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TERCEIRO SETOR E ECONOMIA SOCIAL *

Leopoldo Costa Júnior **

1. Introdução

O objetivo desse ensaio é pontuar os elementos mais importantes da relação que


existe entre Terceiro Setor e Economia Social. Não é nossa pretensão fazer uma relação
completa dos elementos pertinentes a essa análise e, nem mesmo, explorar cada um dos
tópicos levantados a fundo. Vamos sugerir apenas algumas pistas a serem seguidas e
deixar para outros trabalhos a tarefa de levar adiante esse estudo.

2. Identidade do Terceiro Setor

Chamamos de primeiro setor o setor estatal, de segundo setor o setor privado.


Aquelas organizações privadas que são públicas por suas finalidades, que não
conseguimos encaixar em quaisquer dessas duas categorias mencionadas, chamamos de
Terceiro Setor. São organizações não-governamentais, institutos, fundações, entidades de
classe, associações profissionais, movimentos sociais os mais variados, enfim uma
imensa gama de entidades atuando nas mais diversas áreas sociais. O que acontece com
certa freqüência é todos esses organismos não se reconhecerem sob uma mesma

*
Esse texto é uma versão alterada de duas apresentações feitas no I Encontro Paranaense de Fundações
Privadas (Curitiba, outubro de 1997) e nas Faculdades Osvaldo Cruz (São Paulo, novembro de 1997).
Agradeço aos Profs. Sérgio Goldbaum, Sérgio Ishikawa, Patrícia de Souza, Frederico Turolla - meus
colegas na Fundação Getulio Vargas e Universidade Mackenzie - e, em especial, ao Prof. Luiz Carlos
Merege - meu orientador acadêmico - pelos comentários feitos a uma versão preliminar desse trabalho. Os
erros e imperfeições remanescentes são de minha exclusiva responsabilidade.
**
O autor é bacharel em Administração de Empresas e mestrando em Economia pela Escola de
Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (EAESP-FGV). É colaborador do
Centro de Estudos do Terceiro Setor (CETS) dessa mesma instituição e professor de Economia na
Universidade Mackenzie, Universidade Paulista e Faculdades Prudente de Moraes.
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denominação - terceiro setor, setor não lucrativo, setor independente etc. - ou mesmo as
pessoas não reconhecerem um suposto sentimento altruísta que as motivaria.

De fato não são questões fáceis de serem respondidas: o que motiva as pessoas a
agirem assim? Será altruísmo ou alguma forma de egoísmo derivada da satisfação alheia?
(Já dizia o músico Raul Seixas que “o auge do meu egoísmo é querer ajudar”.) O que são
essas entidades? Organismos sem fins lucrativos ou não-governamentais? Afinal o que é
o Terceiro Setor? Será possível colocar debaixo do mesmo guarda-chuva fundações,
sindicatos e terreiros de umbanda?

Os exemplos escolhidos servem muito bem para ilustrar a polêmica que existe a
respeito do que vem a ser Terceiro Setor. Apesar de não haver dúvidas quanto ao fato, no
caso das fundações pertencerem a essa categoria, o mesmo não podemos dizer das
organizações de classe e igrejas. Os sindicatos, por exemplo, por vezes são excluídos,
dependendo do autor, por serem organizações de caráter corporativo que atuam
diretamente no conflito capital-trabalho típico do setor privado da sociedade.

3. A invisibilidade do Terceiro Setor

Embora tenhamos dificuldades em dizer o que é o Terceiro Setor, podemos


afirmar, de forma mais ou menos aproximada, quais são e o que são essas organizações
não-governamentais que o compõem, mesmo que se duvide que elas estejam realmente
motivadas por outras razões que não o lucro. Podemos até mesmo ver muitas delas com
espaço na mídia, mas a maioria não aparece, sequer desconfiamos que existam. Uma
pesquisa parcial, feita em alguns cartórios de São Paulo, encontrou registro de cerca de
28 mil entidades diversas, sendo que 8 mil delas são terreiros de umbanda! E o que dizer
daquelas entidades, a maioria sem dúvida, que não possuem registro em cartório nem têm
organização formal? O que aparece do Terceiro Setor é apenas a ponta do iceberg...

Existem basicamente três grandes motivos que explicariam essa invisibilidade.


Sem dúvida, a inexistência de um consenso teórico sobre o Terceiro Setor e as razões que
motivam as entidades que o compõem são parte da resposta. Como podemos esperar
mensurar o tamanho que esse setor teria se não conseguimos precisar o que entendemos
por Terceiro Setor? Se nos circunscrevermos ao âmbito das entidades tidas como de
assistência social e/ou de utilidade pública não estaremos sequer cobrindo a ponta do
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iceberg.

Um segundo motivo para a invisibilidade do Terceiro Setor é que muitos desses


organismos não têm registro legal. São cidadãos que se reúnem para executar algum tipo
de trabalho social, em geral pequenas iniciativas, mas que, no seu conjunto, são muito
importantes para a sociedade: pessoas que se juntam para servir refeições aos moradores
de rua, grupos de profissionais de saúde que prestam assistência a comunidades carentes,
estudantes universitários que organizam cursinhos pré-vestibular para os seus colegas de
baixa renda que estão concluindo o 2º grau, etc.

Outro problema sério a esse respeito é a ausência de dados sobre o Terceiro Setor
nas Contas Nacionais. Desde os anos 30, com a quebra da Bolsa de Nova Iorque, os
governos passaram a dar muita importância para o planejamento econômico e passaram a
utilizar de maneira crescente um dos instrumentos que fora desenvolvido pelos
economistas para orientar a ação estatal, que é justamente o Sistema de Contas Nacionais,
que ordena e sintetiza as informações coletadas sobre os diversos setores, permitindo uma
visão agregada dos fenômenos econômicos. Ocorre, no entanto, que, se procurarmos
dados na conta do Terceiro Setor nas Contas Nacionais brasileiras (e na quase totalidade
dos países do mundo), descobriremos que essa conta simplesmente não existe. Vamos
encontrar apenas alguns dados pertinentes ao Terceiro Setor sob a Conta de Serviços,
que, além de aumentar a confusão fazendo com que se misturem conceitos
completamente distintos de setor terciário e terceiro setor, vão ser apenas parciais.

4. A contribuição acadêmica

A academia (universidades, centros de estudo, núcleos de pesquisa) tem voltado


seus olhos para o Terceiro Setor. São universidades de peso como a Johns Hopkins, a
Harvard e muitas outras. Um sinal claro da atenção que diversas universidades e centros
de pesquisa em todo mundo estão dando ao assunto é a fundação, em 1992, do ISTR -
International Society for Third-Sector Research -, uma sociedade internacional voltada
exclusivamente para o Terceiro Setor, que incentiva a pesquisa nessa área, publica uma
revista científica sobre o tema - chamada Voluntas - e realiza encontros e seminários
periódicos nos quais são apresentados trabalhos e trocas de experiências.

A Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio


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Vargas, que foi a primeira escola da América Latina a oferecer cursos de Administração
de Empresas e Administração Pública, também foi pioneira nesse campo no Brasil. Já em
setembro de 1994, a EAESP passou a ter um centro de estudos dedicado ao assunto - o
Centro de Estudos do Terceiro Setor (CETS) - e a oferecer, a partir de 1995, um curso
para administração de organizações não-lucrativas em bases regulares, por meio do
Programa de Educação Continuada (PEC).

Todas essas iniciativas são muito importantes porque mostram o reconhecimento


de que administrar uma organização não lucrativa é diferente de administrar uma empresa
privada ou uma empresa pública, trata-se de uma forma de gestão particular. Estão sendo
feitas diversas pesquisas em todo o mundo - e não apenas no campo da administração ou
da economia, mas em todas as outras ciências sociais - procurando entender melhor o
Terceiro Setor e as diferenças entre ele e os dois outros setores da sociedade.

5. Dados sobre o Terceiro Setor

A Johns Hopkins University promoveu uma pesquisa em 1994, da qual iremos


apresentar alguns dados que nos darão uma idéia das dimensões do Terceiro Setor.1 Essa
pesquisa tinha a intenção de avaliar a dimensão econômica do Terceiro Setor (pessoal
empregado, volume de recursos movimentados, origens e aplicações desses recursos,
participação nos diversos campos etc.). A idéia era fazer essa pesquisa em 12 países,
desenvolvidos e em desenvolvimento, nos diversos continentes, que refletissem o estágio
de desenvolvimento do Terceiro Setor. Infelizmente não foi possível realizar tal intento
nos cinco países menos desenvolvidos - dentre os quais o Brasil -; por esse motivo,
iremos apresentar dados apenas sobre os outros países, seis deles desenvolvidos (Estados
Unidos, Alemanha, França, Itália, Reino Unido e Japão) e um integrante do antigo bloco
socialista (Hungria).

Dimensões financeiras

A primeira tabela ilustra os volumes de despesas do setor não lucrativo que foram
encontradas nos sete países que mencionamos. Digna de nota é o respeitável volume
movimentado pelo setor não lucrativo nos EUA. Isso reflete três coisas: a tradição dessa

1
Vide Salamon e Anheier (1994).
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sociedade em formar tais organizações - que vem de longa data e deve ter suas raízes na
forma de colonização norte-americana -, o profissionalismo de inúmeras delas -
encontramos fundações imensas com orçamentos bilionários e que só poderiam ser
gerenciadas por profissionais altamente qualificados - e, também, um volume de
informações estatísticas disponíveis muito bom.

A participação dessas despesas no Produto Interno Bruto (PIB) desses países é,


em média, de 3,5%. Se esse número for projetado para o Brasil, como temos um PIB ao
redor de US$ 600 bilhões, podemos estimar o tamanho do nosso Terceiro Setor como
algo ao redor de US$ 20 bilhões.

Tabela 1
Despesas do setor não lucrativo

País US$ Bi % PIB


Hungria 3,9 1,20
Itália 21,6 2,00
Japão 94,9 3,20
França 39,9 3,30
Alemanha 53,7 3,60
Reino Unido 46,6 4,80
EUA 340,9 6,30
Fonte: Salamon e Anheier (1994)

A Tabela 2 nos mostra de que forma se distribuem os recursos para financiamento


do Terceiro Setor no conjunto dos países pesquisados. É fácil perceber como estes setores
estão estruturados de formas diferentes devido a aspectos históricos, econômicos, legais
etc.

As famílias são as principais financiadoras em quase todos os países (com


exceção da França e da Alemanha onde cabe ao setor público esse papel) contribuindo
principalmente com o trabalho voluntário. De qualquer forma, para esse conjunto de
países, as participações das famílias e do setor estatal são, em média, praticamente iguais.
As doações do setor privado, que representam os 10% restantes do financiamento do
Terceiro Setor, são particularmente expressivas na Hungria e nos EUA e muito pouco
significativas no Japão, na Itália e na Alemanha.
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Tabela 2
Financiamento do setor não lucrativo - %

País Famílias Setor Público Setor Privado


Japão 60 38 1
Hungria 57 23 20
Itália 53 43 4
EUA 51 30 19
Reino Unido 48 40 12
França 34 59 7
Alemanha 28 68 4
Média 47 43 10
Fonte: Salamon e Anheier (1994)

Composição do setor não lucrativo

A Tabela 3 nos ajuda a explicar melhor essas diferenças porque vemos que as
organizações não lucrativas atuam de forma diferenciada nos diversos países. 2 As
entidades dedicadas à educação têm muita importância no Japão e no Reino Unido,
aquelas dedicadas à saúde são expressivas nos EUA e na Alemanha, e na Hungria se
destacam as dedicadas às artes e cultura.
Tabela 3
Composição do setor não lucrativo - %

País Outros Negócios Serviço Social Saúde Educação Cultura, Artes


Japão 6 11 14 28 40 1
Reino Unido 13 7 12 4 43 21
EUA 6 5 10 53 23 3
Alemanha 18 5 23 35 12 7
França 11 3 29 14 25 18
Itália 4 23 25 17 22 9
Hungria 3 10 25 1 4 57
Média 8 9 20 22 24 17
Fonte: Salamon e Anheier (1994)

A tabela seguinte mostra a participação das firmas, Estado e famílias no


financiamento de cada uma das atividades mencionadas anteriormente. Notem a
destacada participação das famílias no financiamento de entidades profissionais e de
cultura e lazer. O Estado tem uma grande participação em financiar as entidades que

2
A categoria “negócios” inclui a parte de treinamento e assessoria técnica e a categoria “outros” inclui
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trabalham com saúde, serviço social e direito. O peso maior das firmas fica com as
organizações que trabalham com a área internacional e com filantropia. É desnecessário
dizer que essas cifras são razoavelmente diferentes para cada um dos sete países
pesquisados.

Tabela 4
Financiadores do setor não lucrativo nas diversas atividades - %

Famílias Setor Público Setor Privado


Profissional 92 5 3
Cultura e Lazer 66 22 12
Filantropia 54 12 34
Meio Ambiente 51 34 15
Habitação 51 37 12
Educação e Pesquisa 50 42 8
Ativ. Cívicas e Direito 40 50 10
Serviço Social 33 51 16
Internacional 30 35 35
Saúde 25 59 15
Todos os Setores 47 43 10
Fonte: Salamon e Anheier (1994)

Pessoal empregado

O último aspecto importante a ser comentado no que tange aos dados sobre o
Terceiro Setor são as informações relativas à quantidade de pessoal empregado. Esse é
um aspecto que está chamando muito a atenção dos especialistas porque, ao contrário do
setor estatal e do setor privado, o Terceiro Setor não está dispensando mão-de-obra, ao
contrário, está absorvendo contingentes crescentes de trabalhadores.

A tabela a seguir nos indica quantas pessoas são empregadas pelo setor não
lucrativo nos países pesquisados (excluída a Hungria), comparando com o número de
empregos gerados pela maior empresa privada.

habitação, meio ambiente, filantropia, direitos humanos etc.


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Tabela 5
Comparação entre empregados no setor não lucrativo e o maior empregador
privado dentre os países pesquisados

País Empresa Empregados Setor Não


Não Lucrativo/
Lucrativo Maior
Empresa
França Alcatel-Alsham 213.000 802.619 3,8
Alemanha Dainle-Benz 381.000 1.017.945 2,7
Itália Fiat 128.000 416.383 3,3
Japão Hitachi 274.000 1.440.228 5,3
Reino Unilever 298.000 945.883 3,2
Unido
EUA General Motors 717.000 7.120.000 9,9
Total 2.011.000 11.743.058 5,8

Fonte: Salamon e Anheier (1994)

6. Crescimento recente do setor

O Terceiro Setor vem apresentando um crescimento impressionante, como pôde


ser exemplificado pelos números acima. Vamos procurar examinar rapidamente os
principais argumentos que justificam o redirecionamento de tantos recursos e a dedicação
de tantas pessoas para a economia social.

A crise do Estado de Bem-Estar Social

Um dos motivos para que o crescimento do Terceiro Setor ocorra se deve à


falência do Estado de Bem-Estar Social. O Welfare State, que surgiu após a II Guerra
Mundial na Europa Ocidental com a finalidade de garantir condições de vida dignas a
todos os seus cidadãos, sucumbiu nos anos 80 após uma crise que o impossibilitou de
sustentar a sua ação social. Não vamos nos alongar aqui sobre os motivos dessa crise,
mas certamente a ausência do Estado como provedor de certos tipos de bens levou a
sociedade civil a organizar-se para garantir a provisão desses bens. Nós, brasileiros e
latino-americanos em geral, que não conhecemos essa forma de organização estatal e que
tivemos quase sempre um estado patrimonialista, não conseguimos ter uma idéia precisa
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do alcance desse fato.

A queda do Leste Europeu

A queda do Leste Europeu nos afetou duplamente. Em primeiro lugar, o fim do


socialismo real afetou, de forma direta ou indireta, a todos os agentes sociais que lutavam
por mudanças necessárias na sociedade, sejam aqueles que tinham tal sistema como
alternativa ao capitalismo e às injustiças sociais provocadas por ele, sejam aqueles outros
que sofreram com a crise das utopias e com o propalado “fim da história”.

Em segundo lugar, a desagregação social provocada pelo fim do regime socialista


na Europa Oriental e a necessidade que as nações da Europa Ocidental tiveram de investir
nessa região para não ampliar os conflitos étnicos e políticos que já enfrentam com a
migração para seus territórios redirecionaram grande parte dos investimentos desses
governos europeus e das agências e organizações internacionais para o antigo bloco
socialista deixando, em segundo plano, a América Latina e a África, que eram, até então,
os principais receptores de tais recursos.

A terceira revolução industrial

A terceira revolução industrial está intimamente ligada ao crescimento do


Terceiro Setor. A tecnologia aumentou a produtividade do trabalho em proporções
inimagináveis até bem pouco tempo e, mais do que isso, provocou uma reformulação do
processo produtivo que, ao eliminar milhões de postos de trabalho, está colocando massas
enormes de trabalhadores nas ruas sem quaisquer perspectivas de retorno.

Essa redução dos postos de trabalho está deslocando uma importante parcela da
população para a economia informal. Isso afeta a sociedade de duas formas perversas: por
um lado, aumentando a demanda pelos serviços estatais e, por outro, reduzindo o número
de contribuintes para o financiamento de tais despesas. Aliás, esse foi um dos motivos
(existem outros) para a crise do Estado de Bem-Estar Social: foi relativamente fácil
garantir a proteção social quando as taxas de crescimento da economia mundial eram
elevadas (5% ao ano nos anos 60 e 3,6% nos anos 70) e o desemprego era baixo; hoje a
situação é bem diversa (a taxa de crescimento da economia mundial na primeira metade
dos anos 90 foi de apenas 2%).
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O aumento da demanda por emprego e por serviços públicos (estatais), tanto em


quantidade como em qualidade, contrasta com a redução quantitativa e qualitativa da
oferta. Esse quadro torna mais agudos os focos de tensão da sociedade e cria dois mundos
diferentes e cada vez mais distantes: o mundo dos ricos e o mundo dos pobres.

No mundo dos ricos todos são cidadãos e têm um emprego formal mas,
curiosamente, não têm acesso a saúde, educação, segurança etc. por pertencerem ao
Estado, mas porque pagam por tais serviços a organizações privadas, sejam elas
lucrativas ou não.

No mundo dos pobres (que também são cidadãos, mas cidadãos cada vez menos
iguais aos primeiros), o acesso a serviços públicos de qualidade, sejam eles privados ou
estatais, é cada dia mais difícil, ao mesmo tempo que esses cidadãos de segunda classe
estão se tornando cada vez mais desnecessários ao processo produtivo uma vez que, se
antes já não serviam como consumidores, agora já não servem nem mesmo como exército
industrial de reserva. São homens e mulheres que estão à margem da nossa sociedade,
que recentemente denominamos excluídos.

A revolução das comunicações

Essa mesma revolução tecnológica, ao impactar sobre os meios de comunicação,


trouxe mudanças notáveis para a ação social. Conseguimos nos comunicar de maneira
instantânea e barata e ter acesso a um volume de informações incomensuráveis. Isso
mudou muitos paradigmas nossos: como o volume de informações é muito grande, temos
que selecioná-las nos valendo de filtros cada vez mais finos (e, por vezes, ignorando
aspectos relevantes); não valorizamos mais aqueles que têm informação, mas sim aqueles
que sabem onde obtê-la e, fundamentalmente, o que fazer com ela.

Do ponto de vista das organizações do Terceiro Setor, os efeitos mais importantes


dessa revolução das comunicações parecem dar-se em dois níveis. Do ponto de vista
macroeconômico, a tecnologia favoreceu a integração dos mercados e reduziu a margem
de manobra dos Estados Nacionais: o mercado financeiro internacional pode movimentar
volumes imensos de recursos de um lugar para outro do mundo em busca de taxas de
retorno maiores e riscos menores com um custo baixíssimo para realizar tais transações.
Isso cria uma competição entre esses Estados para receber tais recursos (que reduzem as
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barreiras ao capital financeiro) e aumenta a volatilidade desses mercados fazendo com


que pequenas mudanças causem grandes movimentações de capitais especulativos.

Do ponto de vista microeconômico, as alterações mais importantes são aquelas


que as próprias estruturas organizacionais estão sofrendo. Graças às tecnologias para
trabalho em grupo, de transmissão de dados à distância etc., as organizações estão
funcionando de maneira mais horizontalizada e articulando-se em rede. Isso lhes dá uma
agilidade que era impensável com a antiga estrutura hierárquica piramidal, além de
permitir o funcionamento eficiente de uma estrutura organizacional menor, mais ágil e
autogerida, que é o caso da maioria das organizações não lucrativas.

7. O caso brasileiro

Vamos considerar agora o caso brasileiro. Como em todo o mundo, o Terceiro


Setor brasileiro está crescendo espetacularmente. Estudos mostram que as organizações
filantrópicas brasileiras já existem de longa data,3 mas nos últimos anos elas têm ganhado
muito espaço na mídia, nas políticas governamentais, no relacionamento com as empresas
privadas e nos meios acadêmicos. Todas as razões levantadas anteriormente ajudam a
explicar essa efervescência da sociedade civil também para o Brasil, mas existem alguns
fatores históricos particulares que devem ser lembrados.

Desigualdade

Às taxas espetaculares de crescimento econômico que registramos nos anos 70, no


período do “milagre” brasileiro (quando o PIB crescia a uma média de impressionantes
7% ao ano), sobreveio a estagnação econômica: os anos 80 ficaram conhecidos pelos
economistas como a “década perdida”. Do ponto de vista político e social, no entanto, foi
uma década muito importante; os países latino-americanos voltaram ao regime
democrático após duas décadas de ditadura militar e repressão aos movimentos sociais e a
sociedade civil voltou a organizar-se e a manifestar-se.

O regime militar nos deixou como legado uma sociedade mais rica, pelo menos
em termos econômicos, mas profundamente desigual: ao mesmo tempo que somos uma
das dez maiores economias do mundo pelo tamanho do nosso PIB, temos também uma

3
A esse respeito, vide o trabalho de Landim (1993).
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das piores distribuições de renda. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do


Brasil, que é um índice desenvolvido pelas Nações Unidas para medir não apenas a renda
per capita, mas também as condições gerais de vida da população no que tange à saúde,
habitação, educação etc., é apenas medíocre.

A bandeira do restabelecimento do regime democrático, que unia os mais diversos


segmentos da sociedade, deixou de existir ao mesmo tempo que o bolo, que cresceu
durante anos e não foi repartido. A aparente homogeneidade da sociedade civil durante os
anos de chumbo explodiu em uma onda de movimentos de natureza reivindicatória que
estavam contidos pela truculência do regime. Movimentos pela saúde, educação,
habitação etc. passaram a exigir do Estado, no início, ações muito pontuais como uma
creche ou uma escola, mas aos poucos passaram também a discutir as políticas públicas
para essas áreas e a formular propostas de atuação.

Novos rumos

A crise do Estado levou muitos desses movimentos a atuarem em campos nos


quais esse Estado não atuava mais de maneira eficaz. É o caso de estudantes que, apesar
de críticos ao descaso do governo com a educação, resolvem promover um cursinho pré-
vestibular para estudantes de baixa renda, que são os mais duramente afetados pela falta
de qualidade de ensino por não terem a opção de fazer uma escola privada uma vez que
não têm como arcar com as mensalidades. É o caso também de favelados que se
organizam em mutirão para erguerem casas, apesar de pleitearem uma política
habitacional que dê solução a esses tipos de casos. E muitos outros...

Isso nos leva a uma reflexão importante. A sociedade civil pode se organizar de
maneira eficiente e fornecer certos tipos de bens que as empresas privadas não têm
interesse em fornecer por serem bens públicos ou por não apresentarem perspectivas
lucrativas e que o Estado, por outro lado, se vê impossibilitado de fazer, seja por uma
restrição orçamentária, seja por uma incapacidade ou incompetência administrativa. Se
houver uma maneira de canalizar o potencial de tais organizações, poderemos ter uma
estrutura estatal mais flexível e, ao mesmo tempo, atender a um número maior e mais
diversificado de demandas sociais. Assim, por exemplo, o Estado poderia favorecer um
ensino básico confessional deixando-o a cargo de instituições religiosas que atenderiam
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aquela parcela da população que quer uma educação desse tipo; certamente essas pessoas
ficariam mais felizes com a alternativa do ensino confessional.

Existem, no entanto, muitas questões que precisam ser respondidas: como assegurar ao
contribuinte que o dinheiro público está sendo bem empregado sem sufocar essas
organizações com exigências burocráticas? Em que medida é justo atender a certas
demandas sociais específicas e deixar outras, mais amplas e genéricas desatendidas? Que
critérios utilizar? Os esforços de um variado número de especialistas (economistas,
administradores públicos e outros cientistas sociais) estão sendo direcionados para essa
área na tentativa de dar resposta a essas perguntas e a outros questionamentos que possam
ser feitos a respeito do Terceiro Setor.

8. Novo desenho da sociedade

Enfim, que tipo de sociedade temos por meta construir no século XXI? Que
legado nos foi deixado pelas gerações que nos precederam e que legado vamos deixar
para aquelas que hão de nos suceder? A dicotomia que existia, e que nós mesmos
criamos, entre mercado e Estado, parece estar sendo superada, não com a entrada em cena
de um terceiro ator, que sempre esteve lá,4 mas com o seu reconhecimento. Isso nos faz
pensar em um novo desenho para a sociedade.

Por motivos variados, o Estado está ocupando um espaço menor na vida das
pessoas. Ocorre, no entanto, que o mercado, deixado às suas próprias forças, não está
melhorando o bem-estar da sociedade como um todo, mas está tornando-a cada vez mais
desigual. Por esses motivos, mudanças sociais são necessárias, e o Terceiro Setor, a
sociedade civil organizada, deve se tornar um instrumento dessa mudança.

Com a crise das utopias, os projetos mais globais de mudança perderam espaço,
mas isso não significa que não existam mais pessoas com ideais e dispostas a lutar por
eles, muito pelo contrário, agora essas pessoas têm uma alternativa para atuar na
sociedade que é qualitativamente diferente da que tinham antes. Não precisam mais
aguardar a vitória do seu projeto de sociedade, podem começar a agir já, participando na

4
O Terceiro Setor sempre existiu, como nos mostram diversas pesquisas, sendo, inclusive, anterior ao
Estado, fazendo até com que alguns autores, respeitando a ordem cronológica, o chamem de Primeiro Setor
em vez de Terceiro.
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sua comunidade. E as mudanças na sociedade não precisam mais começar pelo alto,
podem começar ali mesmo, na organização não-governamental ou na fundação em que
elas atuem.

Um outro verso do músico Raul Seixas sintetiza um pouco os anseios de todos


aqueles que trabalham com o Terceiro Setor e que apostam que ele seja uma saída para a
crise social em que vivemos:

“um sonho que se sonha só


é só um sonho que se sonha só,
mas sonho que se sonha junto é realidade.”

9. Conclusão

A definição de Terceiro Setor é o primeiro problema com que todos que se


interessam pela área se deparam. A falta de consenso teórico a respeito, ou mesmo a sua
impossibilidade, é um dos motivos para a invisibilidade de grande parte dessas
organizações. Outros motivos levantados foram a informalidade de grande parte dessas
entidades e a ausência de dados sobre os impactos do Terceiro Setor na economia.

Uma série de alterações na economia e na sociedade como um todo tem chamado


a atenção para o Terceiro Setor. Iniciativas acadêmicas foram empreendidas em todo o
mundo, e no Brasil cresce o interesse pelo novo campo. A breve análise que foi feita
desses determinantes globais e dos determinantes particulares do caso brasileiro parece
sugerir que estamos chegando ao final desse século com a geração de um novo tipo de
sociedade, na qual a sociedade civil organizada vai ter um importante papel na construção
de uma nova cidadania.

10. Bibliografia

FERNANDES, Rubem César. Privado porém público: o Terceiro Setor na América


Latina. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.

LANDIM, Leilah. Para além do mercado e do estado? Filantropia e cidadania no


Brasil. Rio de Janeiro: Cadernos do ISER, 1993.

SALAMON, Lester M. e ANHEIER, Helmut K. The emerging sector: the nonprofit


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sector in comparative perspective - an overview. Baltimore: The Johns Hopkins


University, 1994.
IMPORTANTE

Trata-se de uma versão preliminar de um trabalho a ser publicado oportunamente, estando


sujeito a alterações, razão pela qual nenhuma parte poderá ser publicada sem a prévia
autorização dos autores

O Centro de Estudos do Terceiro Setor está aceitando contribuições acadêmicas para publicar.
Os trabalhos serão submetidos a uma comissão para sua aprovação.

ESCOLA DE ADMINISTRAÇÃO DE EMPRESAS DE SÃO PAULO DA


FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS
CENTRO DE ESTUDOS DO TERCEIRO SETOR (CETS)

COORDENADOR: PROF. LUIZ CARLOS MEREGE

COLABORADORES:

- Prof. Antonio Jacinto C. Palma


- Prof. Clóvis Bueno Azavedo
- Prof. Dorival Carreira
- Profa. Inês Pereira
- Prof. Leopoldo Costa Júnior
- Profa. Maria Célia Cruz
- Profa. Maria Rita Durand
- Prof. Marilson Alves Gonçalves
- Prof. Mário Aquino Alves
- Profa. Rebeca Raposo
- Prof. Sérvio Tulio Prado Jr.
- Aluisio Finazzi Porto
- Maria Nazaré Lins Barbosa
- Marili Nagayama
- Milta Navas Pazmiño
- Patrícia Laczgnski de Souza
- Rosane Segantini Kepke
- Deize A.M.Pasqualetto (Secretária do CETS)

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