Você está na página 1de 5

Cercada de polêmica, a usina nuclear Angra 1 é construída na ditadura militar | Acervo 10/11/18, 1'15 PM

Cercada de polêmica, a usina nuclear


Angra 1 é construída na ditadura
militar
Em três décadas, país gastou mais de US$ 45 bilhões e
só concluiu duas centrais, após atrasos desde os anos
70. Em 2011, Alemanha anunciou o fechamento de
suas usinas
Gustavo Villela

Incentivada pelo governo militar, a construção da polêmica usina atômica Angra


I começou em 1970, em meio à abertura da rodovia Rio-Santos no Sul
Fluminense. Em plena ditadura, a construção das usinas nucleares também foi
cercada por acordos, pouco transparentes, fechados pelo Brasil com os Estados
Unidos e a Alemanha, que deu uma guinada em seus planos e, em 30 de maio de
2011, anunciou o fechamento de todas as suas usinas nucleares até 2022, dando
ênfase a investimentos em energias renováveis.

O desejo de uma geração de brasileiros de dominar a energia nuclear e explorar


os minerais radioativos vem de muito tempo. No primeiro governo Vargas, com
Juarez Távora à frente do Ministério da Agricultura, foi criado no dia 8 de março
de 1934 o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM).

No mesmo ano surgia a Universidade de São Paulo (USP) e, em seu


Departamento de Física, os estudos do grupo de pesquisa formado por Mario
Schenberg, Marcello Damy e Gleb Wataghin, entre outros, eram direcionados
para radioatividade, radiação cósmica e problemas de física teórica. Já na década
de 40 o Brasil fechou os seus primeiros acordos de cooperação. Segundo

https://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/cercada-de-polemica-usina-nuclear-angra-1-construida-na-ditadura-militar-16997174 Page 1 of 5
Cercada de polêmica, a usina nuclear Angra 1 é construída na ditadura militar | Acervo 10/11/18, 1'15 PM

informações da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnem), em 1940 iniciou-


se a cooperação com os americanos para a prospecção de minerais radioativos e,
cinco anos mais tarde, no final da Segunda Guerra, foi selado o primeiro acordo
atômico com os Estados Unidos, de forma secreta, para a venda de minerais
radioativos. A assinatura do acordo com Washington ocorreu apenas um mês
antes do lançamento pelos EUA da bomba atômica que devastou Hiroshima e
Nagasaki, no Japão.

Um ano depois, em 1946, o almirante Álvaro Alberto da Motta e Silva, que havia
criticado as condições do acordo secreto com os EUA e era um dos defensores da
nacionalização de minérios estratégicos, representou o Brasil na criação da
Comissão de Energia Atômica da ONU. Primeiro presidente do CNPq e da Cnem,
Álvaro Alberto também protagonizou entendimentos sigilosos com a então
Alemanha Ocidental, nos anos 50, para aquisição de três ultracentrífugadoras,
usadas na fabricação de urânio enriquecido. Os EUA, porém, vetaram a entrega
dos equipamentos durante três anos.

Morto em 1976, o almirante acabaria recebendo homenagem ao emprestar o seu


nome à central nuclear em Angra dos Reis. Além de Angra 1, comprada dos EUA
(sendo os equipamentos da Westinghouse) e inaugurada em 1985, após anos de
atrasos nas obras, a central tem hoje em operação Angra 2. A unidade é fruto do
acordo Brasil-Alemanha, assinado durante o governo militar, primeiro em 1969 e
depois em 1975, no governo Geisel, quando foram selados os termos gerais da
cooperação para alcançar a "independência nuclear". A iniciativa desagradou aos
americanos. A segunda usina, por sua vez, entrou em operação só em 2000 e,
agora, está em construção Angra 3.

No dia 28 de julho de 2015, em nova etapa da Operação Lava-Jato da Polícia


Federal, o então presidente licenciado da Eletronuclear, Othon Luiz Pinheiro da
Silva, foi preso. Engenheiro naval e vice-almirante, ele foi acusado de receber
propina das empresas Andrade Gutierrez e Engevix nas obras da terceira usina

https://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/cercada-de-polemica-usina-nuclear-angra-1-construida-na-ditadura-militar-16997174 Page 2 of 5
Cercada de polêmica, a usina nuclear Angra 1 é construída na ditadura militar | Acervo 10/11/18, 1'15 PM

nuclear do país. Desde então, a construção da usina está parada. Reportagem do


GLOBO de 10 de outubro de 2018 mostra que o governo Temer decidiu dobrar a
tarifa da energia gerada por Angra 3 no Estado do Rio, na tentativa de atrair
investidores estrangeiros e concluir a obra. A usina está prevista para entrar em
operação em janeiro de 2026, e serão necessários R$ 15 bilhões em recursos para
concluir o projeto.

No final da década de 70, o Brasil desenvolveu um programa nuclear secreto.


Diante dos resultados insatisfatórios do projeto oficial elaborado a partir do
acordo Brasil-Alemanha, as Forças Armadas criaram, a partir de 1979, um
programa nuclear paralelo. Coube a Othon Luiz Pinheiro comandar o programa
paralelo da Marinha. Em tempos de ditadura, o programa não foi divulgado ao
público, ficando também fora das inspeções da Agência Internacional de Energia
Nuclear (AIEA). Em 1986, no governo do presidente José Sarney, a Marinha
admitiu, pela primeira vez, estudos para construir um submarino nuclear. No ano
seguinte, o país anunciou o domínio do enriquecimento do urânio, pelo processo
de ultracentrifugação, fruto do projeto secreto. Em 1988, o programa foi
incorporado às pesquisas oficiais.

Em três décadas, até o início dos anos 2000, o Brasil já habia investido mais de
US$ 45 bilhões com os dois planos nucleares (o da Nuclebras e o militar). O país,
porém, não passou da construção de Angra I e II, além dos avanços alcançados
pelo programa militar secreto. Em 2008, no governo Lula, o ministro de Minas e
Energia, Edison Lobão, chegou a anunciar que o país teria mais 60 usinas
nucleares. Na ocasião, Lobão, que seria reconduzido no cargo pela presidente
Dilma três anos depois, estimou um custo para o Brasil de R$ 360 bilhões,
considerando um valor médio de R$ 6 bilhões para cada unidade, segundo
estudos da Eletronuclear, agora envolvida no escândalo de propinas.

As duas usinas nucleares de Angra foram erguidas na selvagem Praia de Itaorna


(“pedra podre” em tupi-guarani). A área do litoral era uma vila de descendentes

https://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/cercada-de-polemica-usina-nuclear-angra-1-construida-na-ditadura-militar-16997174 Page 3 of 5
Cercada de polêmica, a usina nuclear Angra 1 é construída na ditadura militar | Acervo 10/11/18, 1'15 PM

de escravos. Sua iluminação, até o início dos anos 70, funcionava à base de
lampiões. Angra I e II foram ali instaladas pela proximidade com Rio-São Paulo-
Belo Horizonte, cidades de maior consumo de energia no país. Alvo também de
protestos que chegaram a fechar a Rio-Santos, a construção das centrais
nucleares foi criticada por ecologistas brasileiros e militantes de partidos verdes
da Europa. Eles alertam que sempre há perigo de vazamento e apontam
dificuldades para evacuar a população da cidade, em caso de acidente nuclear.
Outra ameaça seria o destino do lixo atômico. Os argumentos, porém, são
contestados por técnicos do setor e pelo governo.

No dia 6 de abril de 1988 os presidentes do Brasil, José Sarney, e da Argentina,


Raul Alfonsin, acertaram, no Palácio do Planalto, os últimos detalhes de um
acordo de colaboração para a utilização pacífica de tecnologia nuclear. O
presidente do Uruguai, Júlio Sanguinetti, assinou a "Ata do Alvorada",
associando seu país ao processo triparti de colaboração. O presidente Sarney
afirmou, ao final do encontro, que a assinatura do acordo "acaba com a versão
de que existe uma corrida nuclear na América Latina".

https://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/cercada-de-polemica-usina-nuclear-angra-1-construida-na-ditadura-militar-16997174 Page 4 of 5
Cercada de polêmica, a usina nuclear Angra 1 é construída na ditadura militar | Acervo 10/11/18, 1'15 PM

Polêmica. Na Praia de Itaorna (“pedra podre”), a usina atômica Angra I: vista geral das obras
com destaque para o edifício do reator Adalberto Diniz 14/06/1975 / Agência O Globo

https://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/cercada-de-polemica-usina-nuclear-angra-1-construida-na-ditadura-militar-16997174 Page 5 of 5