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LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico


Outras evocações, de Cruz e Sousa
Textos-fonte:

João da Cruz e Sousa, Obra Completa, org. de Lauro Junkes,


Jaraguá do Sul: Avenida, 2008, 2 v.

João da Cruz e Sousa, Obra Completa,


Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995

ÍNDICE

Elizirna

Consciência tranquila

O estilo
Je dis non

Écloga

Impressões

Croqui dum excêntrico

A casa
O senhor presidente

O senhor secretário

Nicho de virgem

Aroma

A milionária
De volta aos prados

Investigação

Psicose

Luz e treva

Volúpia...
A carne

Os felizes

N a t a l

Em julho
Símbolo

O batizado

Doença psíquica

Policromia

Flor sentimental

Velho

Decaído
Fugitivo sonho

Formas e coloridos

A abelha

Obsessão da noite

Hora certa

Rosicler

Beijos mortos
Elizirna

ELIZIRNA! ELIZIRNA!

Como faz a gente pensar nos mundos de além, emigrar, boemizar, para a gare azul dos sonhos
estrelados de auroras, o teu perfil correto, linha direita de imperatriz da Rússia.

Como essa cintura, mais delicada e galante do que a pétala branca, de leite, da deliciosa
magnólia, quando a gente te vê elegantemente espartilhada, jubilosa, parecendo uma alegria do
céu, tantaliza e arrebata os bravios leões do desejo.

Elizirna! Elizirna!

E a tua epiderme, macia, jambosa, com a penugem veludínea do pêssego, molar com a
suavidade doce do creme, e o frescor perfumoso da malva-maçã; de um róseo queimado, a tua
epiderme, flor azul dos luares brancos, impressiona o nervosismo, dá irritabilidades
espasmódicas.

E a música do teu laringe, o gargantear cantarolante do cristal, semelhante ao tinido miúdo,


claro, sonoro de uma campainha elétrica, vibrada num palácio de vidro, como prostra a alma
num êxtase, num êxtase...

Elizirna! Elizirna!

E a curva do teu colo, a abençoada curva do teu colo!

Quantos ideais meus, quantas cismas encharcadas no licor saborosíssimo da ventura que
palpita, que ferve, que escalda e esbraseia, não foram flutuar, boiar no maciosíssimo topázio rico
do teu colo moreno, como um batalhão triunfal de pássaros vermelhos, nos fluidos da enorme
concha de alabastro do firmamento.

Elizirna! Elizirna!...

Pomba doce dos países de ouro. .

E a tua boca, cor de pitanga madura, levemente roxa, esse escrínio rútilo dos meus beijos, esse
fruto ruborizado, polposo, sempre aromático, infiltrado do sândalo agradável da mocidade, do
gosto saudável da beleza pura, castíssima, frescurizada, vegetabilizante, como é consoladora e
boa.

Elizirna! Elizirna!

E a tempestade negra dos teus cabelos, cortada pelos fuzis dos meus olhares, por onde o vento
absurdo, desabrido, das minhas desgraças, faz ziguezagues e esfuziotes continuados; o mar
profundo e vão dessas tranças, por onde o meu destino naufraga desoladoramente, como eu
acho terrivelmente deslumbrante, esmagadoramente belo...

Elizirna! Elizirna!...

E os teus olhos, filha, abundantes de cousas celestiais, fartos das bênçãos do gozo, inundados
dos equatorianos rosicleres primaverinos, cheios dos pizzicatos, dos acceleratos das paixões,
como iluminam e cantam...

Elizirna! Elizirna!...

Parecem dois sóis esplendorosíssimos, os teus olhos, cada qual com um sabiá dentro, abrindo,
cristalinizadoramente, em trilhos gorjeadores, a bravuresca garganta lírica...

Consciência tranquila

O ILUSTRE, o douto homem rico, o poderoso senhor de escravos está já, segundo a previsão do
seu médico, quase às portas da morte.

Sobre o luxuoso leito largo, na alvura fria dos linhos, entre os gélidos silêncios das paredes altas,
ele está mudo, semimorto, dormindo, como que se predispondo para o sono eterno.

No confortável aposento onde ele aguarda afinal o último suspiro, vai e vem, abafando os
passos, toda uma sociedade de honrados bajuladores, de calculistas espertos e frios, de
interessados argutos, de herdeiros capciosos, de tipos bisonhos e suspeitos, almas
simplesmente consagradas ao instinto de conservação da vida no que ela tem de mais caviloso e
oblíquo.

Graves e grandes, como bocejos lassos, como tédios esquecidos, os momentos do moribundo se
prolongam e os comentários esfuziam e ferem, à surdina, o ar doentio, pesado...

— Não há dúvida que vamos perder um homem útil, prestimoso, eminente, carregado de saber e
virtudes, bom e piedoso, ah! sobretudo bom e piedoso. Que coração de anjo para os humildes,
para os tristes, para os fracos, para os desamparados. A sua bolsa, sempre inesgotável, dividia-
se com todos. Verdadeiro apóstolo da caridade, da religião e da ciência, era um justo na
acepção da palavra, de uma moral elevada até à santidade. Nunca me há de esquecer de como
ele foi sempre generoso para essas raparigas miseráveis, gente baixa, que nem ao menos tem a
vala comum para cair morta e que ele afinal protegia com a sua bolsa e arranjava-lhes noivos
entre pobres-diabos da plebe, quando por acaso elas deixavam de ser virgens com ele... De
muitas, de muitas sei que ele tornou felizes com o seu prestígio, dando-lhes casamento e
dinheiro. Sim! porque outro fosse ele, como esses bandidos que por aí andam, que deixariam as
pobrezinhas ao desamparo e com filhos. Ele, não; casava-as logo e assim trazia felicidade aos
casais que constituía. Muito, muito justo, sempre foi muito justo em tudo! Homem distinto!
Homem distinto! Este é dos poucos que podem morrer com a sua consciência tranquila,
perfeitamente tranquila!

Quem assim falava com esta ingênua malignidade, com esta nova, inédita inocência, com esta
terrível e eloquente ironia, por si próprio, no entanto, desconhecida, era um homem de olhos
ladinos e gestos sacudidos, próspero, rubicundo, expressão loquaz de ave rapace, nariz altivo,
espécie de sagaz furão de negócios, parecendo estar sempre ocupado em absorver e conhecer
pela atilada pituitária o ar das cousas e dos interesses imediatos.

Num dos dedos da sua mão ágil, pronta, precisa para o assalto à vida, com a medida exata dos
grandes golpes ocultos, reluzia a clara gota d'água iriada de um rijo brilhante.

Mas, o troféu de glórias deste curioso exemplar humano, era o famoso e filaucioso cavaignac,
meio diabólico, meio cínico que ele afagava com gravidade e volúpia, abrindo em leque, num
gozo particular, como se o cavaignac fosse o seu inspirador e o seu oráculo naquela eloquência.

Como todo o bandido bem acabado, perfeito, como todo o Tartufo casuístico, tinha o seu
séquito, os seus satélites, que instintiva ou calculadamente ouviam e aprovavam sempre em
silêncio servil tudo quanto ele dizia e lhe forneciam a manhosa e morna atmosfera feita de
rastejantes e vermiculares sentimentos na qual ele vivia à farta, num transbordamento de tecidos
adiposos, cevando-se nas lesmentas vaidades e caprichos mesquinhos dos outros, lisonjeando-
lhes as pretensões, alimentando-lhes os vícios, devorando-lhes o ar, numa verdadeira existência
parasitária.

Mas, agora, todas as atenções se voltavam, alvoroçadas, ansiosas, para o velho moribundo, que
acordara afinal em sobressaltos, o olhar desvairadamente pairado num ponto, como se por um
esquisito fenômeno tivesse ressurgido do terror do sono eterno e viesse ainda perseguido por
glaciais fantasmas que o arrastavam pelos cabelos e pelas vestes, através de uma treva
duramente muda e aflitiva...

E, ou fosse remorso ou fosse álgido medo da hora extrema ou fosse mesmo agudo e histérico
delírio imaginativo de senil e tábido celerado que vai morrer, o certo é que todos, no auge do
espanto, no mais esmagador dos assombros, sem poder conter a súbita e estupenda torrente
que lhe foi espumando e jorrando da boca bamba, ouviram este cruel e amorfo monólogo, feito
de lama e podridão, de estanho inflamado, de ferro e fogo, de acres e apunhalantes sarcasmos,
de ódio e visco, de mordentes perversidades, de chagas nuas, de lacerações de carnes
gangrenadas, de soluços e estupros, de ais e risadas, de suspiros e concupiscências baixas, de
beijos e venenos, de estertores e lágrimas, tudo rodando, rodando através do pesadelo da Morte.

Como que a seu pesar, um fenômeno desconhecido o transfigurava, punha-lhe na boca a


eloquência viva de chamas devoradoras. Ele era, naquele momento, a presa formidanda das
correntes da matéria, que os mais curiosos e estupendos sentimentos abalavam: como que uma
outra natureza, sem ser propriamente, legitimamente a sua, a natureza dos mistérios, que paira
acima de tudo o que nos é terrenamente acessível, a natureza do Incognoscível das Esferas,
dos maravilhosos ritmos, o inspirava, falava pela voz dele, enchia-o de fluidos prodigiosos,
arrebatava-o para um meio sonho e para um meio delírio, onde, contudo, transpareciam faces
verdadeiras das cousas, já galvanizadas pelo passado.

Aquilo era como que o exemplo vivo, iniludível e supremo, dessa vaga névoa, dessa bruma de
Abstrato, que há em todo o Tangível, do Sobrenatural que há em todo o Verdadeiro.

— Ah! lá se vão elas, vejam, lá se vão elas! Quantas! Quantas! Eram todas minhas! Vinham
entregar-se ao meu ouro que tinia, tilintava, tinia com a sua luz sonora. Olhem, lá vão elas!
Todos aqueles corpos eu beijei, eu gozei, eu depravei, eu saciei! Todos aqueles belos corpos
brancos se adelgaçaram, se quebraram, vergaram, em curvas voluptuosas de abóbada
estrelada, às minhas furiosas luxúrias. Parecia que corcéis de fogo disparavam no meu sangue,
corriam a toda brida nos meus nervos, tanto a sensualidade me agitava, me vertiginava,
aguilhoava-me com os seus aguilhões acerados. E eram todas virgens, que eu desviei, estrábico
de gozo, nas formidáveis alucinações da carne. Pois se eu tinha o meu ouro, o meu ouro que
agisse sem demora e mas trouxesse vencidas; pois se eu tinha o meu ouro, o meu ouro que as
escravizasse à minha lascívia, o meu ouro que as fascinasse, o meu ouro que as atraísse, o
meu ouro que as magnetizasse, o meu ouro que as cegasse, o meu ouro que as perdesse, o
meu ouro que as aviltasse! Pois se eu tinha o meu ouro, que mal então que eu comprasse
formas de argila, com o meu ouro de forma de sol! Pois se eu tinha o meu ouro! Pois se eu tinha
o meu ouro!

Por entre os linhos alvos do leito, naquelas brancuras preciosas, como que um rio de ouro, um
cascatear de ouro, uma música de ouro vinham então finamente e fluidamente rolando,
distendendo pelo leito os seus harmoniosos e claros veios de ouro, numa feeria de som, de
alvura e de ouro.

E o senil e tábido milionário estava ali como um célebre mago dominado pelo ritmo alucinante,
pela vara magnética desse êxtase de visionário moribundo, pela doentia e sonâmbula
superexcitação nervosa, por toda essa vertigem, por todo esse deslumbramento hipnótico, fatal,
enlouquecedor, do ouro. E ele ria alvarmente uma risada entre amarela e negra, que fazia
lembrar o fúnebre caixão que o esperava...

Todos, estupefatos, suspensos, diante daquele delirante e sensacional espetáculo que não
podiam encobrir nem conter, tinham a respiração sufocada, os semblantes transtornados,
lívidos, tão lívidos que pareciam outros tantos moribundos que ouviam, imóveis, num espasmo
de angustioso terror, esse outro sinistro moribundo falando.

Agora, porta mais negra e mais ensanguentada se abrira escancaradamente, num pálido rasgão
de raio que fende as nuvens, ao delírio do cérebro demente do quase morto: era como se
nenhum escrúpulo delicado, sutil, o prendesse à terra e aos homens; se todos os fios e laços das
suscetibilidades da alma se houvessem partido, despedaçado e ele ficasse só nos instintos, à
vontade, besta desenfreada, livre de todas as correntes do Sensível, sob o impulso primitivo,
selvagem, desorientado, animal, deserto, da simples matéria e da simples carnalidade:

— Ah! Ah! pois não era o meu ouro, só o meu ouro, sempre o meu ouro que comprava tanta
carne humana, desprezível, que eu via entrar nas senzalas, de volta do eito?! Negros trêmulos,
velhos e tristes, com o dorso curvado por uma remota subserviência ancestral, atávica,
fantasmas de pedra, mudos e cegos na sua dor absurda...

Às vezes era pelos amargos desfalecimentos da tarde; e, no fundo denso da noite algumas
estrelas espiavam como sentinelas, de olhos acesos e vigilantes, aquela torva massa trôpega e
tarda que caminhava como do fundo de um tempestuoso e formidável sonho: os crânios
desconformemente alongados, os perfis com deformações hediondas, talhados à bruta por mãos
de gênios rebeldes, infernais, e os olhos envenenados pela mais atroz, bárbara e mórbida
melancolia das melancolias. Como que vinham, num turvo e amorfo desfilar do centro misterioso
da terra, com a cor das trevas primitivas, esqueléticos, cadavéricos, héticos, na assombrosa
condensação de todas as criações shakespeareanas, arrastando os miseráveis e
ensanguentados farrapos das almas.

Parecia-me que se cavava de repente, por toda a extensão do eito, imensa, profunda cova; que
essa cova era como velha chaga secular formidavelmente grande, sinistramente sangrenta, a
devorar, a devorar, a devorar carne humana, legiões e legiões de míseros, um fabuloso mar
negro e selvagem de corpos e almas amaldiçoadas... E essa chaga tremenda, avassaladora,
fatal, ia então alastrando, não já sangrenta, mas verde, podre, gangrenada, aberta a monstruosa
e purulenta boca verde.

Não sei para que sobre-humano horror eu recuava, para que noite caótica de horror animal eu
mergulhava a tremer, a tremer, a tremer...

Ficava então de repente com a imaginação dominada por cruéis sobressaltos, com ansiedades,
delírios a se vulcanizarem no cérebro... Subiam-me ao cérebro obsessões de loucura, como que
os meus pensamentos se agachavam, se encolhiam aterrorizados a um canto do cérebro... Um
medo agudo, invencível, me amarrava os nervos... Todo eu gelava, suava medo... E aquela
bamba, trôpega e tarda massa torva, fenomenal, numerosa, estranha, tão estranha aos meus
sentidos apavorados, dava-me a impressão fantástica de abismos que caminhavam, de
tenebrosas florestas de corpos cheias de rugidos de feras, de garras, de dentes devoradores,
que eu via de repente atirarem-se, arrojarem-se sobre mim, bramindo vingança, e
despedaçarem-me, estrangularem-me...

Ao meu espírito aterrado, ao mundo virgem e nunca visto de visões que se me desenvolviam no
deslumbrado raio visual, era como se todos aqueles esqueletos se reproduzissem, surgissem por
toda a parte turbilhões e turbilhões, tumultos e tumultos, matas sagradas, compactas, selvas
bravias de esqueletos negros, toda a África colossal ululando e soluçando num ululo e num
soluço milenário... E, por sobre todos esses milhões de cabeças tenebrosas, pairava no ar,
solenemente, sugestionadoramente, como o satânico e sinistro Anjo da Guarda da negra raça
dos desertos, lassa e descomunal, lânguida e letárgica serpente, talvez dormindo e sonhando
novos e mais maravilhosos venenos, com as grandes asas abertas... Ah! eram sobrenaturais
esses sofrimentos que assim me remordiam tanto, com tamanhos dentes e com tamanhas
garras!

Deus, a essas horas tão tremendas para a minha consciência, ali tão humilhada, batida, cobarde
de terror diante daqueles negros espectros, onde estava Deus, para trazer-me um alívio, consolo
para ter piedade de mim, para dar-me de beber da fonte clara, fresca e suave da tranquilidade,
para saciar a sede de humildade, de pobreza, de simplicidade, a sede devoradora que me
incendiava, a mim, a gula viva do ouro, a mim, a gula viva da sensualidade, a mim, a gula viva
do crime!

No entanto, ah!, que visadas satânicas, diabólicas, que satisfação perversa me assaltava quando
o feitor, bizarro, mefistofélico, de chicote em punho lanhava, lanhava, lanhava os miseráveis e
lindos corpos de certas escravas que não queriam vir comigo! Oh! lembra-me bem de uma que
mandei lanhar sem piedade. A cada grito que ela soltava eu gritava também ao feitor: — Lanha
mais, lanha mais! E o bizarro feitor lanhava! O sangue grosso e lento, como uma baba espessa,
ia formando no chão um pântano onde os porcos vinham fuçar regaladamente! Com que febre,
com que alucinação inquisitorial eu gozava essas torturas! Até mesmo, às vezes, via-me
possuído de um extravagante desejo animal, de um desejo monstro de beber, como os porcos,
todo aquele sangue. Lembro-me também de outra, bestialmente grávida, prestes a ser mãe, a
quem eu, para saciar a minha sede feroz de ciúme, a minha sede de raiva, a minha sede de
concupiscência suína, mandei aplicar quinhentas chicotadas, enquanto os meus dentes rangiam
na volúpia do ódio saciado. Desta foi tamanha e tão atroz a dor, tão horríveis as contorções,
enroscando-se como serpente dentro de chamas crepitantes, que esvaiu-se toda em sangue,
abortou de repente e ali mesmo morreu logo, felizmente, lembro-me bem, com a boca retorcida
numa tromba mole, espumando roxo e duas grossas lágrimas profundas a escorrerem-lhe dos
olhos vidrados...

E de outra ainda lembro-me também, porque eu a mandei afogar no rio das Sete Chagas, junto à
figueira-do-inferno, com o filho, que era, execravelmente, meu, dentro das entranhas... Mandei
afogar tarde, a horas mortas, depois que certo sino cavo soluçou as doze badaladas lentas e
sonolentas no amortalhado luar... E devo ter algum remorso disso? Remorso? Por quem? Por
quê? Por quem? Meu filho? Como? Feito por um civilizado num bárbaro, num selvagem?
Remorso por tão pouco? Por lama vil que se joga fora, por bárbaro ignóbil que para nada
presta?! Remorso por fezes, resíduos exíguos de elementos inservíveis, bílis negra, composto de
produtos podres, gases deletérios e inúteis, pus fétido — pois por essa asquerosa e horrenda
cousa que se formou e ondulou misteriosamente sonâmbula nas entranhas pantéricas de uma
negra hei de ter, então, remorso, hei de ter, então, remorso?!

E os quatro enforcados da encruzilhada do engenho, com as hirtas línguas de fora, por uma noite
de trovões e relâmpagos, oscilando dos galhos das árvores como pêndulos da morte! E os que
morreram no tronco, com a espinha dorsal quase vergada ao meio! E aqueles que de desespero
e de aflição sem remédio se rasgaram os ventres enterrando-lhes fundo facas agudas! Os que
estalaram tostados, queimados nos fornos em brasa! Os que foram arrastados pelos campos a
fora, a galope, atados a caudas de cavalo! Os que tiveram os ventres atravessados pelas aspas
dos bois bravios! Os que se envenenaram com venenos mais mortais que o das serpentes! Os
que se degolaram na mais desesperada das agonias!

E aquela negra terrível que morreu louca, abraçada ao filho pequeno, dando-lhe alucinadamente
de mamar, nua, toda nua, com o seio a escorrer leite e ao mesmo tempo a escorrer sangue
pelas feridas de trezentas e setenta e tantas chicotadas, com os olhos esbugalhados, a olhar-me
muito, a olhar-me sempre, parece que ainda horrivelmente a olhar-me agora, a perseguir-me, a
cortar-me de pavor como uma lâmina gelada e penetrante.

Ah! aquele negro de cem anos, morfético, inchado como um sapo enorme, manipanso senil, a
quem eu arranquei os dois olhos com a ponta de uma verruma, enquanto ele urrava e
escabujava de dor como um tigre apunhalado! E isto em pleno eito, num meio-dia de ferro e fogo,
que cortava e queimava, por um sol dilacerante, devorador como feras esfaimadas,
sanguinolentas! E eu arranquei-lhe os olhos, enterrando-lhe fundo a verruma sem piedade,
depois de já lhe haver aplicado por todo o corpo apodrecido e chagado pela morfeia, seiscentas
vergalhadas, de pulso musculoso e rijo e de relho forte aberto em trinta pernas, terminando em
agudos pregos nas pontas. Ah! como o velho manipanso se retorcia, espumava, gania, mordia a
língua, soltava pinchos por entre os torvelinhos, os círculos vertiginosos, desvairados, das trinta
pontas aguçadas das pernas rígidas do relho!

E ainda aquele outro negro decrépito, de uma boçalidade caduca, cego, mudo e idiota,
completamente cego e mudo, que foi encontrado morto no curral dos porcos, a cabeça fora do
tronco, inteiramente decepada a machado, os órgãos genitais dilacerados!

Remorsos, eu, então, de toda essa treva trágica, de toda essa lama de crimes apodrecida?!
Como, remorso? Pois não era do trono do meu ouro que eu estava rei soberano, assim, com o
cetro do chicote em punho, coroado de ouro, arrastando um manto de púrpura feito de muito
sangue derramado?! Remorso? De quê? Se o meu ouro tudo lavava, vencia, subjugava a todos
e a tudo, emudecia a justiça, tornava completamente servis e de pedra os homens, fazendo de
cada sentimento um eunuco?!
A estas palavras como que pareceu haver um certo movimento de protesto, de altivez revoltada,
na pasmada assembleia que o ouvia: quase que um vago vento de indignação passou... Mas,
como entre os males da vida "o mal de muitos consolo é", e quase todos que ali estavam eram
parentes do moribundo, aguardavam uma parte do seu grande ouro; e como também nos seus
cerebrozinhos empíricos lhes passasse de repente a ideia de que talvez por um milagre da
riqueza, por um extraordinário valor e soberania do potentado, ele muito bem podia levantar-se
do leito ainda e expulsá-los a chicote daquele recinto, todos se entreolharam manhosamente e
fizeram depressa espinha mais flexível, fingiram-se surdos o melhor que puderam — vivos, mais
mortos que o semimorto.

Toda essa delirante epopeia de lama, treva e sangue, era por ele murmurada lentamente, com
voz cava, soturna, como através das paredes de um lôbrego subterrâneo ou nas sombrias
solitárias arcadas de um convento os crepusculamentos de um Requiem...

Impelido por uma força nervosa erguera-se um pouco no leito, talvez ainda mais envelhecido
agora, trêmulo, transfigurado, o olhar sempre fixo num ponto, olhar de cego que olha em vão,
que como que só vê para dentro de si mesmo...

Mas de repente o moribundo teve uma risada alvar, lugubremente idiota, entre amarelada e
negra, que fazia fatalmente lembrar o fúnebre caixão que o esperava... E, arremessando
convulsamente as frases como lançadas no ar, na violência do esforço derradeiro, tremendo,
como quem chama a si as últimas energias da matéria que desfalece, a língua já presa, já
acorrentada pelos pesados grilhões da morte que vinha vindo, pendeu a encanecida cabeça de
celerado senil, exausto de forças, os braços molemente caídos ao longo do leito, os olhos e a
boca desmesuradamente abertos, a respiração siflante, num espasmo sinistro...

No ambiente ansioso, inquietante, do aposento, pairou uma comoção mortal...

Dos lençóis alvos e frios do leito, bruscamente revoltos na alucinadora aflição daquele velho
corpo martirizado, como que transpareciam, se levantavam brancas visões de sepulcro...

Nos circunstantes, à maneira de velhos instrumentos de cordas usadas, que vibram


insolitamente, percorreu logo um pavoroso estremecimento. Todos se acercaram do leito, os
rostos transfigurados, na agitação convulsa do grande final, — míseras, tristes sombras que num
movimento arrastado, impelidas por sensações secretas, se acercavam de uma sombra mais
mísera, mais triste...

E, ó ironia da Culpa original!, numa leve contração da boca, ainda com um voluptuoso e
luminoso alento de vida a esvoarçar-lhe nos olhos, sem longos e torturantes estertores, deixando
apenas escapar um fugitivo, breve gemido de lá bem do fundo vago, quase apagado, longínquo,
do seu Crime, na atitude de um justo, o ilustre homem rico, o abastado e poderoso senhor de
escravos expirou — dir-se-ia mesmo com a sua consciência tranquila, completamente tranquila...

O estilo

O ESTILO É O SOL DA ESCRITA. Dá-lhe eterna palpitação, eterna vida. Cada palavra é como
que um tecido do organismo do período. No estilo há todas as gradações da luz, toda a escala
dos sons.

O escritor é psicólogo, é miniaturista, é pintor — gradua a luz, tonaliza, esbate e esfuminha os


longes da paisagem.

O princípio fundamental da Arte vem da Natureza, porque um artista faz-se da Natureza.

Toda a força e toda a profundidade do estilo está em saber apertar a frase no pulso, domá-la,
não a deixar disparar pelos meandros da escrita.

O vocábulo pode ser música ou pode ser trovão, conforme o caso. A palavra tem a sua
anatomia; e é preciso uma rara percepção estética, uma nitidez visual, olfativa, palatal e
acústica, apuradíssima, para a exatidão da cor, da forma e para a sensação do som e do sabor
da palavra.

Um, porém, pode desvirtuar toda a ação e vitalidade do estilo, como pode também segurá-lo e
afiná-lo. Os utensílios da escrita são extraordinários, o jogo da frase é poderoso.

Os livros de Zola, para dar aqui o exemplo de uma das organizações chefes do nosso tempo, aí
estão — candentes, gerados numa atmosfera de fornalha, transbordando de surpresas de
observação e análise.

Nos livros de Zola, porém, sente-se o efeito de uma monstruosa trombeta de bronze soprada por
um Hércules gigantesco, formidável — tal é o largo tufão que dá rumor e faz pulsar todas as
páginas.

São naturais, humanos, plenos de natureza esses livros. Apresentam as faces mais lógicas da
existência. Tais livros palpitam em cada um de nós, saíram de nós, dos nossos pensamentos,
dos nossos usos, das nossas paixões; falam da direção do nosso espírito, da nossa
idiossincrasia — segundo o nosso temperamento, o nosso meio, os elementos climatológicos e
etnográficos, a perspectiva das paisagens, tristes ou doentes, alegres ou saudáveis, e todos os
princípios gerais estabelecidos e acentuados pela ciência e que influenciam direta e
racionalmente em toda educação física e intelectual.

O escritor nada se tem que importar que os fatos ou os assuntos lhe sejam simpáticos ou não.

Não há mais, nas evoluções das ideias, exterioridades, púrpuras de palavra vestindo um assunto
de pau tosco. Pelo contrário! as vestes, as púrpuras da palavra, são de conformidade com os
assuntos. E é isso que faz a inteireza do caráter da escrita...
É preciso que haja um forte tom interior para haver unidade de ação, de verdade no que se
analisa, no que se observa.

E é por isso, por uma infinidade de qualidades de análises variadas e radicais, que constituem
uma ordem de fenômenos, que o Estilo há de acentuar-se, condensar-se, intensificar-se mais
entre nós à medida que se for fazendo a evolução da nossa literatura, quando a corrente da Arte
estiver em íntimas relações simpáticas com a nossa produtividade mental, estabelecendo nela a
complexidade de um todo uniforme, depois que nos houvermos libertado dos hibridismos étnicos
que tiram a linha de segurança, de firmeza intelectual das raças que estão em via de constituir-
se.

Entretanto, quando leio um livro, uma frase, cheios de todas as audácias do talento, vibrantes de
energia espiritual e examino os documentos inteligentes que estão atestando uma orientação
mais completa, um golpe mais fundo e amplo na luz, mais certeza de "visão", mais força e vigor
celular, mais profusão de glóbulos rubros, alvoroço-me, deslumbro-me e eletrizo-me, porque
estou vendo diante de mim, em toda a largueza da minha rotina, com toda a sinceridade emotiva
da minha convicção e do meu elevado Amor pela arte, espíritos mais livres e lúcidos que abrem
e batem asas, como pássaros vermelhos na glória do sol, para além, para longe da retórica e da
metafísica, afastando-se dos princípios de todos os dias, rubricados pelo fastio da chapa,
amarrados pelos barbantes de uma gramática oficial e convencionada que obriga a ideia a fazer
cabriolas e os esfuziotes do raio, sem regimentá-lo no alto dever da luta, sem defini-la, sem
engrandecê-la, sem dar-lhe um intenso valor, uma pobre tranquilidade consciente, uma
fisionomia particular e superior.

Je dis non

A Virgílio Várzea

SUBINDO UMA VEZ com um amigo, sob a luz esfuziante e alegre de rubro sol de verão, uma
rua ruidosa e fremente de vasta cidade da América do Sul, paramos a olhar detidamente a larga
vitrina de vistosa livraria no plano direito de quem sobe a rua, vindo da direção do mar.

Por muito tempo estivemos ali parados, viajando o olhar que pousava, como borboleta inquieta
neste e naquele livro, sobre este e aquele título de obras, como se o nosso espírito quisesse, à
maneira dos insetos nas flores, absorver, compenetrar-se pelos títulos, numa síntese radical de
observação, dos princípios e ideias contidos em cada livro.

Súbito a nossa atenção parou, descansou sobre a capa de um volume, vermelha, e onde se lia
em grandes letras negras: — Je dis non.

Parou a nossa atenção nesse volume de capa vermelha, como se descobríssemos nele mais do
que em todos, alguma Coisa de original, de singular, de excêntrico — algum sangrento episódio
de psicologia que lá estava a despertar a nossa análise, dentro da vitrina, longe de o podermos
observar, sentir de perto, e por isso mesmo tentava mais.

Fidalgo de pensamento, experimentalista, o meu companheiro era um analista rude, d'ar petit
marquis, duma contensão filosófica muito possante, iluminada figura transfigurada e mística às
vezes, espécie de Fausto de Goethe, numa perene jovialidade e jovialismo amoroso, imprevisto
e radiante pela verve e sugestões críticas — um desses cérebros poderosos que definitivamente
marcam época, um desses claros soberanos entendimentos, penetrantes como o ar na vida
animal orgânica, muito inauditos na Abstração e no Gênio, e para os quais Taine, o supremo
chefe da Crítica, teria de estabelecer uma nova e derivativa linha determinante de sua estesia.

Conceituoso, com o pensamento direto ferindo, atacando muito certo, em flecha, os assuntos,
como quem derruba águias do elevado pendor duma montanha, ele, sabendo armar e dirigir o
aparelho receptor do seu cérebro à adaptação e generalização das ideias, ainda as mais
delicadas, sutis, fluidas quase — começou, primeiramente, a tomar a obra em bloco, a
uniformizá-la, a compô-la, como um organismo, tecido por tecido, célula por célula, molécula por
molécula, dando-lhe corpo, consubstanciando-a, alargando-a — até que ela pareceu crescer,
crescer, subir ganhar um vulto estranho através da vitrina, como se a enchesse toda: — uma
grande tela vermelha com letras negras ao centro — Je dis non; e como se, por um inconcebível,
misterioso processo, ali estivesse ardendo uma chama, mas que não alastrasse em línguas de
fogo, unida, compacta, igual, à maneira duma prodigiosa matéria inflamável que não excedesse
ou sobrepujasse aquela transparente circunferência de vidro.

Depois, então, o luminoso originalista, o evolucionista spenceriano continuou humoradamente a


bordar folhetins sobre a obra, como ele próprio dizia, a desmanchá-la, a tirar-lhe a consistente
verdade, a preparar-lhe os planos, a determinar-lhe os detalhes, a sua latente psicologia, a sua
tangibilidade de ser, a tecelagem de ouro da sua forma, a discernir-lhe a linguagem, a penetrar
na nevrose do temperamento que a confeccionara, que fabricara em estilo a sua contextura,
apanhando-a, dissecando-a, já em mil voltas, já em mil giros, já em mil efeitos de espírito, sob os
mais novos aspectos, dando do assunto inteiramente tudo que o assunto poderia dar e
penetrando segura e esmerilhadamente nos entranhados filões recônditos que lhe constituíam
toda a potente força criadora de obra afirmativa da Natureza.

E, nesse profundo trabalho de composição e decomposição mental, ia-se uma incomparável,


infinita porção de glóbulos rubros, à qual a mais requintada estesia d'Arte se integrava
completamente.

Eu, absorto, perplexo, calado pela atenção aguda, acompanhava sorrindo, numa alegria que me
sacudia os membros eletrizados, os condoreiros voos do mestre, que subiam regiões para o alto,
além, até aos astros, na rija envergadura das fiavas asas à luz em jorro, que depois
abundantemente fulgurava, resplandecia na obra, a iluminava por dentro dum clarão, numa
transcendente visão espiritual arrebatadora.

E o filósofo, o Schopenhauer moderno, nessas sortidas intelectuais que me enlevavam,


projetando as ideias mais admiráveis e fecundas, dizia-me então, na serenidade correta dos
seus gestos de disciplinado, de frio saxônio:

— Pois, é isso, vê? Je dis non! Imagine uma dessas paixões que tudo consigo arrastam para
sempre, que desmoronam a vida de um artista contemplativo, vivendo das impressões da
Natureza, sob o grito, os vibrantes clarins da carne e a alucinante, inquietadora vertigem dos
ideais insonhados! Imagine um instante quinta-essenciado no absoluto das coisas, amando dum
amor imaculado, virginal, sidéreo, já pouco da Terra, desde longo tempo, uma dessas vigorosas
mulheres de Tom de luxo, de idade outonal de fruta, que tanto entontecem, perturbam como uma
ampla absorção de ar, de luz e de aroma no altanado cume das serras, quando se tem saído da
densa e lôbrega treva dum calabouço. Louras Ceres maduras, um tipo, enfim, forte de primitiva
beleza, opulenta e formosa deusa da Hélade, uma dessas maravilhosas criaturas, assim
humanas e assim etéreas, que eternamente conservam na carne a centelha da mocidade, na
epiderme o doce aroma das violetas, a frescura das magnólias, o diáfano cor-de-rosa das
auroras de sangue e que através dos seus nervos, do ímpeto da sua seiva ainda palpitante e
viçosa, sabem, como animal que esconde as garras, pôr apenas em evidência, diante de uns
olhos apaixonados que as desejam, não o afeto que igualmente as emociona e torna convulsas,
mas toda a febricitante graça borboleteadora, alada, dos seus encantos, todo o atraente enlevo
das suas sedições, — radiantes asas satânicas com que a Natureza as dotou e com as quais
elas voam desassombradas para o coração do homem, como para uma chama, vencendo-o,
subjugando-o, empolgando-o, sem, contudo, porém, muitas vezes, nem de leve crestarem as
rutilantes plumagens.

Imagine isso, uma dessas paixões, trágicas, apunhalantes, que queimam, incendeiam, devoram
tudo — bárbara paixão selvagem de Otelo por uma Desdêmona fria, de luar gelado, mas
formosa; indiferente mas altivamente olímpica, onipotente no esplendor cinzelado, como os
mármores coríntios ou os bronzes celinescos, do alabastro do corpo.

Uma dessas paixões tumultuosas em onda, em que os amantes estão por vezes separados só
pela distância de um beijo e de um abraço, e que quando ele, sonhando a hora feliz e ao mesmo
tempo fatal entre todas, que lhe parecesse a mais serena às exigências dela, o doce momento
aflitivo no qual ele com veemência pensasse que ela nada lhe negaria, depois de tanto esperar,
depois de tanto ansiar — nem a flor dos seus beijos nem a flor dos seus carinhos nem a flor da
sua carne, — nesse supremo instante enfim em que ele supusesse que do encontro, do atrito
amoroso das suas almas tão longamente afastadas, entre si irradiasse e nascesse o sol do mais
imperecível amor — ela, com os olhos fagulhantes cheios de expressão e sagacidade feminina,
fria por cálculo, indiferente por sistema, acostumados já aos lancinantes envenenamentos
dolorosos que trazem as desesperadas e fundas loucuras, lhe dissesse, pondo nas suas
palavras todo o torturante fel do desprezo:

— Je dis non.

Suponha, pense tudo isso e veja a brusca e abrupta alucinação dele, o seu desvairamento ao
ouvi-la condenar o seu amor.

No entanto esse errante das ilusões teria quase toda a certeza que ela o atenderia, lá o
esperava com beijos ardentes esvoaçando já nos lábios como abelhas.

Observando, sabendo todas as modalidades da alma, conhecendo todas as manifestações da


Natureza, o artista não havia, entretanto, compreendido essa, não pôde abrangê-la nunca no que
ela tem de mais imperceptível, de mais vago, surpreendente, aéreo.

Não pôde abrangê-la e ei-lo agora aí desmoronado, esmagado, como se todo o império romano
do seu afeto de repente perdesse a pompa gloriosa e se fizesse em ruínas.

Palácios mouriscos, torreões e minaretes árabes, mesquitas persas, coruscantes pagodes


incrustados de madrepérola e pedrarias preciosas, suntuosas e góticas catedrais, um luxo de
damascos esmirnos, todo o famoso deslumbramento dos seus sonhos de um místico templário
do amor, feito subitamente em cinzas com aquelas pungitivas palavras dilacerantes.

Aí tem, pois, o que é Je dis non.

Assustador, angustioso, estranho na sua gênese, mas é Jes dis non. Di-lo a epígrafe, em letras
negras, di-lo a capa vermelha, que é o pronunciamento psicológico de uma tormenta de
sensibilidade, de nevropatia que agitou a existência de alguém.

Mas, não o leiamos nunca: deixemo-lo estar assim, o excêntrico volume, lá ao fundo, através da
vitrina, saciando a nossa sede de Ideal, absorvendo os nossos sentidos na emoção íntima de um
gozo intelectual muito mais intenso e raro que a realidade.

A realidade pode não ser isso que sugeri, pode ser banal, qualquer caso de deformação da vida,
qualquer fenômeno teratológico da moral, que abata e deprima as iluminuras e ilusionismos da
frase, os caprichosos floreios estéticos que agora faço.

Deixemo-lo estar nessa impressionante mudez de Esfinge. De tal forma valerá mais para a
nossa análise, para o consolo do rebuscamento de singularidade que perscrutamos em redor do
mundo, que se lhe penetrarmos na verdade fundamental da concepção e do estilo.

Assim, essa Esfinge vale astros e flores.

Rasgando o mistério que para nós ambos, num momento dado da investigação, a celebrizou,
talvez apenas valesse areia ou lama.

Vivamos, pois, na excepcionalidade virginal, etereal do espírito. Não desçamos à bruta crueza
flagrante da matéria...

Écloga
À HORA DO SOL, por estes tranquilos sítios afastados, goza-se os montes vestidos de um
polvilhamento de ouro; as perspectivas deliciosas na matinal e ruidosa expansão da luz; estes
luxos bizarros e tons quentes de estio, onde parece que Sátiros lascivos vão trepando e saltando
pelas escarpas calcárias e pelos socalcos pedregosos, entre o verde lustroso e denso da
folhagem da mata e os encachoeirados, tormentosos rios.

Galharda natureza esta, de manhã, cheirosa e sadia, em que o jorro da vida vertiginosamente
entra e circula pelos pulmões em ar e aroma, dando uma fremente e forte sonoridade aos
órgãos humanos, como vibrante clarim de batalha que nos soprasse metalicamente ao peito,
enchendo-o de ecos, de alvoroço, de música e rumores.

Por aqui estende-se, amplia-se, alarga-se por aqui o céu verde das copadas ramagens das
árvores — e nada mais idílico e bucólico, nada mais virgiliano e pastoril do que estes aspectos
sagrados, quase bíblicos, onde a écloga rebenta de cada tufo perfumoso de rosas, de cada
serpente elétrica de hera, de cada pâmpano báquico de vinha, de cada ramo salitroso de murta e
de cada concha rosada e branca nas finas e claras praias, além, onde o mar espumeja doce,
parecendo trazer no fluxo e refluxo das suas ondas cantantes, a olímpica e serena recordação
da mocidade e da formosura da Grécia, ritmada em flóreas canções de Afroditas engrinaldadas
de algas...

Montes e vales, vales e montes, faz bem percorrer aqui estes religiosos recantos, estes
saudosos retiros onde parece que o passado, que tudo o que está longe, que tudo o que está
remoto, ilusões e eras, tudo aí se veio refugiar e vive um momento agora da nossa presença, da
nossa alacridade, do nosso humor, que nós nababescamente derramamos por todas as
paisagens, entre estes pássaros que cantam e voam, purificando-se no Azul, como os palpitantes
pássaros alados do inquieto, do vertiginoso Espírito.

Encantaria ser pastor, para galgar esses penhascos solenes, para subir essas alcantiladas
serras e ver borbotar delas a água fresca em finos e prateados fofos vaporosos de espuma,
abundante, em turbilhões impulsivos porejando virgem das origens recônditas, como grande
força represa, insubmissa e elementar da Natureza, rebentando e surgindo das profundas
entranhas rijas da terra e dominando, enchendo, avassalando a amplidão do ar.

Encantaria ser pastor para ir, cedo, na luz, campo em fora, peludo e florestal como Pã, no
vigoroso esplendor de sangue da força de um touro novo, por entre a exuberante luxúria vegetal,
apascentar os mansos rebanhos alvos de arminho das nostálgicas ovelhas, que balassem
desoladamente, numa compunção evangélica; e conduzi-las, após, ao redil, já tarde, na roxa
melancolia das tintas da noite — enquanto a lua, fluida e fria, nevasse as tenras culturas e
subisse então infinitamente ao céu — e enquanto, à distância, longe, no ermo, uma leve e
flutuante fita de voz se desenrolasse, esvoaçasse e perdesse ao longo e ao largo pelas
quebradas, na mais harmoniosa e apaixonada cantiga!

Ah! Roma antiga! Ah! Grécia! Ah! Paganismo! Quanto melhor não fora pecar na primitividade dos
instintos e dos impulsos, alma espiritualizada no ideal abstrato, existência votada aos cultos
soberanos da matéria e tendo para equilíbrio no requinte da calcinação do entendimento, o
requinte da elaboração do sentir e do gozar — aberto em chamas no sangue, aberto em chamas
nos nervos, aberto em chamas na carne — até ao supremo aniquilamento final, no qual a morte
era como uma nova espécie transcendental de concupiscência e lascívia mais requintada ainda,
por isso que era original, desconhecida inteiramente para esses que a experimentavam.

Antes nascer e morrer num leito de rosas, amando e gozando rosas, coroado de rosas, como um
romano ou como um grego, no mais virtual e mítico paganismo, do que ter-te a ti, vida consciente
e disciplinar, como a tremenda esfinge de pedra, colossal e terrível, sufocando, esmagando a
seiva, o ímpeto, uma corrente de desregramento animal que há no fundo de todo o organismo,
no fundo de todo o temperamento.

E é por isso que dá um instintivo desejo de pastorear e que se sente uma emoção do mesmo
modo instintiva quando essas imaculadas existências campestres, rudes mas angélicas e sãs na
sua casta nudez de sentimentos, nos sulcam a alma como um clarão, a iluminam e a cobrem de
esplendor, desdobrando-nos ante os olhos estupefatos, como opulentas, riquíssimas lhamas
rutilosas de diamantes, as magnificências reais do mais profundo e germinal Amor!

Impressões

ATRAVÉS DAS VERDEJANTES COLINAS DO SUL, a noite de São João tem a graça pitoresca
de uma animada pintura, tornando vivo o clarão de amor das cousas adormecidas ou mortas nas
recordações passadas.

Ora é numa beira de praia, ora é num trecho de rua que se passam essas cenas de costumes,
esses episódios característicos, cheios de um encanto virgem, que afagam a nossa memória.

Desceu a noite já!

É num luar de junho.

As verduras, pulverizadas de luz, escorrendo prata líquida, numa crua irradiação branca,
reluzem com a nitidez e brilho dos alvos flocos de neve.

Para lá da terra firme, além de uma curta divisa de mar manso, navegável em canoas, num
ponto em que os olhos distinguem claramente bem, uma aragem fresca, leve, como um sopro
musical de flauta campestre, afia nos canaviais viçosos que se agitam suavemente.

Porém, na rua, umas vozes cantantes, cheias de mocidade e frescura, gritam alto, sonoras:

— Olá João, anda cá! Hoje é teu dia. Viva S. João! Viva S. João!

E o João, um rapaz que passara assobiando, jovial, franco, na alegria da sua alma chã, entra
numa venda, paga vinho — um vinho cor de topázio bebido entre a algazarra dos companheiros
e os bruscos entusiasmos do taverneiro, que faz tinir as moedas, todo risonho, na gaveta do
balcão.

— E as canas, João, e as canas! — repetem as vozes.

E o João paga de novo e de novo a algazarra cresce, os vivas, as aclamações, os prazeres


acesos nas almas desses bons rapazes, como as bichas e os buscapés que eles soltam nos
largos, por troça, em meio de muita gente reunida, dispersando e alvoroçando tudo, entre
galhofas e risadas. Mas a noite de S. João dobra de encantos e de enlevos.

Agora, fogueiras crepitantes estendem a sua ardente chama, loura e alegre, na frente das casas,
dourando-as. Agora, a rapaziada, crianças saltam as fogueiras; velhos de cócoras ou sentados
em redor contam uns aos outros histórias cabalísticas de bruxas e almas do outro mundo, e,
aquecendo-se do frio da noite, esfregam confortavelmente as mãos, fazendo às vezes ressoar
no claro ar sereno a nota cristalina de uma cantiga de ritmo simples, como motivo da festa,
tremida e repinicada na voz, misteriosa e cheia de saudades amadas.

Agora são as novenas nos lares — as velhas novenas que de tão longe vêm na religião, como
ainda um doloroso soluço atormentado dessa fanática e sonâmbula Idade Média...

Numa sala, ao centro de um altar armado em dossel, resplandecente de luzes, de alfaias, de


jarras azuis e de flores, S. João Batista, com o seu rosto roliço e doce, destaca, sorrindo, de um
quadro de moldura dourada, em estampa, do fundo de um nimbo cinzento, cabeleira crespa,
faces coloridas, abraçado ao cordeiro manso, que olha para a gente com os seus olhos
pequeninos, plenos de docilidade e de paz.

E, depois da novena cantarolada numa lúgubre melopeia, a rapaziada cai na arrastação dos pés,
e dança, gingando, com os voluptuosos requebros e bamboleios quentes da raça.

No intervalo das danças, bebe-se Carlsberg e comem-se belos bons-bocados saborosos que
cocegam aperitivamente o céu da boca, e as brancas ou rosadas cocadas, em forma de estrela,
que lembram a Bahia, tal é o paladar do coco de que elas são feitas.

No meio disso tira-se a sorte, numa espécie de consulta ao destino: para saber se morrerá cedo
ou tarde, se casará, se terá este ou aquele desejo. Passatempo esse que dá às pessoas que
nele tomam parte um contentamento e uma felicidade que iluminam as fisionomias, remoçando e
fortalecendo a velhice e consolando de esperança a todos.

No fim desse contratempo e das últimas contradanças de grandes e frenéticos galopes, todo o
mundo volta para casa, tarde bastante, no frio silêncio hibernal da longa noite já sem lua, mas
estrelada, de um amarelado tom esmaecido de madrugada cor de limão.

Nem mais um só ruído notável do prazer se escuta na rua.

Apenas, a essa alta hora, um ou outro foguete tardio, ao longe, aqui e ali, como esquecido
elemento da festa ou indiferente conviva que chega tarde, estala e brilha no ar saudosamente.

Croqui dum excêntrico

DIANTE DO NOME deste excêntrico, dum brilho feérico de fantasia, desenrolado aos meus
olhos como tapeçaria de Beauvais, lembro nitidamente o remoto Oriente: a Turquia, a Arábia, a
Pérsia — todos os povos muçulmanos, que têm a frouxidão dos nervos, a elasticidade de
membros de raças decadentes, em todas as suas especiais funções fisiológicas e manifestações
psíquicas.

Principalmente a Pérsia lembra-me a indolência, a morbidez orgânica deste Excêntrico — a


indolência que não constitui, no entanto, defeito fundamental, ausência de qualidades singulares
de espírito, mas que antes representa uma maneira de ser na vida — muda abstração na qual o
pensamento é um grande pássaro viajando nas mais altas regiões, inacessíveis à vontade da
matéria.

Com o seu ar fidalgo, que lhe dá, através dos finos vidros claros do pince-nez, as linhas e a
distinção correta e douta de um sadio e forte estudante da Universidade de Bonn ou de Oxford, o
Excêntrico parece viver apenas numa flirtation de ideias, numa despreocupação de touriste e
num diletantismo fatigado de artista boulevardier, a quem as asperezas e arestosidades do meio
emprestaram já as findas cores carregadas e pungentes do pessimismo — conquanto na
transparência dessa despreocupação aparente, ele analise, perceba e sinta passar, como entre
uma luz difusa, o corpo vivo dos positivos fenômenos naturais.

Na verdade, esse amargo pessimismo que os artistas anglo-saxônios e eslavos beberam, como
numa dorna onde se houvesse purificado num vinho negro o sentir e o dolorido pensar de várias
gerações; esse pessimismo torturante por vezes nos livros de Schopenhauer e Hartmann,
especialmente nessa transcendente Filosofia do Inconsciente, parece prendê-lo também ao
ceticismo mórbido de Murger, de Nerval e Chatterton e de tantos outros artistas queimados pela
flamejante chama interna de um desejo nunca realizado.

Mas esse pessimismo, feito de germanismo e eslavismo, tênue, fluido, sutil, que entontece
capciosamente, insensivelmente, como os glóbulos microscópicos do álcool que fica no fundo do
copo de um russo envenenado pelo niilismo e pelo rum, esse pessimismo, se o Excêntrico o
possui, não lhe tira, de resto, a bizarra, a garrida forma do espírito leve, fino, a iriante graça de
abelha.

É que ele, contudo, por entre a variabilidade do tempo, não perde as latentes atitudes nervosas
do seu temperamento, acordando dessa pérsica indolência para gozar a Arte, para sentir e para
amar a Arte.
Num centro antagônico do desenvolvimento e fulgor do seu espírito estético, na aridez dos fatos,
numa atmosfera onde um ar livre de ideal não circula no sangue, um sangue fremente, rico, não
gorgoleja nas veias e as turgesce, o Excêntrico lembra um cactus, uma rara flor nascida no gelo,
alva na vastidão das fulgurantes neves, dando, entretanto, uma encantadora poesia serena de
pitoresco e originalidade a toda a amplidão do terreno.

Ou, então, para abrasileirar mais o símile comparativo, lembra também uma dessas simples
parasitas brancas, flores pensativas e melancólicas que rebentam dentre pedras, florindo
virginalmente para o azul, indiferentes à rigidez do granito...

O seu estado de morbidez intelectual, que parece, por humorismo sombrio talvez, corresponder
a um estado comatoso, é como a aparência de certos céus turvos, nebulosos, não obstante
carregados do ouro flamejante do sol e do intenso azul, que de repente aparece em nesgas,
como um prenúncio de aurora, através de fuscos, floculosos pedaços de nuvens que se vão,
lenta, demoradamente esgarçando... Depois, outras nuvens, mais pesadas, mais densas,
correm, como cortina de brumas, sobre esse ouro de sol e esse azul, voltando então tudo às
primitivas névoas eternas.

Alma êxul do Espaço, triste às vezes, decerto, mas dessa alta e excelsa tristeza e magoada
nonchalance de velha águia real de cabeça pendida e parado voo, como que adormecida,
sonhando dolentemente a melancolia do Azul...

Assim é, assim será para sempre esse meditativo Excêntrico!

Névoa de emoções, debaixo da qual estão o sol e o azul de uma ideia, que se descobrem, bem
poucas vezes, para determinadas observações delicadas sentirem; cinza fria de afetos debaixo
da qual arde a radiante, rubra constelação de um anelar do espírito, cuja complexidade o
entendimento comum dos homens não apreende nem percebe.

Natureza calma, contemplativa, que a placidez das montanhas e os aspectos quietos,


remansosos do campo pacificaram, ele se apura e delicia na nobre convivência, na grandeza
mental dos livros, onde a espiritualidade e o esmalte da forma pedem a atenção dos sentidos
civilizados.

A casa

PERTO DO MAR, junto às velhas e carcomidas muralhas musgosas de uma antiga fortaleza, em
redor da qual cresce a erva como a hera que alastra os pórticos de um solar em ruínas, há uma
tosca vivenda dentro de um pequeno cercado de espinheiros e miúdas e coloridas rosas
agrestes.

Aí arborizações luxuriosamente sobem para o alto, numa alacridade de vivos tons de folhagem.

Na rusticidade dessa vivenda, todas as tardes, numa ilha verde do Atlântico, eu vou gozar o
incoercível sentimento humano do amor, olhando o mar sulcado de embarcações, calmo, brando
de leite, como um luxuoso e pesado damasco azul, e olhando os ocasos incomparáveis do sol
solene que mergulha num ouro infinito, através das montanhas.

Para ali vou gozar o sentimento incoercível do amor, que emociona e exalta, faz nascerem e
viverem em mim, desprenderem para longe o voo, indefiníveis águias do pensamento.

E eu não sei que fluidos serenos se exalam dos nossos corações e se encontram; que há em
nós a mais harmoniosa simpatia congênere de sentimentos.

A doçura lirial da palma de sua mão, quando eu a aperto nas minhas, passa-me inteiramente a
sua alma em eflúvios, inteiramente, com a recôndita emoção afetiva de todo o seu ser — e,
nesses instantes, seria pequeno o mar, tão grande, que lá está fulgurando e cantando diante dos
nossos olhos, e o céu, lá em cima, amplo e azul, para conter tão intensa e consoladora ventura.

Então, assim, só com ela, eu desejara bem estabelecer lar, fundar casa — não sobre alicerces
de pedra e areia, mas sobre o alicerce profundo das nossas almas. Fazer da casa uma canção
eterna, uma simples tenda de irmãos, arejada pela comunicativa e mútua afinidade suave do
afeto dos dois, e que cada um, na preciosa singeleza do gosto, firmasse a lei do viver, a lei de
amar, a lei de ser feliz, deixando fluir, fortalecente e livre, o amor — como um fio d'água subindo
e descendo montes, descendo e subindo vales, regando ervagens, fartando a sede à terra e
fartando a sede aos que erram, sob sóis ardentes.

No íntimo desse conforto, no supremo egoísmo desse sentimento, da vida exterior apenas eu
gozaria as aves meigas e afagadoras, que voassem, d'asas abertas e ruflantes, espalmadas no
espaço, arrulhando sobre o nosso amor; os navios que passassem, eretos, na ideal e fugidia
correção dos mastros, velas brancas tufadas, quando o mar está rosetado das arestas do sol,
picado de agulhetas de raios, como uma fulgurante tapeçaria chamalotada; o crescente da lua,
frescura salutar, subindo, meigo, numa ternura de poma cheia e afagadora que aleita os eternos
peregrinos e os sequiosos eternos, fria, silenciosa, na soturna paz da noite; as ridentes veigas
que se estendem para os lados, além, verdes, em raros veludos, na planície infinita...

Depois a morte aí me viria colher, aí seria para mim como uma leve mudança fácil de sonhos, a
viagem para o abstrato ideal, transformação passageira, enfim, ascensão de voo perdido no éter
transluzente...

Mas, acima dessa perspectiva que eu gozasse e sentisse em torno da existência, que o seu
olhar sobre mim radiasse, fulgisse, resplandecesse, protetor e angélico, com o misticismo, a
suavidade dos astros...

Para isso, porém, bastaria, bastaria para isso, que essa recíproca afeição tivesse sempre o
encanto, a limpidez e a graça original, a vegetal candidez de flores que se leva por uma doirada
manhã de presente a alguém. Bastaria que uma música só fizesse o acordo de dois corações,
como muitos aromas reunidos dão ao olfato uma só sensação. Não bastaria, certamente, sentir
dentro de nós uma igual similitude de enlevos e de cuidados: seria preciso que ambos se
percebessem, se completassem, se identificassem nessa similitude, como edificação moral em
que cada um trabalhasse, conjunta e compreensivamente, para o outro. Seria mister viver numa
absoluta homogeneidade de entendimentos e afetos — como as aves que pousam nas
romãzeiras e nos pessegueiros em flor, têm, cada uma, todos os dias, a mesma homogeneidade
inefável nas gorjeações e no voo...

Assim, a casa, dessa forma, bem fundada e perfeita ficaria; e, sol, harmonia e perfume, canções
de amor e de mocidade, subiriam alto no tempo, adoçando todas as coisas, pacificando a
existência dos dois, como uma grande bênção e um grande perdão podem trazer messes de
felicidade e misericórdia à consciência de muitos.

Ao contrário disso, tudo terminaria enfim para ambos.

A vegetação que ao redor daquelas regiões, fora das proximidades da vivenda, viça em arbustos
rentes como em terras da Palestina, pareceria murchar, definhar, secar e acabar para sempre; e
os ramos d'árvores, pela manhã enxameada de pássaros, perderiam toda a sonoridade dos
trinados; e o mar, bucólico e épico, que tem às vezes o seu som profundo, as graves e
harmoniosas imponências catedralescas de órgão, circunvolvendo em ondas toda essa
habitação de amor, como uma ronda poderosa que guardasse raro e fabuloso tesouro
escondido, — o mar ficaria então semelhante a um surdo e cego a quem são indiferentes
belezas virgens de paisagens, enroseirados trechos de colinas, madrugadas, auroras e noites
estreladas, peregrinos cantos melodiosos de pássaros e trinados cantos matinais de raparigas
do campo indo à fonte encher os cântaros d'água.

Sem poder jamais fundar a casa, dirigir a casa, dar-lhe o claro, gradual desenvolvimento de um
livro, tudo, afinal, em mim, esperanças e sonhos, de repente se esvairia, como esses opulentos
ocasos undiflavados, tintos de prata e sangue, que na turva neblina crepuscular das tardes
esmaecem e morrem... E a alma alegre do meu ser, como uma fresca e fina flor de neve,
definharia no Esquecimento e na Sombra; e na minha boca, como na boca dessa criatura
amada, os sorrisos e os beijos morreriam logo, como plantas estioladas a que os fortes verões
abrasadores crestaram fundo as entranhadas, enraizadas origens...

O senhor presidente
(Desterro)

O SENHOR PRESIDENTE vai chegar, vai chegar o senhor presidente.

Por toda a parte da terra pacata e simples os senhores burocratas, os senhores políticos de
ambas as parcialidades, e o povo murmuram: O senhor presidente vai chegar, vai chegar o
senhor presidente.

Boatos locais correm parelhas, vitoriam e martirizam, conforme o caso, desprestigiosos ou


honrosos, a pessoa ignota do senhor presidente.

Homens e mulheres, à maneira de necromantes deitam pareceres, opiniões, como numa mesa
de jogo se deitam cartas ao azar: será alto, gordo, baixo, magro; usará cavaignac, será louro,
terá suíças, será moreno, ou usará simplesmente bigode, ou não terá barba nenhuma?

Os provincianos não sabem. Calculam, estabelecem semelhanças, fazem paralelos, comparam


o presidente fulano, o presidente sicrano, etc., e o nome do senhor presidente que deve chegar
no paquete do dia, desenrola-se de todas as bocas, flexivelmente, invariavelmente, dando
impaciências e febrilidades à massa anônima que o quer ver já ao pé de si, saber-lhe os tics,
como veste, se é bonito ou se é feio.

Mas lá no fundo do horizonte plúmbeo destaca-se um vultinho, por ora sem forma, vago, indeciso
e nebuloso, como uma bola negra.

Porém, à proporção que os horizontes se desfumaçam e as montanhas somam saliências


azuladas e contornadas, transparentizando-se então os variados aspectos das cousas em
consequência da onda de luz matinal que agora ilumina e faz viver tudo, a bola negra avulta
gradualmente, veste as conformações que lhe dá a luz da manhã caindo eterificada, diluída em
prata no mar, destaca-se, afirma-se e, todos, algumas senhoras e cavalheiros que assestam o
binóculo para lá, e o povo, apinhado no cais, curioso e alvoroçado, exclamam: É o vapor, é o
vapor; aí vem o presidente, aí vem o presidente.

Que tal será, seu Barbosa, perguntam uns indivíduos, você que entende isso de política?!

E o seu Barbosa, homenzinho hirto, franzino e magro, conhecido por muito engraçado, de boas
chalaças e que estava placidamente a olhar o mar, volta os olhos para estes indivíduos,
endireitando e puxando para cima, desafogando do pescoço o alto colarinho brilhante, como não
cabendo na honra e no orgulho da consulta que lhe fazem e da competência que lhe dão em
assunto tão palpitante e melindroso, dizendo com importância: Homem, isto de presidentes
médicos não é lá para que digamos. Todo o mundo bem sabe que ele é médico; ora, é muito
capaz o nosso cidadão de quando a província precisar leis fazer-lhe receitas. Não aprovo um
facultativo no governo da província.

E o seu Barbosa, rindo, gingando com garbo e discretamente, para não perder a sua linha de
sensatez, foi indo para outras rodas, inchado de bazófia, supondo-se imortalizado pela sua
opinião.

Então aqueles indivíduos insuflados por aqueles argumentos, banais e atrabiliários, sem cor e
sem retidão, deram-se mutuamente os pêsames de não haverem tido há mais tempo a ideia tão
original e exata sobre o senhor presidente. Mas um som rasgado e metálico de cornetas ouve-se
ao longe: é a guarda que vem fazer honras do estilo ao senhor presidente. Chega ao cais, ao
mando do superior e aguarda as ordens, formada, porque o paquete aproxima-se já, entra no
porto, fundeia entre baforadas alvas de fumo, apitando.

E, do lado da capitania, do lado da polícia, da alfândega e do trapiche geral parte uma fila vileira
e alegre de botes, de escaleres, repletos de gente, leves e alígeros como golfinhos, os escaleres
com os seus toldos brancos debruados de vermelho, os botes com as suas velas em verga,
enfunadas, de bandeirolas e galhardetes no topo do mastro, aproando ao paquete, na alegria e
no colorido brunido da manhã, às frescas aragens salutares que afiam do norte. Após a visita de
bordo, o senhor presidente aparece no tombadilho, na doçura e na nitidez da paisagem marinha,
novo como uma surpresa, de estatura regular e curta barba redonda e preta, parecendo feita a
riscos de fusain, e pince-nez nos olhos profundos e graves. É abraçado e saudado no meio de
muita palavra balofa, com falta de S, S, cheia de perdigotos, de alguns senhores funcionários
públicos que se atrapalham e coram. O senhor presidente toma então o escaler que lhe é
destinado e embarca com os correligionários e algumas autoridades da terra.

Logo que o senhor presidente se aproxima do trapiche, o povo murmurinha, sussurra, gesticula e
olha vagamente, com uma interjeição pregada à cara: Qual daqueles será, vêm outros estranhos
no escaler da polícia.

Efetivamente com o senhor presidente vêm outras pessoas. Passageiros, amigos do senhor
presidente talvez. Mas o povo está frenético; sentem a prurigem da ansiedade. Ah! dizem uns,
há de ser aquele ali, à direita daquele sujeito baixo de pince-nez — aquele alto e louro, de
chapéu de castor branco, fino sobretudo claro no braço.

Sim! Sim! É esse naturalmente, é aquele mesmo, confirmam outros, logo se vê pela figura
importante e pelos trajes.

Mas o senhor presidente chegava ao cais, saltara já com os seus companheiros. E a curiosidade
crescia, crescia como uma onda muito alta que avassala e alastra tudo.

Porém a multidão se desiludira afinal a respeito do seu modo de ver sobre o qual era o senhor
presidente; porque agora o senhor presidente é cumprimentado, apertando-lhe a mão, dizendo-
lhe coisas sepulcrais, tristes de espírito: Cumprimentamos a V. Ex.ª, felicitamos a província, etc.

E o povo vê então que o sujeito de pince-nez e sem mais elegantes maneiras de toilette é que é
o senhor presidente.

Já daí nasce uma dúvida sobre o governamento que ele poderia dar à província.

No entanto o senhor presidente com o seu amplo olhar de médico conhece de um só golpe de
vista qual a doença étnica desse povo e qual o diagnóstico a fazer-se.

Os soldados que aguardam a presença do senhor presidente, fazem sentido, braço armas,
apresentar armas, enquanto o senhor presidente passa, baixo e moreno, enxergando através do
seu pince-nez de vidro claro, como de uma larga vitrina aberta ao sol, todas as aspirações e
necessidades da terra.

O senhor presidente é transcendentalista. O seu espírito latino, incomensural e vasto como o


mar donde acaba de vir, tem a larga solenidade austera das catedrais babilônicas do mundo. No
cérebro do senhor presidente cabem todas as grandezas e todas as elevadas nobrezas mentais.
Nunca a terra tivera na gerência dos seus negócios tão transcendentalmente ilustre e preclaro.

O franco ar iluminado que vinha de sua erudição, da sua serenidade anglo-saxônia, fazia
impressão rude e brusca nos patriotas, nos dissidentes de pequena política, a ponto de tomarem
o senhor presidente por selvagem.

A imaginação popular pensou jamais poder compreender o senhor presidente; se atordoava e


entontecia como sujeito que leva à noite numa esquina forte pedrada na cabeça sem saber de
que lado partiu.

E o senhor presidente vivia num modesto luxo burguês e clássico de palácio de província, numa
vida de fábula como um deus fantástico cuja ausência provocava ateísmos e anátemas,
exorcismos puros, mas cuja presença acabrunhava e desarmava a todos, tal era o respeito que
lhe vinha debaixo do pince-nez dos seus tranquilos olhos de filósofo, como um poderoso e
desconhecido fluido do magnetismo animal que, sem saber como, tendo sobre o povo as mais
inabaláveis e prontas influências, imobilizava-o, transformava-o em mudo, um mudo e
automático eunuco.

O senhor secretário

O SENHOR SECRETÁRIO está sentado à mesa do trabalho e faz os papéis do seu mister oficial
com uma letra espichada e magra, como pernas de inseto.

O senhor secretário também é magro, de uma magreza natural e estética, tendo o rosto, como
um pergaminho, estrelado de miudinhos sinais de sarda.

O senhor secretário veste com certa elegância que, num golpe de vista rápido, não parece de
todo provinciana.

Há mesmo um discreto tic de parisianismo na forma do seu chapéu em forro, verde-garrafão, um


tanto afunilado, armado em cone, de abas quase direitas, colocado em cima de uma estante em
que há jornais velhos.

O senhor secretário está na sua juventude valente e florida e tem um enamorado jeitinho
patrício; diz-se até que ele vive na flirtation das belas jovens de cuja sociedade faz parte; e,
como na sua linda cabeça meridional há uma provável calvície e o senhor secretário quer
parecer sempre bem às mulheres, deixa cair para a testa, desde a nuca, uma grande pasta
castanha perfumada a Orisa e a Ilan-Ilang.
Traz ao pescoço, à maneira dos rio-grandenses, um fourlard a listas estreitas e de cores
variadas que parecem significar os tons cambiantes do ideal que o senhor secretário abraça.

De vez em quando para de escrever, e abre, com uma espátula de marfim, as folhas de um livro
de tipo elzeviriano, impresso em papel melado, com filetes e delicadas bordaduras na fina capa
de granito e apenas com dois frisos dourados na lombada.

São versos.

Depois abre a gaveta de verniz rosé da sua secretária e tira de lá um outro livro, volumoso, mas
não de tão elegante luxo de arte como o primeiro. Folheia-o. Lê uma passagem, alto, para uma
pessoa que está à sua direita.

É O Primo Basílio.

Oh! o senhor secretário é literato?! Parece que sim...

Ele tem um precioso paladar estético, muito celta, e goza então a delícia de ler o Eça.

Esse artista incomparável tem para o senhor secretário a alta importância, quase cultual, de uma
adoração.

O severo estilo impecável do Primo Basílio dá ao senhor secretário uma grande vitalidade
mental, ampla, larga, que o inunda de sol.

Nunca esse livro admirável sai das burocráticas mãos do senhor secretário, tão amado e
contemplado é ele.

Os trechos mais delicados, os tipos mais característicos, as descrições mais fotográficas, de


mais pompa e esplendoroso vigor de estilo passam e tornam a passar na retina psíquica do
senhor secretário, intermitentemente, como vistas vivas e brilhantes de um gigantesco
Caleidoscópio.

A paisagem da Escócia, vivendo fundo no livro; o Visconde Reinaldo, esquelético e finamente


elegante e crevé, murmuram e vivem nas ideias do senhor secretário numa forte chama sideral
de astro.

Ah! que suntuoso e que nobre, ser-se o senhor secretário.

Na verdade há um límpido ar de conforto na repartição em que ele está! Um ar fresco e lavado


de marinha, de capitania do porto.

Deve bem ser agradável, sem dúvida, fruir ali, desde as 10 horas, o expediente encerrado às 3.

Que o mesmo senhor secretário, na atmosfera clara da arejada sala verde, rodeado de cartas
geográficas, de tabelas de sinais, fazendo a escrita com uma bela tinta azul muito fluida, sobre o
vistoso e polido papel oficial com os troféus de armas da Nação, como um brasão nobiliário, e
tendo a alegria touriste de viajar os olhos pelo mar que freme perto, o senhor secretário parece
gozar um céu exclusivo, ter um paradisíaco Te Deuni de felicidades.

Quem o vê fazer soar cristalinamente o tímpano a fim de que se dê cumprimento a qualquer


ordem superior, de que se expeça qualquer papel, tem-no por um pequeno príncipe gentil
(porque o senhor secretário é de pequena estatura) coberto de opulência e cuja hierarquia o
mundo constela de glórias supremas.

Feliz, no entanto, sem essas apoteoses, o senhor secretário vive cantando e sorrindo à limpidez
do seu espírito desabrochado e reflorido com a virgindade das rosas que abrem à beira mar...

Nicho de virgem

LOURA, numa frescura de prados atravessados de luar, de madressilvais floridos ou, morena,
tostada a pele virginal de fino fruto aromado, assim é que eu te vejo dentro do nicho da tua
alcova, quando, no alto do teu claro palácio, uma janela me aparece iluminada na noite.

Bem por vezes o firmamento suntuoso d'estrelas espalha no silêncio da natureza uma irradiação
eucarística de sacrário e no meu ser viva chama de emoção.

E, bem por outras vezes, uma estrela, só surge com um brilho aceso, coruscante, pelo
firmamento tranquilo, quando eu, amorosa e instintivamente, olho a janela do santuário em que
tu às vezes na noite apareces, como se olhasse a estrela em cima.

E fico a meditar, languidamente, nos linhos, nas bretanhas e cambraias finas dessa alcova, nas
painas alvas do teu leito, onde a tua vida de astro resplende na nudez da carne.

Fico a meditar nessa serena beleza que brilha e canta na capela mística do Amor, num nicho de
prata e esmeralda, com o esplendor das Virgens, por entre ritmos e timbres diamantinos e
verdes.

Idealizo logo majestosos salões iluminados, ondulosas, vaporosas nuvens de valsas, amantes
entrelaçados, num noivado de aves, por exalações de aromas voluptuosos, inebriando-te,
fascinando-te em sonhos o cérebro delicado.

Um véu tenuíssimo, como que tecido de névoas, pende-te candidamente da cabeça enflorada e
radiante; tens suntuosidades e linhas harmoniosas de harpas e elances augustos, etéreos,
idealidades soberbas e sonhadoras, de arcanjo, cujas níveas e transluzentes asas vão
desprender voos inefáveis, celestes; os teus olhos fulguram com tão incomparável fulgor e toda
a tua formosura desfere uma luz tão original, tão imaculada, tão nobre, que parece que as
graças, os infinitos encantos, as eternas mocidades, só de dentro de ti, da tua carne, auroram.

E, na penumbra fidalga do nicho onde repousas, entre lustres e candelabros, esse vulto
valquiriano, essa sombra doce de balada, formada das espirais d'incenso do teu próprio sonho,
se esvairá, se apagará, como o último cintilar da luz no cristal dos lustres e candelabros.

E aí ficarás, só e dolente, fechada na treva da tua alcova, no cárcere de chumbo do sono, com
as curiosas seduções e os eletrismos atraentes de veludosa serpente de volúpia, à espera que o
sol, esmaltando a alta e branca janela do teu palácio, venha abrir-te os olhos no nicho das
cambraias e das bretanhas; à espera que o sol, fabuloso dragão de asas consteladas,
desprenda os seus voos majestosos e rufle sonora e fulgentemente as asas sobre o teu corpo,
surpreendendo-te a luxuosa florescência carnal e deixando escorrer das asas, sobre ela, como
finos vinhos de ouro, cálidos e palpitantes, das Estrelas das Vindimas, o pólen claro e virgem
das supremas fecundações — ó formosa e frívola Divindade que com os tentáculos magnéticos
e fascinantes da Carne estrangulas o mundo...

Aroma

MANHÃ CLARA, cristais de luz, que parecem ter finas vibrações de sonorosos clarins no ar...

Uma dessas manhãs líricas, aromadas, de um azul apaixonado...

Alta, loura, esguia, o perfil nervoso, destacado ao sol com a nitidez, a correção de gravura em
aço, vem subindo a areada alameda das violetas e jasmins, dos resedás e lilases de antigo
parque famoso, na toilette fofa e fresca dos climas quentes, meio-dia em dezembro, à fulva
irradiação do calor.

De toda a sua estatura nova, lirial, exala-se brandamente um peregrino perfume, um aroma
delicioso de campo enroseirado, quando o luar acorda as culturas.

As madeixas caprichosas, lânguidas serpentes do sol, preguiçosamente se lhe abandonam, em


carícias luminosas, sobre as aladas formas, arcangélicas, das espáduas de ouro, de marfim e
rosa; o colo claro esplende na brancura macia de penugentos veludos, fascinantemente
desnudado para o tecido enlaçamento dos braços, para o chamejante estrelejamento dos beijos.

Toda a linha suave do seu perfil encanta, atrai os sentidos; enquanto o olfato penetrante,
delicado, sutil, talvez por um requinte artístico de sensualidade, busca-a, procura-a, percorre-lhe
o corpo todo, a rósea, áurea carne cheirosa, como infinidade de irrequietos e sequiosos faunos.

E tudo o que dela vem, a emanação virginal dos seios e da sua boca, parece fecundar a luz de
frescuras imaculadas, purificar o aroma das Cousas, inebriar o som.

Como que o ar onde cintila a auréola resplandecente da sua formosura recende embalsamado
do feno fresco dos prados, fica banhado em ambrosias, em nardos, mirras e sândalos orientais.

Experimenta-se rara sensação esquisita, que dilata, sensibiliza os nervos, dá agudas


vibratilidades, intensos espasmos de luxúria, quando o olfato mais a sente, mais se aproxima
dela, tateando-a, tocando-a, absorvendo-a, como se o olfato só para ela palpitasse...

Há um deslumbramento de gozo, à flor do decote lácteo do seio, entre os cetinosos rendados e


os folhos luxuosos do corpete, um aroma impoluto de aristocráticas magnólias trescala,
adocicado e morno.

E há também o mesmo, ou maior deslumbramento ainda, quando, numa graça de ave, ela abre,
rindo, a boca.

Então, não só da boca, não só do seio, como de toda a aveludada alvura daquele ser, evola-se
um eflúvio de forças virgens, a suprema beleza em auroras flavas aflora.

Delgada, ágil, com histerismos de mulher felina, faz idealmente lembrar cinzelada ânfora
d'incenso; marchetado turíbulo de prata, de onde, para o alto, alam-se claros, alvos fumos
puríssimos e sacros...

E, sempre que o olfato iluminado, atilado, sente, longe ou perto, o aroma casto, inalterável, da
loura resplandecente, é como se ela, então, de repente vicejasse, florescesse na frescura
cheirosa de suntuoso pomar de frutos e alvorecesse em rosas ou em flores níveas e afrodisíacas
do Noivado, majestosamente nua, de dentro de um tálamo branco...

A milionária

TODOS OS QUE TE VEEM PASSAR, ou passeando o olhar através dos brancos luares
tranquilos, ou, pelas tardes de março, indo às pitorescas digressões costumadas e elegantes, a
algum pic-nic de rapazes do tom no teu coupé ou na tua victoria puxada por vistosos e lindos
cavalos do Cabo, — os que te veem passar exclamam a meia voz e com respeito, com
solenidade:

— Oh! como esta senhora é milionária!

Na verdade, essas pessoas não mentem.

O irradioso luxo das tuas toilettes de verão e de inverno, de um alto ar nobre e aristocrático,
enchendo as ruas por onde passas de uma majestade principesca, lembra as fulgurantíssimas
pompas orientais, perto das quais o sol parece triste e desmaiado tal é a prodigiosa onda de luz,
de perfume e encantamento que nelas faz explosão e ruído...

E o teu formoso chalet, de altas janelas para os ares frescos, engrinaldado de rosas, de heras e
madressilvas, com incrustações de marfim como os chalets chineses, cantante e alegre ao sol,
como é artístico e raro!

E o teu parque, o teu parque, largo e doce, de tanques cheios de pequenos peixes de prata e
vermelhos, que pulam n'água estrelando-a de irradiações sulfúreas; de esquisitas aves de toda a
parte do mundo, desde o pavão, que vem da Ásia, colorido e ovante, até ao melro e o rouxinol
da Europa e até aos sabiás da América do Sul, que cantam nas palmeiras; de árvores grandes e
graves, viçosas, que murmuram luxuriosos salmos de amor na sua folhagem rica e farta de seiva
— o teu parque, milionária senhora, tem a placidez, a vasta serenidade do conforto das
riquezas.

Realmente, tu és milionária. Tem razão o povo.

No entanto, entre essas qualidades possuis uma outra, que parece destoar do caráter geral da
tua pompa.

És caridosa, muito caridosa, tão caridosa mesmo quanto és rica.

Muitas vezes os teus sentimentos de mulher ilustre, preclara, têm sido cantados em prosa e
verso, em prosa seca e desalinhada e em verso ainda pior do que a prosa. E tu, sentindo no
ouvido o velho tom clássico daquela frase banal que diz "Valha o desejo se não vale o canto", lês
os jornais, orgulhada e embevecida dos dizeres chics, encomiásticos, sentada na tua chaise-
longue ou na tua conversadeira, na sala amarela de reposteiros também amarelos, cheia de
bijouteries, de estatuetas de Saxe, de cristais de Sèvres, lembrando todo esse requinte e
galanteria da arte de Luís XV e da Pompadour.

E ficas vivamente enlevada, tocada de um eflúvio de grandeza e opulência bizarra, abandonada


a mão fidalga e polposa, de transparentes unhas rosadas, sobre o regaço que treme debaixo do
roupão claro e em tufos na frente, entremeados de fitas azuis e rendas.

Não obstante, apesar do rumor e da luz que sai do teu ouro, me parece a mim, rica senhora, que
tu não és caridosa. Pelo menos ia eu jurá-lo.

E senão, vejamos. Prodigamente ofertas quantias aos clubes de dança, aos jockey-clubs, aos
clubes de regatas, ao lírico, aos concertos, aos jornais de modas, a todo o mundanismo
elegante das belas cidades de estilo e de élite. Mas tudo isso que fazes é com rubros cartazes
de ostentação, é propalado com reclamos espetaculosos, a mise-en-scène mágica da tua
vaidade.

Mesmo os hospitais, as sociedades de utilidade pública que socorres com a tua bolsa,
inesgotável e poderosa, não é por um simples impulso emocional, simpático, de uma risonha
compreensividade, mas sim por um chiquismo, um certo aplomb oficial das naturezas criadas,
desenvolvidas na atmosfera fácil da riqueza.

Depois tu serias profunda e evangelicamente caridosa se eu próprio nada soubesse das tuas
magnanimidades. E eu não tive ainda a suprema delícia de sonhar, ao menos acordado, que
entras obscuramente numa casa onde há crianças famintas e maltrapilhas e aí deixas uma bolsa
cheia de ouro, sem um sinal qualquer, sem os teus brasões, sem o traço azul da tua filiação
genealógica de sangue, se é que és baronesa ou condessa.

Porque tu só praticas a caridade pela apoteose gloriosa, triunfante do teu nome.

E tanto é assim, que, no dia seguinte a uma magnanimidade tua, toda a gente te vê nas ruas e
nos bairros mais populosos da terra a mostrares a tua pessoa, moça e formosa, como uma
vitrina se mostra, aos olhos ávidos e espantados do transeunte inexperiente das maravilhas do
mundo, um originalíssimo brilhante negro.

A caridade tem para ti a influência de um perfume raro e forte que, aspirado persistentemente,
perturba e excita os nervos.

É uma espécie de ópio ou de haschich árabe que te permite ter alucinações, deliciosas visões
fantásticas e sonhar com cousas paradisíacas, com galgos e genuflexões de indivíduos de
curvatura flexível e leve.

E o que tu pareces sonhar vê-lo realizado pelos jornais, por pessoas que falam em ti com
adoração, com respeito, quase com medo; pelos Srs. deputados, ministros, conselheiros e toda
uma ala luzida de titulares, que te tiram o chapéu a grandes e amplas barretadas adulatórias,
todos eles refulgentes de triunfo, por terem ocasião de te saudar sempre e por serem os
primeiros que aparecem nos teus chás cavalheirescos, pondo-te açúcar na preciosa xícara
dourada aberta em preciosos lavores.

De volta aos prados

VENHO DA PAISAGEM.

Acaba de me entrar um largo jorro de vida pelos pulmões.

De andar todo o dia através searas e prados, entre giestas em flor, finas, frescas e fofas
papoulas rubras, campos verdes e floridos de rosais, trago o aspecto um tanto rude e campônio,
tenho a linha pitoresca e viril de um rural boy.

A fim de me arejar do pó da cidade levei para a natureza virgem dos campos, de onde volto
agora, um livro espiritualizante.
E nada mais encantador e sereno do que esse pic-nic de bom humor e de verve que eu acabo
de fazer, sob as árvores, como um druida, debaixo de tetos verdes onde as aves cantam,
sentindo, na frescura da seiva, os vegetais virem à carícia morna do sol.

Nada mais de sentimentos nostálgicos, de vagos nevoeiros de spleen.

O ar salubérrimo da paisagem, pondo-me nas carnes a elétrica sensação do sangue alvoroçado,


despertou-me a intensa, a profunda, a complexa fibra sonora da Arte.

Porque eu não sei de cascatas de ouro de lei, de portentosas riquezas nabábicas, de luxos
asiáticos, os mais extravagantes e majestosos, que possam apagar na imaginação dos
verdadeiros artistas as impressões que se recebe de uma bela prosa estilada, certa, onde a
palavra esboça, desenha e colore todos os variados e complicados assuntos da vida, como que
fotografando a luz, o perfume, o movimento, a cor.

Na natureza de cada objeto, na essência de cada ser, há, nos livros que se propõem a mais
alguma cousa do que divertir, e a agradar mas a convencer, a impressionar, a comover pela
psicologia e a análise, uma resplandecente verdade que ilumina de um largo clarão de filosofia a
consciência do escritor.

C o m nuances diversas, como fitas de fuzis, os livros acusam sempre a maneira literária,
sugestiva de um temperamento, pondo-lhe à luz a excitabilidade nervosa das personalidades
desenvolvidas num dado meio, amorosas, apaixonadas, tendo, para cada expansão da vida,
além de um espírito seguro, impulsivo, uma qualidade de sentir, de ver, de assimilar, de discernir
e de crer, a mais estética e delicada.

Nós, que estamos cá para a América do Sul, parece-me que ainda não nos podemos
compenetrar bem, com toda a profundidade e largueza, desses grandes sentimentos afetivos
que, filtrados do cristal da alma, passam, na mais graciosa e límpida forma literária, para umas
tantas páginas de livro.

Porque é preciso fazer transplantar para a escrita aquilo que sentimos, com toda a expressão do
colorido, com toda a gradação de tons, com toda a crua exposição do real; — do mesmo modo e
com a mesma intensidade com que o ar nos tonifica o sangue e nos dá movimento, ação, a
todas as funções do organismo.

Agora, porém, é que vêm rompendo uma floração de talentos, artistas do Atlântico, mais
complexos, mais dúcteis, com toda a delicadeza da expressão e o colorido de cinzelada forma
— artistas preocupados da correção suprema, que num trecho de prosa fazem vibrar os seus
nervos, palpitar a vigorosa força dos seus músculos, resplandecer a flamante aurora vertiginosa
do seu sangue.

Esses são os impressionistas, os coloristas, os estilistas, dando à escrita a intensa vibração dos
órgãos humanos, fazendo da linguagem o mais prodigioso aparelho que, como um estranho
instrumento de ouro, brilha nos nossos olhos, canta nos nossos ouvidos, impressiona e
sensibiliza a nossa alma.

Todo o processo literário depende, primeiro que tudo, das tendências, do caráter objetivo do
escritor.

E, quem conseguir ter ideias gerais das cousas e souber dispor de elementos de observação e
análise será necessariamente um escritor, dentro dos limites do seu alto dever artístico, pintando
a natureza como a natureza se apresenta, e dando a cada assunto, a cada particularidade a cor
e o estilo que cada assunto e que cada particularidade pedir.

Assim far-se-ão escritores e não máquinas reprodutivas de toda uma natureza morta, de todo um
cliché de ideias por bitola, e isso para o bem, para a inteira perfeição da Arte.

Investigação

O QUE ELA PENSA de ti não é nada gentil e não é nada amável. Tu fazes versos. Ninguém
sabe se os teus madrigais, se os teus idílios rimados nadam diluídos no éter ou servem de
harmonia à garganta de algum pássaro. Ninguém sabe disso. Mas o certo é que tu fazes versos,
lindos versos, sonoros versos musicais e frementes, que dizem toda a história do coração, todos
os episódios da alma humana.

O teu modo de vibrar as estrofes é natural e fluente, e exprime bem o estado do teu ser, penetra
nos organismos, tem toda a comunicabilidade sutil e delicada como um excitante perfume.

Incontestavelmente possuis algum oculto veio de sol no cérebro! Porque, na verdade, tudo isso,
florescente e radiando, que te surge assim do pensamento, não pode vir apenas do sangue. É
necessário um outro elemento mais poderoso e intenso para te inflamar, exaltar assim de poesia
e esse elemento, é, sem dúvida alguma, o sol...

Contudo, isso, assim como num enxurro que as chuvas carregam para os rios vai muita coisa
inútil e pode ir também muito brilhante e muita pérola, no jorro de luz da tua imaginação vem às
vezes, como ironia aguda, muito morto elemento de verso fútil, que passa e que vai embora, ao
mesmo tempo que se sucedem os mais heroicos e bravios leões da ideia...

E é de forma tal o teu espírito, que o teu nome poderia constelar de glória qualquer página de
história sem o mais tênue ridículo.

No entanto, são bastantes todas essas qualidades para ela te aborrecer e preferir a ti o mais
banal e ínfimo dos homens.

É certo, porém, que tens obtido dela firmes provas de afeição: os anéis de cabelo, os mais
sedosos e belos; os olhares, os mais apaixonados e ardentes; as frases, as mais convencedoras
e amantes.

Mas tu esqueceste que o coração ilude quase sempre, esqueceste o coração dela, não lhe
perguntaste nada, não o dissecaste como a um querido cadáver, porque ai! o coração das
nossas amadas é quase sempre um indiferente cadáver gelado.

Nada indagando, enfim, do coração da tua morena ou da tua loura, deixaste-te ir boiando na
embaladora onda dos seus beijos e das suas carícias, dormiste sobre essa onda, a sonhar, e
acordaste nas aflições e nos desesperos do naufrágio...

Oh! oh! dirás, este senhor escritor entra-me pela alma a dentro como se entrasse por uma sala
deserta... É exato que ela me tem iludido algumas vezes, mas tão poucas vezes mesmo que até
nem me dei ao trabalho de contar, nem valeria a pena fazê-lo...

E esse senhor escritor te responderá: Não, não acertaste por esse lado. Se ela te tem enganado
tão poucas vezes, que não te deste ao trabalho de contar, oh! dói-te de ti mesmo, errante louco
do amor! porque se não consegues te enumerar todas as vezes que ela te iludiu, é que tantas,
tantas foram elas, que o teu brio aparenta ou a tua consciência de forte se envergonha de o
confessar...

Esta é que parece ser a verdade tremenda, esmagadora, que te comprime e achata o cérebro. E
se não crês, vejamos.

Ontem ela viu-te passar, a "tua eternamente", como ela mesmo te diz nas suas cartas. Tu não a
viste. Ela estava à janela, e, assim que te aproximaste, ocultou-se. E por quê? Não te adora ela
tanto?

Mas é que tu te não lembras que vinhas com companheiros, amigos, rapazes como tu, e, entre
eles todos, eras, não o mais feio, mais o mais pobre de toilette.

As tuas botas tortas e rotas faziam-te escorregar na calçada, dando-te a aparência dúbia de
bêbado. Tu não pisavas firme, não tinhas elegância como os outros, e isso oh! perdoa, mas a tua
amada não podia suportar nem desculpar sequer. Ah!

Ah! doía-lhe mais isso na vaidade, certamente, do que se soubesse, nesse mesmo instante, que
tinhas acabado de morrer.

Parece-te demais isto, não? Pois escuta ainda.

Hoje há um grande baile de luxo num clube da capital. Foram expedidos convites a toda a gente
fina e ilustre. A ti ninguém julga ilustre; e se alguém te julga fino é apenas na magreza da luta
pela vida que te enruga o semblante num brusco movimento de dor, quase numa picaresca
momice. Mas, como tu andas pelos jornais, em espírito, e os senhores sócios do clube, supondo-
te um imbecil, "contam com uma notícia floreada sobre a festa", como eles dizem, tu alcanças o
teu convite, bem certo de que ela irá, e simplesmente por causa dela.

― Para isso vais consultá-la. Ela diz-te que irá com certeza, sem se es quecer de te fazer sentir
que vai por teu respeito, por valsar contigo, para estar perto de ti. E, não obstante os seus olhos
dizerem o contrário, não obstante afirmarem que vai para ver os outros, para divertir-se, tu, com
todo o teu poder de espírito e verve, ficas preso nas capciosas malhas dessa fidelidade de
momento, mas em que tu absolutamente crês, e vais ao clube, alegre e triunfante, como os
vencedores.

Lá, ninguém sabe que tamanha nevrose experimentas, que ficas excitado, bebes demais,
começas a tontear no solo das contradanças, não por causa das botas tortas, porque nesse dia
tiveste o cuidado gentil de calçar um Milliés elegante, mas pelo álcool que te sobe então à
cabeça em espessas e atordoantes névoas de vapor...

De repente perdes o equilíbrio num galope e cais bruscamente no assoalho. Todos te cercam e
dão-te socorros que o acidente requer; mas a "a tua amada para sempre", essa, deixa-se ficar a
um canto, no vão da sacada, pelo braço do cavalheiro, pálida e trêmula, é verdade, mas do
susto apenas, tendo logo o cuidado de dizer: — Que inconveniente! Quem o convidaria? Eu nem
o conheço, é a primeira vez que o vejo.

E tu, desfigurado, abatido depois de mais calmo o teu estado fatal, voltas para casa com uma
agonia de despeito e de vergonha que te insufla de soturnos soluços abafados toda a
concavidade do peito.

E se isto não basta ainda, se te não convence, ora ouve lá então...

No dia seguinte, tu, com o corpo mole e quebrado como se te houvessem esbordoado com
chibatadas de junco, com o paladar azedo para tudo, deixaste-te ficar em casa, e, incendiado por
um ciúme que aplica tenazes em brasa nas carnes — profundo ciúme despedaçador nascido do
ridículo que pusera em ti aquele fato, e dos indivíduos que ficaram ainda no clube a gozar a
beleza da tua amada, tu lhe escreves umas linhas emocionadas, quentes, cheias de febre da
paixão, desculpando-te o mais hábil e convencedoramente possível daquele incidente
involuntário, dado apenas pela vertigem de adoração que ela te inspirou no clube.

Porém ela, recebendo a carta, impassível e fria, não a abrirá, não a lerá, rasgando-a.

E o portador, já teu conhecido, que leva a resposta e que viu, de olhos arregalados de espanto, a
tua amada rasgar a carta na sua presença, tendo dó de ti, porque sabe o tormentoso amor que
tu votas a ela, te há de dizer que ela leu a carta com desvanecimento, com interesse, à sua
vista; e que acrescentou mais até que não escrevia já naquele momento por estar muito nervosa
em consequência de um pobre, esfrangalhado e sujo, que lhe foi pedir esmola logo pela manhã,
atrever-se a apertar, beijando-a, a sua mão delicada.

Tu, então, vendo nisso a graciosa maneira de reatar uma afeição que parecia perdida,
acreditarás no portador; e apesar de todos os teus grandes sentimentos, por ti mesmo
apregoados, maldirás no íntimo esse miserável pobre que te impediu de receberes logo a
desejada, a querida resposta da tua carta.

E, assim, andarás, dessa amada para outra, ontem, hoje, amanhã, como em três pesadelos da
vida, jogado para lá, para cá, como um corpo morto, no mar, ao embate das ondas entre recifes
— sem quereres admitir que o que ela pensa de ti não é nada gentil e nem é nada amável; sem
acreditares que tu és para ela nada mais nada menos que um pequeno cão bravio, que late e se
arrepela às vezes, mas que serena, amansa logo, desde que o tacão ou a ponta de uma bota se
levanta no ar ameaçadoramente.

Psicose

RITMOS DE CRISTAIS aristocráticos; harmonias veludosas de órgão; nostálgicos, neblinosos


violinos; maravilhosas sonatas tudescas de um sonâmbulo luar; sons dispersos, inexpremíveis
da Noite! está diante de vós o cruciante fantasma da minha Dor!

Ele persegue-me eternamente, como um vigia que eu tivesse dentro de mim! E eu o sinto
horrivelmente escancarar a boca, e rir, e rir, numa risada pungente, dilacerante, como a das
figuras dantescas que o funambulesco Doré criou.

É a comédia negra, a comédia das torturas psíquicas, que ri, porque a sua faculdade de chorar é
rindo, nuns esgares bufos, numa ironia musical de Offenbach.

Ah! são precisas lâmpadas de entendimento para descer aos ergástulos sombrios, lôbregos de
certas almas, para ver-lhe o fundo tenebroso onde a Dor sempre cavou a fonte das lágrimas.

Tudo o que essas almas manifestam para fora de si, são apenas efeitos, esmaltes de sol, que se
apagam logo que a luz na altura se apaga.

O que realmente existe lá dentro é uma densa poeira triste de desertos caminhados em
desolação, onde a figura torva do tédio fica ao alto, num relevo de bronze, na eterna gravura do
humorismo.

Flor de luxo das civilizações requintadas, flor doente, o tédio espiritualiza-se, recebe a contextura
da prosa, entra na concepção e no estilo.

É como o personagem ideal, alegre e doloroso ao mesmo tempo, o personagem vermelho e


negro, o Mefistófeles fantasioso que, sob as estrelas, sabe peregrinamente cantar, para que
algumas almas solucem.

Olhando para dentro de certas naturezas nem sempre tudo é claro, de uma luz larga, ampla e
vivamente palpitante como o mar ao sol.

Há pontos obscuros, turvos, nebulosos, espécie de mundos de ideias ainda em gênese, em


formação e que às vezes não chegam nunca a desenvolver-se.

Aspectos vagos de chuva e sol, quando, entre a leve cintilação da luz, caem as neblinas, os
nevoeiros, a chuva, apresentando à visão um brando tom impressionista de clarão e de sombra.

Assim és tu, nobre natureza das ideias que eu amo!

Tu te fortaleceste nos combates, te avigoraste e reuniste em ti a força, a alegria nova dos


campos lavrados, quando os primeiros rebentos começam virginalmente a florir numa
intensidade de verdura.

Em ti — natureza das ideias — deu-se o mesmo que nos campos: a charrua era forte, o aço era
fino e lampejante e poderia bem lavrar terras abundantes para que o veio original do espírito
surgisse, viesse, raiasse a flor.

Mas, ante essa força e alegria nova de campos, raramente deixa de perseguir-te, de avassalar-
te, — nobre natureza das ideias que eu amo! — esse duro tédio que, como a invasão de um
budismo nirvanamente religioso, lança-me venenos letais nas veias.

Em vão, em vão às vezes o meu sangue flameja, como uma aurora boreal de reação contra essa
noite fria, glacial, apagada d'estrelas e rijamente cortada de uivos convulsivos de ventos
epiléticos...

Luz e treva

NÃO SEI QUE LUZ estranha ilumina os espíritos superiores; eles refletem cousas
extraordinárias que os seres vulgares nem sequer percebem, cambiantes de mágico brilho,
fulgurações de astros incendidos no céu através a bruma transparente distendida no espaço.

Nessas imaginações esplêndidas, que parecem continuamente mergulhadas numa


fosforescência translúcida, há incêndios de sóis, rendilhados jasperinos de espumas, colorações
de astros e flores, diafaneidades de gozos indescritíveis; há risos de auroras, prantos de orvalho,
rios de lágrimas, céus de alegrias, noites de tristezas, oceanos estrelados de amor, tempestades
de ódio, eternidades de agonia; há envergaduras de heróis, reflexos de mulheres divinas, corpos
aéreos de criaturas sobre-humanas!...

Há um mundo, uma natureza além das cousas terrestres superior a todas as cousas, em que
vivem deuses fabulosos, arcanjos e sombras, que a vulgaridade não conhece.

É a grande visão do imenso olhar do talento, que se debruça para dentro do próprio cérebro, que
reverbera como um grande foco elétrico, deslumbrado, refletindo visões que pairam no
pensamento, aureoladas e fúlgidas, como as cousas sublimes que o escritor transporta à tela
incomparável dos seus quadros fantásticos, luminosos...

Só os cérebros apagados não sabem ver assim; só os que não possuem o reflexo da luz
suavíssima e aurifulgente das auroras do pensamento, só eles não podem ver, na cinza escura
da sua esterilidade, as grandes telas esbatidas e enfeixadas de raios, estrelas, e sóis dentro de
infinitos azulados e tranquilos; é que na escuridão vazia e tenebrosa que eles têm em si, nada
distinguem, nada compreendem, porque não lhes chameja a imaginação, essa peregrina
centelha acendida no cérebro como um grande farol na imensidade, essa luz fertilizante que vê
as cousas inauditas que nos deslumbram; é que eles têm dentro do crânio a maldição da treva a
esterilizar-lhes a mente, a mergulhá-los na sombra implacável do vácuo e do nada!

Volúpia...

A CHUVA CAI LÁ FORA, ininterrupta, em torrente fria...

Uma tinta escura entenebrece o ar. Não se vê mais o sol. O grande sol flavo, original
Fecundador, não surgiu hoje das nuvens, não raiou, com a sua prodigiosa luz.

E a chuva, assim torrencial nesta manhã de outubro, dá-me um afrouxamento aos nervos, uma
infinita lassidão, um torpor que voluptuosamente sensibiliza...

Que continue a cair lá fora a chuva, morosa e nostálgica, nessa viuvez triste de melancolia,
numa cadência, num lânguido ritmo.

Não sei por que vaga, abstrata expressão dos horizontes, ao longe, das horas dormentes deste
dia, eu amo fidalgamente a chuva que cai dos altos espaços.

Quisera estar agora, na indolente filosofia de um faquir, com a luxúria e o luxo de um mandarim,
numa larga sala de mármores brancos, ouvindo a sonoridade da água que desce das brumas e
ouvindo músicas aristocráticas, sonatas convulsivas e dolentes e místicas de Beethoven, que me
enlevassem, a pensar, a pensar, organizando com delicadeza e curiosidade ideias imaculadas.

E que a chuva, fora, caísse, jorrasse, cantasse em amplos, largos, claros, frescos pátios sonoros
ladrilhados de verdes mosaicos.

Ou, então, quisera bem, numa igreja silenciosa, ouvir ao confessionário, como os sacerdotes
católicos, as femininas almas amarguradas e virgens, que me dissessem, numa pureza de veio
original, na linguagem de luz que só os astros devem cristalinamente possuir, os secretos
dilaceramentos e ansiedades, as obscuras e inquietantes paixões que como áspides ardentes e
caprichosas alvoroçam e mordem de nervosidades, de êxtases, nos paroxismos do delírio
genital, as alvoradas brancas das Noivas adolescentes.

E, contemplativo, absorto, desejara, do meio de velhos e austeros palácios renanos, ouvir,


sublimemente, comentar Schopenhauer, dentre um fundo meditativo de bruma germânica, sob
retalhante, fuzilante humor a Heine; ou, senão, num evocativo transporte, ver passar, desfilar
diante dos meus olhos, fagulhante e em pompa, empoada, numa esfuziante coquetterie e
ostentação fabulosa, a brava Corte fascinante e faustosa de Luís Quinze, na linha dos ritmos
donairosos, dentre os meneios fidalgos do minuete — cintilante colmeia de sol, de onde se filtrou
outrora o divino mel da graça e onde essa voluptuosa e luxuosa Pompadour tentadoramente
reinou, esvoaçando, ágil, trêfega, com a sua volubilidade e favoritos encantos de grande e
deslumbrante Abelha funesta e cor-de-rosa.

Desse modo, então, tudo na minha imaginação ficaria deliciado, pelo esplendor e bizarra
galanteria nobre das mulheres, como por esquisita essência finíssima de ambrosia, de formosura
e sol.

Assim concentrado, alheado de tudo, como que vagamente entontecido pelos vapores
quiméricos do vinho alvo de um luar de Idealismos, ansiara infinitamente gozar todos os Grandes
Amados, os curiosos sensibilizados do Pensamento e da Forma.

Gozá-los nas suas vivas páginas evocativas, sagradamente, com emoção e paixão, incendiando-
me nas suas chamas, perdendo-me nas suas lânguidas e extravagantes Arábias de Sonhos,
subindo aos seus crepitantes delírios, às suas alucinações e crises nervosas que a mentalidade
gera, mergulhando com intensidade, com profundidade, nas suas poderosas sensações.

Assim, penetrado de emoções tocantes e luminosas, eu vivamente sentiria a alegria espiritual,


voluptuosa, de viver e todo o meu ser viçaria logo numa triunfal beleza radiante de grandes
rosas escarlates.

Poderia a chuva insistentemente cair! Eu experimentaria, no religioso e cativante silêncio da


minha reclusão mental, uma sensação íntima, preciosa, original, que me vibrasse, despertando a
mais delicada tensibilidade nervosa, o frêmito, o alvoroço d'asas, os caprichos d'arrebatamento
de voo de pássaro selvagem, ao sol do mar largo, e o ressurgir inefável de certas
sentimentalidades passadas...

A carne

PARA NÓS, que estamos sentindo, como numa grande calamidade de legenda, a carestia da
carne, a sua fabulosa inópia, a visão da felicidade toma aspecto de bife de grelha, sangrento,
alapardado numa porcelana de frisos doirados, entre as franjas louras das alfaces lavadas,
macias, frescas, deliciosas...

Adormece-se ao entorpecimento de um dia mal alimentado; tem-se sonhos terríveis de


voracidades espantosas, entrevendo através de mil estiletes agudos de uma barreira de
dificuldades, as pomposas polpas de carne rubra, fascinante como um sorriso de madona, sob a
roupagem amarela e tênue da gordura fresca, oleosa...

Mais além, na planície verdurosa e banhada de córregos múrmuros, a boiada ofegante, coleando
na pastagem rica, mastigando e mugindo, como numa antecâmara de guilhotina, à espera da
hora em que terá de entrar para o talho...

São as visões cruciantes do caminheiro abandonado num deserto de areias, ressequido e estéril,
a ver, na vigília causticante, no sono, as límpidas cascatas em borbotões espumarados, jorrando
as massas líquidas, irisadas, de um pedregal entre selvas, marulhado de ondas e bafejado de
coruscantes brisas, por uma fresca e iluminada manhã outonal, do sul.

Mas como num acordar de sonho, alquebrados, famintos e triturantes, ao volver os olhos à
realidade, eis-nos deparados com a lamentável e furibunda inópia: a dessa farta iguaria que os
deuses chamariam o seu manjar, em terras da América, mais ricas do que os campos da
Austrália. E uma grande tristeza, alastrada de lágrimas, em nossos olhos rasos se desenha,
como numa noite de inverno, ao viandante friorento, em torno de uma fogueira apagada!

O que estamos sofrendo todos, na sequidão devorante dos apetites dilacerados pela ignomínia
da carestia que nos tortura, é uma cousa inaudita, semelhante àquelas antigas calamidades
bíblicas, dos tempos dos Faraós, pela penúria dos trigos.

Pode-se dizer que o bife está transformando o caráter nacional. Já não se encontra quem tenha
no rosto a expressão da alegria sã, com um sinal evidente de um povo repleto e farto; toda a
gente nesta terra parece triste, por essa espécie de alta inopinada da carne que, mais avara de si
mesma que a libra esterlina, ou não vem aos mercados ou apodrece à porta dos açougues, mas
não se deixa ir para a mesa de qualquer, se não a peso de ouro e destemperado como um
acepipe alemão.

O horror da fome já nos apunhala a alma; porque tudo que em nós não é fome, é mágoa pela
escassez do bife, pelo adelgaçamento da pança, pelas torturas das vísceras, que pedem beef!

Daqui a mais alguns dias, se não abranda a carestia, seremos apenas isto — a fome!

Os felizes

NO BAIRRO ARISTOCRÁTICO duma aprazível cidade do sul da América, quem mora lá ou


quem viaja para lá há de ver uma elegante habitação pitoresca, ao rés-do-chão, graciosa na rua
arejada e larga, entrançada de heras e de roseiras que alastram pelas vidraças e pelos telhados,
transformando-a num nicho de viçosa e tufada verdura.

Nos lados que deitam saudavelmente para o mar erguem-se pombais, onde pombos alvadios,
de peito oválico, entram e saem, numa revoada alegre, ruflando a branca plumagem das asas e
ternamente arrulhando, como num tom de soluços, amorosas baladas que só eles conhecem.

Uma habitação colocada num trecho fremente e confortador de paisagem, recebendo a frescura
marinha das praias, o bom cheiro acre da maresia, bem certo é que parece um castelo feudal
medievo, na Alemanha, entre árvores velhas e enevoadas. Só lhe falta a montanha alpestre e o
rio azul fluindo e gorgolejando nas penedias.

Mas, à falta do rio azul, tem a caprichosa morada um pequeno ribeiro que vai, a uns tantos
passos de distância, em estrias de prata, gemente nas suas águas tranquilas.

Ah! aí nessa vivenda deve existir a felicidade!

O casal que lá mora não pode ter mais conforto, mais bem-estar, melhor graça na vida.

A mulher, ménagère alemã, ativa e prática no mister do seu ménage virtuosa, fiel como poucas
— um belo tipo de nobreza grega, esbelto, de uma plástica doce, linha direita de imperatriz da
Áustria, formosa como se se tivesse gerado da luz.

O marido, quase um lorde, satisfeito nas toilettes finas, muito sportsman, sempre num belo
cavalo fogoso e claro d'espuma, de crinas cetinosas que o vento agita e faz tremular nos
galopes, ao sol, como delicadíssimos filamentos de astros.

À noite, quer haja luar, quer não; quer a lua surja, redonda e glacial, quer haja apenas estrelas, a
música consoladora soa ali, através dos stores verdes, em partituras alemãs, em scherzos e
melancólicas sonatas. A orquestra que se escuta dentro é executada por um curioso terceto de
instrumentos: é o piano, o violino e o violoncelo — almas apaixonadas que murmuram
sonoramente todas as alegrias e amarguras das notas.

Mas, ah! egoístas da felicidade!

Esses pequenos concertos a négligé, feitos entre o chá da noite, sem diletantismo, são ocultos e
misteriosos.

O gentil casal fecha discretamente todas as portas da sua linda casa e encerra-se com a sua
música dentro de uma sala, como Luís da Baviera e Wagner, sozinhos, dentro de suntuosos
palácios reais.

E, olhando de fora, através dos stores verdes, descidos nas janelas, entre a luz também verde,
coada da sala para a rua, os olhos e a alma, embevecidos, enlevados, extasiam-se diante
daquela atmosfera de paz e de afetos, perfumosa e confortável, onde as harmonias, como uma
água fresca muito fina que flui ou como prantos arrancados de cítaras saudosas, se evolam,
sobem alto, muito alto, até onde a nossa fantasia não poderá voar jamais.
Dá veementes desejos de amar, de abrir os braços, num êxtase, a um ideal qualquer, tal é o
inefável ritmo penetrante de suavidade que sobe desse retiro sereno, banhado de um misticismo
casto de sacrário, onde parece que devem viver e cantar as lendas nevoentas dos Niebelungen
todas as almas virgens dos seres apaixonados, contemplativos e comovidos, sonhando quimeras
no alvo regaço das suas valquírias de neve.

Então, assim como essas provas irrefutáveis que a gente sente em redor de si, como que se
afirma logo que há nesse casal uma duradoura felicidade de céu claro, firme, perfeita e eterna
como a morte.

Mas, entretanto, não vos assombreis, não duvideis um instante, ó iludidos felizes do mundo! se
alguém vos for dizer que esse casal divorciou-se porque o alemão, num doloroso momento,
encontrou a altiva ménagère entregue à pecadora lascívia de outro — daquele, talvez, que ele
acreditara incapaz de inspirar afeto a quem quer que fosse, e de quem, por julgá-lo tão ignóbil e
fútil, não se daria a honra de ter, ao menos, nem piedade, nem ódio, nem compaixão sequer.

Natal

À HORA MATINAL, das borboletas brancas e do lirial desabrochamento das rosas, cedo na luz,
quando havia ainda uma espécie de oscilante névoa luminosa nos ares, dando uma translucidez
aos aspectos e espiritualizando os longes — good morning! — salta fora do leito! Adeus
atarracadas casarias tumulares da cidade, adeus ruas estreitas, encaminhadas e lôbregas como
corredores de convento, adeus por um dia e vamos para o campo.

A luz, duma finíssima e branca fulguração, dava vivas tonalidades da prata às perspectivas.

Rios de prata sonora; verdes de paisagem com suavíssimas nuances de prata; curtos e
coleados riachos de prata; colinas e montes polvilhados de uma leve rutilância de prata; e ao
fundo, destacando na linha geral do campo, o mar, fúlgido, calmo, cinzelado num esmalte
d'águas, como vasta e polida baixela de prata para dar de comer às nereidas e às náiades.

Dentro e fora, na cidade, ficará em brilho o Natal.

E as casas, numa radiante alacridade de primavera, como se o sol, à maneira de uma


champagne de ouro, as tivesse alvoroçado e por elas se derramado em cascata; na garridice de
presepes, de bibelots, de árvores luminosas e coloridas, garrulavam de risos, de alegria, de
flores e vaporosos riachos espumantes à mesa do almoço e do jantar, nas comunicativas horas
simpáticas do lar, quando em torno à querida mamã, morenas e louras crianças cor-de-rosa, de
cheirosa carne macia, meigas e delicadas, para o fino pincel maneiroso de Lobrichon ou
Geoffroy, são os mais encantadores frutos e as mais risonhas festas do Natal.

E eu tive como presentes e festas a vastidão do campo, entre a natureza solene e as grandes
árvores revestidas de folhagens como de ilusões, mais vigorosas e verdadeiras do que as
simbólicas árvores do Natal, porque naquelas corre a livre seiva impetuosa da força vegetativa
que maravilhosamente desenvolve os troncos, faz infinitamente brotar a folha e o fruto.

Indo para o campo, como um pagão, farto da materialidade da forma prática da vida em cidade,
— cidade fusca, pesada, cor de terra da Arábia, — eu simples, banalmente não fui contemplar,
mudo, num êxtase muçulmano de dervixe, a natureza verde, rindo em tudo a luz, surpreendendo
em tudo o aroma e cantando em tudo o colorido.

Não fui para consultar os sombrios monges dos troncos, para que eles me revelassem toda a
evolução do mundo, que é, nativamente, em essência, a genuína, a clara evolução do amor.

Fui, para que em todos os ninhos das árvores desse campo, tão conhecido e por mim gozado na
infância, os mesmos bicos de aves implumes eu visse, como outrora, abertos e trêmulos de
ansiedade à aproximação maternal dos alimentos, pipilando, balbuciando as notas que mais
tarde haveriam de encher o espaço de harmoniosos sons alados.

Fui, para que esses ninhos, vazios agora de pássaros, eu os encontrasse, como corações
desabrochando em sonhos, derramados na tenra verdura campestre das ramagens.

As árvores, umas, figueiras e nogueiras, laranjeiras a que eu tanta vez subira e vira crivadas de
gaturamos furta-cores, que ao sol tinham fugidios tons de arco-íris, são as mesmas de há bem
vinte anos; e outras, viçosas e reluzentes de folhagem, numa exuberância de força, são
desconhecidas para mim, novas e virginais habitantes que eu estranho ao enfrentar com elas,
mas que entretanto adoro também porque continuam a viver na mesma amplidão fecunda do
terreno onde a minha infância floriu, resplandeceu e cantou...

Assim um coração que ama na vida uma só mulher, não é de todo indiferente às outras mulheres
virgens e formosas, que desconhece, mas que no entanto o perfumam com a esvoaçante graça
de um sorriso e o fascinante enlevo de uma sedução passageira.

Os ninhos caíram dessas árvores amadas, se desfizeram, findaram. Emigraram já para longe os
pássaros: chegou um dia a neve do tempo e enregelou-lhes as asas.

Morreram. Tal e qual o passado em mim, para sempre morreram.

Apenas resta em meio à nostalgia e desolação que me invadem, aquele imenso campo que me
ensinou a sonhar e algumas árvores, já velhas, onde os ventos tantas canções e baladas
desferiram.

Contudo, a esses que pelo Natal recebem ricas e suntuosas festas em deliciosos presentes, e
parecem ficar profundamente satisfeitos e gloriosos, a esses nem mesmo eu de leve me posso
comparar agora, — porque tenho nesta perfumosa e idolatrada recordação, o mais carinhoso, o
mais casto e consolador presente de festas que o Natal me poderia trazer à comovida e
espiritual alegria.
Em julho

CANTANTE SOL e cantante azul impregnado de frescura, de aroma dos campos, sonoro de
alegria e trinados de ave!

Cantante sol e cantante azul de julho! Há agora na natureza um terrestre noivado de rosas
brancas, nas manhãs frias, e um celeste noivado de estrelas brancas, pelas noites claras!

A natureza flori agora em rosas; é tudo um vasto, opulento rosal, como os rosais de Jerusalém,
os rosais de Sião, numa pompa de rosas.

Ritmos de amor afinam as almas numa só esperança e num só desejo e as almas buscam o
tépido, carinhoso aconchego dos ninhos.

Ardam, ardam no grande esplendor das paixões fecundantes, os corações que se amam;
palpitem, sensibilizadas as fibras que se desejam, as carnes que se procuram, os organismos
sãos, felizes e virgens que se completam.

Julho aí está, doirado e frio, luminoso, para fecundar a aurora desses sangues frementes,
desses sangues vivazes.

Desflorem-se alvas grinaldas, esgarcem-se véus castos e, sob a púrpura ardente, sob a chama
inflamada do luxurioso desejo, brote, surja mais tarde um demoninho louro ou moreno, que
encha de encanto tudo, bulhento, garrulador de alacridante vivacidade de pássaro, vindo em
festa, como este próprio julho.

E que tu, belo astro nobre das salas, divinizado na formosura, alta e irradiai, guardes ainda para
mim, por este e por outros julhos, a mirra pura e real dos teus beijos, dentre a melancolia
monástica, a dolência meiga dos teus olhos de monja.

Guarda para mim, sempre, como infinita, indelével primavera, esses beijos imaculados, e, eu,
gloriosamente, das profundas catedrais iluminadas onde celebro o culto deste Ideal, farei brilhar,
faiscar ao sol, sobre os polidos zimbórios elevados, a bandeira vermelha e a negra cruz do Amor!

Símbolo

EM NORTE AMÉRICA, contam as crônicas, um terrível desastre ocorreu outrora nas costas da
Virgínia.

Sobrevindo ali tremenda e trovejante borrasca, como as que tragicamente abalam aquelas
costas, deu-se, além de imensos naufrágios no mar, da inundação da cidade de Norfolk, um dos
mais destruidores e surpreendentes incêndios.

No momento em que um trem expresso, repleto de viajantes, entrava nos campos de Dakota,
uma faísca elétrica caiu sobre os campos, inflamando-os, acendendo neles um estranho, infernal
esplendor dantesco.

Era mister atravessar a zona incendiada; porém a zona era muito mais extensa do que na
realidade se julgava.

O trem, então, teve de parar, decidindo-se, fatalmente, que recuaria. Mas era muito tarde já.

Para trás o incêndio ganhara os trilhos; para diante alastrava cada vez mais, devastador,
horrível, em tentáculos de fogo.

A morte, morte aflitiva, angustiosa, tornara-se, decerto, inevitável.

Os viajantes, batidos, acossados de pânico, lívidos, ansiosos, como se acabassem de ser


desenterrados vivos, apearam-se, como visões espectrais, na mudez sinistra dos pavores
absolutos, tentando salvar-se, alcançar o ar, a frescura, a livre expansão dos pulmões quase
asfixiados.

Em vão! em vão!

Todos os passageiros tiveram de voltar ao trem, queimados, com as roupas em desordem, numa
confusão de derrota.

Então, aí, o terror tornou-se indescritível.

Homens e mulheres, num desespero, num dilaceramento profundo, atravessavam


desgrenhados, com aspecto selvagem, por entre o fumo que subia em grossos rolos, em novelos
densos, empastados, como longas e largas, espessas telas negras suspensas no ar...

Aquilo lembrava avalanche humana, delirante e enorme, quase louca, através de campos
incendiados.

Modelada em bronze, numa ampla gravura, essa palpitante tragédia daria ao genial Doré uma
vasta página assombrosa, como aquelas em que ele pinta, a sangue, a treva e a sol, exércitos
armipotentes, d'armas duras de aço, e báratros avérnicos, formidandos, onde arrojam-se capros,
peludos, cornoides e corpulentos satanases.

Naquela assoberbante catástrofe de chamas tornava-se impossível respirar.


Dentro, no trem, na vasta galeria dos vagões, silhouettes confusas de cabeças e braços
moviam-se, agitavam-se agora, numa ânsia suprema, na cruciante expressão dos enforcados.

Um esforço de maravilhosa coragem, um verdadeiro prodígio de resolução, imediatamente, e


talvez ficassem salvos!

Essa coragem, essa resolução surgiu enfim, triunfal, na alegre, na rumorosa esperança, no
poderoso sentimento instintivo da conservação da vida, como um fio d'água brotando, fluindo de
repente da avidez de uma rocha e dessedentando bocas ardentes e ressequidas que andassem
sequiosas, sob sóis tórridos, por torvos e escalvados desertos.

Era forçoso caminhar adiante. Então, o maquinista deu todo o vapor à máquina.

E durante alguns segundos o trem, colossal, como um formidável animal pré-histórico,


atravessou, numa velocidade vertiginosa, elétrica, os campos de Dakota.

Afinal, decorridos esses pungentes, torturantes segundos, o trem franqueou o círculo de fogo,
ganhando o terreno livre até onde o incêndio não alastrara.

Já era tempo, porque os vagões começavam a arder e os viajantes estavam desfalecidos de


asfixia...

O nervosa mulher glacial e satânica, Lésbia pálida e sarcástica, por quem, no entanto, clamo e
procuro nas horas da concentração do silêncio!

Como esse aterrador incêndio nos campos de Dakota, também um outro incêndio, mais funesto,
mais impetuoso e mortal, absorveu-me, extinguiu-me dolorosamente o coração.

Como um glorioso viajante, um deus original coroado de pâmpanos, ele embarcara um dia numa
locomotiva iluminada, florida de rosas e doirada como as galeras de Cleópatra.

Partira alegre e feliz, a rir e a cantar, na carreira vertiginosa da vida, às conquistas triunfais do
Amor, indo afinal morrer por entre as chamas altas e deslumbrantes do Sonho.

O batizado
(Desterro)

Ao fulgurante talento de Horácio de Carvalho

2° dedicatória: a Gonzaga Duque-Estrada

POR UMA MANHÃ de aromas, cheia de rosas e ouro, em que voavam pombos em voos
triangulares ao alto dos beirais das casas, e os pássaros trinavam festivalmente nos arvoredos
ramosos, um rancho alegre de lavradores descia, em caminho da igreja do sítio e no ruído vivaz
de coloridas conversas, risonhas e cantadas, a íngreme ladeira barrenta daqueles terrenos
agrestes, mais para o lado em que o mar freme e se encrespa à chicotada brusca dos ventos,
nas brancas praias caladas.

Era um rancho em descanso e em festa, um tanto livre dos amanhos das terras e do longo
mourejar dos dias passados, que levava a batizar um filho do seu amor, o gorducho pimpolho
rosado das lavouras do coração, e que lá ia, sorrindo na ternura das delicadas carnes infantis,
cheiroso, perfumado de trevo, contente e fresco como um rosal, de linda touca de fitas escarlates
esvoaçantes na aragem, envolto numa toalha de trabalhadas rendas vistosas, sobre os
orgulhosos braços polpudos da madrinha, rica rapariga de sol, radiante como um altar em maio,
florente como trigais.

O dulçoroso encanto dessa abençoada gente, passando ali, sob o raro calmo damasco do Azul,
através de campos, dava à paisagem uma leve graça pitoresca de pintura aldeã pastoril, ou
lembrava essa tão séria vida holandesa disciplinar e feliz de outrora, em que as pessoas, só com
terem um fértil pedaço de pasto vivo e o bucolismo e o idílio de alguns bois amenizadamente a
gozarem, ou a viçosa horta dentro da simpleza campestre de cercados verdes, eram, para todo o
sempre, consoladamente ditosas e cristãs!

Na margem dos caminhos alvoroçados de rumor e de alacridade vibrante da luz, em


murmurosas fontes cristalinas, cujos finos veios de prata corriam nitidamente estiados, rudes
mulheres lavadeiras tagarelavam, batendo a roupa na pedra, com um estalo seco, à proporção
que interminantemente desenrolavam os picantes episódios de amor e as fundas desgraças
negras daquele sítio, que se desfolhavam e sumiam na correnteza espumante e túrgida das
águas.

O rancho dos lavradores tomava agora por um comprido atalho, fazendo curva, coleando, até
chegar a uma ampla várzea, onde, no tom alvo de uma visão de balada, ficava a igrejinha, muda
e clara no dia, como um símbolo sereno de religião e de fé, na crença e na primitiva paz vegetal
da natureza.

Subiam já, sorrindo e palrando, o curto adro da igreja e entravam na alegria comunicativa do ato
que iam realizar — pura e cândida alegria essa! tão pura e tão cândida mesmo como a infância
que floria no colo da madrinha, — quase mais batizada também pela luz que a acariciava e
doirava então do que pelas católicas águas lustrais que lhe deveriam apostolicamente banhar a
virginal cabeça pequenina.

À volta, após o batizado, na humildade rústica do lar, os chorados repinicados da viola, entre
cantigas esfuziadas, no rosto meigo da criança, aos padrinhos, aos pais, num tropear jubiloso e
fremente, e num alentado e aberto gozo tranquilo de felicidade obtida sem queixas, sem invejas,
sem cuidados e sem remorsos, na pobreza calma e sagrada das suas almas chãs, ante a
lembrança do Senhor do Bonfim e da cera que a Maricas prometera o ano passado para que
aquele bem tão querido, agora alvorecido no mundo, nascesse e se batizasse e crescesse sem
inales, sem dores, são, saudável como os campos que se andavam sachando e mondando por
tantos verões amados.

Não há nem doces nem vinho.

Tão somente, mais quase à noite, no meio dos sonoros guizos dos grilos melancolicamente nas
folhagens mudas de sombra, os ocasos em chamas, tão vermelhos como se houvessem
passado nas nuvens uma enorme esponja grossa embebida e encharcada em sangue, são a
acesa púrpura do vinho com que estas serenas gentes dos sítios apenas se confortam e
aquecem, nas suas festas, dos frios invernos da vida.

Doença psíquica

QUE MAL VOS FEZ A VIDA, ó serenos filósofos, para a encherdes do mais negro Pessimismo,
como de uma treva noturna e dolorosa e de um rio de sangue eternamente caudaloso?!

Para ti, Schopenhauer, a existência é a materialidade, o alimento, para ti, é apenas a


necessidade de prevalecer na luta, a força para a função dos órgãos nervosos, a bem de que se
propague a espécie; — enquanto que para outros, ó sombrios monges do Pensamento, o
alimento é a lascívia, a lascívia da Carne, que fazia, desde os romanos, a carne viçosa e rica.

Basta, para ti, que o estômago metodicamente funcione, na normalidade cronométrica de um


relógio, a fim de que tenhas a positiva segurança de que subsiste aos vermes e à seca
dissecação dos fenômenos da natureza.

No entanto, para outros, o sentimento palatal educado, gozando o requinte das iguarias
faustosas, de incomparáveis gourmandises, as vaporosas luminosidades de dourados vinhos,
apenas, bastam para que os sonhos sejam felizes e o sorriso seja alegre.

Para esses, os alimentos, como no Oriente o fumo, têm insubstituíveis encantos, voluptuosas
graças de viver, que afilam, acendem a imaginação, fazem abrir e flamejar por todos os pontos
do mundo, infinitamente, os mais inauditos sóis do espírito.

Neles, é um fluido, um alado perfume de úmidas bocas purpúreas de rosa, de níveos colos cor
de camélia, de veludosos seios, macios como a alva plumagem fresca de um pássaro real; um
amoroso ansiar de etéreos olhos de estrelas, atravessando em visão, claros e pesados de luz,
com o brilho aceso e ardente de preciosas e raras pedrarias, a quase extinta noite remota das
recordações.

Para ti, Schopenhauer, os seres orgânicos não têm senão o caráter essencial da consciência
vital e representam no mundo, funcionalmente, o mesmo valor dos elementos inorgânicos,
químicos e físicos da terra.

Assim, a pedra, o fogo, o ar, a água, são tantas forças complexas da vida como o homem — ou
labore pelo psiquismo, num século de livros, sob o complicado aparelho da ciência ou,
simplesmente, ame, seja fator da evolução humana, dando a forma do Amor ao princípio
genesíaco da sensualidade.

Por isso, ó egrégio, magnificente filósofo alemão, eu, que no entanto sinto e percebo a sua
radiante e clara verdade, que brilha e fere como as arestas agudas de um cristal, — verdade
aceita pelos homens sob a nebulosa denominação de Pessimismo, — eu tenho tédio, profundo,
supremo, e inesgotável tédio, vendo que a vida orgânica é toda ela adstrita à matéria, e que
apenas, para ser feliz, nada mais é preciso do que ter a estrutura de um forte e belo animal,
premunido de garras para o assalto, de dentes para devorar e com a regular circulação do
sangue para o equilíbrio do coração e do cérebro.

Policromia

A Mauricio Jubim

PINTAR A COR sangrenta da vida, a cor gelada da morte; dizer a dor dos tons, todo o
cromatismo das tintas interpretar, à maneira nova, fresca, original, palpitante, de forma que os
pincéis comuniquem com veemência uma alma à tela, que os coloridos vivam e cantem na
trinalagem vibrante de pássaros matutinos.

Exprimir as tonalidades quentes e possantes, os rubores humanos, o purpurejamento dos


sangues, com tintas acres e com tintas delicadas, numa expressão forte de luxúria ou numa
branda nuance de carne virginal e saudável, onde a aurora das seivas puras resplende.

Pintar toda a pungência latente de uma Cabeça triunfante de vida, perfumada de graça,
idealizada por algum sonho enevoado; dar-lhe, à feição da tua sensibilidade artística, linhas
vagas, fugidias, linhas angélicas e pulcras, firme e fundo cavando-lhe a negro ou a louro a onda
torrencial dos cabelos, dando-lhe luz estrelar aos olhos, sangrando-lhe álacre a massa tenra dos
lábios, traçando-lhe a meia lua dos seios lácteos — gerando-a, enfim, com tintas dúcteis, de
modo que a cabeça surja maravilhosamente da tela, te fascine, te deslumbre e tu a ames, como
se ela possuísse o recôndito sentimento chamejante da Vida.

E, assim, boca, olhos, cabelos, nariz, seios e faces, pintar a claro, na limpidez d'ouro da luz,
banhando a tela de luz, inundando-a de luz, descrevendo as curvas da primorosa cabeça com o
pincel encharcado em sol, no clarão sideral de uma luz ampla, larga, alastrante...

Com esse fulgor de execução, sem os empirismos clássicos, com toda a expansão da liberdade
de sentir e de ver, de traçar, de apanhar os efeitos, de aparelhar as tintas, é que te fora
prodigioso pintar, dum golpe altivo de concepção, fora da tacanhez dos moldes, já célebres
embora, já afamados e já universais, mas por isso mesmo acadêmicos, arcaicos, sem o grito
rubro das grandes revoltas, o clamor agudo das naturezas inquietas que lutam para significarem,
à parte das confusões e leis preestabelecidas, a seleção das faculdades estéticas.

Recluso do ideal, enclausurado, sombrio e mudo, alvoroça-te o desejo vertiginoso de pintar


intenso, de pintar singular, numa virgindade de cores, com toda a escala do íris, com a gama
variada do alvorecer e a indizível cor abstrata de tudo aquilo que te sensibiliza.

Tons violáceos e espiritualizados de crepúsculos ou tons brancos de manhãs diáfanas, com


sonoridade de trompa de caça, branca e fresca também na claridade matinal; sensações
rasadas de carnes impolutas, cheirosas a flor de laranjeira e a leite, excitam-te a pintar
miraculosamente, a distribuir na palheta tintas inexploradas e imortais e passá-las e filtrá-las
para a tela, na execução da misteriosa Cabeça, a tua simbólica ansiedade mais viva, mais
vibrante, através dessa fecunda e fremente paixão da Arte — sempre flamante, em labareda
febril e alta, aberta na tua alma brava e branca como uma sagrada umbela rutilante e vermelha.

Um movimento nervoso, um impulso decisivo e vitorioso do teu pincel imaginativo, donde as


cores jorram como um turbilhonante enxame de colibris e de borboletas iriadas voejando e a
Cabeça, em que meditas e te alagas sonhadoramente em contemplações, emergirá da tela,
lavada em tons puros, nascida do cristal virgem da Originalidade, sem mácula e sem defeito,
numa harmonia de toques deliciosos, imprevistos, vivendo nas tintas castas, viçosas e cintilantes
que lembrem a irradiação do teu sangue primaveril, forte, sadio, latejando nas veias de ricos
rubis de glóbulos abundantes.

Fantasias finas, como silfos aéreos, te fecundarão a palheta com pólenes radiantes; e em torno a
esse símbolo das tuas emoções, com que andas ainda alimentando a imaginação, como um
produto de idealizados requintes, visões em variadas formas de cabeças liriais circularão
anelantes e vaporosas, leves nas infinitas brancuras do colorido inefável, floridas de peregrino
encanto, consteladas por esse Amor dominante da Arte que tudo diviniza e transfigura, cada
uma delas mais nobre, mais bela e mais maravilhosa, rindo, como ninfas na frescura açucenal de
vergéis, dentre a vitalidade, a força juvenil, a impulsiva espontaneidade nervosa da coloração.

Tintas alvas de lírios e de espumas para os cetins e veludos da epiderme; tintas fluidas e
secretas para dar o deslumbramento aos olhos; tintas voluptuosas, purpurinadas, para a
expressão fascinante da boca, para o inaudito e cristalino borbulhar do riso; tintas sutis, flexíveis,
etéreas, para as curvas arredondadas da face, para as linhas cinzeladas do busto a Cabeça que
idealizas tanto raiará, alvorecerá da tela — tão viva e virginal como a sensibilidade do teu
temperamento inquieto, do teu ser errante de beduíno que vaga e cisma na planície oriental
infinita.

Flor sentimental

Prodigioso Santa Sanctorum vedado aos Infiéis, ó mistério sutil da Sensibilidade, envolve-me
nos delicados azuis, nas diluências de magnólias maceradas dos teus diáfanos luares, vibra-me
os vagos e finos scherzos dos teus stradivarius amargurados...

FLOR SENTIMENTAL, que te despojaste, na Morte, da carne maravilhosa, perfumadamente


tecida de jasmins e lírios.

Ó Flor sentimental, que os grandes e fervorosos beijos de uma paixão sacramentada, ungida
nas profundas lágrimas, purificaram para sempre!

Ó Flor sentimental que as imensas caudais de sangue das chagas do sofrimento, da dilaceração,
da angústia martirizante, outrora tanto e tão intensamente orvalharam!

Se é que te podes recompor ainda, ao menos uma vez em sonhos, das essências imaculadas do
teu ser delicado, angélico, surge, aparece e vem trazer a esta existência que se debate, que
anseia nos círculos titânicos das inquisitoriais inclemências, o segredo da crença, que tu levaste.

Dos cibórios d'ouro dos Astros, vem, sidéreo, Sirius sagrado, Vésper clara, clara Vésper
diamantina e matutina e traz-me essa hóstia magnolial e rara, lá dos altos cibórios d'ouro dos
Astros...

Se é verdade que agora reinas triunfalmente, por entre chamas de luz azul, nas serenas
Espiritualidades celestes; se bem certo é, sidério Sirius Sagrado, clara, cândida Vésper
diamantina e matutina, que te exilaste lá, cismativa, solitária, ó fria e fina Flor sentimental!, dentre
as pálidas, lânguidas, mortas auréolas de luar da Eternidade, ressurge, vem, flameja por esses
níveos caminhos constelados, na tua meiga, terna harmonia de claridade e saudade e nesse
breve encanto alado do teu perfil de forma hasteal de letra siríaca.

Traz contigo velhas recordações impalpáveis, doces e tépidos abraços da adolescência, — a


alegria aleluial de cânticos na frescura nova das primaveras louras, a flórea suavidade do oásis
virgem e cor-de-rosa da Infância, todo esse incomparável Amor que tu levaste para além
contigo.

Ah! como eu vos recordo, Sombras, como eu vos lembro, Fantasmas, como eu vos evoco,
Espectros, como eu me revolvo em ânsias, em palpitações, em êxtase, no infindável deserto das
Noites sensibilizantes dessas agora tão longínquas e enregeladas reminiscências...

Como eu me despenho, choroso, taciturno, só, absurdamente só, no silêncio e no esquecimento,


negras, lôbregas e abismadoras galerias que vão dar aos subterrâneos da loucura, foragido dos
flagelados clamores humanos, na desolação e empoeirado desalinho de derrotado ovante
guerreiro de cem batalhas heroicas, pela primeira vez ferido e insolitamente vencido ou na
melancolia decadente do ideólogo, imaginoso demônio inclementemente apedrejado de
Anátemas!

Ó tristeza dos momentos lívidos! Vácuos amargos desses longos, lentos poentes nublados,
ciliciados de ansiedade, de aflitivas visões de dúvida, e onde o Espírito erra, ondula, flutua por
entre névoas e surdinas...

Sentimento indefinido, inquieto, insatisfeito, que turvas e agitas e convulsionas de tumultos a


alma, num torvo, vendavalesco rodomoinho de ardente e atordoante simum!...

O algidez fulminante, aterradora, mortal, de tudo o que finda, leve, vaporoso, vago, nas linhas
sutis, fugidias, da infinita lembrança!

O antiga velhice das Mágoas! Ó dor de esquecer! Ó dor de desesperar e descrer! Como toda
essa música negra, toda essa mórbida sinfonia nervosa voluptuosamente me punge...

Velho

PELAS INFINITAS estradas do tempo, a fora, ao sol, segue, mudo, soturnamente silencioso,
esse frio deserto ambulante, a que alguns chamam Velho e os outros chamam apenas
Desilusão.

Hirto, engelhado, com o seu alforje de peregrino, a sua rude veste de estamenha, o seu bordão
de jornada, e os pés nus, caminha, deserto frio — tão vago, tão tateante, tão verdadeiramente
sombra, que dir-se-ia que é o vácuo, o intangível, que caminha...

Longas, profundas barbas brancas alvejam-lhe no rosto, dando-lhe um ar de austeridade


profética, evocando as severas e legendárias figuras dos Patriarcados bíblicos.

Na sua fronte vasta sulcos imensos formam como que veias dolorosas por onde pensamentos
amargos percorrem, lembranças angustiantes peregrinando passam...

Certo, esse Velho, assim sugestivo e belo, viera dos Mitos, do fundo das odisseias gregas e
ouvira d'alto cantar nos finos céus d'ouro da Hélade a alma augusta e mediterrânea de Homero,
sentira as linhas doces da Grécia antiga e mergulhara sereno no seio branco e de rosas do
Olimpo dos deuses priscos.

Nenhum manto real o cobria, nenhum laurel o coroava — nada parecia revelar, tangivelmente,
os seus troféus de onipotência.

No entanto, pelos vestígios supremos, deixados, não só nas rugas da sua face, não só na
tristeza e contemplatividade ascética dos seus olhos e até nos caracteres abstratos da Angústia
que lhe singularizava o aspecto, como também em todo o seu vulto fascinante, dominativo e
grave, percebia-se o poder e a clarividência transcendental de um Predestinado, de um
Inspirado, de um deus, perfeito e sagrado deus concebido da Dor, alimentado e envelhecido na
Dor.

Certo, era ele, o Poderoso da Dor, aquele a quem a Dor avassalara mas não vencera, a quem a
Dor ungira mas não execrara nem banalizara.

Maior, talvez um século maior com o contacto espiritualizante dos Sofrimentos, era efetivamente
agora que ele existia, como a própria consubstanciação da Dor.

Mas, nos abismos fundos dos seus olhos velados, amortalhados de saudade, vivos e vendo e
parecendo, no entanto, cegos, um sonho impenetrável esvoaça muito de leve, e de muito leve
surge, sai, em forma de silfo, de dentro dos olhos amortalhados do Velho e põe-se então a
rondar, a rondar em torno dele, numa fascinação, com as suas asas diáfanas e fosforescentes
de tentador demônio...

E o Velho, subitamente deslumbrado pela fosforescência das asas, das asas diáfanas de silfo,
tem estremecimentos convulsivos; e a sua face, então, toma a expressão singularíssima, de tal
modo fica nesse momento transfigurada, que até como que se lhe aprofundam, que se lhe
cavam mais as rugas...

Também logo, com a rapidez própria dos sonhos, a fosforescente Visão desaparece... E o Velho,
taciturno e trágico, parecendo concentrar em si toda a eloquência simbólica do Eclesiastes,
como que lança na terra a condenação suprema do Juízo Final, tendo, porém, na face agora
imensamente lívida, duro rictus sarcástico de ceticismo voltaireano...

Mas, ah! quem poderia penetrar nos labirintos daquela existência; quem poderia saber os
vergéis, campos, vales cheirosos, enflorados de Ilusão, onde essa alma viveu, floresceu e
gozou; os pântanos esverdeados, de concupiscência animal ou de tédio desesperado, onde ela
mergulhou vencida; as alvejantes e ermas encruzilhadas de caminhos onde a Imagem desolada
dos seus Destinos errou, vagueou e gemeu exausta, fatigada, batida ao largo dos temporais
atroantes e tremendos da Vida!

Todos os que o viam passar, que lhe admiravam a enfibratura óssea, os filamentos nervosos das
grandes rugas; que experimentavam a sensação quase de um pavor abstrato de respeito divino
que a sua patriarcal figura inspirava, pareciam inquiri-lo, fazer-lhe mil curiosas e significativas
perguntas: — Se tinha já cem anos, que saudades, que recordações trouxera na alma, que pão
fresco no alforje; que jornadas fizera, e se cansara muito, nas longas e pedregosas estradas
áridas; se tivera fome através os pomposos banquetes à Luculo das altas cidades; se tivera frio
sob as cruas neves inclementes e fulgurantes; se sentira sede de água, por tórridos e
languescentes calores, ou se sentira sede insaciável de desejos ante o pecado de uns olhos.

Solenemente grande pela Dor, fazia lembrar, como sentimento de religiosidade que dele vinha,
todas as magnificências do Elevado e do Sagrado.

Parecia, então, que aquela incomparável amargura de Doloroso ganhava proporções de matéria
inerte, se condensava, concretizava em blocos de granito e mármore; que aquela sublimidade de
mistérios de secular Velhice tomava formas estáveis, solidificadas com raízes infinitas na Terra,
de arquiteturas prodigiosas de catedrais, de igrejas góticas, de basílicas, de templos vetustos.

E pelo sentimento de divinização que ele inspirava, os olhos absortos, extasiados


imaginosamente, viam que essa Dor ia se transmutando e avultando colossalmente como
organismo físico, alargando, alargando, alargando para o espaço, na vastidão de um bojo
enorme, arredondando pomposamente em cúpulas estreladas, em zimbórios de bronze, em
torres formidáveis, crescendo, crescendo, ficando então monstruosamente de pé na amplidão
alta, a majestade eterna da Basílica da Dor — ao mesmo tempo de venerações e sacrilégios,
igualmente divina e profanada!

Passados ermos, remotas antiguidades, eram extintas, recordando lentos, longos desânimos;
ansiedades, desesperos, impaciências e saudades, eram como que a melancólica penumbra da
imensa nave dessa Basílica.

E as paixões atormentadas, os ímpetos lascivos, os desejos delirantes e em grita, as


deprecações e blasfêmias, as raivas rugidoras, os ódios tempestuosos, eram então as vozes
clamantes e plangentes dos violoncelos, no coro, e os profundos graves chorosos, de soluços
pungentes e atormentados, dos órgãos e cantochão.

Alvoroços másculos e sãos de juventude, heroísmos alegres e alados de esperança, bondade


bizarra e florescente, galhardias, lhanezas afetivas, pensamentos límpidos, castos, de brancuras
virgens, ternuras angelicais de sonho, eram, enfim, símbolos eucarísticos, pão e vinho claros de
comunhões puras.

Todo o espírito do Velho se afinava por esse acorde, a harmonia das grandes Intuições e
Criações evangélicas o consagrava e santificava deus — harmonia que se elevava para ele
numa auréola de bênção elísia...

A natureza, em redor, calma, repousada, tranquila, penetrada dos sentimentos imponderáveis


do Absoluto, ampliava-se numa expansibilidade de vegetações que pareciam quiméricas, numa
concentrativa mudez de forças originais.

Para os largos e longes do vasto e verde mar melancólico, alguns barcos singravam, dentre os
espreguiçamentos voluptuosos da luz, no leve ritmo da graça banzeira de bamboleantes
bailadeiras bailando...

E a figura profética do Velho, com a alva cabeça nua, as longas barbas brancas ondulando aos
ventos gementes, ia vivamente desenhada no fundo vago da luz, como a concepção
extraordinariamente soberana, grandiosa, dos egrégios Desígnios, a caminho das jornadas
eternas, pelas peregrinações perpétuas, pelas estradas sem termo, pelos indefiníveis desertos
sem fim...

Vai, Velho! Clarão frio, clarão morto! Tu que trazes contigo Agonias e Recordações seculares,
ríspidas alvas, dos Fatalismos tremendos, eloquentes, épicos, rasgando, ferindo, chagando,
ensanguentando mortalmente os pés.

Vai para o Esquecimento e para o Nada, calado, mudo, fechado no sepulcro do teu segredo
místico, com os extremos e expressivos silêncios da clausura da tu'alma, levando sob a umbela
dos Astros o Sacramento eucarístico da tua Dor.

Vai! Vai! Some-te, perde-te, mergulha soturnamente, aprofundadamente, nas estranhas


sombras, nas estranhas sombras, nas estranhas sombras...

Decaído

ARREBATADO NUM VIOLENTO RODOMOINHO, num verdadeiro ciclone de paixões, o que


esperas, Tu, Sátiro tricórnio e bufo, que resfolegas e inchas de pantagruelismo e luxúria —
tricórnio como trifloro, — com três hirtos cardos agudos?!

O gozo das mórbidas concupiscências tornou para a tua idiossincrasia afetada do Infinito,
aspectos soturnos e miríficos, efeitos mais do que genuinamente capros, mais do que
genitalmente eróticos, duma insânia ingênita e transcendental de lascívia; e isso de tal forma
superssexual intensa, que és apenas um simples Sátiro tricórnio e bufo e não és mais Diabo
mago e sulfúreo, nem radiante belo e horrível Arcanjo de maravilhosas asas colossais e
flamipotentes, de fundas envergaduras a ouro fosco e bronze, mas um Satanás suíno e
gongórico, um Sileno senil tatuado das equimoses do Vício, tremendamente decaído nos
abismos torvos...

Êxtases, indefinidos espasmos estéticos, que espiritualizavam outrora, em eras primitivas, os


teus estranhos olhos d'águia, cheios de um fulgor de epopeias, operaram nesse maquiavélico,
complicado organismo, evoluções, metamorfoses, profundas transfigurações; e a tua cabeça
titânica, satânica, cortada, detalhada fundo nas auréolas negras das supremas Blasfêmias e dos
Anátemas, cantou e radiou vitória, triunfou milenarmente das outras frívolas, desfantasiadas
cabeças.

Era a conquista real do Sonho, em que a tua cauda espiralante e magnética ia traçando
caracteres simbólicos e feiticeiros e em que os teus cornos tetros e sibilinos, expressivamente
assinalados como a coroa genial e hostil da Rebelião, davam o ritmo, com a cauda espiralante e
magnética, das divinas sinfonias da Imaginação.

Porque, Tu, criador legendário das Ideogenias! velho Ideólogo imortal!, desde logo foste o deus
uno e trino, o Todo-Poderoso do Sonho, fascinando almas e almas, almas e almas arrastando-
as, frementes, aos teus lagos noturnos e chamejados, originalmente brotando da condensação
de bilhões de noites sem estrelas, porque já eram, abstratamente, esses chamejados lagos
noturnos, estrelados de Ideal.

E os teus cornos tetros e sibilinos, dominando amplidões, esgarçavam, rasgavam, defloravam os


diáfanos véus nevoentos das Nuvens, onde o segredo dos viços e germens ocultos, das
virgindades brancas, das castidades tenras, das originalidades puras, dormia, mumiamente,
sonos seculares e ignaros.

E esse segredo e mistério que dormiam perpétuos sonos, num dormir infinito de fenômenos, Tu,
com a significativa mágica do Ideal, fizeste para sempre acordar e circular e morrer e febricitar
de vertigens e alucinações a Terra.

E esse abençoado e prodigioso bem fecundou admiravelmente a terra, semeou constelações


nos mares, tocou de auroras os temperamentos, floresceu de rosas, de madressilvas e lírios, as
leves, as sutis espiritualidades humanas.

Uma seiva do Desconhecido errou e cintilou por toda a parte, inundou tudo; as púrpuras
palpitantes de um novo Idealismo se desdobraram como firmamentos ou majestosos
mediterrâneos.

Mas hoje, que o teu mundanal e soberano domínio é bem raro já, que todo o esplendor das tuas
fiavas, flamejantes glórias é já remotamente e olvidadamente passado, não és mais o excelso, o
preclaro Sátiro fino, o Diabo prófugo e ágil, aventureiro e sábio, que notivagou em gôndolas por
Veneza, nos estrelados idílios; que cantou outrora baladas aos astros aristocráticos, com o seu
bandolim de luar e o seu perfil mais aristocrático ainda; que apaixonou e languesceu as monjas
com suas curiosas lendas enevoadas e rendilhadas; que foi o Gentil-Homem da Aventura e da
Graça nas cortes de Luís Quinze; que dourou e enflorou toda a Grécia e fecundou de Poesia e
Arte o antigo Inferno mítico.

Arrebatado num violento rodomoinho, num verdadeiro ciclone de paixões, és agora o Sátiro
tricórnio e bufo, o membralhudo e velho histrião devasso, que resfolegas e inchas de
pantagruelismo e luxúria.

Não és mais o delicado deus artista, que eu muitas vezes vi, através das brumas azuladas da
fantasia, pelos contemplativos crepúsculos da Alemanha, cismando, envolto num resplendor de
imponderáveis saudades e nostalgias, tocado dos supremos desdéns, sentado junto aos
pórticos medievais com as alongadas, esguias pernas mefistofélicas fidalgamente cruzadas em
x.

E tu perpetuas agora, através da universal harmonia, no equilíbrio sempiterno, Belzebu obeso e


bonzo, inchado de concupiscência e tédio, ignobilmente obsceno, grotesco e esfingético,
sonâmbulo de melancolias, tragicamente triste, atirado para um canto obscuro das Idades, como
a truanesca e monstruosa figura orgíaca, báquica e pantagruélica do Vício!

Fugitivo sonho

POUCO SENTIRIA eu que o teu olhar fulgisse e a tua voz vibrasse, se tu não fosses a loura e
sugestiva Imagem que vi em sonhos e ainda hoje entre os nimbos da memória me aparece, terna
como as baladas antigas.

Eu não digo que seja o luzido e bizarro cavaleiro medieval de nobre coturno e cinzelada espada
de aço polido, retinindo e fulgindo, que te aguarde na rendilhada sala gótica, ou nos pátios de
mármore, ou nos balcões em flor, para fugirmos, alucinados e errantes, por alguma escada de
seda, nalgum nitrente corcel.

Tu és bem loura e bem fria para os medievos arrojos, para esses aventurosos jogos florais, e eu
sou, talvez, em demasia tímido para arriscar-me a tais assaltos, que romanticamente e
naturalmente teriam de ser ao luar, na vaporosa e velada voluptuosidade da lua, como nesses
lascivos jardins do Capuleto aquela sonhadora Julieta e aquele pálido Romeu arrulhando em
abraços e beijos.

Mas tu cantaste. Cantaste, e o que eu tinha já morto nas recordações ressurgiu, enfim, nesse
canto. Tu cantaste e eu, enfim, revivi e resplandeci para o Amor.

A tua garganta, fina, aristocrática, fazia voar, como um pássaro branco, uma voz alada, cuja
harmoniosa sonoridade penetrava, escorria pelo meu ser como um vago líquido untuoso...

E eu parecia diluir-me em essência, em leves eflúvios, nos gorjeios, nos límpidos trinados, nos
apaixonados, impetuosos voos altos da tua voz — pura, clara, clara fresca e aberta no ar —
amplo firmamento estrelado desenrolando por sobre mim odorante dilúvio de luar, ou como um
pássaro branco e estranho que por ali surgisse, abrisse, ruflasse, batesse fremente as asas para
além dos etéreos seios virgens das empíreas regiões...

Tu cantaste, trinaste, desfolhaste em rosas, fizeste esvoaçar em abelhas e borboletas radiantes


todas as músicas, todas as emotivas canções, todas as barcarolas e baladas em que há névoas
e lágrimas e essas lágrimas — tanta era a melodiosa tonalidade da tua voz — quase que as
sentia eu passar, nítidas, cristalinas, através da transparência do canto que constelava
sonoramente o ar como um luminoso tecido de finos fios melodiosos.

E, enquanto, dessa forma, em requinte, funcionava em mim o extasiado sentimento, o teu olhar
fulgia e a tua voz vibrava, vibrava, vibrava infinitamente, num esplendor harmonioso e claro,
fazendo evocar a expressão feérica de uma lua muito branca, do alto cantando sonoridades de
prata, subindo céus acima, astros acima, por legiões luminosas e gloriosas de águias,
cantando...

Formas e coloridos

A abelha

NAQUELE DIA a industriosa abelha iriada, como surgisse a manhã num fulgurante pó branco de
neblinas e ela fosse desferir o voo até à colmeia onde trabalhava, nos quentes serões, com
outras companheiras, perdeu-se em caminho, entre o nevoeiro, como se a cegasse de repente
ali aquela alva irradiação matinal.

Contudo, animada por uma chama intensa e viva, e que outra cousa não era mais do que o amor
à carinhosa colmeia, tentava sempre romper o nevoeiro, ir através da bruma espessa, penetrar
nela num arrojo mais de voo, fazendo um pequenino orifício por onde pudesse atravessar, feliz e
gloriosamente, o seu gentil organismo diminuto e alado.

Mas em vão! A cada esforço empregado em distender para a frente as asas débeis, a cada
ímpeto resoluto, a cada impulso tenaz, parecia que a neblina se obstinava em condensar-se, em
intensificar-se mais; e estava esta lua já assim há tempo continuada resultando talvez num triste
perigo para o volatilizado ser microscópico e sonoro, quando, finalmente, num golpe de luz — o
sol irrompeu, surgiu, subiu festivo e triunfoso para o alto, como um redondo cano de ouro cheio
de molhos inflamados de loiras espigas ardendo.

Perante o brusco emergir flamejante do sol a rápida (...) abelha mais ainda se entonteceu e
deslumbrou então; e tanto se deslumbrou e entonteceu que jamais conseguiu vencer a fina gaze
diáfana, que, agora, com o súbito clarão já se ia esvaindo no ar...

E era inefável, deliciava entretanto ver a abelha presa no éter, sem poder caminhar, sem poder
voar, suspensa no azul e doirada pelo sol, como uma leve gota que o sol deixasse pender no
espaço, caída das suas rutilantes pedrarias de raios, e librada apenas nos imperceptíveis fios
sutis do fluido luminoso.

Ah! se a abelha pudesse enviar recado à colmeia, às companheiras, que a viessem tirar bem
depressa dali!

Mas quem sabia onde era a colmeia?

Os reis, que habitam, lá acima, os claros palácios de luxo, entre soberanos confortos sedosos?
Os ministros que passam lá embaixo no culto rumor da cidade, fechados no seu coupé, lendo
jornais, como dentro de um rodante e tépido gabinete de estudo?

A rapariga do campo, que através da frescura dos fenos leva o gado a pastar na grama vasta e
viçosa que cintila e fuma pelas manhãs? Quem sabia onde era a colmeia?!

Ninguém o saberia decerto! E essa tênue e voejante abelha, embora solta da trama da luz e não
obstante claramente saber para que lados ficava a colmeia, erraria em vão pelos vales
cheirosos, perdida para todos os pontos daqueles virgens, castos vergéis, — porque esse tempo
gasto a vaguear e a vacilar na neblina a cobriria de receio de comparecer, mais uma vez só que
fosse, à presença das outras, sem que sentisse nos seus dormentes e enxameados zumbidos a
mais acusadora censura e a queixa mais penetrante às horas que, no exigente pensar egoísta e
caprichoso das companheiras, ela andara à toa no campo em flor, amando e sugando alguma
pétala, em vez de ir por essa radiosa manhã, para o trabalho, abrir, no favo de mel, as
curiosidades artísticas aos arabescos filigranados da efervescente colmeia.

Também, ó imaginária criatura amada! a peregrina abelha do meu sonho, voando um dia para a
vida, foi logo em viagem surpreendida pelas profundas névoas impenetráveis das desilusões, e,
sem poder nem prosseguir nem recuar, vencida pela distância e pela altura vertiginosa do ideal,
perdeu para sempre, para nunca mais encontrar o desejado rumo, o caminho fluido, luminoso e
gorjeante, que vai dar ao teu coração.

Obsessão da noite

VEM, TARTUFO, rir ao pé de mim a tua risada de fel.

O sol, em cima, ri a sua risada de aurora, que tudo aclara e resplende. Mas é em vão para essa
risada de luz, que jorra d'alto sobre tudo, que tudo ilumina e floresce.

Quero-te a ti, risada de fel, Tartufo! Quero-te a ti, risada do crime, risada da noite, risada da
treva.

Apavora-me esse sol, eterno, a flamejar, incendiado na altura, porque ele todas as coisas põe
em relevo. Eu não quero essa aflitiva evidência da luz — que ri das nossas chagas, ironiza o
nosso amor e avulta o nosso remorso.
Quero a sombra que esbate os claros aspectos, que esfuminha os longes, que enevoa e quebra
a linha dos corpos.

A sombra que desce, que se desdobra em noite, em trevas amargas. Esse luto etéreo que tudo
esconde e faz repousar no mesmo vasto silêncio.

O luto que esconde o crime e esconde a dor, que confunde a máscara hedionda de Gwymplaine
com a máscara loura de Vênus.

Esse luto, essa noite, essa treva é que eu desejo. Treva deliciosa que me anule entre a
degenerescência dos sentimentos humanos. Treva que me disperse no caos, que me eterifique,
que me dissolva no vácuo, como um som noturno e místico de floresta, como um voo de
pássaro errante. Treva sem fim, que seja o meu manto sem estrelas que eu arraste indiferente e
obscuro pelo mundo a fora, arredado dos homens e das cousas, confundido no supremo
movimento da natureza, como um ignorado braço de rio, que através de profundas selvas
escuras vai sombria e misteriosamente morrer no mar...

Nela é que eu quero afundar-me, na noite que me defende da lesma humana que babuja ao sol,
à grandeza da luz. Nela é que eu quero viver, na treva que me despe da realidade da vida, que
me sepulta e piedosamente consola.

Ela tem a majestade para me apagar da vista esses mil animais sinistros e terríveis que, em
múltiplas formas diversas, mordem sempre, caminhando para mim ao clarão do dia em
truculenta marcha cerrada de massas pesadas e formidáveis. Quero, ó noite niveladora, fria
águia negra das solidões infinitas, ir preso nas tuas asas e perder-me, insensivelmente vagar —
átomo desconhecido, talvez a gerar longe o mundo de uma nova Dor!

Hora certa

INEXORAVELMENTE, imperturbavelmente, na inevitabilidade de um pêndulo estranho, o último


suspiro há de soar, na hora atroz, que reboará soturna como por cavernas e subterrâneos.

Com a alma supliciada de nevroses, assediada por ciúmes inquisidores, através de trêmulos
angustiantes de violinos, o Agonizante elevará os olhos claros, cheios já da transfulgência de
outras esferas e aspirará, ainda, gemente, Águia triste de solenes asas despedaçadas, os
desejos esparsos, perdidos, que para além ficaram no clamor atordoante da Vida.

Como por um mapa fabuloso, viajará ainda a imaginação desfalecida pelas regiões de outrora,
onde se agitaram, vivas e palpitantes, todas as grandes forças do seu sentir.

E, diante dos olhos adivinhadores de belezas secretas; dos olhos penetrantes e gozadores que
pousavam inteligentemente nas cousas com finas asas ideais, amando-as, envolvendo-as numa
chama de sentimento, nobres olhos de emoção e profundidade; dos olhos, cujo entendimento
cintilava quando olhavam curiosamente tudo; diante dos olhos do Agonizante desfilará então a
Visão do seu Ideal — Beleza tão radiante, tão doce, que lhe lembrará ao mesmo tempo a
frescura iluminada de um vale e a profunda pompa noturna das estrelas.

O muito que odiou e o muito que amou, os traços reveladores do seu espírito, formas de
enunciação características de sentimento, ondulações voluptuosas de som, tudo, como um fumo,
lhe tecerá brumas na retina; e certas recordações, já nebulosas na memória, certas tempestades
d'alma, já entrecruzadas, difundidas e repercutidas na tempestade das Esferas, tudo, como um
fumo, lhe tecerá brumas na retina.

Soberbos oceanos de imaginação onde mergulhou seguro, o desenterramento da sua Obra, do


Escuro para a Luz, ressuscitando-a das sepulturas do Nada e fazendo-a logo abrir clarões e
asas no Espaço, tudo, tudo há de ecoar, em extremo, nos desvãos do seu cérebro a fenecer,
como a vibração esmorecidamente saudosa de rouca fanfarra longínqua no fim crepuscular de
triste e ovante vitória assinalada por aclamações e festões de louros, regada abundantemente
pelo vinho quente e humano do sangue.

E, relembrando cousas, revendo todas as veredas passadas, como quem revolve poeira, se o
Agonizante achar então que afinal lhe doeu muito a Vida, consolado morrerá de que sofrendo por
rodos teve assim a mais bela e nobre purificação e consagração dessa Dor.

E, de reminiscência em reminiscência, consultando no largo, no amplo, no formidável mostrador


do Tempo as horas certas do Mundo, — a hora certa para o Amor, a hora certa para o Ouro, a
hora certa para o ódio, — sentirá, então, claro, nítido, evidente na eloquência fatal do último
suspiro — concentração tremenda de todos os círculos tremendos do Ser — sentirá então que a
única hora certa, ó Vida!, é a hora da Morte, quando o último suspiro soa, trêmulo, marcando o
inevitável rumo, como um pêndulo estranho que marca horas imponderáveis caindo
inexoravelmente, imperturbavelmente...

Rosicler

IMAGINAR AGORA, saudosa Rosicler, que essa boca virginal, onde têm vivido, esvoaçado e
cantado os ardentes pássaros dos beijos, fica gelada e muda, negra, como a boca de uma cova;
que o colorido alvoral da tua carne esmaece, morre; que os fluidos Danúbios claros e azuis dos
teus olhos somem-se na névoa da morte; que tu toda esfrias horrivelmente nas minhas mãos,
num pavoroso contacto de neves álgidas, — hirta, inteiriçada, glacial — como pesado e rígido
bloco maciço de mármore branco!

E imaginar, também, que a tua infância de flor, de alva magnólia cheirosa cor de luar, na seda
fina da pele nívea, foi passada entre os meus braços: todo o delicioso encanto louro dos teus
cabelos, a delicada polpa rosada dos teus lábios e as límpidas marchetarias dos teus dentes na
láctea candidez do rosto a que os fluidos Danúbios claros e azuis dos teus olhos de ninfa davam
frescuras bucólicas de mirtais e de mares meigos da Grécia.

E imaginar, também, celeste Rosicler, que tu, já na pubescência, com as nobrezas régias de
dama medieval, planta inglesa e forte desabrochada na atmosfera de uma estufa de Lorde, na
luxuosa irradiação da formosura, vais, através do aristocrático rumor de cidades, alta e loura,
como soberba Águia fidalga que para sempre houvesse abandonado algum antigo, grande
palácio renano!

Outros chamem-te Aurora! Hoje que já tens a esbeltez palmeiral, o viçoso verdor primaveril e que
na transparência d'ouro da epiderme dos seios cantam-te inefavelmente os desejos...

Outros chamem-te Aurora! Hoje que já o travo picante da perfídia feminina dá um encanto fatal e
acídulo à tua cabeça funesta e trêfega e dá volúpias secretas e tentadoras às tuas garridas
formas de louro demônio, a essa sedução prófuga e prônuba, entre sílfide e áspide...

Outros chamem-te Aurora!

Uma vez que ainda diante dos olhos vejo a rosada e consoladora luz difusa da tua Infância; que
ainda sinto os leves e perfumados eflúvios da tua voz; o cristalinar do teu riso nos lábios frescos
de vida e de leite; os fios sonoros do teu cabelo de sol na primorosa, suave, resplandecente
cabeça; agora que tudo isso, enfim, acorda ainda no meu ser a balada longínqua das
Recordações, não te chamarei jamais Aurora, mas Rosicler! que lembra os tons alvorais
incomparáveis da tua vaporosa existência de aroma, quando eu tinha nos braços, envolta em
neblinas paradisíacas do sonho, a tua formosa, suave, resplandecente cabeça, da excelsa
idealização de cabeças de Anjos, revivescentemente cinzeladas em astro...

Beijos mortos

PARA O FRIO SILÊNCIO do firmamento, para a alta sideração das estrelas, os beijos de chama
que me deste outrora subiram mortos, frígidos, glaciais, sem aquele quente, inflamado clarão
que os tornava apaixonados.

Foram-se os beijos e tu te foste também com eles, Alma sonora, Carne de perfume e de luz,
cujos olhos, de tanto incomparável amor carinhosamente me falavam.

A minha boca, sequiosa e saudosa agora desses beijos que a constelaram, mal pode sonorizar
as sílabas de sol — Amor — que tão inefavelmente sonorizava.

Foram-se os teus beijos, sumiram-se aqueles astros, que ardiam, e agora, ei-los, já frios, lá
acima, no esplendor, esparsos no arqueado Azul infinito...

Que brilhem, lá, gélidos, esses beijos mortos, como a serena e sagrada Via Láctea da Paixão!

Para mim, cá da terra, embaixo, eu os verei e os sentirei ainda palpitar para sempre sobre a
minha'alma, purificando-a e iluminando-a, miraculosamente, contra o frio veneno negro da Dor,
derramada fundo no meu peito por fulvos e inquisitoriais demônios, atropeladamente
arremessados à escalada vertiginosa do Mundo!

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