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INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO

VALÉRIA GUIMARÃES

DA HISTÓRIA COMPARADA À
HISTÓRIA GLOBAL: IMPRENSA
TRANSNACIONAL E O EXEMPLO DO
LE MESSAGER DE SÃO PAULO

GUIMARÃES, Valéria. DA HISTÓRIA COMPARADA À


HISTÓRIA GLOBAL: IMPRENSA TRANSNACIONAL E O
EXEMPLO DO LE MESSAGER DE SÃO PAULO. R. IHGB, Rio
de Janeiro, a. 176 (466):87-120, jan./mar. 2015

Rio de Janeiro
jan./mar. 2015
87

DA HISTÓRIA COMPARADA À HISTÓRIA GLOBAL:


IMPRENSA TRANSNACIONAL E O EXEMPLO DO
LE MESSAGER DE SÃO PAULO
FROM COMPARATIVE HISTORY TO GLOBAL HISTORY: THE
INTERNATIONAL PRESS AND THE EXAMPLE OF
LE MESSAGER DE SÃO PAULO
Valéria Guimarães1
Resumo Abstract:
Este artigo tem como objetivo levantar questões The pbjective of this article is to discuss theoret-
teóricas e metodológicas acerca da pesquisa so- ical and methodological issues concerning the
bre a imprensa periódica em língua estrangeira study of periodicals published in Brazil in for-
publicada no Brasil. Defendemos que esta im- eign languages. We believe that this press can
prensa pode ser compreendida sob uma perspec- be understood from a transnational perspec-
tiva transnacional. Problematizando abordagens tive. In discussing approaches to the so-called
como a denominada História Global, buscamos Global History we will look for earlier facts in
seus antecedentes na História Comparada, dis- Comparative History, and its unfoldings (such
cutindo seus desdobramentos (como os con- as concepts of connected stories and cultural
ceitos de histórias conectadas e transferências transfers). Issues relating to the circulation of
culturais). São contempladas questões relativas ideas and people in the international scene and
tanto à circulação de ideias e pessoas em âm- the specificities of those cultural artifacts when
bito internacional, como às especificidades des- published abroad will also be approached. Fi-
tes artefatos culturais quando publicados além nally, we will use as an example the case of Le
das fronteiras que lhes deram origem. Por fim, Messager de São Paulo, a São Paulo newspaper
é dado como exemplo o caso do jornal paulista published during the first decades of the twenti-
publicado nos primeiros decênios do século XX, eth century, and of its editor, Eugène Hollender.
Le Messager de São Paulo, e de seu editor, Eu-
gène Hollender.
Palavras-chave: História da imprensa estran- Keywords: Foreign Language Press History;
geira; História global; Transnacional; Le Messa- Global History; Transnational; Le Messager de
ger de São Paulo. São Paulo.

A IMPRENSA PUBLICADA EM LÍNGUA ESTRANGEIRA2


Une chose est dire que les éléments et les êtres se mé-
langent, une autre de comprendre comment ces mélan-
ges s’opèrent…
Serge Gruzinski, Passeurs Culturels, mécanismes de métissage, 2001.

1 – Doutora pela Universidade de São Paulo. Professora do Departamento de História da


UNESP – Franca. Coordenadora do projeto Jovem Pesquisador FAPESP – As transferên-
cias culturais na imprensa na passagem do século XIX ao XX – Brasil e França (http://
jfb.cedaph.org).
2 – Agradeço às generosas sugestões feitas a este texto por Diana Cooper-Richet, Tania
Regina de Luca e Teresa Maria Malatian.

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Encontrada nos mais variados países, resultado de iniciativas em-


presariais isoladas e frequentemente fruto da produção de imigrantes, a
imprensa estrangeira é fenômeno bem conhecido, mas ainda pouco estu-
dado. Foi Diana Cooper-Richet que lançou a rede TRANSFOPRESS3 e,
com ela, o desafio a pesquisadores do mundo todo incentivando que se
debruçassem sobre os impressos que, embora publicados no país, fossem
escritos em língua estrangeira, representando grupos específicos e remon-
tando a uma origem cultural diversa da nacional.

A questão que este artigo vem colocar é se é possível compreen-


der esta imprensa sob uma perspectiva transnacional, uma vez que, nor-
malmente, ela é apreendida a partir da ótica nacional, razão pela qual
os historiadores da imprensa ignoraram ou citaram de forma episódica
e marginal o que se imprimia em língua diversa da erigida como oficial
pelo Estado Nação.4 Como proceder à análise desses jornais e revistas
tentando achar sua lógica intrínseca no universo dos impressos? E como
abordar essa imprensa estrangeira e suas relações com a imprensa na-
cional? Como verificar suas interações, conexões e trocas culturais entre
esses órgãos e a sociedade?

Defendemos que é preciso trabalhar sob a dupla perspectiva da his-


tória cultural da imprensa e da história das migrações, uma vez que esta
produção é feita, em sua maioria, por imigrantes ou seus descendentes.
É igualmente necessário enfrentar questões como a definição do conceito
de transnacional, bem como trabalhar com abordagens relativas aos des-
dobramentos da história comparativa, além, é claro, de estar atento aos
3 – Transfopress – Transnational network for the study of foreign language press –
XVIIIth-XXth century é constituído por um grupo internacional e interdisciplinar de pes-
quisadores do qual o Transfopress Brasil é parte. O grupo brasileiro vinculado à rede
Transfopress respondeu à convocação, lançada em 2012, pelos mentores do projeto, Dia-
na Cooper-Richet e Michel Rapoport. Dela fazem parte professores, pesquisadores e es-
tudantes de diversas universidades brasileiras, como UNESP (sede brasileira), USP, UNI-
CAMP, UFSCar, UNIFESP, UFRGS, UFPR, UNISINOS, e estrangeiras, como Università
degli studi di Napoli L’orientale (UNIOR) e a Université de Versailles Saint-Quentin-en-
-Yvelines (UVSQ).
4 – Cf. “Aux marges de l’histoire de la presse Nationale: les périodiques en langue
étrangère publiés en France (XIXe-XXe siècles)”. In Revue Le Temps des médias. Revue
d’histoire, n. 16, Printemps 2011.

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imprensa transnacional e o exemplo do Le Messager de São Paulo

problemas relativos propriamente ao objeto impresso, ou seja, a questão


da circulação, da mediação e da recepção.

UMA IMPRENSA TRANSNACIONAL


Em junho de 1875, o jornal France et Brésil agradecia a acolhida de
“tous les Brésiliens instruits, à qui notre idiome est familier; ils [os lei-
tores brasileiros] reconnaîtront que nous sommes animés des sentiments
les plus dévoués pour le progrès, le développement et la prospérité de
leur pays”.5 Ora, a despeito de ser um jornal direcionado à comunidade
francesa, esse trecho demonstra o quanto seus editores estabeleciam diá-
logo com brasileiros capazes de ler em seu idioma e colocavam-se como
parte da nação, entendendo os franceses aqui residentes como elementos
motores da prosperidade local.

O papel exercido por este órgão não fugia à regra da maioria dos
jornais adventícios, cuja missão era a de defesa e representação dos imi-
grantes. Porém, para além dessa representatividade óbvia, o jornal em
língua estrangeira pode ser encarado como um mediador cultural entre
dois contextos nacionais. A publicação de várias seções em português,
a abundância de anúncios de comerciantes brasileiros e a discussão de
temas locais são alguns dos exemplos de como essa e outras folhas servi-
ram de plataforma de trocas simbólicas.

A difusão de conteúdo ideológico via periódicos obedece, igualmen-


te, à lógica das trocas que ultrapassam as fronteiras nacionais. O apoio
dado pelas lojas maçônicas italianas sediadas no Brasil ao jornal antifas-
cista publicado em São Paulo, La Difesa (1923-34), cuja tiragem estava
na casa dos 5 mil exemplares, não foi, pois, suficiente para enfrentar a
forte adesão às orientações do Duce, que aqui encontravam respaldo nas
“associações, no corpo diplomático e no Governo de Getúlio Vargas”, de
acordo com Angelo Trento. Devido à pressão do crescente movimento
fascista em terras brasileiras, o jornal deixou de ser publicado, sendo um
bom exemplo de como os conflitos políticos nacionais viam-se impreg-

5 – Jornal France et Brésil, Rio de Janeiro, 20/6/1875, p. 1.

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nados por uma discussão a princípio externa a nossas fronteiras. Além de


ser exemplo de uma intensa circulação de ideias e de pessoas, em uma
rede que passava não só pelo Brasil e pela Itália, mas também Argentina
e França.6

Almeja-se, então, contribuir para a história da imprensa periódica,


sob uma perspectiva que articule a história da imprensa em língua estran-
geira publicada no Brasil ao contexto nacional, o que implica compreen-
dê-la tanto como expressão das comunidades imigrantes quando como
artefatos culturais resultantes das interações entre duas ou mais socieda-
des. Portanto, pretende-se entender o fenômeno como uma manifestação
transnacional. Mas o que significa e implica, mais precisamente, o con-
ceito de transnacional?

Com tradição no pensamento sociológico, sobretudo nos estudos de-


dicados à compreensão do capitalismo e seus desdobramentos, a adoção
do paradigma transnacional implica “shift our focus from the nation-state
as the basic unit of analysis”7 e a adoção de uma perspectiva que enten-
de que as “Transnational structures are emerging from the womb of a
nation-state system that itself is unevenly developed”.8 Assim, a própria
noção de sistema inerente à ideia de estado-nação é aqui problematizada,
admitindo nuances e variáveis em suas relações exteriores nas quais antes
apareciam “plus souvent des lignes droits: des trajectoires sans zigzags ni
pointillés”, como alerta Roman Bertrand.9

A palavra transnacional, de acordo com o Dicionário Houaiss da


Língua Portuguesa, remete aos anos 1950 e provém do vocabulário da
6 – TRENTO, Angelo. Pesquisa em andamento sobre os jornais italianos publicados no
Brasil desenvolvida para o projeto Transfopress-Brasil, 2014. A esse respeito, ver também
do mesmo autor o item “A imprensa antifascista”. In Imprensa italiana no Brasil – séculos
XIX e XX. São Carlos: EdUFSCar, 2013, pp. 124-128.
7 – ROBINSON, William I. “Beyond nation-state paradigms: globalization, sociology,
and the challenge of transnational studies” in Sociological Forum, vol. 13, n. 14, 1998, p.
562.
8 – Idem, p. 582.
9 – BERTRAND, Roman. “Un continent de possibles oubliés: les relations économiques
Europe-Asie à l’époque modern” in Revue Esprit Comment faire l’histoire du Monde?
Paris, Décembre 2013, p. 33.

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economia política. Seu significado é definido em relação a “fatores, ati-


vidades ou políticas comuns a várias nações integradas na mesma união
política e/ou econômica”. O dicionário Le Petit Robert localiza a palavra
em 1920, tendo sido difundida em ambiente francófono a partir de 1965
por influência anglo-saxã. Significa “O que ultrapassa o quadro nacional
e que concerne a várias nações”. O dicionário Webster também atribui seu
uso ao ano de 1920 e a define como “operação em ou envolvendo várias
nações”. Nos três casos, a palavra vem associada a “internacional” ou
“multinacional”, muito embora, em uma simples análise etimológica, seja
possível perceber que o que está em jogo nessa tentativa de definir em
uma só expressão a intersecção entre várias nações seja a ideia de “além
de” dada pelo prefixo trans.

Do latim, a preposição trans é definida pelo Houaiss como “além de,


para lá de; depois de” e se refere tanto a uma
1) ‘situação ou ação além de’: transalpino, transatlântico, transfundir,
transgredir etc.; 2) de ‘travessia, transposição’: transmigrar, transpas-
sar/traspassar/trespassar, transportar etc.; 3) ‘transferência, cessão’:
traduzir, transcrever, transferir, transplantar etc.; 4) ‘mudança, trans-
formação’: transfigurar, transformar, transmudar etc.; 5) ‘negação’:
transcurar.

Em resumo, transnacional poderia ser compreendido como aquilo


que vai “além das” fronteiras, o que implica, segundo o próprio termo,
mudança, transformação e até negação. Quando aplicamos o conceito ao
objeto aqui delineado, pode-se entender transnacional como a criação de
um espaço que transcende as fronteiras nacionais. Todavia, mais restrito
à noção espacial, o termo transnacional também implica variações tem-
porais. O impresso – publicado em língua diversa daquela onde se situa –
ultrapassa a fronteira na qual tem suas raízes, surgindo em lugar distante
e criando um espaço dentro dessa nova nação sem, porém, abandonar
seus vínculos com suas referências originais. Situado em outro espaço,
o periódico igualmente propicia deslocamentos temporais, como aquele
da linguagem empregada que muitas vezes estabiliza-se e distancia-se do
idioma utilizado em seu espaço de origem. Há inúmeros exemplos de co-

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munidades imigrantes que comunicam-se em um idioma há muito esque-


cido nos países que seus pais ou avós quiseram ou tiveram que abandonar.

Quando os impressos estrangeiros, como o jornal France et Brésil,


nascem no Brasil, eles podem ser considerados, essencialmente, como
brasileiros, ainda que não tratem exclusivamente de questões propriamen-
te nacionais. Sem dúvida, são instrumentos de ligação com seus países e
cultura maternos, ativando um circuito intenso de circulação de ideias e
pessoas, mas apresentam características próprias na medida em que criam
esse enclave estrangeiro fora da nação que lhe dá origem, abrindo brechas
na aparente homogeneidade nacional.

Seguramente, essa é uma característica que distingue essa imprensa


publicada em língua estrangeira dos jornais que, escritos em outro idio-
ma, apenas circulam fora de suas fronteiras nacionais. Embora o impresso
estrangeiro publicado em determinado lugar guarde similaridades com
o impresso estrangeiro que circula no mesmo local, e que ambos sejam
fenômenos aos quais podemos chamar de transnacionais, suas caracterís-
ticas são distintas. Assim, a ideia de transnacional nos remete tanto para
esse além de (trans) quanto para algo que está entre (inter), que é comum
a dois ou mais elementos.

É nessas trocas, eminentemente culturais (intelectuais, artísticas, téc-


nicas, políticas etc.), que deve residir o foco central dos pesquisadores
que trabalham com esse tipo de imprensa. A aplicação do conceito trans-
nacional coaduna-se, igualmente, com a natureza das fontes, tomadas na
sua materialidade, ou seja, como suportes da informação. Os impressos
periódicos, cuja expansão no século XIX é bem conhecida,10 possuem o
duplo caráter de serem importantes instrumentos da afirmação das identi-
10 – A bibliografia sobre o tema é extensa, seguem aqui apenas algumas indicações: VAI-
LLANT, Alain; THÉRENTHY, Marie-Ève. Presse, nations et mondialisation au XIXe
siècle. Paris: Nouveau Monde Éditions, 2010; CAVALLO, Guglielmo; CHARTIER, Ro-
ger (orgs.). História da leitura no mundo ocidental. São Paulo: Ática, 2002 (2 volumes);
MOLLIER, Jean-Yves. A leitura e seu público no mundo contemporâneo – ensaios sobre
História Cultural. Belo Horizonte: Autêntica Editora (col. História e Historiografia) e O
dinheiro e as letras – história do capitalismo editorial, São Paulo: Edusp, 2010; SEGRÉ,
Monique; LAFARGE, Chantal. Sociologia da Leitura. São Paulo: Ateliê Editorial, 2010.

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imprensa transnacional e o exemplo do Le Messager de São Paulo

dades nacionais11 tanto quanto agentes difusores de padrões – o que lhes


faz portadores dessa singular característica universal ditada pelos forma-
tos, estilos e gêneros, além de, claro, ser um veículo eficaz na divulgação
de conteúdo para além dos limites nacionais, o que em certa medida glo-
balizou a agenda-setting.12

Na medida em que o objeto aproxima o estudo do periodismo com


aquele da imigração, teríamos que nos interrogar sobre sua especificida-
de. Ora, o estudo do fenômeno dos deslocamentos populacionais também
pode beneficiar-se dessa abordagem que privilegia o conceito de transna-
cional, como afirma Philippe Minard ao discorrer sobre a História Global:

Cette méthodologie s’avère particulièrement pertinente par exemple


dans l’étude des migrations de populations, qui a trop souvent pâti
d’un regard étroitement national (centré soit sur le pays de départ soit
sur le pays d’accueil), quand au contraire les mouvements migratoi-
res, par définition transnationaux, ne peuvent se comprendre qu’à une
échelle globale, en examinant toutes les connexions qu’ils induisent, à
travers les circulations multiples, humaines et financières, entre zones
de départ et d’arrivée.13

Dito de outra maneira, o periódico, como produto físico, já é essen-


cialmente transnacional, indo além de fronteiras quando posto a circu-
lar. O fenômeno de sua publicação em contexto nacional diverso de sua
origem cultural, como no caso de uma imprensa imigrante, também é
transnacional, mas talvez guarde características ainda não vislumbradas,
uma vez que esse corpus carece de uma análise mais precisa. A presente
contribuição situa-se exatamente na exploração dessas dimensões parti-
culares, passíveis de melhor apreensão apenas quando se articulam diver-
sas escalas de observação.

11 – ANDERSON, Benedict. Nação e consciência nacional. São Paulo: Ed. Ática, 1989,
série Temas, vol. 9.
12 – Sobre a teoria de Maxwell E. Combs e Donald L. Shaw, ver o item “A função da
imprensa no estabelecimento da agenda” in DeFLEUR, Melvin L., BALL-ROKEACH,
Sandra. Teorias da Comunicação de Massa. Rio de Janeiro: Zahar, 1993, p. 284-285.
13 – MINARD, P. “Globale, connectée ou transnationale: les échelles de l’histoire”. In
Revue Esprit Comment faire l’histoire du Monde? Paris, déc. 2013, p. 27.

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Assim, tomando como ponto de partida o fato de que esses periódi-


cos são importantes mediadores (passeurs culturels) entre duas ou mais
culturas, trata-se de contribuir para a compreensão das interações cultu-
rais surgidas por meio da constituição dessa imprensa estrangeira no Bra-
sil, tomando-as como fenômenos singulares frente àquele da circulação
de periódicos provenientes de outras regiões do mundo. Talvez o próprio
conceito “transnacional” mostre-se insuficiente para apreender o fenô-
meno, mas é a partir dele que se tentará estabelecer e definir esse espaço
intercultural ainda pouco conhecido.

De outro lado, para além do olhar que esquadrinha e faz melhor co-
nhecer as publicações de forma pontual, estamos convictos que também
consiste em contribuição o fato de podermos lançar um olhar global para
essa produção impressa, em um exercício que estabelece intenso diálogo
com os pesquisadores de outros países.

DA HISTÓRIA COMPARADA À HISTÓRIA GLOBAL


Alguns dos trabalhos recentes, quer a respeito da história da leitura,
quer sobre a história das migrações, têm enveredado pelo que se con-
vencionou chamar de “História Global” a qual tem como traços carac-
terísticos esse olhar geral sobre os fenômenos históricos e a dimensão
comparatista. Para muitos, ela parece apenas constituir-se numa reedi-
ção de certa história universal de tons hegelianos, apresentada com nova
roupagem. Para outros, não se trata senão de uma nova voga surgida em
resposta ao contexto tecnológico atual, o qual deflagrou uma nova sensi-
bilidade espaço-temporal, nos legando essa visada “global”. Nós, porém,
defendemos que é pertinente que a História Global seja evocada como
um desdobramento da História Comparada, na qual toda historiografia
identifica antecedentes.

Maria Ligia Coelho Prado, em seu texto Repensando a História


Comparada da América Latina,14 encoraja os historiadores brasileiros a

14 – PRADO, Maria Ligia Coelho. “Repensando a História Comparada da América Lati-


na”. In Revista de História, n. 153, 2o sem. 2005, pp. 11-33.

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percorrerem os caminhos da comparação entre os países latino-america-


nos, uma vez que alguns fenômenos a eles concernentes poderiam ser
compreendidos numa perspectiva sincrônica que somente esse tipo de
abordagem proporcionaria. Vai buscar em dois clássicos de nossa his-
toriografia exemplos precursores do comparatismo: Manuel Bonfim e
Sérgio Buarque de Holanda. Tentando demonstrar a então indigência de
trabalhos com essa abordagem, a autora retoma a tradição do pensamento
universal, evocando de Alexis de Tocqueville a Eric Hobsbawm, passan-
do por Marc Bloch, Henri Pirenne ou antropólogos como Sidney Mintz,
recorrendo, assim, a uma genealogia de longa duração de grandes nomes
que fizeram, a seu ver, um tipo de (boa) História Comparada.

Chloé Maurel15 vai mais longe para demonstrar que a abordagem não
é propriamente uma novidade (cita até Heródoto e Hecateu de Mileto),
para em seguida destacar o pioneirismo da historiografia francesa com
Marc Bloch e a quase ausência de sucessores até fins do século XX. A au-
tora afirma que os estudos comparados entre as civilizações “hidráulicas”
(Mesopotâmia, Egito, Índia e China) de Karl August Wittfogel (1957),
bem como os trabalhos sobre história do colonialismo e do imperialismo
dos anos de 1950-60 levados a cabo nos Estados Unidos, seriam as pro-
vas de que a História Global tem numerosos antecedentes – embora isso
tenha ocorrido fora da França.

Mas se o comparatismo, caro à dita História Global, parece ter vá-


rios pontos positivos, sua aparente semelhança com a conhecida História
Universal (Weltgeschichte) e suas “histórias gerais da civilização” de viés
teleológico, deixa-lhe vulnerável a críticas. Prado chega a citar a resis-
tência de Edward Said, que veio em tom de denúncia, de um suposto
eurocentrismo embutido nessas tentativas de uma história-mundo.16 Ou,
ainda, cita autores que alertam para os riscos de uma história dada a prio-
ri, cujos esquemas globais não serviriam senão de suporte para os “casos

15 – MAUREL, Chloé. “Introduction”. In MAUREL, C. (org.) Essais d’histoire globale.


Paris: L’Harmattan, 2013, p. 15-43.
16 – PRADO, M.L.C. “Repensando…”, op. cit., p. 12-16.

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ilustrativos”,17 uma história feita de meras aproximações e contrastes e


com generalizações pouco esclarecedoras, menos ainda enriquecedoras
para o debate.

Na revisão historiográfica de Prado, todavia, destaca-se a referên-


cia ao trabalho do indiano Sanjay Subrahmanyam,18 referência esta que é
recorrente na maioria dos textos que se dedicam a pensar as novas face-
tas da antiga História Comparada. Seu conceito de connected histories19
é revisitado por inúmeros autores, entre eles, aquele que parece ter-lhe
dado maior publicidade ao tratar da história do “Novo Mundo”, Serge
Gruzinski.20

No texto de Philippe Minard, tanto Sanjay Subrahmanyam como


Serge Gruzinski21 são evocados como precursores franceses da História
Global. Esta, por sua vez, teria nascimento com local e data precisas: há
uma década, nos Estados Unidos. Minard, que como Maurel localiza na
historiografia norte-americana o berço da História Global, ainda enfatiza
que é justamente o questionamento do eurocentrismo (ou, em suas pala-
17 – PRADO, M.L.C. Idem, p. 21.
18 – A trajetória desse indiano é ela mesma “transnacional”. Além de sua passagem pela
EHESS, ele também foi professor da Universidade de Oxford no Reino Unido e da Uni-
versidade da Califórnia-UCLA nos anos 2000, para voltar a Paris com uma cadeira no
prestigioso Collège de France em 2013. A esse respeito, ver XAVIER, Ângela Barreto e
SANTOS, Catarina Madeira. “Entrevista a Sanjay Subrahmanyam”. In Cultura, Vol. 14,
2007, p. 253-268.
19 – SUBRAHMANYAM, Sanjay. “Connected Histories: notes towards a reconfiguration
of early modern Eurasia” in Modern Asian Studies, vol. 31, n. 3, jul. 1997, pp. 735-762.
20 – “L’exhumation de ces ‘connexions’ historiques nous a fait croiser les traces de Sanjay
Subrahmanyam, quand il propose de préférer à une histoire comparée, approximative,
redondante et truffée d’a priori, la recherche et le dégagement de ‘connected histories’. Ce
qui implique à la fois que les histoires soient multiples – pluriel et minuscule n’ont rien
ici d’anodin – et qu’elles soient liées entre elles ou encore qu’elles puissent communiquer
de l’une à l’autre.” in Gruzinski Serge , “Les mondes mêlés de la monarchie catholique et
autres ‘connected histories’.” Annales. Histoire, Sciences Sociales, 2001/1 56e année, p.
85-117.
21 – Este último afirma ser o papel do historiador similar a de um “eletricista”: “San-
jay Subrahmanyam qualifie cette approche d’« histoire connectée », l’historien jouant
en quelque sorte, selon le mot de Serge Gruzinski, le rôle de l’électricien rétablissant
les connexions continentales et intercontinentales que les historiographies nationales ont
escamotées en imperméabilisant leurs frontières.” in MINARD, P. “Globale…», op. cit.,
p. 27.

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vras, “ethnocentrisme occidental”) que fez com que o conceito fosse tão
bem recebido no continente europeu, por exemplo.

Maurel distingue mesmo três gerações do que seria uma World His-
tory que gradativamente passa a se denominar de Global History, manei-
ra de se afastar dos preceitos daquela História Universal então criticada.
Nascida com a rejeição pela guerra e com vocação internacionalista, reu-
niu nomes como Leften Stavros Stavrianos (A Global History of Man, de
1962) ou William McNeill (A World History, de 1967), os quais enfatizam
as influências recíprocas entre as nações, passando pelo sociólogo Imma-
nuel Wallernstein (The Modern World-System, 4 vols., de 1974-2011) e
chegando, finalmente, ao que ela nomeia a terceira geração que inclui,
entre outros, Sanjay Subrahmanyam.

Para além da unanimidade atribuída ao papel de Subrahmanyam


como intelectual central no processo de consolidação do que alguns cha-
mam de história global enquanto outros apenas a nomeiam de histórias
vonectadas, no esteio do conceito por ele forjado, o que temos é que os
trabalhos que assim se autodenominam aumentaram significativamente
tanto na América do Norte como na Europa nos últimos decênios. O nor-
te-americano Patrick Manning, em Navigating World History: historians
create a global past, lista mais de mil títulos com essa orientação teórica,
sendo mais da metade dos anos de 1990 em diante. Tal sucesso pode ser
confirmado pela criação da revista Globality Studies Journal, publicada
desde 2006 pelo Center for Global History de Nova York.22

A despeito de uma vasta produção aqui bem revisada pelos trabalhos


citados, nota-se como os conceitos e procedimentos ainda estão envoltos
em certa imprecisão – talvez por serem resultantes de cruzamentos inter e
transdisciplinares – e que os ronda o que parecem ser as sombras de uma
História Universal. A tais receios dos historiadores, Minard insiste:
L’entreprise ne vise pas à l’élaboration d’une nouvelle forme de syn-
thèse ou de totalisation à partir d’une division du travail historique
qui resterait inchangée, selon les découpages nationaux traditionnels.
22 – MAUREL, C. “Introduction”, op. cit., p. 19.

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Il ne s’agit pas non plus d’une nouvelle forme de comparatisme pla-


nétaire.23

Autores como Prado, Minard e Maurel, mesmo que com algumas


críticas, indicam a saída do comparatismo (ou de seus desdobramentos)
como uma boa forma de privilegiar as intersecções entre as diversas es-
calas de observação possíveis: a local, a regional, a suprarregional, a glo-
bal.24 Ou ainda, como também se refere Subrahmanyam, uma história
“multifocal”, abandonando a ambição de uma generalização histórica.

Nesse sentido, no âmbito mais preciso da história cultural e da lei-


tura, a contribuição de Michel Espagne e seu conceito de “transferências
culturais” seria parte dessa tendência mais ampla de se pensarem novas
maneiras de analisar fenômenos históricos cuja abordagem exclusiva-
mente local (ou nacional) empobreceria os resultados, ou sequer os re-
velaria, uma vez que muitos dos aspectos só podem ser apreendidos com
essa mudança de perspectiva.

Adaptação ou cópia, essas trocas culturais engendram mecanismos


em que as “formes identitaires peuvent se nourrir d’importations”,25
como afirma Michel Espagne no artigo intitulado Transferts culturels et
histoire du livre, em que o autor trata exclusivamente das trocas culturais
no âmbito da história do livro – o que é inspirador para os que trabalham
com história de outro tipo de impresso, o periódico. É o que este autor
chamou de uma espécie de tradução (“une sorte de traduction”), uma vez
que nesse processo de troca há, necessariamente, “un passage d’un code
à un nouveau code”,26 e este não ocorre sem uma necessária internaciona-
23 – MINARD, P. “Globale…”, op. cit., p. 27.
24 – SUBRAHMANYAM, S. apud MINARD, P. “Globale…”, Op. Cit., p. 27.
25 – ESPAGNE, Michel, “Transferts Culturels et Histoire du Livre”. In: Fréderic Bar-
bier (Rédacteur en Chef), Histoire et Civilisation du Livre, Revue Internationale, Gênova,
Librarie Droz, 2009, p. 201 [trad. bras. Valéria Guimarães, “Transferências Culturais e
História do Livro”. In: DEAECTO, Marisa Midori (org.), Livro-Revista do NELE, São
Paulo: Ateliê Editorial, n. 2, 2012].
26 – ESPAGNE, Michel. Les transferts culturels franco-allemands. Paris: PUF, 1999, col.
Perspectives Germaniques, p. 8. A expressão “tradução cultural” também é usada por
Peter Burke, ver BURKE, Peter & PO-CHIA HSIA, R. (orgs.), A tradução cultural nos
primórdios da Europa, São Paulo: Editora Unesp, 2009.

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Da História Comparada à História Global:
imprensa transnacional e o exemplo do Le Messager de São Paulo

lização da vida intelectual. Nesse sentido, talvez não devamos abandonar


a perspectiva de Bourdier que afirma que esse processo não se dá sem
conflitos, ou seja, que tal internacionalização não é espontânea:

La vie intellectuelle est le lieu, comme tous les autres espaces sociaux,
de nationalismes et d’impérialismes, et les intellectuels véhiculent,
presque autant que les autres, des préjugés, des stéréotypes, des idées
reçues, des représentations très sommaires, très élémentaires, qui se
nourrissent des accidents de la vie quotidienne, des incompréhen-
sions, des malentendus, des blessures (celles par exemple que peut
infliger au narcissisme le fait d’être inconnu dans un pays étranger).27

Todavia é possível pensar que esse jogo de poder observado pelo


sociólogo dentro de um quadro nacional dá-se não só pela resistência
mas, de forma geral, em um contexto de recepção que modifica o sentido
de ideias estrangeiras, como afirmam tanto o próprio Bourdieu quanto
Michel Espagne.28 Ambas perspectivas compreendem que “… le texte
importé reçoit une nouvelle marque”.29

Desse modo, o conceito de transferências culturais também nos pa-


rece adequado para superar o comparatismo tradicional o qual, segundo
Olivier Compagnon,30 estava mais concentrado no âmbito da recepção
que da circulação. Para esse autor, entender as trocas culturais situadas
num espaço comum, que ele chama de euro-americano, na perspectiva
das transferências culturais, permite uma abordagem mais complexa (sin-
crônica e diacrônica a um só tempo), desvencilhando-se tanto da ideia de
aculturação e transculturação, como da noção de cópia, de modelo ou de
influência passiva e acrítica.

27 – BOURDIEU, Pierre. “Les conditions sociales de la circulation internationale des


idées”, Conferência pronunciada em 30 out. 1989 na inauguração do Frankreich-Zentrum
da Universidade de Friburgo. Este texto foi publicado em 1990 na Romanistische Zeits-
chrift für Literaturgeschichte/Cahiers d’Histoire des Littératures Romanes, 14o ano, 1-2,
p. 1-10.
28 – ESPAGNE, M. Les transferts culturels franco-allemands, op. cit., p. 203. BOUR-
DIEU, P. Idem, Ibidem.
29 – BOURDIEU, P. Idem, p. 6.
30 – COMPAGNON, Olivier. “L’Euro-Amérique en question”. In: Nuevo Mundo Mundos
Nuevos, Debates, 2009.

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Inicialmente aplicado ao caso franco-alemão, o conceito tem sido


colocado à prova neste “espaço euro-americano”. Olivier Compagnon de-
limita três momentos na historiografia sobre o tema (clássico, aliás) das
relações culturais entre os dois continentes. Seriam eles, de maneira es-
quemática, os paradigmas da influência, do modelo e das transferências.

O paradigma da influência, cujo foco estaria na produção, propon-


do-se a apreender as trocas culturais em termos sincrônicos, sempre em
um sentido que privilegie a hegemonia da metrópole sobre a colônia. No
segundo caso, que ele chama de paradigma do modelo, o foco estaria
na recepção, com as trocas culturais sendo apreendidas em um sentido
diacrônico e supondo que a recepção tem diferentes leituras, diferentes
tempos, e que um mesmo artefato cultural consumido em uma época pode
ter sentido absolutamente diverso em outro momento, ainda que ocorrida
no mesmo local. A recepção é vista na longa duração e as trocas seriam o
resultado de interação e não de imposição sem crítica, como no paradig-
ma da influência. Ainda assim, porém, esse modelo se atém a trocas bi-
laterais e pode ser acusado de eurocentrismo, na medida em que joga luz
sobre um objeto cultural que se projeta da Europa em direção à América.

Finalmente, no paradigma das transferências culturais, de acordo


com o autor, é dada maior ênfase às condições de circulação das ideias
– apenas marginalmente evocadas no paradigma anterior. As “dinâmicas
concretas – humanas, materiais, econômicas e diplomáticas – das trocas
culturais”,31 que restavam esquecidas ou deixadas a um segundo plano,
passam para o foco principal. A ênfase é nas condições de circulação
do produto, sua transformação no contexto da recepção e, sobretudo, na
abordagem que permite pensar em trocas recíprocas e ocorridas em ter-
mos multilaterais, ultrapassando a concepção bilateral – típica das análi-
ses sobre as trocas entre colônia/ex-colônia e metrópoles.

O paradigma das transferências culturais complementa os demais,


sobretudo o paradigma do modelo. Como este último, dá importância à
recepção, mas a ênfase é na circulação do suporte além do compartilha-
31 – COMPAGNON, O. Idem, p. 5.

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Da História Comparada à História Global:
imprensa transnacional e o exemplo do Le Messager de São Paulo

mento de ideias, ultrapassando os conceitos de aculturação ou transcultu-


ração. E, ainda, pode-se acrescentar que ele tende a questionar o conceito
de “zona de contato”32 ou mesmo a história dos “regards sur qualquer
coisa”, uma vez que estes parecem reduzir a história do “outro” ao olhar
europeu.33

Aqui, o comparatismo mais tradicional é ultrapassado, tal qual na


concepção de Subrahmanyam, e são as “imbricações”, no caso de Espag-
ne, e as “conexões”, para o indiano, que dariam a tônica a uma história
que, segundo Ligia Prado,34 demanda uma erudição que se contrapõe à
monografia e aos temas verticais.

Mas se as reflexões de Compagnon sobre as relações euro-ameri-


canas feitas no esteio da teoria de Michel Espagne nos elucidam como
o panorama do comparatismo se desenrolou no caso específico dos vín-
culos coloniais e pós-coloniais, sua ênfase na circulação não dá conta
do fenômeno específico da publicação em língua estrangeira para cujo
entendimento, talvez, apenas as noções de transnacional e de História
Global abram caminhos.

HISTÓRIA GLOBAL E HISTÓRIA DA LEITURA


Segundo Christophe Charle, esse olhar global traz problemas como
a multiplicidade de fontes em línguas diversas, ausência de paradigmas
gerais e a frequência com que nós, historiadores, ainda trabalhamos em
um “cadre local, régional ou national et par l’identification d’acteurs fa-
ciles à situer dans un espace-temps homogène, caractéristiques absentes
de l’histoire globale”.35

32 – PRATT, Mary Louise. Os olhos do Império – relatos de viagem e transculturação.


Bauru: Edusc, 1999.
33 – BERTRAND, Romain. L’histoire à parts égales: récits d’une rencontre Orient-Oc-
cident (XVIe-XVIIe siècles). Paris: Seul, 2011.
34 – PRADO, M.L.C. “Repensando…”, Op. Cit.
35 – CHARLE, Christophe. “Préface”. In MAUREL, C. (org.) Essais…, Op. Cit., 2013,
p. 10.

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Ele julga que, mesmo em ramos já bem avançados nessa abordagem,


como a história do livro e do impresso, o interesse pela História Global
é recente. Esses historiadores são por ele considerados precursores, pois
logo abandonam a “histoire historisante” denunciada por Simiand,36 por
uma abordagem menos monográfica e personalista e mais serial e panorâ-
mica, que resultou nos conhecidos grandes painéis da história do livro de
meados do século passado. As inquietações surgidas em decorrência da
insatisfação com uma história predominantemente serial desembocaram
no interesse crescente “à partir du début du XIXe siècle, aux passages
de frontières, aux marchés internationaux, aux traductions, aux transferts
culturels et politiques”37 intrínsecas ao objeto impresso. Cita, entre ou-
tros, o caso de Jean-Yves Mollier e seus parceiros internacionais para
destacar as dificuldades inerentes a essa abordagem tão ampla, o que re-
quer o estabelecimento de grupos de pesquisa que se lançam ao desafio de
achar tanto vocabulário quanto esquemas comuns. Nesse mesmo texto,
Christophe Charle afirma, ainda, que a História Global também está por
trás de uma renovação do campo da história das migrações:
L’histoire globale peut don revêtir une orientation élitiste analogue à
certaines formes de l’histoire des relations internationales la plus tra-
ditionnelle. Mais elle peut tout aussi bien revisiter une histoire sociale
plus massive comme l’atteste le renouveau de l’histoire des migra-
tions qu’il s’agisse des migrations forcées du travail dont l’esclavage
est le cas extrême ou des migrations intellectuelles là aussi pour rai-
son d’études que l’époque contemporaine a portées à un très haute
niveau, mais dont l’histoire sociale n’a pas encore mesuré pleinement
tous les effets sociaux, culturels, politiques indirects qu’il s’agisse du
XIXe siècle ou di XXe siècle.38

Voltando à história do impresso, mais particularmente à história do


livro, é o próprio Jean-Yves Mollier, no artigo Pour une approche globale
de l’histoire du livre, de l’édition et de la lecture,39 que afirma que, sendo

36 – A exemplo daquela história tradicional do livro que valorizava mais o autor e a obra,
em detrimento do leitor, como bem demonstra R. Darnton.
37 – Idem, p. 11.
38 – Idem, p. 13.
39 – MOLLIER, Jean-Yves. “Pour une approche globale de l’histoire du livre, de l’édition

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Da História Comparada à História Global:
imprensa transnacional e o exemplo do Le Messager de São Paulo

o livro a um só tempo “fermento” e “mercadoria”, demanda necessaria-


mente uma abordagem global. Isso já teria sido percebido pelos pioneiros
Lucien Febvre e seu discípulo Henri-Jean Martin,40 segundo o autor, que
usaram as categorias acima marcando um novo modo de fazer a história
da civilização de Gutemberg. Daí em diante, de acordo com Mollier, a
vocação globalizante da história do livro revelar-se-ia tanto por pesquisas
que se debruçaram em sua lógica mercantil, como pelos estudos da recep-
ção (ou seja, da leitura) – e aqui ele destaca não só Michel de Certeau,41
mas sobretudo Richard Hoggart42 e seu conceito de “leitura oblíqua” –
passando pelas já clássicas análises sobre o circuito da edição, como as
de Robert Darnton.43

Vemos, então, como a publicação da imprensa em língua estrangeira


articula-se à noção de circulação (e, em consequência disto, às de media-
ção e recepção), guardando, contudo, uma especificidade ainda por ser
explorada, em que o conceito de transnacional aplicado na perspectiva
da história global pode ser útil, sobretudo se aliado à história das migra-
ções que, no caso do objeto no qual temos nos debruçado, tem particular
importância.

HISTÓRIA GLOBAL E IMPRENSA IMIGRANTE


Na historiografia brasileira contemporânea, a imprensa periódica
comparece com vigor, seja como fonte que subsidia pesquisas nos mais
variados âmbitos ou assumindo o estatuto de objeto, na senda pioneira
aberta pelo clássico trabalho de Maria Ligia Prado e Maria Helena Ca-
pelato.44 Entretanto, apesar da diversificação das temáticas e perspectivas
et de la lecture” in MAUREL, C. (org.) Essais…, Op. Cit., 2013, p. 93-103.
40 – FEBVRE, Lucien; MARTIN, Henri-Jean. O aparecimento do livro. SP: Ed. UNESP,
1992.
41 – CERTEAU, Michel de. Invenção do Cotidiano – artes de fazer. Petrópolis: Editora
Vozes, 2001.
42 – HOGGART, Richard. Utilizações da cultura: aspectos da vida da classe trabalhadora,
com especiais referências a publicações e divertimentos. Lisboa: Editora Presença, 1973.
43 – DARNTON, Robert. O beijo de Lamourette: mídia, cultura e revolução. São Paulo:
Companhia das Letras, 1995.
44 – Como observou Tania Regina de Luca : CAPELATO, M. H. R. ; PRADO, M. L. C.
O Bravo Matutino. Imprensa e Ideologia: O Jornal O Estado de S. Paulo. São Paulo:

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metodológicas, pode-se afirmar que a imprensa periódica em língua es-


trangeira tem recebido pouca atenção dos especialistas, sendo mencio-
nada de forma genérica, como no clássico trabalho de Nelson Werneck
Sodré,45 ou como suporte de trabalhos consagrados à imigração ou ao
movimento operário.

Dito de outra forma, em diversos trabalhos, a ênfase é dada às suas


especificidades em relação à produção local ou a seu papel relativo às
comunidades de imigrantes nas quais os impressos representam órgãos
comunitários. Ou vem apresentada em decorrência de uma história dos
impressos que enfatizam a história (e circulação) dos livros, sem atinar
para especificidade do que Fréderic Barbier chamou de mise en journal.46
Esse objeto praticamente não recebe, tout court, tratamento com vistas às
trocas culturais, menos ainda sob uma ótica transnacional.

Assim, são obras sobre os imigrantes que, de fato, mais sistemati-


zaram informações sobre a imprensa estrangeira no Brasil, a exemplo
do livro Do outro lado do Atlântico: Um século de imigração italiana
no Brasil,47 do italiano Angelo Trento, que traz o apêndice “A imprensa
em língua italiana no Brasil – 1765-1960”,48 com uma longa e importante
lista de jornais. Esse mesmo autor publicou recentemente o livro Impren-
sa italiana no Brasil: séculos XIX e XX,49 com estudo mais específico

Alfa-Omega, 1980; CAPELATO, M. H. R. ; MOTA, C. G. . História da Folha de S. Pau-


lo - 1921-1981. São Paulo: IMPRES, 1981; CAPELATO, M. H. R. . Imprensa e História
do Brasil. São Paulo: Contexto (Coleção Repensando a História), 1988; CAPELATO, M.
H. R. Os Arautos do Liberalismo. Imprensa Paulista. 1920-1945. São Paulo: Brasiliense,
1989.
45 – SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad,
1999 (4a edição com capítulo inédito).
46 – Este desafio foi lançado por Fréderic Barbier no I Rencontre Transfopress, ocorrido
em novembro de 2013, na BnF, em Paris.
47 – TRENTO, Angelo. Do outro lado do Atlântico – um século da imigração italiana no
Brasil. São Paulo: Nobel: Istituto Italiano di Cultura di San Paolo: Instituto Cultural Ítalo-
-Brasileiro, 1988.
48 – São Paulo: Ed. Nobel, 1989, p. 489.
49 – TRENTO, Angelo. Imprensa italiana no Brasil: séculos XIX e XX. São Carlos: UFS-
CAR, 2013.

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Da História Comparada à História Global:
imprensa transnacional e o exemplo do Le Messager de São Paulo

e completo sobre o tema e com apêndice ainda maior sobre a imprensa


brasileira publicada nesse idioma.

Obedecendo à mesma orientação, a obra A imprensa imigrante:


trajetória da imprensa das comunidades imigrantes em São Paulo, or-
ganizada por Marcelo Cintra Souza,50 reúne vários artigos que trazem
informações sobre a imprensa local publicada em idiomas tais como o
italiano, alemão, japonês, espanhol, árabe, ídiche, húngaro, lituano, tche-
co, coreano e mesmo o português.

Sobre pesquisas relativas à imigração do meio urbano no Brasil, é


Boris Fausto quem sublinha como os imigrantes eram muito vinculados
à atividade empresarial, no qual, como sabemos, inclui-se o empreendi-
mento editorial. Ele identifica, para o caso de São Paulo, que muitos dos
profissionais liberais eram sustentados pela própria colônia, por exemplo.
Trabalhos como de Marcelo Cintra Souza deixam claro que esse meca-
nismo se repete no meio editorial, com jornais servindo de expressão de
grupos imigrantes e sendo por eles apoiados. Em relação a publicações
periódicas, como jornais e revistas, esse fenômeno é mais claramente ob-
servado no início de sua atividade. Em geral, os títulos que resistiram ao
tempo, gradativamente passam a integrar um público-alvo mais amplo,
o que fica expresso nas publicações bilíngues (por vezes, poliglóticas).

Ora, essa condição incontornável obriga que o pesquisador sobre a


imprensa em língua estrangeira leve em conta o estudo das comunidades
a ela ligadas, como o fez Souza. Mas isso não quer dizer que esses arte-
fatos culturais devam ser vistos exclusivamente sobre essa ótica, negli-
genciando o que consideramos ser uma necessária análise das interações
destes com a sociedade, sob esse ponto de vista global ou, para sermos
mais precisos, transnacional.

Nesse processo de trocas culturais, é mister levar em conta a adver-


tência de Boris Fausto em sua revisão historiográfica, que cedo alerta
50 – SOUZA, Marcelo Cintra. A imprensa imigrante: trajetória da imprensa das comuni-
dades imigrantes em São Paulo. São Paulo: Memorial do Imigrante/ Imprensa Oficial do
Estado de São Paulo, 2010.

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para o equívoco do enfoque desses grupos étnicos como “imigrantes e


seus descendentes”, em que são definidos “por características culturais
inapelavelmente destinadas ao desaparecimento ou à transformação no
decorrer do contato com a sociedade mais ampla”.51 Ele prefere utilizar a
noção de “pluralismo cultural”:
A noção de pluralismo cultural tem ainda a vantagem de não estabe-
lecer uma constelação onde se localiza uma grande estrela – a socie-
dade nacional – para a qual todas as outras se dirigem, em ritmo mais
ou menos acelerado. As relações são vistas de modo mais complexo
e não são simplesmente redutíveis à polaridade nacional/estrangeiro.
Abre-se com mais facilidade o caminho para se apreender o inter-rela-
cionamento entre as diferentes etnias, assim como as especificidades
internas de cada etnia.

Com essa orientação teórica em mente, podemos problematizar o sen-


tido das instituições como escolas, associações de vários tipos, jor-
nais, agrupamentos religiosos. A participação política poderá ser vista,
conforme o caso, ao mesmo tempo como índice de integração e de
representação de um determinado grupo étnico.52

Pode-se afirmar, a partir do roteiro fornecido pelo autor sobre pos-


sibilidades de se explorar a história da imigração no Brasil, que o estudo
dessa imprensa imigrante articula-se com o estudo da língua (seja a nor-
ma culta ensinada nas “escolas de colônia” ou dos dialetos e suas mesti-
çagens, como o “macarrônico”, para citar apenas um exemplo), da análise
dos diferentes modos de leitura e recepção, bem como da investigação
sobre o papel exercido pelas associações de recreação e de socorro mútuo
na constituição e/ou difusão dessa imprensa.

A outra maneira de abordar essa imprensa “imigrante” seria, como


se afirmou anteriormente, a busca de pistas sobre movimentos políticos,
o que obriga a compulsá-la como fonte e veículo de difusão ideológica de
certos grupos, incluindo os estratos estrangeiros. Nessas obras, é possível
51 – Aqui ele se baseia em trabalho sobre imprensa alemã de Giralda Seyferth. Ver:
FAUSTO, Boris. Historiografia da imigração para São Paulo. São Paulo: Ed. Sumaré,
FAPESP, 1991, p. 36.
52 – Idem, p. 38-39.

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Da História Comparada à História Global:
imprensa transnacional e o exemplo do Le Messager de São Paulo

achar referências sobre a imprensa alógena publicada no Brasil, porém


nada que se aprofunde na perspectiva por nós defendida neste artigo.53

Apesar dessa relativa indigência na análise mais profunda deste cor-


pus, alguns trabalhos devem obter destaque nesse quadro, uma vez que
trazem, ainda que de maneira não sistemática, referências a esse tipo de
imprensa periódica sob uma perspectiva mais específica; caso de Letícia
Gregório Canela, que estudou o Courrier du Brésil, jornal francês publi-
cado no século XIX no Rio de Janeiro. Nesse artigo ela enfatiza, porém,
mais o conflito de “classes e identidade de classe” entre diferentes grupos
franceses que propriamente a publicação em língua estrangeira e suas
interações com os nacionais. Ao fim desse capítulo, todavia, ela dá im-
portante contribuição com a publicação da tabela “Jornais publicados em
língua francesa no Rio de Janeiro no século XIX”54.

Confirma-se ademais, na historiografia brasileira, a constatação de


Diana Cooper-Richet de que as histórias do impresso, tais como têm
sido escritas, apresentam um enfoque nacional. No artigo Aux marges
de l’histoire de la presse Nationale: les périodiques en langue étrangère
publiés en France (XIXe-XXe siècles)55 ela se pergunta por que razões:

(...) num país como a França que, desde a Revolução Francesa se tem
por terra de acolhida e que, ademais, exerce há mais de dois séculos,
sobre os povos do mundo todo, e mais especificamente sobre suas eli-
tes intelectuais, culturais e até políticas em exílio, fascínio raramente
igualado alhures, apenas as publicações em francês têm chamado a
atenção dos especialistas, tanto do livro como da imprensa.56

53 – HARDMAN, Francisco Foot. “Imprensa operária, espaço público e resistência”. In


Nem pátria, nem patrão! Memória operária, cultura e literatura no Brasil. São Paulo: Ed.
UNESP, 2002 (3a edição revista e ampliada).
54 – O Courrier du Brésil e o conflito entre associações francesas no Rio de Janeiro”.
In: VIDAL, Laurent & LUCA, Tania (orgs.). Franceses no Brasil – séculos XIX-XX. São
Paulo: Editora UNESP (ano da França no Brasil), 2009, p. 289-318.
55 – Op. Cit., Revue Le Temps des médias. Revue d’histoire, n. 16, Printemps 2011, p.
175-187.
56 – “Para um estudo transnacional dos impressos em língua estrangeira”. In Revista Li-
vro, NELE, SP: Ed. Ateliê Editorial, v. 2, 2012, p. 36.

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Valéria Guimarães

Seria esse o mesmo caso de jovens nações, formadas, em grande


parte, a partir do aporte de migrantes, que chegavam com suas línguas e
culturas, tais como os Estados Unidos, o Canadá, a Austrália e, certamen-
te, o Brasil. A autora fornece exemplos emblemáticos sobre a produção
bibliográfica de uma história da imprensa cuja abordagem é quase exclu-
sivamente nacional, com raras exceções.57

Como se quis evidenciar, constitui, pois, um desafio lançar outro


olhar sobre essas fontes dando ênfase à sua especificidade enquanto pu-
blicação estrangeira e a seu papel na constituição da imprensa nacional,
por meio da inspiração em modelos, de trocas exercidas em termos ideo-
lógicos, tecnológicos e do savoir-faire, ou ainda da tentativa de inserção
destes no mercado editorial local a fim de alcançar um público mais varia-
do que seu público original, que é formado em geral pelas comunidades
imigrantes das quais provêm. E, sobretudo, na busca de sua especificida-
de tanto como imprensa periódica como um nicho editorial que, em certa
medida, é distinto daquele das publicações em língua estrangeira que aqui
apenas circulam.

Assim, muitas perguntas restam em aberto. Não se conta, ainda, com


produção historiográfica local que se debruce sobre o tema de manei-
ra sistemática sob a perspectiva das trocas culturais, ao menos no que
diz respeito aos periódicos.58 Além da especificidade característica da
57 – Um deles é a coleção organizada pelos historiadores franceses Roger Chartier e Hen-
ri-Jean Martin, cujo título é sintomaticamente Histoire de l’édition française (1983-1986)
e não “Histoire de l’édition en France”. Outro exemplo é o livro Histoire générale de la
presse française, coordenado por Claude Bellanger, Jacques Godechot, Pierre Guiral e
Fernand Terrou, no qual os autores só consideram o que é francês ou em francês. E acres-
centa a essa lista o nome de Christophe Charles cuja obra Siècle du Journal (1830-1939)
também exclui a imprensa estrangeira apesar de este ser “um historiador todavia aberto às
culturas extraterritoriais”. O mesmo panorama, segundo ela, pode ser observado em ou-
tros países, havendo raras exceções, como o título norte-americano A History of the book
in America (1999-2010) e não “History of the American Book”, do qual “o último volume
– The Enduring book. Print culture in post war America – chega ao ponto de considerar
que a nação norte-americana é, daí em diante, bilíngue, apropriando-se assim, de certo
modo, da publicação de livros em espanhol”. Idem, p. 36-37.
58 – No âmbito da História do Livro e da Leitura, alguns estudos comparativos têm sido
feitos. Um exemplo é o grupo que se reúne em torno do Projeto Temático FAPESP, A
circulação transatlântica dos impressos – a globalização da cultura no século XIX coor-

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Da História Comparada à História Global:
imprensa transnacional e o exemplo do Le Messager de São Paulo

imprensa publicada em língua estrangeira em relação àquela que apenas


circula em território nacional e que é publicada em outros países, o que
impõe um desafio teórico, já explicado anteriormente, temos alguns ou-
tros obstáculos a transpor.

No que diz respeito às fontes primárias, problemas como a preca-


riedade da conservação das fontes nos nossos acervos infelizmente se
interpõem à pesquisa. Muitos periódicos, antes presentes em Arquivos ou
Bibliotecas Públicas e que poderiam integrar a pesquisa, foram extravia-
dos, o que pode ser notado facilmente pela comparação entre catálogos
atuais e antigos.

Entre os materiais importantes para a investigação – mas que tam-


bém são de difícil localização – estão os catálogos de livrarias que, con-
siderados materiais efêmeros, não eram conservados e que, muito pro-
vavelmente, continham referências sobre a imprensa estrangeira que se
publicava no Brasil.

Há ainda a dificuldade apontada de forma muito pertinente por


Christophe Charle da variação, em cada país, na classificação das fontes.
Même les sources apparemment les plus internationales ou produites
par des bureaucraties globales reposent en dernière analyse sur des
collectes d’informations filtrées ou retraduites à partir de collectes
locales, régionales ou nationales.59

O que causa, necessariamente, lacunas e inconsistências nas tentati-


vas de recuperação e classificação transnacional do corpus e no retorno
a problemas clássicos da historiografia, tais como as críticas interna e
externa das fontes, a possibilidade ou não de comparação de fontes desi-
guais etc.

denado por Márcia Abreu e Jean-Yves Mollier, mais focado na produção livreira, mas
contemplando alguns estudos de caso sobre periódicos e minha atual pesquisa (Projeto
Jovem Pesquisador FAPESP - As transferências culturais na imprensa na passagem do
século XIX ao XX – Brasil e França). Ambos os projetos estão mais focados na questão
da circulação que propriamente na imprensa em língua estrangeira publicada no Brasil.
59 – CHARLE, Christophe. “Préface”. In MAUREL, C. (org.) Essais…, Op. Cit., 2013,
p. 13.

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Valéria Guimarães

Por último, mas não menos importante, a um trabalho como este


se interpõe a barreira linguística: longos nichos da imprensa estrangeira
restam inexplorados pela falta de pessoal que leia em variados idiomas,
do árabe ao armênio, do holandês ao japonês etc.

Porém, independentemente de tais percalços, é possível superar tais


empecilhos, e pesquisadores já começaram a se debruçar sobre esse cor-
pus, como é o caso do grupo reunido em torno da rede Transfopress, no
Brasil e no exterior. Nosso esforço se faz, assim, no sentido de evidenciar
a originalidade de tal abordagem: lançar um olhar geral sobre a impren-
sa estrangeira no Brasil, enfatizando tanto o estudo quantitativo quanto
o qualitativo, e congregar pesquisadores independentes interessados em
discutir as questões práticas e teóricas pertinentes a esses desafios.

O EXEMPLO DO LE MESSAGER DE ST. PAUL


O Le Messager de St. Paul foi um jornal francês publicado em São
Paulo a partir de 6 de julho de 1901. Tivemos acesso a edições esparsas
até 1924, mas não sabemos quando o periódico encerrou as atividades.
Não parece ter relação com outros Messager que circularam ou foram
publicados no Brasil e em vários outros países. Era um nome comum,
recorrente, e guarda a conotação daquele que leva a cultura francesa para
além das fronteiras hexagonais. Sendo os jornais mediadores, o caso dos
messagers (mensageiros) eram emblemáticos desse papel que os periódi-
cos deveriam ter. O título completo da edição de 26 de outubro de 1901
era Le Messager de St. Paul – feuille hebdomadaire – propriété d’une
association. A associação aqui referida era a Alliance Française, uma das
várias existentes na colônia judaica de São Paulo.60

60 – “Os franceses, e entre eles os franceses israelitas, formaram um círculo fechado, pos-
suindo as suas próprias associações e sociedades. O Cercle Français, a Société Française
de Bienfaisance, o Comité 14 Juillet, a Câmara do Comércio Francesa, a Alliance Fran-
çaise são exemplos para estas associações segregadas.” In WOLF, Egon e Frieda. Judeus
nos primórdios do Brasil República: visto especialmente pela documentação do Rio de
Janeiro. Rio de Janeiro: Biblioteca Israelita H. N. Bialik, Centro de Documentação, 1979,
p. 194-195. Pelo que se decorre da leitura dos demais exemplares do Le Messager de St.
Paul, essa é a instituição que sedia até hoje a escola de francês.

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Era um título bem conhecido e foi documentado pelo bibliógrafo


Manuel Viotti em seu “Censo – A Imprensa Paulista em 1904”, publicado
no Almanaque Brasileiro Garnier de 1905. Esse jornal também cons-
tava em propagandas no mesmo Almanaque em 1909 e 1911, por meio
das quais é possível saber que o editor (directeur-propriétaire) do jornal
Le Messager de S. Paul – organe défenseur des Intérêts Français dans
l’Amérique du Sud, é E. Hollender, o qual “pertencia à Alliance Française
desde 1890, participando do comitê ainda em 1892”.61 Em 1915, Affon-
so A. de Freitas menciona o jornal no seu célebre levantamento sobre a
imprensa paulista,62 para o qual contou com informações do próprio edi-
tor, Eugène Hollender, também sócio do Instituto Histórico Geográfico
de São Paulo. Ele era um francês de origem judaica radicado no Brasil,
formado em engenharia civil e que trabalhava como intérprete e tradutor
juramentado no foro de São Paulo, tendo sido também subdelegado de
polícia e despachante no início da década de 1890.63 Homem de múltiplas
facetas, foi um jornalista atuante da Primeira República ao qual não se
deu importância. Em fins do século XIX, ele foi correspondente em São
Paulo do jornal francês publicado no Rio de Janeiro Brésil Républicain.
Depois de uma breve viagem à Europa, em 1894 abriu a firma E. Hol-
lender & C., na rua Benjamin Constant, 22, em São Paulo, especializada
em “artigos de música, antiguidades, pinturas etc.”.64 Em junho do mes-
mo ano, porém, continua a colaboração com o jornal Brésil Républicain,
onde mantinha a coluna “Momentos Musicais”.

61 – Natural de Dunquerque, seu nome completo era Eugène Jules Jacques Hollender de
Jonge. Sobre sua origem judaica, ver : WOLF, Egon e Frieda. Op. Cit., p. 195.
62 – FREITAS, Affonso. A. de. A imprensa periódica de São Paulo desde os seus primór-
dios em 1823 até 1914, São Paulo: Diário Oficial, 1915.
63 – Sendo “tradutor da Alfândega de S. Paulo, da Associação Comercial e tradutor oficial
dos Consulados da França, Rússia, Itália, Inglaterra, Suécia e Noruega”, como informa o
Almanak Laemmert de 1901, no qual aparece uma referência a ele na rubrica “Intérpretes
do Comércio – Eugênio Hollender, r. Direita, 18. José Riscallah, r. Mardechal Deodoro,
2; Khalil Kury, r. 15 de Novembro, 31”. Ver: Almanak Laemmert do Rio de Janeiro para
1901 [Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro]- obra de
estatística e consulta fundada no ano de 1844, por Eduardo Von Laemmert reformada e
organizada por Arthur Sauer (diretor da Companhia Tipográfica do Brasil), 58o Ano, jun.
1901, p. 1446. Ver também: Decreto 3.544, de 30 de Dezembro de 1899.
64 – WOLF, Op. cit, p. 208.

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Em 1895, trabalhou no jornal carioca Echo du Brésil e, de acordo


com algumas referências, começa a editar o então Le Messager de Saint
Paul (com título em francês) ainda em 1896.65 Porém, essa informação
parece estar equivocada, e a data dada como inaugural desse jornal é ju-
lho de 1901, às vésperas das efemérides do 14 de julho, dia este que sem-
pre era comemorado com uma edição especial.

Esse jornal, que começa despretensioso, torna-se bastante atuante no


panorama da imprensa paulistana e, podemos dizer, brasileira, a despeito
das dificuldades enfrentadas e sempre aludidas pelo editor. Apesar da afir-
mação em seu primeiro editorial66 de que o jornal não serviria de tribuna
para assuntos de política local, advertência recorrente nos artigos de fun-
do da imprensa estrangeira em geral, suas colunas vez por outra debatiam
temas polêmicos. De qualquer forma, o Le Messager de St. Paul mante-
ve-se comedido nesse quesito, sobretudo se comparado a outros jornais
franceses anteriormente publicados no Brasil, como o Sud Américain.67
A despeito da discrição política, o Brasil era tratado com seriedade e os
textos demonstravam que havia uma interação bem consolidada desses
homens na sociedade brasileira, não sendo eles reduzidos a simples es-
trangeiros, mas homens de fronteiras, pertencentes às duas culturas, caso
que E. Hollender ilustra perfeitamente.

Infelizmente, não temos dados de tiragens. Era um hebdomadário,


que saía aos sábados, inicialmente em formato tabloide, com quatro pági-
nas (uma de anúncio), passando ao grande formato em 1906, ainda com
quatro páginas, sendo duas delas de anúncio.68 O exemplar avulso saía

65 – WOLF, idem, ibidem.


66 – Seu programa dizia: “Le Messager de Saint Paul se présente au public modestement
sans politique, sans parti religieux. Son but est commercial, rien de plus” e que “Il défen-
dra les intérêts de tous ceux qui ont la langue française pour idiome national et il cherchera
à développer les relations étrangères et celles du Brésil”. Não conseguimos ler esta edição.
FREITAS, A. A. Op. Cit., p. 557.
67 – Sobre este título, ver BATALHA, Claudio H. M. “Um socialista francês diante da
escravidão no Brasil: Louis-Xavier de Ricard e o jornal Le Sud Américain” In: VIDAL &
LUCA, Op. Cit., p. 161-173.
68 – Em fins do século XIX, o diário Correio Paulistano cobrava 24$000 réis pela assina-
tura anual.

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inicialmente a 200 réis, o dobro das folhas comerciais brasileiras que cir-
culavam, o que é compreensível, visto sua carta pequena de anúncios,
mas o tornava caro para um leitor ordinário.

Escrito em francês, visava certamente o público francófono, embora


anúncios do comércio brasileiro fossem numerosos – e em sua maioria
escritos em francês, ao contrário do Le Messager du Brésil (Rio de Ja-
neiro) – o que demonstra que queria atingir o público brasileiro também.
De qualquer forma, a leitura das últimas páginas dedicadas aos anúncios
dava a impressão de que São Paulo era uma cidade francesa, com Mai-
sons de modes, Magasins de chaussures, Cabinets-dentaires e mais espe-
cificamente a Pharmacie Italienne, a Boulangerie Centrale, o Restaurant
du Petit Paris ou a Bière Antarctique « l’unique bière buvable au Brésil »
(MSP, 26/10/1901).

No canto esquerdo do jornal vinha a inscrição “Seul journal écrit


en français en l’État de Saint Paul”. De fato, apesar de outros jornais
em francês terem aparecido em São Paulo nos anos anteriores, como o
L’Éclaireur, o Le Messager paulistano foi a única folha nesse idioma a ser
publicada nesse ano de 1901. O lema é excluído posteriormente, quando
aparecem outros títulos, e passa a ser substituído por Organe Républicain
des intérêts Français dans l’Amérique du Sud et des intérêts Brésiliens à
l’Étranger, como vemos na edição de 1906.69 De órgão francês, ele passa
para um órgão também representante dos brasileiros.

Le Messager de St. Paul foi um jornal longevo para os padrões de


então. Encontramos exemplares até o ano de 1924 e várias referências a
ele e seu editor, seja em propagandas e anúncios, seja em documentos
oficiais ou de recenseamento, o que dá a medida de sua importância den-
tro do panorama da imprensa publicada em língua estrangeira no Brasil.
Fica claro que o papel de Eugène Hollender aqui não era a pura intenção
financeira e comercial. Ele era um verdadeiro passeur culturel ao repre-
sentar a colônia francesa no Brasil e os brasileiros na França, era membro

69 – Como não tivemos acesso às edições entre 1902 e 1906, não sabemos precisamente
quando se deu a mudança.

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da Alliance Française e colaborou com jornais franceses em São Paulo e


no Rio de Janeiro, incluindo o Étoile du Sud, entre outros.

O jornal também era centro de uma rede de colaboradores, como


seu administrador, Júlio de Andrade, ou seu representante no Rio de Ja-
neiro, A. F. Reynaud, além de correspondentes em Paris, como Amédée
Marandet e Ferdinand Duval. Essa folha, como instituição, também era
uma importante mediadora a colocar em circulação títulos europeus no
Brasil. Em sua primeira edição, apresenta um aviso na primeira coluna da
primeira página, antes mesmo do editorial, em que comunica: “Le ‘Mes-
sager de Saint Paul’ se charge de tous les abonnements aux journaux eu-
ropéens” (MSP, 26/10/1901, p. 1). E os títulos estavam à venda no próprio
escritório, o qual, sem as mesmas características de uma livraria, cumpria
papel semelhante. Os jornais em francês tinham destaque nessas importa-
ções, pois são frequentemente indicados para leitura, reforçando o papel
de “mensageiro” da cultura francesa que tinha o jornal. Além de jornais
importados, a própria imprensa franco-brasileira é indicada aos leitores,
além de celebrada como resultado de uma luta por mantê-la ativa, como
fica claro na seguinte nota:

Étoile du Sud. – Nous avons reçu le dernier numéro de cet excellent


journal de Rio, si bien dirigé par notre ami Ch. Morel, lutteur éternel
et invincible dans l’arène de la presse franco brésilienne. Nous le sa-
luons (MSP, 26/10/1901, p. 2).

Este pequeno texto demonstra, novamente, a existência de uma rede


entre esses homens de letras estrangeiros que se encontravam no Brasil e
sua visão de missão em difundir não só os interesses franceses, como sua
cultura, sendo o impresso periódico uma de suas principais armas. Assim,
é também anunciada a recepção de títulos franceses publicados em todo
o Brasil, como a revista Spirite (de Porto Alegre, nº 39) ou em outros
países, como o jornal franco-grego Le Progrès, de Atenas (nºs 18, 20, 21),
além de jornais de línguas diversas, como o ítalo-brasileiro O Tagarela,
entre outros jornais e revistas em português.

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A edição de dezembro de 1901 traz a indicação de quem são os lei-


tores do Le Messager de St. Paul, quando emite a eles uma mensagem de
agradecimento:

À nos Lecteurs

Le «Messager de Saint Paul» ne veut pas laisser commencer 1’année


nouvelle sans remercier ses lecteurs français, belges, suisses et bré-
siliens de l’appui sérieux qu’ils ont bien voulu lui prêter depuis sou
origine jusqu’à maintenant, en la tache ardue de maintenir un journal
écrit en français (MSP, 28/12/1901).

O texto, que continua dizendo que haverá melhoramentos sem que


a proposta inicial seja abandonada, retoma a questão da dificuldade em
manter um jornal escrito em língua estrangeira e traz a indicação de que o
periódico não tinha apenas a colônia francesa como público-alvo, mas aos
francófonos (belgas e suíços) e também brasileiros, como supúnhamos.

Dentre as poucas edições preservadas, temos a da data comemorati-


va de 14 de julho de 1902, que saiu excepcionalmente na segunda-feira
(o jornal saía aos sábados). Esse procedimento de apresentar uma edição
especial nas datas de 14 de julho era regular, como foi dito, e estava ali-
nhado ao papel de animador da cultura francesa. O local das comemo-
rações era o teatro Polytheama de São Paulo, e é interessante notar que
Hollender considerava a data de tal maneira importante para a história
mundial que se poupa de explicá-la ao leitor:
Nous n’aurons pas recours aux vieux clichés pour faire un article
ayant trait à cette date mémorable. Qui dit: 14 Juillet, dit tout et s’il y
a encore dans ce bas monde des gens qui en ignorent la signification
tant pis pour eux. Certaines choses s’apprennent toutes seules: le «14
Juillet» sont de celles-là. Nous félicitons à l’occasion de cette fête de
la colonie française de St. Paul et également la nation brésilienne car
elle aussi célèbre avec pompe cette date si historique. Vive la France!
Vive le Brésil! E. Hollender (MSP, 14/7/1902)

Os assuntos brasileiros, por sua vez, eram tratados com destaque, e


iam da política de valorização do café à devastação das florestas, passan-

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do pela falta d’água no Nordeste, sempre ao lado das questões francesas,


como a conferência de Algeciras (Espanha) para resolver a questão mar-
roquina (França x Alemanha) (MSP, 27/1/1906, pp. 1, 2). Na edição de
1906, o jornal aparece com o nome abrasileirado Le Messager de São
Paulo,70 talvez um sintoma dessa expansão em direção a um público mais
vasto, o que também se deduz a partir da ampliação dos pontos de venda,
anunciado em aviso de primeira página dos novos estabelecimentos em
que estaria disponível:

Vente au numéro à São Paulo


Charutaria Guimarães – Castellões, Largo do Rosário.
Charutaria Romeo, Largo do Rosário 3.
Charutaria do Café Internacional – Rua 15 de Novembro17.
À Rio
Casa Garnier — Rua d’Ouvidor, 71
Cana A F. Reynaud — 105 Ourives
Victor & Cie., 103 Rua dos Ourives
(MSP, 27/1/1906, p. 1)

Alguns dos nomes citados, como a Casa Garnier e a Casa Victor,


denotam que havia uma relação entre eles, ou seja, que eram componen-
tes de uma mesma rede de mediação envolvidos na difusão dos jornais
franceses no Brasil.

Ao que nos parece, a redação do Le Messager paulistano era um pon-


to irradiador da cultura francesa em São Paulo, como o foi a Casa Garraux
ou Garnier. Hollender anuncia seu trabalho como tradutor juramentado
“en toutes langues”, das 8 às 17 horas, no mesmo endereço da redação
do Le Messager de St. Paul, o que faz crer que ele exercia as funções de
editor, jornalista e tradutor ao mesmo tempo e tinha a redação como sede.
Logo abaixo, sua filha, a Mlle. Marienne Hollender, oferece seus traba-
lhos de datilógrafa em todas as línguas. Então, além de um escritório do
jornal, era um local de prestação de serviços (de tradução a impressão,
de trabalhos datilográficos a venda de periódicos), o que comprova que

70 – Não tivemos acesso às edições entre 1902 e 1906 para precisar quando se deu a mu-
dança, como já observamos.

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era local de encontro francófono em São Paulo. No ano de 1924, essa


vocação mostra-se de maneira mais clara em anúncio em que Hollender
oferece todo tipo de trabalho: da legalização dos estrangeiros à tradução,
do registro na Biblioteca Nacional de livros e partituras à obtenção de
certificados públicos de toda natureza, com “Célérité et discrétion” (MSP,
14/6/1924).

Nessa edição, um longo editorial mostra a preocupação com a dimi-


nuição da “influência” francesa no novo continente e prega a abertura de
escolas francesas no Rio de Janeiro e em São Paulo, tal qual os alemães
fazem no sul do país – sempre com uma reserva recorrente contra os ale-
mães, aos quais Hollender nutre franca antipatia. Ao que parece, esta rixa
se dava por uma disputa pelo mercado brasileiro entre os comerciantes
dos dois países: os comerciantes franceses com supostas boas mercado-
rias, mas mais caras; e os alemães concorrendo com eles, com merca-
dorias de menor valor, mas de qualidade duvidosa, conforme Hollender
(MSP, 26/10/1901).

O que Hollender veio fazer no Brasil não está claro ainda, mas é
fato que estava engajado na difusão da cultura francesa, cuja sociedade,
segundo ele, era bem receptiva à presença francesa, o que ele não deixa
de sublinhar:

Un petit effort ici et en France rétablira notre prestige compromis au


Brésil en nous faisant connaitre davantage et ainsi apprécier. Plus
qu’à n’importe quel peuple, la partie nous est facile, car nous avons
beaucoup d’atouts en main. Le brésilien est admirateur de notre lan-
gue, il apprécie notre littérature, il étudie dans nos livres classiques
ainsi que dans nos livres scientifiques, il est pour ainsi dire uni à notre
langue dès le berceau jusqu’à la tombe (MSP, 27/1/1906, p. 2).

No mesmo número, o Le Messager de São Paulo faz publicar uma


carta assinada por Le Président Pauliat Sénateur nomeando Hollender
para formar um comitê de brasileiros importantes para irem a Paris a fim
de estreitar os laços entre os dois países. Um pouco adiante, é possível
ver uma nota com nomes de pessoas que visitaram a redação, entre elas

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um engenheiro belga da Faculdade de Agronomia de Piracicaba, dando a


entender que o bureau da Senador Feijó era, de fato, um ponto de con-
vergência da intelectualidade.

Hollender era também editor de livros. Em 1920, faz propaganda da


obra Flore Médicale Brésilienne, de Dr. Monteiro da Silva, um médico
do Rio de Janeiro pioneiro em fitoterapia, que teve esse seu livro edi-
tado pela editora do Le Messager, totalmente escrito em francês (MSP,
14/07/1920),71 o que é curioso, e mostra como esse idioma estava pre-
sente no cotidiano do brasileiro alfabetizado e como os franceses se inte-
ressavam pelas coisas do Brasil, mostrando uma troca ativa entre os dois
países que não tinha uma única direção.

Isso se comprova nessa mesma edição, quando aparece um comuni-


cado de que Adrien Delpech deu uma conferência na Biblioteca Nacional
do Rio de Janeiro, em nome da Alliance Française, sobre “les phases de
l’influence intellectuelle et Sociale de la France au Brésil (Des origines à
l’indépendance)”. Segundo o jornal, a palestra atraiu multidões, prome-
tendo a realização da segunda parte, “de l’indépendance à nous jours”
(MSP, 14/7/1920).

Os assuntos tratados não eram meramente de interesse econômico,


político ou diplomático. As artes ocupavam um espaço considerável na
pauta de Hollender e o jornal mostrou-se aberto a temas polêmicos. Um
exemplo é o debate ocorrido na edição de 1923 sobre o livro lançado
em 1922 na França, La Garçonne, de Victor Marguerite, e que causou
escândalo no contexto do pós-guerra. História de uma moça traída pelo
noivo que resolveu levar uma vida livre, relacionando-se com homens e
mulheres, teve retumbante sucesso, com altas tiragens e adaptações para
cinema. Sua fama não tardou a chegar ao Brasil. O então Le Messager de
São Paulo faz uma reprise da crítica ao livro feita para um jornal carioca
(22/2/1923), por A. Delpech, que expõe uma verdadeira defesa à liber-

71 História da Fitoterapia no Brasil, disponível em http://www.recantodasletras.com.br/


artigos/2211061.

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dade artística e uma homenagem aos romances transgressores, citando o


exemplo da incompreensão de Flaubert e seu Madame Bovary.

Le vrai juge des livres, ce n’est ni le tribunal correctionnel ni le Con-


seil de 1’Ordre de La Légion d’honneur: c’est le temps. Morale, im-
morale ou amorale, une œuvre d’art vit par ce qu’elle contient de
beauté (MSP, 10/3/1923).

É bom lembrar que o nome do livro passou a ditar um estilo de mu-


lher moderna, com cabelos curtos cortados à la garçonne, ou seja, com
aparência de garoto, e as saias acima dos joelhos. Monique, a protago-
nista, foi o modelo pronto e acabado de nossas melindrosas, das flappers
inglesas, ou seja, de um estilo transgressor de feminino que chocou socie-
dades conservadoras72 e que o crítico replicado pelo Le Messager paulista
tentava defender. No mesmo ano de 1923, na edição de maio, o corres-
pondente oficial do Le Messager de São Paulo em Paris, Amédée Maran-
det, volta ao tema de L’Affaire de La Garçonne, como aparece no jornal:

Il n’avait pas le droit de publier cela, dans un livre que tous les jeunes
gens peuvent acheter, que tout le monde peut lire. (…) La Garçonne
est un livre plus qu’immoral, dangereux, par les idées qu’il peut fai-
re naitre dans des cerveaux malades ou prédisposés au vice (MSP,
14/5/1923).

A intenção do jornal era deixar seu leitor ao par dos temas discutidos
na atualidade, dando ênfase aos interesses e à cultura francesa, sem aban-
donar a interação entre Brasil e França, o que é reiterado a todo momento,
como nas referências constantes ao papel de associações como a Alliance
Française.73

O Le Messager de Saint Paul é apenas um exemplo de como a im-


prensa em língua estrangeira tinha um papel ativo na sociedade de acolhi-
72 – Ver HOUBRE, Gabrielle. “Inocência, saber, experiência: as moças e seu corpo – fim
do século XVIII/começo do século XX”. In MATOS, Maria Izilda Santos de; SOIHET,
Rachel (org). O corpo feminino em debate. São Paulo: Ed. Unesp, 2003, p. 104.
73 – Da qual chega publicar relatórios integrais (MSP, 12/5/1923) em que consta ter, no
Rio de Janeiro, cerca de 400 alunos, dentre os quais os mais numerosos eram brasileiros,
portugueses e italianos.

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da, no caso, São Paulo, criando esse espaço de interação cultural que ul-
trapassava os interesses de grupo. As redes de sociabilidade formadas por
esses passeurs culturels podem nos fornecer pistas ainda inexploradas so-
bre a constituição da imprensa brasileira. Defendemos a hipótese de que a
imprensa brasileira teve contato estreito com os modelos franceses e que
essas trocas culturais tiveram consequências para o desenvolvimento da
atividade do periodismo nacional. Nomes esquecidos, como Eugène Hol-
lender (e outros que temos descoberto), foram personagens importantes
que, por algum motivo, não constam como tal na produção especializada.

Estamos seguros, também, de que a comunidade judaica teve pa-


pel importantíssimo, senão decisivo, nessa difusão cultural transnacional,
e estamos conseguindo descortinar os meandros dessas redes somente
porque lançamos um olhar diverso para essa imprensa: além de ser étnica
e representante de uma cultura específica, nesse caso a francesa, ela é
transnacional e guarda nomes até então desconhecidos (ou pouco conhe-
cidos), mas que tiveram participação ativa na vida cultural nacional.

Esses homens e instituições só vieram à tona devido a essa mudança


de perspectiva: não são meros representantes da cultura francesa, ou seus
jornais não são restritos a pequenos grupos étnicos. Ao contrário, fazem
parte de uma comunidade mais complexa, não exclusivamente formada
por laços de nacionalidade – caso dos israelitas, que se associavam por
critérios étnicos, mas também (ou acima de tudo) culturais. O Le Messa-
ger de São Paulo e seu editor ajudam-nos, enfim, a comprovar algumas
das questões teóricas expostas anteriormente, revelando-se verdadeiros
mediadores culturais de uma imprensa que podemos chamar de transna-
cional.

Texto apresentado em setembro/2014. Aprovado para publicação em


novembro/2014.

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