser considerada nas
análises de operação e tormenta e outra para as ondas de fadiga.

Seja por exemplo a plataforma da figura 3 sujeita a ondas de tormenta de 15m e para a
qual se deseja calcular uma fundação linearizada equivalente.
Figura 3 – Plataforma fixa de ZAAP_A
O programa utilizado permite calcular a matriz condensada ou a estaca equivalente para a
média de vários carregamentos. Neste caso foram escolhidos os carregamentos de
tormenta (onda de 15m) relativos às direções diagonais resultantes de uma análise
preliminar sem efeitos dinâmicos. Além disso optou-se pelo cálculo de uma estaca
equivalente. O resultado final é dado a seguir:
PILE STUB DESIGN

INPUT PILEHEAD DEFLECTION .... 0.35000 CM

ROTATION ...... 0.0014240 RAD

OUTPUT PILEHEAD FORCE ....... 748.68 KN

MOMENT ...... 1739.51 KN-M

AXIAL FORCE ... 26944.281 KN

AXIAL DEFL .... 5.130 CM

STIFFNESS TERMS

AXIAL SPRING ................ 5252.3 KN/CM

TRANSLATIONAL SPRING ........ 9111.8 KN/CM

ROTATIONAL SPRING ........... 0.54339E+07 KN-M

ROT./TRANS COUPLING ......... -0.18208E+07 KN

TRANS/ROT COUPLING .......... -0.16068E+07 KN

STUB PROPERTIES

MEMBER LENGTH .............. 539.546 CM

AXIAL OFFSET ............... 81.687 CM

JOINT TO JOINT LENGTH ...... 457.858 CM

MOMENT OF INERTIA ..... 5964775.03 CM**4

AXIAL AREA ............ 141.73 CM**2

*************************** SACS SAMPLE CARD IMAGES ***************************


1 2 3 4 5 6 7 8
12345678901234567890123456789012345678901234567890123456789012345678901234567890

SECT PILSTUB PRI141.735964700.5964700.5964700. 10.0 10.0


GRUP STB PILSTUB
MEMBER2 10 10 STBSK
MEMBER OFFSETS 81.7
JOINT 10 0.0 0.0 0.0 0.0 0.0 0.0
JOINT 10 -457.9 111111

O modelo utilizado para a análise dinâmica de extração modal é fornecido na figura 4


abaixo.

As análises dinâmicas realizadas no domínio da freqüência podem ser tanto espectrais


como determinísticas correspondentes respectivamente a um estado de mar irregular ou
regular, mas em ambos os casos o primeiro passo é a obtenção dos modos de vibração da
estrutura.
Figura 4 – Modelo com estacas equivalentes para a extração modal
O próximo passo da análise, portanto, é a obtenção dos modos primeiros modos de
vibração da estrutura. Neste caso os primeiros 3 modos são fornecidos nas figuras 5 a 7.

Figura 5 – Primeiro modo de vibração

Figura 6 – Segundo modo de vibração


Figura 7 – Terceiro modo de vibração

A segunda parte da análise dinâmica, conhecida como a análise de resposta, investiga os


esforços dinâmicos adicionais a serem considerados na análise. Os esforços em apreço
são basicamente as cargas inerciais resultantes dos movimentos da plataforma.

A figura 8 abaixo apresenta um plot mostrando o cortante na base da estrutura onde são
fornecidos valores estáticos em azul e dinâmicos em branco. Como se pode observar
nesse caso, eles diferem muito pouco tendo em vista a grande distância entre o período da
onda e o período natural da estrutura.

Uma vez obtido o esforço total estático + dinâmico (forças inerciais) a análise global
estática é repetida para chegar aos esforços finais na estrutura e na fundação.
Figura 8 – Plot mostrando o cortante estático e dinâmico da força de onda

A sequência descrita acima é válida tanto para a análise in-situ considerando as condições
de operação e tormenta, como para a análise de fadiga, onde, em termos de fundação a
única diferença seria a altura de onda para a qual seria gerada a estaca equivalente.

3.3 – Análise Dinâmica de Terremoto

São previstos usualmente dois tipos de análises de terremoto: um para o terremoto comum
(strength level earthquake) e outro para o terremoto raro (rare level earthquake).

- Strength Level Earthquake

Para o primeiro a análise pouco difere da que foi feita para ondas, de modo que será
abordada apenas superficialmente. Trata-se de uma análise em que se espera que a
estrutura permaneça no regime linear elástico, pelo que a análise é feita com uma
fundação linearizada para uma estrutura submetida a peso próprio e cargas inerciais
referentes às acelerações correspondentes fornecidas por um espectro de resposta.
Embora a norma API-PR2A /15/ mencione as considerações relativas ao solo covibrante
(near field e free field) e diga que uma eventual liquefação do solo ou o deslizamento de
camadas devam ser investigadas, em termos práticos a indústria considera que o
terremoto afeta a estrutura e que esta transmite os esforços para a fundação. O principal
motivo para tanto está ligado à insuficiência do software disponível no mercado para lidar
com o problema adequadamente. Mais sobre isso será dito adiante.

Os principais passos para a análise do terremoto comum são resumidos a seguir:

a) Conhecida a intensidade do terremoto a ser considerado o primeiro passo é o de


determinar as forças correspondentes admitindo que o mesmo é 100% aplicado nas
direções horizontais ortogonais e mais 50% na vertical;

A aceleração é dada por um espectro de resposta como aquele apresenta a seguir na


figura 9.

Figura 9 – Espectro de resposta previsto na API-RP2A


b) Com base nessas forças (somadas ao peso próprio da estrutura) determina-se as
ações nas estacas, cujo comprimento equivalente é determinado para a análise a
seguir;
c) É realizada a seguir a análise estrutural considerando o peso próprio mais o
terremoto, findo o que são verificadas as tensões na estrutura e na fundação.

- Rare Level Earthquake

O terremoto raro é definido como sendo pelo menos 60% mais forte que o comum, mas
como sua real função é determinar o nível de ductilidade da estrutura segue que este deve
ser realizado considerando o comportamento não linear da estrutura (tanto geométrico
como físico).

Mais uma vez nos defrontamos aqui com as restrições dos softwares disponíveis, pelo que
a prática há muito admite tratar essa análise como uma análise de colapso progressivo no
qual o peso próprio é aplicado primeiramente e depois o terremoto progressivamente até
que a estrutura colapse. O valor do terremoto aplicado deve ser no mínimo igual a 1.6
vezes o “strength level earthquake”.

O modelo da fundação nesta análise não é mais a linearizada da análise anterior. Desta
feita o modelo é o mesmo considerado para a análise “in-situ” ou seja o da viga sobre base
elástica não linear.

Um exemplo da mesma estrutura acima depois de solicitada pelo terremoto raro é


apresentado na figura 10. Neste caso a estrutura resistiu com 5 vezes a carga do
terremoto comum, quando o exigido seria 1.6. Essa folga é usual pois raramente o
terremoto é mais severo para a estrutura que a onda de tormenta.
Figura 10 – Estrutura prestes a colapsar sob ação do terremoto raro (fator 5)

3.4 – Análise de Estabilidade sem Estacas

A análise de estabilidade sem estacas pode ser muito simples, como normalmente o é –
apenas uma verificação localizada da sapata provisória, mas pode ser também uma
análise de interação solo-estrutura onde o comportamento não linear da fundação e os
efeitos geométricos de 2ª ordem são absolutamente mandatórios. Isso se faz necessário
quanto há real perigo de tombamento da estrutura durante a cravação das estacas.

No exemplo apresentado a seguir os “mudmats” ou sapatas provisórias da trípoda


apresentada na figura 11 juntamente com a discretização das sapatas. Foram
consideradas, ainda, molas não lineares de solo em cada elemento da discretização (ver
figura 12).

Este modelo foi utilizado para a realização de análises de colapso progressivo nos quais
foram aplicados o peso próprio e crescentes valores das forças de onda e corrente até o
tombamento da estrutura. Obviamento o efeito de segunda ordem da estrutura à medida
em que estava se inclina teve que ser levado em conta. A configuração da estrutura pouca
antes do tombamento é apresentada na figura 13. Os deslocamentos em cm no topo da
jaqueta são dados na figura 14. Cabe observar que o tombamento se dá com 30cm, mas o
deslocamento com um fator de 1.5 é de apenas 5cm, portanto não há grandes
deformações envolvidas.

Figura 11 – Trípoda analisada - discretização das sapatas provisórias


Force per mudmat element

47

0
Settlement (cm)
-10 0 10 20

Figura 12 – Molas não lineares (36 por sapata)

LOAD STEP 188 LOAD FACTOR 1.76 BASE SHEAR 342.81 DEFL. FACTOR100.00

PLASTICITY

100.0

75.0

50.0

25.0

NONE

Z
Y
X
Figura 13 – Configuração da estrutura imediatamente antes do tombamento (deformada
exagerada) – com um fator de segurança de 1.76 em relação à onda de 3m de altura

DATE 17-JAN-2006 Flare Tripod - SPF9 - NO PILES - 3M WAVE

35.0

30.0

25.0

20.0
Y - DISPLACEMENT (CM)

15.0

10.0
JOINT 699

5.0

0.0

-5.0
0.0 50.0 100.0 150.0 200.0

LOAD STEP

Figura 14 – Gráfico de deslocamento no topo x passo de carga (fator 1 = onda de 3m)


4.0 – Uma Avaliação do Estado da Arte

Foi visto acima que o atual estado da arte para o cálculo de fundações em estacas se
baseia ainda, infelizmente, no modelo de uma viga sobre base elástica, que não retrata
devidamente o solo como parte do modelo. O efeito de grupo foi incorporado através de
um artifício, considerando as equações de Mindlin /9/, mas não a real interação.

Uma tese apresentada recentemente na UFF sobre a avaliação do atrito negativo em


estacas embebidas solo recalcável (ver /16/) procurou partir do modelo da viga sobre base
elástica utilizando também as equações de Mindlin, mas acabou provando que o método é
inadequado e que bons resultados só podem ser obtidos em modelos particulares, mas
não de forma geral. A figura 15 mostra a variação da força axial ao longo do tempo, num
exemplo bem sucedido de uma estaca vertical, à medida em que o solo recalca em
decorrência de um aterro.

De certa maneira é intuitivo que o caminho para a pesquisa é bem definido, ou seja, as
estacas podem continuar a ser modeladas como elementos de pórtico espacial e o solo
deve ser discretizado através de elementos sólidos que envolvem as estacas. O modelo
em elementos finitos deve ser igualmente finito com a sua continuidade representada por
elementos de contorno.

Neste sentido já há até alguns programas disponíveis no mercado como o PLAXIS /17/,
por exemplo, mas infelizmente não conseguiram assumir totalmente o seu lugar como
“estado da arte” porque falham por não representar, de modo sistemático, a não
linearidade do comportamento do solo, distinguindo adequadamente os diversos tipos do
mesmo. Assim sendo a restrição não está no modelo de elementos finitos e sim na
capacidade do próprio elemento utilizado de representar, de maneira geral, o
comportamento do solo.

A figura 16 abaixo mostra uma estação de metrô com estacas representadas por
elementos lineares, e o túnel do metrô representado por elementos de casca, à medida em
que o solo é representado por elementos sólidos.

Apenas a título de sugestão para aqueles que desejarem pesquisar nesta área, talvez uma
forma interessante de tratar o problema fosse continuar a manter o solo de comportamento
não linear como molas discretas no entorno do elemento de estaca à medida em que a
continuidade do solo fosse modelada como elementos linear elásticos sólidos.
Gráfico de Esforço Axial x Profundidade
Considerando o Adensamento do Solo no Tempo

500 700 900 1100 1300 1500 1700 1900


0
T=0
T = 1/30
T = 2/30
T = 3/30
T = 4/30
T = 5/30
T = 6/30
T = 7/30
T = 8/30
-5 T = 9/30
T = 10/30
T = 11/30
T = 12/30
T = 13/30
T = 14/30
T = 15/30
T = 16/30
T = 17/30
T = 18/30
-10 T = 19/30
T = 20/30
T = 21/30
Metros

T = 22/30
T = 23/30
T = 24/30
T = 25/30
T = 26/30
T = 27/30
T = 28/30
-15 T = 29/30
T = 30/30

-20

-25
kN

Figura 15 - Variação, até o tempo infinito, da solicitação axial de uma estaca isolada ao
longo de sua penetração
Figura 16 – Exemplo de utilização do programa PLAXIS
BIBLIOGRAFIA

/1/ Schiel, F (1960): Statik der Pfahlwerke, 1. Auflage Springer-Verlag, Berlin, Alemanha

/2/ Davisson M. T.; Robinson K. E. (1965): Bending and Bucling of Partially Embedded
Piles, Proceedings of the 6th International Conference in Soil Mechanics and Foundation
Engineering, Vol. 2.

/3/ Marcondes, M. R.; Galgoul, N. S.(1983): Simple Modeling Techniques of Piled


Foundations, IV International Symposium on Offshore Engineering, Rio de Janeiro, Brasil;

/4/ Matlock, H.(1970): Correlation for Design of Laterally Loaded Piles in Soft Clay, 2nd OTC
1204, pag. I-577 – I-594, Houston, USA;

/5/ Reese, L. C.; Cox, W. R.(1974): Analysis of Laterally Loaded Piles in Sand, 6th OTC
2080, pag. 473-483, Houson, USA;

/6/ Diaz, B. E.(1973): Determination of Forces Displacements and Soil Reactions of a


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/8/ Bryant, L. M.; Matlock, H.(1977): Three-Dimensional Analysis of Framed Structures with
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/10/ Poulos, H. G.(1971): Behavior of Laterally Loaded Piles: I-Single Piles, Journal of the
Soil Mechanics and Foundation Division, Proceedings of the American Society of Civil
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/11/ Poulos, H. G.(1971): Behavior of Laterally Loaded Piles: II-Pile Groups, Journal of the
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/12/ Focht, J. A. Jr., Koch, K. J.(1973): Rational Analysis of the Lateral Performance of
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/13/ O’Neill, M. W. ; Ghazzaly, D. I.(1977): Analysis of Three-Dimensional Pile Groups with


Nonlinear Soil Response and Pile-Soil-Pile Interaction, 9th Offshore Technology
Conference, Houston, Texas, OTC 2838, pag. 245-256, USA;

/14/ Galgoul, N. S.; Cronin, D.(1981): Nonlinear Analysis of Pile Foundations Considering
Group Effect, III International Symposium on Offshore Engineering, Rio de Janeiro, Brasil;
/15/ API-RP2A – Recommended Practice for Planning, Designing and Constructing Fixed
Offshore Platforms, American Petroleum Institute, 21st Edition, USA;

/16/ Alves dos Santos, A. H.; Galgoul, N. S.(2010): Estudos Computacionais para Análise
de Fundações Profundas Considerando o Atrito Negativo, Engenharia Estudo e Pesquisa,
Vol. 10, Nr. 2, jul/dez, pag. 62-69, Niterói, Brasil;

/17/ PLAXIS, http://www.plaxis.nl/shop/113/info//PLAXIS+3D+2011/