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EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR DESEMBARGADOR PRESIDENTE DO

EGRÉGIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE MINAS GERAIS

ALUIZIO GERALDO DA SILVA, casado, taxista, inscrito no CPF sob nº 261.815.766-


49, com endereço na Rua Orvile Derby Dutra, 663, Cx, Santa Rita de C, CEP 36051-
400, em Juiz de Fora/MG, por seu advogado que esta subscreve, vem, respeitosamente,
à presença de Vossa Excelência, nos termos do art. 1.015 e seguintes do NCPC, interpor
o presente AGRAVO DE INSTRUMENTO COM PEDIDO DE ANTECIPAÇÃO
DE TUTELA RECURSAL Contra a r. decisão proferida pelo juízo da 8ª Vara Cível do
foro da Comarca de Juiz de Fora, nos autos da ação de tutela antecipada cautelar
5014942-38.2018.8.13.0145, em conexão com a ação de busca e apreensão nº
5005698-85.2018.8.13.0145, que indeferiu pedido de tutela antecipada formulada em
face de BANCO ITAUCARD S/A, instituição financeira, inscrita no CNPJ/MF sob o nº
17.192.451/0001-70, com sede na Alameda Pedro Calil, 43, Vila Das Acacias, Poa, Sp,
Cep: 08557-105, endereço de email desconhecido, pelas razões a seguir expostas.

Justifica-se a interposição do presente agravo de instrumento por estarmos diante de


umas das situações previstas no rol do art. 1.015, do NCPC, especificamente o inciso I,
tutela provisória de urgência negada.

Trata-se de tutela antecipada para impedir o Agravante seja indevidamente tolhido de


seu instrumento de trabalho, o veículo automotor objeto da lide, que é seu instrumento
de trabalho, já que há amparo legal do CPC, art. 833, V, para evitar a perda.

Deste modo, mister a devolução imediata da matéria a este Egrégio Tribunal com o fim
de propiciar a reforma da decisão vergastada.

Requer seja deferida a reforma inaudita altera pars, concedendo a tutela


antecipada ora pleiteada e após os regulares trâmites, seja o agravo conhecido e
integralmente provido.

Em atendimento ao art. 1.016, IV, informa o agravante o nome e endereço do advogado


constante do processo:

Pelo agravante: Dr. Arthur Silva Mendonça, OAB MG 158 915, com escritório à Av.
Barão de Rio Branco, 1871, sala 1814, Juiz de Fora – MG. Pelo agravado: deixa de
informar seus dados por desconhecê-lo em função da formação incompleta da relação
jurídico-processual.

Com fulcro no art. 1.017, I e III do NCPC, vem indicar as peças que instruem este
recurso:

DAS PEÇAS OBRIGATÓRIAS (art. 1.017, I):

• Cópia da inicial;

• Cópia da decisão agravada;

• Certidão de intimação da decisão agravada;


• Procuração outorgada ao advogado da agravante;

• Deixa de juntar a procuração outorgada ao advogado do agravado e a contestação em


decorrência da não formação completa da relação jurídico-processual – CPC, art. 1.017,
II;

Nos termos do at. 425, IV, do NCPC, a cópias das peças do processo são declaradas
autênticas pelo próprio advogado, sob sua responsabilidade pessoal.

Informa também que, em cumprimento ao art. 1017, §1º, do NCPC, deixa de recolher as
custas recursais porquanto litiga sob o pálio da justiça gratuita, conforme deferido pelo
douto juiz monocrático.

Termos em que pede deferimento

Juiz de Fora, 31/08/2018

Arthur Silva Mendonça, OAB MG 158915


AGRAVANTE: ALUIZIO GERALDO DA SILVA

AGRAVADO: BANCO ITAUCARD S/A

Autos nº: 5014942-38.2018.8.13.0145

Vara de origem: 8ª vara cível da comarca do foro de Juiz de Fora – MG

Colenda Câmara,

Nobres Julgadores:

URGÊNCIA – APREENSÃO DE INSTRUMENTO DE


TRABALHO DO AGRAVANTE – AGRAVANTE
TAXISTA – RISCO DE DANO IRREPARÁVEL

I - DOS FATOS – breve síntese da demanda:

Na data de 19/06/2015, as partes celebraram Cédula de Crédito (doc. anexo Cédula),


sob o nº 30477-618042493 no valor total de R$41.657,42, com pagamento por meio de
48 parcelas mensais e consecutivas. Tendo como objeto o bem com as seguintes
características:

Marca: VOLKSWAGEN Modelo: VOYAGE CL MB Ano: 2015/2016 Cor: AMARELA


Placa: PWK3298 RENAVAM: 1056301500 CHASSI: 9BWDB45U4GT005439

O Agravante pagou as parcelas de nº1 a 32 e entrou em mora, deixando de pagar a


parcela 33 e seguintes, até o presente momento.

No dia 27/08/2018, segunda-feira, o veículo do Agravante fora apreendido.

Insta salientar que o Agravante é taxista e o veículo é seu instrumento de


trabalho e fonte de sustento, não dispondo ele de nenhuma fonte de renda
alternativa, de modo que, mantendo-se o atual estado de coisas, o
Agravante pode ver-se condenado à penúria.

II - DA TEMPESTIVIDADE
A r. decisão de ID 50577301 foi publicada em 30 de agosto de 2018, tendo sido o Autor
intimado dela na mesma data.

Considerando a contagem processual em dias úteis (CPC, art. 219), o prazo de 15 dias
para a interposição deste recurso (art. 1.003,§5º, NCPC) teve início em 31.08.2018,
quarta-feira, tendo termo final dia 24.09.2018, sexta-feira.

III - DAS RAZÕES DO INCONFORMISMO

Primeiramente, deve-se considerar o presente caso como protegido pelo Código de


Defesa do Consumidor.

O pedido de reforma da decisão ora vergastada tem esteio em nossa Constituição


Federal de 1988, em seu art. 5º, XXXII, que determina a proteção ao Consumidor pelo
Estado, na forma da lei, bem como no art. 170 do mesmo diploma, que descreve os
princípios em que se funda a ordem econômica brasileira. Ao caso presente, insta
salientar o princípio da propriedade privada e princípio da defesa do consumidor.

Em consonância com o mandamento constitucional, temos no diploma consumerista o


art. 4º, que fala em compatibilização da proteção ao consumidor com a necessidade de
desenvolvimento econômico, viabilizando os princípios nos quais se funda a ordem
econômica (art. 170 da CF/88), sempre baseada na boa-fé e equilíbrio nas relações de
consumo.

Se o Código de Defesa do Consumidor tem o escopo de trazer equilíbrio às relações


processuais, neste caso em tela, então, sua égide é mais necessária ainda, eis que
lidamos com um bem que não é mero fetiche consumerista do Agravante, mas seu
próprio instrumento de trabalho, pois ele é taxista e depende do seu veículo
injustamente apreendido para prover seu sustento e o de sua família.

Tendo o Agravante como única fonte de renda o veículo utilizado com táxi, caso seja-lhe
tolhido o mesmo, ele se verá em maus lençóis, prestes a entrar em temerária penúria.

Condenar o devedor a submeter-se a este quadro de ameaça real e imediata


à sua subsistência é claramente ofensivo ao princípio da dignidade
humana, bem como contraria o princípio da menor onerosidade na
execução.

O veículo, neste caso, não é mero utilitário na vida do Agravante, mas


ferramenta imprescindível para sua própria sobrevivência.

Esta regra da menor onerosidade está consubstanciada no art. 805 do NCPC que diz
que “quando por vários meios o exequente puder promover a execução, o juiz
mandará que se faça pelo modo menos gravoso para o executado”.

Junto a isso, temos a regra de impenhorabilidade do art. 833, V, a qual diz que são
impenhoráveis
V - os livros, as máquinas, as ferramentas, os utensílios, os instrumentos ou
outros bens móveis necessários ou úteis ao exercício da profissão do
executado. (grifo meu)

Ora, Excelência, não há óbice legal em se reconhecer a impenhorabilidade do bem aqui


discutido.

Se houver preferência pela manutenção da apreensão, estaremos contraponto dois bens


jurídicos que não se equivalem: de um lado, temos a pretensão do banco agravado de
obter os juros do mútuo, ou a sua garantia (sem dizer que tendo o agravante pago 32
das 48 parcelas e ainda o banco agravado obtendo a posse do veículo, este último se
encontra numa posição muito mais vantajosa enquanto o agravante vê-se tolhido do
seu investimento e de seu instrumento de trabalho) e, de outro lado, temos a pretensão
do devedor fiduciário de ganhar seu pão de cada dia, com seu instrumento de trabalho,
que neste caso é o táxi apreendido. Em suma, o bem jurídico tutelado pela
impenhorabilidade é a própria dignidade humana e o mínimo existencial, necessários
para manter uma existência minimante decente.

Aliás, em relação ao princípio do mínimo existencial, é certo que é um direito


fundamental que tem relação direta com a Constituição Federal e prescinde de lei para
ser exercido, já que é intrínseco ao ser humano. Dessa forma, estar-se-á a falar do
conteúdo mínimo dos direitos que deve ser protegido visando consignar-se o suficiente
para a manutenção da dignidade da pessoa humana.

O mínimo existencial não possui dicção constitucional própria, devendo-se procurá-lo


na ideia de liberdade, nos princípios da igualdade, do devido processo legal, da livre
iniciativa, nos direitos humanos, nas imunidades e privilégios do cidadão. Carece de
conteúdo específico, podendo abranger qualquer direito, ainda que não seja
fundamental, como o direito à saúde, à alimentação, etc, considerado em sua dimensão
essencial e inalienável.

Neste sentido, a ideia de mínimo existencial nos remete ao Título II - "Garantias e


Direitos Fundamentais", da Constituição Federal de 1988. Nesta seção da Carta Magna
estão localizados aqueles direitos fundamentais à vida do ser humano. Faz-se mister
ainda, ressaltar que esta noção de vida denota uma vivência com dignidade e não
somente sobrevivência.

Não estamos falando de um cidadão que quer comprar o carro do ano com a menor
taxa de juros do mercado, mas, sim, de um pai de família que tenciona trabalhar e
ganhar seu dinheiro honestamente.

Sendo assim, mantido o atual estado das coisas, o Agravante estará, inexoravelmente,
condenado a enfrentar uma existência indigna e deplorável, eis que privado de sua
ferramenta essencial de trabalho.

Os nossos tribunais pátrios já decidiram neste sentido. A saber, o STJ assim judicou:

"Veículo de táxi é passível de penhora quando não constitui única fonte de renda do
devedor, necessário à sua sobrevivência e de sua família." (REsp 200.565/RS, Rel.
Min. Garcia Vieira, 1ª Turma. DJ 28/06/1999, p. 62)
E também o Tribunal de Justiça de Minas Gerais:

"EMBARGOS À EXECUÇÃO - PENHORA - INSTRUMENTO DE TRABALHO -


IMPENHORABILIDADE. Demonstrado nos autos que o executado é taxista e que
utiliza o veículo penhorado para sua atividade profissional, nos temos do art 649, V, do
CPC, deve ser mantida a sentença que decretou, em sede de embargos a execução, a
impenhorabilidade do veículo." (TJMG - Apelação Cível 1.0520.06.013154-4/001,
Relator (a): Des.(a) Guilherme Luciano Baeta Nunes , 18ª CÂMARA CÍVEL, julgamento
em 08/02/2011, publicação da sumula em 25/02/2011)

"PROCESSO CIVIL. EXECUÇÃO. VEÍCULO UTILIZADO COMO TÁXI.


IMPENHORABILIDADE. Nos termos do Código de Processo Civil, com a nova redação
conferida pela lei 11.382/2006, consideram-se impenhoráveis as máquinas,
ferramentas, utensílios e instrumentos necessários ou úteis ao exercício de qualquer
profissão. Neste diapasão, o veículo utilizado como táxi deve ser considerado bem
absolutamente impenhorável, já que é instrumento imprescindível ao exercício da
profissão." (TJMG - Agravo de Instrumento 1.0024.05.707330-6/001, Relator (a):
Des.(a) Maria Elza , 5ª CÂMARA CÍVEL, julgamento em 28/08/2008, publicação da
sumula em 09/09/2008)

EMENTA: AGRAVO DE INSTRUMENTO - CUMPRIMENTO DE SENTENÇA -


PENHORA DE VEÍCULO UTILIZADO EM TRANSPORTE ESCOLAR - BEM MÓVEL
NECESSÁRIO AO TRABALHO - PROVAS - EXISTÊNCIA 1 - O automóvel utilizado
para o transporte escolar é bem absolutamente impenhorável, conforme dispõe o art.
833, V, do Código de Processo Civil. 2 - Existindo provas nos autos de que o automóvel
penhorado é utilizado exclusivamente na realização de transporte escolar, atividade
laborativa do executado, não há falar em penhora do bem. (TJ-MG - AI:
10079041563457002 MG, Relator: Octávio de Almeida Neves (JD Convocado), Data de
Julgamento: 19/04/2018, Data de Publicação: 25/04/2018)

IV - DA PROBABILIDADE DO DIREITO E DO RISCO DE DANO GRAVE E


IRREPARÁVEL AO AGRAVANTE

Excelência, neste caso, uma vez comprovada a atividade laboral do Agravante, qual seja
taxista, e sendo certo que ele dispõe somente desta atividade para auferir renda, é justo
que se defira a liminar de suspensão de busca e apreensão e deixe o veículo em posse do
agravante até que se decida a ação de busca e apreensão.

A liminar se justifica porque, primeiramente, não há risco de irreversibilidade dos


efeitos da decisão: trata-se de bem fungível o que foi apreendido e seu valor pode ser
convertido em pecúnia. Aliás, há previsão no próprio decreto 911 de 1969 para
converter-se o procedimento de busca e apreensão em execução caso não se encontre o
bem alienado (art. 4º do decreto).

Em segundo, porque a apreensão do veículo causará um dano irreversível ao Agravante,


que é a privação de sua própria fonte de sustento. O próprio deferimento da
justiça gratuita ao Agravante já é indício de que o Autor sequer detém
renda suficiente para arcar com os custos de um processo, o que dirá então
de arranjar nova fonte de renda, da noite para o dia, para arcar com os
custos de sobrevivência após ver-se tolhido de sua ferramenta de trabalho.

Em terceiro, porque não há nenhum óbice à impenhorabilidade do veículo que é usado


como instrumento de trabalho do devedor fiduciário.

Ainda, diga-se que a sobrevivência do agravante e de sua família, sua dignidade mesma,
sua existência com o mínimo de dignidade são bens juridicamente mais relevantes do
que a satisfação do crédito ao banco agravado.

Por tudo isso acima exposto, Excelência, é razoável que se reconheça a


impenhorabilidade do bem, nos termos do art. 833, V do NCP, suspendendo a liminar
de busca e apreensão e deixando o veículo na posse do Agravante até a sentença da ação
de busca e apreensão.

V – DA GRATUIDADE DE JUSTIÇA

O Agravante requer os benefícios da gratuidade de justiça, nos termos do art. 98 do


NCPC, frisando ainda que o r. juiz de primeira instância já lha conferiu.

VI – DOS PEDIDOS

Por todo o exposto, requer-se seja o recurso conhecido, concedendo-se de


imediato a antecipação de tutela para deferir os pedidos acima
explicitados, de modo a permitir que o Agravante seja restituído na posse
do veículo alienado fiduciariamente até decisão final do processo de busca
e apreensão.

Subsidiariamente, não acatando V. Excelência o pedido de restituição liminar do


veículo ao Agravante, pede-se que seja dada a oportunidade de restituição a posse, nos
mesmos moldes acima propostos, com a condição de se depositar em juízo a última
parcela vencida e, a partir daí, continuar a depositar judicialmente as parcelas
vincendas.

Considerando que o agravado ainda não foi citado, não se mostra possível a intimação
da parte contrária por seu advogado. Assim, caso Vossa Excelência entenda necessário
ouvi-lo, requer sua intimação por correio (CPC, art. 1.019, II).

JUIZ DE FORA, 31/08/2018.

ARTHUR SILVA MENDONÇA OAB MG 158915