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Um Príncipe Irresistível

(The Irresistible Prince)


Lisa Kaye Laurel

Bianca Dupla n° 678.2


Série Royal Weddings 3

Toda mulher deseja se casar com o príncipe...


Mas o príncipe Lucas Hansson sabia que apenas uma mulher poderia ser sua noiva real.
Se ele pelo menos pudesse encontrá-la..
De acordo com a fama local, Annah Lane tinha, um talento inato para reconhecer o
verdadeiro amor. No momento em que colocou os olhos em Sua Alteza Real, soube que ela era a
noiva perfeita para Lucas! Annah disse a si mesma que sua intuição tinha de estar errada, pois o
príncipe precisava de alguém muito mais preparada do que uma mulher de uma pequena cidade!
Mas como dizer isto a seu coração?

Série Royal Weddings:


1 – The Prince´s Bride – Sabrina 1030 – A Noiva do Príncipe
2 – The Prince´s baby – BD 671 – Um Sonho Real
3 – The Irresistible Prince – BD 678.2 – Um Príncipe irresistível

Digitalização e Revisão: A. Akeru


BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 2

Copyright © 1998 by Lisa Rizoli


Originalmente publicado em 1998 pela Silhouette Books,
divisão da Harlequin Enterprises Limited.
Título original: The irresistible prince
Tradução: Márcia Gimenez
Todos os direitos reservados, inclusive o direito de
reprodução total ou parcial, sob qualquer forma.
Esta edição é publicada através de contrato com a
Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canadá.
Silhouette, Silhouette Desire e colofão são marcas
registradas da Harlequin Enterprises B.V.
Todos os personagens desta obra são fictícios.
Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas
terá sido mera coincidência.

EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.


Rua Paes Leme, 524 - 10° andar
CEP: 05424-010 - São Paulo - Brasil
Copyright para a língua portuguesa: 1998
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.

Fotocomposição: Editora Nova Cultural Lida.


Impressão e acabamento: Gráfica Círculo
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CAPÍTULO I

Annah não ouviu a campainha por causa do burburinho causado pela dúzia de
adolescentes que se encontrava em sua loja, buscando trajes para o baile de formatura. Mas,
mesmo que tivesse escutado, não poderia atender. Estava falando com o contador ao telefone,
tentando imaginar como recusar o convite para sair com ele.
Quando desligou, a campainha tocou novamente, mas foi encoberta pelo telefone, que
voltou a soar. Era da oficina de eletrodomésticos, informando que a máquina de café que fora
para o conserto só poderia ser entregue na manhã seguinte, pois o motorista do caminhão sofrera
um acidente. Annah colocou o fone no gancho com um suspiro desanimado, sabendo que não
conseguiria atender convenientemente seus clientes sem aquele equipamento.
Naquele instante, um ruído alto fez com que ela saísse do escritório correndo. Uma das
adolescentes acabara de derrubar uma das araras, na qual os vestidos de noite estavam
pendurados. Felizmente, nenhuma das garotas se feriu, mas o incidente serviu para que a
conversa e as risadas aumentassem. Quando a campainha tocou pela terceira vez, Annah sentiu-
se feliz por poder escapar daquele caos por alguns instantes, afastando-se com a desculpa de
atender a porta.
Ao cruzar o hall, parou por um segundo diante do largo espelho e arrumou os cabelos. Os
problemas daquele dia não haviam lhe dado tempo para cuidar da aparência.
— Só mesmo um milagre para salvar meu dia...
Finalmente chegou à entrada e abriu a porta. E lá, parado na soleira, como se tivesse
acabado de sair de um conto de fadas, estava um lindo príncipe.
Annah permaneceu imóvel, admirando-o calada por alguns instantes, enquanto sentia no
rosto o vento frio de novembro. E então aconteceu uma coisa estranha. Foi como se uma onda de
calor percorresse seu corpo. O que havia com ela? Será que de uma hora para outra passara a ter
alucinações com príncipes? Talvez estivesse com febre, ou então o movimento intenso daquele
dia a houvesse esgotado. Claro. Só podia ser isso.
Ela piscou, e então notou que o homem continuava parado, examinando-a com
curiosidade. Definitivamente, aquele príncipe não era uma alucinação.
Ao contrário, imóvel na soleira com seu porte elegante, acentuado pela estatura
avantajada de mais de um metro e noventa, ele parecia até real demais...
— Annah Lane? — ele perguntou, numa voz grave e poderosa, com um agradável
sotaque estrangeiro.
— Você... sabe meu nome? — ela balbuciou. Tinham se encontrado brevemente seis
meses antes, no casamento de sua amiga Julie com o príncipe Erik. Claro que Annah não
esquecera aquele encontro, mas nunca imaginara que ele ainda se lembrasse de seu nome. Afinal
de contas, naquela ocasião o príncipe Lucas fora apresentado a muita gente... — Quero dizer,
que bom vê-lo de novo... Alteza — emendou atabalhoadamente.
Ele não sorriu, exatamente, mas seus lábios curvaram-se quando falou:
— Aparentemente, você também se lembra de mim.
Que piada, Annah pensou. Qualquer mulher normal jamais se esqueceria de alguém
como ele... Afinal de contas, era o príncipe Lucas, das ilhas Constellation, o solteirão inveterado
cuja iminente necessidade de um casamento, para assumir o trono, causara furor internacional.
Praticamente toda mulher solteira sonhava em ser a escolhida, e exatamente por isso Annah
sentia-se mais que surpresa por vê-lo parado ali, bem na sua porta.
— O que o trouxe à ilha Anders, Alteza? — perguntou, incapaz de esconder a
curiosidade.
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Sabia que o príncipe era muito amigo da família real, especialmente dos príncipes Erik e
Whit, mas nenhum dos dois encontrava-se na ilha. Ambos desfrutavam de suas respectivas
viagens de lua-de-mel.
— Vim para vê-la, srta. Lane.
— Eu? — Annah perguntou, incrédula.
Um príncipe que procurava por uma esposa viajara tanto apenas para vê-la?
— Sim. E gostaria de falar com você.
— Certamente — ela murmurou, sentindo o coração acelerar-se. — Por que não
entra, Alteza?
Depois de olhar de relance para os fundos da loja, onde as adolescentes acotovelavam-se,
o príncipe arqueou as sobrancelhas.
— Bem... trata-se de um assunto muito pessoal — respondeu em voz baixa.
— Ah... entendo — ela balbuciou, engolindo em seco. — A cafeteria, nos fundos,
está fechada, e por isso creio que teremos alguma privacidade lá. — Naquele momento, as
risadas de algumas garotas interromperam o diálogo. — Oh, eu me esqueci — Annah desculpou-
se. — Estou atendendo algumas clientes em minha loja de roupas de aluguel... Acho melhor
cuidar logo disso.
As sobrancelhas do príncipe arquearam-se.
— Srta. Lane, quero que entenda que esse é um assunto importante... e urgente.
— J á tinha imaginado isso, Alteza. Prometo que vou cuidar de tudo rápido — Annah
assegurou. — Assim poderei atendê-lo tranquilamente. — Notou que a expressão do homem
parecia exasperada. Era melhor não forçar muito as coisas. Afinal de contas, não era todo dia que
recebia a visita de um príncipe... — Por favor, Alteza, sente-se no sofá do hall enquanto dispenso
minhas clientes.
Lucas hesitou um pouco antes de entrar. Parecia muito pouco à vontade. Para resolver o
impasse, Annah tomou-o pelo braço, para conduzi-lo ao sofá.
— Pode servir-se de chá — murmurou, indicando a bandeja de prata que repousava na
mesa de centro. — Eu voltarei num minuto. — No meio do caminho, parou para respirar
profundamente, recostando-se na parede do corredor. — Quando pedi por um milagre, agora há
pouco, estava me referindo à máquina de café. Será que o destino entendeu mal?
Olhando para o espelho estrategicamente posicionado, notou que o príncipe continuava
ali. Sua presença era mesmo real. Por isso, era melhor cuidar logo daquelas garotas...

O príncipe Lucas recostou-se no sofá, cerrando os dedos com força e contando até dez.
Esperar era a última coisa que queria fazer no momento. O tempo urgia. Além disso, o atraso
fazia com que repensasse seu próprio plano. Era realmente um jogo perigoso... ter ido tão longe
para ver uma mulher que só encontrara uma vez. Talvez fosse melhor dar meia-volta e sair, antes
que ela voltasse.
Mais uma vez respirou profundamente, para recobrar a calma. Em seguida olhou ao
redor, examinando o ambiente. Uma coisa era imaginar Annah Lane de maneira abstrata. Muito
diferente era ter sangue-frio o bastante para fazer aquela proposta...
Naquele exato momento, a ideia lhe parecia mais um risco tolo do que uma verdadeira
solução. E mais importante que convencer a si mesmo era convencer a ela. Porque, afinal, Lucas
precisava de Annah... como jamais precisara de alguém. As apostas não podiam ser tão elevadas,
e mesmo assim ele era forçado a jogar.
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Depois da inesperada morte do pai, no ano anterior, Lucas havia assumido o trono das
ilhas Constellation, como mandava a tradição. Sua sucessão fora confirmada de forma unânime
pelo conselho dos pares, mas restava um empecilho. Para permanecer como rei, ele devia se
casar... e tinha apenas um ano para fazer aquilo.
Em princípio, parecera um prazo razoável. E, obviamente, logo surgiram pretendentes.
Mas, apesar de viver num extrato social muito elevado, Lucas não deixara de ter problemas.
Muito ao contrário, pois aparentemente um príncipe herdeiro parecia ter o intrínseco poder de
atrair apenas alpinistas sociais e o pior tipo de aventureiras... todas muito diferentes do tipo de
mulher que ele imaginara como esposa. Depois de dez meses, portanto, finalmente chegara à
conclusão de que não encontraria a mulher ideal nos salões da corte. E agora lá estava ele, na
sala de espera de Annah Lane.
Erguendo-se, começou a caminhar de um lado para outro. Ir até aquele lugar fora ideia de
dois de seus melhores amigos, príncipes da ilha vizinha ao reino de Constellation. E tinham se
casado recentemente. Muito bem, aliás...
Whit finalmente entendera-se com o amor de sua vida, a mulher que lhe dera uma
encantadora filha seis anos antes, e Erik, com sua adorável esposa Julie, provavelmente se
tornaria pai na primavera. Certamente a sucessão do trono das ilhas Anders não corria perigo,
Lucas pensou com um sorriso amargurado, lembrando a própria situação.
Concluiu que era melhor servir-se de uma xícara de chá, precisava urgentemente beber
qualquer coisa para conter o nervosismo. Já com a bebida nas mãos, voltou a caminhar até a
janela para contemplar a bela paisagem. Na verdade, não ficara muito impressionado com Annah
à primeira vista, apesar das insistentes recomendações dos amigos. Era uma mulher de altura e
peso comuns, com olhos castanhos e cabelos rigorosamente cortados num estilo Chanel bem
discreto. Apenas os lábios destoavam do conjunto, carnudos e de um vermelho rico e profundo.
Bem, mas não fora atrás desse tipo de qualidades que Lucas viajara até aquele lugar.
Voltando ao sofá, olhou de relance para o corredor. Sons abafados vinham dos fundos da
casa. As adolescentes mantinham Annah ocupada. Uma delas perguntava algo sobre um vestido
de baile, enquanto outra pedia opinião sobre um chapéu. As respostas da dona da casa, Lucas
notou, eram sempre pacientes e objetivas, como se ela não tivesse a menor intenção de apressar-
se, o que não deixava de ser um pouco estranho...
Mas, pensando bem, Annah parecera radiante ao recebê-lo, minutos antes. Era como se
realmente apreciasse a visita. Isso o manteve sentado naquele lugar, impedindo-o de ceder ao
impulso de sumir.
Pouco a pouco o rumor do salão dos fundos foi diminuindo, e então o príncipe ouviu a
tranca da porta fechar. Cumprindo a promessa, Annah livrara-se das clientes o mais rápido
possível.
Tarde demais para voltar atrás. Daquele momento em diante, Lucas apenas podia desejar
que o melhor acontecesse, embora estivesse igualmente preparado para um imprevisto... caso ela
dissesse não.
Annah estava desconfortavelmente consciente do olhar que o príncipe lhe dirigira assim
que entrara na sala de estar. Pelo reflexo no espelho, observara de relance a forma como Lucas
andava de um lado para outro. Também sentia-se nervosa, como se aquele homem tivesse o
poder de desequilibrá-la.
Bobagem, concluiu. Já devia estar mais do que acostumada com a nobreza. Afinal de
contas, duas de suas melhores amigas tinham se casado com príncipes.
Entretanto, havia algo de especial em Lucas.
Ele ergueu-se da cadeira, cumprimentando-a com um polido gesto de cabeça.
— Desculpe-me por tê-lo feito esperar — ela disse, olhando ao redor para disfarçar o
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embaraço. — Oh... vejo que já se serviu do chá. Aceita mais uma xícara?
— Sim, obrigado.
Enquanto ela se ocupava em servir a ambos, houve uma pausa tensa.
— Sente-se, por favor — Annah sugeriu, colocando as duas xícaras numa bandeja de
prata, sobre a mesa de centro. Logo depois acomodou-se numa poltrona e foi direto ao assunto,
incapaz de conter a curiosidade: — Sua Alteza disse que gostaria de falar comigo...
— Sim.
— E acredito que deva ser um assunto importante, não é?
Lucas ergueu a cabeça abruptamente para encará-la.
— O que a fez pensar assim? — perguntou com cautela.
— Bem... Na verdade foi o fato de Sua Alteza quase gastar meu tapete de tanto
andar em círculos — ela comentou, indicando o chão com um gesto e sorrindo.
— Você está certa. Tenho um problema, e estou aqui porque me informaram que é a
pessoa certa para me ajudar, srta. Lane. — A voz sonora de barítono fez o ambiente vibrar. — Na
verdade, tanto o príncipe Whit quanto o príncipe Erik a recomendaram...
— Recomendaram? — As sobrancelhas de Annah arquearam-se. — Diga-me,
Alteza, em que exatamente eu poderia ajudá-lo?
— Para manter meu direito ao trono das ilhas Constellation, preciso estar casado em
dois meses, no máximo. — Lucas parou, como se considerasse aquilo uma explicação mais do
que razoável.
— Eu sei disso — ela murmurou, pensativa. — Aliás, todos parecem saber disso,
Alteza. — Sorveu um gole de chá, esperando que o príncipe prosseguisse. Por mais que se
esforçasse, não conseguia imaginar o que levara aquele homem até sua casa. — Mas em quê,
exatamente, eu poderia ajudá-lo?
Lucas a encarou.
— Uma noiva — disse com suavidade. — Poderia me ajudar a encontrar uma noiva, srta.
Lane?
O brilho nos olhos dela desapareceu na mesma velocidade com que veio. Então era esse o
motivo de sua visita?
— Alteza, creio que pretende encontrar alguém muito especial, não é mesmo? —
disse, tentando recuperar a naturalidade na voz.
— Sim. Mas quero muito mais.
Ao ouvir a resposta, ela ajeitou o corpo e conteve um suspiro. As coisas começavam a
fazer sentido. Obviamente os boatos sobre o príncipe eram infundados, e por isso tinham-na feito
julgá-lo mal. Ele não estava demorando para escolher a noiva apenas para aproveitar melhor seus
últimos dias de solteiro, mas pelo simples motivo de não ter encontrado a mulher certa. Esse era,
com certeza, o motivo que levara os nobres amigos de Annah a recomendá-la ao príncipe Lucas.
Afinal de contas, ela possuía o dom de enxergar o verdadeiro amor, o que a tornava a
casamenteira perfeita...
Mas o que devia responder a ele? Seus instintos não estavam funcionando direito naquele
momento.
Lucas cerrou os dentes, sentindo-se dominado por uma crescente tensão. Não era apenas
a espera que causava aquilo, mas o imponderável da situação. Um homem como ele não estava
acostumado a pedir ajuda a ninguém. Principalmente em se tratando de um assunto como aquele.
Era como se fosse um insulto à sua masculinidade. Que tipo de homem precisava recorrer a
estranhos para lidar com algo tão pessoal?
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Alguém que brincara com fogo no passado e acabara queimado, ele concluiu. Somente
um tolo não seria cuidadoso sob aquelas circunstâncias. E Lucas pretendia ser muito, muito
cuidadoso.
Mesmo assim, por mais que sua vida pessoal tivesse se tornado um inferno desde a
imposição do casamento, compreendia as razões do protocolo real. Como herdeiro do trono, um
homem precisava providenciar a linha de sucessão. O futuro da amada pátria exigia isso. Sim, o
parlamento tinha de pensar dessa forma, defendendo os interesses públicos das ilhas
Constellation.
Depois de limpar o chão, recolhendo os cacos da xícara, e servindo-se de mais chá,
Annah finalmente retornou, voltando a sentar-se diante dele.
— Algo errado com seu chá, Alteza? — perguntou, indicando a xícara intocada com um
gesto de cabeça.
Lucas ergueu os olhos e encarou-a com ar distante.
— Não, absolutamente — respondeu, apressando-se em sorver um gole da bebida quente.
A tensão de seu corpo musculoso ficava mais óbvia a cada instante.
Annah sempre fora uma pessoa impulsiva, e por um momento chegou a pensar em
estender o braço para tocá-lo, num gesto de conforto. Entretanto, algo lhe dizia que o príncipe
não apreciaria isso. E, bem no fundo, ela mesma não sabia como iria reagir se o tocasse...
— Você me pegou de surpresa — murmurou afinal. — Não sei ao certo o que lhe dizer,
Alteza.
Uma sombra então turvou o olhar de Lucas.
— Não lhe parece irônico... alguém como eu precisar de ajuda para resolver um
problema delicado como esse? — ele perguntou, ao mesmo tempo em que seus lábios curvavam-
se ligeiramente numa imitação de sorriso. — Infelizmente, srta. Lane, temo lhe informar que a
posição de príncipe não faz de ninguém um expert no assunto.
Aquela confidência era penosa, sem dúvida, Annah notou. Mas o príncipe realmente
acreditava que ela era especialista em arranjar casamentos?
— Entendo.
— Terei apenas uma chance, e disponho de pouco tempo. Não quero cometer um
erro do qual me arrependa pelo resto da vida.
— Não, claro que não. — Ela achava pessimista a forma como Lucas colocava as
coisas. Na verdade, parecia mais preocupado em não escolher a mulher errada do que em
encontrar a certa.
— É por isso que estou disposto a me colocar... quero dizer, a colocar meu futuro em
suas mãos, srta. Lane. Com ou sem sua ajuda, devo me casar em dois meses. Isso é um fato, uma
circunstância que não posso mudar. — Fez uma pausa. — Mas acredito que você poderia ser de
grande valia para me assegurar um casamento feliz.
Ela sabia qual era a única resposta para o dilema do príncipe. Só havia uma forma de
assegurar a felicidade futura: encontrar o verdadeiro amor. Annah mordiscou o lábio inferior,
nervosa. Como explicar aquilo a Lucas?
O silêncio parecia desencorajá-lo, e ela notou que o príncipe precisou reunir toda a
coragem de que dispunha para fazer um último apelo:
— Srta. Lane, preciso de sua ajuda... realmente — disse, com a bela voz de barítono
abafada pela emoção. — Pelo menos para garantir o bem-estar dos futuros herdeiros que deverei
dar ao reino.
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Crianças. Então Lucas não queria apenas um casamento feliz, mas também pensava nos
filhos que viriam. Certamente era uma preocupação nobre, Annah concluiu, contendo um
suspiro. Na verdade, ela mesma chegara a pensar naquilo, no passado...
A voz dele quebrou o silêncio novamente, praticamente num sussurro:
— Por favor, não me abandone.
O pedido era praticamente desnecessário. Annah, afinal, entre todas as pessoas do
mundo, era a que mais desejava ajudar Lucas a resolver o delicado problema. O príncipe
precisava transformar seus sonhos em realidade. E ela seria o instrumento para que isso
acontecesse.

CAPÍTULO II

Quando o relógio do castelo soou, indicando que faltavam quinze minutos para as oito da
noite, o nervosismo fez com que o príncipe Lucas se levantasse para andar em círculos
novamente. O alívio pela resposta afirmativa de Annah Lane não havia durado muito. Depois de
chegar ao castelo de Anders, ele tomara banho e trocara de roupa, e, à medida que o horário do
jantar se aproximava, ficava cada vez mais ansioso.
Preferia ter tratado imediatamente de todos os planos, mas Annah insistira em fazer
aquilo somente durante o jantar, alegando compromissos inadiáveis naquela tarde.
A campainha finalmente tocou, provocando no príncipe um suspiro aliviado. Segundos
depois ele já se encontrava à porta, que abriu num movimento abrupto.
— Boa noite, srta. Lane — saudou-a logo em seguida.
— Boa noite, Alteza — ela respondeu. Carregava uma geladeira térmica que foi logo
colocada sobre uma mesa do hall de entrada.
— O que é isso? — Lucas perguntou, aparentemente surpreso.
— Jantar — Annah murmurou simplesmente. Logo depois cruzou novamente a
porta aberta, encaminhando-se para o carro estacionado a poucos metros, a fim de apanhar outro
embrulho.
— Você preparou o jantar? — o príncipe perguntou assim que ela voltou.
— Claro. Não foi isso que combinamos?
Lucas na verdade imaginara que a oferta de Annah sobre "cuidar do jantar" iria limitar-se
ao fato de encomendar algo num restaurante local e providenciar a entrega no castelo.
— Não era necessário tanto trabalho...
— Não foi difícil — ela murmurou, sorrindo de forma encantadora. — Poderia me ajudar
a levar tudo até a cozinha?
O que mais Lucas poderia fazer? Obedientemente, seguiu-a pelo longo corredor,
carregando duas sacolas sem dizer uma palavra.
— Pode deixar tudo sobre o balcão — ela murmurou assim que chegaram à copa,
evitando encará-lo.
Estranhamente, a presença de Lucas a deixava insegura como nunca. Bobagem. Uma
mulher com quase trinta anos tinha que aprender a superar uma situação como aquela. Jamais
sentira-se assim, mesmo na presença dos príncipes Erik e Whit, provavelmente porque se
habituara à convivência com a nobreza local.
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Era diferente, porém, conviver com um representante estrangeiro da realeza. Naquela


tarde, assim que Lucas saiu de sua casa, Annah fez questão de lembrar a si mesma que existia um
verdadeiro abismo social entre os dois. O que era bom, pois evitaria que ela se deixasse levar por
sonhos tolos que nunca seriam realizados. Já que ia ajudá-lo, era melhor tentar pensar sempre
com clareza.
— Como acha que pode me auxiliar preparando um jantar, srta. Lane? — A pergunta do
príncipe veio num tom rascante e objetivo.
Lucas ia mesmo direto ao ponto, ela pensou. De qualquer forma, dadas as circunstâncias,
provavelmente aquela era a melhor forma de agir...
— Penso melhor quando estou cozinhando — ela informou com um sorriso.
— Então cozinhe muito!
Ele permanecia parado ao lado do balcão, de braços cruzados, e sua presença máscula
continuava afetando Annah profundamente.
"Droga!", ela pensou, exasperada.
Lucas já tivera sorte ao nascer príncipe... Será que também precisava ser tão atraente?
Parecia possuir um magnetismo, um brilho próprio capaz de ofuscar tudo a seu redor.
— É um belo castelo, não acha? — ela murmurou com casualidade, tentando
estabelecer uma conversa informal.
— Sim — Lucas respondeu. — Não é tão grande quanto o de meu pai, mas
certamente é um lugar lindo. O bom gosto da casa real de Anders sempre foi notório.
— Acredito que tudo isso vai parecer ainda menor quando os príncipes voltarem com
suas mulheres. Além da pequena Lexi, certamente teremos crianças correndo por aqui em pouco
tempo. — Um sorriso curvou os lábios de Annah diante da lembrança da felicidade das amigas
Drew e Julie.
Ele a encarava com uma expressão impassível.
— Erik foi muito gentil em me convidar a ficar hospedado aqui.
— Ninguém mais sabe que está aqui, não é mesmo, Alteza?
— Além da família Anders? Ninguém, além de você... e meus auxiliares, claro.
— Eu queria dizer, nenhum habitante da ilha — ela esclareceu. — Afinal de contas,
já havia escurecido quando saiu de minha casa, e além disso Sua Alteza usou um carro discreto...
— Exato — Lucas assentiu, ainda sem entender por que Annah conduzia a conversa
para aquele rumo.
— Depois disso, veio direto para o castelo?
— Sim.
— Por acaso notou se havia algum observador por perto, enquanto estava na frente
de minha casa?
Ele a encarou, espantado.
— Realmente não reparei nisso.
O interrogatório o intrigou. Não sabia em que poderia importar aquele fato. Entretanto,
naquele momento Annah passou a concentrar-se apenas na preparação da comida.
— A salada já está pronta. Agora só preciso fatiar o pão...
O príncipe continuava a encará-la.
— Quando a convidei para jantar, não imaginava que você teria tanto trabalho.
— Já disse que gosto de cozinhar — ela tranquilizou-o, colocando as fatias de pão
num cesto que acabara de retirar do armário. — Estou até pensando em ampliar a cafeteria que
existe nos fundos de minha casa e passar a servir refeições.
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— Por falar em refeições, você parece bastante familiarizada com essa cozinha.
Julie viveu aqui por algum tempo, trabalhando como governanta, antes de casar-se com o
príncipe Erik — Annah informou, dando um toque final na salada. — E nós duas somos grandes
amigas.
— Mudando de assunto — ele murmurou com casualidade —, você se importaria
em me dizer como pode ser especialista em encontrar parceiros para as pessoas se nem mesmo é
casada?
— Já estive no campo de batalha, Alteza — ela disse, ofendida.
— Desculpe-me... eu não entendi.
— Sou divorciada — Annah esclareceu.
Lucas não se lembrava de Erik ou Whit terem mencionado esse detalhe.
— Sinto muito — murmurou, sentindo-se mal por ter feito a pergunta.
Com um gesto, ela aceitou as desculpas.
— Isso não tem importância. — O tom de voz deixava transparecer uma franqueza
absoluta.
Isso fez com que o príncipe se sentisse melhor. Ele então tocou. Num assunto realmente,
importante.
— Você acredita mesmo que posso encontrar o tipo de mulher que procuro?
Por um instante Annah ficou pensativa e calada.
— Deixe-me ver se entendi direito... Em primeiro lugar, por que veio para a ilha
Anders?
— Aparentemente, todos os príncipes encontram suas esposas aqui. — Apesar do
tom jocoso, a afirmação de Lucas a espantou. Será que ele realmente acreditava ser possível
encontrar uma companheira apenas pela localização geográfica? — Pelo menos isso funcionou
muito bem com Erik e Whit.
— Desculpe-me — Annah disse, incapaz de conter um sorriso. — Infelizmente, meu
estoque de amigas encontra-se muito reduzido... já que todos os príncipes parecem ter resolvido
vir até aqui para tirá-las de mim.
As palavras fizeram-no sorrir também. Melhor assim, ela pensou. Um pouco de
informalidade tornaria tudo mais fácil.
— Mas o que espera encontrar em seu "tipo ideal"? — prosseguiu.
Lucas pensou por alguns momentos.
— Creio que gostaria que ela fosse alguém...— fez uma pausa, como se procurasse
pela palavra certa — ...comum.
— Oh, não! — ela replicou de imediato. — É melhor manter isso em segredo,
Alteza. Acredite, nenhuma mulher gostaria de ser escolhida por um motivo como esse.
— Você me compreendeu mal — o príncipe murmurou, arqueando as sobrancelhas.
— Então faça-me compreender — Annah pediu, sorrindo para encorajá-lo. — Se
quer mesmo encontrar uma esposa, terá que me fornecer mais informações. Só assim poderei
ajudá-lo melhor.
Ao dizer aquilo, ela tocou-o levemente no ombro. Foi um erro. O simples contato físico
provocou uma descarga elétrica que percorreu-lhe todo o corpo de forma extraordinária.
Lucas, porém, não demonstrou reação alguma, limitando-se a dizer:
— Quando me refiro a alguém comum, estou querendo dizer que não quero uma
mulher que se pareça...
— Com as mulheres que você encontra nas ocasiões oficiais e eventos da corte? —
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ela sugeriu com cautela.


— Isso mesmo — ele confirmou, encarando-a com gratidão pela interferência.
— Ótimo — Annah disse em voz baixa. — Então creio que a base de meu plano está
correta...
— Que plano?
Annah respirou profundamente antes de responder:
— Na verdade, é tudo muito simples. Pense comigo. A melhor forma de encontrar
uma mulher comum é comportar-se como um homem comum.
— Sem dúvida — Lucas concordou secamente. — Mas, apesar de entender sua
ideia, continuo sendo um príncipe.
O olhar de Annah manteve-se fixo no dele.
— Você sabe disso, e eu também... mas nós dois sabemos que ninguém mais nessa
ilha o conhece.
— Isso ainda não faz de mim um homem comum.
— Não faz?
— Srta. Lane... — Lucas começou, desviando a cabeça por sentir-se estranhamente
atraído pelo magnetismo daqueles olhos castanhos.
— Annah. — A correção foi imediata.
— Tudo bem... Annah, onde exatamente está querendo chegar?
Ela voltou a encará-lo fixamente.
— Bem, como eu já disse, é tudo muito simples. Creio que seria perfeito se você
permanecesse incógnito.
— Incógnito? — Lucas repetiu, espantado.
— Sim.
— Não pode estar falando sério! — ele exclamou, arqueando as sobrancelhas.
— Por que não? Lembre-se... ninguém mais sabe que você está aqui.
— Então propõe que eu mude minha identidade?
— Isso não será necessário. Na verdade, basta ocultar a verdade. Afinal de contas,
só vai precisar esconder sua origem aristocrática.
— Sua ideia é uma loucura!
— Ao contrário, é perfeitamente lógica, Alteza — ela insistiu calmamente. — Não
estou lhe pedindo para renunciar ao trono ou algo do gênero. Só para não mencionar seu título
por algum tempo. Diga-me, tem algum sobrenome? Pelo que me lembro, todos apenas referem-
se a você como príncipe Lucas.
Ele continuava a encará-la, aturdido.
— Meu sobrenome é Hansson, mas nunca o uso por causa dos costumes de meu
país.
— Excelente. Enquanto estiver nesta ilha, portanto, será apenas Luke Hansson, um
homem comum, em vez do Príncipe Lucas, o poderoso regente das ilhas Constellation que está à
procura de uma esposa...
— Mas agir como um príncipe é tudo o que sei fazer!
— É parte do que você pode fazer. Afinal de contas, é um homem como outro
qualquer. Aliás, um homem que está justamente procurando por uma mulher comum num lugar
pequeno. Posso apostar que sua tarefa será muito mais simples se ignorar a pompa da realeza.
— Mas..
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 12

— Acredite em mim, suas chances de sucesso seriam redobradas. Não terá que se
preocupar com mulheres que se aproximam apenas por saber que você é príncipe, e as que
conhecer certamente agirão com mais naturalidade.
Lucas pensou naquilo. Por mais bizarro que pudesse parecer, o ponto de vista de Annah
fazia sentido. Sua própria experiência pessoal confirmava aquilo. Uma mulher disposta a se
casar com um príncipe era capaz de dizer ou fazer qualquer coisa.
— Se agirmos assim, pouparemos muito tempo — ela continuou. — E creio que não
deve se esquecer de que dispõe de pouco tempo.
Como se Lucas não soubesse! Era hora de tomar uma decisão.
— Vou ter que pensar nisso — murmurou devagar. Logo em seguida foi até a adega,
apanhar uma garrafa de Bordeaux. Como podia considerar uma ideia maluca como aquela?
Entretanto, a experiência desagradável que tivera no passado não podia ser desprezada.
Ainda estava pensando no assunto quando voltou à cozinha com a garrafa nas mãos.
Feliz por ter algo para fazer, apressou-se em abri-la e serviu duas taças. Naquele momento,
Annah surgiu, vinda da despensa onde eram guardados os guardanapos, e praticamente trombou
com o príncipe. Por algum motivo, ele sentiu um calor estranho, que certamente não podia
atribuir ao fogo, quando os corpos se tocaram. Imediatamente o rosto dela ficou ruborizado.
— O jantar está...
— Cheirando...
Os dois pararam, sorrindo.
— Muito bem — Lucas completou.
Annah caminhou em direção ao fogão, voltando a mexer nas panelas.
— Quer experimentar para comprovar se não é apenas impressão? — perguntou, com
uma expressão encantadora que afetou o príncipe de uma forma nova e surpreendente.
Estendendo o braço, ele apanhou a colher que Annah lhe oferecia e provou um pouco. O
paladar era ótimo. Rico e cheio de sabor.
— Está delicioso!
Annah pareceu exultante.
— Acha que essa receita vai fazer sucesso se eu decidir abrir meu restaurante?
Lucas assentiu.
— Virá gente de todos os lugares para comer isso.
A refeição, constituída de espaghetti al pesto e vitela grelhada, realmente agradou ao
príncipe, que devorou tudo em pouquíssimo tempo.
Interpretando aquilo como um bom sinal, Annah retirou o prato vazio e serviu-o outra
vez. Lucas encarou-a com espanto.
— Eu não lhe pedi para me servir de novo.
— Eu sei. Mas você queria assim mesmo, não é?
— Como adivinhou? — ele perguntou, finalmente começando a relaxar. — Será que
todos os "homens comuns" repetem seus pratos?
Annah riu, e depois ergueu a taça para sorver um longo gole de vinho.
— É bom saber que você possui senso de humor, Alteza — observou. — Isso será de
grande valia para que meu plano funcione.
— Ainda não concordei com aquela ideia.
— Bem, enquanto pensa melhor, por que não me fala um pouco mais sobre as
qualidades que pretende encontrar nessa sua "mulher comum"?
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Houve uma pequena pausa.


— Estou procurando por alguém compatível — Lucas finalmente murmurou. —
Uma pessoa que tenha gostos como os meus, que possa se transformar numa companheira para
toda a vida.
— Continue — Annah o encorajou, feliz por notar que o príncipe começava a se
abrir. Mas, à medida que o ouvia, notou que era acometida com mais força pela mesma estranha
sensação que vivenciara naquela tarde. — Existe algum detalhe específico?
Ele respondeu sem hesitar:
— Acima de tudo, ela precisa amar muito crianças... além de desejá-las, claro.
Cada palavra caiu sobre Annah com a força de um trovão. Aquilo a fez lembrar-se de
como podia ser perigoso envolver-se com a pessoa errada.
Diante do silêncio, Lucas apressou-se em emendar:
— Não estou querendo dizer que ela deva ser assim apenas porque é minha obrigação
prover o reino com herdeiros para o trono. O que realmente quero é uma mulher amorosa e
maternal. Isso é o mais importante.
O príncipe desviou o olhar rapidamente. Por não estar acostumado àquele tipo de
confissão, sentia-se esgotado e tenso. Mas, surpreendentemente, Annah não fez outras perguntas.
Aquilo o fez pensar no que poderia haver de errado com sua resposta.
Tentando não soar de maneira defensiva, ele murmurou:
— Não creio que isso seja um problema. Afinal de contas, mulheres geralmente sonham
com filhos.
Annah manteve um olhar distante, e em seguida esforçou-se para sorrir.
— A maioria delas sim — disse, numa voz embargada pela emoção.
Algo naquele tom de voz provocou a curiosidade de Lucas.
— E você não?
— Eu? Ah... — Ela deu de ombros. — Bem, digamos que não tenho muito jeito com
bebês.
Aquilo explicava a estranha reação. Mas não deixava de surpreender o príncipe, pelo que
já observara em Annah. Uma garota como ela, vivendo num lugar pequeno e provinciano e,
principalmente, com um talento especial para unir pessoas, parecia o tipo que nutria sentimentos
maternais. Mas por que estava tão surpreso por interpretá-la mal?
Nem toda mulher sonhava com crianças, e Lucas sabia disso muito bem. Annah devia ter
seus motivos, e ele certamente não perguntaria quais eram. Preferências pessoais eram coisas
sagradas. Por isso não insistiria no assunto. Apenas precisava certificar-se de que suas
preferências tinham sido compreendidas.
— Bem, esse é um detalhe importante para mim. Pretendo encontrar uma mulher
que pense como eu, mesmo que para isso precise me disfarçar e...
— Quer dizer que concordou com meu plano? — Annah interrompeu-o
abruptamente, erguendo a cabeça.
— Mas antes de mais nada vai precisar me dizer em quê, exatamente, você pensou
— Certo. Em primeiro lugar, temos que tirá-lo desse castelo. Obviamente um sujeito
"comum" não viveria num lugar assim.
— Verdade. Existe algum bom hotel na ilha?
— Apenas algumas hospedarias... que infelizmente ficam fechadas nessa época do
ano. Mas isso não vai representar um problema. Você pode ficar hospedado em minha casa.
— O quê?
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— Pode ficar em minha casa.


Annah falava com tanta casualidade! Entretanto, Lucas vinha de um reino conservador,
onde aquele tipo de convite seria facilmente mal interpretado.
— Em sua casa? — repetiu, espantado.
— É perfeitamente lógico. Além disso, será mais fácil para trabalharmos juntos.
Tenho um quarto vago onde poderá desfrutar de completa privacidade.
— Não posso concordar com um arranjo desses.
— Bobagem. Eu faço questão. Sua estadia em minha casa lhe fornecerá um motivo a
mais para ficar sempre em contato com as pessoas da cidade. Posso apresentá-lo como Luke
Hansson, um velho amigo, ao mesmo tempo em que verifico as prováveis candidatas.
Mas Lucas ainda não estava convencido de que tudo seria tão simples assim.
— Mesmo com um nome diferente... será que não me reconhecerão?
A resposta dela foi imediata:
— Isso não vai acontecer... se mudarmos um pouco sua aparência.
— Mudar minha aparência? Como?
— Existe apenas uma forma de disfarçar um rosto que aparece nos jornais com tanta
regularidade, Alteza — Annah disse com seriedade. — Precisamos eliminar sua marca
registrada.
Lucas apoiou os braços na mesa e encarou-a, estupefato.
— Srta. Lane...
— Annah.
— Por acaso está sugerindo que eu tire minha barba!
— Oh, não... Não estou apenas sugerindo. Eu faço questão disso.
O príncipe levantou-se de um salto.
— Impensável — disse finalmente, com uma determinação obstinada.
Ela cruzou os braços.
— Se não o fizer, jamais conseguirá o que quer... Alteza.
— Não!
— Bem, então creio que terá que armar outro plano. Não posso pensar em outra
forma de fazer o meu funcionar.
Os dois não trocaram mais palavras até o final do jantar. Aparentemente, Annah não via
motivo algum para insistir, já que o problema, na verdade, não era dela.
Entretanto, quando já estava de saída, encarou o príncipe e murmurou:
— Bem, Alteza, não vou importuná-lo mais com meu plano, mas preciso lembrá-lo de
um detalhe: esse castelo devia estar supostamente vazio, já que Whit, Erik e suas esposas estão
em lua-de-mel e os criados receberam férias. Poderei explicar o fato de as luzes estarem acesas
hoje à noite dizendo que vim providenciar o enxoval de minhas amigas. Mas em dois dias todos
na ilha vão acabar sabendo que o famoso príncipe Lucas está aqui à procura de uma esposa... e
então a situação estará fora de meu controle. — Caminhando na direção do carro, ela emendou,
sem olhar para trás: — Realmente acredito que meu plano é bom. Vou deixar a porta dos fundos
aberta, caso Sua Alteza mude de ideia. Se revolver aceitar meu convite, seu quarto é o primeiro
depois do patamar da escada.
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CAPÍTULO III

Sua Alteza, o príncipe Lucas, regente das ilhas Constellation, olhou para o próprio
reflexo no espelho do pequeno banheiro da casa de Annah. Cada vez mais, a ideia de sua anfitriã
começava a tornar-se palpável. Lentamente, ele se despiu e entrou no boxe do chuveiro,
apreciando o contato com a água quente e agradável.
Passar-se por hóspede dela era um disfarce perfeito, pois, mesmo que alguém o
reconhecesse, dificilmente acreditaria na possibilidade de um nobre submeter-se a tal situação.
Por que, afinal de contas, um príncipe faria uma coisa como aquela? Aos olhos de
qualquer pessoa normal a história não faria qualquer sentido. Por isso mesmo as chances de
sucesso aumentavam muito.
Por outro lado, aquilo era uma aventura. Quantos homens tinham a chance de se passar
por outra pessoa? E, mais importante, o disfarce impediria que mulheres inescrupulosas,
interessadas apenas no status real, se aproximassem.
Somente Annah conhecia a verdade. Mas ela era sua aliada, não uma candidata potencial.
Por isso, não significava um risco. Erik e Whit estavam certos ao indicá-la para aquela delicada
missão.
Ela não era apenas competente, mas também uma pessoa compreensiva e agradável. E,
embora ainda não a entendesse direito, Lucas sentia absoluta confiança tanto nela quanto no
plano. Claro que adorava provocá-lo, mas isso não o incomodava muito. Talvez porque
desconfiasse de que havia muita ternura por trás daquele comportamento distante.
Depois de trabalhar habilmente com o barbeador, o príncipe contemplou o resultado
final. O barbado e sisudo regente conhecido pelo povo das ilhas Constellation desaparecerá por
encanto, e em seu lugar surgira alguém de aparência muito mais jovial: Luke Hansson.
Luke. Ela o chamara assim na noite anterior, provocando-lhe um estranho e desconhecido
prazer. Lucas jamais tivera um apelido, e gostava da maneira como o novo nome soava nos
lábios de Annah. Agora, olhando para o espelho, concluiu que Luke combinava muito bem com a
nova imagem.
Na verdade, estava ansioso para verificar a reação de Annah, embora, intimamente, não
admitisse isso...
Annah não via o príncipe desde o jantar da noite anterior, e apenas o ouvira entrar no
meio da madrugada. Aparentemente, levara bastante tempo para decidir-se a aceitar o plano. Mas
quando ela acordara, cerca de uma hora antes, notara, ao ouvir o barulho do chuveiro, que seu
hóspede já estava de pé.
Para sua sorte, seu dia sempre começava muito cedo e agitado, não, lhe dando chances de
dar asas à imaginação. Já era hora de abrir as portas da cafeteria e quando terminava os
preparativos matinais, ouviu passos descendo a escada e murmurou, sem erguer a cabeça:
— Olá, bom dia! Estou aqui nos fundos.
Os passos aproximaram-se, e o príncipe Lucas cumprimentou-a com um entusiasmo
incomum:
— Bom dia!
Assim que levantou o rosto para encará-lo, Annah teve que conter a respiração. Seu
nobre hóspede, por mais incrível que pudesse parecer, ficara ainda mais lindo sem barba.
— Oh, você está ótimo — murmurou, atônita, contemplando as belas feições do rosto
másculo e anguloso. Sem saber o que fazia, ergueu o braço e, ato contínuo, tocou-lhe o queixo.
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Para Lucas, aquele toque provocou o efeito de um incêndio. O sangue começou a correr
mais rápido por suas veias, como se fosse a lava de um vulcão. Não era uma sensação
meramente sexual... embora isso também existisse. Naquela manhã, sua anfitriã parecia mais
bela, como se a luz dos raios do sol combinasse perfeitamente com a tonalidade rósea de seu
rosto. Baixando os olhos para evitar o olhar penetrante de Annah, ele contemplou de relance as
formas proporcionais e graciosas do corpo feminino, escultural.
Houve uma embaraçosa pausa, que Lucas finalmente decidiu romper:
— Acha que minha aparência melhorou?
— Oh... ah... o resultado ficou muito bom, Alteza — ela respondeu num fio de voz.
— O nome é Luke. Luke Hansson, lembra-se?
— Claro, claro...
O príncipe agia com absoluta naturalidade, como se já estivesse acostumado com a nova
situação. Sem dúvida não teria problemas para conseguir uma pretendente, Annah pensou,
contendo um suspiro.
— Pareço um homem comum?
Ela o encarou por um instante, como se procurasse pela melhor maneira de responder
àquela pergunta.
— Bem, você já não parece tão... formal, se é a isso que se refere. — Comum era o
tipo de homem que Annah encontrava todos os dias nas ruas da cidade, não um monumento
como aquele. — Mas acho que vamos precisar de roupas mais esportivas.
— Não costumo usar esse tipo de roupa, você sabe.
— Pois saiba que veio ao lugar certo — Annah respondeu, fazendo um gesto que
indicava o ambiente. — Também lido com roupas, Alteza. — Ao notar o olhar preocupado do
príncipe, riu, divertida. — Claro que não tenho modelos masculinos, mas acho que posso
conseguir alguma coisa. — Caminhando até o corredor com passos rápidos, ela voltou instantes
depois com um mostruário de fotos. — Aqui está. Pode escolher alguma coisa enquanto eu
trabalho. Tenho uma amiga que ficará feliz em atendê-lo da melhor forma possível.
— Eu? Fazendo compras? — Lucas parecia absolutamente incrédulo.
— Pelo telefone, Alteza. É muito simples. Basta escolher os modelos que mais lhe
agradam e ela trará tudo até aqui. Qual é seu número?
— Número?
A expressão dele demonstrava espanto. Obviamente, as roupas de um príncipe eram
feitas sob medida, Annah concluiu.
— Ora, não se preocupe. Posso tirar suas medidas num instante. Será muito
divertido ajudá-lo.
— Divertido?
Dessa vez Lucas estava brincando, e ela percebeu isso.
— Sempre é divertido gastar dinheiro à custa de outra pessoa...
— Isso me lembra uma coisa — o príncipe disse, pensativo. — Ainda não
discutimos qual será o custo de seus... serviços.
Ela riu.
— Ficaria muito honrada se me desse apenas uma condecoração. "Casamenteira
Real"... O que acha?
— Mas você terá despesas enquanto eu estiver hospedado aqui! — ele protestou.
— Ora, por favor! — Annah arqueou as sobrancelhas. — Aquele quarto estava
mesmo desocupado, Alteza.
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— Também vou precisar muito de seu telefone. Não posso parar completamente de
trabalhar enquanto estiver aqui.
— Tudo bem. Pode me reembolsar pelas chamadas, então.
— E quanto às refeições?
— Quem cozinha para uma pessoa, pode muito bem cozinhar para duas. Mas acabei
de ter uma ídeía. Pode até ajudar. — Por alguns instantes ela permaneceu calada, como se
arquitetasse um plano. — Bem, vou precisar comprar alguns mantimentos. Por que você não faz
isso para mim? Posso lhe dar uma lista. O mercado é um lugar muito bom para conhecer
mulheres.
Os lábios de Lucas curvaram-se num sorriso.
— Você ê mesmo rápida, hein?
— Pode apostar que sim. Não descansarei até que encontre o que veio procurar —
Annah replicou com vigor. — Declaro aberta a temporada de caça à mulher "ideal", Alteza. E o
primeiro passo que devemos dar é escolher logo suas novas roupas.
— É você quem manda.
— Nunca se esqueça disso — ela brincou. Logo depois virou-se e apanhou uma
cesta de costura, da qual retirou uma fita métrica e um bloco de notas. — Tubo bem, vamos
começar por sua altura... Um metro e noventa?
— Sim.
Annah anotou no papel e voltou a encará-lo.
— Em seguida, seu... — Hesitou, tentando imaginar qual era a parte do corpo mais
segura para começar a medição. — Seu braço — decidiu.
— Está bem.
Lucas estendeu o braço com obediência, para que ela usasse a fita métrica.
— Agora o peito — Annah disse, depois de anotar a medida.
— Sabe mesmo o que está fazendo? — o príncipe perguntou com um estranho sorriso.
— Claro que sei. Sou profissional.
Ele teve que se explicar:
— Eu quis dizer que, quando meu alfaiate tira minhas medidas, eu geralmente não fico...
vestido. — E indicou o grosso suéter que usava.
A colocação fazia sentido, Annah concluiu, examinando o grosso tecido de lã.
— Certo. Acho melhor medir sem o suéter.
Quando ele tirou a peça, uma onda de calor percorreu todo o corpo feminino. Lucas
usava apenas uma camiseta justa, o que deixava entrever com perfeição seus músculos bem
definidos. Na verdade, era a primeira vez que ela media alguém que não tinha busto...
— Bem, agora preciso tirar as medidas de sua calça.
— Quer que eu as tire? — Lucas indagou com um sorriso malicioso. — Nossa, você
é mesmo competente! Deve ser por isso que meus amigos me mandaram até aqui...
— Muito engraçado, príncipe, realmente. Mas basta que vá até seu quarto e me traga
outra calça sua.
Naquele momento alguém bateu à porta dos fundos.
— Correio! — uma voz jovial chamou. Mas Lucas já havia desaparecido pelo
corredor quando Annah foi atender. — Olá! — cumprimentou Terri Gaines, a única carteira da
ilha. Alta, loira, vivia obcecada com regimes para emagrecer. Sua personalidade enérgica a
tornava uma das pessoas mais queridas do lugar. — Ora, é a primeira vez que me deixa
esperando em todos esses anos!
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— Desculpe-me, Terri. Eu estava... ah... trabalhando num novo projeto e acho que
esqueci o horário.
— Pensei ter ouvido vozes — Terri disse, passeando o olhar por toda a cafeteria. —
Annah, seu rosto está vermelho como um morango! O que aconteceu? Você estava com...
alguém?
— Sim, mas...
— É mesmo?
Annah tentou contornar o mal-entendido.
— Você ouviu meu amigo Luke... Ele chegou ontem à noite e vai passar algum
tempo na ilha.
— Quer dizer que você está com um homem aqui? — A outra mulher soltou uma
risada. — Nossa! Algumas pessoas na cidade vão ficar totalmente...
— Não é o que você está pensando — Annah protestou de imediato. — Não está...
acontecendo nada entre nós. Na verdade, é um incômodo hospedar um solteirão convicto como
ele.
Justamente naquele momento Lucas entrou na cafeteria.
— Sinto muito — o príncipe disse, detendo-se. — Não sabia que estava com uma visita.
Terri examinou-o por um momento, virando-se para encarar a amiga com uma expressão
de desdém.
— Entendo o que quis dizer, querida... Deve mesmo ser um incômodo terrível.
Pobrezinha!
Ignorando a insinuação, Annah apressou-se em mudar de assunto:
— Luke, essa é Terri, a carteira da ilha.
— Carteira?
A loira sorriu.
— Sim. Sei que deve parecer estranho — ela disse, estendendo a mão. — Olá, sou
Terri Gaines.
— Luke Hansson — ele murmurou, apertando a mão que lhe fora oferecida.
— Prazer em conhecê-lo, Luke. O que o trouxe até a ilha Anders?
— Ele anda trabalhando muito nos últimos tempos — Annah apressou-se em
intervir. — Por isso decidi convidá-lo para passar férias na ilha. Digamos que Luke tem alguns...
interesses aqui.
Aquilo era verdade. Lucas ficou impressionado.
— Qual é seu ramo de negócios? — Terri perguntou com um sorriso.
Como ele hesitou para responder, novamente foi necessária a interferência de Annah:
— Ele cuida dos negócios da família. Sabe como é, do tipo que passa de pai para filho...
Uma coisa era certa, Lucas pensou: sua casamenteira realmente possuía presença de
espírito. Ele não seria capaz de responder com tanta naturalidade à torrente de perguntas da
carteira.
— Entendo — Terri murmurou, claramente curiosa. — E onde você vive, Luke?
Ele não podia negar-se a responder uma pergunta tão direta.
— Para ser franco, tenho viajado tanto nos últimos anos que posso dizer que sou um
cidadão do mundo...
— Parece excitante. Mas onde você nasceu?
— Lá. — Com um gesto vago, ele indicou o leste, onde o sol acabara de nascer.
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 19

— Oh, entendo... — Terri antecipou-se. — Mais um visitante do continente. Precisa


tomar cuidado, ou vai acabar se apaixonando pela ilha, como já aconteceu com muitos outros
que se mudaram para cá.
— Ele certamente adoraria fazer um passeio — Annah interveio, mudando de
assunto. — Mas infelizmente tenho que manter a loja aberta. Por isso, não poderei servir de guia.
Terri não deixou a oportunidade passar em branco.
— Se quiser, Luke, pode dar um passeio pela ilha comigo.
Sozinho com ela, sem a ajuda de Annah? Lucas definitiva mente não achava uma boa
ideia.
— Realmente, não precisa sentir-se obrigada a fazer isso, só porque...
— Mas que grande ideia! — Annah interrompeu-o. — Não existe maneira melhor de
conhecer a ilha. Terri tem que ir a praticamente todas as casas.
— E eu não me sinto obrigada a nada — Terri emendou num tom de voz rouco. —
Na verdade, tenho certeza de que vou adorar a companhia. Podemos até almoçar no Kelvin's. A
torta de galinha que servem lá é a mais famosa das redondezas.
— Está vendo? — Annah perguntou, virando-se para encará-lo. — É isso que eu
chamo de uma oferta irrecusável.
— Ótimo! — Terri falou, entusiasmada. — Pegue seu casaco, Luke. Voltarei num
minuto. Só preciso apanhar outro pacote para Annah. Está em minha caminhonete.
Quando a porta fechou-se atrás da mulher, Annah olhou para o príncipe e sorriu de forma
triunfante.
— Que acha de sua casamenteira? Está na ilha há menos de vinte e quatro horas e já lhe
consegui um encontro. Que tal?
Lucas, porém, não se sentia muito inclinado a celebrar o fato.
— Eu ainda estou um pouco surpreso...
— E o que achou dela? — Annah prosseguiu, sem lhe dar tempo de falar. — Não é
uma mulher bonita e simpática? Além disso, posso garantir, é uma excelente pessoa.
— Tive essa impressão — ele murmurou, pensativo. — Mas não gosto da ideia de
ficar a sós com ela. — Os últimos minutos, aliás, tinham sido muito tensos para Lucas.
— Será apenas até o final da tarde.
— Como?
O final da tarde? Então ele teria que passar todo o dia naquele passeio?
— Não se preocupe — ela disse, notando a preocupação do príncipe. — Vai se sair
muito bem. Basta agir com naturalidade.
— Oh, mas que belo conselho! Annah, eu sou um príncipe. Acha mesmo que vou
conseguir passar um dia inteiro ao lado de uma carteira desconhecida chamada Terri?
Ela cruzou os braços e soltou um suspiro.
— Quer uma princesa ou não?
— Sabe que quero — Lucas murmurou, baixando a cabeça.
— Então escute, Alteza. Lembre-se de que meu trabalho é apresentá-lo ao maior
número possível de mulheres. Terri possui todos os requisitos dos quais me falou, e para
melhorar as coisas está interessada em você. Vai desperdiçar uma chance como essa?
— Eu poderia pensar mais um pouco...
— Ora, quantas mulheres jovens, bonitas e solteiras você acha que existem num
lugar pequeno como esse?
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Lucas lembrou-se subitamente do trono de seu país, e do prazo fatal.


— É que... bem, improvisar nunca foi o meu forte.
— Bobagem — Annah murmurou, olhando pela janela. — Veja, ela já está voltando.
A situação era inevitável. O príncipe concordara com aquela farsa, e agora teria que ir até
o fim. Encolhendo os ombros, murmurou:
— Pode me dar algum conselho para que ninguém desconfie de mim?
— Sim, Alteza. Se forem comer o frango frito no Kelvin's, use as mãos.

CAPÍTULO IV

Quando Lucas acordou, na manhã seguinte, ficou um tanto desorientado. Não estava em
sua suíte no palácio real das ilhas Constellation, na cama imensa que usava.
Encontrava-se no cubículo ao qual Annah referia-se como "quarto de hóspedes". A cama,
forrada com lençóis de flanela, lhe dava a confortável sensação de estar deitado num ninho. Um
segundo travesseiro, no lugar vazio a seu lado, realmente o fez pensar. Caberiam casais numa
cama pequena como aquela?
Imaginou uma mulher dormindo a seu lado, e foi acometido por uma sensação quente e
reconfortante. Não haveria forma de evitar o contato físico. Um bom lugar para fazer amor...
Sons aos quais não estava familiarizado, de pratos batendo e vozes conversando,
chamaram-lhe a atenção logo em seguida. Mal acabara de alvorecer, mas Annah já parecia estar
em plena atividade, apesar de provavelmente ter ido dormir tarde, já que não estava em casa
quando ele voltara, na noite anterior. Ela deixara um bilhete, informando que fora ver uma
amiga, e o príncipe ficara decepcionado. Gostaria de ter comentado com sua casamenteira sobre
o passeio com Terri, mas infelizmente Annah era uma mulher muito ocupada. Não era de admirar
que não quisesse crianças em sua vida...
Com o canto do olho, ele viu um vulto movendo-se no chão, e ergueu-se de imediato. No
mesmo instante um gato malhado saltou sobre a cama, detendo-se justamente no colo do
príncipe.
Lucas permaneceu imóvel. Nunca passara por uma situação como aquela.
— Saia já daqui! — exclamou numa voz capaz de fazer generais tremerem.
— Miauuuuuuu... — o gato ronronou, sem mover-se um centímetro.
— Chega — Lucas insistiu, tirando o animal da cama e levantando-se de um salto.
Estranho Annah não tê-lo avisado sobre o gato. Talvez estivesse mesmo ocupada demais para
lembrar-se desse detalhe.
Minutos depois, já vestido, ele desceu a escada e reparou que o gato continuava parado
no corredor. Um aroma delicioso vinha da cafeteria. Ao chegar lá, o príncipe notou que, ao
contrário do dia anterior, o lugar estava repleto de gente. Aparentemente, Annah tinha um
negócio muito lucrativo.
Ela não o notou de imediato, o que não era de espantar. Estava fazendo meia dúzia de
coisas ao mesmo tempo, e nos intervalos ainda conseguia cuidar da louça suja. Como conseguia
aquilo? Lucas observou a cena, intrigado. Não fez som ou movimento algum, mas de alguma
forma Annah sentiu sua presença.
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 21

Apesar de carregar uma bandeja na qual se empilhavam vários pratos vazios, ela virou-se
para encará-lo. Como sempre, seus olhos castanhos transmitiam um brilho afetuoso, o que
agradava muito ao príncipe.
— Oi, Luke — saudou-o, colocando a bandeja sobre a pia. — Não fique parado aí. Há
um lugar vazio no balcão, e reservei-o para você. Entre Wilfred e Eldridge.
De fato havia uma vaga, e Lucas apressou-se em ocupá-la, cumprimentando com um
discreto gesto de cabeça os dois senhores que sentavam-se em cada um dos lados. Os homens
retribuíram o cumprimento, e depois voltaram a comer em silêncio. Annah levou-lhe uma caneca
de café, puro e forte, e em seguida foi limpar uma mesa que acabara de ficar livre.
Entre os frequentadores, desenvolvia-se uma animada conversa.
— Meu filho Tom voltará para casa para o baile dos bombeiros, Annah — disse uma
anciã sentada atrás de Lucas. — Se você estiver livre, ele ficaria feliz em acompanhá-la.
— Obrigada, Edna, mas eu...
— Está encarregada de organizar a festa — várias pessoas disseram em uníssono.
— Bem, é a pura verdade! — Annah replicou, rindo. — Por que será que ninguém
se oferece para me ajudar na tarefa?
— Ora, querida — outra senhora, de cabelos grisalhos, murmurou. — Todos nós
sabemos que você é a pessoa mais indicada para o trabalho. Apenas gostaríamos que também se
divertisse um pouco.
— Planejo fazer isso — ela assegurou, caminhando para trás do balcão.
— E meu Edward é exatamente...
— Esqueça isso — Edna interveio. — Se Annah recusou meu Tom, certamente não
vai querer seu Edward.
— Não é nada pessoal... — Annah começou.
— Ela precisa ter alguma companhia — uma terceira voz comentou.
— Ora, por quê? — Annah indagou com um sorriso maroto.
— Senhoras, uma garota desacompanhada pode dançar com todos os rapazes!
A frase provocou uma série de risos entre os presentes, e o próprio Lucas encontrou-se
sorrindo, mesmo sem querer.
— O que é o baile dos bombeiros? — ele perguntou.
— O maior acontecimento da cidade — respondeu Eldridge, o senhor calado que
estava sentado à sua esquerda.
— Acontece na antiga sede do corpo de bombeiros — secundou Wilfred, o ancião da
direita.
— Esse é o motivo do nome — emendou Eldridge.
— Um baile de caridade — finalizou Wilfred.
Lucas assentiu com um gesto de cabeça, antes de perguntar:
— E quando isso acontece?
— Em menos de um mês — uma senhora respondeu.
— O baile fica espremido entre o dia de Ação de Graças e o Natal — comentou
Wilfred.
— Mas até lá essas mulheres vão deixar a pobre Annah maluca.
Wilfred soltou um suspiro exasperado.
— É mesmo. Todas vão tentar marcar com ela um encontro para seus filhos, sobrinhos e
netos.
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 22

— Bah! — Eldridge resmungou. — É sempre a mesma coisa.


Então Annah voltou a encher as canecas dos dois anciãos, que agora ignoravam
completamente a presença de Lucas.
— Esse é o rapaz com quem você está vivendo em pecado? — Wilfred perguntou,
finalmente olhando para o príncipe.
Lucas segurou a borda do balcão com força e começou a se levantar, mas Annah o deteve
de pronto.
— Isso mesmo, Wilfred. — Todos os olhos do salão fixaram-se nela. — Quero
dizer... se você considera um pecado oferecer um quarto de hóspedes para um velho amigo...
— Seu amigo vai ficar muito tempo por aqui? — Eldridge perguntou.
— Cale a boca, Eldridge — Wilfred disparou.
— Eu só queria saber se o rapaz vai ficar até o baile dos bombeiros. Parece ser um
bom sujeito, e poderia acompanhar Annah ao baile. Quem sabe assim essas mulheres parariam
de matraquear.
— As coisas ficariam piores. Elas iam começar a especular sobre a data do
casamento...
Erguendo a cabeça, Lucas quis ver como Annah reagia àquela conversa, mas ela já estava
na outra extremidade do balcão. Instantes depois os dois senhores levantaram-se, deixando
algumas moedas para pagar a conta.
Annah logo apareceu para retirar os pratos sujos.
— Ouvi dizer que teve uma ótima tarde ontem — ela murmurou em voz baixa.
— Como foi que você...
— Terri passou aqui mais cedo. Ficou muito desapontada por não vê-lo.
— Isso quer dizer que me comportei muito bem, não é?
Ela riu.
— Sim, você foi um cavalheiro. Mas diga-me... gostou de Terri?
— É uma boa moça. A tarde foi muito agradável, o tempo pareceu voar.
— Creio que isso quer dizer que você gostou.
— Acho que sim — Lucas respondeu com cautela. — Mas isso não quer dizer que
eu esteja pensando em me casar com ela.
— Ninguém quer apressá-lo. Saia com Terri outra vez. Só o tempo poderá dizer se
as coisas vão correr bem.
— Claro.
O príncipe arqueou as sobrancelhas e sorveu um gole de café. No íntimo esperava não ter
que se passar por um homem comum por muito tempo.
— Desculpe-me por não ter preparado o jantar ontem à noite — ela continuou. — Só tive
tempo de preparar aqueles sanduíches.
Lucas realmente não desejava que sua anfitriã se preocupasse com aquele tipo de coisa.
Já era ocupada demais. Preferia que ela poupasse energia para concentrar-se em ajudá-lo a
procurar uma noiva.
— Sanduíche é minha refeição predileta — ele disse, tentando parecer o mais sério
possível.
— Seu mentiroso — Annah repreendeu-o, colocando as mãos na cintura e sorrindo.
— Verdade. Estava delicioso. Como você o preparou?
— Nunca tinha experimentado um sanduíche de rosbife?
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 23

Lucas meneou a cabeça.


— Diferenças culturais, sabe como é.
— Acho que sim — ela concordou, rindo novamente.
O príncipe gostava daquele bom humor. Geralmente as pessoas não se comportavam com
naturalidade diante dele. Por isso, a presença luminosa de Annah sempre o animava.
— Vai fazer aqueles sanduíches outra vez?
— Claro. E talvez deixe-o experimentá-los quente — ela respondeu, piscando num gesto
de cumplicidade. Depois de uma pausa, durante a qual aproveitou para atender uma cliente
recém-chegada, Annah voltou a se aproximar. — Queria que me contasse os detalhes do
encontro com Terri. Sinto ter saído na noite passada, mas a sra. Cartelli recebeu a notícia da
morte da irmã e precisei ir até lá para ampará-la... sabe como é.
Uma atitude como aquela era exatamente o que Lucas esperaria de alguém como Annah,
sempre solícita e cheia de boa vontade. Uma coisa realmente extraordinária.
Naquele instante um pensamento passou-lhe pela mente.
— Você tem um gato?
— Temporariamente. Só até a sra. Cartelli voltar do continente. A irmã morava lá,
entende? Por acaso Sebastian o incomodou?
— Na verdade, ele se apresentou de forma meio... rude, pulando na minha cama.
— É mesmo? — Annah parecia surpresa. — Ele deve ter gostado de você.
Normalmente fica muito arredio com estranhos.
— Que sorte, a minha.
— Onde ele está agora? Levei-o para cima para não incomodar os clientes.
Lucas encolheu os ombros.
— Sei lá, talvez no jardim. Ele me seguiu quando desci a escada e praticamente implorou
para que eu abrisse a porta.
— O quê? — Annah parecia preocupada. — Você não leu meu bilhete? Deixei instruções
explícitas para não deixá-lo sair. Sebastian é um gato caseiro.
— Bem, então imagino que deva voltar logo.
Ela colocou as mãos na cintura.
— Você precisa achá-lo!
— Eu? Por quê?
— Foi você quem o deixou sair — Annah argumentou, exasperada. — Além disso, estou
trabalhando... A não ser que queira cuidar da cafeteria por alguns minutos.
Lucas arqueou as sobrancelhas.
— Tenho certeza de que aquele gato pode esperar.
— Ele é um bicho doméstico. Não consegue se defender sozinho. Pode lhe acontecer
algo grave, e então terei que me explicar com a sra. Cartelli...
Como um bom príncipe, ele sabia quando uma batalha estava perdida.
— Tudo bem — murmurou. — Vou resgatar logo aquele pobre e indefeso animal,
madame.
Depois do passeio pela cidade, Lucas não precisou de muitas informações de Annah para
encontrar a casa da sra. Cartelli. Provavelmente o gato tentaria ir para lá. Caminhando devagar, o
príncipe admirou mais uma vez a bela paisagem do vilarejo cercado pelas montanhas. Realmente
a ilha Anders era um local belíssimo. Seus amigos Erik e Whit tinham muita sorte por governar
um lugar como aquele.
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 24

Cerca de quinze minutos depois, chegou ao endereço indicado, e não ficou surpreso por
encontrar Sebastian na soleira da casa vazia.
— Olá, bichano!
O gato o ignorou, permanecendo absolutamente imóvel, deitado sobre o tapete felpudo.
— Vamos lá. Temos que voltar para casa.
Ao ser agarrado, o animal soltou um miado agudo e fechou os olhos.
— O nome dele não é bichano — disse uma voz por sobre o ombro de Lucas. — É
Sebastian. Por acaso você está tentando sequestrá-lo?
O príncipe virou-se, deparando com uma garota de aproximadamente seis anos. Ela
vestia um casaco azul e um engraçado chapéu cor-de-rosa.
— Isso não seria correto — outra voz infantil murmurou. Era uma garota muito
parecida com a primeira, só que vestida de amarelo. — Mas, de qualquer maneira, ele não é um
homem mau. Mamãe disse que é o estrangeiro que está hospedado na casa de Annah, e permitiu
que falássemos com ele.
— Sou Luke — apresentou-se o príncipe, sorrindo de forma desajeitada.
— Eu sou Jenny — disse a menina com o chapéu.
— E eu, Janine.
— Prazer em conhecê-las — Lucas respondeu num tom exageradamente solene.
— Por que você está aqui? — Janine perguntou de forma abrupta.
— Bem, Annah me mandou levar Seb... esse gato, de volta para a casa dela. Teremos
que cuidar dele enquanto a sra. Cartelli estiver fora.
— Aposto que você o deixou escapar — Janine afirmou, trocando um olhar de
cumplicidade com Jenny.
As gêmeas eram realmente perspicazes, Lucas concluiu, espantado.
— É verdade — confessou com desânimo. — Não sabia que era um gato caseiro. Annah
ficou furiosa comigo.
As duas meninas o olhavam com simpatia.
— Bem, pelo menos tudo acabou bem. Sebastian não se perdeu. Agora só precisa levá-lo
de volta — Jenny murmurou.
Janine não tirava os olhos do príncipe.
— Não sabe como carregá-lo, não é? — ela finalmente perguntou.
— Bem... na verdade não — Lucas admitiu. O gato, aliás, já havia arranhado sua
mão uma vez.
— Nunca teve um gato, senhor?
— Não. Minha mãe não permitia animais no pal... em nossa casa.
A revelação deixou as garotas consternadas.
— Oh, mas que pena! — Jenny exclamou. — Nossa mãe nunca nos proibiu. Nós temos
um gato e um cachorro e um coelho e um pássaro.
Janine suspirou.
— A única coisa que não temos é um pai. O nosso morreu quando éramos bebês.
— Oh! Sinto muito — Lucas murmurou. Pobre crianças... Ainda pôde observar outra
troca de olhares entre as gêmeas antes que Jenny dissesse:
— Seria muito bom ter um pai.
— Sim. Mamãe precisa de um, também — Janine comentou.
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 25

— Pobre mamãe... não vai ter ninguém para acompanhá-la ao nosso recital de piano na
terça-feira.
— Veja, ela está chegando.
Lucas ergueu a cabeça e viu uma mulher de cabelos negros saindo de uma casa no outro
lado da rua.
— Ela não é bonita? — Janine perguntou.
— Muito — ele observou. A mulher tinha os mesmos traços adoráveis das filhas, e
um corpo capaz de fazer qualquer homem arriscar uma segunda olhadela.
— Certo. Então vamos fazer um acordo — Janine sussurrou depressa. — Nós duas o
ajudaremos a levar Sebastian de volta, mas em troca terá que nos fazer um favor...
Cinco minutos depois o príncipe entrou na cafeteria de Annah com ar pensativo. Ela o
recebeu com um sorriso, terminando de lavar os copos. A maior parte do movimento matinal
terminara.
— Notei que precisou de reforços para dominar aquela fera — ela disse.
Lucas sentou-se num banqueta e suspirou.
— É... quando temos problemas, é sempre melhor recorrer a ajuda especializada.
Annah riu.
— Foi isso que o trouxe até essa ilha, não foi?
— Pode fazer piadas se quiser, mas aquelas duas colocariam você fora do negócio de
casamenteira num instante.
— Deixe-me adivinhar... acaso vai levar Marilyn ao recital de piano das gêmeas na
terça?
— Como você sabe?
— Por que acha que o mandei naquela direção? — Annah arqueou as sobrancelhas
com orgulho.
O timming dela era mesmo perfeito, Lucas pensou, admirado.
— Devo então imaginar que você já incluíra o nome de Marilyn entre as possíveis
candidatas?
— Claro que sim. Ela ficou viúva cinco anos atrás, e está pronta para um novo
relacionamento. — Naquele instante algo ocorreu a Annah, que apoiou os cotovelos no balcão
com uma expressão preocupada. — O fato de ela ter sido casada não representa um problema,
não é?
Annah estava tão perto! Se o príncipe se inclinasse poucos centímetros poderia até
mesmo experimentar o gosto daqueles lábios carnudos...
— Não — ele respondeu, desviando a cabeça e tentando concentrar-se na conversa.
— Claro que as filhas não entrariam na linha de sucessão do trono, mas, desde que Marilyn se
dispusesse a me dar novos herdeiros...
— Tenho motivos para crer que ela estaria disposta a isso — Annah murmurou
devagar.
— Então não há problema algum. — Uma ideia estranha passou pela mente do
príncipe, que resolveu testá-la de imediato. — Também posso me casar com uma mulher
divorciada, claro. Desde que ela se disponha a ter filhos comigo.
Ela levantou-se abruptamente.
— Não conheço ninguém nessas condições. Mas fico feliz por você ter se entendido com
Marilyn. Acho que vai gostar dela.
Naquele exato momento uma cliente entrou, interrompendo a conversa.
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 26

Minutos mais tarde, Annah voltou a se aproximar dele, levando a recém-chegada pelo
braço.
— Quero que conheça alguém — ela dizia à mulher. — Esse é meu amigo Luke
Hansson, que está visitando a ilha.
Lucas levantou-se e meneou a cabeça num gesto polido.
— Olá.
— Essa é Shannon Rafferty... uma velha amiga — Annah apresentou.
Shannon era uma bela ruiva de olhos verdes, com um sorriso radiante. O príncipe
estendeu a mão para cumprimentá-la.
— Como vai?
Annah, que já reassumira seu lugar atrás do balcão, serviu café para os dois.
— Shannon acabou de sair do hospital, onde trabalha à noite. Sempre passa por aqui pela
manhã para um café antes de ir à igreja.
— Aparentemente todos nessa cidade passam por aqui... — Lucas murmurou,
pensativo.
— Quase todos. Mas não fique preocupado. Geralmente consigo atender a clientela
sem problemas.
Ele virou-se para encarar Shannon assim que Annah afastou-se para cuidar da louça.
— Que tipo de trabalho faz no hospital?
— Sou enfermeira obstetra... bebês, você entende?
— E houve algum nascimento na última noite? — ele perguntou.
— Seis. E participei de dois partos.
— Ah... — Annah suspirou, sem parar de trabalhar. — Meninos ou meninas?
— Lindas garotinhas — Shannon disse com um sorriso.
Lucas observou com interesse a reação de sua anfitriã. Estranho. Apesar de dizer que não
desejava crianças, os olhos dela pareciam brilhar de forma sonhadora...
— E viveu aqui toda a sua vida? — ele voltou a dirigir-se a Shannon.
— Sim, exceto pelo tempo que passei na universidade.
— E onde foi que estudou?
— Boston, nos Estados Unidos.
Não era de admirar que ela parecesse mais cosmopolita. Essa era uma palavra que
dificilmente seria aplicada a qualquer outro habitante daquela ilha, o príncipe pensou, contendo
um sorriso.
— Acabei de me lembrar que estão exibindo um filme excelente no Bijou, o cinema
do vilarejo — comentou Annah. — Você não gostaria de ver, Shannon?
— Claro. Estou de folga hoje à noite — a mulher respondeu. Mas um instante
depois, pensando melhor, decidiu emendar: — Quero dizer, isso se eu não for atrapalhar os
planos de... vocês dois.
— Bobagem — Annah assegurou. — Luke e eu somos apenas amigos. Além disso,
estarei ocupada hoje. Você me faria um favor se o acompanhasse.
— Bem, já que está colocando as coisas desse jeito... — Shannon murmurou. — Sei que
estou lhe devendo vários favores. Vejo-os à noite, certo?
— Bravo! — Lucas disse assim que a mulher saiu. — Sua eficiência em conseguir
encontros é realmente fantástica.
Annah sorriu.
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 27

— Acho que sim... Mas o que achou dela?


— Me pareceu meio calada, ao contrário de Terri, que falou a tarde inteira.
— Shannon é do tipo que prefere ficar calada até conhecê-lo melhor. Mas lembre-se,
águas calmas geralmente são profundas... Foi por isso que sugeri o cinema para seu primeiro
encontro com ela. — Depois de fazer uma pausa, concluiu: — Vocês só vão ter que ficar no
escuro por duas horas. Nem vai ser preciso conversar muito. Não é ótimo?
Enquanto a ouvia, porém, um pensamento surpreendente passou pela mente do príncipe.
Na verdade, Annah Lane era a única mulher com quem sentia-se inteiramente à vontade naquela
ilha.
O que poderia estar causando tal sensação?

CAPÍTULO V

Naquele mesmo dia, Luke voltou para casa meia hora depois da chegada de Annah.
Parecia cansado.
— Um novo encontro, Alteza? — ela perguntou, sorrindo.
Ele encolheu os ombros.
— Carol joga vôlei. Estavam treinando hoje, e acabei participando... Não sei como
chama isso de encontro. Francamente!
— Eu chamo! — Annah gritou divertida, ao vê-lo começar a subir a escada de dois
em dois degraus. — E fico feliz por ver que as coisas estão indo bem.
— Devia ter imaginado que você não deixaria passar uma oportunidade...
— Está se saindo muito bem, Luke — ela elogiou, juntando-se a ele instantes
depois. — Nem precisamos falar mais sobre esse assunto. Na verdade, acho que não precisa mais
de minha ajuda.
O príncipe encostou a cabeça no batente da porta. Já havia tirado a camisa, e a visão do
torso nu, musculoso, afetou Annah consideravelmente.
Como um relâmpago, Sebastian surgiu do nada naquele momento e saltou sobre Lucas,
assustando-o. Annah riu, deixando o hóspede indignado.
— Isso não foi engraçado! — ele gritou.
— Eu lhe disse que o gato gosta de você.
— Bem, mas acontece que eu não gosto dele. Especialmente quando decide pular
em cima da cama — Lucas murmurou, contrafeito, respirando profundamente para recobrar-se
do susto. Seus cabelos castanhos brilhantes estavam em desalinho e Annah podia notar a
pulsação das grossas artérias no pescoço.
Tentou então imaginá-lo jogando, com os músculos flexionados sob a pele rija e...
— Se eu encontrar esse bicho aqui de novo... — ele advertiu.
— Farei o possível para que isso não aconteça, Alteza — Annah murmurou,
intrigada. O que poderia estar acontecendo para deixar o príncipe tão irritadiço? — Seu desejo é
uma ordem.
Lucas encarou-a com desdém por um instante, e depois voltou a olhar para o gato.
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 28

— E você, bichano, tome cuidado, ou vou acabar jogando-o pela janela! — E, dizendo
aquilo, fechou a porta.
Quando o príncipe desceu, depois do banho, Annah estava na cozinha, cuidando do
jantar.
— O que está preparando?
— Guisado com carne de carneiro. Já experimentou?
Ao fazer a pergunta, ela ergueu a tampa da panela e o aroma chegou às narinas de Lucas.
— Não, mas acho que vou adorar — ele murmurou com um suspiro.
— Acho que Sua Alteza está se especializando na arte da adulação... — Annah fingiu
protestar.
— E eu acho que a cozinheira esqueceu que agora sou um homem comum, com um
apetite comum.
Os dois trocaram olhares e a atmosfera pareceu ficar carregada de sensualidade.
"Por que isso está acontecendo com frequência crescente?", ela se perguntou,
amargurada.
Nem mesmo quando fora casada sentira-se tão afetada por alguém. Havia algo de
especial relacionado àquele homem, e, por mais que tentasse se conter, Annah não podia ignorar
a atração que ele lhe despertava.
Para piorar as coisas, a casa parecia ficar menor a cada dia, como se a simples presença
do príncipe pudesse dominar o ambiente. Bem, de qualquer forma, ela já era adulta o suficiente
para lidar com uma situação delicada como aquela.
Ao notar que Lucas segurava um saco de pano, Annah encontrou a desculpa perfeita para
entabular uma conversa casual.
— O que é isso?
— Minhas roupas sujas. Nós nunca pensamos nesse detalhe, não é?
Realmente era um problema, mas de fácil solução. Mesmo a contragosto, Lucas viu-se
lavando as próprias roupas. Era domingo e a lavanderia da cidade estava fechada.
— Não podíamos ter pedido mais coisas? — Lucas perguntou quando sentaram-se
para jantar. — A quantidade que você solicitou mal vai dar para uma semana — ele argumentou
após escolherem mais peças do catálogo.
— Boa tentativa, mas não vou deixar que compre um caminhão de roupas só para
fugir do trabalho de lavá-las. Além disso, as pessoas podem ficar desconfiadas se você aparecer
com um modelo novo a cada dia.
— Aposto que ninguém notaria.
— Estou vendo que conhece pouco as mulheres. Elas sempre reparam nesse tipo de
detalhe. Especialmente quando se trata de alguém que "preenche" as roupas tão bem quanto
você.
O príncipe ergueu a cabeça.
— Devo aceitar isso como um elogio?
Quando os olhares se encontraram, Annah sentiu-se gelar. Não sabia como responder.
Justamente por isso, virou a cabeça e fingiu olhar pela janela.
— Foi apenas uma observação — murmurou no tom mais casual possível. — Nós, as
casamenteiras, temos esse costume, sabe como é.
Lucas insistiu:
— Não é apenas isso.
— O que quer dizer?
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 29

— Quero dizer que deve haver algum motivo oculto para que eu conheça tantas
mulheres interessantes em pouco tempo.
— Está sendo ótimo, não é? Mas devo avisá-lo de que o mérito não é
exclusivamente meu.
— Não? Então como pode explicar a situação? Acredite, jamais tive esse tipo de
"sorte" até agora.
— Isso não me surpreende, a julgar pela forma como você estava agindo.
— Onde quer chegar?
Ela manteve o olhar fixo no próprio garfo, tentando imaginar a melhor forma de expor
sua teoria.
— O que você fazia antes era como pescar no deserto. Não importava quanto estava
disposto a tentar, jamais conseguia um peixe. E então... — Houve uma pausa cheia de hesitação.
— Continue — o príncipe pediu com interesse, inclinando-se para frente.
— Bem, e então você veio para cá. Tudo passou a funcionar como por encanto...
Mas apenas porque Sua Alteza se dispôs a agir como um homem comum. Usou a isca errada por
muito tempo, meu caro. Felizmente, agora os peixes estão mordendo.
— Mordendo? — Lucas soltou uma risada. — Nem mesmo estou precisando usar
iscas! Na verdade, os peixes parecem dispostos a se jogar em meu barco...
Uma expressão compreensiva dominou o belo rosto de Annah.
— E você acha isso ruim? Se não me engano, veio para essa ilha justamente por esse
motivo.
— Não estou reclamando, não me entenda mal. É que... bem, o barco está
começando a ficar cheio demais, se é que me entende.
— Nem pense em mudar as coisas agora. Precisa dar tempo ao tempo. No final, só
vai restar um peixe. E tenho a intuição de que vai conhecer essa pessoa logo, talvez amanhã.
— Lá vai você, me arrumando outro encontro...
— Não é verdade! Caso não tenha notado, eu quase não interferi até agora. Elas não
precisaram de estímulo algum para se aproximar de você. — Annah parou por um instante, como
se pensasse no assunto. — Bem, talvez eu tenha feito isso com Shannon. Mas acredito que ela
também teria inventado uma desculpa qualquer se eu não tivesse sugerido o cinema.
— Com ela você foi mais direta, apenas isso. Mas tenho certeza de que houve um
toque seu em cada um dos meus encontros.
— Apenas segui minha intuição... e felizmente tive sorte.
— Pare de tentar se eximir, e aceite meus cumprimentos. Você realmente está
fazendo um trabalho excelente.
Naquele instante, bateram na porta da cozinha. Era Shannon. Em minutos, a mulher e
Luke estariam a caminho do cinema. E intimamente, mesmo sem saber por que, Annah
recriminava a si mesma por ser tão eficiente.

Depois de fechar a cafeteria, na manhã seguinte, Annah levou Lucas até o mercado. Era
bom tê-la como companhia, para variar, ele pensava satisfeito enquanto dirigia a caminhonete
para o centro da cidade. Como de costume, tivera que aguentar o mau humor dos velhos Eldridge
e Wilfred durante o café da manhã. E até mesmo a cena das mulheres tentando convencer Annah
a aceitar um convite dos filhos e netos se repetira. Ela, porém, mantivera a posição anterior,
recusando polidamente.
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 30

— Tomei uma decisão — o príncipe anunciou em voz alta. Annah virou-se para
encará-lo.
— Já decidiu com quem vai se casar?
Parecia surpresa, e um tanto decepcionada.
— Não, não. Mas acabei de decidir que vou fazer minha escolha na noite do baile
dos bombeiros. Será a ocasião ideal, pois naquela data ainda terei algumas semanas para
providenciar os detalhes do casamento.
— Boa ideia. Acredito que terá tempo suficiente para tomar uma decisão até lá. —
Houve uma pausa tensa, durante a qual ela desviou o olhar. — E como se saiu com Shannon
ontem?
— Você estava certa sobre o filme... e sobre sua amiga. Ela ficou quieta o tempo
todo. Nem mesmo tenho certeza de tê-la agradado.
— Shannon é uma mulher muito reservada.
— Tem mesmo certeza de que ela se enquadra nos parâmetros que determinei?
— Certamente. Fiquei sabendo inclusive que Shannon estava considerando a
hipótese de adotar sozinha uma criança, tamanho seu desejo de ser mãe. Pobrezinha...
Lucas notou pelo olhar dela que a simpatia das palavras era sincera. Annah realmente
sentia pena de uma mulher que desejava ser mãe! Ele nada disse, principalmente por não
conseguir pensar em nada que não parecesse um julgamento demasiado pessoal. E sabia que não
tinha esse direito.
Minutos depois o pesado silêncio foi novamente quebrado por Annah:
— Chegamos. O McCreedy's fica bem ali.
Não era um supermercado, mas sim um pequeno armazém administrado pela mesma
família havia muitas décadas. Quando entrou, o príncipe olhou ao redor, fascinado com os
antigos mostruários e os recipientes de cereais. Certamente o lugar não mudava de aparência
havia pelo menos setenta anos, concluiu.
— Pegue — ela murmurou, estendendo-lhe uma cesta de metal. — Não vamos precisar
do carrinho dessa vez, pois minha lista de compras está bem pequena hoje.
— Eu vou precisar...
— Aqui estão a lista e as chaves do carro.
— Chaves?
— Claro. Você vai precisar do carro para levar tudo isso para casa — ela disse
calmamente. — Não me importo em caminhar um pouco. Estarei em casa em poucos minutos.
— Você está indo embora? — Lucas perguntou com incredulidade.
— Exato. Preciso atender minhas clientes depois do almoço e tudo deve estar
pronto. Sabe disso, não é?
Ele apanhou a lista, olhando-a de relance.
— Quer que eu leve tudo isso?
— Sim, e pode deixar na cozinha para que eu coloque nos lugares certos. Creio que
nosso estoque ficará completo até o final do mês. — Ergueu o braço e viu o horário no relógio de
pulso. — Agora preciso ir.
— Mas eu nunca fiz compras!
— Você vai conseguir — ela murmurou, saindo sem olhar para trás.
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 31

O movimento de clientes era pequeno na loja de Annah quando o príncipe voltou. Por
isso, ela pôde ajudá-lo a descarregar a caminhonete.
— Como se saiu? — foi logo perguntando, enquanto apanhava uma sacola.
— Eu mais parecia um elefante numa loja de cristais — Lucas resmungou. — Por
que não me avisou sobre aquelas malditas pilhas de enlatados?
— Oh... Você provocou algum acidente no mercado?
— Para ser franco, foi uma confusão dos diabos. Havia latas rolando por todo o
lugar! Felizmente, algumas clientes me ajudaram a arrumar tudo bem depressa. Caso contrário,
eu ainda estaria naquele mercado.
— Entendo... Isso significa que sua "frágil" imagem masculina funcionou outra vez.
Nenhuma mulher consegue resistir a um homem desamparado.
— Para sua informação, todas usavam alianças na mão esquerda e estavam
acompanhadas dos filhos.
— Nossa! Você realmente aprendeu depressa a ler os sinais. Já está se transformando
num caçador de esposas profissional — ela murmurou, incapaz de conter um sorriso. — Mas,
mudando de assunto, conseguiu encontrar tudo o que estava na lista?
— Realmente — Lucas comentou, colocando a última sacola sobre o balcão da
cozinha. — Foi um bom truque colocar na lista um item que não existia.
— Por acaso está me acusando de...
— Agir o tempo todo como uma casamenteira? Sim. Como você ficou sabendo que
sua amiga Joyce iria aparecer inesperadamente naquele armazém?
— Porque sei que ela faz compras diariamente, a fim de renovar o estoque de
merenda da escola maternal que dirige — Annah explicou, como se fosse a coisa mais natural do
mundo. — E então, como vai ser o encontro de vocês?
— Não será um encontro. Só vou ajudá-la em alguns reparos na escola, amanhã pela
manhã.
— Um encontro.
— As crianças estarão lá!
— Ótimo. Assim poderá vê-la em ação. Joyce é demais. Excelente mãe. Esse não é o
ponto principal?
— Bem, quando você coloca as coisas desse modo... — Ele fez uma pausa. —
Obrigado.
Os olhos brilhantes de Annah turvaram-se por uma fração de segundo, e então ela
argumentou:
— Pode agradecer de outra forma. Ajudando-me a guardar as compras, por exemplo.

Lucas consertou algumas mesas na escola de Joyce e acompanhou Marilyn ao recital das
gêmeas, no final da tarde de terça. Era apenas o final do primeiro round, pois certamente teria
novos "encontros", com Terri, a carteira, com Carol, a jogadora de vôlei e com Shannon, a
enfermeira. Tudo estava acontecendo tão rápido que ele chegou a pensar numa agenda para
organizar o cronograma de compromissos.
Quando desligou o telefone, depois de falar com o ministro de relações exteriores de seu
reino, na terça-feira à noite, Annah já fechara as portas da loja e estava preparando o jantar.
Incumbiu-o de cortar os vegetais para a salada.
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 32

Na opinião de Lucas, o trabalho estava indo muito bem. Por isso, sentia-se satisfeito e
feliz. Isso até Sebastian aparecer para roçar em suas pernas com insistência.
— Sabe o que pode acontecer com você, bichano? — perguntou, apontando a faca para o
animal com uma expressão fingida de fúria.
— Miau — Sebastian replicou, abrindo muito os olhos, numa expressão adorável.
— Não podemos trancá-lo em algum cômodo lá em cima?
— Que tal em seu quarto? — ela propôs.
— Engraçadinha!
— Bem, não temos tantos quartos vagos, Alteza. Por que não o alimenta? O pobre
bichinho deve estar agitado por causa da fome.
— Já fiz isso. Mas esse animal simplesmente ignorou a tigela de ração e me seguiu
até aqui.
— Sebastian nem tocou na comida? Oh, parece mesmo que o conquistou, Alteza —
Annah brincou, sorrindo.
Lucas parecia em pânico.
— Isso era tudo o que eu queria! Sério!
— Ponha a culpa no seu charme. — Ela riu. — E, pelo que tenho ouvido pelas
conversas na cafeteria, Sebastian não é o único que se apaixonou...
— Bem, espero que minhas outras "conquistas" sejam seres humanos do sexo
feminino.
— Sabe muito bem quem elas são.
Ele finalmente colocou a salada sobre a mesa.
— Não sei, não. As coisas andam um pouco calmas nos últimos dois dias. Gostaria
de saber o que minha consultora oficial pensa a respeito.
— Bem, todas o convidaram para sair à primeira vista, exceto Shannon.
— E daí?
— Agora a jogada é sua, Alteza.
— Está querendo me dizer que devo convidá-las dessa vez?
— Na mosca.
O príncipe pensou por um minuto.
— Tudo bem — concordou com cautela. — Mas como vou fazer isso?
Annah notou que a pergunta era séria.
— Espere um momento... Por acaso está querendo me dizer que nunca convidou
uma mulher para sair?
— Claro que sim — ele murmurou, arqueando as sobrancelhas. — Mas geralmente
alguém da minha equipe cuidava desse tipo de coisa em meu nome...
— Sua equipe? Ouça, se está pensando que vou fazer isso, melhor mudar de ideia. Ajudei
até agora, mas uma coisa precisa ficar clara: sujeitos comuns costumam tratar sozinhos desse
tipo de assunto.
Ao ouvir aquilo, Lucas suspirou, desanimado.
— Acho que você está certa. Além disso, sempre havia alguma importante ocasião
social para que eu convidasse alguém... Um baile, um jantar oficial ou coisa do gênero.
— Bem, infelizmente não temos muito movimento na ilha nessa época do ano. Creio
que vai ter de convidá-las para programas mais simples. Como um homem comum faria.
— E quando?
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 33

— Logo, a menos que tenha se esquecido do seu prazo para assumir o trono, Alteza.
— Acho que posso sair com uma em cada período, tarde e noite, no sábado e no
domingo — Lucas murmurou, pensativo.
— Isso soma quatro garotas — Annah comentou. — E onde vai encaixar a outra?
Ele considerou a questão.
— Essa será Shannon — disse afinal. — Creio que posso tomar café com ela na
manhã de domingo, depois do plantão no hospital. Afinal de contas, parece ser a que tem menos
chances.
— Não leve isso para o lado pessoal. Ela nunca comentou, mas acredito que alguém
lhe partiu o coração no passado. Em minha opinião, a ferida ainda não cicatrizou.
— E acha que Shannon estaria preparada para se casar nessas condições?
— Quem sabe? Apenas ela pode decidir isso, mas vai precisar de algum tempo. Sei
que gosta de você. Chegou até a comentar que a ida ao cinema foi o melhor passeio que teve em
muito tempo. Vindo dela, é um elogio e tanto.
— Certo — ele assentiu. — Mas, voltando ao assunto, onde acha que devo levar as
outras?
O príncipe novamente estava falando sério. Annah não podia esquecer por um minuto
que, a despeito da experiência que possuía em outros campos, Lucas não passava de um
principiante na arte da sedução.
— Por que não faz simplesmente um programa que lhe agrade? Isso lhe dará
oportunidade de observar se as personalidades delas combinam com a sua. Os gostos... tudo,
enfim.
Ele a encarou com um sorriso admirado, como se tivesse acabado de ouvir a melhor
explicação do mundo sobre a teoria da relatividade.
— Grande ideia! — exclamou de forma aprovadora.
Annah, por sua vez, não pôde resistir e acrescentou:
— Ou, se preferir, pode arrastá-las pelos cabelos, levá-las para sua caverna e
perguntar se querem ser mães de seus filhos.
— Era exatamente disso que eu precisava. — O príncipe meneou a cabeça. — Uma
casamenteira comediante!
— Não cobro extra pelas piadas, Alteza. Pode ficar tranquilo.

Ele terminou por levar Joyce para um passeio, depois que ela saiu da escola maternal. Na
mesma noite, acompanhou Carol a um concerto realizado no teatro de um vilarejo vizinho, e no
sábado à tarde levou Marilyn e as gêmeas a um cruzeiro pela baía. Mais tarde, com Terri, fez um
passeio pelos lugares históricos da ilha, seguido por um jantar.
Para surpresa dele, na manhã de domingo, na cafeteria, Shannon convidou-o para
acompanhá-la a um vernissage que seria realizado na galeria de arte local, naquela mesma noite.
O convite atrapalhou a agenda do príncipe, que marcara um encontro com Joyce no fim
da tarde. Apesar de ter ficado com o horário apertado, ele conseguiu comparecer aos dois
compromissos, e chegou exausto ao final do dia.
Portanto, na manhã de segunda-feira, precisava mais do que nunca de uma caneca do café
bem forte de Annah para começar tudo outra vez. Wilfred e Eldridge logo tomaram seus
costumeiros assentos ao lado do príncipe.
— Notou algo estranho na cidade nos últimos dias? — Wilfred perguntou ao amigo.
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— É... As coisas parecem um pouco diferentes por aqui.


— O nosso caro Luke...
— Pintando e bordando...
— É.
Lucas nada disse. Já havia compreendido que não valia a pena.
— Será que você não tem nada a dizer em sua defesa, meu jovem? — Wilfred finalmente
perguntou.
O príncipe encolheu os ombros.
— Não é crime convidar uma mulher para sair, certo?
— Cinco mulheres — Eldridge apressou-se em corrigir.
— E morando na casa de uma sexta, ainda por cima — emendou Wilfred.
— Não comecem com isso outra vez — Lucas advertiu. — Annah já disse que ela e
eu somos apenas...
— Amigos — Eldridge completou com desdém. — No meu tempo, usávamos outra
palavra para descrever essa situação, em que um homem e uma mulher dividem um teto...
— ...sem estar ligados pelos laços sagrados do matrimônio — Wilfred finalizou.
De relance, Lucas olhou para Annah. Ela limitou-se a encolher os ombros e sorrir,
obviamente curiosa com o final daquela conversa. Parecia dizer: "Você não pode vencê-los".
E estava certa. Por isso, Lucas ignorou as provocações e sorveu tranquilamente um gole
de café. Os velhinhos tentaram provocá-lo mais uma vez quando viram-na afastar-se.
— Como você parece estar alimentando as ilusões daquelas cinco pobres moças...
— ...nós queremos saber quais são as suas verdadeiras intenções.
Virando-se para cada um dos lados, Lucas encarou duramente os dois homens.
— Estão com ciúme, cavalheiros?
Aquilo os atingiu em cheio. Todos os presentes explodiram em risos.
— Espere até nos ver em ação durante o baile... — Wilfred murmurou.
— Sim, o baile dos bombeiros — Eldridge completou.
— E talvez mostremos a você uma ou duas coisas sobre como cortejar uma mulher.
— Lá não existe sequer uma com mais de cinquenta que não nos tenha conhecido.
Finalmente os dois rabugentos deram-se por satisfeitos e concordaram com Annah, que
disse que as garotas tinham idade para cuidar de si mesmas. Logo depois foram embora, sem
provocar mais discussão alguma.

Mesmo assim, ainda havia uma coisa incomodando Lucas.


— Você não acha que as mulheres vão acabar estranhando o fato de eu sair com as cinco
ao mesmo tempo? — perguntou a Annah quando o movimento diminuiu.
— Podem até estranhar, mas isso não importa. Você está agindo às claras, e, pelo que
me disse, não tem motivos para se envergonhar. Lembre-se: elas estavam disponíveis antes que
você chegasse. Mas nenhuma pode ser chamada de "mulher fácil".
— Então acredita que devo continuar devagar, sem pressa de tomar a decisão
definitiva?
Annah encarou-o com um sorriso.
— Por que não? É exatamente isso que elas estão fazendo com você.
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Voltando de um encontro com Marilyn na noite de quinta, Lucas tomou cuidado ao


estacionar o carro ao lado da caminhonete de Annah. Como detestava incomodar sua anfitriã,
decidira alugar um automóvel, para ter mais mobilidade. Ela insistira para que o príncipe
alugasse um sedan simples, mas não conseguiu demovê-lo da ideia de um carro esporte. Não
faria tanta diferença assim, Lucas argumentara. Além disso, preferia um automóvel potente para
os passeios que planejava fazer em seu tempo livre. Entretanto, seu maior problema continuava a
ser a indecisão. Depois de mais uma rodada de encontros com as cinco mulheres, ainda estava
longe de decidir-se por uma delas.
Ao desligar o motor, ele espreguiçou-se atrás do volante. Era bom estar em casa. E não
levara muito tempo para passar a considerar a de Annah como um lar. Podia relaxar ali. Além
disso, gostava de saber que ela estava por perto, mesmo que insistisse em lhe dar toda a
privacidade possível. Nunca precisava dizer nada, a não ser que desejasse.
Naquela noite, chegou mais cedo do que esperava. Por isso, ficou feliz ao notar que as
luzes da sala de estar ainda estavam acesas. Não apenas isso, observou ao colocar a chave na
fechadura da porta dos fundos. Havia música tocando. E num volume considerável. Entrou e foi
imediatamente atacado por Sebastian, que pulou com entusiasmo em suas pernas.
Droga! Aquele gato parecia ser equipado com um radar...
Depois de parar de acariciar a cabeça do felino, o príncipe dirigiu-se direto para a sala,
seguido de perto pela sombra do gato.
Annah estava de costas, numa estranha dança que acontecia ao mesmo tempo que
limpava o pó com um pano. Não era assim que a mãe lhe ensinara mas, de qualquer forma, era
assim que preferia fazer a faxina, desde a adolescência. Ligava o rádio bem alto e cantava, como
se estivesse no meio de um palco. Mas não imaginava que Lucas fosse chegar tão cedo.
Foi um erro. Quando se virou, praticamente deu um encontrão no príncipe, imóvel no vão
da porta. Tomando-a nos braços, e sem perder o ritmo, ele passou a rodopiar com Annah pelo
meio da sala. E ela deixou-se conduzir pelos braços fortes, arrebatada pela espontaneidade do
momento.
Era uma novidade ver Lucas agindo daquela forma impulsiva. E era adorável.
Subitamente, começou a rir.
— O que é tão engraçado? — ele perguntou em voz alta, a fim de suplantar o rumor
da música. Mas continuou dançando sem perder o ritmo.
— Isso — ela disse sem fôlego, indicando o pano de pó com um gesto de cabeça. —
Cinderela, dançando com o príncipe.
— Que príncipe? — ele perguntou, olhando ao redor. — Sou apenas um sujeito
comum.
Aquilo não era verdade, e ela sabia. Mas era extremamente bom fingir o contrário. Ainda
estava rindo quando a música terminou, e então seu corpo colou-se mais ao dele. A canção que
começou em seguida era uma balada lenta e romântica. Sem encarar Lucas, Annah afastou-se
imediatamente e foi desligar o aparelho de som.
— Não é um estilo muito bom para uma faxina — justificou-se num tom casual,
passando a limpar a mesa de centro.
— Vou acreditar em você — disse Lucas, afastando-se um passo. No íntimo sabia
por que ela interrompera a música. Mas não podia interpretar claramente o que sentia a respeito.
Tê-la nos braços daquela forma fora tão... diferente!
Annah sorriu, desajeitada.
— Acho que não é assim que os criados fazem em seu castelo, não é, Alteza?
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— Se é, nunca reparei. Raramente estou por perto quando isso acontece. Tudo o que
sei é que eles mantêm o palácio sempre limpo. — Fez uma pausa e então observou: — Deve ser
muito duro para você, com todo o trabalho que tem na cafeteria e na loja. Posso ajudar enquanto
estiver por aqui? — Ajudar na faxina? O príncipe? Mas, antes que ela pudesse responder, Lucas
emendou: — Ficaria feliz em contratar-lhe uma arrumadeira.
— Muito obrigada mas, para ser franca, nunca desejei ter uma. Gosto de conservar minha
casa. Claro que a parte mais divertida sempre é a decoração... eu tinha acabado de redecorar o
andar de cima poucos dias antes de sua chegada. Tirar o pó não é minha atividade favorita, mas
pelo menos serve como desculpa para que reveja minhas próprias coisas e lembre por que são tão
importantes para mim.
Lucas a observava. Jamais conhecera uma pessoa que encarasse as pequenas coisas da
vida com tanta felicidade. A maior parte de sua existência tinha ficado restrita ao convívio com
pessoas extremamente ricas e poderosas.
E como ela ficava exuberante quando sorria! Annah realmente era alguém muito especial.
Especial o bastante para fazer o príncipe decidir que era melhor subir logo para o
quarto... ou talvez não conseguisse controlar as estranhas sensações que tinham passado a tomar
conta de todo o seu corpo.

CAPÍTULO VI

— Quer dizer que você é o forasteiro que anda tirando as mulheres da ilha do sério...
Quando se dispusera a ajudar Annah na tarde seguinte, mudando alguns armários pesados
de lugar, Lucas não imaginou que encontraria o lugar cheio de clientes. Muito menos que seria
recebido com uma pergunta como aquela. Todos os rostos do ambiente viraram-se para encará-
lo, e vários já eram bem familiares. Menos o da mulher de cabelos grisalhos e olhos azuis que
acabara de falar.
Ele não sabia ao certo como reagir. Por isso achou melhor apresentar-se sem rodeios.
— Deve estar me confundindo com outra pessoa, madame. Não creio que nos
conheçamos — disse com casualidade. — Sou Luke Hansson.
— Então é você mesmo. O malvado que está tentando tirar meu bebê de mim.
— Como?
Enquanto Lucas tentava descobrir sobre o que a mulher falava, ela apressou-se em sorrir.
— Sou Louise Cartelli. A mãe de Sebastian.
Como se fosse um ator esperando pela deixa, o felino saltou nas pernas do príncipe e
ronronou. A mulher riu, divertida.
— Vejo que estão se dando muito bem.
— Prazer em conhecê-la — Lucas disse, estendendo a mão. — E sinto muito sobre
sua irmã.
Uma sombra nublou os claros e límpidos olhos azuis da mulher.
— Ah... Bem, todos nós sofremos nossas perdas, e só podemos confiar na vontade de
Deus. Mas, de certa forma, sinto-me afortunada por ter vizinhos e amigos tão gentis, meu jovem
— Louise afirmou com renovada dose de ânimo. — Foram eles que me contaram que Sebastian
não é o único nessa cidade que quer... ah, pular no seu colo.
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As mulheres riram, ao mesmo tempo em que Lucas lançava um apelo para Annah, com
um olhar exasperado.
— Olá, Luke — ela murmurou amistosamente, querendo tranquilizá-lo. — Vou levar
alguns minutos antes de poder fazer a mudança dos armários. Incomoda-se em esperar um
pouco?
— Sem problemas — ele disse. — Vou estar lá fora. Chame quando quiser.
— Ora, não seja tolo, rapaz. Está muito frio lá fora — a sra. Cartelli interveio.
— O frio não me incomoda — Lucas replicou. Aliás, não havia motivo no mundo
que o fizesse enfrentar aquelas mulheres por mais tempo. Preferia uma nevasca.
— Deve ter muito... calor, não é mesmo? — uma das mulheres comentou. Era a sra.
Fields, a zombeteira vizinha do lado. Em seguida ela passou a dirigir-se à sra. Cartelli: — Mas
nenhuma das cinco moças parece se importar, Louise. Claro que devem estar pensando em coisas
como anéis de noivado e vestidos brancos... Conheço todas há muitos anos. Garotas excelentes,
aliás. Qualquer uma delas daria uma esposa perfeita, posso apostar.
— Vou lembrar disso quando estiver procurando por uma esposa — o príncipe
respondeu, usando um tom moderado e frio. — Mas, por enquanto, todas são apenas minhas
amigas. — Ele esperava que aquela clássica desculpa finalmente encerrasse a discussão.
— Era isso que você pensava, não era, Lynn?
— Pode apostar — uma cliente, em estado avançado de gravidez, confirmou com
um sorriso.
— Eu também — acrescentou uma mulher que escolhia blusas de lã para os dois
garotos que a puxavam pelas pernas.
— Annah provavelmente já deve estar tentando "encaminhá-lo" — a sra. Cartelli
insinuou. — O faro dela nesse tipo de assunto já está se tornando famoso por aqui.
Lucas decidiu que era hora de fazer uma pergunta:
— Quer dizer que Annah nunca esteve errada? Nunca mesmo?
— Pelo menos não que eu saiba — a mulher declarou. — E acredite, ela já teve
muitas chances de falhar. Todo mundo a consulta quando se trata de assuntos amorosos. Você vai
fazer o mesmo, se usar seu cérebro.
— No momento é dos músculos dele que eu preciso — Annah interveio.
— Bem, acho melhor voltar para casa agora — a sra. Cartelli decidiu. — Obrigado
aos dois por cuidarem do meu bebê.
— Não por isso — Annah respondeu. — A maior parte do trabalho ficou por conta
de Luke.
No colo da dona, o pequeno felino parecia ouvir a conversa com atenção, pois escolheu
justamente aquele momento de despedida para ronronar afavelmente.

Quando voltou, mais tarde, o príncipe não encontrou animal algum para saudar sua
chegada. Tinha que admitir que, no fundo, sentiria falta do bichano. Por mais estranho que
pudesse parecer, era como se tivesse perdido alguém muito próximo.
Annah também não estava em casa naquela noite. Tinha comparecido a um jantar da
associação comercial, mas mesmo assim deixara alguns sanduíches preparados sobre a mesa.
Rosbife, ele notou com um sorriso. A atenção constante de sua anfitriã era mesmo uma
coisa notável.
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 38

De qualquer forma, a casa parecia vazia demais. Por isso, Lucas decidiu sair outra vez
para dar um passeio de carro. Dirigiu por cerca de duas horas, mas não parou em lugar algum em
especial, retornando em seguida para a casa de Annah.
Ela já chegara, e ainda estava acordada.
— Olá — saudou-o enquanto vinha da cafeteria. — Acabei de preparar tudo para o
café de amanhã. Onde estava?
— Dirigindo.
— Com fome?
Lucas não devia estar com fome, pois comera dois sanduíches antes de sair pela segunda
vez, mas Annah parecia capaz de ler sua mente. Ela sempre fazia aquilo, e o príncipe achava
muito... agradável. Adorava ser alimentado por ela. A verdade era que a comida era tão deliciosa
que o convite de um dos frequentadores da cafeteria para jogar hóquei duas vezes por semana
vinha bem a calhar. Precisava de exercício, caso contrário poderia engordar muito.
— Acho que estou faminto, sim. O que você tem em mente?
— Gostaria de tomar uma caneca de chocolate quente com biscoitos para terminar a
noite em alto estilo — ela sugeriu, sorrindo.
— Como estão indo as coisas? — ela perguntou suavemente, depois que se
acomodaram nas poltronas da sala.
Lucas sabia sobre o que Annah falava, apesar da abordagem indireta. Num gesto franco,
baixou a caneca de chocolate e colocou-a na mesa.
— Não sei — respondeu em voz baixa. — Realmente não saberia ao certo definir
como me sinto em relação a todas elas.
— Todas elas?
O príncipe encolheu os ombros.
— Não existem grandes diferenças. Todas são ótimas, e, apesar de viver num lugar
pequeno como esse, certamente desempenhariam muito bem as funções oficiais com as quais
minha futura mulher terá que lidar. Além disso, todas parecem adorar crianças com a mesma
paixão. Bem... quero dizer, claro que ainda não sabem a verdade, o que torna o assunto mais
delicado.
— Sim, é verdade — Annah concordou num sussurro.
— O que quero dizer é que não posso tocar num assunto como esse com alguém
com quem estou saindo casualmente. O que me diz? As mulheres são mais abertas em relação a
esse tipo de coisa?
— A maioria — Annah respondeu sem pestanejar. — Pelo menos aquelas com quem
convivo. Como eu já disse, Shannon está desesperada para ter um bebê. E Marilyn comentou que
preferia ter outros filhos agora, antes que as gêmeas fiquem mais velhas.
— E quanto às outras três? Todas me parecem bastante envolvidas com suas
carreiras.
— Posso apostar com segurança que qualquer uma delas desistiria de tudo num
segundo se tivesse a chance de se casar e constituir família.
"Aquelas mulheres. Mas não ela", Lucas pensou.
O que fazia Annah agir de forma diferente em relação a crianças? Levantou-se e
caminhou até a janela. Segundos depois ela o seguiu.
— Luke? Qual é o problema?
— O que podia estar errado? — o príncipe perguntou, num murmúrio, meneando a
cabeça e suspirando com desânimo. — Graças a você, minha situação mudou de forma
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 39

dramática nessas duas semanas. Antes eu não tinha quem escolher, e agora preciso me decidir
entre cinco mulheres... sabendo que cada uma seria uma excelente rainha.
— Mas... — Annah estimulou-o a prosseguir.
— Elas são apenas o que eu disse que queria.
— Mas...
— É como se nesse período eu descobrisse que está faltando alguma coisa — ele
admitiu, virando-se para encará-la.
— O quê?
— Não sei ao certo. Sinto que todas elas são compatíveis com minhas aspirações,
mas... — Lucas parou, arqueando as sobrancelhas.
Ela achava que compreendia, mesmo sem saber por quê. Compatibilidade não era o
bastante, embora fosse difícil admitir isso. Se houvesse algo mais entre Lucas e aquelas
mulheres, provavelmente já haveria algum sinal visível. Annah era muito sensível para perceber
esse tipo de coisa.
Por um instante, sentiu-se tentada a perguntar como se desenvolvia o lado físico com
cada uma delas, mas decididamente não sabia como abordar o assunto. Além disso, no fundo não
queria saber a resposta...
— Tem certeza de que está dando a cada uma delas uma chance razoável? —
perguntou simplesmente.
— O que quer dizer? — Lucas começou a tamborilar os dedos sobre o tampo da
mesa com nervosismo. — Saí com cada uma três vezes, não é verdade?
O súbito comportamento defensivo do príncipe era um sinal inequívoco de que as coisas
não iam muito bem.
— Eu apenas estava imaginando se você... Ora, é muito embaraçoso perguntar isso.
Ele ergueu a cabeça para encará-la.
— O quê?
— Se você... bem, teve algo com alguma delas...
— Annah! — Lucas arqueou as sobrancelhas. — Quer parar de falar por enigmas,
por favor?
— Certo. Deixe-me colocar as coisas de outra forma. Você teve algum contato físico
com elas?
A pergunta sem dúvida o chocou.
— Essa realmente é uma indagação muito íntima — ele murmurou, mudando
completamente de expressão.
— Eu lhe avisei que era um assunto difícil.
— E, na verdade, isso não é da conta de ninguém. Nem mesmo da sua. —
Especialmente da de Annah, o príncipe pensou.
— Não, realmente não é — ela concordou. — Eu apenas estava tentando ajudar.
Mas, se não quiser comentar sobre esse assunto, tudo bem.
— O que quero dizer é que não sou o tipo de homem que apressaria as coisas assim.
Além disso, penso em me casar com uma daquelas mulheres. Elas não são... fáceis, se é que me
entende.
O que Annah esperava? Que elas tirassem a roupa no primeiro encontro, como as
aventureiras que Lucas conhecera no passado?
— Está tudo bem. Entretanto, um sujeito comum já teria beijado pelo menos uma
delas depois de três encontros...
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 40

— Quem disse que não fiz isso? — Lucas disparou, encarando-a de forma fixa. As
insinuações de Annah tinham atingido seu ego. — Para ser franco, senhora casamenteira, já
beijei todas.
— E...?
— E nada. Levei-as para casa. Beijei-as. Disse boa-noite e parti. Um perfeito
cavalheiro.
Aquele era o problema, Annah pensou. Lucas estava se contendo. Como poderia
descobrir quem era a pessoa certa se não dava chance para que as coisas acontecessem?
— Talvez seja essa sua forma de agir que esteja atrapalhando tudo — ela sugeriu com
gentileza.
Daquela vez o príncipe foi atingido em cheio. Seu ego estava ferido demais para que
pensasse com clareza.
— É isso que acha? — perguntou, levantando-se e contornando a mesa como um felino.
— Bem, então vou mostrar a você...
Ergueu-a nos braços, puxando-a para si como um cavalheiro não faria. Num movimento
rápido e surpreendente, cobriu os lábios dela num beijo. Ignorando a menção de protesto que
Annah esboçou, encostou-a logo depois contra a parede e intensificou o ataque. Estranhamente,
a resistência inicial desapareceu por completo. Foi então que algo pareceu explodir no peito do
príncipe...
Annah, por sua vez, não pôde mais se controlar. Depois de esperar por tanto tempo, quis
mais. Passou os braços ao redor do pescoço do príncipe, saboreando o contato com o corpo forte
e másculo que a prendia contra a parede, admirada com o calor súbito que passara a sentir. Era
como se nunca tivesse beijado um homem, como se nunca tivesse sido beijada. E não fora
mesmo. Pelo menos não daquela forma.
Lucas a beijava como um pirata, um salteador que roubava um beijo sem pudor. Parecia
saber instintivamente como levá-la a níveis desconhecidos e perigosos de prazer...
Não com ela.
Colocando as mãos no peito musculoso, Annah tentou empurrá-lo para trás. O esforço
não surtiu efeito algum, mas mesmo assim o príncipe ergueu a cabeça instantes depois e deu um
passo para trás. As pernas dela tremiam. Tremiam! Jamais sentira nada que fosse, mesmo
remotamente, parecido com aquele beijo.
Foi necessário um exercício de autocontrole admirável para que Lucas recobrasse o
domínio sobre o próprio corpo, que naquele momento parecia transpirar eletricidade. O que
estava acontecendo com ele? Tudo começara apenas como um beijo, pois queria demonstrar a
Annah um ponto de vista. Entretanto, uma estranha reação química fora desencadeada de forma
avassaladora. Aquele beijo não se parecera nem um pouco com os cumprimentos platônicos que
compartilhara com as outras mulheres.
Sem dúvida a sensação de cumplicidade era causada pelo fato de os dois estarem vivendo
sob o mesmo teto. Ela permanecia o tempo todo ali, vestindo-se e despindo-se no quarto ao lado,
estendendo aquele corpo maravilhoso numa cama que ficava a poucos metros... Sim, Lucas já
pensara nela daquele jeito.
Tudo bem, estava sendo afetado pela presença extremamente feminina de Annah. Mas
que homem não sentiria o mesmo sob tais circunstâncias?
Respirando de forma entrecortada, o príncipe sabia que aquela era apenas parte da
explicação. No fundo, negava-se a admitir que a considerava muito atraente. Preferia acreditar
que aquele beijo acontecera apenas por causa de uma explosão de luxúria. Droga! Por que
sempre acabava se interessando pela mulher errada?
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 41

Notou que ela ainda o observava em silêncio, os lábios carnudos tremendo,


absolutamente fora de controle. Errado ou não, Lucas sentia vontade de abraçá-la ainda com
mais força. Mas precisava lembrar que desde o começo a própria Annah deixara bem claro que
não era a pessoa certa. Não importava a maneira como correspondera ao beijo, nem a explosão
que conseguira despertar no príncipe.
Então, o que ele podia fazer? A situação era embaraçosa ao extremo. Não havia motivo
algum para perguntar, naquele momento, se Annah achara o beijo... adequado. Ela já havia
respondido a isso pela própria reação. Também não via motivo para se desculpar, pois Annah
praticamente pedira por aquele beijo, além de participar ativamente dele.
Agora, estava tudo acabado. Como um cavalheiro, só podia fazer uma coisa, que vinha
repetindo nas últimas cinco noites:
— Bom sono — despediu-se. E então deixou-a sozinha.
Mas, depois de subir a escada de três em três degraus, teve que recorrer a um artifício que
não usara nas noites anteriores. Foi direto para o chuveiro, ignorando totalmente a torneira de
água quente ao tomar uma forte ducha.

Annah caminhava em círculos no interior da loja de roupas. Passou então os dedos entre
os cabelos, desarrumando o penteado que acabara de fazer. Por um instante sentiu-se tentada a
roer as unhas, mas felizmente deteve-se a tempo. O que havia de errado, afinal? Nunca estivera
tão nervosa. Era uma pessoa calma, serena, capaz de enfrentar qualquer situação da vida...
Atraída pelo próprio reflexo no espelho, porém, ela interrompeu os passos e examinou-se
detidamente.
"Mentirosa", a imagem parecia dizer.
Virou-se, disposta a arrumar nas prateleiras as novidades que haviam sido entregues no
dia anterior, mas, antes que se desse conta, estava caminhando em círculos outra vez, mais
nervosa do que nunca.
Não era culpa de Luke, fazia questão de repetir para si mesma. Mesmo sabendo que a
presença dele em sua casa praticamente destruíra sua tranquilidade.
Também não era culpa apenas do beijo da noite anterior, embora ele certamente tivesse
ajudado a acentuar o problema. Era óbvio que havia algo entre os dois, e negar aquilo seria
insanidade. O príncipe às vezes parecia demonstrar o mesmo, mas seu comportamento era tão...
arredio! E, para piorar as coisas, Annah precisava continuar suportando aquela situação por mais
algum tempo. Droga de homem! Se não podia tê-lo, queria pelo menos sua paz de espírito de
volta.
Além disso, os acontecimentos tinham-na feito rememorar fatos desagradáveis do
passado, coisas que ela sem dúvida preferia ter esquecido por completo. Principalmente um
velho sonho, que achava ter sepultado definitivamente...
Depois do divórcio, resignara-se a uma vida na qual as ideias de amor e família não
tinham mais lugar. Muitas vezes dissera a si mesma que não desejava mais aquilo. Mas agora
não acreditava mais nas próprias convicções. Ainda queria, mesmo que tudo lhe parecesse um
sonho impossível.
Seu comportamento arredio a afastara do príncipe desde o princípio, e Annah aceitara
aquilo com serenidade. Só não imaginava que a presença de Lucas naquela casa pudesse
preencher tantos vazios em seu íntimo... como se o príncipe fosse capaz de operar um verdadeiro
milagre. Era agradável cozinhar para Lucas, rir com ele, dançar com ele e esperar até o final da
noite para conversar sobre as últimas novidades. Annah passara a perceber uma sensação de
conforto adormecida havia muito tempo, e que se tornara ainda mais clara depois daquele beijo
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avassalador. Como fora fácil abandonar suas firmes convicções naquele momento! A
convivência íntima dos dois tornara tudo mais fácil, como se fossem realmente casados.
Uma ideia boa. Boa demais para ser verdadeira.
Caminhando até a janela, Annah observou uma cena que se desenrolava numa praça, a
cerca de cinquenta metros da casa. Lucas estava lá, participando de um jogo de basquete com os
adolescentes da vizinhança. Ela engoliu em seco. Aquilo era o pior de tudo. Apesar das
descrições dos encontros com as gêmeas de Marilyn e as crianças na escola de Joyce, jamais o
vira ao lado de crianças. O príncipe parecia tão espontâneo e feliz...
Certamente seria um pai admirável.
Exatamente por esse motivo, Annah devia resistir. Porque Lucas esperava muito de uma
mulher. Muito mais do que ela poderia lhe dar.

Quando ele voltou para casa, depois do jogo de basquete, Annah estava muito ocupada.
As tardes de sábado eram as mais movimentadas da semana.
Lucas foi até a cozinha e pegou leite na geladeira. Assim que acabou de servir-se, porém,
parou por um instante, admirando o copo, maravilhado. Em seu palácio jamais fizera uma coisa
prosaica como aquela, pois sempre havia alguém pronto para atendê-lo nos mínimos desejos...
Em seguida, com o copo na mão, caminhou pela casa devagar. Não a parte ocupada pelos
negócios, e sim os recantos mais íntimos. Não achava mais o ambiente pequeno. Agora, julgava-
o confortável. Era difícil passar pelas poltronas da sala de estar, onde tinham conversado tantas
noites, sem desejar sentar-se numa delas. As almofadas haviam sido costuradas por Annah, e
decoradas com caprichosos bordados feitos a mão. Não havia televisão naquele ambiente. Um
pequeno aparelho ficava no quarto dela, mas o príncipe jamais o ouvira ligado. A coleção de CDs
e livros, porém, era vasta e extremamente variada. Sobre uma pequena mesa de canto
repousavam as revistas de jardinagem que Annah adorava, além de um romance que ela
atualmente lia.
A assinatura da dona, aliás, podia ser notada em cada pequeno detalhe da casa. E o efeito
que aquilo provocava era o de fazer Lucas sentir-se em casa. Num lar, para ser mais preciso. E
essa sensação aumentava a cada dia.
Annah realmente era inacreditável. Capaz de cuidar de uma casa com perfeição,
administrava, além disso, dois negócios diferentes com uma competência surpreendente. Sem
contar os trabalhos voluntários que fazia para a comunidade, como coordenar o baile dos
bombeiros, ensinar na escola dominical da igreja e participar ativamente das reuniões da
associação comercial.
Como podia coordenar tudo? A vida plena e ocupada de Annah contrastava de forma
dramática com o tipo de existência à qual o príncipe fora acostumado desde os tempos de
criança. E, além disso, ela era muito diferente do exemplo feminino que sempre fora sua
referência.
Apesar de ter perdido a mãe muito cedo, lembrava-se dela como uma mulher superficial
e subserviente. Sabia que o pai casara-se apenas por dever, unindo-se à filha de uma importante
família do país para manter a unidade do reino. O casamento dos dois fora vazio e desprovido de
alegria, e Lucas sabia ter sido concebido apenas por obrigação. Afinal de contas, um rei
precisava dar um herdeiro a seu povo. O fato de o casal não ter outros filhos, portanto, não se
devia a qualquer acidente do destino. Sua mãe praticamente vivera enclausurada em seus
aposentos, numa ala independente do palácio, até morrer. Ele estudava num colégio interno na
época, e a perda não lhe provocara tanta dor, dada a distância que havia entre ambos.
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 43

Aprendera a respeitar o pai. O rei era realmente um homem de valor, capaz de fazer
qualquer sacrifício por seu povo. Lucas e ele eram muito próximos, e sua morte afetara o
príncipe de forma considerável.
O que seu pai lhe diria agora? O príncipe tinha a impressão de que o rei aprovaria o tipo
de casamento que ele procurava. Lucas não queria uma convivência fria e impessoal. Queria uma
mulher capaz de levar vida àquele palácio, transformando-o num verdadeiro lar, como a casa de
Annah.
E lá estava ele, pensando outra vez em Annah, apesar de ela nada ter a ver com seus
problemas. Subitamente lembrou-se da conversa na cafeteria, em que a ouvira confessar-se
divorciada... Não sabia como o casamento terminara, mas aparentemente Annah optara pelo
estilo de vida que levava e certamente sentia-se feliz assim.
E quanto às cinco mulheres com quem vinha saindo? Todas eram capazes de desenvolver
carreiras e cuidar muito bem da vida pessoal. As casas delas também tinham toques pessoais.
Mas, estranhamente, Lucas não se sentia à vontade naqueles ambientes.
Por um momento tentou imaginar como seria estar casado com alguém como Annah. E
não somente pela atmosfera agradável que o andar térreo da casa lhe transmitia. Depois daquele
beijo, aliás, o príncipe passara bastante tempo pensando em como seria estar no andar de cima...
na cama dela, mais especificamente.
Entretanto, a atração que Annah lhe despertava parecia um beco sem saída. Lucas já fora
vítima dos próprios instintos no passado, e não estava disposto a envolver-se com uma mulher
apenas por causa disso. Não precisava de paixão, e sim de uma rainha amorosa, gentil, que lhe
desse muitos filhos. Coisa que Annah deixara bem claro não desejar.
Justamente naquele instante, Lucas ouviu o choro de um bebê. Parecia vir da loja de
roupas. Colocou o copo vazio sobre o balcão da cozinha e decidiu ver o que acontecia.
Lentamente, sem fazer barulho, notou que a loja estava vazia. A não ser pela própria Annah e o
bebê que carregava no colo.
— Mamãe volta logo, amor — ela sussurrava ao ouvido da criança, embalando-a com
uma graça indescritível. — Ela só esqueceu sua mamadeira no carro... mas vou cuidar de você
direitinho...
A presença do príncipe, que sentiu uma profunda onda de ternura ao ver aquela cena,
teria passado despercebida se ele não tivesse esbarrado levemente numa das cadeiras do
corredor. Annah ergueu a cabeça de imediato, encarando-o como se tivesse sido surpreendida
fazendo algo errado. Mas a troca de olhares durou poucos segundos. Logo depois Lucas voltou a
fechar a porta, sem dizer uma palavra. Em seu rosto, porém, havia uma expressão pensativa e
compenetrada.

CAPÍTULO VII

Nos dias seguintes, Lucas quase não teve oportunidade de ver Annah, embora não
conseguisse tirá-la da cabeça. Era como uma forma de tortura lenta e cruel, que não parava, a
despeito de seus esforços.
A nova série de encontros com as candidatas pareceu passar com mais lentidão do que o
normal. Por isso, ele se sentiu muito ansioso quando voltou do jogo de hóquei na noite de quarta-
feira.
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 44

Ao ouvir a porta se abrindo, Annah virou-se, sem parar de mexer a sopa de tomate que
preparava para o jantar. Estivera mantendo distância do príncipe, tanto física quanto
emocionalmente, depois daquele beijo. Mas ao olhar o rosto de Lucas, branco como giz,
esqueceu tudo e avançou de imediato na direção dele.
— O que houve? Você parece péssimo!
— Obrigado. — Ele tentou ensaiar um sorriso, mas falhou.
— Machucou-se no jogo?
— Não — Lucas respondeu, desabando sobre uma cadeira. — Apenas sinto-me
péssimo.
Num impulso, Annah levou-lhe a mão à testa.
— Parece que está com febre — comentou, preocupada. — Vou chamar um médico.
— Não — ele ordenou, com uma autoridade que a fez lembrar que estava diante do
governante de uma nação. — Só preciso repousar um pouco. Vou já para a cama.
Levantando-se de um salto, o príncipe fez menção de caminhar para o corredor, mas teve
que parar a fim de apoiar-se na mesa, com dificuldades em manter o equilíbrio.
— Quer que eu leve um pouco de sopa até seu quarto? — Annah perguntou ao vê-lo
afastar-se para a escada.
Ele meneou a cabeça negativamente.
Sua recusa por um de seus pratos prediletos só poderia ter um significado: estava doente!
E isso a deixou em pânico. Sem pensar duas vezes, ligou para Shannon, que estava à sua porta
depois de dez minutos.
Annah conduziu a visitante até o quarto de Lucas, que aparentemente não ficou nem um
pouco satisfeito.
— Talvez seja melhor eu sair — ela declarou, dirigindo-se à porta com ar consternado.
Alguns minutos depois, Shannon chamou-a de volta.
— Acabei de dizer a Luke que ele deve ter se contaminado com o vírus da gripe que anda
assolando nossa ilha — a enfermeira informou. — Sabe como cuidar disso, Annah. Basta que ele
permaneça em repouso e que tome muito líquido. — Virou-se para o príncipe. — Estou
colocando-o sob os cuidados de Annah, e posso garantir que você não podia estar em melhores
mãos. Ela é uma enfermeira em potencial, como já tive oportunidade de ver na sala de parto.
Lucas tentava acompanhar a conversa, mas sua cabeça latejava.
— Mas bebês... — ele murmurou, lutando contra as pontadas de dor — ...não
combinam com An... — parou, incapaz de coordenar os próprios pensamentos.
— Sabe a respeito do que ele está falando? — A enfermeira dirigiu-se a Annah.
— Shannon apenas quis dizer que eu ajudei no parto de Drew, quando Lexi nasceu
— ela apressou-se em informar, falando com Lucas.
— Lexi? Está falando sobre a filha de Whit?
— Sim.
— É uma menina adorável. Whit é mesmo um sujeito de sorte.
— Como Luke pode conhecer o príncipe Whit? — Shannon perguntou com
curiosidade.
— Ahn... na verdade eles se falaram ao telefone, quando Drew me ligou na semana
passada — Annah improvisou rapidamente, apressando-se em retirar a visitante do quarto.
— Pareceu-me que os dois eram muito... bem, íntimos.
Annah encolheu os ombros.
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 45

— Homens, você sabe como eles são — murmurou.


A explicação pareceu satisfazer Shannon, que partiria minutos depois. Mas, antes de fazê-
lo, ela ainda teve tempo de confidenciar uma coisa:
— Não sei se Luke já lhe contou, mas nós não estamos mais nos vendo.
— Não estão? — Aquilo era uma novidade surpreendente. — Mas por quê?
Shannon sorriu, meio sem jeito.
— Apenas não deu certo. Acredito que existe a pessoa certa para cada um de nós. E eu já
encontrei a minha no passado...
"E perdeu um verdadeiro príncipe", Annah pensou. Entretanto, admitia o direito que
Shannon tinha de tomar as próprias decisões.
— E, depois dessa noite, tenho a impressão de que a mesma coisa já aconteceu com ele...

Annah preparou uma bandeja e levou-a até o andar superior. Em princípio pensou que
Lucas estivesse dormindo, mas ele abriu os olhos assim que a sentiu aproximar-se da cama.
— Eu lhe trouxe algumas coisas de que pode precisar durante a noite. Um
medicamento para ajudar sua febre a baixar, suco, água... ah, e uma toalha limpa. Em que mais
posso ajudá-lo?
— Em nada, está tudo ótimo. — Ele ainda se sentia agitado, mas era mesmo melhor
seguir as recomendações da enfermeira e permanecer em repouso. — Shannon ainda está lá
embaixo?
— Não. Ela me encarregou de cuidar de você.
Uma lembrança veio à mente do príncipe.
— Eu quase estraguei tudo, não foi?
— Por falar sobre Whit? É verdade... — Annah sentou-se numa cadeira ao lado da
cama. — Mas não se preocupe com Shannon. Não é o tipo de mulher que gosta de espalhar
boatos. Não faria isso mesmo que desconfiasse de algo.
— Nós decidimos não nos ver mais.
— Ela me contou.
— Como sempre, você estava certa — Lucas continuou calmamente. Era
reconfortante ter a companhia dela naquela situação. — Não pude competir com o homem que
Shannon teve no passado.
— Não leve as coisas para o lado pessoal.
— Bobagem. Sei que todos nós temos algum tipo de fantasma...
Outra mulher teria perguntado sobre o passado dele, mas não Annah. Lucas adorava essa
característica discreta de sua anfitriã. Quase fazia-o desejar contar tudo.
— Suponho que isso seja verdade — foi tudo o que ela disse. E, então,
simplesmente levantou-se.
— Não vá.
— Prefiro não incomodá-lo, já que não posso fazer mais nada para ajudá-lo.
— Fique e converse comigo. Ninguém fez isso por mim antes.
— Nem mesmo quando ficou doente, na infância?
— Oh, sempre colocavam uma enfermeira profissional do lado de fora da porta, e
meu pai ia me ver quando seus deveres permitiam.
— E quanto à sua mãe?
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— Especialmente minha mãe. Ela não tinha muito jeito com crianças. — A
revelação dolorosa foi pronunciada num impulso, porém Lucas já não se importava. — Mas você
não é assim. Está aqui comigo.
Annah mal ouviu as últimas palavras. Perdida em pensamentos, quase podia ver um
garoto sensível crescendo num palácio cheio de riqueza e vazio de amor. Não era de admirar que
Lucas fizesse tanta questão de encontrar uma mãe carinhosa para seus filhos!
Inclinou-se sobre a cama com delicadeza, tocando-o levemente no rosto.
— Você vai conseguir — disse de forma determinada. — Vai encontrar uma boa
mulher, que irá amá-lo muito, e a seus filhos.
— Não sei. Parece que as coisas ficam cada vez mais difíceis. Todas as que conheci
parecem excelentes, mas... — Naquele instante, ele ergueu o braço e segurou-a pela mão
afetuosamente.
O toque do príncipe foi o bastante para fazer o coração de Annah disparar.
— Não consegue parar de pensar em suas exigências, não é? Pare com isso!
Certamente deve haver outra maneira de diferenciar as candidatas.
— Dê um exemplo. — Lucas queria fazê-la falar apenas para ouvir o som doce e
macio da voz feminina.
— Confie em seus instintos. Com certeza eles vão indicar a direção certa.
— Acho que não.
— Como pode saber? Você parece nunca se entregar à paixão.
— Já fiz isso e me arrependi. — A afirmação foi dura e inflexível, mas o rosto do
príncipe manteve-se sereno.
A surpresa era evidente no tom de voz de Annah:
— Já esteve apaixonado? Quando?
— Muito tempo atrás. Quando eu era jovem e inexperiente demais.
— E o que aconteceu?
Ele tentou encolher os ombros, mas o movimento fez sua cabeça doer. Fechando os
olhos, portanto, o príncipe voltou a se acomodar.
— Ela não correspondeu a meus sentimentos.
— Por acaso a moça lhe disse isso?
O príncipe adorou a forma indignada como Annah pronunciou aquelas palavras.
— Não, descobri sozinho. Por acidente, claro.
— O que aconteceu?
— Ela simplesmente me devolveu o anel.
— Anel? Quer dizer que você estava noivo?
— Não publicamente. O rompimento foi apenas algumas horas antes do anúncio
oficial.
Annah murmurou algo incompreensível, provocando a curiosidade do príncipe. Lucas
estava quase a ponto de pedir-lhe que repetisse quando ela perguntou:
— E então?
— Então... nada. — Nada, a não ser uma montanha de dor e ressentimento. E desde
então Lucas seguira firmemente a decisão de nunca mais deixar aquilo acontecer. — Acho que
agora pode entender por que não sou um grande fã desse tipo de paixão.
Soltou a mão de Annah e fechou os olhos. Ela o estudou em silêncio, admirando os traços
fortes e másculos. Gradualmente, a respiração de Lucas foi se tornando mais e mais pesada, até
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que ele finalmente adormeceu. Quando teve certeza de que o príncipe realmente dormia, ela
estendeu a mão e acariciou-o levemente na testa, sussurrando:
— Não desista do amor. Dê-se mais uma chance. Tenho certeza de que não vai se
arrepender. E assim que as coisas funcionam... querido.
A última palavra saiu quase sem querer, como se expressasse um sentimento
incontrolável. Annah levantou-se devagar, caminhando até a porta, e virou-se para olhar a cama
pela última vez. Quando fez isso, pensou ter notado um pequeno movimento nas pálpebras de
Lucas, mas, depois de esperar por mais alguns momentos, acabou concluindo que devia estar
enganada. E assim deixou-o, dormindo com a tranquilidade de um anjo.

Annah não soube ao certo o que a despertou, mas no meio da noite sentou-se de um salto
na cama, com o coração disparado. No instante seguinte, lembrou-se de Lucas e correu para o
quarto ao lado, sem reparar que usava apenas camisola.
Ele estava acordado, com a respiração arfante e, à luz do luar que se espalhava pelo
quarto, seus olhos brilhantes fixaram-se nela de forma quase sobrenatural. Sem saber ao certo o
que fazer, Annah estendeu-lhe um copo de água.
— Quer? — balbuciou a pergunta.
Lucas apanhou o copo e colocou-o no criado-mudo. Depois voltou a estender o braço.
— Quero você — respondeu de maneira sucinta, puxando-a para a cama.
Não houve resistência. No íntimo, Annah sentia-se orgulhosa por saber que nos
momentos de dificuldade podia estar ao lado dele.
O príncipe puxou-a para junto de si, abraçando-a com firmeza, e ela não resistiu. Seu
corpo encaixou-se ao dele perfeitamente. Fazia tanto tempo que não dividia a cama com um
homem...
E Lucas era lindo. Fazia com que se sentisse protegida. A salvo do mundo real, e da
constatação óbvia de que jamais seria esposa daquele homem maravilhoso. Mas ao menos podia
sonhar com isso aquela noite, não podia?

Lucas abriu os olhos, envolto pela penumbra. Instintivamente, apalpou os dois lados da
cama, constatando que estavam vazios. Mais uma vez sozinho.
Mas não fora assim por toda a noite, ele sabia. Havia um anjo a seu lado. Seu perfume
ainda podia ser notado no ar.
Annah dormira em seus braços. Ao senti-la aninhada junto a seu peito, o príncipe
recuperara subitamente uma esperança abandonada havia muito tempo. Agora, todo o seu corpo
parecia tomado por uma onda luxuriante de felicidade. Espreguiçando-se, percebeu que a cabeça
não doía mais. O anjo da guarda havia cuidado dele durante a noite, e o curara. Estava muito
melhor. Tudo estava muito melhor. Sossegado, voltou a dormir.
Horas mais tarde acordou outra vez, mas dessa vez por causa do aroma das torradas
quentes que estavam ao lado da cama. O bilhete que Annah deixara na bandeja dizia
simplesmente:

Imaginei que você acordaria faminto.


BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 48

E, como sempre, ela estava certa. O príncipe sentou-se e comeu tudo, bebendo o chá de
hortelã com limão preparado especialmente para revigorá-lo.
Ao terminar, colocou a bandeja de lado e esticou as pernas fora da cama, para
experimentar as próprias forças. Instantes depois estava em pé, embora ainda tremesse um
pouco. Entretanto, foi o bastante para que se animasse a tomar uma ducha.
O banho foi bom, morno e revigorante. Lucas permaneceu bastante tempo sob o jato
d'água, sentindo o corpo cada vez melhor. E, durante todo o tempo, só conseguia pensar numa
coisa. Os sinais ocasionados por sua doença tinham sido muito claros:
"Você a encontrou, Lucas! Ela é exatamente a mulher pela qual esperou todos esses anos.
E ela mesma!"
Porém, depois que o banho acabou, enquanto se secava e vestia a roupa, seu raciocínio
frio voltou a dominá-lo.
"Será que você ficou louco? O passado já provou que não deve confiar nos sentimentos.
Além disso, já ouviu a própria Annah dizer que não era a pessoa mais indicada. Escute, seu tolo!
Use a cabeça e escolha outra mulher."
Emoção e razão continuaram brigando o resto do dia. O príncipe permaneceu quase o
tempo inteiro numa das agradáveis poltronas da sala, ouvindo a magnífica música de Mozart.
Novamente, tinha toda a casa para si. Annah saíra para ajudar nos preparativos do grande jantar
anual de Ação de Graças. Bem, aparentemente ela sempre estava onde precisavam de ajuda.
Lucas cancelara os planos de passar o feriado com Marilyn, na casa dos pais dela,
alegando não querer transmitir a doença para as gêmeas. Na verdade, sentia-se aliviado por ter
um motivo para não ir. Depois do que acontecera com Annah, não sabia ao certo se poderia dar
atenção a outra mulher. Sua única certeza era de que o prazo fatal para encontrar uma rainha
esgotava-se rapidamente. Faltavam apenas duas semanas para o baile dos bombeiros, o limite
que impusera a si mesmo.
O trabalho devia ajudá-lo a relaxar, pensando em outros assuntos, mas entre os papéis ele
encontrou um cronograma detalhado com os planos do casamento. Obviamente, por causa do
escasso tempo, os arranjos já haviam sido feitos. Tudo estava pronto nas ilhas Constellation, do
planejamento de cada item do menu até as alianças, que seriam feitas especialmente pelo
principal ourives do país, famoso pela qualidade de sua joalheria. Tudo estava pronto... a não ser
pelo pequeno detalhe de ainda não existir noiva alguma.
Ele colocou a lista de lado, concentrando a atenção em outros documentos oficiais que
exigiam sua aprovação. Mas, ao contrário do que pensava, o trabalho não ajudou muito. Sua
mente funcionava sem parar, incapaz de deixar de lado uma única preocupação. Uma
preocupação que respondia pelo nome de Annah Lane.

Quando ela voltou, os dois alimentaram-se com uma frugal sopa de batatas. Durante a
refeição, Annah contou as novidades sobre o grande jantar da cidade. Enquanto a ouvia, Lucas
tentou não olhar fixamente para seus brilhantes olhos, da mesma forma como lutou para não ser
encantado pela música da suave voz de soprano, ou enfeitiçado pelo poder daquele lindo sorriso.
Depois do jantar, ele voltou a sentar-se ao lado da lareira, e Annah tomou a poltrona que
ficava bem defronte. Levara a caixa de costura, algumas roupas para cerzir, e passou a trabalhar
com concentração. Mais uma vez o príncipe apanhou os documentos governamentais, embora
soubesse ser um esforço inútil. Seus olhos não conseguiam fixar-se nas páginas. Acabou
desistindo, virando-se para admirar o fogo nas achas de lenha.
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Annah observou tudo com o canto do olho. Tentava imaginar se ele se lembrava do que
acontecera na noite anterior. Provavelmente não, acabou concluindo. Talvez tivesse delirado um
pouco por causa da febre, já que se comportara normalmente durante todo o jantar.
Mas, para ser franca, o príncipe parecia mais quieto naquela noite.
"Bobagem, garota, esqueça isso!", disse a si mesma.
Intimamente, porém, sabia que jamais esqueceria. Da mesma forma como era impossível
esquecer o beijo com que Lucas a surpreendera no sábado.
O som potente da voz do príncipe a trouxe à realidade:
— Para quem está costurando essas roupas?
Só naquele momento Annah lembrou-se das peças que repousavam sobre seu colo,
totalmente esquecidas.
— Ah... são para Kiria, uma garotinha de nove anos que eu adotei informalmente.
— Informalmente?
— Sim. Segundo as leis da ilha Anders, uma pessoa solteira não pode adotar
crianças, mas mesmo assim podemos ajudar a cuidar delas dentro do orfanato.
— Você a conhece?
— Não. Isso não é permitido para que não existam laços entre as crianças e os
voluntários. Tudo o que sei é seu nome, idade e tamanho. Todos os dados são fornecidos pela
instituição. Ah, quase me esqueci, eles me mandaram isso. — Annah estendeu o braço e entregou
um pedaço de papel a Lucas.
Era uma lista, escrita com uma caligrafia feminina e infantil.
Uma boneca, um suéter bem quente, um vestido bonito, uma bola de futebol, um diário.
Os olhos de Lucas fixaram-se nos dela.
— Você vai dar tudo isso para a menina?
— Claro. E muito mais. Você quer ver?
Num dos cantos da sala de jantar havia uma cesta de piquenique. Annah ergueu a tampa e
foi tirando os itens, enfileirando-os sobre a mesa. Contou onde tinha comprado cada coisa, e
como a escolhera.
— Essa boneca é muito popular entre as meninas, hoje em dia.
Lucas reparara que as gêmeas de Marilyn possuíam brinque dos iguais, mas lembrou-se
de que elas tinham apenas seis anos.
— Não pensei que meninas de nove anos ainda brincassem com bonecas...
— Sinto-me um pouco melhor ao saber disso. Você não? — Annah perguntou com
um suspiro. — Pena que não pude comprar todo o conjunto de vestidinhos que acompanha a
bonequinha. Infelizmente meu parco orçamento impediu.
— E o que é tudo aquilo? — Lucas perguntou, apontando para o que lhe parecia uma
série de vestidos em miniatura.
— Ah... Eu mesma fiz aqueles. Espero que Kiria goste.
— Eu gostei.
Ela riu.
— Mesmo?
— Estou sendo franco. Acho que os vestidos ficaram esplêndidos!
— Não me dê tanto crédito. Senti prazer em fazê-los. Eu adoro o Natal, e como não
tenho filhos...
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O príncipe parou de ouvi-la naquele instante, concentrando-se unicamente no brilho que


vira passar pelos olhos castanhos. O que o fez lembrar um importante ponto de vista: quem disse
que uma mulher como Annah não podia mudar de ideia a respeito de ter filhos?
O pensamento o fez encarar, de maneira abrupta, a única possibilidade que teria de casar-
se com ela. E era uma possibilidade extremamente excitante.

CAPÍTULO VIII

Annah sempre fazia uma grande liquidação depois do feriado de Ação de Graças. Por
isso, já era tarde quando fechou a loja, na noite de sexta-feira. Ficou surpresa por encontrar
Lucas na casa.
— Pensei que tivesse um encontro hoje.
— Eu cancelei.
— Não está doente de novo, está?
Ele parecia bem, e naquela manhã chegara a dizer que se sentia cem por cento melhor.
Por isso mesmo Annah não conseguia entender qual o motivo do cancelamento.
— Estou ótimo. Apenas queria ficar em casa... e conversar com você.
Aparentemente o príncipe precisava de algum conselho. Bem, ela faria o melhor possível.
Depois de ficar sabendo sobre o noivado fracassado de Lucas, sentia-se mais determinada do que
nunca a ajudá-lo.
Depois do jantar, os dois foram para a sala de estar, iluminada apenas pelo fogo da
lareira, acesa por Lucas horas antes. Sentaram-se nos lugares costumeiros, encarando-se
diretamente. Annah esperou em silêncio. Afinal de contas, era o príncipe que desejava lhe falar.
E ele começou de forma abrupta:
— Como você sabe quando um homem e uma mulher foram feitos um para o outro?
Espantada, ela não respondeu de imediato. Para perguntar aquilo, Lucas devia estar
bastante interessado numa das quatro candidatas restantes. E Annah não estava preparada para
isso, principalmente depois de ter dormido nos braços dele. Engolindo em seco, disse a si mesma
que devia estar feliz. Tentou imaginar quem fora a escolhida, pois o príncipe jamais dera uma
pista a respeito de suas preferências.
Mais uma vez, porém, foi ele quem quebrou o silêncio:
— Estou me referindo ao misterioso dom que todos na cidade dizem que você tem...
aquele que a faz perceber quando realmente existe amor entre duas pessoas. — O tom da frase
foi tão sério que a fez sorrir.
— O que quer saber? Não existe nada de misterioso. Apenas presto atenção.
Qualquer pessoa com sensibilidade pode fazer o mesmo.
O príncipe considerou aquelas palavras por um longo momento.
— Quero descobrir se estou conseguindo "enxergar" direito, mas não sei por onde
começar. Quais são os sinais? O que devo procurar?
Ela mordiscou o lábio inferior, pensativa.
— Não é uma coisa tão visível. É mais uma intuição... um palpite. Geralmente, é possível
notar quando existe uma energia especial entre duas pessoas. — Ela fez uma pausa, arqueando as
sobrancelhas. — Isso faz sentido para você?
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O príncipe inclinou-se para frente, apoiando o queixo nas mãos cruzadas.


— Para ser franco... não — admitiu.
Annah então olhou para o fogo, tentando encontrar outra forma de explicar o conceito.
Um dos gravetos crepitou, soltando uma faísca que lhe forneceu inspiração imediata.
— O amor é como o fogo — disse sem pensar. Lucas dirigiu-lhe um olhar de dúvida.
— É verdade! Deixe-me tentar explicar. Você sabe muito bem como acender o fogo. Em
primeiro lugar, precisa fazer um pequeno graveto queimar, não é?
— Sim — ele murmurou, desconfiado. — Mas eu não vejo como...
— No amor, a fagulha inicial é a atração. E ela continua a agir, mesmo depois que o
fogo já está aceso. Pode-se chamar isso de "parte física" do relacionamento.
— Entendi — Lucas disse. Muitos homens eram capazes de perceber essa "fagulha",
e o príncipe era um deles.
— E quando o fogo fica assentado, as chamas tornam-se mais estáveis — Annah
continuou. — E, no amor, pode-se dizer que isso se chama "compatibilidade".
— É isso que eu vejo entre Erik e Julie? E entre Whit e Drew?
— Pode-se dizer que sim. É essa característica do amor que mantém as pessoas unidas.
Se ela existir, então o fogo será permanente, e poderá aquecer qualquer lar. Tudo o que estiver
em volta das duas pessoas envolvidas, principalmente os filhos... se existirem, claro... irão
alimentar-se desse compromisso, dessa sensação de companheirismo e segurança. Penso que
essa é parte mais importante no lado emocional de um relacionamento.
Ele fez menção de aproximar-se.
— Descobri que...
— Sei que é por essa compatibilidade que você vem procurando — ela disse,
interrompendo-o por sentir que não estava pronta para ouvir quem o príncipe escolhera. — Mas
ainda não terminei. Existe outro componente do amor... o mais importante de todos. Mas
também é o mais difícil de definir.
— E o que é?
— Acontece quando o fogo queima em labaredas altas e brilhantes. O ardor da
paixão.
— Não creio que tenha entendido. A paixão não é como aquela fagulha inicial? —
Lucas perguntou.
— É e não é. Também é uma coisa física, só que muito mais intensa. Mais profunda.
Penso nisso como algo associado ao espírito, e sem dúvida é o aspecto mais perseguido no amor.
Muitas pessoas contentam-se com um sentimento que abarca apenas as duas primeiras
características, e nunca chegam a descobrir o que estão perdendo. — Annah tomou-o pela mão e
encarou-o fixamente. — O amor verdadeiro é uma mistura das três coisas, às vezes uma fagulha,
às vezes uma chama estável e às vezes um mar de labaredas flamejantes. Você me entendeu
agora?
Ele imaginava que sim. Experimentara a primeira característica, a da atração física, em
relação a Annah. Aquele beijo trocado uma semana antes era uma prova inequívoca, sem
mencionar as centenas de vezes que contivera o desejo de voltar a beijá-la depois.
E sentia que ambos eram compatíveis. De alguma maneira, o companheirismo pouco a
pouco transformara-se em algo maior do que uma simples amizade. Lucas sentia que podia dizer
tudo a ela. Os dois encaixavam-se perfeitamente nesse aspecto, e algumas vezes até mesmo
pareciam capazes de ler os pensamentos um do outro.
Quando a ouvira falar sobre paixão, compreendera tudo. Sentira aquilo duas noites
atrás... uma poderosa sensação de bem-estar, felicidade, como se seus instintos quisessem lhe
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passar uma importante informação. E era exatamente isso que estava acontecendo naquele
momento.
Mas e se os sentimentos estivessem lhe pregando uma peça novamente? Aquilo podia
parecer amor, mas ele ainda precisava de uma confirmação. Subitamente lembrou-se de algo que
Annah lhe dissera na noite de quarta-feira, imaginando que ele dormia: "Dê-se uma chance..."
— Ouça — começou, hesitante. — O verdadeiro amor é mútuo, certo?
— Por definição. Se não for, então não se trata de amor. Para que isso aconteça, as
pessoas não podem se enganar. — Ela sorriu tristemente. — Como você disse que lhe aconteceu
no passado.
Será que Lucas estava deixando aquilo acontecer de novo? Esperava que não.
— E como se pode saber ao certo?
— Apenas confie em seus instintos. Seu coração nunca o trairá, se o escutar com
carinho.
— Deixe-me ver se compreendi — o príncipe murmurou. Se ia percorrer aquele
caminho, era melhor avançar passo a passo. — Digamos que eu conheça a mulher.
O coração dela começou a acelerar. Annah tentou lembrar que estava ali para ajudar
Lucas, e que devia esforçar-se apenas em ouvir o que ele tinha a dizer, sem deixar seus próprios
sentimentos interferirem. Sem se importar com o calor que o toque daquela mão forte lhe
transmitia.
— Bem, em primeiro lugar, deixe-me dizer que existem muitas "fagulhas" entre nós —
ele continuou. — Nenhum dos dois pode negar isso. Nossa atração física é mútua... e intensa.
Não querendo imaginá-lo com outra mulher, Annah fantasiou que era dela que Lucas
falava. Do vendaval de sensações que aquele beijo provocara. Não havia dúvida... entre eles
também existia muita atração física.
O príncipe continuou:
— Além disso, tivemos tempo suficiente para notar que existe compatibilidade. Passamos
muito tempo juntos e eu sei que ela sente prazer em estar a meu lado. Nem preciso dizer que
sinto o mesmo. Algumas vezes chego a pensar que essa mulher pode ler minha mente, e em
certas ocasiões também acho que posso adivinhar em que ela está pensando...
Annah pensou no olhar compreensivo que o príncipe sempre lhe lançava. Tentava
imaginar se ele poderia ler o que lhe passava pela mente naquele exato momento.
— Nós nos tornamos grandes companheiros desde o início, e na casa dela sinto-me num
verdadeiro lar. Isso é compatibilidade, certo? A segunda característica da qual você esteve
falando.
Lucas a encarava, sem desviar os olhos penetrantes. Será que falava nela? Nos dois?
— Não é verdade? — ele perguntou outra vez, suavemente. Prendendo a respiração.
Annah assentiu com um gesto de cabeça. Ainda segurando-a pela mão, o príncipe
inclinou-se para frente e colocou-lhe o outro braço ao redor dos ombros trêmulos.
— A terceira parte é a mais complicada, como você disse. É paixão, mas num sentido
mais amplo. É um sentimento intenso, profundo e espiritual. — Fez uma pausa e sua voz baixou
ao nível de um sussurro. — Sei o que quis dizer, porque acho... que também senti isso. —
Engoliu em seco. — Mas não sei se ela sente o mesmo. Isso tem que acontecer, não é? Porque,
se não for um sentimento mútuo...
"... então não será amor verdadeiro."
Cada um deles terminou a sentença em silêncio, incapaz de falar em voz alta. Um
silêncio pesado os envolveu. E quando a situação já se tornava sufocante demais, Lucas voltou a
falar:
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 53

— Tenho que descobrir. E desculpe-me, mas só consigo pensar numa forma de fazer isso.
Lentamente, inclinou-se para cobrir os lábios carnudos com um beijo. Dessa vez tudo foi
mais suave, terno, reverente. Mas, mesmo assim, poderoso. O bastante para mexer com forças
profundas, que havia muito tempo jaziam adormecidas no peito de Annah. Forças capazes de
preencher espaços vazios por causa das dores e dos sofrimentos do passado.
O príncipe sentia os lábios femininos moverem-se devagar sob os seus. Era tão bom, tão
perfeito... Mas não o bastante. Precisava saber se ela sentia a mesma força poderosa que o
dominava naquele momento. Pouco a pouco, inclinou-se sobre o corpo escultural até que
estivessem praticamente colados um ao outro.
Ela permitiu que o beijo prosseguisse. Estava sentada no colo de Lucas. O príncipe
encantado subitamente transformara-se num homem real, de carne e osso. E como era real! Podia
sentir cada músculo, absorvendo o poder que o corpo másculo exalava por todos os poros. E
aquilo não era apenas sexual. Era mais profundo. Como se ela fosse atraída por uma força
magnética irresistível. Além disso, todo o seu ser estava envolto por uma espécie de energia
primitiva. O que era aquilo? Não conseguia pensar em palavra alguma que definisse aquele
poder com precisão. Tudo o que sabia era que jamais sentira nada parecido... seu corpo parecia
em chamas!
A reação de Annah estimulou a príncipe o acreditar mais nos próprios instintos.
"Ela sente!", uma voz interior lhe dizia. "Mas o que sente?", outra voz perguntou. "O
mesmo que você. Não consegue perceber?", foi a resposta.
Lucas não só podia perceber, como também desejava compartilhar aquele momento. Por
isso, abraçou-a com mais força.
— Acho que já descobri o que queria — sussurrou-lhe ao ouvido. — Você sente o
mesmo, não é?
Uma nuvem de indecisão nublou a mente de Annah. Ensinara Lucas a reconhecer o
verdadeiro amor, e agora ele pensava ter encontrado justamente nela a mulher ideal... Mas não
era possível!
A racionalidade voltou num segundo, forçando-a a encarar tudo o que acontecera como
um mero acesso de luxúria mútua, nada mais. Claro que os dois eram compatíveis de várias
maneiras, mas isso não era o bastante. Tinha que controlar os próprios impulsos. Caso contrário
estariam destinados a uma enorme desilusão. Porque, se o príncipe acreditasse que ela era seu
verdadeiro amor, pensaria em tê-la como sua rainha. E isso Annah não podia ser.
Foi isso que a levou a empurrá-lo, antes que mudasse de ideia.
— Não é o que você está pensando.
Ele ficou imóvel, com uma expressão carregada.
— Você me disse para não pensar. Disse que eu devia acreditar em meus impulsos.
— Sim, mas não em relação a mim! Seja lá o que exista entre nós... simplesmente
não pode dar certo. Eu lhe disse desde o começo que não sou a mulher adequada.
— Sim, mas você nunca me disse o porquê. Nunca se preocupou em me explicar.
Depois de tudo o que acontecera, Lucas sentia-se no direito de saber. Se crianças não
eram o verdadeiro problema, devia haver outra explicação. E, se descobrisse o motivo, talvez
conseguisse fazê-la mudar de ideia.
— Quer mesmo saber? — ela perguntou, numa voz embargada pela emoção. — Ótimo.
Vou lhe dizer de uma vez por todas, alto e claro. Você quer ter filhos, e eu não. Ponto final. Fim
da discussão.
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 54

Ao dizer aquilo, Annah levantou-se e saiu da sala como um furacão. Incapaz de qualquer
movimento, o príncipe concluiu que mais uma vez errara ao confiar nos próprios sentimentos. Só
que dessa vez a dor fora muito maior.

Annah subiu a escada lutando para conter as lágrimas. Como pudera se meter numa
confusão daquele tamanho? Tudo o que queria era ajudar Luke a encontrar a felicidade de um
amor de verdade. E o que tinha acontecido? Finalmente o convencera a confiar nos sentimentos,
e depois fora forçada a desmentir as próprias palavras! Odiava fazê-lo sofrer.
Claro que não conseguiu dormir, e depois de algum tempo pôde ouvi-lo subir, deitar-se.
Mas, mesmo quando tudo ficou em silêncio, continuou a se virar de um lado para outro, com a
mente trabalhando freneticamente em busca da solução perfeita para aquele assunto. Lágrimas
caiam-lhe pelo rosto em abundância.
No meio da noite teve que ir até o banheiro, pois sua cabeça parecia prestes a explodir de
dor. Mesmo depois de estar separada havia tantos anos, a dor causada pelo estresse emocional
era incontrolável. Não havia motivo para alimentar esperanças em relação a uma gravidez que
jamais aconteceria. E precisava viver com essa realidade o resto da vida.

Lucas, acordado na cama, olhava para o teto, tentando pela centésima vez compreender o
que acontecera. Como algo podia parecer tão certo, e ao mesmo tempo estar tão errado? Ele
certamente estava errado. Afinal de contas, não era a primeira vez que fazia aquilo. Era uma
espécie de veterano na arte de fazer a si mesmo de tolo a respeito de uma mulher.
Annah, por outro lado, sabia do que falava. Todos, naquele lugar, concordavam ao dizer
que ela era a pessoa que mais compreendia o amor. E, de acordo com Annah, o que havia entre
os dois não era um amor verdadeiro.

Na segunda-feira pela manhã, dois dias depois, Wilfred foi o primeiro a chegar à
cafeteria, como era de costume. Eldridge entrou em seguida, como uma sombra do velho amigo.
Os dois tomaram seus assentos habituais.
Mas Lucas não estava no dele, e sim atrás do balcão.
— Bom dia!
Os anciãos encararam-no, espantando.
— Que diabos você está fazendo aí? — Wilfred perguntou.
— Nós queremos Annah — Eldridge secundou.
— Bem, vão ter que me aguentar. Annah não está se sentindo bem nessa manhã —
Lucas explicou. Na verdade, decidira por conta própria que devia deixá-la descansando, e com
esse fim desarmara intencionalmente o despertador. — O que posso fazer por vocês?
— Annah nunca ficou doente — Wilfred declarou.
— Talvez seja a gripe que anda atacando a ilha — Eldridge supôs.
— É... E talvez tenha pegado dele — Wilfred sugeriu, apontando o príncipe de
forma acusadora.
— Bela forma de retribuir a gentileza dela em fazer o papel de enfermeira particular!
Lucas limitou-se a sorrir, apoiando-se no balcão. Na verdade, já conhecia aqueles dois
muito bem.
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 55

— Não é uma gripe — informou. — E que ela anda trabalhando até tarde. Por isso
decidi assumir o trabalho hoje.
— Você?
— Que piada!
O príncipe então lançou um olhar que se acostumara a usar sobre líderes e generais
estrangeiros em reuniões cruciais de assuntos de Estado. Geralmente causava muito temor
quando fazia aquilo.
— Senhores, se não vão pedir nada, sugiro que deixem esses assentos livres para clientes
pagantes.
Wilfred encarou-o consternado por um instante.
— Café, preto e forte — pediu, contendo um suspiro.
— Café, não tão forte... e com leite — disse Eldridge. Depois de experimentar as roscas
que Annah deixara preparadas no dia anterior, os homens permaneceram calados por algum
tempo. Só quando Lucas aproximou-se para retirar os pratos vazios foi que Wilfred, que lia o
jornal, murmurou:
— Há uma notícia aqui na Gazette sobre o tal Jimmy Turner.
— Ótimo. E quem é ele? — O príncipe perguntou. Jamais ouvira falar naquele nome
antes.
— Quem é ele? — Eldridge ecoou. — Ora essa! É o homem com quem a nossa
Annah foi casada!
Lucas não esperava por aquela revelação. Não sabia que o antigo marido dela continuava
por perto.
— O homem mudou-se para o outro lado da ilha depois que se separou.
— Deve estar a oito ou nove quilômetros daqui — Eldridge comentou, pensativo. —
Talvez oito e meio...
— E o que a notícia diz? — Lucas perguntou, francamente interessado. Não
precisava esconder a curiosidade, pois afinal de contas era uma pergunta mais do que natural.
— Parece que o rapaz está se dando bem com uma nova empresa de computadores
— Wilfred informou.
— Alta tecnologia — emendou Eldridge.
— Ouvi dizer que trabalha muito, o velho Jimmy...
— E que é um dos maiores empregadores do lugar...
A conversa continuou, mas Lucas não pôde ouvir o resto. Os clientes começaram a
chegar naquele momento, e o movimento ficou realmente grande. As coisas corriam com mais
tranquilidade quando Annah estava presente.
Mas todos os clientes pareciam compreender quando Lucas informava que ela precisava
de um pouco de descanso. Nem mesmo a sra. Cartelli, em quem o príncipe chegou a derrubar um
pouco de suco de laranja, reclamou. Era como se todos desejassem o bem de Annah, com
sinceridade.
Lucas já passara a se sentir parte daquela gente. Além disso, aquele trabalho lhe dera uma
oportunidade única. Inadvertidamente descobrira algo muito importante sobre sua enigmática
anfitriã...

Um raio de sol incidiu diretamente sobre o rosto de Annah, despertando-a.


BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 56

"Por que não durmo com as janelas fechadas, para evitar isso?", ela pensou, semi-
adormecída.
Então concluiu que aquilo jamais acontecera. Por quê?
Sentou-se de um salto na cama. Porque, desde que abrira a cafeteria, sempre acordava
muito cedo, exceto nos feriados. E não era feriado...
Tinha dormido demais! Olhou para o relógio e suspirou, exasperada. Seus clientes!
Provavelmente estavam em fila, do lado de fora da porta. No frio. Ou pior: talvez já tivessem ido
embora.
Checando o despertador, reparou que estava desarmado. Devia ter feito isso enquanto
dormia. Pulando fora da cama, planejou mentalmente colocar o rádio-relógio sobre a mesa que
ficava ao lado da janela, para que um acidente como aquele não acontecesse de novo.
Vestiu-se rapidamente, recriminando-se duramente.
"Não é de admirar que tenha perdido a hora, principalmente depois de passar as duas
últimas noites sem dormir, garota! A culpa é toda sua!"
E de Luke, lembrou-se num rompante irracional de raiva. Ele não tinha o direito de
começar a virar sua vida de pernas para o ar. Havia coisas que deviam ser esquecidas. Os erros
do passado, por exemplo. E agora o príncipe, para piorar ainda mais a situação, metera na cabeça
aquela ideia de estar apaixonado por ela! Homens! Será que nenhum conhecia a diferença entre
amor e desejo?
Ela chegou ao banheiro em tempo recorde, e logo em seguida voou escada abaixo. Nesse
meio tempo, concluiu que não corria risco algum de apaixonar-se por Luke. Ele não devia ser
muito diferente de Jimmy. E Jimmy...
Parou na porta da cafeteria, com uma expressão aturdida. Mal podia acreditar no que via.
As portas estavam abertas, e tudo funcionava normalmente. Parecia-se com qualquer outra
manhã... a não ser por uma coisa. Como os clientes tinham sido atendidos?
Só naquele momento viu Luke atrás do balcão, terminando de preparar um sanduíche.
Ele ainda não percebera sua presença. Por isso, Annah teve tempo suficiente para observar o
ritmo frenético com que o príncipe trabalhava. Depois de colocar alguns pratos para lavar, ele
apressou-se em atender alguns clientes recém-chegados.
Sem fala, Annah recostou-se no batente da porta. Um homem nascido com sangue azul...
um príncipe, governante de um país inteiro... estava ali, atendendo pessoas comuns.
Por quê?
A resposta era óbvia. Lucas fizera isso por ela. Agora Annah sabia por que o despertador
desarmara-se misteriosamente, e a singeleza daquele gesto a comoveu de maneira profunda.
Ao virar-se para carregar outra bandeja de pratos sujos, Lucas finalmente a viu. Sua
reação imediata foi um sorriso cativante.
— Sente-se melhor? — perguntou.
Na verdade, ela se sentia pior. Sim, muito pior. Não adiantava tentar se enganar, fingindo
que o príncipe se parecia com Jimmy, que sempre colocara os próprios problemas em primeiro
lugar...
— Como... cuidou de tudo? — perguntou, discreta.
— Ora, você deixou a maior parte das coisas preparada — Lucas lembrou-a,
depositando a bandeja sobre o balcão. Mas não foi capaz de esconder uma nota de orgulho no
tom de voz.
Annah juntou-se a ele de forma automática, e então, notando que o assento reservado ao
príncipe estava vago, decidiu ocupá-lo.
— Sim, mas eu tenho muita prática. Faço quase tudo sem pensar.
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 57

O príncipe serviu-a com uma xícara de chá de hortelã, o favorito dela.


— Bem, digamos que estive observando sua forma de trabalhar — Lucas sussurrou-lhe
ao ouvido. — Você me ensinou muitas coisas. O resto, concluí sozinho.
Ela preferiu ignorar o duplo sentido daquela frase.
— Sim, e vejo que fez um ótimo trabalho. Obrigada, você me salvou.
— Agradeça a seus clientes, que tiveram muita paciência comigo. Me ajudaram
muito, e praticamente não tive que somar as contas da maioria, pois já traziam os cálculos
prontos.
Mais uma vez Annah ficou sem fala. Já não sabia o que pensar.

CAPÍTULO IX

Lucas praticamente voou por todo o perímetro do rinque, aquecendo-se antes da partida
de hóquei da quarta à noite. Dois dias tinham se passado desde que abrira a cafeteria para Annah.
Dois dias a menos para o baile dos bombeiros, seu prazo final. Devia estar se sentindo
pressionado, mas na verdade conseguia ver as coisas com mais clareza.
O goleiro do time entrou pela portinhola sem olhar, forçando-o a parar de maneira
abrupta e provocando uma chuva de gelo quando os patins frearam. O homem então assobiou,
demonstrando estar impressionado. O príncipe sorriu, e aproximou-se para cumprimentá-lo com
um leve tapa nas costas.
— Vou jogá-lo na parede, meu velho — brincou.
— Tente isso e será um homem morto — o goleiro respondeu, soltando uma
gargalhada.
Os jogos sempre transcorriam com a maior tranquilidade, e Lucas já conhecia quase
todos os jogadores, exceto dois ou três, aos quais não fora apresentado formalmente. Eram
homens simpáticos e joviais, que gostavam muito da competição e, principalmente, das alegres e
inevitáveis confraternizações que ocorriam nos finais de noite.
Iam enfrentar outro time da ilha naquele dia, e o príncipe também conhecia a maioria dos
adversários. Reparando melhor, conhecia todos. Exceto o capitão, que no momento estava
ocupado, passando instruções a seus parceiros.
— Quem é aquele sujeito, Carl? — Luke perguntou ao goleiro. — Nunca o vi por aqui.
O homem virou-se para olhar na direção indicada.
— Ah, ele mudou-se para o outro lado da ilha e atualmente joga poucas vezes. Foi
capitão de nosso time por muitos anos. O nome é Turner.
O príncipe lembrou-se imediatamente do sobrenome.
— Jimmy Turner?
— O próprio.
— Me faça um favor, meu velho — Lucas murmurou. — Me coloque como lançador
em seu time.
Aquela era uma atitude infantil. Sem sentido. Machista. Mas de qualquer maneira ele via
uma boa chance de descarregar as frustrações que o vinham atormentando.
— Tem certeza? — Carl perguntou.
Lucas entendia a dúvida. Vinha jogando na defesa desde o começo, substituindo um dos
rapazes que ferira o joelho. Mas teve que se conter para não sorrir. Ora essa, tinha crescido nas
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 58

gélidas ilhas Constellation, e patinava no gelo com a mesma naturalidade com que caminhava. A
posição central fora sua predileta desde a escola, e sempre o reconheceram como bom jogador
naquela função.
— Sei como fazer — foi tudo o que respondeu.
— Tudo bem, Hansson. Fique na segunda linha central. Vamos ver do que é capaz.
Turner era bom. Um verdadeiro esportista. Parecia capaz de ler os pensamentos de Lucas,
antecipando as jogadas e esmerando-se na marcação. Mas na metade do segundo tempo o
príncipe finalmente conseguiu deixá-lo para trás, marcando um gol esplêndido. Enganou o
zagueiro grandalhão mais duas vezes, o que resultou em dois gols que deram a vitória a seu time.
A cada vez que marcava, claro, dedicava mentalmente o gol para Annah.
No final da partida, patinou até o campo adversário e apertou as mãos de todos, inclusive
a de Turner.
— Seus truques são muito bons, colega — o homem murmurou, contrafeito.
— Foi um bom jogo — Lucas disse com calma.
Mas tudo estava acabado, e era hora de cuidar de assuntos mais sérios. Já vingara sua
amada no rinque de gelo. Mas na vida real ainda precisava conquistá-la.

A tarde do sábado foi especialmente movimentada na loja de Annah, pois todas as


mulheres que tinham deixado as roupas do baile para a última hora passaram por lá. Quando a
última cliente partiu, ela encostou-se contra a porta e deixou escapar um suspiro. Aquela semana
tinha passado tão rápido, entre o trabalho e os preparativos para o baile, que mal tivera tempo
para pensar.
Na verdade, para pensar em Luke e nos sentimentos contraditórios que ele provocava.
Tentara evitá-lo nos últimos dias, e o príncipe mantivera uma distância respeitosa, embora nunca
a perdesse de vista. Continuaria pensando nela?
Annah ainda estava decidida a não alimentar falsas esperanças. Simplesmente porque não
era a mulher certa. E o fato de ele ser nobre nada tinha a ver com sua decisão. A verdadeira
barreira continuava sendo o desejo de Lucas de ter filhos. Ela não desejava ficar no caminho
daquele sonho.
— Oi.
A voz potente de barítono interrompeu-lhe os devaneios. E a simples visão daquele
homem foi bastante para que seu coração disparasse.
— Oi.
Lucas olhou ao redor e assobiou de espanto.
— Uau! Nunca vi esse lugar tão bagunçado!
— Fiquei tão ocupada que nem tive tempo de arrumar as coisas.
Ele começou a ajudá-la na arrumação das estantes, com a naturalidade de sempre. Como
se tivesse feito aquilo a vida toda, em vez de participar de compromissos de Estado e de
recepções oficiais.
— Como vão os preparativos para o baile? — perguntou um instante depois.
Sem saber por quê, Annah teve a nítida impressão de que havia algo escondido por trás
daquela simples questão, mas preferiu responder num tom casual:
— O planejamento, as contratações e as vendas de ingressos já terminaram. Na próxima
semana passarei quase todo o meu tempo livre cozinhando. E, pelo que sei, o trabalho dos outros
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 59

voluntários também está correndo tranquilamente. — Fez uma pausa, e foi incapaz de sucumbir
à curiosidade. — Quem você vai levar?
— Ninguém. Mas sei quem eu gostaria de levar.
"Você!", ele pensou, informando aquilo com um olhar penetrante.
— Então creio que devia convidá-la logo — Annah murmurou, fingindo não entendê-lo.
A frustração que Lucas disfarçara por toda a semana aflorou em sua expressão. Ela não
estava nem mesmo lhe dando uma chance.
— Já deixei claro às mulheres com quem estive saindo que vou ao baile sozinho.
— Tem certeza de que essa é uma boa estratégia? — Annah parecia preocupada.
— Não se trata de estratégia. É apenas uma tática de sobrevivência. Na festa vou
fazer uma proposta séria à mulher com quem quero passar o resto de minha vida, lembra-se?
Ao pensar que não chegara a dar mais do que um beijo de boa-noite nas "pretendentes", o
príncipe sorriu com ironia.
— Sei disso — Annah murmurou suavemente.
— E, como ainda não fiz minha escolha definitiva, acho melhor protelar a decisão o
máximo possível. O que mais posso fazer? Prometer levar uma mulher ao baile e depois pedir
outra em noivado?
— Não precisa ser sarcástico.
"E você não precisa ser tão teimosa", ele quis dizer, mas conteve-se a tempo.
— Nós, príncipes, somos assim. Não conseguimos ter muito charme quando
encostados numa parede. Você, entre todas as pessoas, devia saber disso. Alguma velhota da
cidade conseguiu convencê-la a marcar um encontro com o neto?
— Não. Eu vou estar lá sozinha.
Lucas não ficou surpreso com a informação.
— Ótimo. Porque vou precisar de seus serviços no baile.
— Para quê?
— O que mais? Para agir como minha casamenteira...

Apesar de estar ocupada como nunca naquela semana, Annah ficou sabendo exatamente
tudo o que Lucas fez, com quem saiu e aonde foi. O príncipe parecia ter redobrado os esforços,
porque saiu duas vezes com cada uma das candidatas.
"Ótimo!", ela tentava dizer a si mesma.
Aquilo era o que devia acontecer. Mas, no fundo, sentia-se terrivelmente confusa. Talvez
por desejar coisas que não tinha o direito de possuir.
A loja ficaria fechada na tarde de sábado, para que ela pudesse embalar tudo o que
precisava levar até o local do baile. Quando a última caixa foi fechada, Lucas apareceu para
ajudá-la a carregar a caminhonete.
Fizeram inúmeras viagens. No final, só restaram miudezas, que Annah decidiu levar
quando estivesse pronta, já à noite. Estava ficando tarde, e ambos concordaram que ele devia
voltar para casa e tomar banho.
Logo depois de terminar, o príncipe ouviu alguém batendo na porta da loja. Vestindo
jeans e um suéter, atendeu, encontrando uma loira atraente, que nunca vira, esperando na soleira.
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 60

— Sei que vocês estão fechados — ela foi logo dizendo. — Mas estou desesperada.
Preciso de um vestido para o baile e já é tarde demais para ir até o shopping center do próximo
vilarejo.
Lucas sabia que Annah jamais daria as costas a uma mulher desesperada. Por isso,
deixou-a entrar.
— Por que esperou o último minuto? — perguntou, acendendo as luzes.
— Não esperei. Comprei um vestido no mês passado, mas me esqueci de
experimentá-lo e só hoje fui reparar que não me servia. — A expressão do príncipe demonstrou
confusão e ela apressou-se em explicar: — Estou grávida, entende? E não esperava ter
engordado tanto...
— É sua primeira vez? — Lucas perguntou, caminhando para a estante onde
ficavam os modelos para gestantes.
Ela sorriu.
— Não. Já tenho um garoto de quatro e uma menina de dois anos. Os dois estão em casa,
com o pai. Meu marido sempre sonhou em formar um time de basquete com os filhos, você sabe.
— Parece que vocês já passaram da metade do caminho. A mulher escolheu rapidamente
entre os modelos disponíveis. — Tem certeza de que Annah não vai se importar?
— Absoluta — Lucas assegurou.

Annah chegou em casa quando ele já terminara de atender a cliente. E pareceu espantada
ao ver a mulher.
— Venda de última hora, para o baile — o príncipe explicou, entregando o troco. —
Maternidade.
— Parabéns, Ellen — Annah murmurou, encarando a cliente. Sua reação, porém, foi
pouco comum e deixou Lucas intrigado.
— Obrigada — Ellen respondeu, virando-se em seguida para ele. — E a você
também... Não sei o que teria feito sem sua ajuda.
— Disponha — Lucas disse. — Nos encontraremos no baile.
— Sim. Com toda certeza. Até mais, Annah.
— Até mais.
Estranhamente, Annah ficou parada, olhando para a porta mesmo depois de fechada. Seu
corpo parecia trêmulo.
— Algum problema com você? — ele perguntou, preocupado.
Ela meneou a cabeça e virou-se.
— Nada...
Mas o príncipe já a conhecia muito bem para saber que algo acontecera.
— O que... — ele começou, fazendo menção de segui-la.
— Não é nada — ela insistiu, encarando-o com o mais falso dos sorrisos.
— Quem...
Antes que ele pudesse prosseguir, porém, Annah voltou a interrompê-lo:
— Nossa! Está muito tarde! Preciso subir agora mesmo para me arrumar — apressou-se,
deixando-o sozinho.
Annah parou defronte ao espelho, retocando o cabelo com cuidado. Sua imagem refletida
parecia boa, concluiu. Separara um vestido, meses antes, especialmente para a ocasião. Era um
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 61

modelo azul-topázio que combinava perfeitamente com seu tipo físico. O corte salientava o
formato das pernas, embora Annah suspeitasse que elas não ficariam muito visíveis naquela
noite, pois estaria atrás do balcão de refrescos.
Mas não era a excitante imagem que sempre imaginara para uma mulher que ia a um
baile acompanhada por um príncipe... Engraçado o rumo que sua vida tomara. Era como se fosse
a história de Cinderela, mas ao contrário. Por semanas vivera um sonho real com seu príncipe,
mas depois do baile o encanto seria quebrado. Lucas se casaria com outra mulher, e para ela
restariam apenas as recordações.
Não podia mudar o final da história, mas desempenharia seu papel da melhor forma
possível.

Lucas virou-se ao ouvir os passos de Annah descendo a escada. Ao vê-la, porém, teve
que prender a respiração. O vestido gracioso brilhava sob a luz suave, acentuando
misteriosamente todas as curvas do corpo escultural. Jamais vira uma mulher tão perfeitamente
talhada para o papel de princesa. Se pelo menos não fosse tão teimosa...
— Você está linda — disse simplesmente.
— E você até que não parece tão mal — ela replicou num sussurro. — Para um
sujeito comum...
Na verdade, ele parecia um príncipe outra vez, usando o mesmo conjunto que vestira no
dia da chegada. As recordações das últimas semanas subitamente tomaram conta da mente de
Annah, que teve que conter um suspiro ao concluir que seria necessário muito esforço para
manter ocultos seus sentimentos.
O telefone tocou. Lucas atendeu prontamente, e por coincidência a chamada destinava-se
mesmo a ele.
— Obrigado por me manter informado. Mas não terão que esperar muito por novidades.
Naquela tarde, Lucas revelara que havia um conselheiro encarregado de manter a corte
informada sobre seus progressos.
— Sim. Hoje à noite. — Ele olhava fixamente para Annah enquanto falava. — De
uma maneira ou de outra. Ligo pela manhã com o nome. Boa noite. — Desligou, ainda
encarando-a diretamente. — Tem certeza de que está pronta para ir?
— Sim. Os últimos pacotes já estão no carro e...
— O que eu quis dizer foi: não existe nada que você queira fazer, ou dizer, antes de
partir?
Por mais autocontrole que possuísse, Annah sentia-se incapaz de enfrentar aquele olhar.
Por isso, baixou a cabeça.
— Não — murmurou, procurando pela manta.
Houve um momento de silêncio, antes que ele desistisse.
— Certo, então acho que já é hora de começar o show.

Lucas insistiu em dirigir. O baile não seria realizado longe da casa, mas o percurso lhe
daria tempo para conseguir toda a atenção de Annah.
— Não é uma boa ideia — ela advertiu. — As pessoas vão achar que estamos indo
juntos ao baile.
— Nós estamos indo ao baile juntos.
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 62

— Sabe o que quero dizer... Não pretendo espantar nem uma de suas candidatas.
Na verdade, o que ela não queria era passar muito tempo a sós com Lucas. Suportar a
presença dele era difícil.
— Oh, acho que essas mulheres têm personalidade suficiente para não se abalar —
ele disse, fazendo uma curva com cautela.
— Como pode estar tão calmo? Vai ficar noivo hoje à noite e nem mesmo sabe de
quem!
Ele encolheu os ombros.
— Creio que estou agindo assim porque confio em você.
— Em mim? O que quer dizer?
— Quero dizer que conto com sua ajuda hoje.
Como Lucas previra, ela protestou de imediato:
— Mas o caso já não está mais em minhas mãos! Não conheço mais ninguém para
lhe apresentar. Já fiz minha parte como casamenteira. E você tem quatro excelentes candidatas,
que preenchem todos os seus requisitos.
— Sei disso. Mas o problema é justamente esse. Não consigo escolher uma entre
delas. E por isso que preciso de sua ajuda.
— Não, não precisa. Sente-se apenas um pouco inseguro, o que é natural. Mas deve
seguir seus instintos.
— Na última vez que fiz isso, lembro-me de que você disse que eu estava enganado
— ele comentou, encarando-a com uma expressão profundamente irônica.
Annah engoliu em seco e nada disse.
— Muita coisa está em jogo para que eu me arrisque outra vez.
— Então use seu intelecto! Faça alguma coisa! E, pelo amor de Deus, escolha uma delas!
— Tudo bem — Lucas murmurou num tom amigável. — Escolherei a mulher que você
me disser que é a certa.
— Você quer que eu... De jeito nenhum! Eu nunca poderia...
— Não seja modesta. Você é praticamente uma lenda nesse lugar. Tudo o que estou
pedindo é que use seu fabuloso dom para me ajudar.
— Quer que eu lhe escolha uma noiva?
— É apenas uma maneira de dizer. Mas não consigo pensar numa forma mais
simples de resolver logo esse assunto.
Ela meneou a cabeça com vigor.
— Isso é pedir demais.
E era justamente o que o príncipe queria. Se Annah sentisse o que ele imaginava, seria
uma tortura infernal fazê-la escolher a "candidata" perfeita.
— É mesmo? — ele perguntou, estacionando o carro com destreza. — Mas, quando
cheguei, você concordou em me ajudar, lembra-se?
— Isso foi antes... — Annah parou, fixando o olhar no dele.
— Antes do quê? — Lucas perguntou num tom de voz grave e intenso. — Antes que
tivéssemos começado a viver juntos? Antes que nos beijássemos? Antes que nós...
— Essas coisas não têm nada a ver com o assunto, e você sabe disso!
— Eu sei? Você é a expert em amor por aqui, mas me parece que não devemos
ignorar certos... detalhes.
Será que ele não entendia? Precisavam ignorar tudo aquilo!
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 63

— Luke, não faça isso. Estamos falando sobre seu futuro, sua vida. Não posso tomar
uma decisão como essa por você. É responsabilidade demais.
— Certo.
Lucas sabia disso. Mas como ela parecia disposta a ignorá-lo, o príncipe considerava
justo que assumisse tal responsabilidade.
— Essa deve ser uma escolha sua.
— E é mesmo. Acabo de escolher você para fazer isso. Por um motivo muito
simples. Se não posso confiar em meus próprios sentimentos, terei que me guiar pelos seus. —
Sua voz baixou para pouco mais que um sussurro. — Não me decepcione.

Annah permaneceu parada atrás do balcão de refrescos, na agonia da indecisão. Lucas


não estava brincando. Realmente esperava que ela o auxiliasse na seleção de uma das candidatas.
Ele encontrou Terri e estava dançando com ela, que parecia se divertir muito. Terri era
sempre assim. Possuía um bom humor fantástico, e era capaz de transmitir isso às pessoas. Com
uma pontada de dor no coração, portanto, Annah imaginou que a amiga seria uma ótima
princesa.
Assim como Marilyn, que o príncipe escolheu para dançar em seguida. Mãe maravilhosa,
certamente daria a Luke os filhos que ele tanto desejava.
Enquanto os observava, houve movimento no balcão e Annah teve que concentrar sua
atenção no ato de servir refrescos. Quando ergueu a cabeça, minutos depois, viu que ele já
dançava com Carol, a terceira mulher da noite. Carol adorava aventuras, e certamente a vida de
princesa lhe ofereceria oportunidades de sobra para exercitar tal inclinação.
Annah desviou o olhar, tentando em vão conter a dor lancinante que sentia no peito. E a
estocada final veio logo depois, quando viu Luke acompanhado de Joyce, absolutamente linda.
Ela poderia representar qualquer trono do mundo sem demérito algum. E, claro, tinha enorme
afinidade em relação a crianças.
Aquilo era uma loucura! Impossível! Como escolher? Como, se todas pareciam
virtualmente perfeitas? Ela tentou usar sua intuição, mas não conseguia enxergar nada
verdadeiro entre Lucas e as candidatas. Talvez tivesse perdido o dom, ou quem sabe ele apenas
estivesse obscurecido por causa de seu envolvimento com o príncipe...
Subitamente a temperatura a seu redor pareceu aumentar dez graus. Nem teve que se
virar para saber que Lucas estava logo atrás. Sem dizer uma palavra, enlaçou-a pela cintura e
tirou-a de trás do balcão. Seria apenas imaginação ou o mundo pareceu parar assim que se
dirigiram para o meio da pista?
— O que está fazendo? — ela perguntou, enrijecendo o corpo à medida que era
conduzida.
— Dançando. Mas creio que, se você precisou perguntar, não devo estar me saindo
muito bem nisso.
Ele estava, na verdade, saindo-se muito bem. Ninguém na ilha conseguia dançar daquela
maneira. Não era de admirar que todas as mulheres parecessem plumas em seus braços. Annah
sentiu que podia experimentar a mesma sensação. Bastava relaxar um pouco.
— E que me sinto meio estranha sem um pano de pó nas mãos, Alteza — disse
secamente.
— Pare de representar a Cinderela. Se eu não a tivesse arrastado até aqui,
provavelmente passaria a noite inteira atrás daquele balcão.
— Tenho um trabalho a fazer.
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 64

— Sim, tem. Mas está trabalhando para mim agora. Sei que esteve me observando
por toda a noite. E quero que me diga o que está sentindo.
Será que ele realmente esperava que Annah fosse capaz de expressar tudo em palavras?
Quando o abraço do príncipe estreitou-se, porém, a resistência que ela se impunha até aquele
momento caiu por terra. Apenas por um momento, deixou-se levar pelo doce sonho de que Lucas
não escolheria outra mulher.
Que ele lhe faria uma proposta e que seria possível aceitá-la. E depois disso os dois
poderiam viver felizes para sempre.
Naquele momento, porém, a realidade dominou sua mente com o poder de um vendaval.
O amor verdadeiro jamais a abandonara. No fundo, Annah sabia que nunca experimentara nada
parecido com o que sentia naquele exato instante.
E concluiu que era o verdadeiro amor do príncipe.
Abraçando-o com mais força, finalmente percebeu por que resistia tanto diante da ideia
de entregá-lo a outra mulher.
— Está tudo bem? — ele indagou, numa voz plena de ternura.
— Ótimo — Annah balbuciou, voltando a abrir os olhos depois de um longo momento de
sonho.
Mas agora, como num pesadelo, via as quatro mulheres a cada volta pelo centro do salão.
Todas seriam mães maravilhosas. E uma seria escolhida para viver ao lado do homem que
amava.
— Já pensou em alguma coisa? — Lucas perguntou calmamente. — Já está pronta para
me dizer quem devo tomar como esposa?
Não havia sentido em prolongar aquela tortura. Qualquer uma seria adequada... menos
ela.
— Não vou responder. Você pediu minha ajuda, e já fiz o possível. Todas as moças são
excelentes. Todas serão boas mães. Escolha você, e seja... seja...
Annah não pôde terminar. Com a garganta ressecada e os olhos úmidos por causa da
emoção, teve que correr imediatamente para a cozinha, a fim de evitar uma cena.

CAPÍTULO X

Lucas saiu correndo atrás dela, mas esbarrou em alguma coisa. Ou melhor, em alguém.
Alguém que era quase tão alto e forte quanto ele: Jimmy Turner.
— O que você fez a ela, Hansson? — Turner perguntou suavemente, mas podia-se
notar um nítido acento de ameaça em seu tom.
— Não é da sua conta, seu...
Subitamente, uma terceira voz interveio. Era uma mulher.
— Ora, querido, deixe para lá. Provavelmente Annah só foi até a cozinha para checar
alguma coisa. Além disso, o assunto é entre os dois. — A mulher agarrou-se ao braço forte de
Turner e olhou para Lucas como se pedisse desculpas. — Ele é um pouco superprotetor. Sabe
como é, ninguém esteve seriamente envolvido com Annah desde o divórcio, e Jimmy não quer
vê-la ferida.
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 65

Finalmente Lucas olhou direito para sua interlocutora, e uma expressão de espanto tomou
conta de seu rosto. Era a loira que estivera na loja no final daquela tarde. Aquela que estava
grávida pela terceira vez.
Mas, antes que pudesse assimilar essa nova informação, ouviu-se um alvoroço na porta
da frente. Uma multidão de homens com câmeras praticamente forçava a entrada no salão. Ao
ver o príncipe, um dos fotógrafos apontou, gritando:
— Lá está ele!
"Droga!", Lucas pensou.
Os paparazzi finalmente tinham descoberto seu paradeiro, e não podiam ter chegado em
momento pior. Como poderia sair dali antes que eles conseguissem uma foto?
Girou sobre os calcanhares para se afastar, mas no caminho olhou por sobre o ombro e
notou que as pessoas pareciam dificultar a passagem dos repórteres deliberadamente. Que
estranho... E então viu Wilfred, tranquilamente encostado numa pilastra, estendendo o pé para
que um dos fotógrafos tropeçasse. Os intrusos começaram a chocar-se uns com os outros, e,
vindo do nada, o velho Eldridge também colocou-se diante deles, bloqueando a passagem.
O príncipe já estava perto da porta da cozinha quando outro paparazzi apareceu, correndo
em sua direção. No meio do caminho, porém, o homem quase chocou-se com Ellen Turner, que
ainda estava parada entre Lucas e Jimmy. E aquilo foi um grande erro da parte dele.
Instintivamente, o príncipe colocou-se diante da mulher, usando o corpo para protegê-la.
Ao mesmo tempo, Jimmy lançou-se sobre o sujeito, como se fosse um zagueiro de futebol
americano. O impacto múltiplo arremessou o infeliz repórter sobre a mesa do ponche,
provocando uma baderna infernal.
Naquele instante, uma voz sussurrou ao ouvido do príncipe:
— Quer que nós seguremos esses tipos aqui, Alteza?
Era Carl, acompanhado pelo resto do time de hóquei.
— Você sabia? — Lucas perguntou, incrédulo.
— Diabos, parceiro, toda a cidade já sabe há muito tempo — Carl informou. — Só
não comentamos nada por respeito a Annah.
— Por quê?
O homenzarrão encolheu os ombros.
— Imaginamos que vocês tinham seus motivos. Além disso, não queríamos perder um
jogador decente como você... — Outro ruído estrondoso anunciou que a turba se aproximava
depressa.
— E então? Quer que cuidemos deles?
— Sim, acho melhor vocês fazerem isso logo, antes que aquele sujeito acabe
matando alguém — Lucas pediu, afastando-se.
— Quem, Turner? Ele apenas está agradecendo por você proteger a mulher dele —
Carl gritou. — Agora corra atrás da sua, companheiro!
Sem dizer mais uma palavra sequer, o príncipe fugiu da confusão, escapando por uma
porta lateral.

Ele sabia onde Annah se encontrava, mesmo sem procurar. Havia um lugar que ela
gostava de visitar sempre que caminhavam juntos nos finais de tarde. Um belo recanto
emoldurado pela paisagem da baía, que naquela época do ano ficava lindamente iluminado por
causa da decoração de Natal.
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Annah nem precisou olhar para perceber sua aproximação. Continuou absolutamente
imóvel, mirando o longínquo horizonte com um olhar fixo e perdido.
Durante algum tempo os dois ficaram em silêncio, mas foi ela que decidiu falar:
— Você acha que é racional desejar muito uma coisa? — perguntou em voz baixa.
— Querida, não existe problema algum em desejar alguma coisa... ou alguém.
— A menos que sejam coisas que não se podem ter — Annah sussurrou, numa voz
estrangulada pela emoção.
— Foi por isso que fingiu não querer ter filhos?
— Eu pensei que nunca mais desejaria isso, depois... depois do divórcio. — Ela
começou a soluçar e a tremer violentamente.
Lucas abraçou-a de forma protetora.
— Eu tinha imaginado que seu ex-marído não queria filhos. Mas descobri nessa
noite que estava enganado.
— Nós dois queríamos muito. Começamos a tentar desde o início do casamento.
Mas depois de três anos eu não tinha...
O sofrimento dela cortava o coração do príncipe.
— Oh, meu amor...
— Eu... não consegui...
Ele podia notar a vergonha nas palavras de Annah.
— Isso não significa que a responsabilidade seja sua.
— Como pode dizer isso? Você conheceu a atual esposa de Jimmy. Em menos de
cinco anos eles tiveram dois filhos... e o terceiro já está a caminho! Obviamente não foi
problema dele.
— Mas isso não quer dizer que a dificuldade seja sua, tampouco! Talvez tenha sido
apenas uma combinação infeliz, a de vocês dois. Por acaso sentia por ele o verdadeiro amor do
qual me falou? — O silêncio foi a resposta que o príncipe esperava. — Então concluo que
Jimmy não era o homem certo para você.
— O que está querendo me dizer?
— Isso... — E, sem dar chance a qualquer reação, tomou-a nos braços e beijou-a
com paixão redobrada. Foi preciso muito esforço para interromper aquele beijo, instantes depois.
— Estou lhe dizendo que, se ficarmos juntos dois meses, estará grávida.
— Luke! — ela quase gritou, afastando-se abruptamente para encará-lo.
— Certo. Então um mês. Eu juro. — A franqueza máscula daquela promessa parecia
fazer o ar vibrar numa aura magnética intensa.
E ela sabia o que estava prestes a acontecer: Lucas ia pedi-la em casamento! Seu príncipe
encantado estava disposto a compartilhar um reino... mais do que isso, uma vida inteira... com
ela!
— Annah, já é hora de acabar com esse impasse.
Sim, era verdade. Mas o final da história não seria como Lucas tinha planejado,
infelizmente.
— Não até que você saiba de tudo — Annah murmurou. Logo depois, engolindo em
seco, prosseguiu: — Depois que eu não consegui... Bem, depois de três anos, Jimmy decidiu me
levar a um especialista, para uma consulta. Foi muito doloroso. Tive que fazer todos aqueles
testes odiosos... mas nada apareceu nos resultados. Nada. Então, naturalmente, Jimmy decidiu
que era melhor tentarmos com mais afinco. Mas eu...
— O quê? — Lucas perguntou devagar.
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Contendo um suspiro, ela olhou diretamente nos olhos do príncipe.


— Eu não pude — disse simplesmente. — Apenas não pude tentar de novo. Não
suportaria outro mês de expectativa frustrada, de dor... não apenas a minha, mas a de Jimmy
também. — Houve uma pausa tensa. — Claro que ele ficou irritado. Tínhamos nos casado com o
propósito de constituir uma família, e então eu já nem queria tentar. Quando percebeu que eu
nunca mudaria de ideia... bem, aí ele me deixou.
Lucas precisou de muito esforço para não dizer um palavrão. Aquele brutamontes, sem
um pingo de sensibilidade...
— E foi melhor assim — Annah insistiu. — Concedi o divórcio sem discutir. Isso
permitiu que Jimmy encontrasse seu verdadeiro amor e construísse a família com que tanto
sonhara.
— Foi melhor assim — Lucas repetiu em voz baixa. — Porque isso a deixou livre
para fazer o mesmo...
Annah meneou a cabeça.
— Não — murmurou com tristeza.
— Por quê? Você não me ama?
Amá-lo? Annah estava agindo daquela forma justamente por amá-lo demais.
— Esse não é o ponto.
— Então qual é?
— Nunca poderei lhe dar uma família.
A frustração era claramente demonstrada na expressão do príncipe.
— Por favor, tente ser lógica. Se não encontraram problema algum...
— Por favor, tente entender. Não estou falando sobre exames de laboratório ou
dados científicos. O que quero dizer é que tenho medo da jamais poder ter filhos.
— Como pode afirmar isso?
— Eu não quero tentar.
A frase fez o protesto de Lucas morrer. Ele já não sabia mais o que dizer.
— Eu... sinto muito — ela sussurrou. — Gostaria de poder. Mas não posso. Eu
simplesmente... não suportaria.
Vendo seu amado ali, a seu lado, com a cabeça baixa e a postura típica de alguém que
acabara de ser vencido, ela teve vontade de chorar. Mas conteve-se a tempo, pelo bem dele.
— Talvez seja melhor que você parta agora — disse em voz baixa.
— Sim — ele respondeu depois de alguns segundos. — Acho que é mesmo a melhor
coisa a fazer.

Na manhã seguinte, um portador passou pela casa de Annah para apanhar a bagagem do
príncipe Lucas. Ele nem mesmo quisera voltar, talvez com medo das emoções que a visita
pudesse despertar.
Foi o dia mais longo da vida de Annah. Cada objeto, cada ângulo da casa, pareciam
impregnados pela presença daquele homem maravilhoso.
Como se sentia infeliz...
Depois de um longo passeio vespertino, durante o qual seus olhos ficaram
constantemente marejados pelas lágrimas, Annah finalmente encontrou coragem para voltar para
sua própria casa. E para todas aquelas recordações dolorosas...
BD 678.2 – UM Príncipe Irresistível – Lisa Kaye Laurel [Royal Weddings 3] 68

Na verdade, depois do que acontecera na noite anterior, estava até mesmo pensando em
vender a propriedade. À medida que se aproximava da casa, decidiu que faria exatamente isso.
Talvez conseguisse viver num outro lugar, longe daquela lareira...
— Olá.
A voz potente vinha de algum lugar no meio das folhagens. Annah precisou estreitar os
olhos para reconhecer o vulto recostado no troco de um frondoso carvalho, e imediatamente teve
que prender a respiração. Era impossível que aquilo estivesse acontecendo.
— Luke! O que está fazendo aqui? — perguntou.
— Meu jato já estava quase levantando voo... — ele murmurou sem se mover um
milímetro — ...quando me lembrei de que deixei algo que me pertence aqui.
— Mas...
Tinha limpado o quarto de Lucas pela manhã, antes que o portador partisse, para
certificar-se de que nada ficaria para trás. Inconscientemente, não quisera que restasse vestígio
algum, nenhum traço da presença de Lucas na casa. Nada que pudesse aumentar ainda mais seu
sofrimento.
— Vamos entrar — o príncipe sugeriu, avançando e estendendo-lhe a mão. — Querida,
você está congelando! — Em seguida conduziu-a até a lareira e num instante acendeu o fogo.
Durante a operação, Annah observava-o calada, incapaz de articular palavra. Seu coração
batia num ritmo violento, a ponto de fazê-la ter medo.
— Sabe exatamente o que deixou aqui?
Ele virou-se para encará-la, os olhos cinzentos enevoados por uma emoção profunda.
— Sim. Agora sei o que tenho que fazer e o que vim buscar. Tudo tornou-se claro de
repente... e por sua causa.
— Minha causa?
O príncipe sorriu ao observar a reação de surpresa.
— Você. Foi você quem me ensinou a confiar em meus instintos outra vez. Há muito
tempo o medo e a insegurança dominavam minhas atitudes, o que só piorava as coisas. —
Satisfeito com a altura das chamas, Lucas levantou-se e foi sentar-se ao lado dela. — Está tudo
ali, naquela lareira. Como você disse. A fagulha da atração, as chamas estáveis da
compatibilidade e do companheirismo e as labaredas incontroláveis da paixão. Quando uma
pessoa encontra esse tipo de coisa, jamais poderá viver novamente sem isso, ou estará
condenado a uma existência fria e sombria. E pode acreditar que não pretendo passar assim o
resto de minha vida. Nem deixar que a mulher que amo faça isso.
O coração de Annah parecia prestes a explodir. Ela não era capaz de falar. Lucas
continuou:
— É difícil não confiar nos próprios instintos, especialmente quando eles são mais
poderosos do que qualquer força conhecida pela natureza. Sabe sobre o que estou falando, não
sabe?
— Eu... eu...
— Está tudo bem, querida. Sei que isso é assustador. Foi assim comigo também.
Mas agora compreendo tudo. Por isso decidi tomar a iniciativa de romper o círculo do medo. —
Tomando-a nos braços, ele usou o dedo indicador para forçá-la suavemente a encará-lo. — Eu te
amo. Tanto, que já não posso mais pensar em viver sem você. Quero que seja minha rainha, para
que passemos o resto de nossas vidas lado a lado. — A voz dele falhou, transformando-se num
sussurro. — Por favor, diga que aceita.
Lágrimas caiam pelo rosto dela, em abundância.
— M-mas... eu não sou a mulher certa para você.
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— Sim, você é — ele disse gentilmente. — Emocional, física, espiritualmente ou em


qualquer outro aspecto. O amor que nos une é mais forte que tudo. Posso sentir isso.
— Mas e se eu não...
— Tudo o que precisa fazer é me amar.
— Mas...
— Apenas me ame, e deixe-me amar você. Todo o resto vai funcionar, acredite.
— Não me refiro apenas ao problema da sucessão. É que você quer tanto ser pai...
— E você, mãe.
— E-eu... eu te amo demais para destruir seus sonhos.
— E eu te amo demais para deixá-la desistir dos seus. Case-se comigo e lhe
mostrarei como substituir essas lágrimas por fé.
Mas ela seria capaz daquilo? Não sabia ao certo.
— Não quero fazer promessas que não posso cumprir.
— Compreendo — Lucas murmurou em voz baixa, mantendo uma expressão
impassível. — Mas não estou lhe pedindo promessa alguma. Seu amor é tudo o que quero.
Finalmente ela desistiu de lutar contra aquilo que seu coração praticamente gritava desde
o princípio.
— Ele é todo seu. — A proximidade do abraço fez com que Annah sentisse a
pulsação do príncipe acelerar-se.
— Você será minha rainha?
— Sim.
Annah queria dizer que o amor de Lucas era tudo o que desejava, mas, antes que pudesse
falar, teve seus lábios capturados num beijo longo e apaixonado. Agora o fogo da paixão deixara
de ser uma metáfora. A lareira crepitava como música. E, embora nenhum dos dois notasse,
naquele exato momento o primeiro floco de neve do ano bateu contra a vidraça, anunciando o
inverno.

EPÍLOGO

O casamento aconteceu em menos de um mês, mas as cerimônias oficiais de celebração


das núpcias e da posterior coroação do rei Lucas estenderam-se por mais seis semanas.
A lua-de-mel foi uma espécie de sonho, passada numa das propriedades de Lucas na
Grécia.
O povo das ilhas Constellation saudou Annah como a mais popular rainha de todos os
tempos, pois foi imediatamente conquistado pela energia e a beleza de sua nova soberana.
No verão seguinte, os dois resolveram passar uma temporada na ilha Anders, para rever
os amigos. Também já coroado, o rei Erik demonstrava alegria absoluta pelo nascimento de seu
primogênito, o príncipe Nicholas, o qual fazia questão de levar no colo aos jogos do nobre astro
convidado para as partidas de hóquei em sua nação.
Como o técnico do time, o bom goleiro Carl, costumava dizer, a equipe não conseguira
um reforço qualquer, mas sim um reforço real.
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Mas a alegria de todos ampliou-se ainda mais no dia do jogo final do campeonato. Não
só o time do rei Lucas venceu, como ele também foi informado que logo teria um parceiro para a
prática de esportes.
Depois da constatação de que se tratava de um menino, o casal decidiu chamá-lo de
príncipe Ethan Hansson de Anders e Constellation, numa homenagem à origem dos pais.
Annah, aliás, apressou-se em mandar rezar missas solenes nas catedrais das nações irmãs
das ilhas Constellation e Anders, para agradecer a realização das proféticas palavras de seu
amado marido e companheiro.
Quando os sinos tocaram no mês de julho, portanto, anunciavam a quem quisesse ouvir
que a fé, mais uma vez, fizera o verdadeiro amor triunfar sobre todas as dificuldades do mundo.

* * * *

LISA KAYE LAUREL trabalhou em várias áreas, mas costuma dizer que nada se
compara aos desafios — e recompensas — de ser uma mãe em tempo integral. Sua energia
extra é destinada à criação de histórias. Ela considera que poder escrever é uma das maiores
graças que recebeu, mas acredita que a maior benção é poder contar com o amor e o apoio
de seu marido, seu casal de filhos e seus pais.