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I.

Brasil Arcaico
I. Archaic Brazil

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Brasil: os mitos fundadores
da nacionalidade

Ricardo Arthur Fitz*

Resumo
Este artigo procura estudar de forma sintética como se construíram e perpetuaram os mitos funda-
dores da nacionalidade brasileira como parte dos projetos políticos da Monarquia e República.

Palavras-chave: nacionalidade, mito, memória nacional.

A essência de uma nação é que os indivíduos tenham muitas coisas


em comum e, também, que todos tenham esquecido muitas coisas.
(Ernest Renan)

Nação, nacionalidade, nacionalismo

O
conceito de nação 1 é relativamente recente, fruto do processo
de desintegração do Antigo Regime europeu e, portanto, asso-
ciado ao pensamento iluminista e às revoluções americana e francesa.
Da mesma forma, o conceito é tributário das transformações ocorridas no iní-
cio do século XIX como resultado do processo de industrialização. As monar-
quias do Antigo Regime constituíam-se a partir de famílias dinásticas que –
mediante casamentos, alianças e mesmo conflitos diplomáticos ou armados –
ocupavam o poder nos principais Estados europeus, sem que isso necessaria-
mente significasse a obrigatoriedade de ser o governante nascido em tal ou qual
reino. O poder dinástico, portanto, independia das suas “nacionalidades”.
Benedict Anderson (1989) lembra, a propósito, que “é típico que não tenha
havido uma dinastia ‘inglesa’ governando em Londres desde o século XI (se

*
Professor da Faculdade Porto-Alegrense de Educação, Ciências e Letras – FAPA. E.mail
:ricardo.fitz@pop.com.br
1
Hugh Seton-Watson entende que “não se pode estabelecer nenhuma ‘definição científica’ de
nação, contudo, o fenômeno tem existido e continua a existir”. Citado por ANDERSON,
Benedict. Nação e consciência nacional.São Paulo: Ática, 1989.
Ciênc.let., Porto Alegre, n.37, p.9-24, jan./jun. 2005 11
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tanto); e que ‘nacionalidade’ devemos atribuir aos Bourbons?” Independente
de serem estrangeiros ou não, a legitimidade de seu poder assentava-se, do pon-
to de vista ideológico, na sacralidade do regime monárquico. Sua expressão
teórica mais significativa encontra-se na Política (1679-1709) de Bossuet, segun-
do a qual a Providência governa os homens e os Estados, em uma espécie de
“dirigismo divino”. A monarquia surge como a “mais comum, a mais antiga e
também a mais natural forma de governo”.2 Deus, no princípio foi rei e em
seguida, “a primeira idéia de governo e de autoridade veio aos homens da auto-
ridade paterna”.3 A monarquia, portanto, tem origem divina e os homens “nas-
cem todos súditos”. O Iluminismo fez frente a essas concepções políticas que
buscavam legitimar o Antigo Regime e os movimentos revolucionários dos
Estados Unidos e da França procuraram sua legitimação na idéia de povo. Não
por acaso, a declaração de independência dos Estados Unidos inicia com a ex-
pressão “nós, o povo”. Assim, o século do Iluminismo inaugura uma concep-
ção política que procura desvincular a legitimação do poder de instâncias
sacralizadas, secularizando-o e racionalizando-o. O poder não mais emana de
Deus, mas do “povo” e em seu nome deve ser exercido.
A idéia de “povo”, porém, não tem relação direta com a idéia de “na-
ção”. A palavra “nação” é derivada da palavra latina natio, que significava origi-
nalmente parto de uma ninhada de animais.4 Por extensão passou a significar
indivíduos nascidos de uma mesma mãe e, depois, indivíduos nascidos num
mesmo lugar. Os romanos passaram a utilizar a expressão para se referir às
“nações dos bárbaros”, a Igreja usava o plural nationes para os pagãos e para
distinguí-los do populus Dei. Falava-se, por exemplo, na “nação judaica”. Com
esse sentido os europeus referiam-se às “nações indígenas” da América. “Povo”
significava um grupo de indivíduos organizados institucionalmente, ao passo
que “nação” denotava aqueles nascidos de uma descendência comum. “Povo”
era um conceito jurídico-político, ao passo que “nação” era um conceito bioló-
gico.
A idéia de populus também tem suas raízes no Império Romano e desig-
nava originalmente o conjunto dos plebeus livres em contraste com o patriciado
senatorial. A expressão “patrício” deriva de “pater”, ou seja, “pai” num sentido
jurídico (o pai biológico é designado pela expressão genitor). A ele cabia exercer
o dominium sobre a família que, juridicamente, é constituída pela mulher, fi-
lhos, agregados, clientes, escravos. A ele cabia também a administração do
patrimonium que, do ponto de vista jurídico, lhe pertence. A sociedade patriar-
cal romana, portanto, se estruturava segundo o poder do pater e, ao mesmo

2
Bossuet, Política. Citado por CHEVALIER, Jean-Jacques. As grandes obras políticas de Maquiavel
a nossos dias., p. 89.
3
Idem, p.88.
4
CHAUÍ, Marilena. Brasil: mito fundador e sociedade autoritária.São Paulo: Fundação Perseu
Abramo, 2000.
12 Ciênc. let., Porto Alegre, n.37, jan./jun. 2005/
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tempo, denotava uma forma específica de propriedade. A expressão pátria tam-
bém deriva da mesma matriz. Do ponto de vista político, cabia aos patrícios
ocupar as cadeiras do senado romano, ao passo que os plebeus conquistaram o
direito de ver-se representados por um tribuno após a primeira revolta da plebe
em 494 a.C. Ainda assim, na suas origens, mecanismos de toda ordem procura-
vam preservar o poder político nas mãos dos patrícios – os “pais da pátria”,
enquanto os plebeus eram vistos como “protegidos pela pátria”. Ao longo da
Idade Média a Igreja romana arrogou-se este papel. Cabia agora aos padres, re-
presentantes de Deus Pai na Terra, conduzir o povo de Deus à salvação, distin-
guindo-os claramente das nações pagãs.
A expressão “pátria”, a partir das revoluções americana e francesa, pas-
sou a designar o “território cujo senhor é o povo organizado sob a forma de um
Estado independente”.5 No Brasil este sentido da expressão, obviamente, come-
ça a ser utilizado a partir da Independência, ainda que os inconfidentes do final
da era colonial já se utilizassem de expressões como “pátria mineira” ou “pátria
pernambucana”.
Já o conceito de “nação” começa a se constituir a partir da Europa no
início do século XIX. Eric Hobsbawm situa o aparecimento do vocábulo por
volta de 1830.6 O período corresponde, na Europa, à disseminação da Revolu-
ção Industrial, marcando uma nova etapa do desenvolvimento capitalista e,
associado a ela, a emergência do Estado moderno. Este último necessitava do
consentimento dos seus cidadãos para políticas fiscais e ações militares. Assim
tornava-se necessário incluir seus habitantes em um território delimitado pela
esfera administrativa e obter a lealdade ao sistema dirigente. Isto somente seria
viabilizado se os antagonismos sociais fossem de alguma forma dissimulados.
“Pouco a pouco, a idéia de nação surgirá como solução dos problemas”7,
horizontalizando a sociedade e conclamando-a à participação em objetivos mais
“elevados” que transcendessem aos conflitos internos. A proteção das economi-
as capitalistas levava à elaboração de conceitos como “economia nacional”, “ri-
queza das nações”, “princípio de nacionalidade”, “idéia nacional” ou “unifica-
ção nacional”. O resultado de tal processo é que “nação” passou a ser visto
como “algo que sempre teria existido, desde tempos imemoriais, porque suas
raízes deitam-se no povo que a constitui.”8
Por outro lado o conceito de nação foi-se formando também no imagi-
nário popular, constituindo-se a partir de traços comuns de religião, língua,
etnia, território, traços culturais. Tais elementos, de forte apelo popular, neces-
sariamente remetem às origens do grupo em questão. Ainda que possam ser

5
Chauí, op. cit., p 16.
6
Hobsbawm, Eric. Nações e nacionalismo desde 1870: programa, mito e realidade. Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 1990.
7
Chauí, op. cit., p. 17.
8
Chauí, op. cit., p. 19.
Ciênc.let., Porto Alegre, n.37, p.9-24, jan./jun. 2005 13
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resultado de algum tipo de elaboração autônoma, é inegável seu caráter de apro-
priação e uso feito pelo Estado. Tal questão fica muito evidente ao observar-
mos as formas pelas quais se desenvolveram as ideologias nazi-fascistas nas pri-
meiras décadas do século XX. O imaginário popular constituído em torno da
idéia de nação vai encontrar num corpo mítico sua base de sustentação. Sem
avançarmos no debate que distingue se o conceito de nação é inventado ou
imaginado, basta para nossos propósitos entender que o mesmo é fruto de uma
representação mítica e que serve a determinados propósitos. Para tanto é neces-
sário ainda que observemos o sentido do que se entende por mito.

Mito
Para os gregos, a palavra mythos designava uma palavra formulada –
quer se trate de um diálogo, uma enunciação, um projeto – não contrastando
inicialmente com o que se definia por logoi. Entre os séculos VIII e IV a.C.,
uma série de condições históricas foi cavando um abismo entre duas formas
distintas de narrativa: mythos e logos. A primeira, associada à palavra falada,
transmite aos ouvintes narrativas concernentes aos deuses e heróis, inserindo-
se assim na categoria dos hieroi logoi, discursos sagrados. A segunda, associada à
palavra escrita, assumiu o valor de uma racionalidade demonstrativa, procuran-
do encontrar o verdadeiro após investigação escrupulosa. São essas característi-
cas, por exemplo, que distinguem as obras de Homero e Heródoto.
Do ponto de vista do receptor da narrativa, o mito – enfatizando o
dramático, o maravilhoso – opera uma ação mimética (mimêsis) com forte ape-
lo à participação emocional (sympatheia). O logos renuncia a tudo isso, apelan-
do para a inteligência crítica do leitor com a finalidade de ganhar na ordem do
verdadeiro, porém perdendo na ordem do agradável, do emocionante, do dra-
mático.
Agindo dessa forma, o mito cumpre funções pedagógicas na medida em
que se torna uma narrativa exemplar de ação ou conduta proposta à imitação
humana. Assume, assim, um caráter paradigmático, constituindo um
modelo de referência que permite situar, compreender e julgar o fei-
to celebrado no canto. Ao se refratar através das aventuras lendárias
dos heróis ou dos deuses é que os atos humanos, pensados na catego-
ria da imitação, podem marcar seu sentido e situar-se na escala de
valores.9

Em parte, para cumprir esta função, o mito centra sua narrativa em


personagens que se apresentam como ancestrais míticos ou heróis culturais/
civilizadores.

9
VERNANT, Jean Pierre. Mito e sociedade na Grécia Antiga. Rio de Janeiro: José Olympio,
1992, p. 180.
14 Ciênc. let., Porto Alegre, n.37, jan./jun. 2005/
Disponível em: <http://www.fapa.com.br/cienciaseletras/publicacao.htm>

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É possível identificar-se na narrativa mítica duas partes distintas: uma
arquetípica, mais antiga e permanente, outra, mais dinâmica, reatualizável, que
se apresenta freqüentemente sob forma de variantes ou variações. A primeira,
depositária de experiências remotas, guarda em si os valores do mito, represen-
tados por elementos recorrentes. A segunda adapta-se ao tempo do leitor, in-
corporando elementos novos, excluindo outros obsoletos ou mesmo, de algu-
ma forma, reatualizando-os de maneira a permitir o seu entendimento em uma
realidade contemporânea. Desta forma constituído, o mito é objeto de constan-
tes re-presentações nas quais os elementos recorrentes são tornados presentes e
reatualizados em consonância com as demandas do momento. Parte importan-
te nessa re-presentação é a ritualística que, como lembra Mircea Eliade, inter-
rompe o fluxo temporal do presente e insere o partícipe em uma outra dimen-
são temporal, esta sacralizada: o tempo mítico.10 As re-presentações avançam
ainda para campos de linguagem como a literatura, o teatro, a música, a repre-
sentação pictórica. O Édipo de Homero, v.g., que morre no trono de Tebas, vai
ser re-presentado por Ésquilo e Sófocles em um personagem rejeitado que se
cega voluntariamente e se exila.
O mito, nas sociedades em que se desenvolve, é tido como uma verdade
absoluta transmitida por seus “fundadores” em um tempo “anterior ao nosso
tempo”, adquirindo, portanto, foro de credibilidade social. Combinando dife-
rentes dimensões de temporalidade – passado mítico e presente – o mito acaba
por se constituir em uma forma de narrativa que se torna “a solução imaginária
para tensões, conflitos e contradições que não encontram caminhos para serem
resolvidos no nível da realidade”.11 Nas sociedades de classes ou, simplesmente,
naquelas em que o poder se separa do corpo social como um todo, seu papel vai
ainda além, tendendo a tornar-se um instrumento das instâncias de poder utili-
zado como forma de legitimação e perpetuação. Nestes casos torna-se freqüen-
te o apelo a mitologias com as quais se busca uma identificação do presente. É o
caso do uso da tradicional mitologia germânica ao longo dos anos 30 na já refe-
rida Alemanha nazista.

História, memória e mito


Analogamente à utilização de um corpo de mitos, ocorre uma
mitologização da história através da sacralização de personagens e eventos que
assumem um caráter exemplar. Tais personagens e eventos são encontrados em
fatos da história que de alguma forma se ajustam à realidade sócio-política em
que são narrados, também eles reatualizados conforme a demanda. Neste caso a
história confunde-se com memória social.

10
ELIADE, Mircea. O mito do eterno retorno: arquétipos e repetição. Lisboa: Edições 70, 1971.
11
Chauí, op. cit., p. 9.
Ciênc.let., Porto Alegre, n.37, p.9-24, jan./jun. 2005 15
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Examinando a diversas formas pela quais se procurou compreender a
memória social, Júlio Pimentel Pinto12 classificou-as em alguns grupos. No seu
entender, a memória pode ser vista como:

a) Construção de identidades ou invenção de tradições. Nesta pers-


pectiva a memória se constitui em criação de marcas hipotéticas do
passado que justificam inserções na realidade presente.
b) Comunidade imaginária. Neste caso a memória se constitui em
imagens coletivas que o presente oferece ao passado, atribuindo sen-
tido ao que não o tem necessariamente no momento do ocorrido.
c) Acúmulo de detritos que as representações vão impondo à histó-
ria passada, distantes da efetiva experiência vivida. Esta perspecti-
va, constituída em uma matriz benjaminiana, lida com o conceito de
“memória histórica”, isto é, com a construção, a partir do presente,
de um discurso dos vencedores.
d) Mundo exclusivo de discursos. Nesta categoria, a história é dissol-
vida em uma historiografia que vive o primado do texto, de forma
que história e memória não se diferenciam.
e) Por último, o autor propõe uma recusa dessa mistura, ou seja, a
definição precisa do que se entende por história e o que se concebe
como memória, acompanhando a concepção de Pierre Nora, para
quem a distinção entre ambas implica a identificação dos “lugares da
memória” como alternativa de conservação do passado.

Para Pierre Nora, as preocupações com a investigação da memória re-


portam ao final do século XIX, com o “desabamento do mundo rural” e a “ace-
leração da história” resultantes da industrialização13. A aceleração da história
levaria a um “esfacelamento da memória” e, portanto, a uma ruptura de equilí-
brio. Como desdobramento de tais incertezas, produziu-se uma intensa busca
de vestígios do passado. Atraem-se, nesta perspectiva, os campos da história e
da memória. Porém é necessário estabelecer uma clara distinção entre ambas,
definindo-se os “lugares da memória”.
No debate sobre as distinções entre história e memória, Antoine Prost14
enumera quatro razões desse distanciamento.
Em primeiro lugar, a procura pela memória envolve sempre um fato
preciso, um acontecimento, extraindo-o do contexto no qual corria o risco de
ser dissolvido e isola-o para ficar em evidência. O acontecimento assume um
caráter comemorativo. O historiador, ao contrário, esforça-se para situá-lo em

12
PINTO, Júlio Pimentel. Todos os passados da memória. CIDADE: Editora, ano.
ARRUDA, José Jobson de Andrade. O trágico 5º. Centenário do descobrimento do Brasil: come-
13

morar, celebrar, refletir. Bauru: EDUSC, 1999, p. 8-9.


14
PROST, Antoine. Como a história faz o historiador? Anos 90. Porto Alegre, n. 14, 2000.
16 Ciênc. let., Porto Alegre, n.37, jan./jun. 2005/
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um contexto mais amplo, em uma trama histórica que possa torná-lo inteligí-
vel.
Em segundo lugar, tomados como uma multiplicidade de fatos privile-
giados e justapostos, os acontecimentos registrados pela memória marcam uma
evolução desprovida de sentido por sua própria descontinuidade. O autor en-
tende que a soma de tais eventos não conduz à história, mas a desagrega. “A
história é a construção de uma narrativa que dá coerência aos fatos em seu
encadeamento, e por isso cria sentido e dá inteligibilidade”.15
Uma terceira contradição é apontada: a memória comporta sempre uma
dimensão afetiva, convida a coletividade a compartilhar uma indignação, uma
revolta, um luto ou, em outros casos, por ocasião de comemorações, torna-se
“um convite mais sereno a voltar-se sobre o passado, mas não isento de enterne-
cimento nostálgico”.16 A história, por seu turno, está ao lado do conhecimen-
to, do saber, da racionalização; procura compreender e explicar.
Por fim, Prost aponta uma contradição entre o particular e o universal.
Na medida em que a memória se firma como uma afirmação identitária, ela
toma um evento considerado fundador por um grupo, excluindo potencial-
mente aqueles outros que não lhe concernem diretamente. Atribuem-se valores
universais a eventos particulares.
A respeito destas diferenças, Pierre Nora afirma:
A memória é a vida sempre carregada por grupos vivos e, nesse senti-
do, ela está em permanente evolução e aberta à dialética da lembran-
ça e do esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas,
vulnerável a todo os usos e manipulações [...]. A história é a recons-
trução sempre problemática e incompleta do que já não existe mais
[...], porque operação intelectual e laicizante demanda análise e dis-
curso crítico.17

A diferenciação entre história e memória pode ser assim sintetizada: na


história o passado é tornado racional, metamorfoseado em conhecimento, em
representação, em reflexão, incorporando problematizações e críticas, ao passo
que a memória incorpora ao passado um sentido de sacralidade, mítico, dialo-
gando com a ficção.
A história, portanto, utilizada como instrumento de memória social,
aproxima-se do mito e, como ele, torna-se “solução imaginária para conflitos,
tensões e contradições” ou legitimação de novas instâncias de poder. Este pro-
cesso, em suas formas modernas, tem início com as comemorações cívicas e o
calendário civil introduzidos pela Revolução Francesa que, entre outras coisas,

15
PROST, op.cit, p 10.
16
PROST, op.cit, p 11.
17
NORA, Pierre apud POSSAMAI, Rita Rosane. Entre memória e história: a problemática dos
lugares. Projeto História. São Paulo, n. 10, 1993. Citado por POSSAMAI, Zita Rosane. Patrimônio
e museu: história e memórias da cidade. Anos 90. Porto Alegre, n.14, 2000.
Ciênc.let., Porto Alegre, n.37, p.9-24, jan./jun. 2005 17
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almejava a laicização das diversas instâncias da vida social. Este processo de
mitificação histórica alcança o Positivismo que terá significativa importância
no Brasil Republicano. Em uma breve análise acerca dos 500 anos do descobri-
mento do Brasil, José Jobson Arruda comenta:
As festas cívicas inauguradas pela Revolução Francesa, muito parti-
cularmente o culto da humanidade, traduzido na idéia de “grande
homem”, foram incorporadas por Augusto Comte, reelaboradas e
sistematizadas, de modo a criar um arquétipo comemoracionista ca-
paz de fundar um novo calendário de festas cívicas, uma nova
hagiofrafia; em suma uma renovada construção da memória nacio-
nal.18

Abria-se um caminho em direção a uma história utilitária que apelava


constantemente a formas ritualísticas de evocar o passado, criando representa-
ções simbólicas que servissem como lições vivas da memória social. Buscava-se
a partir daí representações nacionais que “conferissem significado simbólico e
coletivo ao sentido do tempo e, concomitantemente, catalizasse as consciências
atomizadas à volta de memória(s) consensualizadora(s)”.19 Seguindo a máxima
comtiana de que “os vivos são e serão cada vez mais governados pelos mortos”,
o passado é revivificado; inscrevendo a história na condição de “mestra da vida”
e os mortos renascidos e cultuados como os heróis míticos. Ainda segundo
Arruda
Elogiar os mortos significa solidificar os laços de sociabilidade entre
os vivos e pressupõe, necessariamente uma dimensão religiosa da ci-
vilidade o que leva ao adensamento da comunhão de sentimentos e
ideais, passo decisivo na constituição da comunidade imaginária, pelo
reforço da noção de pertencimento.20

Novos heróis não-religiosos são postos em cena, re-presentados como


protagonistas de eventos cujos significados dizem mais respeito ao presente do
que propriamente ao momento do desenrolar dos fatos. À semelhança dos mi-
tos religiosos, os protagonistas históricos assumem a condição de heróis funda-
dores/civilizadores exemplares. O tempo, não mais mítico, mas histórico –
analogamente ao tempo do mito religioso – é ritualizado na medida em que os
eventos são, também eles, re-presentados isto é, reatualiados e presentificados.

18
Op. cit. nota 13.
19
Idem, p. 9.
20
Idem, p. 10
18 Ciênc. let., Porto Alegre, n.37, jan./jun. 2005/
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O caso brasileiro (a construção de uma identidade
nacional brasileira)
As tentativas de construção de uma identidade nacional brasileira atra-
vessam a história recente do país, beneficiando-se da produção historiográfica
de momentos diversos, gerando formas de memória social específica e assumin-
do o formato de narrativas míticas. É certo que a produção historiográfica não
escapa – como o mito – de uma presentificação e constante reatualização de seu
próprio conteúdo. Toda a história é filha de seu tempo, como já lembrava
Michelet e será, portanto, estudada em conformidade com as necessidades e
proposições definidas pelos historiadores de cada época. Lucièn Febvre, refor-
çando a tese, lembrava que a função social da história é organizar o passado em
função do presente. Isto, porém, não pode ser confundido com o que se enten-
de por mito. As diversas sínteses históricas produzidas que buscavam interpre-
tações e compreensões do passado histórico brasileiro são, em última análise,
“reconstruções racionais do Brasil, reconstruções do tempo histórico brasileiro,
em sua especificidade, oferecendo-lhe uma coerência, um sentido”.21
Assim é necessário que se perceba a diferença entre a produção
historiográfica propriamente dita, independentemente de suas forma de com-
preensão, e o processo de mitologização da história. Tal mitologização acom-
panha a própria história do país e, para os fins do presente artigo, elegemos dois
momentos que se nos apresentam como paradigmáticos na construção dos mi-
tos de nacionalidade e seus respectivos desdobramentos e que poderíamos defi-
nir como fundação e refundação da nacionalidade. Esses momentos correspondem
ao período que se segue à Independência e ao que se segue à instalação da Repú-
blica.
A rigor, a história do Brasil somente passa a ser objeto de estudo a par-
tir da Independência. Ao longo do período colonial, nas poucas escolas existen-
tes, seu ensino simplesmente não existia. No Primeiro Reinado evidenciou-se a
necessidade de o Brasil conhecer sua história e, em decorrência, constituir um
ponto de partida. Ora, o processo de independência foi levado a cabo, como se
sabe, pela própria Casa de Bragança na figura de D. Pedro, numa relação de
confronto político com a revolução liberal do Porto. Em certa medida, isso
representou a sobrevivência de alguns elementos do Antigo Regime, agora no
Brasil, ainda que distante do Absolutismo clássico. A instituição monárquica
centralizada na figura do Imperador, o Poder Moderador e o Real Padroado
representam, mais do que simbolicamente, tais sobrevivências. O ponto de par-
tida para o estudo da História do Brasil, portanto, situava-se precisamente na
chegada dos portugueses. A viagem de Cabral assumia importante significação

21
REIS, José Carlos. As identidades do Brasil: de Vanrhagen a FHC. Rio de Janeiro: Editora FGV,
2002, p. 15.
Ciênc.let., Porto Alegre, n.37, p.9-24, jan./jun. 2005 19
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na construção do início da história do Brasil. Acrescente-se a isso o fato de há
apenas pouco tempo ter vindo à tona a Carta de Caminha publicada por Aires
de Casal em 1817 na “Corografia Brasílica”.
Deu-se ao descobrimento uma dimensão simbólica evidente. A Assem-
bléia Constituinte de 1823 iniciou seus trabalhos em 3 de maio por proposição
do deputado Antonio Gomide, por ser essa a data do Descobrimento, apesar da
data de 22 de abril expressa na Carta de Pero Vaz de Caminha. A razão da data
tem um significado religioso: no calendário litúrgico católico 3 de maio é a
data da invenção da Santa Cruz e, no processo expansionista europeu, a cruz
sintetizava simbolicamente a expansão do cristianismo e da cultura européia. A
data de 3 de maio é mantida na Constituição Republicana de 1891, definindo
inclusive a data de reunião do Congresso Nacional, vigorando até a época da
Constituição de 1946, quando a Comissão de Educação e Cultura da Câmara
dos Deputados recomenda o 22 de abril como data do Descobrimento.
A dimensão simbólico-religiosa é, como demonstra Marilena Chauí,22
resultado de uma combinação de elementos que envolvem:

a) a idéia de sagração da natureza, em que o Brasil é descrito como um


Éden, um paraíso perfeito com vegetação luxuriante e bela. Enfim,
como uma terra abençoada por Deus;
b) a idéia da sagração da história: trata-se de uma história teológica, em
que a vontade divina se cumpre do ponto de vista de uma teofania
(revelação de Deus no tempo) e de uma epifania (revelação da verda-
de divina no tempo) ao mesmo tempo em que se revela profética
(cumprimento da vontade divina) e soteriológica (promessa de re-
denção no tempo). Essa história, de caráter providencialista, passa a
reforçar as idéias de que o Brasil é o país do futuro, que Deus teria
escolhido o povo brasileiro como seu Povo Eleito, enfim, “Deus é
brasileiro”;
c) a idéia da sagração do governante, herdada do absolutismo e de ma-
triz judaico-cristã. O governante possui dois corpos: o corpo físico,
humano e o corpo político, místico, imortal, divino que lhe é dado
por Deus. Assim, o Estado antecede a própria sociedade e tem sua
origem fora dela.

Este último elemento define em grande parte, do ponto de vista ideoló-


gico, o caráter autoritário que assumiu o Estado brasileiro ao longo da história.
O recém-fundado Estado brasileiro encontrava as bases de sua história
tendo o “Descobrimento” como ponto de partida. Porém, havia ainda a neces-
sidade de se ampliar seu estudo. Em 1837 foi criado o Colégio Pedro II onde
eram ministradas noções de História do Brasil. Em 1849 é criada a Cadeira de

22
CHAUÍ, p. 57-67.
20 Ciênc. let., Porto Alegre, n.37, jan./jun. 2005/
Disponível em: <http://www.fapa.com.br/cienciaseletras/publicacao.htm>

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História do Brasil, sendo nomeado o poeta Antonio Gonçalves Dias como pro-
fessor. À época da fundação do Colégio, em 1838, é criado o Instituto Históri-
co e Geográfico Brasileiro que vai se preocupar com o desvendamento do pro-
cesso de gênese da nação brasileira. Os seus integrantes entendiam que a idéia
de construção da nação não se assentava sobre uma oposição à metrópole, mas,
ao contrário, entendiam a nova nação como continuadora da obra civilizatória
européia.23 Assim, o IHGB instituiu um concurso, vencido em 1847 pelo natu-
ralista alemão Karl Friedrich Philipp Von Martius. O texto de Von Martius,
intitulado “Como se deve escrever a história do Brasil”, datado de 1843, defendia
a idéia de que a nação brasileira se definia pela mistura de gentes e cores e que o
historiador deveria “mostrar como no desenvolvimento sucessivo do Brasil se
acham estabelecidas as condições para o aperfeiçoamento das três raças huma-
nas que nesse país são colocadas uma ao lado da outra.”24 Lado a lado, mas não
em pé de igualdade. Von Martius utiliza-se de uma metáfora na qual a herança
portuguesa corresponde a um poderoso rio que deveria “absorver os pequenos
confluentes das raças India e Ethiopica.”25 O autor estabelece ainda uma hierar-
quia entre os três rios: um grande e caudaloso, representado pela raça branca;
outro, menor, formado pelos de “cor de cobre”, em estado de degeneração; e
um ainda menor, o dos negros, ao qual dedica apenas dois pequenos parágrafos.
Os três passam a viver em uma convivência harmoniosa que apenas no Brasil
foi possível.
Constituíam-se assim os princípios que iriam nortear os mitos da naci-
onalidade brasileira naquilo que se poderia definir como a parte arquetípica,
com elementos recorrentes, em torno da qual se ajusta narrativa, conforme as
necessidades do momento, como a de democracia racial ou mesmo a constru-
ção de mitos de heróis como o de Vargas.
Um segundo momento significativo pode ser considerado como o de
re-fundação, este, de caráter mais político. A implantação da República no Bra-
sil em 1889 deparou-se com um problema significativo: o elogio da presença
lusa no Brasil (como em Varnhagen, 1850) implicava implicitamente a idéia de
uma continuidade da civilização portuguesa no Brasil. Do ponto de vista políti-
co, isso era representado pela permanência dos Bragança ao longo dos Primeiro
e Segundo Reinados. O modelo republicano necessitava banir da memória na-
cional a sua identificação com a monarquia recém-deposta. A esse propósito,
Marly da Silva Motta comenta:

23
PICCOLO, Helga Iracema Landgraf. 500 anos do descobrimento do Brasil: experiências e expec-
tativas. Aula Inaugural do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UFRGS, 13 de abril de
1999.
24
MARTIUS, Karl Von. Como se deve escrever a História do Brasil. Citado por SCHWARCZ,
Lilia Moritz In: SIMAN, Lana Mara de Castro e FONSECA, Thais Nívea de Lima (org.) Inaugu-
rando a História e construindo a nação: discursos e imagens no ensino de História. Belo Horizonte,
Autêntica, 2001, p. 9.
25
Idem, p. 9.
Ciênc.let., Porto Alegre, n.37, p.9-24, jan./jun. 2005 21
Disponível em: <http://www.fapa.com.br/cienciaseletras/publicacao.htm>

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O processo de construção de uma nação republicana em fins do sécu-
lo XIX exigia, pois, a formulação de um passado que sacralizasse essa
nação e seus lugares de identificação – os ‘lugares da memória’ -,
marcando um espaço simbólico nacional-republicano. Heróis como
Tiradentes, símbolos como a bandeira, o hino nacional e celebrações
do calendário cívico, foram articulados nos primeiros anos da Repú-
blica, anos de invenções de tradições. A França foi modelo de inspi-
ração para muitas dessas iniciativas que visavam, antes de tudo, fir-
mar os valores republicanos no coração e na mente dos brasileiros.
Os positivistas destacaram-se nessa tarefa: detentores de uma
metodologia ‘científica’, conduziram um intenso trabalho de recons-
trução da memória nacional, que procurava situar a República na
nacionalidade.26

A construção de um mito das origens novamente se apresentava na pau-


ta. O regime republicano, além do problema da legitimidade (a proclamação da
República assumia a conformação de um golpe militar), enfrentava a questão
da ausência de uma forte tradição republicana. Portanto,
Era preciso deixar claro que a República não fora obra do acaso ou
do capricho dos militares, mas sim fruto de memoráveis aconteci-
mentos passados. O ideal republicano teria sido uma presença cons-
tante ao longo da história brasileira, começando pelo Quilombo dos
Palmares, pela Guerra dos Mascates, passando pela Inconfidência Mi-
neira, a Revolução Pernambucana, Farrapos e Balaiada, para final-
mente concretizar-se em 1889, como a culminância de uma longa
luta.27

Tentou-se instituir, por inspiração do positivismo, novas datas no ca-


lendário cívico brasileiro: 1º de janeiro, 14 de julho, 12 de outubro, 2 de no-
vembro (fraternidade universal) e datas evocativas à comunhão nacional como
21 de abril (comemoração dos precursores da Independência reunidos em
Tiradentes), 3 de maio (Descobrimento), 13 de maio (fraternidade dos brasilei-
ros), 7 de setembro (independência) e 15 de novembro (comemoração da pátria
brasileira).
O 7 de setembro, em particular, passava a representar uma dificuldade
aos republicanos, uma vez que – como marco da ruptura com Portugal – repre-
sentava também a continuidade da monarquia. Procurou-se por algum tempo
uma substituição para aquela que era, afinal, a data máxima da monarquia bra-
sileira. É significativo que Deodoro da Fonseca, em sua mensagem de abertura
dos trabalhos do Congresso Constituinte, advertisse: “E para os que quiserem
ver na independência alcançada em 1822 a palavra suprema de nossos anseios,
apontaremos o 7 de abril de 1831, em que banimos o nosso primeiro Impera-

26
MOTTA, Marly Silva da. A nação faz cem anos: a questão nacional no centenário da independên-
cia. Rio de Janeiro: Ed. Da Fundação Getúlio Vargas – CPDOC, 1992, p. 13.
27
Idem, p. 13.
22 Ciênc. let., Porto Alegre, n.37, jan./jun. 2005/
Disponível em: <http://www.fapa.com.br/cienciaseletras/publicacao.htm>

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dor.”28 A data não foi porém de todo esquecida e a Gazeta de Notícias de 7 de
setembro de 1891, lamentando a “festa monarquista”, diz que: “Não pode dei-
xar de ser tristemente hipócrita e indecoroso este falseamento das convicções
democráticas com a insinuação de uma tal data nos dias festivos do Calendário
da República.”29
A polêmica se estende como fruto da difícil conciliação entre a memó-
ria monarquista e a republicana. Nesse processo se dá o resgate histórico de
José Bonifácio como cientista, brasileiro, favorável ao fim da escravidão, aman-
te da ordem, denominado “Patriarca da Independência”. Bonifácio representa-
va a síntese das correntes que forjaram a nação brasileira e que “sacrificara a
República, é certo, mas em prol da estabilidade e mesmo da existência da Pá-
tria. O 15 de novembro viria a coroar seus esforços”.30 A partir de 1895, numa
clara intenção de aproximar a Independência com a República e romper sua
identificação com a monarquia, o 7 de setembro passou a ser comemorado com
paradas militares.
Definia-se uma nova síntese: mantinha-se a herança portuguesa respon-
sável pela introdução da civilização greco-romana no país e da moral cristã,
porém associados à nova tradição republicana que se constituía.
Assim, os modelos mítico-paradigmáticos constituídos na historiografia
brasileira seguem o preceito anteriormente estabelecido por Von Martius, que
propunha uma “história pragmática” seguindo um modelo patriótico de recontar
o passado. Isso se perpetua nas diversas representações feitas do passado brasi-
leiro, como, por exemplo, na iconografia, com as re-presentações da Primeira
Missa, de Vítor Meireles; o quadro da Independência de Pedro Américo; re-
presentações de Tiradentes, etc., e nos ritos cívico-patrióticos, em especial, os
desfiles que marcam a data da independência. Define-se assim um uso da histó-
ria claramente mitificada como memória política seletiva.
Tais representações tendem a reduzir momentos de conflito e tensão
presentes na história do país, desde Canudos até o MST, considerando-os como
obra de fanatismo ou atraso. As questões sociais são minimizadas à medida em
que as diferenças são colocadas “lado a lado”. Os mitos profético-providencialistas
e o enaltecimento dos governantes como salvadores da pátria propaga a idéia de
uma nação pacífica, sem violência – política – seguramente conduzida. A inven-
ção de tradições e a construção de mitos obliteram não somente o passado, mas
lançam também uma cortina de fumaça sobre o presente. O passado não é usa-
do para explicar ou compreender o presente, mas para justificá-lo.

Recebido em maio de 2004.


Aprovado em agosto de 2004.

28
Citado por MOTTA, op. cit., p. 14.
29
Citado por MOTTA, p. 15.
30
MOTTA, p. 16.
Ciênc.let., Porto Alegre, n.37, p.9-24, jan./jun. 2005 23
Disponível em: <http://www.fapa.com.br/cienciaseletras/publicacao.htm>

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Title: Brazil: the founding myths of nationality

Abstract
These article intents to make a synthetic study of the way the founding myths of the Brazilian
nationality were built and perpetuated as part of the political projects of Monarchy and Republic
periods.

Key words: nationality, myth, national memory.

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24 Ciênc. let., Porto Alegre, n.37, jan./jun. 2005/


Disponível em: <http://www.fapa.com.br/cienciaseletras/publicacao.htm>

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