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ANALISE

Este soneto de Bocage apresenta uma estrutura interna claramente bipartida.

Na primeira parte, constituída pelas quadras e pelo 1.º terceto, o sujeito poético
esboça o seu autorretrato, em dois momentos distintos:

- A primeira quadra, que respeita ao retrato físico - rosto magro, olhos azuis, pele
morena, pés grandes ("bem servido de pés"), estatura média ("meão na altura") e nariz
grande ("alto no meio e não pequeno").

- A segunda quadra e o primeiro terceto, que evidenciam o retrato psicológico - triste


de aspeto e de figura, volúvel e inconstante ("Incapaz de assistir num só terreno"),
irascível ("Mais propenso ao furor do que à ternura"), enamorado por muitas mulheres
("Devoto incensador de mil deidades").

Na segunda parte, constituída pelo último terceto, o sujeito poético revela a sua
identidade e as circunstâncias que proporcionaram a criação do soneto.

De destacar ainda que este soneto, como muitos outros da lírica de Bocage, apresenta
elementos neoclássicos: a forma (soneto) e o vocabulário alatinado (níveas, letal,
deidades). No entanto, predominam os elementos românticos: o carácter
autobiográfico, o individualismo, o tom confessional, o amor sensual.

O universo poético bocagiano gira à volta de três grandes temáticas: o eu, o amor, a
morte. Daí, o aparecimento de temas autobiográficos (o eterno apaixonado, volúvel e
inconstante; o destino cruel; o sofrimento na vida e o desejo de morte; as dificuldades
económicas), as referências ao amor (guiado pelo coração, não pela razão; amor
imenso que conduz ao sofrimento, à insónia, ao desejo de morrer) e à morte (como
solução para ultrapassar esse sofrimento).

POEMAS

O corvo e a raposa

Camões, grande Camões, quão semelhante

Apenas vi do dia a luz brilhante

Magro, de olhos azuis, carão moreno

Já Bocage não sou!... À cova escura

Liberdade, onde estás? Quem te demora?

Ó retrato da Morte! Ó Noite amiga

Fiei-me nos sorrisos da Ventura

Amar dentro do peito uma donzela


Em que estado, meu bem, por ti me vejo

BIOGRAFIA

Manuel Maria de Barbosa l'Hedois du Bocage (Setúbal, 15 de Setembro de 1765 –


Lisboa, 21 de Dezembro de 1805) foi um poeta português e, possivelmente, o maior
representante do arcadismo lusitano. Embora ícone deste movimento literário, é uma
figura inserida num período de transição do estilo clássico para o estilo romântico que
terá forte presença na literatura portuguesa do século XIX.2

Era primo em segundo grau do zoólogo José Vicente Barbosa du Bocage.

Nascido em Setúbal às três horas da tarde de 15 de Setembro de 1765, falecido


em Lisboana manhã de 21 de Dezembro de 1805, era filho do bacharel José Luís Soares
de Barbosa,juiz de fora, ouvidor, e depois advogado, e de D. Mariana Joaquina Xavier
L'Hedois Lustoff du Bocage, cujo pai era o Almirante francês Gil Hedois du Bocage, que
chegara a Lisboa em 1704, para reorganizar a Marinha de Guerra Portuguesa.
Teve cinco irmãos. O pai do poeta, José Luís Soares de Barbosa, nasceu em Setúbal, em
1728. Bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra, foi juiz de fora em
Castanheira e Povos, cargo que exercia durante o Sismo de Lisboa de 1755, que
arrasou aquelas povoações.