Você está na página 1de 34

Insânia

A menina dos fósforos e outros contos

Escrito por Débora Adriani e Gabriele Freitas

Turma de teatro módulo 1

2018
Personagens

Gabriele, a menina dos fósforos - Nettie

Beatriz, mãe da garota – Theresa

Samuel, pai da garota - Ryan

Alexandre, Gato de botas

Francisca, Rumplestilskin

Laura, narrador(a) – Chapeleiro Louco

Jennyffer, Tinker Bell

Gabrielly, Rainha má

Débora, Chapeuzinho Vermelho & Odette

Lavinia, Maria

Elisabete, João

Thais, Branca de neve

Irene, mãe do chapeleiro


Descrição dos personagens

Nettie Copeland

- Esquizofrênica;

- Pobre;

- Criança/ adolescente;

- Insegura;

- Anda de modo cauteloso;

- Algumas vezes age de forma animada.

Ryan Copeland

- Alcoólatra;

- Acusado de ter assassinado a própria esposa;

- Machista;

- Grosseiro;

- Individualista.

Theresa Copeland

- Deseja ter filhos;

- Faz acordo com Rumple;

- Atenciosa;

- Amorosa.

Chapeleiro louco

- Narra toda a história, pois Rumple lhe mostra o que


aconteceu com a garota;
- Amigo de infância de Nettie. Precisa se mudar às pressas
quando a mãe da garota morre, pois seus pais não concordam
com a amizade, por acharem perigoso, já que o pai da garota
é o acusado;

- Filho de um chapeleiro, acostumada a sempre ter um chapéu


consigo, acaba ficando louco quando vai visitar sua amiga de
infância no natal e a encontra morta ao lado de sua casa;

- Animado;

- Criativo.

Rumplestilskin

- Faz contratos falsos com os personagens da história;

- Engana Theresa;

- Faz contrato e mostra para a Chapeleira o que aconteceu de


verdade com a vida da Nettie;

- É enfermeira no hospício onde a Chapeleira é internada


após ficar louca;

- Direto, o que pode ser confundido com grosseria;

- Mente com facilidade.

Chapeuzinho Vermelho

- Feminista;

- É o próprio caçador, quebrando padrões de que apenas homens


são capazes de realizar determinadas tarefas.

- Ajuda a Nettie;

- Confiante de si mesma e segura.


Branca de Neve

- Tem depressão;

- Foge da rainha.

Rainha má

- Narcisista;

- Muito presa aos padrões de beleza.

Tinker Bell

- Tem ansiedade;

- Mente para os outros apenas para se divertir.

João

- Criança pobre;

- Faz acordo com o Rumple para ele e sua irmã conseguirem


uma casa para morar e comida. É enganado ao fazer esse
contrato.

- Triste;

- Pessimista.

Maria

- Criança pobre;

- Animada;

- Otimista, apesar de tudo.


Gato de botas

- Ladrão;

- Ensina João e Maria a roubarem, mas acaba sempre deixando


as crianças com o mínimo possível;

- Faz acordo com Rumple para se transformar em pessoa.

Odette

- Seu talento são suas algemas, forçam a garota a dançar e


sempre ser perfeita nisso, sem ter tempo para outras coisas
da vida;

- É uma pessoa dedicada mas triste por sempre estar presa,


sonha em ter liberdade. É amável e fala de maneira calma;

- Fez um contrato com o Rumple para poder seguir seu sonho


de ser bailarina, mas foi enganada, tendo que fazer isso
pela eternidade e enquanto seus pés suportassem;

- Cisne branco.

Odille

- Cisne negro;

- Grosseira;

- Fala de forma ignorante e se nega a focar em outra coisa


além de dançar.

Mãe do chapeleiro

- Não gosta que seu filho ande com Nettie, principalmente


após o pai da garota ser acusado de assassinato;

- É grosseira.
PRIMEIRO ATO

[Casa de família pobre, sem a necessidade de muitos objetos


no palco, apenas duas cadeiras e uma mesa. Xícaras para
representar que estão tomando café.]

CENA I

(Chapeleiro Louco)

[Parado no meio do palco quando as cortinas se abrem e a


luz sobre ele]

Hoje me lembrei de um fatídico acontecimento, algo que me


fez ter a alcunha de chapeleiro louco. Poderia roubar os
holofotes e fingir que a história é sobre minha vida, mas
nunca foi. A história que vou contar, passou-se em uma época
distinta, onde bruxas eram queimadas, as crianças
acreditavam em fadas... Mas será que tudo isso não existe?
É apenas mais ilusão da minha mente que dizem ser insana?
[anda confuso de um lado para o outro] Eu preciso descobrir,
preciso descobrir... [sai do palco]

Cena II

(Theresa, Ryan)

[Theresa, de pé, serve o café. Ryan, sentado, lê um jornal]

Theresa: [fala com pesar e tristeza] Eu gostaria tanto de


ter uma filha... Nossa vida seria abençoada e alegre com uma
criança aqui. [esperança] Olhe nossos vizinhos como exemplo,
a vila inclusive está mais alegre com esses pequenos
brincando e correndo por aí.

Ryan: Theresa, nós não temos condições de criar uma criança.


[esbravejando] Só seria mais uma boca para alimentar, mais
despesa! Não concordo com isso. Nossa vida já é boa o
suficiente sem mais um estorvo por aqui.

Theresa: Você diz tal coisa por saber que eu não posso
engravidar. Nunca pude. E só concordou em se casar comigo
quando teve a garantia de que uma criança não passaria de um
"pesadelo". [raiva]

Theresa: Não passa de um velho cabeça oca! Não sei onde


estava com a cabeça quando decidi me casar. Mamãe bem que me
avisou que viveria infeliz e pobre. [desgosto] Onde já se
viu afinal, fugir de uma casa confortável e com tudo que
precisava pra viver, por algo tolo como amor. Deveria nunca
ter me apaixonado.

Ryan: Pois bem, casou porque quis! [gritando] Nunca lhe


obriguei a nada.

Theresa: [gritando] Não obrigou, Ryan? Então porque tive que


desistir da arte? Dos meus sonhos?

Ryan: Mulher minha não é taxada de artista, onde já se viu


tal absurdo. Prefiro a morte a deixar que vejam minha mulher
toda suja de tinta ou lama por aí.

Theresa: Mas viver em uma casa assim não é vergonha para


você? Caindo aos pedaços, feita às pressas e que nem pode
nos proteger do frio que faz lá fora.

Ryan: Você decidiu seu futuro quando veio comigo.

Theresa: "Você, você, você.." Agora tudo é culpa minha!


Porque claro, eu fugi sozinha, ninguém estava comigo.

Theresa bate na mesa com força e se levanta.

Theresa: Eu estou ficando cansada de tudo isso. Será que


nunca vou ser feliz?
Ryan se levanta rapidamente, derrubando a cadeira.

Ryan: [esbraveja] Então faça o que quiser, essa conversa já


acabou. Preciso trabalhar.
Ryan sai de cena a passos largos e batendo seus pés com força
sob o chão.
Theresa fala consigo mesma.

Theresa: Não posso ter filho? [desdém] Pois bem, eu mesma


darei um jeito nessa situação. Me recuso a abaixar a cabeça
e vou mostrar a todos como estavam enganados. Só preciso
ponderar um pouco mais sobre minhas opções. [anda no palco
como se estivesse pensando. Grita, exaltada] Já sei! Só é
necessário arrumar alguns pequenos detalhes e com certeza
dará certo.
Theresa pega uma bolsa ao canto, veste seu casaco e sai da
casa.

CENA III
(Theresa, Mãe do chapeleiro, Rumple)

Theresa observa uma mulher que segura um bebê em um braço e


uma cesta no outro.

Theresa: Eu sabia que ela estaria aqui, sempre no mesmo


horário e vendendo esses doces com péssimo gosto. [ri
ironicamente enquanto fala com desdém] Coitadinha, a mulher
do chapeleiro mais conhecido da cidade tendo que vender doces
porque seu marido morreu. Eu com certeza poderia cuidar
melhor dessa criança.
Theresa aproxima-se da mulher.

Theresa: Olá! Quanto tempo sem lhe ver. [aponta para a


plateia] Aquelas pessoas ali estão interessadas em comprar
alguns de seus doces, se quiser posso segurar seu filho.
Mãe do chapeleiro: Mesmo? Obrigada. [entrega a criança] Volto
já, vou apenas buscar mais alguns doces.
Theresa: [sorri simpaticamente] Não se preocupe!
A mãe do chapeleiro sai de cena.

Theresa: [fala com o bebê em seu colo] E pensar que seria


tão fácil pegar você, que mulher mais tola.
Rumple entra em cena e vai ao encontro de Theresa.

Rumple: [ri de maneira estranha] Parece que temos uma ladra


de bebês por aqui.
Theresa: Não é o que está pensando, estou apenas segurando-
o para uma conhecida.
Rumple: [aproxima-se e ri alto] Claro que está. Não quero te
assustar ou talvez queira, mas posso ver o que esconde em
seu coração e vejo que pretende roubar essa criança. [levanta
o dedo, como se estivesse apontando para o alto/ acabado de
ter uma ideia] Mas para sua sorte, sou capaz de ajudar nesse
seu pequeno... [aponta para a barriga de Theresa]
probleminha.
Theresa: Você? [ri com desdém] Uma estranha com roupas ainda
mais estranhas.
Rumple: Pois então lhe provarei que falo sério. [retira duas
folhas de sua bolsa/ seu bolso] Só preciso que assine esse
contrato e poderá obter o que deseja. [coloca uma folha sob
a outra, de forma que da folha de baixo sobre apenas o espaço
da assinatura] É a melhor oferta que irá encontrar. Tudo o
que precisa para resolver seu problema, é assinar. [oferece
uma caneta]
Mãe do chapeleiro volta para o palco enquanto segura a cesta.

Theresa: [olha em direção da mulher que se aproxima] Tudo


bem, aceitarei sua oferta. Não é como se eu possuísse muitas
opções, no fim. Um contrato não irá alterar toda minha vida.
Rumple: [sorri] Agradeço por isso. [guarda o contrato e
encosta suas mãos na barriga de Theresa] Agora o que você
mais desejou irá surgir, aguarde nove meses e logo irá
sorrir.
Rumple sai do palco, rindo. Theresa observa-o.

Mãe do chapeleiro:[aproxima-se] Muito obrigada por cuidar


dele.
Theresa: [cinicamente] Sem problemas, vizinhos são para isso
mesmo. Tenha uma boa tarde e boas vendas.
Theresa sai de cena.

Mãe do chapeleiro: [desespero] Nossa, já é esse horário.


Tenho que voltar logo à loja de chapéus. [retira um chapéu
da cesta e coloca sob o bebê em seu colo] E este, é seu.
Mãe do chapeleiro sai de cena enquanto as luzes se apagam.
CENA IV
[Nettie criança, sentada ao fundo de cabeça baixa, sem olhar
para o público. Luz focada no chapeleiro, ao centro]
(Chapeleiro Louco, Nettie, Mãe do Chapeleiro, Theresa,
Rumple)
Chapeleiro Louco: Eu realmente era um bebê adorável, [fala
com pesar] que quase fora roubado dos braços de sua mãe.
[retira o chapéu e o segura enquanto fala] Apesar de me
sentir consternado ao saber o que se passava quando eu nem
ao menos possuía capacidade de compreender o mundo, não me
importaria de voltar para estes dias. [tristeza] Nenhum dos
próximos eventos ocorreria e eu ainda seria são. [coloca o
chapéu novamente e se vira para a garota]
Chapeleiro aproxima-se de Nettie, com características
infantis na voz, demonstrando ser uma criança também.

Chapeleiro louco: [grita] Nettie!


Nettie: [esbraveja] O que foi agora? Alguém roubou seu chapéu
novamente?
Chapeleiro Louco: Não, ele sempre está na minha cabeça,
[ironicamente] assim como a sua cabeça está sempre nas
nuvens. Vamos logo brincar.
Nettie: Tá bom, tá bom. [faz como se estivesse desenhando no
chão] Me segue [pulando amarelinha].
Ambos pulam amarelinha.

Nettie: [ri] Eu vou pro céu e você só pisa no inferno!


Chapeleiro Louco: [bravo] Não tenho culpa se não sei brincar
desses jogos de criancinhas.
Mãe do chapeleiro entra em cena e o puxa pelo braço.

Mãe do chapeleiro: [brava] Vamos, já te disse para não


brincar com essa garota.
Chapeleiro Louco: [chateado] Mas mãe, eu quero brincar...
[acena] Tchau Nettie, até outro dia.
Nettie: [acena] Tchauzinho! Cuidado para não perder esse
chapéu velho. [ri]
Mãe do chapeleiro e Chapeleiro saem de cena. Theresa entra
no palco.
Theresa: Vamos, Nettie. Está na hora de comer. [segura o
braço da garota]
Nettie: [triste] Mas... eu queria continuar brincando.
Theresa: Agora não, vamos. [arrasta-a]
Theresa e Nettie vão em direção a mesa e as cadeiras,
indicando que estão em casa.

Theresa: Eu já te avisei sobre brincar com o filho daquela


mulher.
Nettie: Mas nós somos amigos, mãe!
Theresa: Não quero saber. É para tomar cuidado com aquela
família e pronto.
Rumple entra em cena e para em uma das extremidades do palco,
faz como se estivesse batendo em uma porta. Ouve-se batidas
na porta.

Theresa: Quem será a essa hora? [abre] Não, não... [grita]


Você não! Vai embora, não tem nada o que tratar aqui.
Rumple: [sorri] Parece que alguém se esqueceu de um certo
contrato... [estala os dedos]
Theresa abaixa a cabeça, como em transe.

Rumple: Ótimo. Agora, pegue a garota. [aponta para Nettie]


Nettie: Não mamãe, para! [chora e soluça] Por favor mamãe,
não me machuca.
Rumple: Tolinha, ela não pode te ouvir.
Theresa coloca ambas as mãos no pescoço de Nettie. Rumple
faz sinal com ambas as mãos, como se sufocasse algo. Theresa
acompanha o movimento e sufoca Nettie.

Nettie: [fala com muita dificuldade enquanto tenta se soltar]


Para, por favor. Alguém me salva.
Ryan entra em cena.

Ryan: [grita] Quem é você? O que você tá fazendo com elas?


[tenta ir em direção ao Rumple, o qual estica sua mão,
fazendo Ryan parar].
Rumple: Eu sou Rumplestilskin e só vim cobrar uma dívida
antiga. [solta a mão que controlava Theresa]
Theresa solta Nettie, que cai no chão desmaiada.
Rumple: Já que não posso ter a garota, uma vida por outra
vida. [estala os dedos novamente]
Theresa cai no chão, morta. Rumple solta a mão que segurava
Ryan.

Rumple: Finalmente pago.


Rumple sai de cena e Ryan, desolado tenta acordar sua filha
e sua mulher, percebendo que esta já encontra-se morta.

Ryan: Não, não... [chora]


Luzes apagam.

CENA V
(Chapeleiro Louco)
Uma vida por outra. Embora 10 anos se passassem, Ryan nunca
esqueceria aquela frase e a vida de uma garota mudaria para
sempre. Era apenas o começo da tempestade em meio ao caos.
Nem mesmo eu saberia que o inferno particular de Nettie
estava apenas começando. Eu poderia ter mudado tudo, poderia
ter mudado tudo [sai do palco, consternado]

CENA VI
[Nettie está segurando um livro]
(Ryan, Nettie)
Nettie: [lendo o livro, fecha e olha para a plateia] Dessa
história eu gosto muito, começa assim: Era uma vez uma bela
moça, filha de um moleiro pobre que queria impressionar o
rei. Então certo dia, este lhe disse “Minha filha fia palha
e faz com que vire ouro” o rei impressionado, pediu que a
garota fosse ao castelo no dia seguinte. Quando ela chegou,
levaram-na até um quarto cheio de palha, com uma roca e uma
bobina. E o rei trancou-a e disse “Trabalhe e se amanhã pela
manhã, não tiveres convertido toda a palha em ouro,
morrerás”. A moça sentou-se em desespero, pois não sabia
como fazer isso. Porém um pequeno ser surgiu dizendo “Boa
tarde senhorita, por que choras?” a garota explicou o
acontecido e então o ser lhe disse “O que me dás se fizer
isto por ti?” ela ofereceu-lhe seu colar e então com magia,
o ser fiou a palha, transformando-a em ouro. O rei se
surpreendeu pela manhã e então tornou-se ainda mais
ganancioso, obrigando-a a fiar mais.
Novamente a garota fez um acordo com o ser mágico, desta vez
em troca de seu anel, e a palha novamente foi transformada
em ouro. O rei ficou felicíssimo e pensou “Nunca encontrarei
alguém tão rica no mundo” então levou a garota para um quarto
ainda maior, com mais palha, dizendo a garota “Se conseguires
transformar toda essa palha em ouro, poderá tornar-se minha
esposa”. Quando este partiu, o ser mágico questionou o que
a garota lhe daria em troca, mas esta não possuía mais nada
consigo. Então o ser lhe disse “Se te tornares rainha, me
darás seu primeiro filho” e a garota, pensando que era
impossível, aceitou a proposta. Mais palha foi transformada
em fios de ouro e isso surpreendeu o rei. Casou-se então com
a filha do moleiro, que tornou-se rainha.

Um ano depois, a rainha, que nem lembrava do contrato, teve


um filho. E um dia o ser apareceu e lhe disse “Dá-me o que
prometeste”. Foram oferecidas todas as riquezas do reino
para esquecer o contrato, mas o ser negou. A rainha estava
a lamentar-se e o ser compadecido, lhe deu três dias para
descobrir seu nome e continuar com seu filho. No mesmo dia...

Ryan: Nettie! [fala com a voz mole, bêbado] Vai vender uns
fósforos lá fora garota. Isso é, se quiser ter o que comer
nesse natal.
Nettie: Mas pai, tá frio demais e nevando...
Ryan: Se quiser comer, tem que fazer isso, vai logo.
Nettie pega os fósforos sob a mesa e um casaco. Sai de casa
e fica tentando vender fósforos.

Nettie: [olha para o público enquanto se aproxima da ponta


do palco] A senhora gostaria de comprar alguns fósforos?
[decepcionada, anda para o lado] Então o senhor? [anda mais
para o lado] A moça? [cabisbaixa, volta ao centro do palco
e senta]
[triste] Ninguém quis comprar nem mesmo uma caixinha de
fósforos. Não quero voltar para casa, papai vai brigar comigo
novamente. [olha em volta] Mas... Está tão frio aqui fora.
[pega uma caixinha de fósforo] O que será que acontece se eu
acender você, senhor fósforo?

SEGUNDO ATO
[A portinha será utilizada na cena IX]
CENA VII
(Nettie, Tinker Bell)

Nettie risca um dos fósforos na caixinha. A chama revela uma


fada. Tinker Bell entra em cena.

A fada ri e começa a se aproximar de Nettie, mexendo em seus


cabelos e quando a garota tenta tocá-la, o fósforo apaga.
[apagar luz do palco simultaneamente]
Tinker Bell sai de cena.

CENA VIII
(Nettie, Chapeuzinho Vermelho)
As luzes acendem novamente e Nettie está sozinha no palco.

Nettie acende mais um fósforo. Desta vez, Chapeuzinho


vermelho aparece, cantarolando e pulando com sua cestinha em
direção à casa de sua avó.
Nettie: [grita] Chapeuzinho Vermelho!!
Quando a garota tenta se aproximar, o fósforo apaga novamente
[luzes apagam]
Chapeuzinho sai de cena.

CENA IX
(Nettie, Rainha má, Branca de Neve)
As luzes acendem e Nettie acende mais um fósforo.

A garota vê a Rainha Má aproximando-se de Branca de Neve com


um punhal/faca.
Nettie: [grita] Corre!!
Branca de Neve percebe a presença da rainha após ouvir Nettie
e foge. A Rainha má, irritada, lança um feitiço contra
Nettie, que cai no chão assustada com a situação. A rainha
ri. [luzes apagam]
Rainha má sai de cena. Colocar a portinha.
Quando as luzes acendem novamente, Nettie vê uma portinha
onde a rainha estava anteriormente. A garota aproxima-se e
a toca, percebendo que esta é física. Decide então atravessá-
la.

CENA X
(Nettie, Gato de Botas, Branca de Neve)
Nettie atravessa a porta e começa a ouvir sons de grilos e
cigarras.

Nettie: Olá? Alguém pode me ouvir? [grita] Olá??! [anda em


círculos, furiosa enquanto resmunga] Como parei neste lugar?
Eu quero ir embora logo e estou com tanta fome... [senta no
chão e revira os bolsos] Fósforos, remédios, livro, mas nada
de comida. [olha em volta] Não vejo nenhuma árvore com frutos
por aqui. Que péssimo lugar para estar.
Bom, não é hora para entrar em pânico, preciso logo
achar um lugar para me abrigar e comida [levanta] ficar
sentada aqui não vai mudar nada. [bate na roupa como se
estivesse limpando-a]
Gato de botas entra em cena.

Gato de botas: Psiu! Psiu!


Nettie olha para o lado procurando de onde vem aquele som.

Gato de botas: Desse lado aqui, garota burra!


Nettie: [enraivecida] Eu não sou burra. Pois bem, não tenho
tempo a perder com alguém que me chama assim. Passar bem.
[anda]
Gato de botas corre em encontro a Nettie e entra em sua
frente.

Gato de botas: Espera, espera!! Eu posso te ajudar.


Nettie: [animada, grita] Mesmo???! Como??!! Conta, conta!
Gato de botas: Ai garota, para de gritar nos meus ouvidos,
credo. Não virei humano pra ficar ouvindo grito dos outros,
eu hein.
Nettie: Então virou humano por que?
Gato de botas: Porque... Bom, não te interessa, você é burra.
Nettie: Ah, é? Então eu vou tentar sair daqui sozinha, tchau.
Gatos de botas: Calma, tenho uma ideia genial. Aposto que
está com fome.
Nettie: Como sabe disso?
Gato de botas: Eu ouvi sua barriga roncando.
Nettie: É, eu estou com fome, e..?
Gato de botas: Se você me ajudar, posso te levar em um lugar
com comida.
Nettie: E como posso confiar em você?
Gato de botas: Eu ajudo duas crianças pobres que também não
tem o que comer. Pelas suas roupas, posso ver que você também
não tem muito dinheiro, então deve entender.
Nettie: O que preciso fazer?
Gato de botas: Você só precisa...
Branca de Neve entra em cena andando lenta e cautelosamente.

Gato de botas: Conversar com aquela moça enquanto eu pego o


dinheiro que ela tem.
Nettie: Mas isso é roubo!
Gato de botas: E isso é sua barriga roncando. Decide logo,
ela já está perto.
Nettie: Tudo bem, eu vou ajudar e [olha para a moça] espera,
eu conheço ela. [grita] Branca de Neve!!
Nettie vai ao encontro da princesa enquanto o Gato de Botas
tem um acesso de raiva.

Gato de botas: [cochichando] Droga, como vou enganar essas


duas agora? Preciso do dinheiro mas quem liga para aquelas
crianças doidas?
Nettie: [olha para trás] Falou algo?
Gato de botas: Não, nadinha. [sorri cinicamente]
Nettie: Branca de Neve, eu sou a Nettie e sei que você é uma
pessoa bondosa, então por favor, me ajude e ao... Como é seu
nome?
Gato de botas: [revira os olhos] Gato de Botas.
Nettie: Isso, nós precisamos de ajuda para nos alimentarmos
e também às crianças que ele conhece. Eu vim parar nesse
mundo após a Rainha Má me jogar um feitiço e...
Branca de Neve: [interrompe] Como assim? Espera, a Rainha
Má? Eu conheço sua voz, já a ouvi antes... Já sei! Você é a
garota do portal que gritou para eu correr e me salvou de
minha madrasta. Obrigada, obrigada, obrigada! Uma pena que
depois conheci anões que me exploraram e um príncipe que me
beijou após minha morte.
Nettie: [afasta-se um pouco, assustada] Er... Sim, fui eu.
Disponha. Você pode nos contar mais sobre o que aconteceu na
sua vida depois de chegarmos aonde as crianças estão, mas
por favor, nos ajude.
Branca de Neve: [pondera] Tudo bem. Senhor Gato de Botas,
por favor nos guie.
Gato de Botas: Não é como se eu tivesse alguma escolha, de
qualquer maneira. Vamos.
Todos vão para as coxias. As luzes apagam.

CENA XI
(Chapeleiro Louco)
Luzes acendem.

Nettie estava encrencada. Sendo ajudada por um ladrão e uma


princesa fugitiva. Eu queria poder ajudar, mas apesar de ver
todos esses momentos, nunca consigo alcançar minha amiga.
Nunca consigo tocá-la. É como se tudo isso não passasse de
uma mera lembrança... [olha para o lado assustado] Vocês
ouviram alguém me chamando? Droga, ele me encontrou
novamente, preciso fugir.
Chapeleiro sai do palco.

CENA XII
(João, Maria, Nettie, Branca de Neve, Gato de Botas,
Chapeuzinho)
As crianças estão no centro do palco apoiando um nas costas
do outro, alucinando.
Maria: Olhe João, [aponta] agora temos biscoitos também na
casa de doces.
João: Eu vejo pudim, bala e... Olha, tem até bolo!
Maria: [vira-se para o irmão gritando, animada] Aonde??! É
sério? [sonhadora] Já consigo até imaginar o sabor. Faz tanto
tempo que não como bolo. [anda até algum canto do palco,
procurando o bolo] Mas João, para onde o bolo foi?
João: Como assim? [levanta-se e vai para perto da irmã,
confuso] Ele estava aqui há poucos minutos...
Maria: [olha para o lado do palco onde apontou anteriormente]
Espera, olha lá! O biscoito está fugindo também, vamos atrás
dele. [corre para a coxia]
Maria sai de cena.

João: Tá bom, eu estou com tanta fome que poderia morrer.


[ri e se vira para a plateia] É claro que é só uma
brincadeira, ninguém morre de fome com uma casa dessas.
[grita] Espera Maria, eu vou também!! [corre na mesma
direção]
João sai de cena. Nettie, Gato de Botas e Branca de Neve,
entram do lado oposto ao qual as crianças saíram.

Nettie: Nós já estamos chegando? Tô cansada de andar e andar


e andar. [anda de forma desleixada]
Branca de Neve: Isso mesmo, Gato, você disse que era perto
mas já estamos caminhando há um bom tempo.
Gato de botas: Vocês duas me cansam. É aqui, mas não sei
onde eles estão.. [olha para os lados e então grita]
Pirralhos! Ei crianças pobres e sujas, cadê vocês? Trouxe
gente nova.
Branca de neve: Eu acho que você está falando sozinho.
Nettie: [olha para os lados] Eu não vejo ninguém. Você só
pode estar doido. [desdenha] Sabia que não deveria confiar
em alguém com o nome de Gato, mas que é claramente um humano
com complexo em contos de fadas.
Gato de botas: [orgulhoso] Para a sua informação, eu já fui
um gato de verdade. Empunhava uma espada, meu chapéu e minhas
botas, que são meu símbolo. [desdenha] Mas é claro, uma mera
humana nunca saberia disso.
Nettie: [cruza os braços] Pois eu sei que é mentira. Ninguém
é capaz de transformar um gato de verdade em humano. E o
gato de botas das histórias era muito mais legal.
Gato de botas: [ri] Então não conhece esse mundo direito.
Uma feiticeira me ajudou, o nome dela era...
Branca de neve: [desespero] Espera! Uma mulher com vestes
estranhas também me ajudou quando eu estava fugindo da minha
madrasta. Foi depois disso que eu comecei a ter esses
problemas...
Nettie: Problemas?
Branca de neve: Eu tentei me matar. Não aguentava mais esse
mundo e às vezes não suporto nem minha existência. Eles
diziam que eu estava depressiva.
Nettie: Eles?
Branca de neve: Sim, os anões. Logo depois fugi deles, pois
eu era obrigada a fazer todos afazeres da casa. Mas acabei
sendo envenenada e morri. Mas logo depois um príncipe me
beijou e sinceramente, foi a pior coisa que já me aconteceu.
Tenho calafrios só de pensar.
Gato de botas: Que dedinho podre você tem para escolhas,
viu?
Branca de neve: Alguém que se transformou em humano mas ainda
toma banho igual a um gato não pode me julgar. É repugnante.
Branca de neve e Gato de botas se encaram, enraivecidos.
Ambos deixam seus pertences no chão. Nettie se coloca entre
os dois, os afastando.

Nettie: Como é o nome daquela que fez isso com vocês?


Gato de botas: Todos a chamam de Rumplestils...
Branca de neve: [interrompe] Não diga esse nome, você sabe
o que acontece?
Nettie: Ah, vocês querem dizer Rumplestilskin?
Branca de Neve e Gato de Botas juntos: Shhhhh!!!

Gato de botas: Não devemos falar esse nome aqui garota. Acaba
de atrair o mal para nós. [ironicamente] Obrigado por isso,
viu.
Branca de Neve: Ela não sabia, não a julgue.
Gato de botas: Tanto faz. Enfim, onde estão aquelas
crianças...? [grita] João! Maria!
João e Maria entram no palco.

João: Estamos aqui!


Maria: O que estão fazendo na nossa casa de doces?
Gato de botas: Eu trouxe essas pessoas para dar comida a
vocês.
Maria: Não precisamos de comida, temos essa gigante casa de
doces só pra gente [cruza os braços] e eu não vou dividir.
João: Não é como se a gente pudesse comer qualquer coisa
daqui mesmo.
Maria: É claro que podemos! Por isso você fez contrato com
aquela moça mágica!
João: Não a escutem, ela não sabe o que está falando.
Maria: Sei sim!
João: [entra na frente de Maria] Bom, desculpem minha irmã
mais nova. Mas é que cada vez que sentimos fome, comemos
algo da casa de doces e logo passa. Mas não podemos dividir.
Gato de botas: Viu? Eu disse que eram doidos. Ô Branca de
Neve, busca algumas frutas para eles comerem. Estão tão
magrinhos, coitados.
Branca de neve: Não é necessário, eu tenho algumas que peguei
no caminho [abaixa-se, pega a bolsa com maçãs e vai em
direção às crianças] comam algumas maçãs por favor.
João: Só vou fazer isso porque estou enjoado de doces e não
porque você está pedindo.
Gato de botas: Claro que é garoto. Come aí logo.
Maria: Não fala assim com meu irmão.
Gato de botas: Tanto faz. [senta-se no chão e cruza os
braços]
Nettie se junta a Branca de Neve próxima às crianças. Todos
sentados no chão, conversando. Gato de botas se aproveita
disso para pegar a bolsa de moedas da princesa, que ainda
está no chão.
Gato de botas: [cochichando para a plateia] Quer saber, eu
vou pegar essas moedas e dar o fora logo, aqui só tem gente
doida. [começa a sair do palco]
Chapeuzinho vermelho entra em cena.

Chapeuzinho vermelho: Opa, opa, opa! Vai fugindo assim com


as coisas dos outros não. [segura o braço do gato]
Gato de botas: Inferno!!
Chapeuzinho vermelho: Ô gente, mas não é possível que
mulheres fortes como vocês não consigam segurar um
ladrãozinho desses. Vou te contar, viu. Por isso que existem
machistas que se acham melhores.
Nettie: Oi? Machi o que?
Chapeuzinho Vermelho: [amigável] Machistas, querida. Homens
que se acham melhores por carregarem um pesinho a mais.
Nettie: Entendi.
Branca de neve: Isso me lembra alguns anões que conheci...
Chapeuzinho vermelho: Ah, então você deve ser a Branca de
neve.
Branca de neve: Como sabe?
Chapeuzinho vermelho: Alguém que convive com sete anões fica
meio conhecida, porque não é muito comum, viu. [olha para o
gato de botas] Esse deve ser aquele que desejou virar humano,
o Gato de botas.
Gato de botas: Fazer o quê, minha fama me precede. Vida de
gente famosa é assim.
Chapeuzinho vermelho: Ahn... Claro. [ignora o gato] Eles
devem ser João e Maria, coitadinhos. [vira para Nettie] Mas
e você é...?
Nettie: Eu me chamo Nettie, oi!
Chapeuzinho vermelho: Eu sou a Chapeuzinho vermelho. Agora
sem o chapeuzinho, mais forte, assassina de lobos e... bom,
ainda sou chapeuzinho vermelho. [pensativa] Eu já ouvi sua
voz em algum lugar...
Nettie: [extasiada, grita] Chapeuzinho?! Sabia que te
conhecia! Eu te chamei quando um portal mágico apareceu, se
lembra?
Chapeuzinho: Ah sim, isso aconteceu meses atrás. Mas como
você veio parar nesse mundo quebrado?
Todos em uníssono: Quebrado?!

Chapeuzinho: Socorro, eu tenho que explicar tudo pra vocês!


[voz monótona] Sim gente, quebrado, uma pessoa com muita
magia conseguiu destruir todos aqui. O mundo dos contos de
fadas tá um caos.
Branca de neve: Oh não, foi minha madrasta, não foi?
Chapeuzinho: Não querida, ninguém nem lembra dessa
narcisista. Foi um ser que não devemos dizer o nome completo.
Nettie: [grita] Ah! Rumplestilskin!
Gato de botas: Garota, qual a sua dificuldade em não
pronunciar esse nome?
Nettie: Ah é. Desculpa. [sorri sem graça]
Chapeuzinho: Enfim, estou morrendo de fome...
Branca de neve: Posso te dar algumas maçãs.
Chapeuzinho: Obrigada. Então... [mostra a cesta que está
carregando] Vou dividir meus doces dessa cestinha com vocês.
Vamos nos sentar ali [aponta para algum lugar]. Mas antes,
vou prender esse daqui pra não corrermos o risco. [faz como
se prendesse o gato em algum canto, recupera o saco de moedas
e devolve à princesa] Prontinho. Vamos comer.
Todos se sentam e comem enquanto conversam. Até que por fim,
caem no sono. Restam apenas Nettie e Chapeuzinho acordadas.
Nettie retira um pote de remédios da bolsa e toma um.

Chapeuzinho: Por que você está tomando isso?


Nettie: Todos diziam que eu tenho esquizo... esquizofre...
esquizo o que mesmo? [pensativa] Ah! Esquizofrenia! Então eu
tenho que tomar esses remédios pra não ficar doida. [levanta]
Por exemplo, essas pessoas aqui [aponta para a plateia] você
os vê?
Chapeuzinho: Pessoas?
Nettie: Sim! Todos estão aqui nos vendo. Mas ninguém nunca
acreditou em mim. [dar de ombros] Bom, nenhum deles existe.
Nem eu, nem você. [ri estranhamente] Nada disso nunca foi
real. [desmaia]
Chapeuzinho: Como eu disse, é um mundo quebrado. Esperar
alguém nos salvar é inútil. Por isso me tornei meu próprio
caçador. [boceja] Que sono... Vou dormir.
Chapeuzinho vermelho dorme. Luzes apagam e todos saem do
palco silenciosamente, menos Nettie.

CENA XIII
(Nettie, Gato, Branca de Neve, João, Maria, Chapeuzinho)

A luz acende e Nettie se vê sozinha.

Nettie: [grita] Oi!! Olá!! Alguém pode me ouvir? Não me


deixem sozinha, por favor. [chora e fala mais baixo] Não me
deixem sozinha. [olha para o lado] Alguém está me chamando,
eu ouço sua voz. Está se aproximando, não [consternada],
não, não. [abaixa no meio do palco por alguns segundos e
depois levanta a cabeça] Eles se foram? [vai em direção à
plateia] Será que tudo isso é real? [olha para alguém] Você
tem certeza de sua existência? [olha para outra pessoa] E
você? Sente que tem carne e osso e seu coração ainda pulsa?
[coloca a mão no coração] porque eu... não sinto mais o meu.
[olha para trás] Eu estou ouvindo algo, como uma música.

Todos entram no palco cantando, aproximando-se de Nettie e


então cirandando em volta dela. Nettie está em pânico.

Todos, exceto Nettie: Mandei fazer uma casa de farinha, tão


bonitinha que o vento possa levar. Oi faça sol, oi faça
chuva, oi faça vento, só não para o movimento do cirandeiro
a rodar.

Todos saem de cena, deixando Nettie sozinha novamente. Luzes


apagam com Nettie gritando.

CENA XIV
(Nettie, Tinker Bell, Rainha má)
Nettie está desmaiada. Tinker Bell entra em cena, animada.

Tinker bell: [aproxima-se da garota] Ei, acorda. [grita] Ei,


acorda!!
Nettie: [sonolenta] O quê? Onde eu estou?
Tinker Bell: No mundo dos contos de fadas, ué. Mas por que
estava dormindo aqui no meio da floresta?
Nettie: Acho que me perdi dos outros... Você os viu?
Tinker Bell: Sim, eu os vi. Mas quem se importa, eu posso te
ajudar melhor do que eles.
Nettie: Como assim?
Tinker Bell: Eu vi você no portal. Sei tudo o que aconteceu
nesse mundo quebrado, melhor do que ninguém. E posso te
ajudar por um precinho justo.
Nettie: O que você quer?
Tinker Bell: Quero uma dessas suas magias com luz.
Nettie: Magia com luz? [pensa] Ah, você quer dizer isso?
[mostra um fósforo]
Tinker Bell: [tenta pegar da mão dela] Isso, me dê um.
Nettie: [guarda novamente] Não, não, não. Preciso deles.
Tinker Bell: Pois então não te levo até alguém que pode
ajudar. Fique presa aqui para sempre.
Nettie: Não, espera. Eu te dou um fósforo.
Tinker Bell: Obrigada, garota. Me segue.
Nettie e Tinker Bell vão saem do palco para a coxia.

CENA XV
[Uma cadeira no centro do palco, como trono da rainha]
(Rainha má, Nettie, Tinker Bell)
Rainha má entra em cena, olhando-se em um espelho e senta-
se.

Rainha má: Onde está aquela fada imprestável? Estou cansando


minha beleza esperando.
Nettie: [grita da coxia] Para onde você está me levando?
Tinker Bell: [da coxia] Fica quieta.
Rainha má: Finalmente ela chegou. [grita] Guardas! Mandem a
fada entrar.
Tinker Bell entra empurrando Nettie.

Nettie: Ai, Ai!! Não me empurra! [olha ao redor] Wooow


castelo legal.
Tinker Bell: [emburrada] Se andasse rápido, não precisaria
empurrar. [começa a roer as unhas e depois limpa as mãos nas
roupas como se estivesse limpando suor]
Nettie encara Tinker Bell de maneira estranha.

Tinker Bell: Ai garota, o que foi?


Nettie: Você está agindo de maneira estranha.
Tinker Bell: Não estou e não é da sua conta. Vamos logo
[arrasta Nettie até a rainha]. Vossa majestade [reverência].
Nettie: [grita] A rainha má? Sério?! O quanto mais isso pode
piorar, sinceramente...
Rainha má: Calada. Ai está você, sua imprestável. Sua única
missão era trazer a garota e até para isso, demorou meses!
Só irá receber metade do pagamento. [olha para o lado]
Guarda! Entregue o pagamento da fada.
Guarda entra em cena com um pequeno pacote em mãos e entrega
a fada, sai de cena logo depois.

Tinker Bell: [indignada] Espera aí, acha mesmo que vou


aceitar só isso?
Rainha má: Eu dei um jeito de te salvar quando começou a ter
seus ataques de ansiedade. Não deveria nem precisar te pagar
algo por me fazer alguns favores.
Tinker Bell: [grita] Eu não tenho ataques!
Rainha má: [boceja, entediada] Vai sair sozinha ou quer que
eu chame os guardas novamente?
Nettie: Espera! Não me deixa aqui!
Tinker Bell: Não precisa, eu sei o caminho sozinha. [olha
para Nettie] Foi mal garota, são apenas negócios.
Tinker Bell sai de cena.

Rainha má: Agora, entregue-me seu poder se ainda quiser


continuar viva.
Nettie: Pronto, agora me restou falar com a doida.
Rainha má: [grita] Garota insolente! Entregue-me seus
pertences agora ou chamarei meus guardas.
Nettie: Calma, vamos conversar.
Rainha má: Não converso com a plebe. [estica a mão, com a
palma aberta, como se usasse um poder mágico].
Nettie cai no chão e a Rainha pega sua bolsa. Nettie tenta,
mas não consegue levantar.

Nettie: Deixe minhas coisas, sua bruxa!


Rainha má: Você deveria ficar quieta logo, garota. [estala
os dedos]
Nettie desmaia. A rainha revira a bolsa, pegando os fósforos
e os remédios.

Rainha má: [fala com a caixa de fósforos, encarando-a] Enfim


possuo todo o poder que sempre sonhei. [grita] Guardas! Levem
a garota para a floresta mais distante do reino.
Rainha sai de cena. Luzes apagam.

CENA XVI
(Nettie, Odette/Odille)
Nettie acorda sozinha e entra em desespero, ao som de animais
noturnos, como corujas e cigarras.

Nettie: Não, não, não! Eu não quero ficar sozinha de novo!


Eu sei que é tudo minha culpa, mamãe tentou me matar e depois
morreu. Sei que é minha culpa, mas por favor não me deixem
sozinha, por favor!! [grita e chora] Por favor!! [olha para
o lado assustada] Quem está ai? [começa a se arrastar para
trás, assustada] O que está dizendo? [tampa os ouvidos e
fecha os olhos] Pare de falar, pare de falar. [abre os olhos
novamente e se aproxima lentamente da borda do palco] Me
ajude! [grita] Por favor me ajude!
Começa a música O lago dos cisnes de Tchaikovsky. Odette
entra em cena dançando. Nettie encara a garota. A música
para e Odette também. Nettie aproxima-se de Odette.

Nettie: Ei!!
Sem respostas.

Nettie: Ei!! Me ajude, por favor!!


A música volta a tocar e Odette volta a dançar. A música
para novamente e a bailarina também.
Nettie: Olá?! Você é muda ou cega? Me dê algum sinal.
A música volta a tocar e Odette dança. Nettie observa e então
começa a acompanhá-la de maneira desajeitada. Odette percebe
sua presença.

Odette: Olá? Quem é você?


Nettie: [fala com falta de ar] Eu sou a Nettie. Você pode...
parar um pouquinho para falar comigo? Não estou acostumada
a dançar.
Ambas continuam dançando, mas de forma lenta.

Odette: [indiferente] Não.


Nettie: [irritada] Só porque é uma bailarina, quer mostrar
a todos em todos os momentos.
Odette: Não sou apenas uma bailarina, sou Odette, o cisne
branco. A melhor bailarina por aqui.
Nettie: [olha para os lados] Deve ser fácil ser a melhor se
só tem você aqui.
Odette: Está enganada. Odille sempre esteve aqui.
Nettie: Odille?
Odette: Sim, é o nome do cisne negro.
Nettie: E deixe-me adivinhar, você não pode parar de dançar.
Odette: Exatamente.
Nettie: Por quê?
Odette: Eu fiz um trato com alguém.
Nettie: Alguém?
Odette: Sim. Não podemos nomeá-lo. Imagino que já o tenha
conhecido.
Nettie: [grita] Rumples..
Odette: Shhh!! Não fale esse nome!
Nettie: [sem graça] Opa, desculpa! Você poderia me ajudar a
sair dessa floresta?
Odette: Eu...
A música para e Odette também.

Nettie: Olá? Odette!! Eu preciso falar com você!! Volte!


A música volta, agora Odille assumiu o lugar. Nettie volta
a dançar junto com a música tentando acompanhar.

Nettie: Odette! Fale comigo!


Odille: Odette? Me poupe, querida. Sou Odille. A melhor
bailarina. Odette não chega nem mesmo à ponta dos meus dedos.
Nettie: Isso é mentira! Odette dança melhor do que você.
Odille: Garota tola. Nunca sairá daqui. [põe as mãos na
cabeça, como se sentisse dor e grita] Não!! Pare Odette,
você não vai assumir. Não! Toda magia tem um preço, garota.
Toda magia tem um...
Odille cai no chão, Nettie tenta ajudar e quando levanta, é
Odette novamente, que prontamente se põe a dançar.

Odette: Não a ouça! Meu talento me aprisionou. Aquela magia


me tornou a melhor, mas agora eu e Odille somos uma só. Fuja
antes que seja tarde demais e aquela que não devemos nomear
te pegue! Corra! [aponta em alguma direção]
A música para novamente e Odette também.

Nettie: Odette! [grita] Odette!! [olha para os lados


procurando de onde vinha a música] Faça a música voltar,
quem quer que seja que a põe! Preciso falar com Odette!
Nettie se abaixa e começa a chorar e gritar. Luzes vão
apagando aos poucos.

Nettie: [grita] Não!! Não me deixem sozinha de novo!! Não de


novo.
Nettie se levanta, atordoada.

Nettie: Vou obedecer o último desejo de Odette. [corre na


direção indicada].
As luzes apagam. Odette sai do palco.

CENA XVII
[Portinha no palco novamente]
(Theresa, Nettie)
Nettie entra no palco atordoada, olhando para os lados
claramente assustada. Luz somente nela.
Nettie:[triste] Nada novamente... [pensativa] Espere! Já sei
o que tenho que fazer! [dá rodopios] Cadê aquela portinha?!
[rodopia de novo] Nada!! [senta-se no chão, emburrada] Nada
está dando certo! Nem mesmo quero voltar para aquela casa,
mas como ficar nesse mundo quebrado?
As luzes acendem completamente, revelando uma portinha.

Nettie: [olha para o lado e se levanta] Finalmente!! Mas...


Será que eu deveria voltar? Fiz amigos aqui... Lá não tenho
ninguém.
Theresa entra em cena.

Theresa: Então venha comigo, te levarei para um lugar melhor.


Nettie: [assustada] Quem é você? Você está me seguindo?!
[respiração acelerada] Por quê?
Theresa: [aproxima-se lentamente] Não está me reconhecendo,
querida? Estará segura comigo, meu doce. Prometo que não vou
mais te machucar. [faz como se fosse abraçar Nettie]
Nettie desvia do abraço e vai para a direção oposta.
Nettie: [enfatiza a palavra] Não vai mais me machucar?
Espera... [assustada] Eu sabia que te conhecia. Mas não pode
ser real [anda para trás], não pode. Não pode ser você, mãe.
Theresa: [assente, aquecendo suas mãos uma na outra]. Eu
esperei tanto por isso, Nettie. Te aguardo desde que....
Nettie: Não quero falar com alguém que tentou me matar!
Theresa: Mas filha, eu....
Nettie: [seus olhos marejam] Não me chame assim! Você não
tem direito!
Theresa: É uma história complicada demais. Não temos tempo.
Este mundo está desabando, precisa ir logo!
Nettie: Temos tempo o suficiente. Você já está morta. Nunca
vi um cadáver sem tempo.
Theresa: Mas ela lhe encontrará!
Nettie: Ela?
Theresa: Já deve ter ouvido falar. Ninguém aqui diz seu nome,
pois todos foram prejudicados por seus falsos contratos.
Nettie: Rumplestilskin?
Theresa: [triste] Sim. Para que você nascesse, fiz um acordo.
Mas no fim, custou minha vida, dignidade e o amor de minha
filha. Ela me controlou e depois me matou. [cabisbaixa]
Entendo se não quiser me perdoar, mas se mudar de ideia,
atravesse aquela portinha e venha comigo. Irei me redimir
por tudo até agora. [aproxima-se de Nettie] Você sabe que eu
lhe amo. Me desculpe por tudo [abraça].
Nettie: [abraça de volta mas logo desvencilha e olha para
trás, assustada] Eles estão nos observando. Parece que não
tenho mesmo muito tempo. [olha para Theresa novamente] Você
tem razão mamãe. É melhor ir contigo. Não existe ninguém que
sentirá minha falta naquele mundo. [seca as lágrimas]
Theresa segura a mão de Nettie e a puxa até a portinha.
Theresa: Atravesse-a e poderemos voar livres. Despeça-se de
seu corpo e iremos para um lugar onde nem mesmo a magia tem
um preço. Prometo que não irá se arrepender.
Nettie assente, então atravessa a portinha. Segura a mão de
Theresa, que a puxa para a coxia. As luzes apagam.

CENA XVIII
(Nettie, Chapeleiro Louco, Rumple)
As luzes acendem e Nettie está caída no chão, morta. Com um
sorriso no rosto, enquanto segura uma caixa de fósforos em
uma de suas mãos.
Chapeleiro entra em cena e vê o corpo da garota.
Chapeleiro: [grita em desespero] Nettie!! [aproxima-se
correndo e chacoalha o corpo da garota] Nettie, acorda!! Por
favor não morra. [abraça a garota enquanto chora] Por favor,
não morra.
Rumple entra em cena e aproxima-se do Chapeleiro.
Rumple: [cutuca o ombro do chapeleiro] Com licença, acho que
posso lhe ajudar.
Chapeleiro: [solta o corpo no chão novamente, seca as
lágrimas e fica de pé, encarando Rumple] Como? Ela está
morta. Congelada. Não tem mais volta.
Rumple: [retira folhas e uma caneta da bolsa] Basta assinar
este contrato e a farei voltar à vida. Ainda lhe mostrarei
todas as lembranças da garota.
Chapeleiro: [pensa um pouco e cede] Tudo bem. Espero que
seja verdade. [assina a folha]
Rumple: Não irá se arrepender. Agora tudo o que precisa
fazer, é fechar os olhos.
Rumple estala os dedos e o Chapeleiro fecha os olhos. Luzes
apagam. Nettie sai de cena.

CENA XIX
[Cadeira no centro do palco]
(Todos os personagens)
Luzes acendem. Chapeleiro entra de cabeça baixa, sendo
arrastado por Rumple, que o coloca na cadeira. Chapeleiro
está sentado na cadeira com a cabeça abaixada. Rumple está
ao seu lado, em pé.
Rumple: Parece que você tentou fugir e contar novamente para
outras pessoas sobre essa história. Você nunca poderá quebrar
nosso contrato. [grita] Nunca! [ri de maneira estranha] Ainda
bem que preparei uma surpresa dessa vez. [pega o queixo do
chapeleiro e levanta sua cabeça] Levante sua cabeça e abra
seus olhos. Veja sua surpresinha. [estala os dedos]
Nettie entra no palco de cabeça baixa, segurando um livro.
Para e levanta a cabeça com um olhar vazio enquanto olha
para a plateia.
Rumple: [olha para Nettie] Aproxime-se garota [faz sinal com
a mão, chamando-a] faça-o sentir dor.

Nettie aproxima-se lentamente, andando quase se arrastando,


ainda de cabeça baixa.

Chapeleiro: [grita] Não Nettie! Pare! Pare! Essa não é você.


Pare! [tenta se soltar da cadeira, mas não consegue]

Rumple: Parece que ainda não aprendeu a ficar calado. Garota


[estala os dedos e Nettie levanta novamente a cabeça] comece
a cantar.

Chapeleiro: Não, de novo não!

Nettie: [canta de maneira mórbida e vazia] Mandei fazer uma


casa de farinha, tão maneirinha que o vento possa levar...

Chapeleiro: Pare!! [põe as mãos sob os ouvidos]


Nettie: Oi faça sol, oi faça chuva, oi faça vento, só não
para o movimento do cirandeiro a rodar.

Rumple: Tire as mãos dos ouvidos [faz algo com as mãos,


fazendo o chapeleiro colocar as mãos ao lado do corpo
novamente]. Garota, chame os outros. [estala os dedos
novamente] E recomece a música.

Chapeleiro: Nettie!! Não!!

Nettie: [grita] Entrem!

As portas do fundo (onde a plateia entra) se abrem e todos


personagens entram, andando como se se arrastassem, de cabeça
baixa e cantam junto com Nettie. Andam em direção ao palco.

Todos: Mandei fazer uma casa de farinha, tão maneirinha que


o vento possa levar. Oi faça sol, oi faça chuva, oi faça
vento, só não para o movimento do cirandeiro a rodar.

Todos sobem ao palco e pegam o chapeleiro. Arrastam ele para


a coxia, enquanto cantam.

Chapeleiro: [grita pedindo socorro] De novo não! Por favor


alguém!! Me salvem!! Socorro!!

Restam apenas Nettie e Rumple no palco.

Rumple: Ignorem este pequeno imprevisto. [olha para Nettie]


Garota! Continue a minha história. [estala os dedos]
Nettie então, abre o livro e lê.
Nettie: ...No mesmo dia, os mensageiros saíram pelo reino em
busca de nomes. No primeiro dia o ser retornou e a cada nome
da lista respondia “Este não é meu nome”. No segundo dia, o
mesmo aconteceu. No terceiro dia não havia nenhum novo nome,
mas um mensageiro vira um ser dançando sozinho enquanto dizia
“Hoje eu frito, amanhã eu cozinho. Depois de amanhã será o
filho da rainha. Coisa boa é ninguém saber que
Rumpelstiltskin me chamo”. A rainha, feliz, aguardou o
retorno do ser. Quando este adentrou seu quarto, ela falou
mais alguns nomes, como que para testá-lo e ao fim, disse-
lhe “Então seria... Rumpelstiltskin?” o ser, enfurecido,
então disse “Te contou o demônio! Te contou o demônio” e
partiu para um novo mundo, o qual ninguém sabe seu nome e as
atrocidades que cometera.

Nettie fecha o livro e abaixa a cabeça novamente.


Rumple: [olha para a plateia e fala em tom nostálgico] Essa
história é antiga. Aprendi com meus erros e agora meu nome
é algo a se temer. [aproxima-se da bora do palco] A vida de
todos é como uma casa de farinha, um mero sopro [faz como se
assoprasse algo nas mãos] pode acabar com tudo. [olha para
alguém] Me diga, nunca desejou algo irreal por puro egoísmo?
[vai para outro canto e olha para outra pessoa] E você? Nunca
existiu maldade em seu coração? [anda no palco]

Todos possuem algum desejo. Seja por puro egoísmo,


ganância, necessidade ou por solidariedade. É fácil desejar
coisas. Mas você se pergunta, por quê eu realizo desejos? É
minha função, minha diversão. Essas vidas não passam de
poeira. Fácil de eliminar, fácil de resolver.

A magia existe, mas ninguém disse que ela deve


serventia a alguém.

Rumple estala os dedos. Nettie cai no chão.

Uma vida por outra. [olha para a plateia como se


analisasse] Toda magia tem um preço. Todos estão dispostos
a pagar?

Rumple estala os dedos novamente e as luzes apagam.

Fim.