Você está na página 1de 15

Direito Internacional Público – Aulas teóricas

Docente: Francisco Ferreira de Almeida

Testes: 27/10
04/12 – aula prática

15 de Setembro de 2017 – não houve aula

22 de Setembro de 2017
Matéria a estudar:
1º O que é?
2º Evolução histórica
3º Fontes de Direito Internacional
4º Relações do Direito Internacional e do Direito Interno
5º Sujeitos de Direito Internacional
6º Métodos de solução pacífica internacionais

Bibliografia:
- Direito Internacional Público, Coimbra editora, 2ªedição – Francisco Ferreira de Almeida
- Coletânea de textos de Direito Internacional (legislação internacional)
- Constituição da República Portuguesa

O que é o Direito Internacional?


É o Direito regulador das relações entre nações ou estados. 1

Nação ≠ Estado
conjunto de pessoas organização política
com características e jurídica de uma de-
comuns, que mani- terminada comunida-
festam vontade de de.
viver em conjunto.

● Pode haver coincidência entre estado e nação.


● Há estados que agrupam várias nações.
● Há nações espalhadas por vários estados.

→ O Direito Internacional não regula apenas relações entre estados ou nações. Há mais
sujeitos de Direito Internacional (organizações internacionais; cidadãos; sociedades
transnacionais; organizações não governamentais).

Geral (ou comum) – normas que se aplicam a todos os sujeitos.


Direito Internacional

Particular – normas que se aplicam só a uma determinada região


Público – Direito que se aplica à comunidade nacional.

Direito Internacional

Privado – Regula relações de Direito Privado plurilocalizadas (com


diversos ordenamentos jurídicos) ex: Portuguesa quer casar com um Francês na Alemanha.

Comunidade ≠ Sociedade
Algo espontâneo. Algo artificial
Prevalece a união
solidária.

É mais certo falar em comunidade, pois a generalidade dos países demonstram uma vontade
de se unirem, mesmo tendo de se submeter a várias regras.

29 de Setembro de 2017
Quando é que surge o Direito Internacional?
O Direito Internacional surge aquando do aparecimento dos Estados.

Soberania: poder supremo

O que é o Direito Internacional?


É o conjunto de normas jurídicas que permitiram a convivência entre os Estados Soberanos (é
neste contexto que o Direito Internacional surge).
2
É o Direito Internacional que cria condições para uma cooperação entre os Estados.

Funções do Estado:
• convivência
• cooperação

Evolução histórica do Direito:


● Direito Internacional Clássico (1640-1945)
● Direito Internacional Moderno (1945-presente)

Nota:
Sujeitos de Direito Internacional
Entidades titulares de Direitos e Obrigações (com personalidade jurídica internacional)

→ Direito Internacional Clássico


● Na sociedade internacional clássica os sujeitos de Direito Internacional eram os Estados
(juridicamente iguais entre si).
● A estrutura da sociedade internacional clássica era descentralizada, pouco ou nada
institucionalizada.
● O Direito Internacional era pouco ambicioso nos seus objetivos, tinham sobretudo normas
de Direito Internacional sobre:
- soberania do Estado;
- acerca da conclusão ou validade de tratados ou convenções;
- liberdade do alto mar (4 liberdades);
- sobre o recurso à força;
- sobre a responsabilidade dos Estados por atos ilícitos.
● As fontes de Direito Internacional que existiam surgiram com base na vontade dos Estados,
por isso se dizia que o Direito Internacional era um Direito voluntarista. Assim sendo, eram
estas as 2 fontes de Direito Internacional (ou mecanismos de criação de normas jurídicas
internacionais):
- Costume (forma espontânea de aparecimento de normas, que resulta do comportamento
dos Estados);
- Tratados ou convenções bilaterais (concluídos apenas entre duas partes).
● Tratava-se de um regime consuetudinário.
● O Estado tinha, essencialmente, 3 competências:
- Jus Tractum (Direito de concluir tratados);
- Jus legationis (Direito de envio/ recepção de missões diplomáticas):
- Jus ad bellum (Direito à Guerra).
● As funções típicas de uma ordem jurídica são:
- poder legislativo (Assembleia da República e Governo);
- poder judicial (Tribunais);
- poder executivo (Governo).
No plano interno há órgãos para exercer essas funções, são eles a Assembleia da República, o
Governo e os Tribunais. Na sociedade internacional clássica não haviam órgãos capazes de
desempenhar essas funções.
● No Direito Internacional clássico funcionava um sistema de auto-tutela de Direitos, eram os
Estados que auto tutelavam os seus Direitos.
● O Sistema normativo Internacional é um sistema hierarquizado. Temos uma espécie de
pirâmide. A fonte superior do Direito Internacional é a constituição, seguida das Leis, Decretos 3
e jurisprudência, imediatamente abaixo situam-se os atos normativos, portarias e resoluções e
por ultimo os contratos, sentenças judiciais, atos e negócios jurídicos.

O Direito Interno Clássico é um Direito não hierarquizado, não havia hierarquia de fontes nem
de normas.
● No que toca à responsabilidade Internacional por atos ilícitos (quando um estado não
cumpre algo ele está a incorrer), no Direito Internacional Clássico haviam 3 características:
- assunto privado entre os Estados diretamente envolvidos ( ou seja, entre o Estado que
pratica o ato ilícito e o Estado vítima/ lesado nos seus Direitos);
- responsabilidade coletiva (porque incidia sempre na responsabilidade do Estado enquanto
entidade coletiva. Os indivíduos não podiam ser responsabilizados porque só o Estado era
sujeito de Direito Internacional);
- reparatória (nunca sancionatória ou punitiva, porque a finalidade era apenas de reparação
dos danos ao Estado Vítima).

→ Direito Internacional Moderno


● Há uma alteração significativa após a 2ªGuerra Mundial, aparecem mais Estados na
comunidade internacional e passam também a haver novos sujeitos de Direito Internacional,
entre eles:
→ Organizações Internacionais (que passam a ser centros autónomos; Ex: ONU, União
Africana, NATO, FMI, Banco Mundial, Cruz Vermelha Internacional ..);
→ Povos não autónomos (aos quais o Direito Internacional atribui o Direito à
autodeterminação) - 3 categorias/ tipos de povos:
- povos sujeitos a regimes coloniais;
- povos sujeitos a regime racial;
- povos sujeitos à ocupação estrangeira.
→ Individuo (o individuo, pessoa física, passa a ser sujeito de Direito Internacional).
● A estrutura passou a ser mais centralizada e institucionalizada. Os Estados passam a ser mais
limitados/ controlados.
● Quanto às fontes, ao lado do costume tradicional surgem os costumes selvagens/
instantâneos (que se formam de um modo mais rápido e com um processo de formação
contrário ao do costume “normal”), e ao lado dos tratados/ convenções bilaterais passam a
existir também tratados/ convenções multinacionais (que se aplicam a muito mais Estados,
logo a sua eficácia aumenta). Surgem ainda os atos jurídicos unilaterais (dos Estados e das
Organizações Internacionais, sendo que no caso das Organizações designam-se resoluções).
● Os Estados deixaram de ter jus ad bellum, o recurso à força torna-se uma proibição. O
Concelho de Segurança ocupa-se dessa função. Há, todavia, um Direito da Guerra, que procura
limitar a amplitude da violência (jus in bellum).
● Passam a haver normas que atribuem Direitos às pessoas (processo de humanização do
Direito Internacional), por exemplo a Declaração Universal de Direitos do Homem.
● As 3 funções típicas da ordem jurídica passam a ser exercidas no plano internacional. No
modelo moderno as Organizações internacionais “produzem”, também, poder legislativo e o
Concelho de segurança assume, também, o poder executivo.
● Dá-se ainda o aparecimento de 2 novos ramos do Direito Internacional:
- Direito Internacional do ambiente; 4
- Direito Internacional penal.
● Quanto ao Sistema normativo internacional as normas que protegem os valores mais
importantes são as mais importantes. Passa a ser um sistema vertical como o Direito interno. A
uma hierarquia de normas corresponde uma hierarquia de valores.
● A responsabilidade internacional por atos ilícitos continua com o mesmo regime mas ao
lado desse surge um regime para quando são violadas as normas que estão no topo da
pirâmide, torna-se assim:
- assunto público (entre todos os Estados);
- responsabilidade do próprio individuo (porque o individuo passa a ser sujeito de Direito
Internacional);
- sancionatória/ punitiva.

6 de Outubro de 2017
Fontes formais e materiais do Direito Internacional
Fontes formais
● Local onde brotam as normas;
● Mecanismos (processos técnicos de criação de normas jurídicas internacionais).

Fontes materiais
● Fatores de caráter social, moral, politico, etc, que explicam o surgimento das normas.
Artigo 308.º → Fontes de Direito Internacional às quais os juízes do tribunal podem recorrer
para julgar os casos submetidos.
Indica 3 fontes formais:
→ convenções internacionais;
→ costumes internacionais;
→ princípios gerais de Direito.
Vêm também indicadas 2 fontes auxiliares:
→ jurisprudência
→ doutrina

1ª Conclusão
Não estão indicadas todas as fontes formais, falta os atos jurídicos unilaterais. Isto acontece
porque quando foi elaborado o estatuto internacional não tinham a importância de hoje.
2ª Conclusão
Não há relações de hierarquia entre fontes formais (ou seja, não há umas mais importantes
que outras).
Não havendo hierarquia entre as fontes, a ordem pela qual estão indicadas não é por acaso.
Os juízes devem recorrer em 1º lugar às convenções internacionais, depois ao costume e se
não se conseguir resolver, recorrer aos princípios gerais de Direito. Existe, pois, uma ordem
sucessiva de utilização.
3ª Conclusão
Vêm indicadas as formas mas não vêm definidas porquê? Porque a noção é-nos revelada por
via consuetudinária (já resultava de um costume).
5
O que são Convenções Internacionais?
Essencialmente são acordos de vontade entre sujeitos de Direito Internacional destinados a
criar vínculos jurídicos entre as partes e regulados pelo Direito Internacional mas também
quanto a certos aspetos do seu regime, pelo Direito Interno dos Estados.
Constituem o instrumento mais antigo do relacionamento entre os Estados.

Negócio jurídico entre Estados

interesses idênticos interesses divergentes

Resultam posições Resultam posições sub-contrapostas


de uma vontade
no mesmo sentido

tratado de lei tratado contrato

Quem são os sujeitos? Normalmente Estados mas também podem ser entre Estados e
Convenções Internacionais.

Destinam-se a criar vínculos jurídicos para as partes.


Permite distinguir as Convenções as Convenções Internacionais dos Acordos Cavalheiros
(concluídos entre Estados mas em nome pessoal).
Dos Acordos Cavalheiros resultam vínculos jurídicos para os Estados, logo não são Convenções
Internacionais.

Classificação das Convenções internacionais:


- Qualidade
● Concluídas entre Estados
● Concluídas entre Estados e Organizações
● Concluídas entre Organizações Internacionais
- Número de partes
● Bilaterais (2 partes)
● Multilaterais (mais de duas partes)

gerais/abertas restritas/fechadas
nº elevado de nº de partes relativamente
partes; reduzido;
designadas por não são convenções
convenções uni- universais;
versais; nem todos os Estados
qualquer Estado podem aderir (Ex: Acordo
pode aderir. Ortográfico).
- As Convenções dividem-se em:
● Tratados Solenes
● Acordos em forma simplificada
→ As Convenções Internacionais necessitam de ser ratificadas enquanto que os Acordos não. 6
→ Atualmente verifica-se uma maior afluência de Acordos em detrimento dos Tratados, visto
que os Acordos são mais rápidos e menos embaraçosos.
- Quanto à forma
● Escrita
● Oral
→ Normalmente são escritas.

Como se conclui uma Convenção Internacional?


1ª Etapa
● Negociação (serve para adotar o texto da futura Convenção Internacional)
● Uma vez adotado o texto divide-se em 3 partes:
→ (A) Preâmbulo - o preâmbulo indica as partes por ordem alfabética; local e data de
elaboração; motivos da sua conclusão; não tem força jurídica obrigatória mas é muito
importante em sede de interpretação.
→ (B) Corpo ou dispositivo – parte nuclear da disposição; tem força jurídica obrigatória; tem
caráter vinculativo; é constituída pelas cláusulas (finais) da convenção.
→ (C) Anexos – são disposições de caráter técnico que figuram à parte do dispositivo (sendo
também obrigatória).
2ª Etapa
● Ato de autenticação /assinatura. A Convenção tem que ser assinada pelos Estados.
● A este ato asseguram-se sempre 3 efeitos ou 4 em casos específicos:
- Inalterabilidade do texto;
- Estudos signatários têm dever de boa-fé (não praticar atos em defesa da convenção);
- Os Estados têm o direito de praticar atos em defesa da convenção.
- O 4º só se produz nos acordos em forma simplificada. A autenticação equivale a
consentimento da vinculação → Nos tratados não é assim, pois têm de ser ratificados.
3ª Etapa
● Aprovação. Todas as Convenções têm de ser aprovadas (ou pelo Governo ou pela
Assembleia da República).
● Serve para permitir que a Convenção possa produzir os seus efeitos.
● O Governo aprova os Acordos que não forem da competência da Assembleia da República.
Artigo 161.º alínea 1
● A Assembleia da República aprova tratados solenes, os acordos que versem matéria da sua
competência reservada e acordos que o Governo lhe submeta para aprovação. Artigo 164º e
165º
● Acordo em forma simplificada aprovado pelo Governo em Conselhos de Ministros através de
um Decreto simples. Esse Decreto vai ser assinado pelo 1ºMinistro e pelo Ministro competente
em razão da matéria. Depois é enviado ao Presidente da República para assinar e
seguidamente devolvido ao Governo para Referenda. Só depois é publicado no Diário da
República.
● O Tratado solene é negociado pelo governo. Depois, em Conselho de Ministros o Governo
aprova uma proposta de resolução enviada para a Assembleia da República, que aprova o
Tratado através de Resolução. Uma vez aprovado é assinado pelo Presidente da Assembleia da
República e enviado para o presidente da República, que o vai assinar e retificar.
4ª Etapa
● Ratificação.
● Em Portugal é feita pelo Chefe de Estado (presidente).
● A ratificação consiste num ato pelo qual o Presidente declara a vontade do Estado português 7
em vincular-se no plano Internacional às disposições de um Tratado solene.
● Manifestação do consentimento à vinculação àquele tratado.
● Pode acontecer que o Presidente da República ratifique sem se aperceber que para trás foi
violada alguma norma da Convenção Internacional.
5ª Etapa
● Entrada em vigor.
● É o momento em que entra no Direito Positivo.
● Adquire vigência e começa efetivamente os seus efeitos.
● Entra em vigor na data e segundo as modalidades nela prevista (em regra).
● Se não houver disposições em razão da entrada, entra em vigor segundo acordo de partes.
Se não houver acordo entra em vigor quando ambas o tiverem ratificado.
6ª Etapa
● Registo e publicação da Convenção.
● As Convenções Internacionais devem ser registadas junto do secretariado das Nações Unidas
(Guterres).
● Se não for registada não afeta nem a validade nem eficácia mas não pode ser invocada ou
levada ao conhecimento dos órgãos das Nações Unidas (é como se não existisse).

13 de Outubro de 2017
→ As Convenções podem ser acordos ou tratados.

O que é uma ratificação?


● A ratificação é o processo pelo qual uma legislação ou tratado passa a ter efeito legal
vinculativo para as suas entidades signatárias. Para ser ratificado, o tratado ou lei necessita
receber uma maioria de votos da Casa Legislativa, ou de países, no caso de tratados
internacionais. O processo de ratificação, geralmente, exige a publicação em um Diário Oficial,
de forma que a população possa tomar conhecimento de seu teor.
● A ratificação é uma etapa que só existe para os Tratados Solenes.
● As ratificações imperfeitas estão previstas no artigo 46.º da Convenção de Viena. Estas,
habitualmente não têm consequências, não provocam invalidade do tratado. Só
excecionalmente é que as ratificações imperfeitas podem gerar a invalidade da convenção
(nulidade relativa), para isso têm de preencher dois requisitos:
- se a violação do Direito Constitucional é manifesta;
- se estiver em causa uma norma de importância fundamental.
● Porque é que a Convenção de Viena consagrou isto? Há dois valores a ter em consideração,
são eles:
- a regularidade do procedimento interno de conclusão dos tratados;
- a estabilidade, certeza e segurança.

Exemplos práticos:
→ 1º Caso
Suponhamos que Portugal concluiu com a Espanha um tratado destinado a regular a utilização
conjunta dos rios internacionais Douro, Tejo, Guadiana. Em Portugal o tratado foi negociado
pelo Governo, aprovado pela Assembleia República sobe a forma de lei e ratificado pelo Chefe
de Estado (Presidente da República).
Questão: Quid Iuris encontram nesta situação alguma irregularidade ou não?
Resposta:
É um tratado solene. Há uma irregularidade. Há uma ratificação imperfeita. Os tratados devem 8
ser aprovados na Assembleia da República através de resolução. Temos uma ratificação
imperfeita, o tratado foi aprovado por lei.
A consequência desta ratificação imperfeita no plano internacional não vai ser nenhuma.

→ 2º Caso (excecional)
Suponhamos que Portugal conclui com Espanha, França e Itália um tratado destinado à criação
de uma organização internacional de defesa militar conjunta dos 4 Estados. O tratado foi
negociado e autenticado pelo governo e depois ratificado pelo chefe de Estado.
Questão: Quid Iuris encontram nesta situação alguma irregularidade na conclusão deste
tratado?
Resposta:
Falta um ato importante, o presidente da República vai ratificar um tratado que não foi
aprovado.
A convenção de Viena faz depender a conclusão do tratado por dois requisitos. A violação é
manifesta, certamente que os outros países teriam verificado que o tratado não teria sido
aprovado. Por outro lado diz respeito a uma norma interna de importância fundamental, está
em jogo uma repartição de competência entre órgãos de soberania. Desaparecer aqui a
intervenção do órgão parlamentar é um vicio grave. Portugal poderia invocar esta invalidade
para se desvincular do tratado.
Então mas é possível o Presidente da República ratificar um tratado que não está aprovado?
O tratado da CPLP é um exemplo disso em Portugal.
Aplicação Das convenções internacionais a Estados Terceiros ou estados não partes
● Há um principio geral previsto no artigo 34.º da convenção de Viena que é o Princípio da
Relatividade dos efeitos das Convenções Internacionais ou princípio da eficácia relativa das
convenções internacionais. Este princípio significa que uma convenção internacional em regra
não produz efeitos para terceiros sem o seu consentimento. A eficácia de um convenção
internacional normalmente restringe-se às partes.
● Há situações em que as convenções internacionais produzem efeitos para terceiros, embora
mediante o conhecimento deles e há também casos em que produzem efeitos para terceiros
independentemente do seu conhecimento. Não havendo conhecimentos desses terceiros há
exceções ao principio da relatividade.

→ Vamos analisar convenções internacionais que produzam efeitos para terceiros, embora
mediante o conhecimento desses terceiros.
Existem 3 mecanismos a considerar:
● Acordo colateral
Está previsto no artigo 35.º da Convenção de Viena.
É um mecanismo que serve para criar obrigação para um Estado não parte.
A B
C
Temos um tratado inicial concluído entre A e B. Estes dois Estados pretendem impor uma
obrigação a um estado 3º (C). Essa obrigação só passará a vinculá-lo caso C aceite
expressamente por escrito essa obrigação. É feito através de um 2ª acordo concluído entre C e
9
as partes do tratado inicial que se designa por acordo colateral. A obrigação não vai vincular o
Estado C por causa só do tratado A-B, é necessário um 2ºtratado. Não há exceção ao princípio
da relatividade.
● Estipulação em favor de outrem
Está previsto no artigo 36.º da convenção de Viena.
É um mecanismo destinado a atribuir um direito a um estado 3º.
A B
C
Neste caso, A e B pretendem atribuir um direito a C. o consentimento de C continua a ser
necessário, mas agora esse consentimento é presumido, não é preciso ser de forma expressa e
escrita. No caso de C não querer esse direito terá de dize-lo expressamente. Não há exceção
ao princípio da relatividade.
● Cláusula da nação mais favorecida
A B ou A B

C C

Não está previsto na convenção de Viena.


É um mecanismo muito utilizado nas relações económicas internacionais, sobretudo no quadro
da OMC (organização mundial de comercio)
supondo o tratado inicial entre A e B, nesse tratado vai ser inserida uma clausula prevendo que
se qualquer deles ( A ou B) concluir mais tarde uma convenção idêntica mas com disposições
mais favoráveis, com um regime mais favorável, com outro Estado, o regime mais favorável
constante dessa convenção posterior aplicar-se-á automaticamente à convenção inicial A-B. A
nação mais favorecida neste caso é a B. Se for o B a concluir com C a nação mais favorável a
nação mais favorecida vai ser a A. O Estado 3º neste caso será o B (em relação à convenção A-
B é o que sofre os efeitos beneficiários por parte de uma convenção da qual não faz parte).
O Estado 3º é a nação mais favorecida.
O consentimento do Estado 3º está na cláusula inicial.

→ Vamos analisar convenções internacionais que produzam efeitos para terceiros,


independentemente do conhecimento desses terceiros (situações de exceção ao principio da
relatividade).
● Pode acontecer que as convenções internacionais se convertam em costumes para estados
terceiros. As normas convencionais resultantes de um tratado celebrado entre vários Estados
convertem-se em normas costumeiras para estados terceiros. Um costume internacional é
preciso ser interiorizado como uma obrigação pelos estados terceiros.
● Outro exemplo será o de uma Convenção Internacional conter normas imperativas de
direito internacional. O direito internacional é um direito hierarquizado. As normas
vinculativas têm uma eficácia geral. Se uma convenção internacional contiver normas
imperativas ela também irá produzir normas para terceiros. Um exemplo disto é a convenção
sobre a proibição da escravatura.
● Outro caso são as convenções internacionais que consagram certos estatutos territoriais.
Por exemplo um estatuto de desmilitarização. O que vai acontecer é que não vão produzir
efeitos apenas para as partes.
● Podemos falar também em tratados através dos quais se cria um novo sujeito do Direito
Internacional. Por exemplo um tratado que crie uma organização internacional como a ONU. 10
Este tratado criou um novo sujeito de Direito Internacional. A criação de um novo sujeito de
Direito Internacional é um facto objetivo, que vai produzir também efeitos para terceiros.
● Pode dar-se ainda um acordo de Independência através do qual seja criado um novo
Estado. Estes tratados também produzem efeitos para 3ºs. O surgimento de um novo Estado é
uma situação objetiva, que não pode ser contestada.

Convenções internacionais → As suas condições de validade


● A validade significa a conformidade da validade com as normas jurídicas.
O que é que é necessário para uma convenção internacional ser válida?
São necessários 3 requisitos:
→ capacidade das partes: é preciso que as partes tenham capacidade jurídica para concluir a
convenção internacional.
→ regularidade do consentimento ou da vontade*: é necessário que o consentimento ou
vontade das partes a ficarem obrigadas pelo tratado seja manifestado de forma regular, ou
seja, de modo que o direito considere legitimo
→ licitude do objeto: é necessário que o objeto da convenção (é o assunto de que trata a
convenção) seja lícito. É licito quando está em conformidade com os princípios fundamentais
do Direito Internacional.

Capacidade das partes


● Quem é que tem capacidade para celebrar convenções internacionais?
Os estados e as Organizações Internacionais. Por vezes os povos não autónomos também
podem concluir certos tipos de Convenções Internacionais, por exemplo acordos de
independência (situações muito pontuais).
● Os Estados têm uma competência plena para concluir todo o tipo de tratados, desde que
tenham um objeto lícito. Só há duas situações que podem levar à incapacidade de um Estado
para concluir Convenções Internacionais, uma dessas situações já nem se verifica nos nosso
dias, é a situação de protetorado. Protetorado tem a ver com uma situação especifica, um
estado protetor e um estado protegido, o estado protetor passa a representar o estado
protegido no plano internacional. Se um estado protegido celebra uma convenção
internacional não tem capacidade jurídica para o fazer. A outra situação de incapacidade de
um Estado para concluir um convenção internacional é a de um estado federado dentro de um
estado federal.
Os EUA são uma federação de Estados, o Brasil igual. O Estado do rio de janeiro não pode
concluir um tratado internacional em nome do Brasil, a menos que a constituição o permita.
● A capacidade de uma Organização Internacional para concluir Convenções Internacionais
não é plena, é limitada. Cada organização internacional tem determinadas atribuições/
finalidades a perseguir, logo não pode concluir convenções internacionais que não se
enquadrem nas suas atribuições, estão limitadas pelo principio da especialidade do fim.
Por exemplo uma organização internacional de caráter ambiental não pode celebrar
convenções internacionais em matéria económica.
● Se um Estado ou uma Organização Internacional concluírem uma convenção internacional
não tendo capacidade jurídica para o fazer a consequência é a invalidade da convenção sobe a
forma de nulidade absoluta.

Regularidade do consentimento ou da vontade


● Se o consentimento não estiver manifestado de uma forma regular estamos perante vícios
da vontade ou do consentimento. Esses vícios são formais ou substanciais. 11
● Vícios formais são por exemplo as ratificação imperfeitas.
● Irregularidades substanciais:
- erro
- dolo
- corrupção
- coação
● O erro, o dolo e a corrupção provocam a nulidade relativa. A coação provoca a nulidade
absoluta. A nulidade absoluta pode ser provocada também pela incapacidade das partes e a
ilicitude do objeto.

Objeto lícito
● Significa que o objetivo da convenções internacionais não podem infringir os princípios
fundamentais do Direito Internacional.
● Se o objeto da convenção não for lícito estaremos perante uma nulidade absoluta da
convenção internacional.

→ Existem pois duas formas de invalidade, a invalidade relativa e a invalidade absoluta.

20 de Outubro de 2017
Matéria para o teste:
● Página 9 até 19
● Página 29 até 55
● Página 93 até 101 e 102 – à exceção das classificações matérias não estudar
● Página 102 até 114
● Página 125 até 150

Exemplos práticos:
→ 3º Caso
Suponhamos que o Estado A concluiu um tratado com o Estado B em 2015 destinado à
retificação do traçado da fronteira noroeste de ambos os Estados.
Em 2016 A pretende invalidar esse tratado alegando que durante as respetivas negociações o
seu representante oficial interpretou mal um mapa que lhes serviu de base.
(Retificar = corrigir, alterar)
Questão: Quid Iuris?
Resposta:
Está em causa um vício substancial. Existem 3 requisitos de validade, são eles: capacidade das
partes; objeto da convenção (lícito) e o consentimento dos Estados.
Quanto à capacidade das partes não se suscita nenhum problema, o objeto da convenção
também é licito, o problema reside no consentimento de um dos Estados. Este vício de
consentimento é um erro. O erro está previsto no artigo 48.º da Convenção de Viena. O erro
só tem relevância enquanto vício, e só dará origem à nulidade relativa da convenção se
preencher dois requisitos: é preciso que seja um erro essencial ou determinante; segundo
tem de ser um erro desculpável.
O erro é essencial ou determinante se se demonstrar que se não fosse esse erro o Estado em
causa não teria chegado a concluir a convenção ou tê-la-ia concluído noutro sentido, dito de
outra forma, o erro para ser relevante tem de incidir sobre a base do consentimento do
Estado ou obrigar-se. Mas o erro tem de ser também desculpável. O erro é desculpável se o 12
Estado não contribuiu para ele através de um comportamento descuidado, negligente,
pouco cauteloso. Dito de outra maneira, o erro será desculpável se não era exigível ao Estado
que se tivesse apercebido dele.
Mas o erro em si mesmo em que consiste? O erro é uma representação da realidade que não é
exata, é inexata. Mas para que isso conduza à invalidade do tratado é necessário que se
preencham estes dois requisitos simultaneamente.
Com base nestes pressupostos, concluímos que esse erro é um erro essencial e determinante,
porque há neste caso um indício que aponta para o caráter do erro, diz-se que o erro ocorreu
na interpretação de um mapa que serviu de base, logo era um documento crucial para a sua
interpretação, logo, se não fosse esse erro o Estado A não teria concluído o tratado. O erro
incidiu na base do consentimento do Estado a obrigar-se.
Mas não basta isto para o tratado ser invalidado, o erro tem de ser desculpável, logo o Estado
não pode ter sido negligente. O erro não é desculpável quando o Estado se apercebeu dele ou
em face das circunstâncias deveria ter apercebido. Neste caso este erro não é desculpável, o
Estado deveria estar preparado para interpretar esse erro.
Concluindo que se trata de um erro essencial mas não desculpável, então o tratado não
seria invalidado.

→ 4º Caso
Suponhamos um caso em que há um erro numa convenção internacional, mas partimos do
principio de que o erro é determinante e desculpável.
Se o tratado foi concluindo em janeiro de 2015. O estado vitima apercebeu-se do erro em
março de 2015 e pretende invalidar o tratado apenas em 2017.
Questão: Quid Iuris, será admissível?
Resposta:
Apercebendo-se do erro em março, deveria ter solicitado a sua invalidade nessa altura.
Quando isto acontece podemos concluir que em resultado da sua conduta o Estado sanou o
vício. O Estado tornar são significa aceitar que o tratado continue em vigor apesar do vício
que afetava a sua validade.
Esta possibilidade de sanação só existe nas nulidades relativas e não nas absolutas. As
nulidades relativas são sanáveis e as absolutas são insanáveis.
A sanação pode ser feita expressamente ou tacitamente. Será expressa se o Estado fizer uma
declaração, dizendo expressamente que pretende sanar o vicio, ou seja, aceita que o tratado
continua a vigorar apesar desse vício (erro), trata-se de uma convalidação. É tácita quando,
olhando ao comportamento do Estado, seja legitimo concluir que ele aceitou que o tratado
continuasse a sua vigência apesar do vício, não diz expressamente que pretende sanar, isso
resulta do seu comportamento.
Tendo em conta que se trata de um erro que determinante e desculpável, porque o Estado
apercebe-se do erro 2 meses depois e só pretende concluir a invalidade do tratado 2 anos
depois, houve aqui uma sanação tácita, perdendo o estado o direito de invocar a nulidade,
porque pedir a nulidade em 2017 significa estar a ter um comportamento contraditório com a
sua conduta anterior. Não pode contraditoriamente anuir a invalidade, isto seria uma conduta
contrária ao principio da boa fé, previsto no artigo 45.º da convenção de Viena.

→ 5º Caso
Suponhamos que Portugal concluiu com os Estados Unidos um tratado destinado à aquisição
de maquinaria de aplicação industrial.
Mais tarde verifica-se que as referidas máquinas não são afinal adequadas para a produção 13
tida em vista mas apenas para a de um produto já obsoleto.
Questão: Quid Iuris, sabendo que a aquisição das máquinas foi vivamente aconselhada ao
Estado português por uma equipa de peritos presente nas negociações do tratado?
Resposta:
Neste caso vamos partir do principio que os peritos eram americanos.
À luz da Convenção de Viena seria uma situação de dolo (previsto no artigo 49.º da Convenção
de Viena).
O dolo, enquanto vício do consentimento, trata-se de um erro provocado/induzido pela outra
parte (contraparte do tratado). Mas só há verdadeiramente dolo e portanto só há
invalidação do tratado se demonstrar que houve intenção e consciência de prejudicar o
outro Estado. O dolo pressupõe a utilização de certos artifícios para levar a outra parte a
concluir o tratado num certo sentido, pressupõe má fé e consciência/ intenção de prejudicar.
Se a equipa de peritos soubesse que as máquinas já estavam ultrapassadas e se aconselhou a
sua compra ao Estado português, temos uma situação de dolo. A consequência do dolo é
invalidade relativa.
A 1ª característica da invalidade relativa é que só pode ser invocada pela parte vítima, neste
caso o Estado português. A 2ª característica da invalidade relativa é que é um vício suscetível
de sanação, portanto o Estado português, nos termos do artigo 45.º da Convenção de Viena
ou expressa ou tacitamente poderia sanar o vício. Quando há uma nulidade absoluta todo o
tratado é nulo, desaparece da ordem jurídica, mas nas nulidades relativas, se se verificarem
determinados requisitos ( previstos no artigo 44.º nº3 da Convenção de Viena) pode haver
divisibilidade extintiva. Ou seja, vamos supor que temos uma convenção com 5 cláusulas, e
por exemplo o dolo incide sobre a cláusula e) apenas, então, se se verificarem no artigo 44.º
nº3 é possível invalidar apenas a cláusula e) mantendo-se o resto do tratado em vigor
(aproveita-se a parte não viciada do tratado e anula-se as disposições viciadas).

O que distingue uma nulidade relativa de uma nulidade absoluta é:


● 1º invocação do vício (na nulidade relativa só a parte vÍtima pode invocar e na nulidade
absoluta qualquer dos Estados o pode fazer).
● 2ª as nulidades relativas são sanáveis e as absolutas insanáveis.
● 3ª nas nulidades absolutas o tratado é indivisível e nas relativas o tratado pode ser dividido.

→ 6º Caso
Suponhamos que o Estado A conclui com B um tratado, aceitando os termos da cláusula x
respetiva (largamente desvantajosa para si próprio) porque durante as negociações o
representante oficial de B ofereceu ao seu homólogo (representante de A) uma valiosa
moradia numa ilha tropical.
Questão: Quid Iuris?
Resposta:
Está em causa o vício da corrupção. A coação aplica sempre uma ameaça, a corrupção não (é
uma oferta que se faz). Só há corrupção se se provar um nexo de causalidade, é preciso
demonstrar que há um representante do estado que prejudica o seu estado em troca de uma
oferta de caráter pessoal. Do ponto de vista das suas consequências a corrupção é
exatamente igual ao dolo – essa consequência é a invalidade relativa.
A corrupção está prevista no artigo 50.º da Convenção de Viena.

→ 7º Caso
Suponhamos que A pretende anular o tratado concluído com B alegando que o representante 14
oficial deste ultimo ameaçou o representante de A durante as negociações com a revelação de
pormenores comprometedores da sua vida privada suscetíveis de pôr em causa a sua carreira
de diplomata.
Questão: Quid Iuris?
Resposta:
Estamos perante uma situação de coação.
A Convenção De Viena prevê dois tipos de coação: Coação sobre um representante de um
Estado; Coação dirigida ao próprio Estado.
Seja qualquer uma destas a consequência é idêntica, é a nulidade absoluta (artigos 51.º e 52.º
da Convenção de Viena).
Tratando-se de uma nulidade absoluta, qualquer das partes pode invocar o vício (exceto o que
coagiu), segundo é um vicio que não pode ser sanado e em 3º lugar não há possibilidade de
divisibilidade do tratado.
As nulidades absolutas têm na sua origem vícios mais graves, em que está em causa interesses
gerais da comunidade internacional, por isso o seu regime é mais severo do que o da nulidade
relativa.

Exemplo de uma convenção em que haja ilicitude do objeto:


O tratado tem de violar um príncipio imperativo do Direito Internacional – como o da
dignidade da pessoa humana. Por exemplo um tratado que considere admissível a tortura. OU
um tratado em que dois Estados combinem invadir um 3º estado. A consequência é a
nulidadeabsoluta.
Quais são os efeitos da invalidação de uma convenção internacional?
Os efeitos são ex tunc (retroativo), o que quer dizer que os efeitos da declaração de nulidade
projetam-se para trás até ao momento em que a convenção foi concluída. Exceto se forem
atos praticado de boa fé (artigo 69.º da Convenção de Viena).

Para o teste:
1 ou 2 questões de definição sucinta
1 pergunta de desenvolvimento
1 caso prático sobre o vício das convenções internacionais.
É fundamental identificar bem o vício; explicar o vício e as suas consequências; quem pode
invocar; se é sanável; se há ou não divisibilidade.

15