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O traje novo do imperador

Hans Christian Andersen


Tradução de Silva Duarte

Há muitos anos vivia um imperador que trabalhando com os teares vazios. “Deus nos
gostava tanto de trajes novos e bonitos que gastava valha!”, pensou o velho ministro arregalando os
todo o seu dinheiro para vestir-se bem. Não se olhos. “Não consigo ver nada!” Mas nada disse.
preocupava com os seus soldados, nem com Ambos os vigaristas lhe pediram para ter a
comédias, nem em passear de carruagem no bosque, gentileza de aproximar-se e perguntaram-lhe se
apenas em exibir trajes novos. Tinha uma casaca não era bonito o padrão e lindas as cores.
para cada hora do dia e, tal como se costuma dizer Apontaram para os teares vazios e o pobre velho
de um rei que está em conselho, dizia-se sempre ministro arregalou os olhos, mas não via nada, pois
nesse caso: “O imperador está no guarda-roupa”. não havia nada para ver. “Meu Deus!”, pensou ele.
Na grande cidade em que vivia, a vida “Serei estúpido? Nunca tinha pensado nisso. Mas
transcorria agradavelmente. Todos os dias chegavam ninguém deve sabê-lo. Não presto para o meu
forasteiros. Um dia, chegaram dois vigaristas. trabalho? Não, não pode ser, não vou dizer que não
Disseram-se tecelões e afirmaram que sabiam tecer consigo ver o tecido.”
a mais bonita fazenda que se podia imaginar. Não só – Então, Vossa Excelência não diz nada? –
as cores e o padrão eram algo invulgarmente perguntou aquele que estava tecendo.
bonitos, mas também as vestimentas que fossem – Oh! É lindo! Primoroso! – disse o velho
feitas com essa fazenda tinham a maravilhosa ministro, olhando através dos óculos. – Este padrão
propriedade de ficar invisíveis para qualquer pessoa e estas cores! Sim, vou dizer ao imperador que me
que não fosse boa no seu ofício ou, então, que fosse agrada extraordinariamente!
completamente estúpida.
– Oh! Muito nos alegra saber! – disseram
“Seria um traje bem bonito para vestir”, ambos os tecelões, que indicaram depois os nomes
pensou o imperador. “Poderia saber que pessoas no das cores e descreveram o padrão especial. O velho
meu império não prestam no ofício que exercem. ministro ouviu tudo muito bem para poder repetir,
Poderia distinguir os espertos dos estúpidos! Sim, quando regressasse, ao imperador. E assim o fez.
essa fazenda tem de ser tecida imediatamente para
mim!” E pôs nas mãos dos dois vigaristas muito Então os vigaristas pediram mais dinheiro,
dinheiro para que começassem o trabalho. mais seda e ouro, que seriam necessários para
confeccionar o tecido. Meteram tudo nos sacos.
Assim, montaram dois teares, fingiam estar Para os teares não veio nem um fio! Mas
trabalhando, mas não teciam nada. Sem hesitação, continuaram, como antes, tecendo no tear vazio.
pediram a seda mais fina e o ouro mais bonito.
Meteram-nos nos sacos e trabalharam com os teares O imperador enviou pouco depois um outro
vazios até bem tarde da noite. honrado funcionário para ver como ia a confecção
do tecido e para saber se estaria pronto em breve.
“Queria saber agora como está a fazenda!”, Passou-se o mesmo que se tinha passado com o
pensou o imperador, mas no fundo estava bastante ministro. Olhou e voltou a olhar, mas como não
incomodado por saber que todo aquele que fosse havia outra coisa a não ser os teares vazios, nada
estúpido ou que não prestasse no ofício não conseguiu ver.
conseguiria vê-la. Cria bem que não precisava
recear por si próprio. Em todo caso, mandaria – Não é verdade que é uma bela peça? –
alguém primeiro para ver o que se passava. Todas as perguntaram ambos os vigaristas, exibindo-a e
pessoas da cidade sabiam que poder maravilhoso dando esclarecimentos sobre o belo padrão que,
tinha o tecido e todos estavam desejosos de saber até evidentemente, não existia.
que ponto o vizinho não valia nada ou era estúpido. “Estúpido não sou!”, pensou o homem.
“Vou mandar o meu velho e honrado “Será que não presto para o meu trabalho? Que
ministro aos tecelões”, pensou o imperador. “Pode piada! Mas não vou dar o prazer de alguém
ver melhor como se apresenta o tecido, pois é perceber.” Desse modo, louvou o tecido, que não
inteligente e ninguém é melhor no seu trabalho do via, e assegurou-lhes o gosto de ver as lindas cores
que ele.” e o bonito padrão.
Assim, o velho e honrado ministro se dirigiu – Sim, é primoroso! – disse ele ao
à sala onde os dois vigaristas estavam sentados imperador.
Todas as pessoas da cidade falavam do lindo havia para ver.
tecido.
Então, o imperador quis ele próprio ver o – Se agora Vossa Majestade Imperial
que fora feito nos teares. Com uma comitiva de tivesse a bondade de comprazer-se em tirar as
seletos senhores, entre os quais os dois velhos e roupas – disseram os vigaristas –, vestir-lhe-íamos
honrados funcionários, que antes já lá haviam o novo traje, aqui, diante do grande espelho.
estado, dirigiu-se para os dois astutos vigaristas, que O imperador despiu todas as roupas e os
agora teciam com todas as forças, mas sem fio nem vigaristas fizeram como se lhe entregassem peça
fibra. por peça do novo traje, supostamente acabado.
– Não é “très magnifique”? – perguntaram Pegaram-lhe pela cintura e fingiram acertar algo
ambos os honrados funcionários. – Queira Vossa que estava puxado e o imperador virava-se e
Majestade ver que padrão, que cores! – e apontaram voltava-se diante do espelho.
para os teares vazios, pois criam que os outros – Deus! Como vestem bem! Como
podiam certamente ver a fazenda. assentam lindamente! – disseram todos juntos. –
“Que é isto?”, pensou o imperador. “Não Que padrão! Que cores! É um traje precioso!
vejo nada! Oh! É terrível! Serei estúpido? Não – Lá fora já estão com o pálio sob o qual irá
presto para ser imperador? Seria a coisa mais Vossa Majestade na procissão – disse o mestre de
horrível que me poderia acontecer!” cerimônias principal.
– Oh! É muito bonito! – disse o imperador. – – Está bem, já estou pronto – disse o
Tem a minha suprema aprovação! – e acenou com a imperador. – Não assenta bem? – virou-se ainda
cabeça satisfeito, observando os teares vazios. Não uma vez mais diante do espelho, pois devia parecer
queria dizer que não conseguia ver nada. como se estivesse a admirar verdadeiramente a sua
Toda a comitiva que viera com ele olhou e elegância.
tornou a olhar, mas não viu mais do que todos os Os funcionários da corte que tinham de
outros. Disseram, contudo, como o imperador: segurar a cauda do traje tatearam com as mãos o
– Oh! É muito bonito! – e aconselharam-no a chão, como se a levantassem. Saíram segurando-a
vestir aquele novo e bonito traje pela primeira vez no ar, pois não deviam deixar transparecer que
na grande procissão que iria realizar-se. nada conseguiam ver.
– “Magnifique!” Lindo! Excelente! – andava Então, o imperador saiu em procissão sob o
de boca em boca, e todos se sentiam intimamente pálio, e todas as pessoas na rua e nas janelas
contentes com isso. O imperador deu a cada um dos diziam:
vigaristas uma cruz de cavaleiro para pendurar na – Meu Deus! Como é impecável o novo
botoeira e o título de cavaleiro de tear. traje do imperador! Que bela cauda tem na casaca!
Toda a noite antes da manhã em que a Como assenta tão bem!
procissão teria lugar estiveram os vigaristas de pé, Ninguém queria que notasse que nada via,
com mais de dezesseis velas acesas. O povo podia pois desse modo seria considerado mau no ofício
ver que estavam ocupados em aprontar o novo traje ou muito estúpido. Nenhum outro traje do
do imperador. Fingiam que tiravam a fazenda do imperador produzira tanta felicidade!
tear, que a cortavam no ar com grandes tesouras,
que a cosiam com agulha e linha. Por fim, disseram: – Mas não está vestindo nada! – disse uma
– Vede, o traje está pronto! criancinha.
O imperador, com os seus cavaleiros mais – Louvado seja Deus! Ouçam a voz da
distintos, foi ele próprio ao encontro dos vigaristas, inocência! – disse o pai. E cada um segredou ao
que levantaram um braço no ar, como se segurassem outro o que dissera a criança.
alguma coisa, e disseram: – Não está vestindo nada! – gritou por fim
– Aqui estão as calças! Eis a casaca! Aqui todo o povo. E isso impressionou o imperador, pois
está o manto! – e assim por diante. – É tão leve parecia-lhe que o povo tinha razão. Mas pensou:
como teia de aranha! Crer-se-ia que não se tem nada “Agora, tenho de continuar com a procissão”. E
sobre o corpo, mas é precisamente a sua virtude! continuou, ainda mais orgulhoso, e os funcionários
da corte atrás, segurando a cauda, cauda que não
– É claro! – disseram todos os cavaleiros, existia.
mas não conseguiam ver coisa alguma, pois nada