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A escritura-rasura na obra

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de Edith Derdyk
The scripture — erasure in the work
of Edith Derdyk
Estúdio, Artistas sobre outras Obras. ISSN 1647-6158, e-ISSN 1647-7316. 7 (15): 122-127.
Teixeira, Ângela Castelo Branco (2016)”A escritura-rasura na obra de Edith Derdyk.” Revista

ÂNGELA CASTELO BRANCO TEIXEIRA*

Artigo completo submetido a 30 de dezembro de 2015 e aprovado a 10 de janeiro de 2016.

*Brasil, escritora, artista visual e arte educadora. Bacharelado em Fonoaudiologia na Univer-


sidade Estadual Paulista (UNESP), Mestrado em Educação / Ensino na Educação Brasileira,
UNESP.
AFILIAÇÃO: Universidade Estadual Paulista ‘Júlio de Mesquita Filho’, Instituto de Artes, Programa de Pós-Graduação em Arte
e Educação. Dr. Bento Teobaldo Ferraz, 271 Barra Funda, 01140-070, São Paulo-SP, Brasil. E-mail: acastelobrancoteixeira@
gmail.com

Resumo: O objetivo deste artigo é tecer aproxi- Abstract: The purpose of this article is to establish
mações entre a obra ‘Rasuras’ da artista Edith links between the ‘Rasuras’ work of artist Edith
Derdyk e o ato de escrever, considerando que Derdyk and the act of writing, considering that
ambos traçam linhas no espaço, marcam su- both draw lines in space, both mark surfaces, fix
perfícies, fixam gestos e produzem sentidos. gestures and produce meanings. This relationship
Esta relação se dará à luz do conceito de es- is seen under the concept of Barthes, scripture,
critura de Barthes que evoca um dizer-experi- that evokes a telling experience, close to what
ência, próximo do que está acontecendo com is happening to the one who writes, causing an
aquele que escreve, causando um estranha- estrangement in the language, or an erasure
mento na língua, ou seja, uma “rasura”. (‘Rasura’).
Palabras clave: escritura / rasura / expe- Keywords: scripture / erasure / experience /
riência / gesto. gesture.
1. O gesto de tecer o espaço
O objetivo deste artigo é tecer aproximações entre a obra Rasuras (Figura 1) da

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artista paulista Edith Derdyk e o ato de escrever, considerando que ambos tra-
çam linhas no espaço, fixam gestos, marcam superfícies e produzem sentidos.
A artista paulista Edith Derdyk formou-se em Artes Plásticas pela FAAP
(Fundação Armando Álvares Penteado, São Paulo / SP) em 1980 e desde então
possui uma vasta produção que transita entre trabalhos gráficos, livros infantis,
livros sobre desenho e seu ensino, poética da costura, o ato criador e inúmeros

Revista Estúdio, Artistas sobre outras Obras. ISSN 1647-6158, e-ISSN 1647-7316. 7 (15): 122-127.
livros de artista. Em 1997, lançou o livro Linha de Costura, com textos poéticos
sobre o ato de tecer, coser, costurar e escrever. Como artista plástica realizou
exposições nacionais e internacionais em importantes galerias de arte e mu-
seus, além de desenvolver bolsas de criação artística. Atua ainda como profes-
sora e orientadora de jovens artistas. Linhas, papéis, livros, chapas de ferro e
palavras são suas matérias de criação. Tensão, corte, traço, costura, sutura, ra-
sura e transposição são seus principais gestos.
Em seu trabalho há a instauração de um lugar entre a costura, o desenho-linha e
a escrita. No texto Da sutura a rasura: A costura de Edith Derdyk de Andrea Masagão a
artista afirma: “eu tenho a linha costurada na minha mão” (Masagão, 2011:2). Para
ela, escrever é como costurar: “Costurando, ligando, furando, recortando, costu-
rando pensamentos e tudo mais. Para que escreve? “Escrevo para me fixar, é qua-
se ficção. Escrevo, desenho, costuro, construo para me fixar” (Masagão, 2011:2).
O foco deste artigo será a obra Rasuras (Figura 1), exposta em 1998 no Mu-
seu de Arte Contemporânea de Niterói (Rio de Janeiro-Brasil), para o prêmio
“O artista pesquisador”. Nesta obra, Edith traça linhas no espaço com 60.000
metros de linha preta de algodão, presa nas paredes com 22.000 grampos, obra
realizada em 13 dias de montagem.
Neste trabalho, o gesto de traçar linhas é aparente, deixa rastros e produz
uma mancha de cor, condensada, materializando o gesto repetitivo de levar o
fio de um ponto ao outro, fixando-o. O fio é esticado em seu limite máximo,
produzindo uma tensão, que parece capturar o último instante antes do rompi-
mento total, antes do afrouxamento fatal.
Não é possível detectar o início do gesto e nem seu ponto final, porém, este
emaranhado de fios nos dá notícias de que um corpo passou por aqui, de um
ponto ao outro, em uma certa cadência, labor e continuidade. Além da passa-
gem do tempo, tomamos contato com o movimento do corpo que passou pelo
tempo: a cada grampo pregado na parede, a cada gesto de puxar o fio, elevá-lo,
tensioná-lo e trazê-lo à aparência nos impregnamos da certeza da existência de
um ato: a costura. Ato de deixar um rastro, uma rasura no espaço.
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Teixeira, Ângela Castelo Branco (2016)”A escritura-rasura na obra de Edith Derdyk.”

Figura 1 ∙ Edith Derdyk, Rasuras, 1998. 60.000 mtros


de linha preta de algodão, 22.000 grampos,
13 dias de montagem. Fonte: www.edithderdyk.com
1.2 Escrita: o gesto de tecer
Na produção de um texto, há o gesto de traçar um fio de sentido, a materiali-

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zação de um pensamento e um desenho a partir das palavras. Encontramos na
etimologia da palavra “texto”, que tem sua raiz na palavra latina “texere”, o sig-
nificado de “tecer”. Segundo o dicionário, tecer significa “tramar, entrelaçar,
fazer algo através da justaposição de fios” (Cunha, 1986:759). Considerando
esta acepção, o texto escrito pode ser concebido como uma composição, um
tecido de significados. Elaborar um texto é tecê-lo com as palavras, tramá-lo,

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uni-lo, tal como num tecido os fios se entrelaçam.
Segundo Flusser (2010:25), “escrever origina-se do latim ‘scribere’, que sig-
nifica riscar.” O instrumento pontiagudo da agulha no tecido se assemelha ao
instrumento cuneiforme utilizado para riscar/gravar uma superfície.
Escrever pressupõe a existência de um corpo. Para Nancy (2000:10), não se
trata de “escrever acerca do corpo, mas o próprio corpo. Não a corporeidade,
mas ainda o corpo.” E o que isso significa? Que escrever é o gesto de tocar algo,
de tocar o extremo da língua, tocar o sentido, margear a sua borda, seus limites,
expandindo-o. Escrever com o corpo pressupõe deixar uma marca para fora do
corpo, inscrever-se no espaço, ou seja, deixar um rastro, uma rasura.
Quanto mais de perto olhamos para um tecido, mais percebemos as suas
complexas tramas. No texto, esta trama também está exposta, as palavras po-
dem estar em diálogo ou em conflito, podem estar soltas ou apertadas, sobre-
postas ou lado a lado.
O tecido que recebe a costura sempre revela o gesto de quem o bordou. Seja
pelo seu avesso ou não, o desenho de cada ponto traz em si uma memória ges-
tual das mãos costureiras. Na escrita, o texto recebe a costura da língua, o gesto
de organizar, encadear e tensionar palavras e seus sentidos.
Considerando que o gesto de costurar e escrever são solidários, que relações
podemos traçar entre a obra Rasuras e o ato da escrita? De que escrita estamos fa-
lando? Toda a escrita pressupõe uma rasura? O que é escrever rasurando? E o ato
de traçar linhas no espaço é uma escrita? Produzir sentidos é produzir rasuras?

1.3. A Escritura-Rasura
Fazendo uma distinção entre a escrita e a escritura, Barthes (2007:20) afirma
que “a escritura faz do saber uma festa,” ou seja, se encontra em toda a par-
te onde as palavras têm sabor. Enquanto a escrita está mais voltada para a re-
presentação, a escritura estaria mais próxima da apresentação, dito de outro
modo, a escrita seria a imersão e a legitimação de um dizer único e hegemô-
nico, pautado numa determinada realidade e que teria, portanto, um formato/
conteúdo prévio e conhecido pelos cânones do saber; por outro lado, a escritura
seria a fundação de outro dizer, muitas vezes não conhecido do ponto de vis-
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ta da forma/conteúdo e que, ao provocar um estranhamento na língua, abriria


a possibilidade de um dizer singular, próximo do que está acontecendo com
aquele que escreve.
Neste artigo interessa-nos, portanto, este conceito de escritura. Trata-se do
gesto de escrever sem rumo certo, sem intenção de narrar, representar ou des-
crever algo previamente. Escrever, apenas. Para que as palavras antes soltas no
pensamento possam compor sentidos.
A escritura se encontra, então, mais próxima de um estado bruto do dizer,
Teixeira, Ângela Castelo Branco (2016)”A escritura-rasura na obra de Edith Derdyk.”

um estado de gesto sem finalidade, pois quanto mais próximos estamos do


acontecimento, mais próximos estamos do indizível, daquilo que pode apenas
ser nomeado como uma primeira vez, pois não há referências nem discursos
anteriores que o identifique.
Muitas vezes praticamos a escrita como um ato reflexivo somente, de sobre-
voo em um acontecimento, com finalidade estruturante e intelectual. Recorre-
-se ao texto apenas depois de ter-se tombado, no momento em que se sente
mais seguro e consistente, quase nunca antes ou durante o tombamento.
Já na escritura, o corpo que escreve está em busca de entrar num real possí-
vel, ou seja, não se está a relatar ou a traduzir tal como ele é ou foi, semelhan-
te a um espelho que revela uma imagem em todos os seus detalhes, mas sim
como um acontecimento singular, peculiar, que se funda na fragilidade da pró-
pria elaboração, que apenas emerge no mergulho na experiência e no retorno
à superfície do suporte dessa escritura. E, para tanto, necessita-se tensionar as
palavras, juntar opostos, diluir dicotomias, enfim, coloca-se em jogo o estatuto
da língua porque se está a realizar o próprio pensamento.
É aqui que a rasura se instaura. Este dizer que é experiência e se dá no pró-
prio ato de nomeá-la produz um traço originário, pois rasura o dizer anterior,
inaugura uma voz, constituindo um condensamento e uma mancha de sentido.
Alguém esteve ali. Há um vestígio de um gesto humano inaugural.
Este é o convite que emerge a escritura-rasura. Não se sabe o que se está
a tecer, não se projeta o vivido, tampouco se antecipa sua adjetivação, não se
repete, não se usa a experiência anterior como modelo, paradigma ou princí-
pio. Na escritura-rasura há sempre um estado de relação, um entre que está a se
compartilhar, nunca uma análise isolada ou descrição em que aquele que escre-
ve está separado daquele que vive, padece, observa.
Não há julgamentos a fazer. Tal como nos afirma João Barrento em seu livro
O Gênero Intranquilo, “a linguagem não fala, mas nomeia” (Barrento, 2010:70).
A escritura não gera concórdia, nem promove uma unidade harmoniosa, a sua
natureza confessa a discórdia, a tensão entre os opostos. A unidade de sentido,

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o todo, o fio condutor não está em questão, mas o seu emaranhado sim. 

2. Conclusão
A relação entre a obra Rasura (e todo o gesto contido nela) e o ato de escrever
(escritura) não se dá como uma metáfora, ou seja, como uma substituição de
significados e sim como uma justaposição, ou melhor, solicita-nos considerar-

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mos a existência de um “lugar entre” estes dois gestos: rasurar o espaço e rasu-
rar a língua.
Ao mesmo tempo em que expõe um acontecimento, um texto-experiência
possui certa disposição para o auto-sacrifício, para o abandono da afirmação
e do dizer que se destina um lugar prévio, certo saber antecipado do aconteci-
mento. Ao mesmo tempo em que expõe um gesto e uma materialidade, uma
obra-experiência faz emergir o que não se fixa, o que está prestes a se desinte-
grar, apagando as memórias anteriores, fazendo surgir outra espacialidade no
mesmo espaço, outra materialidade na mesma matéria. Um texto-experiência
e uma obra-experiência tornam-se, então, mais próximos do irreconhecível, do
inclassificável, do vir a ser a partir do gesto inaugural da rasura.

Referências
Barrento, João. (2010) O gênero intranquilo. ISBN 978-85-8636817-2.
Lisboa: Assírio Alvim. ISBN 978-972-37- Flusser, Vilém.(2010) A Escrita: Há futuro para
1495-1. a escrita? Tradução do alemão por Murilo
Barthes, Roland. (2007) Aula: aula inaugural Jardelino da Costa. São Paulo: Anablume.
da cadeira de semiologia literária do ISBN 978-85-391-0053-8.
Colégio de França, pronunciada dia 7 Masagão, Andrea Menezes.(2011) Da sutura
de janeiro de 1977; tradução de Leyla a rasura: A costura de Edith Derdyk.
Perrone-Moisés. São Paulo: Cultrix. ISBN: Disponível em: http://www.edithderdyk.
978-85-316-0029-6. com.br/portu/texto_rasuras_andrea%20
Cunha, Antônio Geraldo da (1986) Dicionário masagao.pdf
Etimológico Nova Fronteira da Língua Nancy, Jean-Luc.(2000) Corpus. Lisboa: Vega.
Portuguesa. Rio de Janeiro. ISBN 972-699-648-1.

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