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Família

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FAMÍLIA

A. MINHA VIDA DE SOLTEIRO:1935-1962

Nesta primeira parte, vou registrar algumas recordações colhidas no


“chão” de minha infância e de minha adolescência, desde meu nasci-
mento, em Belém do Pará, na Maternidade da Ordem Terceira de São
Francisco, sob os cuidados do Dr. Waldemar de Freitas Ribeiro, no dia
10 de setembro de 1935, às 12h, meia hora antes do nascimento de
minha irmã Maria José, até meu casamento, no dia 06 de outubro de
1962, com Célia Mártires Coelho. Além da Maria, tenho os irmãos
Antônio e Mário. Minha irmã Madalena e meu irmão Luiz, o
“Corumbá”, este por parte de pai, já faleceram. Mais adiante, falarei
de cada um deles, assim como de meus tios e primos.

Meus pais e suas origens

Meu pai Eládio nasceu no dia 13 de junho de 1897, em uma aldeia


espanhola chamada Pueble de Tribes, San Miguel de Vidueira, na pro-
víncia de Orense, no Caminho de Santiago de Compostela, no noroeste
da Espanha. Chegou a Belém do Pará em 1912 [ano em que os adver-
sários de Antônio Lemos queimaram, no dia 28 de agosto, seu jornal A
Província do Pará), em companhia de sua mãe Teresa Basalo (Ricoy,
nascida em 1867, falecida no dia 04 de novembro de 1952, filha de
Alonzo Basalo (Estevez e Francisca Ricoy Diaz)] e de sua irmã Lúcia.
Mais tarde, chegou sua irmã Luzia, nascida no dia 30 de setembro de
1909. Meu pai morreu no dia 20 de abril de 1980, e a tia Luzia, no dia
17 de setembro de 1983. Os vizinhos chamavam o papai de Seu Hilá-
rio. Nota: As informações acima foram passadas por meu pai e com-
plementadas por meu sobrinho Luís Carlos Bassalo Crispino que
esteve, em julho de 2012, nessas localidades espanholas e encontrou
novas informações. Por exemplo, ele obteve a informação de que a
mãe de uma pessoa de nome Eladio Basalo é Josefa Basalo, filha de
Salvador Basalo e Sebastiana Vasquez, e que teria nascido, em 09 de
setembro de 1897, em Cernado, distante 7 km de San Miguel de Bidu-
eira.

Minha mãe Rosa nasceu no dia 08 de março de 1900, numa aldeia ita-
liana de nome Castelluccio Inferiore, na Província de Potenza, a cerca
de 500 km de Roma, no centro sul da Itália. A família de minha mãe,
os Filardi (o), é originária da Grécia. Em 1400, instalou-se na ilha de
Rodes. Devido à invasão dos turcos em Altamura (Bari), um de seus
ramos transferiu-se para Bolonha, inscreveu-se na Nobreza, e tornou-
se proprietário de vários feudos em Castelluccio. Desses Filardi,
alguns foram religiosos, todos Monsenhores. Por exemplo, Ennio foi
Bispo de Ascoli, em 1536, sob o Papado de Paulo III; Mário foi Arce-
bispo de Avignon, na França, em 1624, sob o Papado de Urbano VIII
(amigo de Galileu Galilei); Massenzio foi Bispo de Martirano (Catan-
zaro), em 1650, sob o Papado de Innocêncio X. Por outro lado, um dos
Filardi, Antonio, foi Oficial de Fronteira, e foi preso na Guerra de
1810-1814, entre a França de Napoleão I e a Itália. Apesar dessas raí-
zes, meus avós maternos, Paulo e Madalena, eram camponeses. Minha
mãe morreu no dia 28 de agosto de 1999.

A casa onde vivi

A convite de sua tia materna Maria, casada com Francisco Libonati,


meu padrinho de batismo, dono de uma fábrica de calçados, mamãe
veio para nossa cidade em 1924, para morar com ela e com seu irmão
José, que já se encontrava em Belém, trabalhando como sapateiro na
fábrica de seu tio, com papai, também sapateiro dessa mesma fábrica.
Casaram-se em 1926 e foram morar na Travessa São Pedro, número
19 (depois 421 e, hoje, 851), no Bairro do Jurunas, cuja quadra com-
preendia as transversais Avenida Conselheiro Furtado (por onde pas-
sava o bonde, assim como as linhas de ônibus Circular Interna e
Circular Externa) e Rua Arcipreste Manoel Teodoro, e paralela à Ave-
nida Padre Eutíquio, antiga Travessa São Mateus.

Localizada em um terreno de 14 21 metros, inicialmente nossa casa,


recuada em relação ao muro da frente e construída colada ao lado
direito do terreno (de quem olha de dentro do terreno para a rua),
tinha uma sala, onde o papai trabalhava (depois que a fábrica do Libo-
nati, localizada na esquina da Arcipreste com a São Mateus, pegou
fogo, papai começou a trabalhar em casa), dois quartos e uma cozinha
que davam para uma varanda. Apenas a sala era forrada. As paredes
da casa eram de enchimento e o telhado era de telha cerâmica. Os
pisos eram de madeira escura corrida (provavelmente de maçaran-
duba), sendo que a sala era de acapu e pau-amarelo. A cozinha era de
cimento liso. Mais tarde, meu pai construiu, ao lado dessa varanda,
uma cozinha, e ao lado desta, a sua “nova’’ sapataria. Esses dois com-
partimentos eram de madeira. O banheiro e o sanitário, também de
madeira, ficavam fora do corpo da casa, no limite do lado esquerdo do
terreno.

Nessa “nova” sapataria do papai, ajudei-o muito, fazendo a famosa


“cola de sapateiro’’, engraxando sapatos e costurando, com a sovela,
as solas (“meia’’, que ia dos dedos a metade do pé, e “inteira’’ que
cobria o pé inteiro) de sapatos que o papai recebia para consertar.
Essa “cola’’ era feita da seguinte maneira: as sobras do solado conhe-
cido como “crepe-sola’’, que era de borracha, eram cortadas e coloca-
das em uma lata com gasolina para amolecê-las. Depois de um certo
período de “fusão“, eu, então, usava um pedaço de pau para transfor-
má-la em uma pasta. Essa “cola’’ era usada para vários estágios do
conserto de um sapato. Um deles, por exemplo, era para fechar uma
abertura feita na lateral do solado para esconder a costura (de fio
encerado), que prendia a sola ao couro do sapato. Os buracos dessa
costura eram feitos pela sovela, que era um espigão de ferro, pontia-
gudo, com um cabo de madeira para permitir seu manuseio. Aliás, ao
contar essa história da “cola” para os filhos de meus cunhados, um
deles, o Antônio Guilherme (“Gaéga”), filho da Rosa Maria e do Pedro
Pinho de Assis, me disse: – Quer dizer, titio, que o senhor foi um
‘cheira-cola´ quando criança?.

Mais tarde, por volta de 1951, para abrigar meu irmão Antônio, sua
mulher Judite, e mais os filhos Antônio, Rosângela, Paulo, Fernando,
Roberto, Guilherme, Rosineide e Rosana, o papai construiu, entre o
banheiro-sanitário e sua sapataria, uma pequena casa, composta de
uma sala e dois quartos, ainda de madeira. Quando não morava mais
em casa, o Antônio adotou um filho de nome André.

Os móveis de nossa casa eram os mais simples possíveis. No quarto


do papai, havia uma cama de casal, um guarda-roupa e uma pentea-
deira. No segundo quarto, onde moravam minha avó Tereza e minha
tia Luzia, tinha uma cama de solteiro e uma cômoda. Como não exis-
tiam camas suficientes, minha tia e minhas irmãs, Madalena e Maria,
dormiam em rede. Aliás, também em rede e na sala, dormíamos eu,
Antônio e Mário. Às vezes, dormia também em uma rede na sala o
Corumbá, que morava com sua mãe. Todos esses móveis eram, me
parece, de macacaúba, feitos pelo Seu Sidoca. Mais tarde, quando a
Madalena começou a trabalhar, em 1951, como professora no Grupo
Escolar “Placídia Cardoso”, que ficava na Rua Tamoios, depois da Tra-
vessa do Jurunas, papai fez a sua sapataria e ela, então, adquiriu uma
mobília para a sala, composta de quatro cadeiras, um sofá, duas pol-
tronas, duas colunas e uma mesa de centro, todos de macacaúba, com-
prados na Movelaria Kislanov, que ficava na Padre Eutíquio, defronte
à Rua Carlos Gomes.

(Aliás, lembro-me de que, quando estudava nessa mesa de centro,


entre final de 1953 e fevereiro de 1954, para o Vestibular da Escola de
Engenharia, fascinou-me saber que a fórmula de resolução das equa-
ções algébricas de segundo grau chamava-se fórmula de Bhaskara,
segundo alertou-me meu colega do Terceiro Científico do CEPC, o
Adriano Marçal Nogueira. Também nesse estudo deparei-me, tratando
com Geometria, que havia nomes de outros matemáticos, além de
Pitágoras e de Tales, que também contribuíram para a evolução da
Geometria: Viète. Talvez esteja aí a gênese de meu interesse pela His-
tória da Matemática e da Física, quando, no início da década de 1970,
ministrei o primeiro Curso de Desenvolvimento da Física, no Departa-
mento de Física da UFPA. Falarei mais sobre isso, quando tratar de
minha vida acadêmica.)

Na cozinha existia uma mesa e bancos corridos, de madeira tosca. O


fogão era à lenha, com quatro bocas, cuja fumaça era tirada por uma
chaminé. (O primeiro fogão a querosene, marca Jacaré, foi comprado
por mim quando comecei a trabalhar no extinto DMER, cujo signifi-
cado darei mais adiante.) A lenha era comprada na Estância Monte-
Alegre, que se situava na então Estrada Nova (hoje, Bernardo Sayão).
Vi, inúmeras vezes, meu pai cortando lenha, em frente à cozinha,
assim como cansei de telefonar, na Mercearia e Padaria Fortaleza do
Humaitá, que ficava na esquina da São Pedro com a Arcipreste, para
aquela Estância pedindo lenha, pois demoravam a entregá-la, e ela
vinha em um caminhão velho.

O quintal tinha muitas árvores frutíferas, tais como: abacateiro, goia-


beira (em cujos galhos comi, muitas vezes, a sobremesa do almoço:
saborosas e verdoengas goiabas), abiozeiro, bananeira, cupuaçuzeiro,
jambeiro, cacaueiro, e um cacto de jamaracaru, de cujo caule a
mamãe fazia xarope para gripe. Lembro-me, por várias vezes, de
acordar o papai de madrugada para enxotar uma coruja que, nos
galhos do abacateiro, tocava a sua “música fúnebre’’ (batida de seus
bicos nos galhos) a qual, segundo a crença popular, tal “música’’ indi-
cava que haveria morte na família, já que a mesma simbolizava o
toque do martelo em pregos fechando um caixão de defunto. Para
espantar a coruja, o papai tocava fogo em jornais velhos e, com essa
precária iluminação, conseguia ver onde ela se encontrava. Lançando
pedras nela, fazia-a voar e deixar o abacateiro. No seu vôo, ela piava
como se estivesse rasgando pano, o pano que envolve os mortos: a
mortalha. Daí ela ser também conhecida como “rasga mortalha’’.

Ainda em nosso quintal, existia um grande coradouro de zinco, perto


de uma tina (metade de uma barrica de vinho, que meu pai comprava
na tanoaria do Sr. Américo, que ficava na Arcipreste, próximo da Tra-
vessa Tupinambás) com torneira (defronte da goiabeira), onde a
mamãe lavava e secava as nossas roupas e as de suas clientes, pois,
para auxiliar a renda doméstica da casa, lavava roupa para fora.
Neste quintal, eu, Antônio e Mário jogávamos “peladas’’ com bola de
meia (uma velha meia de sapato enchida com papel), para desespero
de nossa mãe, pois a bola caía sempre no coradouro e sujava a roupa
que lá estava estendida. Nesse improvisado campo de “pelada’’, uma
das traves era a goiabeira e a esquina da casa, e a outra eram as duas
colunas do muro da frente, entre o portão de entrada e o muro lateral
direito do terreno. Entrávamos na casa por uma escada com cerca de
três degraus, e seguíamos por uma passarela de cimento até a porta
de entrada da sala. Nosso terreno era mais alto que o leito da rua, que
era de chão batido, cheio de capim, com os postes de luz (da Pará
Electric) em seu centro, onde também jogávamos “peladas’’. Essa casa
foi depois demolida e construída outra de dois andares pelo meu
cunhado Pedro Rosário Crispino, casado com a Maria. Hoje, ela não
pertence mais a ele, já que foi vendida.
Com relação à atividade de minha mãe como lavadeira, lembro-me de
um incidente que quase me matou. Na época da Segunda Guerra Mun-
dial (1939-1945), faltavam vários alimentos comestíveis, principal-
mente, açúcar e trigo. Assim, o pão era escasso e tínhamos de fazer
fila para comprá-lo na Padaria Onça, que ficava na Arcipreste, perto
do “Largo de Engomar’’ (que recebeu esse apelido por apresentar a
forma de um triângulo), na intercessão da Arcipreste com a rua Veiga
Cabral, a atual Praça Coaracy Nunes. Aliás, nessa praça, joguei muita
“pelada’’ com meus amigos de infância. Um dia, depois de entregar as
roupas lavadas, envoltas em um pano, na casa das Professoras Zilda
Garcia, Palmyra Amorim e Maria Luiza Barros que moravam na Arci-
preste, entre a São Pedro e a Padre Eutíquio, encaminhei-me para
comprar pão naquela padaria, com o pano que ficara liberado depois
da entrega, envolto no pescoço. Enquanto aguardava na fila para com-
prar o pão, brincava com amigos. Um deles apertou o pano em meu
pescoço, quase me afogando. Enquanto ouvia gritos para encontrar
uma tesoura para cortar o pano, eu consegui, no desespero, afrouxar
o laço e me salvar. Ao chegar em casa, não contei para ninguém o que
acontecera. Contudo, fui para o canto direito do quintal, perto da rua,
fazer massagens em meu pescoço que ainda doía. Ufa!, escapei da
morte, dizia eu para mim mesmo.

Ainda com relação à escassez de certos alimentos em conseqüência da


Segunda Guerra Mundial, relato mais alguns fatos marcantes em
minha vida. A falta de carne me obrigava a enfrentar filas no Mercado
Batista Campos (hoje, demolido), localizado na esquina das Avenidas
Padre Eutíquio e Conselheiro Furtado. Para eu conseguir um bom
lugar na fila da carne, tinha que dormir na porta desse Mercado, pois
a carne disponível para a venda era menor do que a demanda. Na
falta de açúcar, usávamos açúcar moreno, ou rapadura, ou então tri-
turávamos as “bolas de Cuba’’, que eram esferas (com cerca de 3 cm
de diâmetro) feitas de açúcar moreno. Por outro lado, a mesma difi-
culdade para comprar carne também existia para a compra de peixe.
Em vista disso, foram idealizados Cartões de Racionamento, um para
peixe e um para carne. Às vezes, era possível comprar carne com o
cartão de peixe, como aconteceu comigo.

O contato que tive com a morte, narrado anteriormente, não foi o pri-
meiro que aconteceu na minha vida. Antes, quando eu tinha dois ou
três anos de idade, lembro-me de haver acordado e ver minha mãe
preocupada comigo, pois passara a noite toda anterior passando
azeite (de andiroba, provavelmente!) no meu ventre que havia
inchado bastante. A preocupação da mamãe com a minha saúde certa-
mente decorria de comentários que a vizinhança fazia ao me ver fran-
zino, como recém-nascido, em seu colo: – Dona Rosa, será que o Zé
Maria vingará? Essa pergunta certamente penetrou em meu subcons-
ciente, já que a idéia de morte sempre me acompanhou durante a
minha vida, depois de um incidente que aconteceu comigo quando
tinha onze anos de idade, do qual falarei mais adiante.

Apesar das dificuldades financeiras de meus pais, nunca passamos


fome. Contudo, para compensar a falta de alimentação apropriada
para um crescimento saudável, minha mãe fazia um “caribé’’ (basica-
mente, um mingau ralo de farinha d’água) que nos servia no final da
madrugada. Por outro lado, aquelas dificuldades não impediram que
tivéssemos cuidados de médicos particulares ao nascermos (o Doutor
Agostinho Monteiro aparou o Antônio e a Madá, o Dr. Waldemar
Ribeiro, os demais); estudamos (eu e meus quatro irmãos) o então
Curso Primário em uma Escola Particular, do Professor Raymundo
Firmiano Lobo, que se localizava no Largo da Trindade, e da qual tam-
bém falei em outro artigo dessas minhas lembranças.

Por ser italiana, minha mãe Rosa manteve no Brasil alguns hábitos de
sua terra natal. Por exemplo, aos domingos comíamos uma macarro-
nada, feita por ela, com farinha de trigo e ovos, com porpetas (bolos
de farinha de pão misturada com ovos, que chamávamos de “boli-
nhas’’), mais saborosas na segunda-feira, que serviam, inclusive,
como merenda na Escola Primária, a braciola, um enrolado de massa
de farinha de pão, misturada com ovo, e revestida de carne, que cha-
mávamos de “brajola’’ (aliás, somente em 1965, quando estudava na
Universidade de Brasília, meu colega Mário Novello, filho de italianos,
ensinou-me o nome certo desse “quitute” feito pela minha mãe), e
mais o molho de massa de tomate. Os ingredientes dessa macarro-
nada eram comprados na Mercearia Bela, na esquina da Arcipreste
com a Padre Eutíquio, de propriedade de Francisco e Luiza Pinto, pais
dos saudosos Orlando Pinto (mais tarde, um conceituado médico de
Belém) e de Orlandina, que viria a ser, posteriormente, esposa do
engenheiro civil Alírio César de Oliveira, meu professor no Colégio
Estadual “Paes de Carvalho” (CEPC), na Escola de Engenharia do Pará
(EEP) e meu chefe no hoje extinto Departamento Municipal de Estra-
das de Rodagem (DMER). O Dr. Alírio e sua mulher Orlandina falece-
ram, respectivamente, em 14 de fevereiro de 2005 e 23 de janeiro de
2000.

Nas festas tradicionais, como Páscoa, Círio e Natal, comíamos uma


galinha que era assada geralmente no forno da Fortaleza do Humaitá.
Às vezes, a galinha era também assada na Padaria Onça. Lembro-me
bem, pois era eu que ia buscar esse verdadeiro “petisco’’, cuja identi-
ficação era feita com uma pequena etiqueta de chapa de flandre.
Geralmente essa galinha era acompanhada de vinho tinto, comprado
na Fortaleza, e tão bem apreciado por minha tia Luzia. É oportuno
dizer que esse vinho era engarrafado, às vezes, com a minha ajuda, de
uma barrica de 200 litros, e depois selados, com várias marcas, como,
por exemplo, Constantino, Gaúcho, Sultão, Trentino, Tropeiro, dentre
outras. Ao lado dessa Padaria, cujos donos foram o Seu Mendes, o seu
José, o Seu Aires e o Seu Rodrigues, tinha um anexo onde funcionava a
Barbearia do Seu Souza. Quando este se mudou para a Conselheiro
próximo da São Mateus, esse anexo transformou-se no depósito dessa
Padaria.

Na época do Natal, além da macarronada, comíamos crispeda e rose


catarra, feitos também de trigo e ovos. A crispeda era comprida, em
forma de charuto, e a rose catarra tinha a forma de uma flor. (Regis-
tro que esses nomes me foram ensinados, muito mais tarde, pelo meu
cunhado Pedro Rosário Crispino, também filho de italianos, e conhe-
cedor da língua italiana.) Essas duas iguarias eram feitas por minha
mãe na véspera do Natal. Lembro-me de que, ao acordar, no dia 24 de
dezembro, quase sempre chovendo, corria para a cozinha para comê-
los. Também ganhávamos presentes de Natal. Nunca bicicleta
Phylipps, pneu balão, e nem patinetes, por razões óbvias. (Recordo
que somente alguns anos depois aprendi a andar de bicicleta, usando
a de um colega do Mário, o saudoso Dr. Sebastião Pontes, o “Sabito’’,
que ia estudar em casa.) Os homens ganhavam carrinhos feitos de
madeira e as mulheres, bonecas. É oportuno registrar um fato curi-
oso. Como a rua São Pedro era cheia de capim, num certo ano rezei ao
Papai-Noel, para ganhar um caminhão de limpeza com ancinhos,
enxadas e pás, tudo de brinquedo, para “limpar’’ a nossa rua. Como
não falei a ninguém desse desejo, é claro que meu pai (Noel) Eládio
não me deu esse presente. Não sei se foi a partir desse fato que deixei
de acreditar no Santa Claus, como uma entidade mundial que trazia
presentes em seu trenó, vindo da Lapônia.

Os vizinhos: 1

Agora, registrarei algumas de minhas lembranças de nossos vizinhos


próximos e mais afastados de casa, e a amizade com seus filhos. No
lado direito de nossa casa e limítrofe, numa casa que tinha um grande
quintal na frente com sapotilheiras e um pé de laranja-da-terra,
muito amarga, morava a família Sampaio: Seu Waldemar e Dona
Altina, com os filhos Rubens, Ruth, Ruidemir, Rosineide, Rosemary,
Ruivilar, Ruiantônio e Rui. Seu Waldemar trabalhava no Moinho Pau-
listano, situado na Cidade Velha, e Dona Altina era doméstica. Mais
tarde, moraram nessa casa a família Pinho: Seu José e a Dona Glória
Pinho, que tinham cinco filhos: “Biloca”, Ismael, Eunice, Mário e Fer-
nando. Seu José era açougueiro no Mercado de Carne, no Ver-o-Peso.
Em certa época de nossa vida, comprávamos carne com o Seu José.
Lembro-me de um fato curioso sobre essa compra. Aos domingos, eu
ia com o Fernando fazer essa compra. Junto com a carne, comprava,
também, um exemplar da Folha do Norte, um jornal de propriedade
do jornalista Paulo Maranhão, avô de meu saudoso amigo Haroldo
Maranhão. Pois bem, no dia 28 de setembro de 1952, domingo,
quando voltávamos do Mercado de Carne, vindo a pé pela Travessa
São Pedro, e pitando cigarros Continental (sem filtro), que eu tirava
escondido de meu irmão Antônio, li, com tristeza a morte do grande
cantor Francisco Alves, em decorrência de um acidente de carro na
estrada Rio-São Paulo, ocorrido no dia anterior.

Continuemos lembrando os vizinhos do quarteirão da São Pedro onde


morávamos. Em frente de casa, tivemos, primeiro, a família Prado, o
pai Custódio, que era agente do Lloyd Brasileiro, e a mãe Alice, e os
filhos Carlos, Celina e Carmen; esta, a mais nova, casou depois com o
radialista e hoje publicitário José Sarraf Maia. Muito mais tarde, fui
colega do Carlos na UFPA, quando ele dirigiu a parte Administrativa,
na gestão do Reitor Aracy Barreto. Era uma casa de madeira, que
tinha em seu quintal algumas árvores frutíferas, inclusive o cutite,
um fruto de polpa e casca amarela, muito gorduroso, e com caroço,
que eu comia e apreciava bastante. Essa casa foi depois vendida para
o Dr. Durval Nóvoa, que a derrubou e fez um “bangalô’’ de tijolo e
concreto. Ele era advogado e casado com Dona Nancy e tiveram sete
filhos: Albanilze (Alba), Altino (hoje médico), Leonício Otávio (hoje
dentista), Fátima, Maria das Graças, Ruth e Durval. Aliás, lembro-me
de um fato curioso. Quando o Antônio saiu de casa para morar com a
Judite, em 1948, ele mandou um bilhete para a mamãe falando dessa
sua decisão. Quando a mamãe leu o bilhete, na hora do almoço, come-
çamos a chorar pela perda do filho e irmão. Como a vovó Tereza (ela
já estava cega) não chorou, a Alba, muito pequena e que sempre almo-
çava com a gente, jogou uma colher nela em represália por não com-
partilhar com a nossa dor. A pureza da criança é fantástica!

No lado esquerdo da casa dos Prados, morava a família Cruz: Seu


Camilo e Dona Elvira, que tinham três filhos: Fernando (que morreu
cedo), o saudoso Júlio (um respeitado médico ortopedista e, por muito
tempo, médico do Clube do Remo, seu clube de futebol do coração, e
meu, também), Isaura e Maria Flávia (já falecidas). Isaura casou com
o Francisco Martins, que viria a ser, anos depois, meu colega no
DMER. Depois a família Cruz mudou-se para a Travessa 7 de Setem-
bro, nos altos da Fábrica União, local onde trabalhava o seu Camilo.
Foi nessa casa onde ocorreu um pequeno incidente e que mostrou o
apreço que a Família Cruz tinha por nós. Um belo dia, eu e Maria
fomos passar o dia nessa casa. Numa de nossas brincadeiras, quebra-
mos um vaso de estimação da Isaura. Entramos em pânico e começa-
mos a chorar. Aí, então, a Isaura veio em nosso socorro, limpou os
cacos, pediu para pararmos de chorar e nos deu deliciosos biscoitos
(feitos na própria Fábrica União) para comermos com guaraná, certa-
mente da marca Simões ou Soberano, que eram as que existiam nessa
época.

Depois que a Família Cruz se mudou, veio morar na casa o Seu


Heraldo Gonçalves e Dona Ainda, que criavam o sobrinho e afilhado
Rodrigo, com quem eu brincava. Este era bastante generoso, pois per-
mitia que brincasse com os seus brinquedos, além de ter acesso às
promoções da Rádio Clube, fundada em 22 de abril de 1928 pelos radi-
alistas Edgar Proença, Roberto Camelier e Eriberto Pio dos Santos,
cujos estúdios localizavam-se na Travessa Jurunas (hoje, Roberto
Camelier) com a Rua Conceição (hoje, Governador Fernando Guilhon),
e conhecidos como “Aldeia do Rádio”. Lembro-me de uma promoção
da pasta dentifrícia Colgate e dos sabonetes Palmolive, que patrocina-
vam nessa Rádio, respectivamente, as Aventuras do Tarzan e do
Zorro. Quem comprasse um determinado número desses materiais de
uso pessoal e guardasse os invólucros poderia trocá-los por uma mini-
atura de faca que o Tarzan usava ou um boton do Zorro. Como não
usávamos sabonete (usávamos o mesmo sabão, em barra, talvez Bor-
boleta, que minha mãe lavava roupa) e raramente pasta dentifrícia,
tive acesso a esses brindes por generosidade do Rodrigo. Eles mora-
ram pouco tempo na São Pedro e logo se mudaram para a Rua dos
Tamoios, próximo da Travessa Jurunas, onde joguei muita bola, pois
havia um grande quintal na lateral direita da casa.

As Rádios Clube e Marajoara

Por falar na Rádio Clube, a famosa PRC-5 – A Voz que Fala e Canta
para a Planície, “slogan” inventado por Edgar Proença, quero anotar
um fato interessante. Todas as quintas-feiras, 11 horas da manhã,
essa Rádio tinha um programa denominado Coquetel de Ritmos, do
qual eu participava como platéia. Era um programa de variedades,
com cantores regionais (como o conjunto Os Namorados Tropicais,
composto por Zé Maria, Tácito Cantuária, Verbeno Costa, Mário Guer-
reiro e Jorge), apresentação de seus famosos rádio-atores e perguntas
que valiam brindes a quem respondesse certo. Um determinado dia, a
pergunta foi a seguinte: – Quem de oito tira quatro e ainda fica oito?
Como sempre gostei de números, levantei-me e respondi: “Biscoito”.
Ganhei uma bela camisa! Na apresentação dos rádio-atores, tive opor-
tunidade de ver, ao vivo, vários deles. Por exemplo, a Amerina Tei-
xeira, o Acácio Humberto, o Mário Herculano, o Otávio Cascaes e o
Mário Amoedo. Muitos anos depois, tive oportunidade de conviver
com dois deles, Otávio Cascaes e o Acácio Humberto. Devo registrar
que foi o Dr. Otávio Bandeira Cascaes que, quando Prefeito de Belém,
me colocou à disposição da UFPA, quando eu era engenheiro do
DMER. O Dr. Acácio Humberto tornou-se meu grande amigo quando
fazíamos parte do Conselho Superior de Ensino e Pesquisa da UFPA
(CONSEP/UFPA).

De outra feita, ganhei discos de vinil (78 rotações), ao participar tam-


bém de programas de perguntas e respostas. Um deles foi numa pro-
moção ambulante, uma espécie de “trio elétrico”, o famoso Show
Vigorelli (conforme me lembrou meu concunhado Cláudio Cativo
Rosa), que passava pela Avenida 15 de Agosto (a Avenida Presidente
Vargas de hoje). O outro, foi no programa A Cavalgada da Alegria, que
tinha uma seqüência sobre perguntas e respostas, com a participação
do público, e que se realizava no auditório da Rádio Marajoara, locali-
zada no Largo de Nazaré, onde ficava o famoso cassino Rancho
Grande. Essa Rádio, a ZYE-20, teve sua primeira transmissão reali-
zada no dia 07 de setembro de 1953, na voz do jornalista, antropólogo
e crítico de arte Frederico Barata, representante dos Diários Associa-
dos, em Belém, e que viria a conhecer, na casa de meu sogro Machado
Coelho, em 1957. Aliás, foi nessa Rádio que dei a minha primeira
entrevista (as perguntas foram feitas previamente e para respondê-
las pedi ajuda de meu irmão Antônio) para o Pedro Galvão (hoje, dono
da Agência Galvão de Publicidade), então meu aluno no CEPC e que
participava do programa estudantil, o Antena Estudantil, comandado
pelo professor Gelmirez Melo e Silva.

Os vizinhos: 2

Voltemos aos nossos vizinhos. Em substituição à família do Seu


Heraldo, veio a Família Pantoja: Antônio e Graciosa. O Pantoja, como
o chamávamos, era jornalista; na adolescência morara no Rio de
Janeiro e fora, inclusive, goleiro do time juvenil do Botafogo Futebol e
Regatas. Com o Pantoja, eu e o Fernando Carneiro, também nosso
vizinho, jogamos muito “botão”. Aliás, anos mais tarde fui profissio-
nal desse jogo, denominado então celotex, conforme me reportarei
mais adiante. O Fernando era

filho do major João Carneiro, cirurgião dentista, e sua mãe se cha-


mava Eurídice. Ele tinha os seguintes irmãos: Ana Maria (hoje, funci-
onária aposentada da UFPA), José, Maria Emília, Nazaré e Nazarena.
A Nazaré casou-se com Cleto Moura, um dos cartorários mais concei-
tuados em Belém.

Os Carneiros moravam quase ao lado de nossa casa, na direção da


Conselheiro Furtado, numa casa que fora construída em uma parte do
terreno de propriedade da família Amor Divino. Desse modo, essa
residência situava-se entre um grande barracão, junto a nossa casa, e
um terreno amplo que fazia esquina com a Conselheiro Furtado, onde,
nesta Avenida, ficava a entrada principal da casa dos Amor Divino:
Dona Laura e Seu Manoel, e seus filhos: Almerindo, Waldemar, Mário
e Fernando. Além desses filhos, eles adotaram mais dois: Raimunda e
Alfredo. Naquele terreno, brinquei muita bola e, em um certo dia,
quase tive um acidente de grandes proporções. O Waldemar criava
uma cabra que conduzia uma pequena carroça. Eu, mais a Raimunda e
o Alfredo, andávamos nessa carroça. Nesse dia, a cabra resolveu tes-
tar a sua capacidade de corrida e disparou contra a cerca que limitava
o terreno. Por sorte, o Waldemar conseguiu conter a corrida e para-
mos em frente da cerca. Ufa!, menos um problema para meus pais.
Seu Manoel era empreiteiro de obras e guardava materiais de cons-
trução no grande barracão referido acima.

Na casa deles, além de brincar no quintal, quase todas as noites ia


jogar “sueca”, um jogo de baralhos de cuja regra não mais me
recordo, do qual participava a Dona Laura, seus filhos (inclusive os
adotivos), e o Seu Miguel, da família Figueiredo, que morava na Arci-
preste. Mais tarde, esse terreno foi vendido e nele foram construídos
dois “bangalôs”. No da esquina, morava o Doutor Benedito Coelho de
Souza, sua mulher Mercedes e a sua filha Maria José. No outro, o filho
Benedito (conhecido como “Pão Lulu” e com quem também joguei
muito “botão”, juntamente com o Antônio Resende, que morava
defronte) e sua mulher Carlinda, ambos já falecidos.

Depois que os Carneiros se mudaram para a Arcipreste, primeiro para


uma casa no quarteirão entre São Pedro e São Matheus (hoje, Avenida
Padre Eutíquio) e depois para junto da Padaria Onça, a casa onde
moravam foi alugada para a Dona Laura Farache, com suas duas
filhas: Célia e Maria Eugênia, conhecida como “Maruja’’, e que estu-
dava no Colégio Santa Rosa. Como eu ensinava Matemática para a
“Maruja’’, recebia um tratamento carinhoso por parte dela e de sua
mãe. Lembro-me bem do “ovo estrelado“ que ela preparava para mim,
cujo cheiro da “manteiga Real’’, na qual “nadava’’ o ovo, era bastante
convidativo. Em casa, essa manteiga era apenas um substantivo abs-
trato. A Célia é mãe do Paulo Leite, hoje ator de cinema, teatro e tele-
visão, no sul do país. A “Maruja’’ é hoje professora aposentada do
Núcleo Pedagógico Integrado (NPI), da UFPA.
Ainda no quarteirão de nossa casa, tivemos outros vizinhos. No lado
direito da casa dos Prados, morava a família da Dejacir que, mais
tarde, casou com o Dr. Pedro Valinoto, psiquiatra, muito amigo de
minha tia Luzia, e meu primeiro médico, dos muitos que tive para
lidar com a minha hipocondria neurótica, da qual falarei mais adi-
ante. Depois veio a família Bemerguy, Seu Abraão e Dona Messody,
com os filhos Isaac, Elias, Maú, Simol e Rica. Isaac casou com a Dona
Luz e tiveram vários filhos, dentre eles, o Moisés, que foi meu aluno
de Matemática, por volta de 1949, ocasião em que estudou Português
com a minha irmã Madalena, a saudosa Madá. Anos mais tarde, em
1967, o Moisés voltaria a ser meu aluno, desta vez na EEP, na disci-
plina Eletromagnetismo, do Curso de Engenharia Elétrica. Ao lado da
casa dos Bemerguy, ficava a residência de outra família Sampaio, Seu
José do Carmo e Dona Orencia, que fazia esquina com a Conselheiro
Furtado. Os Sampaios tinham dois filhos: Newton, dentista e já fale-
cido, e Noemy, recentemente falecida.

Completando os vizinhos de nosso quarteirão, tivemos a família Ave-


lino, que morava na esquina da Arcipreste, com entrada por esta rua,
e que tinha um grande quintal que fazia limite com a casa dos Sam-
paios, nossos vizinhos. A família Avelino, Dona Idalia (Dadá) e seu
Eunápio, tinha dois filhos: Paulo (conceituado médico) e Hilda (recen-
temente falecida). Faziam ainda parte da família Avelino a Dona Lili,
irmã de Dona Dadá, e a sobrinha Maria Sarah Cardoso Nunes
(“Sarita”, que hoje mora em Niterói). A Dona Dadá encantou-se com o
Mário quando pequeno e o considerou como um filho, tanto que ele
praticamente morava com a família Avelino. Até hoje, o Mário tem um
vínculo muito afetivo de “parentesco’’ com essa família.

Depois que a família Avelino mudou-se para a Conselheiro Furtado,


próximo da Avenida Generalíssimo Deodoro, a casa foi ocupada pela
família Dias Ferreira, Seu Fernando e Dona Raimunda de Paiva, que
tinha seis filhos: Fernando, Maria, Carmen, Laurênio, Manoel Maria
(hoje, conceituado médico) e Terezinha.

A próxima ocupante dessa casa foi a família Caldeira, Seu Pedro Maria
e sua mulher (cujo nome não recordo), que tiveram quatro filhos:
Oneide, Ione, Orlando e Hélio. A Ione foi uma de minhas alunas parti-
culares de Matemática.
Conforme falei acima, a casa ocupada pelas famílias Avelino e Dias
Ferreira tinha um grande quintal, no qual foi construída uma vila de
três casas, a Vila Maria. A primeira delas, que ficava na esquina da
Arcipreste, foi ocupada pela família Mesquita, Seu Artur e Dona Ester,
e seus filhos Ivanise e Roberto (geólogo do Departamento Nacional de
Pesquisas Minerais) A Ivanise foi também uma de minhas alunas par-
ticulares de Matemática. Na casa do meio (de número 429), morou
uma família, cuja filha Terezinha de Jesus Aquino (falecida em 1998),
que morava com sua mãe, a Sra. Saturnina Aquino, casou-se, em 1954,
com o Arthêmio Scardino Guimarães, que foi durante muito tempo
Diretor Administrativo do hoje extinto jornal A Província do Pará.
Aliás, o Arthêmio (já falecido) era irmão do hoje engenheiro mecânico
Ademir, que foi meu aluno no CEPC, a quem agradeço as informações
sobre seu irmão e alguns vizinhos dele. Depois do nascimento de sua
primeira filha Heliana, a família mudou-se para a Avenida Coman-
dante Braz de Aguiar e a casa passou a ser ocupada pelo famoso maes-
tro paraense Guiães de Barros. Por fim, na terceira casa, segundo o
Ademir Scardino Guimarães (informada prestada a mim, por e-mail,
no começo de 2007), morava o Sr. José Lusquinhos, que era dono de
uma joalheria, com a sua esposa, a Sra. Carmen Lusquinhos e os
filhos: José Maria, que se formou em Direito e Maria José (de apelido
“Zezete”), que se formou em Medicina. Hoje, nesta casa, mora a Dona
Catarina, viúva do senhor Álvaro Cardoso Bastos.

Em continuação aos nossos vizinhos, vou destacar alguns que mora-


vam na Arcipreste, na continuação da São Pedro, e na Conselheiro
Furtado. É oportuno destacar que essa amizade decorria do fato de
que o papai consertava os sapatos dos componentes dessas famílias.
Na Arcipreste, no quarteirão limitado pelas Travessas Tupinambás e
São Pedro, tivemos, logo na esquina, a família Ribeiro Alves, Seu Luís
Santiago e Dona Cândida (ambos falecidos), com os filhos: Ana Maria,
Luís Santiago, Antônio e Rosa Maria. A Ana Maria também foi uma de
minhas alunas particulares de Matemática. Ainda desse mesmo lado
da Arcipreste, ficava a Tanoaria do Seu Antonio Antunes das Neves,
casado com a Dona Orminda. Eles moravam ao lado da Tanoaria, com
os filhos Américo, Edite e Esmeralda. Ao lado da Mercearia e Padaria
Fortaleza do Humaitá, morava a família Maia da Costa, Seu Isáuro
Gonçalves da Costa (que era médico) e Dona Cilísia Maia da Costa,
com os filhos Isáuro Célio (“Neném’’), Manoel José (“Duca’’), Clara
Maria, Cilísia Célia e Luís Ney. Com o “Duca”, que é engenheiro civil e
arquiteto, tive uma relação maior de amizade, pois ele foi meu colega
de magistério da UFPA. Na seqüência, moravam as seguintes famílias:
Martins, Seu Flávio (o famoso jogador “Vivi” do Clube do Remo),
Dona Maria da Conceição e as filhas Ieda (falecida), Iacy e Iolanda;
Nogueira, Seu Mário Azevedo Nogueira e Dona Mercedes Fernandes
de Azevedo Nogueira, com os filhos Daniel, Armando (médico, recen-
temente falecido), Mário (advogado), Guilherme (que faleceu cedo de
apendicite supurada), Afonso Henriques (engenheiro, já falecido) e
Maria Eugênia, que também foi uma de minhas alunas particulares de
Matemática. Ao lado da casa dos Nogueira morava a família Viana:
Seu Osvaldo, Dona Maria e os filhos Marcílio, Renato e Waldemar;
este foi rádio-ator da Rádio Clube, PRC-5 e hoje é um conceituado
advogado. Com a mudança dessa família, a casa foi comprada pelo
professor Djalma Montenegro Duarte, meu professor na EEP e que,
até falecer, foi meu grande amigo.

Ainda na Arcipreste, porém no quarteirão limitado pela Avenida Padre


Eutíquio (antiga São Mateus) e a rua de casa, registro os seguintes
vizinhos: pelo lado direito, os Caldeira, já mencionados, e logo depois
a família Rezende, Seu Antônio e Dona Maria, e seus filhos: José
(engenheiro), Lucila, Elisa e Celanira. Ainda mora nessa casa a Lucila.
Ao lado morava a família Brito, Seu Dário, Dona Cândida e os filhos:
Lígia, Jonas (engenheiro), Lacy, Arival (hoje, conceituado médico der-
matologista), Iolanda e Ailce. Brinquei muito (bola e “botão”) com o
Lacy e o Arival. Mais tarde, minha amizade com Arival estreitou-se
bastante, pois ele era professor da Faculdade de Medicina, e chegou a
ser seu Diretor, quando ela se transformou no Centro de Ciências da
Saúde da UFPA.

Pelo lado esquerdo da Arcipreste, moravam as famílias: Maciel: Seu


Lauro, Dona Lucila e os filhos Luís Otávio, José Lauro, Antônio Luís,
Rosa, Lúcia, Janira, Laércio e Ana Cristina; na casa ao lado, moraram
as professoras Natércia e Lúcia, com quem estudaram o Antônio e a
Madá; depois ocupou essa casa a família Carneiro, já mencionada; em
seguida vinha a família Pessoa: Seu Artur, Dona Mimi e os filhos, dos
quais me lembro apenas da Josélia e do Artur; ao lado, morava o
Comandante Flávio Moreira. Na casa seguinte, morou a família Aze-
vedo: Oscar Alves de Souza Azevedo e Maria da Conceição Novaes
Azevedo, e as filhas Lúcia Cândida Azevedo (hoje casada com o advo-
gado Paulo Rúbio Meira) e Consuelo Dolores Azevedo (hoje viúva do
Afonso Henriques Nogueira); esta foi também uma de minhas alunas
particulares. Ainda nesse quarteirão, moraram a família Coelho, Seu
Antônio e Dona Antonina, e os filhos Nair, Sérgio e Laurinda. Esta é
casada com o químico Lourival Franco, meu colega de magistério no
CEPC, e meu vizinho, quando já casados, moramos no Edifício Santa-
rém, na Conselheiro Furtado, defronte da Roberto Camelier; a família
Figueiredo, cujo sobrinho Hélio Figueiredo da Serra foi meu grande
amigo de infância e com quem brinquei bastante.

Hélio Serra, os “choros” das Santas e as Festas Juninas

Com o Hélio recordo-me de muitas coisas que realizamos juntos. Por


exemplo, quando houve um surto de “choros” de Santas em Belém,
fizemos muitas “peregrinações” noturnas a essas casas. Às vezes, par-
ticipava dessa peregrinação meu outro grande amigo, Loriwal Rei de
Magalhães, de quem falarei mais adiante. Esse surto iniciou-se com o
“choro” de uma Santa na Igreja do Padre Antônio, em Uberaba, Minas
Gerais, em 1948. Assim, no dia 03 de novembro de 1948, o jornal
Folha do Norte abriu a seguinte manchete: Santa chora na casa de
uma mulher humilde. Tratava-se do “choro” de Nossa Senhora das
Graças, na casa da Dona Zenóbia da Costa, na Avenida Conselheiro
Furtado, próximo da Travessa 9 de Janeiro. Imediatamente, várias
romarias foram organizadas para ver o “choro” e, no trajeto delas, os
romeiros (inclusive eu e o Hélio), tomavam “emprestado” tijolos das
construções para ajudar a construir uma capela para a Santa, capela,
aliás, que existe até hoje e que, certamente, não foi construída
somente com esses tijolos “emprestados”, e sim com várias doações
dos beneficiários dos “milagres” que o “choro” da Santa promovia.
Esses beneficiários tinham em suas famílias portadores de deficiência
(cegos, surdos, mudos, aleijados etc.). A minha própria família parti-
cipou dessa busca milagrosa, pois, como a minha avó Tereza estava
cega, sua filha, a tia Luzia, levou-a, em um “carro de aluguel”, como
eram chamados os “táxis” de hoje, para ver se o milagre da recupera-
ção da visão acontecia. Minha avó Tereza morreu cega, no dia 04 de
novembro de 1952. Ainda com o Hélio, visitamos outras casas em que
outras Santas “choravam”. Lembro-me de uma casa de pessoas de
posse, na Avenida Braz de Aguiar, esquina com a Passagem MacDo-
well, e uma casa humilde na Travessa Apinagés, passando a Rua Cari-
punas. É claro que essa onda de “choros” contagiou várias casas de
Belém. A tia Luzia começou a ver “lágrimas” em um quadro de uma
Santa que tínhamos em casa, o que, contudo, não passou apenas de
um desejo de ser privilegiada por Deus. Contudo, essa desilusão da tia
Luzia não aconteceu com a Dona Nancy, esposa do Dr. Durval, nossos
vizinhos defronte de nossa casa e já referidos. Em sua casa, houve o
“choro” de uma Santa. Recordo-me da luta ansiosa de um humilde
mudo, que fazia serviços para essa casa, na frente da Santa para recu-
perar a sua fala. Ele permaneceu mudo! Registre-se que o “choro” na
casa da Dona Zenóbia acabou quando ela fantasiou-se para brincar o
Carnaval de 1949, e a Folha do Norte exibiu sua foto carnavalesca,
com a seguinte manchete: Zenóbia gaiteira esmerila o dinheiro da
Santa. Registre-se, também, que as primeiras reportagens sobre a
Dona Zenóbia foram feitas pelo então repórter da Folha do Norte,
Geraldo Palmeira que, mais tarde, se tornaria um político muito influ-
ente em Belém. Dizia a “rádio cipó” que esse “choro” foi invenção
dele!

Eu e Hélio fizemos outras incursões noturnas. Íamos com freqüência


ver as “Festas Juninas” no famoso “Terreiro do Pai do Campo”, na Rua
dos Mundurucus, próximo da Rua dos Jurunas (Muito mais tarde, o
terreno onde se situava esse “Terreiro” foi vendido, em lotes, e meus
amigos Luiz Gonzaga Baganha e Alírio construíram suas casas, uma
ao lado da outra; Baganha ainda mora lá, porém, não mais o Alírio
por haver falecido.) Como não tínhamos dinheiro para pagar o
ingresso, geralmente arranjávamos uma maneira, não muito honesta,
de entrar no recinto onde ocorriam as peças sobre um determinado
pássaro. De um modo geral, nessas peças teatrais, o caçador sempre
tentava matar o pássaro. Numa dessas peças que vimos, o “Bem-te-
vi”, o caçador estava bêbado. Quando a atriz, que representava o
“Bem-te-vi”, perguntou ao caçador por que ele queria matá-lo, ele res-
pondeu: Mato a ti e até a p… que o pariu. Claro que houve uma risada
geral na platéia! Lembro-me com saudade dessa Belém. Ao término
dessas nossas peregrinações, vínhamos andando, de madrugada, sem
medo de assalto. Como as ruas não eram iluminadas, tínhamos medo,
apenas, de “visagem” e de outros “assombradores” do imaginário
popular: “Matintapereira”, “Lobisomem”, “Porco sem cabeça”, “Saci
Pereré”, etc.

Por fim, com o Hélio, aconteceu uma coisa que me dói até hoje. Ele
havia se formado na Marinha Mercante. Mais tarde, contudo, fez ves-
tibular para a EEP, que funcionava ainda na Travessa Campos Sales.
Na prova de Física, eu era um dos fiscais. Como ele estava com difi-
culdade em uma das questões, consultou-me para tirar uma dúvida.
Eu, usando uma moral rígida, disse que não poderia ajudá-lo, pois, se
assim o fizesse, estaria prejudicando os demais concorrentes. Feliz-
mente, ele passou no Vestibular, e formou-se em Engenharia Civil
como eu. Hoje, ele é aposentado do ex-Departamento Nacional de
Estradas de Rodagem (DNER) e cursa o terceiro período na Faculdade
de Jornalismo “Pinheiro Guimarães”, no Rio de Janeiro. Aliás, a von-
tade de ser engenheiro já havia se manifestado em nós desde muito
cedo pois, conforme registrei antes, eu fazia as minhas “construções”
no quintal de casa, e ajudava o Hélio a fazer as dele, em seu quintal.

A turma da Sapataria do Arnoud

Ao lado da família Figueiredo, morava a família Maia, Seu Manuel e


Dona Edwiges, e os filhos Orlanda, Tereza, Emanuel, Armando,
Orlando, Luís e Miguel; ao lado dessa família moravam as professoras
Zilda e Palmyra Garcia, já por mim referidas. Mais adiante, moravam
outras famílias, com cujos filhos brinquei bastante. Por exemplo, na
casa do Eduardo Castro (já falecido), em cujo quintal treinávamos
luta-livre, em um ringue improvisado que nós mesmos construímos,
assim como brincávamos muito vôlei, com a Aimede e a Celina Prado,
e sua prima Nazaré. Elas eram netas da grande Ana Prado, uma espí-
rita bastante famosa em virtude de experiências de reencarnação que
realizava. Já a conheci no ostracismo. Dessa turma da luta-livre e do
vôlei, além do Hélio Serra, fazia parte também meu grande amigo
Loriwal, que morava na Padre Eutíquio. Devo a esse grande amigo
meu primeiro emprego público: foi ele que me levou para trabalhar
no então Serviço Municipal de Estradas de Rodagem (SMER), em
março de 1954. Aliás, na adolescência, eu e ele compartilhamos uma
mesma namorada: a Raimundinha, como a chamávamos. Eu, de
madrugada, quando íamos, eu e ela, comprar carne no Mercado
Batista Campos, e o Loriwal, na noite anterior a essa madrugada.
Ainda dessa turma do vôlei, participou o Lóris, que morava nesse
mesmo quarteirão da Arcipreste. Também foi um de meus grandes
amigos de infância. Tive muita briga com ele, pois, sendo ele um bom
jogador de “pelada”, às vezes, eu ficava chateado por ele fazer mais
gols do que eu, na célebre “pelada dominical” que jogávamos no
“Largo de Engomar”, já referido. Aliás, essa animosidade “futebolís-
tica” com o Lóris e com outros “peladeiros” [dentre os quais me lem-
bro do Olímpio (em cujo porão de sua casa, na Rua Veiga Cabral,
nossa turma jogava “ping-pong”, enquanto o Hélio Serra namorava
sua irmã mais nova, a Cléa) pelos ataques de epilepsia que sofria,
devido ao esforço que fazia na “pelada”] era o tema de conversa na
Sapataria do Arnoud, localizada na Padre Eutíquio, quase esquina da
Arcipreste, durante toda a semana, por ocasião das reuniões que fazí-
amos nela, no final da tarde, de segunda a sábado. Aliás, anos mais
tarde, o Loriwal ensinou topografia para o Arnoud (já falecido) e, com
isso, conseguiu um bom emprego de topógrafo na PETROBRÁS.

Das reuniões realizadas na Sapataria do Arnoud, nas quais participa-


vam os amigos já referidos, e o Milton da Rocha Souza, auxiliar do
Arnoud, o Milton Maia, os irmãos Cabral: Alfredo e Artur, e seu primo
Décio, os irmãos Araújo: José Maria (“Seu Cumpadre”, já falecido),
Emanuel (engenheiro) e João, os irmãos Virgulino: Eduardo (médico,
já falecido) e José (professor normalista), os irmãos Lourenço: Eve-
raldo (comerciante) e Hélio (cirurgião dentista), meu primo Antônio
Filardo, Manoel Pignataro (mais tarde, um excelente jogador de fute-
bol), os irmãos Sandres: Renato (médico) e Henrique (ele foi meu
aluno e Monitor na EEP, conforme registrarei em um outro texto des-
tas reminiscências), Alexandre Silva Martins (“Papão”, era um exce-
lente tocador de “bongô”; ele tocou na TV Marajoara e, mais tarde, na
TV Tupi, no Rio de Janeiro), e tantos outros, lembro-me de alguns
fatos marcantes relacionados à acirrada eleição governamental entre
o General Barata e o Marechal Alexandre Zacarias de Assunção, ocor-
rida no final de 1950. O Barata era o grande líder político do Pará, que
ascendeu ao poder paraense como decorrência da Revolução de 30,
liderada por Getúlio Vargas. Certamente por causa dessa liderança,
seus partidários, os chamados “baratistas” e pertencentes ao Partido
Social Democrata (PSD), dirigido pelo Barata no Pará, realizaram
vários atos truculentos e violentos com seus adversários políticos. Em
virtude disso, quando ele perdeu a eleição, por uma diferença de 555
votos, houve uma grande manifestação de júbilo em Belém. Todos os
bairros de Belém foram decorados com bandeirinhas. Em nosso
bairro, Batista Campos, não foi diferente. Lembro-me de haver pendu-
rado muitas bandeirinhas por conta dessa festa, junto com a Turma
da Sapataria do Arnoud, para desespero de uma “baratista” que
morava junto daquela Sapataria. Em conseqüência dessa grande vitó-
ria, lembro-me, também, da visita que o Governador de São Paulo,
Ademar de Barros, líder do Partido Social Progressista (PSP), fez ao
Dr. Ferreira Lemos, um dos líderes desse Partido político, que morava
na Padre Eutíquio em uma das famosas “casas altas”, de um conjunto
que terminava na Arcipreste.

A Copa do Mundo de 1950 e o “Uruguai Futebol Clube”

Na São Pedro, no quarteirão compreendido entre a Arcipreste e a Rua


Veiga Cabral, pelo lado direito e na direção da Veiga Cabral, morava a
família Tavares: Seu Adelino e Dona Lucinda e os filhos Lucélia, Wil-
son, Antônio, João, Iolanda, Ivone e Cláudio. O João Tavares foi meu
grande amigo de infância. Com ele, freqüentei muitas festas de igreja,
principalmente a da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, que ficava
na rua Cesário Alvim, uma continuação da Arcipreste, na direção da
Estrada Nova, e que chamávamos de “Coréia”, em virtude da “Guerra
da Coréia”, iniciada em 1950. Ao lado da casa dos Tavares, morava
uma família que mantinha uma horta, onde plantavam couve, alface,
tomate, jerimum (cujas sementes eu comia torradas na chapa do
fogão de lenha de minha casa), etc., e que eram vendidos, para a vizi-
nhança, por um membro dessa família em um carro de madeira, com
um grande depósito e onde ficavam essas verduras, apoiado em duas
longas travessas de madeira, que se uniam na frente a uma roda.
Dessa família, houve um amigo meu de infância, o Walter que, mais
tarde, viria a ser jogador de futebol do Clube do Remo.

O ano de 1950 tem, para todos os brasileiros amantes do futebol, uma


recordação trágica. Trata-se do dia 16 de julho, dia em que houve o
jogo Brasil x Uruguai, que decidia a Copa do Mundo de 1950. Perde-
mos de 2 x 1. Gols de Friaça, para o Brasil, e de Schiafino e Gighia,
para o Uruguai. Aliás, nesse dia, eu estava no Campo do Paysandu, na
Avenida Tito Franco (hoje, Almirante Barroso) entre as Travessas
Curuzu e Chaco, assistindo ao jogo Remo x Paysandu, levado por meu
irmão Antônio. Esse jogo foi ganho pelo Remo, com um gol do Ita-
guarí, um negro, que era um excelente jogador e com a característica
de jogar de toca. Desse jogo, lembro-me de um fato inusitado. De
todos os presentes no campo, apenas um estava muito feliz. Tratava-
se do jogador Veliz (Júlio), que era uruguaio e goleiro do Remo. Esse
jogador tinha sido contratado pelo Remo ao São Cristóvão, clube cari-
oca, que viera a Belém fazer uma excursão. Esse time tinha sido cam-
peão carioca no ano de centenário do Rio de Janeiro e possuía um
excelente time: o goleiro Veliz, os zagueiros Raimundinho e Augusto,
a linha média formada por Bianchi, Papeti e Castanheira, e a linha
atacante constituída por Santo Cristo, Walfrido, João Pinto, Nestor e
Magalhães. O “center forward” João Pinto era um terror. No jogo do
São Cristóvão com o Paysandu, ele fez tanto gol que, nós, remistas,
fizemos uma paródia com a música, cantada pelo Orlando Silva, o cha-
mado “Cantor das Multidões”. Essa paródia era a seguinte: Aos pés de
Santo Cristo, Dodó (goleiro do Paysandu) se ajoelhou, pedindo que
João Pinto não fizesse mais nenhum gol …. . Anos mais tarde, já no
DMER, tive oportunidade de conversar bastante com o Veliz, que era
motorista da ambulância do Setor Médico desse Órgão Rodoviário
Municipal.

Essa derrota do Brasil para o Uruguai ensejou que eu e Hélio Serra,


mais os amigos da Travessa São Pedro e adjacências [dentre eles,
Paulo Emílio Fiúza, os irmãos Sandres, Lóris, Pignataro e Teobaldo
(“Teo”) Guilherme Rosa] criássemos um time de futebol, o Uruguai
Futebol Clube, com o qual disputávamos jogos com outros times, nos
campos do Liberto, São Domingos e Imperial. Lembro-me de que pedí-
amos ao Pantoja, que era jornalista da Folha do Norte e Folha Vesper-
tina, para dar notícias sobre esses jogos. Aliás, segundo me contou o
Hélio Serra, a inauguração desse nosso clube foi comemorado com
uma feijoada na casa do Fiúza, que residia na Travessa São Francisco.

Os vizinhos: 3

No lado direito desse referido quarteirão da São Pedro, na direção da


Arcipreste para a Veiga Cabral, morava a família Barata, Seu Antenor
e Dona Laura, e os filhos Antenor Augusto, Aldenora, Aldenor e Aumil-
ton. O Antenor Augusto, falecido em 2007, tornou-se um bom cantor,
e fez algumas apresentações nas rádios Clube do Pará e Marajoara.
No quintal da casa dele joguei muita “pelada”. À casa dessa família
Barata, ia sempre o Anacleto, que vendia tucupi. Contudo, como ele
tinha dificuldade de dicção, dizia “tutupi”, e, por isso, ficou conhecido
como o “Tutupi”. Ao lado da família Barata, morava a família do Seu
Mimo. Na seqüência, vinha a família Rosal, Seu Pedro e Dona Julieta,
e os filhos Pedro, Lourdes e Helena, esta é hoje professora aposentada
da UFPA. Ao lado, morava uma outra família Tavares, cujos filhos
eram a Júlia, o João, o Raimundo (“Dico’’) e o Eduardo. O Eduardo era
casado com a Dona Eduarda. Na casa dessa família havia uma oficina
de consertos de carro e de fabricação de ônibus. Foi lá que foi cons-
truído o ônibus em forma de Zeppelin, de nome Viação Pérola, e que
foi uma sensação em Belém nos anos 40 e 50. (Aliás, esse ônibus era
uma réplica dos outros cinco construídos na Indústria São José de
Ribamar Ltda., de nome Viação Sul Americana, de propriedade de Cló-
vis Ferreira Jorge, segundo registro do professor Armando Dias Men-
des, em seu livro A Cidade Transitiva, IOF, Belém, 1998.) Ao lado
dessa família, morava a Dona Manoela, cujo filho, o Pedro, era inves-
tigador. Morava, também, o Eugênio, com quem brinquei, e que apli-
cava injeções. Cheguei a tomar algumas com ele. Em seguida, vinha a
casa do Seu Sidoca, que fazia móveis, e que tinha um filho adotivo, o
Jaime Passos, que, até hoje, mora lá, e teve uma oficina de consertos
de carro. Em uma das esquinas da São Pedro com a Rua Veiga Cabral
ficava a Mercearia do Antônio Agrião, o “Paysandu’’. Nela, nas horas
de folga, ajudava-o fazendo sacos de papel de embrulho. Esse tipo de
papel era áspero, poroso e de cor cinza. As compras feitas nas Merce-
arias de Belém daquela época, de um modo geral, eram embrulhadas
com esse tipo de papel e com um outro tipo, conhecido como papel
manilha, quase de mesma textura, porém de cor rósea. Aliás, depois
do uso desses papéis, eu os aproveitava para fazer meus cadernos de
estudos dos Cursos Primário e Ginasial. É oportuno registrar que,
devido à porosidade desses papéis, eles não serviam para a compra
retalhada de manteiga e de banha. Nesse caso, era usado o papel
vegetal. Esse tipo de papel, que é translúcido e impermeável, foi
muito usado para fazer os desenhos (hoje, feitos em computador) de
Engenharia Civil. Usei-os bastante nas plantas das casas que fiz, bem
como nos cálculos estruturais que realizei. Tratarei desse assunto em
outro artigo dessas minhas lembranças. Registre-se ainda que as três
esquinas restantes da São Pedro com a Veiga Cabral eram ocupadas
por hortas.

No quarteirão da São Pedro, entre a Veiga Cabral e a Avenida Almi-


rante Tamandaré, também tivemos relações de amizade com alguns
moradores. Dentre eles, lembro-me bastante da família Santos, cujos
filhos eram: Alberto, Armando, Antônio e a irmã Alcina. O Alberto,
que chamávamos de “Bé’’, já falecido, trabalhava na Sapataria Sem
Rival, do Seu Isaac Garcia, que ficava na Avenida Padre Eutíquio, logo
depois da Rua Senador Manoel Barata. Lá trabalhou, também, a tia
Luzia, como costureira de sapatos. Lembro-me de ir sempre nessa
Sapataria buscar a tia Luzia para acompanhá-la na compra de algum
presente para mim. Um desses presentes foi um revólver de brin-
quedo comprado na Casa dos Presentes, que ficava localizada na
Senador Manoel Barata, entre as Travessas Campos Sales e Frutuoso
Guimarães.

Na Avenida Conselheiro Furtado, tivemos, também, relações de ami-


zade com várias famílias. Já falei da família Amor Divino. Ao lado
dela, morou a família Gonçalves: Seu Domingos e Dona Elvira (já fale-
cidos) e os filhos Augusto, Artur (já falecido) e Adriano. O Seu Domin-
gos tinha a Fábrica de Mosaicos Cruzeiro. A casa dele tinha um grande
quintal, frutífero como o nosso, onde ficava essa Fábrica e fazia limite
com o nosso quintal. Antes dessa família e de minhas lembranças,
morou a família do Francisco Paulo do Nascimento Mendes, que, mais
tarde, viria a ser meu professor no CEPC e se tornou meu grande
amigo. Ao lado da família Gonçalves existia uma fábrica de móveis.
Junto a esta, morou a família do João Bahia, que foi meu grande
amigo de adolescência. Com ele, fui muito ao arraial junino da Igreja
de Santa Terezinha, na rua dos Jurunas, esquina com a Travessa São
Miguel. Ao lado da casa do João, morou, inicialmente, a família do
grande advogado Pereira Brasil, cuja filha Francy, hoje Francy Meira,
é esposa do engenheiro e arquiteto Alcir Meira. Lembro-me de que eu
e Maria brincávamos muito com a Francy. Depois que essa família
mudou-se para a Avenida 15 de Agosto, hoje Presidente Vargas, junto
ao Clube Assembléia Paraense, a casa foi ocupada pela família do his-
toriador Ernesto Cruz, com a esposa Antonieta e os filhos Cauby, Aja-
nary e Coaracy, que eram exímios jogadores de tênis de mesa
(“pingue-pongue”). Quando eu treinava celotex (“botão”) na sede do
Clube do Remo, os Cruz também treinavam tênis de mesa. O Cauby (já
falecido) era, também, um excelente poeta. Mais adiante, e ainda
nesse mesmo lado da Conselheiro, morava o Renato Coral (com quem
também joguei “botões”) e, um pouco adiante, a família do Seu Edu-
ardo (“Dudu”) Failache, com a esposa Eledes Pitágoras e os filhos
Mário, Maria de Lourdes (“Lulu”), Carmen e Conceição. Ele era dono
do famoso “sebo”, a Livraria Econômica, que ficava na Travessa Cam-
pos Sales, defronte do prédio onde funcionou a EEP. A casa dele era a
sede do time de “celotex” Colo Colo, do qual fiz parte com seu filho
Mário. A família Failache depois se mudou para a Vila de Icoaracy,
onde tiveram mais três filhos: Eduardo, Socorro e André. O Mário
morreu bruscamente, com a esposa, filha e neto, em desastre de
carro, próximo daquela Vila. Aliás, o Mário foi quem fez as fotos de
meu casamento com Célia, no dia 06 de outubro de 1962. Registro
ainda que, ao lado da casa dos Failache, morava o advogado Walde-
mar Viana num “bangalô”, no qual trabalhei depois que passou a ser a
sede do então SMER, em 1954.

O “celotex” e os amigos que fiz nesse jogo de “botões”

O nome “celotex” dado ao jogo de “botões” foi cunhado pelo jornalista


paulista Geraldo C. Décourt, por volta de 1930, porque a mesa onde
ele jogava “botões” era de um material importado de Chicago, nos
Estados Unidos da América, de uma firma chamada The Celotex Co..
Além de dar o nome desse jogo, ele editou suas regras e a divulgou
nos vários jornais da então Capital Federal, a cidade do Rio de
Janeiro, conforme ele próprio registrou em seu livro intitulado Acon-
teceu, sim!… , publicado pela Editora Pannartz, S.P., em 1987. [Apro-
veito a oportunidade para agradecer ao meu amigo e “celotexista”
(“palhetista”) Ruy de Oliveira Barros o acesso a esse livro, no qual vi
nomes famosos de vários “celotexistas” (o ex-Ministro Delfim Neto, o
ex-Governador Lauro Natel, o ex-Deputado Federal Herbert Levy, o
ex-pugilista Eder Jofre, o treinador e ex-jogador de futebol Zagalo, os
comediantes Costinha e Chico Anísio, os compositores Chico Buarque
de Holanda e Toquinho, e os atores Nuno Leal Maia e Osmar Prado),
bem como a outras informações que utilizei nestas notas “celotexis-
tas”.]
Quando comecei a “celotexar”, em 1953, o Celotex já era um dos
esportes oficiais da então Federação Paraense de Desportos (FPD),
pois sua inclusão havia sido feita em 1950, pelo então Presidente
dessa Federação, o Coronel da Polícia Militar do Estado do Pará,
Arthur de Souza Vieira, sendo o Departamento de Celotex dirigido por
Raymundo Eulálio Amorim. (Registre-se que este jornalista, enquanto
permaneceu no comando desse Departamento da FPD, manteve uma
coluna no jornal Folha Vespertina, intitulada Celotex aos Sábados).
Contudo, a mudança do nome Celotex para Futebol de Mesa parece
ser desconhecida, conforme a pesquisa realizada, em 2000, pelo tam-
bém “celotexista” Theodorico Cardoso Rodrigues, hoje Oficial Refor-
mado da Polícia Militar do Estado do Pará, ex-Juiz de Futebol e
ex-Comentarista Esportivo, conhecido como o “Papa da Arbitragem”,
da Rádio Clube e da Rádio Marajoara. Creio ser oportuno dizer que,
antes da oficialização do Celotex, ele foi jogado extra-oficialmente em
vários outros clubes e, por isso, foi criada, por volta de 1948, a Asso-
ciação Paraense de Celotex. Dentre esses clubes, o mais destacado era
o São Matheus, na então Travessa São Matheus (depois Avenida Padre
Eutíquio), dirigido pelo Sr. Oleno, no qual iniciou o próprio Theodo-
rico e que, também, contava com outros grandes “celotexistas”, como
Abel, “Bronzeado”, Durval, Fernando Andrade (que, mais tarde, se
tornou árbitro de futebol), Lindolfo Ayres e Nilo Cardoso. [Para maio-
res detalhes sobre o Celotex, antes de 1950 e depois que deixei, por
volta de 1960, de praticar esse “esporte da bolinha de lã” (nome
cunhado pelo jornalista esportivo da A Folha do Norte, Laurestino
Soares), ver a excelente pesquisa do Theodorico, referida acima.
Aproveito a oportunidade para agradecer as informações adicionais
que ele me prestou para estas recordações de minha vida de “palhe-
tista”.]

É oportuno dizer que, antes de me tornar um “jogador profissional”


desse “jogo de botões”, brinquei em várias casas de amigos de infân-
cia e de adolescência. Por exemplo, quando estudava no Curso Primá-
rio do Professor Raymundo Firmiano Lobo, brinquei na casa de meu
colega nesse Curso, o saudoso Odilon Andrade, que se localizava na
Rua Arcipreste Manoel Teodoro, próximo do então “Largo da Pól-
vora”. Quando aluno do Ginásio, no Colégio Estadual “Paes de Carva-
lho” (CEPC), brinquei na casa de meu amigo Ronaldo Passarinho Pinto
de Souza (hoje, advogado, Conselheiro do Tribunal de Contas do
Município e ex-Deputado Estadual), que morava na Travessa Apina-
gés, próximo da Rua dos Tamoios, juntamente com o falecido médico
Rodolfo Tourinho que, nessa ocasião, namorava com sua irmã Celeste.
Na mesma Tamoios, porém próximo da Travessa do Jurunas (hoje,
Avenida Roberto Camelier), joguei na casa do Orlando Vilhena, filho
do dono do Café Manduca, o senhor Manoel Vilhena. É claro que tam-
bém joguei em casa, com meus irmãos, Antônio e Mário, e com vizi-
nhos.

Antes de falar nos amigos que fiz no jogo de Celotex, farei uma
pequena descrição dele. Ele era constituído de 10 botões de madeira
(pau amarelo, macacaúba, goiabeira, etc.), com diâmetro aproximado
de 5 cm, cerca de 1 cm de altura e cavado, confeccionado no “tor-
neiro” da rua 28 de Setembro, no Bairro do Reduto. Completava o
“time de celotex”, um goleiro de madeira pesada (normalmente de
acapu), na forma de um prisma de cm. O jogo oficial de “celotex” era
jogado em uma mesa de madeira de m, revestida de compensado, com
redes nas laterais para impedir que o botão caísse no chão e se que-
brasse, e apoiada em cavaletes de 0,7 cm de altura. As traves eram de
ferro cm, completadas com uma rede. A bola era de lã, com 2 cm de
diâmetro. Para confeccioná-la, enrolávamos fio de lã (de uma única
cor ou de cores misturadas) em um garfo e depois o enrolado era
amarrado no meio dos dentes, resultando um pacote na forma de um
oito. Esse pacote era então desbastado com uma tesoura de ponta
fina, e, com auxílio das mãos, a forma esférica era finalmente conse-
guida. Recordo que o Ruy Barros era um exímio fabricante dessas
bolas. O deslocamento dos “botões” nessa mesa era conseguido por
intermédio de uma palheta de mica, cuja forma dependia do jogador.
De um modo geral, tinha a forma de um trapézio, com o lado menor
na forma de “bico de flauta”, para impulsionar o “botão”. Havia casos
de a forma ser semicircular. Para evitar o atrito dos botões na mesa,
ela era parafinada, assim como os botões. Hoje, esse jogo ainda é rea-
lizado no mesmo tipo de mesa, porém com pequenas alterações na
regra, com os botões de plástico PVC, com diâmetro de até cm, a
palheta de acrílico e a bola de borracha, segundo me informou meu
amigo Ruy Barros.
Vejamos, agora, os amigos que fiz no “celotex”. Conforme registrei
acima, este futebol de “botões” foi formalmente oficializado em 1950,
sendo, ainda neste ano, Campeão e Vice-Campeão, respectivamente, o
Grajaú Esporte Clube e o Colo Colo Celotex Clube. No Grajaú, joga-
vam: Almir Nobre (radialista), Francisco (“Chico”) Otávio, José Maria
Hosana, e os falecidos Mário Azevedo (depois, meu colega no DMER) e
Otávio Ledo Nery (cunhado do Hosana, Sargento da Aeronáutica, a
quem, depois, dei aulas de Física e Matemática). O Grajaú possuía um
time interno, o Olímpicos, com os seguintes jogadores: Antonico
Hosana, César Botelho de Lima (falecido), Elias Barbosa (“Rubens” e
“Santo Antonio”), Hubert de Oliveira Mendes (“Nena”), Osmar Sabóia
de Barros, Ruy de Oliveira Barros e Secundino Portela (falecido). No
Colo Colo, jogavam: Carlos Lemos (jornalista), Cássio, Edgar Oliveira
(funcionário do antigo SNAPP), e os falecidos Guilherme O´ de
Almeida, Mário Failache e Renato Coral (que era engenheiro agrô-
nomo). No ano seguinte, em 1951, o Grajaú foi Bicampeão, tendo o
Pará Celotex Clube. Este foi fundado por “Manduca” e no qual joga-
vam: Dagoberto Souza, Fernando Souza (motorista), Geraldo França,
os então acadêmicos de engenharia Hélio Cardoso e Joaquim Albu-
querque, além de Theodorico Rodrigues. Em 1952, o Colo Colo foi o
Campeão com o Grajaú como Vice-Campeão.

Em 1953, conforme afirmei acima, comecei a “celotexar” no Valpara-


íso, que era o time interno do Colo Colo. Dos que jogavam comigo,
recordo apenas do Odilson (conhecido como “Amigo da Onça” e hoje
engenheiro) e Antonio Carmelo Lustosa Failache, tio do Mário (hoje
médico). Por essa época, recordo ainda outros clubes de celotex, tais
como: o Talismã, no Bairro Cidade Velha, no qual jogavam: Carlos
Amílcar Pinheiro e Dirceu Raymundo Pinto Marques (hoje engenhei-
ros e foram meus alunos de Física na preparação do Vestibular de
Engenharia), Dirceu Pinto Marques, Emílio Albuquerque (hoje
médico), Tugdual Guedes do Carmo, Valmiro Assumpção, e os irmãos
Sá Vieitas; o Yolanda, na Travessa Lomas Valentinas, cujos únicos
“palhetistas” do quais me recordo jogando nesse clube, eram: Antonio
Rocha, Benedito Vasconcelos (“Bibi”), Luiz Carlos Oliveira (“Setenta”)
e Mário Luz; o Bangu, no Bairro de Canudos, no qual jogavam o Anto-
nico, o Carlos Costa, o Jorge Costa Rodrigues (depois, tornou-se oficial
da Polícia Rodoviária do Pará) e o excelente encanador, Ludgardo
Pedro Magalhães (“Perico”); Associação Atlética Dramático, na Ave-
nida Generalíssimo Deodoro, no qual um dos grandes “celotexistas”
era o então acadêmico de engenharia, o saudoso Ignácio Moura Bar-
roso; e o Similares, no Bairro da Campina, no qual jogavam o Ismael
Pinho (meu vizinho na Travessa São Pedro) e o falecido Luciano Oli-
veira (mais tarde, meu colega de magistério no Departamento de
Física da UFPA). Nesse ano de 1953, foram Campeão e Vice, respecti-
vamente, Pará e Dramático.

A temporada Oficial de Celotex era iniciada com o Torneio Coronel


Arthur Vieira. Depois, seguia o Campeonato Paraense de Celotex. As
partidas que compunham esses eventos aconteciam nos domingos
pela manhã, começando oito horas. Cada jogo era constituído de cinco
partidas, com 40 minutos cada, com dois tempos de 20 minutos.
Havia um juiz (“celotexista”) designado pelo Departamento de Celo-
tex e uma súmula. Normalmente, os treinos para esses jogos aconte-
ciam aos sábados de tarde. Quando havia algum jogo importante no
domingo, ocorria um treino na quinta-feira de noite. Em 1954, passei
a vestir a camisa grená do Colo Colo, identificada apenas com o
escudo CC, em seu lado esquerdo. Minha passagem para o time princi-
pal aconteceu porque dois de seus jogadores, Carlos Lemos e Gui-
lherme, haviam se juntado ao Almir Nobre, Ignácio Barroso, Mário
Azevedo e Fernando Souza para fundar o Departamento de Celotex do
Clube do Remo. Almir e Mário ficaram livres com o término do Grajaú
e não quiseram ficar no Olímpicos, como aconteceu com os demais
“Grajauianos”. Nesse ano de 1954, o Pará foi Bicampeão, sendo o
Remo, o Vice-Campeão. Em 1955, o Amílcar, a convite do Odilson,
entrou para o Colo Colo. Em 1955 e 1956, o Remo foi Bicampeão,
sendo Vice, respectivamente, Pará e Olímpicos.

Em 1957, aconteceu um fato inusitado e lembrado pelo Amílcar. O


Colo Colo, depois que saiu da casa do Mário Failache, foi para a sede
social do Remo, na Avenida Nazaré. Nesse ano, o Colo Colo fazia um
jogo decisivo com o Remo. Este, lutava pelo tri-campeonato e preci-
sava apenas de um empate. Pois bem, no final da quarta partida, o
jogo estava empatado. A quinta partida decisiva seria entre o Amílcar
e o Carlos Lemos, ex-“colocolista”, e que agora jogava no Remo.
Quase no final dessa partida, que também estava empatada, houve um
pênalti contra o Carlos Lemos. Quando o Amílcar se preparava para
batê-lo, os demais jogadores remistas (dentre eles, o Guilherme e o
Nobre) disseram ao Amílcar que a continuação da mesa do Colo Colo
na sede do Remo dependia desse pênalti. Como o Amílcar converteu o
pênalti, o Remo perdeu o campeonato para o Olímpicos e fomos des-
pejados da sede do Remo e nossa mesa foi colocada nos jardins da
sede do Remo. Com isso, encerrou-se o Colo Colo. Registro que, em
1958, o Olímpicos foi Bicampeão e o Remo, Bi-Vice-Campeão.

Com o término do Colo Colo e com a minha formatura em Engenharia


Civil, em 1958, as minhas novas atividades afastaram-me um pouco
da “bolinha de lã”. Até 1960, cheguei a jogar no Remo e no Paysandu.
Neste, joguei ao lado do “Amigo da Onça”, do “Perico” e de mais dois
novos companheiros: Oldemar Souza e Plínio Souza. Em 1959 e 1960,
o São Matheus (em sua segunda fase) foi Bicampeão, tendo como
Vice, respectivamente, Olímpicos e Belém Celotex.

Depois que deixei de jogar oficialmente o “celotex”, passei apenas a


brincar com meu filho Jô, agora, em mesas pequenas e com botões de
plástico. Como sempre, o meu time era o Clube de Regatas Vasco da
Gama e o dele, o Clube de Regatas Flamengo. Aliás, recordo que,
quando “celotexista”, os números de meu time de madeira eram feitos
por mim, no SMER, em papel vegetal, com um círculo de tinta nan-
quim preta, envolvendo o número em tinta nanquim vermelha. Claro
que, já casado, senti saudades das “domingadas celotexistas”. Em
certo domingo, a saudade foi tão grande que levei meus dois filhos, Jô
e Ádria, para assistir a um jogo que acontecia na sede do Santa Cruz,
no Bairro da Pedreira. Dos jogadores que realizavam esse jogo, lem-
bro-me apenas do “Bibi”. Essa saudade era também mitigada, em oca-
sionais conversas com o Plínio, em sua Banca de Revistas, na calçada
dos Correios e Telégrafos, na Avenida Presidente Vargas.

Por fim, para concluir essas lembranças “celotexistas”, quero regis-


trar uma “surra” ( ) que levei de meu estimado amigo, o físico e pro-
fessor Francisco Caruso Neto, em sua sala de trabalho no Instituto de
Física da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, quando o visitei,
com meu irmão Mário, em 24 de fevereiro de 2005. Essa “surra” ocor-
reu em uma mesa, metade da que costumava jogar, com botões e bola
“cúbica” de plástico, com um goleiro que ocupava quase toda a trave,
e com uma regra completamente diferente: 12 toques até o chute final
para o gol, sendo que cada botão pode dar no máximo três toques con-
secutivos. (Detalhes dessa regra podem ser encontrados no site
http://www.bolaebotao.com.br, segundo o “palhetista” Caruso.) Creio
que o “gol de honra” deveu-se ao meu antigo traquejo com botões de
madeira e com a regra de apenas um toque para cada jogador!

A turma da Praça Batista Campos

Voltemos ao João Bahia, o Joãozinho. Além de irmos ao arraial na


Igreja de Santa Terezinha, nos reuníamos, na década de 1950, todos
os domingos, de tarde e de noite, na Praça Batista Campos, esquina da
Rua Mundurucus com a Avenida Serzedelo Correa. Dessa turma,
faziam parte os irmãos Éser e Aser Freitas, e seu primo José; os
irmãos Murilo e José Carlos (“Maranhão”) Ferreira (o Murilo foi dono
do Colégio “Rutherford”); o Alaôr Lobo; e o Aírton Souza (enge-
nheiro). Aliás, foi na casa dos irmãos Freitas (que tinham ainda as
irmãs Telma e a “Mindinha”, morta prematuramente em um acidente
de caminhão), cujos pais eram o seu Saulo e a Dona Elvira, que fiz, em
1955, minha primeira obra de engenharia (um acréscimo no final da
casa), na qual realizei meu primeiro cálculo estrutural, que me foi
ensinado pelo Baganha, usando o livro Calculista de Estruturas, do
Simon Goldenhórn. Além do mais, fiz um painel de cacos de azulejos
na fachada da casa deles, na Praça Batista Campos. Esse painel foi
desenhado por meu colega de turma de engenharia, o saudoso Wilson
Constantino Ferreira. Mais tarde, em 1966, quando estava de “cas-
tigo” na Escola de Arquitetura, tornei-me amigo do professor dessa
Escola, o saudoso arquiteto Donato Melo Junior (que se tornaria
depois um grande amigo de meu sogro, o escritor e jornalista
Machado Coelho), que chamava esses painéis de “estilo raio-que-o-
parta”. Aliás, meu também saudoso amigo e colega no SMER/DMER,
engenheiro Jofre Alves Lessa, foi o precursor desse estilo nas casas
que construiu. Nesta oportunidade, quero prestar uma homenagem a
esse amigo, pois devo a ele minha indicação para professor de Mate-
mática do Colégio “Abraham Levy”, em março de 1954.

Os vizinhos: 4

Ainda na Avenida Conselheiro Furtado e, agora, na direção da Tra-


vessa Tupinambás, tivemos também relacionamento com a família
Sampaio, da qual já falei, e que morava na esquina com a Travessa
São Pedro. Vizinha a essa família, existia uma casa, cujo acesso era
por intermédio de uma longa ponte de madeira, e cuja família vendia
açaí. Anos depois, a família de Álvaro e Maria Cunha fez um bangalô,
e mora nele até hoje. O Sr. Álvaro era sócio da Joalheria Sul Ameri-
cana, localizada na Rua Conselheiro João Alfredo, na qual comprei
meu anel de grau de engenheiro, em 1958, por 12 mil cruzeiros. Ao
lado, morou a família do Dr. Canuto Azevedo, cuja esposa, a profes-
sora Irene Teixeira de Azevedo, ensinava na Escola Normal do Pará
(ENP) a cadeira Desenho, que havia conquistado por intermédio de
um Concurso Público, em 1943. Essa família tinha um casal de filhos,
sendo que a menina Elza era colega da Madá naquela Escola. O rapaz,
de nome Mário, foi meu amigo de infância, com quem brinquei muita
bola no quintal de sua casa. No lado oposto da Conselheiro, entre as
Travessas Apinagés e Tupinambás, tivemos relacionamento com
outras famílias. Por exemplo, mais próximo da Tupinambás, morava a
família Bahia, dona de uma casa de comércio na Rua Santo Antônio, e
tinha dois filhos: o Agissé (que depois se tornou Oficial do Exército) e
o Ademir (já falecido). Este foi meu colega no Centro de Preparação
de Oficiais da Reserva (CPOR), que se localizava no Quartel ao lado da
Basílica de Nazaré. Ainda nesse lado da Conselheiro Furtado e na
direção da Apinagés, morava a família do João Afonso, vindo depois a
família Braga: Sr. Hito e Dona Zélia, que tinha três filhos: Ivany (que
se casou com o engenheiro Luciano Moraes, mais tarde meu colega de
Magistério na EEP), Reinaldo e Wladimir. Com eles, morava também
o sobrinho do Sr. Hito, o Milcíades, economista e hoje professor apo-
sentado da UFPA. Depois, vinha um bangalô onde morava a família do
Heber Monção, hoje conceituado médico pediatra, cuja mãe era muito
amiga da tia Luzia. Em seguida, vinha a casa onde morava a família
Barata, cujo pai, Jairo Barata era dentista. Ele era casado, em segun-
das núpcias, com a Sra. Maria de Nazaré (“Marita”) Monteiro Barata
(já falecida), irmã do Waldir João da Silva Monteiro (engenheiro agrô-
nomo), Walber da Silva Monteiro (advogado) e Walcyr da Silva Mon-
teiro (escritor). Do primeiro casamento, o Dr. Jairo, como o
chamávamos, teve os filhos Roberto Augusto Xavier Barata e Luís
Edmundo Xavier Barata (hoje Oficial reformado da Aeronáutica).
Lembro-me de, muitas noites, conversar com a mãe do Dr. Jairo, Dona
Dalila, na porta da casa deles. Aliás, a Dona Dalila era descendente da
família imperial brasileira Orleans e Bragança. Seu casamento com
um plebeu tornou-a plebéia. Registro que, muitos anos depois, mora-
ram nessa casa meus cunhados Antero e Marcionila (“Marcinha”). Ao
lado do Dr. Jairo, morou a família Paiva, cujo pai trabalhava na Serra-
ria do pai do Francisco Martins, esposo da Isaura Cruz, a quem já me
referi. A família Paiva Rodrigues, seu Abílio e Dona Éster, tinham
vários filhos: Abílio (já falecido, era um alto funcionário do Banco do
Brasil), José, Guilherme, Orlando, Oscarina, Tereza e Maria. O José,
que foi meu grande amigo de infância, depois de formado advogado,
tornou-se um importante funcionário do antigo Banco de Minas
Gerais. Também nessa casa, joguei muita “pelada”.

As “peladas” e as “lutas livres”

Aliás, é oportuno dizer que as “peladas” que jogávamos na casa dos


Paiva, bem como nas demais casas de amigos de infância, e, também,
nos campos de clubes do subúrbio paraense (Liberto, na Padre Eutí-
quio com a Travessa Caripunas, São Domingos, na Rua do Jurunas
com a Travessa Tamoios, e o Imperial, na Travessa Conceição, pró-
ximo do Jurunas) ou em outros campos (Radional, na Estrada Nova, e
o do então Instituto Agronômico do Norte, no Marco), eram com uma
bola conhecida como “pneu”. Este era formado de gomos (retângulos
alongados com bordas curvas) de couro e costuradas. Nele, havia uma
abertura, com alguns furos, e que era fechada com um fio, também de
couro (cadarço), por onde passava a câmara de borracha, com um
bico. Depois que essa câmara era cheia, com uma bomba de ar usada
para encher “pneus” de bicicleta, o bico era empurrado para dentro,
através da abertura, e esta era fechada com o aperto do cadarço. É
claro que, depois de cheio, o “pneu” ficava com uma intumescência,
provocada pelo recolhimento do bico, que ficava sob a capa de couro,
e, quando ela atingia as cabeças dos jogadores, doía bastante. Depois,
com o progresso tecnológico, os novos “pneus” apresentavam apenas
um furo no couro, por onde era injetado ar, com um bico especial que
se adaptava ao bico da bomba de ar. Muito mais tarde, quando estudei
Geometria, aprendi que a feitura dessas “bolas de futebol” decorre de
um complicado problema geométrico (de Topologia Combinatória),
qual seja, o de como cobrir uma superfície esférica, de geometria não-
Euclidiana, com figuras geométricas planas (gomos, pentágonos,
hexágonos, etc.), de geometria Euclidiana. É óbvio que nós, os “pela-
deiros”, e certamente os jogadores de futebol profissional não preci-
sávamos de conhecer essa sutileza geométrica para ter um bom
desempenho em campo. Eu era um “quase-perna de pau” que, no
entanto, sabia chutar o “esférico” com os dois pés. Aliás, eu gostava
de jogar sempre como “ponta esquerda”, hoje caracterizada pela
“camisa 11”. Será que minha postura política “esquerdista”, que
assumi posteriormente, tem origem atávica?

Um outro fato relativo a essas peladas e que me marcou muito foi o


ocorrido em um jogo no campo da Radional. Em um certo instante
dessa partida eu recebi uma bola na linha média do time adversário e
mandei um petardo com o pé esquerdo. A bola chocou-se com a
esquina esquerda da trave, a famosa “gaveta”. Talvez se tivesse feito
o que seria um “golaço”, não estaria falando dele agora. Esse fato
marcou-me pois, conforme descobri muitos anos depois, ele se relaci-
ona com uma postura que tem sempre me acompanhado na vida, que
é a minha satisfação de saber que tenho “a possibilidade de fazer
alguma coisa”. É a potência de Aristóteles. O ato Aristotélico me inti-
mida, uma vez que, para realizá-lo, em meu entendimento, é necessá-
rio ter coragem para tal. Aliás, como o ato de coragem tem um preço,
sempre relutei em pagar, a não ser em situações-limite. Terei oportu-
nidade de falar dessa minha covardia limitada no decorrer desse tes-
temunho de minha vida.

Ainda com relação a esses campos de futebol em que joguei minhas


“peladas”, quero recordar as “Lutas-Livre” que aconteceram no
campo do Liberto, começo da década de 1950, às quais quase não
assistia pois não tinha dinheiro para comprar a entrada. Apesar disso,
fui a algumas delas em companhia de meu estimado amigo Hélio
Serra, que sempre entrava nessas lutas levado pelo primo de sua mãe,
Abel Figueiredo, que era Deputado Estadual e Presidente da Assem-
bléia Legislativa do Estado do Pará. Quando não assistia a alguma
dessas lutas, eu acompanhava o resultado pelos jornais da época:
Folha do Norte, Folha Vespertina, A Província do Pará e A Vanguarda.
Grandes representantes desse tipo de luta participaram delas. Por
exemplo, os estrangeiros: “Leão de Portugal” (português), “Bey Ulse-
mer” (peruano), “Mesnick”, e “Gigante de Memel”; o carioca “Tatu”; e
os paraenses: “Gigante de Ébano”, “Gato Selvagem”, “Demônio Louro”
e seu irmão “Lourinho”. Recordo-me de uma exibição de força reali-
zada pelo “Leão de Portugal” ao puxar, com os dentes, um veículo
pesado no Largo do Relógio. Recordo-me, também, de, anos depois,
cruzar com o “Bey Ulsemer” em vários locais de Belém, pois ele deci-
diu ficar morando nessa cidade depois que acabaram essas lutas. É
oportuno destacar que os belenenses sentiram orgulho do “Gigante de
Ébano” quando ele doou sangue para salvar a vida do então Prefeito
de Belém, o médico Lopo de Castro, por ocasião de um trágico aci-
dente que este sofreu.

Os vizinhos: 5

Continuemos com os vizinhos da Avenida Conselheiro. Ao lado da


família Paiva, vinha a família Rezende, seu Manoel e Dona Helena,
cujos filhos eram o Antônio (hoje, aposentado do Banco do Brasil), o
Manoel (“Neném”, hoje, médico) e a Margarida. Ainda nesse lado da
Avenida Conselheiro, porém no quarteirão entre a Travessa Apinagés
e a Avenida Padre Eutíquio, tive relacionamento com a família Lobato,
cujos filhos eram: José, Jane e Mário. O José, hoje engenheiro aposen-
tado da PETROBRÁS, e morando no Rio de Janeiro, foi meu colega no
CPOR; a Jane trabalhou na EEP, quando eu lá ensinei, e o Mário (hoje,
médico) foi meu grande companheiro na época das famosas Balas
América.

(As Balas América era um tipo de bombom envolvido por “figurinhas”


que deveriam ser coladas em um álbum. Mário me deu muitas “figuri-
nhas difíceis”, pois, para adquiri-las, era necessário comprar muitas
delas, já que a sua “dificuldade” decorria da baixa freqüência com que
eram oferecidas aos colecionadores. Dessas “figurinhas”, lembro-me
de algumas famosas: “Cobra Coral”, “Macaco no Milharal”, “Olavo
Bilac”, “Sede da Central do Brasil”, etc. Recordo-me, perfeitamente,
da felicidade que tive quando, ao comprar uma dessas Balas na Sorve-
teria Delícia, que ficava na Esquina das Avenidas Conselheiro Furtado
e Padre Eutíquio, ao lado da Barbearia do Seu Souza, vi que se tratava
de uma dessas “figurinhas difíceis”: a “Sede da Central do Brasil”.
Quando o álbum era cheio, o autor da façanha recebia brindes. Não
me lembro de haver completado o meu álbum. É oportuno registrar
que o Mário auxiliou o saudoso amigo, o médico Ronaldo Fonteles,
quando este operou minhas amídalas, em fevereiro de 1966).

Meus irmãos, meus tios e primos e suas famílias


Segue abaixo, um resumo da vida de meus irmãos, tios e primos.

Irmão: 1. Luiz (“Corumbá”)

Luiz nasceu, em 1923, de um relacionamento de meu pai antes de ele


casar com minha mãe Rosa. Não conheci sua mãe, que era negra. Ele
tinha a pele morena, mas seus cabelos eram lisos. Vivia com uma
senhora, também de cor negra, a Dona Maria, e moravam na Rua Con-
ceição, no Bairro da Cremação; não tiveram filhos. Era eletricista da
antiga Pará Electric, uma firma inglesa que gerava energia e contro-
lava o transporte coletivo (bondes) de Belém. O “Corumbá” tinha um
grande orgulho de seus semi-irmãos. Lembro-me bastante dele, sem-
pre descalço e com a bainha da calça enrolada, a levar eu e a Maria,
na Cremação, para mostrar aos seus amigos, principalmente aos seus
colegas do time aspirante do clube Norte Brasileiro, do qual era seu
goleiro. Lembro-me, também, de ele dormir, algumas vezes, junto
comigo e com o Antônio, em redes armadas na sala de nossa casa. Seu
relacionamento com o meu pai era sempre conflituoso, pois ele bebia
muita cachaça. Ele tinha um grande apreço por sua (nossa) avó
Tereza. Quando esta morreu, no dia 04 de novembro de 1952, por oca-
sião de seu enterro, que saiu de nossa casa, na Travessa São Pedro
421, ele chorava convulsivamente e pedia que ela o levasse logo dessa
vida cruel. Ele morreu, de cirrose hepática, no dia 31 de dezembro
daquele mesmo ano.

Pará Electric

Creio ser oportuno dizer alguma coisa de minhas lembranças sobre a


Pará Electric. Ela foi instalada em Belém, em 1898. Seus bondes elé-
tricos circulavam por vários bairros de Belém. Perto de casa, circula-
vam os das linhas Circular Interna e Circular Externa. Existiam
alguns bondes de luxo, os chamados “balangandãs”. Para o transporte
de maior número de pessoas, essa Companhia ligava dois bondes, cha-
mado pelo povo de “bonde cachorro”. Para evitar problema de troco, a
Pará Electric vendia uma espécie do “Vale Transporte” de hoje, apeli-
dado pelo povo de “boró”. Esses bondes eram movidos por eletrici-
dade, gerada por essa Empresa, distribuída por uma rede aérea, e
transmitida ao bonde por uma lança (um espigão), articulada na parte
superior do bonde, e tendo uma carretilha (roldana) em sua extremi-
dade que deslizava naquela rede. Era motivo de alegria para as crian-
ças ver quando essa roldana escapulia da rede e o bonde parava. Aí,
então, o cobrador descia e, por intermédio de uma corda, creio que de
aço, e sempre presa à lança, a repunha em contato com a rede. Tam-
bém era comum o acidente provocado pelos bondes, por ocasião da
desatenção das pessoas quando desciam deles. Lembro-me de dois
desses acidentes. Um deles aconteceu com um membro da família
Bahia, que morava na Avenida Conselheiro Furtado. Ao tentar descer
do bonde, ainda em movimento, foi para baixo dos trilhos e, então, foi
cortado pelas rodas do veículo. Teve morte imediata. Isso aconteceu
por volta de 1945, pela parte da manhã. Lembro-me bem desse aci-
dente, pois, quando voltava da aula do Professor Lobo, aproximada-
mente às onze e meia, fui até a esquina da São Pedro com a
Conselheiro, local em que ocorreu o acidente. Não tive coragem de ver
o corpo estendido na rua depois de retirado dos trilhos. O outro aci-
dente aconteceu com um vizinho nosso, da Travessa São Pedro, o
bombeiro “Pecó”, que teve a sola de um de seus pés cortada pelas
rodas de um bonde.

No final da década de 1940 os bondes da Pará Electric foram substitu-


ídos por ônibus. Essa substituição decorreu do fato de essa Compa-
nhia não se interessar mais em investir no melhoramento desse tipo
de transporte, pois a sua capacidade de gerar energia elétrica para
Belém estava se esgotando. Essa incapacidade era sentida pelos bele-
nenses, pois, além de a luminosidade das lâmpadas ser fraca (chamá-
vamos de “tição” para a luz que vinha delas), a interrupção de seu
fornecimento era uma constante. Para contornar essas dificuldades,
os usuários lançavam mão de outros meios de iluminação. Estes, que
dependiam do poder aquisitivo de quem os comprava e que acredito
ainda existir em muitas regiões interioranas brasileiras, são do tipo
lampião a óleo, que funciona pela queima de uma mecha (pavio), nor-
malmente feita de material fibroso para permitir a ascensão (por
capilaridade) do combustível utilizado. No entanto, a intensidade da
luz emanada dessa queima depende de inovações tecnológicas agrega-
das a esse velho lampião. Assim, quando a mecha é substituída por
uma camisa incandescente produzida por petróleo vaporizado à pres-
são, protegida por uma manga de vidro, resulta o petromax ou “can-
deeiro Kitson”, inventado em 1885. Por sua vez, quando a mecha é
apenas protegida por uma manga de vidro, temos o candeeiro; se não
há proteção, resulta a lamparina. Além desses três meios de ilumina-
ção, existia, também, o carbureto. Registre-se que esse composto quí-
mico era bastante usado nas oficinas que trabalhavam (e acredito que
ainda trabalham) com solda de metais, pois, ao ser colocado em água,
desprende o gás acetileno que, em contato com o oxigênio do ar, se
torna inflamável e, ao inflamar-se, produz luz. É oportuno destacar
que o carbureto também foi usado para iluminar os faróis dos carros,
antes da bateria elétrica, conforme me lembrou meu estimado amigo
o Sr. Alfredo José Salame, de quem já falei em outro local destas
Memórias.

Irmão: 2. Antônio

Antônio nasceu no dia 19 de maio de 1927, no Hospital da Ordem Ter-


ceira de São Francisco, aos cuidados do médico Agostinho Monteiro.
Ele estudou os primeiros dois anos do então Curso Primário com as
professoras Lúcia e Natércia, em uma Escola localizada na Rua Arci-
preste Manoel Teodoro, entre as Travessas São Pedro e São Mateus
(hoje, Avenida Padre Eutíquio). A conclusão desse Curso, do terceiro
ao quinto anos, foi realizada no Instituto Luso Brasileiro do professor
Raimundo Firmiano Lobo, no Largo da Trindade. Para poder estudar
na Escola Prática de Comércio [depois, Escola Técnica de Comércio
(ETC)], fez o Exame de Admissão no então Grupo Escolar “José Verís-
simo”, situado na esquina da Avenida Conselheiro Furtado com a Rua
Presidente Pernambuco. Nessa Escola, localizada na então Avenida 15
de Agosto (hoje, Presidente Vargas) com a Rua Santo Antônio, con-
cluiu o Curso de Guarda Livros, aos 17 anos de idade, em 1944, no
mesmo ano em que fez o Tiro de Guerra, para receber o Certificado de
Reservista de Terceira Categoria. Quando estava para obter o diploma
de Perito Contador, ainda na ETC e em 1947, abandonou os estudos
para se casar com Judith Pereira, filha de José Bernardino Pereira e
Maria da Costa Pereira, donos do Posto Pescadinha, localizado na Ave-
nida Conselheiro Furtado, próximo à Padre Eutíquio.

Devido às dificuldades financeiras de nossos pais (papai Eládio era


sapateiro e a mamãe Rosa era lavadeira), o Antônio começou a traba-
lhar desde cedo, aos 11 anos de idade e logo que entrou para a ETC,
com o despachante Antônio Gonçalves Navegantes. Contudo, logo
depois foi trabalhar com o Sr. Pinho, que era proprietário da Casa Bai-
ana, uma casa que vendia artigos masculinos, situada na Rua Santo
Antônio. Dificuldades em se adaptar nesse novo emprego levaram-no
a voltar ao ramo de despachante, passando então a trabalhar com o
despachante João Florentino da Gama, na Travessa Frutuoso Guima-
rães.

Quando estudava na ETC, fez uma boa amizade com o Sr. Camargo,
então Inspetor de Alunos dessa Escola, que o convidou para ser seu
ajudante na Carteira de Despacho da Companhia Americana THE
TEXAS COMPANY (hoje, Texaco do Brasil S. A.), onde trabalhou por
nove anos e cinco meses. A sua saída dessa Companhia deveu-se à
regra interna de ela não deixar nenhum funcionário completar dez
anos para não obter estabilidade. Devido ao seu grande conhecimento
sobre o despacho marítimo de mercadorias (nessa época não existia a
Estrada Belém-Brasília, e, portanto, o comércio paraense era apenas
marítimo), foi convidado para trabalhar com o Sr. José Dias da Costa
Paes, que acabara de criar a Dias Paes Representações Ltda. Nessa
firma, trabalhou por cerca de 19 anos. É oportuno registrar que, nesse
local, foi colega de um amigo de infância, o Augusto Barata que, mais
tarde, seria cantor da Rádio Marajoara.

Na firma Dias Paes, o Antônio tomava conta da Carteira de Contabili-


dade e tratava das prestações de contas do Lloyd Brasileiro. Quando
esta passou a ser gerida pela Agência Marítima Internacional, sob a
gerência de Miguel Machado da Rocha, Antônio passou a trabalhar
nessa Agência, localizada na Rua Gaspar Viana. Contudo, um incêndio
ocorrido no prédio que a abrigava fez o Sr. Rocha desistir desse
gerenciamento. Em vista disso, o Lloyd passou a ser gerenciado por O.
M. Franco & Cia. Ltda., sob os cuidados de Antônio Brito e Anselmo
Franco. Nessa firma, meu irmão trabalhou por cerca de 3 anos,
quando o Lloyd deixou essa Agência.

Com toda essa experiência como despachante, Antônio resolveu, junto


com seu primogênito, Antônio Filardo Bassalo Filho (“Toninho”), for-
mar a sua própria empresa, a Balonave: Bassalo Navegação, Comércio
e Representações Ltd, que fazia despachos no Cais do Porto de Belém.
Contudo, quando o Porto de Belém foi privatizado, em 1989, por difi-
culdades para cumprir as exigências para atuar no Porto, como, por
exemplo, possuir duas empilhadeiras de três estágios cujo valor
estava acima das possibilidades financeiras dessa firma, Antônio
resolveu fechá-la e viver apenas de sua pequena aposentadoria.

Do casamento de Antônio com a Judith, que faleceu em 23 de dezem-


bro de 1994, resultou os filhos que, por sua vez, também constituíram
famílias, conforme descreverei a seguir. Toninho (comerciante), nas-
cido em 17 de março de 1950, casou-se com Mariceli Silva, em 20 de
outubro de 1971, com a qual teve os seguintes filhos: Fabrício, nascido
em 21 de abril de 1975, Fabíola, nascida em 10 de janeiro de 1979 e
Flávia, em 01 de janeiro de 1981. Fabrício, Capitão da Polícia Militar
do Estado do Pará, casou-se com a economista Patrícia da Cunha
Abdelnor, em 23 de maio de 2004, e tem a filha Maria Luisa Abdelnor
Bassalo, nascida em 04 de janeiro de 2007. No segundo casamento
com Ana Lúcia Campos e ocorrido em 8 de dezembro de 1987, Toni-
nho teve mais dois filhos: Luciano, de 16 de março de 1989 e Adriano,
de 8 de agosto de 1994. Em seguida, nasceu a Rosângela (culinarista),
em 13 de março de 1951. Casou-se com Carlos Augusto Botelho, em 30
de janeiro de 1972, e teve a filha Kristiany, de 8 de abril de 1972 que,
por sua vez, teve a filha Giovanna, nascida em 22 de novembro de
1995, do casamento com Homero de Souza Cerquinho Junior. O ter-
ceiro filho do Antônio foi o Antônio Paulo (artista plástico e professor
de Artes Plásticas), nascido em 2 de maio de 1952 e falecido em 14 de
setembro de 2005, teve um filho de nome Gabriel, de 10 de dezembro
de 1982, do casamento com Teresinha de Fátima Ribeiro. O Fernando
(operário especializado), que nasceu em 4 de junho de 1953, tem dois
filhos: Rafaela e Carolina, resultantes de seu casamento com Maria
Carmelita, e nascidos, respectivamente, em 24 de fevereiro de 1988 e
20 de fevereiro de 1990. O quinto filho do Antônio, o Roberto (comer-
ciante), nasceu em 25 de dezembro de 1955 e, antes de casar, ele teve
um relacionamento com Edna Abreu que resultou no nascimento de
Gleydson, ocorrido em 01 de outubro de 1978. Roberto casou-se com
Simone Barata, em 1979. Dessa união, nasceu Dayvs, em 13 de dezem-
bro de 1979 e Roberta, em 18 de novembro de 1980, que foi criada
com os avós. O Dayvs casou-se com Kelly Nazaré da Silva, em 19 de
novembro de 1981, teve dois filhos: Melissa Souza Bassalo, de 6 de
junho de 2002 e Manuela Souza Bassalo, de 18 de outubro de 2003,
que moram em Boa Vista junto com os pais. De seu segundo casa-
mento, com Sônia Alvarenga, Roberto ganhou, em 31 de julho de 1993,
a filha Vitória. Guilherme, gerente de vendas (apelidado por mim de
“Carequinha”), o sexto filho, casou-se com Lizete Martins e teve, em
25 de fevereiro de 1986, o filho de nome Leonardo. Em segundas núp-
cias com Shirley Costa, Guilherme teve um outro filho, de nome Gui-
lherme, de 6 de dezembro de 2000. Os dois últimos filhos do Antônio
foram: Roseneide (bióloga), nascida em 22 de setembro de 1961, teve
os filhos Luna e Igor, nascidos, respectivamente, em 11 de março de
1988 e 12 de abril de 1991, de seu casamento com Valdo Vieira; e
Rosana (assistente social), nascida em 5 de fevereiro de 1962, casou-
se com Denis Pontes e teve os filhos Ian, de 20 de outubro de 1988 e
Davi, de 27 de outubro de 1991. Além desses oito filhos, Antônio e
Judith tiveram mais um, o André Rami (advogado), que nasceu em 10
de novembro de 1971, casou-se com Vânia Amanajás, de quem teve o
filho André Bassalo Filho, nascido em 30 de março de 1998. Por fim, o
Antônio é torcedor fanático do Clube do Remo, em Belém do Pará, e
do Fluminense Football Club, no Rio de Janeiro.

Creio ser oportuno dizer que o Antônio e a Judith, um pouco depois de


seu casamento (não oficializado), moraram algum tempo, em uma
pequena casa, inicialmente, de chão batido, composta de uma sala
(que funcionava, também, como cozinha e sala de jantar) e dois quar-
tos, construída pelo papai, e onde nasceram quase todos os seus
filhos, com exceção do Toninho.

Durante essa permanência em casa, houve uma relação pouco amis-


tosa entre a Judith e a minha mãe. No entanto, apesar disso, seus
filhos sempre foram tratados com bastante carinho por mamãe e,
também, por meu pai. O papai, por exemplo, tinha um grande apreço
pelo “Toninho”, conforme me relatou o Antônio. Ele sempre dava
dinheiro para ele comprar peteca. Contudo, quando o “Toninho” che-
gava em casa chorando porque havia perdido algumas petecas nos
jogos com seus colegas, o papai saia e ia tomar dos ganhadores as
petecas perdidas pelo primeiro neto. O Roberto, por sua vez, ajudava
o papai na confecção dos solados dos sapatos que consertava. Ele
batia sola, esticando-a ao máximo possível para agradar meu pai; der-
retia breu para ser usado no fio de costura desses solados; e dava o
acabamento final nesses solados, usando tinta preta. Aliás, foi o
Roberto quem percebeu as primeiras manifestações da doença de
Alzheimer que matou meu pai. Várias vezes ele presenciou o esqueci-
mento característico dessa doença, quando um cliente perguntava
para o papai se o sapato que trouxera para consertar já estava pronto.
Como o papai não se lembrava qual era, pedia que o cliente encon-
trasse o sapato dele, cliente, dentre os vários que havia consertado.

A relação entre o Roberto e o papai foi tão intensa que, até hoje, ele
lembra dele com muita ternura. Assim, em recente conversa comigo, o
Roberto me disse que tem gravado em sua memória a imagem do
papai vestido de camisa de lona verde, em forma de V, completada
com uma bermuda feita de saco de açúcar, cujo lado esquerdo era
todo amassado, de tanto o papai limpar as mãos da cola de sapateiro
que utilizava nos consertos dos sapatos. Também faz parte dessa
memória a visão de seu avô, em seu banquinho de trabalho, manipu-
lando as ferramentas de sapateiro: o martelo “cabeção”, o pé de ferro,
as facas de sapateiro bem amoladas (das quais tinha muito ciúme) e a
sovela. Ele também lembra de o papai chegar, por volta da sete e meia
da noite, do “bordejo” (na linguagem do papai) que fazia até a Praça
Batista Campos, no final da tarde e começo da noite. En passant,
registro que, enquanto criança, cansei de levar aquelas facas para
amolar na Cutelaria Tancredi, que ficava na Rua Senador Manoel
Barata, próximo à então Avenida 15 de Agosto (depois, Presidente
Vargas).

De minha mãe Rosa, o Roberto lembra das macarronadas dominicais


preparadas por ela, assim como dos deliciosos caribé, sopa de feijão e
bolo de milho que a mamãe fazia, diariamente, e os distribuía com
muito amor, não só para ele, mas, também, para seus irmãos. Da
Madá, o Roberto tem uma recordação especial pois, além de ele ser
seu aluno no Grupo Escolar “José Veríssimo”, também o foi no Exter-
nato “São Judas Tadeu”, que ela mantinha em nossa casa. Nessa esco-
linha particular da Madá, o Roberto recebia um privilégio especial
toda a vez que ela, ao fazer um lanche com a mamãe, sempre trazia
um pouco para ele, o que motivava um certo ciúme de seus colegas.
Roberto também lembra da proteção que sua tia Maria lhe dava sem-
pre que a Judith lhe aplicava algum corretivo.

Por fim, quero registrar um aspecto humano da relação conflituosa


entre a mamãe e a Judith. Apesar de sempre brigarem, minha
cunhada, enfermeira de profissão, não largou o leito da mamãe por
ocasião em que ela esteve internada no Hospital da Beneficente Portu-
guesa, para curar-se de uma infecção de tétano, por volta de 1951.
Aliás, a internação da mamãe nesse Hospital deveu-se à interferência
do pai da Judith, que era um de seus beneméritos. Infelizmente, a
relação conflituosa entre mamãe e Judith, citada acima, dificultou que
os filhos do Antônio pudessem ter a infância e a adolescência compar-
tilhadas com seus primos: os meus filhos e os da Maria. Registro que
a Madá não teve filhos, e que os filhos do Mário nasceram no Rio de
Janeiro, como veremos a seguir.

Irmã: 3. Madalena

Madalena (“Madá”) nasceu no dia 10 de julho de 1929 e morreu no dia


06 de janeiro de 1999. Meses depois de ficar viúvo, seu marido Acrísio
Bittencourt voltou para a sua terra natal, interior do Maranhão, aonde
veio a falecer, em 16 de abril de 2004. Como só decidi escrever sobre
a minha vida no meio de 2004, não tive a preocupação de perguntar a
eles sobre suas vidas enquanto estavam vivos. Em vista disso, as
informações aqui registradas decorrem apenas de minhas lembran-
ças, as de meus irmãos e as das professoras Maria de Jesus Vasconce-
los Mendonça, Hilma Barros e Lucymar de Jesus Fernandes, e de seu
ex-aluno Carlos Mouzinho, hoje professor da Escola de Primeiro Grau
“Placídia Cardoso”, aos quais muito agradeço nesta oportunidade.
Como o papai sempre se preocupou em oferecer o melhor para a sua
família, e considerando que seu primeiro filho havia nascido no Hos-
pital da Ordem Terceira de São Francisco, aos cuidados do médico
Agostinho Monteiro, a Madá também foi aparada por ele. Ela estudou
os primeiros dois anos do então Curso Primário com as professoras
Lúcia e Natércia, com quem o Antônio havia também estudado, e com-
pletou esse Curso no Instituto do Professor Lobo, o mesmo no qual
todos nós estudamos. A Madá entrou para a então Escola Normal do
Pará, em 1943, e colou grau como Professora Normalista, em dezem-
bro de 1947. (Aliás, a professora Maria de Jesus me contou que ela
própria fez parte do Canto Orfeônico que cantou por ocasião dessa
Colação de Grau.) Logo depois, ela começou a lecionar em casa, na
Travessa São Pedro, para os filhos de nossos vizinhos. Primeiro, ela
dava aula na mesa que ficava na varanda dessa casa. À medida que o
número de alunos foi aumentando, ela criou o Externato “São Judas
Tadeu”, que funcionava em uma sala de aula e que o papai ajudou-a a
construir na lateral de nossa casa. Por essa ocasião, lembro-me de
auxiliá-la na solução de problemas de Aritmética e Geometria.
Quando ela casou, em 1961, continuou a lecionar em casa. Dentre os
vários alunos que teve, registro os meus dois cunhados: Teté e
Geraldo. Este, apesar de ser meu cunhado, sempre recebia castigos da
Madá (reguadas), toda vez que esquecia as lições de casa que ela lhe
passava. Por outro lado, ele adorava a sopa que a mamãe preparava
para a família. Ela também ensinou todos os filhos do Antônio e os da
Maria. Infelizmente ela não ensinou os meus filhos Jô e Ádria, uma
vez que, sendo eu professor da UFPA, eles estudaram no então Colégio
de Aplicação da UFPA, hoje Núcleo Pedagógico Integrado (NPI). É
oportuno registrar que também foi aluna da Madá, a hoje famosa atriz
da Rede Globo, Dira Paes, que, conforme declarou no Programa do
Faustão, do dia 16 de outubro de 2011, deve a Madá, além dos ensina-
mentos normais (Matemática, Português, História e Geografia), a ser
uma pessoa educada e cuidadosa com o seu corpo.

O primeiro emprego público da Madá foi a de professora no então


Grupo Escolar “Placídia Cardoso” (hoje, Escola Estadual de 1o. Grau
“Placídia Cardoso”, conforme registrei acima) que fica na Rua dos
Tamoios, entre as Travessas Monte Alegre e Breves, e cuja Diretora
era a professora Geórgia Barata. Esse emprego foi conseguido pela
grande amiga da Madá, a professora Lucymar Fernandes. As duas
foram nomeadas professoras daquele Grupo, em 1951, por escolha da
própria Diretora Geórgia. Além da Madá, Hilma, Lucymar e Maria de
Jesus, também começaram a ensinar nesse Grupo as professoras Célia
Maia, Denise Guilhon, Esmeralda Navegantes e Ilza Melo. Depois de
cerca de 10 anos em que trabalhou nesse Grupo, a Madá foi lecionar
no Grupo Escolar “José Veríssimo”, na esquina da Avenida Conse-
lheiro Furtado com a Rua Presidente Pernambuco. Ela ensinou nesse
Grupo, com freqüência integral, de 1962 até 1978, quando então se
aposentou. Por ocasião em que ela ensinou no “José Veríssimo”, con-
forme me contou a professora Maria Heloisa Matos Guerra (a quem
agradeço essa informação), que foi sua Diretora, de 1962 até 1975, a
Madá sempre foi querida por seus diversos alunos da 4a. Série, bem
como por seus respectivos pais.

Creio ser oportuno dizer que a Madá sempre foi receosa com relação a
tentar novas situações. Por exemplo, depois de três anos de trabalho
no “Placídia Cardoso”, houve um concurso para o então SNAPP. A
amiga Lucymar fez tudo para que elas fizessem esse concurso.
Segundo recentemente contou-me a professora Lucymar, com medo
de ser reprovada e ficar em situação difícil perante seus pais e ami-
gas, a Madá não fez o concurso. A Lucymar fez e passou. De outra
feita, sua outra grande amiga Maria de Jesus também fez tudo para
levá-la para a Escola Tenente “Rego Barros” para ensinar a 4a. Série
do 1o. Grau. Como a Madá foi sempre professora do Curso Primário e
de Admissão, ficou com medo de fazer uma reciclagem para adaptar-
se ao ensino ginasial e recusou o convite. Por fim, registro que a Madá
não teve filhos de seu casamento com o Acrísio.

Irmão: 4. Mário

Mário nasceu no dia 05 de maio de 1933, também sob os cuidados do


Dr. Waldemar de Freitas Ribeiro, na Maternidade da Ordem Terceira
de São Francisco. Em 1941, iniciou o Curso Primário no Instituto Luso
Brasileiro, do professor Raimundo Firmiano Lobo. No começo de 1946
prestou Exame de Admissão para o Colégio Estadual “Paes de Carva-
lho” (CEPC), no qual concluiu o Curso Ginasial em 1949, e o Curso
Científico, em 1952. Depois de estudar, em 1953, o primeiro ano do
Curso de Farmacêutico, entrou para a Faculdade de Medicina e Cirur-
gia do Pará (FMCP), em 1954, obtendo o diploma de médico, em 08 de
dezembro de 1959, quando essa Faculdade já pertencia à Universidade
Federal do Pará (UFPA). Entre agosto de 1958 e dezembro de 1959, foi
Auxiliar-Acadêmico-Interno no Hospital de Pronto Socorro do Municí-
pio de Belém do Pará. Por ocasião da realização de seu Curso de Medi-
cina, Mário procurou sempre melhorar a sua formação profissional.
Com efeito, em novembro de 1956, realizou o Curso de Extensão Uni-
versitária sobre Anatomia do Abdômen, na FMCP. Nessa mesma
Faculdade, participou do Curso Livre: Temas de Cardiologia, no perí-
odo de 6 de agosto a 10 de setembro de 1958. No ano de sua forma-
tura, 1959, realizou vários Cursos: em fevereiro, o Curso de
Aperfeiçoamento de Gastroenterologia Cirúrgica, no Hospital das Clí-
nicas da Universidade de São Paulo (USP); em maio, o Curso sobre
Cardiopatias na Infância, patrocinado pela Sociedade Paraense de
Pediatria; em julho, o Curso Livre Noções de Eletrocardiografia e o
Curso sobre Temas Livres de Angiocardiologia, ambos patrocinados
pela Sociedade Brasileira de Cardiologia, Seção do Pará.
Creio ser oportuno relatar que o Mário foi influenciado para fazer
Medicina pelo seu padrinho de batismo, o Dr. Paulo Nunes Avelino,
filho do casal Eunápio e Idalia Avelino, que moravam na Rua Arci-
preste Manoel Teodoro, perto de nossa casa, localizada na Travessa
São Pedro. Desde pequeno, o Mário viveu nas duas casas até se trans-
ferir para o Rio de Janeiro a fim de fazer a sua Especialização Médica.
Até hoje ele mantém um vínculo afetivo com os descendentes dessa
família.

Desse modo, entre 1960 e 1962, ele realizou sua Residência Médica
(RM) no Hospital “Pedro Ernesto” (HPE) [hoje, Hospital Universitário
“Pedro Ernesto” da Universidade Estadual do Rio de Janeiro
(HUPE/UERJ)], que à época pertencia à Prefeitura do Distrito Federal,
sob a supervisão do professor Dr. Júlio Martins Barbosa, que mais
tarde seria seu padrinho de casamento, junto com Hilda Nunes Ave-
lino, que também era sua madrinha de batismo. Durante esse período
como Médico Residente, aproveitou para melhorar a sua formação
médica. Assim, em 1960, entre março e junho, realizou, no Centro de
Estudos da Secretaria de Saúde do Estado da Guanabara, os seguintes
Cursos: Equilíbrio Eletrolítico e seus Distúrbios no Adulto
(21/03-01/04); Radiologia (7/04-9/06); Cirurgia Infantil (maio).
Nessa mesma Secretaria, em 1962, fez parte de um grupo de médicos
que ministrou o Curso de Treinamento Funcional Descentralizado em
Enfermagem Médica e Cirúrgica. No final de 1962, com a passagem
(em agosto desse mesmo ano) do HPE para a Universidade do Estado
da Guanabara, como Hospital Escola, foi admitido como médico, con-
tinuando a trabalhar no mesmo serviço (2a. Clínica Médica) do Dr.
Júlio Barbosa, até o falecimento deste médico, em 1966, quando essa
Clínica foi extinta. A partir daí, foi transferido para o Serviço de
Assistência Médica ao Servidor (SAMS); posteriormente, com as
várias transformações na estrutura do Serviço Médico da UERJ, foi
lotado na atual Divisão de Saúde do HUPE (DISHUPE), onde se apo-
sentou.

Concomitantemente, em 1962, Mário foi aprovado em Concurso


Público do então Estado da Guanabara, como Médico Tisiologista,
indo trabalhar no Posto de Saúde do 9o. Dispensário de Tuberculose
(hoje, Centro Municipal de Saúde “Professor Milton Fontes Maga-
rão”), na Avenida Amaro Cavalcante, no Méier, Zona Norte, e alguns
anos mais tarde foi transferido para o Departamento Geral de Saúde
Pública, onde se aposentou em 1989.

Em 1975, a fusão do Estado da Guanabara com o Estado do Rio origi-


nou o Estado do Rio de Janeiro. Em vista disso, as ações de Saúde
Pública ficaram subordinadas ao Município do Rio de Janeiro, pas-
sando Mário, dessa forma, a integrar o quadro de servidores munici-
pais.

Durante sua atuação no HPE/HUPE, no Município do Rio de Janeiro e


no então Estado da Guanabara, participou do XIII Congresso Nacional
de Tuberculose e VIII Congresso Brasileiro de Doenças do Tórax, ocor-
ridos em Belém do Pará, em outubro de 1966; realizou o Curso de
Medicina do Trabalho (1976) promovido pela Universidade do Estado
do Rio de Janeiro (UERJ); participou de trabalhos científicos sobre
Medicina do Trabalho e de Campanhas de Vacinação no Município do
RJ. Além disso, exerceu vários cargos de confiança, tais como chefias
e assessoramentos. Foi, também, substituto automático do Diretor da
Divisão de Tuberculose e da Divisão de Pneumologia Sanitária do
antigo Estado da Guanabara e do Município do Estado do Rio de
Janeiro, respectivamente. Mário foi homenageado com a medalha do
Mérito Clementino Fraga (1974) e recebeu os Diplomas de Bons Servi-
ços, em 1973 e 1982, pelo Governo do Estado da Guanabara, e de
Honra ao Mérito, pelos 30 anos de serviços prestados ao HUPE, em
1992.

Em 1976, foi aprovado em outro concurso público, desta vez no então


Instituto Nacional da Previdência Social (INPS) [hoje, Instituto Nacio-
nal da Seguridade Social (INSS)], para o Município do Rio de Janeiro
na especialidade de Pneumologia. Contudo, os aprovados nessa espe-
cialidade nunca foram chamados para atuar. Em 05 de maio de 2003
foi aposentado em conseqüência de haver completado 70 anos de
idade, depois trabalhar no HUPE por mais de 40 anos. Mesmo aposen-
tado, participou de um Treinamento Profissional na área de Medicina
do Trabalho, no período de julho a dezembro de 2003, treinamento
esse realizado na DISHUPE, no período de julho a dezembro de 2003,
e esteve trabalhando como Médico Contratado da UERJ, entre maio de
2004 e março de 2005. Mário é sócio da Sociedade Brasileira de Car-
diologia e Oficial da Reserva (Arma Infantaria), depois de servir no
Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR), em Belém do
Pará, entre 15 de dezembro 1953 e 25 de agosto de 1955.

Por ocasião em que o Mário trabalhava no então HPE, como médico


residente, em 1960, conheceu Júlia Barreira de Freitas, com quem se
casou em 26 de setembro de 1964. Lembro-me de que nossa tia
paterna Luzia deslocou-se de Belém para o Rio de Janeiro a fim de
participar desse casamento. Dessa união matrimonial, nasceram
Mario Filardo Bassalo Filho, em 21 de julho de 1965, e Rosa Maria de
Freitas Bassalo, em 11 de janeiro de 1969. Mario Filho (Mariozinho,
como eu o chamo) deixou de se graduar em Química Industrial para
dedicar-se ao exercício de sua profissão de Técnico Policial de
Necrópsia, no Instituto Médico Legal “Afrânio Peixoto” da Secretaria
de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro. Casou-se, em 06 de
maio de 1995, com a fonoaudióloga Alessandra Maria Rebello Tei-
xeira, nascida em 27 de maio de 1972, e tem dois filhos: Guilherme
Teixeira Bassalo, nascido em 30 de dezembro de 1996, e Bernardo
Teixeira Bassalo, em 30 de abril de 2004. Rosa Maria é Assistente
Social, e da união com Wagner Alves da Motta nasceu Rodrigo Bassalo
da Motta, em 21 de julho de 1992. Por fim, Mário é torcedor do
Paysandu Sport Club, em Belém do Pará, e do Clube de Regatas Vasco
da Gama, no Rio de Janeiro.

Irmã: 5. Maria José

A Maria nasceu meia hora depois de meu nascimento, ou seja, às 12


horas e 30 minutos do dia 10 de setembro de 1935, na Maternidade da
Ordem Terceira de São Francisco, também sob os cuidados do Dr.
Waldemar de Freitas Ribeiro. Sendo gêmeos, iniciamos juntos, em
1943, o Curso Primário no Instituto Luso-Brasileiro, do professor
Lobo, conforme já registrei em outro artigo dessas minhas reminis-
cências. Contudo, enquanto eu fiz esse Curso em quatro anos, a Maria
fez em cinco. Desse modo, ela somente entrou no CEPC em 1948 e
concluiu o Curso Clássico, em 1955. Em 1956, prestou Exame Vestibu-
lar para a então Faculdade de Direito do Pará, na qual obteve o título
de Bacharel em Direito, em 1963, quando essa Faculdade já havia se
incorporado à então Universidade do Pará [hoje, Universidade Fede-
ral do Pará (UFPA)]. Nessa Faculdade, Maria conheceu Pedro Rosário
Crispino com quem casou, em 22 de dezembro de 1962. Pedro recebeu
o grau de Bacharel em Direito, em 1964.

Enquanto meu cunhado Pedro fez uma brilhante carreira como advo-
gado [ele é hoje o Procurador Chefe do Ministério Público do Tribunal
de Contas do Estado do Pará (TCE)], a Maria dedicou-se a tomar conta
da família que acabara de constituir. Pedro, filho de imigrantes italia-
nos (Egídia e Nicola), da mesma região onde nasceu minha mãe, Cas-
telluccio Inferiore, na Província de Potenza, no sul da Itália, sempre
foi e é um grande batalhador. Desde criança, ele e seu saudoso irmão
Egídio ajudavam o pai na entrega de jornais e revistas. Como nós
(Antonio, Madá, Mário e eu) já não morávamos com nossos pais, na
Travessa São Pedro 421 (hoje, 851), Pedro e Maria, quando casaram,
passaram a tomar conta deles, com todo o carinho emocional e mate-
rial possível [Pedro, inclusive, derrubou a nossa antiga casa (descrita
anteriormente), e construiu uma boa casa de dois pavimentos]. Além
disso, Pedro também ajudou a criar seus meio-irmãos que nasceram
do segundo casamento de seu pai, com Rosina Sovano. Sempre que foi
solicitado, ajudou também meus irmãos Antônio e a saudosa Madá.
Nesta oportunidade, quero agradecer ao meu estimado cunhado Pedro
tudo o que fez pelos meus pais e, também, pela tia Luzia, que morou
com ele até morrer em 17 de setembro de 1983. Meu pai Eládio mor-
reu em 20 de abril de 1980, e minha mãe Rosa, em 28 de agosto de
1999. Por outro lado, Pedro e Maria sempre lutaram pelo bem de seus
filhos e, também, pelo dos empregados que com eles trabalharam e
ainda trabalham. Um exemplo típico é a presença da Dona Antônia
Vinagre Alcântara, que cozinha para eles há mais de trinta anos.

Pedro e Maria têm cinco filhos. Rosa Egídia, nascida em 11 de outubro


de 1963, é advogada e ex-professora de inglês e, no momento, é Pro-
curadora concursada no TCE, desde 1993. Casou-se em 25 de junho de
1997 com o médico, especialista em Gastroenterologia, Ivonélio
Calheiros Lopes Junior. O casal tem dois filhos: Enzo, nascido em 05
de maio de 2000 e Lisa, nascida em 02 de abril de 2005. O segundo
filho chama-se Nicolau Eládio e nasceu em 24 de dezembro de 1964. É
bacharel pela UFPA e Doutor em Direito pela Universidade de São
Paulo (USP), Procurador de Justiça do Estado do Amapá e professor
adjunto da Universidade Federal do Amapá. Casou-se em 08 de
janeiro de 1994, com Gláucia Porpino Nunes, bacharel em Direito,
Promotora de Justiça do Estado do Amapá, com quem tem dois filhos:
Gabriel e Rafaela, nascidos, respectivamente, em 19 de novembro de
1995 e 15 de outubro de 2002. Pedro, advogado e Promotor concur-
sado do Ministério Público do Estado do Pará, desde 1994, é o terceiro
filho do casal Bassalo Crispino; é meu afilhado. Ele nasceu no dia 27
de janeiro de 1966 e tem dois filhos: Pedro, nascido em 14 de novem-
bro de 1996 e Maria Gabriela, nascida em 24 de maio de 1990, de sua
união com a pedagoga Maria de Fátima Chaves de Lemos. O quarto
filho de Pedro e Maria é a arquiteta e advogada Ana Rosa, nascida em
21 de julho de 1967. Divorciada do engenheiro civil Augusto de
Almeida Mácola, com quem casou em 12 de setembro de 1991, tem
uma filha Ana Luíza, nascida em 07 de agosto de 1996. Ana Rosa,
arquiteta concursada (1993) do Ministério Público do Estado do Pará,
é uma exímia bailarina e dirige a Escola de Dança Ballare, localizada
na Avenida Padre Eutíquio 1454, de sua propriedade. Por fim, o caçula
do casal é o Luís Carlos, nascido em 11 de janeiro de 1971, doutor em
Física pela Universidade do Estado de São Paulo (UNESP) e professor
Adjunto da UFPA. Casou-se em 08 de outubro de 1994, com Ângela
Klautau, doutora em Física pela USP e professora adjunta da UFPA,
depois de realizar um Concurso Público em 2002. O casal (Luís Carlos
e Ângela) tem uma filha chamada Isabela, nascida em 30 de julho de
1998. Creio oportuno dizer que o Pedro, seus filhos Nicolau, Pedrinho,
Luís Carlos, todos os seus netos, e seu genro Ivonélio, são torcedores
fanáticos do Paysandu Sport Club.

Tias paternas: Luzia e Maria Lúcia

Eu tive duas tias paternas: Luzia e Maria Lúcia. A tia Luzia nasceu em
30 de setembro de 1909, em Puebles de Tribes, San Miguel de Vidu-
eira, no noroeste da Espanha, perto de Santiago de Compostela. Ela
veio para Belém do Pará, por volta de 1915. Como o papai era sapa-
teiro, ela começou a aprender o ofício de costureira de calçados e,
nesse ofício, trabalhou na Sapataria Sem Rival, do espanhol Isaac Gar-
cia, localizada na hoje Avenida Padre Eutíquio, perto da Rua Senador
Manoel Barata. Quando criança, recordo de ir várias vezes a essa
Sapataria para ela comprar brinquedos para mim. Um deles, um
revólver de brinquedo, foi comprado na Casa dos Presentes, que
ficava na Manoel Barata, próximo da Travessa Campos Sales, onde
hoje fica uma das Lojas Yamada. Lembro ainda de roupas que ela
comprava para mim, bem como livros e material escolar. Às vezes, dia
de domingo, ela gostava de tomar vinho, o que lhe provocava muito
sorriso e vermelhidão nas faces. Sempre que eu fazia alguma traqui-
nagem no CEPC, era ela quem ia resolver com o Diretor, conforme já
registrei em outro artigo destas recordações. Quando a Sem Rival
fechou, ela recebeu como indenização a máquina de costura na qual
trabalhava e, com ela, passou a trabalhar com o Sr. Cláudio. Embora
tenha namorado com Sr. Raimundo, que era barbeiro, ela morreu sol-
teira, no dia 17 de setembro de 1983.

A tia Maria Lúcia nasceu no dia 15 (ou 17) de abril de 1906 em Puebles
de Tribes, San Miguel de Vidueira, no noroeste da Espanha, perto de
Santiago de Compostela, e morreu no dia 02 de abril de 1969. Creio
que ela veio para Belém com a tia Luzia. Quando eu comecei a ter dis-
cernimento familiar, a tia Maria Lúcia já não morava mais em casa.
Ela teve cinco filhos, todos nascidos em Belém:

Eleonor, nascida em 26 de agosto de 1934, que teve o filho Jorge Mar-


celino Bassalo da Silva, nascido no dia 26 de agosto de 1958. Os dois
mudaram-se para o Rio de Janeiro, em 1970. Jorge formou-se em
Administração de Empresas e atualmente trabalha na área da Tecno-
logia da Informação. Casou-se com Maria Fátima dos Santos em 09 de
julho de 1983, nascida no Rio de Janeiro em 20 de julho de 1959.
Fátima é formada em Publicidade e Propaganda e atualmente exerce
sua função na PETROBRÁS. Jorge e Fátima têm os seguintes filhos:
Rodrigo dos Santos Bassalo da Silva, nascido em 30 de dezembro de
1985, no momento cursando a Faculdade de Turismo Hélio Alonso
(FACHA), e os gêmeos Thiago e Gabriel dos Santos Bassalo da Silva,
nascidos em 11 de dezembro de 1992, também na “Cidade Maravi-
lhosa”.

O segundo filho de tia Lúcia, o Carlos Alberto, nasceu em 07 de maio


de 1936, é hoje militar reformado da Marinha. Nos anos 50, mudou-se
para o Rio de Janeiro. Casou-se, em 01 de maio de 1964, com Celina
de Moraes Braga, nascida em 20 de outubro de 1939, também para-
ense, professora e pedagoga, tiveram quatro filhos e todos cariocas:
Lucélia de Moraes Braga Bassalo, nascida em 25 de abril de 1965, é
pedagoga, Mestre em Educação e professora universitária (a quem
agradeço as informações da família de tia Lúcia); Carlos Alberto Bas-
salo Junior, nascido em 07 de setembro de 1966, é Tecnólogo em Pro-
cessamento de Dados, exercendo a profissão de Analista de Sistema.
Ele casou-se com Cristina Gonçalves e teve os seguintes filhos: Thaís,
de 19 de março de 1999, e Daniel, de 18 de junho de 2003. O terceiro
filho de meu primo Carlos, Lauro César, nasceu em 12 de fevereiro de
1971, Oficial Aviador da Aeronáutica pela Academia da Força Aérea
(AFA), casou-se em Natal, em fevereiro de 1996, com Andréa Pontes
de Paiva. Ele morreu em um acidente de aviação, no dia 07 de maio de
1996, em Macapá, onde fora fazer um Curso de Pilotagem de Helicóp-
tero para Resgate na Selva. A caçula Luciana nasceu em 08 de feve-
reiro de 1975, engenheira, casou-se com Francimário Arcoverde
Gomes, arquiteto e urbanista, em 14 de fevereiro de 2004.

Depois do Carlos, a tia Lúcia teve mais três filhos: Maria de Lourdes,
nascida em 02 de agosto de 1942, exerceu a profissão de contabilista
durante toda a vida profissional em empresas privadas e, ao se apo-
sentar, era responsável pelo Setor de Contabilidade da Pina Intercâm-
bio de Pesca; Maria da Graça, de 08 de outubro de 1947, professora
normalista e contabilista, hoje funcionária pública federal aposen-
tada. Em 12 de dezembro de 1970, casou-se com Antonio Augusto de
Oliveira Vilhena, nascido em 28 de janeiro de 1938, também contabi-
lista, e tiveram a filha Andréia, nascida em 03 de março de 1972,
advogada que atua na área trabalhista. Recordo que, quando criança,
brinquei muito com o Orlando, irmão do Antonio, na casa deles na
Rua dos Tamoios. Eles eram filhos do dono do Café Manduca. Por fim,
o último filho de tia Lúcia, o Ildefonso, era comerciário, nasceu em 23
de janeiro de 1940 e faleceu em 20 de dezembro de 1982.

Dos filhos de tia Lúcia, Eleonor e Carlos Alberto eram os que mais nos
visitavam. Por sua vez, a Eleonor, quase da minha idade, era com
quem eu mais brincava quando criança. Recentemente, quando telefo-
nei para ela, que mora no Rio de Janeiro, para completar algumas
informações que me foram repassadas por sua sobrinha e minha
prima Lucélia, ela lembrou-me de que nós dois brincávamos muito
com nossa avó Tereza. Eu, no entanto, gostava de malinar um pouco
com ela. Por exemplo, ela já cega devido a uma catarata bem avan-
çada, sentava em uma cadeira perto de uma mesa na varanda de
nossa casa. Quando ela se levantava, eu retirava a cadeira. No
entanto, quando ela ia se sentar, eu a repunha para ela não se machu-
car. Quem tem acompanhado essa minha saga deve se lembrar de que,
anteriormente, descrevi meu relacionamento com ela quando ainda
não estava cega.

Tios maternos: José, Paulo e Felice

Conheci apenas meu tio materno José, nascido em 1897 e falecido no


dia 23 de dezembro de 1945, que também era sapateiro, como meu
pai, casado com a também italiana Anunciata Pignataro, nascida em
14 de março de 1909 e falecida em 15 de setembro de 1975, e que teve
o filho Antonio. Este, que nasceu em 15 de fevereiro de 1931, mora
ainda na mesma casa da Rua Arcipreste Manoel Teodoro – onde meu
tio tinha sua oficina de consertar sapatos – com sua esposa (casaram-
se em 26 de fevereiro de 1983) Maria Madalena Santarém Moreira,
nascida em 23 de julho de 1934, e seus dois enteados: José de Arima-
téia e Kátia Kelly, nascidos em 28 de fevereiro de 1967 e 12 de dezem-
bro de 1977. Registro que esse meu primo materno foi um excelente
eletricista da antiga Companhia de Eletricidade do Pará (CELPA), na
qual trabalhou de 1961 até 1992, quando então se aposentou. Os
outros tios maternos, Paulo e Felice ficaram na Itália. Só conheci
minha avó paterna: Tereza, que morava conosco. Ela tinha raízes gre-
gas. Não conheci meus avós maternos: Paulo e Madalena. Apenas
conheci a esposa do tio Paulo, tia Tereza Pallazo Filardo e seu filho,
também Paulo (casado com Itália), em viagem que fiz a Casteluccio
Inferiore, na Província de Potenza, Itália, em agosto de 1991, con-
forme registrei em outro artigo dessas minhas reminiscências.
Conheci, também, a prima Madalena, filha de meu tio Felice Filardi.
Aliás, creio ser oportuno dizer que meus tios maternos, Paulo e Felice,
tiveram o sobrenome diferente: Filardo e Filardi, respectivamente.
Segundo contou-me meu primo Paulo, essa diferença ocorreu na oca-
sião do registro deles no cartório de Castelluccio Inferiore.

B. MINHA VIDA DE CASADO

Nesta segunda parte familiar de minhas Memórias, vou contar minha


vida a partir de meu casamento com Célia Mártires Coelho, no dia 06
de outubro de 1962. Antes, vou descrever como chegamos ao casa-
mento.
Muito embora eu freqüentasse a casa da Célia, na Praça da República
158 (segunda casa depois do final do Grupo Escolar “Floriano Pei-
xoto”) nas ocasiões em que eu ia ensinar Topografia e Maneabilidade
para seu irmão, Joaquim-Francisco, meu colega no Centro de Prepara-
ção de Oficiais da Reserva (CPOR), em 1956, eu só vim a conhecê-la
quando fui seu professor de Física no 2o. Ano Clássico, no Colégio
Estadual “Paes de Carvalho” (CEPC), em 1957. A razão de nunca a ter
visto quando, na varanda de sua casa, me reunia com o Joaquim, era
porque, segundo ela me contou mais tarde, a sua saudosa tia Anna dos
Santos Mártires (“tia Anita”), irmã de sua mãe Celina, a “escondia”
para que nenhum colega de seu irmão pudesse vê-la. Nessa época,
suas outras irmãs, que eu não conhecia: Marcionila (“Marcinha”), as
gêmeas Rosa Maria e Ana Maria, e a Tereza Lusia (“Teté”), ainda
eram muito jovens e, portanto, não sofriam essa restrição. Nessa
época, a irmã mais nova, a Maria do Socorro, ainda não havia nascido.

Quando entrei pela primeira vez na sala da turma da Célia (ver a rela-
ção de seus colegas em outro artigo dessas lembranças), no começo de
março de 1957, simpatizei logo com ela. Essa simpatia eu a manifes-
tava da seguinte maneira. A disciplina rígida imposta pela então dire-
ção do CEPC não permitia que o aluno entrasse em sala depois da
entrada do professor. Assim, quando me aproximava de sua sala, a
que ficava logo na saída do lado direito da escada, localizada no pátio
interno do recreio dos homens (naquela época, os recreios dos alunos
e das alunas eram separados), e percebia que ela ainda não havia
entrado, eu embromava um pedaço, conversando com outros alunos,
até vê-la chegar, para então entrarmos juntos.

O namoro, contudo, não aconteceu de imediato. Embora houvesse


uma simpatia mútua, conforme ela me confessou depois, nosso relaci-
onamento só começou por volta de outubro de 1957. Creio ser opor-
tuno fazer um parêntesis para dizer que, hoje, esse relacionamento
seria considerado “assédio sexual” do professor contra a sua aluna.
Voltemos ao nosso namoro. Sabendo que ela era filha de um intelec-
tual importante em Belém, o professor Machado Coelho, sendo eu
filho de um sapateiro e de uma lavadeira, embora já fosse acadêmico
de Engenharia e colega de seu irmão, não acreditava que ela pudesse
me “dar bola”, como se dizia naquela época.
Uma primeira tentativa de namoro ocorreu por ocasião de uma festa
que aconteceu na Avenida Presidente Vargas (creio que foi no Caixa-
parah) e na qual acertamos conversar. No entanto, um problema de
doença ocorrido com um parente dela, a fez adiar essa conversa. Lem-
bro-me de que, quando cheguei na festa, perguntei por ela ao seu
colega Agiz Bechir Elias. Como não a vi, cheguei a comentar com ele
que, certamente, ela não estava interessada em mim. O Agiz imediata-
mente me disse que não era verdade, o que estava pensando e expli-
cou-me a razão da ausência, a acima referida. Creio se oportuno dizer
que os colegas dela torciam pelo nosso namoro. Também é oportuno
registrar que essa minha dificuldade em namorar com meninas de
nível econômico maior do que o meu decorria de algumas tentativas
frustradas que tive. Por exemplo, certo dia, creio que por volta de
1956, eu estava em uma das festas promovidas pelo Clube da Moci-
dade (clube criado pelo saudoso Lauro Meneses Veloso, meu colega do
DMER, juntamente com seu concunhado, o médico Lourival Barba-
lho), olhei para uma moça de classe média e pedi para irmos dançar.
Logo depois, no meio do salão, ela me disse: Vou-lhe deixar. Largou-
me e fiquei parado no meio do salão. Envergonhado, marquei a porta
de saída e saí da festa. Até hoje não sei a razão dessa recusa. Certa-
mente, creio eu, era porque eu não sabia dançar direito.

Como não chegamos a nos encontrar na festa a que me referi anteri-


ormente, a Célia não sabia que eu era um péssimo dançarino (o que,
aliás, permaneço até hoje). Assim, mais tarde, em uma das inúmeras
brigas que tivemos, com o término do namoro, marcamos um encon-
tro na casa de uma colega dela e também minha aluna no CEPC, a
Doralinda Pereira Bahia onde haveria uma pequena festa. A Célia foi
com uma das irmãs, a Marcinha. Assim que nos encontramos lá, pedi
para dançarmos. Ao aceitar, perguntei-lhe logo se poderíamos voltar o
namoro. Como a Célia aceitou, e para não pisar nos seus pés, demos
dois rodopios e paramos.

Voltemos ao encontro frustrado que tive com a Célia, antes de iniciar-


mos o namoro. Em virtude desse desencontro, resolvi falar com ela no
término de uma aula na qual havia resolvido, para a sua turma,
alguns problemas de Mecânica. Para essa resolução, eu usara o
Volume Primeiro do livro Problemas de Física de Guilherme Bonfim
Dei Vegni-Néri (Livraria Francisco Alves, 1941). Com esse livro na
mão, perguntei-lhe se podia telefonar para ela. Ela disse que sim e
deu-me o número do telefone: 1246, que anotei na parte interna da
última capa do livro e de cabeça para baixo. Em retribuição, dei-lhe o
número do telefone de casa: 4582. Trocamos telefonemas e marcamos
um encontro na Praça da República, num domingo à tarde. Depois,
passamos a nos encontrar nessa mesma Praça, no começo das noites,
antes de eu dar aulas no CEPC, ou no Colégio “Abraham Levy” (CAL).
Desses encontros, recordo-me de duas situações emotivas: a primeira,
logo no início de nosso namoro, aconteceu quando tive o seguinte diá-
logo com ela: Célia, gostaria de dizer-lhe que sou de origem humilde
(meu pai é sapateiro e minha mãe é lavadeira), e que tenho alguns
dentes postiços. Esta informação era pertinente pois, como era colega
de seu irmão no CPOR, ele sabia dessa minha situação tendo em vista
que um de meus apelidos lá era “boca de ouro” (o outro, era
“Fanhona”), justamente por usar dentes postiços e com as célebres
“coroas de ouro” em outros, para a proteção do esmalte. É oportuno
registrar que esse tratamento dentário eu havia feito com o Dr. Pedro
Bassalho, cujo consultório se localizava na Rua 28 de Setembro, bem
próximo da Avenida Presidente Vargas. Registro também que, por
ocasião desse tratamento, que aconteceu quando entrei na EEP, em
1954, foram arrancados dois dentes da parte superior da frente. Em
vista disso, recebi o apelido de “1001” por ocasião dos Jogos de Calou-
ros quando, ao torcer pela Engenharia contra outra Faculdade, a
ausência desses dentes era evidente.

A segunda situação, foi a seguinte. Ainda em 1957, numa das noites


em que estávamos namorando em um dos bancos que contornavam o
coreto central, defronte de sua casa, ouvimos o saudoso Nelson Gon-
çalves cantar a música Pensando em Ti, de autoria de Herivelto Mar-
tins e David Nasser, cuja letra é a seguinte: Eu amanheço, pensando
em ti/ Eu anoiteço, pensando em ti/ Eu não te esqueço/ É dia e noite
pensando em ti/ Eu vejo a vida pela luz dos olhos teus/ Me deixa ao
menos, por favor, pensar em Deus/ Nos cigarros que eu fumo/ Te vejo
nas espirais/ Nos livros que tento ler/ Em cada frase tu estás/ Nas
orações que eu faço/ Eu encontro os olhos teus/ Me deixa ao menos,
por favor, pensar em Deus. Ainda hoje quando ouvimos essa música,
nos lembramos daquele encontro de amor, felicidade e bem querer,
que nos mantêm juntos até hoje. Como nessa época eu fumava cerca
de quatro maços de cigarro por dia, a metáfora dessa letra – Nos
cigarros que eu fumo/ Te vejo nas espirais – era para mim uma reali-
dade!

Quando ainda namorávamos na Praça da República, eu conheci outros


futuros cunhados e cunhadas, pois o Joaquim eu já conhecia do CPOR.
Assim, lembro-me das gêmeas, Rosa Maria e Ana Maria, levando um
retrato emoldurado da Célia, com os cabelos em cachos. Elas levavam,
também, um retratinho da Teté, e que a Célia dizia ser a de uma irmã
que havia morrido cedo, informação essa confirmada pelas gêmeas. O
Valdir era muito pequeno e ficava na porta da casa gritando para
mim: “Toquinho”, deixa a minha irmã. A razão desse apelido é porque
sou baixo. O Ronaldo (que mais tarde seria meu aluno no CEPC) pas-
sava pelo banco em que sentávamos, me pedia os cigarros estrangei-
ros, principalmente, os com filtro, como o norte-americano
Parliement e o alemão Astor. É oportuno registrar que, naquela época,
o contrabando grassava em Belém, e várias marcas de cigarros
estrangeiros eram vendidas abertamente na Praça da República. Os
outros cunhados, o Inocêncio (“Caboco” – esse apelido carinhoso
deve-se ao fato de que seu bisavô paterno, também chamado Inocên-
cio, era assim chamado pela família) e a Marcinha eu os conheci
depois quando foram meus alunos no CEPC. Meu conhecimento do
Geraldo, aconteceu por dois fatos: o primeiro, quando ele, a pedido da
Célia, ia ver se eu estava mesmo trabalhando no escritório do Lau-
rindo Amorim que ficava na frente do prédio do Clube Assembléia
Paraense, que ele estava construindo. O segundo, quando o Joaquim
ensinava o irmão a dirigir, no carro que eu tinha naquela época, um
Vanguard, cujas estórias jocosas passarei a relatar a seguir.

Vanguard

Esse carro, de fabricação inglesa e de cor verde garrafa, foi comprado


pelo Seu Alfredo Salame de seu primo, o médico Jorge Antonio da
Silva, para mim e para o Moisés Benchimol, quando estávamos cons-
truindo as casas do Seu Alfredo, na Travessa Caripunas 1760, por
volta de 1960. Embora o carro fosse de propriedade nossa, o Moisés
deixava que eu o usasse mais. Assim, eu sempre o utilizava quando ia
dar aulas no CEPC. Como ele era bastante usado, sempre dava
“prego”, principalmente de manhã cedo quando ele não conseguia dar
partida ao ser acionado pelo botão de arranque. Aí, então, eu “irado
de raiva”, tentava fazê-lo funcionar usando a sua manivela. Recordo-
me de que, várias vezes, na frente de casa, na Travessa São Pedro,
dava com a manivela no motor que não queria pegar, pois sempre
“afogava”. Depois, aprendi um jeito de movimentar o motor, colo-
cando um pouco de gasolina através do carburador, conforme me foi
sugerido pelo mecânico, de apelido “Cabo”, que dava manutenção ao
carro, na oficina do Seu Francisco Kovacs, localizada próximo de onde
eu morava. Aliás, devido a esse “prego”, muitas vezes tive de recorrer
aos meus alunos para empurrá-lo e sair da frente do CEPC.

O carro “importado” (muitos anos mais tarde eu brincava com a Célia


dizendo que a família Machado Coelho/Bassalo tinha o privilégio de
ser uma das primeiras, em Belém, a ter um carro “importado”), que
era vendido pelo então “bicheiro” João Baltazar (agradeço ao amigo
João Rodrigues Fernandes essa informação), serviu para o Joaquim e
o Manoel Leite aprenderem a dirigir. Em uma das vezes em que o Joa-
quim estava aprendendo a dirigir viu-se em uma situação inusitada,
pois ao se aproximar de uma carroça, puxada por um cavalo, não con-
seguiu desviar-se e o cavalo vindo na pista oposto à as, pousou as
duas patas dianteiras no “capô” do carro. Depois de muitos impropé-
rios ditos a ele pelo português condutor da carroça, o cavalo foi final-
mente retirado dessa posição incômoda.

Quando eu saía da casa da Célia, ia, conforme registrei acima, traba-


lhar no Escritório do Laurindo Amorim. Nele, muitos amigos iam con-
versar e, às vezes, saíamos para “farrear”. Por essa ocasião, o Manoel
Leite, que morava no bairro do Umarizal, próximo do Hospital da
Beneficente Portuguesa, ia ao Escritório para que ele pudesse apren-
der a dirigir. Por volta da meia-noite, saíamos e íamos para a sua
casa, com ele na direção. Uma certa noite, defronte da casa do
Manuel, eu lhe disse para dirigir sozinho, porém, por precaução,
deveria andar devagar. Assim ele fez. Fiquei na frente da casa,
enquanto ele contornava o quarteirão. Comecei a ficar apreensivo,
pois ele estava demorando muito. Depois de algum tempo, olhei para
a esquina daquele Hospital e vi o Vanguard fumaçando demais.
Quando ele parou, entendi a razão da fumaça. O Manoel havia contor-
nado o quarteirão com a marcha em primeira, o que forçou muito o
motor e acabou fervendo a água do radiador. Caímos na gargalhada
quando ele me disse que eu era o culpado do que havia ocorrido, pois,
como lhe havia dito para ir devagar, ele só andou de primeira, que é a
marcha inicial e lenta. Creio ser oportuno dizer que, toda a vez que
encontro o Manoel em qualquer reunião, ele sempre recorda essa
situação hilariante.

Ainda no Vanguard passei por momentos angustiantes. Uma vez, eu


estava vistoriando a construção das casas do Senhor Orlando Alves,
no Largo da Cadeia de São José, quando dei a curva para sair, ouvi um
grande estrondo. Pensei que havia caído em um buraco. Era o eixo de
transmissão que havia partido. De outra feita, depois de deixar o jan-
tar para o Caboco que estava no CPOR, no Largo de Nazaré, segui pela
Travessa 14 de Março e virei na Avenida Governador José Malcher
que, nessa época, tinha o sentido invertido e não tinha asfalto, apenas
os trilhos do bonde entre paralelepípedos. Quando entrei nessa rua,
um dos pneus estourou e eu cheguei em casa, rodando nos trilhos com
três pneus e uma “jante”. É claro que tive de comprar um pneu novo e
mandar desempenar a “jante”. (Esta é uma palavra francesa que o
povo chamava de “janse”.)

Um dos “pregos” comuns no Vanguard ocorria quando o “bendix”, do


motor de arranque, engatava na cremalheira. Para soltá-lo, era pre-
ciso balançar o carro. Ás vezes, era necessário ficar por debaixo do
carro, afrouxar a caixa da cremalheira e soltar o “bendix”. Fiz isso
várias vezes. O mesmo acontecia com o Ronaldo quando saía com o
carro para namorar. Geralmente a namorada era acompanhada de
amigas que, no entanto, não achavam bom quando tinham de descer
do carro e empurrá-lo para liberar o “bendix”.

Para finalizar minhas aventuras com o Vanguard, registro que, com


ele, levava alguns amigos que freqüentavam a famosa Varanda do
Machado Coelho, como era conhecida a reunião noturna de intelectu-
ais, na casa de meu saudoso sogro, e da qual já falei em outros artigos
dessas minhas lembranças de vida. Dois deles me preocupavam
quando entravam no carro. O médico Adriano Guimarães, porque
batia a porta com muita violência, e o advogado e cartorário Edgard
Chermont, porque entrava no carro pisando no banco, pois tinha as
pernas muito compridas. Aliás, a visita dominical do Dr. Chermont,
como era conhecido, era muito esperada pelos filhos do Seu Machado,
por ele sempre levar bombons de chocolate para eles. Os outros ami-
gos que freqüentavam a varanda eram levados por um outro “varan-
deiro”, o então advogado e comerciante, o acima referido João
Fernandes, em seu carro Dodge, tão problemático quanto o Vanguard,
por isso mesmo conhecido como “furioso”, e cujos “pregos” eram con-
sertados pelo mecânico de nome Orlando.

Minha saga com o Vanguard acabou quando comprei, em parceria


com o DMER, um “jeep” Willys, e vendi o carro inglês ao meu
cunhado Acrísio. Com o aumento dos problemas mecânicos no Van-
guard, o Acrísio, que era mecânico da Varig, levou-o para o Aeroporto
de Belém, a fim de para consertá-lo em um hangar dessa companhia
aérea. A última vez que o vi, nesse local, ele estava em cima de barris
vazios de óleo e sem pneus!

Retornemos, agora, ao início do namoro com a Célia. Depois de alguns


meses em que namoramos na Praça da República, passei a freqüentar
a casa dela. Essa casa tinha uma escada de entrada, depois um corre-
dor que terminava em uma varanda larga, na qual ocorria a reunião
dos amigos de meu futuro sogro. Essa varanda separava a alcova e a
sala de visitas. Na direção de seu interior, havia um outro corredor,
entre uma pequena área e três quartos de dormir. Nos dois primeiros
ficavam as filhas e a tia “Anita”. No último, a mãe da Dona Celina, a
Dona Raimunda Sarmento Mártires (“Mundica”). Defronte do
banheiro, no final desse corredor, existia uma porta que dava acesso
ao porão da casa. Depois do corredor, vinha a sala de jantar e a cozi-
nha. Na parte da frente do porão, embaixo da sala de visitas, existia
um quarto de dormir, cujo acesso era por uma porta ao lado da escada
de entrada. Nele, dormiam os filhos: Joaquim, Caboco, Ronaldo,
Geraldo e Valdir. [Antes, eles dormiam em camas de campanha colo-
cadas no segundo corredor, pois esse quarto-porão era ocupado pelo
Guilherme, irmão da Dona Celina, até seu casamento com a profes-
sora Lucimar Azevedo Correa. Registro que eles, agora falecidos, tive-
ram os seguintes filhos: Benedito Jorge Correa Mártires (engenheiro),
Goretti Mártires de Sá (advogada), Guilherme Mártires Junior
(médico), Izabel Cristina Mártires Redig (comerciante), João Ronaldo
Correa Mártires (Juiz de Direito), Raimundo Augusto Correa Mártires
(geólogo), Terezinha de Jesus Mártires Medeiros (pedagoga) e Walter
Luís Correa Mártires.] Ainda no porão e próximo da escada, ficava
uma grande mesa onde, de dia, era passada a roupa da família, que
era lavada em um grande tanque que ficava no final do porão. Nessa
mesa, de noite, meus futuros cunhados e cunhadas reuniam seus cole-
gas de turma para estudar. Aliás, devo registrar que nessa mesa, nos
finais de semana, joguei muito “buraco” (canastra) com dois desses
colegas: o saudoso José Augusto da Costa Raiol (engenheiro civil),
meu parceiro, e o Renato Cardoso, hoje médico e residente em São
Paulo, parceiro da Marcinha, e meu ex-aluno no CEPC. Renato e eu
ficávamos tensos quando o “morto” estava grande e, ao jogar fora
uma carta, perguntávamos (ou eu para ele ou ele para mim):
“between”, quer dizer, entre duas cartas, ou “among”, entre várias.
Recordo que sempre brigávamos toda a vez que um de nós perdia a
partida (geralmente de 2000 pontos) para o outro.

No dia 31 de janeiro de 1960, fiquei noivo da Célia, cujo pedido formal


de noivado foi feito pelo Joaquim. Lembro bem desse dia. O Seu
Machado trabalhava em uma escrivaninha, tipo escritório, localizada
num dos cantos da varanda, junto à parede dos quartos das meninas,
escrivaninha que dispunha de uma lâmpada que subia ou descia
quando era acionada uma carretilha. No começo da noite daquele dia,
eu, de paletó e gravata (pois ia dar aula mais tarde) e o Joaquim, nos
aproximamos de Seu Machado. Ele parou de ler, recolheu a lâmpada e
virou-se para nós. O Joaquim então disse: Papai, em nome do Bassalo,
estou pedindo a mão da Célia para ele. Com o aceite dado, Dona
Celina, já chorando, Célia e as irmãs saíram de seu “esconderijo”,
atrás da cortina que separava a varanda do segundo corredor, e vie-
ram me cumprimentar. Certamente dei um discreto beijo na “Nega”,
como eu a chamava e a chamo até hoje. Para festejar esse noivado, e
fazendo um esforço literário tremendo (lembrar que meu “sentimento
artístico é ‘quase’ amortecido”, conforme registrei no artigo que
escrevi em minha saga de Magistério e contida nestas lembranças)
escrevi, no dia 07 de fevereiro de 1960, o seguinte acróstico para a
Célia:

Contigo viverei
E ternamente feliz
Longe de ti serei
I ncapaz de viver
Amor
Noivado em andamento, comecei a comprar coisas para o nosso
futuro lar, que seria no apartamento 101 do Edifício Santarém, locali-
zado na Avenida Conselheiro Furtado, bem defronte da Travessa Juru-
nas (hoje, Avenida Roberto Camelier). Esse Edifício estava sendo
construído pelos meus estimados amigos Durval Pinheiro e seu
cunhado, José Maria Borges de Carvalho. Lembro-me de que dei como
entrada da compra desse imóvel, o cálculo do prédio, e pagava uma
prestação mensal de 1.540 cruzeiros. Quando a inflação começou a
afetar o brasileiro, por volta de 1960, essa prestação foi reajustada
para 2.000 cruzeiros. Nesse prédio, meus estimados amigos Manoel
Leite Carneiro e Lourival Franco, colegas de magistério no CEPC, tam-
bém compraram apartamentos. (Aliás, é oportuno registrar, que foi o
Manoel, que também era meu colega de magistério no Colégio
“Abraham Levy”, quem me indicou para o CEPC.) Esse prédio tinha
seis apartamentos: três de frente e três de trás. O Lourival era dono
do 103 e o Manoel, do 201. Quando casei, em 1962, estavam quase
prontos apenas os apartamentos da frente, com os três restantes
ainda em construção, cujo vigia do barracão de construção era o Seu
Humberto. Alguns meses mais tarde passamos a morar em nosso
apartamento. Até mudar de lá, em 1967, Célia, eu e nossos filhos Jô e
Ádria (esta com meses de nascida), Lourival, Laurinda (filha do casal
Antônio e Antonina Coelho, que moravam na Rua Arcipreste Manoel
Teodoro, próximo de onde eu morava, na Travessa São Pedro) e a
filha Milene, compartilhamos uma grande amizade, mantida até hoje.
Recentemente, a Célia deu aulas para as filhas Gabriela e Juliana, da
Milene, a quem eu chamava de “Milene Demongeot” pois, quando ela
era criança, se parecia bastante com essa bela atriz francesa. É opor-
tuno registrar que na ocasião em que a Milene ia matricular as filhas
no curso de português da Célia, o Minerva, ela sempre lembrava a
interferência da Célia toda a vez que a Laurinda, sua mãe, a castigava
por alguma traquinagem que ela fazia. Quando ela começava a chorar
por causa desse castigo, a Célia subia, batia na porta do apartamento
da Laurinda e pedia que ela não brigasse mais com a filha.

Na preparação para o casamento, registro que, quando já havia com-


prado o fogão e um armário de cozinha que, empacotados, ficavam no
corredor de entrada da casa da Praça da República, um dos grandes
amigos de meu futuro sogro, o poeta, professor universitário (UFPA)
e letrista da então Universidade do Samba “Boêmios da Campina”,
Ruy Paranatinga Barata, toda a vez que saía dessa casa, depois de
uma noitada de papo literário-político com o Seu Machado e seus ami-
gos, olhava para os pacotes e dizia: Machado, toma cuidado que o Bas-
salo está te enganando com essas compras. Ele está protelando esse
casamento. Se não deres um aperto, ele não casa. Aliás, esse ex-depu-
tado federal pelo Partido Socialista Brasileiro gostava muito de brin-
car com o Seu Machado. Por exemplo, aos domingos de manhã, na
volta de uma noitada de boemia no Bar do Parque, ele entrava na casa
e, ao ver o Seu Machado sentado na varanda, tendo a Dona Celina por
perto, dizia: Machado Coelho, cinqüenta anos de adultério bem suce-
dido. Quando a Dona Celina reclamava, ele completava: Celina, vai
buscar a garrafa de uísque que o Machado guarda debaixo da cama de
vocês para eu tirar essa ressaca.

Além dessa gozação do Ruy, outros amigos também brincavam


comigo, quer durante o noivado, no dia do casamento e depois de
casado, já que, em 1967, conforme já registrei, passei a morar com
meus sogros até a morte deles. Ainda por ocasião do noivado, Célia e
eu ficávamos sentados no segundo degrau da escada até a hora que eu
ia dar aulas. O Raimundo Moura, que foi Presidente do Tribunal Regi-
onal do Trabalho – 8a Região e do Tribunal Superior do Trabalho.,
outro grande amigo de meu sogro, quando se preparava para sair,
arrastava os pés no chão, com força, para, segundo ele, nos avisar que
ele estava de saída e “deixarmos de nos agarrar”.

Até no dia de nosso casamento, em um sábado, os amigos do Seu


Machado brincaram com ele. Assim, na Igreja de Santana, onde ocor-
reu o casamento civil e religioso, um outro grande amigo do Seu
Machado, o médico Maurício Queima Coelho de Souza brincou com
ele. Depois do casamento religioso, oficiado pelo Cônego Nelson Soa-
res, um grande amigo do Maurício, fomos para a sacristia esperar o
juiz que ia realizar a cerimônia civil, marcada para seis da tarde.
Aproximando-se dessa hora e como o juiz custou a chegar, o Maurício
angustiava meu sogro, dizendo: Machado, se esse juiz não chegar
logo, o casamento não vai valer, pois a cerimônia civil não pode ser
iniciada depois das seis da tarde. Seu Machado, nervoso, dizia: Se ele
fizer eu passar uma vergonha, eu furo ele. Vale recordar que meu
sogro tinha o hábito de usar um punhal, embrulhado em grande quan-
tidade de papel de jornal. Toda a vez que ele se achava “ameaçado”,
simulava puxar o “espinho”, como ele chamava o punhal, em forma de
estilete, para se defender. Felizmente o juiz chegou na hora marcada,
para alívio de meu sogro.

Concluídas as duas cerimônias, fomos para a casa da Praça da Repú-


blica onde haveria uma recepção. Os amigos de meu sogro continua-
ram “aprontando”. Certa hora da noite, um garçom se aproximou do
Seu Machado, e disse-lhe: Professor, eu não posso mais controlar o
jantar, pois os doutores avacalharam tudo. Foi o seguinte. Os douto-
res eram o Ruy Britto, o Edgar Contente e o próprio Maurício que, na
cozinha da casa, abriam o fogão, destampavam as panelas para servi-
rem-se mais à vontade dos pratos ali preparados. Por volta das dez da
noite, Célia e eu partimos no “jeep” Willys para passar a “lua de mel”
em um sítio, próximo de Ananindeua, que havia sido emprestado a
nós pelo meu saudoso amigo Alcebíades Moraes (essa amizade decor-
reu do fato de eu, no Escritório do Amorim, calcular a casa dele que o
Amorim estava construindo na Praça da Bandeira). O grande ciúme
que eu tinha da Célia fez com que eu escolhesse esse local e que, por
ser tão soturno, a “lua de mel” não durou mais de 48 horas. Já na
segunda-feira à tarde, dia 08, estávamos de volta a Belém, e inicia-
mos nossa vida em comum. Aliás, creio ser oportuno dizer que, por
causa de meu casamento, não pude votar no Irawaldyr Rocha, na elei-
ção do dia 07 de outubro de 1962, ocasião em que ele se consagrou
como um dos vereadores mais votados para a Câmara Municipal de
Belém. Também é ainda oportuno dizer que o vestido de noiva da
Célia foi confeccionado por ela própria – uma renda guipure que o pai
havia mandado buscar em Paris.

Nosso primeiro filho, José Maria Coelho Bassalo (“Jô”), nasceu no dia
16 de agosto de 1963, no Hospital da Ordem Terceira de São Francisco
(no mesmo Hospital onde nasci) e sob os cuidados do Dr. Albino
Figueiredo. Aliás, esse parto iria ser feito pelo Dr. Adriano Guimarães,
mas este se encontrava de férias na Europa. Interessa ainda registrar
que foi o Dr. Adriano quem, também, fez o parto do Joaquim e da
Maria do Socorro, tendo os demais cunhados vindo à luz pelas mãos
da parteira Mãe Laura, muito querida na família. Voltando ao Dr.
Adriano, ele era padrinho da Rosa Maria. A Ana Maria, sua irmã
gêmea, era afilhada do escritor Manuel Lobato, um dos “varandeiros”.
A grande amizade do Dr. Adriano com meu sogro fazia com que ele
freqüentasse, a casa da Praça da República (e, posteriormente, a casa
da Avenida Governador José Malcher, 629), não raro, mais de uma vez
por dia. Além disso, sempre dava um presente de Natal para todos os
meus cunhados e dois para a Rosa Maria, sob o argumento de que ela
era sua afilhada. Vale recordar que a Célia, já casada, também rece-
bia, mas o presente era dinheiro vivo, pois não queria me deixar
envergonhado. Dr. Adriano, além de ser padrinho de nossa filha
Ádria, foi quem escolheu esse nome. Segundo Célia me contou, na
hora em que a menina nasceu, ele disse: nasceu a minha Ádria (esse
teria sido o nome que ele daria a uma filha, se a tivesse). Por tudo
isso, todos os filhos de Dona Celina o chamavam, carinhosamente,
Amigo Lano. Essa grande amizade com o Dr. Adriano foi estendida aos
seus sobrinhos, os também médicos Guilherme e Fernando Guima-
rães. Até a morte do Dr. Adriano, em 1990, fui um grande amigo dele,
inclusive visitando-o, todos os sábados e por muitos anos, em sua
casa na Rua Arcipreste Manoel Teodoro. Eu cheguei até a construir a
casa de uma de suas “pequenas”, a enfermeira Dalva, na Travessa
Djalma Dutra. Registro que, “pequena”, era o nome que o Dr. Adriano
dava as suas inúmeras namoradas, dentre as quais, a famosa atriz
global Mara Rúbia.

No mesmo ano em que o Joaquim fez meu pedido de casamento


(1960), viajou para os Estados Unidos, para a Universidade de Wis-
consin, onde se doutorou com a tese sobre o poeta Carlos Drumond de
Andrade. Lá, conheceu Jill Young, nascida em 1941, filha do futuro rei-
tor dessa Universidade. Casaram-se, em 13 de abril de 1963, e tiveram
as filhas Anita e Dorothea, nascidas, respectivamente, em 25 de feve-
reiro de 1964 e outubro de 1967. Anita tem um filho Tyson, nascido
em 23 de abril de 1987, de seu casamento com Michael Luers, em
1986. Dorothea casou-se com David Cohen, roteirista de cinema. Eles
não têm filhos. Joaquim, nascido em 26 de fevereiro de 1938, é hoje
Nancy Clark Professor da Harvard University; Jill é Bibliotecária para
Assuntos Africanos da Biblioteca Widener, dessa mesma Universi-
dade; Anita é cantora de Música Popular Brasileira, em Boston;
Dorothea é atriz de cinema em Los Angeles, e Tyson mora com Joa-
quim e Jill. Por fim, registro que meu cunhado Joaquim, que também
foi professor da Universidade de Stanford, é um pesquisador atuante,
com livros e artigos publicados de sua especialidade: Literatura Por-
tuguesa e Espanhola.

Com o nascimento do Jô, minha sogra ficou muito apegada a ele.


Assim, nós praticamente passávamos o dia na casa de meus sogros,
indo apenas dormir em nosso apartamento. Quando fui para a Univer-
sidade de Brasília, em março de 1965, a Célia mudou-se para a casa de
seus pais. Contudo, com o término dessa Universidade, voltei para
Belém, em novembro de 1965. Como já descrevi em outros artigos
destas lembranças, eu havia decidido ir para Brasília por não ter equi-
líbrio emocional para exercer a minha profissão de engenheiro estru-
tural. Em Brasília, eu pretendia iniciar uma carreira de pesquisador
em Física, trabalhando com o professor Roberto Aureliano Salmeron,
que estava organizando um grupo de pesquisas em Física de Altas
Energias. Certamente, se esse grupo tivesse vingado, minha vida seria
totalmente diferente da que é. Aliás, devo registrar que foi na UnB
que comecei a me interessar por outro tipo de leituras (História, Filo-
sofia, Literatura etc.), além de Física, Engenharia e Histórias em Qua-
drinho; estas realizadas antes de ir para aquela Universidade.

Morando com meus sogros, tive oportunidade de conviver mais de


perto com eles, bem como com meus cunhados. Com meu sogro, por
exemplo, apesar de nossas constantes discussões políticas sobre
esquerda e direita (lembro-me de ele sempre dizer que eu defendia
uma “canalha comunista” na antiga União Soviética, e que, somente
em 1991, quando acabou o comunismo nesse país, percebi que ele
tinha razão), aprendi muitas coisas com ele, e com os amigos que ele
reunia na referida varanda. Além do aprendizado por ele transmitido,
era muito prazeroso conversar com meu sogro, principalmente
quando ele contava as histórias (os “causos”) de seu pai, Joaquim
Machado Coelho, a quem venerava muito. Das inúmeras dessas histó-
rias que ouvi, destaco duas delas. O avô paterno da Célia trabalhava
no antigo Correios e Telégrafos, sendo responsável pela construção e
manutenção da linha telegráfica que seguia a Estrada de Ferro Belém-
Bragança. Certa vez, ele se aproximou de um operário que estava cor-
tando capim por cima da linha do trem. Como manipulava o facão
lentamente, perguntou-lhe: Mestre, você não tem um outro regime de
trabalho? Como o mestre respondeu-lhe que tinha esse “rojão”
danado de acelerado, que estava usando, e um outro mais moderado,
o pai de meu sogro disse-lhe: Então fique com esse mesmo. Este
“causo” é um dos preferidos do amigo João Fernandes. De outra feita,
ele perguntou a uma senhora com quem a filha dela havia casado. Ela
respondeu-lhe: Seu Machado, não sei se foi com um feitor ou com um
doutor, só sei que ele anda na linha do trem.

Durante o tempo em que morei junto com meus sogros, eu gostava


muito de brincar com a minha sogra Dona Celina, que foi, para mim,
uma segunda mãe. Sendo ela muito católica, certa vez, por ocasião da
Semana Santa, disse-lhe: Dona Celina, o mundo está mudando muito.
Imagine que a Sexta-Feira Santa deste ano vai cair num Sábado. Ela
dizia: Mas quem está fazendo essa maldade, Bassalo. A Célia, interce-
dia, e dizia: Mamãe, a senhora não está vendo que é brincadeira do
Bassalo. Quando eu chegava em casa e não fazia nenhuma brincadeira
com a Dona Celina, ela percebia que havia acontecido alguma coisa e
virava-se para meu sogro e dizia: Coelhinho, não fale com o Bassalo
que hoje ele chegou com o diabo no couro. Como eu discutia sempre
com meu sogro sobre comunismo, dizendo-lhe que esse regime pode-
ria acabar com a pobreza no mundo (ingênua ilusão!), certa vez, a
Dona Celina vendo na TV alguma notícia sobre o aumento da pobreza
no Brasil, virou-se para ele, e falou: Coelhinho, por isso que eu sou
comunista como o Bassalo.

Aos domingos, pela parte da manhã, Seu Machado tinha o hábito de


visitar sua mãe, a Dona Marcionila (“Dona Marcinha”). Lá saíamos,
meu sogro, Dona Celina, Célia e eu em meu “jeep” Wyllis, e íamos
vê-la, quer na Travessa Antonio Baena, quer na Avenida Ceará. Na
Antonio Baena, ela morava em uma casa geminada mandada construir
pelos filhos Waldir e William. Em uma parte da casa, ela morava com
o filho solteiro William; na outra parte, morava o Waldir com a
esposa Lourdes (viúva de Hernani Ladeira), seus filhos Rita (hoje,
médica atuando em São Paulo) e Fausto (geólogo da PETROBRÁS, no
Rio de Janeiro), além dos enteados Hernani (engenheiro) e Nazaré
(economista). Lembro-me de que, quando o Seu Machado ia fazer essa
visita dominical, eu brincava com a Rita, que era bem pequena, dizen-
do-lhe: O rato roeu a roupa da Rita. [Aliás, eu também brincava, com
a filha Vera de outro irmão de meu sogro (por parte de mãe), o tio
Artur, que eu apelidava de “Severa Romana”, e também dizia outra
frase: Eu fui à Sé ver a Vera, e o seu Ro disse, entra mana, quer com a
saudosa Maria da Graça, filha de outro tio paterno da Célia, o tio Wil-
son, a quem apelidava “pé de arraia”, em virtude de ela ter sido mor-
dida por uma arraia, em uma praia de Mosqueiro. A Graça e sua irmã
Maria Lúcia, ambas biblioteconomistas, eram filhas da primeira
mulher do tio Wilson, a saudosa tia Alba.] Quando a Dona Marcinha
mudou para a Avenida Ceará, junto com o William, Seu Machado
(ainda comigo, Célia e Dona Celina) continuou a visitá-la. Por ocasião
dessas visitas, ela estava sempre limpa e cheirosa, como na casa da
Antonio Baena, esperando por ele, na sala de visita. Nós entrávamos,
e meu sogro perguntava como ela ia. Ela, sistematicamente, respon-
dia: Abandonada, meu filho!. Anos mais tarde, para dar maior con-
forto à sua mãe e ao seu irmão William, Seu Machado alugou uma
casa bem ao lado da casa onde morávamos, na Avenida Governador
José Malcher 619. Para maior comodidade, ainda, ele mandou abrir
uma porta de comunicação entre os quintais das duas casas, para
atendê-los em alguma emergência. Depois da morte da Dona Marci-
nha, em 1974, meu sogro convenceu seu grande amigo Francisco
Paulo do Nascimento Mendes para morar nessa casa, junto com as
irmãs Antônia (“Totó”), Maria Annunciada (“Nunci”) e Almerinda
(esta, irmã de criação). Quando Seu Machado perguntou ao “tio Men-
des” (como o chamavam os meus cunhados) se ele queria que fosse
fechada aquela passagem, a resposta foi não. Aliás, essa estratégia do
Mendes foi muito boa pois, toda a vez que brigava com meu sogro (e
brigavam muito!), ele escapulia por aquela “saída de emergência”,
depois de xingá-lo, conforme relatarei mais adiante. Essa relação con-
flituosa entre eles foi tratada por mim em outro artigo destas minhas
Memórias.

Antes de falar sobre as viagens ao Apeú, gostaria de acrescentar que


Seu Machado, Dona Celina, Célia e eu, também visitávamos, na Tra-
vessa Jutaí, no Bairro de São Braz, a viúva de seu irmão Oscar
Machado Coelho, Alice Cavalcanti Coelho e respectivos filhos: Hélio,
Haydée, Pedro Armando, Paulo Armando e Raimundo Nonato. Destes,
apenas o Raimundo Nonato não está mais vivo. Ele era Comandante
de um navio da Marinha Mercante e morreu em um acidente no Rio
de Janeiro. Hélio e Pedro Armando são ex-bancários, Haydée é biblio-
teconomista e Paulo Armando é publicitário.

Apeú
A visita dominical a Dona Marcinha foi rareando na medida em que
passamos a freqüentar um sítio que foi construído pelo Seu Machado
e os irmãos Wilson, Waldir e William, com pequena ajuda minha. Ele
situava-se na Vila do Apeú, no município de Castanhal (cerca de 60
km de Belém), em um terreno que fora comprado de um cunhado da
tia Lourdes que, conforme dissemos acima, casou com o tio Waldir
depois de enviuvar de Hernani Ladeira. Nesse terreno, margeado por
um igarapé, nos reuníamos aos domingos de manhã. Para lá iam, tam-
bém, os “varandeiros” e respectivas famílias, além dos colegas de
meus cunhados. Para passear no igarapé, Seu Machado mandou fazer
uma pequena canoa, que deu o nome de Jô-Anita, para homenagear
seus dois primeiros netos. Nesse igarapé, quase aconteceu uma tragé-
dia. Um certo domingo, estávamos tomando banho em uma parte
funda do igarapé. Apesar de toda a precaução que tínhamos com o Jô,
ele nos “cinzou” e pulou nessa parte do igarapé, começando a se afo-
gar. O nosso caseiro, Antonio Silva (“Pindoba”), percebendo que não
havíamos visto que o Jô estava se afogando, pulou e o salvou.

Com relação ao Pindoba, quero registrar dois fatos interessantes. O


primeiro deles refere-se à compra de um rádio de pilhas que ele havia
encomendado ao Seu Machado. Depois de recebê-lo, passou a semana
inteira ouvindo-o, sem parar. No domingo seguinte, ele se aproximou
do Seu Machado e reclamou que o rádio não prestava, pois havia
parado de falar. Ele não percebeu que havia esgotado a energia das
pilhas. Com a colocação de novas pilhas, Seu Machado disse-lhe que
ele deveria dar um “descanso” a elas para que pudesse aproveitar
mais o rádio. O segundo fato é o seguinte. Cerca de dois anos atrás, a
Marcinha indicou para a Célia uma nova “secretaria” caseira para
nós, já que as duas que tivemos por mais de 20 anos não trabalhavam
mais em casa: a Maria Domingas Batista, havia pedido demissão, pois
pretendia voltar para o interior do Pará, e a Maria Lopes Silva se apo-
sentara pelo INSS. Qual nossa alegria ao saber que nossa nova aju-
dante, a Dona Birailda Barbosa da Silva (“Dona Hilda”) é filha do
Pindoba.

As viagens para o Apeú, programadas por meu sogro se constituíam


em uma verdadeira “operação de guerra”. Desde a véspera, sábado,
ele começava a arrumar as coisas e me perguntava se o carro que iría-
mos usar estava em forma. Saíamos por volta das sete da manhã e
voltávamos logo depois do meio-dia. Tanto na ida como na volta, a
velocidade era em torno de 60 km/h. Lembro-me de que dizia sempre
para ele: Seu Machado, o Apeú é muito bom, sem as viagens! Durante
o tempo que fomos ao Apeú, mudei duas vezes de carro. Depois do
“jeep” Willys veio a “rural” Willys, em seguida, um Wolksvagen
(“fusca”). Quando eu não me encontrava em Belém, as viagens ao
Apeú eram feitas pela Célia ou pelo meu cunhado Ronaldo que, por
essa ocasião, era instrutor de vôo do Aéreo Clube do Pará (AEP). E,
nessa condição, às vezes acompanhava nossa viagem ao Apeú com o
avião, para desespero do Seu Machado que fazia sinal para ele subir e
desaparecer. Gostaria ainda de registrar que, entusiasmado com essas
viagens para o Apeú, Seu Machado programou, com o Ronaldo, uma
viagem para Bragança, terra natal de Dona Celina. Na véspera da via-
gem programada, em 1971, o Ronaldo saiu com seu próprio “fusca”
para fazer uma farra. Contudo, ele teve um acidente e o carro ficou
sem condições de viagem. Quando o Seu Machado se preparou para ir
para o Apeú, foi acordar o Ronaldo. Este, sem jeito, disse-lhe que
havia batido o carro, mas, que ele não se preocupasse, pois o levaria
até o sítio em um avião do AEP. Seu Machado, bastante zangado com
ele, disse-lhe: Tu não tens responsabilidade para dirigir um carro,
quanto mais um avião.

Antes de o Ronaldo ter seu próprio carro, ele usava emprestado o


nosso. Recordo de uma situação desesperada que ele passou na noite
de uma véspera de Natal. Ele pediu o “jeep” Willys para ir buscar a
Dona Celina que assistia à “missa do galo” na Igreja de Santana. Eu
fiquei em casa, dormindo. Por volta da uma hora da manhã, a Célia
me acordou dizendo que haviam roubado o “jeep” da frente da igreja.
Depois de uma busca infrutífera nas “pensões alegres” de Belém,
usando emprestado o “jeep” Willys de meu amigo Manoel Moutinho,
encontramos, quase de manhã, o meu “jeep” parado em uma rua
transversal da Praça da República e próximo de nossa casa. Os amigos
do Ronaldo haviam tirado o “jeep” e lhe preparado essa peça.

A saga das viagens ao Apeú durou cerca de 10 anos. Nesse tempo, o


Seu Machado comprou um terreno do outro lado da estrada de roda-
gem, porém na mesma margem do igarapé do sítio que freqüentáva-
mos. Fomos poucas vezes lá, pois ele acabou vendendo para ajudar na
compra da casa da Avenida Governador José Malcher. É oportuno
registrar que meu filho Jô, em recente viagem que fez a Castanhal,
passou por Apeú e viu, com tristeza, que a casa que os tios Waldir,
Wilson e William haviam construído, com todo o carinho e competên-
cia, não existe mais.

Já nas décadas de 1970 e 1980, o nosso lazer (dominical e das férias


de julho) foi transferido para Mosqueiro, para uma casa que a Célia
(usando seu FGTS) e eu compramos na antiga Estrada da Bateria
(hoje, Rua Poeta Rodrigues Pinagé), e que fora construída pela então
firma PROJEN, de meus amigos Paulo Leal, José Augusto Affonso e
Lindolfo Soares. Em 1995, vendemos essa casa para meu cunhado
Ronaldo e que permanece com ela até hoje, junto com sua mulher Eli-
ana Chaves Coelho (advogada), e seus filhos Guilherme (advogado) e
Breno (administrador de empresas) nascidos, respectivamente, em 21
de novembro de 1953, 09 de setembro de 1978 e 07 de abril de 1981.
Registro que o Ronaldo nasceu no dia 03 de maio de 1942, e seu casa-
mento com a Eliana ocorreu no dia 27 de setembro de 1978.

Na década de 1990, nosso lazer dominical passou para um sítio locali-


zado na Travessa Benjamin 81, transversal à Rodovia Transcoqueiro (
). Ele havia sido comprado do pai do Luciano Fontenele Cerqueira,
marido de minha cunhada Ana Maria, pela Célia e as irmãs. O caseiro
desse sítio era o Oscar Maciel (“Caboquinho”) que, inclusive, dormia
quatro vezes por semana com o meu sogro, desde quando minha sogra
morreu, em 1990. Seu acompanhamento noturno, nos outros três dias
da semana, era feito pela enfermeira Maria da Glória Figueiredo
(“Dona Glorinha”) que, também, cuidava dele durante o dia. Vale
acrescentar que aquela Rodovia foi um de meus últimos projetos
como engenheiro do DMER, por volta de 1984, um ano antes de me
aposentar.

Agora, voltemos a novembro de 1965 quando cheguei em Belém, vindo


de Brasília, depois da frustrada tentativa de me tornar um professor
de Física (estou usando o termo professor como aquele que funda-
menta essa profissão no elo dialético pesquisa-ensino). Conforme um
incidente que já relatei em um outro artigo de minha saga acadêmica
e que faz parte destas reminiscências, o ano de 1966 foi péssimo para
mim pois, ao cumprir, no Curso de Arquitetura da UFPA o “exílio
involuntário” que me foi imposto pelo então Reitor da UFPA, minha
hipocondria neurótica, da qual falarei mais adiante, começou a apre-
sentar novos sintomas, culminados com uma crise que tive por oca-
sião do nascimento da Ádria, em 28 de abril de 1967. Gostaria de
aproveitar essa ocasião para dizer que foi em 1966 que meu cunhado
Inocêncio Mártires Coelho, nascido em 14 de fevereiro de 1941, trans-
feriu-se para Brasília e, na UnB, doutorou-se em Direito e passou a
lecionar essa Ciência. Casou-se em 04 de setembro de 1970 com Azize
Drumond, nascida em 24 de novembro de 1932, geógrafa, doutora e
também professora dessa Universidade. Desse casamento, nasceram
os filhos Mário (advogado e mestre em Ciência Política), em 26 de
novembro de 1971 e Marcos (advogado, arquiteto e meu afilhado), em
06 de novembro de 1974. Inocêncio foi Procurador Geral da República
e, agora, aposentado como Procurador da República e professor uni-
versitário, dirige e ensina no Instituto Brasiliense de Direito Público,
em Brasília, com Gilmar Ferreira Mendes, Ministro do Supremo Tri-
bunal Federal e Paulo Gustavo Gonet Branco, Procurador Regional da
República. Além de professor, Inocêncio é um pesquisador atuante
com livros e artigos publicados em diversas Revistas de sua especiali-
dade.

Hipocondria neurótica

Conforme registrei anteriormente, eu nasci muito fraco, em 1935, e as


pessoas diziam para a minha mãe que eu não me criaria. Talvez por
isso introjetei, inconscientemente, a idéia de morte iminente, con-
forme me disse meu grande amigo e analista, o médico José Paulo de
Oliveira Filho. Esse medo inconsciente da morte, traduzido por um
olhar triste, tornou-se consciente depois de uma chuva torrencial
noturna ocorrida em uma terça-feira. Ao acordar, na quarta-feira,
fiquei com a sensação que morreria nesse dia. A partir daí, durante
vários anos tive a sensação de que morreria em uma quarta-feira.
Esse medo da morte levou-me a criar a teoria do caderno-vida: rece-
ber e pagar, ou seja, o que você recebe da vida deve pagar de alguma
maneira. Assim, para mim, o recebimento externo de alguma benesse,
por exemplo, a felicidade, deveria ser paga com alguma doença fatal.
Quando criança, sempre tive medo de ficar tuberculoso (a tubercu-
lose, nessa época, era mortal), caso pretendesse algo mais que não
merecesse. Esse merecimento, em meu entender, era apenas privilé-
gio dos ricos. Ao lado disso, eu pensava que, além de felizes, os ricos
também eram generosos, pois deixavam que crianças pobres, como
eu, brincassem com seus filhos, cujas brincadeiras relatei na primeira
parte dessas minhas recordações. A vida mostrou-me que, de um
modo geral e pelo menos no Terceiro Mundo, a generosidade dos ricos
é um bom defeito, e não uma virtude!

Tendo em mente aquela teoria, sempre tentei resolver, por mim


mesmo, as situações que enfrentei, sem me apaixonar (a paixão sem-
pre tem um preço alto a pagar, dizem os apaixonados) por elas. Por
outro lado e de um modo geral, não luto por nada que me impeça de
dizer ou fazer o que penso ser certo. Desse modo, deixo que as coisas
aconteçam naturalmente, mas, em acontecendo, espero reconheci-
mento. Contudo, quando esse reconhecimento não vem, sou um crí-
tico azedo, quase sempre (ou sempre) muito ofensivo (meus amigos
que o digam). Não costumo atacar gratuitamente as pessoas mas,
quando sou atacado, também gratuitamente, me defendo com uma
reação muito maior do que a ação (aliás, meu sogro também agia
dessa mesma maneira). Registro que a minha aparente humildade é
orgulho enrustido; sou vaidoso, sem querer ser; e sou invejoso, sem
querer ser. A não aceitação desses comportamentos naturais humanos
provoca conflitos no meu subconsciente, gerando, daí, sintomas físi-
cos, conforme me explica o Dr. José Paulo, por ocasião das análises
que faço com ele há mais de vinte anos (desde agosto de 1980), toda a
vez que novos sintomas orgânicos me aparecem.

A minha postura de não pleitear ou aceitar cargos públicos, que prati-


quei ao longo da vida com a justificativa de que, aceitando-os, eu não
poderia dizer e falar o que penso, só a entendi quando soube recente-
mente, ao ler o livro de Alfredo Tolmasquim (Einstein: O viajante da
relatividade na América do Sul, Vieira e Lent, 2003), que Einstein, em
1952, havia recusado ser Presidente de Israel, depois da morte do Pre-
sidente Chaim Weizmann, com a seguinte afirmação: Se aceitasse, eu
teria de optar entre minhas próprias idéias e aquelas que deveriam
ser defendidas por um presidente de Estado.

Durante minha vida, tive vários sintomas físicos decorrentes daqueles


conflitos. O mais recôndito em minha memória refere-se ao afasta-
mento das imagens que estava vendo. Esse sintoma me apareceu
depois de um escorregão que tive na lama da Travessa São Pedro, pró-
ximo da Avenida Almirante Tamandaré, depois de voltar das aulas do
CEPC, no começo de 1948. Uma das últimas vezes que vi as imagens
se afastando aconteceu na UnB, em 1965, por ocasião da crise, já rela-
tada, que culminou com a minha primeira frustração de me tornar um
físico. Aliás, quando estudava em Brasília, metade de minha estante
era de livros e metade de remédios, que o Mário e a Célia me manda-
vam. Lembro-me de um desses remédios: Dienpax. Uma segunda crise
nervosa aconteceu no final de 1955, quando me preparava para fazer
o CPOR. Como trabalhava no então SMER, ensinava no CAL e com o
“espectro da morte por tuberculose” rondando sobre a minha cabeça,
ao sentir-me fraco, fiz uma consulta com o saudoso Dr. Orlando Pinto,
amigo de meus pais. Ele recomendou que fizesse uma chapa de rai-
os-X dos pulmões. Fiz a chapa com o Dr. Direito Álvares, na Rua Santo
Antônio, nos altos da então Drogaria Sul Americana. Quando fui rece-
bê-la, vi a enfermeira ler o laudo, colocá-lo dentro do envelope com a
chapa e olhar-me com cara de espanto. Ao sair, li o laudo: Campos
pulmonares bem iluminados. Minha hipocondria e meu conhecimento
de Óptica me fizeram fazer a seguinte reflexão: Se os pulmões estão
bem iluminados, significa que eles estão cheio de “buracos” (caver-
nas, no jargão médico), pois a luz está passando abundantemente e,
portanto, estou tuberculoso! Com o laudo na mão, segui para o con-
sultório do Dr. Orlando que ficava, me parece, no Edifício Importa-
dora de Ferragens. Portanto, perto de onde estava. Até chegar lá, a
sudorese, característica dos nervosos, apoderou-se de mim. Não sei se
tive vontade de me jogar embaixo de algum carro que passava na oca-
sião. O Dr. Orlando quando viu o laudo, disse-me: Você está bem fisi-
camente. No entanto, precisa tratar dos nervos. A partir daí, começou
a minha peregrinação pelos consultórios de psiquiatras.

O primeiro deles foi o saudoso Dr. Pedro Valinoto. Como era muito
amigo de minha tia Luzia, ela me levou para uma consulta em seu
consultório, que ficava na Avenida Padre Eutíquio, próximo da Rua
Conselheiro João Alfredo. Depois de me examinar, viu que eu estava
apenas nervoso; me receitou um complexo vitamínico B e Memoriol,
para me ajudar na falta de memória, que eu estava sentindo naquela
ocasião. Um outro sintoma físico marcante em minha vida aconteceu
em 1967. Eu havia voltado frustrado de Brasília, em 1965, passara o
ano de 1966 de “castigo” na Escola de Arquitetura, e a Célia engravi-
dara em agosto deste ano. Em conseqüência disso, comecei a ter uma
outra crise nervosa. Meu estimado e saudoso amigo (veja artigo que
escrevi sobre ele nestas recordações), o médico Maurício Queima Coe-
lho de Souza, indicou-me seu amigo, o também saudoso médico psi-
quiatra Messildo Morato Luterbach para tratar de minha neurose. Por
ocasião em que estava me tratando com o Dr. Messildo, recordo de
outro de meus pavores: o de ficar doido. Quando falava a ele sobre
esse medo, ele dizia: Não tenha medo disso, pois quem é doido nunca
pensa que é.

Assim, no começo de abril de 1967, o Dr. Adriano Guimarães, que


acompanhava a gravidez da Célia, falou-me na possibilidade de ela ter
gêmeos. Ora, como havia fechado meu Escritório de Cálculo Estrutu-
ral para ir para Brasília e a Célia ainda não trabalhava, passávamos
uma crise financeira, pois os salários do DMER e da UFPA não eram
condignos (e ainda não são até hoje!). Aí, então, minha crise nervosa
agravou-se. Apareceram dores tremendas no ventre direito, que me
obrigavam a andar curvado. Além disso, tinha enjôo no estomago,
acompanhado de dor de cabeça, que os curava com uma colher do
antiácido Milanta Plus e dois comprimidos de Cibalena. Em vista
disso, procurei o também saudoso médico Carlos Santa Helena, em
seu consultório na Rua Santo Antônio, próximo da Avenida Presidente
Vargas. Recordo-me de que, no desespero, procurava-o, pela parte da
manhã, no término de suas aulas na então Faculdade de Medicina, na
Praça Santa Luzia, dizendo-lhe: Doutor, penso que vou ter, de novo, as
dores que sempre sinto. Ele respondia: Bassalo, você não tem nada
orgânico, seu problema é apenas nervoso. Aí aconteceu o incidente
que narrei no depoimento que dei para o livro do professor B. Sá, e
que vou reproduzir a seguir. Em uma dessas dores tremendas (que
aconteceu quando a Célia já estava no Hospital da Beneficente Portu-
guesa, convalescendo do nascimento da Ádria, que ocorrera no dia 28
de abril de 1967), fiz um exame de sangue no Laboratório do Hospital
Guadalupe, que ficava no mesmo quarteirão onde nós morávamos, na
Praça da República, próximo da Avenida Governador José Malcher. Ao
ver que o número de leucócitos era de 16.000, apavorei-me e telefonei
para o amigo B. Sá. Quando lhe falei desse número, ele me disse: Bas-
salo, estás morto. Pálido e sem ação, deixei cair o telefone. Aí, então,
meu sogro pegou o telefone e falou com ele e disse a seguinte frase
(conforme me lembrou minha cunhada Rosa Maria, que estava pre-
sente): B. Sá, meu caboco, me diz o que ele tem. Ouvindo a confirma-
ção da frase que o B. Sá tinha dito a mim, perguntou-lhe o que deveria
fazer. Ouviu dele essa preocupante sentença: Nada, apenas esperar e
se preparar para o pior. Depois de se refazer desse susto ao tomar um
copo com água, sem intervalo, meu sogro telefonou ao seu outro
grande amigo, o saudoso Dr. Rainero Maroja, que também tinha um
Laboratório de Análises, no Hospital da Santa Casa de Misericórdia, e
pediu-lhe que me fizesse um novo exame. Fui lá, levado por meu
cunhado Ronaldo. Recebeu-me o Dr. Rainero, na porta do Laboratório
e já com uma seringa nas mãos. Tirou-me sangue do dedo indicador
direito e examinou-o em seu microscópio. Depois de alguns minutos,
virou-se para mim, e disse: Bassalo, diga ao meu amigo Machado Coe-
lho que está tudo bem com você.

Durante essa crise, tive sempre o carinho de meus familiares e dos


amigos de meu sogro, com os quais, no decorrer da vida, também pas-
sei a partilhar dessa amizade. Contudo, nesta ocasião, quero destacar
o desvelo da Célia e de minha cunhada Rosa Maria. A Célia, passando
álcool na minha testa para aliviar as dores de cabeça (ainda hoje
tenho esse hábito); a Rosa Maria, que dormia no quarto junto com a
Célia e em baixo de minha rede, para, juntamente com a Célia, acal-
mar-me dos pesadelos. Dentre eles, registro dois: leucócitos e amebas
gigantescas que queriam me comer; e aflição de encontrar-me no
denominador de uma fração que tendia para zero e, portanto, a fração
tenderia para o infinito, matando-me quando o atingisse.

Como as dores não passavam, por recomendação do Dr. Adriano,


decidi ir para o Rio de Janeiro, em julho de 1967, para junto de meu
irmão Mário que trabalhava no então Hospital “Pedro Ernesto” (hoje,
Hospital Universitário “Pedro Ernesto”), na Rua 28 de setembro, na
Vila Isabel. No Rio, fiz uma série de exames com os amigos do Mário,
os saudosos médicos Leo Pinto Carvalhaes e Evaristo Assumpção de
Seixas Maciel. Como não encontraram nada orgânico comigo, o Mário
levou-me a um médico psiquiatra, em Copacabana. O resultado dessa
consulta e sua conseqüência estão narrados em outro texto dessas
minhas lembranças, quando trato de minhas atividades de engenha-
ria. Registro apenas o uso do Kiatrium 10 que ele me recomendou, e
que me deixou “fora do ar” por 24 horas!
Minha peregrinação por psiquiatras brasileiros continuou. Em 1968,
quando estava em São Paulo, meus amigos, o casal de professores
Jayme Tiomno e Elisa Frota Pessoa levou-me a um psiquiatra amigo
deles. Certamente recomendou-me algum psicotrópico e acalmou-me,
dizendo: Professor, não se preocupe, pois essa doença não é mortal.
Na tentativa de encontrar uma cura para minha neurose, na década
de 1970, procurei um médico homeopata, o Dr. Fernando Brasil, no
seu consultório, no início da Rua Tavares Bastos. Apesar de tomar os
remédios que ele me prescreveu, voltei a ter novas crises nervosas.
Em uma dessas crises, em desespero, fui de noite a casa dele na Ave-
nida Senador Lemos. Depois de me ouvir, começou a prescrever novos
remédios. Aguardando o término da receita, fiz o seguinte comentá-
rio: Doutor Fernando, se não estou doente e sinto tudo isso, imagine
quando eu ficar doente. Eu queria me referir a uma doença fatal (cân-
cer). Ele, calmante, me respondeu: Não, doente você já está. Só que
não é mortal.

Ainda na década de 1975, mas precisamente, em outubro de 1975, em


uma das viagens que fiz a São Paulo, fui consultar o médico psiquia-
tra, Laércio de Almeida Lopes, por recomendação de seu cliente, meu
amigo Adriano Carneiro. No decorrer da consulta, disse a ele que
sempre procurei ser honesto na minha vida, quer particular, quer
profissional, e não entendia a razão da minha neurose. Ele disse ape-
nas o seguinte: Sua neurose não é um problema ético. Volte para a sua
terra, procure um bom terapeuta, e ele lhe dirá as causas de sua neu-
rose. Anos mais tarde, creio que no final da década de 1990, fiz um
comentário ao falecido jornalista Luís Freitas (“Zing”) de que a minha
honestidade não era devido à ética (na realidade, moral, conforme me
alertou meu grande amigo, o filósofo José Édison Ferreira) e, sim, à
falta de coragem para ser desonesto. En passant, gostaria de registrar
que, naquele outubro de 1975, na noite do dia 25, eu, e mais alguns
assistentes de uma peça de teatro, cujo nome e atores não me lembro,
tivemos a triste noticia do assassinato do jornalista Vladimir Herzog,
nos porões da ditadura militar brasileira.

Por volta de 1980, novos sintomas orgânicos apareceram em mim.


Desta vez, tratava-se de extra-sístoles. Eu vivia pegando no pulso, ou
na fronte, para sentir o coração “parar” e depois “voltar”. Como a
Célia me via nessa aflição, batia na minha mão e dizia: Tira a mão daí,
pois não tens nada. Como esses sintomas continuavam, decidi procu-
rar, em agosto de 1980, conforme já registrei, a ajuda psicanalítica do
Dr. José Paulo, amigo de adolescência de meu cunhado Ronaldo. Logo
na primeira consulta, disse-lhe: Dr. José Paulo, estou aqui como mais
uma alternativa para tentar me curar de meu “nervoso”. Contudo, não
acredito em psicanálise pelas várias experiências que já tive. Aí,
comecei a narrar essas experiências, as quais me referi acima. Depois
de me ouvir, por quase uma hora, ele me disse: Bassalo, vou-lhe con-
tar a seguinte história. Um paciente, como você, procurou o famoso
Dr. Sigmund Freud, o inventor da psicanálise, dizendo-lhe: “Doutor,
eu quero que o senhor me faça um homem feliz”. Freud respondeu:
“Vou apenas dizer porque você não é feliz. A decisão de ser feliz é
inteiramente sua”. Claro que, naquela hora, não entendi essa frase. Só
comecei a entendê-la com a seqüência de sessões de análise que fiz (e
ainda faço) com ele, por quase 25 anos. Creio ser oportuno dizer que
conhecia o Dr. José Paulo apenas como excelente referência médica, e
também, por ser filho de um casal amigo, José Paulo Oliveira e Colli-
nete Oliveira, que conheci bastante quando exercia a função de enge-
nheiro, comprando materiais de construção em uma casa que era
gerenciada por eles.

Durante quase um quarto de século de conversas terapêuticas com o


Zé Paulo (como o chamo hoje, assim como ele me chama apenas de
Zé), fui aprendendo a conviver com os sintomas físicos que a neurose
provoca. Essa convivência, me parece, é a verdadeira “cura” da neu-
rose (sem esquecer a frase jocosa: Freud explica, mais não cura!).
Para isso, tive que ler muitos livros que ele me recomendou, assim
como refletir bastante sofre certas frases que me disse. Dentre elas,
destaco: o talento do Homem é menor do que o desejo de realizá-lo.

Dentre os livros que Zé Paulo me recomendou, o da Dra. Louise L. Hay


(Cure Seu Corpo: As Causas Mentais dos Males Físicos e o Modo Meta-
físico de Combatê-los, Editora Best Seller, 21a. Edição, 2002), tem
funcionado como uma verdadeira “bíblia” para mim. Toda a vez que
sinto alguma coisa orgânica (corpo), vejo no livro o correspondente
emocional (mente). Essa relação eu também a tenho observado nos
exames médicos que venho realizando há quase dez anos, os quais
controlo com gráficos. Geralmente minhas taxas de triglicérides e de
colesterol total acima do normal, registradas no gráfico que fiz, cor-
responderam a situações de alegria que tive (publicação de um traba-
lho, elogio de um livro escrito etc.). Essa correlação está de acordo
com o que está escrito nesse livro: colesterol em excesso, significa
tendência de sufocar os momentos de alegria. Esses sufocos decorrem
da idéia que sempre me acompanha, qual seja, a de não poder ser feliz
(lembrar meu caderno-vida: receber e pagar).

Na tentativa de explicar a relação corpo-mente estudada pela Dra.


Hay e, considerando as observações registradas em sua vivência como
terapeuta, o Dr. José Paulo defende a tese de que, aquela relação, é
conseqüência de dois tipos de adrenalina controladas pela mente, e
espalhadas pelo corpo: doce e ácida. O excesso da segunda em relação
à primeira, provoca a doença. Quando ocorre o contrário, a doença
não progride. Creio ser oportuno registrar outros livros (Macromicro:
A Ciência do Sentir, MAUAD, 1998; O Homem além do Homem,
MAUAD, 2001) sobre a origem de doenças decorrentes da relação cor-
po-mente, escritos pela psicóloga e física Maria Beatriz Breves Ramos.
Esses livros me foram indicado por meu amigo Pedro Leon Rosa Filho,
a quem agradeço nesta oportunidade.

Quando o Dr. José Paulo me falou de sua tese, no dia 29 de janeiro de


2004, lembrei-me de um artigo que Cattani e eu escrevêramos sobre
moléculas enantiômeras (ver meu livro Crônicas da Física, Tomo 5),
aquelas que giram o plano da luz, para a direita [levógira L(-)] ou
para a esquerda [destrógira D(+)]. O exemplo mais conhecido no
mundo é o da talidomida. Ela curava as mulheres do enjôo da gravi-
dez [D(+)], mas provocava deformações no feto [L(-)]. Assim, come-
çamos a pensar na possibilidade de a estrutura molecular da
adrenalina apresentar dois tipos de enantiômeros, sem um deles res-
ponsável pela doce e o outro, pela ácida. Como se tratava de uma
idéia tão absurda (ou revolucionária?), paramos de pensar no
assunto. Contudo, examinando a volta dos enjôos no estômago (sem a
freqüência e a intensidade dos que tive na década de 1960), no final
do ano passado, em uma de nossas sessões, fiz-lhe a seguinte per-
gunta: Sendo o estômago um de meus órgãos que respondem a qual-
quer problema emocional que tenho, como vem acontecido há vários
anos, por que não tive um câncer e nem uma úlcera? Ele me respon-
deu: Talvez porque a adrenalina “doce” de seu estômago, anule a
adrenalina “ácida” enviada pelo cérebro. A partir dessa colocação,
começamos uma pesquisa no sentido de descobrir a existência dessas
duas adrenalinas. Com auxílio de meu amigo, o químico e professor
da UFPA, Luiz Acácio Centeno Cordeiro, descobrimos que a adrenalina
(“ácida”?) que provoca susto e a subseqüente aceleração dos batimen-
tos cardíacos possui em sua fórmula química um carbono que é enan-
tiômero tipo L(-). A partir daí, estamos pensando na maneira de
encontrar o outro enantiômero da adrenalina, tipo D(+) (“doce”?).
Este é o projeto de pesquisa que pretendemos desenvolver, para o
qual precisamos ajuda de neurocientistas, engenheiros eletrônicos e
filósofos para ver se o cérebro, quando estimulado por uma emoção,
provoca os dois tipos de adrenalina, ou de endomorfinas também
enantiômeras.

Por fim, nessas minhas lembranças de minha hipocondria neurótica,


creio ser interessante dizer que, na avaliação do Dr. José Paulo, ela
deriva do complexo de Deus do qual sou possuidor, uma vez que sou
sempre um crítico (juiz) dos problemas que acontecem no mundo e no
Brasil, e me revolto sempre que as soluções apresentadas para a solu-
ção deles, não estão de acordo com o que penso.

Continuemos descrevendo a minha vida de casado. Com a ida do pro-


fessor Jayme Tiomno para a USP, em dezembro de 1967, ele me convi-
dou para continuar o que havia sido interrompido em Brasília. Assim,
conforme já descrevi em outro artigo desta minha saga de vida, parti
para a USP, em março de 1968. Enquanto estudava no então Departa-
mento de Física dessa Universidade Estadual Paulista, minha família
ficou em Belém. Por volta do final de 1968, a Célia e seu pai compra-
ram a casa da Avenida Governador José Malcher 629. Ela foi adqui-
rida por 60.000 cruzeiros da seguinte maneira. Uma entrada de
20.000 cruzeiros e 20 prestações mensais de 2.000 cruzeiros. Para a
entrada, vendi o apartamento do Edifício Santarém. As prestações, no
entanto, foram divididas entre eu e meu sogro. Agora, vou descrever
minha vida nessa nova casa, para a qual nos mudamos, em meados de
1969, depois de ela ser reformada.

A 629

Quando voltei da USP, em julho de 1969, minha família e a de meu


sogro já estavam morando na nova casa “velha”. Ela tem uma distri-
buição parecida com a casa da Praça da República. Um corredor de
entrada até uma grande varanda, que possui a largura de toda a casa.
À sua direita (de quem entra), ficavam a alcova e a sala (transforma-
dos em uma sala única, onde se localiza a grande parte da biblioteca
de meu sogro), com duas janelas para a rua. À sua esquerda, existe
uma garagem, em cima da qual havia um quarto que transformei em
minha sala de trabalho. Na seqüência, entre a garagem e a grande
varanda, tinha um pequeno compartimento, onde ficava o cofre do
Seu Machado, e mais livros, quer dele, quer da Célia. Depois da
grande varanda, aparecia um corredor, separando cinco quartos, o
sanitário e sala de banho, e um quintal lateral, cujo acesso se dá por
uma porta defronte do sanitário. Por fim, a casa terminava em uma
grande sala de jantar e a cozinha. O quintal lateral se unia ao quintal
de fundo, tendo em seu lado direito um outro sanitário/banheiro. No
final desse quintal, em seu lado esquerdo, havia um outro terreno,
que ficava depois do quintal da casa vizinha à nossa direita, de quem
olha para a rua. Nesse terreno, construímos um apartamento, com um
quarto e sala de banho, na parte de cima e, em baixo, um depósito,
mais tarde transformado em uma sala de estudo, para onde me trans-
feri quando o Jô passou a dormir e a trabalhar na minha antiga sala
de estudo. Esse apartamento foi, inicialmente, ocupado por meus
sogros e, depois, por nós: Célia e eu.

De minha vida na 629, recordo de alguns episódios que merecem ser


registrados. Para a minha primeira sala de estudo, levei a estante de
pau amarelo (que a tenho até hoje) que havia sido feita pelo marce-
neiro do Seu Machado, o João de Matos Mendonça, ainda quando eu
morava na Praça da República. Com o aumento do número de meus
livros, fui incorporando novas estantes nessa sala. Uma delas, de
acapu, foi construída pelo tio da Célia, Waldir Machado Coelho. Nas
estantes dessa sala, eu distribuía os livros por assuntos diferentes.
Lembro-me que, numa delas, que ficava próximo da janela, estavam
os livros de história da ciência e, também, alguns livros denunciando
a tortura da Ditadura Brasileira, dentre eles, o do Gregório Bezerra,
em dois volumes. Certo dia, a Ádria, que tinha por volta de 10 anos,
foi surpreendia pela Célia, deitada na rede que ficava próximo
daquela estanque, lendo a vida desse comunista brasileiro histórico.
Aliás, nessa mesma rede, sentava-se freqüentemente meu estimado e
saudoso amigo Mário Serra, para conversarmos sobre tudo: Física,
Matemática, Literatura, Filosofia e Política. Aprendi muito nessas
conversas, pois o Mário tinha uma cultura holística.

A mudança da Praça da República para a 629, não alterou a famosa


Varanda do Machado Coelho. Ela permaneceu na nova varanda. Con-
tudo, com os amigos mais íntimos, como o Mendes, Maurício, Bene-
dito Nunes, João Fernandes, Orlando Costa, Adriano Guimarães,
Irawaldyr Rocha, Ruy Barata a “varanda” ocorria na sala de jantar, no
final da casa. As mesmas discussões entre meu sogro e o Mendes, que
aconteciam na Praça da República, continuaram na 629. Depois da
morte da mãe do Seu Machado, em 1974, que morava na casa vizinha,
com uma porta de acesso entre as duas casas, ele, Mendes, passou a
morar nessa casa, conforme já registrei antes. Quando o Mendes não
conseguia convencer o Seu Machado da consistência do seu argu-
mento, em qualquer tipo de discussão, encerrava-a, dizendo-lhe:
Machado, ou és burro, ou és cretino, ou as duas coisas juntas. Até
logo. E saía pela porta referida acima. O Seu Machado não se zangava
com ele, pois sabia que essas palavras eram apenas da “boca para
fora”, ou seja, sem nenhuma intenção de ofensa.

Nessa sala de jantar, além das conversas intelectuais de meu sogro


com seus amigos, ocorreram outros episódios que também me marca-
ram. Com efeito. Nela, joguei muito ping-pong com o Jô, sempre
depois do almoço. A rede, era a tranca da porta dos fundos. Como
quase sempre perdia para ele, eu, com raiva, quebrava a bola. Em
seguida, dizia para ele: Vai no “O Combate” e compra nova bola. (“O
Combate” é ainda uma casa de comércio que fica na esquina da Rua
Ruy Barbosa com a Avenida Governador José Malcher.) Como isso
acontecia quase todo dia, e como a Célia não conseguia descansar
depois do almoço por causa dessas brigas, ela resolveu o problema
escondendo uma das raquetes. Aliás, ela também ficava muito irri-
tada, juntamente com a Dona Celina, quando eu jogava bola com Jô,
no quintal, pois eu chutava bastante forte em cima dele, exercitando-o
para ser goleiro, posição que ele gosta de jogar até hoje em suas pela-
das. Também eram constantes nossas “brigas”, porque eu não sabia
perder, em qualquer outro tipo de jogo que realizávamos: botão,
sinuca e totó.
Creio ser oportuno fazer um comentário sobre o jogo de sinuca. Com
meus futuros concunhados (Pedro Pinho, Claúdio Cativo Rosa, Antéro
Lopes e Luciano Cerqueira, que namoravam, respectivamente, a Rosa,
Teté, Marcinha e Ana) e com alguns amigos, principalmente o Renato
Cardoso e o José Raiol, jogávamos sinuca em um pequeno conjunto de
plástico, cujo taco era acionado por uma pequena mola. Lembro-me
que a bola 5, a bola azul, não era totalmente esférica, era oblonga,
parecida com a cabeça do Luciano. Claro que isso era motivo de brin-
cadeira com ele. Como jogávamos muito, certo dia, véspera do Círio
de Nazaré de 1970, resolvemos fazer uma coleta para comprar uma
mesa de sinuca, média, que estava à venda na Mesbla, e que custava
500 cruzeiros. Ah! quantas brigas eu tive com meus futuros concu-
nhados, com o Renato e, principalmente com o Jô, toda a vez que per-
dia nesse jogo de sinuca.

Também na sala de jantar, no final das tardes, e nos sábados e domin-


gos, pela manhã, o Seu Machado tinha o hábito de tomar cerveja (e,
também, uísque, e aperitivos: Cinzano, San Remy, San Raphael, Cam-
pari etc.) com amigos, genros e filhos, em uma mesa de tampo de
mármore, que ficava próximo da janela que dava para o quintal late-
ral, e junto ao lavatório. Dentre os amigos, o Irawaldyr era uma pre-
sença constante, tanto nos sábados, quando saía da reunião na casa
do João Fernandes (da qual até hoje eu participo), quanto nos domin-
gos, quando, inclusive, almoçava conosco.

Um problema de coluna na Célia levou-nos a mandar construir uma


pequena piscina (equivalente a uma raia), no quintal lateral, entre a
sala de jantar e o muro divisório com a casa do Mendes. Além de a
Célia fazer os exercícios diários de fisioterapia, todos nós (inclusive
meus sogros e alguns amigos) usávamos essa piscina para nos refres-
car, nos finais de semana. Contudo, quando o Seu Machado estava
tomando a sua cerveja, e os netos pulando na piscina, ele sempre
pedia para “não me esbarrarem água pra cá” enquanto pulavam na
piscina, para não molhá-lo. Essa advertência, contudo, nem sempre
funcionava. Por exemplo, certa tarde, quando o Seu Machado tomava
a sua habitual cerveja, três de seus netos, Antonio Guilherme
(“Gaega”) e Pedro Paulo, filhos da Rosa e do Pedro Pinho, e o Cláudio
(“Claudinho”), filho do Claudão e Teté, passaram por ele em direção à
piscina, e receberam, como de praxe, aquela advertência. Ao chega-
ram lá, o Gaega, de pronto, empurrou seu irmão e seu primo para
dentro da piscina. Ao se recuperarem da queda, com raiva, começa-
ram a persegui-lo. Para fugir dessa perseguição, o Gaega pulava de
uma borda até a outra da raia. Contudo, num desses saltos, ele não
pôde evitar que seu pé “esbarrasse água” no avô. Percebendo o quê o
Gaega havia aprontado, os três pularam para dentro d´água para
fugir do “carão” do avô que, indignado”, dizia-lhes: Vou lhes dar um
safanão. Também era inócua outra advertência que dava aos seus
netos, principalmente o meu afilhado “Gaega”, para não comerem
todo o queijo que ele separava para acompanhar a cerveja.

Aliás, o Gaega aprontou muito comigo. Por exemplo, quando eu estava


dormindo na rede de minha sala de estudos, encima da garagem, con-
forme já registrei, ele vinha calmamente, apitava a buzina de nosso
carro, um Corcel/Ford que ficava nessa garagem, e saia correndo. De
outra feita, eu tomava banho no apartamento do fim da casa, ele veio
sorrateiramente e trancou a porta, cujo trinco era externo. Ele, sen-
tado na escada de acesso a esse apartamento, ficava achando graça
dos berros que eu dava para a Rosa, pedindo para abrirem a porta. O
maior desespero que ele preparou para mim aconteceu em uma vés-
pera de fim de ano, quando ele prendeu o mecanismo de descarga do
sanitário que ficava no final do corredor. Depois de eu levar várias
latas de água para realizar a descarga, seu primo, o Eduardo
(“Dudu”), filho da Ana, vendo minha aflição, denunciou a traquina-
gem do Gaega. Por fim, ele quase me leva à loucura quando, ensinan-
do-lhe matemática, perguntei-lhe quanto era zero vezes dois. Ao
responder dois, gritei para a Rosa tirá-lo de perto mim, pois ele que-
ria me desmoralizar. Hoje, sou uma espécie de “guru” para qualquer
coisa que ele pretenda realizar em sua vida.

Voltemos à fisioterapia da Célia. Certo dia, quando ela fazia esse exer-
cício na raia, a Dona Celina atendeu ao telefone, que ficava no corre-
dor, próximo da sala de jantar. Era alguém do Centro de Letras e
Artes da UFPA, que perguntava pela Célia, então Diretora desse Cen-
tro, para resolver algum problema administrativo. Dona Celina, res-
pondeu: Ah! meu bem, ela está tomando um belo banho. A Célia, que
ouvira essa resposta, falou da piscina: Banho não mamãe, estou
fazendo fisioterapia por causa de meu problema de coluna.
Era também nessa sala de jantar que, aos sábados à noite, eu reunia
meus cunhados e concunhados para uma noitada de bebedeira. Tam-
bém participava dessa noitada, o saudoso Anfrísio Nunes, cunhado do
Claúdio. Geralmente, eu comprava um garrafão de vinho de cinco
litros (“Urussanga” ou “Dom Bosco”), e tomávamos. Eu tinha o hábito
de misturar o vinho com açúcar o que, no dia seguinte, provocava
uma tremenda dor de cabeça. Também tomávamos batida de cachaça,
misturada com limão ou pasta de amendoim. Tanto o vinho, quanto a
batida, eram sorvidos com muito gelo, que eu preparava em latas de
leite Ninho, colocadas em um pequeno “freezer” que ficava em um
canto dessa sala. A noitada começava quando meus sogros se reco-
lhiam para o apartamento que ficava fora da casa. Pois bem, para dar
início a essa farra, eu pegava as latas de leite Ninho, com a água com-
pletamente petrificada e, para obter pedaços de gelo, começava a
bater nelas, com um martelo de alumínio da Dona Celina, que era
usado para amaciar carne. Minha estimada e saudosa sogra, ouvindo
as marteladas que dava, comentava com meu sogro: Ih! Coelhinho, o
Bassalo já vai começar a bebedeira.

Ainda nessas noitadas, eu também preparava, com a ajuda da Marci-


nha e do Antéro, um drinque chamado “Cingapura-Sa”, cuja receita
[Gim (1 medida), Cherry Brandy (2 medidas), limão (1 medida), açú-
car e gelo] eu consegui de um garçom do Restaurante Miako, que
ficava na Rua Primeiro de Março, atrás do Hotel Hilton. Junto com
meus cunhado(a)s e concunhado(a)s, eu e Célia tínhamos o hábito de
sair para jantar em alguns restaurantes de Belém, dentre eles, e com
mais freqüência, nesse Restaurante japonês, que nos foi indicado pelo
Dr. Adriano Guimarães, quando ele se localizava junto a sua casa, na
Rua Arcipreste Manoel Teodoro.

Vale recordar outras histórias que aconteceram na 629 com a grande


dedicação da enfermeira Dona Glorinha com minha sogra e, posterior-
mente, com meu sogro quando este ficou viúvo. Todos os dias, por
volta do meio-dia, ela fazia uma reza que era acompanhada por Dona
Celina. O Gaega, que também a ouvia, lembrou-me de seu teor: Meu
Deus, não devemos te pedir, só te agradecer. Mas te pedimos por
Totó, que grita o dia inteiro, por Socorro, que não faz nada no Rio, e
por Ádria que chega tarde e não vai trabalhar cedo. O motivo dessa
reza, era o seguinte. A Totó, irmã do Mendes, nosso vizinho, estava
com uma crise nervosa muito grande e vivia gritando pedindo ajuda.
A Socorro, minha cunhada, estava fazendo Residência Médica no Rio
de Janeiro e sempre pedia auxílio financeiro ao pai. Em vista disso,
achavam que ela não queria arranjar emprego para se sustentar. A
razão dessa atitude da Socorro decorria de sua dedicação integral à
Oftalmologia, além do custo elevado dos livros dessa especialidade
médica. Uma história da Ádria merece destaque. Ela já trabalhava no
Tribunal de Contas dos Municípios (TCM), emprego esse conseguido
pelo Irawaldyr, então Presidente desse Tribunal. Quando ela chegava
no final da madrugada de suas saídas noturnas, ficava dormindo até
tarde e chegava atrasada no emprego. É oportuno notar que o atraso
da Ádria no TCM era sempre motivo de reclamação por parte do Ira-
waldyr, quando estava na 629. A Dona Celina, ouvindo uma dessas
reclamações, disse a ele: Ira, meu bem, não se preocupe com o atraso
da Ádria, pois ela tem uma amiga que bate o ponto para ela. O Ira-
waldyr não se conteve, e deu uma gostosa gargalhada, daquelas que
irritavam o meu sogro pelo seu estrondo.

Ao finalizar essas recordações sobre a minha vida de casado na 629,


gostaria de acrescentar que foi nessa casa que minha sogra faleceu no
dia 29 de abril de 1990, com um pouco mais de 75 anos de idade, pois
nascera no dia 07 de abril de 1915. Com sua morte, e com Jô e Ádria,
já casados e morando fora dela em seus apartamentos, a 629 tornou-
se muito grande apenas para meu sogro, Célia, eu e o saudoso Maxi-
miliano Pacheco dos Santos (“Nêgo”), que morou nessa casa durante
20 anos. (Recordo que ele passou a morar conosco depois que a nossa
“secretária” doméstica Maria de Jesus Braga Serrão deixou de traba-
lhar na 629.) Assim, começamos a pensar em mudar dessa casa. Em
1994, o Governo do Estado do Pará estava interessado em fazer o
Museu do Estado. Para isso, precisava de peças de antiguidade. A
Célia, com a orientação de seu pai, havia reunido, por mais de trinta
anos, uma coleção de peças Art Nouveau (parte catalogada no livro
que escreveu e intitulado “Art Nouveau” em Belém, Grafisa, 1984).
Tendo conhecimento dessa coleção (cerca de 120 peças, inclusive a
mobília de sala do famoso político paraense, o Intendente e Senador
Antonio Lemos), o então Governador, Jáder Fontenele Barbalho, fez
uma oferta de compra e a Célia aceitou. Assim, compramos no “osso”,
sem acabamento, o apartamento 1601 do Edifício “Delta Garden”, na
Avenida Serzedelo 347. Depois de concluirmos seu acabamento, que
foi realizado por nosso filho arquiteto Jô, tendo o Taciel Braga Mon-
teiro como Mestre de Obras, e o Jocélio Ferreira dos Santos, cuidando
da parte elétrica e hidráulica, nos mudamos para esse apartamento
em março de 1995, no qual moramos até o presente. Hoje, a 629
abriga o Curso Minerva da Célia, no qual ela, juntamente com as pro-
fessoras Ana Maria (minha cunhada). Maria Angélica Pinho e Rafaella
Capela Leão (monitora), ensinam Português para alunos do curso fun-
damental e médio, além do Meia Dois Nove Arquitetura e Consultoria,
o Escritório de Arquitetura do Jô e de seu sócio, o também arquiteto
Flávio Campos do Nascimento, tendo como auxiliares os arquitetos
Daniel da Silva Leão, Emerson Bruno de Oliveira Gomes, Kyara Altoé
Rigoni Corrêa e Renata Leitão Barroso, e o agrimensor e engenheiro
civil Júlio César Mascarenhas Aguiar. O serviço de limpeza e os servi-
ços gerais da 629 são feitos, respectivamente, pelos irmãos Jossiney
(“Jossa”) e Natalino (“Valdir”) Santana dos Santos (este, trabalhou
para a família Machado Coelho/Bassalo na 629, até quando mudamos
para o Delta Garden). Por fim, é oportuno registrar que meu sogro
morou conosco até morrer no dia 23 de novembro de 2001, com mais
de 92 anos de idade, pois nascera no dia 17 de maio de 1909.

Aliás, naquele fatídico dia 23 de novembro, uma sexta-feira, quase eu,


a Célia e o Caboco morríamos em um acidente de carro. Com efeito,
por volta das duas horas da madrugada desse dia, fomos chamados
para ir até o Hospital Incor, na Rua Gentil Bittencourt, próximo da
Travessa 14 de abril, pois meu sogro não estava passando bem. Pega-
mos nosso carro, um Honda Civic, e fomos para lá. Quando nos apro-
ximamos da Travessa Rui Barbosa, uma camionete dirigida por um
motorista bêbado (cuja identidade desconhecemos) avançou o sinal e
a Célia, que estava dirigindo, freou um pouco e tocou de leve na cami-
onete. Esta rodopiou e parou em uma mangueira. Apenas com um
baque na dianteira, seguimos em frente, pois o Seu Machado estava
morrendo, o que aconteceu cerca de cinco e meia dessa madrugada.
Escapamos por uma fração de segundo. Sempre digo que meu sogro,
antes de morrer, nos salvou! Registro que, hoje, nosso carro é um
Honda Fit, comprado depois de um outro Honda Civic que substituiu o
do acidente, e que, entre o “fusca” e o Fit, tivemos mais três marcas
de carros: Corcel I, II e Escort, da Ford, e Monza e Vectra, da GM.
Aquele dia fatídico em que ocorreu a morte de meu sogro deixou, tam-
bém, na minha lembrança, uma imagem poética. Foi durante o seu
enterro. Após ser velado na Academia Paraense de Letras, em sua
sede defronte do Quartel dos Bombeiros, seu corpo deixou esse
recinto logo depois da tradicional e característica chuvarada das qua-
tro horas da tarde, dirigindo-se para o Cemitério de Santa Izabel, para
o jazigo da Família Mártires. Aí, os coveiros aguardavam a chegada do
caixão que estava sendo levado por seus netos: Jô, Alex, Alan, Gaéga,
Claudinho, Leonardo, Guilherme, Breno e Ricardo. Ao olhar aquela
cena, lembrei-me dos anões conduzindo, pela floresta, a Branca de
Neve, envenenada pela Rainha Má, conforme registrado no filme que
Walt Disney realizou, em 1937.

Cunhado(a)s e Concunhado(a)s

Dos onze filhos de meus sogros, nove moravam na 629, pois o Joa-
quim e Caboco já haviam saído de Belém, conforme já anotei. O
Ronaldo ficou lá até 1973, quando foi trabalhar em Macapá. Na volta,
em 1975, passou a morar sozinho. Os demais foram saindo, na medida
em que iam casando. Nesta oportunidade, farei um pequeno relato de
meus cunhado(a)s e respectivas famílias, na ordem que deixaram a
629. O Geraldo, nascido em 24 de setembro de 1948, foi o primeiro a
sair, um pouco depois de seu casamento com Carmen Helena Watrin,
nascida em 08 de abril de 1946, com quem casou em 27 de novembro
de 1968. Hoje estão divorciados. Desse casamento, nasceram dois
filhos: Alex, no dia 20 de junho de 1969, e Alan, no dia 02 de outubro
de 1974. Alex, especialista em informática, casou-se em 10 de abril de
1999, com a advogada Magáli Moraes Rosa, nascida em 07 de dezem-
bro de 1971, e têm uma filha de nome Vitória, nascida no dia 27 de
novembro de 1999. Alan, Bacharel e Licenciado em História, aluno do
Curso de Mestrado em História da UFPA tem um filho de nome Felipe
nascido em 01 de dezembro de 2000, de sua união com Ana Paula
Macedo Cunha, de 08 de junho de 1986, também Bacharela e Licenci-
ada em História. Vale assinalar que meu cunhado Geraldo, Mestre e
Doutor em História, respectivamente, pela Universidade Federal Flu-
minense e Universidade Nova de Lisboa e professor Adjunto da UFPA,
é o atual Diretor Geral do Arquivo Público do Pará. Destaco ainda que
ele, além de professor, é pesquisador atuante com livros e artigos
publicados sobre temas de sua especialidade.
Em 1972, duas cunhadas saíram da 629. A primeira delas foi a Rosa
Maria, nascida em 03 de março de 1945, ao casar-se, em 22 de janeiro
de 1972, com Pedro Pinho de Assis, de 29 de junho de 1943. Ambos
obtiveram os títulos de Mestre e Doutor em Letras, pela UFRJ, são
professores aposentados da UFPA, assim como são pesquisadores atu-
antes. No momento, a Rosa é professora da Universidade da Amazônia
(UNAMA), com livros e artigos publicados em assuntos relacionados
com Língua e Literatura. O Pedro, por sua vez, além de Literatura,
gosta também de Filosofia, de pintura, de música, e de antiguidades.
O casal Assis tem dois filhos, Pedro Paulo e Gaega. Eles nasceram,
respectivamente, em 17 de julho de 1974 e 11 de setembro de 1977. O
Pedro Paulo casou-se, em 26 de julho de 2000, com Gabriela Maria
Fernández Coimbra, nascida em 10 de março de 1977, e têm um filho
de nome Bernardo, nascido em 14 de junho de 2004. Ambos são médi-
cos, com Residência Médica em Nefrologia, realizada em São Paulo,
no Hospital Brigadeiro-SUS, no período de 01 de fevereiro de 2002 até
31 de janeiro de 2004. Hoje, eles atuam em vários hospitais de Belém,
dentro dessa especialidade. Gaega, dirige uma fazenda de propriedade
sua e de seu pai, além de ser um “expert” em mercado financeiro
(“trader”), com treinamento realizado nos Estados Unidos da Amé-
rica, com um dos “papas” mundiais desse assunto: Joe Ross. En pas-
sant, creio ser oportuno registrar que, quando o Pedro Paulo tinha 22
dias de idade, e como Pedro e Rosa estavam realizando o Mestrado na
UFRJ, em 1974, Célia e eu tomamos conta dele por um período de oito
meses. Desse modo, tivemos o privilégio de ser seus “pais afetivos”
por esse tempo.

A segunda cunhada que saiu da 629, ainda em 1972, foi a Teté, nas-
cida em 13 de dezembro de 1949, para casar com o Claúdio Cativo
Rosa (“Claudão”), de 02 de fevereiro de 1945, que é arquiteto e pro-
fessor aposentado da UFPA. Desse casamento, ocorrido no dia 05 de
fevereiro de 1972, nasceram Cláudio (“Claudinho”) e Celina, respecti-
vamente, em 31 de julho de 1973 e 15 de outubro de 1975. Claudinho
(meu afilhado) é engenheiro civil e casou-se em 28 de setembro de
2003 com Patrícia Veríssimo Portela, nascida em 21 de agosto de
1974, e administradora de empresas. Por sua vez, Celina, arquiteta e,
atualmente, realizando o Curso de Direito na UNAMA, casou-se com
Márcio Raposa Silva, em 20 de setembro de 1997. Desse casamento,
nasceu Maria Luiza em 21 de novembro de 1998. Hoje, estão divorcia-
dos. Registro que minha cunhada Teté, Mestre em Economia pela
UFPA e professora aposentada dessa Universidade, já exerceu vários
importantes cargos públicos no Pará, dentre os quais destaco a Secre-
taria Executiva da Fazenda do Estado do Pará e a primeira Diretoria
Geral da Agência de Desenvolvimento da Amazônia (ADA), criada em
2003. No momento, é a atual Secretaria Especial de Gestão do
Governo do Estado do Pará. Lembro-me de que, no começo da vida do
Claudão e da Teté, tive o prazer de convier com eles, quer brincando
de bola no terreno da casa que moraram na Travessa Quintino Bocai-
úva, quer como “hóspedes” em nossa casa de Mosqueiro. Como eu
brincava muito com o Claudinho, certo dia de julho de 1980, quando
estávamos passando férias nessa casa da ilha balneária, ele, Claudi-
nho, desesperado com as brincadeiras, me disse: Tio Bassalo, saía já
da minha casa, pois não agüento mais o senhor!

Logo depois, em 1973, mais duas cunhadas saíram da 629. A primeira


foi a Marcinha, nascida em 07 de maio de 1943. Quando era bibliote-
conomista da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia
(SUDAM), conheceu o economista Antéro Lopes, nascido em 13 de
março de 1941. Casaram-se em 14 de abril de 1973. Depois de passa-
rem mais de nove anos em Macapá, entre 1975 e 1985, onde o Antéro
exerceu as funções de Secretário de Planejamento do Estado do
Amapá, eles voltaram a residir em Belém. No momento, a Marcinha
realiza trabalhos de tecelagem computadorizada e o Antéro, dirige o
setor de formação de pessoal especializado da Secretária da Fazenda
do Estado do Pará. Lembro-me de que, quando eles moravam na Tra-
vessa Ruy Barbosa, próximo da 629, eu ia todo o final de tarde para a
casa deles para assistir a novela Ídolo de Pano, da Televisão Tupi,
cujos principais atores eram o Denis Carvalho e o Toni Ramos.

À saída da Marcinha, seguiu-se a da Ana Maria, nascida em 03 de


março de 1945, para casar-se, em 05 de maio de 1973, com Luciano
Fontenele Cerqueira, de 25 de janeiro de 1945. Ele é administrador de
empresas e, até aposentar-se, foi um excelente técnico na antiga Cen-
trais Elétricas do Pará (CELPA). Ana é professora aposentada do
Núcleo Pedagógico Integrado (NPI) da UFPA e, no momento, ministra
língua portuguesa no Curso Minerva da Célia, conforme já registrei.
Eles têm dois filhos: Leonardo e Eduardo (“Dudu”) nascidos, respecti-
vamente, em 27 de janeiro de 1976 e 21 de outubro de 1979. Leonardo,
meu afilhado, é médico formado pela UFPA e, no momento, está se
especializando em Cirurgia Plástica, no Rio de Janeiro. O Dudu, Mes-
tre em Informática, está em Coimbra, concluindo o Doutorado em
Informática. Eu sempre brinquei muito com a Ana, porém, quando as
brincadeiras passavam do limite, ela se irritava e, como gosto muito
de seus filhos, ela ameaçava proibir-lhes de falar comigo. Uma outra
coisa que a irritava era quando, para fazer sua declaração de Imposto
de Renda, eu telefonava para ela reclamando que os documentos que
me entregara não estavam completos. Um certo dia, ela me mandou o
seguinte bilhete: Bassalo, se não entenderes, eu te explico amanhã.
Não tem ataque nervoso e nem me liga gritando. Beijos, Ana. Em vista
do inusitado bilhete, guardei-o em minha mesa de estudos, por baixo
de uma lâmina de vidro. Ele permanece lá até hoje, junto com algu-
mas fotografias da minha família e de amigos.

O penúltimo cunhado a sair da 629 foi o Valdir. Nascido em 21 de


setembro de 1952, é Bacharel em Direito pela UFPA. Casou-se com
Maria da Glória Lima de Lima (“Glorinha”), em 16 de novembro de
1977. Ela, nascida em 08 de fevereiro de 1949, é filha do Ilmar Men-
des Lima (Capi), o lendário jogador de futebol do Clube do Remo, e
irmã de meu ex-aluno do CEPC, o Olivar Antonio (“Toninho”, para
seus familiares e “Capi”, para seus colegas do CEPC), Doutor em Geo-
ciências pela Universidade Federal da Bahia, Professor Titular dessa
Universidade, e com pós-Doutoramento nos Estados Unidos. Glorinha,
formada em Administração de Empresas, é hoje funcionária aposen-
tada do INSS. O Valdir exerce a função de advogado na Secretaria de
Cultura do Estado do Pará. Eles têm dois filhos: Roberta e Ricardo,
nascidos em 06 de maio de 1979 e 28 de dezembro de 1982, respecti-
vamente. Roberta, publicitária e aluna do Curso de Direito da
UNAMA, casou-se em 06 de setembro de 2002, com o também publici-
tário Luís Paulo Lima Valério, de 26 de abril de 1979, e têm o filho
Paulo Victor, nascido em 05 de agosto de 2004. Ricardo, concluinte do
Curso de Administração e Comércio Exterior do Centro Universitário
do Pará (CESUPA), é um fanático torcedor do Flamengo, condição essa
que me motiva a brincar com ele toda a vez que seu time perde para o
meu Vascão. É claro que, quando ocorre o contrário, ele é que brinca
comigo. Gosto muito do Valdir e da Glorinha e, sempre que possível,
nos reunimos em sua casa, aos sábados, junto com outros cunhados e
respectivos filhos, para saborear um picadinho de carne de gado (PM:
“picadinho de merda”, como o chamo), junto com farofa e batata frita,
preparado pela Glorinha.

Por fim, a última cunhada a sair da 629 foi a Maria do Socorro


(“Socó”), nascida em 08 de maio de 1959, e afilhada minha e da Célia.
Formada em Medicina pela UFPA, em 1985, foi para o Rio de Janeiro
para fazer Residência Médica, no Hospital dos Servidores do Estado,
entre 1986 e 1988. Hoje, especialista em Oftalmologia, vive no Rio de
Janeiro com o advogado Nelson Sidney Carvalho Silva, de 19 de março
de 1957, de quem tem a filha Mariana, nascida em 15 de julho de
1997. Como a Socó nasceu quando a Dona Celina tinha 44 anos de
idade, e como morávamos com meus sogros, ela praticamente foi cri-
ada pela Célia. Em vista disso, Socó tem uma verdadeira veneração
por sua irmã-mãe; também, é claro, a Célia tem uma afeição especial
por ela. Célia é igualmente madrinha de batismo de Mariana. O padri-
nho, é o Gaega.

Minha família

Ao concluir estas lembranças de minha vida, quero destacar outros


aspectos não abordados até aqui, relacionados com meus sogros,
minha mulher e meus filhos. Quando comecei a namorar a Célia, em
1957, seu pai era Chefe de Gabinete da então Superintendência do
Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA) (criada pelo
Presidente Getúlio Vargas, em 1953), dirigida pelo grande historiador
da Amazônia, professor Artur César Ferreira Reis, seu amigo e compa-
dre (ele era padrinho do Caboco). Ao ser escolhido Superintendente,
Artur Reis se reunia com meu sogro, na casa da Praça da República,
para discutir a equipe com quem iria trabalhar nessa árdua missão,
qual seja, a de desenvolver a Amazônia. Antes de exercer essa função,
meu sogro dera aulas de Francês na antiga Fenix Caixeiral Paraense,
assim como trabalhou (como repórter e redator) nos jornais A Folha
do Norte e O Estado do Pará. Em 1946, foi nomeado Diretor do Museu
Paraense “Emílio Goeldi”, por seu amigo o Coronel Joaquim de Maga-
lhães Cardoso Barata. Ele exerceu esse cargo até começo de 1951,
quando Barata perdeu a eleição para Governador do Pará, ganha pelo
Marechal Alexandre Zacarias de Assunção, na célebre eleição de 1950,
já por mim referida. Na década de 1960, foi nomeado Secretário de
Junta do Tribunal Regional do Trabalho da 8a.Região, indicado por
seu grande amigo, professor Doutor Aloysio da Costa Chaves. Em 03
de julho de 1969, assumiu a Secretaria Geral da UFPA, no Reitorado
do Dr. Aloysio, ficando nesse cargo até o final do mandato, ou seja, 03
de julho de 1973. Quando este professor de Direito do Trabalho foi
nomeado Governador do Estado do Pará, em 1974, convidou meu
sogro para organizar a Secretaria de Cultura de seu Governo. No
entanto, como o Dr. Aloysio sempre o ouvia nas situações mais delica-
das com que teve de lidar em sua vida pública, preferiu tê-lo por
perto e, portanto, nomeou-o para dirigir a Secretária Geral do Palácio
do Governo, com o status de Secretário de Estado. O Professor
Machado Coelho, como era conhecido, voltaria a exercer este mesmo
cargo nos Governos do Coronel Alacid da Silva Nunes e do Bacharel
em Direito Jáder Fontenele Barbalho.

Além das atividades administrativas mencionadas acima, meu sogro


foi um intelectual atuante no Estado do Pará, conforme já tive oportu-
nidade de registrar ao falar da famosa Varanda do Machado Coelho.
Como era um amante da cultura francesa, fundou a Aliança Francesa
do Pará para divulgar essa cultura em nosso Estado. Sua tradução dos
poemas do poeta francês Paul-Marie Verlaine, a qual intitulou Minhas
Canções de Verlaine (Gráfica e Editora Falangola, 1951), é conside-
rada, pelos entendidos, como uma obra prima. Por causa disso, por
duas vezes, mereceu honrarias do Governo Francês: La Croix de Che-
valier dans l´Ordre des Palmes Académiques, do Ministère de l´Édu-
cation Nationale, em 27 de setembro de 1956, e a Ordre National de
La Légion D´Honneur, no grau de Chevalier, da République Française,
em 04 de janeiro de 1973. Entre 1952 e 1953, foi colaborador do jornal
A Província do Pará, com a coluna semanal intitulada Sapos e Estrelas
(que está sendo reunida em um livro, a ser editado brevemente), na
qual abordava os mais variados assuntos, envolvendo literatura, sua
especialidade, ciência e política, sempre com um toque de humor e,
quando oportuno, com alguma dose de ironia. Meu sogro também
fazia conferências sobre vários temas bastante intrigantes, como, por
exemplo, O feitiço na literatura, na arte e na vida, transformado em
livro com o mesmo título, e editado pela UFPA, em 1963. Foi Membro
da Academia Paraense de Letras e do Conselho de Cultura do Estado
do Pará, tendo exercido a Presidência deste Conselho por algumas
vezes.

Meu sogro não só gostava de ler, como tinha um verdadeiro respeito


pelos livros, preferencialmente os costurados (ele tinha verdadeira
aversão ao livro colado). Ele os encapava, quando estava lendo, bem
como os lia com uma abertura em forma de V, com um ângulo em
torno de 45 graus, o suficiente para lê-lo e não quebrá-lo, hábito e
cuidado que transmitiu a todos os leitores da família. Seu Machado
detestava quem lia um livro completamente aberto. Ele lia com um
lápis de ponta bem longa e bem fina para completar letras que não
estavam totalmente impressas. Quando concluía a leitura, escrevia a
data correspondente, com os dizeres: Lido em … M. Coelho. Sua bibli-
oteca, adquirida com extrema dificuldade no começo de sua vida (no
final, acabou em torno de 20 mil volumes), é composta de várias
estantes, preparadas pelo marceneiro Mendonça, de quem já falei,
espalhadas por toda a casa (quer na casa da Praça da República, quer
na 629, onde ainda permanece sob a guarda da Célia). Geralmente ele
fazia a leitura, deitado em uma rede e com a Célia fazendo cafuné
(toques suaves na cabeça com estalos nos dedos) na cabeça dele. Gos-
tava, também, de ler em sua escrivaninha, a mesma onde estava no
dia em que o Joaquim fez o pedido de casamento da Célia para mim,
conforme já relatei. Aliás, era também nessa escrivaninha que ano-
tava, em um caderno, as despesas diárias da casa. Com uma grande
quantidade de filhos, um salário ruim, e sendo o único a trabalhar na
família (Dona Celina vivia para gerar e cuidar dos filhos, auxiliada
pela irmã, tia Anita e, também, pela Célia e Marcinha, que quando cri-
anças, ajudavam a lavar a roupa no porão da Praça da República e
demais serviços domésticos) ele controlava seu dinheiro para manter
a família, comprar livros e tomar a sua cervejinha. Esse controle era
baseado num aforisma que ele gostava de usar: Quando se começa a
abotoar uma camisa com o botão errado, segue errado até o último
botão. Destaco que o Seu Machado tinha o hábito de, aos domingos,
limpar seus livros com querosene, sempre ajudado por Dona Celina e
Célia. Registro que meu sogro tinha uma grande afeição por minha
mulher tanto que, para festejar seu nascimento, em 1939, publicou
um livro, impresso nas Oficinas Gráficas Norte, sobre um de seus
escritores favoritos: Machado de Assis.
Minha sogra, que foi minha segunda mãe, não era uma intelectual,
mas era extremamente sagaz e com uma intuição fora de série. Eu
sempre costumava dizer que “meu sogro tinha o saber, e minha sogra,
a sabedoria”. Ela tinha uma verdadeira adoração por seu marido.
Quando ele estava lendo, não deixava que os filhos o perturbassem.
De outro lado, quando ele tinha uma crise de hipocondria e deixava de
tomar a sua cerveja, no “terrasse” do famoso Grande Hotel (hoje,
Hotel Hilton), minha sogra lhe dizia: Coelhinho, meu bem, fique logo
bom para tomar a sua cervejinha. Passada a aflição, quando ele se
preparava para ir tomar a cerveja, ela “alfinetava”: Antes de ficar
complemente bom, já vás tomar cerveja. Era o famoso “xaveco”, que
ela era mestra em usar contra ele, e que tanto o irritava! Com relação
às crises de hipocondria de meu sogro lembro-me de que, certa vez,
ele telefonou para um amigo médico, na Suíça, para consultá-lo sobre
um “engasgo” que estava sentindo. O amigo, ao telefone, disse-lhe
que, sem vê-lo, era impossível diagnosticar, contudo, acreditava ser
apenas uma crise de ansiedade, pela descrição que meu sogro fizera
do que sentia.

Nesta altura em que estou quase finalizando as lembranças de minha


vida, é oportuno dizer que o convívio com meu sogro, e com o ambi-
ente intelectual que ele atraía em torno de si, materializada em sua
famosa varanda, na qual circulavam os grandes intelectuais paraenses
e brasileiros, conforme já tive oportunidade de relatar, me fez gostar
de ler livros sobre os mais variados temas, além dos relacionados com
a minha atuação profissional, quer como engenheiro, quer como pro-
fessor de Física. Aliás, essa mudança foi percebida por minha saudosa
irmã Madá, que sempre dizia: A família da Célia transformou o Zequi-
nha! (“Zeca”, era meu apelido caseiro, mas o diminutivo só ela
usava.)

Agora, falarei de minha família propriamente dita. Logo que fiquei


noivo da Célia, no começo de 1960 (ela tinha quase 21 anos, pois nas-
cera em 05 de junho de 1939, tendo por padrinho o escritor José Sam-
paio de Campo Ribeiro, amigo de seu pai), por ciúme, impus-lhe uma
condição: ela não faria Universidade. Porém, a crise nervosa pela qual
passei em 1967 (registrada acima), minha ida para São Paulo, em
1968, acrescido do fato de que havia deixado de ser Engenheiro Estru-
tural, o que reduziu minha renda mensal, fizeram com que a Célia
decidisse fazer Vestibular para o Curso de Letras, no começo de 1968,
apesar de meu aceite nada amistoso (segurei-lhe fortemente os bra-
ços, quando ela me comunicou sua decisão), bem como durante todo o
curso. Muito embora tivesse concluído o Curso Clássico em 1958, ela
conseguiu a terceira colocação naquele Vestibular, depois de Haroldo
Pinheiro da Silva (segundo) e de João José Coelho Bordalo da Silva
(primeiro). Este, juntamente com outro colega de turma, José Artur
Bogéa, foram seus colegas de estudo e, até hoje, são nossos amigos.
Célia recebeu o diploma de Licenciada em Língua e Literatura Verná-
culas e Língua e Literatura Francesa, em janeiro de 1972. No ano
seguinte, começou a lecionar Teoria Literária, depois de ser aprovada
em concurso público para Professor Auxiliar do Departamento de Lín-
gua e Literatura Vernáculas do Centro de Letras e Artes (CLA) da
UFPA. Entre 1983 e 1984, Célia dirigiu esse Departamento e, entre
1985 e 1989, o próprio CLA. Quando dirigia esse Centro, implantou o
Mestrado em Letras e, em 1990, defendeu sua Tese de Mestrado, sob a
orientação da professora-doutora Amarílis Tupiassú, tendo como
tema a poesia de Paulo Plínio Baker de Abreu, amigo de seu pai e fre-
qüentador da Varanda Machado Coelho.

Antes de ser professora do CLA, Célia foi professora de português do


Instituto de Educação do Pará e de francês do Núcleo Pedagógico Inte-
grado (NPI) da UFPA, língua que aprendera na Aliança Francesa, fun-
dada por seu pai, conforme registrei acima. Depois de aposentar-se na
UFPA, aceitou o convite do então Secretário de Cultura do Estado do
Pará, professor-doutor Guilherme Maurício Souza Marcos de La
Penha, para dirigir o Departamento de Patrimônio Histórico, Artístico
e Cultural (DPHAC) dessa Secretaria. Nesse Departamento, teve a
oportunidade de organizar a Biblioteca, bem como a de preparar
inventários sobre o patrimônio histórico, artístico e cultural de alguns
municípios do Pará. O primeiro deles foi Melgaço. Creio ser oportuno
dizer que a publicação desse texto contou com a colaboração do Tribu-
nal de Contas dos Municípios, na ocasião sob a Presidência do Ira-
waldyr Rocha. Em virtude haver contraído um câncer de mama,
operado em 06 de outubro de 1994, pelo Dr. Antônio Franco Montoro,
no Hospital “Osvaldo Cruz”, em São Paulo, e com o fim do mandato do
La Penha como Secretário, a Célia passou a dedicar-se ao ensino e à
pesquisa sobre a melhor maneira de ensinar uma pessoa a redigir.
Com esse objetivo, ela abriu o Curso Minerva, já referido, no qual
ensina alunos dos Cursos Fundamental e Médio. Depois de dez anos
desenvolvendo essa pesquisa, usando, fundamentalmente, a prosa e a
poesia dos escritores paraenses, ela acaba de concluir um livro intitu-
lado Escreve(A), com bastante ilustração, no qual apresenta essa sua
pesquisa. Esse livro (que será editado brevemente), além de mostrar
a técnica de como redigir, contém inúmeros verbetes sobre informa-
ções literárias, científicas, históricas e filosóficas, necessárias ao
aprendizado e ao desenvolvimento dessa técnica. Creio ser oportuno
dizer que, na confecção do “layout” do livro, ela contou com a colabo-
ração de seu amigo, o artista plástico P P Conduru (filho de meu
antigo professor no CEPC e na EEP, Renato Pinheiro Conduru).

Célia, além do livro sobre o “Art Nouveau” em Belém, que escreveu


em 1984, e sobre o qual já fiz referência, escreveu (e escreve) uma
série de artigos, publicados em revistas especializadas, dentre os
quais, o realizado em parceira com seu irmão Joaquim-Francisco, Pro-
fessor Titular na Universidade de Harvard, sobre a passagem do
escritor Mário de Andrade, por Belém, em 1927.

Agora, falarei de nossos filhos. Jô, que nasceu em 16 de agosto de


1963, sob os cuidados do Dr. Albino Figueiredo, conforme já registrei,
teve como padrinho o tio Caboco e como madrinha, a engenheira civil
Vera Barata, filha do jornalista Frederico Barata que durante muito
tempo dirigiu os Diários Associados, em Belém. Ele era muito amigo
de meu sogro, e a Célia, muito amiga da Vera. Com relação a essa
amizade, creio ser oportuno contar o seguinte episódio. Quando
comecei a namorar a Célia, eu era aluno da Escola de Engenharia do
Pará (EEP), assim como a Vera. Quando a Célia contou para ela que
estava namorando comigo, a Vera ficou horrorizada e pediu-lhe para
acabar com o namoro, pois eu era muito moleque. (Para ver essa
molecagem, ver o artigo contido nestas Memórias, no qual falo de
minha passagem pela EEP.) Vera, casada com um indiano, mora nos
Estados Unidos há muitos anos. Voltemos ao Jô. Depois de estudar no
NPI/UFPA, fez Vestibular para o Curso de Arquitetura da UFPA, e
recebeu o grau de Arquiteto, em 1985. Depois de ensinar na UNAMA,
entre 1990 e 1996, em 1996 fez Concurso Público para a UFPA, onde
ensina até hoje, as disciplinas da Matéria Projeto. Em 15 de dezembro
de 2004, recebeu o grau de Mestre em Engenharia Civil, pela UFPA,
depois de defender a monografia intitulada Princípios de Desenho
para Vias-Canal: Proteção Sanitária, sob a orientação do professor-
doutor José Almir Rodrigues Pereira. Além de professor da UFPA, Jô
dirige o Escritório de Arquitetura Meia Dois Nove Arquitetura e Con-
sultoria, já referido. Ele casou-se, em 10 de junho de 1994, com Gisa
Helena Silva Melo, nascida em 06 de novembro de 1969, arquiteta
pela UNAMA, em 1992, Mestre em Ciências da Computação, pela Uni-
versidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em 28 de maio de
2004, com a tese intitulada Representando Esquemas Conceituais de
Bancos de Dados Geográficos para a Inferência Semi-Automatizada de
Padrões de Análise e orientada pelo professor-doutor Cirano Iochpe.
Depois de realizar um Concurso Público para a UFPA, em 1996, hoje
ela é professora Assistente ministrando as disciplinas da Matéria
Informática Aplicada à Arquitetura e ao Urbanismo e, também, coor-
dena o Programa de Incubação de Empresas de Base Tecnológica da
UFPA. Jô e Gisa têm dois filhos: Lucas e Vítor, nascidos em 03 de
novembro de 1994 e 19 de outubro de 2000, respectivamente.

Nossa filha Ádria, nascida em 28 de abril de 1967, conforme já fiz


referência, tem como padrinhos o Dr. Adriano Guimarães e a avó Rosa
Filardo Bassalo.

Depois de cursar o NPI, no período 1971-1983, iniciou a Licenciatura


em Ciências Biológicas na UFPA, em 1985, e concluiu apenas a Licen-
ciatura Curta, em 1987. Depois, entrou na União das Escolas Superio-
res do Pará (UNESPA, atual UNAMA) onde se formou em Economia,
em 31 de janeiro de 1998. Depois de prestar Concurso Público de Nível
Médio para o Tribunal de Justiça do Estado do Pará, em 1995 (apro-
vada em primeiro lugar), resolveu realizar o Curso de Direito, para
compatibilizar com seu emprego. Assim, em 21 de janeiro de 2005,
recebeu o grau de Bacharel em Direito, ainda pela UNAMA. Hoje,
dirige a Diretoria Administrativa e Financeira da Defensoria Pública.
Casou-se, em 03 de junho de 1995, com o engenheiro civil Saulo Mar-
celo Lima Aflalo, nascido em 19 de setembro de 1967. Antes, tiveram a
Anna-Beatriz, de 11 de junho de 1992. Hoje, eles têm mais um filho, o
Matheus, nascido em 13 de novembro de 2001.

Ao finalizar a minha saga de vida, gostaria de fazer alguns registros


sobre as duas viagens que Célia e eu fizemos no exterior.
Europa/Estados Unidos

Em 1991, Célia e eu idealizamos uma viagem para a Europa. Conhece-


dora dessa idéia, a professora Christine Pacheco, colega da Célia na
UFPA e muito sua amiga, combinou que faríamos juntos essa viagem.
Como o Joaquim estaria em Lisboa no começo de agosto e conside-
rando que ele já havia realizado várias viagens à Europa [ele fala flu-
entemente português (de Portugal), espanhol, francês, inglês e
italiano], pedimos que ele organizasse e nos acompanhasse em uma
tournée pela Europa. Assim, de acordo com seu Agente de Viagens
(“Rainbow Travel, Inc.”), entre 10 e 31 de agosto daquele ano, visita-
ríamos Lisboa, Madrid, Paris, Milão, Veneza, Florença, Pisa e Roma.
Assim, no dia 09 de agosto, de noite, seguimos do Rio de Janeiro para
Lisboa em um avião da VARIG. No final da manhã do dia 10, fomos
recebidos no Aeroporto de Lisboa pelo Joaquim, e por um grande
amigo dele e de meu sogro, Domingos Cunha Gonçalves, que traba-
lhava na Embaixada Brasileira nessa cidade portuguesa. Recordo-me
de um incidente inusitado naquele aeroporto. Como o Cunha Gonçal-
ves estava apressando o agente da Alfândega Portuguesa para nos
liberar logo, ele, dirigindo-se para o Cunha, disse-lhe: Doutor, deixe
pelo menos eu conferir as caras deles com os retratos de seus passa-
portes. É oportuno dizer que esse amigo do Joaquim nos proporcionou
uma bela estada em Lisboa, levando-nos, em seu carro Mercedes
Benz, de cor branca, para jantar, por duas vezes, uma, na noite do dia
em que chegamos, em um restaurante no qual víamos o Rio Tejo, e a
outra, em sua residência.

Em Lisboa, ficamos hospedados no Hotel Eduardo VII. Aí, visitamos


importantes pontos turísticos, como o Mosteiro dos Jerônimos, onde
está o corpo de Vasco da Gama, o descobridor do caminho marítimo
para as Índias, a Torre de Belém, de onde saíam as viagens marítimas
da famosa Escola de Sagres, e o bairro do Chiado, onde se encontra
uma estátua do poeta Fernando Pessoa, sentado em uma cadeira espe-
rando um interlocutor em uma cadeira próxima. Lembro-me de a
Célia e a Christine, simularem uma conversa com esse grande poeta
português. Em um desses passeios turísticos, em um bairro com casas
que vendiam antiguidades, um fato chamou a minha atenção: em uma
dessas casas, havia um letreiro: Antiguidades e Velharias. Aproveitei
para brincar com a Célia, dizendo-lhe: Eu não te disse que tua coleção
de antiguidades não passa de uma coleção de velharias?. Em tempo:
essa divisão é separada pela idade da peça. Se for maior de cem anos,
é antiguidade, em caso contrário, é velharia. Antes de deixarmos Lis-
boa, fomos a Cintra, visitamos um Palácio que era uma réplica do
Palácio de Versailles, onde, nesse dia, estava havendo um casamento.
Nesse dia comemos os famosos pastéis esfolhados. Foi também nessa
cidade que vimos uma outra placa curiosa de um dentista: Tratam-se
de dentes e de bocas.

Partimos de Lisboa para Madrid, no dia 14 de agosto, em uma viagem


de trem que saiu precisamente às 21h25min e chegamos à capital da
Espanha no dia seguinte, por volta das nove horas da manhã. Ficamos
hospedados no Hotel Sol Galgos. Aproveitamos o resto do dia para
visitar um pouco essa cidade majestosa. Lembro-me de haver passado
defronte de uma Praça de Touros, bem como pelo famoso campo do
Real Madrid, o Estádio Santiago Bernabeu e, também, de haver con-
templado o Monumento a Cervantes, em uma grande praça madrileña.
No dia 16, saímos do Hotel para visitar o Museu do Prado. Infeliz-
mente ele estava fechado. No entanto, aproveitamos a oportunidade
para ver Guernica, talvez o mais famoso quadro de Pablo Picasso, pin-
tado em 1937, e que se encontrava em uma casa próxima daquele
Museu, o Cáson del Buen Retiro. O quadro estava protegido por uma
espessa parede de vidro, no fundo de uma grande parede. Como eu só
conhecia esse quadro em preto e branco, lembro-me de haver ficado
um pouco chocado ao vê-lo, ao vivo, em suas cores reais: preto, cinza
e branco, com uns poucos pingos de vermelho.

Como a Célia estava com muita dor de cabeça, depois dessa visita,
voltamos ao Hotel. Para socorrê-la, chamei a camareira. Tentando
recordar as aulas de espanhol no CEPC, com a professora Valdez, dis-
se-lhe: Mi señora, yo quiero algo “quente” para mi mujer. Usei a pala-
vra quente, em vez de caliente, por não me lembrar dessa palavra..
Ela trouxe um prato de “purê de batata”. Foi o Joaquim quem nos
socorreu para amenizar a dor de cabeça da Célia. Uma outra situação
de não entendimento entre o que eu falava e o que meu interlocutor
espanhol entendia, ocorreu quando, ao fechar a conta do Hotel e reali-
zar o pagamento, disse: Hasta luego. Ouvi como resposta: Adios. Vi,
em Madrid, o que sempre diziam dos espanhóis, isto é, que eles não
entendem o que o brasileiro fala, embora, nós os entendamos em
quase tudo. Dizem os expertos que a razão disso é que a língua espa-
nhola tem menos fonemas do que a portuguesa.

Partimos para Paris no dia 16 de agosto, por volta das sete e meia da
noite. Chegamos no dia seguinte, por volta das oito e meia da manhã,
e nos hospedamos no Hotel Terminus Nord, defronte da Gare du
Nord. Nesse mesmo Hotel, acertamos uma excursão para visitar o
famoso Palais de Versailles, residência dos reis franceses, a cerca de
20 quilômetros de Paris. Lá, vi que o turismo europeu é tratado como
uma indústria. Por exemplo, até para fazer xixi tivemos de pagar o
uso dos sanitários. Como íamos ficar uma semana em Paris, progra-
mamos outras visitas. Assim, fomos ao Musée du Louvre. Quando
estávamos visitando a ala dos bustos dos Césares romanos, o Joaquim
ia enunciando o nome de cada um deles. Aí, ele me disse: Zeca, olha o
Caracalla. Eu me espantei, pois, na minha ignorância histórica, pensei
que Caracalla era apenas um local romano, pois me lembrei de uma
célebre apresentação dos Três Tenores (Luciano Pavarotti, Plácido
Domingo e José Carreras), nas Termas de Caracalla, por ocasião da
Copa do Mundo de 1990 na Itália.

Ainda no Louvre, visitamos outro ícone da cultura artística universal:


o quadro Mona Lisa (La Joconde), do gênio italiano Leonardo da Vinci.
A famosa pintura se encontrava na Salle des États, em uma câmara de
vidro, em um único salão, com acesso exclusivo pela Grande Galeria.
Decepcionou-me um pouco o seu pequeno tamanho, pois mede apenas
77 por 53 cm. É claro que, tanto na entrada quanto na saída desse
Museu, não ficamos indiferentes à visão da hoje célebre pirâmide de
vidro, com 666 vidraças e 22 metros de altura, projetada pelo arqui-
teto sino-norte-americano I(eoh) M(ing) Pei e mandada construir pelo
presidente François Mitterrand.

Dessa nossa visita à “cidade-luz”, ainda recordo de alguns episódios


hilariantes e inusitados. Por exemplo, na noite em que fomos visitar a
Torre Eiffel, saímos para jantar. Desde que combinamos essa viagem
à Europa, programei que só poderíamos gastar, diariamente e em
média, 20 dólares por pessoa. Tendo essa referência como meta,
andamos por Paris, naquela noite, à procura de um restaurante. Antes
de entrarmos, olhávamos para o menu e com os preços corresponden-
tes. Toda a vez que o preço indicado fugia àquela média, dávamos (eu,
Célia, Joaquim e Christine) uma grande risada, para espanto dos fre-
qüentadores dos restaurantes. Depois de jantarmos, pegamos um táxi
e fomos à Torre. Durante o trajeto, percebemos que o “chauffer” tinha
uma verdadeira raiva de turista japonês. Com o meu atavismo de
engenheiro estrutural, senti um certo medo quando, na penúltima
plataforma dessa Torre, estávamos, nós e mais alguns turistas, con-
centrados em um determinado ponto dela aguardando a chegada do
elevador que nos levaria ao mirante. Eu pensava que essa concentra-
ção poderia nos afundar. No mirante, além de vermos um boneco de
cera imitando o idealizador e construtor dessa torre, o engenheiro
francês Alexandre-Gustave Eiffel, tivemos oportunidade de olhar
Paris iluminada, confirmando a sua denominação mundial: “cidade-
luz”.

Além das visitas referidas acima, tivemos oportunidade de fazer com-


pras na famosa Galérie Lafayette; de visitar o Centre George Pompi-
dou (onde lamentei não encontrar quadros, pelo menos bem visíveis,
de Di Cavalcanti e de Portinari), o Musée Rodin, com a famosa estátua
do Pensador, em seu jardim, o Musée National de la Légion d´Hon-
neur et les Ordres de Chevalerie (onde Célia e Joaquim viram o regis-
tro da Légion d´Honneur de seu pai) e o Musée d´Orsay; de andar no
famoso bairro Montmartre, com sua famosa Églige du Sacré-Coeur e
sua bela escadaria, onde sentamos para descansar; de viajar de “Bate-
au-Mouche” pelo Rio Sena; de passear por suas margens, vendo os
famosos “bouquinistes”; de assistir a uma missa, no domingo dia 18,
na Cathrédale de Notre Dame, com vários cardeais co-celebrando-a e
vários padres entregando a hóstia consagrada (arrependo-me de não
haver comungado nesse dia); de sentar nos bancos do Jardin des Tui-
leries [cujo nome deriva do local onde existia argila que servia para
fabricar as famosas telhas (“tuiles”) francesas]; de conhecer o túmulo
de Napoleão Bonaparte, no Musée de l´Armée (Les Invalides); de cru-
zar o Arc de Triomphe, seguindo l´Avenue des Champs Élysées; de
atravessar La Place de la Concorde; de visitar o famoso cemitério Père
La Chaise [no qual vimos os túmulos dos cientistas franceses, o quí-
mico Joseph Louis Gay-Lussac e o físico Dominique François Jean
Arago, do escritor e poeta irlandês Oscar Wilde e do erudito francês
Hippolyte Leon Denizard Rivail (Allan Kardec), o criador da doutrina
espírita, cujo túmulo estava cheio de flores], o criador da doutrina
espírita];e de almoçar em restaurantes nos famosos Boulevards (um
desses almoços foi oferecido a mim e a Célia, pelo professor Salme-
ron, que mora em Paris). Esses nossos deslocamentos eram feitos por
metrô, táxi e ônibus. Aliás, em uma dessas viagens de ônibus, quis
testar meu francês. Estávamos voltando para nosso Hotel, que ficava
defronte da Gare du Nord, conforme já falei. Levantei-me e perguntei
ao motorista: Monsieur, vous passé “defronte” Gare du Nord? Apesar
de falar defronte em vez de devant (que havia esquecido na ocasião),
o motorista respondeu: Oui, Oui. Foi também nesse Hotel que, na
noite de 19 de agosto, Célia e eu vimos a TV Francesa apresentar uma
reportagem sobre a prisão de Mikhail Gorbachev, então Presidente da
União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), prisão essa que
iniciou a queda do comunismo no Leste Europeu.

Na manhã do dia 22 de agosto, às 7h14min, saímos de trem da Gare


de Lyon com destino a Milão. Depois de trocar de trem em Lausanne,
na Suíça, chegamos a essa famosa cidade do norte da Itália, por volta
de cinco horas da tarde, onde nos hospedamos no Milan Hilton.
Durante essa viagem de trem, lembro-me de ficar conversando com o
Joaquim e Célia no final do trem, e apreciar a paisagem do interior da
França. Vimos imensos campos de cultivo de girassóis. Quando saí-
mos de Lausanne, onde comemos os famosos chocolates de Kopenha-
gen, e já cansado, e ainda conversando com o Joaquim, perguntei-lhe
se ainda faltava muito para chegar na Itália. Ele me disse que eu sabe-
ria logo se havíamos chegado, pela mudança no visual das casas. Com
efeito, quando começamos a ver casas com roupas, inclusive íntimas,
penduradas nas janelas, percebi que já estava na terra natal de minha
mãe, pois me lembrei de um velho aforisma: A Itália é o Brasil que
deu certo. Registro que, em Milão, depois de conhecer sua célebre
Opera (onde se apresentou nosso músico maior, Carlos Gomes), e a
sua famosa Catedral, fomos almoçar em um restaurante, onde come-
mos uma excelente lasanha, regada com o “vinho da casa”. Nesse dia,
extrapolamos, e muito, a cota de 20 dólares “per capita”.

De Milão, fomos para Veneza, no dia 23, às 15h05min, e chegamos lá


depois de duas horas e quarenta minutos de viagem de trem. Como
não sabíamos que o Continental Hotel, para onde iríamos, ficava pró-
ximo de uma estação de trem, saltamos em um ponto imediatamente
anterior. Pegamos um táxi e rumamos para uma estação de vaporetos
para atravessarmos um dos famosos canais venezianos, e nos alojar-
mos. Lembro-me muito bem de alguns turistas acharem estranho ver
quatro pessoas carregando suas malas para pegar o vaporeto. No dia
seguinte, pegamos outro vaporeto que nos levou à célebre Praça de
São Marcos, singrando o Grande Canal. Como não poderia ser dife-
rente, vimos os famosos pombos dessa Praça, bem como o relógio
anunciando horas e meias-horas, pelo som de um martelo batendo em
um sino, conduzido pelas mãos de um boneco metálico acionado por
algumas engrenagens de rodadas dentadas. Visitamos a Basílica de
São Marcos e o Palácio dos Doges, este com seu grande portal gótico,
a Porta della Carta, de frente para a “piazzetta”. Entre a Praça e o
porto dos vaporetos, havia uma grande feira, na qual Célia, Christine
e Joaquim compraram colares de coral. Infelizmente não andamos de
gôndolas.

No dia 24 partimos, ainda de trem e no final da tarde, para Roma.


Quando estávamos em um bar da estação esperando a hora de embar-
car, Célia e Christine pediram um “gelato” (sorvete) anunciado em
um menu apresentado pelo garçom. Esse “gelato” era tão grande que
duas crianças, que estavam com seus pais e defronte de nós, arregala-
ram os olhos. Chegamos no dia seguinte em Roma, e nos hospedamos
no Jolly Hotels-Leonardo da Vinci. Nossa estada em Roma se estende-
ria até o final do mês de agosto e, portanto, teríamos cerca de uma
semana para completar nosso giro na Europa. Em Belém, havíamos
acertado que, depois de Milão e Veneza, visitaríamos Florença e Pisa,
seguindo depois para Roma. Desta, iríamos até a terra de minha mãe,
Castelluccio Inferiore, na Província de Potenza, cerca de 500 km de
Roma, em direção ao sul da Itália. Contudo, por um mal-estar da
Célia, seguimos direto de Veneza para Roma.

Neste instante, é preciso fazer um parêntesis para explicar essa


doença da Célia. No começo de 1991, ela começou a sentir problemas
no coração. Então, foi ao Rio de Janeiro fazer uma consulta, orientada
por sua irmã médica, a Socorro, que reside nessa cidade, conforme já
mencionei. O resultado dessa consulta foi alarmante. Um importante
médico em Niterói, que acabara de chegar de um Congresso Internaci-
onal sobre problemas de coração. Examinou-a e diagnosticou um pro-
blema no músculo de seu coração e que a impediria de ter uma vida
normal. Ele sentenciou: De agora em diante, a senhora não poderá
fazer muito esforço; deve andar, devagar, como quem anda vendo
vitrines. Ele mencionou até a possibilidade de ela fazer, no futuro, um
transplante cardíaco. Pois bem, um dos motivos dessa nossa viagem
ao exterior era para ela fazer um novo exame, desta vez, nos Estados
Unidos, mais precisamente, em Boston, onde reside o seu irmão Joa-
quim. Ao organizarmos essa viagem, pretendíamos iniciá-la por Bos-
ton, onde ela faria os exames pedidos e, depois, seguiríamos para a
Europa. Contudo, o médico que faria o exame, um professor da Escola
de Medicina da Universidade de Harvard, Dr. Joseph Abelmann, só
estaria em Boston no começo de setembro. Por isso, iniciamos a via-
gem pela Europa. Creio ser oportuno dizer que o médico da Célia em
Belém, o Dr. Paulo Toscano, que acompanhava e ainda acompanha
esse problema cardíaco da Célia, nunca concordou com aquele diag-
nóstico.

Agora, voltemos a Roma. Como a Célia já estava cansada da viagem, e


lembrando da recomendação do médico carioca, decidiu que não iria a
Castelluccio. Então, Joaquim e Christine ficaram com ela. Assim, eu
aproveitei a presença de meu cunhado Pedro Crispino (cujos pais
eram também da mesma terra de minha mãe), que estava em Roma, e
fomos para Castelluccio, de ônibus estatal com ar condicionado. De lá,
visitamos Florença e Pisa. Em Castelluccio, conheci a viúva de meu tio
Paulo Filardo, tia Tereza Pallazo Filardo e seu filho, Paulo (casado
com Itália). Conheci, também, a prima Madalena, filha de meu tio
Felice Filardi, que mora na mesma casa onde minha mãe nasceu.
Aliás, creio ser oportuno dizer que, meus tios maternos, Paulo e
Felice, tiveram o sobrenome diferente: Filardo e Filardi, respectiva-
mente. Segundo contou-me meu primo Paulo, essa diferença ocorreu
na ocasião do registro deles no cartório de Castelluccio Inferiore, con-
forme tive oportunidade de registrar anteriormente. Com Paulo,
Pedro Crispino e seu primo Mário, tive a oportunidade de conhecer a
famosa Ponte Itália, uma ponte de concreto apoiada nos pilares mais
altos de toda a Europa, cerca de 300 metros de altura. Nessa visita à
terra de minha mãe, meu primo Paulo me mostrou o caminho que
minha mãe (sua tia), seu pai e seus outros tios, quando crianças e
adolescentes, seguiam para ir trabalhar no campo (“campagnia”), aju-
dando os pais, Paulo e Madalena, que eram lavradores. Em nossa casa
da Travessa São Pedro, lembro-me de minha mãe sempre recordar
que ela e seus irmãos saíam de madrugada para o campo e só volta-
vam de noite.

De Castelluccio, voltamos para Roma, ainda de ônibus com ar condici-


onado. Depois, pegamos o trem e seguimos para Florença, pois meu
cunhado Pedro queria visitar uma casa de heráldica, o Istituto Coccia,
dirigido pela senhora Elena Coccia, a quem havia encomendado, em
uma viagem anterior que havia feito à terra natal de Niccolò Maquia-
vel e Dante Alighieri, a pesquisa da origem dos Crispino. De Florença,
lembro-me de ver, pela primeira vez em minha vida, um ônibus ser
dirigido por uma mulher, por sinal, uma bonita loura. Vi, também, a
Igreja de Santa Reparata, hoje conhecida como Duomo de Florença.
Aliás, em uma praça perto dessa Igreja, vimos as marcas das enchen-
tes do Rio Arno, algumas delas atingindo a metade das residências.
Quando estávamos dentro do trem para irmos a Pisa, tive uma prova
da tradicional pontualidade (claro, quando não ocorre nenhum sério
problema mecânico ou elétrico no trem) dos horários de partida dos
trens europeus. Nosso trem saía às 11h01min da manhã. Quando o
relógio da estação marcava a hora de embarque, iniciei uma frase que
não terminei: Este trem não sairá…, antes de completar a frase, na
hora, o trem começou seu movimento. Depois de uma hora de viagem,
chegamos a Pisa. Meu interesse em visitar essa cidade, tinha dois
motivos. O primeiro, era o de falar com o meu amigo o físico Roberto
Vergara Caffarelli, e agradecer-lhe o convite (o qual, infelizmente,
não foi possível aceitar) que me fizera para trabalhar com ele sobre a
contribuição de físicos italianos ao desenvolvimento da Física Brasi-
leira. Assim, fomos, Pedro e eu, ao Departamento de Física da Univer-
sidade de Pisa, com endereço na Piazza Torricelli 2, para encontrá-lo.
Aliás, fiquei surpreso ao ver que em sua sala de trabalho não havia ar
condicionado, apenas um grande ventilador, bastante usado e baru-
lhento. No entanto, esse desconforto físico era compensado por um
conforto intelectual, qual seja, a presença de um computador de
última geração. Depois dessa visita, demos seguimento ao segundo
motivo de estar em Pisa: ver a famosa Torre de Pisa, onde Galileu,
quando ensinava naquela Universidade, e segundo conta a história,
fez as célebres experiências com as quais concluiu que os corpos, no
vácuo, caem com a mesma aceleração. Infelizmente, não pude subir
na Torre e sentir-me “galileano” pois, naquela ocasião, não estava
aberta a visitação pública. Com essa frustração, meu cunhado e eu
seguimos então para a estação ferroviária de Pisa, onde tomaríamos o
trem que nos levaria de volta a Roma. Desta vez, o trem atrasou.

Em Roma, de novo junto com a Célia, Joaquim e Christine, fizemos


algumas visitas turísticas. Uma delas, foi ao Coliseu. Quando estáva-
mos por baixo da arena, onde os leões comiam os cristãos e os gladia-
dores lutavam, eu, vendo os túneis por onde passavam os leões, tive
meu atavismo de engenheiro estrutural novamente acionado ao
observar como os romanos, que construíram esse local de espetáculos
públicos, venciam grandes vãos com vigas (traves) apoiadas em pila-
res (colunas). Quando as distâncias entre os pilares eram maiores do
que a viga, eles apoiavam-nas em entalhes feitos em outras vigas, que
se projetavam, em balanço, depois de apoiadas em outros pilares.

Além dessa visita, estivemos também na famosa Fontana di Trevi, na


Piazza di Trevi, cujo projeto inicial fora idealizado pelo célebre arqui-
teto italiano Gian Lorenzo Bernini, a pedido do Papa Urbano VIII
(amigo de Galileu), em 1629. (Registre-se que a construção dessa
fonte só foi iniciada, em 1732, por Nicola Salvi, e concluída, em 1762,
por Guiseppe Pannini.) É claro que, obedecendo à tradição, ficamos de
costas e jogamos moedas nessa fonte para que fossem realizados os
pedidos que fizéramos. O meu, infelizmente, não me lembro qual foi.
Aliás, na noite que fizemos essa visita, recordo-me de haver visto, nos
restaurantes próximos dessa fonte e que serviam lagostas, expostas
vivas, em aquários, para serem escolhidas pelo cliente que as degusta-
riam. Creio ser oportuno dizer que, ainda em Roma, tivemos oportu-
nidade de ver uma outra grande obra de Bernini, qual seja, a Capela
Cornaro, na Igreja de Santa Maria della Vittoria, cuja peça central é o
Êxtase de Santa Teresa d´Ávila.

Nas andanças em Roma (durante as quais me sentia pisando na Histó-


ria), recordo-me de, pela primeira vez nessa nossa viagem à Europa,
haver apanhado chuva, e de presenciar uma tentativa de assalto, à
bolsa da Christine, por meninas vadias. A chamada imediata dos
“carabinieris” (policiais romanos), por Christine e Célia, as fez correr
sem consumarem o assalto.

De nossa estada em Roma, além dos fatos marcantes narrados acima,


gostaria de registrar a contemplação de algumas obras do grande pin-
tor e escultor italiano Michelangelo di Ludovico Buonarroti Simoni,
como as estátuas: de Moisés, na Basílica de São Pedro Acorrentado e a
Pietà, na Basílica de São Pedro, e seus famosos afrescos na Capela Sis-
tina, que acabara de ser restaurada. Fiquei emocionado quando vi o
afresco representando Sócrates e Platão caminhando, conforme vira
em vários livros de História da Ciência nos quais estudei. Ainda
quando estávamos nessa Basílica, espantei-me ao ver que um dos pés
da grande estátua de São Pedro, quase no final de sua grande nave,
estava completamente liso, sem os dedos, por causa de milhões (ou
bilhões?) de peregrinos, durante séculos, a passar a mão pedindo
algum tipo de proteção ou de agradecimento por alguma graça alcan-
çada. Creio ser ainda oportuno registrar que, infelizmente, no
domingo (dia 25 de agosto) em que visitamos o Vaticano, não vimos o
Papa João Paulo II (que se encontrava em Castel Gandolfo, a residên-
cia papal de verão), mas apenas a sua voz dando a benção aos turistas
que estavam na grande Praça do Vaticano.

No sábado, 31 de agosto, por volta das nove horas da manhã e em um


avião da TW, Célia, eu, e Joaquim deixamos o Aeroporto Leonardo da
Vinci e voamos para Boston. Christine e meu cunhado Pedro Crispino
ficaram em Roma, pois só voltariam ao Brasil dias depois. Chegando
em Boston, a Jill, mulher do Joaquim, nos apanhou no aeroporto e nos
levou para a casa deles, localizada no lado direito de uma rua bem
tranqüila e sem saída, a Hillside Terrace 41, na região de Belmont.
Essa casa, tem quatro pavimentos (um porão, dois andares e um
sótão), e uma garagem. Depois de a Jill recolher o carro na garagem,
entramos, Célia e eu, e nos instalamos em um quarto, no segundo
andar, que fica perto da escada de acesso ao sótão, e defronte da
escada principal. À esquerda desta, está a suíte do Joaquim e Jill e, ao
seu lado, o quarto onde dorme o neto, o Tyson, filho da Anita. Depois
de instalados, descemos para conhecer o primeiro andar. Nele, à
direita e ao lado do pequeno pátio da entrada principal, fica a ampla
sala de visitas, com TV, parte da biblioteca do Joaquim, a lareira, o
aquecedor e a mobília de sala. À esquerda desse pequeno pátio, locali-
za-se a sala de jantar que se comunica com a cozinha. Nesta, há um
acesso para o porão, onde ficam a caldeira que esquenta as águas dos
banheiros e o gás para os aquecedores. Há, também, uma porta para
um agradável terraço descoberto do qual se divisa o quintal.
Uma vez instalados em Boston, a grande preocupação do Joaquim era
a de providenciar, a partir da segunda-feira, dia 02 de setembro, o
exame médico da Célia para verificar a real situação de seu coração.
Assim, creio que, na quarta-feira, fomos ao Massachusetts General
Hospital afim de o professor-doutor Joseph Abelmann examinar a
Célia. O Joaquim entregou as várias chapas radiográficas e ia descre-
vendo os sintomas que ela Célia sentia. Enquanto o Dr. Abelmann
estudava as chapas, o Joaquim contou-lhe, também, o que o médico
carioca havia recomendado, ou seja, que a Célia passasse a “andar
como vendo vitrines”, por causa de uma lesão muscular grave no seu
coração, com um possível transplante cardíaco futuro, conforme rela-
tei acima. Lembro-me de ele virar-se para o Joaquim e exclamar:
WHAT?! (O QUE?!). Depois de examiná-la, disse ao meu cunhado que
não encontrara nenhuma lesão muscular anormal grave, e que a anor-
malidade que observara era congênita. Desse modo, concluiu: ela
poderia e deveria viver normalmente. Recordo-me de que, quando
cheguei na casa do Joaquim, estava com uma terrível dor de cabeça,
devido à ansiedade pela qual passei sobre o estado de saúde da Célia.
Imediatamente a Jill me deu dois comprimidos de Tylenol. Como eles
tiveram um efeito quase imediato, passei a adotá-los sempre que a
cabeça me doía ou quando ainda dói, “aposentando” a velha Cibalena
que eu sempre usava.

Como nossa viagem de volta ao Brasil estava marcada para o dia 08


de setembro, um domingo, e considerando que o tratamento da saúde
da Célia era o objetivo principal de nossa ida a Boston, não podemos,
por isso, conhecer outros estados norte-americanos; isso aconteceu
em uma outra viagem que fizemos aos Estados Unidos, e que relatarei
mais adiante. Aproveitando a estada em Boston, Célia e eu tivemos
oportunidade de conhecer a Universidade de Harvard, as livrarias em
seu entorno, bem como o famoso Massachusetts Institute of Techno-
logy (MIT). Aliás, nessa visita ao MIT, registro dois fatos inusitados. O
primeiro, foi o de andar em um ônibus dirigido por uma mulher, desta
vez, diferentemente da que vi dirigindo em Florença, ela era de raça
negra, igualmente bonita como a loura “firense”. O segundo, foi o que
vi em um quadro de avisos no hall da entrada principal do MIT. Ao
lado de um convite para assistir a uma conferência do famoso físico
Victor Frederick Weisskopf, então Professor Emérito desse legendário
Instituto de Tecnologia, havia, também, um convite de lésbicas e de
gays para a festa que estavam organizando. Ainda no decorrer dessa
visita ao MIT, vimos uma festa tradicional que acontece no início do
ano letivo nas Universidades Americanas: os filhos que iniciam seus
estudos universitários, levando seus pais para conhecer o campus e os
alojamentos onde passarão a viver. A mesma festa presenciamos no
campus da Universidade de Harvard. Nesta, observei uma coisa adici-
onal: esquilos comendo castanhas, misturando-se com os estudantes e
seus familiares, nos grandes jardins entre os prédios do campus.
Aliás, recordo-me de ver também esquilos comendo castanhas, na
garagem da casa do Joaquim.

No sábado, dia 07 de setembro, na véspera de Célia e eu deixarmos


Boston, tivemos oportunidade de participar de um tradicional pic-nic
americano, tendo o famoso “hot-dog” (“cachorro-quente”) como prin-
cipal iguaria, ao acompanharmos Jill e Joaquim à casa de um vizinho
fronteiro onde, em seu quintal, aconteceu essa festa.

Ao concluir essas lembranças sobre minha primeira viagem ao exte-


rior, não poderia deixar de registrar o desespero que fui acometido ao
chegarmos no aeroporto de Miami, depois de deixarmos o de Boston
(para o qual fomos levados por Jill e Joaquim), em um avião da Delta
Airlines. Entre a chegada a esse aeroporto e a partida para o Brasil
em um avião da VARIG, dispúnhamos de quatro horas para encontrar
o balcão dessa companhia aérea brasileira. Contudo, ao ver a imensi-
dão desse aeroporto, desesperei-me por saber que meu inglês “macar-
rônico” não seria suficiente para chegar ao balcão desejado. Embora
controlado pela Célia, que me pedia calma, aproximei-me de um cida-
dão norte-americano e fiz-lhe a seguinte pergunta: Where is the
Varig?(“Onde é a Varig”?). Ele respondeu-me, em inglês, natural-
mente, como chegar lá. Porém, minha aflição, somada ao fato de não
ter o hábito de falar inglês, mas apenas de ler, fizera-me não entender
nada do que ouvira. Meu desespero foi aumentando. Porém, como
existe uma grande quantidade de lojas nesse aeroporto e com aten-
dentes cubanas, a Célia aproximou-se de uma delas e perguntou-lhe,
em espanhol, onde ficava a Varig. Ela orientou a Célia como chegar lá
e, depois de poucos minutos de andança vimos, com alegria, o logo-
tipo (uma rosa dos ventos) da VARIG. Assim, no dia 08 de setembro
partimos de Miami em um DC-10 da VARIG, rumo a Belém, com escala
em Manaus. Na manhã do dia 09, Célia e eu chegamos na 629. Havía-
mos concluído nossa primeira viagem ao exterior. Começamos a pen-
sar em uma segunda viagem, o que aconteceu em 1995, conforme
descreverei a seguir.

Estados Unidos/México

Essa segunda viagem ao exterior que Célia e eu realizamos ocorreu


em junho de 1995. No dia 7 de junho, pegamos o avião da VARIG e
seguimos para Miami. Lembro-me de termos como companheiros de
viagem, Maria Lúcia e Maria da Graça (esta já falecida), primas da
Célia, e o artista plástico Benedito Melo (também já falecido), que
havia sido meu colega no SMER, conforme já referi nesta minha saga
de vida. Durante essa viagem, um fato chamou minha atenção: a água
verde e límpida dos mares do Caribe. De Miami, seguimos para Bos-
ton em um avião da Delta Airlines. Junto conosco, seguiu também o
Benedito, pois ele iria visitar sua filha que morava nessa cidade. As
primas Marias foram para Nova York. Em Boston, fomos recebidos no
aeroporto pela Jill e rumamos para sua casa, onde fomos alojados no
mesmo quarto em que ficáramos na viagem de 1991. Nossa estada em
Boston foi rápida, pois, nesta viagem, visitaríamos, com o Joaquim,
duas outras cidades norte-americanas: Nova York e Los Angeles.

Partimos para Nova York em um trem da AMTRAK. Depois de desem-


barcar na estação ferroviária próxima do famoso Times Square,
rumamos para o hotel localizado na Ilha de Manhattan, em uma
transversal da Quinta Avenida (“5th. Avenue”). Como iríamos passar
cerca de dois dias nessa cidade, conhecida como “esquina do Mundo”,
aproveitamos o pequeno tempo de que dispúnhamos para conhecer
seus principais pontos turísticos. Assim, logo na noite da chegada,
depois de jantarmos em um restaurante, atendido, inclusive, por um
garçom brasileiro, rumamos para visitar o Empire State Building e, na
passagem, vimos o célebre Carnegie Hall, onde a “bossa nova” brasi-
leira, na voz de João Gilberto, foi pela primeira vez apresentada ao
público norte-americano, em 11 de novembro de 1962. Do mirante
daquele edifício, tivemos a oportunidade de ver Nova York iluminada,
assim como a Estátua da Liberdade ao longe. Creio que, ainda nesta
noite, passamos pela Broadway e vimos os famosos anúncios lumino-
sos indicando os espetáculos teatrais. Infelizmente, não vimos
nenhuma das peças feericamente anunciadas.

No dia seguinte, fizemos outras visitas. A primeira foi ao American


Museum of Natural History, pois eu queria ver o esqueleto de um
dinossauro que está exposto no grande salão de entrada. Satisfeito
com o que havia visto, disse ao Joaquim para irmos embora. Ele,
espantado, perguntou se eu não queria ver o restante do Museu. Dis-
se-lhe que, não sendo botânico, queria ver apenas aquele esqueleto,
muitas vezes divulgado em filmes norte-americanos e documentários
científicos. Quando o Joaquim contou essa história para a Jill, ela não
disse nada para ele, apenas esboçou um sorriso, mas, certamente pen-
sou: o Bassalo é realmente esquisito. Ela confirmara o que haviam
dito de mim quando estiveram em Belém, em 1976.

Aliás, creio ser oportuno fazer um parêntesis para recordar aspectos


inusitados dessa visita. Joaquim e Jill vieram com as filhas Anita e
Dorothea. Como minha sogra, como muita razão, enchia de mimos as
netas norte-americanas, minha filha Ádria, a neta brasileira da Dona
Celina, ficou enciumada e arquitetou uma maneira de se vingar. Den-
tre as coisas que maravilharam a Anita em sua visita à terra natal de
seu pai, foi o chiclete brasileiro, o “Ping-Pong”. Para continuar apreci-
ando essa “delícia” brasileira, guardou uma caixa para levar consigo
aos Estados Unidos. A Ádria, ao ver o local onde ela havia guardado a
guloseima, sorrateiramente, sem a Anita ver, pegou a caixa e a escon-
deu. Vendo a aflição de sua sobrinha ao se aproximar o dia da partida
sem o seu chiclete favorito, a Célia chamou a Ádria e a fez indicar o
local do esconderijo. Com a caixa em mãos, a alegria voltou ao bonito
rosto da hoje cantora da Música Popular Brasileira em Boston. O
outro fato marcante dessa viagem foi a indignação da Jill ao ver a
miséria do povo paraense, na periferia de Belém.

Agora, voltemos à nossa estada em Nova York. Depois de visitarmos o


Museu de História Natural, fomos ao Solomon R. Guggenheim
Museum ver algumas obras de arte. Certamente, ao olharem essas
obras, seguindo uma rampa em espiral, Célia e Joaquim ficaram
maravilhados com o que viam, pois muitas delas eram de seu conheci-
mento pelos estudos de História da Arte. Eu, de minha parte, ia
ouvindo sem muito entusiasmo as explicações que eles me davam,
devido ao meu “sentimento artístico ‘quase’ amortecido”, já várias
vezes referido nestas Memórias. [Nesta oportunidade, quero fazer um
registro do abalo que teve esse meu sentimento quando, na volta de
Nova York e no Museum of Fine Arts de Boston (levado por Jill e Joa-
quim) vi, ao vivo, o famoso quadro The Postman Roulin, de Vincent
van Gogh. Esse abalo decorreu da impressão que tive de ver que suas
cores vivas queriam saltar da pintura por causa da textura saliente
das tintas.] Depois do Guggenheim, pegamos um táxi e fomos ver a
Estátua da Liberdade. Como deveríamos tomar um pequeno barco e ir
até a ilha onde ela está localizada, disse ao Joaquim que já estava
satisfeito em vê-la de longe, porém bem mais perto do que a divisara
do Empire State. Na volta ao Hotel, passamos pelo Central Park. No
domingo em que estávamos voltando para Boston, tivemos oportuni-
dade de ver um desfile promovido pelos porto-riquenhos, na Quinta
Avenida, bem como, apreciarmos, de longe, o hoje tristemente lendá-
rio World Trade Center. Naquele dia, os que olhavam para ele, como
nós três, não podiam imaginar que, seis anos depois, no dia 11 de
setembro de 2001, ele seria alvo do mais brutal ataque terrorista
acontecido até hoje no planeta Terra. Registro que não vimos a sede
das Nações Unidas, projeto de nosso arquiteto-mor, Oscar Niemeyer.
Registro, também, que vimos os famosos prédios de Nova York com
pequenas escadas dando acesso ao primeiro andar e ao sub-solo, tão
comuns em filmes que têm essa cidade como palco.

De volta a Boston, nos preparamos para visitar Los Angeles, cidade


onde moram a filha do Joaquim, a atriz de cinema/teatro Dorothea, e
seu marido, o roteirista de cinema David Cohen, e onde, também,
reside meu amigo Antonio Boulhosa Nassar, professor da Universi-
dade da California, Los Angeles (UCLA). Ainda em um avião da AA,
Joaquim, Célia e eu viajamos para aquela cidade, em junho de 1995.
Quando chegamos no aeroporto dessa bela cidade americana, no lito-
ral do Oceano Pacífico, ao colocarmos as bagagens no carro do genro
do Joaquim, este sofreu um pequeno acidente. Uma senhora ameri-
cana, ao sair com o carro que estava na frente do nosso, deu marcha-
ré em vez de avançar, apertando as pernas dele. Logo que nos
instalamos no Hotel Biltmore, o Joaquim entrou imediatamente em
contato com a Jill para ver como poderia usar seu Plano de Saúde para
saber da real situação desse pequeno acidente. Enquanto Célia e eu
ficávamos no Hotel, Joaquim e seu genro foram a um Hospital para
ver o que havia acontecido com suas pernas. Apesar de o médico que o
atendeu haver dito que não havia nenhuma conseqüência maior, Joa-
quim decidiu voltar para Boston, dois dias depois de nossa chegada.

Como sua filha Dorothea reside em Beverly Hills, uma cidade dentro
de Los Angeles, fomos visitá-la. Primeiro almoçamos em um restau-
rante em que ela era atendente. Depois, enquanto fazíamos hora para
jantar na casa dela, fomos conhecer o distrito de Hollywood, com seus
estúdios de cinema e os “Boulevards” característicos. Senti uma certa
emoção quando vi o painel com esse nome, símbolo da cinematografia
mundial, engastado nos contrafortes (“foothills”) de montanhas que
limitam essa região. Tivemos também a oportunidade de passar pela
frente das famosas mansões dos artistas de cinema, localizadas nes-
sas colinas. Durante o jantar na casa da Dorothea, pudemos assistir os
filmes e peças de teatro em que ela trabalhou. É oportuno registrar
que, anos mais tarde, ela participou do filme sobre a vida do notável
cantor e ator Frank Sinatra.

Depois que o Joaquim voltou a Boston, nosso cicerone em Los Angeles


foi o Nassar. Com ele, Célia e eu conhecemos o célebre Chinese Thea-
ter, no Sunset Boulevard, em cuja frente e na calçada de sua imedia-
ção – a calçada da fama – estão imortalizadas, em cimento, as mãos e
os pés, assim como os nomes (no centro de estrelas gravadas em
mosaicos distribuídos ao longo da calçada) de inesquecíveis artistas
de cinema.

Ainda com o Nassar, Célia e eu visitamos o campus de Los Angeles da


Universidade da California (UCLA). Ele nos mostrou a sala onde
ministrava aulas, bem como os laboratórios de Física desse campus.
Nestes, vimos duas coisas que nos marcaram profundamente. Pri-
meiro, uma sala de acústica em que não se ouve nenhum barulho, pois
suas paredes, com saliências e reentrâncias, não permitem o som
refletir. O outro, foi o experimento que o professor orientador do
Nassar, Seth Putterman, estava realizando sobre sonoluminescência,
ou seja, a produção de luz por energia sonora. Um dos físicos que par-
ticipou dessa experiência, Robert A Hiller, nos mostrou um ponto azul
luminoso em uma caixa sonora escura. Nessa ocasião, ele contou um
fato inusitado. Quando houve a produção desse novo fenômeno físico,
eles prepararam um artigo, ilustrado com a foto que mostrava aquele
ponto azul, e enviaram para uma Revista científica. O editor da
Revista mandou dizer para eles que o trabalho seria publicado, porém
o ponto azul seria apagado, por acreditar que era um defeito da chapa
fotográfica. Claro que o artigo foi publicado (Physical Review Letters
77, p. 2345, 1996), com o ponto “espúrio”, pois ele era a razão do
artigo.

Como estávamos perto de viajar para o México, enquanto a Célia se


despedia da Dorothea e do marido, Nassar levou-me ao famoso Cali-
fornia Institute of Technology (CALTECH), onde trabalhou o físico e
Nobel Richard Philips Feynman, que morreu em 1988. Quando fomos
ao andar onde ele tinha sua sala, falamos com a secretária que o ser-
viu, Helen Tuck. Ela lembrou com emoção dele e nos ofertou um
exemplar de uma Revista do CALTECH no qual havia uma matéria
sobre a sua famosa participação na Comissão Rogers, que examinou a
explosão com o ônibus espacial Challenger, ocorrida no começo de
1986. Feynman mostrou que a culpa cabia à NASA quando, em uma
reunião dessa Comissão, televisionada no dia 11 de fevereiro desse
ano, mergulhou um anel de borracha em um copo de água gelada e, ao
apertá-la, a peça não mostrou nenhuma elasticidade. Segundo afirma
o físico Leonard Mlodinow, em seu livro O Arco-Íris de Feynman (Sex-
tante, 2005), com essa simples experiência Feynman evidenciou a
culpa da administração da NASA, que ignorou a advertência dos enge-
nheiros para que adiassem o lançamento por causa da temperatura
extremamente baixa naquela manhã, em Cabo Canaveral (- 1o C),
muito abaixo da menor temperatura ocorrida nos lançamentos anteri-
ores: + 12oC. Devo ainda registrar que, ao sairmos da sala da secretá-
ria Helen, vimos, na antiga sala do Feynman, um físico calvo
trabalhando: era John Schwarz, um dos criadores da Teoria de Cor-
das.

Ao término dessas reminiscências de nossa visita a Los Angeles, devo


registrar dois fatos por me parecerem muito relevantes. Depois de o
Nassar levar Célia e eu para almoçarmos em um restaurante cuja
dona era brasileira, seguimos a Free-Way 405 para visitarmos a casa
em que ele então morava. Em uma certa altura dessa auto-estrada,
toda de concreto, com oito pistas, quatro de cada lado do canteiro
central, sentimos um pequeno tremor no Corola do Nassar. Era um
mini-terremoto dos muitos que acontecem freqüentemente na Califór-
nia (devido à falha de San Andrés), conforme ele advertiu. O outro
fato, foi o seguinte. Em nossa conversa, falei-lhe que, desde 1973,
vinha lutando para criar um Instituto de Ciência e Tecnologia da Ama-
zônia (ICTA), em Belém, para estudar os problemas de engenharia
que acontecem na Amazônia e propor soluções adequadas à nossa
região. Ele imediatamente compreendeu o alcance desse Instituto e,
desde então, vem lutando para a sua implantação, juntamente comigo
e com o Paulo de Tarso Santos Alencar. No entanto, e apesar de esfor-
ços, ainda não conseguimos convencer as autoridades paraenses res-
ponsáveis pelo Desenvolvimento Amazônico da necessidade urgente
desse ICTA. Sobre a luta da criação desse Instituto ver artigos incluí-
dos nestas Memórias.

No dia 22 de junho de 1995, no vôo 1944 da Delta, Célia e eu seguimos


para a cidade do México. Logo no aeroporto, fomos beneficiados pelo
critério estatístico da Alfândega Mexicana, qual seja, o de não termos
nossas bagagens revistadas (havíamos comprado um FAX em Los
Angeles, dentro do valor permitido para turista), pois, ao passarmos
por ela, acendeu uma luz verde, em conseqüência, certamente, de
atingirmos um determinado número de passageiros que eram libera-
dos da revista. Ali, fomos recebidos por um Agente de Viagens (con-
tratado em Belém), que nos levou ao Hotel María Isabel Sheraton,
localizado na Plaza de la Independencia, com um grande obelisco em
seu centro. Na ida para o Hotel, tive uma sensação de estar em casa,
ao ver, nos sinais de trânsito quando fechados, pedintes e vendedores
de todo o tipo de coisas. Chegando ao Hotel, e quando estávamos nos
instalando no quarto reservado, percebemos que havia um barulho
tremendo em virtude de consertos que estavam sendo realizados em
quartos vizinhos. Depois de reclamarmos dessa situação, fomos trans-
feridos para outro quarto. Neste, quando estava fazendo a barba,
senti que a fechadura da porta estava tremendo. Era um mini-terre-
moto dos muitos que também acontecem freqüentemente no México,
como em Los Angeles. Esses tremores se devem às placas tectônicas
do Oceano Pacífico e de Cocos, e são graves pela natureza do subsolo
do vale.

Na noite de nossa chegada, meu amigo mexicano, o químico José Luís


Córdova Frunz, professor-doutor da Universidad Autonoma Metropo-
litana (UAM), Diretor e Editor Responsável da Revista ContactoS, foi
nos apanhar no Hotel para fazermos um “tour” pela bela cidade mexi-
cana. Em seu carro fomos ver os trabalhos dos famosos pintores
mexicanos David Alfaro Siqueiros e Diego Rivera. Assim, levou-nos
para admirar o Poliforum do primeiro e um grande Mural do segundo,
no Teatro de los Insurgentes. Na volta para o Hotel, ainda nos mos-
trou os Mosaicos de Juan O´Gorman, na Biblioteca Central de la Ciu-
dad Universitária. Creio ser oportuno registrar que, Célia e eu, já
conhecíamos os trabalhos de Siqueiros e Rivera, por intermédio de
nossos queridos amigos, o físico piauiense José Airton Cavalcante de
Paiva e sua mulher, a engenheira estrutural Isabel, que tiveram con-
tato com esses trabalhos quando estudaram na Universidad Nacional
Autonoma de México (UNAM), entre 1982 e 1985.

Nesta oportunidade, gostaria de registrar como me tornei amigo de


Luís Córdova. Em 1988, mandei um artigo para a ContactoS sobre a
Crônica da Óptica Clássica. Apesar de ser aceito para publicação,
havia uma dificuldade. Ele estava escrito em português. Ele, que era
um dos Editores dessa Revista, fez a versão para o espanhol e, mais
ainda, ilustrou-o. A partir daí, todos os meus artigos que foram nela
publicados (29 até 2004), tiveram o mesmo tratamento por parte do
Córdova e de sua equipe responsável pela publicação dessa excelente
Revista de Divulgação Científica, na área de Educação em Ciências
Básicas e Engenharia. Por isso, eu considero o Córdova como um ami-
go-irmão.

No dia seguinte, Célia e eu realizamos os passeios que havíamos pro-


gramado em Belém. Em um micro-ônibus, fomos primeiro visitar a
famosa Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe. Depois, seguimos
para a Ciudad de Teotihuacán, também conhecida como a “Cidade dos
Deuses”, localizada a cerca de 50 kilômetros ao nordeste da nova
cidade do México. Segundo Córdova, que está estudando seus consu-
mos energéticos em parceria com um colega, o Dr. Luis Alberto Barba,
do Instituto de Investigaciones Antropológicas, o período de esplen-
dor dessa cidade foi o século VII, de nossa Era Cristã. Porém, no
século XIII, ela estava totalmente abandonada. Ela tem 20.7 km2, con-
tendo grandes praças, locais residenciais, templos e palácios de
nobres e sacerdotes. Ao norte há a Pirâmide da Lua, ao sul o Templo
de Quetzalcóatl e a leste a grande Pirâmide do Sol. Essas construções
são ligadas pela Avenida da Morte com 40 metros de largura e aproxi-
madamente 2,3 km de extensão. Aliás, quando Célia, eu e mais alguns
turistas estávamos percorrendo essa Avenida, fui abordado por um
habitante local que vendia como “souvenirs”, estatuetas de deuses fei-
tas de basalto. Comprei três. Ele, virou-se para mim e disse: Lleve
más tres para la “segunda”. A Célia ouviu e disse-lhe que já era a
“segunda”. Ele imediatamente replicou: Entonces lleve para la “ter-
cera”.

Como estávamos cansados da pequena excursão turística, resolvemos


jantar no próprio Hotel. O José Airton e sua mulher Isabel, que mora-
ram no México, conforme registrei acima, haviam me dito que a pala-
vra espanhola exquisito não tem o mesmo sentido que em português.
Significa excelente, delicioso, que satisfaz paladar exigente. Sabendo
disso, ao terminar de jantar, chamei o garçom e disse-lhe: La refac-
ción estaba exquisita. Ele ficou muito alegre e foi chamar o maitre.
Este agradeceu bastante e desejou que fizéssemos uma boa viagem,
pois lhe havíamos dito que voltaríamos ao Brasil no dia seguinte. É
claro que a gorjeta que demos ao garçom, por sinal, um jovem, foi
acima da praxe e acima de sua expectativa.

No dia 25 de junho, ao pegarmos um táxi e nos dirigirmos ao aero-


porto da cidade do México, começamos a concluir nossa segunda via-
gem ao exterior. Quando chegamos ao aeroporto e fomos ao balcão da
VARIG para despachar a bagagem, senti que, emocionalmente, já
estava no Brasil. Partimos no começo da noite e, no final da madru-
gada seguinte, pousamos no Aeroporto Brigadeiro Eduardo Gomes,
em Manaus. Aí, esperamos algumas horas para tomar uma outra aero-
nave, da mesma companhia aérea, e chegar finalmente no Aeroporto
Internacional de Val de Cãns. É oportuno registrar que, em nossa
bagagem, além do FAX, havia também dois belos presentes dos meus
amigos mexicanos de ContactoS: um gato artesanal, com cores carac-
terísticas da pintura mexicana para a Célia (mimo que ela conserva
até hoje em seu gabinete de trabalho, em nosso apartamento) e, para
mim, um livro de história sobre Teotihuacán, desde então incorpo-
rada à minha biblioteca.