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ENTREVISTA

PEDAGOGIA
EMPREENDEDORA
Fernando Dolabela

Fernando Dolabela: Consultor e professor da Fundação Dom Cabral, ex-professor da Universidade Federal
de Minas Gerais, consultor da CNI-IEL Nacional, do CNPq, da AED (Agência de Educação para o Desen-
volvimento) e de dezenas de universidades, participa com publicações nos maiores congressos nacionais e
internacionais. É autor de 9 livros: “O segredo de Luísa”, 1999; “A Oficina do Empreendedor”, 1999; “A
vez do sonho”, 2000; “Empreendedorismo, Ciência, Técnica e Arte”, 2000; “Boa Idéia! E agora?
Plano de Negócios, o caminho mais seguro para criar e gerenciar sua empresa”, 2000;
“Empreendedorismo, uma forma de ser “, 2002; “A Viagem do Empreendedor”, 2002; “Pedagogia
Empreendedora”, 2003; e “A Ponte Mágica”, 2004. Desenvolveu o software de Plano de Negócios
“MakeMoney”. Um dos precursores do ensino de empreendedorismo no Brasil. Criou os maiores programas
de ensino de empreendedorismo do Brasil na educação básica e universitária. A metodologia Oficina do Em-
preendedor (utilizada em projetos do IEL (CNI), Sebrae, CNPq e outros órgãos) já foi implementada em cerca
de 300 instituições de ensino superior, atingindo 2.500 professores e 80.000 alunos/ano. A metodologia Peda-
gogia Empreendedora (educação empreendedora para a educação infantil, ensinos fundamental e médio),
apesar de recente, já é utilizada em 93 cidades, envolvendo cerca de 8.400 professores e 224.000 alunos,
com repercussão em uma população de 2,5 milhões de habitantes.

Nessa entrevista, realizada pela Professora Marianne Hoeltgebaum, o Professor Fernando Dolabela, fala
sobre a sua trajetória no ensino do empreendedorismo no Brasil e explica seu projeto “Pedagogia
Empreendedora”, que tem como objetivo semear, por todo o Brasil, o espírito empreendedor e iniciativas
empreendedoras em crianças de comunidades carentes.

Marianne Hoeltgebaum: Você é considerado um linha, criei um seminário - chamado Oficina do Empre-
dos precursores do ensino de empreendedorismo endedor - destinado à formação de professores uni-
no Brasil. Um percentual representativo de profes- versitários. Esse seminário foi ministrado para profes-
sores que lecionam disciplinas relacionadas à for- sores da área de informática, conseguindo, em três
mação de novos empreendimentos no Brasil foi for- anos, de 1996 a 1998, implementar a disciplina de
mado pelo projeto SoftStart idealizado por você. Você empreendedorismo em 100 cursos superiores de
poderia fazer um breve resumo dessa trajetória? informática por todo o Brasil. Em 1998, o Instituto
Euvaldo Lodi Nacional criou uma política de estímulo
Fernando Dolabela: Comecei a lecionar empre- à educação empreendedora e me contratou para
endedorismo em 1992, na Universidade Federal de realizar esse projeto. Então criei o Reune que, com o
Minas Gerais. Já em 1993, fui convidado pelo CNPq apoio do Sebrae, se tornou um programa de âmbito
a desenvolver uma metodologia dentro do programa nacional, destinado à formação de professores em
SOFTEX, que visa a estimular a exportação de empreendedorismo, não apenas nos cursos de infor-
software por empresas brasileiras. O Programa mática, mas em todas as áreas do conhecimento. De
SOFTEX tem duas linhas: fortalecer as empresas de lá para cá, a Oficina do Empreendedor está presente
software existentes e estimular a criação de novas em mais de 300 instituições de ensino superior em
empresas de software a partir das escolas de ensino todo o Brasil, com mais de 3000 professores tendo
de informática de todo o Brasil. Dentro dessa segunda participado dos seminários.

Fernando Dolabela (site: www.dolabela.com.br – e-mail: dolabela@dolabela.com.br)


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Marianne Hoeltgebaum: Como é esse processo de desenvolvimento de geração de riqueza, mas tam-
em outros países? bém como um fenômeno social e cultural. Na Peda-
gogia Empreendedora, vemos o problema econômico
Fernando Dolabela: Essa metodologia é uma como conseqüência de soluções ideológicas, sociais
inovação mundial. Nos países da América do Norte e culturais. Eu a vejo como um instrumento de combate
ou Europa, quem geralmente leva o conteúdo em- à miséria. A Pedagogia Empreendedora e o empre-
preendedor à sala de aula é o professor de admi- endedorismo que eu defendo, que eu pratico, é aque-
nistração. Aqui no Brasil, não. Você encontrará profes- le que pode provocar a mudança cultural. Estamos
sores de física, filosofia, jornalismo, ciências da compu- falando de mudança, e não de transferência de um
tação, enfim, de todas as áreas do conhecimento, o- conteúdo cognitivo convencional. Estamos falando de
ferecendo esse conteúdo aos alunos. Isso é uma ino- uma nova forma de relacionamento entre as pessoas
vação brasileira. porque é esse relacionamento que estimula ou inibe
a capacidade empreendedora. Um relacionamento
Marianne Hoeltgebaum: Dolabela, hoje você traba- fortemente hierarquizado, autocrático, tende a destruir
lha em um novo projeto que tem o intuito de desen- a capacidade empreendedora. Já um relacionamento
volver o espírito empreendedor em crianças de comu- democrático, em rede, onde todos têm a mesma auto-
nidades de baixa renda. Como surgiu esse direcio- nomia, têm o poder de influenciar seu próprio futuro e
namento? o de sua comunidade; tende a disseminar o empreen-
dedorismo.
Fernando Dolabela: Não é que minha orientação
tenha mudado. É que percebi que, além da univer- Marianne Hoeltgebaum: Como funciona a Peda-
sidade, além de trabalhar com estudantes univer- gogia Empreendedora?
sitários, é essencial que se trabalhe em todos os âm-
bitos, em todos os níveis de educação. Há formas de Fernando Dolabela: Sinteticamente, eu diria que
empreendedorismo que concentram renda, conhe- não se pode dar uma direção ao aluno para que ele
cimento e poder. Essas formas não são adequadas seja um empreendedor empresarial, mas para que
ao Brasil. Temos que ter atividades econômicas que seja empreendedor em sua forma de ser. Abrir uma
incluam, e não que excluam a população. Nosso pro- empresa pode ser uma opção do aluno. Porém, ele
blema não é apenas gerar renda, aumentar o PIB. pode ser empreendedor em qualquer atividade. Ele
Nosso problema é de exclusão social, de falta de pode ser empreendedor sendo músico, poeta,
geração de qualidade de vida, enfim, do que se cha- funcionário público, político, etc. Então, dentro da Pe-
ma de um não-desenvolvimento sustentável. Essa dagogia Empreendedora, a atividade empreendedora
proposta que hoje me fascina, e que se tornou a es- torna-se universal. A empresa passou a ser uma das
sência de meu trabalho, é o empreendedorismo vol- múltiplas formas de ser empreendedor. Este conceito
tado ao desenvolvimento sustentado local. Então, en- está descrito no livro Pedagogia Empreendedora que
tre 1999 e 2002, com um grupo de educadores e também apresenta os procedimentos metodológicos
com o apoio da ONG Visão Mundial, desenvolvi um com foco na comunidade, e não no indivíduo. Porém,
projeto que era um sonho antigo meu: uma metodo- trabalha-se o indivíduo porque, dentro da Pedagogia
logia de ensino do empreendedorismo para a edu- Empreendedora, o empreendedor é um indivíduo
cação básica. Batizei essa metodologia de “Peda- que gera utilidade para os outros, que gera valor
gogia Empreendedora”. positivo para sua comunidade. Assim, procura-se
desenvolver as comunidades através das pessoas.
Marianne Hoeltgebaum: Como é essa metodolo- A nossa metodologia leva à sala de aula duas pergun-
gia? tas. A primeira é: “Qual é o seu sonho?” A segunda é:
“O que você vai fazer para transformar seu sonho
Fernando Dolabela: Essa metodologia é voltada em realidade?” Bem, a primeira pergunta tem um ca-
para o desenvolvimento social, redefinindo uma pro- ráter mágico, assustadoramente mágico, porque, ao
posta empreendedora para o Brasil. Ela vê o empre- receber essa pergunta, o aluno se sente protagonista
endedorismo como um instrumento muito forte não só da própria vida. Ele sente que o conteúdo escolar,
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que o conhecimento serve para que ele dê significado ce de desenvolvimento humano muito baixo e está
a sua vida, ou seja, à vida em que o seu sonho é o utilizando a Pedagogia Empreendedora em 86 cida-
eixo do processo educacional. Ele se sente pro- des. Então, estamos levando o empreendedorismo a
tagonista e integrante do processo educacional. Já a comunidades muito pobres, a alunos que estão
segunda pergunta leva o aluno a criar caminhos, distantes dos eixos de desenvolvimento, de cresci-
estratégias, e a escolher processos para transformar mento econômico. Essa experiência tem sido muito
seu sonho em realidade. Essa pergunta dispara um gratificante porque sentimos que as pessoas podem
processo de criação, de criatividade, pondo em uso empreender. Em cada localidade, por mais pobre
todo o patrimônio existencial do aluno, que é diverso, que seja, há conhecimento, há riqueza. Essa riqueza
que é único. Assim, ele se sente capaz e comprometido está nas pessoas, na forma de tradições locais que
com a criação de seus próprios caminhos. Tudo isso não são valorizadas ou não são conhecidas. Temos
é notável durante o processo educacional. As crianças visto, através do contato com essas pessoas, que es-
e os professores mudam. Tenho visto eventos em sas comunidades e essas pessoas são capazes de
que crianças, ao serem provocadas e ao sentirem a produzir processos de geração de auto-suficiência.
responsabilidade, ao sentirem que as pessoas acre- Pobreza não é ausência de renda. Pobreza é a inca-
ditam que elas podem criar alguma coisa, começam a pacidade de um ser humano utilizar seu potencial
criar, a buscar soluções. Apesar de não ser o objetivo para desenvolver-se. Como isso acontece? Desperdi-
da metodologia, temos visto adolescentes criarem çando sua própria energia, seus próprios recursos,
empresas em locais totalmente miseráveis e torturados seu capital humano e social. Então, estamos traba-
do Brasil, como em regiões marginalizadas das gran- lhando com um vínculo muito estreito com o que se
des cidades, onde existe o tráfico de drogas. Então, chama capital social,que é a capacidade de uma co-
vemos soluções muito ricas propostas pelos alunos munidade se associar e cooperar para se desen-
que mostram que eles são muito capazes se existirem volver.
as condições necessárias. Eles são capazes de em-
preender, de dar uma solução à própria vida. Marianne Hoeltgebaum: Como última pergunta,
gostaria de saber como você visualiza o Brasil daqui
Marianne Hoeltgebaum: Como está a dissemina- a 10 anos, em relação ao empreendedorismo?
ção da Pedagogia Empreendedora e qual o impacto
nas comunidades onde a metodologia foi implantada? Fernando Dolabela: Pelo que tenho visto hoje, pen-
so que as coisas ainda estão muito lentas, distantes
Fernando Dolabela: A Pedagogia Empreendedora de um caminhar que leve à situação que desejamos.
foi desenvolvida para qualquer tipo de aluno e de es- Não vejo crescimento e desenvolvimento do empre-
cola. Como estamos falando de desenvolvimento, endedorismo de tal forma que possam representar
entendo que, na área empreendedora, educar é prin- uma situação favorável daqui a dez anos porque es-
cipalmente destruir mitos. Um dos grandes mitos é tamos andando para trás. Nós não conseguimos sair
que o pobre não é empreendedor porque lhe faltam do discurso no que tange ao incentivo às micro e
conhecimento do mundo, conhecimento tecnológico pequenas empresas. Uma pessoa miserável, e hoje
e percepção de oportunidades. A pobreza é vista co- temos quase 60 milhões de miseráveis no país, que
mo um indicador de incapacidade. Isso é tão forte realiza uma atividade econômica genuína, digamos,
que até as pessoas mais pobres se julgam incapazes. que produz uma vassoura e tenta vender essa vas-
Vejo isso de outra forma. Então, estamos trabalhando soura, é considerada marginal. Uma pessoa física
com crianças e comunidades muito pobres, muito po- que comprar essa vassoura pode ser considerada
bres mesmo. Já estamos em 96 cidades do interior do receptadora. Os órgãos públicos são proibidos por
Brasil. Não acredito que exista, no Brasil, outra lei de comprar no mercado informal. São impostas
experiência semelhante à nossa, ou seja, que esteja tantas barreiras que essa pessoa não consegue se
implementando em cidade inteiras, em toda a rede manter, principalmente se ela for analfabeta ou se ela
municipal. O Sebrae do Paraná tem um projeto interes- não tiver capital, como é o caso da maioria dos brasi-
santíssimo, chamado Programa Sebrae de Desenvol- leiros. Então, estamos condenando milhares de pes-
vimento Local. O projeto elege comunidades com índi- soas a ficarem excluídas do mundo econômico. Não
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vejo muita reversão nesse quadro. De forma realista,


não vejo as forças políticas e as forças educacionais
trabalhando como um vetor dominante neste sentido.
Vejo, aqui e ali, ações isoladas de pessoas e de algu-
mas instituições que estão tentando reverter esse
quadro. Assim, se projetarmos um futuro com base no
que acontece hoje, esse quadro seria pessimista.
Porém, como sou um otimista inveterado, penso que,
em algum momento, haverá uma ruptura.

Entrevista concedida no dia: 25/06/04

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