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A Terapia Cognitiva explica o fenômeno da dependência e das recaídas

seguindo o modelo geral (o pensamento influencia emoções, ações e sensações


corporais), porém aqui introduz alguns elementos específicos às adicções. O uso
de substâncias psicoativas é uma constante na história da humanidade. Com
diferentes finalidades, as pessoas encontraram maneiras de alterar o estado de
consciência por meio de substâncias que agem no sistema nervoso central. O
que varia dentre as diferentes épocas é sua aceitabilidade e visibilidade
(Edwards e Dare, 1997). Algumas drogas caem em desuso, mas muitas outras
se popularizam rapidamente e os prejuízos atingem várias esferas da sociedade.
Não se pode desconsiderar a complexidade de cada caso e a diversidade
de condições que envolvem o consumo de drogas. Entre o uso não problemático
e a dependência, existe um fator que compreende problemas de gravidade
variada. Da experimentação às complicações próprias da dependência, Washton
e Zweben (2009) caracterizaram estágios intermediários do desenvolvimento
com substâncias:

 A experimentação marca o início do contato com as substâncias químicas.


Geralmente é por curiosidade e em situações de convívio social que ocorrem
os primeiros consumos de uma substância. Ainda, que não seja isento de
riscos, o uso experimental não evidencia danos.
 Um uso social ou ocasional é caracterizado pela frequência irregular do
consumo de quantidades modestas, sem danos associados. Cabe salientar
que o efeito de qualquer substância psicoativa, ainda que em pequena
quantidade, pode impactar no organismo de cada indivíduo de forma distinta.
 Quando é possível delinear um padrão de uso mais frequente, diz-se que há
um uso regular. Por vezes, as consequências negativas são imperceptíveis
e a regularidade pode ou não evoluir para a falta de controle.
 Diferentes padrões de uso podem ser classificados como uso circunstancial
ou situacional, desde que o consumo esteja associado a um objetivo
específico, como o uso de estimulantes para cumprir prazos de trabalho, ou
uso de álcool para diminuir a timidez frente a uma determinada situação
social.
 Um padrão episódico de consumo intenso de substância pode ser
denominado uso compulsivo ou binge. Intercalados com períodos de
abstinência, esses períodos de uso de grandes quantidades de droga em
uma única ocasião tendem a gerar consequências agudas ao organismo.
 O abuso de substâncias é considerado na presença de problemas
significativos relacionados à droga, como dificuldades no trabalho, família,
estudos, saúde, etc.

A caracterização de um quadro de dependência de substâncias segue os


elementos da síndrome de dependência do álcool, originalmente formulada por
Edwards e Gross em 1976. Exemplificando a síndrome de dependência do
álcool:

 Estreitamento do repertório: Estímulos que antes determinavam respostas


diferentes do uso do álcool passam a ser associados ao uso. Assim, o
repertório frente a diversas situações se restringe aos comportamentos que
envolvem o consumo de bebida.
 Saliência do beber: Com o avanço da dependência, a ingestão do álcool é
priorizada em detrimento de outras atividades.
 Maior tolerância ao álcool: O dependente necessita de quantidades cada
vez maiores para obter o mesmo efeito antes sentido com doses menores.
 Sintomas de abstinência: Principais sintomas decorrentes da falta do
álcool: tremor, náusea, sudorese e perturbação do humor. Com gravidade
crescente, podem gerar severas complicações clínicas.
 Alívio ou evitação dos sintomas de abstinência pelo aumento da
ingestão: O uso do álcool adquire a função de diminuir ou evitar o
desconforto gerado pelos sintomas de abstinência.
 Percepção subjetiva da compulsão para beber: A sensação de “perda do
controle” é descrita pelo dependente ao perceber a compulsão frente ao
álcool.
 Reinstalação após a abstinência: O dependente que interrompe o uso do
álcool por um período e volta a beber, retorna ao padrão de uso anterior à
abstinência.

Na dependência, o indivíduo está sujeito ao desejo pelo uso da droga mesmo


depois de um período prolongado de abstinência. Esse desejo intenso (fissura)
é acompanhado por pensamentos invasivos acerca do uso, sintomas de
ansiedade, irritabilidade e desconforto. Os pensamentos automáticos
desencadeiam o surgimento de sinais e sintomas fisiológicos interpretados ou
reconhecidos como fissura (craving). As dificuldades em lidar com a vontade de
usar, associadas a padrões cognitivos disfuncionais, levam à recaída.
Caracterizada por um retorno ao padrão de uso anterior ao período de
abstinência, a recaída é entendida como parte do processo de recuperação. Um
uso de menor intensidade, durante a tentativa de abstinência, pode ser
considerado um lapso e deve alertar para o risco aumentado de recaída (Marlatt
e Donovan, 2009). Um estudo estimou que até 37% dos abusadores ou
dependentes de álcool apresentavam alguma das seguintes comorbidades:
transtornos de humor, de ansiedade, psicóticos ou de personalidade. Dentre os
pacientes com transtornos mentais, 20 a 50% foram diagnosticados com
transtornos relacionados ao uso de álcool (Rosenthal e Westreich, 1999). O

curso dos sintomas deve ser avaliado principalmente na ausência do uso de


drogas.

As crenças que facilitam o uso de drogas são as chamadas crenças adictivas


e são descritas em três categorias:

 Crenças antecipatórias: expectativa de que o uso da droga produzirá


recompensa, gratificação ou prazer.
 Crenças de alívio: expectativa de que o uso da droga aliviará ou afastará
algum desconforto ou sofrimento.
 Crenças permissivas ou facilitadoras: consideram o uso da droga
aceitável, apesar das consequências.

Beck preconiza que as crenças adictivas giram em torno da busca de prazer,


da solução de problemas e do alívio do desconforto e variam de pessoa para
pessoa e com o tipo de droga preferida. Entre as crenças adictivas, cita:

 A droga é necessária para manter o equilíbrio psicológico ou emocional;


 A droga melhorará o funcionamento social e intelectual;
 A droga trará prazer e excitação;
 A droga fornecerá força e poder;
 A droga terá efeito calmante;
 A droga trará alívio para a monotonia, ansiedade, tensão e depressão;
 Sem o uso da droga, o craving (fissura) continuará, indefinidamente e cada
vez mais forte.

Em oposição às crenças adictivas, os pacientes apresentam crenças de


controle, aquelas que diminuem a possibilidade do uso e abuso de substâncias.
Os dependentes lidam com situações mistas, ou seja, convivem com a
coexistência de crenças adictivas e crenças de controle. O desejo muito intenso
de utilizar a droga e as sensações fisiológicas concomitantes constituem o
conjunto que os pacientes costumam identificar como “fissura”, e que torna tão
difícil evitar o uso da droga. É importante que o paciente aprenda como lidar com
suas fissuras, sendo essa uma das metas mais importantes no tratamento da
dependência química. Geralmente o paciente ignora fatos e mantem uma serie
de crenças disfuncionais a respeito da fissura.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 KNAPP, Paulo. Terapia Cognitivo-Comportamental na prática psiquiátrica.


Porto Alegre: Artmed, 2004.
 RANGÉ, Bernard. Psicoterapias Cognitivo-Comportamentais: um diálogo
com a psiquiatria. 2. Ed. – Porto Alegre: Artmed, 2011.