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CONTRACAPA

O símbolo é o veículo que liga duas realidades, ou melhor dois planos de


uma mesma realidade. Participa pois de ambas: por isso sua pluralidade
de significados. Para a antigüidade, o símbolo era o representante de uma
energia-força que permitia a ruptura de nível, o acesso a outros mundos,
ou a obtenção do conhecimento de diferentes planos deste mesmo
mundo, caracterizados por distintos graus de consciência. O símbolo era e
é, conseqüentemente, o meio de comunicação entre os deuses e os
homens, objeto sagrado por excelência, já que ele conta a história
verdadeira, a eficaz, e não a sempre mutável, de múltiplas falsas
aparências.
O termo grego symbolon se referia a duas metades, que se juntavam, de
algo, que coincidiam, e formavam um sinal de reconhecimento; pode se
apreciar imediatamente que estas duas metades são análogas, o que
caracteriza à simbólica, pois nada nem ninguém pode expressar ou
transmitir algo se não o fizer mediante uma correspondência entre o que
quer manifestar e a forma em que o manifesta, quer dizer, a arte com que
o faz.

SIMBOLISMO E ARTE
Federico González

Fortuna sustentando a Roda


H. S. Beham, 1618

I
SIMBOLISMO E COSMOGONIA
A Cosmogonia Perene
A cosmogonia é uma ciência cultivada por todos os povos arcaicos e
tradicionais e se refere ao conhecimento do homem (pequeno cosmos) e
do universo (homem grande). Repete-se de modo unânime e de maneira
perene ao longo do tempo (história) e do espaço (geografia), descrevendo
uma única realidade, a do cosmos. Esta realidade, por outro lado, é a
mesma que nós, os contemporâneos, vivemos e habitamos, pois é
essencialmente imutável apesar das mutantes formas em que pode ser
expressa ou apreendida, já que se mantém perenemente viva.

Esta ciência é praticamente desconhecida para o ser humano atual, que é


produto do racionalismo, do positivismo, do materialismo e da técnica.
Foi, no entanto, a estrutura básica, primária, sobre a qual tanto os povos
primitivos como as grandes civilizações da antiguidade como, por
exemplo, os egípcios, fundaram suas crenças, e a ferramenta com a qual
construíram sua vida e cultura, que no caso desse exemplo durou três mil
anos; o mesmo poderia ser dito do império chinês, ou melhor, da
Tradição extremo–oriental. Esta ciência, na verdade, é o denominador
comum de todas as tradições conhecidas, quer se encontrem vivas ou
aparentemente mortas.

O modo normal pelo qual essa Cosmogonia, Universal e Perene se


expressa é o símbolo, ou um conjunto de símbolos em ação, constituindo
códigos e estruturas que se conjugam permanentemente entre si,
manifestando e veiculando a realidade, ou seja, toda a possibilidade do
discurso universal, que se faz audível e compreensível por seu
intermédio. O símbolo é, portanto, a tradução inteligível de uma realidade
cosmogônica e, ao mesmo tempo, essa realidade em si, ao nível em que
ela se expressa.1

Para o caso da cosmogonia nos interessam particularmente os símbolos


numéricos e geométricos, que, como se sabe, mantém uma perfeita
correspondência entre si. Constituem módulos paradigmáticos, presentes
em todas as culturas, já que formam a estrutura de qualquer construção,
neste caso, da Construção Universal. Não obstante, trataremos aqui não
só dos números e figuras geométricas e do simbolismo construtivo em
geral, mas, em particular, do símbolo da roda. É importante ressaltar que
aquilo que a simbólica manifesta dentro de si, no mais profundo de sua
intimidade, não é senão a totalidade do cosmos, atual e constante. Ela
própria, a Cosmogonia Perene e Universal – e não só a ciência que trata
dela – que é válida para todo tempo e lugar na dimensão do humano, não
é nada mais que um símbolo de algo muito mais amplo que a transcende,
já que pode ser concebida e explicada como uma modalidade arquetípica
do Ser Universal.
Pode-se pensar, equivocadamente, que as estruturas simbólicas são meras
convenções utilizadas para descrever a realidade. Isso só seria válido na
medida em que se aplicasse igualmente a qualquer manifestação, que é
sempre uma determinação, uma fixação, começando pela linguagem, pelo
verbo. Porém, é óbvio que não há maneira de apreender a realidade senão
é por meio do símbolo (lingüístico, numérico, geométrico, etc.) e dos
códigos que este forma.

O símbolo não é arbitrário, e reflete autenticamente o que expressa,


requisito sem o qual seria impossível qualquer relação ou comunicação.
Deve-se ter em mente que, por tomar uma forma, constitui uma estrutura
na torrente do não-enunciado, na vida larval e caótica do vir a ser. Os
antigos conheciam sobejamente esta verdade, e daí o valor criativo que
atribuíam à palavra. Ou seja: o sujeito participa de qualquer fato objetivo
e portanto o gera; a história de seus ciclos também testemunha esta
interrelação constante. No entanto, a irrealidade do mundo – e do homem
– só pode ser observada porque existe, e deve ser, nesse caso, sujeito e
objeto de alguma revelação. Os símbolos, como os conceitos ou os seres,
são imprescindíveis no plano do Universo, e alguns códigos como o
aritmético ou o geométrico, entre outros, não são convenções casuais,
mas expressam realidades arquetípicas e formam a base de qualquer
estrutura, não só no "exterior" mas também no "interior". A ponto que de
se poder dizer que estas imagens constituem categorias próprias do
pensamento, e fazem do homem um autêntico intermediário entre o
conhecido e o desconhecido, ou seja: o maior dos símbolos, capaz de
unificar por sua mediação a multidão do disperso.

O Símbolo da Roda
Talvez a Roda seja o mais universal dentre os símbolos sacros de todos
os povos. Isso se deve, por um lado, ao fato de que este símbolo aparece
unanimemente, direta ou indiretamente, em todas as tradições, e parece
ser consubstancial ao homem. Por outro lado, a própria universalidade
dos significados da roda, e sua conexão direta ou indireta com os demais
símbolos sagrados, em especial, números e figuras geométricas, fazem
dela uma espécie de modelo simbólico, uma imagem do cosmos. Pois a
roda no plano é um círculo, e a circularidade é uma manifestação
espontânea de todo o cosmos; portanto essa energia há de provir de um
ponto central que a irradia, tal qual o caso de uma roda, símbolo do
movimento e também da imobilidade, que pode girar e reiterar seus
ciclos, possibilitando a marcha graças a um eixo imóvel. No plano isso se
representa como um centro do qual a circunferência extrai sua forma
(com cordel ou compasso, é imprescindível ter um ponto fixo para traçar
a circunferência) por irradiação, tal qual a energia potencial do eixo se
transmite ao aro por mediação dos raios das rodas, análogos ao raio da
circunferência.2 Qualquer pessoa que traça uma
circunferência sabe que esta depende do ponto central e
não ao contrário.

Entre o ponto central e a circunferência se configura o


círculo; o valor aritmético associado ao primeiro é a
unidade, que é uma representação natural do ponto geométrico, e à
segunda o nove, que é o número do ciclo por ser o da circularidade, como
mais adiante veremos. A soma de ambos nos dá a dezena (1 + 9 = 10) que
é modelo numérico da tetraktys pitagórica, o qual pode ser relacionado
com qualquer outra aritmosofia, já que os números – e as figuras
geométricas – são módulos harmônicos arquetípicos, válidos em todo o
manifestado e, portanto, para qualquer tempo e lugar dentro deste ciclo
humano.

Assim, pois, não devemos estranhar que neste trabalho sejam tratados em
conjunto os símbolos da roda e do círculo, o da espiral e o da esfera, pois
esta, por exemplo, não é senão o círculo na tridimensionalidade.
Igualmente, que se mencionem símbolos estreitamente associados ao da
roda como o da cruz, o quadrado, e outros, assim como que se recorra às
distintas tradições onde se encontra testemunhado. Não obstante, este
símbolo está presente em nossa própria Tradição e se acha ao nosso
alcance trabalhar com ele. No própria dia-a-dia podemos observá-lo
constantemente; de fato é evidente na própria vida, pois como
observamos, as coisas se produzem com um movimento circular e
portanto são cíclicas, o que é um pensamento emitido por todas as
doutrinas metafísicas. A figura esquemática da roda no plano foi
associada ao sol por numerosos povos e de fato ainda hoje é o símbolo
astrológico desse astro; em alquimia representa o ouro, seu equivalente
terrestre. Daí a associar o percurso do sol com um carro dourado, ou de
fogo, é só um passo. De fato seu alcance é significativamente mais amplo
e se corresponde com a idéia arquetípica de Centro: aquilo que é capaz de
gerar uma ordem na massa amorfa do caos; o ponto imóvel
imprescindível a toda criação, o motor graças ao qual o devir tem um
sentido.

Este ponto central da Roda do Mundo se comunica com a periferia, como


já se disse, através de raios, que são portanto intermediários entre ambos;
e enquanto a roda gira sobre si mesma simbolizando o movimento e o
tempo, o eixo permanece fixo expressando a imobilidade e o eterno. 3

O círculo e a esfera foram tomados por numerosos povos e distintos


autores antigos como figuras perfeitas e expressões da totalidade. A roda
em particular está associada aos ciclos que repete uma e outra vez e,
portanto, ao relativo, ao passageiro, ao contingente,
porém sobretudo à recorrência, à reiteração. Como
se poderá observar, e assim o continuaremos vendo,
este símbolo se presta a inumeráveis transposições
ao plano metafísico, ontológico e cósmico e é objeto
de conhecimento e especulação.

O que é um ponto central ao círculo, é o eixo com relação à esfera,


motivo pelo qual centro e eixo se correspondem exatamente, sendo o
primeiro um símbolo plano e o outro símbolo tridimensional do mesmo
conceito.

Se o ponto é virtual, não-manifestado e geometricamente não existe, a


periferia da roda será visível e representará, na ordem cósmica, a
manifestação universal e, no mundo do homem, qualquer expressão,
razão pela qual também se pode equiparar o ponto e o círculo, a potência
e o ato, e por conseguinte, a contemplação e a ação.

A primeira divisão a que pode dar lugar o símbolo da roda é a bipartição


da figura que a representa em duas metades análogas e exatas. Estas
representam os dois movimentos, de ascensão e descenso, que realiza a
roda no percurso de um ciclo, seja o do sol no ano, ou o do dia, ou o da
lua em um mês, ou o da vida de um ser humano; o de princípio e fim com
o qual está assinada qualquer criação.

Princípio e fim têm uma origem e um destino comum, o que dá lugar,


além disso, às idéias de reincidência ou repetição, crenças e conceitos de
todos os povos arcaicos e tradicionais que viveram sempre um tempo
cíclico e não linear e indefinido, tal como o nós concebemos atualmente.
Qualquer ponto da periferia – os que são de número indefinido e podem
simbolizar, cada um, a vida de um homem na imensidão do criado – é um
reflexo do centro e se encontra conectado a ele pelo raio, porém enquanto
que no aro todo é sucessivo, do ponto de vista central as coisas são
simultâneas. Esta figura também pode ser adaptada obviamente aos
conceitos de interior e exterior, de luz e reflexo, e também de realidade e
ilusão, posto que a permanência do ponto não se altera diante das formas
mutantes e sempre perecíveis do transcorrer periférico.

Nos diz René Guénon que:

O centro é, antes de tudo, a origem, o ponto de partida de todas as coisas; é o ponto


principal, sem forma nem dimensões, portanto indivisível, e, por conseguinte, a
única imagem que se pode dar à Unidade primordial. Dele, por irradiação, são
produzidas todas as coisas, assim como a Unidade produz todos os números, sem
que por isso sua essência fique modificada ou afetada de qualquer maneira.

Todos os pontos da circunferência estão a igual distância do centro, lhe


são eqüidistantes, motivo pelo qual as inumeráveis energias do cosmos se
neutralizam em seu seio. Geometricamente é o eixo vertical que atravessa
distintos planos circulares horizontais, que ele mesmo gera, os que giram
como rodas ao seu redor formando a cadeia de mundos, os diferentes
estados de um Ser Universal.

A energia da irradiação chegada a seus próprios limites retorna a sua


fonte por mediação do mesmo raio que as conecta, para ser reabsorvida
no Princípio, que novamente volta a emaná-la para a periferia,
constituindo esta interrelação, ad extra e ad intra, uma espécie de
respiração universal selada pelas leis cósmicas da dialética. Por isso é que
o Centro, ou o Eixo, é a Origem e o Princípio, e irradiando tudo d'Ele, a
Ele tudo retorna.

O centro é pois uma região mítica, uma idéia arquetípica que, não
obstante, se manifesta em determinados pontos da circunferência que,
desta maneira, passam a ser centros para o sistema que eles geram,
sempre e quando sejam autênticos reflexos do ponto original ou, o que é
o mesmo, que esse Centro fosse uma teofania, ou uma hierofania, um
lugar, pessoa ou objeto que expressasse a unidade de um modo particular,
e que igualmente a irradiasse.

Nesse caso os distintos centros ou pontos significativos na periferia


seriam focos "cosmizados" que estariam estabelecendo contato com o
ponto médio, rompendo assim com o movimento homogêneo e reiterativo
da Roda. Por este caminho o sábio perfeito, segundo o taoísmo, poderia
acessar o "ponto central da Roda", em comunhão com o princípio, em
absoluto repouso, imitando "sua ação não atuante". 4

Símbolo, Mito, Rito


O simbolismo do "centro do mundo" poderia ser transposto ao do "eixo
do mundo" e relacionar-se então com tudo aquilo que significa este eixo.
Em particular com os símbolos da árvore (Árvore da Vida) e da
montanha, e todos os indicadores de pontos de conjuntura na geografia e
na história sagrada, que se manifestaram ao longo do tempo e em
distintos lugares. Estes lugares ou seres especiais, que são símbolos por
suas próprias características mágico–teúrgicas, promovem uma ruptura de
nível que permite comunicar-se com outros mundos, ou estados de
consciência diferentes, com zonas vedadas do universo e de nós mesmos.
No ser humano esse Centro do qual falamos está alojado no coração,
como o atestam todas as tradições.

A montanha e a árvore são além disso dois símbolos de ascensão, igual ao


da escada, e supõem a idéia de saída de um plano ou mundo, e o ingresso
em outro superior. Geometricamente esta possibilidade está marcada pela
figura da espiral, que é capaz de sair do plano e da reincidência rotineira,
e projetar um novo movimento circular, desta vez em um plano distinto.
Costuma-se também representar a espiral em forma dupla, formando na
tridimensionalidade uma espécie de trompa, onde uma das espirais é
"evolutiva" e a outra "involutiva", complementando-se perenemente.

Por outro lado o círculo é análogo ao quadrado. Poder-se-ia dizer que este
último é uma solidificação daquele, marcada pela agressividade rígida
das arestas em comparação com a brandura e suavidade da forma
circular; isto também é válido para o cubo e a esfera. Não obstante ambas
as figuras têm 360 graus, já que essa é a superfície do círculo, também
configurada pelos quatro ângulos retos de 90 graus do quadrângulo.
Tradicionalmente se tomou a figura da esfera, ou do círculo, como mais
perfeita que a do cubo ou do quadrado. Uma das razões já foi
mencionada: os raios que unem à periferia da esfera com o centro são de
igual distância, enquanto que no cubo ou quadrado não ocorre o mesmo.
Em geral se relacionou o círculo com o céu (uma semiesfera) e o
quadrado com a terra. Entre ambos constitui-se o cosmos, como se pode
observar no simbolismo arquitetônico, em especial o do templo, pois este
constitui uma imagem do universo.5 Como decorrência, a associação do
círculo com o quadrado (e com o quaternário e a cruz) resulta
naturalmente das próprias características inerentes a estes símbolos, os
quais se entrelaçam entre si de modo espontâneo tal qual as idéias e
arquétipos que eles representam.

Voltaremos mais adiante a discorrer sobre estes temas. Façamos porém


agora algumas considerações sobre os símbolos e também sobre os mitos
e ritos. Em primeiro lugar assinalaremos que os símbolos não são, para a
Simbólica, o que costuma entender hoje o homem contemporâneo. Ou
seja, simples alegorias ou convenções impostas pelo ser humano.
Repitamos: estas versões, em realidade, não são senão graus de leitura do
que é o símbolo em si, nas quais se faz "pé firme" só por seu aspecto
psicológico, ou simplesmente por seu valor prático, e sofrem o enorme
perigo de reduzir o símbolo só a isso, com o que não se faz outra coisa
além de negá-lo, ao tergiversar seu sentido. O símbolo é muito mais
amplo e não se reduz a estas duas leituras. Pelo contrário, seu caráter é
essencialmente metafísico e ontológico (na medida em que se refere ao
ser e é transformador) e portanto arquetípico. Este é o símbolo, cuja
função a qualquer nível de leitura que se observe, não é mais que a de
levar do conhecido ao desconhecido por sua mediação.

Aquele que teve a oportunidade de estudar as culturas tradicionais pôde


observar a importância transcendental que o símbolo sempre possui nelas.
Isso se deve ao fato de que para elas o símbolo em si está carregado de
uma energia especial, de uma força mágica – por manifestar verdades
desconhecidas de segredos implícitos no mundo, e desse modo revelá-los
– que é objeto de veneração e reverência, como o atestam as sociedades
arcaicas, que tomam estes símbolos (ou objetos-símbolos) como
autênticos representantes de outros mundos verticais; das energias do
além, capazes de transmitir o conhecimento de outras realidades, ou
melhor, de outros planos, que igualmente, constituem o total da realidade.

Quanto ao mito, presente em todas as culturas antigas, além de revelar


verdades cosmogônicas e propor um modelo exemplar de vida e
realização, é o fator aglutinante que deu coesão à existência dos
inumeráveis povos, possibilitando assim sua organização social. O mito é
um símbolo que se transmite de maneira oral; de outro lado o rito
dramatiza o mito e perpetuamente o atualiza, simbolizando-o;
conseqüentemente, símbolo, mito e rito formam um só conjunto, como já
se assinalou em outros lugares, e deve-se por subentendido que quando
falamos de símbolo, também estamos nos referindo a mito e rito.

Voltando ao termo metafísica, uma vez feita a ressalva de que se refere


àquilo que está além da física, devemos esclarecer que com ele não só se
identifica o que excede à matéria, mas também o que está além do
psicológico, por ser arquetípico. E ainda mais que isso, pois o sentido
associado à palavra metafísica na simbólica quer expressar aquilo que
está além do ser, o supra-cósmico e supra-humano.

O símbolo é o veículo que liga duas realidades, ou melhor, dois planos de


uma mesma realidade. Participa, pois, de ambas: daí sua pluralidade de
significados. Para a antiguidade, o símbolo era o representante de uma
energia-força que permitia pela ruptura de nível o acesso a outros
mundos, ou o acesso ao conhecimento de diferentes planos deste mesmo
mundo, caracterizados por distintos graus de consciência. O símbolo era e
é, conseqüentemente, o meio de comunicação entre os deuses e os
homens, objeto sagrado por excelência, já que ele conta a história
verdadeira, a eficaz, e não a sempre mutante, de múltiplas falsas
aparências. Descreve então a realidade tal qual é e não permite assim o
engano dos sentidos, os desvios e enredos a que é tão propensa nossa
personalidade. Se crê portanto nele e se reconhece os valores de que é
portador, sem cair no equívoco grosseira de tomar o símbolo pelo
simbolizado, o veículo pela meta da viagem.

O termo grego symbolon se referia a duas metades de algo, que se


juntavam, que coincidiam, e conformavam um sinal de reconhecimento;
pode concluir-se imediatamente que estas duas metades são análogas, o
que caracteriza a simbólica, pois nada nem ninguém pode expressar ou
transmitir algo se não o faz mediante uma correspondência entre o que
quer manifestar e a forma através da qual o manifesta. Como decorrência,
a representação simbólica há de expressar a idéia metafísica, descrevendo
e repetindo a cosmogonia arquetípica, participando desse modo no
processo de criação. Como estamos vendo, o símbolo está intimamente
relacionado com as leis de analogia e correspondência presentes no
Modelo do Universo, na Cosmogonia Perene.

A rigor qualquer coisa pode ser um símbolo, pois ela expressa de modo
particular a sua origem e a mão de seu criador, o mistério que ela oculta
dentro de si. Toda expressão é simbólica pois conserva implícito um
gesto original. Não obstante, há que se distinguir entre os símbolos
revelados especificamente para o conhecimento de uma realidade, e os
símbolos espontâneos da psique individual que, por essa razão, não é
capaz de ultrapassar esse nível de consciência. Enquanto os primeiros se
supõem não humanos, os segundos não podem exceder o nível
psicológico ligado em simbologia com o lunar e sublunar. Os primeiros
expressam uma realidade transcendente, os outros não conseguem
manifestar além do poder do imanente e denotam a garra do demiurgo.

Também deve-se distinguir o símbolo do emblema, e sobretudo, como já


se notou, da alegoria, que põe um espaço entre o símbolo e o
simbolizado, e se apresenta também como uma versão a nível
psicológico, como inexistente ou sonhada, diferente da realidade e
exatidão daquilo que os símbolos expressam.

Em forma gráfica e nas artes plásticas e monumentos se conservam os


símbolos visuais das culturas antigas; de forma oral se tem transmitido
seus mitos e suas canções rítmicas rituais, repetitivas e cíclicas e muitos
desses se encontram registrados por escrito; antropólogos, arqueólogos,
historiadores e outros especialistas, nos comunicam novos achados que
confirmam a total importância que os povos tradicionais atribuíam a seus
símbolos, já que, conhecedores da Cosmogonia Arquetípica, repetiam
seus gestos simbólicos, que eram ensinados e aprendidos, pois o
conhecimento do significado do símbolo não se pode obter de outra
maneira.

Hoje em dia é não faz parte da mentalidade oficial a idéia de um Modelo


do Universo (conhecida por todos os povos tradicionais), um plano
arquetípico e invariável que supõe a presença de um Arquiteto e que é
válido para todo tempo e lugar, na escala humana, e que, de fato, também
está transcorrendo agora. Igualmente se ignora a existência da Filosofia
Perene, ou seja de uma mesma filosofia, idêntica nos princípios, em todas
as tradições do mundo. Esta Cosmogonia e Filosofia perenes se ocultam
dentro dos símbolos tradicionais, de origem revelada, que podem ser
encarnados por aqueles que consigam obtê-los, pois os conhecimentos,
energias e experiências que os símbolos contém, de caráter arquetípico e
cosmogônico, podem ser vivenciados no constante agora, sempre que os
interessados sejam pacientes para concretizar uma nova forma de
aprendizagem e ser favorecidos por tamanha graça; em todo caso esta é
uma experiência estranha e às vezes se vê como muito rara e muito difícil
de assumir, segundo o atesta a tropa alquímica. 6

A roda, como símbolo do ciclo, está sujeita a um invariável retorno que,


não obstante, tem determinados pontos que a limitam. Estes pontos estão
magnificamente exemplificados pelo caminho do sol no ano, a "roda
sór", que se caracteriza por ter dois momentos máximos em seu percurso,
nos quais o sol parece deter seu rodar; nos referimos aos solstícios de
inverno e verão. Eles bem podem situar-se nos extremos da roda, ou do
círculo, e marcar esses momentos. Há também outros momentos
importantes no percurso do "carro sór", os equinócios, e eles se
encontram perfeitamente eqüidistantes dos solstícios marcando assim um
círculo dividido em quatro partes exatamente iguais.

Entretanto, o quaternário como divisão normal do ciclo não só é


reconhecido no percurso anual do sol, mas no diário (aparente), o qual é
dividido também quadripartitamente em meia-noite (0 hs.), amanhecer (6
hs.), meio-dia (12 hs.) e entardecer (18 hs.). 7

Igualmente pode-se encontrá-lo em qualquer ciclo ou manifestação, pois


o quaternário é o signo do criado: também na divisão espacial se fixa os
quatro pontos cardeais em relação à linha do horizonte. 8

Se pode também identificar outros exemplos desta lei do quaternário; as


distintas idades de um homem: infância, juventude, maturidade, velhice.
Igualmente, as idades do mundo caracterizadas de maneira descendente
pelo ouro, a prata, o bronze, e esta última que estamos vivendo, o ferro. O
mesmo as estações do ano: inverno, primavera, verão e outono; as fases
da lua, e igualmente os elementos, ou princípios constitutivos da matéria:
Fogo, Ar, Água e Terra, aos quais as diferentes tradições associaram
cores, como sinais qualitativos.
Voltamos a ligar assim estreitamente a figura do círculo e do quadrado
através do quaternário. O ciclo, ou seja o símbolo da roda em movimento,
funde indissoluvelmente estas figuras entre si em estreita vinculação com
a simbólica atribuída a espaço e tempo, relacionando-se o círculo com
este último e o quadrado (o quaternário) com o primeiro.

A roda de seis raios tem uma particularidade mágica: o tamanho do raio


divide sempre o aro em seis partes iguais.

A roda zodiacal divide o ano em doze períodos, chamados signos, os


quais também em ciclos maiores estão equiparados a eras; subdivisões
todas da figura partida pelo binário e quaternário como já vimos.
Acrescentaremos que o termo "zodíaco", de origem grega, se traduz por
"roda da vida".

Os distintos números de raios das rodas não são arbitrários e se referem à


partição do círculo nestes ou naqueles segmentos, assinalados por
diferentes números, dependendo de como se encara a figura, em que
contexto, e para que fins; tudo isso ligado com os atributos próprios de
cada número e suas correspondências geométricas. Na Tradição
Hermética, onde se produz uma amálgama entre os nomes rosa e rota ( =
roda), a flor é a imagem do circular, como bem se pode perceber nos
mandalas que são certas "rosetas" das catedrais européias. Tudo isso faz
particularmente significativas as diferentes modalidades do símbolo em
geral, relacionando-o com aspectos diferentes da realidade, ou melhor,
com várias referências acerca de como encará-la, todas elas
complementares.

Assim como o ponto se corresponde com a unidade aritmética e o


quadrângulo com o quatro, o ciclo se expressa pelo número nove. Este
número é irredutível e como se sabe todos seus múltiplos (e
submúltiplos) regressam indefectivelmente a ele, por exemplo: 9 x 2 = 18
= 1 + 8 = 9 ; 9 x 3 = 27 = 2 + 7 = 9 ; 9 x 4 = 36 = 3 + 6 = 9 , etc. Por
outro lado divide a circunferência em quatro partes, e introduz a
circularidade nas cifras com as quais se conecta, coisa que efetuam
também seus múltiplos, relacionando assim qualquer número com a
figura do círculo; devemos recordar que esta última se forma com o valor
9 da circunferência, mais o valor 1 do ponto central. O mesmo sucede
com o quadrângulo que igualmente se constrói a partir de um ponto
central cruzado por duas ortogonais, o que representa uma cruz, cujo
meio exato é outro novo ponto, o número cinco, que na alquimia
corresponde ao éter, em filosofia à quintessência, e que foi importante em
distintas tradições, entre elas a chinesa e as pré-colombianas. 9 Com o
número sete acontece o mesmo, já que é considerado o central de uma
roda de seis raios. Na realidade, e por outra das transposições entre o
símbolo do círculo e do quadrado e do plano ao espacial, o sete é o ponto
central do cubo, de seis faces e doze arestas, outro dos símbolos-modelo
do universo.10

O simbolismo dos números, como já destacamos, está estreitamente


relacionado com nosso tema. O sistema pitagórico decimal que usamos
está formado por nove dígitos chamados naturais, agregados do zero que
tem um valor posicional nos distintos níveis em que se expressa: dezenas,
centenas, etc.; voltando-se a repetir em qualquer nível os mesmos nove
números em sua viagem circular.

Para o hermetismo pitagórico a série numérica tem uma característica


especial: a unidade gera todos os números e por adição está presente em
todos eles; por isso o número um seria o maior, e os demais, divisões ou
fragmentações da unidade primordial. Como se vê, aqui os números não
estão expressando simples quantidades, mas qualidades, sendo tomados
como módulos harmônicos arquetípicos. A antiguidade tinha
primordialmente em conta a idéia que o número tinha significada; quer
dizer, utilizava esta escala de modo vertical, que para isso havia sido
projetada; embora também a usasse na forma quantitativa e horizontal
para outras funções que considerava secundárias ou reflexas.

Os conceitos que os números manifestam e suas representações


geométricas estão intimamente associados ao metafísico e cosmogônico e
correspondem a realidades essenciais do universo e do homem. As
combinações entre os distintos números da escala faz possível a coesão
universal, já que de fato, os números não são nem mais nem menos que
conceitos de relação. O denário é uma chave mágica: com os dez
primeiros números se pode nomear qualquer coisa. Na tradição hebraica
os mesmos números são representados por letras, pois todo o alfabeto tem
um valor numérico; no islamismo é igual. A relação entre letra e letra ou
– o que dá no mesmo – entre número e número, produz o discurso do
cosmos, a linguagem do universo, já que números e letras formam
códigos reveladores do conhecimento do Ser Universal.
Roda sefirótica da Cábala hebrea,
o Roda das Emanações.

NOTAS
1
Ver René Guénon: Símbolos Fundamentales de la Ciencia
Sagrada, Eudeba, Buenos Aires 1988.
2
Ambas derivam da palavra latina radius.
3
Este raio é chamado buddhi na tradição hindú e corresponde
à inteligência, ou intuição direta.
4
O alquimista, matemático e cabalista John Dee, astrólogo da
rainha Isabel I da Inglaterra, cujos instrumentos mágicos
(espelho, pantáculos, bola de cristal) se conservam expostos
no Museu Britânico, escreve no Teorema II de seu Mônada
Hieroglífica: "É pois pela virtude do ponto e da mônada que
as coisas começaram a ser desde o princípio. E todas as que
são afetadas na periferia, por grandes que elas sejam, não
podem, de nenhuma maneira, existir sem a ajuda do ponto
central".
5
Na mesquita a cúpula corresponde ao céu e ao Profeta e as
quatro "falsas" cúpulas que dela derivam e se projetam na
base quadrangular, aos seus quatro descendentes, herdeiros de
seu legado nesta terra.
6
Para destacar a importância do símbolo como linguagem só
queremos recordar que a tradição cristã afirma que
Constantino, imperador romano, viu uma enorme cruz no céu
e ouviu uma voz que dizia In hoc signo vinces; este fato
motivou sua conversão ao cristianismo e a posterior
implantação desta religião como oficial no império, o que
demonstra que o poder do símbolo foi capaz de mudar – ou
orientar – toda a história do Ocidente.
7
Nem todos os povos fizeram exatamente esta divisão
esquemática. Varias sociedades pré-colombianas
aparentemente a contradizem. É de sumo interesse
igualmente observar que estes povos que conheciam
perfeitamente o ciclo e a circularidade, como o demonstra a
perfeição de seus calendários, não utilizaram a roda de
maneira técnica por considerá-la "tabú", ainda que
conhecessem sua aplicação prática, presente em numerosos
brinquedos encontrados pelos arqueólogos ao longo da
América Central.
8
A este respeito, não obstante, há que se ter presente que a
linha do horizonte sempre se encontra no olho do espectador.
9
Para o hermetismo, é além disso o número do microcosmos,
ou seja, do homem; também o dos dedos de sua mão.
10
Estas doce arestas ocupam um papel preponderante na
cosmogonia pré-colombiana já que sua imagem do mundo se
apresenta geralmente de modo quadrangular e cúbico;
somadas ao centro produzem o número treze, módulo vital
em sua visão do universo.

SIMBOLISMO E ARTE
Federico González

Michel Maier, Symbola aurea mensae, 1617.

II
SIMBOLISMO E CIÊNCIA SAGRADA
A Iniciação
Consideramos a Roda como símbolo do movimento e do cíclico, na sua
forma temporal, e também como centro e como eixo, na forma espacial.
Neste último caso, todos os povos tradicionais situaram suas cidades,
seus templos, inclusive suas casas, em pontos significativos da paisagem
amorfa, ou seja: do caos e do vir a ser. Esses pontos são centros
específicos de geração e irradiação de uma cultura por considerar-se que
conectam precisamente com outros planos da realidade, de forma
vertical, e se manifestam nesse omphalos. Desse modo igualmente se
expandem de maneira horizontal os conhecimentos obtidos por
inspiração dos deuses.

O que é válido para o círculo também o é para o quadrângulo; a figura do


quadrado, por ser a de uma contração, ou solidificação do círculo, se
presta especialmente para a arquitetura, e seu simbolismo é o de fixar um
espaço significativo no transcorrer do tempo. Afirma Mircea Eliade que:

A criação do mundo se converte no arquétipo de todo gesto humano criador,


qualquer que seja seu plano de referência. Vimos que a instalação em um território
reitera a cosmogonia. Depois de se ter deduzido o valor cosmogônico do Centro,
se compreende melhor agora por que todo estabelecimento humano repete a
Criação do Mundo a partir de um ponto central (o "umbigo"). À imagem do
Universo que se desenvolve a partir de um centro e se estende para os quatro
pontos cardeais, a cidade se constitui a partir de uma encruzilhada.

E também:

O verdadeiro Mundo se encontra sempre no "meio", no "centro", pois ali se dá


uma ruptura de nível, uma comunicação entre as duas zonas cósmicas.

Já citamos alguns casos de símbolos do eixo, ou do pólo, ainda que em


princípio tudo aquilo que denote verticalidade está associado a ele; no
plano estaria representado particularmente pela cruz svastika, – segundo
opinião de autores qualificados – símbolo tradicional, ao qual coube ser
um exemplo típico da degradação da mentalidade simbólica
contemporânea. A árvore é assemelhada à verticalidade, ou seja, à
ruptura de nível, e também à irrupção da vida, à geração e frutificação no
plano horizontal. Esta Árvore da Vida foi conhecida unanimemente – ou
seus equivalentes poste ritual, obelisco, coluna, menir – presente tanto na
Cabala Hebraica – cujo Modelo do Universo, constituido pelas sephirot
(= numerações), se denomina precisamente assim – como na civilização
maia, cuja árvore sagrada era a ceiba, que ainda hoje está plantada em
meio à praça central dos povos dessa área; também para egípcios, gregos,
romanos, celtas, e aborígenes norte-americanos, africanos e australianos.

O simbolismo da árvore admite três níveis: raízes, tronco e copa,


relacionados com os mundos subterrâneo, intermediário e celeste; nas
culturas que tomam o próprio ser humano como símbolo vertical, os
níveis são terra, homem e céu. Ambas as versões nos falam da idéia de
um Universo hierarquizado em distintos mundos, que também estão
presentes no homem, configurando distintos planos da realidade.

A isso se refere também o simbolismo da montanha, e sua réplica


humana: a pirâmide (ou o zigurat), cuja ascensão há de se realizar de
maneira escalonada. Igualmente, o simbolismo da própria escada não
significa outra coisa, e há que se recordar aqui o tão citado episódio
bíblico do sonho de Jacó, no qual ele vê anjos subindo e descendo por
uma escada, assegurando assim a comunicação entre céu e terra.

Estes níveis se estabelecem no símbolo da Roda, como círculos


concêntricos, que se encontram mais ou menos distanciados do ponto
central, equivalente ao eixo vertical. Na tradição hindú, um eixo
invisível, um fio, o sushumnâ atravessa todos os mundos; no homem o
eixo está representado pela coluna vertebral, em cuja base jaz
adormecida a serpente kundalinî, e onde se articulam os diferentes
chakras, discos ou rodas, energias que ela ativará ao despertar, e que
estão intimamente vinculadas ao processo do Conhecimento e sua
ritualização: a Iniciação.11

Roda hindú.

Estes graus de conhecimento vão do mais denso ao mais sutil, da base do


monte ou pirâmide, a seu ponto mais alto; do chakra inferior da coluna
vertebral (mûlâdhâra) ao superior, o do cocoruto (sahasrâra); expresso
em termos cabalísticos, ao espaço, ao "percurso" que separa Malkhuth de
Kether, ou seja, à manifestação universal de seu Princípio; logicamente,
no símbolo da Roda os círculos concêntricos se acham hierarquizados em
virtude de sua proximidade com o ponto central onde os raios cada vez se
aproximam mais de um modo íntimo d'Ele.

Da mesma forma podemos associar estes graus de conhecimento com


níveis da consciência humana, ou planos de leitura da totalidade da
manifestação, e não só com uma de suas partes, ou componentes.
Basicamente queremos assinalar quatro planos de leitura da realidade,
que em muitas tradições são três já que se fundem os dois associados ao
plano intermediário.12 Estes níveis de leitura são os mesmos que estão
associados a qualquer texto ou livro sagrado, começando pela Bíblia, e
são próprios de todas as tradições, em especial as chamadas do "livro"
(judaica, cristã, islâmica), já que elas simbolizam com este "livro" a
manifestação original da palavra, a revelação, uma teofania permanente
(sobretudo no Islã), ou seja, o eixo central que permitirá a ascensão
ordenada pela hierarquia dos mundos.13

Leitura metafísica Atsiluth


Leitura cosmogônica Beriah
Leitura alegórica Yetsirah
Leitura literal Malkhuth

A Iniciação é conhecida unanimemente pelos povos arcaicos e


tradicionais; em realidade só a época moderna a desconhece, ainda que
continue a estar presente no seio de nossa sociedade por seu caráter
arquetípico; este é o caso do Ocidente, onde o Cristianismo e a
Maçonaria, através de seus símbolos e ritos oferecem aos interessados
uma via de realização sempre e quando puderem penetrar nos arcanos, na
essência de seu ser, o que não estará isento de todo tipo de dificuldades,
dado o grau de distanciamento de suas origens em que se encontram as
religiões e as instituições; isso é também válido para o judaísmo; daí a
importância que adquire a gnose da Via Simbólica e a Tradição
Hermética como veículo de realização espiritual.

Igualmente, subsistem certas iniciações entre os povos "primitivos" o que


é contatado pela antropologia; em geral ainda permanecem as cerimônias
chamadas "sociais" pelos antropólogos, como os ritos de puberdade, ou
seja, da passagem do adolescente a homem ou mulher e isso se deve ao
fato de que nestas iniciações participa toda a comunidade, em oposição
àqueles ritos chamados "sapienciais" – ainda que neles não seja
necessário saber ler ou escrever –, realizados só para os indivíduos
chamados ao Conhecimento.

Não obstante, que maior experiência de sabedoria, na prática, senão a de


enfrentar uma nova posição na vida, fazendo-se assim o novo homem
responsável por si mesmo e de sua ação no mundo? Não seria, por acaso,
um nível de conhecimento vital assumir uma postura ordenada no
cosmos participando inteligentemente dele, sendo esta, além disso, uma
atitude perante si mesmo e os outros?

As iniciações em todos os lugares e tempos foram obtidas como


decorrência de provas e sacrifícios (sacrifício, de sacrum facere, fazer
sagrado) que se expressam simbolicamente pelo sangue, elemento
essencial; é sabido que o processo psicológico que supõe o sacrifício é a
melhor preparação para o Conhecimento. Neste sentido, não são poucas
as provas que diariamente deve enfrentar o estudante da simbólica e da
alquimia (chamado familiarmente "misto"): não só deve lutar contra si
mesmo, contra as concepções estreitas e aprendidas do meio, mas
também contra o próprio meio que se opõe a que qualquer um possa
atrever-se a não pensar de uma maneira literal e "oficial". Nos tempos
que correm não há um espaço ideal – ou às vezes concreto – onde as
iniciações possam ocorrer. Tampouco há um tempo especificamente
definido, pois o tempo tem a virtude de regenerar-se perpetuamente;
sempre é agora para trabalhar, e desde logo há uma estreita relação entre
a Simbólica e a realização espiritual, expressa pelo que se convencionou
chamar a via Simbólica, um de cujos meios, a oração do coração, ou
oração concentrada, é uma repetição circular e constante da invocação.
Esperar o tempo e lugar oportuno para a iniciação pode ser uma causa de
distanciamento definitivo.

Michael Maier, Tripus aureus, 1618.

Na realidade a Iniciação ritualiza o processo de Conhecimento, e por


isso, o que interessa em definitivo é este, já que é o verdadeiro, o real;
muitas pessoas podem participar às vezes de ritos iniciáticos tradicionais
sem sequer se dar conta do que significa o Conhecimento, e ao contrário,
um indivíduo que não houvesse participado de nenhum ritual poderia
coroar seu processo de Conhecimento, de realização, que é, em
definitivo, o que a Iniciação simboliza. Isso de nenhuma maneira
significa que aqueles que têm a oportunidade de iniciar-se em alguma
forma tradicional não o façam por considerar que se produziu neles o
Conhecimento. Ao contrário, toda Tradição autêntica possui os meios
espirituais e os ritos exotéricos necessários para ajudá-lo em seu
percurso, e ainda contém a possibilidade de "regularizar" sua situação e
integrar-se em uma corrente espiritual que lhe aportará sua energia e à
qual ele brindará seu esforço; em muitos casos o estudante opta por
alguma forma diferente das do Ocidente. Devemos recordar que o ritual
tradicional exemplifica a história arquetípica da encarnação, o mito do
deus–homem e do homem–deus.

Conjunção de Opostos
Um símbolo que é muito claro, e que está diretamente
aparentado com o da Roda, por seu própria forma e
natureza, é o conhecido Yang–Yin da Tradição Extremo
Oriental, símbolo da analogia e portanto, como o selo
salomônico, expressão da própria ciência simbólica em
si.

Como se sabe o taoísmo considera que o equilíbrio cosmogônico se deve


à ação permanente de duas forças opostas, o Yang (positiva) e o Yin
(negativa), que conjugam uma harmonia, a qual é o próprio universo, e
que estas energias, figuradas por uma dupla espiral, se acham presentes
em qualquer coisa, ser ou fenômeno e configuram todo processo criativo.

Este processo ao qual nos referimos, permanente e mágico – que por um


lado contém um poder vinculado com o passivo, o frio, o inerte e o
quadrado (Yin) e outro relacionado com o ativo, o vital, o calor e o
círculo (Yang), alternando-se e equilibrando-se constantemente –
configura um só indestrutível, já que está claro que as forças não
poderiam existir uma sem a outra.14 Ou seja, que há em uma algo da
outra, uma afinidade, sem a qual não poderiam se opor. Na realidade são
dois focos polarizados de uma própria força. Essa oposição, no vasto
Plano Universal é uma complementação, posto que a dialética é parte da
harmonia e do discurso do Mundo.

Por isso o taoísmo, como qualquer outra tradição, não exclui o mal, a
destruição, etc. de sua cosmogonia, e, pelo contrário, o incorpora como
um componente da realidade, tal qual o símbolo de seu dragão, ou
monstro aquático–ígneo, que representa tanto a energia tônica como a
urânica. Ou seja: não exclui os contrários, mas os complementa.
Enumerar os opostos seria impossível já que são intermináveis, embora
seja muito importante fazer pessoalmente uma lista deles, pois não há
melhor exercício para conhecer os temas da simbólica, metafísica,
cosmogonia e do esoterismo em geral, que conjugá-los
permanentemente.

Nada há bom ou mau em si: o que é bom para uns pode ser mau para
outros, o que ontem foi desejável é atroz hoje, ou vice-versa. O que é
sumamente inconveniente é ter opiniões inabaláveis sobre diversos
temas, que além de ser fixadas por usos e costumes, não são pessoais,
como se pensa, mas sim extraídas do leque de possibilidades do meio,
muitas vezes de maneira casual; isso sem mencionar a quantidade de
fobias, manias e os condicionamentos que elas geram, com os quais o
sujeito se identifica, a ponto de ser capaz de matar, tomando-as como
realidades verdadeiras em um mundo que não é senão uma representação
teatral, uma caixa de luzes e sombras em perpétuo vir a ser.

O taoísmo não fala muito sobre o Tao, por sua própria


incompreensibilidade. Porém alguns textos como o Tao-Te-King
mencionam um Tao da teerra, um Tao do homem, um Tao do céu e um
Tao de Taos ou Tao Inominável. Geralmente se costuma entender que o
Tao é o aro invisível que contém os poderes yin-yang. Nesse caso, da
Unidade perfeita e indiferenciada do Tao, um andrógino ou
hermafrodita15, se produz um par de opostos que constantemente se
complementam, gerando todos os planos, constituindo com o próprio
"corpo" do Tao uma Trindade indissolúvel. Por isso é que o texto taoísta
também afirma que da combinação dos três primeiros números procedem
todos os outros.

O taoísmo, não obstante, nos fala de outra tríade: céu–terra–homem,


sendo este último o intermediário entre os primeiros termos. Na
simbólica da roda poder-se-ia atribuir o ponto central ao céu, a periferia à
terra, e o raio que os une ao homem. Na simbólica cristã poderiam ser
correlacionados com espírito–alma–corpo, e em alquimia com a
manifestação aformal, sutil e grosseira ou enxofre, mercúrio e sal, e
também em termos de Platão com a Essência conjugando o Mesmo e o
Outro, ainda que estes dois últimos exemplos sejam melhor simbolizados
graficamente com um triângulo eqüilátero cujo vértice superior se
polariza na base. Também esta interpenetração de energias que o símbolo
yin–yang representa, esta dupla helicóide, poderia ser equiparada
simbolicamente ao movimento ascendente–descendente do modelo da
roda, e, como este, se subdivide formando um quaternário, já que o
símbolo do yin e yang dá lugar a uma nova partição, posto que em cada
yin há de haver uma potência do yang, e em todo yang a presença do yin.

Imediatamente este quaternário é gerado pelo mistério do Tao, ou do


ponto imóvel, por sua emanação que se expressa por meio de sua própria
dialética, e que encontra seu sentido na complementaridade dos opostos.
Este último é simbolizado pelo número cinco, no qual a civilização
chinesa baseou toda sua cultura, da mesma forma que as pré-
colombianas, que quais fundamentaram sua vida em um quadrângulo,
símbolo da tensão alternada de opostos e de um ponto central, lugar de
repouso, equilíbrio e não-contradição, espaço sagrado e axial, onde se
pudesse estabelecer a conexão com outras realidades, ou seres chamados
espíritos, anjos ou deuses. Este eixo é denominado Tien–Tao na Tradição
chinesa.

A conjunção de opostos é pois um dos temas centrais do esoterismo e da


simbólica à qual também se costuma representar com duas colunas – por
exemplo os pilares J e B na Maçonaria, ou as de misericórdia e rigor do
diagrama do Árvore de Vida cabalística. Esta representação, em verdade,
corresponde igualmente ao símbolo da porta, símbolo de passagem por
excelência, já que ela separa – e une – dois espaços não similares, dois
mundos diferentes, e estabelece um limite, o que fica claríssimo quando
o referimos à entrada de um templo religioso, onde esta linha atua como
divisória entre o profano e o sagrado. Neste caso, conjugar opostos
permitiria o ingresso a espaços ou mundos novos e distintos.

Considerações Finais
Tratamos brevemente de alguns temas relacionados com a Simbólica e a
Cosmogonia Perene. Utilizamos o símbolo da Roda, presente em
diferentes tradições, como o fizemos outras vezes, convencidos de seu
valor didático, para não dizer de seu poder de transmissão sagrada,
mágica e transformadora.16 Devemos ainda esclarecer alguns pontos de
conexão com a Cosmogonia Perene.

A descrição do mundo, a cosmovisão essencial, foi revelada por todas as


tradições conhecidas, quer tenham sido povos "primitivos" ou grandes
civilizações.17 Isso se deve, antes de tudo, ao fato de que a cosmogonia é
só uma e é a mesma para todo tempo e lugar; portanto a descrição que
dela se faz há de ser idêntica, posto que corresponde a um só
Conhecimento; o que se costuma esquecer é que é nesse cosmos que nós
vivemos e que a compreensão de sua descrição não só é válida para hoje,
mas atuante ao promover na psique uma revolução de imagens, sugeridas
pelos símbolos, até a mudança completa, ou conversão da própria psique.
Porque a substituição das concepções rasas, pequenas, asfixiantes ou
históricas com que nos alimentou o mundo moderno provocará em nós, e
portanto em nosso pensar–atuar, uma verdadeira transmutação, caso se
tenha vivenciado de forma concentrada os símbolos da Cosmogonia
Perene e se os tenha absorvido no coração. Nesse caso, o modelo do
universo se constituiu em um mandala multidimensional que abarca a
totalidade do ser e o suporte mais indicado para a construção do homem
novo, da ontologia, como passo prévio à metafísica; se poderia dizer que
o ser que edifica sua vida de acordo com os Universais, ou Arquétipos, se
inicia no Conhecimento da realidade, como foi o caso de todos aqueles
que construíram as culturas das quais somos herdeiros.

Todas as cosmogonias conhecidas – ou projeções da cosmogonia


primordial, que conduzem ao conhecimento íntimo da realidade – levam
imediatamente (por oposição à ilusão e ao engano dos sentidos em um
mundo de aparências) ao reconhecimento imediato de outra possibilidade
sempre presente, cuja manifestação misteriosa é a totalidade do cosmos,
que não constitui senão a sombra dessa presença, sem a qual esse mesmo
cosmos não poderia ser de nenhuma maneira.

Para a descrição cosmogônica conhecida, talvez a mais antiga, a egípcia,


o Mundo tem sentido como reflexo da Vida Eterna. A navegação do Nilo
(fonte de vida) adquire validade porque é uma reprodução de um
paradigma: a navegação do Nilo celeste, o percurso da alma depois da
morte, representada e presidida por Osíris, seu deus mais importante.
Este fato é, na verdade, o fundamental em todas as tradições e o fim
último das cosmogonias e das simbólicas; costuma-se representá-lo no
plano humano como uma peregrinação, arremedo da peregrinação final
da alma, e todas as tradições conheceram este rito, efetuado pelos
egípcios à cidade de Abidos (Tês) situada na margem ocidental do Nilo,
na ribeira pertencente aos mortos, lugar de culto do deus dos defuntos e
sua corte. Por isso, e já que o Conhecimento da realidade do cosmos se
funde com o Conhecimento da Criação de um Criador, esta ascese pode
ser alcançada, posto que foi revelada a homens inspirados, os que a
transmitiram no meio social através de conhecimentos e energias sutis
presentes nos símbolos, mitos e ritos.

Isso é, precisamente, a Iniciação, que se apresenta unanimemente nas


culturas tradicionais, e que consiste de ensinamentos recebidos através
dos meios acima citados e cujo fim último é a Realização total. Por isso,
este processo de sacrifício e conhecimento da realidade cosmogônica,
estes ensinamentos encarnados, que caracterizam a Iniciação, promovem
no adepto o acesso a outro grau de Conhecimento e experiência de novos
planos da Realidade, como se disse, o que inclui uma morte para as suas
velhas concepções e um renascer para um outro mundo, onde lhe espera
novamente uma longa viagem de assombros. Como se vê, a Iniciação é
nesta vida uma imagem da viagem da alma ao país dos mortos e a
representa efetivamente até nos menores detalhes, de acordo com as leis
da analogia. Não podemos nos estender mais sobre o tema da Iniciação.
Porém repetiremos que há nelas vários níveis, correspondendo a graus de
consciência ou Conhecimento. Deveríamos mencionar distintos tipos de
Iniciação: as sapienciais, as guerreiras, as artesanais; é interessante
estudar as diferentes estruturas em que se manifestam tanto em diversos
povos arcaicos como em grandes civilizações. Não obstante, no
essencial, estes ritos seguem sendo "primitivos" em sua forma, ainda hoje
em dia, por mais sofisticados que pareçam em determinadas religiões,
muitas das quais os conservam sem ter quase nenhuma idéia de seu
valor; por exemplo: os sacramentos cristãos do Batismo, a Confirmação e
a Ordem Sagrada, correspondentes na Maçonaria aos graus de Aprendiz,
Companheiro e Mestre.

Além disso, os diversos tipos de iniciações não têm por que se contrapor,
e assim temos o exemplo de inumeráveis sábios que foram ao mesmo
tempo guerreiros e artistas.

Queremos também destacar que o mito, bem observado, sempre


apresenta características circulares. Em primeiro lugar isso se dá porque
nele geralmente se narra uma história cíclica, que inclui o tema da morte
e ressurreição, princípio e fim, ou diferentes transformações, ou
mudanças de estado; nos casos em que se conservou distintas e várias
histórias arquetípicas, estas se entrelaçam entre si, constituindo a
estrutura circular do mitológico, onde umas narrações encadeiam com
outras de modo indefinido – às vezes mediante laços familiares – sem
solução de continuidade. Inclusive em uma mesma tradição pode se dar o
caso de uma história que se repete várias vezes, adornada com distintas
roupagens, determinadas por razões originadas em causas cíclicas, porém
que essencialmente manifesta o mesmo.

Em termos gerais a cosmogonia arquetípica poderia ser descrita como a


planta de um templo ou de uma cidade sagrada que a representa no
mundo. Um ponto ou eixo central governa toda a construção e a conecta
com outros planos da realidade vertical. A base é quadrada (ou seu
equivalente circular) e se abre ao exterior por meio das (duas) colunas de
uma porta. Através dela se tem acesso ao templo no qual há diferentes
espaços (três ou quatro) até chegar ao Santa–Santorum. Estas salas no
templo egípcio vão da maior para a menor, diminuindo a luminosidade
de cada uma delas até chegar à penumbra da última. Esses espaços são
equivalentes e prévios aos invisíveis e verticais, que se articulam através
do eixo e alcançam a abóbada, ou o teto, imagens do céu. Existem nas
abóbadas de alguns templos aberturas marcando a saída ao supra-
cósmico, como no Panteão de Roma; em outros essa saída está implícita
no mesmo firmamento que se acha pintado na parte mais alta, como é o
caso do templo egípcio (o de Dendera, por exemplo) e também o da loja
maçônica.

A numerologia e a geometria expressam as "medidas", os módulos


reguladores da harmonia universal, as "proporções"; esse jogo de tensões
em permanente desequilíbrio–equilíbrio que forma a totalidade do criado
e adota a onda de emanações da qual o homem é o sujeito. Por isso
mesmo, através da conjunção de todos os opostos e da fundamental
contradição de suas duas naturezas, este não só pode encontrar seu Ser e
seu papel nesse cosmos como parte ativa, mas supostamente transcendê-
lo, para passar a viver aqui em vida e depois de sua morte, outros graus
não-manifestados do Ser Universal.
deidade chamada Inteligência, a grande Mãe ou Mãe Eterna (Binah na
cabala hebraica, Nârâyâni no tantrismo hindú), energia capaz de
selecionar os valores e pô-los em seu lugar criando uma ordem mental
em oposição ao caos da ignorância.18 Daí a importância do modelo do
Universo e de sua Ordem Arquetípica, posto que é capaz de ativar e gerar
o auxílio desta deidade, que sempre se manifesta no microcosmos como
a compreensão imediata, efetivada no coração.

Esta energia, por sua própria virtude, rechaça os pretensiosos paradigmas


culturais que condicionam a nós, homens atuais, em particular aqueles
referentes a falsas idéias de progresso e evolução, ou seja, os da ciência
oficial contemporânea19, e permite assim a abertura de um espaço onde as
coisas, os seres e os fenômenos, poderiam ser completamente distintos da
visão Ocidental, horizontal, pessoal e empastada, herdada apenas dos
últimos séculos; e mais ainda: fomentaria a possibilidade de perceber e
atualizar o que os sentidos muitas vezes negam, e rechaçar a ilusão geral
e profana. Pode-se afirmar que, por sua própria universalidade, ninguém
deixou de ser convocado para este rito da Inteligência, nome divino que
pode ser rechaçado ou aceito, de acordo com os níveis do ser individual,
e decida, segundo este, ser cúmplice de um engano hipócrita ou opte pela
lucidez como estado permanente.

Tua esposa será como jarra fecunda no segredo de tua casa. (Salmo 128, 3, Bíblia
de Jerusalém).
NOTAS
11
A tradução do termo chakra é literalmente roda.
12
Na cabala hebraica os mundos intermediários de Yetsirah e Beriah, estão
formados pelas sephirot chamadas de "construção".
13
No Islã este Conhecimento, esta Gnosis, é assemelhada a Ilmut Tauhyd
(ciência da unidade), da qual derivam todas as ciências. Igualmente há
três graus de Conhecimento: islam, imán, efibsán, correspondentes a três
categorias de crentes, muslimún, mu'minún e Muhsinún.
14
A famosa harmonia ou equilíbrio grego foi também obtida a partir de
conjugar o apolíneo com o dionisíaco; uma vez que se compreendeu que
entre estas duas energias as contradições são aparentes.
15
Como é sabido este símbolo era visto por Platão como as duas metades
idênticas de uma esfera.
16
O "jogo" do Tarot, cujo nome é a inversão da palavra "Rota" = roda,
combinado com o esquema da Árvore da Vida cabalística e com o auxílio
das artes liberais, constitui um excelente meio introdutório muito
propício para as iniciações herméticas modernas.
17
As chamadas "altas civilizações" foram também sociedades "primitivas",
e de sua "época mitológica" é que extraiu o cérebro de sua cultura. Para
elas era essa sua Tradição, recebida de modo completo e não incipiente
ou defeituoso. Isso explica a aparição aparentemente repentina de
grandes monumentos e cidades e a irrupção na história de sistemas
consumados de pensamento, comunicação, linguagem, etc.
18
O rio Ganges é o esperma de Shiva, e essa semente contém
potencialmente a energia da Inteligência (associada igualmente às letras
do alfabeto sagrado do mundo, ou a um som primordial – AUM) ou Mãe
Eterna, Nârâyâni, energia ordenadora e formadora, imanente na
manifestação, inteligência cósmica e sensível semelhante indistintamente
a Pârvatî (Shakti de Shiva) e Lakshmî (Shakti de Vishnu).
19
Com a exceção da ciência mais moderna.

SIMBOLISMO E ARTE
Federico González

Almanaque, Alemanha s. XIV

III
O SER DO TEMPO
Simbolismo dos calendários
Da mesma forma que a Eternidade está
em Deus, o cosmo está na Eternidade, o
tempo está no cosmo, o devir está no
tempo. E enquanto que a Eternidade
permanece imóvel rodeando a Deus, o
cosmo está em movimento na
Eternidade, o tempo se realiza no cosmo
e o devir transcorre no tempo.
Hermes Trismegisto. Poimandres XI, 2

Hoje em dia, os calendários são meros instrumentos de um tempo plano


e linear, cujos elementos, chamados dias, sucedem-se ininterrupmente, de
modo indefinido ao longo de um ano (que segue processionalmente outro
e é continuado por um terceiro, etc.), divididos em conjuntos designados
com o nome de semanas e meses e arrumados de maneira supostamente
convencional em festas e jornadas trabalhistas. O calendário passou a ser
um artigo de uso comum para comerciantes, empregados de escritório,
trabalhadores, estudantes, amas de casa, etc., de eminente uso prático
para computar compromissos, férias e feriados. Na realidade, se
considerarmos o uso que deles se faz, podemos entender que não tem
relação com o tempo em si, como elemento constitutivo da realidade
psicofísica, mas sim com a sombra computável de seu transcorrer,
melhor, de sua fuga em um espaço indeterminável, concebido como
mecânico e simplesmente utilitário.

De fato, quem "inventou" o calendário originalmente o fez com outros


critérios, onde a equação espaço-tempo é indissolúvel e forma tudo que
existe, ordenando-o de modo harmônico, com correspondências
evidentes entre suas partes tal como o cosmo em ação, ao qual o
calendário simboliza: concepção totalizadora e chave salvífica,
verdadeiro instrumento de Conhecimento.

Como se observa, ambas as formas de ver se opõem até o ponto de


estarem invertidas, mas não por este motivo se alteram os calendários em
si, ou se vêem afetados por isso, mas se trata apenas de um
empobrecimento e de uma certa degeneração da visão dos homens atuais,
aliada com a degradação óbvia de nossa cultura e entorno e, portanto, de
nós mesmos, identificados com o social. Esta queda afeta a todo o
coletivo universal e é o selo ou estigma contemporâneo: desta forma,
uma concepção chã e profana da vida e do tempo faz dos calendários
meros utensílios práticos, como as agendas e os almanaques, sem se
suspeitar hoje nem de onde provêm, nem o que representam. Se o
público médio soubesse que, entre outros muitos significados, eles são
teúrgicos, ter-lhes-ia um certo respeito, ou ao menos um temor, talvez
supersticioso, porém mais adequado à natureza intrínseca dos mesmos do
que a desodorizada e asséptica indiferença atual.

Por tal motivo, é pouca a importância que se dá ao calendário (calendas =


primeiro dia de cada mês) na atualidade e, tal como acontece com os
números, é utilizado como uma simples ferramenta hipotética, sem
sequer buscar averiguar sua origem histórica e, menos ainda, seus
conteúdos enquanto expressão sintética de um pensamento que deu lugar,
por seu intermédio como imagem da cosmogonia em movimento, ao
desenvolvimento das grandes civilizações e ao ordenamento cultural
geral.
Adicionamos que hoje perdeu também seu caráter religioso, ao menos no
Ocidente, o que é claro no Cristianismo, enquanto se pensa que a
organização das festas, que ainda hoje persiste, é ritual e está em íntima
relação com a vida do Jesus Arquetípico, ou seja, com a imagem do
Cristo como salvador e regenerador do tempo e paradigma do processo
cosmogônico, quer dizer iniciático, cujo sentido integra em sua própria
unidade e cuja manifestação é o ciclo calendárico como instrumento
rítmico e ritual, carregado de inumeráveis energias permanentemente
atualizadas, relacionadas com a história sagrada: nascimento, vida, morte
e ressurreição do ano ou do ciclo, imagem de um processo que tem como
protagonista vivo o tempo, que permanentemente o limita e portanto
configura. Desta forma os calendários, ao fixarem e expressarem o
processo cosmogônico, sacralizam o tempo e o regeneram, ou o recriam,
da mesma forma que são sua expressão ordenada no fluir do devir e, por
isso, estruturam um espaço no caos do amorfo.

Porém, ao investigar alguns dos temas referentes à simbólica dos


calendários, ou seja, seu significado real e concreto, devemos deixar de
lado toda idéia de cronometria tal como hoje é concebida, quer dizer, a de
um registro linear onde vão se inscrevendo frações, ou espaços
sucessivos, que devem sua continuidade à soma das partes independentes
de um indefinido, que se toma como a base de uma hipótese, ou de uma
superestrutura tão rígida como imaginária, no seio da qual o tempo
progride historiograficamente, por um lado, e pelo outro é medido por
relógios inexoráveis que obstinadamente armazenam porções inúteis de
informação.

Pelo contrário, as sociedades que criaram os calendários, e das quais


herdamos o nosso, compreendiam o tempo como recorrente e, sobretudo,
como constituindo parte essencial da própria Criação Universal
(macrocosmo), ou seja, como integrando o ser do homem (microcosmo),
e portanto como algo que não está fora e pode ser objetivamente
enunciado ou medido, não como uma categoria do ser, mas sim o Ser
mesmo, em toda a potência universal contida na própria idéia do Tempo
como símbolo móvel do Eterno e do Imóvel; do qual tem em conta o
milagre original da Memória e as correspondências que guardam os
seres, as coisas e os acontecimentos em geral, que os fazem distintos e
significativos e, por isso, também interdependentes e não excludentes.

Para uma visão tradicional, o Tempo é o sopro vital, o Grande Coesor do


criado 20, e é absolutamente natural que sua expressão gráfica seja a de
uma circunferência que, ao limitar um espaço, configura um círculo 21,
uma primeira figura plana, tanto de um espaço original, como do ciclo
em que é vivido, ou revivificado, pela ação espontânea do tempo,
gerador permanente do movimento e das leis que o regem e em total
correspondência, como não seria diferente, com suas próprias origens,
com sua razão de ser; com o Ser do Tempo como fundamento de todo o
criado.

Isto apenas bastaria para ligar imediatamente estas concepções com a


idéia do sagrado e da divindade, evidente neste pensamento a respeito
das origens e da estrutura cósmica, e por certo são numerosos os deuses
fundamentais de todos os panteões ligados ao tempo, a seu transcorrer, a
sua velocidade e à memória e esquecimento, ao hálito vital, ánima
mundi, ritmo, ciclo, etc.

É lógico pensar, portanto, que se o tempo é extremamente sagrado para


uma sociedade tradicional, o calendário também o é, miniatura e imagem
do cosmo, fixação do devir, revelação de um saber atemporal que toma o
movimento como projeção espacial do tempo ao conjugá-lo em um
contínuo. Por isso consideramos muito adequado o estudo dos
calendários tais como instrumentos sagrados, reveladores ou mediadores
do Conhecimento que eles mesmos levam em sua estrutura, ou seja,
como epifanias permanentemente disponíveis para transformar o mutável
em imutável, o visível em invisível, o caos em ordem, a projeção
indefinida em verdadeira ontologia, ou seja: no Ser do Tempo como
hálito vital do Ser do Cosmo.

Em outro lugar, e nos referindo aos calendários mesoamericanos 22,


dissemos, enunciando conceitos análogos aos aqui vertidos:

O tempo sempre é atual; não é algo gerado nos começos e que subsiste como um
componente abstrato da realidade psicofísica, mas sim expressa essa mesma
realidade agora, pois ele é uma de suas condições, quer dizer, um elemento sempre
presente, sem o qual a vida não seria possível. Sua qualidade é, então, parte
constitutiva do cosmo e sua forma de manifestar-se que pode ser medida
quantitativamente no espaço a maneira em que este se expressa e, portanto, uma
chave para a compreensão de sua essência, um módulo válido para o conjunto da
criação. Nesta perspectiva, têm particular importância as revoluções dos astros e
das estrelas no firmamento que, por estáveis com relação à rapidez do movimento
da Terra, têm de servir como guias e pontos de referência para se estabelecerem as
pautas gerais do conjunto a harmonia que Pitágoras chamava "música das
esferas", que se obtém pela interação de todos os movimentos individuais,
incluído o da Terra, coincidentemente com o que nela se produz, começando pelo
homem.

Efetivamente, tanto o movimento (aparente) do Sol no dia, ou melhor, a


forma binária em que o dia se expressa –manhã-noite ou luz-escuridão–,
é a primeira partição que o plano cósmico aceita, quer dizer, o
nascimento e morte do Sol, origem perpétua de vida, e sua posterior
ressurreição do seio da noite, anunciada pelo despertar de um novo
amanhecer.

Para o homem tradicional este é um claro sinal visível do modo binário


que se encontra presente em tudo o que lhe circunda e leva internamente.
Por um lado o crescimento do Sol até seu apogeu; em seguida, a
inevitável decadência e a extinção; não resulta difícil equiparar por
analogia este fato com a vida do homem e de tudo que existe, e concluir
que se trata de um par de opostos que se conjugam para que, da mesma
forma, a regeneração e a vida se propaguem de maneira permanente,
dando continuidade à criação, o que configura um plano divino que se
cumpre inexoravelmente e no qual o ser humano participa.

Por outra parte, quando o Sol morre e começa seu percurso pela metade
do círculo do inframundo, aparecem inumeráveis signos, luzes e estrelas,
que também, encabeçados pela Lua (esposa ou irmã do Sol) 23, fixam
pautas nítidas, ritmos e proporções ao conjunto universal.

A Lua e seus ciclos em particular foram, obviamente, dos primeiros


parâmetros vigentes utilizados para estabelecer relações de todo tipo, e
manifestar a cosmogonia resultante da interação dos diversos corpos
celestes a Terra inclusive e fixá-la no calendário, que não é mais que a
projeção da revelação cósmica e do Ser do Tempo, como dissemos.
Muitas culturas conservaram em sua estrutura as fases da Lua como
ponto referencial de primeira magnitude. Em outros casos, os calendários
ainda vigentes conservam um ponto de vista soli-lunar alternado, como
no cristianismo e seus ciclos rituais. Necessariamente todas a culturas
tomaram a luminária noturna e seus ciclos como uma das medidas
fundamentais da cosmogonia e seus ritmos, e estas pautas altamente
significativas se associam com inumeráveis termos conhecidos ou
experimentados, tanto no nível físico como no psicológico 24.

Se o movimento da Terra ao redor do Sol no dia produz o primeiro ciclo


unitário e recorrente, as fases da Lua configuram as semanas e os meses,
ou seja, espaços mais demorados de tempo e, portanto, ciclos mais
amplos, embora devam ser considerados conjuntamente estes planetas, já
que a Lua é um satélite da Terra.

Ao dia e ao mês deve ser adicionado o ciclo do ano, ou seja, a viagem


zodiacal do Sol, que inclui ambos. Estas são as medidas que os
calendários registram, às quais se deve acrescentar, por um lado, uma
medida fundamental para todas as grandes civilizações, o Grande Ano de
26.000 anos (25.920) ou 13.000 (sua metade) em números "redondos" 25,
correspondente a precessão equinocial (deve-se assinalar que este
movimento é retrógrado) e de modo secundário outras relacionadas com
planetas e estrelas (a estrela Polar, as Plêiades e as "fixas" em geral,
assim como os movimentos de Vênus e outros astros, ex.: os eclipses e
nodos lunares).

Isso faz com que os calendários expressem precisamente os ciclos e


ritmos cósmicos e, portanto, o conhecimento das ciências que os
veiculam, que têm naqueles sua expressão mais genuína.

Temos, portanto, três grandes marcos, ou maneiras de ver o conjunto da


criação, marcados em primeiro lugar por um movimento correspondente
à Terra (rotação), o qual inclui à Lua e suas fases como medida ou metro
preciso da reiteração deste movimento; em segundo termo o movimento
de translação, que é o que tendo ao Sol como eixo visível realiza a Terra
em um ano percorrendo as estações zodiacais e que tem ao astro rei tanto
como principal protagonista como quanto medida do conjunto cósmico,
movimento identificado como um dia do Sol; e finalmente o movimento
de pião que produz a Terra ao girar sobre seu próprio eixo, e que é
visualizado como um "ano" do Sol (ou sua metade), idêntico ao Grande
Ano das civilizações arcaicas que fizeram sabido uso dos calendários;
este último movimento, que como já dissemos é polar e visível enquanto
determina um grau na circunferência a cada 72 anos (25.920 = 360 x 72),
é observável e simbólico para os povos atentos ao valor sagrado e
determinante da cosmogonia, sobretudo tendo em conta aquilo que as
sociedades tradicionais consideravam como revelado e fundamental 26.

São três, portanto, as medições básicas às quais se referem os calendários


e que desejamos reiterar aqui, posto que não são arbitrárias, mas se
correspondem perfeitamente com a ordem natural da criação universal,
pois têm como referência: 1) à Terra e sua rotação (ao movimento
aparente do Sol nela) como manifestação do dia (primeira unidade
temporal) a qual deverão ser adicionadas as fases de seu satélite, a Lua,
computando os meses e eventualmente sua partição em semanas, embora
considerada em conjunto com a Terra; 2) ao Sol em seu percurso anual
(movimento que gera uma unidade de medida mais completa, o ano) e 3)
a precessão dos equinócios (ou sua metade), uma imensa revolução
retrógrada da Terra sobre seu eixo estudada na cultura ocidental por
Hiparco de Nicéia conhecida pela totalidade dos povos que deixaram
calendário e que constitui a "medida" maior, ou a mais ampla
"proporção" que tenha um sentido inteligível para o ser humano.

Como se poderá perceber, estas medições são efetuadas de um plano


geocêntrico, ou melhor, de uma perspectiva antropocêntrica 27, assunto
que é muito importante destacar, assim como o fato de que os pontos de
vista considerados são cada vez mais amplos e universais à medida que
se remonta e se amplia a escala que, por outra parte, coincide não
arbitrariamente com uma "desaceleração" ou "alentecimento" do Tempo,
que então não só é considerado como uma sucessão de anedotas mais ou
menos consumíveis, mas também, em outra dimensão mais acorde com
seu sentido real e majestade verdadeira, que pudesse ser enunciada, de
modo paradoxal, como uma atemporalidade do temporal; o que inclui
uma valoração, um sentido, que forma posteriormente uma ordem, ou
seja, uma série de estruturas complementares e articuladas que
desembocam na Cosmogonia (ou, também, se preferir, na cosmovisão)
própria de cada cultura, segundo os atributos que diferentes homens
destaquem dos diversos seres ou fenômenos celestes, embora idêntica em
suas formas essenciais, já que é o mesmo o modelo ao qual elas se
referem, apesar das diferentes perspectivas em que é focalizado 28.

Na cosmogonia de Ptolomeu, reflexo da concepção platônica e da


tradicional em geral, emanada da Alexandria gnóstica, que regeu de uma
ou outra maneira o destino do Ocidente até o Renascimento e determinou
os distintos calendários que hoje ainda utilizamos, projeta-se no plano a
imagem de um esquema vertical e espacial que destaca a presença de dez
mundos, ou "esferas" sobrepostas umas às outras em relação a um eixo
ideal. Esse eixo tem por centro o Sol; como ponto mais elevado ao
Primum mobile (equiparado ao Pólo norte) e à Terra como seu extremo
inferior (Pólo sul). Nele se sobrepõem as órbitas dos planetas
tradicionais: Lua, Mercúrio e Vênus como interiores ao Sol, e Marte,
Júpiter e Saturno como exteriores a ele 29.

Andrea Cellarius, Harmonia Macrocosmica


Amsterdam 1678
Outras "esferas" são ocupadas pelas estrelas fixas, ou pelo zodíaco e pelo
celestial, embora haja pequenas diferenças de detalhe em versões
análogas. No diagrama da Árvore da Vida da Cabala acontece o mesmo
e, como em ambos os casos e em outros, o tempo e o espaço são
considerados um todo; acontece que os calendários registram no tempo e
atualizam, na seqüência, o esquema espacial cósmico ao qual apenas
fazem fixar em seu permanente movimento rítmico e cíclico.

Isto resulta claramente refletido na arquitetura sagrada, onde os edifícios


estão situados, por um lado, seguindo as direções do espaço e, por outro,
projetando o transcurso temporal, quer dizer, a forma dos céus e seus
movimentos harmônicos 30.

De fato, a observação e estudo das pautas do transcorrer de astros e


estrelas estabelecem diferentes proporções, que se transformam em
números dentro de uma escala em relação com figuras geométricas e
módulos que contêm igualmente um conteúdo musical, enquanto que a
sinfonia do céu ou da lira de Apolo é audível ou perceptível por meio da
intuição, estabelecendo também uma relação tempo-música, tendo em
vista que, se aqueles movimentos que testemunham os calendários fixam
a projeção espacial do tempo, analogamente a música é a projeção
espacial do verbo.

Certamente, estes modelos são paradigmáticos e, portanto, sempre atuais;


e essa atualidade está expressa pelo calendário nos ciclos aos quais ele
faz referência e que enumeramos anteriormente, quer dizer: ao ciclo
diário, ao da Lua, ao do Sol anual e ao da precessão equinocial (ou outros
ciclos como o "século", as revoluções "excêntricas" de Vênus, os nodos
lunares, etc.), levando em conta, como dissemos, outros movimentos que
inclusive são considerados em vinculação com os anteriores. E é possível
assinalar que a Cabala também estabelece seu esquema simbólico da
Árvore Sefirótica articulado axialmente: ao redor de um eixo polar ou
coluna, que compreende, em ordem ascendente a Terra, a Lua, o Sol, e ao
primeiro motor, na sumidade, identificado com a unidade, chamado
Kether (Coroa) 31.

Na realidade, esta correspondência entre culturas diferentes, idéias


análogas e relações espaço-temporais não nos deve surpreender.
Inclusive existe unanimidade nelas em relação à identificação de macro e
microcosmo, e tanto é o homem um Universo reduzido, como o cosmo o
Homem Universal:
Como é encima é embaixo

reza o texto da Tábua de Esmeralda, e a tradição hindu situa seus centros


de energia no homem (microcosmo) ao longo da coluna vertebral
(chakras)32, como igualmente o fazem os hopis dos Estados Unidos.
Permita-nos citar aqui o Tratado do Fogo e do Sal de Blaise de Vigenère:

Pois assim como Deus fez o Sol, a Lua e as estrelas, para sinalizar no grande
mundo, não só o dia, a noite e as estações, mas também as mudanças dos tempos,
e muitos sinais que devem aparecer na Terra, assim tem feito sinalizar no homem,
o pequeno mundo, certos traços e linhas que fazem o papel de estrelas e astros,
pelos quais se pode chegar ao conhecimento de muito grandes segredos, nada
vulgares, nem conhecidos de todos.

O Tempo é o Verbo feito carne, sopro do Espírito criando a Alma do


Mundo. O Tempo deve ser tomado como expressão psico-física, viva, da
realidade, cujas leis e venturas os calendários registram, pois estes
expressam precisamente os ciclos e ritmos cósmicos e, portanto, o
Conhecimento tem neles sua expressão genuína.

Igualmente, o calendário é a primeira notação, o fundamento da


escritura; é na verdade, como dissemos, o sopro do verbo encarnado; e
esta descrição arquetípica da cosmogonia é também o primeiro
rudimento que dará lugar a determinados registros (genealogias, feitos
simbólicos e mágicos) que serão posteriormente os anais do ser humano:
sua idéia da História, sua imersão em um tempo seqüencial. O calendário
é também a articulação de um sistema, um jogo de correspondências e
analogias, uma estrutura classificatória e uma fonte de revelação que
deste modo regra a vida dos seres humanos. Em conclusão, o Ser do
Tempo é em si seu desenvolvimento espacial, seu movimento vital e,
com Ele, a geração de tudo o que produz em seu devir; é na realidade o
"sendo" do verbo ser, quer dizer: as pautas reiterativas da cadência de um
discurso cíclico e a possibilidade de apreender sua essência por seu
intermédio, utilizando como suportes determinadas conjunturas de seu
percurso (os dias "festivos") com o fim de transcendê-lo, ou melhor, de
vivenciar outros níveis de conhecimento mais imanifestados do Ser
Universal, fundamentalmente no plano do mundo sensível e, desde já,
tudo dentro da ordem cosmogônica, à qual configura.

As festas, ou seja, os espaços significativos onde o tempo ordinário pode


ser abolido, são pontos simbólicos de conjuntura dentro de um tempo
monótono e insignificante e assinalam, na continuação do ano, o que é o
Tempo em Si ao valorizá-lo e reintegrá-lo a um espaço originário; dito de
outro modo, o Tempo não seria nada, seu Ser, sem as festas, ou espaços,
especialmente assinalados por sua projeção ou hálito, o movimento, para
compreendê-lo ou invocá-lo. Nestas "estações" que o movimento faz, o
tempo se reintegra, e é reintegrado de uma vez só pelo rito humano a sua
Origem Arquetípica. Não há, pois, maior oportunidade de síntese que
vivenciar o Tempo como se fora Espaço; um só e absoluto espaço vazio;
pois se o movimento que os calendários testemunham é a projeção
espacial do tempo, a absorção deste no atemporal é semelhante a
"finalizar o discurso sem ter movido a língua" como reza o texto zen-
budista.

Duas foram sempre, para todos os povos, estas estações fundamentais


onde o Sol aparenta deter-se em seu percurso anual, e elas marcam dois
pontos extremos em uma circunferência; referimo-nos aos solstícios,
palavra em cuja etimologia está implícita esta "estação", este "deter-se",
este invariável e periódico sinal que divide o ano em duas partes; e
posteriormente em quatro, com os equinócios como pontos intermédios,
estabilizando-o, emoldurando-o e estruturando todas as festas sucessivas.

A volta da Terra sobre si mesma, a da Lua ao redor da Terra, a da Terra


em torno do Sol (anual e zodiacal) e a da precessão equinocial (o ano do
Sol) proporcionam-nos as unidades fundamentais antropocêntricas com
as quais podemos apreender o universo e o fluir indefinido da existência;
dias, meses, anos e grandes anos nos determinam o enquadramento onde
é possível a vida humana, quer dizer, sua organização e fixação no
espaço amorfo. A tudo isso se adicionam as revoluções das estrelas, das
constelações e suas conjunções, e os percursos às vezes excêntricos dos
planetas, especialmente de Vênus, Marte e Mercúrio. É bom que se diga
que todos estes planetas são deuses e que eles "santificam", fazem
sagrado, o transcorrer do tempo, o que é óbvio no significado dos nomes
dos dias da semana, que se repetem indefinidamente sob os mesmos
patrocínios permanentes, os quais assinalam também os dias de mercado,
imprescindíveis para a comunicação e para a vida social, e em períodos
mais extensos os meses e determinadas datas reiterativas para as
atividades agrícolas (também sagradas) de semeadura e colheita,
indispensáveis para a vida dos povos.

Por outra parte, é no discurso do Tempo onde se produz a revelação, e é


por meio deste e sua sucessão e pausas, que o caracterizam, que se
compreende a simultaneidade de um só gesto criativo, cujas ondas se
expandem em um espaço indefinido, criando mundos e gerando
permanentemente novas possibilidades.

Por isso, a origem é sempre entendida e vivenciada como o que está


"detrás", constituindo o passado; esse passado não é cronológico, mas
sim meta-histórico, não é na verdade linear, mas sim vertical –
essencialmente mítico– e, portanto, pertencente a "outro" tempo e "outro"
espaço, ligados intimamente com as "reminiscências", ou seja, com a
Memória como Coração do Tempo, e introdutora a um mundo ou plano
diferente do Ser Universal.

Por isso o calendário revela o rito cósmico e os ciclos respectivos (a


manifestação da eternidade e a simultaneidade no movimento
temporário).

Também por esse motivo a astronomia deveria ser um auxiliar poderoso


da iniciação para aquele que penetrou na mecânica celeste; igualmente, o
calendário, Arte e Ciência da Memória Cósmica, Ciência dos Ciclos e
dos Ritmos. Da mesma forma a Astronomia Judiciária, ou Astrologia,
que vincula o Universo com o Microcosmo.

Tudo isso caracterizado por três níveis que se reconhecem também no ser
humano e que estão relacionados com o caminho iniciático; o primeiro
corresponde ao estado psico-físico profano no que tem de mais grosseiro;
os outros dois representam a iniciação solar e a polar respectivamente e
são cada vez mais sutis e "informais", mais atemporais e "alentecidos" 33.
Por outro lado, como já observamos, a iniciação se produz no Tempo, ou
melhor, trata-se de um trabalho com o Tempo, se isto pode ser dito.

Para muitas disciplinas iniciáticas, o conhecimento da lei cósmica e de


seus distintos níveis de realidade, ou seja, a cosmogonia, é o passo prévio
ao reconhecimento do ser no mundo, a relação do ser individual com o
Ser Universal; este é o motivo do Conhecimento do Ser em si mesmo, ou
seja, a ontologia como integração de tudo o que a lei ordena e como
suporte da metafísica (quer dizer, para aquilo que está além da lei
cósmica), que se intui em qualquer nível dos já mencionados; assim, o
que se observa é como acontece a Manifestação, evidenciada no modelo
da Árvore da Vida, sendo que do mesmo modo descendem as Musas,
emissárias e, ao mesmo tempo, filhas do som da lira de Apolo.

Só desejamos reiterar, para terminar, que na rota iniciática de ascensão


pela Árvore da Vida, quanto mais elevado o planeta, mais lento;
exemplos: Saturno e a ancianidade como expressão de sabedoria
(inclusive biológica), enquanto Mercúrio é rápido, preparado e
impulsivo. Quanto mais lento o movimento mais atemporal e vice-versa:
quanto mais rápido, mais veloz e sujeito à relatividade do instante. De
fato, qualquer ascensão (o subir de uma torre) é lenta e dificultosa; pelo
contrário, a descida (jogar-se dessa torre) é rápida e, progressivamente,
cada vez mais veloz ao ponto de acabar na destruição, ou seja: na morte,
conclusão cíclica de qualquer organismo vivo.
NOTAS
20
Nesse sentido o Tempo é a imagem do Amor Divino permanentemente
atualizado para assegurar a Vida Universal.
21
Em algumas tradições esta expressão é quadrada. Ambas as figuras,
entretanto, são análogas e se correspondem.
22
El Simbolismo Precolombino. Cosmovisión de las Culturas Arcaicas.
Cap. "Los Calendarios Mesoamericanos". Kier, Buenos Aires, 2003.
23
Também irmão em certas cosmogonias.
24
"Certamente, a vista, segundo meu entendimento, é causa de nosso
proveito mais importante, porque nenhum dos discursos atuais sobre o
universo nunca teria sido feito se não víssemos os corpos celestes, nem o
sol, nem o céu. Na realidade, a visão do dia, da noite, dos meses, dos
períodos anuais, dos equinócios e dos giros astrais não só dão lugar ao
número, mas também estes nos deram também a noção do tempo e da
investigação da natureza do universo, por isso nós procuramos a
filosofia. Ao gênero humano nunca chegou nem chegará um dom divino
melhor que este. Por tal afirmo que este é o maior bem dos olhos. E do
restante que provêem, de menor valor, aquilo que alguém não amante da
sabedoria lamentaria em vão se tivesse perdido a vista, o que poderíamos
elogiar? Por nossa parte, digamos que a visão foi produzida com a
seguinte finalidade: deus descobriu o olhar e nos fez um presente com ele
para que a observação das revoluções da inteligência no céu nos
permitisse as aplicar às de nosso entendimento, que lhe são afins, como
podem sê-lo das convulsionadas às imperturbáveis, e ordenássemos
nossas revoluções errantes por meio da aprendizagem profunda daquelas,
da participação da correção natural de sua aritmética e da imitação das
revoluções completamente estáveis do deus." Platão. Timeu 47.
25
Referimo-nos ao período de 13.000 anos, ano platônico, ou magno, onde
o sol, a lua, e os cinco planetas restantes voltam para sua exata posição
inicial.
26
A cada ano, no dia dos solstícios (ou dos equinócios), o sol aparece
atrasado com relação ao ano anterior.
27
Identifica-se a terra com o corpo humano.
28
Os calendários são o fiel reflexo da cosmogonia dos povos que os
desenharam, e suas pautas, os módulos que engendraram suas
civilizações; isto é também válido para todas aquelas culturas –as dos
povos nômades, por exemplo– que não levam conta dos ciclos e ritmos
mais amplos e estáveis (inclusive por impossibilidade física), mas sim
daqueles necessários a sua economia vital.
29
Os planetas "interiores" ao sol e suas influências (Lua, Mercúrio, Vênus),
e os "exteriores" (Marte e Júpiter, Saturno) também estão determinados
de modo hierárquico; igualmente, cada um deles tem dois aspectos, um
"ascendente" e outro "descendente"; exemplo: o Mercúrio vulgar e o dos
filósofos, a Vênus Pandemos e a Vênus Urânia, etc.
30
Isto é claro nas pirâmides pré-colombianas em geral, dentro das quais
destacaremos a chamada "de Kukulkán", em Chichén Itzá, que é uma
imagem de sua cosmogonia –nove estádios coroados pelo Templo
orientados por volta das quatro direções do espaço e uma cripta interior–
e de seu calendário, já que simultaneamente registra em sua arquitetura,
por um efeito ótico (um jogo de luzes e sombras), a descida da serpente
emplumada por uma de suas faces, exatamente no equinócio da
primavera, ao amanhecer. Sobre algumas destas verificações, ver o
trabalho muito interessante de certos arqueoastrónomos; Anthony Aveni,
por exemplo: Observadores del cielo en el México Antiguo. F. C. E.
México 1991.
31
Eixo terrestre e eixo celeste são aqui homologáveis; ambos são imagens
dos pólos arquetípicos e na Árvore da Vida cabalístico, Malkhuth, a
sephirah correspondente à Terra, é o pólo sul do modelo cosmogônico.
32
Ver Federico González: La Rueda, una imagen simbólica del cosmos.
Cap. V: "Dos modelos herméticos, Cábala y Tarot".
33
As lunares, ou sub-lunares, não são propriamente iniciações, embora
abonem, ou melhor, possam abonar o caminho do Conhecimento.

SIMBOLISMO E ARTE
Federico González

Templo das Inscrições, Palenque

IV
ARTE, SÍMBOLO E MITO A NAS CULTURAS
TRADICIONAIS

Para um homem tradicional ou arcaico tudo é sagrado, e o universo, um


jogo perene de relações misteriosas e simbólicas, possuidoras em si
mesmas de significados evidentes. Vive num assombro perpétuo e, por
sua vez, está perfeitamente integrado a seu ambiente e participa
constantemente dos eflúvios do céu e da terra. É nesse momento um
mediador e como tal encontra seu lugar no mundo, correspondente com
sua verticalidade. Deve portanto reproduzir estes mistérios à imitação do
grande gesto criador de um construtor original, fecundando a
possibilidade de uma cultura. Deste modo, a natureza e todo o
manifestado, especialmente os animais, participam dessa mediação, pois
são símbolos de outros mundos secretos dos quais este é só um reflexo.

A analogia estabelece leis de correspondência entre o macro e o


microcosmo, entre o universo e o homem, o visível e o invisível, o
aparente e o real, o passageiro e o eterno, o natural e o sobrenatural, duas
faces de uma mesma moeda, que os povos primitivos e/ou arcaicos não
distinguem de modo limitado, ou excessivamente diferenciado. O
símbolo é o revelador destas correspondências e igualmente o veículo
capaz de religá-las; o símbolo, portanto, está fundamentado nas leis da
analogia, e nas correspondências naturais entre a totalidade dos seres,
fenômenos, e coisas; simpatias e repulsas que todos os povos
conheceram; energias que se agrupam em conjuntos que, por sua vez,
relacionam-se com outros, e estes com terceiros de maneira indefinida,
formando cadeias e gerando códigos simbólicos que obedecem este
mesmo tipo de estruturas (tal qual a mitologia de todos os povos), e que
conformam sua própria cosmovisão derivada de uma Cosmogonia
Perene, de um modelo universal, válido para qualquer tempo e lugar.

Isto é assim, embora adote formas adequadas a diversas circunstâncias e


lugares, conforme pode constatá-lo qualquer investigador que se ocupe
da simbólica, ou aquele estudioso da antropologia ou da sociologia, já
que esta possibilidade de gerar códigos simbólicos (que abrangem a
totalidade do ser de uma sociedade tradicional) é inerente ao próprio
homem, posto que este é um universo em miniatura e, como tal, tem a
possibilidade de recriar as leis cósmicas, gerando desse modo as culturas
particulares dos inumeráveis povos.

Mas um autêntico símbolo não é só um mero signo capaz de ser o


intermediário entre uma imagem e um conceito a nível psicológico,
sociológico ou horizontal, mas sim a realidade manifestada de um
processo vertical no qual ele constitui per se o significado e o
significante, já que é revelador na escala humana dos segredos de uma
Superestrutura, sempre presente, imagem da Mente Divina, a que ordena
permanentemente relações e analogias que dão lugar ao mundo do
perceptível pelos sentidos, e às leis e mecanismos mentais dos humanos,
sinalizados estes por uma dualidade que devem transcender.

Esta necessidade de neutralizar opostos para conhecer a ordem cósmica,


ou modelo universal, e se inserir conscientemente nele, obtém-se pois a
partir do símbolo que, ao conjugar em seu corpo de maneira unitária a
expressão conhecida com a origem desconhecida, manifestada por ele, e
ao mesmo tempo a emanação da imanifestação que lhe deu sua própria
forma, sua identidade, concretiza toda a possibilidade de Conhecimento,
ou seja, de ser, e se constitui assim no elemento imprescindível para
sintetizar qualquer realidade ou verdade, começando com a necessidade
de sua mediação, permanentemente capaz de revelar o supranatural pelo
desenvolvimento de todas as potencialidades da natureza.

Estas últimas não são mais que fatores do supra-humano no ser


particular, a afirmação de uma negação, melhor, uma negação afirmada.
Por outro lado, não se deve esquecer que os símbolos, como os mitos,
não devem ser considerados de maneira individual, mas sim em relação
com outros símbolos e mitos com os quais se vinculam, formando
conjuntos, ou estruturas, que por um lado são arquetípicas, ou seja:
inamovíveis, e simultaneamente móveis, como suas projeções no espaço-
tempo, e sua adequação a distintas geografias e circunstâncias históricas.

A cultura é um jogo de símbolos, uma simbólica da qual participa não só


o corpo social, ou individual, mas também constitui, além disso, a origem
do pensamento, das estruturas e das imagens dos processos mentais da
tribo, ou da pessoa. Portanto, toda cultura histórica é necessariamente
"mítica" em suas origens, ou seja, atemporal, quando não terá gerado
seus protótipos simbólicos e ainda o próprio mito não terá fixado de
maneira exemplar os parâmetros culturais derivados de sua potência, e
extraídos do Conhecimento de uma Cosmogonia revelada pelos símbolos
universais, aos quais se tratam de interpretar e traduzir a uma linguagem
que se adapte às necessidades, imagens, e vivência de um povo ou
indivíduo.

Também devemos ter em conta o caráter iniciático do símbolo e do mito,


tendo estes como transmissores do Conhecimento, de seus poderes
transformadores e generativos, de suas realidades metafísica e mágica
(ou seja, atuante) e, portanto, da veneração popular que sempre os
acompanha ou, pelo menos, que os acompanhou.

O rito é o mito em ação e os elementos que utiliza são simbólicos, sejam


sonoros, visuais ou gestuais. O rito dramatiza o mito através dos
símbolos. Há pois uma unidade entre símbolo, mito e rito, como já
manifestamos em outras oportunidades. O gesto, a palavra e a forma
atualizam os mitos permitindo sua encarnação. Para os povos
tradicionais, estas três expressões do homem efetivavam
permanentemente o mundo, regenerando-o, permitindo seu normal
desenvolvimento, graças a sua reiteração.

Uma das diferenças entre uma sociedade sagrada e outra profana é que
tanto os símbolos, quanto os ritos e os mitos, desapareceram virtualmente
destas últimas, ou se lhes ignora ou, o que é até pior, tergiversou-se seu
significado, adulterando-o, confundindo-o com a alegoria, com o
emblema, e também com a mera convenção; no caso particular dos
mitos, terei que adicionar que o coletivo oficialista os qualifica como
ficções, quando não de mentiras, o que é paradoxal ao se pensar que os
mitos expressam para as culturas tradicionais toda a verdade e
constituem a realidade. Terei que adicionar que o dom da profecia, ou da
visão, bem conhecido por todas as sociedades "primitivas" em geral, é
tomado em nossos dias como pura lábia, ou ao menos como algo de teor
muito duvidoso.

Permita-nos insistir: nas sociedades tradicionais, como foi por exemplo a


civilização maia, tudo é simbólico. A vida é um rito perene que se
verifica em todos os labores cotidianos e de maneira constante. Qualquer
ação e até qualquer pensamento estão assinalados pela presença do
significativo, do mágico, do transcendente, já que tudo acontece em
distintos planos da realidade e por isso também no mundo do oculto, do
invisível.

As artes, ou o que nós hoje chamamos artes, são para estes povos gestos
naturais que repetem e recriam vez por outra o cosmo através de
símbolos precisos, efetuados de maneira ritual, que foram concebidos, ou
melhor, revelados com esse fim aos homens por inspiração legada a seus
ancestrais, para organizar sua vida de acordo com a vontade divina. O
criador de todas essas estruturas culturais, que fazem tão somente imitar
as coisas do céu, é o executor da obra, o homem verdadeiro, o chefe,
aquele que produz ou governa com arte. Como se vê, esta forma de
encarar os fatos é diametralmente oposta ao que nós, os contemporâneos,
acostumamo-nos atribuir com relação ao criador e à arte.

O artesão tradicional repete na forma ritual as idéias de sua cosmovisão


que são perfeitamente claras para ele, modela-as, quer dizer, gera-as,
reiterando com isto o gesto criacionístico primigênio do Ser Universal.
Neste sentido, é um indivíduo que extrai coisas de um nada e sua função
se assemelha com a sacerdotal e xamânica. O xamã é neste caso também
um artista, e a dramatização das energias cósmicas, um modo extático de
conhecimento. A arte é uma forma do rito e, por sua vez,
necessariamente, todo rito autêntico, quer dizer sacralizado, está feito
com arte, ou melhor, é uma expressão artística, face aos preconceitos que
às vezes nos impedem de vê-lo, mercê à "propriedade" de nossos gostos,
fobias e manias, ou seja, de todas aquelas coisas relativas com as quais
nos identificamos.

Isto que é válido para as cerimônias tradicionais e para a arquitetura e


para as artes plásticas, também o é para tudo no que se refere à palavra,
portadora do ensino e da Tradição. Por outro lado, a palavra é mágica
pois manifesta uma energia milagrosa que produz simultaneamente o
som e a audição. Não só na civilização maia, conforme o testemunham o
Popol Vuh e outros textos sacros da área, mas também em numerosos
povos pré-colombianos em correspondência com os do Velho Mundo,
está presente a idéia da geração mediante o verbo, o que dá sentido
precisamente à transmissão oral do conhecimento e à narração dos mitos.
Mas fundamentalmente o que afirmamos da arte é vigente para o
conjunto de sua cultura e de seu cotidiano, começando por seu
conhecimento metafísico e cosmogônico que se traduz em seus mitos e
símbolos que, como já o afirmamos, são os que inspiram e regulam seu
ser no mundo.

Vemos então que o mito é o paradigma cultural e que o rito ou arte da


atividade diária que por certo não exclui tampouco ao pensamento e as
cerimônias mágico-religiosas se encarregam de regenerá-lo
constantemente, mantendo dessa maneira incólumes as energias que ele
representa, garantindo assim a estabilidade do universo e, portanto, o ser
e as possibilidades de existência do social e individual.

Embora há autores como Mircea Eliade que distinguem entre mitos de


origem individual, de um ser, fenômeno ou coisa (por exemplo: o de uma
planta ou de um animal) e os relativos ao Universo, ambas as categorias
são, entretanto, em última instância cosmogônicas, posto que qualquer
geração particular depende e está intimamente ligada à manifestação do
conjunto (ver também aqui capítulo II: A Iniciação); o mesmo vale para
os ritos chamados "sociais" e os "xamânicos". Desta forma, os ritos da
vida cotidiana, expressão de uma cultura viva em todas as ordens, não só
tocam o metafísico e o ontológico como possibilidade cósmica, mas
também igualmente abrangem o social, o econômico e inclusive qualquer
instituição ou forma menor, que estão baseadas e sempre se referem à
estrutura arquetípica do mito.

Os ritos não são pois exclusivamente cerimônias mágico-religiosas, mas


sim a soma, ou melhor, o conjunto das expressões de uma cultura (em
qualquer campo), fundamentadas no conhecimento do real manifestado
de modo simbólico-mítico. A arte é o melhor exemplo de dita asserção e
essa é a função ritual que sempre possuiu: a de fixar a Tradição em seu
aspecto mais profundo, expressando, recriando as origens (daí sua
originalidade) por mediação da beleza. Esta atitude ainda subsiste na
grande maioria dos povos nativos americanos, embora os autênticos
símbolos gráficos se degradaram, às vezes a ponto de se fazerem
"decorativos", ou mitos "lendas''. Para tomar um só exemplo na área
maia, basta-nos recordar os desenhos têxteis, verdadeiros códigos onde
os indígenas imprimem seus conhecimentos mítico-cosmogônicos. O
mesmo se observa em suas cerimônias (mesmo que estas sejam "festas" e
não só atos litúrgicos) em relação à ordem simbólica que preside sua
estrutura: gestos, cantos, dança, cores, objetos, etc.; assinalaremos que
isto ainda se faz mais patente dado o caráter obviamente sagrado das
mesmas, embora pensemos que numa sociedade perfeitamente integrada
não há diferenças entre o sagrado e o profano; quer dizer, que para essas
mentalidades tudo é uma epifania que não pode deixar de representar os
diversos modos expressivos de um Grande Espírito, ainda que sua
manifestação possa ser atroz.

Na realidade, o que todas as sociedades tradicionais pré-colombianas


conceberam ou melhor, o que se conhece é que o homem e o mundo
formam um segmento do Ser Universal que se manifesta mediante
estados, princípios ou determinações, que são apenas algumas das
modalidades em que o Ser Desconhecido se expressa permanentemente,
gerando o modelo universal e dando capacidade à possibilidade de todo o
criado. Nisso têm feito tão somente coincidir com o pensamento
(Conhecimento) de todas as culturas e das grandes civilizações, entre elas
os Egípcios, Caldeus, Judeus, Gregos, Herméticos, Romanos, Cristãos e
Islâmicos, sem mencionar outras muitas tradições ocidentais autênticas e
as grandes civilizações da Índia e do longínquo oriente.

O maior símbolo possível é a unidade do cosmo, e também a soma de


todas e cada uma de suas partes indefinidas assim que estas se
manifestam a nível sensível, todas as possibilidades do que pode ser
percebido que sempre é em última instância a unidade do ser. O mito
expressa estas potencialidades inerentes ao humano e, portanto, as
mitologias são cosmogônicas enquanto pretendem, por seu discurso
exemplar, ir além do que percebe o homem em estado ordinário e
conformam um conjunto de ensinos revelados sobre o ''modelo do
universo", com o propósito de superar este quanto a suas limitações
evidentes, as leis universais, e obter assim mediante as iniciações a
reintegração do ser particular no Ser Universal, com o propósito de
transcender, por mediação da verdade e da beleza, os encadeamentos que
o atam ao mundo ilusório.
Por isso é que os protagonistas dos mitos são seres fabulosos, deuses ou
entidades sobrenaturais, personagens heróicos, ou animais, em
contraposição com a horizontalidade da vida diária, criando assim uma
possibilidade de ruptura, vertical, com os condicionamentos próprios da
existência, invertidos em relação ao mistério original.

Entretanto, queremos observar que tanto o mito quanto o rito carregam o


símbolo com um componente emocional; na mitologia, sempre o
assombro está presente; do mesmo modo, nos ritos aparentados com as
cerimônias religiosas o fator emotivo é determinante, e embora símbolos,
mitos e ritos possam identificar-se, posto que em definitivo são três
expressões diferentes de uma mesma realidade, poder-se-ia afirmar que o
mito é a vivificação do símbolo e os dois conformam a posterior
representação prototípica e sagrada do rito e da cerimônia, e também a da
arte; ambas, imitações ou representações deles. Isto poderia parecer uma
subordinação do mito ao símbolo, e do rito e da arte à mitologia, se não
se compreendesse que se trata de uma mesma energia operativa em
modalidades diferentes; inclusive, poder-se-ia dizer que rito (não só
enquanto cerimônia religiosa) e arte, quer dizer, ambos tomados em
sentido absoluto, são apenas representações da regeneração perpétua do
cosmo enquanto estão identificados com ele, formando portanto uma
unidade; também poderia argumentar-se que o mito não é tão preciso
como o símbolo numérico ou geométrico, que por seu conteúdo universal
Arquetípico, ou pelo menos por sua estrutura mais abstrata, é mais
adequado para traduzir a Idéia. Em se tratando de dar nossa opinião,
pensamos que a fusão destas energias é a encarregada de outorgar todo
significado em três níveis de consciência, conhecimento, ou leitura, em
correspondência com os estágios cosmogônicos hierarquizados e ao
mesmo tempo indissolúveis, nos quais os maias, como muitíssimos
outros povos tradicionais, dividiam qualquer realidade (céu, terra e
inframundo).

E certamente que é a vibração comum, a correspondência, a analogia, a


simpatia, ou seja, a magia que liga estes planos entre si, embora tome
formas tão intelectuais e sofisticadas como as matemáticas e a
astronomia, bases do calendário ritual maia, talvez a realização mais
acabada da arte deste povo, cuja maior originalidade, ou paradoxo, talvez
se constitua em ser uma alta civilização primitiva, contradição nos
termos que só existe ao se lhes atribuir exclusivamente o valor que lhes é
outorgado correntemente. De fato, pareceu que esta civilização, mesmo
alcançado seu máximo esplendor, continuou sendo o que em muitos
aspectos hoje se entende por "primitiva"; nisto tampouco se
diferenciaram de gregos, hindus e chineses, entre outros 34. Ao contrário,
a decadência pode se ser observada em expressões que são tomadas
erroneamente por "culturais" na atualidade e que desembocaram em
absurdos tão grandes como a falsa erudição, e a arte pela arte.
NOTA
34
Ainda hoje, o pensamento "científico" vê os poucos restos tradicionais
que ficam em ritos e religiões como algo "atrasado" e "anti-racional",
quando não se encontra o suficientemente esterilizado.

SIMBOLISMO E ARTE
Federico González

Heinrich Khunrath de Leipzig,


Amphitheatrum sapientiae aeternae, 1602.

V
ARTE ALQUÍMICA

A raiz de certas considerações limitadas sobre a Alquimia, ainda dentro


do campo de estudo dos investigadores esotéricos, que enquadram a
nossa ciência e a definem como exclusivamente mineral e metálica,
externa e material, devemos esclarecer do que trata esta disciplina e a que
nos referimos quando utilizamos o termo, já que a perspectiva e a
universalidade do que se denomina Alquimia é muitíssimo mais ampla e
desconhecida que o que se está acostumado a entender por tal, como
ocorre igualmente com sua fixação histórica e geográfica: a Idade Média
e o Renascimento Ocidental; ainda que não se negue à alquimia metálica
seu caráter tradicional e seus antecedentes ilustres que se remontam aos
povos arcaicos que trabalharam os corpos minerais.
Esta limitação é particularmente evidente no momento em que se
considera que a Alquimia é a ciência e a arte da transmutação e da
transformação humanas, tomados estes dois termos em sentido
etimológico; e, portanto, ela descreve e possibilita um processo que os
seres do mundo de todas as épocas conheceram e que, inclusive, tomaram
como sua verdade essencial: o objeto (e sujeito) de seu conhecimento, e a
razão de ser das iniciações, dos símbolos e dos ritos.

Efetivamente, a presença de "outras" realidades, tanto no macrocosmo


como no homem, sempre foi conhecida por todos os seres humanos e
suas sociedades, que descrevem, porque as praticam, as possibilidades de
conhecer, de ser, de encarnar outras modalidades do Ser Universal, que
consideram, unanimemente, como o verdadeiro e imutável.

É sob esta luz que a palavra Alquimia adquire seu sentido original,
indicado, além disso, na etimologia do vocábulo, que se refere à cor
negra (os egípcios davam a seu país o nome do Kemi, ou terra negra), de
onde a arabização el-Kimia indica por um lado o aspecto obscuro e
subterrâneo das operações transmutativas e, por outro, seu fim último e
eterno, que aponta para superar a primeira determinação, a do Fiat Lux,
equiparável à geração pelo Verbo e, portanto, ao que está além dela: o
Silêncio Primitivo, ou a Escuridão Original. Do mesmo modo, o acesso a
outras possibilidades sempre presentes do Ser Universal (refletidas,
decerto, no ser particular), que são a matéria verdadeiramente tratada pela
Alquimia, e as que experimentam os sujeitos que se aproximam dela com
o ânimo de se constituirem em Filósofos, ou seja, em agentes
responsáveis pelo grande laboratório cósmico, onde a obra ainda se
encontra inacabada e deve ser culminada com a intervenção do "homem
verdadeiro", o que explica a importância da arte e justifica qualquer feito
criativo.

Como toda disciplina, tem que ser aprendida e ensinada, e consta de uma
doutrina e de um método para sua realização. A doutrina é permanente e
se refere precisamente ao objeto de toda alquimia; por outra parte, a
enunciação de uma Tradição Unânime, de uma Cosmogonia Perene, de
uma Metafísica sempre viva, transmite-se e se articula nesta
aprendizagem, embora com certas particularidades próprias em diferentes
raças e continentes, o que também está ligado às diferenças de método
que utilizaram os inumeráveis seres e comunidades na obtenção do
mesmo fim, único e idêntico. Na realidade, no homem tradicional não há
diferença entre teoria e prática e, muitas vezes, o enunciado da doutrina,
assim que esta se compreende "no coração", constitui um verdadeiro
programa prático, quando não um método em si.
De todas maneiras, esta arte e ciência da realização das potencialidades
ou virtualidades do ser humano, que é a característica essencial da
transformação, é comum a todas as tradições e ao pensamento do homem
em geral. Isso explica a quantidade de "métodos" ou formas de obter
estes conhecimentos que vão além da física e da psicologia (esta última,
ainda em seu aspecto mais sutil) e que se estabelecem como graus (desse
conhecimento), ou se denominam, em outros contextos, estados de
consciência e, na Tradição Hindu, estão exemplificados com a abertura
dos chakras, articulados, como já dissemos, ao longo da coluna vertebral,
o que se produz ao despertar a kundalinî, serpente de Shiva, que em
estado ordinário jaz adormecida, sem que se manifestem as energias
espirituais que ela contém.

O homem utilizou todos os meios a seu alcance para obter o fim último, e
de fato esses meios fazem tão só refletir esse fim chamado pelo
hinduísmo a Suprema Identidade numa de suas indefinidas possibilidades
que, por irradiação, a tudo abrangem. Se tudo estiver em tudo, a ciência e
a arte da transmutação se acham presentes em cada ser, fenômeno, ou
coisa, que por sua vez podem ser igualmente os suportes de uma ação
tendente a desentranhar qual é sua realidade final, que segredos está
expressando com seu ser, o que há detrás da aparência, em que medida
existe aquilo que tomamos por real, etc. Desta forma, o método da
ciência da transformação, ou metanóia, em estreito vínculo com as
circunstâncias, sempre contingentes e relativas, onde se produz essa
"efetivação", sinalizada por inumeráveis fatores externos, ou forças
astrais, começando com a determinação do nascimento individual, está
igualmente sempre presente.

Entretanto, deve-se destacar uma constante fundamental na arte


alquímica, ou seja, no trato com anjos, céus e nomes divinos (também
com dragões), que não é só a convergência em um mesmo fim; trata-se
aqui da unanimidade de opinião e ensinos quanto a que esse fim está
invertido com relação às possibilidades do homem em estado ordinário,
que sempre procura a multiplicidade e a dispersão, enquanto que todo
processo alquímico tende a uma síntese, a uma concentração de
possibilidades do mesmo, já que na essência ou no "elixir", ou na "pedra
filosofal", radicam tanto o mistério do Ser Universal, quanto suas
virtualidades, fonte de seu poder, que poderá ser então desenvolvido em
qualquer direção e em todo momento.

Trata-se pois de uma "conversão", de uma volta às origens, ou à fonte


primitiva de onde tudo emanou, ou da viagem de volta para casa,
semelhante a que se realiza da multiplicidade à unidade. Do ponto quase
inexistente nasceu a Roda do Mundo e devemos retornar a sua
imutabilidade, inclusive para encontrar sentido para que se move, para
saber que um também é isso, a imobilidade do começo e, portanto, sua
simultaneidade, e compreender assim a mobilidade do sucessivo, como
aparência ou projeção perpétua da realidade central.

Do ponto de vista alquímico estamos invertidos com relação ao discurso


criacionístico, que constantemente vai do menor ao maior (o que é
evidente ao se pensar que uma gota de sêmen é a origem física de um ser
humano ou animal, tal qual a semente o é de uma árvore), ou seja, do
imanifestado ou virtual, ao manifestado, enquanto o alquímico se apóia
no manifestado para remontar-se à imanifestação, provocando o ser
humano em si mesmo uma "regeneração", uma nova vida, o nascimento
de outro ser, pois compreendeu que não há alternativa possível entre a
quantidade e a qualidade, e sabe por intuição direta que é no menor onde
se oculta o segredo e onde se aloja a central de mais alto poder.

Nada disto indica, por outra parte, que pensemos sequer em desprezar à
alquimia metálica, e menos ainda seu simbolismo, que por outra parte é
universal e se refere fundamentalmente a um fim espiritual. Toda a
alquimia do Ocidente, medieval e renascentista, dá testemunho disso por
meio de milhares de obras, a maior parte ilustradas, cujo objeto é a
transformação da alma humana, já que esta é o veículo, ou plano
intermédio, onde se efetua a transmutação à qual nos referimos; e é
sabido que na alquimia mineral essa operação está simbolizada pelo
atanor, recipiente onde se "coze" a matéria da Grande Obra e onde se
separam as partes mais sutis das mais densas mediante sucessivas
"coagulações" e "dissoluções", que constitui um exemplo vivo da
transformação, tanto do microcosmo como do macrocosmo, da alma
humana quanto da alma universal.

A alquimia metálica é parte da Tradição Hermética e são muitos os que


beberam em seus mananciais, que com esse fim são oferecidos para
acalmar a sede do peregrino; que também não é identificar toda a
alquimia ocidental com a alquimia metálica, já que isto não é verdade,
nem mesmo historicamente no sentido que viemos falando, quer dizer, no
de explicar os alcances muitíssimo mais amplos dessa ciência, como arte
transmutativa, ou de transformação. Na Europa, da antigüidade clássica, e
também na civilização Egípcia se encontram testemunhados métodos e
textos que se referem a estas artes, em perfeito acordo com todos os
povos antigos do mundo, e sobretudo com as tradições atualmente vivas,
ou seja, com todos aqueles que praticam hoje em dia essas disciplinas
através de distintas vias de realização 35. No Ocidente, existiram e
existem outras formas da realização alquímica (que alguns chamam
hermético-alquímica) e inclusive muitos dos textos "clássicos"
alquímicos se referem, vez por outra, de forma secundária, a operações de
tipo material 36.

Desta forma, de maneira nenhuma subestimamos as operações metálicas


ou minerais e acreditamos que através de sua observação e na
participação de seu processo generativo que é análogo a qualquer criação,
começando pela do cosmo pode se ascender a tal ponto que a alma do
"operário" não é mais que uma só e mesma coisa com o operado 37. Mas
sabemos também que não é exclusivo do processo mineral o poder servir
como base de uma transformação da alma (embora, seja dito de
passagem, parece-nos talvez o mais curioso que saibamos); com efeito,
são conhecidas pelos hermetistas outras artes transmutativas, tanto
relacionadas com a Espagiria (Paracelso), como com a Magia Natural (C.
Agrippa), a oração, ou invocação (M. Ficino), a arte da memória
(Giordano Bruno) e sistemas completos de jogos de relações, analogias,
símbolos, mitos e ritos (muitos deles compartilhados com os alquimistas
minerais), ciclologia, sem mencionar a cabala cristã, as exegeses,
hermenêuticas, filosofias, escritos, etc., que tratando-se de pura Alquimia,
ou Ciência Sagrada, não se expressaram que modo metálico, ou com
nomenclatura astrológica.

Por outra parte se conhecem diversos tipos de alquimia de acordo com o


reino que toma como suporte para seu trabalho: mineral, vegetal, animal.
Também a ingestão de substâncias provenientes desses reinos forma parte
do método de muitos processos alquímicos, e uma mesma tradição pode
usá-los indistintamente, ou em diferentes momentos de seu
desenvolvimento. É sabido que os imperadores da China ingeriam
quantidades de jade (que é venenoso) e ainda hoje determinados remédios
utilizam muitos elementos minerais e sais em suas receitas. Quanto à
alquimia vegetal, é conhecida por todos os povos arcaicos e
numerosíssimas plantas são sagradas entre eles por serem consideradas
mágicas, despertadoras da consciência, ou emissárias celestes, ao mesmo
tempo que a própria transformação dos vegetais atesta os processos
generativos 38.

Os cogumelos "alucinógenos", a amanita muscaris, o peyote e o São


Pedro e outras cactáceas, a ayahuasca, a cannabis indica e um sem-
número de plantas e sucos sagrados incluído o tabaco e o álcool, quanto a
sua ação, entram neste mesmo campo, embora a micogonía poderia talvez
ser considerada mais como do reino animal, ao qual pertencem também
certos vermes e outros insetos que se comem e formam parte de
determinadas cerimônias, assim como o sangue de animais, a cabeça do
sapo, etc.
Talvez uma das formas mais freqüentes, ou conhecidas da Alquimia no
mundo é a ligada à respiração, ou melhor, a que toma à respiração como
ponto de partida, ou preparatório, como se queira, do processo de
Conhecimento. Nesse sentido, todos os sistemas respiratórios, do Hatha
Ioga até a reiteração de mantras no hinduísmo, que tem sua equivalência
ocidental em jaculatórias, rosários, e outras práticas, assim como todo
ritual onde intervêm o canto, a salmodia e o baile, devem ser postos em
íntima conexão com esses mesmos processos respiratórios, onde se
alternam a inspiração com a expiração, ou em termos alquímicos, a
coagulação com a dissolução.

De fato, quando se inspira, recebe-se o hálito vital que é "coagulado" para


perpetuar a vida. Pelo contrário, quando uma pessoa morre diz que
expirou e para sua medida não há maior "dissolução" que abandonar o
estado humano. Toda a obra alquímica se efetua mediante esta dialética e
não é difícil ter em mente que qualquer "coagulação" pode se relacionar
com o frio, e a "dissolução" com o calor (a metálica, por exemplo). Na
verdade, todas as operações alquímicas se realizam mediante o fogo que,
como é sabido, quando é muito forte abrasa e quando é muito débil, não
transforma; motivo pelo qual se recomenda unanimemente aos operários
ou adeptos que saibam manter controlada a chama de seu atanor, ou de
sua energia ígnea (tal qual uma paixão contida), pois a uma euforia
sobrevém uma depressão, embora jamais poderá se evitar a dialética de
um fenômeno universal que se expressa mediante uma etapa restritiva
seguida de outra expansiva, razão pela qual o xamã nas culturas arcaicas,
vivo ainda hoje nas culturas pré-colombianas, entre outras, deve conhecer
as duas e equilibrar-se em seu ritmo, mantendo o calor interno prática
corrente no hinduísmo e budismo, o que lhe permitirá conjugar
harmoniosamente os deuses celestes e os do inframundo.

E da mesma forma com que todo nascimento se transforma em morte e


esta é continuada por um renascimento qualquer que seja o ponto de vista
que se adote posto que a criação é perene, assim estes estados acontecem
no ser, sujeito ao espaço, ao tempo, e à memória. Desta forma, o xamã, ao
qual acabamos de nos referir, vive em seu processo alquímico indefinidos
falecimentos e ressurreições. E poderia se anotar, inclusive, que essa é
efetivamente sua profissão. Entretanto, também devemos observar que de
modo acorde em Alquimia se destacam diversas etapas significativas no
processo geral, que se realiza escalonadamente na projeção temporal, que
estão vinculadas com os ciclos que, embora universalmente se sucedem
sem solução de continuidade, têm um sentido claro no subciclo de uma
existência particular, onde a dimensão de uma vida humana reconhece os
tênues e sutis sinais de uma transformação que, por leve e esfumada que
pareça, faz-se transparente de repente e se arraiga profundamente no
coração do atanor, ou o que é o mesmo, da alma humana, permitindo-lhe
assim ao operário seguir desenvolvendo-se para enfrentar novos trabalhos
de sua ciência evolutiva, graças à intuição intelectual, direta, que não
admite dúvidas nem demonstrações, pois defronte à certeza resultam
completamente desnecessárias.

Pode-se compreender, então, que este processo do adepto ou do xamã,


que recebeu sucessivas iniciações, ou tenha compreendido distintos
estados do Ser Universal que vai obtendo para si paulatinamente as cores
da Obra, é uma verdadeira imersão no tempo, já que percebe a
simultaneidade de todo o possível (que se dá mercê à projeção temporal,
ou seja, gradualmente), e reconhece estados não humanos de uma
perspectiva distinta, onde vê girar a roda da fortuna e dos fenômenos sem
apego, tal qual o alquimista metálico observa de uma maneira imparcial
as substâncias que combustam coagulam e se dissolvem em seu atanor.
Em tudo isto tem também um papel decisivo a memória, matéria com a
qual está tecido o tempo e, portanto, o homem, já que este é tanto o que
conhece como o que recorda, e em todo caso se for algo em si, é por sua
memória: imprecisa e frágil substância que troca com os momentos e os
dias e constantemente se atualiza 39.

Há pessoas que conhecem montes de manuscritos e edições alquímicas


muito raras e aprenderam perfeitamente a nomenclatura dos diversos
autores que, como se sabe, às vezes são diametralmente opostas, devido a
distintos pontos de vista, as quais, sentindo-se envaidecidas em terem um
laboratório num quarto de sua casa, que rodeiam do maior segredo,
ignoram entretanto completamente o fim de sua arte e o objeto de sua
ciência, a qual confundem com a "erudição", com sua excentricidade
psicológica e com o gosto de certa atmosfera paranormal. Esta atividade é
própria dos chamados "sopradores", a maior parte deles fabricantes de
falsa moeda, que, desgraçadamente, pululam no ambiente esotérico,
embora melhor seria que fossem listados nas fileiras oficiais.

Neste rápido olhar sobre diversos "métodos" alquímicos, ou de


transmutação, não queremos deixar de nomear o da cabala hebraica e dos
calendários mesoamericanos, ambos possuidores de um caudal iniciático
e portanto poético inigualável. A primeira através de uma metafísica da
linguagem, especialmente do alfabeto, e das correspondências entre letras
e números, que foi chamada e se constitui a "ciência dos nomes".

Os outros, porque sendo sistemas totalizadores que abrangem o


movimento e o espaço de todo o criado, definem por si mesmos imagens
e organizam espécies, gêneros, concepções, apoiando-se nas analogias e
correspondências de todo tipo que ligam ao Universo, onde o número tem
um papel preponderante, e constituem a Ciclologia. Queremos esclarecer
aqui que, em qualquer via que se escolha, deve-se tender sempre ao nível
mais alto, ligado ao metafísico; tal o Jnâna Ioga da Tradição Hindu.

As práticas sexuais como formas da realização espiritual foram sempre


métodos de aprendizagem. Como já dissemos, em geral são mais
conhecidas as possibilidades do Tantra Ioga e da alquimia chinesa,
embora todos os povos de uma ou outra maneira as tenham utilizado, seja
nestes ou noutros modos extremamente variáveis que podem se revestir
de formas aparentemente estranhas para uma mente atual, tal a castidade,
o que poderia parecer paradoxal a alguns 40. A energia sexual se sublima
no Ocidente até se unir ao emotivo e se chama amor, uma evocação do
Amor, que a tudo une. É lógico pensar, pelos motivos acima
mencionados, que esse tipo de sentimento hoje em dia se encontre
intimamente ligado com uma versão elementar do imediato e da posse, ou
seja, o inverso do que na verdade essa energia é, pois na realidade se trata
de uma generosa mensagem devido à presença de outras realidades
dentro de nós mesmos. Nunca, como no caso que comentamos, está mais
clara a negação das possibilidades humanas, como nesta adulteração.

Nos mitos genésicos gnósticos, quer dizer, nos relacionados com o


nascimento de um ser (devido a uma conjunção de opostos, homem-
mulher) é o próprio ser em definitivo que se auto-pare.

Isso acontece pois a vida interior está invertida com relação ao mundo
exterior, exatamente igual à vida sagrada e a profana.

Necessita-se do fogo, chamado em Alquimia enxofre, para que o


mercúrio seja fecundado, dando lugar à criança alquímica. Mas, sem a
presença do mercúrio, a quem o enxofre fecundaria?

O anjo Gabriel anuncia a Maria o prodígio, e ela responde:

Faça-se em mim segundo tua palavra.

Sem esta aceitação tampouco o rito se produziria.

Em outras tradições, Afrodite-Vênus, o amor, a energia capaz de unificar


tudo, nasce do sêmen produzido pelo desmembramento de Urano (o Céu)
e é chamada a "mulher nascida das ondas". De todas maneiras, estes
nascimentos são "antinaturais", da mesma forma que a fecundação é
"anormal" com relação às simples gênese ordinárias. São o fogo e o céu
que definitivamente fecundam, e isto, que é absolutamente interno,
constitui um fato sempre assombroso, porém mais real que qualquer coisa
conhecida embora pressentida até o momento. Isso não é casual, e em
termos de todas as tradições é necessário uma longa peregrinação e
grandes trabalhos para obtê-la, tal o caso nítido de Herakles-Hércules.

No Livro da Revelação, a oposição entre o anjo e o dragão é clara; para


nós o primeiro se relaciona com o ar e expele o doce sopro por sua boca,
o segundo se identifica com o fogo e lança chamas furiosas. Poder-se-ia
entender que ambos os símbolos configuram um só em duas
modalidades, em se atendendo ao pensamento arcaico. Por outra parte,
deve-se destacar que, por sua vez, cada um deles admite uma dualidade
em seu interior: o anjo da morte é um furacão colérico, o dragão alado
um animal quase doméstico. Porém, o anjo bebe água, o dragão, vinho.

SIMBOLISMO E ARTE
Federico González

August Strindberg, Antibarbarus


Estocolmo 1906

VI
ARTE TEÚRGICA

Se a Alquimia for a arte e a ciência das transformações e transmutações,


a Teurgia persegue os mesmos fins e se apóia em idênticos princípios,
quer dizer, em analogias e correspondências. Mas a Alquimia trata mais
do ser individual que do universal, do microcosmo mais que do
macrocosmo. Na realidade, tanto Alquimia como Teurgia operam de
modo semelhante e devem ser distinguidas da hiperquímica (material e
metálica) e da magia mal denominada de "cerimonial", enquanto
procuram exclusivamente conquistas verificáveis baseadas na relação
causa-efeito, sempre personalizadas e individualistas em contraposição
com a magia natural e a Alquimia autêntica, despersonalizadas, atentas
sempre aos princípios e à ordem dialética da Criação. O interessante do
assunto é que tanto Teurgia quanto Magia utilizam procedimentos
similares, sendo que talvez sua diferença se estriba nem tanto na índole
da coreografia ritual, mas sim no ânimo dos participantes, em suas
intenções e, sobretudo, no conhecimento direto do universo de energias
invisíveis que a cerimônia expressa e plasma.

Na base de todo rito, incluído o mágico, encontra-se a idéia de que o


Universo é um Todo indissolúvel e indivisível em partes. Esta harmonia
está dada pela oposição contínua de dois fatores que devem se
complementar, seja pela guerra, quer dizer, atacando e rechaçando, ou
seja pela paz, assimilando por simpatia. Em ambos os casos se procede
por correspondências ou analogias inversas.

Exercer ação sobre uma coisa é exercer essa ação sobre um conjunto
inumerável de coisas em um mundo concebido como concatenado;
igualmente, fazê-lo sobre um ser humano implica realizá-lo em toda a
humanidade; a economia da Teurgia fixa seus próprios limites os sem
impor. Seus fins são imprecisos, seus meios têm que ser exatos, por
paradigmáticos e míticos e perfeitos, quer dizer, especialmente
adequados à situação espaço-temporal que o rito assinala, embora
resultem totalmente paradoxais para o próprio operador que, em sua
gestão, não sabe definir com claridade e não o necessita onde e como os
distintos êxitos de sua própria e divina comédia puderam ser traduzidos
em meio de uma Revelação Permanente.

O homem é o coração do Universo. Efetivamente o microcosmo cumpre


a mesma função no cosmo que o coração no corpo humano, e através de
sua dualidade, referente a suas duas naturezas –divina e humana (sístole
e diástole)–, é capaz de recriar perenemente a vida, com a qual se
encontra indissoluvelmente unido, pois é um todo com ela,
correspondendo-se ambos de maneira perfeita e idêntica ao ponto que
constituem, constituíram e constituirão, uma mesma entidade. O mundo
inteiro está animado e perfeitamente vivo hoje em dia (e sempre), como
um animal ou ser gigantesco cujas partes ou organismos se articulam e
moldam constantemente entre si, impulsionados pelos movimentos de
seu coração, o ser humano, centro do Universo. E este ser, sendo parte
essencial da criação, regenera permanentemente o cosmo, até mesmo
apenas com sua presença.

Em um mundo assim, tudo é mágico e cada gesto, signo ou palavra, um


ato generativo capaz, por sua vez, de produzir indefinidos reflexos de
suas próprias características. Isto é fazer a criação perpetuamente e o
homem conheceu esta realidade sempre, até de modo inconsciente, e
participou dela, como o provam legiões de sábios egípcios, caldeus e
gregos, sacerdotes pré-colombianos, xamãs siberianos, magos herméticos
e também, em seu nível, diversos artistas, políticos, ilusionistas e
vendedores ambulantes. Por outra parte, então, que seria mais operativa e
mágica do que a oração do coração que, devido a uma concentração no
cerne do ser humano que pronuncia a prece ou invocação, dirige-se ao
coração do Ser Universal, com o qual pretende e consegue harmonizar-
se?

Como se pode perceber, nada tem em comum esta ciência com qualquer
cerimônia mágica de tipo "positivista" e de elementar relação causa-
efeito, sempre de objetivo imediato, utilitário, e personalizado. A Arte
Teúrgica é impessoal e seus ritos adequados à cadência e harmonia da
magia natural, que gera permanentemente os fenômenos e substâncias da
criação mediante arquétipos imutáveis que, paradoxalmente, trocam
constantemente de modo, virtude que permite à individualidade do xamã
se acomodar ao ritmo universal, ser uno com ele e, portanto, gerar sua
própria criação, havendo previamente destruído todas as formas como
passo necessário para a construção de qualquer ordem, seja esta sua
personalidade, o entorno onde se projeta, ou o espaço que lhe foi
atribuído.

Na realidade, qualquer interpretação a respeito desta arte efetuada com


olhos profanos, quer dizer, com a programação contemporânea, estará
viciada de nulidade já que é impossível compreender um tipo de
mentalidade cuja cosmovisão, usos e costumes, e sobretudo sua
atualização permanente da realidade do invisível e do desconhecido,
organiza sua vida e comportamento. Para este tipo de gente, a vida é um
jogo perpétuo de luzes e sombras, de espaços constantemente renovados,
uma representação o suficientemente mimetizada para parecer
verdadeira. A possibilidade é a raiz da Teurgia, a criação seu indefinido
campo experimental. Por sua natureza, o Universo é mágico; o mesmo
vale para o microcosmo. Mas se deve condicionar que o rito impessoal,
depois de tudo, personaliza-se, que o invocado chega a ser forma e
imagem, materializa de distintas maneiras; e que toda tentativa de expor
de modo mais ou menos racional o que não segue esse discurso é de por
si um ato fracassado em relação à soma do incognoscível e a autêntica
presença do mistério inefável. Em suma, para o xamã-mago é muito mais
importante essa outra realidade, esse outro mundo, invisível, e,
entretanto, tão real que é a fonte segundo ele onde se origina qualquer
fenômeno ou coisa, que qualquer outra aparência, sempre ilusória.

Na Teurgia, não existem os fins particulares, mas sim os prototípicos, que


são simbólicos; nesse sentido, soem ser exemplares, como os mitos, suas
estruturas e personagens.

É necessário esclarecer que a Teurgia não espera resultados concretos e,


igualmente, muitas vezes o xamã ou mago é só um símbolo pelo qual se
transmitem energias, ou vibrações que ele canaliza com total
prescindência de sua aprovação ou desaprovação pessoal. O fato do
próprio interessado ser consciente ou inconsciente de seus poderes, ou
melhor, em que medida é consciente, tampouco afeta sua irradiação
múltipla, que pode se transformar em inumeráveis possibilidades,
desencadeadas, às vezes, apenas pela sua participação. Neste sentido o
xamã é em si uma teofania, ou se transforma nela durante sua atividade
mágica, que constitui o núcleo central de todo rito.

A Teurgia é sempre atual, jamais a ninguém que participou de algum de


seus ritos lhe ocorreu verificar o "resultado" de suas cerimônias. Quando
o xamã acende o fogo gera vida, no momento em que derrama água
sobre a terra já está chovendo, o universo se encontra estreitamente
ligado aos homens, que o conformam; somos sinais em um mundo de
sinais e o mago é um gerador, operando seus ritos ancestrais, renovando
o mundo à perpetuidade. Suas cerimônias não são vãs, ao contrário, são
imprescindíveis para que se reconheça o Si mesmo dentro do si mesmo;
são, portanto, tão arquetípicas quanto necessárias e sua ação imediata, e
sobretudo mediata, é fundamental, e podem frutificar em inumeráveis
formas, e cada uma se organizará em conjuntos e estes em estruturas
precisas, que terminarão se manifestando concretamente. Eis a enorme
importância atribuída à Teurgia, ciência que acompanha os ritmos do
cosmo, como o faz a natureza, e que, como ela realiza seu gesto
desinteressado e gratuito para preservar a vida do mundo, como
igualmente a do homem, portanto, a da espécie; desta forma, o objetivo
último da Teurgia é ligar com a cadeia interna de união, com a Igreja
Secreta, o Colégio Invisível que opera e se manifesta em nós e em nosso
entorno, dando-nos assim o poder de expressar a Ciência Sagrada.

Na realidade, a arte mágico-teúrgica consiste na efetivação do


pensamento e da doutrina cosmogônica tradicional, realizada na sempre
transitória realidade de gestos, âmbitos, vozes e estruturas que acontecem
nos bordes do tempo. Esta adaptação às circunstâncias com que se
condiciona a vida do homem constitui uma permanente atualização dos
princípios, aos quais a cosmologia sempre se refere, e uma revivificação
constante das leis universais, que o operador mágico conhece e projeta às
vezes sem objetivo aparente em seu meio sob a forma de uma
circunstância anedótica, histórica, sempre mutável.

Na realização da Obra Teúrgica há certa teatralidade, tratem-se ou não de


cerimônias propriamente ditas. Isto é perfeitamente lógico em se
considerando que o adepto é tirado totalmente de seu condicionamento,
tendo em vista que seus valores já são outros, a ponto que a programação
que lhe servia até o momento não é válida para diferentes espaços
mentais e distintos tempos internos. Isto produz uma contradição, um
drama (ou comédia), na psique do xamã, um autêntico psicodrama que
inclui às vezes estranhos comportamentos ou atitudes inabituais, não só
para outros, mas também para o mesmo mago, imobilizado de assombro.
No treinamento da arte de perceber a teatralidade constante da vida, é
pressentida e começa a ser percorrida uma superestrutura que
compreende a própria vida, que, entretanto, não é distinta desta, embora
constitua um outro espaço.

Quanto aos trabalhos do "aprendiz", o primeiro é levar a idéia de rito a


todos os âmbitos da vida e sua cotidianidade pessoal. O segundo é saber
que isto não deve realizar-se nunca de maneira literal, de uma forma
linear, mas de viver ao ritmo do compasso cósmico, observando a
sacralidade do entorno físico-anímico, derivado de um ser espiritual, tão
invisível como inteligente. Não é pois só uma sistematização de gestos e
invocações que sempre acabam em forma esclerosada, mas sim a
intuição da Verdade e da Beleza reunidas harmonicamente no corpo da
Inteligência Universal, deidade tão precisa quanto esquiva, sempre aérea
ou radiante.

Em todo caso, se muitos de nossos labores não têm êxito, ou não


contamos momentaneamente com a energia necessária para os levar a
cabo, ou não estamos, simplesmente, satisfeitos conosco mesmos, de
maneira nenhuma mingüemos nesse trabalho, muito menos nos
compadeçamos, nem adotemos circunstancialmente valorações do
homem velho, ou encarnemos furiosas reações contra a ignorância que
nos margina; até se nosso enorme esforço por realizar uma mensagem
pudesse nos parecer transitoriamente coisa impossível, matéria vã,
devemos recordar que no grande laboratório da criação universal se
conseguem resultados a custa de enormes gastos (nunca desperdícios) de
energia, e isso particulariza qualquer processo criativo. Por outra parte,
se nossas diligências e labores só servissem para difundir a Tradição
Unânime que se mantém viva das origens do homem e do universo, isto
já seria farto suficiente de acordo com as possibilidades que cada vez se
fazem menores à medida que se aproxima o fim dos tempos. Já se sabe
que o mal de existir é só momentâneo, como todo mal, incluindo os
sacrifícios que nos impõem e as "enfermidades" ou "desajustes" que
tantas vezes nos afligem com o passar do caminho e que tendemos a ver
como indignos (de acordo à programação do homem velho), quando não
são, às vezes, os sintomas evidentes de um processo regenerador
profundo.

Para terminar, assinalaremos que uma das práticas teúrgicas de maior


importância no Ocidente, e que teve também valor primitivo sob diversos
aspectos entre os povos arcaicos, é a invocação às Musas por meio de
encantamentos; precisamente assim o fazem ao encarná-las os magos,
xamãs, filósofos, sábios-sacerdotes, reis autênticos, heróis, bardos e
histriões. Sobre elas nos fala Homero na Ilíada e Hesíodo em seu
Teogonia. este último assim as invoca:

Ditoso aquele a quem as Musas querem: doce flui de sua boca o acento.

Pois se a alguém, com dor na alma recém atormentada, aflito, seca-se-lhe o


coração, e um aedo, das Musas servo, as façanhas dos homens antigos canta, e aos
deuses beatos que o Olimpo possuem, aquele logo de suas angústias se esquece, e
nada de penas recorda; pois logo das deusas o divertem os dons.

Salve, filhas do Zeus, o deleitoso canto me doem.

Celebrem a sacra estirpe dos deuses sempre existentes, os que de Gea nasceram e
de Urano estrelado, e da noite tenebrosa, e os que criou Ponto salobre; (dizei
como, primeiro, os deuses e a terra nasceram e os rios e o mar infinito, que furioso
se rebenta, e os astros resplandecentes e, acima, o céu espaçoso;) e os que deles
nasceram, deuses doadores de bens, e como dividiram as riquezas e honras
partiram e enfim como, primeiro, o penhascoso Olimpo ocuparam. Isto dizei-me,
Oh! Musas, que têm olímpicas moradas, desde o princípio...

Na Grécia e Roma eram nove, estavam sob a direção de Apolo e eram


veneradas por todos aqueles que se dedicavam a trabalhos de
Conhecimento, ou seja: Ciência e Arte; por outra parte, muitos outros
autores as mencionam. Filhas de Zeus e Mnemósine, a traços largos se
pode resumir a atividade destes entes espirituais, destas deusas: Calíope,
poesia épica. Clío, história. Erato, poesia poesia lírica e cantos sagrados.
Euterpe, música de instrumentos de sopro. Melpómene, tragédia.
Polymnia, mímica. Talía, comédia. Terpsícore, música geral e dança.
Urânia, astronomia.

Walter F. Otto em seu estudo As Musas afirma:

Horácio, na mais formosa de suas odes romanas (Carm. III 4), chamou a Musa do
céu para cantar um extenso poema e como ele experimentou sua enfeitiçante
proximidade, viu como as Musas o protegeram como a um menino e mais tarde o
salvaram no perigoso caminho da vida e se sentiu disposto a enfrentar alegremente
toda tempestade e toda moléstia, só quando elas estavam a seu lado.

Entretanto, tomam igualmente formas diversas no horto mágico da alma.


Assim Platão em seu Fedro (245), ao falar do delírio como dom
profético,

um dom magnífico quando nos vem dos deuses, é mais nobre que a sabedoria dos
homens,

explica-nos 41:

Há uma terceira classe de delírio e de possessão, que é a inspirada pelas musas;


quando se apodera de uma alma inocente e virgem ainda, transporta-a e lhe inspira
odes e outros poemas que servem para o ensino das gerações novas, celebrando as
proezas dos antigos heróis. Mas todo o que tente aproximar-se do santuário da
poesia, sem estar abalado por este delírio que vem das musas, ou que creia que a
arte só basta para lhe fazer poeta, estará muito distante da perfeição: e a poesia dos
sábios se verá sempre eclipsada pelos cantos que respiram um êxtase divino.

Como se vê por seus atributos estes espíritos femininos estiveram


presentes ao longo da história do homem, como muitos outros sob
distintas formas na totalidade dos povos, que souberam reconhecê-los e
entabular relações com eles de maneira unânime. Por que motivo esses
seres espirituais, ou energias reais, caso se queira, supõe-se que não
existem hoje em dia? Acaso só porque se os nega? Por outra parte: o que
ou quem nos impediria de tomar contato com as deusas e entes
espirituais que nos aguardam e conformam?
NOTA
41
"Quando os povos foram vítimas de epidemias e de outros terríveis
açoites em castigo de um antigo crime, o delírio, apoderando-se de
alguns mortais e lhes enchendo de espírito profético, obrigava-os a
procurar um remédio a estes males, e um refúgio contra a cólera divina
com súplicas e cerimônias expiatórias. Ao delírio se deveram as
purificações e os ritos misteriosos que preservaram dos males presentes e
futuros o homem verdadeiramente inspirado e animado de espírito
profético, descobrindo-lhe os meios de se salvar". Fedro (244). Platão.

SIMBOLISMO E ARTE
Federico González
Robert Fludd, Utriusque Cosmi I
Oppenheim, 1617

VII
ARTE MUSICAL
Arquitectura do Cosmo

A música ocidental nasce miticamente com a lira de Apolo e com o


patrocínio das musas, das quais deriva seu nome, e Platão no Banquete a
dá como invenção do Olimpo, embora devamos vinculá-la também com
os martelos de distintos pesos que Pitágoras ouviu soar em uma ferraria,
adaptando posteriormente essa escala a uma corda cujo som está dado
pelas proporções de seu comprimento, que forma o monocórdio imagem
do monocórdio universal constituído em um modelo permanente da
Teoria musical posterior, capaz de sintonizar (sinfonizar) com a harmonia
das esferas e sua música celeste, já que os distintos sons e suas
proporções são expressões da manifestação cósmica, a qual refletem.
Estas relações e especulações entre a música, a cosmologia e a metafísica
são próprias de todo o pensamento ocidental e continuaram sem
interrupção até nossos dias 42. O próprio Pitágoras, seguido de Platão,
estabelece proporções numéricas e geométricas e as vinculações que as
unem à música como reveladora da estrutura e perfeição cósmica e
intermediária entre seus níveis43. Mas não é só isso, estas proporções
estabelecem também as normas da arquitetura e das artes visuais, o plano
da cidade, o metro poético, e se refletem em todos os aspectos culturais e
institucionais, como aconteceu não apenas com os povos de ascendência
greco-romana ou hebraico-cristã, (na idade Média, por exemplo), mas
também com outros muitos sejam arcaicos ou civilizados, pois estes
módulos formam a estrutura de base da cultura das sociedades que não
estão em decadência, as que tomam os ritmos e as proporções como leis
que o universo todo reflete a sua maneira, que fixam e limitam e,
portanto, fazem possível permanentemente a execução do concerto
cósmico 44.

Este tipo de pensamento é também o da escola de Alexandria (século I a


III da era cristã, Euclides, por exemplo), o de Santo Agostinho (em De
Música), o de Boécio, o da escola do Chartres (século XII), o do
Renascimento (vgr. Marsílio Ficino) e de uma boa quantidade de
filósofos Herméticos (C. Agrippa, R. Fludd, A. Kircher, F. Zorzi, também
Kepler, Newton, etc.) 45.

Entretanto, longe de encontrar uniformidade de critérios nestes autores,


pode se observar dentro de uma unidade de base, distintas propostas mais
ou menos válidas, conforme nos aproximamos do ponto de vista, ou
melhor, à audição do autor, ligada com os elementos que relaciona,
estabelecendo proporções entre eles. Isto, que também é válido para as
diversas astronomias das diferentes culturas, igualmente fundamentadas,
às vezes, em certos planetas e constelações que outros omitem, é também
vigente para as estruturas de seus panteões e línguas e é algo normal e
adequado às leis universais portanto saudável e a razão pela qual uma
Tradição Primitiva se expressa em diferentes culturas, adquirindo
distintas forma tradicionais como vergônteas de um arquétipo comum, tal
como a unidade se acha presente na multiplicidade, em que pese a que
cada número da série seja diferente e expresse conceitos dessemelhantes
aos outros.

Neste sentido a audição dos distintos povos constitui sua música, que é o
resultado das relações e proporções entre os diversos sons, signos ou
sinais, que conformam seu enquadramento cultural.

*
* *

Uma circunferência é formada por multidão de retas indefinidas,


reflexos de inumeráveis raios que, como o som, nascem, morrem e
renascem perpetuamente.

No caso da música, arquitetura do logos, o ritmo sublinha a alteridade de


um contínuo evidente e as proporções numéricas estruturam o espaço
sonoro com a revelação de algumas pautas que se organizam e se
correspondem entre si.

A manifestação deste fato assombroso é a arte musical e a audição, o


meio de que se vale o tempo para perpetuar o eterno presente. No código
do que constantemente se reitera, a idéia musical é uma possibilidade
sempre nova e tão fresca e recente como qualquer geração. A voz é o
instrumento por excelência e o frasear e a palavra, os gestos audíveis que
articulam qualquer linguagem. Na origem, foi o verbo que é simultâneo
com a perenidade da criação; interpretar a harmonia cósmica não é outra
coisa que ser. Desde esta perspectiva, o som constitui qualquer ordem,
começando pela consciência do espaço, do tempo e da própria
identidade, e seguindo com a totalidade da manifestação universal que
aparece então como o desenvolvimento de uma complexa organização
musical, que os números e as figuras geométricas revelam. Sendo isto
desta forma, qualquer ser, fenômeno ou coisa, está dentro de uma escala,
salvo o não determinado, cuja ausência tem que se corresponder
necessariamente com o silêncio, ou com o Não Ser. Entretanto deve se
observar que estes conceitos transbordam e superam o sensível, embora,
de fato, qualquer audição seja o limite em que se enquadra o ilimitado.
Esta é a graça da Arte Musical, capaz por sua própria natureza e seus
valores intrínsecos de manifestar ontem, hoje e amanhã, o não
manifestado, a perpétua possibilidade: aquilo que, sem ser jamais,
igualmente conforma o som paradigmático da esperança.

Não há som sem auditor, na criatura está a potestade de que seja ou não
seja a obra; sabe-se que uma greve de escutas anuncia o fim do tempo.
Não se pode emitir sem escutar: os mudos são assim porque não ouvem,
embora percebam perfeitamente a alteridade e a ressonância. Em casos
assim, o canto e a poesia sucumbem e com eles desaparece a
possibilidade de reproduzir uma e outra vez o discurso criacionístico que
surge da audição interior do si mesmo. Acaba-se então o tempo e cessa o
movimento e a transmissão pois o espaço em que este se produz é levado
ao extremo de sua contração e, de repente, é abolido de uma vez para
sempre, como acontece com qualquer falecimento que, é sabido,
caracteriza-se pela impossibilidade de se seguir projetando, mercê à
ausência de toda emissão. Finaliza-se, desta forma, o desenvolvimento
musical que deu lugar à existência de um homem ou um mundo que se
reintegra ao silêncio primitivo, que deixará de ser tal assim que uma
imagem sonora irrompa na escura e vazia noite do não formal, fazendo
girar uma vez mais os ciclos que se reiteram perpetuamente e estruturam
o cosmo além de toda pretensão individual, que é apenas, no melhor dos
casos, uma correspondência ativa com um estado do ser universal.

Portanto, a música é a manifestação de um gesto originário que se


transforma em canto e dança; é a irrupção do tempo em um espaço
Arquetípico e a necessária incorporação do movimento que dinamiza a
totalidade do âmbito vital; e assim surge o calor da voz humana e o
homem se incorpora numa nova cerimônia: grita, e canta e dança e seu
corpo se projeta no devir, impulsionado pelo ritmo, chave da vida
universal.

Igualmente a música atua de maneira secreta sobre os seres e as coisas,


como a poiesis, e oferece a quem se interessa nela uma via de realização
espiritual, ou ao menos uma base para isso, tendo presente que sempre
constituiu um dos elementos transmissores sensíveis mais importantes
em ritos e cerimônias; mas não é só isso: a percepção do discurso
musical é antes inaudível que sonora e, portanto, a verdadeira potência
mágica da música radica em sua percepção original, onde o ser humano
que escuta é um instrumento preciso e afinado na sinfonia do conjunto,
capaz também de criar e transmitir o inaudível em expressões
harmônicas embora elas às vezes desafinem na uniformidade do fraseio
corrente pelo fato evidente de que aquele que "escuta", regenera a
permanente atualidade da arte musical, sendo ao mesmo tempo o sujeito
e o objeto desta; o som, como a matéria, como o cosmo, é um só.

Desta forma, o som e a audição configuram um fato idêntico, um


processo que os conjuga sem fissão, até o momento que intervém a
dualidade da mente e os divide em um e outro, sujeito e objeto.

A verdadeira audição se refere à identidade com a vibração sonora do


plano sutil, incriado, mas tão real que constitui a origem do audível, que
só é um símbolo ou imagem da autêntica percepção intelectual,
equiparável à audição metafísica, originada por essa entidade, ou deusa,
chamada Inteligência, capaz de selecionar valores por nosso intermédio e
se apresentar ante a Sophia universal. Saber é escutar a música cósmica,
obter uma resposta que se ordena igualmente em cada um a fim de
acessar à audição metafísica.

Os mediadores do conhecimento são os símbolos visíveis e audíveis 46


que, já diferenciados, começaram a se fixar na alma, a se imprimir em
sua virgindade, ao mesmo tempo em que começam a se relacionar entre
si, produzindo assim novos espaços, gerando frases e iluminando áreas
cada vez mais definidas, precisas e claras, que se complementam e se
articulam em um discurso: em sua cadência musical. Este processo é
análogo em qualquer desenvolvimento ou gestação, sendo que a
Manifestação Universal é o Arquétipo inevitável de qualquer audição, ou
seja, do diálogo estabelecido pela primeira vez entre o "eu" e o "outro",
que em forma binária intercalam suas pautas, tal qual o faz a relação
ativo-passivo, passivo-ativo.

Não há som sem audição; nesse sentido o receptor seleciona e dirige a


audição (como a visão), transformando-a, e reverte assim um processo
onde sua passividade "virginal" se converte, por meio da fecundação e do
nascimento, em uma nova possibilidade sonora, geradora por sua vez de
outra série de concatenações, fixadas pelos períodos, ou intervalos, entre
os tons, cores, ou particularidades de uma escala que volta sobre si
mesma, reiterando-se. De fato, esta imagem de mundos dentro de
mundos e portanto da realidade e sacralidade de espaços invisíveis que
formam o cosmo, e o próprio homem, seria vertiginosa em sua
plurivalência e multidimensionalidade se não estivesse perfeitamente
ajustada entre si, quer dizer: disposta em ordem, graças à harmonia
musical que conjuga a desordem das partes.

A compreensão deste simbolismo sonoro, ou seja, a possibilidade


metafísica que a música encarna, adiciona uma dimensão a mais ao
audível; também uma maneira distinta de perceber o movimento como
elemento constitutivo do espaço musical.

Não há necessidade sem possibilidade, contrariamente, não há


possibilidade sem necessidade. O possível é necessário e o necessário
possível. Talvez se tratem de dois aspectos de um mesmo termo, ou
melhor, realidade, encarada desde dois pontos de vistas; distintos e
opostos, tal qual o livre-arbítrio e o óbvio condicionamento do destino.
Esta verdade se manifesta a nível ontológico na própria medula do ser
que, para se identificar, para se conhecer, tem que se fracionar entre o eu
e o outro, raiz de todo dualismo. No fenômeno sonoro, esta dualidade se
expande primeiro como som (transmitido pelo vento), e segundo,
recolhe-se pelo receptor da comunicação. A mesma dualidade se
apresenta também, em outro nível, entre o som e o eco; este último,
como espelho, ou superfície das águas, ou prisma, onde a luz se refrata
ou reflete multiplicando-se em módulos sensíveis, auditivos ou
lumínicos, imagens que, tal como as do tempo e do espaço, nascem,
morrem e renascem perpetuamente, tal dissemos no começo, resolvendo
sempre em forma de tríades (neste caso verbo, audição, auditor, ou
analogamente: emissão - meio sonoro - recepção).

Para terminar, só queremos sublinhar dois temas fundamentais que


tocamos aqui, e sobre os quais voltaremos certamente no futuro. O
primeiro trata a respeito da audição como constituindo a expressão do
tempo e a percepção do movimento no espaço; o segundo, o da relação
da música com o elemento ar, transmissor do som, e tudo o que este
último significa para uma sociedade tradicional, ou uma cultura arcaica.

A deusa te aguarda, a essência de seu nome sonoro é Sophia. Encanta-a


com tua arte e esposa-a para sempre.
NOTAS
42
Ver Jâmblico. Vida Pitagórica cap. XXVI. Editorial Etnos. Madrid 1991.
Ver também na página 159 de SYMBOLOS Nº 5 a resenha sobre o livro
L'Esoterisme Musical en France, 1700-1950, de Joscelyn Godwin. Deste
mesmo autor, Athanasius Kircher: la búsqueda del saber de la antigüedad
e Robert Fludd: claves para una teología del Universo. Swan, Madrid
1987. Igualmente os Cuadernos de la Gnosis (Symbolos 1995, 1996) Nos.
6 e 7, de seu livro: Harmonies of Heaven and Earth, London 1987.
Também sobre Fludd: Escritos sobre música, edição de Luis Robledo,
Editora Nacional, Madrid 1979; sobre Kircher: Athanasius Kircher, las
imágenes de un saber universal. I. Gómez de Liaño. Siruela, Madrid 1990.
43
A Tetraktys seria também um modelo musical perfeito.
44
Vários sistemas tradicionais se apoiavam e se apóiam em uma escala de
cinco tons, ou notas. Por outro lado, na Grécia e em Roma a música
formava parte das artes liberais, concretamente do quadrivium, junto com a
aritmética, a geometria e a astronomia, ou seja, as artes cosmogônicas.
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Embora estas idéias e autores não são ensinados (no máximo, uma ligeira
menção histórica) aos estudantes de música atuais.
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A sinestesia transforma o audível no visível e vice-versa.