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ESTADO TOTALlTARIO E ESTADO AUTORITARIO·

Presidente: MIN.THEMISTOCLES CAVALCANTI.


Coordenador: PROF. D.JACIR MENEZES.
Membros: PROF. GLADSTONE CHAVES DE
MELO; PROF. CELSO LAFER; PROF. MADA-
LENO GIRÃo BARROSO; PROF. ADILSON VIEIRA
MACABU; PROF. HELVÉCIO DE OLIVEIRA
AzEVEDO.

Presidente - Iniciando nossa reunião, acho que podemos fazer um tra-


balho e esclarecer alguns pontos interessantes do nosso tema.
~ tema atual e não deixa de ter suas controvérsias.
Vou passar a palavra ao Prol. Djacir Menezes, que foi quem elaborou
o documento de trabalbo e é quem comanda esse setor do Instituto.
Djacir - Sr. presidente, creio que todos leram o questionário apresentado
e no momento, para não perdermos tempo, acho que V. Ex~ deve dar a
palavra àquele que primeiro quiser abrir o debate.
Presidente - O Prof. Vicente Barreto, a quem convidei, não pôde vir e
avisou agora. Lamento muito, porque realmente os pontos de vista dele
são conhecidos e interessantes.
Quem quer começar a exposição? O Prof. Gladstone quer começar?
Gladstone - Posso começar.
Primeira ,questão:
"Considera autoritarismo como simples expressão política do poder, ou
hipertrofia dos órgãos do Executivo?"
Começaria por dizer, talvez cedendo a um hábito do ofício, que o vo-
cabulário político é extremamente movediço quanto à sua área semântica
e freqüentemente carregada daquilo que os estilistas chamam de conota-
ção, a par de denotação, que é o sentido próprio de uma palavra, que é
. um signo vocal, a palavra pode, ou num determinado momento ou em
momentos sucessivos, adquirir conotações, quer dizer, modificações do

• Mesa·redonda realizada em 17.9.76.

lt., Ci.pol.,· . 1Uo de Janeiro, 20(1):85.117 ..


jan./mar. 1917
.
sentido que eventualmente podem até vir a contrastar com a denotação,
o sentido primeiro.
Autoritarismo então está à base de autoridade. Parece-me que a primeira
distinção que se deveria fazer e geralmente se faz, é entre autoridade e
poder.
Já há muito se perdeu a noção dessa distinção, mas nem por isso me
parece que ela seja menos atual.
Autoridade é o direito de comandar, direito de mandar. Assim, por
exemplo, os pais têm autoridade sobre os filhos, menores é claro. E poder
é a força que só tem sentido na medida em que esteja a serviço da
autoridade.
Nesta perspectiva, portanto, um governo que se tenha assenhoreado
violentamente das alavancas, dos órgãos do poder e seja um governo ile-
gítimo, será um governo que tem o poder, mas não tem a autoridade.
De modo que, assim considerado, nenhum governo pode ser governo
se não tiver autoridade. E assim entendido, autoritarismo podia tomar-se
como sinônimo simplesmente da expressão política do poder público, na
hipótese que o detentor dele seja cônscio da sua autoridade ou do seu
direito de mandar e use a força moderadamente como instrumento de
exercício dessa autoridade.
Agora, como no mundo moderno o sufixo ismo no relativo às palavras
do vocabulário político tende às vezes a ter certa tonalidade pejorativa,
outras vezes uma conotação de sistema, seria o caso de entender-se por
autoritarismo a atitude do governo que abusa da autoridade. E em boa
filosofia, quem abusa da autoridade, na medida mesmo em que abusa, não
está usando autoridade, quer dizer, está passando do exercício da auto-
ridade para o exercício já mais ou menos desmandado do poder.
No meu entender, portanto, a palavra tem um sentido pacífico e tem
um sentido pejorativo, quer dizer, um sentido legítimo e um sentido
pejorativo.
Se se entender por autoritarismo o simples exercício da autoridade que
foi conferida a alguém por um processo aceito e apontado na Constituição
ou nas tradições, será um governo autoritário, um governo que tem auto-
ridade e por conseguinte tem direito de promover o bem comum, que é a
função do governo.
Agora, se por aí se entende aquele que, embora investido corretamente,
legalmente, de jure da autoridade, ultrapassa os limites dessa autoridade
e que centraliza na sua pessoa ou no grupo que está mais próximo dele
todo o exercício da autoridade, não deixando que ela seja exercida por
outros em escala menor que também tenham condições ou direito para
isso, então ele ultrapassou a área da autoridade e entrou na área, já, do
poder desmandado. Nesse caso caberia essa segunda hipótese, "hipertrofia
dos órgãos executivos". Quer dizer, seriam os órgãos executivos a chamar
a si por extrapolação, por excesso, aquilo que na Constituição do País ou
nos costumes daquele corp opolítico, pertence, de direito, à esfera, à função
legislativa ou à função adjudicante.

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Apenas para começar o debate eu diria estas coisas.
Presidente - Prof. Lafer?
Lafer - Eu gostaria de fugir um· pouco à letra dos termos da primeira
pergunta, mas creio que a linha das minhas observações preliminares se
inserem dentro da substância da problemática que o roteiro proposto pelo
Prof. Djacir visa detectar e esclarecer.
Presidente - Queria advertir de que esse documento é apenas uma diretriz
geral adotada pelo Prof. Djacir Menezes, mas que os debatedores não são
obrigados a seguir. Cada um fará a exposição que achar conveniente,
dentro do tema.
Lafer - O conceito de autoritarismo se fixa, modernamente, a partir de
um contraste com o conceito de democracia e com o conceito de totalita-
rismo. A sua análise requer tanto um exame histórico, que explique a
gênese e a especificidade do fenômeno, quanto um esquema tipológico que
auxilie na caracterização operacional das notas que diferenciam o regime
autoritário dos demais tipos de regime.
Linz - um dos importantes estudiosos do autoritarismo - caracteriza,
tipologicamente, como autoritário o regime onde prevalece um pluralismo
limitado, porém não responsável; onde existe uma mentalidade típica, que
permeia as atividades do governo, mas não uma ideologia condutora ela-
borada e onde o grupo que exerce o poder atua dentro de limites formal-
mente mal definidos, mas que, no entanto, são previsíveis, em função do
pluralismo limitado e da mentalidade típica.
Esta elaboração tipológica proposta por Linz parte de uma tentativa
de diferenciar os regimes autoritários das democracias e dos totalitarismos,
seja salientando, por exemplo, para efeitos de contraste, no que diz respeito
à democracia a dimensão de cooptação e da não-representatividade do
seu pluralismo, seja apontando, por exemplo, para efeitos de confronto,
no que diz respeito ao totalitarismo, a existência de mentalidades, enten-
didas como formas de pensar e de sentir, que proporcionam maneiras não-
codificadas de reagir a situações diferentes - subjektiver Geist, diz Linz,
citando Theodor Geiger - e não subjektiver Geist, ou seja, ideologias,
que se propõem a decodificar, num pacote auto-abrangente, a realidade,
inclusive para efeitos de mobilização política e social.
Conforme se verifica, a operacionalização da proposta de Linz exige
um conceito preciso de democracia e de totalitarismo, que permita· traçar
os limites e as fronteiras do fenômeno autoritário. No que diz respeito à
democracia - diga-se de passagem - isto é ainda mais evidente, pois
freqüentemente regimes autoritários se autodenominam democracias bá-
sicas ou seletivas, democracias orgânicas ou condutoras, ao passo que,
regra geral, nenhum regime autoritário se vê como totalitário.
Uma taxonomia, para ser sólida, deve ser fruto da elaboração de tipos
ideais, no sentido weberiano, ou seja, de uma proposta de organização de
relações inteligíveis, próprias a um conjunto histórico e a uma suces~ãC)
de acontecimentos. Daí a importância dos estudos sobre a gênese histórlca
dos regimes, que são os que dão consistência às tipologias operacionais.
B por essa razão que os conceitos tipológicos de democracia e de totali-
tarismo mcdernos não podem, por exemplo, desconsiderar análises clás-
sicas, como a de Tocqueville e a de Montesquieu, e não podem prescindir
de estudos mais recentes, como os de Wittfogel (Oriental despotismo 1957),
Barrington-Moore (Social origins of dictarship and democracy. 1966), sem
falar, é claro, nos de Hannah Arendt. O ponto fraco na caracterização
dos regimes autoritários - e com isto encerro a minha intervenção, que
visa demarcar o que entendo como o território do debate - é precisa-
mente o estágio insuficiente em que se encontram os estudos históricos
sobre a sua gênese. Neste campo, merecem ser lembrados os trabalhos,
ainda em fase de elaboração, de Guillermo O'DonneIl.
Presidente - Com a palavra o Dr. Madaleno Girão Barroso.
Barroso - Para orientar a minha parte, nós debates, fiz um pequeno es-
quema que, espero, não se torne grande, em relação ao tempo. Corres-
pondendo, exatamente, à exposição que acaba de ser feita pelos compa-
nheiros, eu me ative, inicialmente, ao problema de definição e conceitua-
ção de autoritarismo. Evidentemente, podemos concordar, de maneira inte-
graI, com o Prof. Gladstone, quando distingue autoridade de poder.
Realmente: o "foco" do autoritarismo é a autoridade. Embora esse ponto
de vista possa determinar divergências, porquanto, na atualidade, o auto-
ritarismo não é, apenas, o exercício da autoridade, mas extrapola, se es-
tende para o exercício do próprio poder. De modo que o autoritarismo é
a forma mais ou menos autoritária - digamos assim, numa espécie de
redundância necessária - de exercício do poder.
Gostaria, antes de tratar deste aspecto, realmente muito bem salientado
aqui, referir-me à significação do tema, sobre a qual já fez menção o
Prof. Themistocles. Essa significação resulta do fato de que todos os re-
gimes, na atualidade, têm, não somente a tendência, mas uma verdadeira
vocação para o autoritarismo. E a tendência é coisa natural, mas a vocação
é coisa dirigida, orientada e isso até acontece, doutrinariamente, na esfera
do autoritarismo. E a prova disso está, não somente nessas formas a que
o Min. Themistocles faz referência, citando Lintz, como em outras ex-
pressões que encontramos, por exemplo, em Gunnar Myrdal, economista
sueco, que também se dedica à política e fala, no seu livro, O estado do
futuro, no chamado "Estado organizativo". Por sua vez, KarI Mannheim,
no seu livro Diagnóstico de nosso tempo, fala em democracia militante.
Divergi, há pouco, e vimos um livro dele, aqui publicado, traduzido para
o português, onde faz referência às Modernas Tecnodemocracias. E o
próprio Prof. Del Vecchio, italiano, filólogo e jurista de nomeada, que
tem orientação filosófica para o campo do liberalismo, reconhece a exis-
tência de um possível "Estado dinâmico". Estado que não é apenas passível,
no realizar as suas atividades, deixando maior esfera de ação para o campo
privado, porém assume certo grau de dinamismo, para resolver os pro-
blemas contemporâneos. Todas essas pressões, aplicadas ao Estado, cono-
tadas ao Estado, que, de certa forma, o qualificam, estão a demonstrar
essa vocação a que me referi dos sistemas políticos atuais para o campo

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do autoritarismo. Sabemos que o. IJlltoritarismo não é do nosso tempo,
sempre existiu e a lição mais profunda dada neste particUlar foi a dos
romanos. E esta lição dos romanos, para n6s, é muito interessante. Por
que? Porque é verdade que eles instituíram uma ditadura. Os romanos, se-
gundo revelam os senadores, tiveram mais de 80 ditaduras. Mas o fize-
ram com a finalidade eminentemente social e não para realizar uma di-
tadura em si mesma, com o fim em si mesma, mas com o objetivo de
resolver a problemática das crises que se verificaram durante a vida de
Roma. Então, a lição deles é muito importante para n6s, o que está a
demonstrar que eles criaram uma regra na exceção. Quer dizer, admitiram
a ditádura como a forma legal, digamos assim, jurídica, constitucional,
mas apenas no sentido de resolver problemas de crises ocorrentes, durante
o Império Romano. Esta a grande lição que nos proporcionaram os ro-
manos, que pode, hoje, ser observada por n6s, na medida em que fazemos
a crítica dos poderes, dos sistemas totalitários da nossa época.
Passando deste ponto e voltando, então, à conceituação do autoritarismo,
divirjo, um pouco, dos colegas, na parte em que o consideram como uma
concepção, uma expressão política do poder, segundo consta do nosso
auestionário. Também na parte em que o Prof. Lafer estabeleceu a opo-
sição entre autoritarismo e democracia.
No que se refere à definição que está no questionário, entendo o se-
~inte: o autoritarismo não é, propriamente, uma exoTessão nolítica do
poder~ parceria, no máximo, uma exnressão potestativa dos sistemas
nolíticos. Sabemos que os sistemas políticos são mistos óu intermediários
entTe as democracias e as autocracias. Citamos aoui Giscard oue, quando
entrevistado, disse que os únicos sistemas puroS' são a democracia. de um
lado. e a autocracia, de outro. Nenhum dos dois se realiza inteiramente.
mas através de ensaios de democracia ou de autocracia. em muitas mani-
festações políticas, ao correr do tempo. Então, o autoritarismo não chega
a ser um sistema político. Não está na classificação desses sistemas.
:e um halanco dos dois. Como dizia, por isso mesmo, poroue não está
11:\ classificacão dos sistemas poüticos, feita por muitos autores. desde
Platão. Aristóteles e outros, até nossoS' dias, a palavra autor;tarismo. que
é aoenas uma manifestação do poder ou do exercício do poder. da forma
como o noder e'lCerce a sua autoridade, com maior ou menor força, sobre
a coletividade. Portanto, autoritarismo não é um sistema nolítico e nem,
nnrtanto, por isso mesmo, chega a ser uma expressão política do "oiler.
Diria, antes, Que é uma forma potestativa, mais ou menos autoritária,
do exercício do poder.
Quanto à antinomia entre autoritarismo e democracia, eu estive lendo,
há "oucos dias. aquele autor espanhol, Xifra Heras, no seu livro Modernas
tendências políticas, em que, ao lado de outros autores Que também con-
sultei, ele reconhece que a oposição não é entre autoritarismo e· demo-
cracia, nem tampouco entre autoritarismo e autocracia, mas sim entre
autoritarismo e liberalismo.

Estado
De modo que, por isso, eu acho que o autoritarismo não se confunde,
não se identifica com autocracia e muito menos com a democracia e se
opõe, na verdade, é ao liberalismo. Liberalismo e autoritarismo são duas
formas de exercício do poder que oscilam ao mesmo tempo, determinando
o grau de força, de poder, de autoridade dos regimes políticos.
Era s6 o que tinha a dizer.
Presidente - Vamos continuar o debate, restringindo-nos, por enquanto,
aos convidados. Depois darei a palavra aos membros do Instituto. Querem
continuar a debater o assunto? O Prof. Gladstone tem algo mais a
dizer? Tenho certeza que sim.
Gladstone - Eu estou de acordo - talvez eu tenha feito uma formulação
muito sintética - com os dois debatedores que se seguiram a mim.
Estabeleci, inicialmente, a diferença entre autoridade e poder. Na medida
em que autoritarismo significasse o exercício legítimo da autoridade - eu
disse - seria perfeitamente aceitável e o regime assim constituído seria
um regime bom. Agora, como o sufixo ismo, no vocabulário político, tende
sempre a representar um acento tônico, uma carga, então por autoritarismo
se pode entender também o abuso da autoridade, o exercício imoderado
da autoriçlade, o exercício desaçaimado da autoridade, na medida em que
a autoridade, o governo, exerce autoridade além de seus limites, por isso
mesmo, ele está passando do legítimo ao ilegítimo, está portanto entrando
na esfera do puro poder e, conseqüentemente, estará mais ou menos se
afastando de um regime ideal que, no meu entender, também não deve ser
a liberal democracia, que tende ao anarquismo.
Acho que no fundo estamos de acordo com isso: atribuindo ao sufixo
ismo essa tonalidade pejorativa, o autoritarismo significaria - concordo
também em que não seja propriamente a definição de um regime - a
atitude de um governante que ultrapasse os direitos da sua legítima autori-
dade e portanto, nesse momento mesmo, perde a autoridade no sentido
próprio, jurídico da palavra, o direito de mandar, e passa a usar a força,
então necessariamente em detrimento de outros 6rgãos que têm autoridade.
Daí porque eu acho que pode ser identificado, classificado, dentro da
proposta inicial, como hipertrofia dos 6rgãos executivos, em detrimento
dos órgãos legislativos e dos 6rgãos judiciários. Na medida em que seja
em detrimento desses dois ele está exercendo ilegitimamente, e portanto
s6 potestaticamente, aquilo que originariamente seria o exercício legítimo
da autoridade.
Acho que no fundo estamos todos de acordo. Eu também concordo nessa
distinção entre autoritarismo e totalitarismo e concordo com ele em que
autoritarismo não é um regime mas a atitude de um governante.
Djacir - Essa dicotomização feita pelo Prof. Madaleno, de que há uma
antinomia apenas entre democracia e autocracia, comportaria a inserção da
oligocracia. Aliás, rigorosamente, uma autocracia é sempre uma oligocracia
larvar ou patente, isto é, disfarçada ou clara.
Agora, voltando ao conceito democrático, começam as dificuldades,
pelos adjetivos: democracia orgânica, democracia popular, democracia

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liberal; enfim, qualquer adjetivo que se acrescente toma o problema da
democracia visivelmente deformado.
Mas se por acaso se examina a democracia como conceito um tanto
dinâmico, como processo, a maneira de círculo decisório variável na sua
área, ora nos aproximamos do pólo democrático, historicamente, ora, à
medida que ele se restringe, dirigimó-nos ao pólo autocrático: então,
esse processo é algo de vivo, que cresce ou decresce, dentro da comunidade
política. Parece-me que isso é uma visão mais concretamente histórica
da democracia. O problema então se restringiria ao círculo decisório,
segundo a participação maior ou menor de elementos que subjazem, por
assim dizer, na área do poder.
Quanto ao autoritarismo não ser propriamente um regime, acho que
estamos todos de acordo.
O poder, quando recrudesce, vai tomando outras configurações e nós
sentimos a mobilidade desses conceitos dentro do quadro histórico, os
senhores não acham?
Presidente - Apesar de alguns autores, na classificação de regimes, colo-
carem o autoritarismo como regime.
Djacir - Sim. A nomenclatura da ciência política tem suas vacilações.
Barroso - Esta nomenclatura é mais recente?
Djacir - Ela considera o regime autoritário.
Lafer - O terceiro volume do Handbook 01 political science, organizado
por Fred. I. Greenstein e Nelson Polsby e publicado em 1975, considera
no primeiro capítulo, escrito por Huntington e Dominguez, o que é desen-
volvimento político. A seguir, no segundo capítulo, de autoria de Dahl,
estuda-se a relação entre governo e oposição. O terceiro capítulo, da lavra
de Linz - que é o autor que mencionei na minha primeira intervenção
- trata dos regimes autoritários e dos regimes totalitários. Os capítulos
subseqüentes deste terceiro volume tratam da teoria da ação coletiva, da
revolução e da violência coletiva e da relação entre estrutura social e a
política. Conforme se vê, no estudo da macropolítica, que é o títu10 geral
deste terceiro volume, o mais recente esforço, nos Estados Unidos, de
mapear o universo da ciência política, inclui o estudo dos regimes autori-
tários como uma categoria importante.
Barroso - Eu proporia que nós não aceitássemos aqui autoritarismo como
regime, porque esta concepção para mim é completamente errônea.
Em qualquer regime existe maior ou menor autoritarismo, depende da
força da autoridade, mas ele não chega a ser um regime político. :g uma
nuança dos sistemas políticos, que se verificou em todos os tempos e na
atualidade. Eu acho que deveríamos chegar a uma conclusão neste par-
ticular, rejeitando o autoritarismo como sistema político.
Gladstone - Seria mais uma atitude, não?
Barroso - Uma atitude.
Helvécio - Baseia-se no critério do tamanho da elite dirigente a classi- .
ficação de oligocracir. .do Prof. Djacir. Mas uma dicotomia com base no
tamanho da elite é sempre uma oligocracia.

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Djacir - A oligocracia, quando se conceitua bem, não é qualquer grupo
dominante. Se esse grupo tiver mais permeabilidade ao meio na expressão
de elites circulantes, não é propriamente uma oligocracia.
Helvécio - Quero dizer o seguinte: talvez os critérios mais eficazes de
definição, no que se refere a totalitarismo e autoritarismo devam situar-se
no subsistema cultural e no grau de legitimação alcançada e não sejam
os que dizem respeito ao tamanho das elites.
Presidente - E um critério.
Helvécio - No subsistema cultural, vemos que tanto no totalitarismo
quanto no autoritarismo há ideologia e não mentalidade ou atitude, ao
contrário do que diz Linz.
-Em minha opinião, ocorre com o regime autoritário que sua ideologia
perde as características mobilizadoras, tomando-se aquilo que Mao Tsé-
tung, em sua linguagem pitoresca, chama de "ossos mortos" ou "ossos
vazios". Por exemplo: na República Velha brasileira havia uma ideologia,
que era o liberalismo' europeu. Contudo, tal liberalismo já havia perdido
a força mobilizadora que apresentava na época da burguesia revolucionária
do século XVIII. Mesmo assim, segundo evidencia conhecida pesquisa de
Décio Azevedo Marques Saes, o liberalismo desempenhou função impor-
tante na legitimação, junto a certos setores, do regime oligárquico da
República Velha. Era realmente um excelente biombo camuflando uma
segunda ideologia afetivo-particularista (rivalidades pessoais, amizades,
relações entre "correligionários", simpatias etc.) uma ideologia, portanto,
infinitamente menos elaborada e mais terra-a-terra. Esta segunda ideologia
é que iria justificar efetivamente as alianças e os conflitos entre as várias
fações ou lideranças oligárquicas. Dessa forma, a característica definidora
do autoritarismo igualmente se situa no subsistema cultural e também no
grau de legitimação (no sentido sociológico de aceitação). Deve-se reco-
nhecer que o autoritarismo também possui um processo de mobilização
política, mas tal processo aqui é do tipo "natural" e desprovido de carisma.
Trata-se daquela mobilização presente em todo sistema político quando
numa conjuntura normal. Mobilização aqui teria o sentido dado por Karl
Deutsch: indução das pessoas a novas atitudes e padrões de comporta-
mentos. Com o que se avizinha bastante, nessa modalidade, do conceito
de socialização política. Já no totalitarismo a mobilização assume a forma
de movimento de massa. Num totalitarismo vivendo a fase de movimento
de massa, ideologia é mobilizadora, eficaz, ainda longe de ser um "osso
morto", ao lado de outras variáveis necessárias: liderança eficaz, alta taxa
de coerção, um partido político de massa e organizado de modo sistemi-
camente necessário, propaganda adequada às características da situação etc.
A ideologia do autoritarismo não é mobilizadora, mas somente justificadora
e camufladora. Como mostraram várias análises correntes, o autoritarismo
brasileiro atual, tem igualmente uma ideologia liberal.
Macabu - Não necessariamente. O autoritarismo nem sempre está alicer-
çado numa ideologia; pode evoluir para uma ideologia.

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Helvécio - Permito-me discordar. Reitero que a ideologia autoritária
apenas não' é mobilizadóra, servindo; pOrém, para justificar e escamotear
certo estado de coisas junto a alguns segmentos sociais significativos (não
junto a toda a sociedade, o que é impossível e de resto desnecessário:
os demais estratos são subordinados). Existe uma ideologia, mas com
funções, de certa forma, mais limitadas. E, se tal ocorre, é porque há na
sociedade uma razão funcional e suficiente. Isto é perfeitamente normal e
freqüente na vigência das ideologias. Como demonstrou consistentemente
Décio Saes, tal ocorreu com a ideologia liberal na Primeira República.
Não se trata de mera mentalidade ou atitude, como pretende Juan Linz.
Barroso - Eu diria, é extremamente mais que qualquer outra ação política,
sumamente ideológica. E o fator fundamental que há, que atua sobre uma
constante e faz com que ele seja .autoritário e,atuede certa forma sobre
a sociedade, é a ideologia justamente, que é uma contrafação do racional.
Macabu - Em regra o regime autoritário resulta da crise de uma demo-
cracia, ou da fragilidade de uma sociedade tradicional, ou da presença de
uma situação colonial, ou mesmo da existência simultânea de alguns desses
fatores.
O sistema autoritário não está obrigatoriamente amparado numa ideo-
logia.
Presidente - Vamos continuar com o Prof. Lafer.
Lafer - Gostaria de partir de algumas considerações do Prol. Helvécio,
para discutir uma das possíveis dimensões deste debate. Mencionei, na
minha intervenção inicial, o problema da relação entre democracia e auto-
ritarismo, mas tenho a impressão de que é mais fecundo, do ponto de vista
da discussão, examinar o outro lado da questão, também já apontado, que
é a relação entre o totalitarismo e o autoritarismo.
O Dr. Girão lembrou, há pouco, taxonomias de formas clássicas de
governo, e o Prof. Djacir aprofundou o debate, inserindo a idéia de dinâ-
mica e de pólos democráticos e autocráticos, identificáveis pela maior ou
menor participação da comunidade política no círculo decisório.
As formas clássicas de governo, no entanto, seja no seu aspecto positivo,
seja no seu aspecto negativo - o governo de um, de poucos ou de muitos,
pode ser bom ou mau, como já ensinava Aristóteles - se assinalam todas
por serem conceituações derivadas da experiência histórica acumulada da
humanidade. O totalitarismo, no entanto, como aponta Hannah Arendt,
representa uma coisa nova, fruto das circunstâncias excepcionais do século
XX, e está ligado a uma perda de sabedoria, que pode ser definida como
a dificuldade de discernir, num contexto, as classes de perguntas que
devem ser feitas.
Esta perda de sabedoria, para Hannah Arendt, deriva de uma ruptura
histórica, por ela denominada a lacuna entre o passado e o futuro, que
exige, conseqüentemente, um exame do presente. A prova empírica da
ruptura é o fenômeno totalitário, pois esta nova forma de governo e domi-
nação, baseada na organização burocrática de massas, no terror e na ideo-
logia, provou não existirem limites à deformação da natureza humana,-

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uma vez que representou o desdobramento não esperado, tanto da utopia
liberal-capitalista (nazismo), quando da utopia socialista (stalinismo).
Em outras palavras, se o regime totalitário, enquanto forma de governo,
foi compatível com o desdobramento da utopia capitalista e da utopia
socialista, apesar de com elas ser teoricamente incompatível, evidencia-se
neste processo uma ruptura significativa, que exige uma reinterpretação dos
mecanismos da sociedade contemporânea. A reinterpretação de Hannah
Arendt parte de uma proposta genética, da qual depois deriva um esquema
tipológico. Para ela, a gênese do totalitarismo se calca em três elementos:
o primeiro elemento é o anti-semitismo. De acordo com Hannah Arendt,
o anti-semitismo moderno, que se inicia no século XIX, é completamente
diferente da intolerância religiosa ou dos problemas de convivência de
credos diferentes numa comunidade política, típicos por exemplo do anti-
semitismo tradicional.
O anti-semitismo moderno surge como uma tensão na relação Estado-
sociedade civil, no processo de modernização e de extensão da cidadania
na Europa. Sem entrar em maiores detalhes, diria basicamente que certos
conflitos entre Estado e sociedade civil se realçaram com o romantismo
e o particularismo da restauração conservadora do século XIX, que foi
uma das reações ao racionalismo da Ilustração que, com o seu liberalismo,
tinha feito com que os judeus participassem e desempenhassem um papel
no fortalecimento do Estado, por força do financiamento de suas ligações
inter-européias. Na tensão entre o Estado (país formal) e a sociedade
(país real), os judeus, porque estavam identificados com o Estado, de
quem tinham recebido as franquias, catalisaram as irritações da sociedade
civil.
Macabu - Permite-me?
Com referência a Hannah Arendt propriamente, acho muito importante
essa colocação. Ela procurou dar nova concepção ao totalitarismo, fazendo
uma abordagem das formas totalitárias do nazismo na Alemanha e do
stalinismo na União Soviética.
De sorte que ela considerou o totalitarismo como uma formulação teórica,
sem caráter científico, abonado na experiência do nazismo, na Alemanha,
no período de 40 a 45 e, do stalinismo na Rússia, no período de 34 a 38
e nos primeiros anos a partir de 1949.
Ela teve o mérito de ser a precursora, na identificação dos dois sistemas ao
afirmar que a ideologia que estimulou o stalinismo e o marxismo pretendia
criar uma nova sociedade, alicerçada num conjunto de ideais, que, doutri-
nariamente, tencionava conseguir uma base lógica e racional. O nazismo,
diversamente, sustentado no hitlerismo, tinha por objetivo, a ampliação
do território, insuflado pela idéia de superioridade alemã, e motivado pela
exterminação da pseudo-raça inferior, o que gerou a brutalidade total do
campo de concentração e da câmara de gás. Em conseqüência, apesar da
racionalidade pretendida pelo marxismo e da desordenação irracional do
hitlerismo, ambos apoiaram e disseminaram o emprego do terror, o que
<lcasionou grandes irracionalidades, inclusive quanto aos próprios objetivos

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inicialmente previstos. Do exposto, verifica-se que a experiência do totali-
tarismo está apoiada num forte C()mponen~ de irracionalidade.
Lafer - Agradeço a sua intervençã<t, que se insere na lógica geral da
minha exposição, ao realçar o componente da irracionalidade e, portanto,
a dimensão da perda da sabedoria da experiência totalitária. Se me permite,
desdobro meu argumento apontando, com Hannah Arendt, que o anti-
semitismo moderno é uma antecipação paradigmática do totalitarismo, na
medida em que introduziu duas notas fundamentais que, depois, entraram
no bojo da tipologia' do totalitarismo: são elas o uso da mentira e o
conceito de "inimigo objetivo". O "inimigo objetivo" é aquele que, inde-
pendentemente de sua conduta, é tido pelas lideranças como uma pessoa ou
um grupo que deve ser condenado, discriminado ou eliminado. A sua iden-
tificação "objetiva" é fruto de mentira,. entendida como uma manipulação
ideológica dos fatos, que visa ajustar a realidade a uma determinada pro-
posta do poder. Assim, a condenação dos judeus, enquanto um grupo e
não como indivíduos, baseada em certas falsificações - como por exemplo
Os protocolos dos sábios de Sião - constitui uma antecipação paradigmá-
tica, no século XIX, da dinâmica dos regimes totalitários do século XX.
Este é o primeiro elemento da gênese do totalitarismo, de acordo com
Hannah Arendt. O segundo deriva de uma análise do imperialismo. O
imperialismo representou para Hannah Arendt, o resultado da emancipação
política da burguesia, que deixou de se dedicar com exclusividade aos seus
negócios privados, e assumiu, num determinado' momen~o do século XIX,
a gestão do Estado. Nesta gestão, promoveu a exportação do capital
supérfluo da Europa e instaurou a dominação imperial como mecanismo
de administração deste capital exportado. A conseqüência do imperialismo,
. do ponto de vista da análise de Hannah Arendt, é que nele se encontram,
assim como no anti-semitismo, notas que depois vieram a configurar o
paradigma totalitário, enquanto forma de poder e dominação. A primeira
nota é o racismo, provocado pela perda do senso da realidade dos europeus,
na estranheza de seus contatos com os outros povos, o que permite esta-
belecer, pelas insensibilidades geradas, ligações com o genocídio. A segunda
nota é a dinâmica do expansionismo imperial e a sua relação com a
noção de dominação total, típica do totalitarismo. Finalmente, a terceira
nota é a burocracia como uma nova forma de administração em larga
escala de massas. O imperialismo, portanto, também representa uma ante-
cipação do paradigma totalitário, porque o racismo prefigura o genocídio,
o expansionismo prepara a dominação total e a burocracia imperial mostrou
o caminho para o mecanismo da administração em larga escala de grandes
populações.
O terceiro elemento da gênese do totalitarismo, para Hannah Arendt, é
o processo de transformação, no século XX, na Europa, das classes em
massas, cujas necessidades de coesão seriam posteriormente mobilizadas
por apelos ideológicos, administrados pela burocracia dos regimes totali-
tários, e suplementados pelo emprego do terror. Daí o porquê da impor-
tância, na proposta tipo lógica do totalitarismo de Hannah Arendt, tanto

&Iodo 95
da propaganda - que já foi mencionado pelo Dr. Helvécio - quanto da
polícia secreta. O papel estratégico desta última, aliás, ajuda a compreender
a estrutura burocrática na forma de uma cebola, típica dos regimes tota-
litários, onde os órgãos externos são apenas a face visível e aparente do
poder, cuja base real se esconde no interior da cebola para poder Surveiller
et punir - para lembrar, neste contexto, o título e a obra de Foucault -
e desta maneira reduzir a sociedade à combinação da perfeição disciplinar
da prisão, do manicômio e da fábrica, e neste processo assegurar a domi-
nação total.
Nesta sociedade disciplinar, nem o mal tem grandeza, como demonstrou
a própria Hannah Arendt ao examinar, em importante livro, o caso
Eichmann - antes um exemplo da banalidade burocrática do mal levado
a todas as conseqüências pelo estrito cumprimento das ordens superiores,
do que um caso de uma alma confrontada diabolicamente por uma opção
entre o bem e o mal.
O regime totalitário, para prosseguir na sua caracterização tipológica,
é um regime onde a desconfiança é total, pois abrange não apenas os
opositores - situação clássica em qualquer forma autoritária de governo
- mas, também, os próprios partidários do regime, em virtude da onipre-
sença de uma atitude de suspeita mútua, que deriva da lógica da noção de
"inimigo objetivo". De fato, como _qualquer grupo ou pessoa pode, inde-
pendente de sua conduta e apenas em função do arbítrio da liderança do
Estado totalitário, ser como tal considerado e, conseqüentemente, elimi-
nado, todos são potencialmente suspeitos e todos são potencialmente "ini-
migos objetivos". É por isso que a insegurança faz parte da natnreza do
totalitarismo e é isto que explica os motivos pelos quais o Estado totalitário
não comporta o Estado de direito, vale dizer, normas que, sobretudo numa
democracia, formalmente separam o legal do ilegal e graças às quais o
indivíduo pode pautar racionalmente sua conduta.
Em síntese, toda esta exposição, apoiada em Hannah Arendt, visa mostrar
que o totalitarismo representa, pela ruptura com a tradição ocidental, algo
tão diferente e tão inesperado enquanto forma de governo e de dominação,
que constitui uma categoria à parte, que exige reflexão e análise.
Finalmente, para arrematar a minha intervenção, gostaria de trazer nova-
mente à baila o conceito de autoridade, já mencionado neste debate pelo
Prof. Gladstone. Autoridade vem de augere - aumentar, acrescentar, e
foram os romanos que nos deram tanto a palavra quanto o conceito, ao
buscarem para a vida pública um fundamento que não fosse apenas a
argumentação ou a força, e que também não resultasse de uma transfe-
rência, por analogia, para o campo da política, das relações pais/filhos,
senhor/escravo, pastor/rebanho, que não são relações entre iguais como
as que deviam nortear a vida pública. Este fundamento os romanos en-
contraram no início da ação conjunta entre iguais - no ato da fundação
da civitas ab urbe condita - cujo desdobramento assinala a existência de
uma comunidade política. A fundação confere autoridade ao poder, pois
o que a ação política faz é acrescentar, através dos feitos e acontecimentos,

96 R.C.P. 1/77
importância à fundação da comunidade política e vida às suas instituições.
E por isso que, em Roma, o poder estava com o povo, mas a autoridade
resldia no Senado, dotado de gravitas e incumbido de zelar pela continui-
dade da fundação de Roma. Nas palavras de Cícero, "Cum potestas in
populo auctoritas in Senatus sit". A persistência deste conceito pode ser
rastreada na distinção entre a autoridade .dos papas e o poder real na
Idade Média, e, modernamente, na experiência do fenômeno revolucio-
nário. De fato, a experiência das revoluções Francesa e Americana, e pos-
teriormente a da Revolução Russa, (oi a de buscar instituir,. pelo ato da
fundação, que separa o não-mais (o passado) do ainda-não (o futuro),
a legttimidade de comunidades políticas que almejavam implanlar a
conslltutio libertatis. O totalitarismo, porque representa, conforme foi visto,
a negação da constitutio libertatis - e não apenas um desvio, como seria
o caso do autoritarismo, na definição proposta pelo Prof. Gladstone. Repre-
senta uma ruptura com o próprio princípio de autoridadê da tradlção
ocidental. É por essa razão que me alonguei na análise de sua gênese
histórica e de sua configuração tipológica, separando-o com insistência
seja da democracia, seja do autoritarismo.
Gladstone - Permita-me um aparte. Quando falei em autoridade, eviden-
temente, não foi no sentido primordial, radical. Usei o sentido mais filo-
sófico, porque ele está nesse campo perfeitamente delimitado. Por isso,
apelei para o caso dos pais que têm o direito de conduzir os filhos, de
mandar nos filhos, embora, muitas vezes, ele não possa exercer esse direito,
por uma circunstância qualquer ou o exerça ultrapassando muito os limites
do direito, por conseguinte, caindo na violência.
Portanto, eu usei a palavra auctoritas, autoridade, não apelando para a
sua gênese primordial, semanticamente, etmologicamente, mas pelo sentido
que lhe dão os filósofos clássicos, de direito de mandar. Porque numa
comunidade todos os homens, de natureza, são iguais, mas alguns mandam
e não há uma sociedade em que não haja comando; senão não é uma
sociedade, é uma multidão.
Donde vem esse direito de mandar? Em geral, se pergunta a origem do
poder, mas filosoficamente s~ria muito mais legítimo perguntar de onde
vem o direito de mandar, a autoridade.
Concordo inteiramente com a análise feita a respeito do comportamento
do totalitarismo, mas permito-me discordar - e explico por que - de que
seja um fenômeno novo. Ele, sob certas modalidades é novo e típico do
século XX e resulta exatamente do desencanto de experiências políticas
anteriores. Mas houve na Antigüidade totalitarismos em que o poder fun-
cionava assim, totalitariamente, mas religiosamente, em nome de Deus. O
governante era uma encarnação ou era uma emanação de Deus. Mas o
totalitarismo dos nossos dias é leigo e, freqüentemente, declaradamente
ateu.
Indo um pouco além no comportamento político dos regimes totalitários,
tentando buscar a sua essência, eu diria que está nisto de querer o Estado,
o governo, o poder, reclamar para si o homem todo. Daí o nome totalitário

Estado 97
e suas conV1cçoes, sua consclencia, suas opções invadirem a área daquilo
que, em linguagem aristotélico-tomista, se chama o segredo da pessoa.
Barroso - A intimidade da pessoa, a privatividade.
Gladstone - Então é próprio do totalitarismo querer tomar para si toda
a pessoa, impondo-lhe um modo de pensar, um modo de se conduzir,
enfim, tirando-lhe toda a área de liberdade, inclusive aquela que é abso-
lutamente inatingível, que é a área da consciência, da atitude religiosa,
da adoração a Deus.
Djacir - É o sentido de direitos humanos ou naturais.
Gladstone - Completamente. Não há, porque o Estado é direito, na
medida em que ele concede o direito, na medida em que entende e a quem
entende, ao passo que, numa concepção clássica e no meu entender certa, o
direito natural, não o jus naturalismo do século XVIII, mas o velho direito
natural de Aristóteles e um pouco de Sócrates, é anterior ao Estado, e
cabe ao Estado respeitar esse direito. O totalitarismo não o respeita e
avoca para si toda a pessoa, numa atitude de divindade leiga. Aí não há,
portanto, nenhum limite na ação totalitária. E este comportamento está
muito bem analisado, é isso mesmo.
Lafer - Prof. Gladstone, gostaria de concordar com sua exposição, adu-
zindo, no entanto, uma ressalva e uma explicação, para substanciar o
meu ponto de vista. Creio que o ponto fundamental está no fato de o
Estado totalitário avocar para si o homem todo, monopolizando a expressão
da verdade e invadindo o segredo da pessoa. Modernamente, esta avocação
leva a uma verdade oficial calcada numa ideologia, cujo processo de
contínua afirmação, impede qualquer pluralidade de pensamento, por meio
de técnicas e instrumentos inexistentes anteriormente, com o mesmo grau
de eficácia. Daí não só a censura e regime de partido único - pois a
multiplicidade de partidos implicaria o reconhecimento formal de uma
oposição e a aceitação de verdades diferentes daquela proclamada pelo
Estado como também, na dinâmica de instauração de uma verdade oficial,
o esforço estatal de obter o controle de todas as atividades de uma socie-
dade. Como tudo interessa ao Estado e nada pode permanecer no âmbito
do privado no totalitarismo, esta dinâmica requer um monopólio estatal,
direto ou indireto, dos meios de comunicação, os quais passam a ser
utilizados para transmitir a verdade oficial. Daí uma propaganda política,
de funções normativas, que atua basicamente simplificando o complexo,
desfigurando os fatos e orquestrando repetitivamente os temas da verdade
oficial por todos os meios, para atingir por contágio a unanimidade.
Como a propaganda e a ideologia podem não ser suficientes para afastar
ou eliminar a divergência, a obsessão da unanimidade que anima e instiga
os regimes totalitários requer o terror que, pelo emprego da coação, afasta
a possibilidade de opções e obtém a aquiescência expressa e tácita dos
comportamentos. Com isto se alcança a igualdade diante do medo e é por
essa razão que o totalitarismo tem, na polícia secreta, um de seus instru-
mentos de dominação mais importantes. As formas tradicionais de governo
que aspiraram ao totalitarismo - por exemplo, o despotismo oriental -

98 R.C.P. 1/77
tendo em vista seja a ausência: dos meios modernos de comunicação, que
ampliaram sobremaneira o alcance -da propaganda como meio de implantar
uma verdade oficial, seja a inexistência. dos instrumentos tecnológicos, que
permitiriam a dominação to~al pelo emprego do terror, jamais puderam
realizar-se na sua inteireza, nUJJCa alcançando, por isso mesmo, a ubiqüi-
dade do nazismo ou do stalinismo.
Gladstone - Porque não tinha meios.
Lafer - A junção dos meios com .os objetivos caracterizaria o fenômeno.
Gladstone - Sim, sob esse ponto de vista é um fenômeno típico do século
XX, como realização integral.-
Lafer - De acordo. :E: este o sentido de minha intervenção.
Helvécio - Justamente nesse sentido eu gostaria de dizer que considero
a análise de Hannah Arendt um exemplo de "análise concreta", ou seja,
ela apenas considera os elementos particulares e concretos assumidos histo-
ricamente pelo nazismo. .
Barroso - Concordo inteiramente. com o senhor.
Helvécio - Uma análise frutuosa deve considerar elementos universais
suscetívei!l de formar um modelo te6rico. Para a formação desse modelo
Hannah Arendt não trouxe muitas novidades desde que Eric Hoffer escreveu
The true peliever. Este trabalho, a meu ver, ainda continua a mais exaustiva
análise teórica do totalitarismo, atingindo nível maior de abstração, embora
trate apenas do totalitarismo em sua fase de apogeu: o estágio de movi-
mento de massa (como ocorre, nesse ponto, com Hannah Arendt). Con-
sidero o totalitarismo, quando vivendo um típico processo de mobilizaçao
política (fenômeno bem estudado num artigo de David C. Cameron no
] ournal 01 Politics). O que Hannah Arendt chama de "mentira" corres-
ponde à "persuasão" em Hoffer. "Inimigo objetivo" corresponde, em
Hoffer, ao "ódio ao diabo comum e existerite". Fazendo ligeira aplicação
o diabo comum, para o cristianismo antigo, quando assumiu sua forma
mais intensa de movimento de massa (um caso de totalitarismo abortado
em razão da insuficiência dos meios de comunicação) era o mundo pagão.
Para o marxismo será o capitalista, já para o nazismo foi o judeu. Ocorre
apenas que a "mentira" e o "inimigo objetivo" estão longe de ser categorias.
suficientes para a definição do totalitarismo. Há que se considerar a ideo-
logia (e uma ideologia em· estado vivido e mobilizador), uma liderança
sistemicamente carismática, além daquilo que Hoffer chama de "ação
unida", ao lado de uma organização típica inevitavelmente constituindo
um partido. Menciona-se ainda a variável de Hoffer chamada "mentismo"
e por fim coerção.
Lafer - Eu me permito discordar.
Presidente - Pode discordar.
Lafer - Para se entender o alcance da posição de Hannah Arendt - de
quem tive o privilégio de ser aluno e, por isso mesmo, desejo chamar a
atenção para o peso de sua contribuição -convém distinguir duas dimen-
sões do problema da ideologia. Uma dimensão é epistemológica e diz
respeito ao ''valor verdade"; outra se prende à sua inserção no contexto

Estado 99
de uma dada sociedade, enquanto elemento de poder, que dá sentido aos
que o exercem e que oferece um critério de obediência aos governados.
Nesta segunda dimensão, a ideologia tem um valor funcional que instru-
menta a ação politica. Toda a confIguração tipológica do regime totalitário,
que procurei expor nas minhas intervenções antenores, evidencia a funcio-
nalidade da ideologia como mecanismo indispensável, porém não suficiente,
para a instauração da dominação total, almejada pelo totalitarismo. A
análise de Hannah Arendt, no entanto, não se esgota no estudo do "valor
funcional" da ideologia enquanto uma das notas do "tipo ideal", no sentido
weberiano, desta nova forma de governo. Como sempre, ela agrega uma
proposta de gênese, que está ligada ao "valor verdade". Esta proposta
denva do esfacelamento, no campo intelectual, da tradição do pensamento
ocidental, que ela analisa na obra de Marx, Kierkegaard e Nietzsche. De
fato, o conceito clássico do homem, como ser racional, se vê substituído,
em Marx, pelo de animal laborans e homo faber; em Kierkegaard pelo
aspecto concreto e existencial do homem como sofredor, cujas dúvidas
não se resolvem pelo cogito cartesiano mas no salto, relacionalmente
absurdo, para a fé; e em Nietzsche pela da produtividade da vida e pela
vontade de poder do homem. Estas contestações de Marx, Kierkegaard e
Nietzsche à tradição, por serem contestações, ainda se integravam nela e,
por isso mesmo, conseguiram estes pensadores manter, no horizonte de
suas formulações, uma aspiração à totalidade. Entretanto, o esforço que
fizeram, que ajudou a derrocada da tradição, trouxe o desaparecimento
de uma visão totalizadora e racional. Basta, neste sentido, lembrar o
conceito contemporâneo de modelos nas ciências sociais, notadamente na
economia, que aliás se casa com toda a evolução recente da ciência.
A delimitação, implícita no conceito de modelo, carreou a mudança da
noção de teoria. De fato, esta deixou de ser, como o era tradicionalmente,
um sistema de verdades interligadas, que não foram feitas e construídas,
mas dadas para os sentidos e a razão, para se transformarem - como
na ciência moderna - numa hipótese de trabalho, que se modifica de
acordo com os seus resultados e cuja validez depende não de uma reve-
lação da verdade, mas pelo fato de funcionar. Ora, tudo pode eventualmente
funcionar, e a experiência do totalitarismo comprova, no mundo dos
fatos, esta tendência das orientações do pensamento. Daí, a circularidade
das relações entre os fatos e as teorias, que recolocam, num outro plano,
na análise de Hannah Arendt, a imbricação do "valor verdade" e do valor
funcional da ideologia no mundo contemporâneo. Movimentar-se para
sair deste impasse é o objetivo de toda a reflexão política de Hannah
Arendt, o que me parece mais do que suficiente para ressaltar o vigor
de sua posição e evidenciar a originalidade com a qual ela enfrenta o
problema da relação entre epistemologia e ação política.
Helvécio - Talvez possa adiantar alguma coisa nesse sentido. O movimento
de massas é totalitário, embora admita, evidentemente, graus.
O fanático, como diz Hoffer, satisfaz-se mais com os meios que com
os fins. Nesse sentido, do ponto de vista da ideologia, por exemplo, é

100 R.C.P. 1/77


importante no movimento totalitário (ou de massas) uma idéia eletrizante,
não importa extravagante e inconsistente, porque o fanático é, sobretudo,
um tipo psicológico que ele; considera, por certos motivos, frustrado. O
frustrado (vou utilizar sua propria formulação a fim de não perder tempo)
é o indivíduo insatisfeito com a ~ezdo seu ego individual, que tenta
fugir de uma mancha moral, ou do cotidiano onde só consegue ver
banalidades ..•
Barroso - Procura afirmar-se.
Helvécio - ... afirmar-se de sua frustração e isto por motivos vários.
Basta-lhe então, como ideologia, uma concepção extravagante do futuro.
Citando o texto de Hoffer "muitas vezes não se incomoda que haja uma
incongruência monstruosa na esperança, por mais nobre e tema que seja,
e a ação que se desenrola para realizar". Essa contradição é irrelevante
para o fanático. O que me interessa é o empreendimento comunitário,
espetacular, anestesiador, dissolvente, perturbador glorioso. ''Ele parte
de um ego não desejado, por considerar sua vida irremediavelmente estra-
gada -por algum fato estéril, uma vida vazia sem sentido na sua dimensão
individual."
Tais são algumas características do fanático, um dos elementos de
qualquer totalitarismo enquanto movimento de massa.
Djacir - Há um ponto interessante a considerar.
A ideologia é um tanto esclerosante no contato com a realidade, quer
dizer, a ideologia tem uma certa fixidez e a perda de sentido molda a rea-
lidade fugidia. Quase sempre se toma um indivíduo isolado. A esquizofrenia
é justamente isso, é essa dificuldade de ritmo, do compasso de sentimento
geral.
Helvécio - Ele quer assumir um ego coletivo, e aspira a entregar-se em
expiação e auto-sacrifício, num processo de autopunição freqüentemente
inconsciente. Tais características se exacerbam num movimento totalitário
extremo e abissal como o nazismo. E as qualidades semântica e hemística
da ideologia, nessas alturas, são irrelevantes, porque o fanático, como disse,
satisfaz-se mais com os meios do que com a realização dos fins.
A noção de verdade, o problema da verdade, não se coloca no totali-
tarismo.
Lafer - Mas se coloca para n6s, na medida em que estamos examinando
em âmbito real.
Helvécio - Então diria que não há verdade, porque há geralmente uma
distorção.
Djacir - Não se pode ficar totalmente no campo mitológico, tem que
haver um conteúdo que corresponda, tem que haver a circunstância objetiva.
Lafer - Por isso a análise de Hannah Arendt é concreta, porque ela não
parte de uma ficção mitológica, ela parte de uma relação do rito histórico,
da prática de determinado momento.
Helvécio - A "circunstância objetiva", tão propalada por Marx, constitui
igualmente um componente de todo movimento de massa. Constitui, sem
dúvida, um tema difícil, mas Hoffer incorpora a noção de "circunstância

101
objetiva". Esqueci-me de arrolá-Ia antes, mas posso afirmar que se tratam
de 10 variáveis.
Presidente - Vamos voltar ao autoritarismo, estamos até perdendo o con-
tato com o tema ...
Macabu - Sr. presidente, esta mesa-redonda está tão interessante e susci-
tadora de problemas, contribuindo para aclarar numerosas idéias variadas
e contraditórias que, seguindo uma praxe do Instituto, nós, que trabalhamos
no Indipo, normalmente preferimos não nos manifestar quando os debates
atingem níveis tão calorosos e !!stimulantes.
Mas gostaria de desenvolver certos aspectos, que já foram abordados
pelos ilustres participantes que me antecederam, inclusive alguns mencio-
nados pelo Prof. Celso Lafer.
Seria bom frisar, dentro da linha de raciocínio adotada, que a doutrina
totalitária ocupa um capítulo importante da história moderna e representa
atualmente um ponto inicial de nossa época, marcada por uma transfor-
mação acentuada nas formas de governo e de dominação, com caracterís-
ticas messianicamente totalitárias, apoiadas numa organização burocrática
das massas cujo fundamento é o emprego da violência, consubstanciada
no terrorismo, ou numa ideologia com nuanças especiais.
Essa situação provocou uma metamorfose nos esquemas tradicionais da
ciência política, afetando as concepções clássicas de poder. O totalitarismo
tornou-se o sistema político mais marcante do nosso século. Após Stalin,
Hitler e Mao, a realidade social se transformou, determinando uma modi-
ficação profunda na sociedade, fazendo surgir uma política de poder com
uma roupagem inusitada.
Essa evolução, gerou frutuosas discussões e ensejou novas pesquisas
sobre o tema.
Vale ressaltar, que uma faceta não pode ser esquecida na análise do
totalitarismo: é que ele implica uma necessidade de não ser contestado.
O sistema totalitário adota como postulado uma verdade política única e
exclusiva, uma observância absoluta às suas formulações. Vale dizer, uma
tendência à busca total de unanimidade. O totalitarismo é antes de tudo
um sistema que nos obriga a pensar contra a nossa vontade.
Djacir - Sistema de intoxicação progressiva.
Macabu - Não resta dúvida, ele busca unanimidade nas suas formulações,
porque a verdade totalitária, isto é, a verdade oficial, está sempre funda-
mentada numa ideologia e, como tal, não pode aceitar nenhuma espécie
de crítica nem ser contestada. Ela nega o valor da liberdade.
No totalitarismo pontifica uma burocracia administrativa e política qu~
manipula o poder. O Estado faz para impedir qualquer manifestação autô-
noma da sociedade, suprimindo o direito de associação, de manifestação
ou de reunião, o totalitarismo é um sistema de governo ditatorial de partido
único, baseado na totalidade do Estado. O Estado absorve, através da sua
atividade, todas as suas funções e comanda a sociedade, a economia e l
vontade coletiva. O Estado totalitário, diversamente do Estado liberal, não
aceita o ontogonismo ou qualquer tipo de oposição ou interesses sociais

102 R.C.P. ln7


divergentes, exerce sua influência sObre todas as vidas privada e p6blica,
exigindo uma absoluta submissão do indivíduo. A liberdade é considerada
como mito nesta sociedade sem oposição. As características do totalitarismo
já foram mencionadas, aqui, mas elas pressupõem a vontade unânime dos
cidadãos junto ao Estado, a existência de um partido 6nico, o total con-
trole dos meios de comunicação, a organização de um sistema de violência
ou de terror -:- o Estado ao mesmo tempo que se apropria da sociedade
a destrói pelo terror - a presença de uma ideologia que é a ideologia
que tem o respaldo do Estado. :astado de todo o povo ou Estado total,
que não reconhece nada além dele, uma ideologia oficial e o controle
político dos setores de pressão na sociedade. Em regra, predomina
controle político completo das Forças Armadas, como forma de manter
a doutrina totalitária. Na maioria dos casos, os sistemas totalitários surgem
durante grandes transformações sociais, ou quando existem profundas
depressões econômicas. Se analisarmos os movimentos totalitários que se
desenvQlveram neste século vamos verificar que um ou outro desses fatores
estava sempre presente na sociedade onde eles se desenvolveram. O tota-
litarismo conjuntural, que é forma de totalitarismo baseado numa análise
de Duverger, ocorre quando as circunstâncias particulares desempenham
um papel preponderante, por ine~stir uma verdadeira transformação das
estruturas sociais. Este tipo de totalitarismo raramente ocorre, é de pouca
duração e, geralmente fracassa, porque atende a uma situação circuns-
tancial e temporária. Os principais regimes totalitários são estruturais.
Fatos conjunturais, como a guerra, depressões econômicas, fatores internos
apenas detonam o processo. Na verdade, servem apenas de estopim para
um processo que se vai desenvolver num ritmo muito mais acelerado.
Presidente - Todos eles não serão conjunturais?
Helvécio - Temos aqui a circuilstância objetiva.
Macabu - Exato. :e aí que entra o aspecto da circunstância objetiva. O
que contribui para o aparecimento desse tipo de totalitarismo é a heteroge-
neidade e a diversidade da evolução dos diversos elementos de uma so-
ciedade.
Quando as instituições políticas, econômicas ou sociais não evoluem
de molde a acompanhar as transformações dos meios de produção, que
produzem uma elevação do nível de vida ou outras modificações sociais,
surge a necessidade de uma modificação profunda e brusca das instituições,
adaptando-as a uma nova ordem social, que não precisa ser, necessaria-
mente, o totalitarismo. Tal mudança pode ocorrer, também através de
um autoritarismo, mais específico e circunstancial. Tais situações consti-
tuem, pelo seu caráter revolucionário, requisitos básicos para o apareci-
mento de formas totalitárias ou de racionalização do-poder, que determinam
substanciais transformações ou, então, tratam de impedi-Ias. O totalitarismo,
também, pode estrangular essas tendências existentes na sociedade. Existem
apenas duas alternativas: ou ele atende às aspirações mencionadas ou,
então, impede que elas se manifestem. Neste sistema, quanto mais político
o Estad<t, mais despolitizados são os cidadãos. O totalitarismo italiano,

&ItIIlo 10)
\
por exemplo, foi influenciado pelas idéias de Maquiavel e tinha por fina-
lidade a supressão das liberdades civis e políticas, com a total submissão
dos indivíduos ao Estado. Representou, na verdade, um retomo ao abso-
lutismo monárquico, pois negava a separação de poderes e abolia as
garantias individuais, às quais se refere um dos itens desta mesa-redonda.
Abolia as garantias individuais e as liberdades públicas, bem como aplicava
uma inquisição policial generalizada. Tinha o controle da opinião pública,
através do instrumento policialesco do Estado. Neste sistema típico do
Estado totalitário italiano, podemos considerar o sistema corporativo como
a principal originalidade do fascismo. Mas, na linha adotada pelo Prof.
Gladstone no início dos debates e considerando a crítica construtiva do
Prof. Madaleno Girão, eu ousaria retomar, brevemente, à análise do auto-
ritarismo, segundo a concepção da autoridade do poder, porque isso me
parece indissociável. De fato, o autoritarismo é uma forma de expressão
política do poder e isto resulta da própria compreensão dos termos autori-
dade e poder, porque, enquanto a autoridade é o direito de dirigir e
comandar, o poder é a força através da qual se pode obrigar alguém a
obedecer. Em conseqüência, toda autoridade implica poder e quando se
fala em poder subentende-se a autoridade. :f: evidente que ela pode ser
graduada em níveis diferentes. Historicamente, em todas as sociedades
humanas. desde as mais primitivas até às contemporâneas, existem homens
que conduzem e outros que obedecem. Hoje, obedecem de maneira dife-
rente e os homens são conduzidos por processos próprios de uma socie-
dade de consumo em massa, sociedade que se desenvolveu em face da
utilização dos conhecimentos científicos e técnicos, promovendo uma mo-
dernizacão dos hábitos individuais, através da sociedade tecnológica, que
manipula as massas usando os meios de comunicação. Para se compreender
bem a relação entre autoridade e poder, convém lembrar a famosa frase
de Jacques Maritain, ao afirmar que "separar o poder da autoridade é o
mesmo que senarar a força da justiça". Considera-se, portanto, o autori-
tarismo um sistema de governo, que se opõe ao sistema democrático liberal,
e aDoiado na forte al1toridade do Estado, cuja tendência atual é se forta-
lecer cada vez mais. O autoritarismo tem-se manifestado, não Doucas vezes,
quando numa sociedade em mudança surgem certos antagonismos ao pro-
cesso de desenvolvimento, dentro de um quadro institucional político ina-
deauado. Este fator, tem contribuído, na sua inadequação. para fazer
florescer o autoritarismo, acentuadamente disseminado na política latino-
americana. Assim, o autoritarismo tem sido uma forma de legitimação do
poder. v!sando o desenvolvimento econômico e social, mas que constitui
um obstáculo sério e. às vezes, difícil para a institucionalização de um
regime democrático estável, considerado na sua acepção clássica, inexistente
na realidade contemporânea. Os regimes autoritários são sistemas políticos
sem uma ideologia definida mas dotados de um limitado pluralismo político,
onde um líder ou um grupo exerce o poder, sem uma expressiva mobili-
zação política.

104 R.C.P. 1/77


Helvécio - Mas esses regimes têm mna. ideologia perfeitamente definida.
O liberalismo por exemplo é uma ideologia que atingiu elevado nível de
sistematização filosófica.
Macabu - Menciono os novos regimes autoritários, que, nem sempre, têm
uma ideologia definida.
Helvécio - Tomemos, por exemplo,· o caso do regime autoritário brasi-
leiro. Ele tem uma ideologia que é principalmente liberal. Se você pega
a conhecida obra de Yves Simon, Filosofia do governo democrático, obra
de elevada satisfação intelectual, e apresenta aos detentores mais quali-
ficados do poder no Brasil, certamente a aceitarão in totum.
Macabu - Prof. Helvécio, o que pr~tendo ~er ~ que não nego a exis-
tência de uma ideologia no regime autoritário. Afirmo somente, que, nem
sempre, existe uma ideologia definida, neste regime.. Embora, ela possa
ser por vezes identificada.
Helvécio - Mas quando ela é lançada no processo político não pode ser
definida.
Macabu - Já o regime totalitário tem uma ideologia definida, desde o
começo. ~ essa a distinção.
Barroso - O regime autoritário é eminentemente ideológico. Agora, essa
ideologia pode variar, porque é a ideologia, ao passo que os regimes demo-
cráticos e até alguns regimes autocráticos são racionais, eles procuram
racionalizar o direito, enquanto o autoritarismo não, ele dá sentido ideo-
lógico ao direito. .
Helvécio - Isto é bem discutido, entre outros, por Weber. Para ele, toda
ideologia assume duas versões: uma nomeada de "teologia" e outra de
"ética social". Teológica seria quando situada por exemplo, no nível de
Yves Simon, com sua fundamentação em São Tomás de Aquino, Suárez,
Caietano etc.
Na forma de "ética social", a mesma ideologia aparece na versão de
um democratismo vulgar e engajado, comunicada pelos grupos sociais
interessados. A crença marxista inoculada nas massas difere do marxismo
de O capital, constituindo antes o conhecido "marxismo de varejo", ou
seja, uma poderosa e explosiva forma de ética social. Trata de uma razão
prática, necessariamente imprecisa, genérica e carregada de conotações
psicológicas estruturadas no inconsciente.
Macabu - Desejo aoenas um minuto para concluir. Agradeço a interven-
ção brilhante e oenetrante por parte do Prof. Helvécio.
Eu aueria dizer oue nos reJrimes autoritários nem sempre estão clara-
mente definidas as ideologias dos grupos.
Poderão estar definidas, mas não necessariamente, como uma condição.
Nota-se que muitas vezes - e esta é uma característica recente - o
nacionalismo é o traço preponderante do regime. Não é raro, nos dias
atuais, confundir-se ideologia com nacionalismo.
Diacir - Qual nacionalismo?
Macabu - Pode ser nacionalismo africano, asiático, latino-americano etc.;
na África ele resultou da ruptura do sistema colonial. ~ uma realidade
palpável para muitos Estados, que tomaram-se independentes recentemente.

EsIII!lo . 105
Ba"oso - Não será mais um imperialismo? Ele é mais imperialismo do
que nacionalismo.
Macabu - Talvez, mas não estou inclinado a pensar assim.
Realmente o autoritarismo é um fenômeno político específico, que não
se confunde com as autocracias. Existe uma flagrante distinção entre um
sistema e outro. Não há como confundi-lo com as autocracias tradicionais,
nem com o moderno totalitarismo. Pode, isto sim, ser visto como uma
etapa para a modernização econômica e social de estruturas conservadoras.
f: mais provável que o autoritarismo contemporâneo exerça este papel.
Finalizando, eu gostaria de fazer apenas uma pequena observação. Ana-
lisando as sucessivas crises do Estado moderno, do Estado democrático
liberal e considerando a frustração das experiências totalitárias que mar-
caram a primeira metade deste século, a tendência à modernização do
Estado como uma decorrência do acentuado desenvolvimento tecnológico,
fruto da nossa época, surge como uma das características mais marcantes
deste final de século. A modernização é um processo multidimensional.
que implica uma série de mudanças na sociedade.
Problemas como urbanização, propagação dos meios de comunicação de
massa, industrialização, tecnologia, modificações do meio ambiente, cres-
cimento da população urbana, em detrimento da população rural, preocupa-
ção com a qualidade de vida provocam substanciais transformações na
sociedade e, determinam necessariamente, um aprimoramento dos regimes.
De forma que tal processo produz mudança nos valores e acarreta uma
crescente racionalidade da autoridade, o que conduz a uma centralização
do poder através de instituições nacionais que, na maioria dos casos, se
manifestam por intermédio do poder autoritário.
Essas, as observações que eu desejava fazer e submeto-as a discussão.
Barroso - Eu queria terminar minha exposição e pediria permissão.·
Presidente - Pois não.
Barroso - Eu estive preocupado com uma espécie de classificação do auto-
ritarismo dos regimes mais ou menos autoritários. Eu acho que se pode
tomar como ponto de partida a concepção de Herman Teller, que destaca
dos aspectos objetivos os aspectos subjetivos do exercício do governo.
Evidentemente, quando se trata de um aspecto objetivo, relacionado com
toda a sociedade no sentido global, se o autoritarismo se impõe, se realiza,
é porque ele, de alguma maneira, obteve o assentimento dessa coletividade.
Presidente - Legitimou-se, então?
Barroso - Então ele se toma um autoritarismo de Estado e é justamente
aí que se identifica o totalitarismo. O grande paradoxo desse totalitarismo
é a diferença que há entre o ato e a intenção, porque ele pretende, por
determinados meios que são ilegítimos atingir determinadas formas de
legitimidade" das pretensões sociais. O que acontece então é que se verifica
que esses meios ilegítimos de que ele se vale, que correspondem ao exercício
total, global da força sobre a sociedade, jamais podem conduzir aos fins
legítimos, à intenção legítima com que se procura legitimar. Este o grande
paradoxo do totalitarismo.

106 R.C.P. 1/77


Ele é uma forma de exercício do poder que é o próprio Estado e, como
tal, ele abrange toda a coletividade.
Mas existem também as formas subjetivas de autoritarismo e essas se
referem não só à fonte do poder, como à própria estrutura que exerce o
poder. Como elas são a fonte do poder, elas podem ser mais ou menos
autoritárias, ou mais ou menos .liberais. Isto determina a variação do
autoritarismo. Em relação à estrutU);a. que exerce o poder, ela pode-se
referir ao próprio Estado, quer dizer o Estado subjetiva o autoritarismo,
ou ela pode também resultar· da ação do governo, não do Estado, do
governo que exerce o poder no Estado ou apenas de um dos órgãos do
governo. Neste caso teríamos a hipertrofia do Executivo,. como poderíamos
ler a hipertrofia do Legislativo ou do Judiciáno. Já se falou muitas vezes
na ditadura do Judiciário.
Por outro lado, o autoritarismo pode ser conjuntural, como era ao
tempo dos romanos e pode ser estrutural, como você salientou aí, quer
dizer, ter um caráter de certa permanência, intrínseca ao sistema político
e não excepcional, para época de crise.
Ele pode também ser um autoritarismo rígido, bem definid9 e pode ser
um autoritarismo flexível, permitindo uma certa potencialidade de poder
que se exercerá ou não, conforme as circunstâncias.
Tudo isso, a meu ver, permite uma classificação dos autoritarismos, de
acordo com a espécie de microssociologia.
Presidente - Existe um problema que é o consenso. O elemento prepon-
derante em tudo isso é o assentimento das massas, do povo.
Barroso - Quando há o assentimento, quando o consenso é favorável ele
pode ser totalitário.
Presidente - E o consenso é iniposto, não há possibilidade de o indivíduo
manifestar seus sentimentos. No autoritarismo ainda existe uma certa faixa
mais ou menos consciente.
Gladstone - Maritain distingue entre massa e povo. Nos totalitarismos
sempre se cria uma massa para receber uma forma, uma massa plástica.
Ao passo que no regime democrático, não necessariamente liberal, existe
povo: cada um é um, cada pessoa é uma pessoa que manifesta livremente
a sua aceitação, seu consenso como umá opção pessoal.
Macabu - E há partidos.
Gladstone - E vários. Isso representa a diversificação da vontade política.
Helvécio - Aqui temos a sociedade considerada em seu todo, sem distinção
de classes, camadas, grupos específicos etc. Nesta conotação, a sociedade
é designada pelo termo "povo" ou mesmo "massa".
Gladstone - Funciona como pessoa, quer dizer, pensa, delibera, ao passo
que a massa recebe uma forma que lhe é impressa pelo grande escultor,
o governo.
Barroso - Como ia dizendo, como estamos convivendo com o fenômeno
do autoritarismo, precisamos pelo menos pensar numa maneira de tomá-lo
legítimo. A respeito do assunto, Jorge Xifra Heras ...
Helvécio - Legítimo em que sentido?

107
Barroso - Legítimo no sentido de aceitar pelo menos determinadas
fórmulas de autoritarismo.
Gladstone - De totalitarismo ou de autoritarismo?
Barroso - De autoritarismo.
Helvécio - Da parte de quem?
Barroso - De parte de quem? Da parte da teoria política. Esse cientista
que acabei de citar, Xifra Heras, diz o seguinte:
"O autoritarismo se legitima desde que:
1. Corresponda a uma época de crise social;
2. Tenha o propósito de volver à normalidade, uma vez cumprida a missão
de que se origina;
3. Que ele cause o menor prejuízo possível aos valores supremos da pessoa
humana, liberdade, igualdade etc., evitando que se transforme numa tirania
ou num despotismo."
Tomei a liberdade de resumir esses princípios de legitimação possível
do autoritarismo da seguinte maneira.
Presidente - :J;; interessante.
Barroso - "Jamais ele deve perder de vista o alvo superior da filosofia
e ética democráticas, mesmo que em tais ocasiões não seja possível aolicar
inteiramente seus postulados, transigência admitida apenas como meio de
recuperá-los em tempo útil - recuperar aqueles postulados democráticos
- senão aperfeiçoá-los. Pior Que a sonegação de direitos é o fato de fazê-lo
a título de convicção doutrinária."
Helvécio - Seria um regime autoritário com ideologia liberal.
Barroso - Com tendência sempre liberal.
Helvécio - :J;; como o General dizendo que o direito emana do Estado.
Gladstone - Em duas encíclicas papais, de Pio XI, Non abbiamo bisogno
de 1931 e Mit brennender Sorge de 1939, ele condena no totalitarismo
fascista e no totalitarismo nazista precisamente isso, fazer do Estado a
fonte de tudo, a divinização do Estado.
Barroso - E tomar isso como uma doutrina, uma filosofia, o que é mais
sério.
Macabu - Essa concepção do Estado como fonte de tudo é justamente
a semente do totalitarismo moderno, quer dizer, iniciado pelo regime
fascista.
Later - Permita-me uma rápida intervenção. Regra geral, é difícil para
um analista político dizer, a priori, no momento em que um regime auto-
ritário se instaura, Que este será uma ditadura, no sentido romano do termo,
ou seja, uma administração excepcional, prevista na constituição, como
uma resposta a situações de emergência.
Djacir - Com uma duração determinada.
Later - Seis meses, não prorrogáveis. Por isso mesmo, na avaliação de
um regime autoritário é fundamental a análise de sua trajetória temporal,
pois ela é que dirá em que medida os poderes excepcionais se perverteram
na institucionalização do arbítrio ou foram efetivamente utilizados, seja

108 R.C.P. 1/77


para enfrentar uma emergência, seja para realizar uma emergenCla, seja
para realizar uma tarefa especí&a -:... dictator rei gerundae causa.
Djacir - Depois o ditador ainda prestaria contas.
LaJer - Precisamente, e o prestar contas está ligado ao tema do consenso,
há pouco referido pelo Min. Themistocles Cavalcanti, que por sua vez
sugere a análise da necessidade de referir o poder dos governantes a meca-
nismos de controle e aferição por parte dos governados, da- gestão da coisa
pública. Nesta linha, tomo a liberdade de recordar que o poder, lato sensu,
tem, como aponta Passerin d'Entreves, três dimensões: (i) a da força,
que é puramente coercitiva; (ü) a do poder stricto sensu, que é o exercício
da força de acordo com certas normas conhecidas e reconhecíveis, que
conduz ao conceito de legalidade, isto é, ao Estado exercendo o monopólio
da coerção organizada em conformidade com o direito; e finalmente (li)
a autoridade, que acrescenta um elemento positivo de valor à norma,
graças ao qual o sistema jurídico e político se reveste de um componente
mínimo de legitimidade, que o toma acatàdo e acatável, independente-
mente do mero exercício, ainda que legal, da. . força. Como dizia Cícero,
no De republica:
"A coisa pÓblica é a coisa do povo, e por povo deve entender-se não
toda reunião de homens, agrupados de uma maneira qualquer, mas um
grupo numeroso de homens, associados uns com os outros, por sua adesão
a uma mesma lei e por uma certa comunidade de interesses."
. Na noção de adesão, que sustenta a legitimação, se contém o problema
do consenso e a idéia de que para obtê-lo e mantê-Io devem os gover-
nantes - sobretudo quando exercem poderes excepcionais - prestar
contas aos governados de sua gestão da coisa pública. É por essa razão
que nas Constituições democráticas a lei marcial, o estado de sítio, o
estado de emergência, regra geral, só podem ser declarados em determi-
nadas circunstâncias definidas em lei, com limitação no tempo, ainda que
prorrogável, localização no espaço, controles políticos do· Congresso e
fiscalização dos atos do Poder Executivo pelo Judiciário.
Em outras palavras, e precisando melhor as relações entre direito e a
torça e direito e o consenso, que estão no horizonte das preocupações que
norteiam esta minha intervenção. O direito pode ser entendido como uma
pirâmide escalonada de normas. Na perspectiva do jurista que olha a pirâ-
mide a partir da base, a força aparece como algo a serviço da aplicação
do direito. Na perspectiva do político - e também do cientista político
- que olham a pirâmide a partir de seu vértice superior, o direito aparece
como algo a serviço do poder, isto é, como um conjunto de normas desti-
nadas a permitir o seu exercício. Como aponta Bobbio, nesta última pers-
pectiva a força é antes uma dimensão que permite a produção jurídica
- a nomogênese - e menos a organização institucionalizada da sanção,
ligada à aplicação das normas. A inexistência de sanções em relação à
violação da norma fundamental de um sistema jurídico - e também de
certas normas constitucionais a elas ligadas - se explica a partir desta

Estado 109
ótica, posto que estas normas derivam de um poder constituinte, isto é,
de um poder originário da coação que não pode ser coagido por outros.
Esta ordem de considerações permite a análise das relações entre direito .
e consenso e direito e força, para os fins deste debate. A força e o consenso,
nas suas diferentes combinações, permitem diferenciar os regime democrá-
ticos dos regimes autoritários e totalitários. Quanto maior for a adesão
espontânea de uma comunidade às normas que se encontram no ápice da
. pirâmide do seu sistema jurídico, mais próximo se encontra o seu regime
político do pólo democrático. Por outro lado, e agora examinado o
assunto à luz das relações entre direito e força, quanto mais se estende o
mecanismo da sanção, da base para o vértice da pirâmide jurídica - isto
é, dos cidadãos privados para os governadores, num processo que assinala
a passagem de órgãos irresponsáveis para órgãos juridicamente respon-
sáveis, e a substituição de poderes arbitrários por poderes juridicamente
controlados - mais próximo se encontra o regime político, em função das
técnicas do Estado de direito, do regime democrático. É por essa razão que
os regimes democráticos, em contraposição aos autoritários e totalitários,
insistem, conforme foi apontado, na prestação de contas dos governantes
quando estes se vêem investidos de poderes excepcionais para solucionarem
situações de emergência. .
Macabu - Professor, a esta terceira idéia gostaria de acrescentar, uma
ética consensual, que seria a forma de legitimar a atuação do Estado, por
meio do respaldo popular.
Presidente - Perguntaria ao Prof. Girão se já acabou sua exposição.
Barroso - Para concluir queria dizer apenas o seguinte.
Além do princípio geral a que acabei de me referir, da visão filosófica
e ética do caráter democrático que deve ter qualquer regime, existe outro
princípio segundo o qual o autoritarismo não se deve sufocar, procurar
substituir a mecânica clássica da burocracia. Deve ser um aparelho regu-
lador apenas, enquanto a burocracia ou mesmo o governo como um todo
resolve situações.
O que estamos vendo aqui hoje é que o autoritarismo assumiu formas
intrínsecas de poder, através, por exemplo, da intervenção do Estado.
Mas de qualquer maneira não deve ser o substitutivo à mecânica clássica
da democracia, apenas um elemento auto-regulador do sistema.
Aliás, o jornalista empregou uma expressão interessante, a propósito do
AI-S, relacionada até com o caráter cibernético que ele .pode exercer. Diz
ele: "O AI-S é essa espécie de módulo comum que mantém sob controle
a Constituição Brasileira." É neste sentido que acho que se deve aceitar,
até certo ponto, a autoridade, como um módulo de comando de um pro-
cesso democrático, enquanto seus problemas não podem ser resolvidos
de maneira integral, de acordo com as normas.
Macabu - Prof. Madalena, permita-me uma palavrinha apenas sobre um
aspecto que não gostaria de deixar passar em branco. Modernamente,
analisando-se a estrutura de poder dos principais países europeus, ao que
temos assistido, principalmente na Alemanha, talvez até mesmo pelos

110 R.C.P. 1177


fatores intrínsecos, existentes DI! S()JC.\od~e alemã e considerando o papel
relevante que, atualmente a AleJJl8llha desempenha na comunidade euro-
péia bem como a influência econômica,. política e social, é de destacar que
existe, contemporaneamente, na Eur.opa, uma predisposição autoritária. Na
Alemanha esta situação tende a evoluir para uma sociedade cada vez mais
autoritária, baseada, principalmente, no processo de concentração econô-
mica. Até que ponto essa tendência não se poderá configurar, simples-
mente numa forma autoritária, mas provocar o início de um novo totali-
tarismo do fim do século XX? ~ unia hipótese que não pode deixar de ser
considerada. Na minha opinião, ela corresponde, exatamente, ao que está
ocorrendo hoje, em alguns países da -Europa, onde são tortuosas as alter-
nativas entre democracia social e democracia autoritária.
Barroso - Devo também acentuar que é muito fácil ingressar no regime
autocrático. O difícil é sair dele.
Helvécio - Permite-me o senhor uma observação? Atraiu-me sua refe-
rência à burocracia. O reforçamento autoritário dos sistemas políticos
atuais se deve justamente à expaqsão do fenômeno burocrático, uma
variável entre outras mas sempre presente. A burocracia contemporânea
incorporou em grau inédito elemento técnico. Há uma tendência universal
para os regimes de dominação burocrática, cuja efetivação polarizada
constituiria o próprio tipo ideal de autoritarismo. Mesmo em sua definição
clássica, vemos que a burocracia funciona sine ira ac studio, encarnando
a impessoalidade destituída de ódio e amor. As ideologias das dominações
burocráticas já perderam a capacidade mobilizadora, mas é engano pensar-'
ela é neutra. Dessa forma o autoritarismo atual liga-se à burocratização
da vida moderna e a sua "extensão a todos os setores de atividades.
Barroso - Mas como conseqüência já das transformações tecnológicas da
época.
Helvécio - Exato. Isto se correlaciona também com o aumento e maior
complexidade das funções assumidas pelo Estado.
Voltando ao problema da aceitação, ou legitimação, ou consenso, lembro-
me de um esquema de desenvolvimento político apresentado por você,
Lafer, em seu último livro. Neste, o desenvolvimento político se define
pela soma de três variáveis. Permita-me mudar seus nomes para "desem-
penho", "satisfação" e "legitimação". A primeira seria a capacidade não
apenas de foimular planos e programas consistentes, mas, ainda, de im-
plementá-los transformando-os em realidade. O segundo componente, a
sátisfação, implicaria que os planos implementados constituem reais con-
tribuições para a boa gestão e o bem-estar da sociedade. Ou seja, que
satisfaçam os interesses nacionais e as aspirações nacionais. A terceira
variável designa simplesmente legitimação, isto é, a capacidade de obter
e conservar receptividade, aceitação e atração em favor da dominação,
por meio de algum processo de construção do consenso.
Acho muito interessante tal modelo.
Helvécio - E o regime autoritário falha na da ação. Em princípio, nada
impede que seja muito bom no desempenho. Já o regime totalitário, ele

Estado 111
é forte, também na legitimação. Goza de ampla receptividade, sendo capaz
de mobilizar intensa aceitação na fase de movimento de massa. Talvez se
pudesse afirmar que o regime totalitário, do ponto de vista político defmido
daquele modo, ganhe do regime autoritário, visto satisfazer maior número
de variáveis ou mais precisamente duas variáveis. O autoritário cobriria
apenas uma.
Lajer - Acho muito oportuna a sua referência ao recente e importante
trabalho de Hélio Jaguaribe, de cujas formulações tomo a liberdade de
aqui realçar a relação entre o desenvolvimento político e o princípio da
congruência na dinâmica da mudança social. Hélio J aguaribe destaca, como
foi visto, três dimensões interdependentes no desenvolvimento político:
uma dimensão operacional, ligada à capacidade de funcionamento do
sistema político, na conversão de programas de ação em decisões públicas;
uma dimensão direcional, relacionada com a contribuição do sistema polí-
tico ao desenvolvimento geral da sociedade a que pertence; e finalmente
uma dimensão de participação, que se prende ao desenvolvimento da recep-
tividade do sistema político no âmbito da comunidade, pela construção
e manutenção do consenso em torno de sua gestão da sociedade. Porque
estas dimensões são interdependentes, elas devem ser congruentes e é esta
necessidade de congruência que sugere o exame das possíveis incongruências
dos regimes autoritários e totalitários.
Todo sistema político é um sistema dinâmico que se modifica na medida
em que funciona e que, para superar estas transformações e a elas sobre-
viver, precisa responder ao imperativo da inovação. Esta capacidade de
adaptação inovadora está vinculada a um processo de jeedback que informa
o sistema político das transformações ocorridas e sugere novos caminhos.
As características do totalitarismo inibem precisamente o mecanismo de
jeedback, pois as modalidades de afirmação de uma verdade oficial impe-
dem que novas informações relevantes orientem o sistema político, pois
estas são vistas como dissonâncias a serem eliminadas e não transmitidas.
Esta é uma das razões pelas quais os regimes da Alemanha, Japão e
Itália, na 11 Guerra Mundial, apesar de uma relativa eficácia interna, se
revelaram globalmente ineficazes na condução de suas respectivas socie-
dades - ineficácia que os levou à derrocada.
Os regimes autoritários, porque não têm a mesma natureza que os
totalitários, regra geral se ressentem menos desta incongruência que acabo
de apontar. Ainda assim, ela os afeta. Em primeiro lugar, porque a men-
talidade autoritária não é propriamente uma mentalidade aberta a inova-
ções. Em segundo lugar, porqlle a falta de representatividade do pluralismo,
nos regimes autoritários, tende, pela ausência de participação e pela
presença de cooptação, a diminuir os recursos e energias dos cidadãos, cria-
tivamente empregados na realização das metas gerais da sociedade. A esta
pulverização da criatividade e diminuição da capacidade de iniciativa autô-
noma dos membros de uma sociedade se agrega, pela pouca preocupação
com a construção do consenso através da participação, a necessidade de
calcar a obrigação política antes na força e na coerção do que na coope-

112 R.C.P. In7


ração. Não é preciso ~f .q1,le::~::~4ência amortece o -nível ético de
uma sociedade e envolve um..a CQJlcentiaçã9 rde recursos na repressão, que
poderiam - até J]lesmo de UÜl POnto. de. vista de eficiência - ser mais
bem __ alocados em outras atividac;les.....
Macabu - Considero esta observação. -muito importante e capaz de des-
pertar frutuosas discussões. Talvez; a' dificuldade se manifeste, de forma
mais grave, nos canais tecnocráticos. Principalmente, o segundo escalão
dos governos mais autoritários, que filtram quase com um absolutismo
de decisão, sem que caiba recurso algum, ainformação que poderia chegar
ao escalão superior e, desta forma, o aiste.ma perde a capacidade de acom-
panhar as transformações políticàs, sociais: ~ econômicas, que são funda-
mentais para a sua modernização e seu aprimoramento.
Presidente - ' Esse escalão não usa critério político.
Alguém ainda quer fazer uso da palavra?
Com a palavra o Prol Djacir Menezes.
Djacir - Sr. presidente,. a diretriz já. assentada por V. Exª' em nossos tra-
balhos, foi a ·de que nós nãó objetivamos chegar a determinadas con-
_clusões, para prová-las, como se fossem determinações, nesse campo exa-
minado do problema. Disso, de certa forma, me prevaleço, para facilitar
uma tarefa que nunca exerci, que foi a de dar um resumo completo de
todos os debates travados. Limito-me, então, a assinalar determinadas
idéias, -porque, depois, quando publicadas as notas taquigráficas, com o
depoimento de cada um, o leitor participará, pela leitura, de todas essas
idéias, desses debates, sem que indiquemos qualquer diretriz. Raras ve~es,
tantas idéias foram debatidas em tão poucQ tempo. Portanto, é uma riqueza
intelectual que está sendo gravada, aqui, e vale a pena, depois, na nossa
Revista dar-lhes divulgação.
A responsabilidade das idéias será encontrada na leitura do texto, do que
foi taquigrafad.o e o respectivo autor.
Os temas que me pareceram centrais aqui foram: poder autoritário-
força. Então o problema entre o autoritarismo e o totalitarismo teve uma
coloração de nuanças.
Todo regime tem vocação para o autoritarismo, disse um dos rlebate-
dores. Daí se afirmou também não ser o autoritarismo propriamente um
regime. O p'onto ficou assim meio litigioso com a invocação de que li
expressão regime (.IUtoritário é corrente nos compêndios de ciência política
O autoritarismo apareceria como uma dosagem. Todo regime tem vocação
para o autoritarismo, quer dizer, todo regime tem vocação de permanecer
e se defender de seus inimigos.
Gladstone - Defender as suas prerrogativas.
Djacir - Quer dizer: tem a vocação de subsistir; nenhum regime tem
vocação suicida. .
Falou-se ainda em antinomia autorilarismo-democracia, a antinomia
falsa. A verdadeira seria autoritarismo e liberalismo. Também acho um
tanto discutível, mas em todo caso a afirmação ficou registrada.

EStildo.' . :1-13
Houve também referência ao grau de extensão da elite, quando se
tocou no assunto "oligocracia", a que se prende também uma coloração
de oligarquia. Toda oligarquia é uma oligocracia, mas o inverso será ver-
dadeiro? Ponto discutível. Houve quem dissesse também que esses regimes
autoritários decorreram sempre de crises. Historicamente, assim é. Daí
a evidente distinção entre "autoritarismo" e "totalitarismo", passando por
formas intermédias de acomodação de força dentro do regime. :B conjun-
tural ou é estrutural? Quase sempre, quando ele emana de uma conjuntura,
se defende e, se consegue subsistir, se estrutura. Quer dizer, não há pro-
priamente uma separação, ao que me parece, entre os dois. Em todo caso,
discutiu-se aqui essa dualidade de totalitarismo e suas características de
racionalidade, terrorismo, massificação, em que a pessoa é triturada e,
no final, o que fica da massificação é o títere obediente, tendendo para
um certo automatismo de aprovação do regime, num civismo abúlico.
Também se falou rapidamente na burocracia, e no seu papel nesse pro-
cesso onde impera a propaganda. A situação carismática do líder e, dessa
situação carismática, a emergência de um partido único, sem o que não
funciona o regime, sem essa característica de chárisma - com a pronúncia
grega, que passou à paroxítona na viagem pelo latim, como certa vez me'
advertou Gladstone.
Finalmente, Sr. presidente, houve ainda uma referência a fins ilegítimos
para alcançar fins de legitimação, declarada como uma contradição, diga-
mos, insolúvel, dentro do processo objetivo do totalitarismo.
Foram mais ou menos essas as idéias mais focalizadas no debate.
Barroso - Eu gostaria de que o senhor incluísse aí a possibilidade de
legitimar, as condições em que se pode eventualmente legitimar.
Djacir - Naturalmente, eu não reproduzi fielmente o que cada um disse,
confiando a reprodução fiel à publicação das notas taquigráficas, que o
presidente mandará a ,cada, um para revisão.
Presidente - Vamos terminar então nossa mesa-redonda, que foi bastante
interessante pela forma das idéias debatidas já brevemente registradas pelo
Prof. Djacir. Quero apenas dizer que estamos fazendo, aqui no Instituto,
uma série de mesas-redondas sobre problemas relacionados com o exercício
do poder e regimes políticos. Já realizamos uma sobre burocracia, esta sobre
totalitarismo e autoritarismo, vamos fazer outra sobre tendências oligár
quicas do poder no Brasil. Finalmente, pretendemos efetuar a última deste
ano sobre tema, a meu ver mal colocado, que é estatização e desestati-
zação. Essa" mesas-redondas poderão contribuir para dar uma interpre-
taçao CIentífica de alto nível para temas que são tratados por todo
mundo e de toda a maneira.
B uma contribuição do Instituto para a divulgação da ciência política.
Muito obrigado pelo comparecimento de todos.
Nota - O Prof. Madaleno G. Barroso aditou à sua intervenção no debate
o sumário que a seguir publicamos, relativamente a referências feitas a
autores e obras em que apoiou seu pensamento:

114 R.C.P. In7


Sumário da exposição

1. Signüicação do tema. Vocação autoritária dos atuais sistemas políticos.


Mannheim, KarI. A democracia militante. Diagnóstico de nosso tempo. Rio
de Janeiro, Zahar Editores, 1961. p. 5. Myrdal, Gunnar. O Estado orga-
nizativo. O Estado do futuro. Rio ~ Janeiro, Zahar Editores, 1962. p. 59.
Vecchio, Giorgio deI. O Estado dinâmico. Crise do direito e crise do Estado.
ed. espanhola, 1935. p. 122. Duverger, ,Maurice. Atecnodemocracia. As
modernas tecnodemocraciDs. Rio de Janeiro, paz e Terra, 1975.
2. Aspecto histórico. A dupla lição da ditadura romana: a) uma regra
na exceção, isto é, legalização da ditadura, para defesa interna e externa
de Roma; b) a tendência degenerativa dos regimes ditatoriais (uma lei: a
da persistência no poder?).
3. Os teóricos do autoritarismo. Maquiavel ("2 digna de censura a vio-
lência destrutiva, não a violência que reconstrói"). Bossuet ("O único Rei
é Deus, mas os príncipes, que se identificam com o Estado, o representam
na Terra e estão dotados de uma autoridade absoluta para fazer o bem e
reprimir o mal"). Hobbes (O poder do monarca se apóia em dois contratos,
"o contrato social, pelo qual o indivíduo promete aos demais submeter-se a
um mesmo chefe, e o outro contrato, pelo qual cada membro cede ao chefe
o direito, que em estado de natureza possui, de reger-se a 'si mesmo").
Augusto Comte ("Comte procurava organizar a sociedade sob governos au-
toritários, mas orientados por preceitos morais que imprimiram ao exercício
do poder um sentido muito alto e justificavam, de algum modo, essa forma
de governo"). Hegel ("O Estado é o universal concreto, a verdadeira
síntese da oposição entre a família e a sociedade civil, o ponto de detenção
e repouso do espírito objetivo. A divinização hegeliana do Estado, divini-
zação explicitada em sua definição do Estado como a manifestação da
divindade no mundo, é exigida tanto pela dialética do espírito objetivo,
como por sua própria doutrina política, que vê o ideal do Estado no Estado
prussiano de seu tempo. Porém o Estado, cuja melhor forma é a monar-
quia, não consiste no poder arbitrário de um indivíduo, senão no fato de
que este indivíduo represente o volksgeist, o espírito de seu povo") (Dic.
Ferrater Mora, verbete Hegel). Karl Marx (a ditadura do proletariado,
o unipartidarismo, o capitalismo de Estado). Nietzsche (a concepção do
super-homem e da moral dos fortes). Sorel (a apologia da violência
ideológica) etc.
4. O problema da classificação dos sistemas políticos, com vistas ao con-
ceito de autoritarismo. Platão (Monarquia e democracia. Combinações,
bom e mau governo). Aristóteles (formas puras: monarquia, aristocracia,
democracias; formas impuras: tirania, oligarquia, demagogia). São Tomás
(igual a Aristóteles). Maquiavel (monarquia e república). Jellinek (mo-
narquias e repúblicas aristocráticas e democráticas). Kelsen (autocracia e
democracia). Hermes (Estados de dominação e sistema democrático)
Richard Thoma (Estados de privilégio e democracia). Maurice Duverger
(monarquia, aristocracia, democracia, ditadura). Conceituação da Escola

Estado '115
Superior de Guerra, idêntica a de Kelsen, na sua Teoria do Estado,
ao distinguir as formas puras da autocracia e da democracia, assinala, como
já o fizera Platão, entre elas, como únicas reais, as formas mistas ou inter-
mediárias. Na caracterização destas é que se induz o conceito de autorita-
rismo.
S. Conceito vulgar de autoritarismo, como despotismo, cesarismo, com
a conotação da prepotência e do arbítrio. Conceito político, isto é, da
ciência política. Pressupostos a iss,o necessários:
a) o autoritarismo tanto pode existir nos sistemas democráticos como nos
autocráticos. Não é, portanto, um sistema político;
b) ao autoritarismo, propriamente, não se opõe a democracia nem, muito
menos, a autocracia, mas o liberalismo;
c) impregnando mais ou menos qualqu~r dos sistemas políticos mistos
ou intermediários, o autoritarismo vem a ser, portanto, nada mais que
uma expressão potestativa de qualquer sistema político, mais relacionada,
conseqüentemente, com o seu exercício ou melhor, com o grau de poder
com que é exercido;
d) o problema fundamental do autoritarismo reside na sua justificação
social, e, portanto, em sua fundamentação legal.
6. Conceituação de Herman HeIler sobre o poder objetivo e o poder sub-
jetivo da organização, este último .sobre a organização ou na organização,
aplicado à caracterização do autoritarismo. Resultado do condicionamento
ao meio social e cultural, a estrutura formativa do poder e à organização
potestativa. O autoritarismo estrutural e conjuntural, potencial e real, estrito
ou lato. Efeitos quanto à distinção em relação ao Poder Executivo, ao
Estado, como um todo e à própria sociedade global. Distinção do totali-
tarismo.
7. A organização liberal da democracia e os fatores determinantes dos
atuais sistemas políticos autoritários. Os elementos do liberalismo (vontade
natural e vontade consciente dos indivíduos, como base da expressão ma-
joritária do governo; a livre iniciativa e o correspondente abstencionismo
estatal, como fundamento da dinâmica da ação e do resguardo das prer-
rogativas que a asseguram; a igualdade social dos direitos e o correlato
equilíbrio de poderes, como condição da convivência social e política).
Uma espécie de estrutura cibernética, em que funcionariam como feed-
back a livre competição, orientada pela psicologia humana, segundo a
concepção de Pareto: "A sociedade é um sistema social em estado de equi-
hôrio, isto é, num estado em que as forças que o tendam a destruir são
equilibradas com êxito por todo o conjunto das forças que o integram."
Fatores excluídos desse contexto, de ordem antropológica, psicológica,
econômica, sociológica e mesmo política, tais como: a dependência do
grau de cultura, educação e moralidade, os efeitos perversos da desigual
competição, a anarquia do laissez-faire e a instabilidade de exercício do
poder, deflagrados justamente pelos segmentos sociais atingidos pelas nega-
tivas do sistema liberal. As reações utópicas e socialistas. Problema mais
metodológico que ideológico - a concepção da racionalização do poder,

R.C.P. 1/77
através do novo feedback representado pelo sistema intervencionista estatal
e, neste, o poder de comando conferido aos órgãos executivos.
8. As exacerbações dos sistemas' aütoritários e o problema da legitimidade
do autoritarismo em relação aos ideais democráticos. Democracia autori-
tária, Estado forte .ou democracia social? J'Jincípios de legitimação do
autoritarismo: .
a) segundo Jorge Xifra Heras (Introducci6n ai estudio de las modernas
tendencias políticas): existência de uma época crítica; propósito de volver
à normalidade uma vez cumprida a missão que a originou; e menor pre-
juízo possível dos valores supremos da pessoa humana - liberdade e
igualdade - evitando-se que se transforme em tirania ou despotismo.
b) em nossa opinião:
b.1. jamais perder de vista o alvo superior da filosofia e ética demo-
cráticas, mesmo que em dadas. ocasiões não seja possível aplicar inteira-
mente os seus postulados, transigência admitida apenas como um meio de
recuperá-los em tempo útil, senão aperfeiçoá-Ios. Pior que a sonegação de
direitos é o fato de fazê-Io a título de convicção doutrinária;
b.2~ na modernização' e racionalização dos sistemas políticos, o aparato
autoritário não deve ser sub8ti~tivo, mas apenas regulativo da mecânica
clássica da democracia, sem embargo de integrar-se até certo ponto em
~ua constituição estrutural, desta diferindo porém, em graduação de poder,
a função conjuntural.
9. Reconhecidos os princípios' gerais a que acabamos de nos referir, sobre-
vêm os meios particulares que podem ser car:actetizádos como lc~gitima­
mente autoritários, na época atual: '
a) poder de comando do Executivo, em face do Legislativo e do Ju-
diciário; .
b) o plano de segurança;
c) o plano econômico e social.
10. O autoritarismo e o Estado de direito.

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