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O MARXISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS : TEORIA DA


DEPENDÊNCIA, O IMPERIALISMO E OUTRAS ABORDAGENS
POSSÍVEIS

Fábio Augusto Degan Bocafoli1

RESUMO

O artigo visa discutir o papel do pensamento marxista no estudo das Relações Internacionais
sob o viés das teorias da Dependência e do Imperialismo.Além disso, defende que, embora a
análise marxista do sistema internacional tenha caído em desuso no pós- Guerra Fria, ainda
possui um certo fôlego explicativo.
Palavras-Chave: marxismo, teoria das relações internacionais, teoria da dependência, teoria
do imperialismo

ABSTRACT

The article aims at to argue the paper of the marxist thought in the study of the International
Relations under the bias of the theories of the Dependence and of the Imperialismo.Moreover,
it defends that, even so the marxist analysis of the international system has fallen in disuse in
the one after Cold War, still possesss a certain clarifying breath.

Key-words: Marxism; international relations theory; dependence theory; imperialism theory

Para o marxismo, os conflitos entre os Estados originavam-se na estrutura sócio-


econômica dos países, onde uma classe dominante e minoritária explorava a classe dominada e
majoritária. Por isso, esses países expressam-se por uma política externa agressiva e
expansionista, nascida da exploração de uma classe por outra e pelo antagonismo de interesses
das classes burguesas dominantes. Para Marx e Engels, as relações entre os diversos Estados
de estrutura sócio-econômica capitalista são necessariamente marcadas pela rivalidade e pelo
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conflito.

Quando pensamos em princípios marxistas utilizados para a compreensão e/ou


interpretação de fenômenos nas relações internacionais, pensamos logo em classes dirigentes
ou em modalidades de produção. Visualisamos elites dirigentes, não satisfeitas apenas com a
realização de seus interesses em âmbito nacional (interno ao Estado), mas ensejando projetá-
los, tanto politicamente como economicamente, para fora das fronteiras do Estado, no âmbito
internacional e, logicamente, para o interior das fronteiras de outro Estado.

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Bacharelando do Curso de Relações Internacionais da FHDSS/UNESP-Franca.
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Podemos pensar também, como conseqüência dos interesses internacionais das classes
governantes, a redefinição da divisão internacional do trabalho associada ao modo de
produção vigente, a imensa expansão das grandes corporações empresariais e seu uso como
braço político por seu Estado de origem no âmbito internacional.
Uma outra visão possível refere-se às organizações e instituições internacionais
governamentais e ao seu uso pelos Estados como intrumentos de manutenção e, até mesmo,
legitimação de seu status quo, ou seja, a consolidação da posição favorável e vantajosa –
política, econômica, militar e até cultural – desses Estados no cenário internacional.
Como exemplo dessa formulação, podemos citar a atuação de fundos mundiais
(bancos) como o FMI (Fundo Monetário Internacional) ou o BIRD (Banco Internacional de
Reconstrução e Desenvolvimento) junto à política interna dos Estados com a introdução de
procedimentos e políticas econômicas que acabam por desfavorecer a economia interna,
afetando desde a capacitação de mão-de-obra e a educação até a criação e implantação de
estabelecimentos industriais nacionais, e favorecerem a penetração de capitais estrangeiros,
geralmente oriundos de Estados-potência, o que ocasiona a internacionalização da capaciadade
produtiva e dos recursos naturais do Estado em questão.
Não só com organizações internacionais de papel fundamentalmente econômico
podemos imaginar a ingerência de potências estatais na política interna de outros Estados.
Durante a Guerra Fria, a OEA (Organização dos Estados Americanos) foi usada, mediante
consentimento de outros integrantes – em alguns casos forçados ou subornados – para aplicar
punições a Cuba, que só interessavam ao governo dos Estados Unidos e ao fortalecimento de
sua doutrina anticomunista para a América.
No âmbito das organizações internacionais de cunho militar, observamos um uso ainda
mais agressivo por parte de Estados-potência que eventualmente as integram e
conseqüentemente exercem liderança dentro e sobre estas. O Pacto de Varsóvia é o exemplo
que melhor ilustra a defesa de interesses e ideologias feita por um Estado líder. As
intervenções organizadas pela União Soviética contra a Hungria e contra a Tchecoeslováquia
foram produtos de um desvinculamento de interesses e ações dos dois últimos Estados para
com o primeiro. Ao implementar regimes e práticas reformistas em seus regimes altamente

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BEDIM, Gilmar Antônio. Paradigmas das Relações Inrternacionais. Ijuí: Editora Unijuí, 2000.
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autoritários, húngaros e tchecoeslovacos buscavam uma humanização do comunismo, assim


como uma melhor aceitação dessa ideologia e sistema sócio-econômico; o que se notou, como
conseqüência, foi uma reação extremamente violenta por parte da União Soviética sufocando,
o mais rápido possível, quaisquer indícios de oposição ao modelo de regime preconizado e
defendido por este Estado.
Quanto às grandes empresas multinacionais, poderíamos observar um cenário
conturbado de total domínio de alguns setores do mercado internacional por parte de alguns
Estados que se utilizam de conglomerados com base em seus territórios e decidem os fluxos
de comércio desse recurso por todo o mundo. Seria possível observar Estados, através do
poderio econômico e tecnológico de suas multinacionais, controlarem setores extremamente
importantes do mercado (como o do petróleo e o de medicamentos) utilizando-se de recursos
naturais e mão-de-obra que nem sempre são oriundas de seu território, e com isso efetuarem
uma dominação baseada na posse de um recurso que é importante para todos.
O uso de atores intermediários para exercer ingerência e dominação se insere em um
contexto mundial de exarcebada dependência de países mais fracos, muitas vezes recém
emancipados politicamente, para com potências regionais ou globais. Nesse sentido, um
exemplo de aplicação concreta de idéias marxistas nas relações internacionais se configura
com a Teoria da Dependência. Surgida da intelectualidade terceiro-mundista a partir da
segunda metade do século XX, e especialmente fundamentada por teóricos latino-americanos,
tal abordagem internacionalista emergiu do contexto pós-Segunda Guerra Mundial e início de
Guerra Fria. Influenciada pelas independências de regiões coloniais africanas e asiáticas, como
também pela relativa emergência internacional de alguns países latinoamericanos através dos
nacionalismos propagados por Getúlio Vargas e Juan Perón, entre outros.
O Paradigma da Dependência possui traços marxistas – alguns deles oriundos dos
escritos de Lênin e Rosa Luxemburgo sobre a Teoria do Imperialismo – algumas relativas
características realistas e outras estruturalistas.
Sem dúvida os traços realistas identificáveis na teoria dependentista não se referem à
caracterização dos atores, mas sim à moralidade destes. O dependentismo também não
acredita na força da moral como reguladora e inibidora das ações dos atores, muito pelo
contrário, este paradigma expressa profundo pessimismo quanto à possibilidade de uma
evolução benigna ou positiva do quadro da dominação via dependência. Esse pessimismo é
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justificado por seus teóricos através de análises de dados sócio-econômico-financeiros que


evidenciam uma contínua e crescente disparidade (econômica, tecnológica, etc) entre os
países, num abismo que cresce exponencialmente.
Evidentemente podemos também inferir princípios que afastam o dependentismo do
realismo, fato este que pode ser observado na análise de que em um mundo visto através do
prisma da dependência, a anarquia internacional (ou a falta de uma autoridade reguladora das
relações internacionais) pode ser caracterizada como ausente em virtude de que a situação de
dependência pode ser classificada como uma forma de imposição de hierarquia e conseqüente
autoridade por parte de uns Estados sobre outros.
O Estado, que no paradigma realista é o único ator nas relações internacionais, vê-se,
no dependentismo, com sua importância consideravelmente reduzida em razão da emergência
e aparecimento de novos atores internacionais também de grande importância: as empresas
multinacionais, as organizações internacionais – governamentais e não governamentais –,
movimentos guerrilheiros e de libertação, grupos terroristas, etc. É importante lembrar, neste
ponto, que alguns conglomerados empresariais multinacionais possuem poder econômico,
produtivo e até político muito maior que alguns Estados.
Neste contexto podemos formular também que o direito, a priori, não é um intrumento
criado e usado para punir injustiças, mas sim um intrumento usado para “legitimar injustiças”,
ou então, simplesmente não possui força suficiente (mesmo amparado por potências) para
impor suas sanções a outras potências. É válido, como exemplo, lembrarmos que a principal
potência da atualidade, os Estados Unidos da América, é o único Estado acusado e julgado
culpado por ações terroristas contra outro Estado (Nicarágua); anulando a decisão da Corte
Internacional de Justiça (CIJ), o governo estadounidense simplesmente não reconheceu a
competência deste tribunal para aplicar punições a Estados.
Para os teóricos do dependentismo, que são, em sua grande maioria, latino-americanos,
alguns oriundos da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e Caribe), a
dominação das potências sobre os países periféricos poderia ser exercida de duas maneiras: de
fora para dentro e dentro para dentro do Estado.3

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RODRIGUES, Gilberto Marcos Antônio. O que são Relações Internacionais. São Paulo: Brasiliense, 1994.
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Quando a dominação se dá de fora para dentro das fronteiras, observamos práticas de


isolamento e não compartilhamento de conhecimentos tecnológicos entre os Estados. Além
das crescentes dívidas externas dos países periféricos e subdesenvolvidos para com países -
potências, da introdução de empresas multinacionais na economia periférica objetivando
arrecadar mais renda para o “centro” desenvolvido e, até mesmo, a disparidade de poderio
militar entre os Estados (neste caso como elemento de ameaça aos Estados mais fracos). Estas
práticas, porém, não são as únicas observáveis nas relações internacionais para se aplicar e
manter a dominação de fora para dentro.
Quanto à dominação de dentro para dentro do Estado temos como exemplo a
submissão das elites terceiro-mundistas ao capital estrangeiro (estimuladas a não
implementação de indústrias nacionais, dando assim preferência para o estabelecimento de
empresas estrangeiras) e a adoção de traços culturais, assim como de modos de vida diferentes
das raízes culturais do Estado; sem nos esquecermos, é claro, da dominação tradicional
(caracterizada e evidenciada por Marx) interna ao Estado das classes dirigentes (elites
possuidoras dos meios de produção) sobre as classes desprovidas de tais recursos.
Odete Maria de Oliveira complementa este raciocínio aprofundando-se em duas
frentes: uma simplificada análise das relações externas de um Estado focando os efeitos do
dependentismo apenas no âmbito internacional e uma análise mais complexa analisando os
efeitos internos ao Estado de suas relações exteriores pautadas pela dependência.4
Referente aos efeitos externos, ou seja, como a dependência afeta a política externa de
um Estado, podemos nos ater na situação de submissão em relação à tomada de decisões e
posições diante de fatos e eventos que envolvem potências. Não é usual que Estados
periféricos assumam posições divergentes da adotada pela potência do sistema que eles
integram, e com a qual possuem laços políticos e/ou históricos. Se ocorrer, por ventura, algum
tipo de divergência, esta inusitada posição é sempre rechaçada pela potência, em cuja esfera
deve manter sua influência. Como excêntrico caso podemos citar durante a Guerra das
Malvinas o não apoio dos Estados Unidos à causa argentina de retomada dessa possessão
britânica e reincorporação desta ao território argentino. Existem ainda, como exemplos, casos
mais tradicionais como o episódio em que o Brasil varguista, que se permitirá adotar um

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BEDIM, Gilmar Antônio. Op. Cit.
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governo (embora não publicamente declarado) de cunho fascista, declara guerra à Alemanha
nazista visando não comprometer seus laços com os Estados Unidos; ou ainda, para nos valer
de um caso em que a posição adotada por um Estado dominado é forçada através de persuasão
ou ameaças feitas pelo Estado preponderante, podemos citar o exemplo do Líbano, o qual foi
submetido politicamente à Síria.
É claro que estes casos não se encaixam totalmente no modelo dependentista
tradicional: Estado periférico subdesenvolvido (geralmente ex-colônia) submetido ao Estado
central desenvolvido. Porém, a partir destes, podemos visualizar uma maior possibilidade de
aplicação da Teoria da Dependência no âmbito das relações internacionais, não
necessariamente ficando presos ao modelo tradicional, mas utilizando-nos desta para
interpretar casos isolados e que não necessariamente apresentem uma relação de potência e
dominado.
Com estes exemplos, pretendemos deixar claro como uma postura externa adotada por
um Estado pode repercurtir favorável ou desfavoravelmente para este, afetando sua conjuntura
política, desfazendo ou criando laços de relação e imprimindo uma nova ordem ao sistema do
qual ele faz parte. Convém lembrarmo-nos de que os efeitos causados nestas situações
afetariam somente a situação externa do Estado, no âmbito das relações internacionais.
Nos detendo agora sobre os efeitos internos (já descritos de forma parcial
anteriormente), podem ser decorrentes exclusivamente da situação interna do Estado, ou uma
fusão das situações interna e externa. Não longe do conceito da teoria, podemos citar a
situação do Paraguai antes e depois de se envolver em guerra contra seus vizinhos do cone sul-
americano (Brasil, Argentina e Uruguai). Após sua independência, o Paraguai experimentou
progressiva fase em que se observavaram grandes melhorias nos setores econômico e social
potencializando, de certo modo, o peso e força deste Estado no cenário internacional.
Evidentemente essa elevação político-econômica paraguaia afetava interesses europeus,
especialmente britânicos, que viam no crescimento e desenvolvimento do Paraguai ameaças a
seus interesses na América do Sul. Desse fato em diante, seguiu-se a Guerra do Paraguai
opondo este contra uma tríplice aliança integrada por brasileiros, argentinos e uruguaios que
resultou no total arrasamento de todas as capacidades paraguaias (além de dizimar imensa
maioria da população masculina) e no comprometimento deste país por um tempo incalculável
em meio à miséria e à destruição.
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As conseqüências acabaram por fomentar ainda mais a incerteza acerca do futuro


político do Paraguai, além de atrelá-lo na esteira de um subdesenvolvimento ainda pior que o
de seus vizinhos latino-americanos.
Desse histórico episódio podemos inferir o quanto a situação interna de um Estado
somada à externa afeta os interesses e planos de outros Estados no jogo internacional. Era
necessário para a Inglaterra manter seu sistema imperialista em andamento, assim como era
necessário para o Paraguai procurar seu desenvolvimento.
É possível dizer que a dependência externa pode ser uma conseqüência do
colonialismo e posterior imperialismo empreendidos por potências européias a partir do século
XVI, bem como de decadências e colapsos gerados por guerras, quedas bruscas de regime
político, conflitos internos (guerra civil), etc.
É reconhecível que o Paradigma da Dependência nos dias atuais já perdeu condiderável
porção de seu fôlego explicativo em virtude das novas disposições da ordem mundial. Porém,
com a dificuldade para se evidenciar se vivemos um cenário unipolar ou multipolar nas
relações internacionais, o dependentismo ainda apresenta muitos de seus princípios e
fundamentos presentes em vários aspectos e eventos do cenário internacional.
Assistimos a emergência de talvez uma única potência empreendendo políticas
agressivas para a conservação de sua posição e poderio. Estas ações quase sempre afetam os
Estados mais desfavoravelmente dispostos no cenário internacional, bem como
freqüentemente urgem por tentar eliminá-los ou reduzir sua presença e voz nas relações
internacionais.
O Paradigma da Dependência, equivalentemente a outras correntes teóricas, também
possui, em seu cerne, subdivisões: variando através de pensamentos teóricos que insistem por
enfatizar a importância do socialismo para os países terceiro-mundistas como sistema sócio-
econômico, ou então, teóricos que possuem uma visão mais heterodoxa, formulando que o
subdesenvolvimento também pode ser vencido através do capitalismo como sistema nacional
adotado.
A teoria do imperialismo também evidentemente pode ser considerada uma teoria
válida para o estudo das relações internacionais baseadas na dependência, mas um detalhe
oportuno, concernente às formulações imperialistas, reside no fato de que esta abordagem se
detém exclusivamente no estudo das sociedades dos Estados dominadores (suas disposições de
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estruturas políticas, seu sistema econômico, capacidades militares, etc), relegando o estudo
aprofundado das condições dos Estados dominados e, conseqüentemente, vítimas das políticas
imperialistas.
Um dos modelos que melhor podem ilustrar um sistema internacional de cunho
marxista pautado por noções de dependência externa seria a partir de um Estado forte detentor
de grande poderio econômico, político e militar que exerceria uma dominação baseada na
exploração e ameaça sobre os Estados integrantes de sistema mais fracos. Ou seja, um Estado
dominante possuidor de recursos importantes para a sobrevivência e manutenção do status quo
dos estados manipulados. Esse modelo evidentemente assemelha-se às proposições de Marx
acerca da análise da sociedade capitalista, ou seja, no meio internacional também o Estado
(neste raciocínio, o Estado seria o equivalente à classe burguesa no âmbito nacional) exerce a
exploração baseada na posse de meios geradores de riqueza e mantenedores do status quo.
Obviamente, não podemos afirmar que as relações internacionais de um bloco (ou
mundo) de Estados socialistas seriam marcadas pela igualdade e solidariedade entre seus
integrantes, porém podemos observar algumas das características citadas no parágrafo acima
nas relações entre Estados capitalistas e, de certa forma, também nas relações de Estados
socialistas que existiram.
É evidente que as teorias possíveis de serem elaboradas para explicar as relações
internacionais vistas através de uma ótica marxista não podem explicar totalmente a realidade
da política internacional, uma vez que existem sempre erros e falhas na teoria, assim como,
exceções e casos isolados no sistema internacional.
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Referências Bibliográficas
BEDIM, Gilmar Antônio. Paradigmas das Relações Inrternacionais. Ijuí: Editora Unijuí,
2000.
BRAILLARD, Philippe. O Imperialismo. Presses Universitaires de France, 1980
CARDOSO, Fernando Henrique; FALETTO, Enzo. Dependência e desenvolvimento na
América Latina. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.
CERVO, Amado Luiz. Relações Internacionais da América Latina: Velhos e Novos
Paradigmas. Brasília: Ibri, 2001.
CHASTEEN, John Charles. América Latina: uma história de sangue e fogo. Rio de Janeiro:
Campus, 2001.
LÊNIN, Vladimir Ilich. O Imperialismo: Fase Superior do Capitalismo. São Paulo: Global,
1987.
RODRIGUES, Gilberto Marcos Antônio. O que são Relações Internacionais. São Paulo:
Editora Brasiliense, 1994.