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INTERVENÇÃO DO ESTADO NA PROPRIEDADE PRIVADA:

TOMBAMENTO

SUMÁRIO: Introdução. 2 Conceito; 3 Espécies de Tombamento; 4 Instituição do


Tombamento; 5 Procedimento do Tombamento; 6 Dos Livros do Tombo; 7 Dos efeitos
decorrentes do Tombamento; 8 Bens insuscetíveis de Tombamento. Conclusão.
Referências.

RESUMO: Tendo em vista promover o interesse coletivo, o Estado pode lançar mão de
ferramentas de intervenção na propriedade privada, baseando-se no princípio da
supremacia do interesse público. Para tanto, ele pode se utilizar de vários instrumentos
legais, dentre os quais, o Tombamento, objeto do presente trabalho, que é uma forma de
restrição imposta à propriedade privada visando a proteção do patrimônio histórico e
artístico nacional, objetivando preservar a identidade do país. Por patrimônio histórico e
artístico nacional entende-se o conjunto dos bens móveis e imóveis existentes no país e
cuja conservação seja de interesse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis
da história do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico,
bibliográfico ou artístico.

PALAVRAS-CHAVE: Propriedade Privada. Intervenção. Tombamento.

STATE INTERVENTION IN PRIVATE PROPERTY: TIPPING

ABSTRACT: With a view to promoting the collective interest, the State can make use
of tools of intervention in private property, based on the principle of supremacy of the
public interest. To do so, he can use various legal instruments, among which, the listing,
object of the present work, which is a form of restriction imposed on private property in
order to protect the national historic and artistic heritage, with the aim of preserve the
identity of the country. National historic and artistic heritage by means of movable and
immovable property in the country and whose conservation is of public interest, either
by linking to your memorable facts in the history of Brazil, either by your exceptional
value ethnographic, archaeological or artistic or bibliographic.

KEYWORDS: Private Property. Intervention. Tipping.


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INTRODUÇÃO

O tombamento é uma das formas de intervenção do Estado na propriedade


privada com vistas a proteger o patrimônio histórico e artístico nacional, impondo sua
preservação de acordo com regras previstas nos termos do art. 216, §1º da Constituição
Federal e do Decreto-Lei nº 25/37.
Em que pese não ser a única forma de proteção do patrimônio cultural, é a mais
utilizada, a mais antiga e a mais consolidada.
Segundo o art. 216, §1º, da Constituição Federal, art. 216, o Poder Público, com
a colaboração da comunidade, promoverá e protegerá o patrimônio cultural brasileiro,
por meio de inventários, registros, vigilância, tombamento e desapropriação, e de outras
formas de acautelamento e preservação.
O tombamento pode atingir bens de qualquer natureza: móveis ou imóveis,
materiais ou imateriais, públicos ou privados. Seu principal efeito é a imodificabilidade
do bem, vez que os bens tombados não podem ser destruídos, demolidos ou mutilados,
nem ser reparados, pintados ou restaurados sem prévia autorização especial do órgão
responsável pela preservação do patrimônio cultural brasileiro, que é o IPHAN.

2 CONCEITO

O tombamento consiste em um ato administrativo, praticado pelo poder público,


que tem por escopo a preservação de bens de qualquer natureza que possuem valor
histórico, artístico ou afetivo para toda a população, visando através da aplicação de
legislação pertinente impedir que sejam destruídos ou até mesmo descaracterizados.

Di Pietro (2017, p. 217), define o tombamento como:

O tombamento pode ser definido como o procedimento administrativo pelo


qual o Poder Público sujeita a restrições parciais os bens de qualquer natureza
cuja conservação seja de interesse público, por sua vinculação a fatos
memoráveis da história ou por seu excepcional valor arqueológico ou
etnológico, bibliográfico ou artístico.

Para Alexandrino e Paulo (2011, p. 193-194):


Tombamento é a modalidade de intervenção na propriedade por meio da qual
o poder público procura proteger o patrimônio cultural brasileiro. No
tombamento, o Estado intervém na propriedade privada para proteger a
memória nacional, protegendo bens de ordem histórica, artística,
arqueológica, cultural, cientifica e paisagística.
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Nesse sentido, dispõe o art. 1º do Decreto-Lei 25/1937, a respeito dos bens


considerados como patrimônio histórico e artístico nacional, que gozam dessa proteção
por parte do Estado:

Art. 1º Constituem o patrimônio histórico e artístico nacional o conjunto dos


bens móveis e imóveis existentes no país e cuja conservação seja de interesse
público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil,
quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou
artístico. (BRASIL, online)

Conforme preleciona Di Pietro, os bens considerados de valor histórico ou


artístico, ao serem protegidos pelo tombamento, será determinada sua inscrição em
livros que são denominados de Livros de Tombo, com finalidade de sua sujeição a
restrições parciais. (2017, p. 206).

Em regra, o Tombamento não gera direito a indenizações, salvo se o proprietário


demonstrar que houve prejuízo. Em razão do tombamento o particular continua
exercendo seus direitos concernentes ao domínio, pois será sempre uma restrição
parcial.

Porém, se houver casos que exista a necessidade de restrição integral para que a
proteção seja efetiva, de modo a suprimir os direitos dos proprietários em relação ao
domínio, o ato administrativo a ser praticado deverá ser a desapropriação e não o
tombamento, pois este não dispõe de restrição integral.

Portanto, tombamento trata-se de um procedimento administrativo que é


constituído por uma sucessão de atos preparatórios, exercido através do Poder
Regulatório do Estado, a fim de conservar bens que possuem valor histórico ou artístico,
pois sua conservação é de interesse público e terá validade com a inscrição no Livro de
Tombo.

3 ESPÉCIES DE TOMBAMENTO

Sabendo-se que o tombamento é uma forma de intervenção do Estado sob a


propriedade em que se objetiva a proteção do patrimônio cultural brasileiro, e que esses
bens estarão sob proteção do poder público, de forma que sofrerão algumas restrições
para seu uso, é possível classificá-los de acordo com algumas especificidades as quais
Carvalho Filho (2017, p. 442) define que:
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As espécies de tombamento podem ser agrupadas levando-se em


consideração a manifestação da vontade ou a eficácia do ato. No que se refere
ao primeiro aspecto, o tombamento pode ser voluntário ou compulsório.
Voluntário é aquele em que o proprietário consente no tombamento, seja
através de pedido que ele mesmo formula ao Poder Público, seja quando
concorda com a notificação que lhe é dirigida no sentido da inscrição do bem.
O tombamento é compulsório quando o Poder Público inscreve o bem como
tombado, apesar da resistência e do inconformismo do proprietário.

Lourenço (2006) afirma que:


No tombamento voluntário, o proprietário do bem a ser tombado se dirige
ao órgão competente e provoca o tombamento de sua livre e espontânea
vontade, ou, quando notificado do tombamento, concorda sem se opor ao ato.
Já no tombamento compulsório, o órgão competente é quem dá início ao
processo de tombamento, notificando o proprietário que, inconformado,
procura opor-se ao tombamento.

Pode ainda classificar-se como provisório ou definitivo, onde se compreende


como provisório enquanto estiver tramitando o processo administrativo de tombamento
e assim que concluído, passará a ser definitivo através do registro do bem no livro de
tombo. De acordo com entendimento do STJ, reconhece-se que o tombamento
provisório é uma medida empregada como forma de preservação do bem até que se
conclua todo o procedimento (Carvalho Filho, 2017). Diz-se anda que a caducidade do
tombamento provisório, por excesso de prazo, não é prejudicial ao tombamento
definitivo.

Ainda segundo Carvalho Filho (2017, p.444) quando observado o devido


processo legal, o tombamento provisório terá a mesma eficácia restritiva do
tombamento definitivo, alvejando ambos a proteção do patrimônio público. E nas
situações em que o bem seja de propriedade particular o artigo 13 do Decreto-Lei 25 de
1937 prevê que:

O tombamento definitivo dos bens de propriedade particular será, por


iniciativa do órgão competente do Serviço do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional, transcrito para os devidos efeitos em livro a cargo dos
oficiais do registro de imóveis e averbado ao lado da transcrição do domínio.

Além das classificações acima dispostas, Carvalho Filho (2017) indica também
que o tombamento pode ser individual ou geral, variando a depender do bem ou bens
atingidos.

Para Ricardo Alexandre e João de Deus (2017) as espécies de tombamento são


classificadas de acordo com alguns critérios e que são eles: forma de constituição ou
procedimento (de ofício, voluntário e compulsório), quanto à eficácia (provisório e
definitivo) e quanto aos destinatários (geral e individual).
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De acordo com Lourenço (2006), o tombamento é de vital importância não


apenas para determinados órgãos responsáveis pela conservação do nosso patrimônio
histórico, mas para a sociedade em geral, como bem de interesse comum, como medida
de preservação para que outras gerações possam desfrutar das riquezas materiais e
imateriais que constituem o patrimônio intelectual brasileiro.

4 INSTITUIÇÃO DO TOMBAMENTO

O tombamento é o instrumento de reconhecimento e proteção do patrimônio


cultural mais conhecido, podendo ser feito pela administração federal, estadual e
municipal. Em âmbito federal, o tombamento foi instituído pelo Decreto-Lei nº 25, de
30 de novembro de 1937, o primeiro instrumento legal de proteção do Patrimônio
Cultural Brasileiro e o primeiro das Américas, e cujos preceitos fundamentais se
mantêm atuais e em uso até os nossos dias (IPHAN, online).
Encontra previsão ainda no art. 216, §1º da Constituição Federal como uma das
formas de proteção do patrimônio cultural brasileiro, nos seguintes termos:
“O Poder Público, com a colaboração da comunidade, promoverá e
protegerá o patrimônio cultural brasileiro, por meio de inventários, registros,
vigilância, tombamento e desapropriação, e de outras formas de
acautelamento e preservação”.

O art. 24, VII, da Constituição Federal, dispõe que a competência para legislar
sobre a proteção ao patrimônio histórico, cultural, artístico, turístico e paisagístico é
concorrente entre a União, os Estados e o Distrito Federal, podendo a legislação
municipal suplementar a legislação federal e estadual no que couber (art. 30, II, CF),
possuindo os municípios a competência para promover a proteção do patrimônio
histórico-cultural local, observada a legislação e a ação fiscalizadora federal e estadual
(art. 30, IX, CF).

5 PROCEDIMENTO DO TOMBAMENTO

Conforme ensinamento de Carvalho Filho (2018) o tombamento é sempre


resultante de vontade expressa do Poder Público, manifestada através de um ato
administrativo do Executivo, pois é a ele que incumbem a proteção do patrimônio
cultural brasileiro, utilizando-se de ferramentas para intervir na propriedade privada
visando o alcance do interesse público, em virtude do princípio da supremacia do
interesse público sobre o interesse privado.
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No entanto, para se efetivar a vontade do Poder Público exteriorizado por meio


de um ato administrativo, há que se levar em consideração o devido processo legal,
insculpido no art. 5º, LIV, da Carta Magna, asseverando: “ninguém será privado da
liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal”.
Referido artigo deve ser observado sob dois enfoques: o processual, que induz a
se observar o procedimento adequado destinado à eventual privação ou à limitação do
direito de propriedade e de liberdade, e o material, através do próprio processo
constitucional em vigor, para alcançar os objetivos constitucionais.
Na Administração Pública, a presença deste dispositivo garante um
procedimento formal para tornar efetivas as garantias do contraditório e ampla defesa,
com os meios e recursos a ela inerentes (art. 5º, LV da CF), para que a parte desenvolva
a sua posição e defesa no oferecimento de prova.

Nesse sentido, o ato de tombamento deve ser precedido de processo


administrativo, no qual serão apurados os aspectos que materializam a necessidade de
intervenção na propriedade privada para a proteção do bem tombado, sendo observado o
devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa.
O ato de tombamento é o ato final do processo administrativo que a lei exige
para o fim de apurar corretamente os aspectos que conduzem à necessidade de
intervenção na propriedade para a proteção do bem tombado (CARVALHO FILHO,
2018, p. 939).
Carvalho Filho (2018) afirma que o processo de tombamento não possui um rito
predeterminado, podendo haver variação em sua tramitação conforme a espécie de
tombamento.
Qualquer pessoa, física ou jurídica, pode solicitar, aos órgãos responsáveis pela
preservação, o tombamento de bens culturais e naturais, e será parte legítima para
provocar, mediante proposta, a instauração do processo de tombamento, que se inicia
com a avaliação do bem a ser tombado, se a resposta for positiva, o proprietário é
notificado pelo órgão, para se manifestar no prazo de 15 (quinze) dias sobre a anuência
ou impugnação do tombamento, sendo que a simples notificação é considerada como
tombamento provisório, com efeito provisório, até a finalização do processo, que será
concluído com a inscrição do bem em um dos Livros do Tombo, bem como deverá
constar em livro de registo de imóveis e averbados na matrícula do imóvel (IPHAN,
online).
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Carvalho Filho (2018) assevera que dentre os documentos necessários para o


tombamento, o parecer do órgão técnico cultural é indispensável, bem como a
notificação ao proprietário, que se manifesta anuindo ou impugnando a intenção de
decretação do tombamento, só após as manifestações dos técnicos e do proprietário é
que o Conselho Consultivo da pessoa incumbida do tombamento, define o processo,
podendo anulá-lo, se houver ilegalidade; rejeitar a proposta do órgão técnico; ou
homologá-la, se necessário o tombamento, que se torna definitivo com a inscrição no
respectivo Livro do Tombo.
Corroborando com esse entendimento, DI PIETRO (2018, p. 218) afirma:

O Tombamento efetua-se por meio de um procedimento, ou seja, de uma


sucessão de atos preparatórios do ato final que é a inscrição do bem no Livro do
Tombo. Esse procedimento varia conforme a modalidade de tombamento. Em
qualquer das modalidades, tem que haver manifestação de órgão técnico que, na
esfera federal, é o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
(IPHAN).

Ao proprietário é conferido o direito de recorrer contra o ato de tombamento,


através de recurso dirigido ao Presidente da República, que, atendendo a razões de
interesse público, pode cancelar o tombamento, conforme Artigo Único do Decreto-Lei
nº 3866/41:
Artigo único. O Presidente da República, atendendo a motivos de interesse
público, poderá determinar, de ofício ou em grau de recurso, interposto pôr
qualquer legítimo interessado, seja cancelado o tombamento de bens
pertencentes à União, aos Estados, aos municípios ou a pessoas naturais ou
jurídicas de direito privado, feito no Serviço do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional, de acordo com o decreto-lei nº 25, de 30 de novembro de
1937.

Em que pese a natureza de preservação e conservação do patrimônio histórico e


artístico nacional, nada obsta que o tombamento seja desfeito. Nesse sentido,
Carvalho Filho (2018, p. 938) ensina que:

Embora não seja comum, é possível que, depois do tombamento, o Poder


Público, de ofício ou em razão de solicitação do proprietário ou de outro
interessado, julgue ter desaparecido o fundamento que deu suporte ao ato.
Reconhecida a ausência do fundamento, desaparece o motivo para a restrição
ao uso da propriedade. Ocorrendo semelhante hipótese, o efeito há de ser o
de desfazimento do ato, promovendo-se o cancelamento do ato de inscrição,
fato também denominado por alguns de destombamento.

A esse respeito, o art. 19, § 2º do Decreto-Lei nº 25/37 prevê que nos casos em
que o proprietário do bem tombado não tenha condições financeiras de arcar com os
custos das obras necessárias para conservar o bem, e, notificando o Poder Público, este
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não iniciar as obras dentro de 06 (seis) meses, o proprietário poderá o requerer que seja
cancelado o tombamento da coisa.

6 DOS LIVROS DO TOMBO

Prevê o art. 4º do Decreto-Lei nº 25/37, que o Serviço do Patrimônio Histórico e


Artístico Nacional possuirá quatro Livros do Tombo, nos quais serão inscritas as obras
que constitui o patrimônio histórico e artístico nacional, sendo que cada livro poderá ter
vários volumes:

1) no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, as coisas pertencentes


às categorias de arte arqueológica, etnográfica, ameríndia e popular.

2) no Livro do Tombo Histórico: neste livro são inscritos os bens culturais em função
do valor histórico. É formado pelo conjunto dos bens móveis e imóveis existentes no
Brasil e cuja conservação seja de interesse público por sua vinculação a fatos
memoráveis da história do Brasil. Esse Livro reúne, especificamente, os bens culturais
em função do seu valor histórico que se dividem em bens imóveis (edificações,
fazendas, marcos, chafarizes, pontes, centros históricos, por exemplo) e móveis
(imagens, mobiliário, quadros e xilogravuras, entre outras peças) (IPHAN, online).

3) no Livro do Tombo das Belas Artes, as coisas de arte erudita, nacional ou estrangeira.
Reúne as inscrições dos bens culturais em função do valor artístico.

4) no Livro do Tombo das Artes Aplicadas, as obras que se incluírem na categoria das
artes aplicadas, nacionais ou estrangeiras. Onde são inscritos os bens culturais em
função do valor artístico, associado à função utilitária. Se refere à produção artística que
se orienta para a criação de objetos, peças e construções utilitárias: alguns setores da
arquitetura, das artes decorativas, design, artes gráficas e mobiliário, por exemplo
(IPHAN, online).

7 DOS EFEITOS DECORRENTES DO TOMBAMENTO

O Decreto-Lei nº 25/37 elenca no Capítulo II os efeitos do tombamento no que


toca ao uso e à alienação do bem tombado, gerando algumas obrigações de fazer, de não
fazer e de tolerar que devem ser suportadas pelo proprietário do bem tombado
(CARVALHO, 2017).
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Tendo em vista que o tombamento importa em restrição ao uso da propriedade, o


primeiro efeito decorrente da sua instituição é obrigatoriedade de sua transcrição no
Ofício de Registro de Imóveis e sua averbação na matrícula ou à margem do registro
respectivo, conforme previsão do art. 13, do Decreto-Lei nº 25/37 (BRASIL, online).
O art. 17 prevê a vedação ao proprietário de destruir, demolir ou mutilar o bem
tombado, sendo-lhe autorizado reparar, pintar ou restaurar o bem somente com prévia
autorização especial do órgão responsável pela preservação do patrimônio cultural, que
é o IPHAN.
Aqui, cabe observar que é o proprietário do bem tombado que deve zelar pela
conservação do bem tombado mantendo suas características, sendo dispensado de assim
o fazer se demonstrar insuficiência financeira, conforme decisão do Superior Tribunal
de Justiça no AgRg no AREsp 176.140, assim ementado:
PROCESSUAL. ADMINISTRATIVO. IMÓVEL TOMBADO.
REPARAÇÃO. AUSÊNCIA DE CONDIÇÕES ECONÔMICO-
FINANCEIRA DO PROPRIETÁRIO NÃO DEMONSTRADA. REVISÃO.
SÚMULA 07/STJ.
1. A responsabilidade de reparar e conservar o imóvel tombado é, em
princípio, do proprietário. Tal responsabilidade é elidida quando ficar
demonstrado que o proprietário não dispõe de recurso para proceder à
reparação. Precedentes. 2. (...) (STJ, AgRg no AREsp 176.140/BA,
2012/0096614, Rel. Min. Castro Meira, Data de Julgamento: 18/10/2012, T2,
Segunda Turma, Data de publicação: DJe 26/10/2012). (g.n)

O art. 19 e parágrafos do Decreto-Lei nº 25 prevê que no caso de o proprietário


da coisa tombada não possuir recursos para proceder às obras de conservação e
reparação necessárias, deve notificar ao órgão responsável da necessidade das
mencionadas obras, sob pena de multa, e este mandará executá-las a expensas da União,
caso em que não tomadas as providências cabíveis, poderá o proprietário requerer que
seja cancelado o tombamento da coisa.

Outro reflexo trazido pelo tombamento, é que a coisa tombada não poderá sair
do País, senão por curto prazo, sem transferência de domínio e para fim de intercâmbio
cultural, a juízo do Conselho Consultivo do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional, conforme disposto no art. 14.
Por disposição do art. 16, o proprietário tem o dever de comunicar ao órgão
responsável, dentro do prazo de 05 (cinco) dias, o extravio ou furto de qualquer objeto
tombado, sob pena de multa.
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As restrições acometidas pelo tombamento também alcançam terceiros,


consoante previsão do art. 18, que veda à vizinhança do bem tombado, sem prévia
autorização do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, fazer construção
que lhe impeça ou reduza a visibilidade, nem nela colocar anúncios ou cartazes, sob
pena de ser mandado destruir a obra ou retirar o objeto, impondo-se nesse caso a multa
(BRASIL, online).

A condição de ser tombado o bem não impede o proprietário de gravá-lo


livremente através de penhor, anticrese ou hipoteca (CARVALHO FILHO, 2018, p.
940).

Por fim, em conformidade com o art. 20, os objetos tombados ficam sujeitas ao
controle e fiscalização permanente do Poder Público, não podendo o proprietário criar
obstáculos, sob pena de multa

8 BENS INSUSCETÍVEIS DE TOMBAMENTO

O tombamento pode atingir bens de qualquer natureza: móveis ou imóveis,


materiais ou imateriais, públicos ou privados. Entretanto, o art. 3º do Decreto-Lei nº
25/37 exclui do patrimônio histórico e artístico nacional e, portanto, da possibilidade de
tombamento, as obras de origem estrangeira: os que pertencem às representações
diplomáticas ou consulares acreditadas no país; as que adornem quaisquer veículos
pertencentes a empresas estrangeiras que façam carreira no país; bens adquiridos por
sucessão de estrangeiro e situados no Brasil (art. 10, LINDB); os objetos históricos ou
artísticos que pertençam a casas de comércio; os objetos trazidos para exposições
comemorativas, educativas ou comerciais; e aqueles objetos importados por empresas
estrangeiras expressamente para adorno dos respectivos estabelecimentos.

CONCLUSÃO

O tombamento, como meio de intervenção do Estado na propriedade privada,


baseado na supremacia do interesse público sobre o interesse privado, visa preservar a
identidade do país, impondo ao particular restrições parciais quanto à destinação, à
inalienabilidade, imodificabilidade do bem tombado, não sendo garantido ao
proprietário indenização, salvo se provar que o dano adveio do tombamento.
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Tem previsão genérica no art. 216, §1º da Constituição Federal e fundamento


infraconstitucional no Decreto-Lei nº 25/37.
Pode incidir sobre bens móveis e imóveis, materiais ou imateriais, públicos ou
privados, de valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico. Não há
transferência do bem tombado ao Estado, o seu domínio continua sendo de seu titular,
que fica impedido de promover alterações, tais como modificação, demolição, devendo
conservá-lo, sujeitando-se à fiscalização da Administração Pública.
O essencial no instituto do tombamento é a ideia de se preservar a identidade de
uma Nação, pois um país sem memória é, de fato, um país sem futuro.

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