Você está na página 1de 14

1

UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ

O APRENDIZADO MUSICAL ATRÁVES DA PERCUSSÃO


TITON, Vagner1
MINATTI, João2
MULLER, Cristiane3

RESUMO:
O presente artigo apresenta relatos de experiência do Estágio Supervisionado, realizado na Escola
Básica Melvin Jones em uma turma do segundo ano do ensino fundamental. A proposta deste projeto
teve como foco desenvolver a prática de conjunto com ênfase na leitura de partitura analógica,
utilizando instrumentos de percussão. Entre os autores citados neste texto estão (PAIVA, 2004),
(SWANWICK 2003), (PIAGET, 1970) e (FRANÇA, 2002) por possuírem material científico sobre o
ensino da música e também sobre percussão. As aulas foram planejadas de modo a instruir os alunos
sobre a execução de cada instrumento de percussão, possibilitando a criação e leitura de partituras
alternativas. Este trabalho desenvolveu a música através da prática instrumental, valorizando sua
beleza como expressão artística e incentivando sua apreciação e prática, ao mesmo tempo que
proporcionou aos alunos a experiência de fazer parte de um grupo de percussão que realizou uma
apresentação para um público.

PALAVRAS-CHAVE: Percussão. Prática de Conjunto. Partitura Analógica. Performance.

INTRODUÇÃO

O projeto deste semestre visou desenvolver habilidades rítmicas por meio da prática
em instrumentos de percussão, e a composição de partituras analógicas, explorando a
capacidade criadora em uma turma do 2º ano do ensino fundamental. A proposta dos
acadêmicos para este semestre de estágio consistiu na formação de uma banda de percussão
onde seriam explorados alguns ritmos propostos nas partituras analógicas, composta pelos
alunos juntamente com os professores.
As aulas foram planejadas levando em consideração que nenhum dos alunos havia
frequentado aulas de música, portando não possuíam experiência com elementos básicos da
música como, por exemplo, o ritmo. Tendo isso em vista foi necessário apresentar cada um
dos instrumentos usados, e como manuseá-los, uma vez que o resultado dos alunos, na
maioria das vezes, tenha sido de grande satisfação.

1
Acadêmico do 7º período do Curso de Licenciatura em Música da Univali.
2
Acadêmico do 7º período do Curso de Licenciatura em Música da Univali.
3
Professora Orientadora da disciplina de estágio supervisionado: Pesquisa da prática pedagógica do 7º período
do Curso de Licenciatura em Música da Univali.
2

Os conhecimentos derivam da ação, não no sentido de meras respostas


associativas, mas no sentido muito mais profundo da associação do real com
as coordenações necessárias e gerais da ação. Conhecer um objeto é agir
sobre ele e transformá-lo, apreendendo os mecanismos dessa transformação
vinculados com as ações transformadoras. (PIAGET, 1970, p. 30).

A execução destes instrumentos exige um mínimo de condicionamento técnico por


parte dos alunos, tornando possível a realização das propostas deste projeto, como a leitura e
a performance musical. O fato de a escola possuir uma variedade de instrumentos de
percussão à disposição dos acadêmicos facilitou o desenvolvimento deste projeto, já que além
de sua execução básica ser relativamente mais simples comparados a outros instrumentos,
eles despertam o interesse musical dos alunos e proporcionam a possibilidade de uma rica
exploração sonora, desenvolvendo a percepção musical além da coordenação motora.
Entre os autores citados para embasar os conteúdos se destacam Cecília França e Keith
Swanwick (2002), por seu trabalho sobre apreciação, composição e performance, e como
essas práticas se relacionam e se completam para construir um aprendizado musical completo
e significativo.
A composição é um fator muito importante na vida de uma criança. Ela traz consigo
toda a forma de expressão e sensibilidade através da arte. Compor exige criatividade, e
criatividade exige esforço mental, transformando assim este ciclo em um grande
desenvolvimento intelectual.
Qual o processo de preparação para uma composição e performance musical?
A criação deve estar inserida no meio escolar e educacional de uma criança. Ela que é
o reforçador da criatividade, com isso a composição é um meio importante para desenvolver a
criatividade e inteligência do aluno.
Os instrumentos de percussão são uma ótima ferramenta para a aprendizagem musical
em suas diversas modalidades como por exemplo a criação e a reprodução. Além de sua
execução básica ser relativamente mais simples comparados a outros instrumentos, desperta o
interesse musical dos alunos e proporciona a possibilidade de uma rica exploração sonora,
desenvolvendo a percepção musical junto de alguns sentidos.
A prática de conjunto proporcionou uma rica experiência musical, onde cada aluno
exerceu uma função que influenciou diretamente no resultado sonoro do conjunto,
incentivando cada integrante a se ouvir e ouvir os colegas ao seu redor, ao mesmo tempo em
que interage musicalmente em conjunto.
3

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Os sons percussivos são encontrados em quase todas as culturas do mundo e existem


desde antes de 6000 a.C. Eles tiveram associações cerimoniais, sagradas e simbólicas. O
primeiro tipo de instrumento de percussão era qualquer objeto que tocando produzisse som.

No princípio era o ritmo. A natureza tem apresentado o ritmo desde o


começo da terra. O ano, as quatro estações, dia e noite, vida e morte e o
ritmo batido do coração são alguns exemplos de formas rítmicas da natureza.
(ROSAURO, 2016, p. 01).

Os instrumentos de percussão têm fortes associações cerimoniais, sagradas ou


simbólicas em quase todo o mundo. A música percussiva simboliza e protege a realeza tribal
em grande parte da África. Eles também foram usados para transmitir mensagens por longas
distâncias, e desempenharam um papel importante na Europa medieval e renascentista.
A música brasileira é composta pela mistura de diversos elementos culturais europeus,
africanos e indígenas. Suas tradições, danças, ritmos e instrumentos musicais geraram no
Brasil uma diversidade de gêneros e ritmos únicos que estão vinculados com certas regiões e
costumes distintos. Já inserida na cultura Brasileira, a música percussiva e a variedade de
ritmos, acompanha a vida das pessoas desde muito cedo. Um dos objetivos de trabalhar a
música percussiva, é apresentar um mundo musical forte no Brasil, vivida de forma sutil pelas
crianças do nosso País.
As práticas musicais serão desenvolvidas a partir da formação de grupos de percussão,
devido à riqueza deste aspecto nos ritmos que serão trabalhados. Através deste meio é
possível proporcionar aos alunos uma grande possibilidade de exploração sonora, por ser
relativamente fácil executar um instrumento de percussão do que um instrumento melódico
e/ou harmônico. Também será proposto a leitura de partitura analógica, inserindo as crianças
em um mundo não só prática, mas também teórico.
Levando em consideração os argumentos de Dalcroze, a música percussiva é vivida,
por mais simples que seja o som, sempre haverá alguém fazendo percussão, quando ouvimos
música batemos os pés intuitivamente, marcando o ritmo da música, nas festas sempre
ouvimos música rítmica, e nitidamente os estilos musicais mais ouvidos no País, são estilos
que contém muita rítmica. É notável que de certa forma os ritmos já estão inseridos nas
crianças brasileiras, e com ajuda da educação musical podemos tornar isto concreto e
4

significativo, para que haja sempre um desenvolvimento e um valor cultura em cima da


música percussiva do Brasil.
Quando se propõe ao aluno aprender de forma alternativa, todas as atividades em si,
também tendem a ter outra forma, diferente da comum, como as partituras analógicas criadas
e transformadas para o ensino das atividades propostas. Segundo Gainza “A notação analógica
é um recurso facilitador da performance, da escuta e da compreensão musicais. Sua apreensão
é mais imediata do que a tradicional” (GAINZA, 1982, p. 106).
Ensinar música de forma alternativa e criativa, visando à proposta das atividades,
conforme o ambiente a ser trabalhado, dando importância à individualidade dos alunos e do
próprio grupo. Poder criar e adaptar as atividades para cada sala de aula é uma forma
consciente e inteligente de ensinar algo já existente, mas de forma lúcida e de fácil
compreensão.
Os alunos precisam ser estímulados a praticar o pensar, poder associar as atividades
propostas pelo professor com suas experiências e pensamentos empíricos. As atividades
estimulam o improviso sobre aos materiais sonoros existentes, abrindo um leque de
possibilidades para expressar a criatividade musical.

METODOLOGIA

Este artigo é a finalização do trabalho realizado na disciplina de Estágio


Supervisionado na Escola básica Melvin Jones por dois acadêmicos do curso de Licenciatura
em Música. Trata se de uma pesquisa-ação, onde realizou-se 11 idas à escola: 1 visita técnica,
1 aula diagnóstica, 07 intervenções em sala de aula e uma apresentação final dos alunos. A
metodologia da pesquisa-ação na área da educação é uma estratégia que foca
desenvolvimento do professor que a aplica com o objetivo de utilizar suas pesquisas para
aprimorar seu ensino e, em paralelo, o aprendizado de seus alunos.

Pesquisa-ação é uma forma de investigação baseada em uma autorreflexão


coletiva empreendida pelos participantes de um grupo social de maneira a
melhorar a racionalidade e a justiça de suas próprias práticas sociais e
educacionais, como também o seu entendimento dessas práticas e de
situações onde essas práticas acontecem. A abordagem é de uma pesquisa-
ação apenas quando ela é colaborativa... (KEMMIS e MC TAGGART,1988,
apud ELIA E SAMPAIO, 2001, p. 248).

Por ser uma pesquisa qualitativa onde os resultados obtidos não são através de fatores
numéricos, e sim sendo interpretados e contextualizados a coleta de dados obtidos se deu por
5

meio da análise da prática pedagógica, utilizando também vídeos, imagens e análise dos
relatórios. Segundo Minayo:

A pesquisa qualitativa responde a questões muito particulares. Ela se


preocupa, nas ciências sociais, com um nível de realidade que não pode ser
quantificado, ou seja, ela trabalha com o universo de significados, motivos,
aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais
profundo das relações dos processos e dos fenômenos que não podem ser
reduzidos à operacionalização de variáveis. (1994, p. 21-22).

As aulas foram realizadas com uma turma do segundo ano do ensino fundamental,
com duração de 1 hora e 30 minutos. Ficaram divididas em três unidades: a primeira unidade
teve o conteúdo voltado para a introdução dos instrumentos de percussão e em seus aspectos
técnicos como postura, como segurar, onde bater e como produzir sons diferentes de cada
instrumento, tudo para proporcionar uma boa execução durante a prática musical. Na segunda
unidade procurou-se primeiramente desenvolver um entrosamento entre os alunos no que diz
respeito à prática de conjunto, para em seguida construir um repertório e futuramente preparar
uma apresentação. Durante esta segunda unidade, propusemos a atividade de criar símbolos
para uma notação musical alternativa, que deveria ser lida pelos alunos conforme a regência
de um estagiário. A terceira e última unidade consistiu em organizar as peças que tiveram o
melhor resultado durante o semestre, ensaiá-las e por fim realizar uma apresentação.
Diversas atividades musicais e canções foram utilizadas durante as aulas, servindo de
base para explorar alguns conteúdos musicais importantes para um bom resultado sonoro de
todo o grupo como, marcar a pulsação das canções com palmas, tocar em diversas
intensidades e responder aos gestos de regência.

DA PRÁTICA PERCUSSIVA À LEITURA


Serão apresentados alguns relatos dos conteúdos e atividade propostos em sala de aula
durante todo o semestre, com o intuito organizar as etapas para uma melhor reflexão do
trabalho como um todo. As atividades foram divididas em 3 unidades, onde a primeira ficou
responsável por trabalhar os rudimentos técnicos dos instrumentos de percussão, a segunda a
prática em grupo junto da leitura de partitura alternativa, enquanto a última teve o momento
de preparar e executar peças instrumentais e cantadas na apresentação final.
Para iniciar as atividades na sala de aula, foi realizada uma aula diagnóstica para
conhecer e avaliar alguns aspectos da sala em geral e dos alunos. Esta aula teve início com os
estagiários se apresentando aos alunos e expondo o trabalho a ser realizado ao longo do
semestre. Realizada também uma breve conversa a respeito dos estilos musicais que os alunos
6

mais ouviam e gostavam. No geral as respostas variaram entre funk, sertanejo universitário,
pagode e música gospel. Na sequência foram apresentados alguns dos instrumentos de
percussão que seriam utilizados durante as próximas aulas como o agogô, o triângulo, bongô,
caxixi, pandeiro, tamborim entre outros. Junto da apresentação dos instrumentos foi feita uma
pequena demonstração do som de cada instrumento e de como deveria ser segurado
corretamente para tocá-lo. Dando continuidade à aula, realizada após, uma atividade de
percepção sonora onde os alunos deveriam fazer silêncio por um determinado tempo para que
pudessem prestar atenção nos diversos sons que rodeavam a sala, tanto dentro da escola
quanto fora. Após a atividade os alunos foram questionados sobre quais sons conseguiram
perceber durante o momento de silêncio, as respostas foram que ouviram crianças gritando,
caminhões nas ruas, pássaros cantando, ar condicionado, apito no ginásio de esportes entre
outros.
Na finalização da aula, os estagiários propuseram uma atividade prática com a sala
dividia em dois grupos. O primeiro grupo deveria, com as mãos fechadas, bater levemente na
mesa fazendo um som grave em um ritmo demonstrado pelos acadêmicos. Enquanto o outro
grupo deveria bater com a palma da mão na mesa fazendo um som agudo em outro ritmo
também demonstrado pelos acadêmicos. Sendo assim possível perceber a junção de duas
células rítmicas repetidas que formaram um único “groove”.
A realização desta aula diagnóstica teve como principal objetivo ter conhecimento do
nível de envolvimento dos alunos com a música. A turma na qual foi proposta está aula já
havia realizado algumas atividades musicais antes, o que deve ser levado em consideração
para o planejamento e desenvolvimento do projeto deste semestre. É sempre importante
aplicar uma metodologia de ensino da música que de alguma forma faça parte do dia a dia dos
alunos em algum nível. Ter conhecimento do gosto musical dos alunos ajuda no julgamento
do que deve ser trabalhado em sala de aula e de como isso deve se relacionar com os
conteúdos musicais e a prática. A partir dos gêneros e instrumentos musicais comuns aos
alunos, é possível propor variações e maneiras diferentes de sua execução, expandindo seus
conhecimentos musicais a partir de assuntos já conhecidos.
[...] auxiliar crianças, adolescentes e jovens no processo de apropriação,
transmissão e criação de práticas músico-culturais como parte da construção
de sua cidadania. O objetivo primeiro da educação musical é facilitar o
acesso à multiplicidade de manifestações musicais da nossa cultura, bem
como possibilitar a compreensão de manifestações musicais de culturas mais
distantes. Além disso, o trabalho com música envolve a construção de
identidades culturais de nossas crianças, adolescentes e jovens e o
desenvolvimento de habilidades interpessoais. Nesse sentido, é importante
que a educação musical escolar, seja ela ministrada pelo professor
7

unidocente ou pelo professor de artes e/ou música, tenha como propósito


expandir o universo musical do aluno, isto é, proporcionar-lhe a vivência de
manifestações musicais de diversos grupos sociais e culturais e de diferentes
gêneros musicais dentro da nossa própria cultura. (HENTSCHKE, DEL
BEN, 2003, p. 181).

Além de proporcionar uma prática musical saudável e didática, também é função do


professor de música conscientizar seus alunos sobre alguns dos problemas ambientais que
envolvem sua área, neste caso a poluição sonora.

Diversos meios de comunicação de massa, como jornais e revistas têm


divulgado em suas matérias, diversas discussões e enfoques sobre os
transtornos ocorridos sempre que as pessoas se encontram sob o impacto do
ruído em sua vida cotidiana. O mais interessante é que nem percebemos que
convivemos diariamente com ruído moderado, e que ele se torna um inimigo
de nosso organismo. Podemos notar que mesmo em atividades de lazer,
somos expostos a fortes intensidades de ruído e as pessoas assumem uma
postura passiva, não parecendo ter consciência de seus malefícios e nem
mesmo esboçando tentativa de diminuição do mesmo (CELANI, 1991, p.
37).

Da mesma maneira que temas transversais como a preservação do meio ambiente é


abordada em sala de aula, a questão da poluição sonora também merece atenção,
principalmente do professor de música, assim propondo para os alunos certa preocupação com
os sons em geral, proporcionando uma prática musical mais sensível e saudável.
O próximo passo, a introdução dos instrumentos de percussão, onde cada instrumento
era apresentado individualmente, dizendo seu nome, demonstrando a maneira correta de
segurá-lo e finalmente executando para seu som ser exposto. Entre os instrumentos abordados
estavam caxixi, pandeiro, tamborim, tambor, surdo, triangulo, agogô e clave.
Após a introdução dos instrumentos, teve uma atividade para o desenvolvimento da
pulsação rítmica em conjunto. Com os alunos sentados em roda, um acadêmico começou a
bater palmas em um pulso constante e tranquilo, enquanto outro acadêmico pediu para que os
alunos o acompanhassem fazendo o mesmo. Em seguida cada aluno recebeu um instrumento
para a realização da mesma atividade, porém agora aplicando a técnica de execução de cada
instrumento demonstrada anteriormente. Nesta mesma atividade prática de pulsação em
conjunto foi possível aplicar variações de intensidade regidas pelo acadêmico que estava
liderando o pulso. Quando aproximava o instrumento do chão tocava com menor intensidade,
e quando erguia o instrumento acima de sua cabeça tocava com maior intensidade, induzindo
os alunos a imitarem esta variação. Na sequência, demonstrada a execução do mesmo pulso
rítmico em diferentes andamentos, porém sem variação na intensidade, demonstrando que
essas duas propriedades são diferentes e não dependem uma da outra.
8

A atividade final desta primeira unidade foi desenvolver a percepção rítmica dos
alunos de forma que conseguissem rapidamente compreender um pequeno padrão rítmico
tocado por um acadêmico, e em seguida reproduzi-lo em algum instrumento, respeitando a
intensidade e o andamento no qual executado. Conforme o resultado desta atividade de
imitação rítmica, o padrão rítmico tocado ia ficando mais complexo. Após a imitação ser
realizada diversas vezes o acadêmico tocava um último padrão rítmico crescente e terminava
com uma batida forte para finalizar a seção de imitação.

FIGURA 1: PARTITURA ALTERNATIVA CRIADA PELOS ESTÁGIÁRIOS EM CONJUNTO COM OS


ALUNOS.
FONTE: PRODUÇÃO DOS ESTAGIÁRIOS.

O processo de iniciação da aprendizagem de um instrumento musical para crianças


que nunca tiveram este contato, por mais simples ou complexo que seja, exige um
planejamento didático das etapas com graus de dificuldade progressivos, obviamente partindo
do simples. Após conhecer os nomes e as características básicas de cada instrumento de
percussão, foi demonstrada a postura correta para segurar cada instrumento e em seguida
executa-lo, dando ênfase no fato se que uma postura deficiente irá influenciar diretamente no
som produzido pelo instrumentista.

A aprendizagem musical através dos instrumentos de percussão acontece de


diferentes maneiras, em diferentes manifestações musicais e em diferentes
contextos e grupos sociais. Seja qual for a situação, o modelo ou o processo
de ensino-aprendizagem envolvido, a percussão está presente de maneira
marcante em diversas práticas musicais. (PAIVA, 2004, p.24).
9

Com a possibilidade de trabalhar com instrumentos de percussão, e tendo em mente


que são considerados instrumentos de aprendizado relativamente mais rápido, simples e
intuitivo que instrumentos melódicos e harmônicos, é necessário como professor, ter a
responsabilidade de exigir disciplina em sua execução, incluindo aspectos de postura, técnica,
precisão rítmica e qualidade de timbre em sua execução. Era necessário que os alunos
demonstrassem uma mínima compreensão dos conteúdos citados acima, para possibilitar um
resultado satisfatório na prática de conjunto.
No primeiro momento da prática em conjunto onde cada aluno possuía um
instrumento de percussão, proposta a execução de um pulso rítmico constante iniciado por um
acadêmico. Cada aluno deveria aplicar a técnica correta demonstrada previamente em seu
instrumento específico, e produzir um som com intensidade constante repetidamente no
andamento proposto. Durante as diversas vezes que esta atividade foi iniciada, podíamos
possível perceber uma melhoria na sonoridade do conjunto, com batidas cada vez mais
sincronizadas e constantes com menos ruídos. Ao longo das seções, era chamada a atenção
dos alunos para que além de ouvirem o som que cada um produzia individualmente, ouvissem
o som que o colega do lado estava produzindo, e por fim tentar ouvir o conjunto como um
todo, tentando tocar em completa sincronia um com o outro. Esta atividade foi repetida
diversas vezes durante as aulas, sendo utilizada como aquecimento e desenvolvendo a
percepção rítmica junto com a memória muscular para adquirir fluência na execução
instrumental.

Há uma crítica forte ao método de repetição utilizado na escola


contemporânea. Entretanto, quando estudamos neurociência e aprendizagem,
observamos que não há possibilidade de aprender sem formar caminhos
cerebrais. (RABAIOLLI, 2016, p.18).

A proposta da atividade de imitação envolve tanto aspectos de composição, quanto de


percepção rítmica e reprodução. Já que as células rítmicas que devem ser imitadas são criadas
na hora por um acadêmico, os alunos devem compreender rapidamente um compasso de
quatro tempos com notas e pausas criadas aleatoriamente, e ao início do próximo compasso
devem reproduzi-lo em conjunto.
Neste momento do estágio, os estagiários apresentaram para os alunos as partituras
analógicas que foram compostas pelos mesmos, demostrando para os alunos como
funcionariam. As mesmas foram compostas, pensando em altura e pausa, enquanto os alunos
tocavam seus instrumentos (som contínuo e sincronizado), eles teriam que respeitar as ondas
10

que se movimentam pela partitura, produzindo assim um som grave, médio ou agudo. As
pausas também foram propostas, e outras dinâmicas, como tocar o instrumento com a mão
imitando a chuva, e uma batida única para todo o grupo.
Os instrumentos usados para esta atividade foram: Tamborim, Bongô, Reco-reco,
Chocalho, Caxixi, Agogô e Pandeiro, os quais tiveram sua execução demonstrada por um
estagiário para que os alunos tivessem a oportunidade de aprender a técnica correta para toca-
los.
O processo se desenvolveu positivamente, os alunos compreenderam as atividades
com facilidade e poucos alunos tiveram dificuldade em compreender o que foi proposto, as
dificuldades eram mais por questões de atenção do que propriamente manuseio do
instrumento ou falta de compreensão rítmica. A maioria da turma, tocava à primeira vista os
exercícios propostos, reproduzindo todas as dinâmicas (intensidade das ondas, formas
diferentes de tocar o instrumento percussivo).
Os alunos gostavam das aulas, talvez por ser uma atividade diferente das demais (que
já estão acostumados), sendo assim, prestavam atenção com facilidade e aproveitavam as
atividades para aprender e se divertirem. Em comparação com a partitura tradicional, as
analógicas são mais didáticas para a introdução dos alunos na música, por motivo da
tradicional ser mais complexa no seu entendimento, assim compreende-se que as partituras
não tradicionais podem ser um conteúdo interessante para a preparação dos alunos à chegada
as partituras tradicionais.
Um fator muito importante é a liberdade, os alunos se sentiam livres para fazer do jeito
deles, dentro de algumas regras feitas para as atividades funcionarem. Com essa liberdade
conseguiam fazer as atividades sem pressão, e nitidamente faziam com mais qualidade e
vontade.
Outra consideração a ser feita é que a prática não é uma atividade isolada, para praticar
música em conjunto precisa ter um entendimento entre as partes, de acordo com Swanwick
“[...] muitos educadores musicais certamente acreditam que compor, tocar e escutar são
atividades que se reforçam mutuamente (SWANWICK, 2003, p. 95)”. Os estagiários focaram
nas explicações dos detalhes que acontecem em uma prática em grupo, por exemplo, o
respeito entre os colegas, quando a partitura indica apenas aquele timbre a ser executado,
consequentemente se mantém o resto em silêncio.
Ao iniciar a terceira e última unidade, e a aula reservada para o ensaio geral da
apresentação dos trabalhos realizados durante o semestre, os estagiários tiveram uma breve
conversa com os alunos a respeito do porquê organizar e realizar um evento como este, e
11

como deveríamos nos portar nesta situação. Foi exigida disciplina e concentração para a
realização do ensaio, enfatizando que o desempenho da turma no mesmo seria de extrema
importância para o resultado da apresentação.
Foram revisadas as atividades que fariam parte da apresentação, sendo elas a atividade
de imitação, a canção Maria Fumaça, brevemente trabalhada em algumas aulas e a leitura de
partitura alternativa. Após a breve revisão, foi proposta a execução das três peças uma seguida
da outra, simulando a performance final.
No dia da apresentação, pouco tempo antes da performance ser iniciada, os estagiários
relembraram os alunos dos significados dos símbolos que seriam utilizados na execução da
leitura de partitura alternativa, tendo em vista que o resultado da execução desta peça tenha
sido ineficiente no ensaio geral. Em seguida os alunos saíram da sala e se dirigiram até o lugar
onde iria acontecer a apresentação. Após os alunos serem organizados na formação
previamente estabelecida, um estagiário apresentou a turma e descreveu o cronograma da
apresentação com as três peças que seriam executadas. A primeira peça era a canção da Maria
Fumaça seguida da atividade de imitação rítmica. Para finalizar a apresentação os alunos e a
plateia foram encaminhados para uma sala onde havia um quadro branco, no qual escrita a
partitura alternativa para a execução da última peça. A partitura lida pelos alunos como no
ensaio sob a regência de um estagiário, assim finalizando a apresentação.
A realização deste ensaio serviu como um momento de organização e fixação das
peças desenvolvidas durante o semestre, mas principalmente como uma simulação da
apresentação final. Foram estabelecidas algumas regras para possibilitar a prática de um
ensaio geral e de uma apresentação bem organizadas, como prestar atenção aos sinais de
regência do estagiário para iniciar e terminar as peças, fazer completo silêncio antes de iniciar
uma peça e cantar com certa intensidade que possibilite a audição de toda a plateia.

A ideia de se referir a uma peça de, talvez, menos de um minuto de duração


como composição, ou ‘performance’, quando tudo o que podemos estar
ouvindo são algumas notas tocadas em um instrumento de percussão, parece
a princípio exagerada para ser levada a sério por alguns músicos. Mas, como
professores de música, concentramo-nos nos processos envolvidos, e é
provável que as primeiras manifestações sejam extremamente simples se
comparadas com o que sabemos ser possível no auge da realização musical.
Quando os alunos selecionam e organizam sons em uma peça de música, por
mais simples que suas tentativas possam ser, ainda assim estão compondo.
(HARRIS; HAWKESLEY 1989 apud FRANÇA; SWANWICK, 2002, p.7).
12

O processo de construção de uma apresentação implica em conseguir de forma


sintética, em alguns minutos, executar uma ou mais peças que consigam demonstrar o
desenvolvimento musical dos alunos ocorrida durante o semestre, além da preparação de
alguns quesitos técnicos com a postura diante do público, a entonação da voz ao cantar e a
execução correta dos instrumentos. “A performance é um processo fundamental da música
enquanto fenômeno e experiência, aquele que exprime sua natureza, relevância e significado.
” (FRANÇA; SWANWICK. 2002, p. 9).
Com relação à performance dos alunos, foi possível avaliar o resultado, comparar e
perceber a evolução em seu nível de compreensão e execução dos conteúdos trabalhados e das
peças executadas. Expor aos alunos a importância da apresentação final foi fundamental para
que ela fosse executada com o máximo de concentração e disciplina possível, gerando um
resultado até melhor do que o obtido durante o ensaio. Mesmo algumas dificuldades de
execução percebidas ao longo das atividades em alguns alunos por falta de atenção ou por
alguma deficiência foram corrigidas na hora do ensaio geral e da apresentação.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Na finalização deste trabalho de estágio, foi possível perceber a evolução dos alunos
tanto em questões musicais, como na coordenação motora para a execução dos instrumentos,
em relação às propostas e regência dos estagiários, e até mesmo nas relações sociais. Como
professor é necessário estabelecer objetivos, e ao longo das atividades entender possíveis
dificuldades dos alunos, sempre com um certo nível de adaptabilidade em sua metodologia,
para assim facilitar o desenvolvimento da turma.
Foram satisfatórias as atividades das aulas, mas temos a preocupação de como o aluno
está interpretando estes exercícios, se ele consegue enxergar essa dinâmica em um
instrumento ou em alguma música. Assim focamos em explicar que as propriedades sonoras
estão presentes em toda forma de música, e que elas são utilizadas para vários efeitos e
intenções.
Observamos a importância de explicar o “respeito”, que é essencial em uma prática em
grupo, e trazer à aula conceitos como a prática da gentileza, que deve existir em qualquer
situação em grupo, só assim poderemos nos organizar e obter um resultado bom daquilo que
se está pretendendo fazer.
Perante as dificuldades na execução de algumas atividades, os estagiários conversaram
com outros colegas que também tiveram a mesma dificuldade nesse tema “altura”, com seus
13

alunos. Cabe a nós futuros professores pesquisar e elaborar outras estratégias para conseguir
chegar ao objetivo dessa aprendizagem.
Em todas as atividades propostas percebemos agilidade dos alunos. Deveríamos ter
dificultado as atividades, mas como não sabíamos que iriam compreender e reproduzir de
forma fácil fez-se o que foi planejado. A criança de segunda serie já têm um grande potencial
de entendimento e autonomia. Mesmo sem educação musical ou qual quer experiência com a
música, com atenção e vontade, conseguem fazer as atividades propostas facilmente.
Na segunda unidade, os alunos aprenderam a ler e tocar ao mesmo tempo, um desafio
para sua idade. A importância de enxergar como os alunos conseguiram criar independência
para tocar os instrumentos de percussão e ler a partitura analógica ao mesmo tempo, é algo
para se manifestar. Como não estavam sendo avaliados diretamente e de forma sistemática a e
tradicional, nitidamente conseguíamos ver sua rápida evolução e curtição.
As aulas fluíram de forma positiva, até melhor do que tínhamos planejado. Os alunos
são inteligentes e conseguem aprender com agilidade e rapidez. Conseguimos enxergar a
importância que é, tornar uma atividade lúcida através de exemplos musicais sonoros. Quando
os alunos compreendem como a atividade deve ser feita, o interesse faz com que usem de seu
intelecto, criatividade e vontade para tornar a atividade fluida e divertida.
Poder mostrar algo novo e concreto para os alunos, é essencial na formação e
necessário para o crescimento deles. Apresentar diferentes ambientes proporciona novos
desejos e até sonhos. Trazer significado para aquilo que eles estavam aprendendo o semestre
inteiro, fez com que aceitassem e enxergassem a importância do ensino. Os alunos ficaram
totalmente à vontade com a apresentação. A música percussiva traz liberdade para quem está
aprendendo e quem está ensinando. Eles entenderam que a apresentação não é uma questão de
erro e acerto e qual grupo pontua mais, mas sim poder compartilhar com o público, novas
experiências, novos caminhos, diferentes maneiras de se aprender e de se divertir.

REFERÊNCIAS:

CELANI, A. C.; COSTA FILHO, O. A. O ruído em atividades de lazer para crianças e


jovens. Pró-Fono Revista de Atualização Científica, v. 3, n. 2, p. 37-40, 1991.

DEL BEN, Luciana; HENTSCHKE, Liane (Org.). Ensino de música: propostas para agir e
pensar em sala de aula. São Paulo: Moderna, 2003.
ELIA e SAMPAIO. O planejador de pesquisa-ação, 3. Ed. Victoria: Universidade Deakin.
2001.
14

FRANÇA, Cecília Cavalieri. SWANWICK, Keith. Composição, apreciação e performance


na educação musical: teoria, pesquisa e prática. Revista Em Pauta - v. 13 - n. 21, dezembro
2002.
GAINZA, V. H. Estudos de psicopedagogia musical. São Paulo: Summus, 1982.

MINAYO, Maria Cecília de Souza. Pesquisa Social: Teoria, Método e Criatividade. 23ª ed.
Petrópolis: Vozes, 1994.
PAIVA, Rodrigo Gudin. Percussão: Uma abordagem integradora nos processos de ensino e
aprendizagem desses instrumentos. 2004. 151 f. Dissertação (Mestrado em Música) –
Programa de Pós-Graduação do Instituto de Artes, Universidade Estadual de Campinas,
Campinas, SP, 2004.
PIAGET, Jean. Psicologia e pedagogia. Tradução de Dirceu Accioly Lindoso e Rosa Maria
Ribeiro da Silva. São Paulo e Rio de Janeiro: Editora Forense, 1970.
RABAIOLLI, Souza, Aparecida, Maria. A Pedagogia de Jesus. Arapongas: Aleluia, 2016.

ROSAURO, N. (2016, 04). História dos instrumentos sinfônicos de percussão. Disponível


em:
http://neyrosauro.com/wpcontent/uploads/2016/04/Rosauro_HistoriaInstrumentosSinfonicosP
ercussao-1.pdf. Acesso em 10 maio. 2018
SWANWICK, Keith. Ensinando Música Musicalmente. São Paulo: Moderna, 2003.