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Referência

BADINTER, Elisabeth. XY: sobre a identidade masculina. Tradução de Maria Ignez


Duque Estrada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.

Capítulo/Seção: PRÓLOGO – O ENIGMA MASCULINO: O GRANDE X – QUE É


UM HOMEM?

[…] Pouco inclinados a nos questionar sobre uma realidade inconstante,


queremos crer num princípio universal e permanente da masculinidade
(macheza) que desafie o tempo, o espaço e as fases da vida. Esse
princípio, nós o encontramos na ordem da natureza, que exibe a diferença
dos sexos. Logo que a criança nasce, o sexo lhe é conferido. E, se alguma
dúvida permanece, a genética explicará a falha da anatomia. (BADINTER,
1993, p. 03).

[…] A ordem “seja homem”, tão frequentemente ouvida, implica que isso não
é tão evidente e que a virilidade não é, talvez, tão natural quanto se
pretende. […] a posse de um cromossomo Y ou de órgãos sexuais
masculinos não basta para definir o macho humano. Ser homem implica um
trabalho, um esforço que não parece ser exigido das mulheres. […]
(BADINTER, 1993, p. 03).

“[…] O próprio homem e aqueles que o cercam têm tão pouca confiança na sua
identidade sexual que lhe exigem provas de sua virilidade. ‘Prove que você é
homem’ é o desafio que o ser masculino enfrenta permanentemente. [...]”
(BADINTER, 1993, p. 04),

A confusão chega ao cúmulo pelo fato de que a linguagem comum se refere


com frequência ao verdadeiro homem para designar o homem viril. Isto
significa que certos seres humanos só têm a aparência de homens mas são
falsos homens? Há quem se queixe hoje da ausência de feminilidade nas
mulheres, mas raramente se duvida da identidade delas. Ao contrário, são
com frequência os próprios homens que se distinguem entre si pelo rótulo
de qualidade: verdadeiro. E são eles que se interrogam secretamente para
saber se merecem este atributo. (BADINTER, 1993, p. 04, grifos da autora).

[…] São os teóricos das ciências humanas nos Estados Unidos que
inauguram esse, questionamento sobre o papel masculino ideal, fonte de
alienação para os homens e de desentendimento com as mulheres. A
década de 1970, que vê nascer os primeiros trabalhos científicos sobre a
masculinidade, tem o tom da paixão que sempre acompanha as denúncias.
Há uma espécie de alegria excessiva em questionar a norma e mostrar
todas as contradições a que ela submete o macho humano. Mas ao prazer
da denúncia e da destruição do modelo sucedeu, nos anos 80, um período
de incerteza carregada de angústia. Mais do que nunca o homem é um
problema a ser resolvido, e não algo dado. […] aquilo que constitui a sua
essência, a virilidade, tem sua unidade questionada. […] (BADINTER, 1993,
p. 05).

[…] Ao pôr fim à distinção entre os papéis e firmar pé sistematicamente em


todos os domínios antes reservados aos homens (BADINTER, 1986 citado
por BADINTER, 1993, p. 06), as mulheres fizeram evaporar-se a
característica universal masculina: a superioridade do homem sobre a
mulher. Desde o surgimento do patriarcado, o homem sempre se definiu
como ser humano privilegiado, dotado de alguma coisa a mais, ignorada
pelas mulheres. Ele se julga mais forte, mais inteligente, mais corajoso [...]
(BADINTER, 1993, p. 06, grifos da autora).

Capítulo/Seção: QUANDO O HOMEM ERA HOMEM

“[…] Durante muito tempo, era lugar comum pensar que as mulheres tinham os
mesmos órgãos genitais que os homens, com a única diferença de que, os dela
ficavam no interior do corpo e não no exterior. […]” (BADINTER, 1993, p. 08).

Como observa Thomas Laqueur, o sexo ou o corpo, antes do Século das


Luzes, eram vistos como epifenômenos, enquanto o gênero, que
consideramos uma categoria cultural, era o dado primeiro e primordial. Ser
homem ou mulher era antes de tudo uma hierarquia, um lugar na sociedade,
um papel cultural, e não um ser biologicamente oposto a outro. […] O fato
de que as diferenças entre os sexos sejam de grau e não de natureza não
impede que a hierarquia permaneça. A mulher é medida segundo o padrão
da perfeição masculina. Inversa ao homem, ela é, portanto, menos perfeita.
(BADINTER, 1993, p. 08).

[…] novas descobertas biológicas. Da diferença de grau passa-se à


diferença de natureza. Assim, em 1803, Jacques-Louis Moreau argumenta
com firmeza contra Galeno. Não só os sexos são diferentes, como o são em
cada aspecto do corpo e da alma, portanto física e moralmente (LAQUEUR ,
1990 citado por BADINTER, 1993, p. 09). […] (BADINTER, 1993, p. 08-09).

[…] A heterogeneidade dos sexos comanda destinos e direitos diferentes.


Homens, e mulheres evoluem em dois mundos distintos e nunca se
encontram fora do período da reprodução. Fortalecida com seu poder de
gerar, mulher reina como senhora absoluta no lar, orienta a educação dos
filhos e encarna sem contestação a lei moral que decide sobre os bons
costumes. É do homem o resto do mundo. Incumbido da produção, da
criação e da política, a esfera pública é seu elemento natural. (BADINTER,
1993, p. 09).

Embora se recuse a admiti-lo, o homem continua sendo o critério corn o


qual se compara a mulher. Ele é o Um, legível, transparente, familiar. A
mulher é o Outro, estrangeiro e incompreensível. (MAUGUE, 1987 citador
por BADINTER, 1993, p. 09). Afinal, seja qual for o modelo imaginado para
pensar os sexos – semelhança ou diferença – , o homem se apresenta
sempre como o exemplar mais bem-acabado da humanidade, o absoluto a
partir do qual a mulher se situa. (BADINTER, 1993, p. 09).

A novidade introduzida pelos men’s studies, após os women’s studies, está


justamente na vontade proclamada de romper com esse esquema milenar.
[…] Michael Kimmel deu destaque à tradicional “invisibilidade” do gênero
masculino, que tanto contribuiu para sua identificação com o humano. É
mais que comum, diz ele “tratarmos os homens como se não tivessem
gênero, como se sua experiência pessoal do gênero não tivesse
importância”. (KIMMEL & MESSNER, 1989 citado por BADINTER, 1993, p.
10). [...]. (BADINTER, 1993, p. 10, grifos da autora).
A história das sociedades patriarcais prova que são sempre as mulheres, e
não os homens, que suscitam os grandes questionamentos. Isto se explica
facilmente pelo status privilegiado que têm os homens neste tipo de
sociedade. Mas as grandes crises da masculinidade não são apenas
complicações do poder. Como veremos, a psicologia traz, uma explicação
essencial para que as compreendamos. Ao contrário do que diz a ideologia
do patriarcado, os homens não são os primeiros referenciais da
humanidade, e sim as mulheres. É em relação a elas e contra elas que eles
se definem. Pelo menos até hoje. […] (BADINTER, 1993, p. 11, grifo da
autora)

Capítulo/Seção: AS CRISES ANTERIORES DA MASCULINIDADE – A crise da


masculinidade nos séculos XVII e XVIII na França e na Inglaterra

“[…] O preciosismo francês teve seu apogeu entre 1650 e 1660. Nasceu como
reação à grosseria, dos homens da corte de Henrique IV e dos da Fronda 1 É a
primeira expressão do feminismo na França e na vizinha Grã-Bretanha. [...]”.
(BADINTER, 1993, p. 12).

A preciosa é uma mulher emancipada, que propõe soluções feministas ao


seu desejo de emancipação e inverte totalmente os valores sociais
tradicionais. Milita por um novo ideal de mulher, que leve em conta a
possibilidade da ascensão social e o direito à dignidade. Reclama o direito
ao conhecimento e ataca a pedra angular da sociedade falocrática: o
casamento. (MONGRÉDIEN, 1939 citado por BADINTER, 1993, p. 12). […]
(BADINTER, 1993, p. 12).

Curiosamente, o debate sobre a identidade masculina foi mais explícito na


Inglaterra do que na França, como se a obsessão da virilidade já fustigasse
mais os ingleses. É verdade que as feministas inglesas faziam exigências
diferentes das francesas- Além da liberdade, elas exigiam total igualdade
sexual […] (BADINTER, 1993, p. 13).

“O significado do masculino é objeto de debates. As mulheres não se contentam em


afirmar a igualdade de desejos e direitos: dizem também que querem homens mais
suaves e mais femininos. [...]” (BADINTER, 1993, p. 13).

“[…] O ‘novo homem’ da Restauração inglesa surge como um invertido, tão fútil,
mesquinho e encantador quanto uma mulher. Tern-se compaixão das mulheres por
serem abandonadas pelos hornens, e culpa-se a urbanização galopante. [...]”
(BADINTER, 1993, p. 14).

1 “A Fronda foi uma sublevação contra impostos determinados pelo governo do cardeal Mazarin,
durante a minoridade de Luís XIV. Ela se estendeu de Paris às províncias entre 1648 e 1652, mas
fracassou.” (BADINTER, 1993, p. 12)
Na França, a feminização dos costumes e dos homens não provocou as
mesmas reações. O Século das Luzes representa um primeiro corte na
história da virilidade. É o período mais feminista da história francesa, antes,
da época contemporânea. Por um lado, os valores viris se esmaecem, ou
pelo, menos não são mais ostentados. A guerra não tem mais a importância
e o status de outrora. A caça torna-se uma distração. Os jovens fidalgos
passam mais tempo no salão ou na alcova das mulheres do que
exercitando-se nos quartéis. Por outro lado, os valores femininos se impõem
no mundo da aristocracia e da alta burguesia. A delicadeza das palavras e
das atitudes suplanta as marcas tradicionais da virilidade. Pode-se dizer
que, nas classes dominantes, o unissexismo derrota o dualismo oposicional
que habitualmente caracteriza patriarcado. (BADINTER, 1993, p. 14, grifo
da autora).

“A Revolução 1789 pôs termo a essa evolução. Quando as mulheres reivindicaram


publicamente seus direitos de cidadãs, a Convenção, por unanimidade, os recusou.
[...]”. (CONDORCET, PRUDHOMME, GUYOMAR,…, 1790-1793 citado por
BADINTER, 1991 em BADINTER, 1993, p. 14).

[…] Fora do lar, as mulheres são perigosas para a ordem pública. São
exortadas a não se misturar com os homens e lhes é proibida a mais
insignificante função extradoméstica ou extramaternal. Reforçado pelo
Código Napoleônico e ratificado pela ideologia do século XIX, o dualismo
oposicional perdurou por mais de cem anos, até o aparecimento de uma
nova crise da masculinidade, mais extensa e mais profunda que a
precedente. (BADINTER, 1993, p. 15).

Capítulo/Seção: A crise da masculinidade na virada dos séculos XIX e XX

“Essa crise concerne tanto à Europa como aos Estados Unidos da América. Todos
esses países atravessam perturbações econômicas e sociais semelhantes,
decorrentes das novas exigências da industrialização e da democracia. […]”.
(BADINTER, 1993, p. 15).

“[…] No espaço de algumas gerações, 1871-1914, surge um novo tipo de mulher,


ameaçando as fronteiras sexuais impostas. Graças à ideologia republicana, a
educação das meninas torna-se realidade. [...]”. (BADINTER, 1993, p. 15).

“[…] De alto a baixo na escala social, eles se sentem ameaçados em sua identidade
por essa nova criatura que quer agir como eles, ser como eles, a ponto de se
perguntarem se não serão obrigados a ‘desempenhar tarefas femininas, ou até
mesmo – horror supremo – a ser mulheres’!”. (BADINTER, 1993, p. 16).
“[…] Como observa Annelise Maugue com exatidão, os homens têm medo. [...]”.
(BADINTER, 1993, p. 16).

A angústia dos homens diante da nova Eva tem outras fontes que a
confortam. Cada vez mais numerosos nas fábricas e em tarefas mecânicas
e repetitivas, ou na administração de rotinas monôtonas, os homens não
mais encontram no trabalho o que possa realçar suas qualidades
tradicionais. Nem força, nem iniciativa, nem imaginação são mais
necessárias para se ganhar a vida. […] (BADINTER, 1993, p. 16).

“[…] A crise da masculinidade está no auge. A guerra, porém, vai interromper


momentaneamente a angústia masculina. Reencontrando seu papel tradicional de
guerreiros [...]”. (BADINTER, 1993, p. 16-17).

[…] O conceito de bissexualidade, introduzido por Freud e retomado por


Weininger, obriga uns e outros a levar em conta sua parte irredutível de
feminilidade. Isso perturba grande parte da inteligentsia masculina, que
compreende que a virilidade nunca estará adquirida para sempre.
(BADINTER, 1993, p. 18, grifo da autora).

“[…] O fim do século XIX, comenta J. Le Rider, caracteriza-se por uma


recrudescência de obras difamatórias para o sexo feminino. [...]”. (BADINTER, 1993,
p. 18).

Os remédios propostos variam em tudo. A maioria dos homens se declara, a


exemplo de Nietzsche e Weininger, partidários da volta de uma polaridade
sadia dos papéis sexuais. Para que os homens reencontrem sua virilidade,
é preciso primeiro que as mulheres, voltem ao seu lugar natural. […].
(BADINTER, 1993, p. 18).

Como na Europa, esta [nos EUA] mudança econômica [a industrialização]


fez-se acompanhar de uma perturbação na vida familiar e nos valores. Ela
acentuava a angústia dos homens. Obrigados a trabalhar cada vez mais
longe do lar, eles tinham de abandonar a educação dos filhos à inteira
responsabilidade da esposa. A paternidade tornou-se uma “instituição
dominical” (FILENE, 1986 citado por BADINTER, 1993, p. 20), e a nova
virilidade foi identificada com o sucesso simbolizado pelo dinheiro. […].
(BADINTER, 1993, p. 20).

Ao contrário de muitos europeus, os americanos se preocuparam menos


com as mulheres do que com a feminização da cultura. (KIMMEL, 1987
citado por BADINTER, 1993, p. 21). Alertam-se os pais para o perigo de
criar os meninos com mimos excessivos, admoestam-se as mães que
sabotam a virilidade dos filhos, quer dizer, a sua vitalidade. Exalta-se a
separação dos sexos e das ocupações. Futebol e beisebol tornam-se muito
populares […]. (BADINTER, 1993, p. 21).
[…] O herói dos americanos é Theodore Roosevelt […] porque ele encarna
os valores viris tradicionais. Conclamando os americanos a recuperarem o
prazer do esforço e da coragem, exaltando a antiga distinção dos papéis
sexuais e insistindo na sagrada missão materna das americanas, o
presidente traz um bálsamo para as feridas masculinas. Acontece que a
crise psíquica dos homens não fica resolvida com isso. Na véspera da
Primeira Guerra Mundial, eles ainda não têm resposta para os dilemas da
virilidade moderna. Como sublimaçôes fantasmáticas, surgem novos heróis
na literatura. Faz-se reviver o Oeste selvagem e inventa-se a figura
emblemática do caubói, homem viril por excelência […] (BADINTER, 1993,
p. 21-22).

“Enfim, a crise da masculinidade, que vicejou no início do século, foi


momentaneamente resolvida pela guerra. […] Mas a guerra apenas mascarou os
problemas […].” (BADINTER, 1993, p. 22).

[…] Desde o cataclisma da Segunda Guerra Mundial, quando a


hipervirilidade se mostrou em toda a sua patologia, a guerra não parece
mais ser o remédio para o enfraquecimento da masculinidade. Eis-nos de
novo confrontados com a questão do homem […]. (BADINTER, 1993, p. 22).

Capítulo/Seção: A POLÊMICA ATUAL: O HOMEM É PREDETERMINADO OU


INDETERMINADO?

A masculinidade é um dado biológico ou uma construção ideológica? A


questão opõe os adeptos do determinismo biológico aos culturalistas, que
se chamam hoje, nos Estados Unidos, “construtivistas”. […] é também o
debate que opõe com amargura duas correntes feministas contemporâneas,
cada qual pretendendo-se fundadora da igualdade dos sexos: uma com
base no dualismo absoluto dos dois gêneros, a outra, na semelhança entre
os sexos e na infinidade dos gêneros humanos. (BADINTER, 1993, p. 23).

Capítulo/Seção: Os diferencialistas, ou o eterno masculino

Sob esse termo devem incluir-se todos os que pensam que a irredutível
diferença entre os sexos é a última ratio de seus respectivos destinos e de
suas relações mútuas. É a biologia que define, em última instância, a
essência do masculino e do feminino. […] eles pensam que nossos
comportamentos são ditados pela evolução e a necessidade de adaptação.
(BADINTER, 1993, p. 23, grifos da autora).

[…] Do número de óvulos e espermatozóides, extrapola-se para as


características presumivelmente inatas de homens e mulheres. As mulheres
são declaradas por natureza “tímidas, difíceis, minuciosas”. Os homens,
“inconstantes, vão para a cama com qualquer uma”. (BLEIER, ???? citado
por BADINTER, 1993, p. 24). […] a competição inevitável dos machos pela
posse d0 potencial reprodutivo limitado das fêmeas! […]. E é esta
agressividade masculina hereditária que dá as bases biológicas da
dominação do macho sobre a fêmea, da hierarquia e da competitividade
entre os homens, e também as bases da guerra. (BLEIER, ???? citado por
BADINTER, 1993, p. 24). (BADINTER, 1993, p. 24).
[…] tratar das feministas diferenciaiistas, que também recorrem ao
determinismo biológico para definir a mulher e o homem. Embora seus
objetivos sejam opostos, essas duas correntes de pensamento
compartiiham a mesma crença na existência de uma essência sexual
imutável. […] (BADINTER, 1993, p. 24).

O diferencialismo feminista nasceu no final da década de 1970, das


decepções causadas pelo feminismo universalista, amplamente dominante
desde Simone de Beauvoir, que preconizava uma política de mixagem com
base numa filosofia da semelhança. Beauvoir foi censurada por não ter
resolvido os problemas essenciais. […]. (BADINTER, 1993, p. 24-25).

As diferencialistas […] recolocaram a ênfase nas diferenças corporais e,


mais recentemente, no inconsciente especificamente feminino para
reencontrar a essência feminina. […] Com toda a naturalidade, associa-se a
maternidade à honra. […] Nela está o verdadeiro destino da mulher, a
condição de seu poder, de sua felicidade e a promessa de regeneração do
mundo tão maltratado pelos homens. As feministas diferencialistas
preconizam a separação dos sexos e encorajam as mulheres a privilegiar as
relações entre si. […] (BADINTER, 1993, p. 25).

“[…] Se e as mulheres são naturalmente ‘maternais’ — quer dizer, doces, pacíficas,


calorosas — conclui-se de uma vez por todas que elas são o futuro radioso da
humanidade. [...]”. (BADINTER, 1993, p. 26).

[…] Para elas [ecofeministas], a mulher encarna a natureza e a vida,


enquanto o homem é afastado para o lado da cultura e da morte. […]
Evocou-se o poder do corpo médico masculino sobre o ventre da mulher e o
espectro da máquina de maternidade artificial, última astúcia do tirano
macho para eliminar sua inimiga. Preocupadas em se submeter à natureza,
algumas dessas feministas, antigas militantes da contracepçäo e, do aborto,
colocam em discussão hoje a legitimidade dessas posições. Contrárias a
tudo que ameaça a vida, as ecofeministas se dizem comprometidas com o
meio ambiente e com a cadeia dos seres vivos em seu conjunto. Hostis à
idéia do animal-maquina do século XVII, elas vêem o ser humano como um
animal entre outros. Muitas vão além da simples proclamação de simpatia
pela animalidade sofredora, enfatizando os laços entre a mulher e o
animal... (BROWN, 1974 citado por BADINTER, 1993, p. 26) contra o
homem. […] a meta é liquidar o patriarcado (explorador da natureza) […].
(BADINTER, 1993, p. 26).

[…] A diferença entre a mulher e o animal é apenas de grau, enquanto entre


a mulher e o homem há uma diferença de natureza. Reencontra-se aqui o
mesmo discurso dos sociobiólogos, que são capazes de comparar uma
abelha e uma mulher, mas nunca um homem e uma mulher. (BADINTER,
1993, p. 27).

Fundamentando-se ambos no princípio do determinismo biológico,


sociobiologia e feminismo diferencialista chegam a um resultado similar: um
é sempre valorizado à custa do outro. Sob esta óptica, homens e mulheres
só se encontram no momento da inseminação. O essencialismo desemboca
necessariamente na separação e, pior ainda, na opressão. Ele só pode
oferecer uma perspectiva limitada da natureza e das potencialidades
humanas. […] BADINTER, 1993, p. 27).
Capítulo/Seção: Os construtivistas, ou a masculinidade estilhaçada

“Atualmente, os especialistas dos men’ studies concordam na rejeição à idéia de


uma masculinidade única. Formados em ciências humanas, eles contestam o papel
principal da biologia e dedicam-se a demonstrar a plasticidade humana. [...]”.
(BADINTER, 1993, p. 27, grifos da autora).

A seu ver, a masculinidade não é uma essência, mas uma ideologia que
tende a justificar a dominação masculina. Suas formas mudam (que há em
comum entre o guerreiro da Idade Média e o sustentáculo da família da
década de 1960?) e só subsistiu o poder do homem sobre a mulher.
(BADINTER, 1993, p. 27).

“Já faz quase meio século que a antropóloga norte-americana Margaret Mead abriu
caminho à idéia da multiplicidade das masculinidades. [...]”. (BADINTER, 1993, p.
28).

“Trabalhos mais recentes mostram que a diversidade masculina persiste ainda de


um extremo a outro do mundo, a despeito da rápida ocidentalização. […]”.
(BADINTER, 1993, p. 28).

[…] Que acontece com o mito da agressividade natural dos homens quando
nos debruçamos sobre a pequena sociedade Semai da Malásia central, uma
das populações mais pacíficas do mundo? Não se pode deixar de colocar a
questão da “natureza” e da origem da masculinidade. […]. (BADINTER,
1993, p. 28).

Não há necessidade de correr mundo para constatar a multiplicidade dos


modelos masculinos. Nossa sociedade é um bom observatório para essa
diversidade. A masculinidade difere segundo a época, mas também
segundo a classes social2, a raça3 e a idade4 do homem. (BADINTER, 1993,
p. 28).

“Compreende-se que o célebre enunciado de Simone de Beauvoir se aplique


também ao homem: o homem não nasce homem, ele se torna homem. [...]”.
(BADINTER, 1993, p. 29).

Se a masculinidade se ensina e se constrói, não há dúvida de que ela pode


mudar. No século XVIII, um homem digno deste nome podia chorar em
público e ter vertigens; no final do século XIX, não o pode mais, sob pena de

2 ASTRACHAN, 1986 citado por BADINTER, 1993, p. 28.


3 STAPLES, ???? em KIMMEL & MESSNER, 1989 citado por BADINTER, 1993, p. 28.
4 BADINTER, 1993, segunda parte, cap. 2.
comprometer sua dignidade masculina. O que se construiu pode, portanto,
ser demolido para ser novamente construído. (BADINTER, 1993, p. 29).

[...] Trata-se de acabar definitivamente com o dualismo dos gêneros 5 e


mesmo com o dualismo dos sexos6, que não são mais do que oposições
ideológicas, sempre visando à opressão de um pelo outro. Por esse atalho,
eles pensam livrar-se de uma vez por todas dos problemas da identidade
sexual – inclusive os problemas dos transexuais 7 –, e instaurar um regime
de liberdade. (BADINTER, 1993, p. 29).

Capítulo/Seção: PARTE I – CONSTRUIR UM MACHO (Y) – A IDENTIDADE


MASCULINA – A problemática da identidade sexual

“A partir dos trabalhos de Erik Erikson 8, sabemos que a aquisição de uma identidade
(social ou psicológica) é um processo extremamente complexo, que comporta uma
relação positiva de inclusão e uma relação negativa de exclusão. [...]” (BADINTER,
1993, p. 33).

Já para Freud a identificação era a chave do conceito de identidade,


múltipla por definição9. Erikson lhe acrescenta o conceito de diferenciação.
[…] J. Money e A. Ehrhardt insistem na importância do código negativo. Não
apenas ele não é' “vazio”, como serve ao mesmo tempo de modelo do que
não se deve fazer e do que se pode esperar do outro sexo. […] Isto prova a
importância do reconhecimento do “dualismo dos gêneros” para que a
criança tenha um claro sentimento de identidade. BADINTER, 1993, p. 33-
34).

Capítulo/Seção: As dificuldades da identidade masculina

“[…] Da concepção de um XY até a masculinidade adulta, o caminho é cheio de


emboscadas. […] Desde 1959, a psicóloga norte-americana Ruth Hartley
compreendeu que o menininho se define em primeiro lugar negativamente […].”
(BADINTER, 1993, p. 34).

A outra dificuldade inerente à masculinidade do menino é que ela é menos


estável e menos precoce que a feminidade da menina. Durante muito tempo
acreditou-se que era um estado primário e natural. Na verdade, a
masculinidade é secundária, adquirida e frágil […]. (BADINTER, 1993, p.
35).

5 KESSLER & MCKENNA, 1978 e DEVOR, 1989 citadas por BADINTER, 1993, p, 29.
6 BUTLER, 1990 citada por BADINTER, 1993, p. 29.
7 YUDKIN, 1978 citada por BADINTER, 1993, p. 29.
8 ERIKSON, 1950 e 1959 reed. em 1980 citado por BADINTER, 1993, p. 33.
9 FREUD, 1986 citado por BADINTER, 1993, p. 33.
“Depois que foram salientadas as dificuldades da identidade masculina, ninguém
mais sustenta que o homem é o sexo forte. Ao contrário, ele é definido como o sexo
fraco, portador de numerosas fragilidades, físicas e psíquicas. [...]”. BADINTER,
1993, p. 35).

Várias hipóteses são levantadas por Léon Eisenberg para explicar a


predominância masculina nos distúrbios psiquiátricos mais comuns na
criança. Primeiro, a vulnerabilidade genética: possuindo um único
cromossomo X, o homem acusa todos os efeitos nefastos de qualquer aleIo
patológico neste cromossomo. Por outro lado, graças ao cromossomo Y, só
o feto masculino fica exposto à secreção da substância masculinizante da
testosterona. Mais ainda, os psicanalistas sabem muito bem que as
perversões são essencialmente masculinas. O fetichismo, o travestismo ou
o transexualismo atingem de modo muito predominante os homens. […].
(BADINTER, 1993, p. 35-36).

Capítulo/Seção: CAPÍTULO I – Y OU O DUALISMO SEXUAL

“A evolução determinou os dois sexos da espécie humana pela diferenciação do 23°


par de seus cromossomos: XX na mulher, XY no homem. […] É portanto, o macho
que engendra o macho.” (BADINTER, 1993, p. 37).

“Embora Y simbolize a diferença sexual masculina, ele sozinho, sua presença,


necessária para ‘fazer’ um homem, está longe de ser suficiente para definir a
identidade masculina.” (BADINTER, 1993, p. 37).

Capítulo/Seção: O DESENVOLVIMENTO PRÉ-NATAL DE XY: “UMA LUTA DE


TODOS OS INSTANTES”

“[…] Veremos que o desenvolvimento do embrião XY é mais complexo e, portanto,


mais aleatório que o desenvolvimento de XX.” (BADINTER, 1993, p. 38).

O macho XY possui todos os genes presentes na fêmea XX e além disso


herda os genes do cromossomo Y10. Num certo sentido, o macho é a fêmea
mais alguma coisa. Mas isto significa também que o sexo feminino é o sexo
de base em todos os mamíferos. […] O único papel do Y é desviar a
tendência espontânea da gônada embrionária indiferenciada a formar um
ovário e forçá-la a produzir um testículo. As diferentes células do testículo
começam a desempenhar suas funções especializadas, das quais a mais
importante é a produção de um hormônio masculino: a testosterona. Aliás,
os fetos XX, quando expostos constantemente a testesterona injetada,

10 MONEY & EHRHARDT, 1982 citados por BADINTER, 1993, p. 38.


desenvolvem todo o conjunto de características masculinas, inclusive o
membro e o trato genital, a despeito da presença de ovários no lugar de
testículos. Em troca, se o gene de Y determinante do testículo é suprimido
por mutação, ou na ausência da testosterona, as células XY organizam
ovários no
lugar de testículos e o feto se desenvolve como fêmea. (BADINTER, 1993,
p. 38-39, grifo da autora).

Tudo isso faz pensar que há limites para o modelo alternativo “macho ou
fêmea”. Além da semelhança anatômica entre os embriões até a sexta
semana e do fato de homem e mulher terem em comum os mesmos
hormônios sexuais — só variando as quantidades —, as anomalias
genéticas produzem indivíduos nos quais o sexo e o gênero são muito
difíceis de definir. Essas ambivalências ou ambiguidades dão margem a
todas as interpretações. […]. (BADINTER, 1993, p. 40).

Capítulo/Seção: O OLHAR DOS PAIS

“O olhar destes [dos pais] e a convicção que têm quanto ao sexo de seu filho são
determinantes para o desenvolvimento da sua identidade sexual. Este é mesmo o
fator mais importante [...]”. (BADINTER, 1993, p. 40).

“Todas as pesquisas mostram a extrema importância do olhar daqueles que cercam


o bebê. Mal ele nasce, nós lhe ensinamos pelo gesto, pela voz, pela escolha dos
brinquedos e das roupas a que sexo pertence. [...]”. (BADINTER, 1993, p. 41).

Quando os órgãos genitais externos são ambíguos desde e nascimento, os


pais, hoje em dia, devem protelar o registro civil até que sejam feitos
exames mais cempleto. Se a criança é XX, o tratamento cirúrgico pode
começar logo, mas se ela é XY, deve-se esperar. Os exames requeridos
para o diagnóstico podem levar vários meses. Os médicos pedem
insistentemente que os pais tratem a criança como se ela fosse de um
gênero neutro, e que não cedam à irresistível tendência de lhe atribuir um
sexo, para não terem de mudar de comportamento após a descoberta de
um eventual erro. Mas a experiência mostra que, mesmo que os pais
possam, como na França, escolher um nome neutro, como Dominique ou
Claude, eles não aguentam suportar por muito tempo a incerteza. O mesmo
acontece, aliás, com a equipe médica responsável pela criança. Finalmente,
a criança de sexo ambíguo será com muita frequência, do sexo escolhido
por seus pais. (BADINTER, 1993, p. 41).

“O corpo é a fonte de uma identidade primária e o sexo uma zona de investimento


desde cedo privilegiada, origem mais longínqua da identidade sexuada. [...]”.
(BADINTER, 1993, p. 42).

O que leva esses pequenos machos a sustentar, contra toda a evidência


anatômica, que são fêmeas? Segundo Stoller, parece ser uma identificação
excessiva com a mãe, em vista da incapacidade desta de permitir ao filho
separar-se do seu corpo. Segurando-o junto a si durante o dia inteiro, a mãe
provoca uma confusão nos limites do ego entre ela e o filho. Essa extrema
simbiose, que se prolonga anos a fio, anula todas as tensões, todos os
conflitos necessários ao desenvolvimento psicossexual, como a angústia da
castração, as alucinações fálicas ou reações neuróticas de defesa.
Psicóticos, insubmissos diante de qualquer tratamento psicanalítico, ou
“curiosos erros da natureza”, os transexuais adultos reivindicam a mudança
de sexo para ficar em paz consigo mesmos. (BADINTER, 1993, p. 42).

“[…] Em caso de anomalia, qual dos quatro sexos (genético, gonádico, corporal ou
psíquico) define, com prioridade, a pessoa humana? Atualmente, reina a maior
confusão. [...]”. (BADINTER, 1993, p. 43).

“Falta saber se, fora do domínio da competição esportiva, o hormônio masculino é


de fato o critério definitivo da distinção. [...]”. (BADINTER, 1993, p. 43).

“Não basta ser XY e ter um pênis funcional para sentir-se homem. [...] para a imensa
maioria, a primeira etapa fundamental da diferenciação masculina começa com XY e
conclui com o olhar dos pais. [...]”. (BADINTER, 1993, p. 43).

“[…] Esta luta, inteiramente biológica, é pouco quando comparada à luta que o
menino vai ter de travar durante muito tempo para tornar-se um homem.
(BADINTER, 1993, p. 43).

Capítulo/Seção: CAPÍTULO 2 – A DIFERENCIAÇÃO MASCULINA

A formação do macho é comandada por urn dado natural, universal e


necessário: seu lugar de nascimento materno. Esta particularidade do
menino — ou seja, ser alimentado física e psiquicamente por uma pessoa
do sexo oposto — determina seu destino de modo muito mais complexo e
dramático do que o da menina. […]. (BADINTER, 1993, p. 45).

“[...] Fêmeo na origem, ele é advertido a deixar sua primeira pátria para adotar outra,
oposta, ou mesmo inimiga. Este arrancamento que lhe é imposto é também
intensamente desejado...”. (BADINTER, 1993, p. 45).

Capítulo/Seção: A DÍADE MÃE/FILHO OU O DUETO AMOROSO – A fusão


originária
“Durante os nove meses da vida intra-uterina, a criança forma uma unidade com a
mãe. Há muito sabemos que e bem-estar do feto depende do bem-estar da mãe
[...]”. (BADINTER, 1993, p. 45).

[…] Do corpo-a-corpo ao face-a-face, a relação com a mãe é “única,


incomparável, inalterável e se torna para a os dois sexos o objeto do
primeiro e mais poderoso dos
amores, protótipo de todas as relações amorosas ulteriores” (FROID, 1940
citado por BADINTER, 1993, p. 46). A mãe não se contenta em nutrir a
criança. Cuida dela e nela desperta múltiplas sensações físicas.
(BADINTER, 1993, p. 46).

“[…] A justa medida do amor materno é ainda mais crucial quando se dirige ao filho.
Amor demais o impediria de tornar-se um homem; de menos, pode fazê-lo ficar
doente.” (BADINTER, 1993, p. 46).

Mas as consequências dessa experiência não são as mesmas para menino


e menina. Para esta, é a base de uma identificação com seu próprio sexo,
enquanto para o menino constitui uma inversão dos papéis ulteriores. Para
tornar-se homem, ele deve aprender a se diferençar de sua mãe e a reprimir
para o maís profundo de si esta passividade deliciosa, em que ele e ela
formavam uma unidade. […]. (BADINTER, 1993, p. 46-47).

“[…] Mas quando o amor materno é extremamente poderoso e gratificante, por que a
criança haveria de sair desta díade deliciosa? Em troca, se este amor total não foi
recíproco, a criança passará o resto da vida a procurá-lo na dor.” (BADINTER, 1993,
p. 47).

Está na natureza do ser humano (macho ou fêmea) começar a vida numa


relação amorosa passiva e nesta encontrar o prazer necessário para se
desenvolver mais adiante. Até agora, pensávamos que só à mãe cabia o
pólo amoroso. Se é impensável que ela deixe de sê-lo, não é certo que o
face-a-face exclusivo com seu filho seja só vantagem para ele. (BADINTER,
1993, p. 47).

Capítulo/Seção: A primitiva feminidade do menino

Impregnado de feminidade durante toda a sua vida intra-uterina, identificado


depois com a mãe logo que nasce, o pequeno macho só pode se
desenvolver tornando-se e contrário do que era em sua origem. Esta
protofeminidade do bebê humano é considerada de diferentes maneiras
pelos especialistas. Para uns, ela favorece o desenvolvimento da menina e
prejudica o desenvolvimento do menino. Para outros, é igualmente
vantajosa para ambos os sexos. (BADINTER, 1993, p. 47, grifo da autora).
“O conceito de protofeminidade na criança de sexo masculino foi evocado pela
primeira vez por Stoller em resposta às teorias de Freud sobre a masculinidade
inata. […] a bissexualidade originária se reduz ao primado do feminino.”
(BADINTER, 1993, p. 47-48, grifo da autora).

Segundo Freud, para quem a protofeminidade não existe, a menina tem


mais obstáculos a superar do que o menino. 11 Freud acreditava que “a
masculinidade era o modo original, natural, da identidade de gênero nos
dois sexos, e que resultava da primeira relação de objeto heterossexual do
menino para com sua mãe, e da primeira relação de objeto homossexual da
filha para com ela. [sic]12 Stoller acusa Freud de ter negligenciado o
primeiríssimo período da vida, induzido pela fusão que se produz na
simbiose mãe-bebê. […]. (BADINTER, 1993, p. 48, grifo da autora).

[…] As mulheres, por aceitarem sua feminidade de modo primário e


incontestado, têm uma identidade de gênero mais solidamente ancorada
que os homens. Essa identificação pré-verbal, que amplia a criação de sua
feminidade, torna-se para o menino um obstáculo a vencer. (BADINTER,
1993, p. 48).

“Se menino e menina devem passar pelas mesmas etapas de separação e


individuação, o bebê macho defronta-se com dificuldades ignoradas pelo outro sexo.
[...]”. (BADINTER, 1993, p. 48).

“[…] ‘Quanto mais a mãe prolonga esta simbiose relativamente normal nas primeiras
semanas ou nos primeiros meses , maior o risco de que a feminidade se infiltre no
núcleo de identidade do gênero.’ [...]”. (STOLLER, 1973 citado por BADINTER, 1993,
p. 48.).

[…] Só se for capaz de se separar sem problema da feminilidade e da


feminidade de sua mãe é que o menino estará apto a desenvolver “esta
identidade de gênero mais tardia que chamamos de masculinidade. Só
então ele verá, sua mãe como objeto separado e heterossexual, que ele
poderá desejar”13. (BADINTER, 1993, p. 48.).

Enquanto a relação homossexual mãe/filha dos primeiros meses contribui


para aumentar, na filha, o sentimento de identidade, o menino deve
esforçar-se para anular suas pulsões protofemininas. […] temor às
mulheres, temor de manifestar qualquer tipo de feminidade, inclusive sob
forma de ternura, passividade ou cuidados dispensados aos outros, e,
evidentemente, temor de ser desejado por um homem. […] “Ser rude,
barulhento, beligerante; maltratar e fetichizar as mulheres; procurar somente
a amizade dos homens mas detestar os homossexuais; falar

11 CHASSEGUET-SMIRGEL, 1988 e STOLLER, 1984 citados por BADINTER, 1993, p. 48.


12 STOLLER. 1989 citado por BADINTER, 1993, p. 48.
13 STOLLER, 1973 citado por BADINTER, 1993, p. 48, grifos de E. Badinter.
grosseiramente; denegrir as ocupações das mulheres. O primeiro dever de
um homem é: não ser uma mulher.”14 (BADINTER, 1993, p. 49).

Se a feminidade básica é concebida antes como uma desvantagem por


Stoller, as mulheres psicólogas a percebem como uma grande vantagem
para o menino. A simbiose maternal é benéfica aos dois sexos porque é a
origem dos sentimentos protetores, da ternura e das ligações duradouras no
futuro adulto. […] E se a criança tem a infelicidade de ter uma mãe “fria”,
será incapaz, quando adulta, de exprimir sentimentos elementares,
alimentando com frequência um ódio inextinguível de si e das mulheres.
(BADINTER, 1993, p. 49).

“Elas [as crianças] interiorizam os comportamentos da mãe que consola e apazigua


e tornam-se capazes de vencer seu ódio pelo irmão menor, em relação ao qual se
situarão parcialmente como uma mãe. [...]”. (BADINTER, 1993, p. 49).

Para essas autoras [Margarete Mitscherlich e Phyllis Chesler], a relação


primeira com a mãe é a própria condição da identidade humana do macho.
Se essa relação não é boa, ou se a identificação não é possível, a criança
terá todas as dificuldades para tornar-se urn macho humano.

Segundo os psicanalistas norte-americanos, a etapa edipiana é geralmente


menos perigosa para o pequeno macho do que a fase pré-edipiana, pois o
principal risco para o menino não é tanto o medo da castração paterna, mas
o sentimento ambivalente de desejo e temor que tem pela mãe:
inextrincável vontade de voltar à simbiose materna e medo de restaurar a
unidade arcaica.15 Da boa solução deste conflito dependerá a constituição
da identidade masculina. (BADINTER, 1993, p. 50).

Capítulo/Seção: O menino no universo materno

“[…] O fato de que as mulheres transformaram de modo radical seu modo de vida
fez com que a simbiose com seus filhos se encurtasse singularmente. [...]”.
(BADINTER, 1993, p. 51).

[…] O interesse pela criança sofre a concorrência de outros interesses, de


natureza profissional, cultural ou social. Bem depressa, a criancinha
conhece a frustração da separação, uma alimentação variada, e outros
rostos além do rosto de sua mãe. Para as mães que se dedicam
inteiramente ao filho, a hora da separação chega com a escola. [...]
(BADINTER, 1993, p. 51).

Do outro lado do mundo, as mães das numerosas tribos guerreiras da Nova


Guiné16 comportam-se de modo inteiramente diferente com seus filhos.
Primeiro, os tabus pós-parto contribuem para reforçar o par mãe/criança. O
novo pai Sambia ou Baruya deve evitar a mãe e a criança […]. (BADINTER,
1993, p. 51).

14 STOLLER, 1989 citado por BADINTER, 1993, p. 49, grifos de E. Badinter.


15 FOGEL, 1986 citado por BADINTER, 1993, p. 50.
16 GODELIER, 1982 e HERDT, 1982 citados por BADINTER, 1993, p.51.
Até o desmame, o pai pouco vê o filho. Os Sambia tendem a achar que o
bebê é um prolongamento do corpo da mãe durante os nove primeiros
meses de vida. A criança tem acesso ao seio da mãe à vontade, às vezes
até os três anos de idade. Vive nos braços dela, pele contra pele, e dorme
nua com ela até o desmame. […] Com o tempo, os meninos são incitados
pelos pais, a dormir um pouco mais longe das mães, porém ainda não no
“espaço masculino” da casa. A despeito do contato crescente com o pai, os
meninos continuam a viver com a mãe, os irmãos e as irmãs até os sete ou
dez anos. (BADINTER, 1993, p. 51-52).

“As tribos da Nova Guiné, conscientes do perigo da feminização do menino,


executam ritos de iniciação em geral muito longos e traumatizantes, na proporção da
extremada ligação mãe/filho que se trata de desfazer. [...]”. (BADINTER, 1993, p.
52).

Num grau menor, o momismo americano, observado desde o século XIX,


com o início da sociedade industrial, é uma outra espécie de fusão
prolongada com a mãe. Ao corpo-a-corpo sucede um face-a-face com uma
mulher todo-poderosa, que não deixa de causar problemas para os filhos.
[...] A ausência de identificação masculina se faz sentir de maneira cruel,
sobretudo quando o costume tolera que a mãe vista seu filho de menina até
a idade de seis anos, como aconteceu, por exemplo, com Franklin D.
Roosevelt, ou lhe deixe crescer longos cachos… […] Alguns rapazes nunca
mais se recuperam, como Ernest Hemingway, que durante toda a vida
padeceu de perturbações da identidade sexual. […] a mãe dele, uma
personalidade forte, autoritária e viril, o fantasiou como uma menininha
durante vários anos.17 Não só ela o vestia, penteava e tratava como “a
gêmea” da irmã mais velha, como instalou o pequeno Ernest em uma
deliciosa relação de dependência […] o pai não foi bastante forte para
libertá-llo totalmente da opressão materna, sendo ele próprio uma vítima
castrada da esposa. Para resistir à mãe, Ernest Hemingway não teve outra
solução senão fugir e odiá-la, “como nunca um homem, nas palavras de seu
velho amigo John dos Passos, odiou a mãe”. […] (BADINTER, 1993, p. 52-
53, grifo da autora).

Capítulo/Seção: CORTANDO A SANGUE FRIO, OU A NECESSÁRIA TRAIÇÃO À


MÃE

O caráter peculiar da identidade masculina (por oposição à identidade


feminina) está na etapa da diferenciação com respeito ao feminino materno
[…] Sua semelhança e sua solidariedade se constroem colocando as
mulheres a distância, e antes de tudo a primeira delas, a mãe. Alguns falam
de traição, outros de assassinato simbólico. Assim sendo, na horda primitiva
evocada por Freud, o matricídio precedeu o parricídio. (BADINTER, 1993, p.
53).

Capítulo/Seção: A dor da separação

17 LYNN, 1990 citado por BADINTER, 1993, p. 52.


A faca ou a lâmina não remetem apenas ao corte do cordão umbilical que
vale para os dois sexos, mas falam também desta segunda separação do
feminino materno que a circuncisão representa. Praticada poucos dias após
o nascimento, por volta dos três ou quatro anos ou ainda na adolescência, a
circuncisão sempre teve como finalidade reforçar a masculinidade do
menino. (BADINTER, 1993, p. 54).

Bettelheim assinala que, para os meninos, “a exibição da glande liberta do


prepúcio faz parte dos esforços perpetrados para afirmar sua virilidade. Sob
esse aspecto, o menino circunciso tern uma nítida superioridade: sua glande
é visível, o que com frequência é considerado sinal de uma virilidade mais
ostensiva.”18. (BADINTER, 1993, p. 54).

A circuncisão, renúncia simbólica à bissexualidade divina, é ao mesmo


tempo a marca da finitude humana e da masculinidade. Praticada oito dias
após o nascimento na tradição judaica, ocorre no momento mais forte da
simbiose mãe/filho. […] não é apenas o sinal de que a fusão materna deve
ter fim, mas também a recuperação simbólica do filho pelo pai, o primeiro
ato da diferenciação sexual. (BADINTER, 1993, p. 54-55).

Os três anos seguintes ao nascimento do menino são o tempo necessârio


ao filho para se separar psiquicamente da mãe. […] Nancy Chodorow
constata que na ausência de uma identificação pessoal forte com um
homem, “os filhos pequenos de pais ausentes (fato comum nas famílias
contemporâneas) elaboram um ideal da masculinidade por identificação
com as imagens culturais que são feitas desta, escolhendo homens
célebres como modelos masculinos.”19 […] Enquanto os processos de
identificação feminina são relacionais, os de identificação masculina são
oposicionais. (BADINTER, 1993, p. 55).

Lillian Rubin […] acha que a agressividade masculina contra as mulheres


pode ser interpretada como uma reação forte a esta perda precoce e ao
sentimento de traição que a acompanha, que o despreze pela mulher vem
da ruptura interior exigida pela separação. Este desprezo, diz ela, vem do
medo e não da arrogância, “medo sentido pela criança que se vê obrigada a
rejeitar a presença todo-poderosa de sua mãe.”20 (BADINTER, 1993, p. 55).

Capítulo/Seção: A masculinidade: uma reação, um protesto

“O homem viril encarna a atividade. Mas essa atividade, na verdade, nada mais é do
que uma reação contra a passividade e a impotência do recém-nascido. […]”.
(BADINTER, 1993, p. 56).

[…] A masculinidade, construída inconscientemente nos primeiríssimos anos


de vida, se intensifica até explodir, literalmente, na adolescência. É o
momento em que e sofrimento e o medo da feminilidade e da passividade
começam a se tornar evidentes. […]. (BADINTER, 1993, p. 56).

18 BATTELHEIM, 1971 citado por BADINTER, 1993, p. 54.


19 CHODOROW, 1979 citado por BADINTER, 1993, p. 55.
20 RUBIN, 1986 citada por BADINTER, 1993, p. 55.
“[…] Talvez também o atual questionamento da masculinidade e da feminidade
afrouxe o nó da repressão que há menos de vinte anos estrangulava o homem. […].”
(BADINTER, 1993, p. 57).

“[…] Os mais frágeis, os mais sofridos também, não podem manter sua
masculinidade e lutar contra o desejo nostálgico do ventre materno, a não ser por
meio do ódio ao sexo feminino. […].” (BADINTER, 1993, p. 57).

“Assim, da infância à idade adulta, e às vezes durante toda a vida, a masculinidade


é mais uma reação do que uma adesão. O menino se coloca pela oposição: eu não
sou minha mãe, não sou um bebê, não sou uma menina, proclama seu inconsciente.
[…].” (BADINTER, 1993, p. 58).

[…] o menino (depois o homem) protesta sua virilidade porque permanece


uma suspeita de feminidade. Mas desta vez a dúvida parte menos dos
outros do que dele mesmo. É a si próprio que ele tem de convencer da […]
sua autenticidade masculina. (BADINTER, 1993, p. 58).

“Este protesto é dirigido primeiro à mãe. Ele está presente em três proposições: Eu
não sou ela. Eu não sou como ela. Eu sou contra ela.” (BADINTER, 1993, p. 58).

Capítulo/Seção: Traição e assassinato da mãe

A separação da mãe oscila entre dois temas complementares: a traição da


mãe amada (a boa mãe) […], e a libertação da opressão materna (a mãe
má, frustradora e superpoderosa) […] é a culpa ou a agressividade que é
posta em destaque. Freud atribui ao homem um “desprezo normal” pela
mulher, por causa da ausência de pênis, mas Janine Chasseguet-Smirgel,
mais arguta que o mestre, detecta “por trás do desprezo confessado (...)
uma poderosa imagem materna, invejada e aterrorizante” 21. […].
(BADINTER, 1993, p. 58-59).

[…] O homem adulto desconfiaria das mulheres por lembrar-se da mãe que
teria traído seu amor, abandonando-o pouco a pouco ao mundo dos
homens. Mas há uma outra espécie de traição que está presente como uma
filigrana na obra de Roth: a traição da mãe pelo filho. Nisto está, para ele, o
verdadeiro escândalo, muito maior que o falocentrismo do macho: 22 Não se
pode ser homem sem trair a mãe, “cortar os laços de amor da infância” 23. A
virilidade, diz Roth, é “‘dizer não à mãe para poder dizer não às outras
mulheres”. […]. (BADINTER, 1993, p. 59).
21 CHASSEGUET-SMIRGEL, 1984 citado por BADINTER, 1993, p. 59.
22 ROTH, 1989 citado por BADINTER, 1993, p. 59.
23 ROTH, 1974 citado por BADINTER, 1993, p. 59.
Na verdade, passado o momento oportuno, a ruptura com a mãe é
impossível sem ajuda terapêutica. Mesmo assim, a simbiose prolongada
deixa pesadas seqüelas [sic]. Os insucessos na separação provocam as
mais sérias desordens. Da homossexualidade à psicose […], passando por
múltiplas perturbações de identificação e de comportamento: “masculinidade
hegemônica”24, desprezo pelas mulheres, agressividade não canalizada,
“desejo do pai”25 etc. (BADINTER, 1993, p. 62).

Capítulo/Seção: A NECESSIDADE VITAL DE DIFERENCIAÇÃO

“A diferença entre os sexos é extremamente variável de uma sociedade para outra.


Fortemente marcada ou apenas perceptível para o observador estrangeiro [...]”.
(BADINTER, 1993, p. 62).

[…] É verdade que a sociedade evolui lentamente e que as mídias mais


populares continuam a difundir estereótipos masculinos e femininos
tradicionais. Mas já é tempo de reconhecer que a explicação social não é
suficiente. A necessidade de se diferenciar do outro sexo não é resultado de
aprendizagem, mas uma necessidade arcaica. “A maioria das sociedades
utiliza o sexo e o gênero como principal esquema cognitivo para
compreender seu ambiente. As pessoas, os objetos, as idéias são
comumente classificados como masculinos ou femininos.” 26 As crianças não
o usam apenas para compreender o mundo, mas sobretudo para
compreender a si próprias. O ato de conhecer começa com a distinção e a
classificação, e em primeiro lugar com o dualismo. […]. (BADINTER, 1993,
p. 62).

[…] Papai e mamãe podem ser ambos funcionários ou médicos, dividir as


tarefas domésticas e familiares, mas a criança sentirá sempre necessidade
de encontrar um critério (mesmo imaginário) de distinção que a ajude a
diferenciar-se de um e identificar-se com o outro. (BADINTER, 1993, p. 63).

Capítulo/Seção: A universal segregação sexual das crianças

“Em todas as sociedades humanas, sempre chega o dia em que meninos e meninas
se separam para formar grupos do mesmo sexo. [...]”. (BADINTER, 1993, p. 63).

“[…] E a idade das amizades ‘homossexuais’, tão importantes para a consolidação


da identidade sexual. Na sociedade ocidental, a separação dos sexos ocorre muito
mais cedo e dura muito mais tempo. [...]”. (BADINTER, 1993, p. 63).

24 CONNELL, 1990 citado por BADINTER, 1993, p. 62..


25 CATH.; GURWITT; ROSS-LITTLE, 1982 citados por BADINTER, 1993, p. 62.
26 DEVOR, 1989 citado por BADINTER, 1993, p. 62.
É por volta dos dois anos que as meninas começam a se voltar para outras
meninas, enquanto os meninos só procuram ativamente companheiros do
mesmo sexo por volta dos três anos. [...] Maccoby e Jacklin (1987)
observaram também que o nível de interação era muito mais elevado nos
pares não mistos: os meninos são mais ativos socialmente quando brincam
com outros meninos do que com meninas. A partir dos 33 meses, seu jeito
de brincar é diferente, e as crianças combinam mais com o estilo das
crianças do mesmo sexo. As meninas não brincam de maneira passiva, mas
não têm o modo físico e bruto de brincar dos meninos. 27 (BADINTER, 1993,
p. 64).

Segundo Maccoby e Jacklin, as bases da segregação sexual já existem


antes do ingresso na escola. Surgem a partir do momento em que a criança
está quase conseguindo classificar corretamente, segundo o sexo, tanto os
outros como a si própria. As diferenças constatadas entre grupos de
meninos e grupos de meninas decorrem de três fatores principais: a
socialização da criança segundo seu sexo, desde o nascimento (o que,
entretanto, varia muito de um genitor a outro, de uma família a outra);
fatores biológicos e fatores cognitivos ainda mal conhecidos: as crianças
podem distinguir meninos e meninas bem antes de conhecer suas
diferenças genitais. (BADINTER, 1993, p. 64, grifos da autora).

[…] suscitar prudência nos que desacreditam do dualismo sexual. Se é


verdade que este foi utilizado pelo patriarcado como arma temível contra as
mulheres, não é menos verdade que seja um dado elementar da
consciência identificatória da criança. […] Reconhecer-lhe o status de uma
etapa necessária talvez seja o único meio de chegar a um reconhecimento
ulterior de uma bissexualidade comum, ou seja, da semelhança dos sexos.
(BADINTER, 1993, p. 65).

Capítulo/Seção: O MITO DEVASTADOR DO INSTINTO MATERNO

“[…] Alienante e culpabilizante para as mulheres, o mito do instinto materno se


revela devastador para as crianças, em particular para as meninos.” (BADINTER,
1993, p. 65).

“A teoria do instinto materno postula que a mãe é a única capaz de cuidar do recém-
nascido e da criança porque foi determinada biologicamente para isso. O par
mãe/criança formaria uma unidade ideal que ninguém pode nem deve perturbar.
[...]”. (BADINTER, 1993, p. 65).

“[…] legitima-se a exclusão do pai e com isto reforça-se a simbiose mãe/filho. [...]”.
(BADINTER, 1993, p. 65).

[…] Winnicott desenvolvia a Idéia de um estado simétrico na mãe, “doença


normal” de recém-parida, consistindo num “estado psiquiátrico de

27 FAGOT, 1985 citado por BADINTER, 1993, p. 64.


recolhimento, de dissociação, semelhante a um episódio esquizóide” 28. De
fato, admite Winnicott, uma mãe adotiva ou qualquer outra mulher pode ser
capaz de sentir esta boa “doença” que é o instinto materno. (BADINTER,
1993, p. 65-66).

“[…] uma única categoria de seres humanos é julgada incapaz de sentimento


materno primário: os homens, e em particuIar os pais. […]”. (BADINTER, 1993, p.
66).

“[…] Em geral, para a maioria dos psicanalistas clássicos, o pai não pode nem deve
tomar o lugar da mãe, nem mesmo para compartilhar os cuidados maternos. [...]”.
(BADINTER, 1993, p. 66).

[…] “Sobretudo que os pais saibam que não é pelo contato físico, mas pela
palavra, que podem se fazer amar e respeitar com afeição por seus filhos.” 29
Como explicar melhor que é desaconselhado aos pais acalentar e mimar o
bebê, sob pena de perderem seu status equilibrador para a criança? O amor
paterno teria de específico o fato de que só pode se exprimir a distância.
[…]. (BADINTER, 1993, p. 66, grifo da autora).

[…] Tendo sido sempre postulado que a mãe era dotada de um instinto
admirável, pensava-se que ela saberia modulá-lo para dar a cada etapa do
desenvolvimento da criança a “dose” de amor necessária. Chegado o
momento, ela deveria encorajar seu filho pequeno a sair da simbiose e
desligar-se dela. […]. (BADINTER, 1993, p. 66).

A verdade é bem outra. O amor materno é infinitamente complexo e


imperfeito. Longe de ser um instinto, ele é condicionado por tantos fatores
independentes da “boa natureza” ou da “boa vontade” da mãe que é preciso
um pequeno milagre para que este amor seja assim como nos é descrito.
Ele depende não só da história pessoal de cada mulher (pode-se ser uma
mãe má ou medíocre de geração a geração), da conveniência da gravidez,
de seu desejo de ter a criança, de sua relação com o pai, mas também de
outros fatores, sociais, culturais, profissionais etc. (BADINTER, 1993, p. 67).

[…] A boa maternidade é uma missão quase impossível, que prova — como
se ainda houvesse necessidade — que não há instinto nesses assuntos.
[…] Nem próxima demais, nem distante demais, a boa mãe preserva a paz
interior de suas crianças e em particular de seu filho. Para este, “a boa
distância” de sua mãe condiciona seu sentimento de identidade masculina e
suas relações ulteriores com as mulheres. (BADINTER, 1993, p. 67).

“Quanto mais as mães pesam sobre seus filhos, mais estes temerão as mulheres,
fugirão delas ou irão oprimi-Ias. […]”. (BADINTER, 1993, p. 68).

28 WINNICOTT, 1978 citado por BADINTER, 1993, p. 65-66.


29 DOLTO, 1978 citado por BADINTER, 1993, p. 66.
Sabemos hoje que, quando as circunstâncias o exigem, os homens cuidam
dos bebês tão bem quanto as rnulheres. O pai é tão sensível, afetuoso e
competente quanto a mãe quando mobiliza a sua feminidade. 30 É preciso
apenas que a mãe, aliviada de um instinto mítico, aceite compartilhar sua
condição com o pai, e que este não mais receie sua própria feminidade
maternal. […]. (BADINTER, 1993, p. 68).

Capítulo/Seção: CAPÍTULO 3 – “É O HOMEM QUE ENGENDRA O HOMEM”

30 RISMAN, 1987 citada por BADINTER, 1993, p. 68.