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Everton Franco de Oliveira

Relatorio de Iniciação Cientı́fica:

As Auto-funções do Laplaciano

Orientador: Severino Toscano do R. Melo

São Paulo, setembro de 2012


1 Introdução

A presente iniciaçao cientı́fica objetiva fazer um estudo das auto-funções do La-


placiano, com base no estudo apresentado por Rafael Iório no livro O Método de
Separção de Variáveis em Auto-funções do 13o. Colóquio Brasileiro de Matemática.
Portanto, busca-se fazer um estudo da existência de soluções do problema de auto-
funções do Laplaciano, gerando soluções para problemas conhecidos, como o caso do
problema da condução de calor.
Dividimos este relatório de acordo com as partes do livro estudadas e de acordo
a ordem de estudo: Um estudo do apêndice, As identidades de Green e o Problema
de auto-funções do Laplaciano. Depois destas seções contamos com uma conclusão.
Como o apêndice é um complemento para o entendimento do texto, não vemos nele
algo intimamente ligado com o problema de auto-funções do Laplaciano, a não ser as
definições e o teorema espctral.
No entanto, não pretendemos aqui reproduzir todos os resultados do livro, assim
como completar com todas as demonstrações. Isto será feito em um artigo que será
gerado por esta iniciação cientı́fica. Estando este artigo em desenvolvimento, será
enviado em anexo a este relatório. Então, apresento agora as ideias gerais do que foi
estudado.

2
2 Um estudo do Apêndice

O apêndice do livro é dedicado ao complemento necessário para o entendimento


do texto. Nele encontra-se definições e teoremas que são aprendidos normalmente em
cursos como análise matemática e funcional.
Portanto, em um primeiro momento são dadas definições de operadores lineares
limitados e compactos, funcionais lineares, o conceito de operador adjunto. Mere-
cendo destaque o fato de que os operadores lineares de posto finito são densos no
conjunto dos operadores compactos.
Prosseguindo no apêndice temos definições da teoria da medida e integração e
seus teoremas, tais como Fubini e o teorema da convergencia dominada.
Neste momento é definido o que é um operador integral com núcleo e demonstrado
que caso o núcleo pertença a L2 (X × X), e se L2 (X) for separável o operador integral
com núcleo é compacto. E será auto-adjunto sempre que o núcleo for uma função
real.
Nosso estudo do apêndice prosseguiu com o:

Teorema 2.1 (Teorema espectral para operadores compactos auto-adjuntos). Seja


T operador linear auto adjunto não nulo definido em um espaço de Hilbert. Então
existem sequências {µj }N N
j=1 ⊂ R e {φj }j=1 ⊂ H onde N pode ser infinito, tais que:


6 k
 0, se j =
T φj = µj φj com (φj , φk ) =
 1, se j = k

N
X
Tφ = µk (φ, φk ) ∀φ ∈ H
k=1

onde os números reais µj estão ordenados de modo que ∀j, |µj | ≥ |µj+1 | > 0. Caso
N = ∞, a série acima converge na norma de H e |µj | tende a zero. Além disso, se

3
M é o fecho do espaço gerado pelo conjunto {φj }N
j=1 , então T é nulo no subespaço

ortogonal a M .

Este teorema, além de ser de grande valia para resolver problemas, também nos
será útil para resolvermos o problema de auto-funções do Laplaciano.

4
3 As Identidades de Green e o Problema de auto-
funções do Laplaciano

Nossa iniciação cientı́fica baseia-se na tentativa de solucionar o problema de auto-


funções do Laplaciano, conforme o apresentado no livro já mencionado. Portanto, ele
tem as seguintes condições:



 u ∈ C 2 (Ω) ∩ C(Ω)

∆u = −λu em Ω



 u = 0 em ∂Ω

Sendo Ω ⊂ R3 um domı́nio limitado com fronteira ∂Ω de classe C 1 onde vale o teorema


da divergência .
Para nos ajudar a criar caminhos para a solução do problema, devemos tratar de
um outro, da seguinte maneira:



 u ∈ C 2 (Ω) ∩ C(Ω)

∆u = f em Ω



 u = g em ∂Ω

Em relação a unicidade, pelo princı́pio do máximo para funções harmônicas, temos


que, se tiver solução, esta será única. Uma vez que uma função harmônica atinge seu
máximo (e mı́nimo) na fronteira.
Resta agora pesquisarmos a existencia da solução. Para tanto, utilizando o teo-
rema da divergência, propriedades do Laplaciano, e propriedades da função F men-
cionada no terceiro teorema, é possı́vel provar as seguintes identidades:

Teorema 3.1 (Primeira identidade de Green). Sejam Ω ⊂ R3 um domı́nio limitado,


onde vale o teorema da divergência e u, v ∈ C 2 (Ω). Então:
Z Z
∂u
(v∆u + ∇u · ∇v)dx = v dσ
Ω ∂Ω ∂ν

5
Teorema 3.2 (Segunda identidade de Green). Nas mesmas condições que o teorema
acima temos: Z Z 
∂u ∂v
(v∆u − u∆v)dx = v −u dσ
Ω ∂Ω ∂ν ∂ν
Teorema 3.3 (Terceira identidade de Green). Sejam Ω ⊂ R3 um domı́nio limitado,
onde vale o teorema da divergência e u ∈ C 2 (Ω). Então ∀x ∈ Ω:
Z   Z
∂F ∂u
u(x) = u(y) (x − y) − F (x − y) dσ(y) + F (x − y)∆u(y)dy
∂Ω ∂νy ∂νy Ω

onde F (z) = −(4π|z|)−1 , z ∈ R3 \ {0} e ∂


∂νy
denota a derivada direcional em relação
a normal no ponto y ∈ ∂Ω

∂u
É possı́vel notar que esta representação possui apenas o termo ∂νy
com
y ∈ ∂Ω que não é dado do problema. Portanto, basta corrigir este defeito, o que é
feito somando uma outra função com propriedades semelhantes, gerando a função de
Green, aqui denominada como G. Valendo, portanto a seguinte igualdade:
Z Z
∂G
u(x) = − u(y) (x, y)dσ(y) − G(x, y)∆u(y)dy
∂Ω ∂ν Ω

No entanto, esta outra função a ser somada só é possivel determinar sua fórmula
em casos de regiões especiais.
Vimos, portanto, que a procura por soluções do problemas de auto-funções do
Laplaciano recai em um problema de operador integral com núcleo G. Que, por sua
vez, é compacto e auto-adjunto e não nulo. Portanto, usamos o teorema espectral,
e assim conseguimos afirmar a existência de um sistema ortonormal completo de
soluções. Completando assim a resolução do problema de auto-funções do Laplaciano.

6
4 Conclusões

Para finalizar concluimos que foi estudado o problema de auto-funções do La-


placiano. Ou seja, a existencia de um sistema ortonormal completo de soluções do
problema, tendo em vista o teorema espectral, o princı́pio do máximo para funções
harmônicas e as identidades de Green. Estudamos também as condições em que
conseguimos as soluções.
E como prosseguimento da iniciação cientı́fica temos a apresentação destes estudos
no Siicusp (Simpósio de Iniciação Cientı́fica da Universidade de São Paulo), com a
devida elaboração de um poster, e a criação de um site para divulgação do material
elaborado. Tal artigo possivelmente será revisto, se for encontrado melhoramentos a
se fazer. Além disso, este artigo está em gestação.
Vale a pena mencionar que consideramos importante também, o aprendizado de
escrita em matemática, através do sistema LATEX. Além disso, destacamos como
aprendizados obtidos nesta iniciação, conteúdos relativos ao campo de análise ma-
temática, e a sua relação com algumas outras áreas da matemática e fı́sica. Olhar
estas relações nos faz enxergar a beleza das ciências. Temos ainda que a presente
iniciação nos dá a oportunidade de conhecer a vida profissional de um pesquisador,
e a oportunidade de nos iniciarmos à pesquisa.

7
5 Anexo

5.1 Introdução

Este trabalho é fruto de uma iniciação cientı́fica orientada pelo professor Severino
Toscano do R. Melo e comtemplada com o auxilio do CNPq. Deixamos aqui manifesta
a nossa gratidão.
O objetivo deste trabalho é mostrar a forma de resolver o problema de autofunções
do Laplaciano utilizando o teorema expectral para operadores compactos. Ou seja,
veremos como o teorema expectral para operadores compactos implica que L2 (Ω)
possui um conjunto ortonormal completo de autofunções do Laplaciano com condições
de fronteira de Drichlet.
Apresentaremos primeiramente os teoremas usados e a utilização deles na re-
solução do problema de autofunções do Laplaciano. Depois exibiremos as demons-
trações que julgarmos necessárias. Separaremos deste modo para possibilitar uma
leitura mais direta para leitores que julgarem os resultados utilizados como triviais.

5.2 As Identidades de Green e o Problema de auto-funções


do Laplaciano

Nossa iniciação cientı́fica baseia-se na tentativa de solucionar o problema de au-


tofunções do Laplaciano com as seguintes condições:



 u ∈ C 2 (Ω) ∩ C(Ω)

∆u = −λu em Ω (1)



 u = 0 em ∂Ω

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Sendo Ω ⊂ R3 um domı́nio limitado com fronteira ∂Ω de classe C 1 onde vale o teorema
da divergência .
Para nos ajudar a criar caminhos para a solução do problema, vamos tratar de
um outro, onde é dada f ∈ C 1 (Ω)e devemos encontrar u tal que:



 u ∈ C 2 (Ω) ∩ C(Ω)

∆u = f em Ω (2)



 u = 0 em ∂Ω

Em relação a unicidade, pelo princı́pio do máximo para funções harmônicas (te-


orema 5.10), temos que, se tiver solução, esta será única. Uma vez que uma função
harmônica atinge seu máximo (e mı́nimo) na fronteira.
Resta agora pesquisarmos a existencia da solução. Para tanto, utilizando o teo-
rema da divergência e propriedades do Laplaciano, provamos as seguintes identidades:

Teorema 5.1 (Primeira identidade de Green). Sejam Ω ⊂ R3 um domı́nio limitado,


onde vale o teorema da divergência e u, v ∈ C 2 (Ω). Então:
Z Z
∂u
(v∆u + ∇u · ∇v)dx = v dσ
Ω ∂Ω ∂ν

∂u
onde ν é o vetor normal unitário apontando para fora de Ω e ∂ν
= ∇u · ν.

Teorema 5.2 (Segunda identidade de Green). Nas mesmas condições que o teorema
acima temos: Z 
Z 
∂u ∂v
(v∆u − u∆v)dx = v −u dσ
Ω ∂Ω ∂ν ∂ν
Agora seja F uma função sobre R3 \ 0 definida por:
1
F (z) = −
4π|z|

É possı́vel notar também que o laplaciano desta função é zero, e, por isso, esta
função muitas vezes é chamada de solução fundamental do laplaciano.
Para esta função temos o seguinte teorema:

9
Teorema 5.3 (Terceira identidade de Green). Sejam Ω ⊂ R3 um domı́nio limitado,
onde vale o teorema da divergência e u ∈ C 2 (Ω). Então ∀x ∈ Ω:
Z   Z
∂F ∂u
u(x) = u(y) (x − y) − F (x − y) dσ(y) + F (x − y)∆u(y)dy
∂Ω ∂νy ∂νy Ω


onde ∂νy
denota a derivada direcional em relação a normal no ponto y ∈ ∂Ω

Neste caso precisaremos de algumas apresentar algumas propriedades da Função


F para ser possı́vel demonstrar tal teorema.
Antes porém, vejamos que as integrais fazem sentido. Para a integral sobre ∂Ω
temos que, como x ∈ Ω e y ∈ ∂Ω, portanto não temos que nos preocupar, uma vez
que a irregularidade de F não está contemplada. Na integral sobre Ω, basta vermos
que F é localmente integrável (teorema 5.8) e então, dado x ∈ Ω, tomemos δ > 0
tal que B = B(x, 2δ ) ⊂ Ω teremos que fora de B as funções envolvidas são contı́nuas
e portanto integráveis. Já em B temos que F é localmente integrável, e com isso
temos: Z Z
|F (x − y)∆u(y)|dy ≤ max |∆u(y)| |F (x − y)|dy < ∞
B y∈B B

E então a função também será integrável em B. E assim temos que a integral sobre
Ω também faz sentido.
Agora vejamos as propriedades de F necessárias para provar a terceira identidade
de Green.

Lema 5.1. Seja g ∈ C(B(x, R)), então temos que:


Z
lim F (x − y)g(y)dσ(y) = 0 (3)
→0 ∂B(x,)
Z
∂F
lim (x − y)g(y)dσ(y) = g(x) (4)
→0 ∂B(x,) ∂νy
onde B(x, ) está denotando, aqui e em todo o decorrer do texto, a bola (aberta) de

centro em x e raio  e ∂νy
denota a derivada direcional em relação a normal externa
no ponto y ∈ ∂B(x, ).

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Com posse destas igualdades de Green, temos que o nosso problema de auto-
funções do laplaciano toma uma nova forma. Uma vez que, olhando atentamente
para a terceira igualdade de Green, e fazendo um paralelo com o problema que esta-
mos tentando resolver, notamos que achamos uma fórmula que nos dá o valor de u(x)
conhecendo os valores de u na fronteira, o valor do Laplaciano de u no interior, e a
função F , também conhecida como “Solução Fundamental”. No entanto, a expressão
∂u
encontrada contém também ∂νy
, que não é dado no problema.
No entanto, basta corrigir este defeito, o que é feito somando uma função H à F ,
com propriedades semelhantes às de F , gerando a função de Green, aqui denominada
como G, da seguinte forma:

G(x, y) = −F (x − y) + H(x, y)

Onde H é tal que ∀x ∈ Ω fixo, teremos:

1. y −→ H(x, y) ∈ C 2 (Ω) ∩ C(Ω)

2. ∆y H(x, y) = 0 em Ω

3. H(x, y) = F (x − y), com y ∈ ∂Ω

E aplicando a segunda identidade de Green para esta função H teremos:


Z Z  
∂H ∂u(y)
(u(y)∆y H(x, y) − H(x, y)∆u(y))dy = u(y) (x, y) − H(x, y) dσ(y).
Ω ∂Ω ∂νy ∂ν

Daı́:

Z  Z
∂H ∂u(y)
0=− u(y) (x, y) − H(x, y) dσ(y) − H(x, y)∆u(y))dy.
∂Ω ∂νy ∂ν Ω

Somando à terceira identidade de Green teremos:


Z   Z
∂F ∂u
u(x) + 0 = u(y) (x − y) − F (x − y) dσ(y) + F (x − y)∆u(y)dy−
∂Ω ∂νy ∂νy Ω

11
Z   Z
∂H ∂u(y)
− u(y) (x, y) − H(x, y) dσ(y) − H(x, y)∆u(y))dy
∂Ω ∂νy ∂ν Ω

E portanto teremos:
Z   Z
∂G ∂u
u(x) = − u(y) (x, y) − G(x, y) (y) dσ(y) − G(x, y)∆u(y)dy
∂Ω ∂ν ∂ν Ω

Mas como G se anula na fronteira temos:


Z Z
∂G
u(x) = − u(y) (x, y)dσ(y) − G(x, y)∆u(y)dy
∂Ω ∂ν Ω

Esta igualdade nos mostra que é possı́vel resolver o problema (2), conhecendo G,
os valores de u na fronteira e de seu laplaciano em Ω. No entanto, não é possı́vel achar
a fórmula da função H de modo geral, pois ela varia comforme o domı́nio considerado.
Sua fórmula é conhecida para alguns domı́nos especiais.
Além disso, nós somente propomos condições para esta função, e por que deveria
existir uma função que satisfaça tais condições? A existência nós assumiremos como
verdadeira para regiões com fronteira de classe C 2 . A prova desta afirmação está
contida no capı́tulo 3 do livro [1]. Nosso objetivo era ver como o teorema espectral
é utilizado na resolução do problema de autofunções do laplaciano, assumindo a
exiestência da função de Green.
Retomando, vejamos agora como o teorema espectral se relaciona com o problema
mencionado. Assumiremos algumas propriedades da função de Green que provaremos
na seção seguinte.
Seja KG um operador definifdo em L2 (Ω) por:
Z
(KG f )(x) = G(x, y)f (y)dy

com f ∈ L2 (Ω), e Ω ⊂ R3 aberto conexo e limitado com fronteira de classe C 2 .


Combinando as propriedades que iremos provar no Teorema 5.4 com os resultados
indicados em [1, apêndice], mais especificamente, com o Teorema 5.11, obtemos, de
G ∈ L2 (Ω × Ω), que KG é um operador limitado. De G(x, y) > 0 e G(x, y) = G(y, x)

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segue que o operador KG é auto-adjunto. Usando o fato de que L2 (Ω) é separável,
obtemos que o operador KG é compacto.
Pelo Teorema 5.6 veremos que o problema (1) equivale-se ao problema de encontrar
autovalores para o operador KG . Mas KG é compacto auto-adjunto e não nulo,
definido em L2 (Ω), que é um espaço de Hilbert, com o produto interno definido
pela integral. Então, pelo teorema espectral (Teorema 5.7), teremos que exestirá um
sistema ortonomal completo de soluções.

5.3 Propriedades da Função de Green

Nesta seção vamos demonstrar algumas propriedades da função de Green assu-


mindo sua existência. Como já dito, só o faremos para regiões com fronteira de classe
C 2 . Portanto vamos supor agora que Ω ⊂ R3 é um aberto conexo e limitado com
fronteira de classe C 2 o qual chamaremos de domı́nio regular.

Teorema 5.4 (Propriedades da função de Green). Sejam Ω um domı́nio regular e G


a função de Green do operador laplaciano em Ω. Então:

1. G(x, y) > 0;

2. G(x, y) = G(y, x);

3. G ∈ L2 (Ω × Ω).

Lema 5.2. Seja F a solução fundamental para o operador laplaciano. Então:


Z
lim sup |F (x + y) − F (x)|p dx = 0, ∀p ∈ [1, 3)
h→0 |y|≤h Ω

e Z p
∂F ∂F
lim sup (x + y) − (x) dx = 0, ∀p ∈ [1, 3)
h→0 |y|≤h Ω ∂ν ∂ν

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Teorema 5.5. Seja f ∈ L∞ (Ω). Então a função
Z
g(x) = F (x − y)f (y)dy, x ∈ R3

pertence a C 1 (R3 )∩C ∞ (R3 \Ω) e satisfaz ∆g = 0 em R3 \Ω. Além disso, se supusermos
que f ∈ C(Ω)1 ∩ L∞ (Ω), então g ∈ C 2 (Ω) e satisfaz ∆g = f em Ω.

Teorema 5.6. A única solução de





 v ∈ C 2 (Ω) ∩ C(Ω)

−∆v = f



 v = 0 em ∂Ω

com f ∈ C 1 (Ω) limitada, é dada por:


Z
u(x) = G(x, y)f (y)dy

5.4 Demonstrações e outros teoremas

Nesta seção faremos as demonstrações pendentes das seções anteriores e enun-


ciaremos, e provaremos, na medida do possı́vel, teoremas citados e necessários à
compreensão do que foi feito e do propósito da nossa iniciação cientı́fica.

Teorema 5.7 (Teorema espectral para operadores compactos auto-adjuntos). Seja


T operador linear auto-adjunto não nulo definido em um espaço de Hilbert H com
produto interno (·, ·). Então existem sequências {µj }N N
j=1 ⊂ R e {φj }j=1 ⊂ H onde N

pode ser infinito, tais que:



6 k
 0, se j =
T φj = µj φj com (φj , φk ) =
 1, se j = k

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N
X
Tφ = µk (φ, φk ) ∀φ ∈ H
k=1

onde os números reais µj estão ordenados de modo que ∀j, |µj | ≥ |µj+1 | > 0. Caso
N = ∞, a série acima converge na norma de H e |µj | tende a zero. Além disso, se
M é o fecho do espaço gerado pelo conjunto {φj }N
j=1 , então T é nulo no subespaço

ortogonal a M .

O teorema acima possivelmente será demonstrado na versão final deste artigo.


Por ora assumiremos como já sabido. Passaremos agora às demonstrações pendentes
das identidades de Green.

Demonstração. 5.1 (Primeira identidade de Green)


Para tal temos que utilizar que: div(v∇u) = v∆u + ∇u · ∇v.
E isto é verdade uma vez que
  
∂u ∂u ∂u
div(v∇u) = div v =
∂x1 ∂x2 ∂x3

∂v ∂u ∂ 2u ∂v ∂u ∂ 2u ∂v ∂u ∂ 2u
= +v 2 + +v 2 + + v 2 = v∆u + ∇u · ∇v
∂x1 ∂x1 ∂x1 ∂x2 ∂x2 ∂x2 ∂x3 ∂x3 ∂x3
E aplicando o teorema da divergência temos:
Z Z
div(v∇u)dx = (v∇u · ν)dσ
Ω ∂Ω

e portanto: Z Z
∂u
(v∆u + ∇u · ∇v)dx = v dσ
Ω ∂Ω ∂ν

Demonstração. 5.2 (Segunda identidade de Green)


Do teorema anterior temos que:
Z Z
∂u
(v∆u + ∇u · ∇v)dx = v dσ
Ω ∂Ω ∂ν

15
e Z Z
∂v
(u∆v + ∇v · ∇u)dx = u dσ
Ω ∂Ω ∂ν
Fazendo a diferença das igualdades acima temos diretamente o que querı́amos
provar.

Teorema 5.8. F é localmente integrável.

Demonstração. Para nos convercermos disto basta fazermos a integração em coorde-


nadas esféricas:

r2 2
Z Z Z
1 1
|F (x − y)|dy = dy = dr4π = <∞
B(x,) B(x,) |4π(x − y)| 4π 0 r 2

Demonstração do lema. 5.1


Aqui nos proporemos a provar que, sendo g ∈ C(B(x, R)), então:
R
1. lim→0 ∂B(x,)
F (x − y)g(y)dσ(y) = 0

∂F
R
2. lim→0 ∂B(x,) ∂νy
(x − y)g(y)dσ(y) = g(x)

E para tanto, primeiramente temos que:


1
3 Como F (z) = − 4π|z| e estamos integrando com y na fronteira de B(x, ) então
temos que
Z Z Z
1 1
F (x − y)g(y)dσ(y) = − g(y)dσ(y) = − g(y)dσ(y)
∂B(x,) ∂B(x,) 4π|x − y| 4π ∂B(x,)

e portanto temos ainda que:


Z Z Z

F (x − y)g(y)dσ(y) ≤ 1 1
4π |g(y)|dσ(y) ≤ 4π sup |g(y)| dσ(y) =
∂B(x,) ∂B(x,) y∈B(x,) ∂B(x,)

4π2
= sup |g(y)| =  sup |g(y)|
4π y∈B(x,) y∈B(x,)

16
e portanto, converge a zero quando  tende a zero, uma vez que podemos majorar o
supremo acima com um  sufucientemente pequeno.
4 Para provar a segunda parte do lema, calculando a derivada direcional à normal
∂F xi −yi x−y
externa, temos ∂yi
(x − y) = 4π|x−y|3
e νy = |x−y|
, portanto, temos:

∂F 1
(x − y) =
∂νy 4π|x − y|2

E com isso obtemos:


Z Z Z
∂F g(y)dσ(y) 1
(x − y)g(y)dσ(y) = 2
= g(y)dσ(y)
∂B(x,) ∂νy ∂B(x,) 4π|x − y| 4π2 ∂B(x,)

Escolhendo R suficientemente pequeno, como g é contı́nua no compacto B(x, R),


segue que g é uniformemente contı́nua. Então ∀δ > 0, ∃γ > 0, tal que se y, y 0 ∈
B(x, R) e |y − y 0 | < γ, então |g(y) − g(y 0 )| < δ. E então, para  < γ, teremos:
Z Z Z
∂F 1 g(x)
(x − y)g(y)dσ(y) − g(x) =
4π2 g(y)dσ(y) − dσ(y) =

∂B(x,) ∂νy ∂B(x,) 4π2 ∂B(x,)
Z Z Z
1 1 δ
= (g(y) − g(x))dσ(y) ≤ |g(y) − g(x)|dσ(y) < dσ(y) = δ
4π2 ∂B(x,) 4π2 ∂B(x,) 4π2 ∂B(x,)

Demonstração. 5.3 (Terceira Identidade de Green)


Fixado x ∈ Ω seja  > 0 tal que B(x, ) ⊂ Ω, seja Ω = Ω \ B(x, ) e aplicando a
segunda identidade de Green, obtemos:
Z
(F (x − y)∆u(y) − u(y)∆F (x − y))dy =
Ω
Z  
∂u ∂F
= F (x − y) − u(y) (x − y) dσ(y)+
∂Ω ∂νy ∂νy
Z  
∂u ∂F
+ F (x − y) − u(y) (x − y) dσ(y)
∂B(x,) ∂νy ∂νy
E o resultado segue lembrando que ∆F = 0, e utilizando as igualdades do lema
5.1.

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Mostraremos agoras alguns resultados importantes sobre as funções harmônicas.

Definição 1 (Funções Harmônicas). Seja Ω ∈ R3 um aberto. Seja u uma função,


u ∈ C 2 (Ω). Dizemos que u é harmônica se ∆u = 0 em Ω.

Teorema 5.9 (Teorema do valor médio para funções harmônicas). Seja Ω ⊂ R3 um


aberto. Seja u uma função, u ∈ C 2 (Ω), tal que ∆u = 0. Então, ∀x ∈ Ω, ∀R tal que
B(x, R) ⊂ Ω temos: Z
1
u(x) = u(y)dσ(y)
4πR2 ∂B(x,R)

Demonstração. Aplicando a terceira identidade de Green (teorema 5.3) em B(x, R),


temos que:
Z   Z
∂F ∂u
u(x) = u(y) (x − y) − F (x − y) dσ(y) + F (x − y)∆u(y)dy
∂B(x,R) ∂νy ∂νy B(x,R)

Mas já vimos que


∂F 1
(x − y) =
∂νy 4π|x − y|2
e ∆u = 0 logo temos que:
Z  
u(y) ∂u 1
u(x) = + dσ(y) =
∂B(x,R) 4π|x − y|2 ∂νy 4π|x − y|
Z Z Z
1 1 ∂u 1
= u(y)dσ(y) + dσ(y) = u(y)dσ(y).
4πR2 ∂B(x,R) 4πR ∂B(x,R) ∂νy 4πR2 ∂B(x,R)
∂u
R
Na última passagem usamos que ∂B(x,R) ∂ν y
dσ(y) = 0, e esta igualdade é obtida
aplicando a primeira identidade de Green (Teorema 5.1) com v = 1, e usando que u
é harmônica.

Teorema 5.10 (Princı́pio do máximo e mı́nimo para funções harmônicas). Seja Ω ⊂


R3 um aberto conexo e limitado. Seja u uma função, u ∈ C 2 (Ω), que só assume
valores reais e ∆u = 0 em Ω. Então, se u atinge seu máximo (ou mı́nimo) em Ω, u
é constante em Ω.

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Demonstração. Provaremos apenas o caso do máximo, ficando também provado o
caso do mı́nimo, uma vez que onde u atinge seu mı́nimo, −u atinge seu máximo. Seja
M = maxΩ u. Suponhamos que u atinge M em Ω. Como u é contı́nua temos que
o conjunto S = {x ∈ Ω, u(x) = M } é fechado, pois é pré-imagem do fechado {M }.
É também não vazio, uma vez que supomos que a função atinge este máximo no
interior. Como Ω é conexo, temos que não existem subconjuntos próprios abertos e
fechados. Portanto, basta provar que S é aberto para concluirmos que S = Ω. E para
tal observemos que se x0 ∈ S, então ∃R0 tal que B(x0 , R0 ) ⊂ Ω e ∀x ∈ B(x0 , R0 )
temos u(x) ≤ u(x0 ). E teremos que B(x0 , R0 ) ⊂ S, pois caso contrário, ou seja,
se existe y ∈ B(x0 , R0 ) tal que u(y) < M teremos que, usando o Teorema do valor
médio com R = |x0 − y|:
Z
1
M = u(x0 ) = u(y)dσ(y)
4πR2 ∂B(x0 ,R)

Mas, como u é contı́nua, segue que existe uma vizinhança V (y) tal que u(x) <
M, ∀x ∈ V (y). E então:
Z
1
M = u(x0 ) = u(y)dσ(y) =
4πR2 ∂B(x0 ,R)
Z Z
1 1
= u(y)dσ(y) + u(y)dσ(y) <
4πR2 ∂B(x0 ,R)\V (y) 4πR2 ∂B(x0 ,R)∩V (y)
Z Z
M M
< dσ(y) + dσ(y) = M
4πR2 ∂B(x0 ,R)\V (y) 4πR2 ∂B(x0 ,R)∩V (y)
Contradição. Logo B(x0 , R0 ) ⊂ S, e como x0 é qualquer em S, temos que S é
aberto. Seguindo que S = Ω, e portanto u(x) é constante em Ω. Mas como u é
contı́nua em Ω segue que U é constante em Ω.

O resultado seguinte será foi usado para relacionar o problema de autofunções do


laplaciano com teorema espectral, utilizando-se um operador integral com o núcleo
sendo a função de Green.

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Teorema 5.11. Seja X um espaço de medida e k ∈ L2 (X × X). Seja K o operador
integral com núcleo k:
Z
(Kf )(x) = (k(x, y)f (y)dµ(y)
X

Então K é um operador limitado, e o adjunto de K é o operador com núcleo k(x, y).


E ainda, se L2 (X) é separável, então o operador integral K é compacto.

Referências
[1] IÓRIO, Rafael. O Método de Separção de Variáveis em Auto-funções. 13o.
Colóquio Brasileiro de Matemática.

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