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Cap.

21 - PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS

Os princípios fundamentais encontram-se no início da Constituição, mais precisamente no


Título I, arts. 1o a 4o.
Passemos a tratar de cada um dos artigos.
• art. 1o, caput: estabelece que a República Federativa do Brasil, formada pela união
indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado
Democrático de Direito;
• art. 1o, parágrafo único: trata da democracia semidireta ou participativa;
• art. 2o: estatui a separação de “Poderes”;
• art. 1o, I a V: define os fundamentos da República Federativa do Brasil;
• art. 3o: trata dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil;
• art. 4o: estatui os princípios que regem a República Federativa do Brasil em suas
relações internacionais.

REPÚBLICA
No texto de 1891 a República surge como cláusula pétrea e assim é mantida em todas as
Constituições, exceto na de 1988 em que aparece como princípio sensível (art. 34, VII, “a”).
Apesar de não ser cláusula pétrea, por meio de plebiscito, o "povo" confirmou a forma
republicana, não podendo, portanto, emenda à Constituição instituir a Monarquia, sob pena
de se violar a soberania popular, a não ser que haja, necessariamente, nova consulta popular
(art. 2o do ADCT).

FEDERAÇÃO
A forma de Estado adotada pelo texto de 1988 é a Federação e não o Estado Unitário. (…) O
nosso federalismo se deu por desagregação a partir do Estado Unitário e estabelece-se no
texto de 1988 a Federação como cláusula pétrea, nos termos do art. 60, § 4o, I.
A solidez do sistema está na consagração da ideia de indissolubilidade do vínculo federativo
(inexistência do direito de secessão), havendo instrumentos de estabilização de eventual
crise, como, no caso, a intervenção federal (art. 34, I).
A República Federativa do Brasil é formada pela união indissolúvel da União Federal, dos
Estados-Membros, do Distrito Federal e dos Municípios em verdadeiro federalismo
assimétrico, em razão da falta de homogeneidade entre os entes federativos.

ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO


Aspectos gerais
A República Federativa do Brasil constitui-se em Estado Democrático de Direito. A previsão
desse regime jurídico é reforçada pelo princípio democrático que marcou o texto de 1988 e
pela cláusula contida no parágrafo único do art. 1º, ao dispor que todo o poder emana do
povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta
Constituição.
Estamos diante da democracia semidireta ou participativa, um “sistema híbrido”, uma
democracia representativa, com peculiaridades e atributos da democracia direta.
Pode-se falar, então, em participação popular no poder por intermédio de um processo, no
caso, o exercício da soberania que se instrumentaliza por meio do plebiscito, referendo,
iniciativa popular, bem como outras formas, como a ação popular.

A Lei da Anistia, a ADPF 153 e a decisão da “Corte lnteramericana de Direitos


Humanos”
O art. 1o da Lei n. 6.683/79 concedeu a anistia a todos quantos, no período compreendido
entre 02.09.1961 e 15.08.1979, cometeram crimes políticos ou conexos com estes, crimes
eleitorais, aos que tiveram seus direitos políticos suspensos e aos servidores da
Administração Direta e Indireta, de fundações vinculadas ao poder público, aos Servidores
dos Poderes Legislativo e Judiciário, aos Militares e aos dirigentes e representantes sindicais,
punidos com fundamento em Atos Institucionais e Complementares.
O Conselho Federal da OAB interpôs a ADPF 153, objetivando a anulação, pela Suprema
Corte, do perdão dado pela Lei da Anistia aos representantes do Estado (policiais e militares)
acusados da prática de atos de tortura durante o regime militar. (…) O STF rejeitou o pedido
de revisão
Posteriormente, em 14.12.2010, a Corte lnteramericana de Direitos Humanos, no julgamento
do caso Gomes Lund e outros ("Guerrilha do Araguaia") versus Brasil, entendeu que o Brasil
é responsável pela desaparição forçada de 62 pessoas, ocorrida entre os anos 1972 e 1974, na
denominada região do Araguaia.
A Corte concluiu que a Lei da Anistia, ao impedir investigações, negar acesso a arquivos e
não prever sanções às violações de direitos humanos, é incompatível com as obrigações
internacionais assumidas pelo Brasil perante a Convenção Americana sobre Direitos
Humanos.
Eis o embate, a decisão da Suprema Corte brasileira, mantendo a Lei da Anistia e a
condenação do Brasil perante a Corte Interamericana, declarando a referida lei incompatível
com as obrigações internacionais assumidas pelo Brasil.
Não há dúvida de que, muito embora a decisão da Corte Interamericana não anule a da
jurisdição nacional (STF), o Brasil vai sofrer as consequências no plano internacional,
sujeitando-se às sanções previstas na Convenção.
Temos de lembrar, ainda, a Lei n. 12.528/2011, que criou, no âmbito da Casa Civil da
Presidência da República, a Comissão Nacional da Verdade, com a finalidade de examinar e
esclarecer as graves violações de direitos humanos praticadas no período a fim de efetivar o
direito à memória e à verdade histórica e promover a reconciliação nacional.
SEPARAÇÃO DE “PODERES”
O art. 2.º consagra serem Poderes da União, independentes e harmônicos entre si:
• Legislativo;
• Executivo;
• Judiciário.
Os “Poderes” (órgãos) são independentes entre si, cada qual atuando dentro de sua parcela de
competência constitucionalmente estabelecida e assegurada quando da manifestação do
poder constituinte originário, daí ser mais adequado falarmos em órgãos que exercem
funções, típicas (inerentes à essência) e atípicas (do órgão, mas sem ser a sua essência).
Dessa forma, diante do princípio da indelegabilidade de atribuições, nenhum Poder (órgão)
poderá transferir função que lhe é típica ou expressamente prevista como atípica a outro.
Lembre-se de que a CF/88 erigiu à categoria de cláusula pétrea a separação de Poderes,
conforme se observa pelo art. 60, § 4.0, III.'

FUNDAMENTOS DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL


O art. 1o, I a V, enumera os fundamentos da República Federativa do Brasil:
• soberania: do conjunto formado pela União, Estados, Distrito Federal e Municípios.
Discute-se, na atualidade, a amplitude da soberania de determinado Estado,
especialmente diante da ideia de um poder constituinte transnacional ou
supranacional. Esse parece ser o grande desafio, qual seja, encontrarmos um
equilíbrio entre a soberania do Estado e a necessidade de adequação ao conjunto
dentro da ideia de um constitucionalismo globalizado;
• cidadania: materializada tanto na ideia de capacidade eleitoral ativa (ser eleitor) e
passiva (ser eleito) como na previsão de instrumentos de participação do indivíduo
nos negócios do Estado. Assim, o conceito de cidadania não se restringe a direitos
políticos, mas nessa visão muito mais abrangente e que engloba, também, os direitos
e deveres fundamentais;
• dignidade da pessoa humana: regra matriz dos direitos fundamentais, tema que pode
ser bem definido como o núcleo essencial do constitucionalismo moderno. Assim,
diante de colisões, a dignidade servirá para orientar as necessárias soluções de
conflitos;
• valores sociais do trabalho e da livre-iniciativa: nos termos do art. 170, caput, da
CF/88, a ordem econômica, tendo por fim assegurar a todos existência digna,
conforme os ditames da justiça social, funda-se em dois grandes pilares, quais sejam,
a valorização do trabalho humano e a livre-iniciativa. Dessa maneira, o constituinte,
além de privilegiar o modelo capitalista, estabelece, como finalidade da ordem
econômica, assegurar a todos a existência digna, conforme os ditames da justiça
social, afastando-se, assim, de um Estado absenteísta nos moldes do liberalismo;
• pluralismo político: a partir dessa ideia, enaltece-se uma sociedade plural, em que se
consagra o respeito à pessoa humana e sua liberdade.
OBJETIVOS FUNDAMENTAIS DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL
Os objetivos fundamentais estão previstos no art. 3o da CF/88. Uma vez estruturada a
República Federativa do Brasil, ela terá metas a serem atingidas, orientadoras das políticas
governamentais, destacando-se:
• construir uma sociedade livre, justa e solidária;
• garantir o desenvolvimento nacional;
• erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;
• promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e
quaisquer outras formas de discriminação;

PRINCÍPIOS QUE REGEM A REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL NAS


RELAÇÕES INTERNACIONAIS
Art. 4o, CF/88
O art. 4o da CF/88 dispõe que a República Federativa do Brasil é regida nas suas relações
internacionais pelos seguintes princípios:
• independência nacional;
• prevalência dos direitos humanos;
• autodeterminação dos povos;
• não intervenção;
• igualdade entre os Estados;
• defesa da paz;
• solução pacífica dos conflitos;
• repúdio ao terrorismo e ao racismo;
• cooperação entre os povos para o progresso da humanidade;
• concessão de asilo político.

Cap. 22 - PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E


OUTROS TEMAS

PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA


Os princípios constitucionais da administração pública estão explicitados no art. 37, caput.
A doutrina identifica outros agregados aos explícitos do art. 37, caput, de igual importância,
mas que serão aprofundados nos livros de direito administrativo, já tendo alguns sido
tratados neste estudo, a saber:
• princípio da supremacia do interesse público sobre o privado;
• princípio da finalidade;
• princípio da razoabilidade;
• princípio da proporcionalidade;
• princípio da responsabilidade do Estado

Princípio da legalidade
Previsto no art. 4o da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, está contemplado,
além da indicação expressa no art. 37, caput, nos arts. 5o, II, e 84, IV, da CF/88:
• art. 5o, II: "ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em
virtude de lei".
Mencionado princípio deve ser lido de forma diferente para o particular e para a
Administração.
O particular pode fazer tudo o que a lei não proíbe, vigorando o princípio da autonomia da
vontade, lembrando a possibilidade de ponderação desse valor com o da dignidade da pessoa
humana e, assim, a aplicação horizontal dos direitos fundamentais nas relações entre
particulares, consoante estudado.
Por sua vez, a Administração só poderá fazer o que a lei permitir. Trata-se do princípio da
legalidade estrita, que, por seu turno, não é absoluto, na medida em que a doutrina identifica
algumas restrições, destacando-se:
• medidas provisórias;
• estado de defesa;
• estado de sítio.
Confinar a atuação governamental aos parâmetros da lei, editada pelos representantes do
povo, é trazer segurança e estabilidade, evitando, ainda, qualquer tipo de favoritismo por
parte do administrador.

Princípio da impessoalidade
Em interessante constatação, se todos são iguais perante a lei (art. 5º, caput),
necessariamente o serão perante a Administração, que deverá atuar sem favoritismo ou
perseguição. tratando a todos de modo igual ou, quando necessário, fazendo a discriminação
necessária para se chegar à igualdade real ou material.
Assim, a Administração deve sempre buscar a concretização do interesse público e não do
particular, sentido em que a regra do concurso público ganha especial destaque.
Nos termos do art. 37, II, da CF/88, a investidura em cargo ou emprego público depende de
aprovação prévia em concurso público de provas ou de provas e títulos, de acordo com a
natureza e a complexidade do cargo ou emprego, na forma prevista em lei, ressalvadas as
nomeações para cargo em comissão declarado em lei de livre nomeação e exoneração.
Principio da moralidade administrativa
A Administração Pública, de acordo com o princípio da moralidade administrativa, deve agir
com boa-fé, sinceridade, probidade, lhaneza, lealdade e ética.

Principio da publicidade
O princípio da publicidade é ínsito ao Estado Democrático de Direito e está intimamente
ligado à perspectiva de transparência, dever da Administração Pública, direito da sociedade.

Princípio da eficiência
Se, na iniciativa privada, busca-se a excelência e a efetividade, na Administração, outro não
poderia ser o caminho.
A ordem do dia é a produtividade, e o Estado deve alcançar os resultados. Para tanto,
mecanismos de incentivo devem existir para os servidores (e controle do desempenho deles),
mas, também, a Administração terá de estar dotada de estrutura para a sua concretização.
"O princípio da eficiência administrativa consiste na organização racional dos meios e
recursos humanos, materiais e institucionais para a prestação de serviços públicos de
qualidade em condições econômicas e de igualdade dos consumidores''.