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Carlos Drummond de Andrade, Claro Enigma, 1951 (todos os poemas comentados) Epígrafe: “ Les événements

Carlos Drummond de Andrade, Claro Enigma, 1951 (todos os poemas comentados)

de Andrade, Claro Enigma, 1951 (todos os poemas comentados) Epígrafe: “ Les événements m’ennuient ” (
de Andrade, Claro Enigma, 1951 (todos os poemas comentados) Epígrafe: “ Les événements m’ennuient ” (

Epígrafe:

Les événements m’ennuient” (os acontecimentos me

dão tédio)

Parte 1 - Entre Lobo e Cão

Dissolução

Escurece, e não me seduz

tatear sequer uma lâmpada.

Pois que aprouve ao dia findar,

aceito a noite.

E com ela aceito que brote

uma ordem outra de seres

e coisas não figuradas.

Braços cruzados.

Vazio de quanto amávamos,

mais vasto é o céu. Povoações

surgem do vácuo.

Habito alguma?

E nem destaco minha pele

da confluente escuridão.

Um fim unânime concentra-se

e

pousa no ar. Hesitando.

E

aquele agressivo espírito

que o dia carreia consigo,

já não oprime. Assim a paz,

destroçada.

Vai durar mil anos, ou

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extinguir-se na cor do galo?

Esta rosa é definitiva,

ainda que pobre.

Imaginação, falsa demente,

já te desprezo. E tu, palavra.

No mundo, perene trânsito,

calamo-nos.

E sem alma, corpo, és suave.

Comentário

Prof. Valdir

Drummond atribui grande importância simbólica à noite e ao momento do anoitecer. Enquanto o dia e a luz representam a atividade, a vida social e a esperança, a noite e a treva representam a inércia, a solidão e o momento em que tudo se confunde na escuridão. A noite é o momento da dissolução dos seres, que desaparecem nas sombras. Por isso, a noite está associada à morte. O anoitecer é o momento do envelhecimento e do declínio, do desejo de repouso e da resignação. Era assim que Drummond via a sua vida naquele momento.

Nas duas estrofes iniciais, o eu-lírico diz que está resignado diante do fato de que anoitece e aceita, de braços cruzados, que uma ordem diferente se instale em sua vida. Ao contrário de Camões, que acreditava num Céu onde as almas seriam eternamente felizes, Drummond considera que o céu é vasto e vazio, pois está destituído de tudo o que amou. O eu-lírico se questiona se nesse vácuo há algum lugar que ele possa habitar.

Com a chegada da noite, o eu-lírico sente que seu próprio ser se confunde com tudo que está à sua volta (ele também está se dissolvendo na escuridão). Tudo se encaminha para o mesmo fim, que se aproxima de maneira hesitante. E já não tem mais razão de ser o espírito agressivo e lutador próprio da luz do dia, pois não há mais nada pelo qual lutar. Com a noite, vem a paz própria de tudo o que acabou e foi destroçado. O eu-lírico se pergunta se essa paz vai durar eternamente ou vai acabar na hora do amanhecer (“extinguir-se na cor do galo?”) e conclui que ela é definitiva, apesar de tão pobre (pois não tem beleza sem emoção).

Na última estrofe, o eu-lírico confessa seu desprezo pela imaginação e pelo poder das palavras. Isso revela uma mudança importante na atitude de Drummond como poeta. Em seus livros anteriores, ele tinha exaltado o poder da imaginação como força que nos leva a superar a opressão, assim como confiava no poder das palavras em romper a solidão e despertar solidariedade. Agora,

o poeta preferia calar-se (isto é, fechar-se em si mesmo numa linguagem hermética). Ele se

o poeta preferia calar-se (isto é, fechar-se em si mesmo numa

linguagem hermética). Ele se considera um corpo que já não tem alma e, portanto, não é mais agitado pelas preocupações e pelas

emoções: “E sem alma, corpo, és suave”.

Remissão

Tua memória, pasto de poesia,

tua poesia, pasto dos vulgares,

vão se engastando numa coisa fria

a que tu chamas: vida, e seus pesares.

Mas, pesares de quê? perguntaria,

se

esse travo de angústia nos cantares,

se

o que dorme na base da elegia

vai correndo e secando pelos ares,

e

nada resta, mesmo, do que escreves

e

te forçou ao exílio das palavras,

senão contentamento de escrever,

enquanto o tempo, em suas formas breves

ou longas, que sutil interpretavas,

se evapora no fundo do teu ser?

Comentário

Neste poema há um solilóquio (conversa consigo mesmo), em que

o poeta se dirige a si mesmo em segunda pessoa. Ele reconhece

que a sua memória (que alimentava sua poesia) assim como sua poesia (que era consumida pelos leitores comuns) se tornaram parte de uma coisa fria, que é a sua vida e os seus sofrimentos. Ao se perguntar quais seriam esses sofrimentos, o poeta admite que suas angústias e suas dores (que formam a base das elegias poemas de lamentação) acabaram com o passar dos anos. Sem os sofrimentos e angústias que o tinham levado a ser poeta (“te forçou

ao exílio das palavras”), a única razão que restou para fazer poesia

é o próprio contentamento de escrever, enquanto o tempo aos poucos vai-se esvaindo dentro do poeta.

“Remissão”, a palavra que dá título ao poema, significa o perdão dado a uma pena que foi imposta a alguém. Na medida em que os sofrimentos do poeta se gastaram com o tempo, houve uma remissão de sua pena.

O poema é um soneto de forma italiana (dois quartetos e dois

tercetos, com versos decassílabos rimados), forma que era ridicularizada e desprezada no começo do Modernismo, mas que

Drummond e outros poetas importantes como Murilo Mendes, Jorge

de Lima e Vinícius de Moraes revalorizaram sobretudo a partir de

1945.

A ingaia ciência

A madureza, essa terrível prenda

que alguém nos dá, raptando-nos, com ela,

todo sabor gratuito de oferenda

sob a glacialidade de uma estrela,

a madureza vê, posto que a venda

interrompa a surpresa da janela,

o

círculo vazio, onde se estenda,

e

que o mundo converte numa cela.

A

madureza sabe o preço exato

dos amores, dos ócios, dos quebrantos,

e

nada pode contra sua ciência

e

nem contra si mesma. O agudo olfato,

o

agudo olhar, a mão, livre de encantos,

se destroem no sonho da existência.

Comentário

A maturidade é um presente terrível que, no momento mesmo em

que nos é dado, rouba todo o sabor das coisas mergulhando-nos na frieza de uma lápide funerária (“sob a glacialidade de uma estela”). Apesar das ilusões da vida (que são como uma venda nos olhos), a maturidade vê que a vida é um círculo vazio e que o mundo é uma prisão. A maturidade sabe exatamente o preço que é preciso pagar pelos amores, pelos ócios e pelos encantamentos (“quebrantos”) e nada pode fazer para impedir este conhecimento nem para mudar a si mesma. Por isso, as capacidades adquiridas com a maturidade como o olhar mais atento (“agudo”) e as mãos experientes e sem encantos acabam por se destruírem a si

mesmas, enquanto sonhamos que existimos nesse mundo.

A palavra “ingaia” é um neologismo formado a partir do prefixo “in” (negação) e “gaia” (adjetivo que significa “alegre” e “jovial”).

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Portanto, “ingaia” significaria infeliz e envelhecida. O título “A Ingaia Ciência” remete, por oposição, à

Portanto, “ingaia” significaria infeliz e envelhecida. O título “A Ingaia Ciência” remete, por oposição, à expressão “Gaia Ciência”, que era

o nome que os trovadores medievais davam à arte de amar e de

fazer cantigas, expressão que foi retomado por Nietzsche como

título de uma de suas obras mais importantes.

De maneira semelhante ao personagem Brás Cubas no capítulo final de Memórias Póstumas, Drummond faz uma avaliação negativa do legado de sua vida. Ele acredita que tudo o que fez será esquecido porque a sua época já não valoriza a poesia (“esses monstros atuais, não os cativa Orfeu”) e que as pessoas só se recordarão do seu poema mais famoso “No meio do caminho”, escrito quando ele era ainda jovem.

O poema tem a forma de um soneto italiano tradicional.

Confissão

Não amei bastante meu semelhante,

não catei o verme nem curei a sarna.

Só proferi algumas palavras,

melodiosas, tarde , ao voltar da festa.

Dei sem dar e beijei sem beijo.

(Cego é talvez quem esconde os olhos

embaixo do catre.) E na meia-luz

tesouros fanam-se, os mais excelentes.

Do que restou, como compor um homem

e tudo o que ele implica de suave,

de concordâncias vegetais, murmúrios

de riso, entrega, amor e piedade?

Não amei bastante sequer a mim mesmo,

contudo próximo. Não amei ninguém.

Salvo aquele pássaro -vinha azul e doido-

que se esfacelou na asa do avião.

Comentário

No soneto “Legado”, Drummond imagina qual seria o seu legado como poeta. No soneto “Confissão”, Drummond avalia qual foi o seu legado como ser humano. Ele confessa que nunca amou suficientemente as pessoas à sua volta, nem se dedicou a ajudá- las. Ele se contentou em dizer palavras melodiosas, escritas tarde da noite, quando já estava sozinho. Ele escreveu sobre amor e sobre doação, sem realmente amar e sem realmente dar-se ao seu próximo. Ele viveu como alguém que se esconde debaixo da cama (“catre”) e, por isso, não enxergou realmente as pessoas. Nessa

O poema tem a forma de soneto italiano tradicional.

Legado

Que lembrança darei ao país que me deu

tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?

Na noite do sem fim, breve o tempo esqueceu

minha incerta medalha, e a meu nome se ri.

E mereço esperar mais do que os outros, eu?

Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.

Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,

a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.

Não deixarei de mim nenhum canto radioso,

uma voz matinal palpitando na bruma

e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.

De tudo quanto foi meu passo caprichoso

na vida, restará, pois o resto se esfuma,

uma pedra que havia em meio do caminho.

Comentário

O poeta questiona qual é o legado que irá deixar quando morrer e

como ele será lembrado. Ele acredita que, depois de morto (“na noite do sem-fim”), rapidamente o tempo se esquecerá dele e vai rir do seu nome como algo insignificante. E por que ele poderia esperar algo diferente? É inútil se enganar e achar-se importante só por ter sido poeta. O fato é que o mundo moderno é habitado por monstros que não podem ser cativados nem mesmo por Orfeu (personagem mítico que era capaz de encantar com o seu canto qualquer criatura, mesmo os monstros do Inferno). O poeta sabe que não deixará nenhum poema cheio de alegria (“nenhum canto radioso”) que possa aliviar os sofrimentos das pessoas (“que arranque de alguém seu mais secreto espinho”). De tudo o que ele fez na vida, ficará apenas a lembrança do verso que fala de “uma

pedra que havia em meio do caminho”.

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meia-luz em que ele viveu, os tesouros mais preciosos de sentimentos e de bondade desapareceram.

meia-luz em que ele viveu, os tesouros mais preciosos de sentimentos e de bondade desapareceram. Do que restou deles, como reconstituir um ser humano, no que ele tem de amor e piedade? O poeta não amou ninguém, nem a si mesmo. Talvez só tenha amado alguma esperança ousada e louca que já se esfacelou, como um pássaro doido contra a asa de um avião.

O poema é um soneto italiano de versos decassílabos brancos.

Perguntas em forma de cavalo-marinho

Que metro serve

para medir-nos?

Que forma é nossa

e que conteúdo?

Contemos algo?

Somos contidos?

Dão-nos um nome?

Estamos vivos?

A que aspiramos?

Que possuímos?

Que relembramos?

Onde jazemos?

(Nunca se finda

nem se criara.

Mistério é o tempo

inigualável.)

Comentário

As três primeiras estrofes formulam questões que poderiam ser enunciadas por qualquer ser vivo e poderiam ser ditas até mesmo pelas palavras que compõem a poesia (“Que metro serve/ para medir-nos?/ Que forma é nossa/ e que conteúdo?”). Essas perguntas ficam sem resposta. O que temos na última estrofe, isolado das perguntas por meio de parênteses, é o enunciado de que o tempo é um mistério inigualável, já que não tem final nem começo. O tempo é o enigma que está por trás de todas as questões levantadas pelas criaturas. O tempo é infinito e ilimitado, ao passo que as criaturas têm começo e fim, embora não saibam

qual seja o propósito disso.

A referência ao “cavalo-marinho” no título parece ser influência do Surrealismo. Os surrealistas tinham muito apreço por animais de aparência estranha e hábitos surpreendentes, que podiam ser associados a tudo o que é inexplicável e enigmático. A própria forma do poema é pouco usual: são quatro estrofes de quatro versos cada uma e cada verso tem quatro sílabas.

Os animais do presépio

Salve, reino animal:

todo o peso celeste

suportas no teu ermo.

Toda a carga terrestre

carregas como se

fosse feita de vento.

Teus cascos lacerados

na lixa do caminho

e

e

e

tuas cartilagens

teu rude focinho

tua cauda zonza,

teu pelo matizado,

tua escama furtiva,

as cores com que iludes

teu negrume geral,

Teu voo limitado,

teu rastro melancólico,

tua pobre verônica

em mim, que nem pastor,

soube ser, ou serei,

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se incorporam num sopro. Para tocar o extremo da minha natureza, limito-me: sou burro. Para

se incorporam num sopro.

Para tocar o extremo

da minha natureza,

limito-me: sou burro.

Para trazer ao feno

o senso da escultura,

concentro-me: sou boi.

A vária condição

por onde se atropela

essa ânsia de explicar-me

agora se apascenta

à sombra do galpão

neste sinal: sou anjo.

Comentário

de tudo quanto é misto

e que odiei ou senti.

Nem Fausto nem Mefisto,

à deusa que se ri

deste nosso oaristo,

eis-me a dizer: assisto

além, nenhum, aqui,

mas não sou eu, nem isto.

Comentário

Drummond faz uma homenagem ao poeta modernista português Fernando Pessoa (1888-1935), que se tornou famoso pela invenção de vários heterônimos (poetas de características marcantes, mas totalmente fictícios), assim como pelas poesias que publicou em seu próprio nome.

O poema de Drummond é um pastiche, isto é, uma imitação que

procura retomar cuidadosamente o estilo de um outro autor. Ao homenagear Fernando Pessoa, Drummond recriou algumas de suas características mais evidentes: os paradoxos (“onde nasci, morri/ onde morri, existo”), o distanciamento intelectual em relação

às emoções (“desisto/ de tudo quanto é misto/ e que odiei e que senti”), a problematização da identidade pessoal (“mas não sou eu, nem isto) e a concisão densa (orações e versos curtos, mas altamente carregados de sentido).

O poema tem a forma de um enigma que deve ser resolvido pelo

leitor. Por isso, quando foi publicado pela primeira vez no suplemento literário do jornal A Manhã em 1949, ele tinha como título a seguinte pergunta: “Leitores, de quem é este soneto?. Era uma brincadeira em que o leitor seria levado a acreditar que se tratava de Fernando Pessoa, pelas características indicadas acima, mas descobriria que o autor era, na verdade, Carlos Drummond de Andrade. Era como se este “falso Fernando Pessoa” fosse um

heterônimo criado por Drummond.

Embora seja um pastiche das poesias de Fernando Pessoa, o poema trata de problemas importantes para Carlos Drummond de Andrade. Um deles é o enigma da existência humana: o que significa ser alguém? Por que existimos e morremos? Qual é o propósito de tudo isso?; outro é o distanciamento em relação às emoções: Drummond sentia que a maturidade o tornava mais frio; outro, por fim, é a recusa das identidades tradicionais e estabelecidas: Drummond sempre quis escapar dos papeis tradicionais que a sociedade, a época e a família tentaram lhe impor. Por isso, ele escreve que não é “Fausto nem Mefisto(referência à lenda alemã do sábio Fausto que faz um pacto com o demônio Mefisto) e que “não sou eu, nem isto”. O poema é,

O poeta saúda as criaturas do reino animal, dirigindo-se a elas em

segunda pessoa. Os animais representados no Presépio suportam

o peso da terra e do céu em suas formas robustas e rudes. O poeta

se identifica com essas formas e sente que elas se incorporam nele: ele assume a limitação do burro e a digestão do boi (que dá ao feno uma aparência de escultura). Por fim, o poeta consegue

superar sua inquietação e consegue ter a serenidade de um anjo.

O poema é formado por tercetos em versos hexassílabos (seis

sílabas).

Sonetilho do falso Fernando Pessoa

Onde nasci, morri.

Onde morri, existo.

E das peles que visto

muitas há que não vi.

Sem mim como sem ti

posso durar. Desisto

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portanto, tão típico de Fernando Pessoa quanto de Drummond. O poema é um sonetilho, isto

portanto, tão típico de Fernando Pessoa quanto de Drummond.

O poema é um sonetilho, isto é, um soneto escrito com versos

curtos ao invés de decassílabos. No caso, os versos são

hexassílabos (seis sílabas) rimados.

Um boi vê os homens

Tão delicados (mais que um arbusto) e correm

e correm de um para o outro lado, sempre esquecidos

de alguma coisa. Certamente, falta-lhes

não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres

e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves,

até sinistros. Coitados, dir-se-ia que não escutam

nem o canto do ar nem os segredos do feno,

como também parecem não enxergar o que é visível

e

comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes

e

no rasto da tristeza chegam à crueldade.

Toda a expressão deles mora nos olhos e perde-se

a um simples baixar de cílios, a uma sombra.

Nada nos pelos, nos extremos de inconcebível fragilidade,

e

como neles há pouca montanha,

e

que secura e que reentrâncias e que

impossibilidade de se organizarem em formas calmas,

permanentes e necessárias. Têm, talvez,

certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem

perdoar a agitação incômoda e o translúcido

vazio interior que os torna tão pobres e carecidos

de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme

(que sabemos nós?), sons que se despedaçam e tombam no

campo

como pedras aflitas e queimam a erva e a água,

e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.

Comentário

Nesse poema, Drummond mostra o que seria a existência humana sob o olhar de um boi. Ao fazer isso, o poeta lança mão de um recurso literário importante, que é o efeito de estranhamento. O

estranhamento consiste em mostrar algo que parece normal e comum a partir de um ponto de vista inusitado ou surpreendente.

A escolha do boi como o animal que observa os seres humanos

tem muito sentido para Drummond. Em primeiro lugar, o poeta era filho de fazendeiro criador de gado; em segundo lugar, o boi é um animal que vive próximo aos seres humanos, mas sem compartilhar

a intimidade doméstica dos cães e gatos, razão pela qual o boi está

suficientemente distanciado para perceber como os seres humanos são estranhos; por último, o boi está associado a tudo o que é robusto, lento, firme e estável, características que as pessoas costumam associar com limitação e falta de inteligência. Do ponto

de vista humano, o boi seria um animal forte, mas sem esperteza.

O poema de Drummond inverte esse ponto de vista. O boi aparece

como um animal sábio, que exerce sua capacidade de observação

e sua inteligência enquanto rumina calmamente. O boi sente, ao

mesmo tempo, espanto e compaixão ao notar a agitação constante dos seres humanos, a sua fragilidade física, a sua inquietação, a facilidade com que ficam tristes e melancólicos, o ar sério e sinistro que têm às vezes, a capacidade de serem cruéis, a dificuldade de perceberem o que é comum a todos os seres (“parecem não enxergar o que é visível/ e comum a cada um de nós, no espaço”). Os seres humanos emitem sons dolorosos de amor, de ciúme, de desejo, que expressam a sua carência e sua pobreza interior, “o translúcido vazio interior” do ser humano. Para o boi é difícil, depois de presenciar tudo isso, voltar a ruminar as verdades bovinas. O ato de ruminar, no que tem de repetitivo, sereno e pleno, é o oposto

de toda a agitação, inconstância e vazio da vida humana.

O poema é feito em versos livres e brancos. A linguagem culta, os

numerosos substantivos abstratos e o uso de versos longos que se aproximam da prosa dão ao poema um aspecto discursivo e

erudito, que evidencia a sabedoria do boi.

Observação: A maneira como os bois veem os seres humanos é também o tema do conto “Conversa de Bois”, do livro Sagarana, de Guimarães Rosa.

Memória

Amar o perdido

deixa confundido

este coração.

Nada pode o olvido

contra o sem sentido

apelo do Não.

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As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. Mas as coisas findas, muito mais

As coisas tangíveis

tornam-se insensíveis

à palma da mão.

Mas as coisas findas,

muito mais que lindas,

essas ficarão.

Comentário

O poema destaca, com notável concisão, a capacidade da memória

de eternizar e valorizar o que foi perdido, embora o poeta

reconheça como isso é estranho (“Amar o perdido/deixa confundido/este coração”).

Aquilo não deu certo, aquilo que não existe mais, aquilo que não se realizou, aquilo que não podemos mais alcançar tem um forte apelo para Drummond, mas ele reconhece que se trata de um apelo absurdo e sem sentido (já que aquilo que acabou ou não se realizou não pode ser trazido de volta). Esse é o “sem sentido apelo do Não”. O esquecimento (“olvido”) nada pode fazer para apagar o apelo das coisas que se foram. Ou não se realizaram. Enquanto as coisas palpáveis e próximas parecem indiferentes e insensíveis, as coisas findas são mais do que lindas. Elas são eternas.

O poema é composto de quatro estrofes de três versos cada. Os

versos são redondilhas menores (5 sílabas) rimadas.

A tela contemplada

Pintor da soledade nos vestíbulos

de mármore e losango, onde as colunas

se deploram silentes, sem que as pombas

venham trazer um pouco do seu ruflo;

traça das finas torres consumidas

no vazio mais branco e na insolvência

de arquiteturas não arquitetadas,

porque a plástica é vã, se não comove,

ó criador de mitos que sufocam,

desperdiçando a terra, e já recuam

para a noite, e no charco se constelam,

por teus condutos flui um sangue vago,

e nas tuas pupilas, sob o tédio,

é a vida um suspiro sem paixão.

Comentário

O poema descreve um pintor que retrata a solidão de um recinto de

mármore, triste e silencioso, onde nem as pombas aparecem, um pintor que traça torres desfeitas, o vazio e a falência das arquiteturas que nunca foram construídas. Trata-se de uma arte vazia, porque não comove. Esse pintor cria imagens irreais desesperadoras, que se afastam das coisas terrestres e se dirigem para o que é escuro e pantanoso (ó criador de mitos, que sufocam/ desperdiçando a terra, e já recuam/ para a noite, e no charco se

constelam”). Nas veias desse artista, o sangue já não tem força, suas pupilas estão cheias de tédio e sua “vida é um suspiro sem paixão”.

No poema, o pintor é uma imagem do artista que perdeu a vitalidade e que se dedica a mostrar um mundo de formas elaboradas, mas processo de dissolução. Esse pintor corresponde

à imagem que Drummond fazia de si mesmo na época em que

escreveu os poemas de Claro Enigma. Assim, o poema pode ser considerado metalinguístico, uma vez que se refere à própria

atividade poética do autor.

Trata-se de um soneto em versos decassílabos brancos.

Ser

O filho que não fiz

hoje seria homem.

Ele corre na brisa,

sem carne, sem nome.

Às vezes o encontro

num encontro de nuvem.

Apóia em meu ombro

seu ombro nenhum.

Interrogo meu filho,

objeto de ar:

em que gruta ou concha

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quedas abstrato? Lá onde eu jazia, responde-me o hálito, não me percebeste contudo chamava-te como

quedas abstrato?

Lá onde eu jazia,

responde-me o hálito,

não me percebeste

contudo chamava-te

como ainda te chamo

(além, além do amor)

onde nada, tudo

aspira a criar-se.

O filho que não fiz

faz-se por si mesmo.

Comentário

um dia se humanize. E malaxado,

embebido da fluida substância de nossos segredos,

quem sabe a flor que ai se elabora, calcária, sanguínea ?

Ah, não viver para contemplá-la! Contudo,

não é longo mentar uma flor, e permitido

correr por cima do estreito rio presente,

construir de bruma nosso arco-íris.

Nossos donos temporais ainda não devassaram

o claro estoque de manhãs

que cada um traz no sangue, no vento.

Passarei a vida entoando uma flor, pois não sei cantar

nem a guerra, nem o amor cruel, nem os ódios organizados,

e olho para os pés dos homens, e cismo.

Escultura de ar, minhas mãos

te modelam nua e abstrata

para o homem que não serei.

Ele talvez compreenda com todo o corpo,

para além da região minúscula do espírito,

a razão de ser, o ímpeto, a confusa

distribuição, em mim, de seda e péssimo.

II

Nalgum lugar faz-se esse homem…

Contra a vontade dos pais ele nasce,

contra a astúcia da medicina ele cresce,

e ama, contra a amargura da política.

Não lhe convém o débil nome de filho,

pois só a nós mesmos podemos gerar,

e esse nega, sorrindo, a escura fonte.

Irmão lhe chamaria, mas irmão

por quê, se a vida nova

se nutre de outros sais, que não sabemos?

Drummond teve uma filha - Maria Julieta, já adulta na época - mas nunca teve um filho. Esse filho que ele não teve, e que seria adulto se tivesse nascido, representa os projetos e sonhos que não se realizaram e que, por isso mesmo, são sempre lembrados e acalentados (conforme o poema “Memória”, o esquecimento não consegue apagar o apelo das coisas que Não se realizaram ou que

já terminaram). Por isso, esse filho que não nasceu e que só existe

como pensamento ganha a força de algo real, de um ser humano com quem o poeta pode conversar. O filho que nunca nasceu vai

se fazendo por si mesmo, na mente do poeta.

O poema é composto de cinco estrofes de quatro versos e de um

distico (estrofe de dois versos). Os versos são brancos e variam

entre quatro e seis sílabas.

Contemplação do banco

I

O

coração pulverizado range

sob o peso nervoso ou retardado ou tímido

que não deixa marca na alameda, mas deixa

essa estampa vaga no ar, e uma angústia em mim,

espiralante.

Tantos pisam este chão que ele talvez

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Ele é seu próprio irmão, no dia vasto, na vasta integração das formas puras, sublime

Ele é seu próprio irmão, no dia vasto,

na vasta integração das formas puras,

sublime arrolamento de contrários

enlaçados por fim.

Meu retrato futuro, como te amo,

e mineralmente te pressinto, e sinto

quanto estás longe de nosso vão desenho

e

de nossas roucas onomatopeias…

III

Vejo-te nas ervas pisadas.

O jornal, que aí pousa, mente.

Descubro-te ausente nas esquinas

mais povoadas, e vejo-te incorpóreo,

contudo nítido, sobre o mar oceano.

Chamar-te visão seria

malconhecer as visões

de que é cheio o mundo

e vazio.

Quase posso tocar-te, como às coisas diluculares

que se moldam em nós, e a guarda não captura,

e vingam.

Dissolvendo a cortina de palavras,

tua forma abrange a terra e se desata

à maneira do frio, da chuva, do calor e das lágrimas.

Triste é não ter um verso maior que os literários,

é não compor um verso novo, desorbitado,

para envolver tua efígie lunar, ó quimera

que sobes do chão batido e da relva pobre.

Comentário

O poema “Contemplação no banco” não fala da noite nem da dissolução (temas predominantes em Claro Enigma), mas da possibilidade de que o futuro e a luz da manhã tragam uma transformação do mundo. O poema retoma, assim, a esperança

utópica que tinha sido tão importante na época em que Drummond escreveu os livros Sentimento do Mundo e A Rosa do Povo.

A primeira seção do poema parte de uma situação já mostrada nos

poemas anteriores: o poeta sente que seu coração está pulverizado

e cheio de angústia, mas dessa vez ele imagina que, depois de

tantos pisarem o chão (metáfora da relação dura que os seres humanos têm com o mundo), é possível que brote ali uma flor (símbolo de esperança e transformação). Mas o poeta sente que não viverá o suficiente para contemplá-la. Tudo o que ele pode fazer é pensar (“mentar”) a flor e, enquanto ela não vem, fazer projetos imaginários de um mundo melhor (“construir de bruma nosso arco-íris”). Mas tudo isso é fácil demais e não é suficiente.

Aqueles que dominam o mundo (“nosso donos temporais”) ainda não perceberam como o futuro está cheio de possibilidades de transformação (“ainda não devassaram o claro estoque de manhãs”). Por essa razão, o poeta não vai desistir de homenagear essa esperança (“Passarei a vida entoando uma flor”). O poeta sabe não será o homem que vai transformar o mundo, mas espera que esse homem compreenda os sentimentos misturados e complexos que havia no poeta (“a razão de ser, o ímpeto, a confusa/ distribuição, em mim, de seda e péssimo”).

A segunda seção do poema procura imaginar como será esse

homem capaz de transformar o mundo. Ele vai nascer e crescer, a despeito de todas as resistências do mundo e de todas as proibições. Ele será diferente dos homens de hoje, por isso, não poderá ser chamado de filho nem de irmão. Ele vai ser a síntese das formas mais puras e a conciliação de todas as contradições (“na vasta integração das formas puras/ sublime arrolamento de

contrários/ enlaçados por fim”).

Apesar da forte esperança messiânica nesse homem novo (que tanto pode ser um indivíduo especial quanto uma nova maneira de ser humano), o poeta sabe que ele está muito longe de chegar (“e sinto/ quanto estás longe de nosso vão desenho/ e de nossas

roucas onomatopeias

)

Na terceira seção do poema, o poeta procura à sua volta os sinais deste homem que irá transformar o mundo. Ele não está nos jornais (“o jornal, que aí pousa, mente”), mas é uma presença incorpórea que está em toda parte. Ele não é propriamente uma visão ilusória como essas de que o mundo está cheio. Ele é quase palpável e faz parte das coisas diluculares (isto é, das coisas que vem com o clarear do dia). Por isso, o poeta lamenta não ser capaz de escrever um verso novo, que esteja à altura desta esperança aparentemente absurda (“quimera”), que brota de tudo aquilo que é humilde e espezinhado neste mundo (“que sobes do chão batido e da relva pobre”).

A presença deste poema no livro Claro Enigma mostra que, apesar

de ter abandonado a poesia engajada e de protesto social, Drummond não aderiu a uma atitude conformista, que ignora as injustiças sociais e não acredita na necessidade e na possibilidade de transformação do mundo. Para Drummond, aquilo que ainda Não se realizou não pode ser ignorado (conforme se diz no poema “Memória” e no poema “Ser”, dedicado ao filho que o poeta não

9

teve). dessa livre disciplina plenamente floresciam permutando no universo uma dileta substância e um desejo

teve).

dessa livre disciplina

plenamente floresciam

permutando no universo

uma dileta substância

e um desejo apaziguado

de ser um ser com milhares,

pois o centro era eu de tudo

como era cada um dos raios

desfechados para longe,

alcançando além da terra

ignota região lunar,

na perturbadora rota

que antigos não palmilharam

mas ficou traçada em branco

nos mais velhos portulanos

e no pó dos marinheiros

afogados em mar alto.

Sonhei que meu sonho vinha

com a realidade mesma.

Sonhei que o sonho se forma

não do que desejaríamos

ou de quanto silenciamos

em meio a ervas crescidas,

mas do que vigia e fulge

em cada ardente palavra

proferida sem malícia,

aberta como uma flor

se entreabre: radiosamente.

Sonhei que o sonho existia

não dentro, fora de nós,

O poema é escrito em versos livres e brancos. O título se refere à

atitude reflexiva do poeta que contempla o chão, sentado num

banco de praça.

Sonho de um sonho

Sonhei que estava sonhando

e que no meu sonho havia

outro sonho esculpido.

Os três sonhos sobrepostos

dir-se-iam apenas elos

de uma infindável cadeia

de mitos organizados

em derredor de um pobre eu.

Eu que, mal de mim! sonhava.

Sonhava que no meu sonho

retinha uma zona lúcida

para concretar o fluido

como abstrair o maciço.

Sonhava que estava alerta,

e

mais do que alerta, lúdico,

e

receptivo, e magnético,

e

em torno a mima se dispunham

possibilidades claras,

e, plástico, o ouro do tempo

vinha cingir-me e dourar-me

para todo o sempre, para

um sempre que ambicionava

mas de todo o ser temia

Ai de mim! que mal sonhava.

Sonhei que os entes cativos

10

e

era toca-lo e colhe-lo,

e

sem demora sorve-lo,

gasta-lo sem vão receio

de que um dia se gastara.

Sonhei certo espelho límpido

com a propriedade mágica

de refletir o melhor,

sem azedume ou frieza

por tudo que fosse obscuro,

mas antes o iluminando,

mansamente convertendo

em fonte mesma de luz.

Obscuridade! Cansaço!

Oclusão de formas meigas!

Ó terra sobre diamantes!

Já vos libertais, sementes,

germinando à superfície

deste solo resgatado!

Sonhava, ai de mim, sonhando

que não sonhara

Mas via

na treva em frente a meu sonho,

nas paredes degradadas,

na fumaça, na impostura,

no riso mau, na inclemência,

na fúria contra os tranquilos,

na estreita clausura física,

no desamor à verdade,

na ausência de todo amor,

eu via, ai de mim, sentia

que o sonho era sonho, e falso.

eu via, ai de mim, sentia que o sonho era sonho, e falso. Comentário Assim como

Comentário

Assim como “Contemplação no banco”, o poema “Sonho de um sonho” trata da esperança utópica num mundo transformado e justo. As duas primeiras estrofes descrevem a situação em que o poeta sonhava: seu sonho era algo extremamente irreal e utópico, enraizado nos mais profundos desejos e esperanças do poeta (“uma infindável cadeia/ de mitos organizados/ em derredor de um pobre eu”). No seu sonho, o poeta estava lúcido e alerta e tudo parecia possível (“em torno de mim se dispunham/ possibilidades claras”). O tempo já não causava aflição ao poeta, pois ele viveria para sempre (“um sempre que ambicionava/ mas de todo o ser temia

Na terceira estrofe, descreve-se que, no sonho, todos as criaturas estavam livres, floresciam plenamente e o desejo de comunhão e de harmonia estava finalmente apaziguado e alcançava todos os seres e todas as regiões do universo, mesmo aquelas que nunca foram mapeadas.

Na quarta estrofe, o sonho do poeta se realizava pela força sincera das palavras. Cada verdade dita sem malícia tinha o poder de se abrir como uma flor (símbolo da esperança e da transformação do mundo).

Na quinta estrofe, o sonho tinha a propriedade de existir fora da nossa mente e de durar para sempre.

Na sexta estrofe, o poeta sonhou que havia um espelho capaz de refletir o que existe de melhor no mundo, sem o azedume, sem a frieza, sem o cansaço, sem a obscuridade, sem nada que impeça o acesso ao que há de mais delicado (sem a “oclusão das formas meigas”).

Na estrofe final, o poeta queria sonhar que tudo não era apenas um sonho, mas, ao mesmo tempo, ele via todos os sinais de que seu sonho era irreal: “nas paredes degradadas/na fumaça, na impostura,/no riso mau, na inclemência,/ na fúria contra os tranquilos,/ na estreita clausura física,/ no desamor à verdade,/ na ausência de todo amor/ eu via, ai de mim, sentia/ que o sonho era sonho, e falso.”

No entanto, é preciso destacar que o fato de que o sonho seja irreal faz com que ele tenha “o apelo do Não”, isto é, a força das coisas que não se realizaram e, por isso, não podem ser ignoradas ou esquecidas (como o filho que não nasceu no poema “Ser” ou a flor do poema “Contemplação no banco”). Isso mostra que havia em Drummond um conflito não resolvido entre uma visão niilista e desenganada (que prevalece nos poemas) e uma visão utópica e sonhadora (que persistia, apesar de tudo).

O poema é escrito em redondilhas maiores (versos de 7 sílabas), dispostos em estrofes de tamanho variável. Os versos são, em sua maioria, brancos, mas algumas rimas aparecem ocasionalmente.

11

 
 

Cantiga de enganar

 

para um homem se formar.

O

mundo não vale o mundo,

Tampouco a respiração

meu bem,

 

de soldados e enfermos,

Eu plantei um pé-de-sono,

de meninos internados

brotaram vinte roseiras.

ou de freiras em clausura.

Se me cortei nelas todas

Não são grupos submergidos

e

se todas se tingiram

nas geleiras do entressono

de um vago sangue jorrado

e

que deixem desprender-se,

ao capricho dos espinhos,

menos que simples palavra,

não foi culpa de ninguém.

menos que folha no outono,

O mundo,

 

a

partícula sonora

 

meu bem,

que a vida contém, e a morte

não vale

 

contém, o mero registro

a pena, e a face serena

de energia concentrada.

vale a face torturada.

 

Não é nem isto nem nada.

Há muito aprendi a rir,

É

som que precede a música,

de quê, de mim? ou de nada?

sobrante dos desencontros

O

mundo, valer não vale.

e

dos encontros fortuitos,

Tal como sombra no vale,

dos malencontros e das

a

vida baixa

e

se sobe

miragens que se condensam

algum som desse declive,

ou que se dissolvem noutras

não é grito de pastor

 

absurdas figurações.

convocando seu rebanho.

O

mundo não tem sentido.

Não é flauta, não é canto

O

mundo e suas canções

de amoroso desencanto.

de timbre mais comovido

Não é suspiro de grilo,

estão calados, e a fala

voz noturna de nascentes,

que de uma para outra sala

não é mãe chamando filho,

ouvimos em certo instante

não é silvo de serpentes

é

silêncio que faz eco

esquecidas de morder

e

que volta a ser silêncio

como abstratas ao luar.

no negrume circundante.

Não é choro de criança

Silêncio: que quer dizer?

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Que diz a boca do mundo?

Meu bem, o mundo é fechado,

se não for antes vazio.

O mundo é talvez: e é só.

Talvez nem seja talvez.

O mundo não vale a pena,

mas a pena não existe.

Meu bem, façamos de conta

de sofrer e de olvidar,

de lembrar e de fruir,

do escolher nossas lembranças

e revertê-las, acaso

se lembrem demais em nós.

Façamos, meu bem, de conta

- mas a conta não existe -

que é tudo como se fosse,

ou que, se fora, não era.

Meu bem, usemos palavras.

Façamos mundos: ideias.

Deixemos o mundo aos outros,

já que o querem gastar.

Meu bem, sejamos fortíssimos

-

mas a força não existe -

e

na mais pura mentira

do mundo que se desmente,

recortemos nossa imagem,

mais ilusória que tudo,

pois haverá maior falso

que imaginar-se alguém vivo,

como se um sonho pudesse

dar-nos o gosto do sonho?

Mas o sonho não existe.

pudesse dar-nos o gosto do sonho? Mas o sonho não existe. Meu bem, assim acordados, assim

Meu bem, assim acordados,

assim lúcidos, severos,

ou assim abandonados,

deixando-nos à deriva

levar na palma do tempo

- mas o tempo não existe -,

sejamos como se fôramos

num mundo que fosse: o Mundo.

Comentário

Nos poemas pessimistas (Dissolução”, “Remissão”, “A Ingaia Ciência”, “Legado” e “Confissão”), nos poemas de reflexão existencial (“Perguntas em forma de cavalo-marinho”, “Sonetilho do Falso Fernando Pessoae “Um boi vê os homens”) e nos poemas utópicos (“Contemplação no banco” e “Sonho de um Sonho”), Drummond havia levado o seu questionamento ao extremo. Diante dessa tensão acumulada, o poema “Cantiga de Enganar” representa um ponto de descontração e ironia. O poema tem a forma de uma série de conselhos em que o poeta recomenda que não vale a pena levar os problemas do mundo a sério: “O mundo não vale o mundo”.

O poeta começa dizendo que ninguém tem culpa dos acidentes que acontecem ao longo da vida (“um vago sangue jorrado/ ao capricho dos espinhos/ não foi culpa de ninguém”); na vida, tudo tem suas compensações: uma alegria vale tanto quanto uma tristeza (“a face serena/ vale a face torturada”); os sons que vêm do mundo (sons do trabalho, do amor, da natureza, das pessoas que nascem, crescem, sofrem e morrem) não significam nada: são apenas ruídos provocados por encontros fortuitos. Na verdade, não são nem isso, pois o mundo não tem sentido e é apenas silêncio. Na verdade, nem mesmo o silêncio existe. O mundo é fechado e vazio. O mundo existe e pronto, mas talvez nem isso. O mundo é apenas um faz-de-conta. É preciso sermos fortes e tentarmos nos imaginar vivos, embora saibamos que o mundo é apenas um sonho. Mas nem mesmo o sonho existe, por isso, o que nos resta é existir exatamente como se o mundo fosse tal qual ele é. Assim, de negação em negação, o poeta acaba ironicamente aconselhando o interlocutor a viver exatamente como todos vivem: “Sejamos como se fôssemos/ num mundo que fosse: o Mundo.”

Diferentemente dos poemas anteriores, em que a linguagem era solene e erudita, no poema “Cantiga de Enganar”, a linguagem é mais simples. O tom mais descontraído pode ser visto pela maneira informal de se dirigir ao interlocutor, chamando-o de “meu bem” (palavra que aparece destacada pela disposição gráfica usada nos versos 1 e 9). O uso de redondilhas maiores (verso de 7 sílabas) sem divisão de estrofes faz com que o discurso do poeta se aproxime do tom coloquial de uma conversa com alguém próximo. Os versos iniciais (“eu plantei um pé-de-sono/ brotaram vinte roseiras) remetem às velhas cantigas infantis. O próprio nome

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“Cantiga de Enganar” é irônico e humorístico, pois o poema não é uma cantiga e

“Cantiga de Enganar” é irônico e humorístico, pois o poema não é uma cantiga e nem está enganando ninguém, pois fica claro que negar os problemas do mundo é inútil, já que temos que viver no mundo tal qual ele é.

Oficina irritada

Eu quero compor um soneto duro

como poeta algum ousara escrever.

Eu quero pintar um soneto escuro,

seco, abafado, difícil de ler.

Quero que meu soneto, no futuro,

não desperte em ninguém nenhum prazer.

E que, no seu maligno ar imaturo,

ao mesmo tempo saiba ser, não ser.

Esse meu verbo antipático e impuro

há de pungir, há de fazer sofrer,

tendão de Vênus sob o pedicuro.

Ninguém o lembrará: tiro no muro,

cão mijando no caos, enquanto Arcturo,

claro enigma, se deixa surpreender.

Comentário

Este é um dos mais famosos poemas metalinguísticos de Drummond. De maneira direta e agressiva, o poeta declara sua intenção de fazer um soneto desagradável, mas que dissesse coisas importantes de uma maneira sutil e disfarçada (“E que, no seu maligno ar imaturo/ao mesmo tempo saiba ser, não ser”). O poeta gostaria de usar sua habilidade verbal para torturar a beleza convencional (“há de fazer sofrer/ tendão de Vênus sob o pedicuro) e supõe que ninguém iria lembrar deste soneto. Aparentemente ele seria tão inútil quanto um tiro no muro ou um cão mijando no caos, mas na verdade ele conteria a revelação do “claro enigma”, representado simbolicamente pela estrela Arcturo (que é enigma por ser invisível nos céus do hemisfério sul, ao mesmo tempo que é clara por ser uma das mais brilhantes nos céus do hemisfério norte).

O título “Oficina Irritada” remete, por oposição, aos versos do

poema

as

“Profissão

de

Fé”

nos

quais

Olavo

Bilac

resume

aspirações do Parnasianismo em fazer poesias belas e perfeitas com o mesmo cuidado de um ourives:

Torce,

aprimora,

alteia,

lima

A

frase;

e,

enfim,

No

verso

de

ouro

engasta

a

rima,

Como

um

rubim.

Quero

que

a

estrofe

cristalina,

Dobrada

ao

jeito

Do

ourives,

saia

da

oficina

Sem um defeito.

Na sua oficina, Bilac gostaria de ser um ourives que torce e lima as frases; já na sua oficina irritada, Drummond gostaria de ser um pedicuro que faz sofrer o tendão de Vênus, a deusa da beleza. Todavia, ao contrário da beleza vazia da poesia parnasiana, Drummond gostaria que seu poema desagradável e difícil de ler pudesse capturar, de surpresa, o “claro enigma(veja a explicação dessa expressão na introdução deste material). Trata-se, portanto, de usar a agressividade como forma de conhecer e entender o mundo e a existência humana.

Opaco

Noite. Certo

muitos são os astros.

Mas o edifício

barra-me a vista.

Quis interpretá-lo.

Valeu? Hoje

barra-me (há luar) a vista.

Nada escrito no céu,

sei.

Mas queria vê-lo.

O edifício barra-me

a vista.

Zumbido

de besouro. Motor

arfando. O edifício barra-me

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a vista. Assim ao luar é mais humilde. Por ele é que sei do luar.

a vista.

Assim ao luar é mais humilde.

Por ele é que sei do luar.

Não, não me barra

A vista. A vista se barra

a si mesma.

Comentário

Um dos temas de Drummond é que vivemos num mundo opaco, em que não conseguimos decifrar o que está à nossa volta seja porque há obstáculos (“o edifício barra-me a vista”) seja porque a própria visão humana é limitada demais (“a vista se barra a si mesma”). Como já tinha sido dito no poema “Confissão”: “Cego é talvez quem esconde os olhos/ embaixo do catre”.

O poema é formado por cinco estrofes de tamanho irregular, com

versos livres e brancos.

Aspiração

Já não queria a maternal adoração

que afinal nos exaure, e resplandece em pânico,

tampouco o sentimento de um achado preciso

como o de Catarina Kippenberg aos pés de Rilke.

E não queria o amor, sob disfarces tontos

da mesma ninfa desolada no seu ermo

e

a constante procura de sede e não de linfa,

e

não queria também a simples rosa do sexo,

abscôndita, sem nexo, nas hospedarias do vento,

como ainda não quero a amizade geométrica

de almas que se elegeram numa seara orgulhosa,

imbricamento, talvez? de carências melancólicas.

Aspiro antes à fiel indiferença

mas pausada bastante para sustentar a vida

e, na sua indiscriminação de crueldade e diamante,

capaz de sugerir o fim sem a injustiça dos prêmios.

Comentário

O poeta descreve qual é a sua aspiração no que se refere ao amor.

Ele não quer o amor na forma de adoração: nem a adoração maternal (que vive tensa e em pânico), nem a do admirador fanático (como era a estudiosa alemã Catharina Kippenberg em relação ao poeta Rainer Maria Rilke). Também não quer o amor sob aqueles disfarces criados pela tradição literária (como a “ninfa desolada no seu ermo”) nem um amor que valorize mais a vontade de amar do que a presença da pessoa amada (“a constante procura da sede e não da linfa”). O poeta também não quer o amor apenas como desejo sexual a ser satisfeito ocasionalmente em lugares clandestinos (“abscôndita, sem nexo, nas hospedarias do

vento”), tampouco quer o amor como amizade pura entre duas almas elevadas e orgulhosas um amor que só serve para

satisfazer carências melancólicas. Para o poeta, muito melhor é a indiferença com fidelidade, que permite sustentar a vida cotidiana, que não se preocupa em distinguir o que é ruim e o que é bom na vida em comum (“na sua indiscriminação de crueldade e diamante)

e que não dá prêmios nem presentes, mas apenas propõe uma

finalidade para a vida em comum (“capaz de sugerir o fim sem a injustiça dos prêmios”). Trata-se de uma visão resignada do amor, que se dissolve na indiferença e na rotina, afastando-se de qualquer impulso romântico. Essa visão do amor é coerente com

atitude do poeta no poema “Dissolução”.

O poema tem quatro estrofes de quatro versos cada uma. Os versos são brancos e de medida variável (de 12 a 15 sílabas).

Parte 2 - Notícias Amorosas

Amar

Que pode uma criatura senão,

entre criaturas, amar?

amar e esquecer,

amar e malamar,

amar, desamar, amar?

sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,

sozinho, em rotação universal, senão

rodar também, e amar?

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amar o que o amar traz à praia, o que ele sepulta, e o que,

amar o que o amar traz à praia,

o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,

é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,

o

que é entrega ou adoração expectante,

e

amar o inóspito, o áspero,

um vaso sem flor, um chão de ferro,

e

o peito inerte, e a rua vista em sonho,

e

uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,

distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,

doação ilimitada a uma completa ingratidão,

e na concha vazia do amor a procura medrosa,

paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa

amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Comentário

Na primeira estrofe, vemos que o amor, com todos os seus percalços (esquecimento, amor infeliz e desamor) é um impulso inevitável em todos seres humanos, mesmo no momento da morte (“até de olhos vidrados”). Na segunda estrofe, o poeta declara que quem ama faz parte do movimento universal de todas as coisas (a “rotação universal”) e, por isso, é levado a amar o que vem com o movimento do mundo (amar o que o mar traz à praia,/ o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,/ é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia”). Na terceira estrofe, vemos que é preciso amar (com adoração ou entrega total de si mesmo) tudo o que é áspero, duro e inóspito. Como afirma o poeta na quarta estrofe, o destino do ser humano é amar até aquilo que é inútil ou faz mal e, ainda assim, procurar mais amor. Na estrofe final, o poeta radicaliza a sua visão e conclui que é preciso amar até a falta de amor, amar tudo que não se realizou (“a água implícita, e o beijo tácito”) e amar a sede infinita de amar.

Observa-se que o poeta não renuncia à visão desiludida que prevalece desde o começo do livro. O amor não é promessa de felicidade, não é um ato de liberdade, não nos eleva espiritualmente, não nos torna melhores. O amor faz parte da desordem do mundo e não se pode escapar dele. Por isso, existe

uma diferença importante entre o que o poeta gostaria de alcançar (a “fiel indiferença” de que ele fala no poema “Aspiração”) e aquilo que realmente acontece (amar e procurar mais amor).

O poema é escrito em versos livres e brancos.

Entre o ser e as coisas

Onda e amor, onde amor, ando indagando

ao largo vento e à rocha imperativa,

e a tudo me arremesso, nesse quando

amanhece frescor de coisa viva.

As almas, não, as almas vão pairando,

e, esquecendo a lição que já se esquiva,

tornam amor humor, e vago e brando

o que é de natureza corrosiva.

N'água e na pedra amor deixa gravados

seus hieróglifos e mensagens, suas

verdades mais secretas e mais nuas.

E nem os elementos encantados

sabem do amor que os punge e que é, pungindo,

uma fogueira a arder no dia findo.

Comentário

Neste poema, o eu-lírico busca o amor e deseja se arremessar nele para sentir o frescor da vida no momento em que amanhece. Diferentemente das almas, que vão se distanciando de tudo e que veem no amor apenas um sentimento suave e engraçado (“tornam o amor humor, e vago e brando/ o que é de natureza corrosiva”), o eu-lírico sabe que o amor é forte e corrosivo, ele sabe que o amor é capaz de imprimir a sua marca até mesmo na água e nas pedras e que os elementos da natureza, assim encantados e dominados, nem sabem que é o amor que fez isso com eles.

Drummond era leitor frequente de Camões e, neste soneto, aproxima-se de vários aspectos do poeta português: a atitude de questionamento e reflexão do eu-lírico (“onde amor, ando indagando”); a ideia de que o amor é uma força que nos domina e nos arremessa para todos os lados, como as ondas do mar; a ideia de que as almas vivem num contentamento brando e não são mais

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atingidas pelas dores do amor; a ideia de que o amor deixa marcas profundas no

atingidas pelas dores do amor; a ideia de que o amor deixa marcas profundas no ser e nas coisas; a ideia de que o amor é uma fogo que arde (retomada no último verso). O próprio fato de ter usado o soneto italiano tradicional para falar do amor é uma homenagem a Camões.

O que é diferente neste poema de Drummond é a sensação de

renovação da vida associada ao começo de sua paixão por Lygia Fernandes, com quem manteve um caso que iria durar trinta anos. Num momento em que o poeta achava que sua vida sentimental estava encerrada e que só lhe restava a “indiferença fiel(conforme disse no poema “Aspiração”), o amor vem como “uma fogueira a

arder no dia findo”.

Tarde de maio

Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos,

assim te levo comigo, tarde de maio,

quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,

outra chama, não-perceptível, e tão mais devastadora,

surdamente lavrava sob meus traços cômicos,

e

uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes

e

condenadas, no solo ardente, porções de minh'alma

nunca antes nem nunca mais aferidas em sua nobreza sem fruto.

Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,

colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.

Eu nada te peço a ti, tarde de maio,

senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,

sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de

converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém

que, precisamente, volve o rosto, e passa

Outono é a estação em que ocorrem tais crises,

e em maio, tantas vezes, morremos.

Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,

já então espectrais sob o aveludado da casca,

trazendo na sombra a aderência das resinas fúnebres

com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro

fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,

sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.

E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito

lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.

Nem houve testemunha.

Não há nunca testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos.

Quem reconhece o drama, quando se precipita sem máscaras?

Se morro de amor, todos o ignoram

e

negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.

O

próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;

não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória

das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta,

perdida no ar, por que melhor se conserve,

uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.

Comentário

“Tarde de Maio” é um dos mais importantes poemas de Drummond

a respeito do amor. Trata-se de um poema elegíaco, isto é, um

poema de tristeza e lamentação. O poeta fala de uma certa tarde de maio da qual ele não quer se esquecer e que levará sempre na memória, assim como os primitivos que tem a tradição de carregar consigo a mandíbula dos seus mortos para lhes dar boa sorte. Esta referência aos mortos e à necessidade de carregar o que restou deles está associada à ideia de que não se deve esquecer as coisas que já se foram ou não se realizaram (elas têm o “apelo do

Não”, como diz o poema “Memória”).

Essa tarde de maio foi o momento em que ele sentiu arder

novamente a chama do amor dentro de si, alcançando porções de sua alma que nunca tinham sido atingidas antes, mas o poeta sabe que esse sentimento chegou tarde. Assim, tudo o que o poeta deseja é que a lembrança dessa tarde de maio dure para sempre, como prova de que a derrota (a vida madura e o envelhecimento) pode se converter em beleza (na figura de uma jovem que passa).

O poeta sabe que essas crises amorosas são comuns no outono (a

maturidade) e muitas vezes são o último sinal de vida em quem envelhece (“e em maio, tantas vezes, morremos”). Ele sabe também que a renovação produzida pelo amor pode ser apenas uma ilusão (uma “fictícia primavera”) na vida de alguém que se aproxima da morte. Se alguém encontrasse nas ruas um indivíduo

envelhecido mas apaixonado, não saberia se ele vai para o

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cemitério ou se vai para o carnava l (“ se era um préstito lutuoso, arrastado,

cemitério ou se vai para o carnaval (“se era um préstito lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco”).

No entanto, ninguém reconhece o drama de alguém que volta a amar no momento de envelhecer (“Se morro de amor, todos o

ignoram/ e negam”). Nessas situações, o próprio amor se maltrata e

se esconde, com um bicho caçado. Nem mesmo tem certeza se é

amor pois a memória já está gasta. Tudo o que resta é a tristeza, que ajuda a conservar a lembrança desse amor, transformando-o em como algo definitivo no meio das coisas efêmeras que passam

(“a imprimir seu selo nas nuvens”).

A tarde de maio é uma metonímia que representa todas as

experiências amorosas que ocorrem ao entardecer, no outono da vida, isto é, no momento em que se aproxima o declínio e a morte. Acostumado com a desilusão e a resignação que a maturidade lhe trouxe, o poeta sabe que esses os amores no outono da vida

muitas vezes são a última despedida antes da morte, ele sabe que

a renovação da vida pode ser apenas uma ilusão e que um velho

apaixonado pode ser um tanto ridículo aos olhos dos outros (não se

sabe se ele vai para o cemitério ou para o carnaval). Por isso, tudo

o que o poeta pede é a chance de nunca se esquecer da sensação de vida que aquela tarde de maio trouxe para ele. Ela deve permanecer na memória, mesmo que seja com tristeza por algo que já passou.

O poema é composto de quatro estrofes em versos livres. Como se

trata de versos longos e sem rima, o poema tem um tom de discurso dirigido à tarde de maio, a quem o poeta se refere na segunda pessoa (“te levo comigo, tarde de maio”; “eu nada te peço a ti, tarde de maio”). No entanto, como esse interlocutor abstrato é

apenas um pretexto para o poeta fazer reflexões sobre o significado

do amor na maturidade.

Fraga e sombra

A sombra azul da tarde nos confrange.

Baixa, severa, a luz crepuscular.

Um sino toca, e não saber quem tange

é como se este som nascesse do ar.

Música breve, noite longa. O alfanje

que sono e sonho ceifa devagar

mal se desenha, fino, ante a falange

das nuvens esquecidas de passar.

Os dois apenas, entre céu e terra,

sentimos o espetáculo do mundo,

feito de mar ausente e abstrata serra.

E calcamos em nós, sob o profundo

instinto de existir, outra mais pura

vontade de anular a criatura.

Comentário

Esse poema volta ao tom sombrio da primeira parte de Claro Enigma. O soneto pode ser dividido em duas partes: os quartetos descrevem o momento do fim da tarde (a luz crepuscular, o sino que toca, a hora do sono e do sonho que se aproxima), enquanto os tercetos descrevem a situação do casal que contempla o anoitecer, enquanto os dois reprimem dentro de si mesmos o

desejo de morte (“vontade de anular a criatura”). A palavra “fraga” que aparece no título significa rochedo ou penhasco. O título sugere, assim, uma situação extrema: junto a um penhasco (isto é,

à beira de um abismo) duas pessoas contemplam uma sombra que

os oprime (“A sombra azul da tarde nos confrange”). Esta sombra que vem com o anoitecer (momento em que tudo se dissolve na escuridão) é a sombra da morte. O fato de que este soneto esteja inserido na parte do livro dedicada ao amor mostra que, para Drummond, até a ausência de comunicação e de amor é um dos componentes da vida amorosa, como foi dito no poema “Amar”:

Amar a nossa falta mesma de amor”.

Os elementos que compõem o cenário crepuscular (o anoitecer, a sombra que baixa, o sino que toca) aparecem sozinhos ou juntos em vários poemas de Claro Enigma, como “Dissolução”, “Cantiga de Enganar”, “A Máquina do Mundo” e “Relógio do Rosário”.

Canção para álbum de moça

Bom dia: eu dizia a moça

que de longe sorria.

Bom dia: mas da distância

ela nem respondia.

Em vão a fala dos olhos

e dos braços repetia

bom-dia à moça que estava,

de noite como de dia,

bem longe do meu poder

e de meu pobre bom-dia.

Bom-dia sempre: se acaso

a resposta vier fria

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ou tarde vier, contudo

esperarei o bom-dia.

E sobre casas compactas,

sobre o vale e a serrania,

irei repetindo manso

a

qualquer hora: bom dia.

O

tempo é talvez ingrato

e

funda a melancolia

para que justifique

o meu absurdo bom-dia.

Nem a moça põe reparo,

não sente, não desconfia

o que há de carinho preso

no cerne deste bom-dia.

Bom dia: repito à tarde,

à

meia-noite: bom dia.

E

de madrugada vou

pintando a cor do meu dia,

que a moça possa encontrá-lo

azul e rosa: bom dia.

Bom dia: apenas um eco

na mata (mas quem diria)

decifra minha mensagem,

deseja bom o meu dia.

A moça, sorrindo ao longe,

não sente, alegria,

o que há de rude também

no clarão deste bom-dia.

De triste, túrbido, inquieto,

noite que se denúncia

e vai errante, sem fogos,

na mais louca nostalgia.

denúncia e vai errante, sem fogos, na mais louca nostalgia. Ah, se um dia respondesses ao

Ah, se um dia respondesses

ao meu bom-dia: bom dia!

Como a noite se mudara

no mais cristalino dia!

Comentário

Depois de uma série de poemas de grande densidade emocional e existencial, a “Canção para álbum de Moça” é um momento de descontração e leveza. O poeta se encantou com uma moça bonita e costumava lhe dizer “bom dia”, mas a moça não lhe respondia nem percebia o quanto havia de carinho naquela saudação. Apesar da ausência de resposta, o poeta insistia em desejar “bom dia”, mesmo à tarde ou à noite, e já de madrugada ele preparava um bom dia para a moça. A moça, no entanto, não compreendia quanta tristeza e inquietação de envelhecimento (“noite que se anuncia”) estavam contidas na insistência com que o poeta lhe dava “bom dia”. Se um dia, ela lhe respondesse, a noite em que ele vivia se tornaria realmente um dia claro.

Este poema sobre o desencontro amoroso é escrito em redondilhas maiores (7 sílabas). A insistência do poeta é reforçada pela repetição da saudação “bom dia” e pela rima (-ia), que se repete em todos os versos pares, como se fosse um eco da saudação. A linguagem é simples e leve. O título é uma referência aos antigos “álbuns de moça”, que eram cadernos ricamente decorados onde os admiradores deixavam mensagens em versos cortejando a dona do álbum. Assim como no caso da “Cantiga de Enganar”, o título “Canção para álbum de moça” é irônico porque não se trata de uma canção e tampouco o poeta tem proximidade suficiente para escrever algo no álbum da moça referida.

Rapto

Se uma águia fende os ares e arrebata

esse que é forma pura e que é suspiro

de terrenas delícias combinadas;

e se essa forma pura, degradando-se,

mais perfeita se eleva, pois atinge

a tortura do embate, no arremate

de uma exaustão suavíssima, tributo

com que se paga o voo mais cortante;

se, por amor de uma ave, ei-la recusa

o

pasto natural aberto aos homens,

e

pela via hermética e defesa

vai demandando o cândido alimento

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que a alma faminta implora até o extremo; se esses raptos terríveis se repetem já

que a alma faminta implora até o extremo;

se esses raptos terríveis se repetem

já nos campos e já pelas noturnas

portas de pérola dúbia das boates;

e se há no beijo estéril um soluço

esquivo e refolhado, cinza em núpcias,

e tudo é triste sob o céu flamante

(que o pecado cristão, ora jungido

ao mistério pagão, mais o alanceia),

baixemos nossos olhos ao desígnio

da natureza ambígua e reticente:

ela tece, dobrando-lhe o amargor,

outra forma de amar no acerbo amor.

Comentário

“Rapto” trata do amor homossexual. O poema parte de um mito grego: Zeus se apaixonou pelo jovem Ganimedes e, para levá-lo ao Olimpo, assumiu a forma de uma águia e raptou o rapaz. De acordo com o poema de Drummond, se uma águia arrebata um jovem (metáfora da iniciação ao amor homossexual), esse jovem se eleva aos céus pelo prazer que alcança (“arremate de uma exaustão suavíssima”), mas também se degrada. A partir desse momento, esse jovem passa a recusar o amor heterossexual (“o pasto natural aberto aos homens”) e busca um caminho proibido para satisfazer o seu amor (“pela via hermética e defesa/ vai demandando o cândido alimento/ que a alma faminta implora até o extremo”). Se as relações homossexuais se repetem em lugares clandestinos e em boates, aumentando o sentimento de culpa (atiçado pela consciência cristã do pecado associado ao paganismo da prática homossexual), é melhor as pessoas reconhecerem que se trata apenas de outra forma de amar.

Apesar dos preconceitos da época e da sua própria formação, Drummond demonstra tolerância com a homossexualidade.

Percebe-se, todavia, que o assunto era incômodo para o autor, que

o aborda através de um mito grego e de uma linguagem alusiva, à

base de eufemismos cultos. A sugestão do poeta (“baixemos nossos olhos”) indica pudor e resignação diante do amor homossexual, mas também sentimento de vergonha diante da homossexualidade, que seria resultado da “natureza ambígua e reticente”. Drummond não voltaria a escrever sobre o tema e, muitos anos mais tarde, chegou a dizer que os homossexuais eram pessoas doentes que precisavam de tratamento médico. No

entanto, o poema “Rapto” nunca foi retirado do livro.

Campo de flores

Deus me deu um amor no tempo de madureza,

quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.

Deus - ou foi talvez o Diabo- deu-me este amor maduro,

e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos

e outros acrescento aos que amor já criou.

Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso

e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.

Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia

e cansado de mim julgava que era o mundo

um vácuo atormentado, um sistema de erros.

Amanhecem de novo as antigas manhãs

que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.

Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra

imensa e contraída como letra no muro

e só hoje presente.

Deus me deu um amor porque o mereci.

De tantos que já tive ou tiveram em mim,

o sumo se espremeu para fazer vinho

ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.

E o tempo que levou uma rosa indecisa

a tirar sua cor dessas chamas extintas

era o tempo mais justo. Era tempo de terra.

Onde não há jardim, as flores nascem de um

secreto investimento em formas improváveis.

Hoje tenho um amor e me faço espaçoso

para arrecadar as alfaias de muitos

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amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes, e ao vê-los amorosos e transidos em torno, o

amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes,

e

ao vê-los amorosos e transidos em torno,

o

sagrado terror converto em jubilação.

Seu grão de angústia amor já me oferece

na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia

os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura

e o mistério que além faz os seres preciosos

à visão extasiada.

Mas, porque me tocou um amor crepuscular,

há que amar diferente. De uma grave paciência

ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia

tenha dilacerado a melhor doação.

Há que amar e calar.

Para fora do tempo arrasto meus despojos

e estou vivo na luz que baixa e me confunde.

Comentário

Drummond volta ao tema do amor que vem na idade madura. Sua postura se mantém hesitante e cautelosa: ela agradece por ter um amor, mas não sabe se foi um presente de Deus ou do Diabo. Com esse amor, o poeta volta às suas crenças antigas (“aos mitos pretéritos). Ele sente novamente o que sentia no passado, mas não perdeu a lucidez da maturidade. Ele permanece numa área de indecisão, dividido entre ser ou não ser, mas desejoso de ser e sentir tudo o que sentia antes (“e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou”). O poeta julgava que o mundo era vazio, sofrido e absurdo, mas agora ele vê novas manhãs, isto é, possibilidades que ele nunca tinha vivido nem imaginado. Essas manhãs cheias de esperança estão associadas à imagem da amada (a quem ele se refere em segunda pessoa: “atrás de tua sombra”). Essa imagem sempre esteve lá, mas só agora se fazia evidente, como uma mensagem que estava escrita num muro, mas não tinha sido lida ainda (“imensa e contraída como letra no muro/ e só hoje presente”). Esse amor foi merecido: é como se todos os amores anteriores tivessem se coagulado numa forma nova e depurada. Esse amor veio no tempo certo: exatamente o tempo que leva para brotar uma rosa num terreno árido, pois quando não há um local apropriado, as flores aparecem de maneira imprevisível (“Onde não há jardim, as flores nascem de um/ secreto investimento em formas improváveis”).

Agora que tem o seu amor, o poeta junta toda a riqueza de ternura

de que os amantes dispõem e transforma o medo que sente (o poeta era casado e estava envelhecendo) em alegria (“o sagrado terror converto em jubilação”).

O amor que sente é ambíguo: traz angústia, mas também oferece

carinho. Como esse amor chegou no momento da maturidade, é preciso amar de um jeito diferente de antes. É preciso dedicar-se com seriedade e paciência (“de uma grave paciência/ ladrilhar minhas mãos”). É preciso torcer para que a doação de ternura não tenha sido estragada pelos anos de ironia. É preciso saber manter segredo (“Há que amar e calar”). O poeta sente que conseguiu escapar do fluxo inexorável do tempo. Ele sabe que está vivo e que está na luz, embora a luz esteja declinando, situação que o deixa hesitante: “Para fora do tempo arrasto meus despojos/ e estou vivo

na luz que baixa e me confunde”.

O título “Campo de Flores”, assim como a imagem da rosa na quinta estrofe, remetem à situação de renovação e esperança. Em “Contemplação no banco”, o poeta falava da esperança de que uma flor pudesse brotar no chão tão pisado. Em “Campo de Flores”, para surpresa do poeta, a flor brotou na sua vida na forma de um amor em tempo de maturidade.

O poema tem 8 estrofes irregulares e versos livres. O fato de os

versos serem longos e sem rima confere ao poema um tom de discurso, que o poeta dirige à amada (referida na quarta estrofe).

Parte 3 - O Menino e os Homens

A um varão, que acaba de nascer

Chegas, e um mundo vai-se

como animal ferido,

arqueja. Nem aponta

um forma sensível,

pois já sabemos todos

que custa a modelar-se

uma raiz, um broto.

E contudo vens tarde.

Todos vêm tarde. A terra

anda morrendo sempre,

e a vida, se persiste,

passa descompassada,

e nosso andar é lento,

curto nosso respiro,

21

 
 

e

logo repousamos

mais que o veleiro impróprio,

e

renascemos logo.

certa cumplicidade

(Renascemos? talvez)

entre nosso corpo e água.

Crepita uma fogueira

Os metais, as madeiras

que não aquece. Longe.

se deixam malear,

Todos vêm cedo, todos

de pena, dóceis. Nada

chegam fora do tempo,

é

tão rude bastante

antes, depois. Durante,

que nunca se apiede

quais os que aportam? Quem

e

se furte a viver

respirou o momento,

em nossa companhia.

vislumbrando a paisagem

Este é de resto o mal

de coração presente?

superior a todos:

Quem amou e viveu?

a

todos como a tudo

Quem sofreu de verdade?

estamos presos. E

Como saber que foi

se tentas arrancar

nossa aventura, e não

o espinho de teu flanco,

outra, que nos legaram?

a dor em ti rebate

No escuro prosseguimos.

a do espinho arrancado.

Num vale de onde a luz

Nosso amor se mutila

se exilou, e no entanto

a

cada instante. A cada

basta cerrar os olhos

instante agonizamos

para que nele trema,

ou agoniza alguém

remoto e matinal,

sob o carinho nosso

o

crepúsculo. Sombra!

Ah, libertar-se, lá

Sombra e riso, que importa?

onde as almas se espelhem

Estendem os mais sábios

na mesma frigidez

a

mão, e no ar ignoto

de seu retrato, plenas!

o

roteiro decifram,

É

sonho, sonho. Ilhados,

e

é às vezes um eco,

pendentes, circunstantes,

outras, a caça esquiva,

na fome e na procura

que desafia, e salva-se.

de um eu imaginário

E

a corrente, atravessa-a,

e

que, sendo outro, aplaque

22

todo este ser em ser, adoramos aquilo que é nossa perda. E morte e evasão

todo este ser em ser,

adoramos aquilo

que é nossa perda. E morte

e

evasão e vigília

e

negação do ser

com dissolver-se em outro

transmutam-se em moeda

e resgate do eterno.

Para amar sem motivo

e motivar o amor

na sua desrazão,

Pedro, vieste ao mundo.

Chamo-te meu irmão.

Comentário

resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, num momento de simpatia” (capítulo LXXV).

Em ambos os casos, já se anuncia ao recém-nascido o fardo de sofrimentos que ele vai ter que passar ao longo da vida.

O Chamado

Na rua escura o velho poeta

(lume de minha mocidade)

já não criava, simples criatura

exposta aos ventos da cidade.

Ao vê-lo curvo e desgarrado

na caótica noite urbana,

o que senti, não alegria,

era, talvez, carência humana.

E pergunto ao poeta, pergunto-lhe

(numa esperança que não digo)

para onde vai a que angra serena,

a que Pasárgada, a que abrigo?

A palavra oscila no espaço

um momento. Eis que, sibilino,

entre as aparências sem rumo,

responde o poeta: Ao meu destino.

E

foi-se para onde a intuição,

o

amor, o risco desejado

o

chamavam, sem que ninguém

pressentisse, em torno, o Chamado.

Comentário

Este poema é uma homenagem ao poeta modernista Manuel Bandeira, autor de “Vou-me embora pra Pasárgada”, um dos poemas mais famosos da literatura brasileira.

Neste poema dedicado a um recém-nascido, Drummond descreve

o que é viver neste mundo: o mundo está sempre em crise e a vida

prossegue aos trancos (“A terra~/ anda morrendo sempre/ e a vida,

se persiste/ passa descompassada”); nunca chegamos ao mundo

na hora certa (“todos chegam fora de tempo”); passamos a vida na

escuridão (“No escuro prosseguimos/ num vale de onde a luz/ se exilou”); os sábios tentam entender o mundo, mas não conseguem (“Estendem os mais sábios/ a mão, e no ar ignoto/ o roteiro

decifram/ e é às vezes um eco/ outras vezes, a caça esquiva/ que desafia, e salva-se”); estamos presos e ligados a tudo o que existe

à nossa volta (“Este é de resto o mal/ superior a todos:/ a todos

como a tudo/ estamos presos)/ querer libertar-se para atingir a

plenitude e a elevação das almas é sonho; adoramos aquilo que nos faz mal e causa nossa perda; acreditamos que a morte, a negação de nós mesmos, a evasão da realidade podem nos ajudar

a conquistar a salvação e a vida eterna (“transmutam-se em

moeda/ e resgate do eterno”). Enfim, é para amar e ser amado, na

falta de sentido própria do amor, é que o recém-nascido veio ao mundo. A partir de agora, ele passa a ser mais um companheiro nesta jornada pela vida. Ele passa a ser mais um irmão.

O poema é escrito em versos hexassílabos (6 sílabas) e é dirigido

em segunda pessoa a recém-nascido chamado Pedro. O poema, especialmente em seus versos finais (“Para amar sem motivo/ e motivar o amor/ na sua desrazão/ Pedro, vieste ao mundo’), pode ser comparados com o trecho famoso de Memórias Póstumas de Brás Cubas, em que o narrador imagina D. Plácida recém-nascida, perguntando aos seus pais porque ela veio ao mundo. Os pais dela responderiam: “Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã

23

No poema, há um contraste entre a figura solitária e frágil do velho poeta e

No poema, há um contraste entre a figura solitária e frágil do velho poeta e a firmeza com que ele declara que vai para seu destino, sem explicar que destino era esse. O poema mostra que, mesmo

na velhice, Bandeira deixava-se levar “para onde a intuição/ o amor,

o risco desejado/ o chamavam”. Esse Chamado (com inicial maiúscula para destacar sua importância) só podia ser ouvido por

Manuel Bandeira e mais ninguém.

É importante observar que, na segunda estrofe, ao encontrar o

velho Bandeira caminhando sozinho à noite, é Drummond quem sente carência. É ele quem tem a esperança secreta de que Bandeira estivesse indo para Pasárgada. Em outras palavras, é Drummond quem precisava de ajuda e consolação. Assim, há uma diferença muito grande entre Drummond, que começava a envelhecer cheio de hesitações e sem saber que rumo tomar, e o velho Manuel Bandeira, que seguia firmemente para seu destino,

ouvindo o Chamado, prova de sua autêntica vocação de poeta.

O poema tem cinco estrofes de quatro versos, com rimas nos

versos pares. Os versos têm 8 sílabas.

Quintana's bar

Num bar fechado há muitos, muitos anos, e cujas portas de aço bruscamente se descerram, encontro, quem eu nunca vira, o poeta Mario Quintana.

Tão simples reconhecê-lo, toda identificação é vã. Em algum lugar - coxilha? montanha? vai rorejando a manhã.

Na total desincorporação das coisas antigas, perdura um elemento

mágico: estrela-do-mar - ou Aldebarã?, tamanquinhos, menina

correndo com o arco. E corre com pés de lã.

Falando em voz baixa nos entendemos, eu de olhos cúmplices, ele com seu talismã. Assim me fascinavam outrora as feitiçarias da preta, na cozinha de picumã.

Na conspiração da madrugada, erra solitário - dissolve-se o bar - o

poeta Quintana. Seu olhar devassa o nevoeiro, cada vez mais

densa é a bruma de antanho.

Uma teia tecendo, e sem trabalho de aranha. Falo de amigos que envelheceram ou que sumiram na semente de avelã.

Agora voamos sobre os tetos, à garupa da bruxa estranha. Para iludirmos a fome que não temos pintamos uma romã.

E já os homens sem província, despetala-se a flor aldeã. O poeta aponta-me casas, a de Rimbaud, a de Blake e a gruta camoniana.

As amadas do poeta, lá embaixo, na curva do rio, ordenham-se em

lenta pavana, e uma a uma, gotas ácidas, desaparecem no poema.

É há tantos anos, será ontem, foi amanhã? Signos criptográficos ficam gravados no céu eterno ou na mesa de um bar abolido, enquanto debruçado sobre o mármore, silenciosamente viaja o poeta Mario Quintana.

Comentário

Drummond (mineiro que vivia no Rio de Janeiro) imagina um encontro com o poeta modernista Mário Quintana (que morava em Porto Alegre). Esse encontro seria pleno de elementos inusitados, díspares e inverossímeis. Por exemplo: os dois poetas voariam sobre os tetos, na garupa de uma bruxa; depois pintariam uma romã para matar a fome imaginária. Mário Quintana mostraria a Drummond a casa dos seus poetas favorito: Arthur Rimbaud, William Blake e Camões. As situações mais incongruentes e espantosas ocorreriam, fora do tempo e do espaço, enquanto junto

à mesa do bar, o poeta Mário Quintana viajaria na sua imaginação.

Em sua homenagem ao colega, Drummond procura resgatar aspectos característicos da poesia de Mário Quintana, como a influência surrealista (evidente nos elementos inusitados e na imaginação imprevisível) e o amor de Quintana por poetas visionários como Rimbaud e William Blake. Além disso, a própria forma adotada por Drummond o poema em prosa ou prosa poética -, é uma forma da qual Mário Quintana foi um grande expoente.

Aniversário

Os cinco anos de tua morte

esculpiram já uma criança.

Moldada em éter, de tal sorte,

ela é fulva e no dia avança.

Este menino malasártico,

Macunaíma de novo porte.

escreve cartas no ar fantástico

para compensar tua morte.

Com todos os dentes, feliz,

lá de um mundo sem sul nem norte,

de teu inesgotável país,

ris. Alegria ou puro esporte?

Ris, irmão, assim cristalino

(Mozart aberto em pianoforte)

o redondo, claro, apolíneo

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riso de quem conhece a morte. Não adianta, vê, te prantearmos Tudo sabes, sem que

riso de quem conhece a morte.

Não adianta, vê, te prantearmos

Tudo sabes, sem que isso importe

em cinismo, pena, sarcasmo.

E, deserto, ficas mais forte.

Giras na Ursa Maior, acaso,

solitário, em meio à coorte,

sem, nas pupilas, flor ou vaso,

Mas o jardim é teu, da morte.

Se de nosso nada possuímos,

salvo o apaixonado transporte

- vida é paixão -, contigo rimos,

expectantes, em frente à Porta!

Comentário

A igreja era grande e pobre. Os altares, humildes.

Havia poucas flores. Eram flores de horta.

Sob a luz fraca, na sombra esculpida

(quais as imagens e quais os fiéis?)

ficávamos.

Do padre cansado o murmúrio de reza

subia às tábuas do forro,

batia no púlpito seco,

entranhava-se na onda, minúscula e forte, de incenso,

perdia-se.

Não, não se perdia

Desatava-se do coro a música deliciosa

(que esperas ouvir à hora da morte, ou depois da morte, nas campinas do ar)

e dessa música surgiam meninas a alvura mesma

cantando.

De seu peso terrestre a nave libertada,

como do tempo atroz imunes nossas almas,

flutuávamos

no canto matinal, sobre a treva do vale.

Comentário

Numa igreja grande, embora sem atrativos, o poeta percebe que a redenção não vem das imagens de santos, nem das palavras cansadas murmuradas pelo padre, mas sim da música que começou a tocar. Essa música, imagem da claridade e da delicadeza, libertava as coisas de seu peso, tirava as pessoas do fluxo do tempo e da escuridão da vida.

O título do poema pode ser entendido como referência à cidade de

Mariana (cuja igreja matriz tem um órgão famoso), mas também se refere ao culto mariano (isto é, ao culto à Virgem Maria), bastante

comum em todo Brasil. Dois importantes poetas mineiros estavam ligados a Mariana: o poeta árcade Claúdio Manuel da Costa, que nasceu lá, e o poeta simbolista Alphonsus de Guimaraens, que morou perto da igreja matriz e que, como simbolista, valoriza a musicalidade.

O poema lembra o quinto aniversário da morte do escritor

modernista Mário de Andrade, autor de Macunaíma. Mário de

Andrade e Carlos Drummond foram amigos por cerca de vinte anos

e mantiveram uma intensa troca de cartas sobre a vida e a

literatura. O poeta imagina que, depois da morte do amigo, um

menino travesso (“malasártico”) como um novo Macunaíma, passou

a escrever cartas para compensar a morte do escritor. O poeta

imagina também que no imenso país em que Mário de Andrade morava agora (o Céu), ele ria o riso claro que costumava rir, de maneira que não havia sentido em chorar a sua morte. Assim como aconteceu com o personagem Macunaíma quando partiu deste mundo, Mário de Andrade passou a fazer parte da constelação da Ursa Maior, morando sozinho entre a multidão de estrelas. Aos que ficaram na terra, resta rir com o riso do Mário e esperar a vez junto

à Porta do céu.

O poema é formado por sete estrofes de quatro versos cada, com

rimas alternadas. Os versos têm 8 sílabas (medida rara que Drummond usou também no poema “O Chamado”, que presta

homenagem a Manuel Bandeira).

Parte 4 - Selo de Minas

Evocação Mariana

25

 
 

Estampas de Vila Rica

 

I - Carmo

Mas entro e, Senhor, me perco

Não calques o jardim

na rósea nave triunfal.

nem assustes o pássaro.

Por que tanto baixar o céu?

Um e outro pertencem

Por que esta nova cilada?

aos mortos do Carmo.

Senhor, os púlpitos mudos

Não bebas nesta fonte

entretanto me sorriem.

nem toques nos altares.

Mais que vossa igreja, esta

Todas estas são prendas

sabe a voz de me embalar.

dos mortos do Carmo.

Perdão, Senhor, por não amar-vos.

Quer nos azulejos

ou no ouro da talha,

III

- MERCÊS DE CIMA

olha: o que está vivo

Pequena prostituta em frente a Mercês de Cima.

são mortos do Carmo.

Dádiva de corpo na tarde cristã.

Anjos saídos da portada

II - SÃO FRANCISCO DE ASSIS

e

nenhum Aleijadinho para recolhê-los.

Senhor, não mereço isto.

 

Não creio em vós para vos amar.

IV

- Hotel Toffolo

Trouxestes-me a São Francisco

E

vieram dizer-nos que não havia jantar.

e me fazeis vosso escravo.

Como se não houvesse outras fomes

e

outros alimentos.

Não entrarei, Senhor, no templo,

 

seu frontispício me basta.

Como se a cidade não servisse seu pão

Vossas flores e querubins

de nuvens.

são matéria de muito amar.

Não, hoteleiro, nosso repasto é interior

Dai-me, Senhor, a só beleza

e

só pretendemos a mesa.

destes ornatos. E não a alma.

Comeríamos a mesa, se no-lo ordenassem as Escrituras.

Pressente-se dor de homem,

Tudo se come, tudo se comunica,

paralela à das cinco chagas.

tudo, no coração, é ceia.

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perdão por não ser religioso. O poema, escrito em redondilhas maiores (versos de 7 sílabas),

perdão por não ser religioso. O poema, escrito em redondilhas maiores (versos de 7 sílabas), tem um tom solene, marcado pelo uso da segunda pessoa do plural e pelas apóstrofes dirigidas ao “Senhor”, imitando as preces. Assim como acontece no poema “Invocação Mariana”, o sentimento de plenitude não vem da religião, mas da arte.

“Mercês de Cima” é um curto poema em versos livres, que procura capturar a ironia triste da situação (uma jovem prostituta como um anjo caído em frente à Igreja). A forma do poema e a sua capacidade de observação irônica é semelhante às poesias do modernista Oswald de Andrade, que também se encantou com a beleza de Ouro Preto.

“Hotel Toffolo” também tem a marca da observação irônica e bem- humorada de Oswald de Andrade. Apesar de não haver jantar no hotel, a beleza da cidade era alimento suficiente para a fome do poeta.

“Museu da Inconfidência” aborda um tema recorrente em Drummond: o que resta daquilo que passou. Quase tudo o que os inconfidentes viveram e sofreram desapareceu. O tempo é governado pelo esquecimento (“macia flor do olvido”). O que restou é apenas a história de remorso pelo infortúnio e fracasso dos inconfidentes. É esse remorso que é guardado no Museu da Inconfidência.

Morte das casas de Ouro Preto

Sobre o tempo, sobre a taipa,

a chuva escorre. As paredes

que viram morrer os homens,

que viram fugir o ouro,

que viram finar-se o reino,

que viram, reviram, viram,

já não veem. Também morrem.

Assim plantadas no outeiro,

menos rudes que orgulhosas

na sua pobreza branca,

azul e rosa e zarcão,

ai, pareciam eternas!

Não eram. E cai a chuva

sobre rótula e portão.

V - Museu da Inconfidência

São palavras no chão

e memória nos autos.

As casas inda restam,

os amores, mais não.

E restam poucas roupas,

sobrepeliz de pároco,

a vara de um juiz,

anjos, púrpuras, ecos.

Macia flor de olvido,

sem aroma governas

o tempo ingovernável.

Muros pranteiam. Só.

Toda história é remorso.

Comentário

Os cincos poemas da série “Estampas de Vila Rica” funcionam como cartões-postais que registram cenas e lugares da cidade de Ouro Preto: a Igreja do Carmo (com seu cemitério), a Igreja de São Francisco (considerada uma das mais belas igrejas barrocas do Brasil), a Igreja das Mercês de Cima (em frente da qual havia um ponto de prostituição), o Hotel Toffolo (tido como o melhor da cidade na época) e o Museu da Inconfidência (onde são guardados os autos do processo contra os Inconfidentes e seus objetos pessoais).

“Carmo” aborda um tema importante para Drummond: a persistência daquilo que morreu, daquilo que se foi. “O que está vivo/ são os mortos do Carmo. Escrito em redondilha menor (versos de 5 sílabas), o poeta retoma os avisos colocados na igreja e no cemitério: “Não pise no jardim”, “Não toques nos altares”, “Não beba água desta fonte”. A expressão “os mortos do Carmo”, repetida no final das estrofes funciona como refrão do poema e enfatiza a persistência dos mortos, numa cidade histórica como Ouro Preto.

“São Francisco” é uma conversa do poeta com Deus. O poeta reconhece que não é digno da beleza da Igreja de São Francisco de Assis, obra-prima do Aleijadinho. No final, encantado com tanta beleza, como se o céu tivesse baixado até a terra, o poeta pede

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Vai-se a rótula crivando

como a renda consumida

de um vestido funerário.

E ruindo se vai a porta.

Só a chuva monorrítmica

sobre a noite, sobre a história

goteja. Morrem as casas.

Morrem, severas. É tempo

de fatigar-se a matéria

por muito servir ao homem,

e de o barro dissolver-se.

Nem parecia, na serra,

que as coisas sempre cambiam

de si, em si. Hoje vão-se.

O chão começa a chamar

as formas estruturadas

faz tanto tempo. Convoca-as

a serem terra outra vez.

Que se incorporem as árvores

hoje vigas! Volte o pó

a ser pó pelas estradas!

A chuva desce, às canadas.

Como chove, como pinga

no pais das remembranças!

Como bate, como fere,

como traspassa a medula,

como punge, como lanha

o fino dardo da chuva

mineira, sobre as colinas!

como lanha o fino dardo da chuva mineira, sobre as colinas! Minhas casas fustigadas, minhas paredes

Minhas casas fustigadas,

minhas paredes zurzidas,

minhas esteiras de forro,

meus cachorros de beiral,

meus paços de telha-vã

estão mudos e humildes.

Lá vão, enxurrada abaixo

as velhas casas honradas

em que se amou e pariu,

em que se guardou moeda

e no frio se bebeu.

Vão no vento, na caliça,

no morcego, vão na geada,

enquanto se espalham outras

em polvorentas partículas,

sem as vermos fenecer.

Ai, como morrem as casas!

Como se deixam morrer!

E descascadas e secas,

ei-las sumindo-se no ar.

Sobre a cidade concentro

o olhar experimentado,

esse agudo olhar afiado

de quem é douto no assunto.

(Quantos perdi me ensinaram.)

Vejo a coisa pegajosa,

vai circunvoando na calma.

Não basta ver morte de homem

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para conhecê-la bem. Mil outras brotam em nós, à nossa roda, no chão. A morte

para conhecê-la bem.

Mil outras brotam em nós,

à nossa roda, no chão.

A morte baixou dos ermos,

gavião molhado. Seu bico

vai lavrando o paredão

e dissolvendo a cidade.

Sobre a ponte, sobre a pedra,

sobre a cambraia de Nise,

uma colcha de neblina

(já não é a chuva forte)

me conta por que mistério

o amor se banha na morte.

Comentário

Mais uma vez Drummond retoma o tema da dissolução: as casas de Ouro Preto também vão desaparecendo, desmanchadas pela chuva. A própria cidade vai sendo dissolvida pelo tempo. Os seis versos finais fazem referência ao poeta árcade e inconfidente Cláudio Manuel da Costa, que viveu e morreu em Ouro Preto. As pedras e rochedos aparecem com frequência nas poesias de Cláudio, assim como a melancolia do amor perdido por uma amada chamada Nise.

O poema é escrito em redondilhas maiores (7 sílabas) sem rima.

Canto Negro

À beira do negro poço

Debruço-me, nada alcanço

Decerto perdi os olhos

Que tinha quando criança

Decerto os perdi, com eles

É que te encarava, preto

Gravura de cama e padre

Talhada em pele, no medo

Ai, preto, que ris em mim

Nesta roupinha de luto

E nesta noite sem causa

Com saudade das ambacas

Que nunca vi, e aonde fui

Num cabelo no sovaco

Preto que vivi, chupando

Já não sei que seios moles

Mais claros no busto preto

No longo corredor preto

Entre volutas de preto

Cachimbo em preta cozinha

Já não sei onde te escondes

Que não me encontro nas tuas

Dobras de manto mortal

Já não sei, negro, em que vaso

Que vão ou que labirinto

De mim, te esquivas a mim

E zombas desta gelada

Calma vã de suíça e de alma

Em que me pranteio, branco

Brinco, bronco, triste blau

De neutro brasão escócio

Meu preto, o bom era o nosso

O mau era o nosso, e amávamos

A comum essência triste

Numa visguenta doçura

De vulva negro-amaranto

Barata! Que vosso preço

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Ó

corpos de antigamente

Dentes de marfim mordente

Somente estava no dom

O

alvor do riso escondendo

De vós mesmos ao desejo

Outra negridão maior

Num entregar-se sem pejo

O

negro central, o negro

De terra pisada

Que enegrece teu negrume

 

Amada

E

que nada mais resume

Talvez não, mas que cobiça

Além dessa "solitude"

Tu me despertavas, linha

Que do branco vai ao preto

Que subindo pele artelho

E

do preto volta pleno

Enovelando-se no joelho

De soluços e resmungos

Dava ao mistério das coxas

Como um rancor de si mesmo

Uma ardente pulcritude

Uma graça, uma virtude

Como um rancor de si mesmo

Que nem sei como acabava

Vem do preto essa ternura

Entre as moitas e coágulos

Essa onda amarga, esse bafo

De letárgica bacia

A

rodar pelas calçadas

Onde a gente se pasmava

Famélica voz perdida

Se perdia, se afogava

Numa garrafa de breu

E

depois se ressarcia

De pranto ou coisa nenhuma:

 

Esse estar e não estar

Bacia negra, o clarão

Esse ir como esse refluir

Que súbito entremostravas

Dançar de umbigo, litúrgico

Ilumina toda a vida

Sofrer, brunir bem a roupa

E

por sobre a vida entreabre

Que só um anjo vestira

Um coalho fixo lunar

Se é que os anjos se mirassem

Neste amarelo descor

Essa nostálgica rara

Das posses de todo dia

De um país antes dos outros

Sol preto sobre água fria

Antes do mito e do sol

Onde as coisas nem de brancas

Vejo os garotos na escola

Fossem chamadas, lançando-se

Preto-branco-branco-preto

Definitivas eternas

Vejo pés pretos e uns brancos

Coisas bem antes dos homens

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Os bens e o sangue I Às duas horas da tarde deste nove de agosto

Os bens e o sangue

I

Às duas horas da tarde deste nove de agosto de 1847

nesta fazenda do Tanque e em dez outras casas de rei, q não de

valete,

em Itabira Ferros Guanhães Cocais Joanésia Capão

diante do estrume em q se movem nossos escravos, e da viração

perfumada dos cafezais q trança na palma dos coqueiros

fiéis servidores de nossa paisagem e de nossos fins primeiros,

deliberamos vender, como de fato vendemos, cedendo posse jus e

domínio

e abrangendo desde os engenhos de secar areia até o ouro mais

fino,

nossas lavras muito nossas por herança de nossos pais e sogros bem amados

q dormem na paz de Deus entre santas e santos martirizados.

Por isso neste papel azul Bath escrevemos com a nossa melhor

letra

estes nomes q em qualquer tempo desafiarão tramoia trapaça e

treta:

ESMERIL PISSARRÃO

CANDONGA CONCEIÇÃO

E tudo damos por vendido ao compadre e nosso amigo o snr Raimundo Procópio

e a d. Maria Narcisa sua mulher, e o q não for vendido, por

alborque

de nossa mão passará, e trocaremos lavras por matas,

lavras por títulos, lavras por mulas, lavras por mulatas e arriatas,

que trocar é nosso fraco e lucrar é nosso forte. Mas fique

esclarecido:

somos levados menos por gosto do sempre negócio q no sentido

de nossa remota descendência ainda mal debuxada no longe dos serros.

De nossa mente lavamos o ouro como de nossa alma um dia os

erros

se lavarão na pia da penitência. E filhos netos bisnetos

tataranetos despojados dos bens mais sólidos e rutilantes portanto os mais completos

À beira do negro poço

Debruço-me; e nele vejo

Agora que não sou moço

Um passarinho e um desejo

Comentário

Debruçado à beira de um poço, o poeta tenta lembrar o convívio que tinha com pessoas negras e pobres, quando ele (branco, filho de fazendeiro, de família tradicional com brasão escocês) era menino. O poeta procura o que restou nele dessa convivência, ele busca o negro que há nele, que tinha saudades das aldeias de Angola (“ambacas), que ele nunca viu, mas que conheceu no contato físico com os negros (“aonde fui num cabelo de sovaco”).

Esse contato começou na primeira infância, quando o poeta foi amamentado por uma ”mãe preta”, e continuou depois com uma jovem prostituta negra, cujo corpo despertava tanto desejo nele. O poeta se lembra dos garotos negros na escola, cujo riso muito branco ocultava, no entanto, um negrume no fundo da alma: o rancor de si mesmos (pela condição difícil em que viviam). Porém, além desse rancor, também havia a ternura, as danças, a participação nas liturgias, a nostalgia de um outro país “onde as coisas nem de brancas/ fossem chamadas”. O tempo passou, esse

convívio infantil se perdeu e tudo o que restou na memória do poeta

foi um passarinho e um desejo” (o desejo é certamente aquele que

sentia pela jovem negra, já o passarinho parece se referir ao

eufemismo infantil para o pênis).

O poema mostra que as relações entre brancos e negros na

sociedade rural e patriarcal do começo do século XX (Drummond nasceu em 1902) ainda mantinham muitos elementos herdados do passado escravista (a “mãe preta”, a submissão dos negros aos brancos, inclusive no plano sexual, a nostalgia da África, as danças etc.). Nas lembranças infantis de Drummond, a convivência entre brancos e negros era, ao menos superficialmente, de camaradagem e cumplicidade. No entanto, o poeta percebe que havia algo doloroso na alma dos meninos negros, que era o rancor

pela sua própria condição. O poema, porém, não avança nessa direção. Seu foco está no desejo sexual que a jovem prostituta negra despertava nele.

Em linhas gerais, o poema de Drummond concorda com a descrição feita em Casa-Grande e Senzala (1933), do sociólogo Gilberto Freyre, que argumentava que, na vida cotidiana das fazendas, a violência da relação entre senhores brancos e escravos negros era amenizada por várias formas de cumplicidade e pelo sexo. Atualmente, essa descrição das relações raciais é criticada como uma tentativa de disfarçar os aspectos mais brutais da condição do negro no Brasil.

O poema é escrito em redondilhas maiores (7 sílabas) sem rima.

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irão tomando a pouco e pouco desapego de toda fortuna

o queremos marcado

e

concentrando seu fervor numa riqueza só, abstrata e una.

a nos negar; depois

LAVRA DA PACIÊNCIA

de sua negação

LAVRINHA DE CUBAS

nos buscará. Em tudo

ITABIRUÇU

será pelo contrário

seu fado extraordinário.

II

Vergonha da família

Mais que todos deserdamos

que de nobre se humilha

deste nosso oblíquo modo

na sua malincônica

um menino inda não nado

tristura meio cômica,

(e melhor não fora nado)

dulciamara nux-vomica.

que de nada lhe daremos

 

IV

sua parte de nonada

Este hemos por bem

e

que nada, porém nada

reduzir à simples

o

há de ter desenganado.

condição ninguém.

E

nossa rica fazenda

Não lavrará campo.

já presto se desfazendo

Tirará sustento

vai-se em sal cristalizando

de algum mel nojento.

na porta de sua casa

Há de ser violento

ou até na ponta da asa

sem ter movimento.

de seu nariz fino e frágil,

Sofrerá tormenta

de sua alma fina e frágil,

no melhor momento.

de sua certeza frágil

Não se sujeitando

frágil frágil frágil frágil

a

um poder celeste

mas que por frágil é ágil,

ei-lo senão quando

e

na sua mala-sorte

de nudez se veste,

se rirá ele da morte.

roga à escuridão

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