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É VIAVEL UMA RENOVAÇÃO DO MARXISMO HOJE


NO MEIO DA ATUAL OFENSIVA NEOLIBERAL E DA CRISE DO SOCIALISMO?
Luigi Bordin UFRJ

RESUMO
Na primeira parte de nosso ensaio, convidamos a refletir criticamente sobre as contradições da
globalização, isto é, duma nova “acumulação” e “centralização” do capital em pro duma minoria
em detrimento da maioria, causando uma “nova barbárie”. Na segunda parte, identificando-nos
com todos os explorados e os excluídos do sistema e com os movimentos sociais de contra cultura e
de contra poder, tentaremos mostrar como Marx e a tradição marxista, assumidos e revistos
criticamente, permanecem ainda como bússolas indispensáveis para uma saída da emboscada
neoliberal na busca de resistências e alternativas em defesa da vida e contra a exploração e a
corrupção que vão se difundindo pelo mundo.
Palavras chaves: neoliberalismo – dívida externa – exclusão – barbárie – relação entre teoria e
prática

SOMARIO
Nella prima parte del nostro saggio, convidiamo a riflettere criticamente sulle
contraddizioni della globalizzazione, ossia: d’una nuova “accumulazione” e “centralizzazione” del
capitale in pro d’una minoranza in detrimento della maggioranza, causando una “nuova barbárie”.
Nella seconda parte, identificandoci con tutti gli sfruttati e gli esclusi dal sistema e con i movimenti
sociali do contro-cultura e contro-potere, tentaremo mostrare come Marx e la tradizione marxista,
assunti e revisti criticamente, permangono ancora come bussole indispensabili per uscire
dall’imboscata neoliberale in cerca di resistenze e di alternative in difesa della vita e contro lo
sfruttamento e la corruzione che stanno diffondendosi nel mondo.
Parole chiavi: neoliberalismo – debito estero – esclusione – barbárie - relazione fra teoria e prática

“A grande crise econômica atual é uma crise global de humanidade que não se resolverá
com nenhum tipo de capitalismo, porque não é possível um capitalismo humano; o
capitalismo continua a ser homicida, ecocída, suicida. Não há modo de servir ao deus dos
bancos e ao Deus da Vida, conjugar a prepotência e a usura com a convivência fraterna. A
questão axial é: trata-se de salvar o sistema ou se trata de salvar a humanidade?” (Pedro
Casaldáliga, bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia)

Introdução

A obra de Marx constitui, desde o século XIX até os nossos dias. um dos elementos centrais da história
política e da cultura. Desde então, surgiram também diversas interpretações do pensamento de Marx que
deram origem a várias formas de consciências e ideologias. De tudo isso alguns aspectos permanecem
ainda vivos, e são encontrados, do ponto de vista da teoria, naquelas análises que constituem o campo
teórico de Marx no contexto histórico contemporâneo, isto é, as análises sobre as novas formas do
capitalismo e seus efeitos sociais, sobre o subdesenvolvimento e as formas do imperialismo econômico,
sobre o capitalismo de Estado e a emergência social das classes, etc. Deve-se entender o marxismo, antes
de tudo, como um método de investigações sociais, econômicas e políticas concretas do atual sistema
capitalista. Trata-se de aplicar às novas situações sócio-econômico-políticas o método de Marx que
reconhece, também, em cada investigação uma intervenção a serviço dos grupos sociais explorados e
oprimidos. É anti-histórico querer voltar a Marx passando por cima das contribuições que compõem a
história do marxismo, isto é, ignorando o que foi toda a riqueza política, filosófica, cultural e intelectual do
marxismo no século XX (Lênin, Trotsky, Rosa Luxemburgo. Gramsci, Lukács, Mariátegui, a Escola de
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Frankfurt, Walter Benjamin, Ernst Bloch, etc.). Se quisermos entender fenômenos como o imperialismo, o
fascismo, as catástrofes da modernidade, não vamos encontrar a resposta em Marx..
A idéia da volta pura e simples a Marx, como se aí poderíamos encontrar a resposta para os problemas
atuais, é uma ilusão. Deve-se, ao invés, reler Marx, e também os clássicos do marxismo, mas para
reformular e repensar os problemas atuais da luta contra o capitalismo e da perspectiva socialista sempre a
partir da perspectiva do materialismo histórico e dialético e, sobretudo, da crítica da economia política ao
capital que Marx e os pensadores marxistas nos propiciaram. Por quanto se refere ao presente, sobretudo na
América Latina, devemos obrigatoriamente, também, tentar apreender com todos os movimentos vigentes
que lutam contra o neoliberalismo: o movimento dos “Sem Terra” no Brasil, a Revolução Bolivariana
na Venezuela, o movimento indígena na Bolívia , etc sob pena, se não fizermos isso, de permanecer
prisioneiros de uma ética burguesa idealista e impotente para estar efetivamente ao lado dos pobres, dos
excluídos, das vítimas e de todos os injustiçados pelo sistema dominante. Nosso ensaio de compõe de
duas partes: a primeira apresenta uma incursão rápida sobre as contradições da globalização e a nova
barbárie; a segunda se detém sobre a pertinência duma renovação do marxismo e da vigência dos
movimentos sociais de contra cultura e de contra poder.

PARTE I - A PRIVATIZAÇÃO DO MUNDO

1 Desvendado a face perversa da globalização

Em contradição com a retórica da globalização, as relações econômicas e financeiras


globalizadas marcam não tanto o progresso quanto uma internacionalização da atividade
econômica, isto é, uma intensificação das relações de troca entre economias que, todavia,
permanecem entre si substancialmente separadas. De um lado, as atividades econômicas, ao
invés de darem vida a um único circuito global, tendem a organizar-se ao redor de três
blocos (América Setentrional, Europa Ocidental, Ásia Oriental e do Pacífico), cada um dos
quais articulam um centro e uma periferia. De outro lado, as corporações multinacionais,
que hoje controlam sozinhas 20% da produção mundial e 70% do comércio, permanecem
substancialmente ligadas aos respectivos mercados nacionais, ou regionais, ao interior da
tríade.A pagar o preço maior duma economia mundial, ulteriormente diferenciada e
fragmentada, são os mais pobres dos países pobres, aqueles que vivem com menos de um
dólar ao dia, isto é, uma larga parte da população mundial. O quadro da distribuição da
riqueza em escala global é alarmante. No início dos anos 1960, os 20% mais ricos da
população mundial dispunham de uma renda trinta vezes superior aos 20% mais pobres.
Hoje, os 20% mais ricos gozam da renda acerca de 66 vezes superior àqueles da parte mais
pobre da população mundial. No Brasil os 20% mais ricos da população se atribuem os
70% da renda nacional, enquanto aos 20% mais pobres vão menos de 2%. A disparidade
global aumenta ulteriormente: os 20% mais ricos da efetiva população mundial são
destinatários de uma parte de riqueza pelo menos 150 vezes superior àquela dos 20% mais
pobres. Segundo fontes das Nações Unidas, mais de um bilhão de pessoas, isto é, um
quarto da população mundial, vive em condições de pobreza absoluta nos paises
economicamente atrasados. A pobreza absoluta é difusa nas áreas agrícolas, mas se
concentra em formas particularmente degradantes nas grandes periferias metropolitanas. As
grandes potências industriais praticam complexas estratégias de competição mercantilista
entre os Estados. A abertura dos mercados é máxima nos setores em que a concorrência
global está a favor dos mais fortes e em que o protecionismo descrimina os paises mais
fracos e com uma dívida externa crescente.
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Na verdade, é com uma substancial subordinação a essas tendências gerais da


economia mundial que as máximas instituições econômicas internacionais (o Banco
Mundial e o Fundo Monetário Internacional etc.) operam, distanciando-se das funções a
elas atribuídas em 1944 nos acordos de Bretton Woods, ao ponto que, nos últimos vinte
anos, tais instituições subtraíram imponentes quantidades de recursos financeiros dos paises
pobres, os quais se endividaram de forma incauta por causa da queda dos preços
internacionais no decorrer da década anos 80 do século passado. O nível internacional dos
preços das matérias-primas não depende de eventos naturais, mas das políticas econômicas
e militares dos paises industriais e das escolhas de mercado das corporações mais
poderosas. Não é exagerado, pois, falar de uma verdadeira e própria “usura”
internacional. Os paises industrialmente atrasados pagaram em média taxas de juros de
17% por empréstimos recebidos dos paises ricos por meio das instituições monetárias
internacionais, enquanto estes últimos pagaram normalmente taxas de juros de 4%. A esse
respeito, Joseph Stigliz (premio Nobel em economia) afirmou que até aqui a globalização
teve efeitos devastadores sobre os países em via de desenvolvimento e, sobretudo, sobre os
pobres que nesses paises moram. No curso da década de 90 do século passado, os paises
pobres do Sul do mundo deram aos paises ricos do Norte em média acerca 21 bilhões de
dólares por ano. Além disso, o Fundo Monetário Internacional, sem transparência alguma
de decisão, desenvolveu uma função de controle e de pressão sobre as economias internas
de dezenas de paises gravemente endividados, tudo isso por meio dos programas de
ajustamento estrutural.

2 A globalização como nova fase do imperialismo

Quando se fala globalização, fala-se, na realidade, numa nova configuração do capitalismo


mundial e dos mecanismos que comandam seu desempenho e sua regularização. O termo
globalização é um eufemismo para disfarçar o processo de “uma nova colonização” do
mundo por parte das forças econômicas e políticas dominantes De fato, esse processo
corresponde a uma vitória estratégica do capitalismo imperialista no final do século XX
que está gerando, apesar da propaganda ao contrário, mais exclusão do que bem-estar, mais
riquezas especulativas do que desenvolvimento autêntico. Como afirma o suíço Jean Ziegler
(relator especial da ONU sobre o direito a alimentação) nós vivemos uma ditadura mundial nas
mãos de algumas oligarquias que, detentoras do capital financeiro mundial, permitem a geração de
riquezas enormes para alguns e uma miséria imensa e progressiva para a maioria. A população
permanentemente subalimentada hoje no mundo soma cerca de 900 milhões de pessoas,
aumentando cada ano. Essa população é destruída por invalidez, sendo que 100mil pessoas morrem
ao dia devido á fome. Os donos de multinacionais e os governos que os apóiam deveriam ser
responsabilizados pelo crime. Entender tudo isso, porem, é difícil, pois a globalização não diz
respeito somente à economia, às mudanças nas técnicas e nas formas de organização da
produção, isto é, não atinge só o mercado, mas a todas as dimensões da vida: afetos,
sexualidade, corpo e mente e, sobretudo o “imaginário” ou o “senso comum”. Como disse
o grande poeta Neruda: “as piores correntes são as da cabeça”, por isso, a primeira luta
contra as mentiras neoliberais (divulgadas pelos meios de comunicação de massa) deve ser,
antes de tudo, uma luta teórica para formar um novo “senso comum”, como, em seu tempo,
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nos convidava Antônio Gramsci E deriva daqui a pertinência duma renovação crítica de Marx e da
tradição marxista.

3. Os predadores e os mercenários do mercado global e a nova barbárie

À época colonial seguiu-se, sem transição, uma nova época da dominação que se dá
particularmente através da cobrança da dívida externa. A violência subtil da dívida substituiu a
brutalidade visível do poder das antigas metrópoles européias como a Espanha, Portugal etc. A
dívida beneficia duas categorias de pessoas: os senhores do capital (os credores estrangeiros) e os
membros das classes dominantes autóctones. Os credores impõem condições draconianas aos países
devedores. Os governos do Terceiro Mundo têm de pagar pelos seus empréstimos, taxa de juros
cinco a sete vezes mais elevadas do que as praticadas nos mercados financeiros. Os novos senhores
ditam ainda outras condições: privatizações e venda ao estrangeiro (justamente aos credores) das
raras empresas, minas, serviços públicos, telecomunicações, etc., privilégios fiscais exorbitantes
para as sociedades transcontinentais, e compra de armas para equipar as forcas armadas autóctones,
etc. A dívida também beneficia maciçamente as classes dominantes dos países devedores. De fato,
muitos governos do hemisfério Sul são meros representantes dos interesses de uma pequena fração
de seu povo. Como se sabe, na época colonial, o colonizador estrangeiro teve necessidade de
auxiliares autóctones aos quais concedia privilégios, funções e uma consciência (alienada) de
classe. Na maioria dos casos, essa classe de auxiliares sobreviveu à partida do colonizador,
tornando-se a nova classe dirigente do Estado pós-colonial.

Hoje, os Estados do hemisfério Sul são economicamente dominados pelo capital financeiro
estrangeiro e pelas companhias transcontinentais privadas. As potências estrangeiras empregam
diretores e quadros locais que financiam advogados locais, jornalistas, deputados etc., e que têm a
seu soldo (embora discretamente) os principais generais e os chefes da polícia. Essas companhias
privadas formam um novo conjunto de compradores. A burguesia compradoras é a burguesia
comprada pelos novos Senhores Feudais. Ela defende os interesses desses últimos e não os
interesses do povo do qual saiu. A alienação cultural das elites de certos países do Terceiro Mundo
não para de surpreender. As elites mundiais, segundo Ziegler, na verdade são “os predadores do
Império”, enquanto certas agências como o Fundo Monetário Mundial, a Organização Mundial do
Comércio agem como “agências mercenárias do capital”. As multinacionais funcionam
unicamente para aumentar o lucro, investindo a parte maior do lucro nos circuitos financeiros das
bolsas de valores. O capital virtual em circulação destas multinacionais é 18 vezes mais elevado que
o valor de todos os bens e serviços produzidos durante um ano e disponíveis no planeta. Tais
empresas são, na verdade, monstros frios, “novos Leviatãns”. A dominação do cyber espaço e a
rapidez da circulação dos capitais com a internet favorecem os capitais foragidos da evasão fiscal e
os capitais do crime organizado que podem mais facilmente chegar aos paraísos fiscais (Suíça,
Bahamas, etc..). Com isso, os fraudadores tiveram vantagens extraordinárias e, agora, não é mais
possível nenhum controle.

O Estado Nacional está em decadência e perdeu sua capacidade normativa. A ONU


(Organização das Nações Unidas) está com graves contradições internas. Para conseguir impor este
regime inédito de submissão dos povos aos interesses das grandes companhias privadas, há duas
armas de destruição maciça que os senhores do atual império sabem esgrimir de forma admirável:
a “dívida” e a “fome”. Pelo endividamento, os Estados abdicam de sua soberania e, pela fome que
daí resulta, os povos do Terceiro Mundo agonizam e renunciam à liberdade. Os senhores do capital
(os donos de multinacionais e de bancos) são os senhores do mundo que, pouco a pouco, vão
“privatizando tudo”, inclusive a própria água que depois os povos terão que pagar. Nesse início do
milênio, as oligarquias capitalistas transcontinentais reinam no universo. Sua prática cotidiana e
seus discursos de legitimação são radicalmente contrários aos interesses da imensa maioria dos
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habitantes da terra. Os povos dos países pobres matam-se com trabalho para financiarem o
desenvolvimento dos países ricos. O Sul financia o Norte e, especialmente, as classes dominantes
(elites) dos paises do Norte. O mais poderoso dos meios de dominação do Norte sobre o Sul é hoje
o serviço da dívida. Os fluxos de capitais (Sul-Norte) são excedentes em comparação com os fluxos
Norte-Sul. Os países pobres entregam anualmente às classes dirigentes dos países ricos muito mais
dinheiro do que aqueles que recebem delas, na forma de investimentos, de créditos de cooperação,
de ajuda humanitária ou de ajuda ao desenvolvimento. Hoje nem precisa metralhadoras, naplam,
blindados, para escravizar e submeter os povos. A divida trata do assunto.

4 O Consenso de Washington e as novas formas de dominação do capital financeiro

A dívida externa condiciona tremendamente a evolução da América Latina, de fato não enfrenta
o mercado global com as mesmas armas: entra com o peso da dívida externa. Em 1982 estoura a
crise no México, o país já não pode mais pagar a sua dívida. Começa uma longa história de
renegociação da dívida externa em toda América Latina, história que se prolonga até hoje sem
nenhuma prospectiva de chegar um dia a uma conclusão. Desde então, as nações latino-americanas
ficam amarradas. Para poder adiar o pagamento de juros ou a amortização da dívida, os Estados
devem renegociar com o FMI tido como intermediário entre os devedores e os países que cobram o
sistema bancário. O FMI concede ou recomenda. Os Estados contratam novas dívidas para pagar o
que devem e, assim, entram num círculo sem fim: precisa pedir dinheiro emprestado para pagar as
dívidas, aumentar a dívida para pagar o que se deve. O FMI concede com condições, isto é, obriga
os governos a entrar no “Consenso de Washington”. Este é o conjunto de medidas neoliberais que
facilitam a entrada do capital externo nos países implicados. Isto é: os países devem abrir as portas e
entregar a sua economia às entidades multinacionais, ou seja, aos países dominantes. O FMI impõe
a cada governo o orçamento que deve aplicar: cada governo deve adotar o programa de equilíbrio
financeiro, manter o valor da moeda e oferecer aos estrangeiros os mesmos direitos que são dos
nacionais.

Na América Latina, a única maneira de se chegar ao orçamento do Estado consiste em restringir


os gastos sociais, isto é, reduzir os investimentos na educação, na saúde, no saneamento básico ou
nas obras de infra-estrutura.. A dívida externa e o serviço da dívida (os juros) desde então estão
sempre crescendo. A dívida externa tira a liberdade dos Estados e os obriga a praticar uma política
anti-social. Enquanto isso, mais de dois bilhões de pessoas vive num estado de miséria absoluta.
Sobre essas pessoas os senhores do capital mundial exercem um poder de vida e de morte,
através de suas estratégias de investimento, de suas especulações monetárias e de alianças
políticas, decidem cada dia quem tem direito de viver neste planeta e quem é condenado a morrer.
No começo dos anos 1980, Poe exemplo, o FMI impôs um plano de ajustamento estrutural
particularmente severo ao Brasil. O Governo teve de reduzir maciçamente as suas despesas e, entre
outras coisas, interrompeu uma campanha nacional de vacinação contra o sarampo. Uma epidemia
aterradora de sarampo grassou então no Brasil, mais precisamente em 1984. Morreram dezena
milhares de crianças não vacinadas. A dívida matou-as.. Há também a questão das epidemias,
sobretudo entre os povos que vivem no hemisfério Sul. Quatro bilhões de pessoas (¾ da
humanidade) sofrem ainda de tuberculose e malaria porque não tem dinheiro para comprar
medicamentos. A fome não é, pois, simples fatalidade. Na medida em que teriam meios de sobra
para evitá-la, ela é genocídio.

PARTE II - VIGÊNCIA DO MARXISMO E DOS MOVIMENTOS SOCIAIS DE CONTRA PODER

5. Impõe-se hoje a tarefa de sair desse capitalismo de barbárie


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O capitalismo é um sistema de domínio que, baseado na competitividade e na concorrência, pode


desembocar em verdadeiras guerras. Em sua forma moderna, esse sistema, nascido no Ocidente, presidiu a
conquista das Américas, fundou e desenvolveu o Estado moderno, e teve seus teóricos e fundadores em
uma gama que vai de Maquiavel a Hobbes, Von Clausewitz, Carl Schmitt, Regan, etc. Fundou Colônias e
Impérios, produziu guerras e inúteis massacres e conheceu a máxima degenerescência no nazismo e no
fascismo. O próprio socialismo, no ataque ao capitalismo e ao imperialismo, não foi imune à ideologia da
guerra e da violência. Impõe-se, pois, hoje, mais do que nunca, a tarefa da saída (ética e política) deste
sistema. Isto não significa, porém, a realização utópica de um mundo onde não existam mais violências e
guerras, mas significa: não aceitar uma economia que, para funcionar, tenha necessidade de um alto
número de desempregados e um mercado que pretenda absorver todas as relações e as funções da vida
social, estabelecendo duramente as condições de existência e o preço. Em síntese, considerando que os
valores capitalistas, fortemente dinâmicos para o desenvolvimento material do sistema, são socialmente
desagregadores, devemos não abandonar (pois corresponde à consciência comum) aquela reserva crítica em
relação ao capitalismo que consiste em não entendê-lo e não aceitá-lo como um sistema ideológico
totalizador e, por isso, devemos pensar e agir, também, a partir do outro do sistema.

Na crítica à subjetividade burguesa, Marx pôs em campo o outro, como antagonista da abstração
burguesa e de sua forma de domínio, mas também como expressão de uma estrada para a emancipação
humana, diversa e alternativa, à liberdade idealista do homem concebido só abstratamente. Para Marx, o
outro é o proletário, justamente porque não tem nada a perder além de suas próprias correntes; o outro é
aquele que não precisa da propriedade e do domínio para afirmar a própria individualidade. Todo o saber
de Marx é saber crítico porque é também saber do outro. O outro deve ser procurado, também, na
expropriação da individualidade emotivo-afetiva que se dá através da massificação das ações e das posições
de cada um de nós. O outro é o jovem prisioneiro da linguagem bloqueada do vídeo; é todo habitante da
cidade sem rosto; o operário que perde a cabeça na insignificância dos gestos repetidos; o profissional
usado como terminal do programa do computador; a mulher que sofre a mortificação da diferença na
violência da lógica possessiva.

6 A pertinência do método de Marx na tomada de posição contra a economia política burguesa

Num excelente ensaio de José Paulo Netto, “A crise do socialismo e a alternativa comunista”,
encontramos iluminadoras e pertinentes observações, a esse respeito. Segundo Netto, precisa discernir o
que está ainda vivo e o está morto na obra de Marx. Ela é insuficiente para esclarecer a realidade da ordem
burguesa no limiar do século XXI, daqui a necessidade duma constante reavaliação crítica do marxismo.
Trata-se, antes de tudo, de resgatar o estilo do trabalho de Marx para desvendar e decifrar o movimento
histórico-social contemporâneo da ordem burguesa em sua estrutura e dinâmica. A teoria marxista da
revolução como auto-emancipação dos explorados permanece uma preciosa bússola para o pensamento
e a ação. Muitas das contradições da ordem burguesa que Marx apontou se comprovaram, entre elas, a
concentração e a centralização do capital, a concentração da produção capitalista, a reiteração das
crises periódicas, as dificuldades crescentes para a valorização, a manutenção dos patamares das taxas
de lucro, a contínua reprodução da pobreza relativa e crescentes aumentos de pobreza absoluta de
processos alienantes. O retorno a Marx, porem, (como já assinalamos antes) só pode ser útil sob a
condição de nos livrarmos da ilusão de encontrar nele a resposta para todos os nossos problemas ou, pior
ainda, a crença de que não há nada para questionar ou criticar no todo complexo e, por vezes, contraditório
de seus escritos. Muitas questões decisivas, tais como a destruição do meio-ambiente pelo do crescimento
das “forças produtivas”, as “formas de opressão” como as de gênero ou étnicas, a importância de regras
éticas universais e dos direitos humanos pela ação política, a luta das nações e culturas não européias contra
a dominação ocidental, estão ausentes ou tratadas de modo inadequado em seus escritos.

Mas como corrigir as numerosas lacunas, limitações e insuficiências de Marx e da tradição marxista?
Por um procedimento aberto e com uma disposição para aprender e enriquecer com as críticas e as
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contribuições vindas de outros lugares e, sobretudo, dos movimentos sociais como os movimentos operários
e camponeses, ou os novos movimentos como o ecológico, o feminista, os movimentos pela defesa dos
direitos humanos, pela libertação dos povos oprimidos, pelo apóio aos índios da América Latina, pelo
cristianismo que se remete à Teologia da Libertação e à comunidades cristãs de base. A renovação crítica
do marxismo, também, exige seu enriquecimento através das formas mais avançadas e mais produtivas do
pensamento não marxista (Max Weber a Karl Mannheim, de George Simmel a Marcel Mauss, de Sigmund
Freud a Jean Piaget, de Hannah Arendt, etc.). Enfim, para os espíritos críticos que querem, no início do
século XXI, não apenas interpretar o mundo, mas contribuir para mudá-lo, o desafio é apreender (como
apreendeu Marx em seu tempo) com as mais avançadas experiências de luta, com as tentativas mais
importantes de auto-organização dos explorados e oprimidos hoje.

7 A importância fundamental da “união entre teoria e prática” e do “ponto de vista de classe”

O que constitui a força do pensamento de Marx e que explica sua persistência, sua vitalidade,
seu ressurgimento perpétuo (apesar das “refutações” triunfantes, os repetidos enterros e as
manipulações burocráticas) é sua qualidade, ao mesmo tempo, crítica e emancipadora, da unidade
dialética entre a análise do capital e o chamamento a sua derrubada, entre o estudo concreto da luta
de classes e o engajamento no combate dos trabalhadores, dos camponeses, etc., entre o exame das
contradições da produção capitalista e a utopia da uma sociedade sem classes, entre a crítica da
economia política e a exigência de eliminar na prática todas as condições no seio das quais o
homem é ainda um se humano diminuído, submetido, abandonado, desprezado. (“Contribuição
para a crítica da economia política”). Se a crítica marxista do capital guarda todo o seu valor é,
antes de tudo, porque a realidade do capitalismo, como sistema mundial (apesar das mudanças
inegáveis e profundas que ele conheceu, daquela época até a nossa no início do século XXI),
continua a ser aquela de um sistema baseado na exclusão da maioria da humanidade, na
exploração do trabalho pelo capital, na alienação, na concentração de poderes e de privilégios,
na quantificação da vida, na “reificação” das relações sociais, no exercício institucional da
violência, na militarização e nas guerras (lembremos, entre elas, a do Vietnam, do Golfo, etc.).
Para compreender essa realidade, suas contradições e as possibilidades de sua transformação
radical, a obra de Marx permanece, pois, um ponto de partida indispensável, uma ferramenta
insubstituível, uma bússola sem a qual temos boas chances de perder o caminho. A peculiaridade
do pensamento de Marx como um clássico (também) do pensamento sociológico (junto a Max
Weber, Durkheim e Comte) se funda substancialmente sobre o ponto de vista de classe, isto é, na
referência contínua e coerente aos interesses da classe operária. Desta tomada de posição desdobra-
se multíplices aspectos do pensamento de Marx que constituem um desafio lançado ao resto da
tradição sociológica clássica.

Desta tomada de posição classista de Marx deriva uma série de conseqüências importantes: a
recusa da separação entre juízos de fatos e juízos de valores; a recusa da distância entre economia e
sociologia; a acentuação explícita das forças e das relações produtivas; a insistência sobre a
necessidade de colher cada totalidade social na sua historicidade, de vê-la, pois, de um lado,
como necessariamente em conflito e, de outro, como o resultado duma seqüência natural de eventos
evolutivos; a disposição a tratar cada fenômeno cultural (também) como ideológico duma relação
de dominação; e, sobretudo a disposição de analisar e criticar a realidade existente não do ponto de
vista das possibilidades que se encontram consolidadas e cristalizadas, mas daquelas que comprime
e reprime. Deriva daqui a consciência que também o estudioso colhe o que é mais verdadeiro em
cada momento do processo histórico através da tomada de posição de parte, em vista de um
projeto coletivo que visa atacar a situação existente. Todas estas particularidades constituem e
expressam a fundamental peculiaridade desse pensamento que se produz e articula do ponto de vista
da classe operária e como crítica proletária à sociedade burguesa.
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8 Para um marxismo como teoria aberta sempre revista e como prática a partir das lutas reais

O marxismo, tal como chegou a nós, na maioria das vezes sofreu uma distorção e uma pesada
dogmatização, sobretudo na época de Stalin e no interior dos partidos comunistas ligados a União Soviética.
Stalin e seus seguidores deram ao marxismo a rigidez de uma forma fixa fazendo dele um materialismo
filosófico. Enquanto o projeto de Marx se deu na elaboração de uma ciência das sociedades concretas vistas
no decurso da história, o marxismo stalinista pretendeu erroneamente que Marx tivesse professado um
materialismo propriamente filosófico do qual o materialismo histórico seria apenas uma aplicação. Hoje, a
maioria dos marxistas não considera as obras dos clássicos como partes de uma filosofia sistemática, mas
como contribuições a um pensamento em movimento sempre aberto e inacabado. O materialismo em
Marx não tem nada a ver com o materialismo filosófico de tipo metafísico como o da antiguidade clássica
procedente da velha especulação naturalista. Nem se trata de um materialismo antropológico que busca
reduzir todas as manifestações, sobretudo as sociais, à natureza humana concebida como estática. A teoria
do materialismo em Marx é essencialmente a crítica de todos esses materialismos. O que entende Marx por
materialismo? Ele entende que o mundo procede segundo “relações reais de poder”, na base das quais está
sempre um “modo de produção”. Em particular, porem, ele se dedicou a analisar o “modo de produção
capitalista” de seu tempo, conseguindo, a partir de suas análises, demonstrar que, na sociedade capitalista,
ou, melhor, no “modo de produção capitalista”, tudo acontece segundo um intercâmbio, justo e livre, no
mercado, exceto na troca de uma mercadoria especial: a da força de trabalho. O materialismo de Marx se
traduz, na verdade, na firme recusa das “relações de produção” do sistema capitalista que permitem aos
donos dos meios de produção acumular cada vez mais seu capital apropriando-se de parte do valor de
trabalho do operário, o qual permanece sempre numa condição de sobrevivência. É, sobretudo, essa crítica
que Marx vai fazer a essa “indevida apropriação” o que constitui o materialismo de Marx. Para ele o
homem deve ser mais que um objeto que se valoriza no processo de trabalho no modo de produção da
sociedade de classe.

É daqui que deriva toda a sua polêmica contra o idealismo de sua época e contra aquelas filosofias e
concepções religiosas que omitem o fato que as relações sociais de produção capitalistas são responsáveis
pelas discriminações e pelas injustiças que pesam sobre o destino dos homens. Segundo Marx, tais
filosofias idealistas e concepções espiritualistas, não enxergando a condição material e injusta a que estão
submetidos os trabalhadores, são, de fato, cúmplices da injustiça do sistema capitalista. É contra esse
“mau materialismo” que se insurge o “materialismo” de Marx. A teoria marxista da sociedade, pois, não
só se dirige contra as relações classistas de produção, mas contra cada forma de produção que domine o
homem ao invés de ser por ele dominada. No fundo o materialismo de Marx se traduz num profundo
humanismo. O perigo de compreender às avessas o marxismo é grande não só por razões só ideológicas,
como também porque existe sempre a tendência de captá-lo fora do seu contexto histórico e, sobretudo,
desligado de sua prática. Não existe“o marxismo” em abstrato, mas existem muitas realidades históricas
revolucionárias que tendem a assumir o marxismo como teoria e como prática concreta. O marxismo passa
sempre pelo terreno de novas culturas e tradições com as quais é obrigado a confrontar-se e relacionar-se.
Porem, a união dialética entre teoria e prática, não é fácil, ao contrário é árdua. Como observava
Gramsci, entre as massas e os intelectuais, ligados organicamente a elas, se produz, às vezes, uma separação
e uma perda de contato. A união entre teoria e prática, entre intelectuais e massa, não se dá, pois, para
sempre, não é algo definitivo. Esta união está sempre em construção dialética com avanços e recuos, com
impasses e realizações.

9. Existem hoje condições para o surgimento dum socialismo latino-americano no século XXI?

Depois da Revolução Cubana houve uma efervescência social e política, mas a maior parte dos países
não conseguiu organizar as classes subalternas. A militância ficou apenas entre intelectuais e estudantes e
camponeses. Quem conseguiu realmente organizar os pobres foram os cristãos radicais partidários da
Teologia da Libertação. A insurreição em El Salvador, por exemplo, só deu certo porque havia o apóio
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desses cristãos. Nos últimos anos, cada vez que houve um movimento social ou político na América Latina.
estavam presentes cristãos que tinham aderido à Teologia da Libertação como foi o caso do movimento dos
sem terra (MST), cujos dirigentes vieram em grande número das Comunidades Eclesiais de Base (CEbs) e
das pastorais da terra. O movimento Zapatista, em Chiapas, também vem da obra de conscientização das
comunidades indígenas propiciada pelo bispo católico Dom Samuel Ruiz. Os surtos evangélicos
pentecostais dês-politizados que existem atualmente, pregando um cristianismo por demais espiritualizado e
emocional, são apenas o resultado da orientação conservadora do Vaticano que, combatendo as CBSs, deu
espaço para os carismáticos. O momento atual é muito difícil para o movimento sindical mundial e para os
vários movimentos sociais porque a ofensiva neoliberal não é fácil de ser enfrentada. A lógica do
desenvolvimento do capitalismo cada vez marginaliza a força de trabalho. Por isso a única saída é o
socialismo. Contrariamente ao que pretendem os ideólogos do mercado global nessa época de
globalização, este mercado não contribui de nenhuma maneira a criar uma “nova ordem mundial”
pacifica e harmoniosa. É um erro considerar que o Estado Nacional como uma instituição em declínio.
Com efeito, são os Estados dos países capitalistas dominantes que determinam as políticas neoliberais.
todavia nos países do Sul os Estados nacionais não deixam de jogar um papel importante. Estes últimos, na
realidade, funcionam como correias de transmissão para um sistema de dominação imperial submetendo-se
sem hesitações aos imperativos do capital financeiro, aos ditados do FMI e colocam o pagamento da dívida
externa como primeira prioridade do orçamento, pondo em prática, com maior zelo, as políticas neoliberais
do “ajuste estrutural”. Mas existem, também, alguns Estados latino-americanos como, por exemplo, a
Venezuela de Chavez, a Bolívia de Morales, o Equador de Rafael Correia, que têm a coragem e a força de
enfrentar o Império

Por quanto se refere ao Brasil de hoje, podemos dizer que, como na Argentina e no Chile, ele fez a
opção por uma governabilidade baseada numa política de conciliação com setores dominantes e de
compensação para os setores dominados, aplicando o receituário econômico neoliberal. Ao assumir a
presidência, o presidente, Lula da Silva, poderia ter assegurado sua sustentação política baseada no
Congresso Nacional e, também, nos movimentos sociais. Ora, ele escolheu o Congresso como parceiro e
descartou os movimentos que lhes eram co-naturais. Dessa forma,, tornou-se refém de forças políticas
tradicionais e oligárquicas que integram o arco das alianças (14 partidos de apóio ao governo). Nos
primeiros meses de seu governo, Lula teve poder suficiente para promover a reforma agrária e a auditoria
da dívida pública. Não soube aproveitá-lo.. A mobilização das massas foi suplantada pela profissionalização
e a militância se desestruturou. Espera-se que, ao menos, o restou da esquerda (o MST, setores do PT e do
PCB, PCdoB, o Psol) se empenhe a mergulhar no mundo dos excluídos, para ajudá-los a dar consistência às
suas demandas e aspirações e que conquiste uma reforma política capaz de depurar e aprimorar o processo
democrático. Enquanto isso, o capital global (tal como se materializa nas empresas multinacionais, no
mercado financeiro especulativo, nos paraísos fiscais, nas políticas de “ajuste estrutural”, nas instituições
globais do FMI, etc.) continua a ser o inimigo comum da grande maioria da humanidade. Seus adversários
são os trabalhadores em particular das fábricas e do campo. Esta luta contra o capital global não conhece
fronteira: ela é por necessidade imperativa,:mundial e planetária. Para lutar contra os abusos do capital na
exploração do trabalho, o marxismo, como teoria e como prática, é formidável, mas precisa ser
atualizado e latino-americanizado. Sobretudo, é preciso dar-se conta da importância que tiveram os
camponeses, no começo do século passado e que têm, também, agora na América Latina e no Brasil. Os
pensadores, que trataram de aplicar o método marxista de forma criativa na América latina, se deram conta
disso, ou seja, que os camponeses, na América Latina, têm um papel muito mais importante do que na
Europa ou até do que imaginava o próprio Marx. Como o capitalismo funciona a partir da produção e da
indústria, os operários podem parar as máquinas. Isso é importante, mas não suficiente para derrubar um
sistema. No Brasil, o MST tem uma vocação revolucionária que lhe vem da necessidade de realizar a
Reforma Agrária e representa por isso a ponta avançada do movimento social contra o neoliberalismo. O
capitalismo é um sistema político, social e econômico que só se derruba com uma ação revolucionária, mas,
para isso, é preciso ter a maioria da população que, na América Latina, não é formada só por operários de
fábrica, mas, também e sobretudo, por camponeses e pela massa pobre urbana sub proletária. Precisa que a
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esquerda tenha uma visão ampla do sujeito do processo revolucionário. O capitalismo sempre pode dar a
volta por cima enquanto controlar o aparelho de Estado e a hegemonia. Por isso, é preciso, também, lutar
para quebrar a hegemonia ideológica e o controle político do capital.

10 A luta de classe como forma efetiva e real de resistência em busca duma solidariedade radical

A partir de posições não dialéticas, idealistas, personalistas, liberais burguesas, certos cristãos e leigos
criticam o marxismo considerando-o o como uma teoria da sociedade que exagera o peso da determinação
econômica e das contradições entre as classes sociais. Segundo eles, entre as classes sociais não existiriam
antagonismos estruturais, mas somente conjunturais, fruto só do abuso do poder e da deterioração das
consciências. Com efeito, na concepção personalista e liberal das relações sociais, a diversidade de classe
não é vista a partir duma base estrutural injusta da sociedade, mas a partir dos limites individuais que têm
seu fundamento na própria natureza humana. Segundo tal concepção, os antagonismos deveriam ser
superados através de medidas sobretudo morais e com a intervenção do Estado e das associações de classe,
vistas estas, como complementares e não antagônicas às detentoras das riquezas e do poder. Na verdade, a
exploração, a miséria, a fome e a exclusão social de que são vítimas as populações pobres, mostram, como
tinha visto Marx, exatamente o contrário. Todos os explorados, pois, uma vez conscientes disso, não têm
alternativa que a luta de classe como forma de resistência e de sobrevivência

Os cristãos e leigos, idealistas ou conservadores, consideram o marxismo do lado de fora,


como um pensamento do outro, que deve ser visto com senso crítico e cautela..Todavia, todos
aqueles que partem das concretas e dramáticas contradições geradas pelo capitalismo (hoje
globalizado) e que lutam para uma alternativa, não podem ignorar a contribuições marxistas na
crítica à nova ordem-desordem mundial e suas trágicas conseqüências sobretudo nos países
periféricos. Ou seja: para todos aqueles que se interrogam a partir da recusa global do sistema
capitalista e da procura duma alternativa, o marxismo (criticamente assumido) representa ainda
um ponto de referência essencial e indispensável. Não ignoram a problema do uso do marxismo,
de suas falhas e erros, mas também são cientes, também, dos seus acertos e de sua dinâmica e
método a fim de orientá-los nas lutas contra as injustiças..Conscientes disso, todos aqueles que
estão sobretudo engajados nos movimentos operários ou camponeses ou nos movimentos populares,
começam aos poucos a se posicionar perante as tradições marxistas não mais considerando o
marxismo como o pensamento “dos outros”, mas como um campo teórico que deve ser
racionalmente assumido.

Conclusão: as tarefas e os desafios duma esquerda social autônoma na luta contra a barbárie

O neoliberalismo, difundido pela elite financeira com amplos poderes de corrupção, obteve o
apoio das classes medias, da academia e duma casta burguesa que se contenta de ser intermediarias
de seus negócios no Terceiro Mundo. A saída da emboscada do neoliberalismo passa pela
capacidade dos movimentos sociais e da própria esquerda de desenvolverem um “pensamento
autônomo” que não dependa dos meios de comunicação hegemônicos nas mãos da direita
conservadora. Com efeito, o resultado da política neoliberal é uma economia desequilibrada no
mundo inteiro, que vai levar a uma crise mundial extremamente grave e que arrastará os países do
Terceiro Mundo condenados a viver para pagar uma dívida externa aumentada por uma colossal das
taxas de lucro pelos Estados Unidos, fortalecendo o predomínio dos interesses do capital financeiro
sobre a economia real. Estamos hoje todos dentro dum sistema-mundo em que tudo é mercadoria,
em que se produz loucamente para se produzir mais loucamente. Produz-se dinheiro, especula-se
por dinheiro, mata-se por dinheiro, corrompe-se por dinheiro, organiza-se toda a vida social por
dinheiro. O dinheiro é o verdadeiro deus da nossa época: um deus indiferente aos homens, inimigo
da arte, da cultura, da solidariedade, da ética, da vida do espírito, do amor. Tudo é mercadoria e
tudo está a serviço da acumulação do capital. O capitalismo, sobretudo agora em sua forma
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neoliberal, produz uma série de efeitos perniciosos: a devastação da natureza, o crescimento


mundial da pobreza, o desemprego e a infinita monótona infelicidade existencial destes tempos. O
capitalismo não tem mais nada a oferecer a humanidade. O fosso entre pobres e a ricos está dentro
de todas as sociedades atuais. A pobreza nos EUA é tão constrangedora e desumana quanto a
brasileira ou Argentina etc.Vivemos a barbárie em nosso cotidiano. Mas, de forma alienada,
estamos contentes com o carro novo, a televisão de 42 polegadas, etc. e acreditamos ingenuamente
que o futuro imediato do Brasil será brilhante. Um indício indiscutível da barbárie é dado pelas
estatísticas sobre a extrema violência policial combinadas com a ação de esquadrões da morte e
milícias contra as populações de jovens e trabalhadores que vivem nas favelas e nas periferias..

Infelizmente o governo Lula não é um governo de esquerda, mas de conciliação de classe: um


governo que mobiliza com eficácia duas pontas do espectro social, ancorado, de um lado, ao capital
financeiro e, de outro, apoiado por um contingente subproletários não qualificados, sem carteira
profissional e de extrema baixa renda, um contingente que constitui a metade da população
economicamente ativa e que recebe do governo, em forma de esmola, a bolsa família. A
mobilização popular foi substituída pelas idéias de colaboração. Os trabalhadores são encorajados a
manter uma postura passiva e resignada, ao passo que as iniciativas da vida política são depositadas
nas mãos dos chefes de Brasília. Em contrapartida, Lula manteve o pagamento de juros altos ao
capital financeiro, à custa de verbas para a saúde, educação, saneamento básico e infra-estrutura
pública e deu autonomia ao Banco Central, presidido por um banqueiro ortodoxo. Ora, essa política
foi implementada graça ao desmantelamento das organizações autônomas e independentes dos
trabalhadores e dos movimentos sociais que poderiam apresentar qualquer tipo de resistência.

As crises do mundo contemporâneo mostram que a acumulação de capital em por duma


minoria não pode mais ser o princípio organizador da vida social. Não há saídas para os explorados
e oprimidos dentro do capitalismo, há saída somente para fora do sistema. Teremos de encarar o
capital sem desvios nem ilusões. Ou tentamos a revolução mais uma vez, ou não haverá
humanidade no futuro. Este é o desafio posto para nós neste século: ou revolução ou barbárie,
como na época de Rosa Luxemburgo. É a partir dessa trágica constatação que uma retomada
crítica do pensamento de Marx e da tradição marxista se faz cada vez mais pertinente e
necessária. Em outras palavras, o pensamento de Marx (e da tradição marxista) nunca esteve tão
necessário como agora para sair da emboscada imperialista do neoliberalismo e de sua barbárie.
Para isso, o marxismo constitui o melhor método de análise e a fonte de projetos transformadores de
realidade. Não se trata apenas de uma interpretação nova da realidade, mas, também e sobretudo,
duma transformação revolucionária da realidade. Por isso, a tarefa principal duma esquerda social
hoje é organizar e elevar o nível da consciência política do povo, estimulando a luta e a mobilização
de massa. Na medida que compreendamos isso, cabe a nós acompanhar esses movimentos,
engajando-nos em alguma forma de lutas (as dos sem terra, dos sem teto, do movimento feminista,
do movimento negro, etc.), procurando, porem, manter a autonomia em relação aos partidos, ao
governo e as igrejas. Os movimentos somente podem acumular forças e manter uma unidade
estratégica rumo a um projeto de transformações sociais, se eles conseguirão ficar à margem do
controle dos partidos, do governo e das disputas por interesses eleitorais. Pois, do contrário,
arriscam ser cooptados pelas classes dominantes de muitas formas.. Entre os instrumentos, que
melhor se prestam para isso, são as ONGs. Não é que não existam ONGs que cumprem um papel
importante nos movimentos populares, mas são poucas. Na maioria das vezes, elas são financiadas
por empresas e bancos, justamente para impedir estrategicamente que essas cumpram papéis de
organização e de formação que estejam na direção da lutas. Um outro mundo é possível somente
se as ONGs tiverem viés socialista e organizarem a resistência e o embate, e trouxerem como
conseqüência um processo de luta permanente contra o capitalismo, na perspectiva de uma contra
cultura e dum contra poder. Se não for isso, tudo resvala numa inútil retórica. A verdade amarga
é que, hoje, se não houver futuro para um movimento radical de massa, também não haverá
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futuro para a própria humanidade. Por isso, como afirma o sociólogo Istvan Mészáros: o século
XXI deverá ser o século do “socialismo ou barbárie”..

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