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Oliveira Júnior, Vlademir Fernandes de.

Edificados sobre a Rocha: sermões na epístola de


1Pedro / Vlademir Fernandes de Oliveira Júnior, Porto
Velho/RO: ---, 2018.

1. Sermões 2. Teologia Prática 3. Devocional


I. Título.

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Dedico à minha amada esposa, Katiely Silva Oliveira;
nesse momento gestando nosso Ian.
À Igreja Batista Reformada de Porto Velho,
primeiros destinatários dos sermões.

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ÍNDICE

CONSIDERANDO A SALVAÇÃO PARA SUPERAR


A TRIBILAÇÃO ........................................................................................... 06

VIDA NOVA, VESTES NOVAS .................................................................... 14

EDIFICADOS SOBRE A ROCHA ................................................................. 21

NÃO À REVOLUÇÃO! ................................................................................. 29

O DEVER DO CRISTÃO COMO SERVO ...................................................... 35

BREVES CONSELHOS PARA ESPOSAS E MARIDOS.................................. 41

FRATERNIDADE, SOFRIMENTO E SALVAÇÃO .......................................... 48

VIVENDO PARA DEUS ............................................................................... 56

AOS PRESBÍTEROS, AOS JOVENS E À IGREJA ........................................ 62

REFERÊNCIAS .......................................................................................... 71

INFORMAÇÕES SOBRE O AUTOR ............................................................. 72

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CONSIDERANDO A SALVAÇÃO PARA SUPERAR A TRIBULAÇÃO
Pedro 1:1-12

1 Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos eleitos que são forasteiros da Dispersão no Ponto,
Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia,
2 eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e
a aspersão do sangue de Jesus Cristo, graça e paz vos sejam multiplicadas.
3 Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia,
nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os
mortos,
4 para uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada nos céus para vós
outros
5 que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para
revelar-se no último tempo.
6 Nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se necessário, sejais contristados por
várias provações,
7 para que, uma vez confirmado o valor da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro
perecível, mesmo apurado por fogo, redunde em louvor, glória e honra na revelação de Jesus
Cristo;
8 a quem, não havendo visto, amais; no qual, não vendo agora, mas crendo, exultais com
alegria indizível e cheia de glória,
9 obtendo o fim da vossa fé: a salvação da vossa alma.
10 Foi a respeito desta salvação que os profetas indagaram e inquiriram, os quais
profetizaram acerca da graça a vós outros destinada,
11 investigando, atentamente, qual a ocasião ou quais as circunstâncias oportunas, indicadas
pelo Espírito de Cristo, que neles estava, ao dar de antemão testemunho sobre os sofrimentos
referentes a Cristo e sobre as glórias que os seguiriam.
12 A eles foi revelado que, não para si mesmos, mas para vós outros, ministravam as coisas
que, agora, vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos
pregaram o evangelho, coisas essas que anjos anelam perscrutar.

INTRODUÇÃO

Começaremos uma série de mensagens na epístola de 1 Pedro. Desta


forma, apresentaremos brevemente algumas informações de introdução
bíblica acerca do autor e sua carta que nos servirá de base durante toda
caminhada pelo livro. Será bom manter esse contexto autoral, histórico e
cronológico em mente.
O autor da carta é Pedro, “apóstolo de Jesus Cristo”. Uma testemunha
ocular do ministério do Senhor e que agora estava cumprindo basicamente a
missão a que lhe foi outorgada: “(...) e tu, quando te converteres, fortalece
teus irmãos” (Lucas 22.32). Ele estava possivelmente em Roma quando
escreveu. Seus destinatários eram cristãos de procedência gentílica
dispersos pelo “Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia”. A provável data de
escrita do texto foi em torno de 60 d. C. uma vez que nesse período havia
uma perseguição aos cristãos orquestrada por Nero e Pedro estava em Roma
próximo do final de sua vida1. A epístola não é direcionada a uma única
igreja, fato que motivou sua inclusão no grupo conhecido como “Epístolas
Gerais”.

1 CARSON, D. A., MOO, Douglas J., MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo:
Vida, 1997. p. 467-472.

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Pedro inicia o texto com uma breve apresentação e em seguida fala nos
versículos de 3 a 12 acerca da salvação numa perspectiva trinitária. Sobre
essa salvação, mostra sua construção, desenvolvimento e conclusão que
iremos meditar nessa mensagem.

I – O PRECEDENTE DA SALVAÇÃO: A ELEIÇÃO. (v. 1-2)

Pedro se dirige aos cristãos de origem gentílica que estavam passando


por perseguição. Eles eram forasteiros em terras alheias, mas, ao mesmo
tempo, cidadãos dos céus. Esses destinatários podem ser caracterizados
assim: “Espiritualmente são eleitos de Deus. Socialmente são forasteiros no
mundo. Politicamente são dispersos”2. Pedro os chama de eleitos. São eleitos
segundo a presciência de Deus Pai. O tema da eleição do crente não deve
causar temor. Muitos estranham o uso dessa fraseologia, contudo, a própria
Bíblia a utiliza. Não raro vemos os crentes identificados como eleitos,
escolhidos ou predestinados (Mt 24.22, Mc 13.20, Mc 13.27, Lc 18.7, Rm
8.29, 30, Rm 8.33, Rm 11.7, Ef 1.5, 11, Cl 3.12, 2Tm 2.10, Tt 1.1, Ap
17.14). Assim, apesar de não entrarmos em detalhes e polêmicas sobre o
tema, tenhamos em mente que ele é bíblico e há um sentido em que todos
nós cristãos fomos eleitos por Deus para salvação em Jesus Cristo.
D. A. Carson, na conferência da Consciência Cristã de 2017, em
Campina Grande-PB, fez uma ilustração interessante a respeito da eleição.
Ele disse, referindo-se à eleição de Abraão, que simplesmente Abraão não
poderia ter tomado a decisão de criar um grande povo, de ser o pai de
multidão, de ser o pai da fé, amigo de Deus; que ele não foi o autor da
escolha para ser canal de bênção a todas as famílias da terra e nem mesmo
raiz genealógica do salvador Jesus Cristo. Então, se não foi ele quem decidiu
todas essas coisas, mas foi conduzido a elas, então ele foi escolhido, eleito
para os planos de Deus. É uma ilustração simples e sem muita polêmica.
O pastor Hernandes Dias Lopes (2012)3 acrescenta que
A eleição divina é um decreto eterno de Deus. O Senhor nos escolheu
antes dos tempos eternos, em Cristo, pela santificação do Espírito e
pela fé na verdade, para sermos santos e irrepreensíveis e
praticarmos boas obras. A presciência (prognosis) de Deus, ou seu
conhecimento prévio, não significa meramente que Deus sabe quem
será salvo, mas que está ativamente emprenhado no processo,
determinando antes do tempo a salvação de cada um de nós e
concretizando-a, depois, no tempo e no espaço. (p. 27).

Notemos que juntamente com a eleição foi mostrado a necessidade da


santificação e o alvo dessa salvação, a obediência. Tudo isso debaixo da
aspersão do sangue de Jesus.
Assim, o Deus trino está envolvido em nossa salvação. Ele nos quer
pessoas caminhando na vereda da justiça, em mudança de vida, em
edificação para santidade. Em consonância a isso, ele nos chamou para

2 KISTEMAKER, Simon apud LOPES, Hernandes Dias (2012, p. 29).


3 LOPES, Hernandes Dias. 1Pedro: com os pés no vale e o coração no céu. São Paulo: Hagnos,
2012.

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obediência, para nos adequarmos à sua santa vontade e honrarmos seu
nome.

APLICAÇÃO

Uma importante lição que podemos aprender com esses primeiros


versículos é que somos peregrinos aqui na terra. Não adianta tentarmos fixar
morada, estabelecer definitivamente nossa vida nesse mundo, uma vez que
nosso destino maior é o céu. Assim, tal conhecimento deve surtir o efeito de
atrair mais nossa atenção às coisas do alto e renegar ainda mais os atrativos
desse mundo. Esse mundo passa, com suas paixões e concupiscências!
Assim, cabe os seguintes questionamentos: 1) Temos dado real valor a esse
ensino? Temos considerado seriamente que nossa pátria definitiva não é
aqui, nesse mundo? 2) Temos guardado nosso tesouro no céu? Quais tem
sido nossas práticas que mostrem a construção desse tesouro celestial?
Outra grande lição é sobre a eleição. Temos sido gratos a Deus por tão
grande obra? Por nos escolher, mesmo sendo nós pobres pecadores? Temos
demonstrado gratidão e honra de modo prático, em obras, uma vez que ao
mesmo tempo em que somos forasteiros nesse mundo somos consolados
com a realidade de sermos eleitos de Deus? Rejeitados pelo mundo, mas
aceitos por Deus!

II – A CONCLUSÃO DA SALVAÇÃO. (v. 3-5)

Nos versículos de 3 a 12 o apóstolo fala sobre a salvação do cristão,


uma dádiva dada por Deus. Basicamente ele aponta a construção o
desenvolvimento e a conclusão da mesma. Não nessa ordem, mas
aparentemente numa ordem contrária, de “trás para frente”. E é nesse
sentido que caminharemos também.
a) Considerações sobre a salvação

O apóstolo bendiz o nome de Deus porque sua obra de salvação é


cheia de misericórdia. Não fosse sua misericórdia, ou seja, não fosse “ele
colocar o coração em nossa miséria”, estaríamos completamente perdidos.
Notemos que a salvação aqui é atribuída, portanto, a ação de Deus. Ele é
quem se compadeceu de nós. Ele fez essa obra magnífica. “A salvação é uma
obra exclusiva de Deus. Ele deve ser exaltado por tão grande salvação. Seu
nome deve ser magnificado por presente tão auspicioso”4.
Mas, que obra? A regeneração. Regenerar é gerar novamente, nascer
de novo. Deus que nos regenerou, essa é uma obra divina e ninguém, a não
ser Deus, pode realizá-la. Jesus disse a Nicodemus: “(...) se alguém não
nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (João 3.3). “Nascemos da
semente incorruptível. Temos não apenas um novo status (justificação), mas
também uma nova vida (regeneração). Tornamo-nos filhos de Deus,
membros de sua família”5. Notemos que esse novo nascimento é para um

4 LOPES, Hernandes Dias. 1Pedro: com os pés no vale e o coração no céu. São Paulo: Hagnos,
2012. p. 31.
5 Idem. p. 32.

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objetivo nobre, repleto das bênçãos de Deus. O Senhor não nos regenerou
para a condenação, ou para o sofrimento eterno, mas para alcançarmos
suas bênçãos eternais.

b) Conclusão da salvação, salvos para...

1) Uma herança.

Fomos salvos para “uma herança incorruptível, incontaminável e


imarcescível”. A dádiva que nos espera é uma herança desejável adjetivada
como incorruptível, ou seja, sem nenhuma corrupção e nem mesmo passível
disso. Uma herança incontaminável que não pode se contaminar com o
mundo, com o pecado, com a depravação. Por fim, essa bênção é
imarcescível, que não perde o viço, o frescor! Essa dádiva sempre será uma
novidade, algo novo, fresco, vívido, que não causará rotina, cansaço ou
enjoo. “Em vez de murchar ela permanece num frescor perpétuo, que nunca
se deteriora quanto ao seu valor, graça ou beleza”6.
Pela descrição anterior fica nítido que essa herança é celestial e não
terrenal. É lá no alto que está nossa bênção, nosso tesouro (como dito por
Cristo). Notemos que o crente é um “forasteiro” quando está aqui na terra e
sua pátria é a celestial, logo, nada mais autêntico do que ele ter seus
tesouros em sua legítima pátria, a celestial.
Muita confusão se faz quando não se compreende a natureza dessa
herança. Para alguns essa herança seria bênçãos financeiras, bens
materiais, poder e autoridade entre os homens aqui e agora. Alguns exigem
seus “direitos”, sua “herança” e a definem conforme sua própria
mentalidade. Contudo, tal ato se assemelharia a ação do filho pródigo,
exigindo antecipadamente valores para esbanjar em seus deleites. Essa
herança é aquilo que está definido na Bíblia e, conforme Pedro, é uma
herança espiritual, reservada para nós no futuro, no céu. “Diferente de
tesouros terrenos que murcham, essa herança espiritual é incorruptível”7.
Essa herança – afirma o apóstolo – é para aqueles que são guardados
pelo Senhor, pela fé, para alcançar a salvação. A herança não é para
qualquer um. Assim como só herda algo de alguém um parente próximo, da
mesma forma só é herdeiro de Deus aquele que é seu filho, aquele que é
guardado pelo Senhor. A herança é o prêmio da salvação. Quem não for
salvo, quem não perseverar até o fim não poderá ganhar esse galardão.

2) “Salvação” que se revelará no último dia.

Somos salvos para a obra de Deus que se revelará no último dia. A


salvação é muito ampla e nem todos os seus aspectos são expostos na
presente época. Em sua conclusão experimentaremos uma transformação
inimaginável orquestrada pelo Senhor. Seremos alvos de uma glorificação tal

6 EARLE, Ralph, SANNER, A. Elwood, CHILDERS, Charles L. Comentário bíblico Beacon. Vol. 10.
Rio de Janeiro – RJ: CPAD, 2006. p. 214.
7 Idem.

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que somente “naquele último dia” será revelada. Somos salvos para uma
obra maravilhosa e indizível de Deus.

APLICAÇÃO

Precisamos olhar para frente. Em meio a tribulações, sofrimento e


perseguições os crentes são convidados a fixar sua mente naquilo que é
eterno, puro, incorruptível, imarcescível, que é nossa herança nos céus e a
conclusão da salvação a se “revelar no último dia”. Estamos sem pátria?
Olhemos para nossa cidade celestial. Estamos privados de alimento?
Olhemos para o banquete celestial que termos com Cristo. Somos
injustiçados? Olhemos para o tribunal de Cristo diante do qual todos
receberão o justo juízo. Perdemos nossa família, olhemos para nossa família
celestial. Estamos em perigos de morte? Olhemos para vida eterna. Tudo que
é uma perda para nós aqui, na terra, encontra seu representante em ganho,
nos céus. Somos vitoriosos em Cristo Jesus!

III – O DESENVOLVIMENTO DA SALVAÇÃO. (v. 6-9)

Nisso o crente deve exultar. Alegrar-se. Ou seja, nas promessas de


bênçãos e vitória do Senhor reservadas no futuro. Pois, no momento, é
possível passar por tribulações, perseguições, prova de fogo da fé.
O desenvolvimento da salvação, SE NECESSÁRIO, se dará por meio de
provações, por meio de tristezas. Mas, vejamos o paradoxo. No começo do
versículo 9 o crente deve exultar, ou seja, se alegrar grandemente, mesmo
que passe por tristeza. Claro que a exultação está relacionada com a visão
futura da glória, com a dádiva de Deus e a tristeza relacionada com o
presente século. Mas, o cristão é esse ser “estranho” que exulta de alegria na
tristeza!

a) Provação para aperfeiçoar a fé

A provação da fé é para aperfeiçoá-la. Pedro usa a ilustração da


purificação do ouro. Ele precisa passar pelo fogo para ser purificado, para
arrancar suas sujeiras e impurezas. Da mesma forma, o cristão pode passar
por provação para ser purificado, para que suas impurezas caiam. Depois de
tudo isso, de toda a purificação deve haver maior louvor, honra e glória ao
nome do Senhor.

b) Fé preciosa

A fé verdadeira, do crente, é valorosa, ela não será desmanchada por


uma prova qualquer, mas realmente será purificada. Mas, qual o indício que
mostra o valor dessa fé? São alguns ingredientes que Pedro destaca. Um
deles é o amor a Cristo mesmo que não o tenhamos visto! “a quem, não
havendo visto, amais”. A fé valorosa é aquela que “arde” em amor por Cristo.
Amamos ao Senhor e dedicamos nossa vida a Ele. A importância do amor a
Cristo é tal que sem amor a ele simplesmente é difícil dizer que existe fé

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verdadeira. O amor é importante. Pedro mesmo foi questionado sobre seu
amor por Cristo. O Senhor se aproximou dele em certa ocasião e perguntou
por três vezes: “Tu me amas?” (João 21.15). O amor a Cristo indica que
muitos pecados foram perdoados (Lucas 7.47). O amor a Cristo é a
motivação para realização de boas obras. Outro indício da fé preciosa é que
“exultais com alegria indizível e cheia de glória”. É preciso haver no interior
do homem essa alegria de modo perene, supranatural, acima das nossas
vidas no contexto terrenal.
Uma fé como essa alcançará sua conclusão: a salvação de nossa alma.

APLICAÇÃO

Devemos compreender nossa vida em Cristo. No desenvolvimento de


nossa salvação é possível passarmos por provações. Contudo, nossa alegria,
exultação em Cristo, na salvação, não devem ser sucumbidas. Devemos ser
os “estranhos” que exultam de alegria na tristeza! Temos conseguido manter
nossa alegria da salvação, em Cristo diante dos mais graves problemas de
nossa existência? Mas, a fé do eleito, do crente, é uma fé valorosa. Nossa fé
tem sido purificada como o ouro? Temos crescido diante de Deus nas
provações? Temos aproveitado esse método divino de amadurecimento ou
temos sempre nos irritado, esquivado e até blasfemado diante das provas?
Temos passado pela prova dando glória a Deus ou xingando impropérios em
favor do Diabo?

IV – A CONSTRUÇÃO DA SALVAÇÃO. (v. 10-12).

Por fim, mas não menos importante, Pedro fala sobre a construção da
salvação que alcança a todos os povos na atualidade. Evidentemente que ela
foi elaborada no céu, na eternidade, num contexto espiritual, mas revelada e
trazida a existência histórica em algum momento na vida do povo.
Não podemos nos esquecer que os judeus foram a nação escolhida
pelo Senhor para, por um período, desenvolver o ministério da salvação. Não
esqueçamos que Jesus disse: “a salvação vem dos judeus” (João 4.22) no
sentido em que ela perpassa por esse povo. “O apóstolo Pedro mostra a
conexão entre o Antigo e o Novo Testamento. A salvação recebida pela igreja
é a mesma anunciada pelos profetas. Trata-se de um plano antigo, feito
realidade no presente”8.
Ela foi profetizada em épocas passadas no contexto de Israel. Naquele
momento, a comunidade e inclusive os profetas, não tinham condições de
compreender qual era a íntegra do plano de Deus ou quais as consequências
práticas de sua profecia. Na verdade, o plano macro de incluir os gentios e
pessoas de todas as “tribos, línguas e nações” se manteve oculto por algum
tempo, sendo plenamente revelado no Novo Testamento. O apóstolo Paulo
fala sobre isso: “o mistério que estivera oculto dos séculos e das gerações;
agora, todavia, se manifestou aos seus santos; aos quais Deus quis dar a

8 LOPES, Hernandes Dias. 1Pedro: com os pés no vale e o coração no céu. São Paulo: Hagnos,
2012. p. 39.

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conhecer qual seja a riqueza da glória deste mistério entre os gentios, isto é,
Cristo em vós, a esperança da glória” (Colossenses 1.26-27).
Assim, os profetas anunciavam a mensagem de Deus sabendo que
seria aplicada, não a eles, mas ao povo de Deus em épocas futuras. Eles
profetizaram sobre o Messias, seus sofrimentos, morte e ressurreição e
inquiriram sobre a ocasião em que isso se daria.
É importante observarmos que a salvação não é algo inventado por
crentes, imaginado pelos apóstolos ou discípulos do primeiro século. Na
verdade, a construção da salvação foi algo que precedeu o cristianismo. Foi
algo planejado muito antes, nos primórdios da história do povo de Deus.
Assim, pode-se até aceitar que somos a conclusão lógica de tudo que
precedeu a nós no Antigo Testamento. Somos o resultado vitorioso de um
plano que se desenvolveu pelos séculos.
Desta forma, não deve haver uma contradição entre “Antigo e Novo
Testamento”, entre “Moisés e Cristo”, entre “lei e graça”. Na verdade, o que
houve foi um único plano de salvação desenvolvido mediante duas
administrações especiais. Não existem dois povos de Deus. O povo de Deus é
um só. “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de
propriedade exclusiva de Deus” (1Pedro 2.9).
Essa salvação, essa mensagem foi e é tão preciosa e desejável que os
próprios anjos desejam entendê-la, perscrutá-la, uma vez que não
compreendem, pois faz parte apenas da realidade humana, da salvação do
homem.

APLICAÇÃO

Alguns teólogos liberais afirmam que o Antigo Testamento não tem


nada a ver com o Novo Testamento. Que são construções diferentes e
independentes e que os crentes tentam unifica-las artificialmente. Contudo,
tal pensamento se esquiva de analisar e crer no próprio texto do Novo
Testamento nas palavras dos apóstolos.
Pedro, um apóstolo autorizado por Cristo, líder entre a cristandade,
afirma nessa epístola, que a salvação em sentido mais universal, foi
construída e profetizada pelos profetas do Antigo Testamento. Assim, eles
estiveram diretamente envolvidos nessa realidade e foram como sementes
dessa lavoura.
É preciso olharmos, então, para o plano de Deus de modo mais
holístico. Um plano salvífico que perpassa por ambos os Testamentos.
Precisamos responder a algumas questões. Qual tem sido o valor do Antigo
Testamento como fundamento de minha fé em Cristo? O que tenho
aprendido com o Antigo Testamento? Quais princípios do Antigo Testamento
ainda estão vigorando para Igreja? Como o Novo Testamento tem lançado luz
na leitura do Antigo Testamento? Ainda existem profecias no Antigo
Testamento para se cumprir na Igreja? Conseguimos interpretá-las
adequadamente? Estamos esperando pelo seu cumprimento?

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pedro inicia sua epístola relembrando os crentes sobre sua salvação.


Dentre outras coisas, eles deveriam considerá-la seriamente conhecendo sua
envergadura, complexidade e graça a fim de poderem passar pelas provações
da vida numa disposição completamente diferente, sabendo que o Senhor é
quem nos conduz para o fim desejado, para a herança imarcescível no céu.
Deus nos abençoe.

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VIDA NOVA, VESTES NOVAS
Pedro 1:13-25

13 Por isso, cingindo o vosso entendimento, sede sóbrios e esperai inteiramente na graça que
vos está sendo trazida na revelação de Jesus Cristo.
14 Como filhos da obediência, não vos amoldeis às paixões que tínheis anteriormente na
vossa ignorância;
15 pelo contrário, segundo é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos também vós
mesmos em todo o vosso procedimento,
16 porque escrito está: Sede santos, porque eu sou santo.
17 Ora, se invocais como Pai aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo as obras de
cada um, portai-vos com temor durante o tempo da vossa peregrinação,
18 sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes
resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram,
19 mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo,
20 conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos
tempos, por amor de vós
21 que, por meio dele, tendes fé em Deus, o qual o ressuscitou dentre os mortos e lhe deu
glória, de sorte que a vossa fé e esperança estejam em Deus.
22 Tendo purificado a vossa alma, pela vossa obediência à verdade, tendo em vista o amor
fraternal não fingido, amai-vos, de coração, uns aos outros ardentemente,
23 pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a
palavra de Deus, a qual vive e é permanente.
24 Pois toda carne é como a erva, e toda a sua glória, como a flor da erva; seca-se a erva, e
cai a sua flor;
25 a palavra do Senhor, porém, permanece eternamente. Ora, esta é a palavra que vos foi
evangelizada.

INTRODUÇÃO

Após orientar a Igreja ante a provação, Pedro mostra que a mesma tem
muito a caminhar ainda, mas essa caminhada deve ser realizada de maneira
digna, em santidade. Assim, ele fala sobre a santidade na vida nos versículos
de 13 a 25, apontado sua necessidade, causa e prática, o que, passaremos a
analisar em seguida.

I – POR CAUSA DA SALVAÇÃO TENHAMOS ENTENDIMENTO,


SOBRIEDADE E PACIÊNCIA (v.13)

A mensagem anterior dessa série em 1 Pedro abordou o tema da


provação. Seu título era: “Considerando a salvação para superar a
tribulação”. Basicamente vimos ali que Pedro orientou a igreja a considerar a
grande obra da salvação para vencer as provações pelas quais passavam.
Resumidamente, o autor ensinou a igreja a olhar avante, sabendo que a
salvação lhes garantiria uma herança, um prêmio celestial futuro a ser
melhor revelado “naquele dia”. Foi visto também que a salvação estava sendo
desenvolvida por meio de provação para que a fé pudesse se revelar preciosa.
Por fim, tal salvação foi prevista por Deus e construída na história desde os
tempos antigos, foi uma construção criteriosa, contínua e persistente. Uma
verdadeira dádiva.

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Assim, o crente deve olhar para essa salvação quando estiver diante de
suas provações para valorizar a grande obra que o Senhor fez e continua
fazendo em sua vida.
No versículo 13, Pedro relembra que “por isso”, por conta desse
entendimento da salvação, por causa dessa segurança na obra do Senhor,
devemos “cingir” o entendimento, ser sóbrios e esperar na graça que está
sendo trazida e será revelada com a vinda de Jesus Cristo.
Três expressões chamam bastante atenção na sentença: cingir o
entendimento, sede sóbrios e esperai na graça.
Cingir o entendimento diz respeito àquele revestimento de sabedoria
para compreender a vida, os momentos, as tribulações. “‘Cingir o
entendimento’ significa então, ‘pensar em algo e tirar as conclusões
apropriadas’”9. Deve orientar o cristão quanto à realidade da vida com
Cristo, que inclui, por vezes, aflições. O entendimento trará lucidez ao aflito
e mostrará o propósito em meio ao caos. O entendimento deverá clarear os
passos, deverá ser “lâmpada para os pés e luz para os caminhos” (Salmos
119.105).
Sede sóbrios é um imperativo para o equilíbrio. “Ser sóbrio é estar no
pleno domínio de sua capacidade racional”10. Diante das circunstâncias da
vida o cristão deve ser equilibrado. Não desesperar da vida, não radicalizar
ante as situações. O equilíbrio é recomendado, uma vez que sabemos que o
Senhor está no controle da situação e que todas as coisas cooperarem para o
bem daqueles que amam a Deus. Se o cristão está confiante nas promessas
de Deus, de sua herança imarcescível no céu, deve manifestar essa
confiança e segurança em Deus. Em certo momento Jesus disse aos
discípulos, considerando o desespero dos mesmos: “Por que estais com tanto
medo, homens de pequena fé?” (Mateus 8.26).
Esperai na graça. Além do entendimento e sobriedade, é necessário
esperar. Muitas realizações do evangelho serão futuras. É preciso esperar
com paciência no Senhor. Mas, tal espera se mostrará proveitosa. A graça
futura que será revelada para nós por Jesus Cristo certamente compensará
qualquer necessidade de calma e paciência no momento. Deve-se esperar na
graça do Senhor, pois ela suprirá definitivamente todas as nossas carências.

APLICAÇÃO

Entendimento, sobriedade e paciência. Três palavras difíceis de colocar


em prática! Temos tido entendimento diante de nossa realidade? Sabemos
qual o propósito particular de cada uma de nossas provações? De nossos
sofrimentos? Assim, o ideal é termos entendimento diante de tais
acontecimentos. Precisamos buscar sabedoria para compreender nossa vida.
Ademais, temos tido uma vida equilibrada diante de Deus? Somos pessoas
sóbrias, tranquilas e estáveis na presença do Senhor? Se nosso equilíbrio
cristão fosse representado num gráfico, como seria: como um cardiograma
ou uma reta na horizontal? Precisamos buscar tal equilíbrio. Confiar no

9 MUELLER, Ênio R. apud LOPES ( 2012, p. 47).


10 LOPES, Hernandes Dias. 1Pedro: com os pés no vale e o coração no céu. São Paulo: Hagnos,
2012. p. 47.

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Senhor e olhar para o futuro, sabendo que nossa herança está no céu. Por
fim, alguém já disse que a impaciência é incredulidade, pois, na verdade,
não estar tranquilo com as promessas de Deus indica que não se crê muito
naquilo que foi anunciado. Logo, a paciência em esperar é uma questão de
fé. Precisamos saber esperar, isso é bíblico. A grande obra de conclusão
plena de nossa salvação será futura. Muitas de nossas conquistas serão
futuras. Muitos livramentos aguardam o tempo adequado. Esperemos no
Senhor.

II – VIDA NOVA, VESTES NOVAS: A NECESSIDADE DE SANTIFICAÇÃO


(vv. 14-16)

Pedro tem mais a falar sobre a vida cristã além da salvação e as


aplicações dessa dádiva, vistas anteriormente. Ele também quer mostrar
para a igreja a necessidade de santificação.
Pedro mostra tal necessidade primeiramente apontando que ela é
própria da nova natureza. Ou seja, o filho da obediência deve viver para
obediência, assim como o filho da desobediência viveria na desobediência.
Assim, aos filhos da obediência (e obediência aqui não está relacionada
somente a observar uma sequência de leis e regras, mas sim alcançar um
espírito que agrade ao Pai e viva de acordo com a natureza dele) é próprio
viver uma vida santa, não se amoldando às paixões anteriores, da época da
ignorância, mas se amoldando ao caráter de Deus, nesse momento de
entendimento. “Como filhos herdam a natureza dos pais, precisamos viver
em santidade, pois nosso Pai é santo”11.
Depois, a necessidade de santificação é arrematada por meio do
imperativo: “Sede santos, porque eu sou santo”. É um mandamento do
Senhor. Deve ser cumprido. O autor aos Hebreus completa no mesmo tom:
“Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor”
(Hebreus 12.14).
A santificação é a obra de Deus visando implantar o caráter de Cristo
em nossas vidas. “Ser santificado significa, basicamente, ser ‘separado para
o uso e o prazer exclusivo de Deus’. Envolve a separação do que é impuro e a
completa consagração a Deus (2 Co 6.14-7.1)”12. A santificação também
está relacionada com a limpeza cotidiana do pecado. Ela está empenhada na
crucificação do velho homem com suas paixões e concupiscências. Ela traz
os frutos de uma verdadeira vida cristã. Santificação é ainda o
aperfeiçoamento da espiritualidade pública e particular. É um processo
longo que durará por toda nossa vida terrena e se concretizará no céu.
Assim, por causa da nova vida e do mandamento do Senhor, a
santificação é uma necessidade urgente.

11 Idem. p. 48.
12 WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento. volume II. Santo André
– SP: Geográfica Editora, 2006. p. 511.

- 16 -
APLICAÇÃO

Temos buscado de Deus a santificação de nossas vidas? A


transformação de nosso caráter, pensamentos e comportamentos tem sido
realizada pelo evangelho? Temos percebido melhoria em nós no decorrer do
tempo? Podemos apontar cinco grandes mudanças em nossas vidas nos
últimos cinco anos?
A santificação deve ser encarada assim, como algo que na prática
conseguimos ver, notar, perceber. O que furtava não furta mais. O que
mentia agora é verdadeiro. O impuro alcançou a pureza em sua vida. O
insubmisso alcançou entendimento para se submeter às autoridades (chefe,
polícia, justiça, etc). Aqueles que tem a “língua solta” conseguiram controlá-
la. Busquemos, portanto, a santificação de nossa vida, em nome de Jesus
Cristo.

III – CAUSAS DA SANTIFICAÇÃO (vv. 17-21)

A santificação é uma necessidade, não há dúvidas quanto a isso. Pedro


fala mais sobre ela. Primeiramente devemos respeito e temor ao nosso Pai.
Se invocamos a Deus como Pai, e se conhecemos seus atributos, ou seja,
que é um Deus justo, que julga a cada um por suas obras com
imparcialidade, então, deve-se temer a esse Deus durante a peregrinação.
Notemos que não há contradição entre o amor de Deus, entre sua
paternidade – veja que o apóstolo usa o termo Pai aqui – e sua justiça.
Mesmo Ele sendo Pai amoroso não devemos anular sua justiça por seu
amor. Desta forma, a reverência é relembrada.

a) Uma causa para santificação

Mas, a maior motivação para a santificação está no valor da dádiva


com a qual fomos abençoados. Pois, fomos resgatados não com ouro, nem
prata, nem qualquer outra coisa chamada de corruptível, mas pelo precioso
sangue de Cristo. O texto diz que fomos salvos do “vosso fútil procedimento
que vossos pais vos legaram”. Ou seja, salvos de nossa pecaminosidade
herdada de Adão, de nossos pecados que eram manifestos em procedimentos
fúteis. Fomos salvos da condenação de Deus. Salvos pelo precioso sangue de
Jesus. Então, quando se entende tamanha obra, tamanho presente, o
mínimo que deve ocorrer é sermos constrangidos a viver em gratidão e em
santidade de vida diante do Senhor.
Em outras palavras, o resgate de nossas vidas por Deus foi uma obra
tão maravilhosa, valiosa e marcante que seria incompatível continuar
vivendo na lama do pecado, seria um ultraje e rejeição da ação de Deus,
seria um acinte continuar na sujeira da iniquidade.
“A dádiva graciosa da salvação em Cristo deve levar-nos a uma
conduta ajustada e compatível”13. “Os filhos herdam a natureza dos pais.

13 LOPES, Hernandes Dias. 1Pedro: com os pés no vale e o coração no céu. São Paulo: Hagnos,
2012. p. 46.

- 17 -
Deus é santo; portanto, como seus filhos, devemos ter uma vida de
santidade. Somos ‘coparticipantes da natureza divina’ (2 Pe 1.4”14.
Assim, a santificação é colocada em sua legítima e honrada posição. O
estímulo para buscarmos viver em santidade é em gratidão à obra de Deus.

b) A preciosidade do sangue

Pedro descortina os bastidores da eternidade para revelar que essa


obra sacrificial de Jesus Cristo já era conhecida e planejada, mas se
materializou na história apenas na encarnaçã: “conhecido, com efeito, antes
da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos”.
Antes da fundação do mundo indica um período incerto, mas
apontando para a eternidade passada. É comum na teologia do pacto
compreender que houve uma espécie de “Concílio entre a Trindade” quanto
ao planejamento e decreto de toda realidade antes mesmo que houvesse
mundo. Nessa “reunião”, onde a nossa realidade já era realidade de Deus
antes mesmo de existir, aprouve a Deus escolher e ordenar o Senhor Jesus
como salvador da humanidade. A Confissão Batista de 1689 afirma:
Aprouve a Deus, em Seu eterno propósito, e de acordo com o Pacto
estabelecido entre ambos, escolher e ordenar o Senhor Jesus, Seu
Filho unigênito, para ser o Mediador entre Deus e os homens, o
Profeta, Sacerdote e Rei; a Cabeça e Salvador da Igreja, o herdeiro de
todas as coisas, e Juiz do mundo; a quem, desde toda a eternidade,
deu um povo para ser Sua posteridade e para ser por Ele, no tempo,
remido, chamado, justificado, santificado e glorificado15.

Assim, Jesus Cristo assumiu desde a eternidade passada essa missão,


vindo a concretizá-la na história em tempo oportuno. O texto identifica esse
momento acontecendo no “fim dos tempos”. Essa datação nos deixa em
alerta para o fato de que desde a encarnação de Cristo estamos vivendo no
período identificado como “fim dos tempos”.
O sangue de Jesus ainda é precioso porque “Por meio dele, tendes fé
em Deus”. A fé não é uma construção humana, não é uma aquisição
particular. A fé que temos teve origem na obra de Jesus Cristo, por meio dele
é que a fé é possível. O autor de Hebreus endossa esse pensamento
informando que devemos olhar firmemente para “o Autor e Consumador da
fé, Jesus” (Hebreus 12.2).

APLICAÇÃO

A santificação é uma ação de aperfeiçoamento extremamente


importante para nossas vidas. A obra de Deus deve continuar operando em
nós após a conversão, nos tornando cada vez mais parecidos com seu Filho
Jesus Cristo. Mas, a santificação deve ter uma motivação adequada: a
gratidão pela graça de Deus derramada em nós. Temos sido gratos a Deus

14 WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento. volume II. Santo André
– SP: Geográfica Editora, 2006. p. 510.
15 Confissão de Fé Batista de 1689. Tradução e Revisão: William e Camila Teixeira. 9ª ed. Corrigida
e Ampliada em Português. [S.l.], Estandarte de Cristo, 2018. p. 45.

- 18 -
por sua obra de salvação? Temos sido constrangidos pela magnífica obra da
qual fomos alvos, sem sermos merecedores? O que temos feito, na prática,
em gratidão à Deus? Se por um lado vimos que é preciso gratidão a Deus,
por outro lado, percebemos a preciosidade do sangue de Cristo. Ele foi
entregue por nós “antes da fundação do mundo”, ou seja, foi e é um trabalho
pensado meticulosamente e aplicado paulatinamente até a presente ocasião.
Não foi o trabalho de um dia, à toque de caixa, mas um precioso
planejamento. Esse sangue nos capacita a crer. Esse sangue é limpo, puro e
imaculado. Nosso Senhor Jesus Cristo foi perfeito. Conseguimos valorar a
preciosidade do sangue de Cristo derramado por nós? Isso tem contribuído
para nossa santificação?

IV – PRÁTICA DA SANTIFICAÇÃO (vv. 22-25)

Por fim, mas não menos importante, falaremos da prática da


santificação. A primeira delas diz respeito ao amor cristão. Devemos amar
uns aos outros. Nada de viver uma vida isolada, distante dos irmãos! A vida
cristã deve se processar no amor de Deus.
E por que devemos amar? Simplesmente porque não estamos mais
presos ao pecado que nos fazia detestar o amor. Pedro diz que agora somos
regenerados, ou seja, nascemos de novo. Esse novo nascimento, operado
pelo Espírito Santo deve nos capacitar a viver em amor. A nova vida provém
de uma “semente incorruptível, mediante a palavra de Deus”. Temos um
princípio espiritual, a nova vida cristã em nós, que pende para as coisas de
Deus, e em como agradá-lo. Essa nova natureza agirá em perseverança, é
incorruptível, e não retrocederá ao mal.
Como alcançamos a nova vida? Por meio da palavra de Deus. Essa
palavra é viva e é permanente. Pedro usa uma ilustração para mostrar a
firmeza e imutabilidade da palavra de Deus em comparação com a vida
humana.

ILUSTRAÇÃO

“Pois toda carne é como a erva, e toda a sua glória, como a flor da erva;
seca-se a erva, e cai a sua flor; a palavra do Senhor, porém, permanece
eternamente. Ora, esta é a palavra que vos foi evangelizada”. A ilustração
visa mostrar a fragilidade do homem, de sua “carne” em comparação com a
palavra do Senhor. Enquanto este é fraco e passageiro, aquele é forte e
permanente. Enquanto a força do homem seca-se e cai, a palavra do Senhor
permanece eternamente.

APLICAÇÃO

A santificação deve ser demonstrada em boas obras. Nossa vida deve


mudar, nossas atitudes melhorar. Temos conseguido crescer em santidade
em nossa vida, vencendo nossas dificuldades e limitações? Temos amado
ardentemente uns aos outros conforme o mandamento do Senhor? Quais
algumas “provas de amor” podemos mostrar como garantia de que foram

- 19 -
operadas pela graça da santificação? Alcançamos vitórias em áreas palpáveis
de nossa vida, nos últimos anos, tais como: vitória sobre vícios, melhora no
temperamento, libertação de opressões, escape de perseguições além de se
superar as omissões?

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A santificação não é uma opção, mas uma necessidade urgente em


nossas vidas. Lembremos que “sem santidade ninguém verá a Deus”
(Hebreus 12.14). A maior motivação que devemos ter em buscá-la está em
nossa gratidão tendo em vista a magnífica obra operada em nós por Cristo!
Por fim, essa necessidade e causa devem ter o efeito de transbordar
nossas vidas em práticas de justiça, próprias da santificação. Nossas vidas
devem mostrar os frutos que vem de Deus. Em suma, devemos amar uns
aos outros, pois o amor é o vínculo da perfeição!
Deus nos abençoe.

- 20 -
EDIFICADOS SOBRE A ROCHA
Pedro 2:1-12

1 Despojando-vos, portanto, de toda maldade e dolo, de hipocrisias e invejas e de toda sorte


de maledicências,
2 desejai ardentemente, como crianças recém-nascidas, o genuíno leite espiritual, para que,
por ele, vos seja dado crescimento para salvação,
3 se é que já tendes a experiência de que o Senhor é bondoso.
4 Chegando-vos para ele, a pedra que vive, rejeitada, sim, pelos homens, mas para com Deus
eleita e preciosa,
5 também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes
sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio
de Jesus Cristo.
6 Pois isso está na Escritura: Eis que ponho em Sião uma pedra angular, eleita e preciosa; e
quem nela crer não será, de modo algum, envergonhado.
7 Para vós outros, portanto, os que credes, é a preciosidade; mas, para os descrentes, A pedra
que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular
8 e: Pedra de tropeço e rocha de ofensa. São estes os que tropeçam na palavra, sendo
desobedientes, para o que também foram postos.
9 Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de
Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua
maravilhosa luz;
10 vós, sim, que, antes, não éreis povo, mas, agora, sois povo de Deus, que não tínheis
alcançado misericórdia, mas, agora, alcançastes misericórdia.
11 Amados, exorto-vos, como peregrinos e forasteiros que sois, a vos absterdes das paixões
carnais, que fazem guerra contra a alma,
12 mantendo exemplar o vosso procedimento no meio dos gentios, para que, naquilo que
falam contra vós outros como de malfeitores, observando-vos em vossas boas obras,
glorifiquem a Deus no dia da visitação.

INTRODUÇÃO

O apóstolo Pedro continuará suas orientações à igreja do Senhor. Sua


abordagem, neste ponto, mesclará santificação, edificação na rocha (que é
Cristo) e testemunho cristão ante ao mundo. A grande ideia abordada no
texto se relaciona com o tema da edificação sobre a rocha! Edificação em
Cristo Jesus. Viver o evangelho e ser igreja implica sermos edificados em
Cristo, bem como sermos parte dessa obra como pedras vivas e sacerdotes
santos. Que magnífico chamado!

I – EDIFICADOS EM SANTIDADE (vv.1-3)

Pedro continua sua exortação sobre a santidade na vida. No capítulo


anterior ele já alertou à igreja: “sede santos, porque eu sou santo” (1.16).
Aqui ele inicialmente tem duas posições para o cristão. Dois verbos
dão conta de expressar essa orientação do apóstolo: despojar e desejar.
Primeiramente é preciso o crente se despojar, desapossar-se, despir-se
de algumas bagagens que lhe atrapalham a caminhada cristã. Andar com
uma mochila cheia de entulhos pela trilha da salvação pode causar cansaço.
Não é isso que o Senhor quer para seu povo. Dessa forma, é importante para
o cristão deixar algumas coisas para trás, algumas carnalidades, alguns
pecados (se não todos). Ele cita: a maldade, o dolo, a hipocrisia, a inveja e

- 21 -
maledicências. “Vivíamos uma vida fazia e fútil. Éramos escravos de nossas
paixões. Andávamos num caminho de escuridão. Agora somos novas
criaturas em Cristo e fomos gerados pela Palavra; não podemos mais
continuar andando na prática dos mesmos pecados”16.
O outro verbo aponta para o lado positivo, insiste em que o cristão
deve desejar a palavra de Deus. Mas, o desejo não é um desejo comum, ele
deve ser “ardente”. A ilustração para isso é uma criança recém-nascida. Da
mesma maneira que ela deseja ardentemente o leite, o alimento, assim deve
ser o cristão pela Palavra de Deus, pelo alimento que dá vida e
desenvolvimento para salvação.
Esse leite deve ser genuíno em oposição a um leite falsificado. Além
disso é alimento espiritual e não material. Não é possível o crescimento da
igreja sem que ela seja alimentada pela verdadeira Palavra de Deus. “Não há
crescimento espiritual onde a Palavra de Deus é sonegada ao povo. Não há
saúde espiritual onde a sã doutrina não está no cardápio diário do povo.
Alimentar o povo com a palha das falsas doutrinas em vez de nutri-lo com o
trigo da verdade é como dar leite contaminado a um recém-nascido”17.
Mas, toda essa ação de se despojar, e desejar, entra numa condicional:
“se”. O apóstolo fala: “se é que já tendes a experiência de que o Senhor é
bondoso” (RA). “Se” já tendes essa consciência de que o Senhor é bom, então
será natural deixar o pecado. “Se” já tendes conhecido a bondade de Deus
será desejável buscar sua Palavra. “Se” já tendes da experiência da salvação,
então, esse mandamento lhe cabe.

APLICAÇÃO

Que tal fazermos um checklist em nossa vida e deixar, de uma vez por
todas, toda: maldade, dolo, hipocrisia, inveja e maledicência? Temos
desejado ardentemente a Palavra do Senhor, como criança deseja o leite
materno? Como eu tenho demonstrado isso? Leio a Bíblia todos os dias?
Faço meu devocional diário? Minha vida de oração é constante? Quanto
tempo diário dedico em culto exclusivo ao Senhor? Quanto tempo por
semana? O que posso fazer para melhorar minha dedicação à Deus?
Devemos realmente pedir perdão a Deus caso nosso interesse por Ele seja
menor do que um “desejo ardente” como a criança tem pelo seu alimento.
Oremos para que o Senhor nos dê forças e condições para vivermos essa fé
vibrante.

II – EDIFICADOS SOBRE A ROCHA (vv.4-10)

O texto prossegue usando uma metáfora de construção. Deus está


edificando sua “casa”, com pedras vidas, fundadas e estabelecidas sobre a
pedra angular. Essa pedra é sustento para uns, mas pedra de tropeço para
outros.

16 LOPES, Hernandes Dias. 1Pedro: com os pés no vale e o coração no céu. São Paulo: Hagnos,
2012. p. 62.
17 Idem. p. 66.

- 22 -
a) Acheguemo-nos à rocha

Uma vez que o crente deixa os entulhos do pecado e deseja


ardentemente o alimento espiritual, Pedro os convoca para se achegarem a
Jesus Cristo, a pedra viva. Uma pedra rejeitada por alguns, mas, sem
dúvida, pedra angular, pois eleita e preciosa para Deus. “Quem nela crer não
será, de modo algum, envergonhado”.
Notemos que existem aqueles que rejeitam essa pedra. É próprio da
natureza de alguns a rejeição da fé. Não importa o que se faça, simplesmente
haverão aqueles que não crerão. Simplesmente existirão os que zombam e
debocham da fé. Contudo, igualmente é certo que, apesar dessa rejeição,
existem muitos que considerarão seu verdadeiro valor. Muitos enxergarão
claramente a majestosa obra do Filho de Deus. Muitos se achegarão a essa
pedra fundamental para ser parte da construção, para se ajustar, aprumar e
alinhar na grande “casa espiritual” que está sendo construída. Em síntese,
temos alguns pontos importantes a ressaltar: 1) Muitos se achegam a pedra;
2) Muitos rejeitam a pedra; 3) Jesus Cristo é a pedra; 4) Essa pedra é
angular (fundamento); 5) Quem crer na “pedra” não será envergonhado.
Pedro pode estar falando sobre a pedra tendo como plano de fundo o
diálogo que ele teve com o Senhor Jesus Cristo. Em determinado momento,
Jesus perguntou aos seus discípulos: “Quem diz o povo ser o Filho do
Homem?”. “João Batista, Elias, Jeremias ou outro profeta”, responderam.
Então, Jesus insistiu: “Mas, vós, continuou ele, quem dizeis que eu sou?”.
Pedro, então, respondeu: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Ao passo que
Jesus afirmou: “Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi carne e
sangue que to revelaram, mas meu Pai que estás nos céus. Também eu te
digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas
do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16.13-18).
No episódio vivido pelo apóstolo com Jesus foi visto o desconhecimento
ou mesmo incredulidade e rejeição a Cristo por parte do povo que não estava
conclamando-o por Messias, por Cristo, mas subalternamente
reconhecendo-o como um profeta. Mas, a despeito da descrença do povo, os
discípulos estavam cada vez mais convictos acerca de seu mestre. O Filho do
Homem estava estabelecido, ou seja, foi colocada a pedra angular. Naquele
momento, foi revelado que o Senhor era o Cristo, o Filho do Deus vivo. Pedro
conseguiu ter tal revelação e pronunciá-la. Essa realidade, a de que Jesus é
o Cristo, o Filho do Deus vivo, foi identificada como a pedra. “Sobre esta
pedra edificarei a minha igreja”. “É importante destacar que Cristo, e não
Pedro, é a pedra sobre a qual a igreja é edificada (2.4-8, At 4.11, 1Co 3.11;
10.4)”18. Logo, ficou a promessa de que a igreja seria um edifício firmado no
Senhor. “As portas do inferno não prevalecerão contra ela” é uma promessa
de que a igreja não seria destruída, arruinada, levada à morte; não seria um
projeto falível e passageiro, mas com garantia de que daria certo. Em outras
palavras, “Quem nela crer não será, de modo algum, envergonhado”. Em
síntese temos: 1) Muitos se achegaram a Jesus reconhecendo-o como
Messias; 2) Muitos rejeitaram ao Messias; 3) Jesus Cristo, o Messias, é a

18 Idem. p. 68.

- 23 -
pedra; 4) Essa pedra é angular, o fundamento da igreja; 5) As portas do
inferno não terão poder contra quem estiver edificado na “pedra”.
Os paralelos são marcantes entre as passagens. Assim, Pedro pode
estar aplicando diretamente o ensinamento recebido de Cristo à vida da
igreja.

b) Sejamos pedras vivas

Não somente Cristo é a pedra, mas cada crente é considerado uma


pedra viva; não a pedra angular, principal, mas uma pedra importante na
fundação do Reino de Deus. Assim, o apóstolo orienta para que o povo seja
pedra, quer dizer, que se identifique como um elemento útil ao Senhor, como
parte da casa espiritual estruturada por Deus. “Cada pessoa que se converte
a Cristo e se torna membro da igreja do Deus vivo é uma pedra viva tirada
da pedreira da incredulidade e acrescentada ao edifício da igreja”19.
O cristão tem um propósito, sua salvação o coloca diretamente como
parte ativa desse processo. Não somos salvos para o ostracismo ou
indiferença. Mas, justamente o contrário, para sermos pedras vivas,
auxiliando na edificação do todo. Somos chamados para uma missão!
Mas, que missão é essa? Qual o objetivo do cristão? A palavra afirma
que o alvo do crente deve ser nada menos do que tornar-se um sacerdote!
“Isso significa que nossa vida deve ser vivida como se fôssemos sacerdotes
em um templo. Sem dúvida, é um grande privilégio servir como
sacerdotes”20. Qualquer coisa menor que isso implica numa vida cristã
incompleta, numa perspectiva falha do propósito do evangelho. O Senhor
quer que cada indivíduo do seu povo seja um sacerdote.
Mas, o que é ser um sacerdote? Se observarmos o modo do sacerdócio
do Antigo Testamento teremos algumas ideias sobre essa função. O
sacerdote era aquela pessoa que ministrava diante de Deus. Cuidava dos
elementos do culto. Oferecia as ofertas juntamente com o povo. Realiza
orações. Cuidava do tabernáculo e da “casa” de Deus. Se posicionava diante
de Deus a favor do povo. Quando se diz que o cristão é sacerdote, isso
implica que todos os princípios do sacerdote da Antiga Aliança devem ser
vividos pelo crente, considerando, claro, a realidade do Novo Testamento.
Assim, o próprio texto aponta a função principal desse sacerdote do Novo
Testamento: oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio
de Jesus Cristo.
Mas, o que são esses sacrifícios? Alguns pensam que é uma imensa
lista de atividades eclesiásticas ou ritos religiosos que devem ser feitos.
Contudo, a perspectiva do Novo Testamento mostra outra realidade. Ao invés
de fazer, a proposta é o crente ser! Ao contrário do sacrifício ser um monte
de atividades, ele deve ser a própria vida cristã.
Vejamos melhor o que pode ser considerado sacrifício espiritual.
Segundo Davi: “Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado;
coração compungido e contrito, não o desprezarás, é Deus” (Salmo 51.17).

19 Idem p. 70.
20 WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento. volume II. Santo André
– SP: Geográfica Editora, 2006. p. 517.

- 24 -
Davi fala que o coração, o arrependimento, a contrição diante de Deus é um
sacrifício mais importante do que matar bois e carneiros! Paulo também
comenta sobre sacrifício: “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de
Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a
Deus, que é o vosso culto racional” (Romanos 12.1. RA). Em outra versão,
temos: “Portanto, meus irmãos, por causa da grande misericórdia divina,
peço que vocês se ofereçam completamente a Deus como um sacrifício vivo,
dedicado ao seu serviço e agradável a ele. Esta é a verdadeira adoração que
vocês devem oferecer a Deus” (NTLH, grifo meu). Na visão do apóstolo Paulo,
apresentar o corpo, a totalidade do ser, a vida inteira ao Senhor é um
sacrifício vivo, santo e agradável. O Senhor Jesus ensinou a mulher
samaritana que se deve adorar ao Pai: “em espírito e em verdade” (Jo 4.24),
não tendo como referência principal lugares especiais (este ou aquele
monte), nem a métodos específicos de sacrifícios, indicando que o mais
importante nessa adoração é o auxílio do Espírito Santo e a existência da
verdade, da Palavra de Deus. O autor aos Hebreus indica outras formas de
sacrifício no Novo Testamento. O nosso louvor: “Por meio de Jesus, pois,
ofereçamos a Deus, sempre, sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que
confessam o seu nome”. A cooperação mútua: “Não negligencieis, igualmente,
a prática do bem e a mútua cooperação; pois, com tais sacrifícios, Deus se
compraz” (Hebreus 13.15-16).
Notemos que o sacrifício de ser agradável a Deus. Essa recomendação
é para evitar a apresentação de sacrifícios que não agradam ao Senhor. Caim
fez isso uma vez. Israel por vários momentos apresentou sacrifícios que não
foram aceitos pelo Senhor (Isaias 1.10-17). É preciso cuidado com a
adoração, com os “sacrifícios”, para que sejam agradáveis a Deus.

Notemos, a partir de agora, que a pedra, que é Jesus, age em dois


sentidos: um positivo, de construir, e outro negativo, de destruir. Num
sentido em relação ao seu povo, sendo pedra fundamental; em outro, sendo
pedra de tropeço para os escarnecedores, para os que não creem, para os
que não são seu povo.

c) A pedra preciosa

“Eis que ponho em Sião uma pedra angular, eleita e preciosa”. A pedra
é preciosa para a igreja. Ela é pedra angular, lapidada, brilhante e
fundamental. Enquanto alguns a rejeitam, o povo de Deus a acolhe; mas
mais do que isso, considera-a elementar, sem a qual nada subsiste. Valoriza
ao Senhor, presta homenagens a Ele. Proclama seu nome, glorifica a sua
majestade. Somente o povo de Deus irá honrar essa pedra angular!
Esse povo é chamado de “raça eleita, sacerdócio real, nação santa,
povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes
daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”.

- 25 -
d) A pedra de tropeço

Pelo contrário, os descrentes, os que não são povo, encontrarão uma


“Pedra de tropeço e rocha de ofensa”. Muitos são aqueles desobedientes que
tropeçam e caem diante da rocha. Devemos considerar que muitos se
escandalizaram com Jesus Cristo. Os judeus acusaram-no de ser blasfemo,
por se dizer igual a Deus, e de ser usado por belzebu quando operava seus
milagres. O apóstolo Paulo explicou essa relação de escândalo quanto ao
evangelho. “Porque tanto judeus pedem sinais, como os gregos buscam a
sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus,
loucura para os gentios; mas para os que foram chamados, tanto judeus
como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus”. (1Co
1.22-24). Kistemaker citado por Lopes (2012) afirma: “embora Cristo seja
uma fundação firme para qualquer um que coloque nele a sua fé, é também
uma pedra que esmaga aqueles que o rejeitam”21.

APLICAÇÃO

a) A experiência de Pedro com Jesus é compartilhada para ser a


experiência da igreja com Cristo. Cada um de nós, portanto, está diante da
pergunta: quem é Jesus Cristo? Conseguimos responder que ele é nossa
pedra angular? Entendemos que ‘as portas do inferno não prevalecerão’
contra a igreja? “Que aquele que nele crê não será, de modo algum,
envergonhado”?
b) Somos pedras no edifício do reino de Deus? Temos consciência de
nossa importância para obra do Senhor? Já assumimos nosso sacerdócio
cristão, ou seja, vivemos como sacerdotes que ministram diante de Deus
sacrifícios espirituais agradáveis?
c) Infelizmente muitos considerarão a pedra angular como uma pedra
de tropeço. Estamos preparados para lidar com a realidade de oposição ao
evangelho? Estamos firmes para não desanimar diante da contrariedade do
diálogo dos outros? Estamos cientes de que nem sempre nosso evangelismo
será aceito? O que temos feito diante da oposição? Diante da rejeição ao
evangelho?

III – EDIFICADOS PARA O TESTEMUNHO CRISTÃO (vv. 11-12)

A santificação visa gerar um caráter novo no crente, trabalhando em


sua vida o aperfeiçoamento para que ele seja cada vez mais parecido com
Cristo. A edificação tem um objetivo final de glorificar ao Senhor e servir de
testemunho ao mundo.
O conselho final de Pedro nessa seção é para que o filho de Deus, que
se reconhece como peregrino no mundo, se abstenha das paixões carnais
que o assedia. É preciso uma postura de resistência do cristão contra seus
desejos concupiscentes. Pois, como filhos de Deus, seu procedimento deve
ser compatível com sua chamada e missão. Se o cristão é pedra, estabelecida
no grande edifício do reino de Deus, e feito sacerdote para ministrar

21 Idem. p. 69.

- 26 -
sacrifícios espirituais a Deus, como poderá ele se dar às paixões da carne
livremente? Como poderia haver união entre essa missão santa com um
proceder profano? Como se juntaria luz com trevas? Assim, a orientação do
apóstolo é para o que cristão fuja da carnalidade, da velha natureza
humana.
Mas, por que se manter distante dos desejos pecaminosos? Dentre
outros motivos, aqui está destacado a importância do testemunho cristão. O
viver do crente entre os pagãos deve ser perfeito para calar a boca do inimigo
e emudecer os acusadores por meio das boas ações. Naquilo em que o crente
é acusado, é exatamente lá que deve brilhar com a prática de boas obras. O
mundo deve observar o cristão, seu proceder santo, sua fidelidade ao
Senhor, seu compromisso com o evangelho, e, diante disso, dar glória a
Deus.
Seria uma extrema contradição o cristão pregar as boas novas, o viver
com Deus, a santificação se no mundo não vivesse o que prega. Seria motivo
de escândalo. Como pregar o amor, a paz, a justiça, valores e princípios
morais, se o crente estiver atolado em sujeira e sua vida for mais pobre do
que a do ímpio? Paulo chegou a escrever sobre sua diligência pessoal em
relação à palavra: “Mas esmurro o meu corpo e faço dele meu escravo, para
que, depois de ter pregado aos outros, eu mesmo não venha a ser reprovado”
(1 Coríntios 9.27).
É importante o crente manter-se vigilante, pois ele foi criado para as
boas obras (Efésios 2.9), para vencer a carne pelo poder do Espírito (Gálatas
5.17), pois os que são de Cristo crucificaram sua carne, com suas paixões e
concupiscências. (Gálatas 5.24).

APLICAÇÃO

A vida cristã em santidade alerta para o crente fugir das paixões


carnais. Temos crucificado nossas paixões mundanas? Existe algum grande
pecado que ainda aprisiona sua vida e que deva ser confessado a Deus?
Como está seu testemunho cristão no mundo? O que as outras pessoas
falam a seu respeito, será que você seria considerado um bom cristão na
escola, no ambiente de trabalho, ou em casa? Precisamos confessar ao
Senhor os pecados, fugir dos desejos pecaminosos e manter um bom
testemunho cristão no mundo. Busquemos isso em nome de Jesus Cristo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Edificados sobre a pedra trouxe uma reflexão sobre três pontos


principais. Primeiramente a retomada do tema da santificação, onde o
cristão deve deixar coisas e desejar outras, ou seja, deve deixar o pecado e
desejar ardentemente ao Senhor Jesus Cristo. É um dever do crente
considerar e viver essa dupla orientação. Depois, a mensagem girou em
torno da edificação sobre a pedra. Devemos nos achegar a rocha que é Jesus
Cristo. Ele é a pedra angular, o fundamento da construção. Ademais, nós
mesmos somos pedras vivas de Deus, feitos sacerdotes para ministrar diante
dele, nós os que o consideramos pedra preciosa. Por fim, tais pedras e

- 27 -
edifício devem ser belos e funcionais diante do mundo. O testemunho cristão
veio à baila com a indicação de que se deve viver para testemunhar em boas
obras a glória de Deus. Deus sendo glorificado no mundo por nós vivermos
para ele. Deus nos abençoe.

- 28 -
NÃO À REVOLUÇÃO!
1 Pedro 2:13-17

13 Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor, quer seja ao rei, como
soberano,
14 quer às autoridades, como enviadas por ele, tanto para castigo dos malfeitores como para
louvor dos que praticam o bem.
15 Porque assim é a vontade de Deus, que, pela prática do bem, façais emudecer a ignorância
dos insensatos;
16 como livres que sois, não usando, todavia, a liberdade por pretexto da malícia, mas
vivendo como servos de Deus.
17 Tratai todos com honra, amai os irmãos, temei a Deus, honrai o rei.

INTRODUÇÃO

Um princípio evidenciado por Pedro é a submissão. Nos próximos


versículos, e até mesmo em parte do capítulo 3, ele trata desse tema. Nos
versículos de 13 a 17 o conselho é acerca da submissão às autoridades.
Vejamos, então, como o cristão deve se comportar diante dos governos civis.

I – SUBMISSÃO ÀS INSTITUIÇÕES (vv.13-14)

Depois de Pedro orientar a igreja quanto à sua atuação pública, ou


seja, para que o peregrino cristão mantivesse sua conduta exemplar entre os
gentios, ele agora fala mais a esse respeito. Como o cristão deve se
comportar em relação às autoridades? Em relação ao governo?

a) Submissão

Pedro diz que o crente deve se sujeitar às instituições! Submissão ou


sujeição é o assunto em pauta. Traz uma postura inicial de respeito, de
humildade diante das autoridades. O contexto do discurso não era
inflamado por ideologias libertárias ou propostas subversivas como hoje. Era
um discurso objetivo e límpido para a igreja sobre a vontade de Deus.
“Submissão não é a mesma coisa que escravidão ou subjugação; é apenas o
reconhecimento da autoridade de Deus na vida. Deus instituiu o lar, o
governo humano e a Igreja, e tem o direito de dizer como essas instituições
devem ser administradas”22.
O pensamento de submissão às autoridades, traçado por Pedro, se
alinha à teologia de Paulo quando este afirma que: “Todo o homem esteja
sujeito às autoridades superiores, porque não há autoridade que não
proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas”
(Rm 13.1). Além disso, se amolda ao que o próprio Jesus Cristo deixou
transparecer: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”
(Mateus 22.21). Desta forma, existe uma motivação teológica para o
conselho. Não é um mero conselho humano. Não é uma teoria política

22 WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento. volume II. Santo André
– SP: Geográfica. p. 520.

- 29 -
engendrada para manipular o povo e pô-lo sempre subalterno. A inspiração é
teológica, relacionada à vontade do Senhor.
Mas, a questão é mais ampla. A submissão deve ser a toda instituição!
Apesar do texto ser específico às autoridades governamentais, pode-se
expandir o entendimento a outras esferas humanas.

b) Submissão a todas as instituições

O pensamento reformado compreende que Deus estruturou a


realidade com a possibilidade da existência de várias esferas diferenciadas
de autoridade. Essas esferas tem uma certa “soberania” em si, de modo que
uma não se sobreponha a outra, conquanto tenham relações dialógicas. As
principais delas são: igreja, Estado, família, escola, trabalho, clube, etc.
Todas representam um tipo de autoridade. Assim, o ensino da submissão
alcança inevitavelmente tais esferas também. Sujeitai-vos a toda instituição.
A submissão deve existir na igreja, no Estado, na família, na escola, no
trabalho, etc. Em todas as esferas encontraremos figuras de autoridade, de
liderança, às quais se deve tratar com respeito e dignidade. Paulo fala que
“aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus” (Romanos
13.2). Nenhuma dessas esferas deve ser superior hierarquicamente no
sentido de dominar às outras esferas. Somente Deus deve estar acima de
todas. “Deus instituiu a família, a igreja e o governo. Ele não é Deus de
confusão, mas de ordem”23.

Fonte: Ferreira (2016, p. 203)24

A submissão às instituições é por causa do Senhor, como diz o texto.


Não por causa das pessoas, por conta da credibilidade da instituição ou pelo
poder da mesma. Assim, “desdiviniza-se” as instituições. A obediência não é
um fim em si mesma. A motivação está em Deus e no seu ordenamento. Ele
é quem estruturou a realidade e sabe o que está fazendo. Logo, seu conselho
é o melhor. Pedro está fazendo com que a igreja perceba que a vontade de
Deus está sendo feita diante dos governos e instituições humanas. Deus é
soberano e nada foge à sua administração. Assim, o cristão deve submissão
a um governo sabendo que sua autoridade é delegada por Deus.

23 LOPES, Hernandes Dias. 1Pedro: com os pés no vale e o coração no céu. São Paulo: Hagnos,
2012. p. 83.
24 FERREIRA, Franklin. Contra a idolatria do Estado: o papel do cristão na política. São Paulo: Vida
Nova, 2016.

- 30 -
c) Submissão ao rei

Deve-se submissão ao rei. Um dos sistemas de governo mais comuns


na antiguidade era a monarquia. O sistema era caracterizado pelo poder
absoluto centralizado nas mãos de um único soberano, o rei. Ele tinha
amplos poderes para governar todo o Estado. A história de Israel em especial
produziu muitos reis; uns piedosos e bons, tais como Davi, outros ruins,
como Acabe.
O fato é que o texto não está simplesmente advogando um sistema de
governo, como alguns acusam o cristianismo. Mas, como tal era o sistema
predominante, o apóstolo precisaria tecer seus comentários sobre a realidade
vivencial do povo. Logo, ele não está meramente apoiando uma monarquia
corrupta em detrimento da democracia. Na verdade, a proposta democrática
é algo recente, não entrava nem mesmo na imaginação dos povos mais
antigos. A razão da Bíblia não tecer maiores críticas relaciona-se
simplesmente ao objetivo da ação. Deus não estava agindo através dos
séculos para implantar um sistema de governo, mas sim revelar sua palavra
para transformar homens, e estes, como consequência, poderiam compor
sistemas tornando-os mais justos. Este é o ponto. Posto isso,
independentemente de governo, a mensagem é de submissão a todos eles.
Mas, alguns devem se perguntar: a obediência deve ser prestada até
mesmo a governos ruins? Bem, o contexto da carta nos dá a resposta. Será
que o império romano era bom para os cristãos? Se o cristão esperar um
governo totalmente bom e justo para obedecer passará a vida inteira à
procura de um e não encontrará. O princípio é para obedecer até mesmo aos
governos ruins! É para mostrar o bem diante do mal. Pagar o mal com o
bem. Envergonhar o ímpio com a nobreza da humildade, obediência e honra.
Um cuidado que a igreja deve ter é não confundir o respeito às
instituições com concordância a toda lei e prática da autoridade. Sabemos
da dificuldade em viver num governo corrupto, observando o princípio do
respeito à autoridade, mas, ao mesmo tempo, conservando-se fiel á Palavra
de Deus. Evidentemente que não devemos desobedecer à Deus pela
obediência a instituições corruptas! Assim sendo, é importante observar que
podemos respeitar instituições ainda quando não concordamos com
determinadas leis. “Por exemplo, ao se recusarem a adotar as regras
alimentares do rei, Daniel e seus amigos desobedeceram à lei; mas a
maneira de fazê-lo provou que honravam o rei e que respeitavam as
autoridades (Dn 1)25.
Existem outros casos em que se justifica até mesmo a chamada
“subversão legítima”, uma ruptura total de obediência e submissão. Caso
um governo esteja tão degenerado que tente obrigar o cidadão a agir
deliberadamente contra os mandamentos do Senhor, contra os princípios
pétreos da Palavra, então, nesse caso é possível a desobediência consciente.
“Quando um governo se assenta no trono e arroga para si o título de “Senhor
e Deus”, como fizeram alguns imperadores romanos, está em completo
desacordo com os preceitos de Deus. Nesse caso, a desobediência civil não é

25 WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento. volume II. Santo André –
SP: Geográfica. p. 522.

- 31 -
apenas uma possibilidade, mas uma necessidade, uma vez que importa
obedecer a Deus mais que aos homens (Atos 5.29)”26.

d) Submissão aos agentes do rei

A sujeição ainda deve ser prestada aos agentes do rei. Aqui


representados aparentemente por uma força policial para castigar os
malfeitores ou para louvar os que praticam o bem.
Na verdade, essa é uma das principais funções do Estado; trabalhar
na segurança de seu povo utilizando a força policial. O Estado deve reprimir
o crime, a bandidagem, os que agem fora da lei; dando assim, segurança e
proteção aos cidadãos de bem. Paulo fala sobre a autoridade dos
magistrados afirmando que “se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo
que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que
pratica o mal” (Romanos 13.4).
Assim, o Estado tem legitimidade para “trazer a espada” e executar
justiça.
“Os agentes do rei” também podem estar tratando de autoridades
subdelegadas. Pôncio Pilatos, por exemplo, era governador da Judeia sob a
autoridade e legalidade do imperador de Roma. Mesmo assim, sua
autoridade é reconhecida e tida ainda como da vontade de Deus. Jesus
afirmou para ele: “Nenhuma autoridade terias sobre mim, se de cima não te
fosse dada” (João 19.11).

APLICAÇÃO

O texto é rico em aplicações, vejamos algumas.

a) Submissão. A questão de sujeição às autoridades é importante.


Vivemos diante de uma crise de autoridade. O cidadão não respeita
mais o Estado. Não se respeita a liderança eclesiástica. Os pais
estão sofrendo com o abuso dos filhos. Os policiais são
achincalhados nos morros do Rio, os professores são esbofeteados
por alunos. Parece que o mundo está de ponta cabeça! Qual o
problema básico nisso tudo? A falta de respeito às autoridades. O
ensino, portanto, é para que sejamos submissos. Que nossos filhos
aprendem a serem submissos. Que nossa igreja aprenda a ser
submissa. Que nós como cidadão sejamos submissos. Se cada um
fizer a sua parte, estaremos contribuindo para que o estruturalismo
divino funcione na sociedade. (apesar os efeitos da queda).
b) Sejamos obedientes mesmo quando a autoridade não for perfeita.
Não há caso em que encontraremos perfeição, logo, deve-se
obediência, muitas vezes, à líderes falhos e ruins. O propósito do
Senhor é justamente que sua igreja consiga mostrar que “paga” o
mal com o “bem”, o opróbrio com a honra.

26 LOPES, Hernandes Dias. 1Pedro: com os pés no vale e o coração no céu. São Paulo: Hagnos,
2012. p. 84.

- 32 -
II – POR QUE SER SUBMISSO?

a) Propósito.

O motivo da submissão foi bem exposto pelo escritor: “porque assim é


a vontade de Deus”. A igreja não inventa nem fabrica suas verdades. A
vontade de Deus é que deve ser compreendida e cumprida em toda terra.
O método de Deus é diferente daquilo que o homem produz. O Senhor
está instruindo sua igreja num método humilde e pacífico. Num método que
preserve as autoridades. O Senhor deseja uma igreja obediente e que
testemunhe com humildade, obediência e sacrifício, sua vida espiritual.
O Senhor poderia ter orientado a igreja a “pegar em armas” e ir ao
confronto, caso essa estratégia fosse a melhor. Ele poderia ter orientado seu
povo a ser crítico das instituições e agir para destruí-las. O Senhor poderia
ter orientado a acabar com a família, Estado, Escola, Trabalho e todas as
esferas da vida, numa verdadeira anarquia. Contudo, esse não é o método do
povo de Deus. A igreja não é chamada a praticar uma espécie de revolução!
O povo de Deus “vencerá” pela prática do bem!

b) Natureza da submissão.

Mas, alguém pode dizer: isso é um aprisionamento! Viver em


submissão a um governo é se tornar escravo dele. Mas, não é esse o
ensinamento. Viver em sujeição é ser obediente a Deus e, ao contrário de
escravo, ser livre. Liberdade não é fazer o que quiser, quando quiser e da
forma que quiser.
A submissão cristã não equivale a escravidão nem a fraqueza.
Significa liberdade e força. Usar a liberdade cristã como motivo para
a anarquia e a desobediência civil é corromper a liberdade e insurgir-
se contra a natureza da submissão. Transformar liberdade em
libertinagem e submissão em insurreição é um pecado contra Deus e
uma afronta às autoridades27.

No contexto bíblico, liberdade é ter poder para servir a Deus.

Então, “como livres que sois”, ou seja, o próprio apóstolo garante que
não estaremos sendo presos com tal atitude, mas livres. Tal liberdade não
deve ser mal compreendida e usada com malícia. “Já que sou livre, não devo
obediência a ninguém”. Isso seria uma má interpretação. A liberdade não é
independência de Deus, mas deve reafirmar que somos servos dele!

c) Alcance da submissão.

Como o próprio texto diz, “tratai a todos com honra”. Todas as pessoas
merecem respeito simplesmente pelo fato de serem humanos. Todos os
homens portam a imagem e semelhança de Deus, por isso, dignidade

27 LOPES, Hernandes Dias. 1Pedro: com os pés no vale e o coração no céu. São Paulo: Hagnos,
2012. p. 87.

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intrínseca. Não há pessoa que em si mesma seja melhor que outra por conta
de cor da pele, status social ou outros elementos externos. Todos são iguais.
Amais aos irmãos. O amor fraternal na família cristã é um
mandamento. Não é opcional, mas um dever. O amor nos caracteriza como
servos autênticos de Deus. O amor constrói e edifica. O amor é o “caminho
sobremodo excelente”, conforme Paulo.
Temei a Deus. O Senhor deve ser temido. Esse temor é uma reverência
respeitosa, não é um medo paralisante. Deve honrar ao Senhor e tratá-lo
com dignidade. A falta de temor a Deus causa banalização à sua Palavra.
Quem não o teme, não o obedece.
Honrai o rei. Notemos que o cristão deve horar a todos, o que foi
mencionado anteriormente. Aos irmãos, isso se traduz em amor. Ao Senhor,
em temor. Contudo, quando chegamos ao rei, a honra é a mesma. Honrai a
todos e honrai ao rei. O rei deve ser honrado, no sentido de ser respeitado,
contudo, a honra é a mesma que se presta a qualquer outra pessoa. O rei
não deve ser soberano absoluto sobre o povo, muito menos sobre a igreja.

APLICAÇÃO

a) Submissão por causa da vontade de Deus. Temos consciência de


que nossa submissão está fundamentada no Senhor e não nas
qualidades das pessoas ou instituições? Quando temos que ser
submissos ao governo, temos percebido que fazemos isso por causa
de Deus e não por causa do governo? Quando devemos ser
submissos a pais e mães, temos tido noção de que tal mandamento
se sustenta por causa de Deus e não por causa das qualidades dos
pais? Quando temos que nos submeter ao líder religioso, sabemos
que assim o fazemos em honra a Deus e não por prestígio do líder?
Tendo isso em mente será mais fácil para igreja compreender e
obedecer ao princípio.
b) Submissão não é escravidão. É preciso a igreja entender que
submissão não é escravidão! Pelo contrário, obedecer a Palavra de
Deus é plena expressão de liberdade. Quanto mais vivemos os
planos de Deus, a vontade do Senhor, mais estamos nos afastando
de nossos desejos carnais, e estes sim, nos aprisionam no pecado e
trancafiam nossa alma! O grande paradoxo que devemos aceitar é
que viver como SERVO de Cristo é o que nos garante a verdadeira
LIBERDADE.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O objetivo de Pedro é orientar a igreja como agir e se relacionar com os


governos, com as autoridades. O apóstolo deseja que a igreja tenha um
testemunho valoroso, de boas obras. Ele quer que os cristãos “respondam” à
perseguição, não com revolução, luta armada ou baderna, mas mantendo o
respeito às autoridades e o bom exemplo.
Esse é o caminho para o cristão agir diante de qualquer autoridade.

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O DEVER DO CRISTÃO COMO SERVO
1 Pedro 2:18-25

18 Servos, sede submissos, com todo o temor ao vosso senhor, não somente se for bom e
cordato, mas também ao perverso;
19 porque isto é grato, que alguém suporte tristezas, sofrendo injustamente, por motivo de sua
consciência para com Deus.
20 Pois que glória há, se, pecando e sendo esbofeteados por isso, o suportais com paciência?
Se, entretanto, quando praticais o bem, sois igualmente afligidos e o suportais com paciência,
isto é grato a Deus.
21 Porquanto para isto mesmo fostes chamados, pois que também Cristo sofreu em vosso
lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos,
22 o qual não cometeu pecado, nem dolo algum se achou em sua boca;
23 pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia
ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente,
24 carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós,
mortos para os pecados, vivamos para a justiça; por suas chagas, fostes sarados.
25 Porque estáveis desgarrados como ovelhas; agora, porém, vos convertestes ao Pastor e
Bispo da vossa alma.

INTRODUÇÃO

Pedro continua aplicando a ideia de submissão. Seu conselho agora é


direcionado aos “servos”. É preciso ser um servo submisso, pois isso é grato
a Deus, é a vontade do Pai. O modelo a ser seguido é o próprio Jesus Cristo,
que foi submisso e servo até a morte. Não retrucou ou se vingou diante das
injustiças, mas entregou todo o julgamento ao Senhor. Assim, temos um
ensino de submissão a partir de um exemplo perfeito.

I – A SUBMISSÃO DOS SERVOS

Servos (gr. οἰκέτης), o mesmo que “servo doméstico”28, é alguém que


morava na residência de seu único senhor, servindo-o. Cerca de 60 milhões
de pessoas viviam nessa condição em Roma. A maioria dos cristãos era
composta por escravos. A mensagem é direcionada para eles sobre como
deveriam tratar seus senhores29.
“Sejam submissos”. A instrução é para que o servo se submetesse ao
seu senhor, respeitando, assim, a autoridade existente na instituição.
Independentemente do motivo pelo qual se dera a servidão (quer por
aprisionamento em guerra, punição por crime, pagamento de dívida, pobreza
ou comodismo), existia uma relação de autoridade entre o senhor e o servo
que deveria ser respeitada. Esse “acordo” é que está sendo alvo de

28 Strong’s Hebrew and Greek Dictionaries in e-Sword. (G 3610).


29 A Bíblia não apoia a escravidão, não é este o propósito do texto. Na verdade, a escravidão na
antiguidade era um sistema complexo que não deve ser confundido com a escravidão comercial
negreira mais recente. O ato de escravizar pessoas estava ligado às guerras e disputas territoriais;
assim, uma alternativa ao extermínio em massa dos vencidos era a captura dos mesmos para o serviço
involuntário. Relacionava-se ainda com punição aos criminosos. Ao invés de penas mais duras ou
mesmo capitais, abrandava-se com penas de serviço. Noutro sentido, relacionava-se com os pobres,
que se vendiam para sobreviver à inanição, pagarem suas dívidas ou mesmo progredirem em suas
carreiras. Para saber mais, conferir: HUTCHINSON, Robert J. Uma história politicamente incorreta da
Bíblia. Rio de Janeiro: Agir, 2012. pp. 161-182.

- 35 -
consideração. Se o servo fosse rendido por conta de dívidas a pagar, então,
deveria se submeter ao seu senhor até sanar suas contas, deveria honrar o
acordo. Se o escravo fosse um criminoso, deveria prestar contas por seus
delitos; a punição sendo a servidão deveria ser executada igualmente com
respeito.
Assim, longe de Pedro direcionar seus comentários a um sistema
social (escravidão), ele recomenda a lisura entre a negociação senhor/servo
ou, numa linguagem mais atual, patrão/empregado. “Não existem mais
escravos cristãos hoje, pelo menos não no sentido do Novo Testamento; mas
aquilo que Pedro escreveu também se aplica aos empregados da
atualidade”30.
O senhor não deveria ser desrespeitado pelo servo. O servo não deveria
realizar seu trabalho mal feito como que em retaliação contra o senhor. O
servo não deveria ter uma atitude rebelde, de contenda e insurreição. Todas
essas reações indicam um mal comportamento e um insulto em relação à
autoridade. Pelo contrário, o servo de Deus que se visse servo de alguém,
deveria tratar seu senhor com honra. Deveria portar-se em submissão, em
obediência.
Pedro resolve basicamente dois possíveis problemas com seu conselho.
Primeiramente, “Suponhamos que tanto o amo como o escravo se
convertessem ao cristianismo. Então surgiria o perigo de que o escravo se
aproveitasse e se gloriasse de sua nova relação. Bem poderia fazer de sua
nova condição uma desculpa para evitar seu trabalho e desatender suas
obrigações, para abandonar-se à relutância e à ineficiência”31. Depois,
“Existia o perigo certo de que a nova dignidade que o cristianismo conferia
ao escravo fizesse deste um rebelde que tentasse abolir a escravidão por
completo”32. No primeiro caso, o cristão seria uma espécie de aproveitador.
Usaria as circunstâncias indevidamente. No segundo caso, a religião inteira
seria acusada de ser subversiva, revolucionária e rebelde. Haveria um
levante dos escravos contra seus senhores e muito derramamento de
sangue, pois, por diversas vezes esse procedimento foi feito na história sem
muito resultado. Possivelmente, os revoltosos sofreriam ainda mais e a
iniciativa seria fracassada! A questão da escravidão como um todo precisaria
de mais tempo para ser solucionada e de outros métodos além da revolta! “A
levedura do cristianismo teve que trabalhar no mundo durante várias
gerações antes de que a abolição da escravidão se tornasse uma
possibilidade prática”33.
A submissão deveria ser “com todo o temor”, ou seja, com um respeito
reverente ao senhor. O servo deveria respeitar seu senhor. Deveria tratá-lo
com dignidade. Honrá-lo e cumprir as obrigações.
“Não somente se for bom e cordato, mas também ao perverso”. O ensino
reflete a mensagem bíblica de amor ao próximo. Jesus ensinou: “(...) se
amardes os que vos amam, que recompensa tendes?” (Mateus 5.46). É

30 WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento. volume II. Santo André –
SP: Geográfica. p. 522.
31 William Barclay. 1 Pedro. Disponível em:
< https://files.comunidades.net/pastorpatrick/1Pedro_Barclay.pdf>. Acesso em: 02 set. 2018. p. 92.
32 Idem. p. 93.
33 Idem.

- 36 -
preciso fazer mais, é necessário amar até mesmo aos inimigos! Assim, temos
o princípio para o servo obedecer até mesmo ao senhor perverso.
“Porque isto é grato”. A atitude de submissão, honra e obediência é
bem vista por Pedro. Ele diz que isso é digno de ser louvado (grato), ou seja,
é uma atitude nobre, que engrandece o nome de Deus por meio das ações do
cristão.
O servo aqui é louvado porque é alguém que “suporta tristezas”. O
conselho é meio pesado; o remédio, meio amargo. O apóstolo está
aconselhando o cristão/servo a suportar tristezas! Exatamente isso! Quem
disse que o evangelho não inclui o suportar tristezas? Muitas vezes elas são
necessárias. Ademais, pode-se ainda “sofrer injustamente, por motivo de sua
consciência para com Deus”. Talvez uma das maiores dores seja a injustiça.
Sofrer injustamente é aterrador! Contudo, essa é mais uma parte do cálice
oferecido ao servo. O sofrimento aqui gira em torno da consciência para com
Deus; possivelmente por causa do comportamento, relacionamento ou
mesmo culto prestado pelos servos a Jesus Cristo. O servo poderia ser
perseguido por conta de sua postura diante de Deus. Mas, apesar das dores
e perseguições, ele deveria suportar, sofrer o dano, aguentar a injustiça.
“Pois que glória há, se, pecando e sendo esbofeteados por isso, o
suportais com paciência? Se, entretanto, quando praticais o bem, sois
igualmente afligidos e o suportais com paciência, isto é grato a Deus”.
A razão para se submeter ao perverso está no fato de que isso é grato
ao Senhor Deus, ou seja, que recompensa o servo teria caso sofresse por
merecimento, por ações reprováveis em seu serviço? Certo que nenhuma!
Mas, caso venha a sofrer honrando seu senhor, isso redundará em dádiva
como uma boa obra.
“Porquanto para isto mesmo fostes chamados”. Os servos foram
chamados com essa finalidade, para serem submissos e respeitosos aos seus
senhores. Inclusive, passando por sofrimentos e aguentando injustiças a fim
de buscar estabelecer a vontade de Deus e a ordem nas instituições. O servo
foi chamado para sofrer por amor a Cristo.

APLICAÇÃO

A mensagem pode ser aplicada em nossas relações modernas entre


funcionários e patrões. Assim, o texto estaria trabalhando as obrigações do
funcionário com relação ao seu chefe. Os dois perigos evitados por Pedro
devem nos orientar igualmente a não falharmos em nossas relações
empregatícias.
Em primeiro lugar, não devemos nos aproveitar da simpatia ou boa
vontade do chefe cristão imaginando que por este fato se alcançaria alguma
vantagem ou liberdade. O funcionário poderia se aproveitar disso para
negligenciar sua função, reclamar alguma isenção de disciplina e outras
coisas do tipo. “Os empregados cristãos jamais devem aproveitar de seus
empregadores cristãos. Cada um deve dar o melhor de si e se esforçar
honestamente para merecer seu salário”34. O fato de o patrão ser cristão

34 WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento. volume II. Santo André –
SP: Geográfica. p. 522.

- 37 -
juntamente com o funcionário não deve interferir no tipo de acordo
empregatício entre ambos. Lá na empresa o funcionário deve continuar
sendo um bom empregado, honrando seu chefe. Ademais, deve prestar um
serviço ainda melhor, pois, segundo os princípios do Novo Testamento, todo
o serviço deve ser encarado como um serviço prestado à Deus (Colossenses
3.17; 1 Coríntios 10.31). Temos sido bons funcionários? Temos realizado um
trabalho de qualidade? Temos cumprido nosso horário de trabalho
corretamente? Temos dado lucro ou alcançado as metas propostas pela
empresa? Temos sido submissos aos chefes? Temos sido obedientes às
normas de nosso trabalho? Temos honrado o patrão, mesmo quando ele não
for bom e justo? Temos sofrido injustamente e aguentado as aflições por
obediência à Deus e para seu louvor e glória?
Outra consideração é em relação à paciência quanto a mudanças. A
orientação de Pedro era para que o povo suportasse sua condição de escravo.
Uma atitude de rebeldia não resolveria a situação. Uma revolta não traria a
solução. Assim, seria preciso tempo para que as estruturas da sociedade
como um todo fossem influenciadas pelo cristianismo e mudadas em
gerações futuras. Isso segue ocorrendo ainda hoje. Algumas circunstâncias
sociais de maior envergadura não poderão ser mudadas no momento! O
cristão deverá conseguir conviver com elas para que após anos, décadas ou
séculos possa visualizar algum avanço. Tenhamos paciência para esperar
que as grandes mudanças ocorram pela graça de Deus.

II – O EXEMPLO DE CRISTO: O SERVO PERFEITO

Cristo é nosso maior exemplo de como ser um servo submisso. O servo


sofredor cumpriu exatamente o que aqui requer de nós. Ele suportou com
muita paciência a injustiça e o sofrimento. Sofreu por nós, em nosso lugar,
mas sem pecado. Não tinha falha nem dolo algum. Mesmo assim, seu
procedimento foi exemplar. Quando ultrajado, não revidava com ultraje;
quando maltratado não fazia ameaças, não revidava. Ele se entregou
completamente a Deus esperando que dos céus ele trouxesse a justiça e
vingança. Assim, ele carregou em seu corpo, nossos pecados para que nós
alcançássemos a vida. Por isso é dito que “por suas chagas nós fomos
sarados”. Nós estávamos como ovelhas desgarradas, sem pastor. Mas, agora
temos o grande Pastor e Bispo de nossas almas.

a) Cristo sofreu por nós.

“Cristo sofreu em vosso lugar”. Cristo é nosso exemplo maior. O texto


fala que ele sofreu em nosso lugar. Se ele sendo perfeito, justo, o Deus-
Homem sofreu inocentemente por nós, por que nós não poderíamos, como
servos imperfeitos, e por breve momento, sofrer por Cristo? Então, se ele
também sofreu por nós, devemos nós sofrer por ele.
Ele é nosso exemplo, como dito antes. “A palavra grega hypogrammos,
traduzida por ‘exemplo’, se refere ‘aos contornos claros das letras sobre as
quais os alunos que aprendiam a escrever faziam os seus traços, e também a
um conjunto de letras escritas no alto da página ou outro texto qualquer

- 38 -
para ser copiado pelo aluno no resto da página”35. É desse jeito, portanto,
que devemos escrever a nossa vida: seguindo os traços de Jesus Cristo. Seu
“pontilhado” nos ajuda a formar uma bela escrita.

b) Cristo sofreu sendo inocente.

“O qual não cometeu pecado, nem dolo algum se achou em sua boca”.
Outra qualidade do Senhor é que ele era perfeito. Não havia nele pecado
algum ou dolo. Assim, o servo deve se comportar. Manter sua vida ilibada,
sem pecado, sem dolo. Evidentemente, temos limitações por conta da
pecaminosidade humana, mas, mesmo assim, devemos caminhar em busca
de uma vida santa e resiliente mesmo quando alvos de injustiças.

c) Cristo não se rebelou.

“Quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não


fazia ameaças”. Mais uma recomendação a ser seguida. O Senhor não
revidava na mesma moeda. Ele conseguia retribuir mal com bem. É
impressionante o equilíbrio psicológico de Jesus quando se observa este
ponto. Muitos homens não teriam paciência de suportar o ultraje sem
esboçar a menor reação. Diante de maus-tratos, normalmente os homens já
se exasperam, já reclamam e acionam seus direitos. Já reagem com força e
veemência. Mas, suportar isso sem fazer ameaças, sem retribuir a agressão é
para pouquíssimos. Essa foi a recomendação para o servo, não revidar, não
ameaçar.

No final, encontramos uma consolação e esperança, pois por Cristo


estamos “mortos para os pecados e vivos para a justiça”. Fomos sarados
pelas pisaduras do Senhor. Estávamos desgarrados, porém, agora temos um
Pastor. Estávamos desviados, mas agora seguimos o Bispo de nossas almas.
Por isso, temos condições de ser os servos almejados por Deus: servos
submissos!

APLICAÇÃO

O exemplo de Cristo nos constrange. Sua paciência diante da


provação, sua perfeição em meio a ira, sua resposta em amor e paz quando
era caçado, nos mostram o quanto temos que avançar em santidade. Cristo
sofreu por nós, temos sofrido por Cristo? Temos negado a nós mesmos,
nossos desejos, nossos impulsos pessoais por justiça e vingança e esperado
no Senhor? Temos lançado nossas causas nas mãos do Senhor, para o juízo
de Deus? Temos mantido uma vida santa e longe, o quanto possível, do
pecado, imitando nosso Senhor Jesus, que não tinha pecado, nem dolo
algum? Temos esperança em viver os altos padrões de Deus descansados na

35 BRUCE, F. F. apud LOPES (2012).


LOPES, Hernandes Dias. 1Pedro: com os pés no vale e o coração no céu. São Paulo: Hagnos, 2012.
p. 92.

- 39 -
realidade de que o supremo Pastor de nossas almas cuida de nós? E que o
Bispo da igreja supervisiona e administra nosso caminhar?

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A instrução de Pedro nessa epístola salienta os deveres do cristão


como servos. Desta forma, é necessária a submissão do servo, pois isso é
grato a Deus, é a vontade do Pai. O servo deve fazê-lo por causa de Deus,
mesmo quando seu senhor for perverso. Há um modelo a ser seguido: o
próprio Jesus Cristo. Ele foi submisso e servo até a morte. Assim, devemos
nós também ser obedientes aos senhores. O modelo de Cristo é
constrangedor, pois ele era perfeito, mas, quando injustiçado, sempre reagia
com pacificidade. Não retribuía maus-tratos nem insultos. Tudo suportava,
entregando sua causa à Deus. Que o Senhor nos abençoe para vivermos
dessa maneira.

- 40 -
BREVES CONSELHOS PARA ESPOSAS E MARIDOS
1 Pedro 3:1-7

1Mulheres, sede vós, igualmente, submissas a vosso próprio marido, para que, se ele ainda
não obedece à palavra, seja ganho, sem palavra alguma, por meio do procedimento de sua
esposa,
2 ao observar o vosso honesto comportamento cheio de temor.
3 Não seja o adorno da esposa o que é exterior, como frisado de cabelos, adereços de ouro,
aparato de vestuário;
4 seja, porém, o homem interior do coração, unido ao incorruptível trajo de um espírito manso
e tranqüilo, que é de grande valor diante de Deus.
5 Pois foi assim também que a si mesmas se ataviaram, outrora, as santas mulheres que
esperavam em Deus, estando submissas a seu próprio marido,
6 como fazia Sara, que obedeceu a Abraão, chamando-lhe senhor, da qual vós vos tornastes
filhas, praticando o bem e não temendo perturbação alguma.
7 Maridos, vós, igualmente, vivei a vida comum do lar, com discernimento; e, tendo
consideração para com a vossa mulher como parte mais frágil, tratai-a com dignidade, porque
sois, juntamente, herdeiros da mesma graça de vida, para que não se interrompam as vossas
orações.

INTRODUÇÃO

Pedro traz nessa seção conselhos para mulheres e maridos.


Basicamente escreve duas orientações para as mulheres, a primeira quanto
à submissão e a segunda em relação à sua verdadeira beleza. Com relação
aos maridos, estes devem buscar sabedoria para viver com suas esposas e
honrá-las porque elas são “a parte mais frágil” e igualmente são abençoadas
por Deus.

I – CONSELHOS PARA MULHERES. vv. 1-6

Falar sobre submissão feminina não é fácil em nossa época. Em parte,


pelo mal testemunho dos homens, pois alguns tem utilizado mal esse
princípio e feito da mulher, ao invés de submissa, capacho. Por outro lado,
porque as ideologias feministas são muito influentes na sociedade e
abominam qualquer ideia de submissão. A filosofia secular moderna advoga
a plena igualdade entre os gêneros, não havendo espaço para o pensamento
cristão de que ao homem cabe a liderança do lar, da igreja e da sociedade e,
à mulher, uma função complementar nessa missão.
Assim, encontramo-nos diante de um tema delicado, mas necessário
para a igreja

a) Submissão

O conselho de Pedro é dirigido inicialmente à mulher. Ele recomenda


que elas sejam submissas aos maridos. A questão da submissão não é uma
construção de Pedro, nem uma manipulação da igreja; pelo contrário,
reverbera um ensino bíblico.
A questão da submissão não deve ser relativizada, como se fosse algo
apenas para aquela “época” e muito menos considerada uma intromissão

- 41 -
machista no texto bíblico. Esse tipo de posicionamento representa uma fuga
da óbvia realidade do texto e do mandamento do Senhor.
Antes de vermos o que a Bíblia fala sobre isso, vejamos algumas ideias
relacionadas à submissão. “A palavra ‘submissão’ é um termo militar que
significa ‘sob uma hierarquia”36. “Deus estabeleceu na criação vários níveis
de autoridade: Deus é o cabeça de Cristo, Cristo é o cabeça de todo homem,
e o homem é o cabeça da mulher (1Co 11.3, 1Pe 1.13,14). A ideia de
submissão não é de inferioridade ou rivalidade, mas parceria”37.
O que a Bíblia fala sobre submissão? Vamos tentar reconstruir
rapidamente o conceito.
Em Gênesis vemos o Senhor criando o homem o colocando-o no jardim
do Éden para o cultivar e o guardar. Havia um propósito para que a figura
masculina tivesse essa primazia no sentido de assumir a função de liderança
e guarda. Não foi por acaso que o homem teve essa missão, na verdade, a
função de liderança já estava sendo estabelecida a Adão e sua posteridade
desde aquele momento.
Depois, o Senhor deu uma ordem ao homem: “De toda árvore do
jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal
não comerás. (Gênesis 2.16-17)”. A ordem foi dada ao homem. Ele é que
tinha a responsabilidade de obediência e deveria prezar para que não fosse
desacatada.
Em seguida, Deus falou: “Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei
uma auxiliadora que lhe seja idônea” (Gênesis 2.18). O plano de Deus foi
criar a mulher com a missão de auxiliar o homem; ela deveria ser uma
ajudadora. O verso 20, do mesmo capítulo de Gênesis insiste que o homem
ainda não tinha uma auxiliadora. Mas, ele precisava de uma auxiliadora
para quê? Para as atividades no jardim; para atender ao mandato do Senhor:
“Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os
peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela
terra” (Gênesis 1.28).
Esse episódio foi compreendido adequadamente como a vontade do
Criador para o exercício dos papeis do homem e da mulher na família, no
contexto religioso e na sociedade. Assim, na esfera da família, o homem
consolidou sua função de líder e sacerdote. Abrão, por exemplo, recebeu a
ordem de Deus: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai
para a terra que te mostrarei (...)” (Gênesis 12.1). Ele obedeceu a Deus e,
com atitude de líder, conduziu sua esposa para a jornada. “Levou Abrão
consigo a Sarai, sua mulher” (Gênesis 12. 5). Abrão era o líder da família.
Ele exercia esse papel de condutor, protetor e provedor de sua casa. Tempos
depois, vemos em Israel uma postura semelhante. Josué igualmente
proclamou: “Eu e a minha casa serviremos ao Senhor” (Josué 24.15). Ele,
como um sacerdote do lar, tomou a dianteira dos rumos de sua casa e
definiu a quem eles prestariam adoração. Jó também agiu como líder e
sacerdote: “Decorridos o turno de dias de seus banquetes, chamava Jó a

36 WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento. volume II. Santo André –
SP: Geográfica. p. 527.
37 LOPES, Hernandes Dias. 1Pedro: com os pés no vale e o coração no céu. São Paulo: Hagnos,
2012. p. 99.

- 42 -
seus filhos e os santificava; levantava-se de madrugada e oferecia
holocaustos segundo o número de todos eles, pois dizia: Talvez tenham
pecado os meus filhos e blasfemado contra Deus em seu coração” (Jó 1.5).
Assim, pode-se concluir que os patriarcas seguiram esse modelo de
liderança masculina no lar.
Entretanto, não foi só no lar que a liderança masculina e a submissão
feminina foi estabelecida. Nas coisas referentes ao culto igualmente a
liderança masculina foi notória. O primeiro grande líder espiritual de Israel
foi Moisés. Os sacerdotes eram apenas homens da tribo de Levi e
descendentes de Arão, irmão de Moisés. O sumo sacerdote, também era
homem. Posteriormente, os profetas, aqueles de ofício, eram todos homens.
Assim, podemos concluir que os oficiais da religião no Antigo Testamento
eram homens, o que, exibia a vontade de Deus.
Na esfera civil não foi diferente. As autoridades tais como príncipes,
juízes e reis eram todas masculinas.
Essas imagens da liderança masculina visam mostrar indiretamente a
submissão da mulher em todos os âmbitos da vida. Quer seja no lar, na
religião ou na sociedade.
No Novo Testamento essa perspectiva não mudou. A questão da
submissão feminina continuou ainda mais clara. O apóstolo Paulo ensinou:
“Esposas, sede submissas ao próprio marido, como convém no Senhor”
(Colossenses 3.18) e “As mulheres sejam submissas ao seu próprio marido,
como ao Senhor; porque o marido é o cabeça da mulher, como também
Cristo é o cabeça da igreja, sendo este mesmo o salvador do Corpo. Como,
porém, a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em
tudo submissas ao seu marido” (Efésios 5.22-24). Essa instrução alcançou o
contexto do lar.
Em outra parte, o apóstolo Paulo mostrou a submissão da mulher na
igreja: “A mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. E não permito
que a mulher ensine, nem exerça autoridade de homem; esteja, porém, em
silêncio. Porque, primeiro, foi formado Adão, depois, Eva. E Adão não foi
iludido, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão” (1 Timóteo
2.11-14). Claro que o texto é chocante, mas precisamos compreender que
Paulo está corrigindo veementemente uma distorção que havia na igreja, em
que possivelmente, as mulheres estavam causando transtornos com
perguntas e questionamentos em público, o que, não seria próprio para
ninguém no momento do culto e exposição da Palavra.
Mas, aproveitando a oportunidade, o apóstolo ampliou a orientação
reafirmando que a liderança da igreja deveria ser exercita por homens e a
mulher não poderia exercer essa autoridade masculina.
Os conselhos de Paulo à Timóteo traçam posteriormente o perfil do
ministro (o pastor) da igreja. Devem ser homens, casados, fieis, aptos a
ensinar, etc. Os diáconos também deveriam ser homens com praticamente
as mesmas credenciais dos ministros.
Assim, chegamos à conclusão de que a submissão da mulher não é
um mero capricho de Pedro, mas um princípio universalmente reconhecido
nas Escrituras.

- 43 -
Além da mulher ter de ser submissa por conta do princípio de Deus,
ela também deveria fazer isso pois, segundo Pedro, seu exemplo poderia
ganhar seu marido incrédulo. Seu exemplo falaria mais alto que sua voz.

b) A beleza da mulher

Além do conselho da submissão, Pedro tem mais a falar às mulheres.


Ele comenta sobre sua beleza, adornos e adereços. A intensão do apóstolo
era orientar as mulheres para que não fossem fúteis. Não se preocupassem
demasiadamente com a aparência, firmando nela seu valor; ou seja, a
beleza, a formosura e o valor da mulher não deveria estar nas joias, nas
roupas ou na aparência. Mas, sua beleza essencial deveria estar no interior,
deveria ser mostrada por meio de um espírito manso e tranquilo. Esse
adorno seria valoroso diante de Deus.
Pedro está falando, em outras palavras, para que as mulheres sejam
bonitas por dentro e por fora, não tendo ornamentos somente de berimbelos
materiais, mas de valores espirituais. “Pedro está orientando as mulheres
cristãs a não colocarem toda a atenção nos adereços exteriores, mas a
cultivarem a beleza interior”.38
O texto não fala contra a vestimenta, o cuidado pessoal, a higiene ou a
beleza. Mas, orienta que o valor da mulher não deveria ser apenas isso!
“Então Pedro não tinha a intenção de condenar toda sorte de ornamento,
mas o mal da vaidade, ao qual as mulheres se sujeitam”39.
Sara, mulher de Abraão tinha essa beleza interior. E como ela
evidenciava? Sendo submissa a seu marido, obedecendo-o em tudo, e até
chamando-o de senhor. Isso mostrava seu coração manso e espírito
tranquilo.

APLICAÇÃO

As mulheres devem viver o mandamento bíblico da submissão. Ao


contrário de cair da “conto da carochinha”, na falácia de filosofias
mundanas, seculares e feministas, as mulheres cristãs devem defender o
princípio bíblico. Você, mulher, tem sido submissa ao seu marido? Como
tem demonstrado isso? Tem defendido esse princípio bíblico diante do
mundo?
A questão da beleza também tem sua importância. O mundo vive uma
onda de vaidade jamais vista. As marcas de cosméticos, os tratamentos de
beleza, as cirurgias explodiram em adesão em nosso tempo. As mulheres
estão muito preocupadas com isso e investem milhares em produtos e
tratamentos. A questão que Pedro enfatiza é: onde está sua beleza? Onde
está seu valor? Nos adereços externos ou no espírito? Você, mulher, gasta
mais tempo e dinheiro aprendendo sobre Deus, crescendo em espírito,
investindo nas coisas do reino ou em maquiagem e tratamentos de beleza?
Imagine se no juízo final Deus comparasse o tempo gasto com cuidados

38 Idem. p. 108.
39 CALVIN, Jean. Epístolas gerais. São José dos Campos, SP: Fiel, 2015. pp. 216-217.

- 44 -
estéticos e práticas espirituais das mulheres. Como estaria sua balança em
relação a isso? Positiva ou negativa?

II – CONSELHOS PARA MARIDOS: CUIDADO. v. 7

Aos maridos o apóstolo aconselha: “maridos, sejam sábios no convívio


com suas mulheres e tratem-nas com honra, como parte mais frágil e co-
herdeiras do dom da graça da vida, de forma que não sejam interrompidas
as suas orações” (NVI).
A submissão da mulher não desobriga o homem de suas
responsabilidades, pelo contrário, traz maior compromisso. O homem deve
amar a sua mulher e cuidar dela com carinho e respeito.
A submissão não implica inferioridade da mulher. Submissão está
relacionada à papeis sociais exercidos pelas pessoas, não com a dignidade
intrínseca de cada uma. “A submissão diz respeito à ordem e à autoridade,
não ao valor de cada um”40. O próprio Jesus foi submisso. Quando criança
era submisso aos seus pais (Lucas 2.51) e, em seu ministério, foi submisso à
Deus: “Porque desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade
daquele que me enviou (João 6.38). Contudo, isso nunca significou que ele
fosse menor do que o Pai. “Eu e o Pai somos um” (João 10.30). Da mesma
forma, o homem deve olhar sua mulher, não como uma pessoa inferior, mas,
enxergando sua real dignidade.
Submissão não significa subserviência. “A submissão ao seu marido
não é cega. Tem limites. A esposa não está obrigada a obedecer ao marido
quando este se insurge contra os princípios de Deus”41.
A ideia de submissão bíblica jamais deu margem a maus-tratos,
grosserias ou dominação forçada. Os homens devem entender isso.

a) Ser sábio no convívio com as mulheres

Dessa forma, o homem deve ter sabedoria para viver a vida comum do
lar, a vida cotidiana com sua esposa. Deve entender o funcionamento da
submissão de sua esposa. Deve ser sábio para não abusar dessa graça, não
praticar estelionato da bondade alheia.
A vida em família tem seus desafios. A sabedoria é evocada aqui
justamente para o homem ter direção adequada sobre seu lar. Os desejos,
opiniões, ambições e liberdade de cada um tornam o convívio social um
ambiente que exige discernimento para crescer saudavelmente, com temor
do Senhor.
O homem deve ser inteligente para dar soluções e resolver problemas.
Deve buscar a Deus por sabedoria para seu lar. Às vezes busca-se sabedoria
para diversos fins, mas esquece-se de um dos mais nobres: conservar o lar
cristão sob a bênção de Cristo.

40 WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento. volume II. Santo André –
SP: Geográfica. p. 527.
41 LOPES, Hernandes Dias. 1Pedro: com os pés no vale e o coração no céu. São Paulo: Hagnos,
2012. p. 100.

- 45 -
b) Tratar com honra: como parte mais frágil

Com essa sabedoria, o homem tem consciência de que não deve tratar
a mulher com grosseria, brutalidade ou ignorância; o tratamento deve ser
com honra! A honra deve ter uma manifestação prática. Não se honra
apenas com palavras, mas com ações. Honrar uma mulher é suprir suas
necessidades materiais, sociais e espirituais. Materiais seriam suprimento
alimentícios, medicamentos, casa, vestimenta, lazer e outros. Os sociais
envolveriam os afetivos, com a inserção na sociedade, a valorização de
amigos, parentes. As questões sentimentais e afetivas igualmente
necessitariam ser supridas. Amor, carinho, respeito, segurança afetiva,
fidelidade. Ademais, as necessidades espirituais também são objetos de
cuidado. O homem como sacerdote do lar propiciaria condições para sua
esposa e filhos manterem um relacionamento saudável com o Senhor,
favorecendo a esposa ir à igreja, participar dos cultos, servir aos Senhor com
seus dons e talentos.
Há basicamente dois motivos, no texto, para a mulher ser honrada.
Primeiro, por ser a parte mais frágil. Essa expressão não quer dizer que a
mulher seja débil, mas que na estrutura organizada pelo Criador, ela é alvo
da proteção e provisão. O homem foi feito para proteger e prover, logo, o alvo
dessa proteção e cuidado é a mulher. Nesse sentido ela é considerada a
parte “frágil”.

c) Tratar com honra: pois são co-herdeiras da graça

O outro motivo dado para se honrar a mulher é porque igualmente ela


recebeu a mesma graça de Deus que os homens. Ela é tão honrada
espiritualmente e tão valorosa à Deus como qualquer outra pessoa. A
salvação de Deus alcançou a mesma, assim, por causa da obra de Deus em
seu favor, não deve haver diferença espiritual, mas valorização da mulher.

A última recomendação é para que o homem aja assim para que “as
orações não sejam interrompidas”. Ou seja, a oração, a comunhão espiritual
do homem com Deus não é algo dissociado de seu relacionamento conjugal.
Caso haja falha do homem em seu cuidado com a esposa, certamente a
oração desse, ou o culto, será imperfeito, incompleto. Como orar ao Senhor e
prestar-lhe culto quando em casa, não existe a manifestação da vontade de
Deus? Quando o homem não cuida de sua esposa, quando não lhe presta a
honra devida?
A questão do lar é tão importante que influencia até mesmo a vida
espiritual. O lar cristão influencia na vida espiritual e vice-versa, a
espiritualidade deve moldar o lar.

APLICAÇÃO

Homens, temos sido sábios para o trato com nossas esposas em casa?
Temos buscado de Deus entendimento para resolver nossos dilemas
domésticos? Busquemos sabedoria de Deus para cumprirmos nossa parte.

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Se por um lado é necessário a submissão feminina, por outro o homem deve
ser sábio para entender sua mulher e cuidar dela. Se você não for sábio, a
falha será sua!
Temos honrado nossas esposas na prática? Você, homem, tem suprido
todas as necessidades de sua mulher? Tem dado boa alimentação, moradia,
saúde, lazer? Tem garantido sua satisfação social, inserindo-a na sociedade,
exaltando-a em seus feitos? Tornando-a participante ativa de suas
conquistas? Sendo amigável e prestativo com parentes, amigos e
conhecidos? Tem dado condições para ela manter uma vida devocional
saudável diante de Deus? Tem feito cultos domésticos, incentivado ela a ler a
Palavra? Tem ajudado para que ela desenvolva seus dons e talentos? Tem
facilitado o serviço dela no reino? Que Deus tenha misericórdia de nós!

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Apesar da polêmica gerada pelo tema, os conceitos bíblicos se ajustam


plenamente para dar ordem nas relações sociais. Assim, a submissão
feminina e o cuidado masculino devem se complementar para a proteção do
lar e o crescimento tanto do homem como da mulher.
Não desprezemos o ensino bíblico: a mulher deve ser submissa;
contudo, o homem, líder, protetor e provedor.
Estruturemos nossos lares com a estrutura divina e com as invenções
humanas.
Que Deus nos abençoe.

- 47 -
FRATERNIDADE, SOFRIMENTO E SALVAÇÃO
1 Pedro 3:8-22

8 Finalmente, sede todos de igual ânimo, compadecidos, fraternalmente amigos,


misericordiosos, humildes,
9 não pagando mal por mal ou injúria por injúria; antes, pelo contrário, bendizendo, pois para
isto mesmo fostes chamados, a fim de receberdes bênção por herança.
10 Pois quem quer amar a vida e ver dias felizes refreie a língua do mal e evite que os seus
lábios falem dolosamente;
11 aparte-se do mal, pratique o que é bom, busque a paz e empenhe-se por alcançá-la.
12 Porque os olhos do Senhor repousam sobre os justos, e os seus ouvidos estão abertos às
suas súplicas, mas o rosto do Senhor está contra aqueles que praticam males.
13 Ora, quem é que vos há de maltratar, se fordes zelosos do que é bom?
14 Mas, ainda que venhais a sofrer por causa da justiça, bem-aventurados sois. Não vos
amedronteis, portanto, com as suas ameaças, nem fiqueis alarmados;
15 antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados
para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós,
16 fazendo-o, todavia, com mansidão e temor, com boa consciência, de modo que, naquilo em
que falam contra vós outros, fiquem envergonhados os que difamam o vosso bom
procedimento em Cristo,
17 porque, se for da vontade de Deus, é melhor que sofrais por praticardes o que é bom do
que praticando o mal.
18 Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para
conduzir-vos a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito,
19 no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão,
20 os quais, noutro tempo, foram desobedientes quando a longanimidade de Deus aguardava
nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca, na qual poucos, a saber, oito pessoas, foram
salvos, através da água,
21 a qual, figurando o batismo, agora também vos salva, não sendo a remoção da imundícia
da carne, mas a indagação de uma boa consciência para com Deus, por meio da ressurreição
de Jesus Cristo;
22 o qual, depois de ir para o céu, está à destra de Deus, ficando-lhe subordinados anjos, e
potestades, e poderes.

INTRODUÇÃO

O apóstolo Pedro, após orientar a igreja sobre a santificação, falar


sobre a necessidade de o crente estar firmado sobre a rocha, aconselhar
sobre a submissão às autoridades, aos senhores, aos maridos, caminha para
fazer um resumo nessa seção com orientações gerais aos cristãos visando
estabelecer uma família espiritualmente saudável.

I – VÁRIOS CONSELHOS PARA A FAMÍLIA CRISTÃ. vv. 8-12

A igreja deve ser uma grande família. Nessa família deve haver paz,
amor e harmonia. À semelhança das famílias humanas, que tem problemas,
esta também tem, mas, deve, ao contrário daquela, enfrentá-los na
perspectiva da vontade de Deus, ou seja, com base no amor, humildade,
submissão, misericórdia e uma série de outros ingredientes. A suma disso é
que Deus olha para os honestos, mas se opõe aos maus.

a) A prática do bem, vários conselhos.

- 48 -
Sede todos de igual ânimo aponta para a necessidade de a comunidade
ter uma mesma mentalidade, ter harmonia, um mesmo pensamento. É
preciso ter unidade. Um reino dividido não subsiste. “Unidade não é o
mesmo que uniformidade; unidade é cooperação em meio à diversidade.
Apesar de diferentes, as partes do corpo trabalham juntas em unidade. Os
cristãos podem discordar quanto à forma de certas coisas, mas devem
concordar quanto ao conteúdo e a motivação”42. Uma conhecida expressão
afirma: “Nas coisas fundamentais, unidade; nas coisas não essenciais,
liberdade; e em todas as coisas, caridade”43.
Compadecidos vem de compaixão. O irmão deve sentir compaixão pelo
próximo, deve condoer-se. Viver a dor do outro. Não ser insensível ao
sofrimento alheio. “Não se pode endurecer o coração para o semelhante.
Deve-se compartilhar tanto as alegrias quanto as tribulações (Rm 12.15). A
base para isso é o fato de sermos irmãos e irmãs dentro da mesma
família”44.
Fraternalmente amigo, nutrir uma amizade que ultrapassa o
distanciamento normal que há entre amigos, adentrando a familiaridade.
A expressão ‘fraternalmente amigos’ no grego é uma palavra só,
philadelphoi, que significa ‘amor entre irmãos’. O amor entre os
membros da igreja deve ser o mesmo amor que existe entre os irmãos
de sangue. Amamos nossos irmãos não por causa de suas virtudes,
mas apesar de suas fraquezas. Não os amamos por causa de seus
méritos, mas apesar de seus deméritos45.

Misericordiosos são aqueles que colocam o coração na miséria do


outro. Consegue sentir e agir em favor do próximo.
Humildes. A humildade é virtude de não se achar superior aos outros.
Não ser enlaçado pelo orgulho. Somente uma pessoa humilde poderá ser
obediente e compreender relações que envolvem a necessidade da
submissão.
Não pagando mal por mal, injúria por injúria. Esse é um princípio
bíblico. O crente não pode retribuir na mesma moeda o dano que sofreu.
Antes, pelo contrário, bendizendo, pois para isso fostes chamados.
Fomos chamados para bendizer e não maldizer. Falar bem e não mal.
Abençoar e não amaldiçoar.
Viver dias melhores requer que se plante o que é bom! As más palavras
são como sementes que podem trazer graves consequências no futuro.
Assim, Pedro orienta para que se refreie a língua e evite que os lábios falem
dolosamente, ou seja, de forma intencional, consciente coisas ruins.

42 WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento. volume II. Santo André –
SP: Geográfica. p. 531.
43 LOPES, Hernandes Dias. 1Pedro: com os pés no vale e o coração no céu. São Paulo: Hagnos,
2012. p. 117.
44 WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento. volume II. Santo André –
SP: Geográfica. p. 531.
45 LOPES, Hernandes Dias. 1Pedro: com os pés no vale e o coração no céu. São Paulo: Hagnos,
2012. p. 118.

- 49 -
b) Por que novamente conselhos para se fazer o bem?

Primeiramente porque nós somos pecadores e imperfeitos. Apesar de


conselhos sobre a prática do bem já terem sido recomendados (2.19-21),
nada garante que será suficiente uma única abordagem do tema. Talvez nos
comportemos como um filho quando o pai lhe dá uma ordem, mas tempos
depois o filho é surpreendido fazendo o contrário do que foi dito. Então, o pai
lhe corrige e novamente lhe orienta. Tempos depois, para surpresa do pai, o
filho continua cometendo o erro.
Assim somos nós. Deus continuamente está nos falando, contudo, o
entendimento da mensagem e a mudança de vida, muitas vezes exigem
insistência. É preciso reforçar a mensagem, repetir o conteúdo, insistir na
orientação. Ao contrário de nós, que desistimos facilmente dos projetos,
Deus não desiste do seu povo. Ele está moldando seu povo santo e importa,
se preciso for, que um princípio seja retomado várias vezes afim de alcançar
o objetivo colimado.
Por outro lado, a prática do bem traz recompensas ao cristão. Deus é
galardoador daqueles que o buscam. Desse modo, há uma promessa quanto
a fidelidade do servo de Deus. “O Senhor olha com atenção as pessoas
honestas e ouve seus pedidos”. A vida diante dos padrões do Senhor é tal
que lhe atrai a atenção. O próprio Deus olha as pessoas honestas e ouve
seus pedidos. Doutro modo, o texto quer nos mostrar que aqueles que
andam nos caminhos do Senhor terão comunhão com ele, serão alvos de seu
“olhar”, suas bênçãos. A vida em fidelidade é proveitosa.
Contudo, o que faz o mal tem contra si o próprio Deus. Ele não
compactua com a maldade. É juiz justo que refreia o mal. “Horrível coisa é
cair nas mãos do Deus vivo” (Hebreus 10.31).

APLICAÇÃO

A igreja deve ser uma família exemplar, cheia de amor, paz e


misericórdia, como vimos. Portanto, um exercício importante para os crentes
é analisar se há algum litígio ocorrendo com outras pessoas, alguma intriga,
mágoas, desavenças, brigas ou disputas. Uma igreja não pode viver num
clima como esse, não pode andar como família quando se digladia
constantemente. Então, peçamos perdão à Deus e aos nossos irmãos pelas
nossas falhas. Acabemos com as brigas e disputas. Amemos mais e sejamos
mais misericordiosos. Sejamos praticantes do bem e não somente ouvintes.
Por outro lado, vimos que: “O Senhor olha com atenção as pessoas
honestas e ouve seus pedidos”. Muitas propostas sobre como chamar a
atenção, o olhar de Deus, são feitas no mundo cristão. A última é a proposta
do “louvor extravagante”. Segundo o qual você deveria fazer algo diferente,
extravagante para atrair a atenção de Deus. Nisso caberia pular, gritar, voar
como uma ave, rugir como um leão, etc. Contudo, nesse momento, nos
atenhamos à Palavra quando diz que, na verdade, Deus olha para o
“honesto”, ou seja, aquele que dá ouvidos à sua palavra e vive suas leis. Ao
contrário de ter que realizar “sacrifícios” ou ações que extrapolam o comum,
o conselho bíblico simplesmente aponta que o Senhor quer simplesmente

- 50 -
um coração obediente. Assim, irmãos, devemos considerar os princípios
bíblicos e viver a vontade de Deus, sabendo que assim, nossa vida não será
apática, sem graça ou com falta de algo, mas com a verdadeira convicção de
que agindo assim, o Senhor estará olhando para nós, e ouvindo nosso
clamor.

II – SOFRENDO POR CAUSA DA JUSTIÇA. vv. 13-18

De modo geral, aquele que faz o bem recebe um tratamento à mesma


altura. Contudo, há casos em que se sofre sem merecer. Existe o sofrimento
do “justo”. O sofrimento por fazer e proclamar a justiça de Deus. Nesses
casos, o apóstolo recomenda: “Não vos amedronteis, portanto, com as suas
ameaças, nem fiqueis alarmados”! A orientação é para o cristão não temer.
Ter coragem e não se impressionar com o que dizem os homens, com suas
ameaças, com seus desaforos, com seus impropérios.

a) O temor dos homens

O assunto instiga a pensarmos sobre um conceito chamado “o temor


dos homens”. O temor dos homens pode ser entendido como “o temor de
perder dos homens o favor, o amor, a boa vontade, a ajuda e a amizade”46.
Buscar a aprovação dos homens em detrimento do cumprimento da vontade
de Deus. Querer a aceitação dos homens ao preço de sacrificar o temor ao
Senhor!
Pedro cedeu a esse tipo de temor quando estava se aquecendo próximo
a uma fogueira do lado de fora de onde Jesus sofria. Seu temor lhe fez ficar
em silêncio. O pior, lhe rendeu insultos e blasfêmias contra Cristo. Mas, o
próprio Jesus lhe ensinou: “Não temais os que matam o corpo e não podem
matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a
alma como o corpo” (Mateus 10.28).
Assim, Pedro fala para que o crente não tema ao homem mal, não se
amedronte diante das tribulações, diante da oposição.

b) O dever do cristão: apologética

Ao contrário do temor, da covardia, do silenciamento, o cristão deve


santificar a Cristo em seu coração, ou seja, honrar ao Senhor mais do que
aos homens, e estar preparado para falar, para agir! Devemos “defender” o
evangelho. “O termo apologia vem da palavra grega traduzida por ‘resposta’ e
significa ‘uma defesa apresentada em um tribunal’. A ‘apologética’, é o ramo
da teologia que trata da defesa da fé. Todo cristão deve ser capaz de defender
de maneira fundamentada sua esperança em Cristo”47. Devemos conhecer a
vontade de Deus, as doutrinas bíblicas. Os questionamentos que nos

46 BATZIG, Nicholas. 7 Temores Mortais: Temor dos Homens. Disponível em:


<http://www.ministeriofiel.com.br/artigos/detalhes/851/7_Temores_Mortais_Temor_dos_Homens>.
Acesso em: 16 set. 2018.
47 WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento. volume II. Santo André –
SP: Geográfica. p. 533.

- 51 -
chegam devem ser explicados; toda a razão da nossa esperança deve ser
explanada.
Notemos que o caminho não é a fuga, nem a omissão. O cristão deve
saber falar sobre sua fé. Deve ter uma fé vívida e firme, cheia de razão,
transbordando entendimento. Não advogamos uma fábula; nossa fé não é
mística, utópica, mas a verdade absoluta. Portanto, como verdade deve ser
propagada.
Contudo, o modo de fazer isso deve primar pela cortesia e educação.
Falar com mansidão, temor a Deus e boa consciência. “O testemunho deve
ser dado ‘com mansidão e temor [respeito]’, não com arrogância nem com
uma postura de quem sabe tudo”48. Caso contrário, uma abordagem áspera
e truculenta pode fazer o cristão perder “a razão”. O objetivo de uma
abordagem respeitosa é para que após a argumentação, o crente possa fazer
calar seus acusadores, pois depois da explicação, tudo deve ser resolvido. Os
ouvintes, convencidos; e as falsas acusações, pelo bom procedimento,
envergonhadas.
Devemos sofrer injustamente e com paciência porque Jesus também
sofreu injustamente. Na verdade, ele chegou à morte sem cometer mal
algum. Assim, Pedro nos orienta a imitarmos nosso mestre. Ele sofreu,
devemos suportar o sofrimento também.
“Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos,
para conduzir-vos a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito”.

APLICAÇÃO

O temor dos homens deve ser combatido. Não devemos nos curvar às
pressões do mundo, do grupo, do sistema, em covardia e fuga à vontade de
Deus. Temer mais aos homens do que a Deus é loucura! Temos nos
acovardado diante das pressões do mundo, agindo mais por comodidade ou
complacência, com o sistema mundano, do que expressado a vontade de
Deus? Temos manifestado os princípios bíblicos em toda parte: em nosso lar,
trabalho, lazer, na escola, na faculdade, na sociedade? Ou temos tido medo
de expressar nossas crenças? Nossos amigos sabem que somos crentes? Na
faculdade, os colegas, professores e profissionais sabem o que pensamos?
Expressamos isso publicamente na academia?
Além de não termos o “temor dos homens”, somos convocados a
prestar “explicações” sobre nossa fé. Isso se chama apologética (defesa da fé).
Temos defendido nossa fé? Argumentado sobre o porquê de nossas crenças?
Estamos preparados para responder a qualquer um que nos pedir
explicações? Ademais, temos feito isso com paciência, calma e tranquilidade
ou temos nos exasperado? Temos sido mansos ou truculentos? A exposição
da verdade deve ser feita com mansidão.

III – A OBRA DE CRISTO NO SOFRIMENTO. vv. 19-22

Por fim, temos a menção de uma obra de Cristo extremamente


complicada de se interpretar. Jesus teria “ido” em “espírito” pregar aos

48 Idem.

- 52 -
“espíritos em prisão”. Ele teria ido para onde? Alguns dizem inferno! Mas,
está claro isso no texto? Em espírito? Ou seja, depois da morte? Ou na
figura do Espírito Santo? O que são esses espíritos em prisão? Onde é essa
prisão? Enfim, temos uma gama de dificuldades e uma série de
interpretações para o texto.

Um estudo cuidadoso da volumosa literatura acerca dessa passagem


revela que cada comentarista tem sua própria solução e a interpreta
de acordo com suas preferências teológicas. Algumas das
interpretações são as seguintes:
1. Cristo, em seu estado pré-encarnado, pregou aos espíritos agora
em prisão. Isso foi feito pelo Espírito Santo na pregação de Noé, mas
somente Noé e sua família creram e foram salvos.
2. Ele pregou às vítimas do dilúvio que se voltaram para Deus antes
de morrerem nas majestosas águas da inundação universal.
3. Ele foi em espírito até o reino onde somente os espíritos podiam ir
e proclamou a retidão do seu julgamento porque não creram na
pregação de Noé.
4. Ele foi no poder do Espírito e proclamou-se Vitorioso, e levou os
santos do AT (“presos de esperança”, Zc 9.12) ao alto (cf. Ef 4.8-10),
separando assim a seção do paraíso do Hades da seção dos espíritos
maus.
5. Na forma incorpórea da sua existência, que ele assumiu logo após
a sua morte, Ele foi proclamar a vitória sobre os anjos caídos
destruidores cujo poder sedutor poluiu o mundo antediluviano e
causou o dilúvio (6.1-8). Sua proclamação de vitória sobre todo o mal
era uma má notícia para os espíritos maus.
6. Ele foi em espírito, não na forma corpórea, entre sua crucificação e
ressurreição, e proclamou a mensagem do evangelho, para libertar
aqueles que foram desobedientes, mas creram nele e na sua
pregação após a morte deles49.

Vejamos as duas interpretações mais comuns e busquemos aplicações


para nossa realidade a partir desse ensino.

1. Interpretação (mais conhecida).

Jesus Cristo teria ido ao hades para pregar o evangelho aos que
estavam mortos. A pregação alcançaria a todos que lá estivessem, sejam os
espíritos desencarnados dos homens, anjos ou potestades quaisquer.
Assim, Cristo teria transformado o hades em um campo
missionário50. “Consideremos a grandiosidade de Cristo: ele atinge homens
em todos os lugares e sob todas as condições. Por que diminuiríamos as
tremendas dimensões de sua missão remidora, a fim de satisfazer nossas
mentes quanto a certo ponto de vista sobre a natureza do julgamento?”.51
O problema com esse tipo de interpretação é que em nenhuma parte
do Novo Testamento está claro que Jesus Cristo teria descido ao inferno.
Outra dificuldade é que parece dar oportunidade aos mortos incrédulos

49 EARLE, Ralph, SANNER, A. Elwood, CHILDERS, Charles L. Comentário bíblico Beacon. Vol. 10.
Rio de Janeiro – RJ: CPAD, 2006. p. 235.
50 CHAMPLIN. R. N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 5. São Paulo:
Editora Candeia, 1995. p. 147.
51 Idem. p. 148.

- 53 -
terem acesso ao evangelho e transformarem seu estado de vida. A Bíblia
afirma que depois da morte segue-se o juízo! (Hebreus 9.27).

2. Interpretação (alinhada à visão reformada).

O texto pode ser entendido de outra forma.


A seção refere-se à pregação antes da encarnação (ou seja, que Cristo
pregou por intermédio de Noé [cf. 2Pe 2.5] para os ímpios contemporâneos
de Noé enquanto eles ainda estavam vivos). Ele conclamou-os ao
arrependimento, mas eles desobedeceram e estão agora presos. O que Pedro
quis dizer, então, é que há um paralelo entre a justificação de Noé por Deus
num mundo de descrentes e sua justificação de cristãos em circunstâncias
semelhantes52.

APLICAÇÃO

A obra de Cristo é maravilhosa e mais ampla do que às vezes


imaginamos. A passagem traz um desafio interpretativo. É preciso tomar
cuidado com textos difíceis da Escritura para não cairmos em falsas
opiniões. Uma passagem mais “obscura” deve ser compreendida à luz de
outras mais claras. Assim, antes de supormos isso ou aquilo, é preciso
investigarmos a Palavra em busca de compreensão. Assim, o conselho em
situações como essas é orarmos com humildade e buscarmos compreensão
na Palavra de Deus.
O fato mostra que muitos foram rebeldes em relação à longanimidade
de Deus. Não deram ouvidos à pregação de Noé e somente oito pessoas se
salvaram. Será que estamos vivendo um paralelo com aquele tempo? Será
que as pessoas não estão sendo rebeldes em relação à pregação do
evangelho em nossa época? Será que não estão escarnecendo da bondade e
longanimidade de Deus?
A arca figura o batismo para nós. Foi dito que esse batismo, ou seja,
essa salvação, “não sendo a remoção da imundícia da carne, mas a
indagação de uma boa consciência para com Deus”. Isso nos mostra que a
salvação não significa que seremos perfeitos imediatamente. Não é a
remoção da “imundícia da carne”, ou seja, não é uma purificação e infusão
de justiça, de perfeição. Mas, o perdão. A “indagação de uma boa consciência
para com Deus”. É uma mudança de mente, de coração, e perdão das
consequências espirituais do pecado. Posto isso, precisamos compreender
que salvação é uma coisa e santificação, aperfeiçoamento e perfeição é outra.
A primeira, se alcança instantaneamente; a segunda, somente na
eternidade, após toda a caminhada cristã nessa vida.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os crentes receberam, nessa perícope, orientações gerais para nutrir


uma vida saudável na família de Cristo. Pedro acrescentou que é possível o

52 Bíblia de Estudo de Genebra. 2ª ed. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil; São Paulo: Cultura
Cristã, 2009. p. 1685.

- 54 -
sofrimento do justo, contudo, não se deve temer ao homem, antes a Deus!
Diante das provações, observemos o exemplo de Cristo, que foi condenado à
morte injustamente, sem ter cometido mal algum. Assim, como o feito dessa
injustiça trouxe a salvação dos pecadores, isso indica que o sofrimento do
justo igualmente redunda em elementos que glorifiquem ao Senhor! Por fim,
à semelhança daqueles rebeldes no tempo de Noé, existem pessoas que
olvidam a Palavra de Deus em nossa época. Por semelhante modo, a arca
salvou alguns naquele tempo e também a graça de Deus nos salva em nossa
presente era.
Que possamos ser crentes comprometidos os valores de Cristo para
vivermos em harmonia na família celeste, que sejamos perseverantes e
firmes diante das provações e confiemos na salvação operada por Cristo em
nossa vida.
Deus nos abençoe.

- 55 -
VIVENDO PARA DEUS
1 Pedro 4:1-11

1 Ora, tendo Cristo sofrido na carne, armai-vos também vós do mesmo pensamento; pois
aquele que sofreu na carne deixou o pecado,
2 para que, no tempo que vos resta na carne, já não vivais de acordo com as paixões dos
homens, mas segundo a vontade de Deus.
3 Porque basta o tempo decorrido para terdes executado a vontade dos gentios, tendo andado
em dissoluções, concupiscências, borracheiras, orgias, bebedices e em detestáveis idolatrias.
4 Por isso, difamando-vos, estranham que não concorrais com eles ao mesmo excesso de
devassidão,
5 os quais hão de prestar contas àquele que é competente para julgar vivos e mortos;
6 pois, para este fim, foi o evangelho pregado também a mortos, para que, mesmo julgados na
carne segundo os homens, vivam no espírito segundo Deus.
7 Ora, o fim de todas as coisas está próximo; sede, portanto, criteriosos e sóbrios a bem das
vossas orações.
8 Acima de tudo, porém, tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre
multidão de pecados.
9 Sede, mutuamente, hospitaleiros, sem murmuração.
10 Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da
multiforme graça de Deus.
11 Se alguém fala, fale de acordo com os oráculos de Deus; se alguém serve, faça-o na força
que Deus supre, para que, em todas as coisas, seja Deus glorificado, por meio de Jesus Cristo,
a quem pertence a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém!

INTRODUÇÃO

O tempo de viver para a carne passou, agora, o chamado é viver para


Deus! O apóstolo Pedro mostra que suportar o pecado, o sofrimento, com a
mesma mentalidade de Cristo, redunda em um viver para Deus. O tempo
que foi gasto com mundanidades, orgias, bebedeiras e idolatria foi perdido. É
tempo de melhor utilizar a vida. Servindo a Deus longe do pecado e usando a
instrumentalidade dos dons que recebemos.

I – VIVENDO PARA DEUS: RELAÇÃO VERTICAL. vv. 1-2

a) Cristo é o modelo.

Primeiramente, Cristo é nosso modelo espiritual. Seus ensinos, sua


vida, sua morte e ressurreição nos apontam grandes verdades para a fé.
Evidentemente que existem peculiaridades que são próprias do Senhor,
coisas que não devemos e não podemos realizar. Tais como elementos que
são próprios da figura do Messias, de sua divindade. Desta forma, nós não
vamos morrer pelo próximo, no sentido salvífico, da maneira como Jesus
morreu pelo homem. Não agiremos com a mesma autoridade com que Jesus
tinha, mas numa autoridade delegada. Ele tinha poder para falar: “Lázaro,
vem para fora!” (João 11.43). Nós, ao contrário, realizamos nossas orações
sempre em termos de petições, e não decretos; e em nome de Jesus: “E tudo
quanto pedirdes em meu nome (...)” (João 14.13). Entretanto, uma vasta
realidade de sua vida serve como elemento didático. Devemos amar assim
como Cristo nos amou: “(...) assim como eu vos amei, que também vos ameis
uns aos outros” (João 13.34). Logo, esse amor deverá ser pleno, legal e

- 56 -
perfeito. Devemos ser um só como Cristo e o Pai o são; precisamos ser
unidos: “(...) para que eles sejam um, assim como nós” (João 17.11). Somos
enviados como ele foi: “Paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, eu
também vos envio” (Jo 20.21), numa missão sacrificial, evangélica, na
submissão ao Senhor Deus Pai e pelo poder do Espírito. No serviço,
igualmente encontramos o referencial em Cristo: “Ora, se eu, sendo o Senhor
e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros.
Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também”
(João 13.14-15).
Entendido isso, compreendemos que o clamor inicial de Pedro, nesta
passagem, é para que tenhamos a mesma mentalidade que teve Jesus Cristo
em relação ao sofrimento. O Senhor foi um “homem de dores e que sabe o
que é padecer” (Isaías 53.3); “(...) embora sendo Filho, aprendeu a obediência
pelas coisas que sofreu (...)” (Hebreus 5.8). Pedro está preparando a igreja
para ter essa mesma mentalidade, ou seja, “valorizar” a função do
sofrimento. É preciso estar preparado para sofrer. É preciso se “armar” para
sofrer!
Quem não quiser sofrer não poderá satisfazer as exigências do
evangelho, porque a própria rejeição do pecado causa dor em nossa carne. O
viver justo e piedoso incomodará nossos desejos e vontades naturais. Nos
termos do apóstolo Paulo, haverá uma luta entre a carne e o Espírito. Não há
como ser tolerante ou apaziguador, neste sentido. Se, de fato, formos
cristãos, passaremos por guerras! A primeira, dentro de nós mesmos,
causando sofrimento! Paulo ainda vaticina: “Ora, todos quantos querem
viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2 Timóteo 3.12).
Qual foi o efeito do sofrimento de Cristo? “Aquele que sofreu na carne
deixou o pecado”. Isso significa que Cristo sofreu em sua humanidade, em
seu sacrifício, para propiciar a libertação de seus filhos do pecado. De fato,
essa obra é de Deus. Somente o Senhor pode libertar verdadeiramente. Esse
é o sentido. Contudo há uma aplicação sutil no texto. O chamado é para o
cristão igualmente “sofrer” para vencer o pecado. Esse é um caminho
necessário. O sofrer na carne, por conta da vontade de Deus, por conta de
negação do pecado, nos faz vencer! “O sofrimento faz o pecado perder o
poder em nossa vida. Enquanto o sofrimento endurece o ímpio, amolece o
coração do crente”53.

APLICAÇÃO

O conselho de Pedro nos conduz a considerar o valor do sofrimento,


especialmente quando ele nos dirige a vencer o pecado. Muitas vezes será
necessário sofrimento e dor (no sentido carnal do termo) para se alcançar a
vontade de Deus. Assim, o maior desafio para nós é aceitarmos tal ideia.
O homem pós-moderno rejeita completamente o sofrimento e o
desconforto. A sociedade está estruturada para viver o prazer, a alegria, a
satisfação. Seria o chamado hedonismo; uma vida regalada no deleite.
Contudo, a proposta do evangelho não é uma demagogia. Para se alcançar a

53 LOPES, Hernandes Dias. 1Pedro: com os pés no vale e o coração no céu. São Paulo: Hagnos,
2012. p. 143.

- 57 -
verdadeira alegria, satisfação e prazer, por vezes, devemos passar pelo
sofrimento. O caminho da cruz é necessário! A provação faz parte da fé. Se
não aceitarmos o sofrimento será difícil sermos fiéis ao Senhor, pois quando
vierem os apetites carnais não teremos armas para vencê-los.
Imagine se Cristo não suportasse sofrimento. Vejamos como seria uma
tragédia seu ministério. Quando ele passou pela primeira tentação, durante
o jejum no deserto, ele teve fome (Mateus 4.2). Então, o Diabo lhe tentou
dizendo: “Se és o filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em
pães” (Mateus 4.3). Sentir fome é um incômodo. Passar fome é um
sofrimento. Caso o Senhor não aceitasse decididamente sofrimento, ele não
passaria fome. Ele não faria esse jejum de 40 dias.
Ademais, poderia ainda sucumbir à tentação do Diabo saciando sua
necessidade com a transformação ilegítima de pedras em pães. Se Jesus não
aceitasse sofrimento, o desfecho de seu ministério seria outro. Ele não teria
orado: “Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice!” (Mateus 26.39). Esse
cálice se referia figurativamente ao destino de Cristo, à sua morte por
crucificação. Convenhamos que passar por uma morte tão dolorosa dessas
não é nada compatível com o hedonismo. Se o Senhor não aceitasse
sofrimento, a crucificação não seria uma realidade!
O plano central da salvação envolvia o sofrimento e morte do Messias!
Logo, a perspectiva bíblica não pode excluir o valor do sofrimento porque ele
está no cerne do próprio plano de salvação e restauração do homem!
Desta forma, devemos nos “equipar” com a mesma “mentalidade” do
Senhor. Saber que o sofrimento é preciso para superar o pecado! Que Deus
nos dê graça!

b) Aproveitando o tempo

Aquele que compreende o conceito do “valor do sofrimento”, aproveita


as circunstâncias sofríveis da vida, consegue sofrer dignamente, por causa
da vontade de Deus e subjugar a carne; de fato, consegue refrear o pecado.
“Aquele que sofreu na carne deixou o pecado”, “Aquele que sofreu em seu
corpo rompeu com o pecado” (NVI) ou “Porque aquele que sofre no corpo
deixa de ser dominado pelo pecado” (NTLH).
Para que refrear o pecado? Para vivermos, não segundo a vontade e
paixões humanas, mas segundo a vontade de Deus. Devemos refrear o
pecado para permanecermos VIVENDO PARA DEUS! Nosso tempo que resta
na carne não deve ser vivido para nós mesmos ou nosso desejo, mas ser
vivido para Deus! Segundo a vontade de Deus!
Não importa qual seja nossa idade, ou quanto tempo de cristão
tenhamos, nosso tempo em vida é relativamente pequeno. Todo nosso tempo
é, portanto, precioso, e ainda exíguo, para ser tributado em honra e glória à
Deus, ou seja, para ser vivido para o Senhor.

APLICAÇÃO

Temos aproveitado o tempo para louvor e honra do Senhor? Temos


apresentado nosso corpo como “sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”?

- 58 -
Temos tido consciência de que já ficamos muito tempo longe do Senhor e
que agora não há mais tempo a perder com coisas da carne? Que Deus nos
ajude a viver para Ele sempre!

II – VIVENDO PARA DEUS: RELAÇÃO HORIZONTAL. vv. 3-11

O tempo de viver para o mundo se extinguiu. O crente já perdeu tempo


o suficiente enquanto esteve longe dos caminhos do Senhor, andando na
vontade dos gentios, antes de sua conversão. Como era a vida naquele
tempo? Uma vida de dissolução, concupiscências, orgias, bebedices e
detestáveis idolatrias.
✓ Dissoluções: muitos atos incontidos de luxúria e iniquidade, ou seja,
qualquer tipo de descontrole;
✓ Concupiscências: Desejos perversos, luxúria;
✓ Borracheiras: transbordamento de vinho que aponta para o excesso de
consumo da bebida e caracteriza um beberrão;
✓ Orgias: termo definido como uma procissão noturna e desordeira de
pessoas semiembriagadas e festivas que, depois de jantar, desfilavam
pelas ruas com tochas e músicas em homenagem a Baco ou alguma
outra divindade, cantando e tocando diante das casas de seus amigos e
amigas;
✓ Bebedices: traz a ideia de uma festa em que se bebe não
necessariamente em excesso, mas dando oportunidade para que isso
aconteça;
✓ Detestáveis idolatrias: a adoração de ídolos resultava em imoralidade e
intemperança, por esse motivo Pedro chama as idolatrias de
detestáveis54.

O crente não deve viver mais nesse contexto, pelo contrário, sua nova
vida é luz. O pecado não aprisiona mais e o filho de Deus está livre para
viver para Deus. Não que ele seja perfeito, contudo, o pecado não pode mais
aprisioná-lo. A velha vida ficou para trás. A mudança foi visível, foi radical.
Por isso, os mundanos difamam, pois não tem mais os “parceiros” para
praticarem os excessos e viver a devassidão. Eles ridicularizam: “Virou
santarrão!”. “Olha o beato”.
O mundo fica chocado quando o cristão não participa de sua conduta
reprovável nem aprova sua devassidão incorrigível. Para o ímpio, falar
palavrões, contar piadas imorais, embriagar- se, assistir a filmes
pornográficos e ter um comportamento imoral faz parte da vida. O ímpio não
consegue entender como um cristão não aprecia essas mesmas coisas55.
Os não cristãos podem nos julgar, mas, um dia, Deus os julgará. Em
vez de discutirmos com eles, devemos orar por eles, sabendo que o

54 LOPES, Hernandes Dias. 1Pedro: com os pés no vale e o coração no céu. São Paulo: Hagnos,
2012. p. 144.
55 LOPES, Hernandes Dias. 1Pedro: com os pés no vale e o coração no céu. São Paulo: Hagnos,
2012. p. 145.

- 59 -
julgamento final pertence a Deus. Essa foi a atitude de Jesus (2:23) e
também a do apóstolo Paulo (2 Tm 2:24-26)56.
A verdade é que quem vive nessa vida desregrada, entregue a si e sua
própria vaidade terá que prestar contas a Deus.
Ele é o juiz que executará justiça com vivos e mortos. A imagem de
Deus como juiz não deve ser esquecida. Não que o anúncio do evangelho seja
na base do medo, mas não se pode omitir a realidade do juízo. Nas
instruções de Paulo encontramos: “Conjuro-te diante de Deus e de Cristo
Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos” (2Tm 4.1).
Um texto polêmico, de difícil interpretação surge em 1 Pedro 4.6: “pois,
para este fim, foi o evangelho pregado também a mortos, para que, mesmo
julgados na carne segundo os homens, vivam no espírito segundo Deus”. Um
alerta para a interpretação é que não se pode conceber a pregação a mortos!
Não há possibilidade de contato com o evangelho ou mesmo salvação após a
morte. Este ponto é inicial para balizar o pensamento. Depois da morte, não
há possibilidade de salvação, vindo, após isso, apenas o juízo. “E, assim
como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto,
o juízo” (Hebreus 9.27).
Mas, o que significa, então, que “foi o evangelho pregado também a
mortos”?
Weersbe (2006) comenta que

Não se deve interpretar 1 Pedro 4.6 sem levar em consideração o


contexto do sofrimento, pois, de outro modo, teremos a impressão de
que se trata de uma segunda chance de salvação depois da morte.
Pedro está lembrando seus leitores dos cristãos martirizados por
causa da sua fé. Foram julgados falsamente pelos homens, mas, na
presença de Deus, receberam o verdadeiro julgamento. Os “mortos”
no versículo 6, são “os que estão mortos agora”, ou seja, no tempo
em que Pedro escrevia. O evangelho é pregado somente aos vivos (1
Pe 1.25), pois não há qualquer oportunidade de salvação depois da
morte (Hb 9.27)57.

a) Vários conselhos

Pedro alertava que “o fim de todas as coisas está próximo”, ou seja, o


fim do mundo, a consumação dos séculos.
Independentemente de qual seja a interpretação sobre a volta de
Cristo, todos devem viver nessa expectativa. A maneira de viver hoje
determinará o julgamento e a recompensa futura. Essa atitude de
expectativa não deve tornar ninguém sonhador nem fanático58.
Assim, seria preciso que o cristão fosse equilibrado, fosse sóbrio para o
“bem das orações”, para que ele conseguisse manter uma vida de oração
efetiva. A oração na vida do servo do Senhor é elemento fundamental, não
pode ser rompida.

56 WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento. volume II. Santo André –
SP: Geográfica, 2006. p. 543.
57 WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento. volume II. Santo André –
SP: Geográfica, 2006. p. 543.
58 Idem.

- 60 -
Os dons são evidenciados posteriormente. O apóstolo recomenda o uso
legítimo dos mesmos para a edificação da igreja.
O amor intenso foi recomendado “acima de tudo”, pois o “amor cobre
multidão de pecados”. “O amor é a insígnia do cristão neste mundo (Jo
13:34; 35). Especialmente em tempos de provação e de perseguição, os
cristãos devem amar uns aos outros e ter um só coração”59. Além do mais, o
amor é o “caminho sobremodo excelente” (1 Coríntios 12.31) de Paulo. Sem
amor não há vida cristã genuína; não se pode dizer que ama a Deus se não
amar o irmão.
A hospitalidade foi igualmente preconizada. “O termo grego traduzido
por ‘hospitaleiros’, filoxenoi, significa literalmente ‘amigo de estranhos’. A
hospitalidade na igreja primitiva era absolutamente vital tanto no aspecto da
missão quanto da vida comunitária”60. Ela deve ser exercida para o bem da
propagação do evangelho. “No tempo do Novo Testamento, a hospitalidade
era importante, pois havia poucas hospedarias e, de qualquer modo, os
cristãos pobres não tinham como pagar por hospedagem. Os santos
perseguidos precisavam, em especial, de um lugar onde pudessem ser
auxiliados e encorajados61”. Deve se tratar com cortesia o hospede, sem
murmuração!
O servir foi aconselhado. O cristão deve servir ao seu próximo. “Todo
cristão tem pelo menos um dom espiritual que deve usar para a glória de
Deus e para a edificação da igreja (ver Rm 12.1-13; 1 Co 12; Ef 4.1-16)”62.
Devemos servir uns aos outros conforme o dom que recebemos do Senhor.
Jesus Cristo deu o exemplo, sejamos servos do nosso próximo!
Todas as coisas, contudo, devem ser feitas de acordo com a bênção e
graça dispensada ao cristão. “Se alguém fala, fale de acordo com os oráculos
de Deus”. “Se alguém serve, faça-o na força que Deus supre”. O que fala não
deve falar o que quiser, ou de acordo com sua sabedoria. Mas, deve falar, ou
seja, pregar, evangelizar, de acordo com a Palavra de Deus. Da mesma
forma, o que serve, não deve fazê-lo por suas próprias forças, mas na força
que Deus supre. Devemos confiar em Deus, pois ele é quem nos suprirá de
Palavra, força, estratégia, poder e demais suprimentos para o serviço no
reino. O fim último é para que em todas as coisas Deus seja glorificado.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Cristo é o exemplo-mor dos cristãos. É preciso pensar como Ele em


relação ao sofrimento. O sofrimento pode ser utilizado para o crescimento
cristão, isso é inegável! Assim, o crente deve ter consciência dos modos pelos
quais o Senhor trabalha em sua vida para tirá-lo das mundanidades de
outrora. O cristão deve viver para Deus. Deve exercitar seus dons de serviço
à igreja para glória do Senhor.
Deus nos abençoe.

59 Idem.
60 LOPES, Hernandes Dias. 1Pedro: com os pés no vale e o coração no céu. São Paulo: Hagnos,
2012. p. 153.
61 WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento. volume II. Santo André –
SP: Geográfica, 2006. p. 543.
62 Idem.

- 61 -
AOS PRESBÍTEROS, AOS JOVENS E À IGREJA
1 Pedro 5:1-14

1 Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu, presbítero como eles, e testemunha dos
sofrimentos de Cristo, e ainda co-participante da glória que há de ser revelada:
2 pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas
espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade;
3 nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do
rebanho.
4 Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imarcescível coroa da glória.
5 Rogo igualmente aos jovens: sede submissos aos que são mais velhos; outrossim, no trato
de uns com os outros, cingi-vos todos de humildade, porque Deus resiste aos soberbos,
contudo, aos humildes concede a sua graça.
6 Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos
exalte,
7 lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós.
8 Sede sóbrios e vigilantes. O diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge
procurando alguém para devorar;
9 resisti-lhe firmes na fé, certos de que sofrimentos iguais aos vossos estão-se cumprindo na
vossa irmandade espalhada pelo mundo.
10 Ora, o Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de
terdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e
fundamentar.
11 A ele seja o domínio, pelos séculos dos séculos. Amém!
12 Por meio de Silvano, que para vós outros é fiel irmão, como também o considero, vos
escrevo resumidamente, exortando e testificando, de novo, que esta é a genuína graça de
Deus; nela estai firmes.
13 Aquela que se encontra em Babilônia, também eleita, vos saúda, como igualmente meu
filho Marcos.
14 Saudai-vos uns aos outros com ósculo de amor. Paz a todos vós que vos achais em Cristo.

INTRODUÇÃO

O último capítulo da carta de Pedro apresenta vários conselhos para a


igreja dispostos em basicamente três categorias: aos presbíteros, aos jovens
e à igreja em geral. São orientações visando a estrutura e o bem maior do
povo de Deus. Como o próprio apóstolo mostra, o objetivo é “aperfeiçoar,
firmar, fortificar e fundamentar” (v. 10). Nesse sentido, a seguinte mensagem
trará a exposição desses temas com algumas aplicações.

I – AOS PRESBÍTEROS. vv. 1-4

Pedro inicia sua mensagem, nessa perícope, direcionando-se aos


presbíteros. O objetivo desse trecho é alcançá-los para correção e exortação.
Ele faz isso rogando. Ele não tem uma postura de autoridade dominadora,
impositiva. Mas, roga, pede, suplica para que os presbíteros ouçam seus
conselhos. “Em vez de mandar, Pedro prefere rogar, e rogar com senso de
urgência”63.
O apóstolo age com humildade, não se coloca como superior aos
outros, mas se identifica como “presbítero com eles”, ou seja, é um irmão,

63 LOPES, Hernandes Dias. 1Pedro: com os pés no vale e o coração no céu. São Paulo: Hagnos,
2012. p. 166.

- 62 -
um líder na mesma estatura que os outros, “e o faço na qualidade de
presbítero como eles” (NVI); não como uma espécie de bispo superior aos
demais, não como um papa digno de maior honra, mas como um co-igual64.
Mesmo tendo sido testemunha dos sofrimentos de Cristo e tendo a
consciência de que é participante da glória futura que será revelada pelo
Senhor, o apóstolo trata com seus liderados com muita humildade. Não se
reconhecendo superior, nem melhor por conta dos privilégios que alcançou
na fé, no sentido de ter sido testemunho ocular de Cristo, e ter sido chamado
para uma excelente missão.
Na verdade, Pedro preenche os requisitos de pastor, que ele mesmo
elencará posteriormente, ou seja, ele não age como um dominador, mas
como modelo; é humilde, ao contrário de arrogante e age com total
espontaneidade e liberdade, não forçado ou constrangido. Tais condições são
imprescindíveis para o exercício do pastorado!
Um ponto interessante é o primeiro imperativo para os presbíteros:
“pastoreiem o rebanho de Deus que está aos seus cuidados”65. Parece óbvio,
mas necessário frisar que o presbítero deve pastorear o rebanho. Eles
precisam saber qual a atribuição clara de sua função. Devem saber que o
povo de Deus necessita de pastores. Ademais, a frase indica ainda que
poderia haver alguns que não pastoreavam. Havia muitos “pastores” não
pastores! Até hoje o chamado pastoral ainda é mal compreendido, por vezes
temos “pastores” que fazem de tudo, menos pastorear! São empresários,
políticos, marqueteiros, promoters; tudo, menos pastores!
Depois de falar para os presbíteros pastorearem, foi muito salutar a
colocação de que o rebando é de Deus. Não é do pastor. Ele está apenas aos
cuidados momentâneos e limitados do pastor, mas pertence ao Senhor.
Ninguém pode se apropriar desse rebanho! A igreja não é propriedade
exclusiva de homens.
Por ser de Deus, o presbítero já deve ter em mente que deverá prestar
contas de seu serviço. O rebando deverá ser bem cuidado. Deverá estar forte
e crescer. Um mal pastor apresentará um péssimo rebanho. Um bom pastor,
nutrirá as ovelhas e as fará crescer e multiplicar!
Mas, quais os princípios pelos quais os presbíteros deverão exercer seu
chamado? Vejamos os aspectos negativos e positivos da prática pastoral.

c) Pastoreai não por constrangimento/mas espontaneamente

O pastor não deve exercer sua função por obrigação, como se estivesse
sendo constrangido para isso. Esse serviço deve ser exercido por
vocacionados que amam a obra do Senhor. “Ninguém pode ser constrangido
a ocupar uma posição de liderança na igreja. O presbiterato deve ser um

64 Quão distante é a atitude de Pedro da posição em que o catolicismo romano o colocou! A declaração
de que Pedro foi o primeiro papa, o bispo universal da igreja, o vigário de Cristo na terra, a pedra
fundamental sobre a qual a igreja foi edificada, está em total desacordo com o ensino das Escrituras.
Idem.
65 Onde quer que as igrejas primitivas fossem organizadas, presbíteros eram eleitos (At 14.23, 15.2, 6,
22; 20.17, 18, 28; Fp 1.1; 1 Tm 5.17; Tt 1.5; Tg 5.14). Na verdade, os presbíteros eram os anciãos
que lideravam as igrejas (At 20.17), os bispos que supervisionavam as igrejas e os pastores que
apascentavam as igrejas (At 20.28). Idem. p. 167.

- 63 -
ministério espontâneo (1 Tm 3.1). O comissionamento divino não contradiz a
aspiração humana”66. O trabalho deve ser um prazer, uma honra, uma
satisfação. Agir por obrigação, ou de má vontade não representa o
sentimento legítimo que deve ter o presbítero. Não se pode ser presbítero por
pressão externa, mas por convicção interna. Assim, ao contrário de uma
obrigação, sua prática deverá ser espontânea, cheia de satisfação.

d) Pastoreai não com sórdida ganância/mas pelo desejo de servir

A motivação para servir não deve ser o dinheiro! O ministério não é


feito para enriquecer pessoas, mas para salvar vidas. A avareza é criticada
nas Escrituras; é pecado. O amor ao dinheiro ainda é tido como a raiz de
todos os males. Não se deve entrar no ministério visando lucrar com isso,
para obter vantagens financeiras. O pastor não deve pensar na recompensa,
mas servir pelo legítimo desejo de trabalhar para o Senhor.
Outras falhas quanto à motivação em relação ao ministério são a
busca pela fama, o desejo de sucesso, a visibilidade que o título de pastor
traz. Enfim, motivações erradas produzem falsos ministros.

e) Pastoreai não como dominadores/mas como modelo

Por fim, a tirania é totalmente rejeitada no povo de Deus. O pastor não


é o dono da igreja, do rebanho. Não controla a vida das pessoas. Sua ação é
limitada e ninguém lhe deve obediência absoluta. Obediência absoluta
somente a Deus que é perfeito! Claro que se deve respeitar o líder, deve-se
ouvir a mensagem e conselhos bíblico que por ele são trazidos, deve-se
considerar que Deus o está direcionando para guiar o rebanho, contudo,
quando o mesmo se desvia de seus limites, impondo condições dominadoras,
deve-se saber que o mesmo não representa a vontade de Deus. Deus não
escolhe dominadores para liderar sua obra.
O alerta surge para se evitar o coronelismo na igreja. Não se pode ter
uma comunidade com um coronel comandando tudo. Com um ditador com
poderes absolutos sendo impostos. Não deve ser assim o funcionamento da
igreja.
É preciso lembrar à liderança que o rebanho é de Deus e não
propriedade privada! O supremo pastor é um só: Jesus Cristo!

f) Recompensa

O Senhor tem recompensa para os que o servem. Ele é um Deus


galardoador. Apesar de nosso serviço não ser feito com base no ganho, o
Senhor se agrada em abençoar seu povo. Assim, o pastor fiel será agraciado,
na vinda do Supremo Pastor, com a imperecível coroa da glória” (NVI); com a
“participação perpétua na sua glória e na sua honra” (VIVA).

66 Idem. p. 168.

- 64 -
APLICAÇÃO

Pastorear é uma nobre missão. Paulo disse: “quem aspira ao


episcopado, excelente obra almeja” (1 Tm 3.1). É preciso realmente um
chamado específico de Deus para essa área. Um pastor não deve agir com
má vontade, relaxadamente ou por obrigação. Aos líderes e presbíteros:
estamos agindo com má vontade? Fazendo a obra de Deus por obrigação?
Caso esse seja o caso, que nos arrependamos rapidamente e busquemos a
graça de Deus para exercermos adequadamente o ministério, ou que Deus
nos reconduza aonde possamos servir de modo mais adequado.
O pastor não deve pastorear por ganância. Em nossa época vemos
casos escandalosos do “mercadejamento” da fé. Igrejas se transformando
quase em balcão de negócios. Homens praticamente extorquindo o dinheiro
das pessoas. Pastores que cobram para pregar! Pastores que viraram
magnatas, com mansões, carros importados e até aviões! Igrejas que
funcionam como franquia. E, para nosso assombro, igrejas inteiras sendo
negociadas a portas fechadas como se fossem lojas. Tudo isso tem o contexto
da ganância, do fazer a obra por dinheiro. Não devemos fazer isso e nem
mesmo ser coniventes com o erro! Jesus Cristo expulsou os cambistas do
templo porque tinham esse mesmo comportamento! A fé não é fonte de
lucro. Não é um negócio, mas uma vida! A igreja não deve aceitar esse tipo
de pastor!
Por fim, o pastor não deve ser dominador do rebanho. Há uma
ideologia no meio cristão que obriga o crente a pedir autorização do pastor
até mesmo sobre questões pessoais, tais como: com quem casar, onde
trabalhar, em quem votar, quando e para onde viajar, sobre amizades, etc. É
um verdadeiro coronelismo da fé. Comunidades inteiras dominadas por um
líder. Isso é um absurdo e afronta ao padrão bíblico de ministério. O pastor
não deve oprimir e tiranizar o povo. Até porque o rebanho não é seu, é de
outro! Oremos para que o Senhor nos livre de sermos dominadores! A igreja
não deve aceitar um pastor assim!

II – AOS JOVENS. v. 5

Dos presbíteros aos jovens, o foco da mensagem muda. O conselho,


agora, é para a juventude, pincelando um fator essencial para a mesma: a
necessidade de respeitar, ouvir, submeter-se, ter boas referências para
balizar sua vida!

a) Sede submissos

O conselho para os jovens é a submissão! Da mesma forma que a


submissão da mulher em relação ao homem é legítima, conforme (3.1-6),
assim também a submissão, pelos jovens, aos mais velhos é recomendada.
Trata-se de respeito, de consideração pelos mais experientes. Aqueles que já
viveram mais, que conhecem muitos contornos da vida, merecem atenção.
Devem ser considerados como líderes, em certo sentido, da condução cristã
dos jovens. “Os jovens precisam ter a humildade para aprender com os mais

- 65 -
velhos e respeitar a liderança dos presbíteros. Desacatar e desrespeitar os
mais velhos não é uma atitude digna de um jovem cristão”67.
Então, aos jovens, a humildade e consideração aos mais velhos é
desejável.

ILUSTRAÇÃO

Uma ilustração interessante desse fato é o episódio de Roboão, filho de


Salomão. Após a morte de seu pai ele assumiu o trono. O momento de
transição foi tenso, o povo se reuniu e fez algumas reivindicações: “Teu pai
fez pesado o nosso jugo; agora, pois, alivia tu a dura servidão de teu pai e o
seu pesado jugo que nos impôs, e nós te serviremos” (1 Reis 12.4). Qual foi a
resposta inicialmente sábia do rei? “Ide-vos e, após três dias, voltai a mim. E
o povo se foi” (1 Reis 12.5). Roboão pediu um tempo para dar a resposta ao
povo. Neste ínterim foi pedir conselhos a duas categorias de pessoas: jovens
e idosos. Os idosos disseram: “Se, hoje, te tornares servo deste povo, e o
servires, e, atendendo, falares boas palavras, eles se farão teus servos para
sempre” (1 Reis 12.7). Contudo, Roboão não deu ouvidos a este conselho.
Tomou conselho com os jovens, os quais disseram: “Assim falarás a este
povo que disse: Teu pai fez pesado o nosso jugo, mas tu alivia-o de sobre
nós; assim lhe falarás: Meu dedo mínimo é mais grosso do que os lombos de
meu pai. Assim que, se meu pai vos impôs jugo pesado, eu ainda vo-lo
aumentarei; meu pai vos castigou com açoites, porém eu vos castigarei com
escorpiões” (1 Reis 12.10-11). Desse modo Roboão falou ao povo. Qual foi o
resultado? Divisão do povo! O povo não aceitou ser governado por Roboão.
A ilustração nos faz pensar justamente na relação que há entre os
idosos (mais velhos) e os jovens. Uma vez que a Escritura orienta aos jovens
terem consideração pelos mais velhos, serem submissos a eles, ela está
objetivamente tentando proteger o mancebo de agir loucamente como visto
na história de Roboão. O conselho é para que os jovens tenham boas
referências, consideram a sabedoria dos mais experientes, deixem-se tutelar
até a plena maturidade física, psicológica e espiritual.

APLICAÇÃO

Uma das maiores dificuldades do jovem é ouvir, considerar, se


submeter. O desejo de independência e o sabor da autonomia são apetitosos.
Contudo, o conselho do apóstolo é para proteger o jovem até sua plena
formação. Assim, o jovem deve se submeter aos mais velhos. Jovem, você
tem se submetido aos mais velhos? Tem ouvido sua voz, seus conselhos?
Tem sido obediente aos pais? Lembre-se, um bom futuro igualmente
depende disso!

III – À IGREJA. vv. 5-14

Depois de se dirigir aos presbíteros e aos jovens, agora Pedro fala seus
últimos conselhos, nesta epístola, para a igreja em geral. Vejamos.

67 Idem. p. 172.

- 66 -
a) Cingi-vos de humildade

A humildade é recomendada com a informação extra de que: “Deus


resiste aos soberbos”, ou seja, se opõe aos seus atos. Agir com orgulho, em
altivez, é estar contra o próprio Deus que não aprova esse comportamento.
O caminho para a filho de Deus seguir é o da humildade. “Humilhai-
vos debaixo da potente mão de Deus para que ele os exalte no tempo
devido”.
O maior problema da falta de humildade é o orgulho e sua proposta de
independência da vontade de Deus. Quem é orgulhoso não consegue ouvir,
obedecer, submeter-se! Logo, é uma contradição ao evangelho que clama
para que nos sujeitamos à vontade de Deus.
O orgulhoso também não se arrepende, não reconhece seus erros,
seus pecados. O orgulhoso, num dito popular, “não dá o braço a torcer”.
Sempre terá uma desculpa para as ações, sempre achará uma esquiva;
conseguirá relativizar e suavizar as circunstâncias. Dificilmente olhará para
si em busca de concerto, mas prontamente apontará o dedo para incriminar
o outro.
O orgulhoso terá desejos inconvenientes, irá desejar o que não pode, e
quererá assentar-se aonde não convém. Lembremos do próprio Lúcifer que
quis sentar-se no trono de Deus.
O orgulhoso manifesta amor-próprio excessivo. É egoísta. Pensa mais
em si do que nos outros, não consegue viver adequadamente em
comunidade.
O orgulhoso desprezará a modéstia no trato com os outros irmãos. Não
usará a moderação diante das circunstâncias, não agirá com sobriedade
diante dos dilemas!
Assim, a humildade é extremamente importante para preservar os
relacionamentos e um ambiente de paz na comunidade.
Mas, o “fruto” inevitável da humildade é a exaltação! Não é errado ser
exaltado, quando isso é feito por Deus ou pelos outros! “Seja outro o que te
louve, e não a tua boca; o estrangeiro, e não os teus lábios” (Provérbios
27.2). Deus exalta a quem se humilha. Deus honra aquele que lhe é fiel. O
caminho para ser exaltado no reino de Deus é ser humilhado! Mas, a
exaltação virá. Pense que o próprio Deus nos glorificará! Distribuirá de sua
glória entre seu povo. A igreja será radiante! Ser humilde, portanto, não
significa ser escória! Pelo contrário, os lugares mais elevados e as maiores
posições estão sendo reservadas para os humildes! “Bem-aventurados os
humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus” (Mateus 5.3).

b) Não sejam ansiosos

A ansiedade consome muitas pessoas. Segundo alguns já é a doença


do século! Pedro, há milênios atrás, já recomendava ao cristão se esvaziar da
ansiedade. O método cristão é crer em Deus. Ele é nosso provedor e protetor.
Deve-se confiar em Deus, pois ele cuida de nós. Ele leva nossos fardos! O
Senhor é quem nos ajuda no momento da dificuldade. O texto diz que ele
“tem cuidado”, não que ele cuidará ou cuidou, mas tem cuidado, no

- 67 -
presente. O Senhor tem nos sustentado. É preciso confiar em Deus e sair da
ansiedade.
O conselho reverbera o próprio ensino de Jesus Cristo no “sermão do
monte”. “Por isso, vos digo: não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao
que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis
de vestir” (Mateus 6.25). A grande questão é: “Qual de vós, por ansioso que
esteja, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida?” (Mateus 6.27). A
grande conclusão: “(...) buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua
justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mateus 6.33). E, por
fim, o conselho para não pensar no amanhã (ansiosamente): “Portanto, não
vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados;
basta ao dia o seu próprio mal” (Mateus 6.34).

c) Sede sóbrios e vigilantes

Por fim, há um sonoro sinal de cuidado! Estejam alertas e vigilantes!


Apesar de termos a proteção de Deus, e vitória final em relação ao mal,
temos que manter a vigilância na vida contra as tentações e investidas do
diabo. Ele, o adversário, existe! E age para conturbar a vida do servo de
Deus.
O diabo não é uma lenda, um mito, um espantalho para intimidar os
místicos. É um anjo caído, um ser maligno, assassino, ladrão,
destruidor. É a antiga serpente, o dragão vermelho, o leão que ruge.
É assassino e pai da mentira. Veio roubar, matar e destruir. Temos
um adversário real, invisível e medonho. Não podemos subestimar
seu poder nem suas artimanhas.68

A figura usada por Pedro é até apavorante, um leão rugindo ao


derredor procurando alguém para devorar! Entretanto, o cristão deve resistir
ao diabo. Uma vez que se humilhou na presença de Deus (v. 6), deve ter
confiança para enfrentar o inimigo. Deve-se resistir-lhe firme na fé. A
resistência não é uma espécie de misticismo, ação ou investidura humana,
mas espiritual. A maior necessidade na resistência é simplesmente o crente
não perder a fé! Resistir na fé! Os ataques malignos querem destruir a fé.
Mais do que simplesmente atrapalhar a vida, os negócios, a saúde; o diabo
quer minar a fé. Até porque a tentação, às vezes, ocorre por meio de coisas
legítimas! Ter saúde é uma coisa legítima, mas aceitá-la mediante pacto com
o inimigo é sucumbir à tentação. Ser próspero é um alvo legítimo, mas
enriquecer nos termos satânicos é cair em tentação. Então, o maior desafio
para o cristão é manter a sua fé.
A fé estava sendo atacada naquela comunidade. Havia perseguição aos
cristãos, sofrimentos sem medida e mortes sumárias. Esse era o ataque do
inimigo para minar a fé naquele contexto, pela perseguição de Roma, por
meio da espada! Mas, Pedro lembrou àquele povo de que outros estavam
passando pelas mesmas provações! A cristandade estava sendo perseguida
em toda parte! Vocês não são os únicos! Não tenham um pensamento de
autocomiseração, aumentando o seu sofrimento; nem mesmo auto

68 LOPES, Hernandes Dias. 1Pedro: com os pés no vale e o coração no céu. São Paulo: Hagnos,
2012. p. 176.

- 68 -
aprovação, considerando-se acima da média e com méritos, porque
supostamente ninguém estaria suportando as mesmas circunstâncias.
Ambos os posicionamentos são perigosos. Assim, deve-se resistir ao inimigo
e saber que a tentação acontece em toda parte, alcança toda a igreja. Não se
deve ter o sentimento de vitimismo, nem ao contrário, o de soberba, por
achar que tem muito mérito!

APLICAÇÃO

Temos sido humildes uns com os outros? É preciso vivermos essa


realidade na igreja. Perguntemos aos outros se eles nos acham humildes!
Será que teremos uma boa avaliação? Peçamos desculpas por nossa
arrogância! Reconheçamos nossas falhas! Ás vezes falamos o que não devia,
agimos de forma errada. A igreja está cheia de casos de pessoas magoadas,
irmãos que não se falam, pessoas que tem ressentimento umas das outras;
irmãos que não são humildes! Que não pedem perdão! Como crescer
espiritualmente num ambiente onde não há humildade?
A questão da ansiedade é igualmente importante. Aprendamos a
confiar mais em Deus. Lancemos nossa ansiedade diante dele, pois “ele tem
cuidado de nós”! Exercite ações práticas para se livrar da ansiedade. Confie
que o Senhor irá suprir suas necessidades de alimentação, vestimenta, etc.
O Senhor é com seu povo!
Por fim, temos sido vigilantes em nossa vida? O inimigo anda ao
derredor buscando espaço para tentar minar nossa fé. Temos que resistir ao
diabo e ele fugirá de nós. O cristão deve ter discernimento em sua vida. Às
vezes, as situações, o contexto, aponta clara influência do inimigo para
tentar o crente. É importante ter discernimento para resistir à tentação do
diabo. Além de, se possível, se desviar de todo mal, nem mesmo ter que
passar por ele. Sejamos simples como as pombas, mas sagazes como as
serpentes!

IV – SAUDAÇÕES FINAIS

O propósito de todas as recomendações da epístola é mostrar que


Deus está agindo no meio da igreja. Primeiramente Deus nos chamou, por
meio de Cristo, das trevas à luz, à eterna glória. Depois, ele mesmo nos
aperfeiçoará, nos firmará, nos fortificará e irá nos fundamentar!
Pedro se despede enviando saudações da igreja “que se encontra na
Babilônia” possivelmente uma referência à Roma; envia saudações de
Marcos, que o acompanhava e posteriormente foi responsável pelo evangelho
homônimo, fruto de anotações das preleções de Pedro.
O apóstolo recomenda o ósculo santo e deseja a paz a todos.
Glória a Deus por sua obra!

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pedro finaliza seu texto dirigindo-se aos presbíteros, jovens e igreja.


São conselhos finais para completar o rol de orientações à igreja visando

- 69 -
seus crescimento e fortalecimento. A suma é que Deus está trabalhando no
seu povo no sentido de “aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar”.
***
Em relação à primeira epístola de Pedro, pode-se dizer que o apóstolo
trabalhou visando fortalecer uma igreja perseguida. Naquele momento difícil,
a Palavra de Deus chegou de modo a dar firmeza, entendimento e salvação
ao povo.
Pedro falou, após uma breve saudação, sobre a “esperança da vida
eterna” (1.3-12), alertou a igreja sobre a santidade (1.13-25), falou sobre a
“pedra viva e o povo escolhido” (2.1-12), orientou sobre a submissão,
primeiramente às autoridades e governo (2.13-17), dos servos aos senhores
(2.14-25) e, por fim, das esposas aos seus maridos (3.1-7). Em seguida, o
apóstolo entrou no tema do sofrimento, “sofrendo pela retidão” (3.8-22). No
capítulo 4 é enfatizado o “viver para Deus” (4.1-11) também num contexto de
sofrimento. O “sofrer como cristão” (4.12-19). No último capítulo, como visto
anteriormente, encontra-se os conselhos para “os presbíteros, jovens e à
igreja”.
O tema do sofrimento, as orientações e o alvo final é resumido no
versículo: “Ora, o Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua
eterna glória, depois de terdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de
aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar” (5.10), que expressa bem o
resumo da carta.
Que essa mensagem possa edificar nossas vidas e nossas igrejas.
Deus seja louvado!

- 70 -
REFERÊNCIAS

BATZIG, Nicholas. 7 Temores Mortais: Temor dos Homens. Disponível


em:<http://www.ministeriofiel.com.br/artigos/detalhes/851/7_Temores_Mo
rtais_Temor_dos_Homens>.

Bíblia de Estudo de Genebra. 2ª ed. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do


Brasil; São Paulo: Cultura Cristã, 2009. p. 1685.

CALVINO, João. Epístolas Gerais. São José dos Campos, SP: Fiel, 2015.

CARSON, D. A. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova,


1997.

CHAMPLIN. R. N. O Novo Testamento interpretado versículo por


versículo. Vol. 5. São Paulo: Editora Candeia, 1995.

Confissão de Fé Batista de 1689. Tradução e Revisão: William e Camila


Teixeira. 9ª ed. Corrigida e Ampliada em Português. [S.l.], Estandarte de
Cristo, 2018.

EARLE, Ralph, SANNER, A. Elwood, CHILDERS, Charles L. Comentário


bíblico Beacon. Vol. 10. Rio de Janeiro – RJ: CPAD, 2006.

FERREIRA, Franklin. Contra a idolatria do Estado: o papel do cristão na


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HUTCHINSON, Robert J. Uma história politicamente incorreta da Bíblia.


Rio de Janeiro: Agir, 2012.

LOPES, Hernandes Dias. 1Pedro: com os pés no vale e o coração no céu.


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WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento.


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Acesso em: 02 set. 2018.

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INFORMAÇÕES SOBRE O AUTOR

Vlademir Fernandes

Identificação

Vlademir Fernandes de Oliveira Júnior (OLIVEIRA JÚNIOR, V. F.), cristão evangélico,


brasileiro, nascido em 09/04/1983. Casado com Katiely Silva Oliveira.

Formação/Experiência Profissional

Possui Licenciatura Plena em Matemática (UNIR). Tem Especialização em Metodologia e


Didática do Ensino da Educação Matemática (FAROL) e Especialização no Programa
Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de
Educação de Jovens e Adultos - PROEJA (IFRO). É mestre em Matemática pelo programa
PROFMAT e Graduado em Teologia pela UNINTER (2018). Atualmente é professor de
Matemática do IFRO (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia).

Formação/Experiência Teológica

Bacharel em Teologia pela UNINTER (2018). Fez o curso Médio em Teologia SETEBAN-
RO/AC (Seminário Teológico Batista Nacional de Rondônia e Acre - 2008). Foi professor do
NETEVA (Núcleo de Ensino Teológico Vida Abundante, em Ji-Paraná-RO) e professor
convidado do SETEBAN (Seminário Batista Nacional, em Seringueiras-RO - 2011); exerceu o
cargo de vice-moderador da IBNVA (Igreja Batista Nacional Vida Abundante, em Ji-Paraná-
RO), vice-superintendente e professor da Escola Bíblica (no mesmo local). Concluiu o Curso
Fiel de Liderança – CFL – intitulado “Pregação Expositiva” (2018). Atuou como professor de
teologia no SETEBAN-RO/AC (2012-2018). É dirigente da Igreja Batista Reformada de Porto
Velho-RO.

Linha Teológica

Tem uma cosmovisão baseada na chamada ortodoxia, considerando a inspiração, inerrância


e suficiência das Escrituras. De modo geral se aproxima mais da Teologia Reformada por
compreender que tal visão melhor se coaduna com os ensinos da Palavra de Deus.

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