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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

LIVRO I
DA RESPONSABILIDADE CIVIL

1- INTRODUÇÃO E CONCEITO
“A responsabilidade civil, espécie de responsabilidade jurídica, deriva da
transgressão de uma norma civil preexistente, com a consequente imposição ao
causador do dano do dever de indenizar.”

Toda forma de responsabilidade civil pressupõe a violação de uma norma civil


preexistente impondo ao causador do dano o dever de indenizar. Responsabilizar
alguém é atribuir a esse alguém os efeitos jurídicos do seu comportamento transgressor
dessa norma jurídica preexistente. Então, para entender responsabilidade civil, é
importante que se compreenda a existência de um sistema jurídico normativo prévio que
é violado por um comportamento danoso. E, por conta dessa violação, impõe-se ao
infrator, o consequente dever de indenizar.

A teoria da responsabilidade civil integra o direito obrigacional, pois a


principal consequência da prática de um ato ilícito é a obrigação que acarreta, para o
seu autor, de reparar o dano. Obrigação esta, de natureza pessoal, que se resolve em
perdas e danos.

A responsabilidade civil, tradicionalmente, baseia-se na idéia de culpa. O art.


186 CC define o que se entende por comportamento culposo.

Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência


ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que
exclusivamente moral, comete ato ilícito.

Em conseqüência fica o agente obrigado a reparar o dano.

Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a
outrem, fica obrigado a repará-lo.
Parágrafo único. Haverá obrigação de reparar o dano,
independentemente de culpa (OBJETIVA), nos casos
especificados em lei, ou quando a atividade normalmente
desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco
para os direitos de outrem.

Só se pode cogitar de culpa quando o evento é previsível. Se o evento é


imprevisível, não há que se cogitar culpa. O art. 186 pressupõe sempre a existência da
culpa, que abrange o dolo e a culpa strictu sensu, ou aquiliana (violação de um dever
que o agente podia conhecer e observar, segundo os padrões de comportamento médio).

A culpa strictu sensu pode ocorrer das seguintes formas:

a) Imprudência: consiste em agir o sujeito sem as cautelas necessárias.


b) Negligência: é a falta de atenção em virtude da qual deixa o agente de prever o
resultado que podia e devia ser previsto.
c) Imperícia: inaptidão técnica para a prática de um ato, é a culpa profissional.

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Nos últimos anos vem ganhando terreno a chamada TEORIA DO RISCO, que
sem substituir a teoria da culpa, cobre muitas hipóteses em que esta se revela
insuficiente para a proteção da vítima. A responsabilidade seria encarada sob o aspecto
objetivo: o agente indeniza não porque tenha culpa, mas porque é o proprietário
do bem ou o responsável pela atividade que provocou o dano.

2- IMPUTABILIDADE E RESPONSABILIDADE
Para que alguém pratique um ato ilícito e seja obrigado a reparar o dano
causado, é necessário que tenha capacidade de discernimento.

2.1 RESPONSABILIDADE DOS INCAPAZES

O CC 2002 substituiu o princípio da irresponsabilidade absoluta da pessoa


privada de discernimento pelo princípio da responsabilidade mitigada e
SUBSIDIÁRIA.
Art. 928. O incapaz responde pelos prejuízos que causar, se as
pessoas por ele responsáveis não tiverem obrigação de fazê-lo ou
não dispuserem de meios suficientes.
Parágrafo único. A indenização prevista neste artigo, que deverá
ser eqüitativa, não terá lugar se privar do necessário o incapaz ou
as pessoas que dele dependem.

Se a vítima não conseguir receber a indenização do curador, poderá o juiz, mas


somente se o incapaz for abastado, condená-lo ao pagamento de uma indenização
equitativa (responsabilidade SUBSIDIÁRIA).

A vítima somente não será indenizada pelo curador se este não tiver patrimônio
suficiente para responder pela obrigação (responsabilidade objetiva).

Se o alienado não estiver sob o poder de ninguém, responderão seus próprios


bens (a reparação há de se resolver fora do quadro da culpa).

2.2 A RESPONSABILIDADE DOS MENORES

A obrigação de indenizar cabe às pessoas responsáveis pelo menor.


Art. 932. São também responsáveis pela reparação civil:
I - os pais, pelos filhos menores que estiverem sob sua autoridade
e em sua companhia;
II - o tutor e o curador, pelos pupilos e curatelados, que se
acharem nas mesmas condições;

IMPORTANTE!!! STJ 574 - DIREITO CIVIL. HIPÓTESE DE INEXISTÊNCIA


DE RESPONSABILIDADE CIVIL DA MÃE DE MENOR DE IDADE
CAUSADOR DE ACIDENTE.
A responsabilidade dos pais por filho menor (responsabilidade por ato ou fato de
terceiro) é objetiva, nos termos do art. 932, I, do CC, devendo-se comprovar
apenas a culpa na prática do ato ilícito daquele pelo qual são os pais responsáveis

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legalmente (ou seja, é necessário provar apenas a culpa do filho). Contudo, há uma
exceção: os pais só respondem pelo filho incapaz que esteja sob sua autoridade e
em sua companhia; assim, os pais, ou responsável, que não exercem autoridade de
fato sobre o filho, embora ainda detenham o poder familiar, não respondem por
ele.
Desse modo, a mãe que, à época de acidente provocado por seu filho menor de
idade, residia permanentemente em local distinto daquele no qual morava o menor
- sobre quem apenas o pai exercia autoridade de fato - não pode ser
responsabilizada pela reparação civil advinda do ato ilícito, mesmo considerando
que ela não deixou de deter o poder familiar sobre o filho.
"Autoridade" é expressão mais restrita que "poder familiar" e pressupõe uma
ordenação, ou seja, que o pai ou mãe tenha poderes para organizar de forma mais
direta e imediata a vida do filho. STJ. 3ª Turma. REsp 1.232.011-SC, Rel. Min. João
Otávio de Noronha, julgado em 17/12/2015

O menor só será responsabilizado se os responsáveis não dispuserem de meios


suficientes para o pagamento (responsabilidade subsidiária), mas a indenização, que
deverá ser equitativa, não terá lugar se privar do necessário o incapaz ou as pessoas que
dele dependem.

Não mais se admite que os responsáveis pelo menor, se exonerem da obrigação


de indenizar, provando que não foram negligentes na guarda, porque o art. 933 dispõe
que a responsabilidade dessas pessoas INDEPENDE DE CULPA.

Art. 933. As pessoas indicadas nos incisos I a V do artigo


antecedente, AINDA QUE NÃO HAJA CULPA DE SUA PARTE
(responsabilidade objetiva), responderão pelos atos praticados pelos
terceiros ali referidos.

IMPORTANTE!!! Se os pais emancipam o filho voluntariamente, a emancipação


produz todos os efeitos naturais do ato, menos o de isentar os pais da
responsabilidade pelos atos ilícitos praticados pelos filhos, de acordo com a
jurisprudência (há responsabilidade SOLIDÁRIA entre pais e filhos). Tal não
acontece quando a emancipação decorre de casamento e das outras causas previstas no
art. 5º §único CC (emancipação legal),

3- RESPONSABILIDADE CIVIL E RESPONSABILIDADE PENAL

RESP. CIVIL - ILÍCITO CIVIL RESP. PENAL - ILÍCITO PENAL


O mecanismo sancionatório civil é O mecanismo sancionatório é mais gravoso,
patrimonial, é menos gravoso. trata-se da liberdade.

Não há fatos típicos (a lei não traz a Só há crime se o fato for típico (a lei já
enumeração de todos os fatos que geram traz todos os fatos que são ilícitos penais).
dever de indenizar).
As penas não são predeterminadas (o As penas são determinadas em seus
quantum fica a cargo do juiz). limites (o juiz deve-se ater aos limites
fixados em lei).

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Mesmo a culpa levíssima gera dever de A culpa, para gerar responsabilidade penal,
indenizar. é maior.

4- RESPONSABILIDADE SUBJETIVA E OBJETIVA


Diz-se, pois, ser SUBJETIVA a responsabilidade quando se esteia na ideia de
culpa. A prova da culpa passa a ser pressuposto necessário do dano indenizável. O ônus
dessa prova incumbe a vítima. Em não havendo culpa (dolo ou culpa em sentido
estrito), não há responsabilidade.

A lei impõe, entretanto, a certas pessoas, a reparação de um dano cometido sem


culpa. Quando isso acontece, diz-se que a responsabilidade é OBJETIVA, porque
prescinde da culpa, e se satisfaz apenas com o dano e o nexo causal. Esta teoria, dita
objetiva ou do risco, tem como postulado que todo dano é indenizável e deve ser
reparado por quem a ele se liga por um nexo de causalidade, independente de culpa.

IMPORTANTE!!! Quando a CULPA É PRESUMIDA, inverte-se o ônus da prova.


O autor da ação só precisa provar a ação ou omissão e o dano resultante da conduta do
réu, porque a culpa do réu já é presumida. Os casos de culpa presumida são
considerados hipóteses de responsabilidade subjetiva, pois se fundam ainda na culpa,
mesmo que presumida.

RESUMINDO!! A diferença entre responsabilidade objetiva e a culpa presumida é


que, nessa última, ainda há discussão de culpa (havendo inversão do ônus da
prova), já na responsabilidade objetiva NÃO se discute culpa.

Uma das teorias que procuram justificar a responsabilidade objetiva é a teoria do


risco. Para essa teoria, toda pessoa que exerce alguma atividade cria um risco de dano
para terceiro. E deve ser obrigado a repará-la ainda que sua conduta seja isenta de culpa.
É também necessário que esteja caracterizado o risco proveito, segundo o qual é
reparável o dano causado a outrem em consequência de uma atividade realizada em
beneficio do responsável.

No CC a responsabilidade subjetiva subsiste como regra necessária, sem


prejuízo da adoção da responsabilidade objetiva, em dispositivos vários e esparsos.

5-RESPONSABILIDADE CONTRATUAL E EXTRACONTRATUAL


O inadimplemento contratual acarreta a responsabilidade de indenizar as
perdas e danos, no termos do art. 389 CC.
Art. 389. Não cumprida a obrigação, responde o devedor por perdas e
danos, mais juros e atualização monetária segundo índices oficiais
regularmente estabelecidos, e honorários de advogado.

Quando a responsabilidade não deriva de contrato, mas de infração do dever de


conduta, imposto genericamente no art. 186 do mesmo diploma, diz-se que ela é
extracontratual ou aquiliana.

Ambas têm como consequência a obrigação de ressarcir o prejuízo causado.


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O CC acolheu a teoria dualista da responsabilidade (responsabilidade


contratual e extracontratual), afastando a unitária.

Algumas diferenças podem ser apontadas entre as duas responsabilidades:

a) Na responsabilidade contratual o inadimplemento presume-se culposo. Na


extracontratual o lesado incumbe o ônus de provar culpa ou dolo do causador
do dano.

b) A contratual tem origem na convenção, enquanto a extracontratual tem


origem na inobservância do dever genérico de não lesar outrem.

c) A capacidade sofre limitações no terreno da responsabilidade contratual, sendo


mais ampla na extracontratual.

6- RESPONSABILIDADE EXTRACONTRATUAL POR ATOS


LÍCITOS
Via de regra a obrigação de indenizar assenta-se na prática de um ato ilícito.

Outras vezes a obrigação de indenizar nasce de uma atividade perigosa, e não


pelo cometimento de um ato ilícito.

Em outros casos a obrigação de indenizar nasce de fatos permitidos por lei e não
abrangidos pelo chamado risco social. Ex. estado de necessidade.

7- RESPONSABILIDADE NAS RELAÇÕES DE CONSUMO


As normas do CDC são de ordem pública, cogentes, de interesse social.

No sistema do CDC, tanto a responsabilidade pelo fato do produto ou serviço


como a oriunda do vício do produto ou serviço é de natureza OBJETIVA,
prescindindo do elemento culpa a obrigação de indenizar atribuída ao fornecedor.

São limitadas as excludentes invocáveis pelo agente:


§ 3° O fabricante, o construtor, o produtor ou importador só não será
responsabilizado quando provar:
I - que não colocou o produto no mercado;
II - que, embora haja colocado o produto no mercado, o defeito
inexiste;
III - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.

Determina-se expressamente a aplicação da teoria da desconsideração da


personalidade jurídica, e se coloca como um direito básico do consumidor a facilitação
da defesa de seus direitos, inclusive com a inversão do ônus da prova.

8 - PRESSUPOSTOS DA RESPONSABILIDADE
EXTRACONTRATUAL

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8.1 AÇÃO OU OMISSÃO

É o ato. Não necessariamente o ato ilícito (existe também responsabilidade


por ato lícito. Ex. Policial que requisita o carro de particular para perseguir bandido e
bate: o ato é lícito, mas gera responsabilidade).

A conduta humana pode ser definida como o comportamento positivo ou


negativo do agente, que desemboca em um dano ou prejuízo.

A conduta humana, para efeito de responsabilidade civil pressupõe


voluntariedade, consciência (no ato reflexo, caso fortuito, força maior não há conduta
humana voluntária e consciente).

Se não tiver voluntariedade e consciência, ou seja, se a pessoa não sabe o que


faz, ou não quer o que faz, não há que se falar em conduta humana.

IMPORTANTE!!! A ilicitude não é um requisito obrigatório da conduta humana


para efeito de responsabilidade uma vez que, ainda que em caráter excepcional,
pode haver responsabilidade civil decorrente de ato lícito. Ex. Desapropriação é
um ato lícito do estado que gera responsabilidade; passagem forçada (prédio
incrustado - não é servidão - passagem forçada é direito de vizinhança, que decorre ex
lege); estado de necessidade e legítima defesa (existe direito de regresso contra o
causador do perigo).

Art. 1.285. O dono do prédio que não tiver acesso a via pública,
nascente ou porto, pode, mediante pagamento de indenização cabal,
constranger o vizinho a lhe dar passagem, cujo rumo será
judicialmente fixado, se necessário.

7.2 CULPA OU DOLO DO AGENTE

É necessário, para que a vítima obtenha a reparação do dano, que prove dolo
ou culpa strictu sensu (aquiliana) do agente. Em alguns casos, o código presume a
culpa, em outros, responsabiliza o agente independentemente de culpa.

A teoria subjetiva faz distinção com base na extensão da culpa.

a) Culpa grave ou lata: imprópria ao comum dos homens é a modalidade que mais se
assemelha ao dolo.
b) Culpa leve: falta evitável com atenção ordinária.
c) Culpa levíssima: falta só evitável com atenção extraordinária ou com especial
habilidade.

A culpa grave ao dolo se equipara. No cívil, a culpa mesmo que levíssima


obriga a indenizar.

IMPORTANTE!!! Em geral, NÃO se mede o dano pelo grau da culpa. O montante


do dano é comprovado pelo prejuízo comprovado pela vitima. Todo dano provado
deve ser indenizado qualquer que seja o grau da culpa. Contudo, se houver excessiva

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desproporção entre a gravidade da culpa e o dano, poderá o juiz reduzir,


equitativamente, a indenização.
Art. 944. A INDENIZAÇÃO MEDE-SE PELA EXTENSÃO DO
DANO.
Parágrafo único. Se houver excessiva desproporção entre a
gravidade da culpa e o dano, poderá o juiz reduzir,
equitativamente, a indenização.

7.3 RELAÇÃO DE CAUSALIDADE

Se houve dano, mas a sua causa não está relacionada com o comportamento do
agente, inexiste a relação de causalidade e, também, obrigação de indenizar.

O nexo de causalidade traduz o liame jurídico que conecta ou vincula o agente


ao prejuízo correspondente. A culpa exclusiva da vítima, o caso fortuito e a força
maior rompem o nexo de causalidade, afastando a responsabilidade do agente.
Art. 393. O devedor não responde pelos prejuízos resultantes de
caso fortuito ou força maior, se expressamente não se houver por
eles responsabilizado.
Parágrafo único. O caso fortuito ou de força maior verifica-se no
fato necessário, cujos efeitos não era possível evitar ou impedir.

Existem três teorias que tentam explicar o nexo de causalidade:

a) Teoria da equivalência de condições ou conditio sine qua non: é a teoria adotada


pelo código penal, com as mitigações da doutrina da imputação objetiva. Tal teoria foi
desenvolvida por Von Buri. Ela não diferencia os antecedentes fáticos, de maneira que
tudo aquilo que concorre para o prejuízo é considerado causa. Os antecedentes se
equivalem, tem a mesma importância. Essa teoria pode levar ao infinito (pode ir até
a Adão e Eva).

b) Teoria da causalidade adequada: desenvolvida por Von Kries, essa teoria


sustenta que nem todo antecedente é causa. Causa é apenas o antecedente
abstratamente idôneo e adequado a produzir o resultado danoso.

Ex. Sujeito tranca outro no banheiro do aeroporto, fazendo-o perder o avião das 14h.
Ao pegar o avião das 16h, o avião cai e ele morre. O cara que trancou o sujeito não
tem responsabilidade (trancar alguém no banheiro não é causa adequada para matar
alguém).

c) Teoria da CAUSALIDADE DIRETA E IMEDIATA/teoria da necessariedade


do dano ou teoria da interrupção do nexo causal: essa teoria encontra fundamento
na doutrina do professor Agostinho Alvim, Gustavo Tepedino e Carlos Roberto
Gonçalves.

Para muitos, essa teoria foi adotada pelo CC/02, no art. 403.

Art. 403. Ainda que a inexecução resulte de dolo do devedor, as


perdas e danos só incluem os prejuízos efetivos e os lucros
cessantes por efeito dela DIRETO E IMEDIATO, sem prejuízo do
disposto na lei processual.

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Para essa teoria basta ver qual é a CAUSA DIRETA do fato

Está é uma teoria que restringe a causa do fato à causa direta. Esta teoria
parte da premissa de análise mais incisiva porque para ela é preciso que exista um
vínculo, um liame necessário, entre aquele antecedente que se considera causa e o
resultado. Por essa teoria, você se pergunta: #Esse comportamento anterior foi
CAUSA DIRETA desse resultado? Se a resposta for sim, é porque há o nexo de
causalidade. Para essa teoria você não pergunta se a causa é adequada. Você
pergunta se a causa é direta. Você vai indagar se há um vínculo necessário entre o
resultado e a causa.

7.4 DANO

Sem a prova de dano, ninguém pode ser responsabilizado civilmente. O dano


pode ser material ou extrapatrimonial (moral).

7.4.1 Conceito e Espécies

Conceito: dano é a lesão de qualquer bem jurídico, patrimonial ou moral. É toda


desvantagem ou diminuição que sofremos em nossos bens jurídicos.

Dano material ou patrimonial é o que afeta somente o patrimônio do


ofendido. Moral ou extra patrimonial é o que só ofende o lesado como ser humano,
não lhe atingindo o patrimônio.

IMPORTANTE!!! Indeniza-se o dano! Só há indenização com dano. Sem a prova


do dano, ninguém pode ser indenizado civilmente. O dano pode ser patrimonial ou
extra-patrimonial (moral), direto ou indireto. A inexistência de dano torna sem
objeto a pretensão a sua reparação.

EXCEÇÃO!!! Aquele que demanda dívida já paga deve pagar em dobro.

Art. 940. Aquele que demandar por dívida já paga, no todo ou em


parte, sem ressalvar as quantias recebidas ou pedir mais do que for
devido, ficará obrigado a pagar ao devedor, no primeiro caso, o dobro
do que houver cobrado e, no segundo, o equivalente do que dele
exigir, salvo se houver prescrição.

Para Carlos Roberto Gonçalves, esse é um caso de responsabilidade


independente de dano.

Para CRG, outra exceção é o art. 416 do CC, que permite ao credor cobrar a
cláusula penal sem precisar provar o prejuízo.

IMPORTANTE!!! Art. 943 CC.


Art. 943. O direito de exigir REPARAÇÃO e a OBRIGAÇÃO DE
PRESTÁ-LA transmitem-se com a herança.

Obs. O dispositivo acima se aplica tanto ao dano moral quanto o patrimonial. E tanto o
direito de exigir a reparação quanto reparar o dano.
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IMPORTANTE!!! Ter em mente que nem todo dano é indenizável. Existem três
requisitos para o dano ser indenizável:

a) Lesão a um interesse juridicamente tutelado (o simples fim de um namoro,


por si só, não é interesse juridicamente tutelado para efeito de indenização).

b) A subsistência do prejuízo (o dano só é indenizável se o prejuízo subsistir).

c) Certeza do dano e atualidade. Atual é o dano que já existe no momento da


ação de responsabilidade. O dano, para ser indenizável, deve ser certo, não se
indeniza dano hipotético.

Obs. Este requisito é relativizado pela teoria francesa da perda de uma chance.

IMPORTANTE!!! Perda de uma chance. Segundo Fernando Gaburri, a perda de


uma chance ocorre nos casos em que o ato ilícito retira da vítima a possibilidade futura
de experimentar uma situação superior ou mais favorável do que a atual. Ex.
Wanderlei Cordeiro de Lima e o padre maluco – Essa teoria ganhou maior notoriedade
no Brasil com o julgamento do “Show do Milhão” do STJ. Recentemente, também
decidiu o STJ ser possível a aplicação da teoria da perda de uma chance em função de
erro médico.

Obs. Nos casos de perda da chance, a indenização deve ser reduzida.

#QUESTÕES ESPECIAIS DE CONCURSO

#O juiz, ao fixar a indenização em sede de responsabilidade civil, poderá reduzir


o quantum indenizatório considerando o grau de culpa do infrator?
Sim!!! Existe hoje no CC um redutor indenizatório, com fulcro no art. 944, parágrafo
único (só pode reduzir).

Art. 944. A INDENIZAÇÃO mede-se pela EXTENSÃO DO


DANO.
Parágrafo único. Se houver excessiva desproporção entre a
gravidade da culpa e o dano, poderá o juiz reduzir,
eqüitativamente, a indenização.

Obs. Como a redução é pelo grau da culpa, tem-se entendido que este redutor só se
aplica em casos de responsabilidade subjetiva.

IMPORTANTE!!! #O que é dano moral in re ipsa?


Não é preciso provar em juízo que sofreu dano. Há danos morais que, pela sua
frequência e pela sua natureza dispensam prova em juízo. Essa expressão é muito
ouvida no STJ. Dano in re ipsa é aquele que DISPENSA PROVA EM JUÍZO. Um
exemplo clássico de dano in re ipsa, é como se fosse um dano presumido, se vê no
REsp 1.059.663/MS:

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“Nos casos de protesto indevido de título ou expedição irregular de cadastro de


inadimplentes, o dano moral se configura in re ipsa, isto é, dispensa a prova, ainda
que a pessoa prejudicada seja pessoa jurídica.”

IMPORTANTE!!! Quando se atinge direitos fundamentais o dano é presumido (in


re ipsa).

#O que é DANO REFLEXO, em RICOCHETE ou INDIRETO e DANO


BOOMERANG?

Dano indireto remete-nos à ideia de uma cadeia de prejuízos: a mesma vítima


sofre um dano direto e danos indiretos ou consequenciais. Ex. Eu comprei um cavalo.
Quando recebi o animal, verifiquei que o animal tinha uma doença letal. Eu sofri um
dano direto porque o animal veio infectado, só que esse cavalo infectou três outros
cavalos meus. Neste caso, sofri danos indiretos. Danos indiretos não se confundem
com os danos reflexos ou em ricochete.

O dano reflexo é aquele que atinge, além da vítima direta, uma vítima indireta a
exemplo do filho que sofre o dano pela morte do pai.

IMPORTANTE!!! No dano indireto você tem uma vítima que sofre uma cadeia de
prejuízos. No dano reflexo há duas ou mais vítimas. O pai, num assalto foi alvejado e
vem a morrer. A vítima direta é o pai. A vítima indireta é o filho. Esse filho, ao entrar
com a indenização, pela ligação que tem com o pai, é a vítima indireta, que sofre o
chamado dano reflexo ou em ricochete.

No dano boomerang existe uma inversão de posições na relação jurídica


desencadeada pelo ato ilícito. Ex. Caio guiando o seu veículo abalroa o veículo de
Tício, causando-lhe dano. Tício, ato contínuo, em reação deflagra tiros no veículo de
Caio. Neste caso, quem era agente do dano se torna vítima e a vítima se torna autor.

IMPORTANTE!!! Dano emergente e lucro cessante. Indenizar significa reparar o


dano causado a vitima integralmente. O critério para o ressarcimento do dano material
encontra-se no art. 402 do CC. Abrange o pagamento do dano emergente e do lucro
cessante.
Art. 402. Salvo as exceções expressamente previstas em lei, as
perdas e danos devidos ao credor abrangem, além do que ele
efetivamente perdeu (DANOS EMERGENTES), o que
razoavelmente deixou de lucrar (LUCRO CESSANTE).

a) Dano emergente: é efetivo prejuízo, a diminuição patrimonial sofrida pela


vítima.

b) Lucro cessante: é a frustração da expectativa de lucro. É a perda de um ganho


esperado. É apurado com base em fatos pretéritos, naquilo que vinha ocorrendo
anteriormente.

7.4.2. Dano moral

7.4.2.1 Conceito e Características

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Em sua primeira fase, o dano moral era irreparável. Os autores, inclusive no


plano internacional, entendiam que era um exagero indenizar o dano moral. Falava-se
em não haver preço da dor. Argumentava-se também que o dano moral não seria
mensurável. Para eles, admitir o dano moral seria dar poder excessivo ao juiz.

Numa segunda fase, no Brasil o dano moral passou a ser reparável, desde que
condicionado à um dano material sofrido. Não existia autonomia jurídica na reparação
do dano moral.

Em um terceiro momento, já após a CF/88 (art. 5º, V e X), o dano moral passou
a ser reparado de maneira autônoma.

O CC/02 torna explícita a reparação por dano moral, para afastar qualquer
dúvida quanto à sua reparabilidade.

Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou


imprudência, violar direito e causar dano a outrem, AINDA QUE
EXCLUSIVAMENTE MORAL, comete ato ilícito.

Conceito: Dano moral é LESÃO A DIREITO DA PERSONALIDADE


(sempre). É o que atinge o ofendido como pessoa, não atingindo seu patrimônio.

IMPORTANTE!!! É perfeitamente cumulável, dada a sua autonomia, o pedido de


indenização por dano moral e por dano estético (danos morais decorrentes do dano
estético).

“Só se deve reputar como dano moral a dor, vexame, sofrimento ou humilhação
que, fugindo a normalidade, interfira intensamente no comportamento psicológico do
indivíduo, causando-lhe aflições, angustia e desequilíbrio em seu bem estar. Mero
aborrecimento esta fora da órbita do dano moral, pois fazem parte da normalidade
do nosso dia a dia. (Sergio Cavalieri).”

Dessa forma, por si só, não se incluem na esfera do dano moral a pessoa ficar
presa em porta detectora de metal em banco e exame de malas na alfândega.

IMPORTANTE!!! O dano moral dispensa prova em concreto, pois se passa no interior


da personalidade e existe in re ipsa (se presume a existência).

IMPORTANTE!!! Dano moral e pessoa jurídica. Vem prevalecendo o


entendimento que ADMITE a responsabilidade do dano moral infligido a pessoa
jurídica, especialmente no caso de danos resultantes de abalo de credibilidade. A
pessoa jurídica é titular de honra OBJETIVA, fazendo jus a indenização a dano
moral sempre que seu bom nome, reputação ou imagem forem atingidos no meio
comercial por algum ato ilícito. Nesse sentido a súmula 227 STJ: “A pessoa jurídica
pode sofrer dano moral.”

7.4.2.2. Quantificação E Natureza Jurídica Do Dano Moral

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O Brasil, alinhando-se à França, Suíça, Portugal e Espanha, adotou uma regra


geral de responsabilidade por dano moral (Art. 186), não tendo consagrado normas
específicas para o cálculo da indenização. Temos dois sistemas:

1º) SISTEMA ABERTO OU LIVRE: que utiliza o critério de arbitramento. A


jurisprudência brasileira usa esse sistema. Arbitrar o dano moral é, no caso concreto,
defini-lo no quantum mais adequado para o caso concreto (predomina no Brasil).

Obs. O sistema do arbitramento deve ser podado por súmulas e pela uniformização de
jurisprudência, para evitar subjetivismos.

2º) SISTEMA TARIFADO: que utiliza o sistema do tarifamento legal. Pretende


estabelecer em lei critérios prévios de quantificação por dano moral. Ou seja, se
pretende fazer um tabelamento do valor devido a título de dano moral.

Obs. A lei de imprensa (foi revogada) tabelava o dano moral, e o STJ, na súmula 281,
declara que é inconstitucional.

Súmula STJ: 281 A indenização por dano moral não está sujeita à
tarifação prevista na Lei de Imprensa.

Existem alguns projetos que visam o tabelamento do dano moral.

Em geral afirma-se que a natureza jurídica da reparação por dano moral é


compensatória para a vítima e punitiva para o ofensor. Como toda reparação de dano,
a finalidade precípua do ressarcimento dos danos não é punir o responsável, e sim
recompor o patrimônio do lesado. O caráter punitivo é meramente reflexo, indireto.

IMPORTANTE!!! Começa a ganhar força no Brasil a teoria do desestímulo ou teoria


do punitive damages. Essa teoria diz que, ao fixar o dano moral, além de compensar a
vítima, o juiz deve desestimular o causador do dano, puni-lo, para que ele não volte a
delinquir. É a função social da responsabilidade civil.

Obs. Isso é muito importante para casos de lesões repetitivas, como boates e etc. Nos
EUA isso é muito usado. Nos EUA, o valor reparatório vai para a vítima, o valor
punitivo vai para creches, fundos etc.

Dispõe o enunciado 379 da 4ª jornada de direito civil:


379 – Art. 944: O art. 944, caput, do Código Civil não afasta a
possibilidade de se reconhecer a função punitiva ou pedagógica da
responsabilidade civil.

#Cabe incidência de imposto de renda na indenização por dano moral?


O STJ decidiu que NÃO incide IR, o dano moral é apenas um quantum para voltar ao
status quo ante, não ganho de capital. A indenização é a justa reparação, não é ganho
de capital.

7.4.2.3 Prazo Prescricional Para Reclamar Dano Moral

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

IMPORTANTE!!! O prazo prescricional da pretensão de indenização por dano moral


pode ser de três anos, de acordo com o CC ou de cinco anos, no âmbito do CDC (art.
27).

CDC Art. 27. Prescreve em cinco anos a pretensão à reparação pelos


danos causados por fato do produto ou do serviço prevista na Seção
II deste Capítulo, iniciando-se a contagem do prazo a partir do
conhecimento do dano E de sua autoria.

Obs. Os direitos da personalidade são imprescritíveis. Contudo, violado um direito da


personalidade, a pretensão de indenização é prescritível.

7.4.2.4 Responsabilidade Nas Relações De Família

A partir do momento que a CF promoveu a dignidade da pessoa humana, a


responsabilidade civil nas relações de família ganhou força.

É inegável que no campo das relações de família ocorre dano moral.

É possível que a mulher ou marido ajuíze ação de separação cumulada com dano
moral (no caso de traição, por exemplo).

Trata-se, segundo o prof. Inácio de Carvalho Neto, de responsabilidade


extracontratual/aquiliana.

Já ha decisão dando indenização pela pratica de adultério, recusa a prática de ato


sexual, forçar o parceiro a ato sexual anormal, maus tratos.

Abandono afetivo de filho também gera dano moral. Mas isto é controvertido. O
STJ tem julgados concedendo o dano moral e julgados negando o dano moral. O
posicionamento mais atual é no sentido de ser possível a condenação por dano moral em
caso de abandono afetivo de filho.

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

LIVRO II
RESPONSABILIDADE EXTRACONTRATUAL
TÍTULO I
DA AÇÃO OU OMISSÃO DO AGENTE
CAPÍTULO I
DA RESPOSANBILIDADE POR ATO PRÓPRIO

1- INFRAÇÃO A UM DEVER
A ação ou omissão do agente, que da origem a indenização, geralmente decorre
da infração a um dever, que pode ser legal, contratual e social (abuso de direito).

Na responsabilidade extracontratual/aquiliana, o que se fere é uma norma


legal (art. 186, 187 e 927). Neminem laedere (dever jurídico de não lesar outrem)

O art. 186 é o dispositivo que define a regra geral da responsabilidade civil, é


quem define o ato ilícito.

Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária (dolo),


negligência ou imprudência (culpa), violar direito e causar dano a
outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito.
(responsabilidade SUBJETIVA)

2- ABUSO DE DIREITO
O art. 187 consagra o ABUSO DE DIREITO, que é equiparado ao ato
ilícito.

Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que,


ao exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu
fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes.
(responsabilidade OBJETIVA)

IMPORTANTE!!! Ao definir o abuso de direito o legislador NÃO TROUXE A


EXIGÊNCIA DA CULPA (responsabilidade OBJETIVA).

A pessoa mesmo agindo dentro dos seus direitos, pode, em alguns casos, ser
responsabilizada. O abuso de direito prescinde da idéia de culpa (responsabilidade
objetiva). Ocorre o abuso de direito quando o agente atuando dentro dos limites da lei
deixa de considerar a finalidade social de seu direito subjetivo e dele exorbita, ao

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

exercê-lo, causando prejuízo a outrem. Não ocorre violação aos limites objetivos da
lei, mas o agente se desvia dos fins sociais a que a lei se destina.

A jurisprudência, em regra, considera abuso de direito o ato que constitui o


exercício egoístico, anormal do direito, nocivo a outrem, contrário ao destino
econômico e social do direito em geral.

#Existe diferença entre a ilicitude do art. 186 (regra geral) e a ilicitude do art. 187
(abuso de direito)?
Existe sim, uma vez que a ilicitude prevista no artigo 186 é SUBJETIVA, ao passo
que a ilicitude do artigo 187 é OBJETIVA, porquanto na definição do abuso de
direito, o legislador utilizou um critério apenas finalístico não vinculado à culpa.

O nosso sistema é dual, consagra a ilicitude com culpa e a ilicitude sem culpa.

IMPORTANTE!!! Vale lembrar que não caracteriza abuso de direito a situação de


surrectio e consequente supressio, por conta da incidência do princípio da confiança
(venire contra factum próprio).

Surrectio traduz uma situação jurídica favorável que se consolida ao longo do


tempo, mesmo ao arrepio de uma norma, à luz do princípio da confiança
determinando, em contrapartida, a perda de um direito ou faculdade originariamente
conferido à outra parte (supressio). Um ganha e outro perde. Ex. Pessoa que se
apropriou de área comum do condomínio para parar o carro, sem que o condomínio
nunca reclamasse (o sujeito ganhou a área e o condomínio perdeu). Surrectio para a
pessoa e Supressio para o condomínio.

3- ROMPIMENTO DE NOIVADO E SEPARAÇÃO JUDICIAL


É princípio da ordem pública que qualquer dos noivos tem a liberdade de se
casar e de se arrepender. Dependendo da forma de como o arrependimento se manifesta
(sem justo motivo, acarretando dano moral ou patrimonial), pode dar causa a ação de
indenização.

Os noivos realizam despesas, tais como, enxoval, buffet e etc. O arrependimento


do outro acarretará, então, prejuízo. Se não houve justo motivo para a mudança de
atitude, o lesado terá o direito de obter a reparação do dano.

A responsabilidade do desistente só será reconhecida se:

a) Se inexistir motivo justo para a retratação. Ex. mudança de religião, infidelidade


e etc.
b) Se ficar provado que o rompimento causou dano material ou moral ao outro
noivo.

Se o marido agride a esposa, lhe causa ferimentos graves ou comete calúnia


injúria (crime contra honra), tal conduta, além de constituir causa de separação, pode
gerar ação de indenização de perdas e danos.

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

O que carece de fundamentação legal é o pedido de indenização fundado no só


fato da ruptura conjugal.

O adultério, embora constitua causa para a separação, não induz, por si só, a
concessão de indenização por dano moral. A indenização é devida somente se a
violação do dever de fidelidade extrapolar normalidade genérica.

4- DIREITO A IMAGEM
O direito a imagem integra o rol dos direitos a personalidade.
Dispõe o art. 20 do CC e o inciso V do art. 5º da CF:

Art. 20. Salvo se autorizadas, ou se necessárias à administração da


justiça ou à manutenção da ordem pública, a divulgação de escritos, a
transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização
da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e
sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a
boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais.
Parágrafo único. Em se tratando de morto ou de ausente, são partes
legítimas para requerer essa proteção o cônjuge, os ascendentes ou os
descendentes.

CF Art. 5º,
V - é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além
da indenização por dano material, moral ou à imagem;

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

CAPÍTULO II
RESPONSABILIDADE INDIRETA

É indireta porque não foi o sujeito responsável que diretamente agiu (foi o
animal ou a coisa).

Subdivide-se em RESPONSABILIDADE POR ATO DE TERCEIRO e


RESPONSABILIDADE PELO FATO DA COISA OU DO ANIMAL.

RESPONSABILIDADE POR ATO DE TERCEIRO

1- PRESUNÇÃO DE CULPA E RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA

A responsabilidade por ato de terceiro é uma responsabilidade INDIRETA.

#O que se entende por responsabilidade indireta?

A responsabilidade civil DIRETA, também chamada de simples ou por ato


próprio, é aquela que o agente do dano é o responsável por sua reparação. Deriva de
fato causado diretamente pelo agente que gerou o dano.

A responsabilidade civil INDIRETA ou COMPLEXA ocorre quando o


responsável pela reparação do dano é pessoa distinta da causadora direta da lesão. É a
que decorre de ato de terceiro, com o qual o agente tem vínculo legal de
responsabilidade, além das situações de fato de animal ou fato da coisa.

Veja como o tema está disposto no Código Civil:

Responsabilidade por ato de terceiro:

Art. 932. São também responsáveis pela reparação civil:


I - os pais, pelos filhos menores que estiverem sob sua autoridade e
em sua companhia;
II - o tutor e o curador, pelos pupilos e curatelados, que se acharem
nas mesmas condições;

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

III - o empregador ou comitente, por seus empregados, serviçais e


prepostos, no exercício do trabalho que lhes competir, ou em razão
dele;
IV - os donos de hotéis, hospedarias, casas ou estabelecimentos onde
se albergue por dinheiro, mesmo para fins de educação, pelos seus
hóspedes, moradores e educandos;

Responsabilidade pelo fato do animal:

Art. 936. O dono, ou detentor, do animal ressarcirá o dano por este


causado, se não provar culpa da vítima ou força maior.

Responsabilidade pelo fato da coisa:


Art. 937. O dono de edifício ou construção responde pelos danos que
resultarem de sua ruína, se esta provier de falta de reparos, cuja
necessidade fosse manifesta.

Art. 938. Aquele que habitar prédio, ou parte dele, responde pelo
dano proveniente das coisas que dele caírem ou forem lançadas em
lugar indevido.

No caso de concurso de agentes na prática de um ato ilícito surge a


solidariedade.

Art. 942. Os bens do responsável pela ofensa ou violação do direito


de outrem ficam sujeitos à reparação do dano causado; e, se a ofensa
tiver mais de um autor, todos responderão SOLIDARIAMENTE
pela reparação.
Parágrafo único. São SOLIDARIAMENTE responsáveis com os
autores os co-autores e as pessoas designadas no art. 932.

As pessoas do art. 932 são responsabilizadas ainda que não haja culpa de
sua parte. O CC 2002 abandonou o critério da culpa presumida, para responsabilizar os
pais, tutores, patrões e etc. independentemente de culpa.

Art. 933. As pessoas indicadas nos incisos I a V do artigo


antecedente, ainda que não haja culpa de sua parte
(responsabilidade OBJETIVA), responderão pelos atos praticados
pelos terceiros ali referidos.

IMPORTANTE!!! No CC/16 a responsabilidade por ato de terceiro era baseada na


culpa, que era presumida (culpa in vigilando, culpa in eligendo). O CC/02 revolucionou
a matéria. Hoje, a responsabilidade por ato de terceiro é OBJETIVA.

Obs. A responsabilidade objetiva imprópria (é a responsabilidade por culpa


presumida, invertendo-se o ônus da prova) é espécie de responsabilidade subjetiva,
vez que, mesmo sendo presumida, existe discussão a respeito da culpa. A
responsabilidade objetiva é quando a responsabilidade independe de culpa.

#O que se entende por culpa presumida?

Ensina o Professor Cristiano Chaves que a regra geral prevista no art. 927, caput
do Código Civil é da responsabilidade subjetiva com base na culpa, a qual deve ser

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

provada pela vítima. No entanto, como exceção, o sistema admite a responsabilidade


subjetiva com culpa presumida em que haverá a inversão do ônus de prova, ou
seja, a vítima fica dispensada de provar a culpa do agente. Esta responsabilidade só
será possível nos casos previstos em lei. Exemplo de responsabilidade subjetiva com
culpa presumida: responsabilidade contratual (a responsabilidade do cirurgião
plástico também é responsabilidade subjetiva com culpa presumida, de acordo com o
STJ).

2- RESPONSABILIDADE DOS PAIS, DOS TUTORES E


CURADORES
1ª) Pais pelos filhos menores:

Os pais respondem pelos atos dos filhos que estiverem sobre sua autoridade e
companhia, ainda que estes não tenham discernimento.

A responsabilidade paterna independe de culpa. Ex. pai que deixa o filho menor
dirigir carro.

Art. 932. São também responsáveis pela reparação civil:


I - os pais, pelos filhos menores que estiverem sob SUA
AUTORIDADE E EM SUA COMPANHIA;
II - o tutor e o curador, pelos pupilos e curatelados, que se
acharem nas mesmas condições; (Tem que estar sob autoridade E
COMPANHIA).

No CC/02 pode haver responsabilidade civil do absolutamente e do


relativamente incapaz, SUBSIDIÁRIA a do seu representante.
RESPONSABILIDADE CIVIL DO INCAPAZ
Art. 928. O incapaz (absoluta ou relativamente) responde pelos
prejuízos que causar, se as pessoas por ele responsáveis não
tiverem obrigação de fazê-lo ou não dispuserem de meios
suficientes.
Parágrafo único. A indenização prevista neste artigo, que deverá
ser eqüitativa, não terá lugar se privar do necessário o incapaz ou
as pessoas que dele dependem.

Obs. O incapaz tem responsabilidade SUBSIDIÁRIA, primeiro deve-se buscar que o


representante arque com os danos. O incapaz só responde se o representante não
tiver a obrigação de reparar, ou não dispuserem de meios suficientes.

IMPORTANTÍSSIMO!!! A única hipótese em que poderá haver


RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA entre os pais e o menor de 18 anos, é quando
o menor tiver sido emancipado aos 16 anos de idade (emancipação voluntária
apenas). Fora dessa situação a responsabilidade será exclusivamente dos pais ou
exclusivamente dos filhos. Sua responsabilidade solidária cessa, porém, quando a
emancipação deriva de outras causa previstas no art. 5º parágrafo único do CC.

Pode haver cumulação da responsabilidade paterna com a de terceiro. Ex. menor


provoca acidente de carro com veiculo emprestado por outro.

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

O simples afastamento do filho da casa paterna por si só não elide a


responsabilidade dos pais.

IMPORTANTE!!! Pais separados. Na forma do CC, os pais só respondem se o filho


estiver sobre sua AUTORIDADE E COMPANHIA. Para o CC, só responde o pai ou
a mãe que estiver com a guarda da criança. Durante o período de visitas, a
responsabilidade é do que não tem a guarda.

#Quando o representante não tem a obrigação de reparar a vítima?


O ECA traz uma medida pecuniária, para o adolescente que comete ato infracional de
natureza patrimonial. Nesse caso, é o incapaz que tem a obrigação, por seus próprios
meios.

Se a guarda do menor é deferida a terceiro, torna-se este o único responsável


pelos seus atos, ficando exonerados os pais. Assim, no período em que os alunos se
encontram no estabelecimento de ensino, o dever de vigilância passa ao educandário,
ficando isento os pais.

Obs. Nenhuma reponsabilidade cabe ao educador em se tratando de educando maior.

Quando o menor é empregado ou preposto de outrem, e o ato ilícito é praticado


no exercício do trabalho, ou em razão dele, a responsabilidade será do empregador.

IMPORTANTE!!! O pai não responde por nenhum ato praticado por filho maior,
ainda que viva em sua companhia,

Obs. Na guarda compartilhada ambos têm a guarda e ambos são responsáveis pelos atos
dos filhos.

Tudo que foi dito até agora se aplica tutores e curadores.

Obs. É ineficaz cláusula excludente de responsabilidade estatuída no regulamento do


nosocômio assinado entre a clínica e o curador, uma vez que a delegação de vigilância
transfere a responsabilidade ao estabelecimento, gratuita ou onerosamente.

3- RESPONSABILIDADE DOS EMPREGADORES


A responsabilidade é OBJETIVA do empregador, na relação interna. Não existe
mais presunção de culpa.

IMPORTANTE!!! O empregador só responde pelo ato do empregado se o dano for


causado no exercício do trabalho, OU EM RAZÃO DELE.

Obs. Sumula 341 STJ: “É presumida a culpa do patrão ou comitente pelo ato culposo do
empregado ou preposto”. Prejudicada esta súmula, pois o CC diz que a
responsabilidade é OBJETIVA (independente de culpa – art. 933 CC).

Obs. No período de descanso intrajornada, o empregador responde também.

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

IMPORTANTE!!! Carro da empresa com empregado. Muitas empresas dão carro ao


empregado, inclusive nos fins de semana. Como o STJ tem responsabilizado inclusive
quem empresta o carro, muito provavelmente, a empresa seria responsabilizada. Pode-
se argumentar, contudo, que o eventual dano não foi causado no exercício do trabalho
ou em razão dele, para tentar excluir o patrão.

O empregador não é responsável pelo dano se a vítima sabia que o preposto


procedia fora de suas funções. Mas em geral, o patrão é responsável mesmo que o
preposto tenha agido fora de sua função, uma vez que o terceiro não tem obrigação de
conhecer os limites das funções do empregado.

4 - DONOS DE HOTEL/HOSPEDARIAS/ESCOLAS PELOS


HÓSPEDES/ALUNOS
Segundo José de Aguiar dias, justifica responsabilidade dos donos dos hotéis o
dever de segurança implícito no contrato de hospedagem.

Segundo Carlos Roberto Gonçalves, só respondem por fato ocorrido no interior


das dependências da hospedaria.

A responsabilidade quanto as escolas públicas cabe ao Estado.

IMPORTANTE!!! Os donos de escolas só respondem pelos atos dos educandos


menores. Não são os pais. Quando eles deixam o filho na escola, eles transferem a
responsabilidade.

Obs. Se o educando for maior, o dono da escola não responde, com base nesse
fundamento.

IMPORTANTÍSSIMO!!! Se o dano é causado contra terceiros, a escola responde


pelo prejuízo objetivamente. Tem ação regressiva contra os alunos que puderem
efetuar o ressarcimento. Não podem ajuizar a respectiva ação contra os pais, pois
estes transferiram o poder de vigilância para a escola no período das aulas. Se,
porém, o dano é sofrido pelo aluno, tem este ação contra o estabelecimento.

5- OS QUE HOUVEREM PARTICIPADO, AINDA QUE


GRATUITAMENTE, NO PRODUTO DO CRIME
O que participa do produto do crime é solidariamente responsabilizado, para
evitar o enriquecimento sem causa.

6- AÇÃO REGRESSIVA MOVIDA PELO QUE PAGA


INDENIZAÇÃO
#Se o empregador pagar pelo empregado, se o pai pagar pelo filho, se o dono de
hotel pagar pelo hóspede, etc. tem ação regressiva?
Sim. Existe ação regressiva, exceto se o causador do dano for DESCENDENTE
SEU, ABSOLUTA OU RELATIVAMENTE INCAPAZ.

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

IMPORTANTE!!! O pai só poderá demandar regressivamente o filho se ele for capaz.


Art. 934. Aquele que ressarcir o dano causado por outrem pode
reaver o que houver pago daquele por quem pagou, SALVO se o
causador do dano for descendente seu, absoluta ou relativamente
incapaz.

Resumindo!!! Fica excluído somente a possibilidade de haver ação regressiva dos pais
contra os filhos menores e dos tutores, curadores e educadores contra os incapazes que
não puderem privar-se do necessário.

IMPORTANTE!!! PODE HAVER DENUNCIAÇÃO DA LIDE para garantir


desde logo o direito regressivo de quem paga o dano do outro (o patrão pode
denunciar a lide ao empregado).

Carlos Roberto Gonçalves lembra que existe discussão se o pagamento da


indenização pelo pai, por ato de filho pode significar antecipação de herança. Sobre o
tema existem duas correntes: (1º) que fala que é justo que isso seja antecipação da
herança, senão os demais herdeiros seriam prejudicados; (2º) a responsabilidade do
pai é própria (ele é responsável), não pode atingir a herança do filho. CRG é adepto da
primeira posição.

7- RESPONSABILIDADE CIVIL DOS EMPRESÁRIOS


INDIVIDUAIS E AS EMPRESAS PELOS PRODUTOS POSTOS EM
CIRCULAÇÃO
Dispõe o art. Art. 931 CC que, ressalvados outros casos previstos em lei
especial (CDC), os empresários individuais e as empresas respondem
independentemente de culpa pelos danos causados pelos produtos postos em
circulação.

O CC dispõe expressamente sobre a responsabilidade das pessoas acima. A


legislação especial que é ressalvada acima é o CDC.

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

CAPÍTULO III
RESPONSABILIDADE PELO FATO DA COISA E
DO ANIMAL

O direito se desenvolveu no sentido de reconhecer que a responsabilidade pelo


fato deve ser atribuída ao guardião da coisa ou do animal. Lembra Cavalieri, que o
guardião da coisa/animal é a pessoa que detém poder de comando sobre ele (em regra
quem responde é o dono, mas o detentor também pode ser responsabilizado).

1- RESPONSABILIDADE PELO FATO OU GUARDA DO ANIMAL


Diferentemente do art. 1527 do CC/16, o art. 936 do CC/02, consagrou a
responsabilidade OBJETIVA pelo fato do animal. Ou seja, não se discute a culpa no
evento.

Art. 936. O dono, ou detentor, do animal ressarcirá o dano por este


causado, se não provar culpa da vítima ou força maior .

Pablo Stolze fala que não se discute a culpa, já o Carlos Roberto Gonçalves
fala que é responsabilidade objetiva imprópria (culpa presumida).

IMPORTANTE!!! E de quem é a responsabilidade por acidente causado em


virtude de animal na pista?
O STJ atribui ao Estado responsabilidade subjetiva por omissão em caso de acidente
com animal na pista.

IMPORTANTÍSSIMO!!! No caso de CONCESSIONÁRIAS, rodovias com


pedágio, a responsabilidade é OBJETIVA com base no CDC.
CDC. Art. 14. O fornecedor de serviços responde,
INDEPENDENTEMENTE DA EXISTÊNCIA DE CULPA, pela

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos


à prestação dos serviços, bem como por informações insuficientes ou
inadequadas sobre sua fruição e riscos.

2- RESPONSABILIDADE NA GUARDA DA COISA INANIMADA


A regra nessa matéria é a de que se presume a responsabilidade dos proprietários
das coisas em geral, e de animais, pelos danos que venham a causar a terceiros.

Se o proprietário fica privado da guarda ou controle da coisa por furto ou roubo,


sua responsabilidade desaparece, salvo se concorreu para a perda da posse por
negligencia. Ex. deixar veiculo com a chave na ignição.

Obs. Súmula 492 do STF.

STF Súmula nº 492 - A empresa locadora de veículos responde,


civil e SOLIDARIAMENTE com o locatário, pelos danos por este
causados a terceiro, no uso do carro locado.

Tal súmula não vem sendo aplicada aos casos de arrendamento mercantil ou
leasing e aos casos de alienação fiduciária, por não se confundirem com o contrato de
locação, nesses participando a financeira como mera intermediária.

3- RESPONSABILIDADE PELA RUINA DO EDIFÍCIO


No novo CC, a responsabilidade pelo fato da coisa se dá em duas situações: pela
ruína dos edifícios ou construções ou por objetos lançados ou caídos em local
indevido.

Obs. A ruína pode ser total ou parcial

O responsável pela ruína é o dono do edifício, não importando se o edifício


estava alugado.

Há presunção de responsabilidade do dono do edifício ou construção quando


qualquer parte de sua estrutura cai sobre as propriedades vizinhas ou sobre transeuntes.

O artigo parece que quer dizer que a vítima tem que provar a falta de reparos, ou
mesmo que o réu poderia provar que fez os reparos. Isso, contudo, é mentira, o fato de
ter ocorrido à ruína já diz que não houve os reparos. Trata-se de responsabilidade
OBJETIVA.

Art. 937. O dono de edifício ou construção responde pelos danos que


resultarem de sua ruína, se esta provier de falta de reparos, cuja
necessidade fosse manifesta.

Carlos Roberto Gonçalves fala que é culpa presumida.

Ex. Danos a carro na rua, queda de elevador e etc.

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

4- RESPONSABILIDADE RESULTANTE DE COISAS QUE


CAÍREM EM LUGAR INDEVIDO
Obs. A ação judicial que a vítima deve propor é actio de effusis et dejectis. A pretensão
para esta ação prescreve em três anos.

Trata-se de responsabilidade OBJETIVA.

O responsável pelo dano é a pessoa que HABITA a unidade residencial de


onde caiu o objeto – diferente de ruina (pode ser proprietário, locatário,
usufrutuário...).

Art. 938. Aquele que habitar prédio, ou parte dele, responde pelo
dano proveniente das coisas que dele caírem ou forem lançadas em
lugar indevido.

Se não se souber de que apartamento foi lançado o projétil, sob influência da


teoria da causalidade alternativa, todo o condomínio pode ser responsabilizado.

Obviamente, ficam excluídos os moradores de onde o projétil não poderia ter


saído (teoria da exclusão).

Se o condomínio tiver mais de um bloco, é pacífico que os moradores dos dois


blocos podem responder pela queda do objeto (nesse caso situações iguais merecem
tratamentos iguais).

5- EXERCÍCIO DE ATIVIDADE PERIGOSA (TEORIA DO RISCO)


Até o início do século XX, baseado no CC da França, a responsabilidade civil
era subjetiva, lastreada no elemento culpa.

Durante o século XX, com os avanços industriais e tecnológicos ocorridos, uma


grande mudança ocorreu no seio da sociedade. Viver em sociedade tornou-se mais
arriscado.

A doutrina e jurisprudência francesa começaram a repensar a responsabilidade


civil. Já considerando que a necessidade de se provar a culpa, em todos os casos, é
causa de inegável injustiça, porque isso tornaria várias pessoas irressarcidas.

Concluíram que em determinados casos, em determinadas atividades, a prova da


culpa é muito difícil. Surgiu aí a idéia de responsabilidade objetiva, tornando-se
desnecessária, em alguns casos, a prova de culpa (responsabilidade objetiva pura).

Ex. Como uma pessoa provar que uma empresa deixou de dar manutenção em um trem?

A responsabilidade objetiva não surgiu do nada, foi paulatina.

No início, surgiram casos onde o ordenamento presumia a culpa permitindo a


prova em contrário. Responsabilidade objetiva imprópria (culpa presumida).

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

Ocorre que isso se tornou insuficiente, com os avanços da sociedade.

Daí surgiu à responsabilidade civil objetiva, que prescinde da análise da culpa.


A responsabilidade objetiva foi baseada na TEORIA DO RISCO, todo aquele que
cria um risco, deve se sujeitar às consequências dele.

O direito brasileiro sempre foi muito ligado ao direito francês. No Brasil, o


CC/16 adotava a regra geral da responsabilidade com base na culpa. A responsabilidade
objetiva chegou ao Brasil através das leis especiais (a primeira lei foi o decreto 2681/12,
que tratava de acidentes ferroviários; posteriormente veio a lei de acidente de trabalho; a
lei do DPVAT).

O nosso novo CC/02, no art. 927, consagrou as duas formas de responsabilidade


civil, tanto a objetiva, como a subjetiva.

Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a
outrem, fica obrigado a repará-lo.
Parágrafo único. Haverá obrigação de reparar o dano,
independentemente de culpa, nos CASOS ESPECIFICADOS EM
LEI, OU QUANDO A ATIVIDADE NORMALMENTE
DESENVOLVIDA PELO AUTOR DO DANO IMPLICAR, POR
SUA NATUREZA, RISCO PARA OS DIREITOS DE OUTREM .

O parágrafo único traz a responsabilidade objetiva, em duas hipóteses:

a) Casos de legislação específica.

b) Quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por


sua natureza, risco para os direitos de outrem.

Obs. O legislador estabelece que esta responsabilidade objetiva pressuponha uma


atividade reiterada ou habitualmente exercida (trata-se do advérbio
“normalmente”).

IMPORTANTÍSSIMO!!! Trata-se da mais relevante introdução ao CC 2002 no que


tange a responsabilidade. Antes a responsabilidade independente de culpa somente
existia nos casos especificados em lei. ATUALMENTE, MESMO NÃO ESTANDO
O FATO PREVISTO EM LEI, PODE O JUIZ APLICAR O PRINCÍPIO DA
RESPONSABILIDADE OBJETIVA “quando a atividade normalmente
desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos
de outrem.” (art. 927 §único 2ª parte)

Obs. Em relação a acidentes de veículos, a jurisprudência ainda tem se utilizado do


critério da culpa para solucionar os litígios. Entretanto, em casos de atropelamento, sem
culpa da vítima, ou batidas em postes ou veículos parados, tem-se utilizado da teoria do
risco objetivo.

Obs. A responsabilidade objetiva pressupõe uma conduta potencialmente danosa (“por


sua natureza”). Ex. Fabricação de explosivos, produtos químicos, energia nuclear.

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

IMPORTANTE!!! A responsabilidade objetiva pressupõe também que a atividade


traduza um RISCO-PROVEITO. Não basta qualquer risco, o que justifica a
responsabilidade sem culpa é o risco proveito. O risco-proveito pressupõe uma
atividade praticada com vistas a um proveito. Ex. Caminhão da CVRD que tomba
em cima de uma casa.
Ex. O motorista de táxi, também se sujeita à responsabilidade objetiva (seja pelo CC ou
pelo CDC).

#QUESTÕES ESPECIAIS DE CONCURSO#

As empresas locadoras de veículo, nos termos da súmula 492 do STF, são


SOLIDARIAMENTE responsáveis pelo acidente causado pelo locatário.

STF Súmula 492 A empresa locadora de veículos responde, civil e


SOLIDARIAMENTE com o locatário, pelos danos por este
causados a terceiro, no uso do carro locado.

#Veículo alienado, sem registro da transferência no DETRAN, implica


responsabilidade do antigo dono, em caso de acidente?
O STJ, em sua súmula 132, fixou a regra no sentido de que a responsabilidade em caso
de acidente envolvendo veículo alienado sem registro de transferência no DETRAN,
NÃO é mais do antigo proprietário, sob o fundamento de já se ter operado a
tradição.

STJ Súmula 132 A ausência de registro de transferência NÃO


implica a Responsabilidade do antigo proprietário por dano
resultante de acidente que envolva veículo alienado.

IMPORTANTE!!! #De quem é a responsabilidade civil em caso de veículo


emprestado?
À luz da teoria da guarda, a responsabilidade deveria ser do comodatário, do condutor.
Isso porque houve transferência do poder de comando (isso se se emprestou à pessoa
habilitada e apta a dirigir). Ocorre, porém, que o STJ não pensa assim. Em reiteradas
decisões (Resp 343649/MG) o STJ sustenta a SOLIDARIEDADE entre o dono do
carro e quem tomou emprestado. Parte da doutrina critica tal posicionamento pois a
solidariedade tem que advir de lei ou da vontade das partes, o que não ocorreria na
hipótese.

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

TÍTULO II
DA CULPA

1- CONCEITO E ELEMENTOS
A culpa é um dos pressupostos da responsabilidade civil. A obrigação de
indenizar não existe, em regra, só porque o agente causador do dano procedeu
objetivamente mal. É essencial que tenha agido com culpa: por ação ou omissão
voluntária, por negligencia, imprudência ou imperícia.

O critério para a aferição da diligência exigível do agente, e, portanto, para


caracterização da culpa, é o da comparação do seu comportamento com o do homem
médio.

2- CULPA E DOLO
Dolo é o propósito de causar dano a outrem.

Se o prejuízo da vítima é decorrência de comportamento negligente e


imprudente do autor do dano, diz-se que houve culpa stricto sensu, também denominada
de culpa aquiliana.

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

O CC, entretanto, não fez distinção alguma entre dolo e culpa, nem entre os
graus de culpa, para fins de reparação do dano. Mesmo a culpa levíssima gera a
obrigação de indenizar, obrigação esta que será calculada exclusivamente sobre a
extensão do dano.

O valor da indenização nunca pode exceder o valor dos danos causados ao


lesado. Por outro lado, não deve ser menos que estes.

Entretanto, o parágrafo único do art. 944 do CC confere ao juiz o poder de agir


equitativamente, facultando-lhe reduzir a indenização quando excessiva, se mostrar a
desproporção entre seu valor e o grau de culpa do responsável.

3- CULPA E RISCO
São as seguintes fases pelas quais passou a teoria da responsabilidade civil:

a) Primeiro procurou-se proporcionar maior facilidade a prova da culpa.


b) Admissão da teoria do abuso de direito como ato ilícito.
c) Estabelecimento de casos de presunção de culpa, casos estes que invertem o
ônus da prova, melhorando a situação da vítima.
d) Adoção da teoria do risco, pela qual não há falar em culpa. Basta a prova da
relação de causalidade entre a conduta e o dano.

A teoria do risco, embora admitida em algumas hipóteses específicas pelo


legislador, não se generalizou, pois na maioria dos casos ainda prevalece a teoria da
culpa.

4- EFEITOS NO CIVIL DA SENTENÇA PROFERIDA NO CRIME


4.1 INTERAÇÃO ENTRE AS JURISDIÇÕES CIVIL E PENAL

Dispõe o art. 935 do CC:

Art. 935. A responsabilidade civil é independente da criminal, não se


podendo questionar mais sobre a existência do fato, ou sobre
quem seja o seu autor, quando estas questões se acharem decididas
no juízo criminal.

Tal dispositivo realça a independência entre as esferas civil e penal. Só que, tal
separação não é absoluta e o sistema adotado no CC é o da independência relativa
(vincula-se quanto a existência do fato e a autoria).

4.2 SENTENÇA CRIMINAL CONDENATÓRIA

A sentença criminal condenatória Sempre faz coisa julgada no cível, porque


para haver condenação criminal o juiz tem de reconhecer a existência do fato e a sua
autoria, bem como o dolo ou a culpa do agente. Inteligência dos arts. 91, I do CP e 475,
N, II do CPC.
CP
Art. 91 - São efeitos da condenação:

29
William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

I - tornar certa a obrigação de indenizar o dano causado pelo crime;

NOVO CPC
Art. 515. São títulos executivos judiciais:
VI - a sentença penal condenatória transitada em julgado;

Na execução promovida no juízo civil, com base em tal título, não mais se
discutirá o an debeatur (se deve) e sim o quantum debeatur (quanto é devido).

Já decidiu o STF que o MP é parte ativa legítima para a ação civil de


indenização, em favor da vítima pobre, enquanto não tiver defensoria instalada na
região (inconstitucionalidade progressiva).

IMPORTANTE!!! A sentença penal do empregado não pode ser executada contra o


patrão, uma vez que este não figura no título.

Há divergências sobre a possibilidade de ser ou não rediscutida a ilicitude da


conduta do preposto, condenado criminalmente. A opinião correta é no sentido de que
a coisa julgada só pode atingir o réu do processo penal, não o responsável civil.
Assim, poderá o patrão, em tese, rediscutir a sentença penal condenatória, não só no
tocante a sua responsabilidade civil, mas também no que se refere ao reconhecimento do
fato e de sua autoria.

4.3 SENTENÇA ABSOLUTÓRIA

 Faz coisa julgada no civil:

a) Quando reconhece expressamente a inexistência do fato ou que o réu não


foi o autor.
b) Quando reconhece que o fato foi praticado em razão de uma causa
excludente da ilicitude. A legítima defesa precisa ser real e contra o
agressor, pois a putativa (exclui apenas a culpabilidade) e a que causa
dano a terceiro não excluem a responsabilidade civil. Também não a
exclui o ato praticado em estado de necessidade.

 Não faz coisa julgada no civil:

a) Quando a absolvição se da por falta ou insuficiência de provas.


b) Quando a absolvição se da por não ter havido culpa do agente. O juiz
criminal é mais exigente em matéria de culpa.
c) Quando ocorre absolvição porque se reconhece que o fato não constitui
infração penal.

 Observações importantes:

a) As sentenças de pronúncia e de impronúncia não obstam a ação civil,


pois ainda não há qualquer condenação criminal.
b) Não obsta a propositura da ação civil o arquivamento do IP e a decisão
que julgar extinta a punibilidade.
c) Se o juiz entender necessário, poderá (facultatividade) suspender o
andamento da ação de indenização, até a solução do processo criminal

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

(prazo máximo de um ano). A simples existência de IP e a propositura


de revisão criminal não suspende o processo.
d) Se a ação civil for julgada improcedente (transitada em julgado) e
sobrevier condenação criminal, essa condenação criminal esbarra numa
situação definitivamente consolidada pela coisa julgada civil.
e) A prescrição da pretensão executória da condenação, que só ocorre
depois do trânsito em julgado da sentença, não retira a força executiva
desta, exercitável no âmbito civil.
f) A prescrição retroativa e a prescrição intercorrente são forma de extinção
da pretensão punitiva e, por isso, afastam todos os efeitos, principais e
secundários, penais e extrapenais, da condenação.
g) O perdão judicial é causa extintiva da punibilidade, e a sentença que o
concede é declaratória, não subsistindo qualquer efeito, inclusive de
natureza secundária. Súmula 18 STJ.
h) Situações em que a sentença proferida no juiz civil é que vai influenciar
o processo crime, fazendo coisa julgada: (i) crime de bigamia; (ii)
esbulho possessório; e (iii) falsidade documental.

TÍTULO III
DA RELAÇÃO DE CAUSALIDADE

1- O LIAME DA CAUSALIDADE
Se houve dano, mas a sua causa não está relacionada com o comportamento de
agente, inexiste a relação de causalidade e, também, obrigação de indenizar.

O nexo de causalidade traduz o liame jurídico que conecta ou vincula o agente


ao prejuízo correspondente. A culpa da vítima, o caso fortuito e a força maior rompem
o nexo de causalidade, afastando a responsabilidade do agente.
Art. 393. O devedor não responde pelos prejuízos resultantes de
caso fortuito ou força maior, se expressamente não se houver por
eles responsabilizado.
Parágrafo único. O caso fortuito ou de força maior verifica-se no
fato necessário, cujos efeitos não era possível evitar ou impedir.

A teoria do nexo causal encerra dificuldades porque, em razão do aparecimento


de concausas, a pesquisa da verdadeira causa do dano nem sempre é fácil.

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

2- A PESQUISA DO NEXO CAUSAL


Existem três teorias que tentam explicar o nexo de causalidade:

 Teoria da equivalência de condições ou conditio sine qua non: é a teoria


adotada pelo código penal, com as mitigações da doutrina da imputação
objetiva. Tal teoria foi desenvolvida por Von Buri. Ela não diferencia os
antecedentes fáticos, de maneira que tudo aquilo que concorre para o prejuízo é
considerado causa. Os antecedentes se equivalem, tem a mesma
importância. Essa teoria pode levar ao infinito (pode ir até a Adão e Eva).

 Teoria da causalidade adequada: desenvolvida por Von Kries, essa teoria


sustenta que nem todo antecedente é causa. Causa é apenas o antecedente
abstratamente idôneo e adequado a produzir o resultado danoso.

Ex. Sujeito tranca outro no banheiro do aeroporto, fazendo-o perder o avião das 14h.
Ao pegar o avião das 16h, o avião cai e ele morre. O cara que trancou o sujeito não
tem responsabilidade (trancar alguém no banheiro não é causa adequada para matar
alguém).

 Teoria da CAUSALIDADE DIRETA E IMEDIATA/teoria da


necessariedade do dano ou teoria da interrupção do nexo causal: essa
teoria encontra fundamento na doutrina do professor Agostinho Alvim,
Gustavo Tepedino e Carlos Roberto Gonçalves.

Para muitos, essa teoria foi adotada pelo CC/02, no art. 403.

Art. 403. Ainda que a inexecução resulte de dolo do devedor, as


perdas e danos só incluem os prejuízos efetivos e os lucros
cessantes por efeito dela DIRETO E IMEDIATO, sem prejuízo do
disposto na lei processual.

Para essa teoria basta ver qual é a CAUSA DIRETA do fato

Está é uma teoria que restringe a causa do fato à causa direta. Esta teoria
parte da premissa de análise mais incisiva porque para ela é preciso que exista um
vínculo, um liame necessário, entre aquele antecedente que se considera causa e o
resultado. Por essa teoria, você se pergunta: #Esse comportamento anterior foi
CAUSA DIRETA desse resultado? Se a resposta for sim, é porque há o nexo de
causalidade. Para essa teoria você não pergunta se a causa é adequada. Você
pergunta se a causa é direta. Você vai indagar se há um vínculo necessário entre o
resultado e a causa.

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

TÍTULO IV
DO DANO E SUA LIQUIDAÇÃO

1- CONCEITO E REQUISITOS DE DANO


Sem a prova de dano, ninguém pode ser responsabilizada civilmente. O dano
pode ser material ou extrapatrimonial (moral).

Dano é a lesão de qualquer bem jurídico, patrimonial ou moral. É toda


desvantagem ou diminuição que sofremos em nossos bens jurídicos.

Embora se possa falar em responsabilidade civil sem culpa, não se pode falar
em responsabilidade civil sem dano.

Dano material ou patrimonial é o que afeta somente o patrimônio do


ofendido. Moral ou extra patrimonial é o que só ofende o lesado como ser humano,
não lhe atingindo o patrimônio. Se há consequências de ordem patrimonial, ainda que
mediante repercussão, o dano deixa de ser extrapatrimonial.

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

Lembrar!!! Indeniza-se o dano! Só há indenização com dano. Sem a prova do


dano, ninguém pode ser indenizado civilmente. O dano pode ser patrimonial ou
extra-patrimonial (moral), direto ou indireto. A inexistência de dano torna sem
objeto a pretensão a sua reparação.

EXCEÇÃO!!! Aquele que demanda dívida já paga deve pagar em dobro.

Art. 940. Aquele que demandar por dívida já paga, no todo ou em


parte, sem ressalvar as quantias recebidas ou pedir mais do que for
devido, ficará obrigado a pagar ao devedor, no primeiro caso, o dobro
do que houver cobrado e, no segundo, o equivalente do que dele
exigir, salvo se houver prescrição.

Para Carlos Roberto Gonçalves, esse é um caso de responsabilidade


independente de dano.

Para CRG, outra exceção é o art. 416 do CC, que permite ao credor cobrar a
cláusula penal sem precisar provar o prejuízo.

IMPORTANTE!!! O dano pode ser um dano reflexo, em ricochete ou indireto e


dano boomerang.

DANO INDIRETO remete-nos à ideia de uma cadeia de prejuízos: a mesma


vítima sofre um dano direto e danos indiretos ou consequenciais. Ex. Eu comprei um
cavalo. Quando recebi o animal, verifiquei que o animal tinha uma doença letal. Eu
sofri um dano direto porque o animal veio infectado, só que esse cavalo infectou três
outros cavalos meus. Neste caso, sofri danos indiretos. Danos indiretos não se
confundem com os danos reflexos ou em ricochete.

O DANO REFLEXO (ou em ricochete) é aquele que atinge, além da vítima


direta, uma vítima indireta a exemplo do filho que sofre o dano pela morte do pai.

IMPORTANTE!!! No dano indireto você tem uma vítima que sofre uma cadeia de
prejuízos. No dano reflexo há duas ou mais vítimas. O pai, num assalto foi alvejado e
vem a morrer. A vítima direta é o pai. A vítima indireta é o filho. Esse filho, ao entrar
com a indenização, pela ligação que tem com o pai, é a vítima indireta, que sofre o
chamado dano reflexo ou em ricochete.

No DANO BOOMERANG existe uma inversão de posições na relação jurídica


desencadeada pelo ato ilícito. Ex. Caio guiando o seu veículo abalroa o veículo de
Tício, causando-lhe dano. Tício, ato contínuo, em reação deflagra tiros no veículo de
Caio. Neste caso, quem era agente do dano se torna vítima e a vítima se torna autor.

IMPORTANTE!!! Ter em mente que nem todo dano é indenizável. Existem três
requisitos para o dano ser indenizável:

a) Lesão a um interesse juridicamente tutelado (o simples fim de um namoro,


por si só, não é interesse juridicamente tutelado para efeito de indenização).

b) A subsistência do prejuízo (o dano só é indenizável se o prejuízo subsistir).

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

c) Certeza do dano e atualidade. Atual é o dano que já existe no momento da


ação de responsabilidade. O dano, para ser indenizável, deve ser certo, não se
indeniza dano hipotético.

Obs. Este requisito é relativizado pela teoria francesa da perda de uma chance.

 Danos por PERDA DE UMA CHANCE.

No que concerne à perda de uma chance como nova categoria de dano, cresce na
jurisprudência o número de julgados de sua aplicação.

A perda de uma chance está caracterizada quando a pessoa vê frustrada uma


expectativa, uma oportunidade futura, que, dentro da lógica do razoável, ocorreria se as
coisas seguissem o seu curso normal. Essa chance deve ser séria e real. Buscando
critérios objetivos para a aplicação da teoria, Sérgio Savi leciona que a perda da chance
estará caracterizada quando a probabilidade da oportunidade for superior a 50%.

Inúmeros são os julgados que responsabilizam advogados por perderem prazos.

Na seara médica, o TJ-RS já responsabilizou um hospital por morte de recém-


nascido, havendo a perda de chance de viver. Fala-se ainda em perda de chance de cura
do paciente, pelo emprego de uma técnica malsucedida pelo profissional da saúde.

O TJ-RS também responsabilizou um curso preparatório para concursos que


assumiu o compromisso de transportar o aluno até o local da prova, porém houve atraso
no transporte, o que gerou a perda da chance de disputa em concurso público.

De toda sorte, em caso também envolvendo concurso público, o STJ entendeu


pela não incidência da teoria, pois a chance do candidato que teve a sua expectativa
frustrada não era séria e real. Informativo – 466 – AgRg no REsp 1.220.911.MA

IMPORTANTE!!! Acórdão sobre o tema: STJ, REsp 788.459/BA – caso “Show do


Milhão”. A senhora chegou na última pergunta do show do milhão e não soube
responder e ficou com 500 mil. Porém, depois soube que nenhuma das opções
apresentadas estava correta, e foi a juízo em busca dos outros 500 mil. Ela obteve êxito
na 1ª e 2ª instância, porém o STJ reduziu para 125 mil, ou seja 25% do valor, percentual
que também correspondia a probabilidade de acerto dela.

O STJ também entendeu ser possível a aplicação da perda de uma chance por
tratamento médico inadequado, conforme ementa abaixo colacionada:

“Teoria da perda de uma chance pode ser utilizada como critério para a
apuração de responsabilidade civil ocasionada por erro médico na hipótese em que o
erro tenha reduzido possibilidades concretas e reais de cura de paciente que venha a
falecer em razão da doença tratada de maneira inadequada pelo médico. STJ. 3ª
Turma. REsp 1.254.141-PR, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 4/12/2012.”

Tartuce vê com ressalvas o enquadramento da perda de uma chance como nova


categoria de dano, pois tais danos são, na grande maioria das situações, hipotéticos ou
eventuais e, na verdade, muitas situações descritas pelos adeptos da teoria podem ser

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

resolvidas em sede de danos morais, sem que a vítima tenha necessidade de provar que
a chance é séria e real.

2- PESSOAS OBRIGADAS A REPARAR O DANO


Responsável pelo pagamento da indenização é todo aquele que, por ação ou
omissão, voluntária, negligência ou imprudência, haja violado direito e causado
prejuízo a outrem. Na responsabilidade objetiva, é aquele que assumiu o risco do
exercício de determinada atividade ou aquele quem a lei prevê como responsável.

Há casos em que a pessoa passa a responder pelo ato de terceiro ou pelo fato
das coisas ou animais. E pode acontecer o concurso de agentes na prática de um ilícito,
surge ai a solidariedade.

Ocorre a solidariedade não só no caso de concorrer uma pluralidade de agentes,


como também entre as pessoas do art. 932 do CC.

IMPORTANTE!!! Art. 943 CC.


Art. 943. O direito de exigir REPARAÇÃO e a OBRIGAÇÃO DE
PRESTÁ-LA transmitem-se com a herança.

O dispositivo acima se aplica tanto ao dano moral quanto o patrimonial. E tanto


o direito de exigir a reparação quanto reparar o dano.

Entretanto, a responsabilidade do sucessor a título universal é limitada, pois


não pode ultrapassar as forças da herança.

3- PESSOAS QUE PODEM EXIGIR A REPARAÇÃO DO DANO


Compete a vítima da lesão pessoal ou patrimonial o direito de pleitear a
indenização. Vítima é que sofre o prejuízo. Assim, num acidente de carro, a vítima é a
pessoa que arca com as despesas do conserto, não precisa ser o proprietário, pode ser o
mero detentor.

Em caso de morte de um chefe de família, a esposa e os filhos tem direito de


pleitear a indenização, não na condição de herdeiros, mas na de vítima.

Prescreve o art. 948, II do CC:

Art. 948. No caso de homicídio, a indenização consiste, sem excluir


outras reparações:
II - na prestação de alimentos às pessoas a quem o morto os devia,
levando-se em conta a duração provável da vida da vítima.

Os beneficiários da pensão são apenas aqueles que tinham dependência


econômica da vítima. Em relação a esposa e aos filhos menores a dependência é
presumida. No caso dos outros parentes (ascendente, irmão e etc.) é necessário prova
de dependência.

Tem-se admitido o direito da companheira de receber indenização.

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

A reparação do dano moral pode ser reclamada pelo próprio ofendido ou


por seus herdeiros.

Lembrar!!! A pessoa jurídica pode sofrer dano moral e, portanto, está legitimada a
pleitear sua reparação.

Segundo a melhor doutrina, poderão apresentar-se por meio de seus


representantes legais, na qualidade de lesados diretos de dano moral, os menores
impúberes, os loucos e etc. porque, apesar de carecerem de discernimento, o
ressarcimento do dano não é considerado a reparação do sentimento, mas uma
indenização objetiva de um bem jurídico violado.

No entanto, há posição no sentido contrário, defendendo que essas, por não


possuírem discernimento, não sofrem dano moral. Porém, prevalece a primeira
posição, conforme julgado abaixo colacionado:

STJ 559 - DIREITO CIVIL. POSSIBILIDADE DE ABSOLUTAMENTE


INCAPAZ SOFRER DANO MORAL.
Determinado indivíduo é portador de doença mental grave (demência total e
irreversível). Certo dia, a filha desse indivíduo notou que houve saques
indevidos (fraudulentos) que foram feitos de sua conta bancária por um
terceiro. Foi proposta ação de indenização por danos morais contra o banco. O
absolutamente incapaz, mesmo sem entender seus atos e os de terceiros, pode
sofrer dano moral?

SIM. O absolutamente incapaz, ainda quando impassível de detrimento


anímico, pode sofrer dano moral.

O dano moral caracteriza-se por uma ofensa a direitos ou interesses


juridicamente protegidos (direitos da personalidade). A dor, o vexame, o
sofrimento e a humilhação podem ser consequências do dano moral, mas não a
sua causa. Dano moral: é a ofensa a determinados direitos ou interesses. Basta
isso para caracterizá-lo. Dor, sofrimento, humilhação: são as consequências do
dano moral (não precisam necessariamente ocorrer para que haja a
reparação). STJ. 4ª Turma. REsp 1.245.550-MG, Rel. Min. Luis Felipe Salomão,
julgado em 17/3/2015

4- DANO MATERIAL
4.1 DANO EMERGENTE E LUCRO CESSANTE

Indenizar significa reparar o dano causado a vitima integralmente. O critério


para o ressarcimento do dano material encontra-se no art. 402 do CC. Abrange o
pagamento do dano emergente e do lucro cessante.
Art. 402. Salvo as exceções expressamente previstas em lei, as
perdas e danos devidos ao credor abrangem, além do que ele
efetivamente perdeu (DANOS EMERGENTES), o que
razoavelmente deixou de lucrar (LUCRO CESSANTE).

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

a) Dano emergente: é efetivo prejuízo, a diminuição patrimonial sofrida pela


vítima.

b) Lucro cessante: é a frustração da expectativa de lucro. É a perda de um ganho


esperado. É apurado com base em fatos pretéritos, naquilo que vinha ocorrendo
anteriormente.

A prova do dano emergente é bastante simples, porque pode ser feita mediante
a juntada de documentos tais como, nota fiscal, recibos, orçamento e etc.

A prova dos lucros cessantes apresenta maior dificuldade. É apurado em


regra com base em fatos pretéritos, isto é, aquilo que vinha ocorrendo
anteriormente, não se confundindo com o dano meramente hipotético. Ex. Ônibus
parado por acidente. Pega a média dos últimos meses.

Para a caracterização dos lucros cessantes não basta a simples possibilidade de


realização do lucro, mas também não é indispensável a absoluta certeza de que este se
teria verificado sem a ocorrência do evento danoso. O que deve existir é uma
probabilidade objetiva.

Lembrar!!! O juiz, ao fixar a indenização em sede de responsabilidade civil,


poderá reduzir o quantum indenizatório considerando o GRAU DE CULPA do
infrator.
Art. 944. A INDENIZAÇÃO mede-se pela EXTENSÃO DO
DANO.
Parágrafo único. Se houver excessiva desproporção entre a
gravidade da culpa e o dano, poderá o juiz reduzir,
eqüitativamente, a indenização.

Obs. Como a redução é pelo grau da culpa, tem-se entendido que este redutor só se
aplica em casos de responsabilidade subjetiva.

4.2 A INFLUÊNCIA DE OUTROS ELEMENTOS

4.2.1 A correção monetária

Não há dúvida que, nas indenizações por ato ilícito, as verbas devem ser
corrigidas monetariamente. Deve ser tomado por base, para a estimativa do prejuízo, o
dia em que ele se deu. Em seguida procede-se a correção monetária.

Preceituam os arts. 389, 395 e 398 do CC:

Art. 389. Não cumprida a obrigação, responde o devedor por perdas e


danos, mais juros e atualização monetária segundo índices oficiais
regularmente estabelecidos, e honorários de advogado.

Art. 395. Responde o devedor pelos prejuízos a que sua mora der
causa, mais juros, atualização dos valores monetários segundo índices
oficiais regularmente estabelecidos, e honorários de advogado.
Parágrafo único. Se a prestação, devido à mora, se tornar inútil ao
credor, este poderá enjeitá-la, e exigir a satisfação das perdas e danos.

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

Art. 398. Nas obrigações provenientes de ato ilícito, considera-se o


devedor em mora, desde que o praticou.

Portanto, o valor das perdas e danos deve ser atualizado monetariamente, desde
o momento em que se configurou a mora do devedor (art. 395), ou, em se tratando de
ato ilícito, desde que o praticou (art. 398).

No entanto, quando o lesado efetua o pagamento das despesas que o ato ilícito
lhe acarretou, a atualização monetária deve ser calculada a partir do desembolso. Ex.
ação regressiva da seguradora contra o causador do dano, a correção corre a partir do
desembolso da seguradora.

Dispõe a súmula 490 do STF:

STF Súmula nº 490 - A pensão correspondente a indenização


oriunda de responsabilidade civil deve ser calculada com base no
salário-mínimo VIGENTE AO TEMPO DA SENTENÇA e
ajustar-se-á às variações ulteriores.

No caso dessa súmula, não se aplica a correção monetária, porque a pensão


estará automaticamente reajustada sempre que o salário mínimo for corrigido.

Obs. Entende o STF que tal súmula não ofende a CF (art. 7º, IV da CF) por ter como
parâmetro o salário mínimo para a fixação de indenização.

IMPORTANTE!!! Entretanto, o mesmo STF entende que, em hipótese não atinente a


indenização sob forma de pensão mensal, mas a título de dano moral, o magistrado
deve converter o quantum em reais, na sentença, para que, sobre o valor convertido,
recaia a correção monetária.

4.2.2 A incidência dos juros

Para que a reparação dos danos seja completa, a indenização deve ser acrescida
de juros. Estes podem ser simples ou compostos.

A sentença que julgar procedente a ação determinará que os juros devidos


sejam pagos desde o dia em que o ato ilícito foi praticado. Esses juros são os legais.

IMPORTANTE!!! Nos casos de INADIMPLEMENTO CONTRATUAL, contam-


se os juros de mora “desde a citação inicial”.

Art. 405. Contam-se os juros de mora desde a citação inicial.

Obs. Tal regra não se aplica liquidação das obrigações resultantes de ato ilícito, porque
para estas existe a norma do art. 398 do CC.

Art. 398. Nas obrigações provenientes de ato ilícito, considera-se o


devedor em mora, desde que o praticou.

Ex. Em caso de responsabilidade contratual do transportador (transporte de pessoas),


computam-se os juros a partir da data da citação e não a partir da data do evento
danoso.
39
William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

Por outro lado, prescreve a súmula 54 do STJ (responsabilidade


extracontratual):

STJ Súmula nº 54 - Os juros moratórios fluem a partir do evento


danoso, em caso de responsabilidade extracontratual.

4.2.3 O cálculo da verba honorária

Julgada procedente a ação, o réu será condenado também em verbas


honorárias, estas fixadas sobre o valor da condenação.

Art. 85 do NOVO CPC: A sentença condenará o vencido a


pagar honorários ao advogado do vencedor.
§ 1o São devidos honorários advocatícios na reconvenção, no
cumprimento de sentença, provisório ou definitivo, na execução,
resistida ou não, e nos recursos interpostos, cumulativamente.
§ 2o Os honorários serão fixados entre o mínimo de dez e o
máximo de vinte por cento sobre o valor da condenação, do
proveito econômico obtido ou, não sendo possível mensurá-lo,
sobre o valor atualizado da causa, atendidos:
I - o grau de zelo do profissional;
II - o lugar de prestação do serviço;
III - a natureza e a importância da causa;
IV - o trabalho realizado pelo advogado e o tempo exigido para o
seu serviço.

Quando a condenação incluir prestação de alimentos, sob forma de pensão


mensal, se aplica o art. 292, §1º e 2º do Novo CPC:

Art. 292.
§ 1o Quando se pedirem prestações vencidas e vincendas,
considerar-se-á o valor de umas e outras.
§ 2o O valor das prestações vincendas será igual a uma prestação
anual, se a obrigação for por tempo indeterminado ou por tempo
superior a 1 (um) ano, e, se por tempo inferior, será igual à soma das
prestações.

Nas execuções de indenização por ato ilícito que incluírem prestação de


alimentos, deve observar-se o art. 533 do NOVO CPC:

Art. 533. Quando a indenização por ato ilícito incluir prestação


de alimentos, caberá ao executado, a requerimento do
exequente, constituir capital cuja renda assegure o pagamento
do valor mensal da pensão.

Se a ação é julgada improcedente, a verba honorária é fixada, usualmente, em


porcentagem sobre o valor da causa.

4.2.4 Cumulação da pensão indenizatória com a de natureza previdenciária

40
William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

Não se deduzem da indenização por ato ilícito, exigido pelo direito comum, as
quantias recebidas pela vítima, ou seus beneficiários, dos institutos previdenciários ou
assistenciais, que se cumulam.

IMPORTANTE!!! Entretanto, no que toca ao seguro obrigatório, o STJ tem


adotado critério diverso, uma vez que o prêmio é pago com a finalidade de reparar
danos físicos de terceiros, no caso de acidentes de trânsito, de acordo com a única
finalidade de tal seguro. As verbas recebidas pela vítima a esse título devem ser
descontadas da indenização (inclusive moral). Súmula 246 do STJ.

STJ Súmula nº 246 - O valor do seguro obrigatório deve ser deduzido


da indenização judicialmente fixada.

4.3 A GARANTIA DO PAGAMENTO FUTURO DAS PRESTAÇÕES MENSAIS

Como ninguém pode garantir que o devedor solvente de hoje não estará
insolvente no futuro, dispõe o art. 533 do Novo CPC:
Art. 533. Quando a indenização por ato ilícito incluir prestação
de alimentos, caberá ao executado, a requerimento do
exequente, constituir capital cuja renda assegure o pagamento
do valor mensal da pensão.
§ 1o O capital a que se refere o caput, representado por imóveis
ou por direitos reais sobre imóveis suscetíveis de alienação,
títulos da dívida pública ou aplicações financeiras em banco
oficial, será inalienável e impenhorável enquanto durar a
obrigação do executado, além de constituir-se em patrimônio de
afetação.
§ 2o O juiz poderá substituir a constituição do capital pela
inclusão do exequente em folha de pagamento de pessoa jurídica
de notória capacidade econômica ou, a requerimento do
executado, por fiança bancária ou garantia real, em valor a ser
arbitrado de imediato pelo juiz.
§ 3o Se sobrevier modificação nas condições econômicas, poderá
a parte requerer, conforme as circunstâncias, redução ou
aumento da prestação.
§ 4o A prestação alimentícia poderá ser fixada tomando por base
o salário-mínimo.
§ 5o Finda a obrigação de prestar alimentos, o juiz mandará
liberar o capital, cessar o desconto em folha ou cancelar as
garantias prestadas.

Tal dispositivo refere-se exclusivamente a prestação de alimentos incluída


na INDENIZAÇÃO POR ATO ILÍCITO, restrita as hipóteses de homicídio e de
lesões corporais que acarretem redução ou incapacidade para o trabalho, NÃO
compreendendo os alimentos devidos em razão do parentesco ou resultantes do
direito de família.

O entendimento do Superior Tribunal de Justiça é no sentido da


OBRIGATORIEDADE de constituição de capital para garantir o pagamento da
pensão (art. 475-Q do CPC). Súmula 313/STJ. (REsp 1372889/SP, Rel. Ministro
PAULO DE TARSO SANSEVERINO, TERCEIRA TURMA, julgado em
13/10/2015, DJe 19/10/2015) – OBS: Esse era o posicionamento do STJ sobre a
matéria na égide do CPC de 1973. Ocorre que, com a nova redação do dispositivo

41
William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

referente a matéria, NÃO é mais possível ao magistrado determinar, de ofício, a


constituição do capital, pois depende de pedido do exequente nesse sentido.

Súmula 313 do STJ - Em ação de indenização, procedente o pedido, é necessária a


constituição de capital ou caução fidejussória para a garantia de pagamento da
pensão, independentemente da situação financeira do demandado.

4.4 PRISÃO CIVIL DO DEVEDOR

O preceito constitucional que excepcionalmente permite a prisão civil por


dívida, nas hipóteses de prisão alimentar, há de ser restritivamente interpretado, não
tendo aplicação analógica as hipóteses de prestação alimentar derivada de ato
ilícito.

4.5 ATUALIZAÇÃO E REVISÃO DAS PENSÕES

Dispõe o § 3o do art. 533 do Novo CPC:


§ 3o Se sobrevier modificação nas condições econômicas, poderá
a parte requerer, conforme as circunstâncias, redução ou
aumento da prestação.

Diante desse dispositivo, verifica-se que o legislador fez opção por admitir
expressamente que a prestação alimentar decorrente de ato ilícito pode,
independentemente da situação do encargo (capital constituído), sofrer redução
ou aumento, se sobrevier modificação nas condições econômicas das partes.

Tal entendimento não se aplica a revisão em caso de homicídio, uma vez que a
indenização é fixada sob a forma de pensão, com base nos rendimentos que o falecido
recebia ao sucumbir. Eventual ação revisional seria baseada em situação hipotética, e,
portanto, inaceitável, qual seja a de que se o falecido estivesse vivo, poderia ter
alcançado melhor situação financeira.

Entretanto, pode-se admitir a revisão de pensão em caso de lesão corporal que


acarretou a redução da capacidade de trabalho, verificando-se posteriormente que
houve agravamento das lesões ou que a vítima se recuperou. A ação revisional nesse
caso tem por fundamento ao art. 505, I do Novo CPC:

Art. 505. Nenhum juiz decidirá novamente as questões já


decididas relativas à mesma lide, salvo:
I - se, tratando-se de relação jurídica de trato continuado,
sobreveio modificação no estado de fato ou de direito, caso em
que poderá a parte pedir a revisão do que foi estatuído na
sentença;

5- DANO MORAL
5.1 CONCEITO E CARACTERÍSTICAS

Dano moral é LESÃO A DIREITO DA PERSONALIDADE (sempre). É o


que atinge o ofendido como pessoa, não atingindo seu patrimônio.

42
William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

Em sua primeira fase, o dano moral era irreparável. Falava-se em não haver
preço da dor. Argumentava-se também que o dano moral não seria mensurável. Para
eles, admitir o dano moral seria dar poder excessivo ao juiz.

Numa segunda fase, no Brasil o dano moral passou a ser reparável, desde que
condicionado à um dano material sofrido. Não existia autonomia jurídica na reparação
do dano moral.

Em um terceiro momento, já após a CF/88 (art. 5º, V e X), o dano moral passou
a ser reparado de maneira autônoma.

O CC/02 torna explícita a reparação por dano moral, para afastar qualquer
dúvida quanto à sua reparabilidade.

Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou


imprudência, violar direito e causar dano a outrem, AINDA QUE
EXCLUSIVAMENTE MORAL, comete ato ilícito.

“Só se deve reputar como dano moral a dor, vexame, sofrimento ou humilhação
que, fugindo a normalidade, interfira intensamente no comportamento psicológico do
indivíduo, causando-lhe aflições, angustia e desequilíbrio em seu bem estar. Mero
aborrecimento esta fora da orbita do dano moral, pois fazem parte da normalidade
do nosso dia a dia. (Sergio Cavalieri).”

Dessa forma, não se incluem na esfera do dano moral a pessoa ficar presa em
porta detectora de metal em banco e exame de malas na alfândega.

Prevalecia na jurisprudência que é irrelevante que o pedido de indenização por


dano moral tenha sido proposto de forma genérica, uma vez que caberia ao prudente
arbítrio do juiz a fixação do quantum a título de reparação. Ocorre que, com o advento
do NOVO CPC, alguns autores entenderam que os danos morais não podem mais
serem pedidos de forma genérica, devendo constar o valor pretendido de forma
expressa.

IMPORTANTE!!! É perfeitamente cumulável, dada a sua autonomia, o pedido de


indenização por dano moral e por dano estético (danos materiais decorrentes do dano
estético).

O dano moral dispensa prova em concreto, pois se passa no interior da


personalidade e existe IN RE IPSA (se presume a existência). Trata-se de presunção
absoluta. Ex. mãe não precisa comprovar que sentiu a morte do filho.

IMPORTANTE!!! #O que é dano moral in re ipsa?


Há danos morais que, pela sua frequência e pela sua natureza dispensam prova em
juízo. Dano in re ipsa é aquele que DISPENSA PROVA EM JUÍZO. Ex. Nos casos
de protesto indevido de título ou expedição irregular de cadastro de inadimplentes,
o dano moral se configura in re ipsa, isto é, dispensa a prova, ainda que a pessoa
prejudicada seja pessoa jurídica.

43
William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

IMPORTANTE!!! Quando se atinge direitos fundamentais o dano é presumido (in


re ipsa).

IMPORTANTE!!! O ministro do STJ Paulo de Tarso Sanseverino defende a utilização


do MÉTODO BIFÁSICO para a fixação do quantum dos danos morais ocorridos:

“O método mais adequado para um arbitramento razoável da indenização por dano


extrapatrimonial resulta da reunião dos dois últimos critérios analisados (valorização
sucessiva tanto das circunstâncias como do interesse jurídico lesado).

Na primeira fase, arbitra-se o valor básico ou inicial da indenização, considerando-se


o interesse jurídico lesado, em conformidade com os precedentes jurisprudenciais
acerca da matéria (grupo de casos). Assegura-se, com isso, uma exigência da justiça
comutativa que é uma razoável igualdade de tratamento para casos semelhantes,
assim como que situações distintas sejam tratadas desigualmente na medida em que
se diferenciam.

Na segunda fase, procede-se à fixação definitiva da indenização, ajustando-se o seu


montante às peculiaridades do caso com base nas suas circunstâncias. Partindo-se,
assim, da indenização básica, eleva-se ou reduz-se esse valor de acordo com as
circunstâncias particulares do caso (gravidade do fato em si, culpabilidade do agente,
culpa concorrente da vítima, condição econômica das partes) até se alcançar o
montante definitivo. Procede-se, assim, a um arbitramento efetivamente eqüitativo,
que respeita as peculiaridades do caso.” (REsp 1152541/RS, Rel. Ministro PAULO
DE TARSO SANSEVERINO, TERCEIRA TURMA, julgado em 13/09/2011, DJe
21/09/2011)

5.2 DANO MORAL E A CF

Prescreve a CF em seu art. 5º incisos V e X:

V - é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além


da indenização por dano material, moral ou à imagem;

X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem


das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou
moral decorrente de sua violação;

Admite-se sem qualquer divergência a cumulação do dano material com dano


moral. Súmula 37 do STJ.

STJ Súmula nº 37 - São cumuláveis as indenizações por dano


material e dano moral oriundos do mesmo fato.

É cediço que os direitos da personalidade são personalíssimos e, portanto,


intransmissíveis. Entretanto, a pretensão ou direito de exigir sua reparação
pecuniária transmite-se aos sucessores (art. 943 CC).

Obs. Embora os direitos a personalidade sejam imprescritíveis, a pretensão a sua


reparação está sujeita a prazos prescricionais estabelecidos em lei.

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

IMPORTANTE!!! Dano moral e pessoa jurídica. Vem prevalecendo o


entendimento que ADMITE a responsabilidade do dano moral infligido a pessoa
jurídica, especialmente no caso de danos resultantes de abalo de credibilidade. A
pessoa jurídica é titular de honra objetiva, fazendo jus a indenização a dano moral
sempre que seu bom nome, reputação ou imagem forem atingidos no meio comercial
por algum ato ilícito. Nesse sentido a súmula 227 do STJ.

Súmula 227 STJ - “A pessoa jurídica pode sofrer dano moral.”

5.2.1 Responsabilidade Nas Relações De Família

A partir do momento que a CF promoveu a dignidade da pessoa humana, a


responsabilidade civil nas relações de família ganhou força.

É inegável que no campo das relações de família ocorre dano moral.

É possível que a mulher ou marido ajuíze ação de separação cumulada com dano
moral (no caso de traição, por exemplo).

O STJ decidia não haver como reconhecer o abandono afetivo como passível de
indenização por dano moral, afirmando que a lei prevê, como punição, apenas a perda
do poder familiar e, por maior que seja o sofrimento do filho, o direito de família tem
princípios próprios, que não podem ser contaminados por outros, com significações de
ordem patrimonial. Porém, houve uma virada jurisprudencial no âmbito do Tribunal,
que agora, majoritariamente, permite os danos morais pelo abandono afetivo:

STJ 496 - DANOS MORAIS. ABANDONO AFETIVO.


DEVER DE CUIDADO.
O abandono afetivo decorrente da omissão do genitor
no dever de cuidar da prole constitui elemento
suficiente para caracterizar dano moral compensável.
O descumprimento comprovado da imposição legal de
cuidar da prole acarreta o reconhecimento da ocorrência
de ilicitude civil sob a forma de omissão. É consabido que,
além do básico para a sua manutenção (alimento, abrigo e
saúde), o ser humano precisa de outros elementos
imateriais, igualmente necessários para a formação
adequada (educação, lazer, regras de conduta etc.). A Min.
Relatora salientou que, na hipótese, não se discute o
amar – que é uma faculdade – mas sim a imposição
biológica e constitucional de cuidar, que é dever
jurídico, corolário da liberdade das pessoas de gerar
ou adotar filhos. Ressaltou que os sentimentos de mágoa
e tristeza causados pela negligência paterna e o tratamento
como filha de segunda classe, que a recorrida levará ad
perpetuam, é perfeitamente apreensível e exsurgem das
omissões do pai (recorrente) no exercício de seu dever de
cuidado em relação à filha e também de suas ações que
privilegiaram parte de sua prole em detrimento dela,

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

caracterizando o dano in re ipsa e traduzindo-se, assim,


em causa eficiente à compensação.

5.3 A QUANTIFICAÇÃO DO DANO MORAL

Não tem aplicação, em nosso país, o critério da tarifação, pelo qual o quantum
das indenizações é prefixado.

Predomina entre nós o critério do arbitramento pelo juiz.

1º) SISTEMA ABERTO OU LIVRE: Arbitrar o dano moral é, no caso concreto,


defini-lo no quantum mais adequado para o caso concreto (predomina no Brasil).

Obs. O sistema do arbitramento deve ser podado por súmulas e pela uniformização de
jurisprudência, para evitar subjetivismos.

2º) SISTEMA TARIFADO: que utiliza o sistema do tarifamento legal. Pretende


estabelecer em lei critérios prévios de quantificação por dano moral. Ou seja, se
pretende fazer um tabelamento do valor devido a titulo de dano moral.

Em geral afirma-se que a natureza jurídica da reparação por dano moral é


compensatória para a vítima e punitiva para o ofensor.

O ressarcimento do dano MATERIAL tem natureza sancionatória indireta,


servindo para desestimular o ofensor a repetição do ato. A finalidade precípua do
ressarcimento dos danos não é punir o responsável, e sim recompor o patrimônio do
lesado. O caráter punitivo é meramente reflexo, indireto.

A finalidade precípua da reparação do DANO MORAL, por outro lado, é


proporcionar uma compensação a vítima.

Não se justifica, pois, como pretendem alguns, que o julgador, depois de arbitrar
o montante suficiente para compensar o dano moral sofrido pela vítima, adicione-lhe
um plus a título de pena civil, inspirando-se nas punitive damages do direito norte
americano. Revertendo a indenização em proveito do lesado, este acabará
experimentando um enriquecimento ilícito. Tal critério somente se justificaria se
estivesse regulamentado em lei, com fixação de sanção mínima e máxima, revertendo
ao estado o quantum da pena.

Verifica-se, em conclusão, que não há um critério objetivo e uniforme para o


arbitramento do dano moral. Cabe ao juiz a tarefa de, em cada caso, agindo com bom
senso e usando da justa medida das coisas, fixar um valor razoável e justo para a
indenização.

Na fixação da indenização por danos morais, recomendável que o arbitramento


seja feito com moderação, proporcionalmente ao grau da culpa, ao nível
socioeconômico dos autores, e do bem jurídico lesado.

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

IMPORTANTE!!! Segundo o STJ, na fixação por DANOS MORAIS, o juiz deve agir
com equidade, analisando:

 A extensão do dano;
 As condições socioeconômicas e culturais dos envolvidos;
 As condições psicológicas das partes;
 O grau de culpa do agente, de terceiro ou da vítima.

Se o valor arbitrado não pode ser muito elevado, por outro lado não pode ser
diminuto a ponto de se tornar inexpressivo e inócuo. Dai a necessidade de se encontrar o
meio termo ideal.

5.4 DISPOSIÇÕES FINAIS ACERCA DO DANO MORAL

#Cabe incidência de imposto de renda na indenização por dano moral?


O STJ decidiu que NÃO incide IR, o dano moral é apenas um quantum para voltar ao
status quo ante, não ganho de capital. A indenização é a justa reparação, não é ganho
de capital.

 Prazo Prescricional Para Reclamar Dano Moral

IMPORTANTE!!! O prazo prescricional da pretensão de indenização por dano moral


pode ser de três anos, de acordo com o CC ou de cinco anos, no âmbito do CDC (art.
27).

CDC Art. 27. Prescreve em cinco anos a pretensão à reparação pelos


danos causados por fato do produto ou do serviço prevista na Seção
II deste Capítulo, iniciando-se a contagem do prazo a partir do
conhecimento do dano E de sua autoria.

Obs. Os direitos da personalidade são imprescritíveis. Contudo, violado um direito da


personalidade, a pretensão de indenização é prescritível.

6- A INDENIZAÇÃO EM CASO DE HOMICÍDIO


Dispõe o art. 948 do CC:

Art. 948. No caso de homicídio, a indenização consiste, sem excluir


outras reparações:
I - no pagamento das despesas com o tratamento da vítima, seu funeral
e o luto da família;
II - na prestação de alimentos às pessoas a quem o morto os devia,
levando-se em conta a duração provável da vida da vítima.

Referido dispositivo é meramente exemplificativo, devendo ser indenizado todo


prejuízo sofrido e demonstrado. Incluem-se, por exemplo, funeral (não precisa ser
demonstrado – este se presume), dano moral, dano emergente etc.

6.1 MORTE DE CHEFE DE FAMÍLIA

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

Quando morre chefe de família, o autor do homicídio deve pagar as pessoas que
eram por ele sustentadas, como ressarcimento do dano patrimonial, uma indenização
sob a forma de pensão mensal.

A esposa ou companheira e o filho incapaz terão direito ao recebimento da


pensão somente durante o tempo de vida provável do chefe de família (65 anos – o STJ
tem entendido recentemente que essa idade subiu para 70). Se já ultrapassara tal idade,
considera-se razoável uma sobrevida de 5 anos.

Em geral, é paga metade aos filhos menores não casados e metade a viúva ou
companheira.

A viúva ou companheira terá direito a pensão somente enquanto se


mantiverem em estado de viuvez e não conviverem em união estável.

Só fazem jus ao beneficio os filhos menores não casados, cuja dependência é


presumida, e até atingir a idade de 25 anos, perdendo-o os que se casarem antes.
Continuarão a receber a pensão, os filhos com mais de 25 anos portadores de deficiência
física ou mental, que os impossibilitem de prover o próprio sustento.

De outros parentes exige-se prova de que dependiam economicamente do de


cujus.

A pensão mensal é calculada com base na renda auferida pela vítima,


descontando-se sempre um terço, porque, se estivesse viva, estaria despendendo pelo
menos um terço de seus ganhos em sua própria manutenção.

O quantum apurado deve ser convertido em salários mínimos, pelo valor vigente
ao tempo da sentença, ajustando-se as variações ulteriores.

IMPORTANTE!!! Se a vítima não tinha rendimento fixo, ou não foi possível prova-lo,
mas sustentava a família, a pensão será fixada em dois terços de um salário mínimo.

Tem-se reconhecido aos beneficiários o direito de acrescer. Portanto, cessado


o direito de um deles, sua cota na pensão transfere-se ou acresce-se a dos demais.

Não se reduz da pensão mensal a quantia paga pelos institutos


previdenciários, cumulando-se as duas pensões, porque decorrem de causas diversas.

IMPORTANTE!!! Não se pode decretar a prisão civil do devedor que frustra o


pagamento das pensões mensais, pois estas não passam de indenização por ato ilícito.

Além da satisfação do dano patrimonial, cabe também pedido de reparação do


dano moral, oriundo do mesmo fato, cumulativamente.

6.2 MORTE DA ESPOSA OU COMPANHEIRA

Aplicam-se as mesmas observações a respeito da morte do chefe de família.

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

Se a esposa só cuidava dos afazeres domésticos, deve ela corresponder ao


necessário para a contratação de uma pessoa para esses misteres.

Cabe também a reparação por dano moral.

6.3 MORTE DE FILHO

Dispõe a Súmula 491 do STF:

STF Súmula 491 - É indenizável o acidente que causa a morte de


filho menor, ainda que não exerça trabalho remunerado.

A súmula é aplicada aos casos envolvendo famílias de baixa renda, hipótese


em que o dano material por lucros cessantes às economias domésticas é tido como
presumido (in re ipsa). O cálculo deve ser feito com base em um salário mínimo (ou 2/3
deste), do período em que o menor tiver 14 anos, até os 24/25 anos, limite temporal em
que colaboraria o menor com as economias domésticas. Se já ultrapassará esse limite e
auxiliava na manutenção da casa, é razoável presumir que continuaria a prestar ajuda
aos pais por mais 5 anos.

Todavia, há julgados mais recentes que deferem os alimentos indenizatórios aos


pais após a idade de 25 anos do menor. Supõe-se que o filho contribuiria com a
economia doméstica dos pais em 1/3 dos seus rendimentos, até a idade de sua vida
provável. Tartuce discorda desses julgados, pois entende que não se pode deduzir que o
filho continuará a contribuir para as economias domésticas dos pais após constituir a sua
própria família.

7- INDENIZAÇÃO EM CASO DE LESÃO CORPORAL


7.1 LESÃO CORPORAL DE NATUREZA LEVE

Dispõe o art. 949 do CC:

Art. 949. No caso de lesão ou outra ofensa à saúde, o ofensor


indenizará o ofendido das despesas do tratamento e dos lucros
cessantes até ao fim da convalescença, além de algum outro prejuízo
que o ofendido prove haver sofrido.

É possível, também, a indenização por dano moral.

7.2 LESÃO CORPORAL DE NATUREZA GRAVE

O art. 949 do CC aplica-se a lesão corporal leve e grave.

Desse modo, em caso de lesão corporal, de natureza leve ou grave, indenizam-se


as despesas do tratamento e os lucros cessantes até o fim da convalescença, fixando-se o
dano moral em cada caso, conforme as circunstâncias, segundo prudente arbítrio
judicial.

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

A gravidade do dano é fato a ser considerado pelo magistrado, na fixação do


quantum indenizatório do dano moral. Para que se caracterize a deformidade, é preciso
que haja o dano estético.

 Danos estéticos

São tratados pela doutrina e pela jurisprudência como uma modalidade separada
de dano extrapatrimonial.

Quando falamos em dano estético, estamos querendo significar a lesão à beleza


física, à harmonia das formas externas de alguém. Mas o conceito de belo é relativo. Ao
apreciar-se um prejuízo estético, deve-se ter em mira a modificação sofrida pela pessoa
em relação ao que ela era.

Tais danos, em regra, estão presentes quando a pessoa sofre feridas, cicatrizes,
cortes superficiais ou profundos em sua pele, lesão ou perda de órgãos internos ou
externos do corpo, aleijões, amputações, entre outras anomalias que atingem a
dignidade humana. Esse dano, nos casos em questão, será também presumido (in re
ipsa), como ocorre com o dano moral objetivo.

O STJ vem entendendo há tempo que o dano estético é algo distinto do dano
moral, pois há no primeiro “uma alteração morfológica da formação corporal que
agride a visão, causando desagrado e repulsa”. Já no dano moral há um “sofrimento
mental”. O dano estético seria visível, “porque concretizado na deformidade”.

Súmula 387 do STJ – É lícita a cumulação de dano estético e dano


moral.

7.3 INABILITAÇÃO PARA O TRABALHO

Dispõe o art. 950 do CC:

Art. 950. Se da ofensa resultar defeito pelo qual o ofendido não possa
exercer o seu ofício ou profissão, ou se lhe diminua a capacidade de
trabalho, a indenização, além das despesas do tratamento e lucros
cessantes até ao fim da convalescença, incluirá pensão
correspondente à importância do trabalho para que se inabilitou,
ou da depreciação que ele sofreu.
Parágrafo único. O prejudicado, se preferir, poderá exigir que a
indenização seja arbitrada e paga de uma só vez. SOMENTE NO
CASO DE INCAPACIDADE LABORATIVA!!!! NÃO PODE NA
PENSÃO POR MORTE!!!!

A inabilitação refere-se a profissão exercida pela vítima na ocasião dos fatos e


não a qualquer atividade remunerada. O grau de incapacidade é apurado mediante
perícia médica. Assim, se a renda da vítima era de 2 salários mínimos por mês e o grau
de redução de sua capacidade de trabalho foi de 50%, a pensão será fixada em um
salário.

O pagamento dos lucros cessantes será efetuado até a obtenção da alta médica.
Dai por diante, corresponderá a uma porcentagem do salário que a vítima deveria

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

receber normalmente, proporcional a redução de sua capacidade laborativa, sob a


forma de pensão mensal vitalícia.

A falta de prova dos rendimentos que o ofendido recebia por ocasião do


evento danoso conduz a adoção do salário mínimo como base para a fixação da
referida porcentagem.

IMPORTANTE!!! Se a vítima se encontrava incapacitada de exercer atividade


laborativa (era aposentada, tinha problema de saúde, idosa), não há de se falar em
pagamento de pensão pela redução ou incapacidade laborativa (TJ MG). Nesse caso,
restringe-se a reparação ao pagamento das despesas consequentes e necessárias para a
recuperação.

O lesado faz jus também a uma verba para pagamento de terceiros contratados
para a execução de serviços domésticos para os quais se viu temporariamente
incapacitado.

8- USURPAÇÃO OU ESBULHO ALHEIO


Dá-se o esbulho possessório quando alguém é desapossado de bem móvel ou
imóvel por meios violentos ou clandestinos.

Dispõe o art. 952 do CC:

Art. 952. Havendo usurpação ou esbulho do alheio, além da


restituição da coisa, a indenização consistirá em pagar o valor das
suas deteriorações e o devido a título de lucros cessantes; faltando
a coisa, dever-se-á reembolsar o seu equivalente ao prejudicado.
Parágrafo único. Para se restituir o equivalente, quando não exista a
própria coisa, estimar-se-á ela pelo seu preço ordinário e pelo de
afeição, contanto que este não se avantaje àquele.

Portanto, deve ser devolvida a própria coisa, acrescida de perdas e danos.

Se a própria coisa não puder ser devolvida, além de receber o preço equivalente
ao valor real da coisa desaparecida, o dono receberá, também, o valor de afeição
(espécie de dano moral), que não poderá ser superior aquele.

9- RESPONSABILIDADE DOS MÉDICOS E OUTROS


Dispõe o art. 951 do CC:

Art. 951. O disposto nos arts. 948, 949 e 950 aplica-se ainda no caso
de indenização devida por aquele que, no exercício de atividade
profissional, por negligência, imprudência ou imperícia, causar a
morte do paciente, agravar-lhe o mal, causar-lhe lesão, ou inabilitá-lo
para o trabalho.

Exige-se, portanto, prova de culpa dos médicos. Tal exigência foi reproduzida
no CDC:

51
William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

Art. 14. O fornecedor de serviços responde, independentemente da


existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos
consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços, bem
como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição
e riscos.
§ 4° A responsabilidade pessoal dos profissionais liberais será
apurada mediante a verificação de culpa.

A reponsabilidade dos médicos pode ser contratual ou extracontratual


(emergência). Eles assumem obrigação de meio, e não de resultado.

Obs. os cirurgiões plásticos assumem obrigação de resultado, porque seu trabalho é, em


geral, de natureza estética (responsabilidade subjetiva com culpa presumida). No
entanto, quando a intervenção não for de natureza reparatória (queimaduras, vítimas
deformadas), a obrigação será de meio (responsabilidade subjetiva comum).

10- CRIMES CONTRA A HONRA E OFENSA A LIBERDADE


PESSOAL
Art. 953. A indenização por injúria, difamação ou calúnia consistirá
na reparação do dano que delas resulte ao ofendido.
Parágrafo único. Se o ofendido não puder provar prejuízo material,
caberá ao juiz fixar, equitativamente, o valor da indenização, na
conformidade das circunstâncias do caso.

Lembrar!!! Tem-se admitido a reparabilidade do dano moral causado a pessoa jurídica.

No tocante a legitimidade passiva para a ação indenizatória, dispõe a súmula 221


do STJ:
STJ Súmula nº 221 - São civilmente responsáveis pelo ressarcimento
de dano, decorrente de publicação pela imprensa, tanto o autor do
escrito quanto o proprietário do veículo de divulgação.

No que toca a liberdade, dispõe o art. 954 do CC:


Art. 954. A indenização por ofensa à liberdade pessoal consistirá no
pagamento das perdas e danos que sobrevierem ao ofendido, e se este
não puder provar prejuízo, tem aplicação o disposto no parágrafo
único do artigo antecedente (equidade).
Parágrafo único. Consideram-se ofensivos da liberdade pessoal:
I - o cárcere privado;
II - a prisão por queixa ou denúncia falsa e de má-fé;
III - a prisão ilegal.

LIVRO III
AS EXCLUDENTES DA RESPONSABILIDADE
CIVIL

1- LEGÍTIMA DEFESA E ESTADO DE NECESSIDADE

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

No estado de necessidade, por força do perigo iminente, o agente, visando a


salvaguardar direito seu ou de outrem, agride interesse jurídico alheio, caso as
circunstâncias o tornem absolutamente necessário (art. 188, inc. II e § único do CC); já
na legitima defesa (art. 188, I, primeira parte), o agente atua defensivamente em face de
uma agressão injusta atual ou iminente.

Art. 188. Não constituem atos ilícitos: (trata-se de


RESPONSABILIDADE POR ATO LÍCITO)
I - os praticados em legítima defesa ou no exercício regular de um
direito reconhecido;
II - a deterioração ou destruição da coisa alheia, ou a lesão a
pessoa, a fim de remover perigo iminente (estado de necessidade).
Parágrafo único. No caso do inciso II, o ato será legítimo somente
quando as circunstâncias o tornarem absolutamente necessário,
não excedendo os limites do indispensável para a remoção do
perigo.

IMPORTANTE!!! Nos termos dos artigos 929 e 930 do CC, atuando em estado de
necessidade ou legítima defesa, caso seja atingido terceiro inocente, o agente deverá
indenizá-lo, cabendo-lhe direito de regresso em face do verdadeiro culpado ou do
agressor. É RESPONSABILIDADE POR ATO LÍCITO, apesar de estar em estado
de necessidade ou legítima defesa, se deve indenizar.
Art. 929. Se a pessoa lesada, ou o dono da coisa, no caso do inciso II
(estado de necessidade) do art. 188, não forem culpados do perigo,
assistir-lhes-á direito à indenização do prejuízo que sofreram.

Art. 930. No caso do inciso II do art. 188 (estado de necessidade), se


o perigo ocorrer por culpa de terceiro, contra este terá o autor do dano
ação regressiva para haver a importância que tiver ressarcido ao
lesado.
Parágrafo único. A mesma ação competirá contra aquele em defesa
de quem se causou o dano (art. 188, inciso I). (legítima defesa e
estrito cumprimento de um dever legal)

IMPORTANTE!!! Na legitima defesa, se o ato foi praticado contra o próprio


agressor, e em legitima defesa, não pode o agente ser responsabilizado civilmente
pelos danos provocados. Portanto, somente na legítima defesa real, e praticada
contra o agressor, deixa de ser ato ilícito, apesar do dano causado, impedindo a
ação de ressarcimento. Se o agente por erro de pontaria (aberratio ictus), atingir um
terceiro, ficará obrigado a indenizar os danos a este causados, pois quem causa dano a
outrem é obrigado a reparar o prejuízo, ficando porém com o direito a ação regressiva
contra o injusto agressor.

IMPORTANTE!!! A legitima defesa putativa NÃO exime o réu de indenizar o


dano, pois somente exclui a culpabilidade, e não a antijuricidade do ato.

2 - ESTRITO CUMPRIMENTO DO DEVER LEGAL E EXERCÍCIO


REGULAR DE UM DIREITO
Segundo Frederico Marques, o estrito cumprimento de dever legal é uma espécie
de exercício regular de direito.

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

Art. 188. Não constituem atos ilícitos:


I - os praticados em legítima defesa ou no exercício regular de um
direito reconhecido;

Exemplo de estrito cumprimento do dever legal: oficial de justiça que cumpre


mandado de prisão; agente da INFRAERO que manda o sujeito colocar o cinto etc.

Exemplo de exercício regular de direito: guarda-volumes de supermercado,


não poder entrar com bolsa (TJRS AC 70002638112); porta giratória de banco também
é exercício regular de direito e o STJ (Resp 689213-RJ) dá-nos a idéia de que o mero
travamento da porta giratória não gera responsabilidade civil, mas sim a abordagem
constrangedora; alarme de loja por si só não gera dano moral.

Do mesmo jeito que o sujeito tem o direito de botar ofendículos para proteger
sua casa (cerca elétrica, portões pontiagudos...) os estabelecimentos comerciais também
tem. A propósito, cerca elétrica, cacos de vidros nos muros, a meu ver também se
enquadram em exercício regular de um direito, excluindo a responsabilidade.

3- CASO FORTUITO OU FORÇA MAIOR


A doutrina é completamente divergente no que toca os conceitos de caso
fortuito e força maior.

Para Pablo Stolze, há uma tendência na doutrina em dizer que força maior é o
evento inevitável e caso fortuito é do evento imprevisível.

Em geral a força maior está ligada a fatos da natureza (Ex. Terremoto da china,
até é possível prever o terremoto, mas é impossível evitá-lo). Caso fortuito
normalmente está ligado a fatos humanos (seqüestro relâmpago é imprevisível). Muitas
vezes os conceitos são sinônimos.

O CC brasileiro no art. 393, não cuida de diferenciar conceitualmente caso


fortuito de força maior.

Obs. Apesar de o caso fortuito/força maior, em regra, excluírem a responsabilidade, o


devedor pode expressamente se responsabilizar por eles (Ex. As companhias de
seguro assumem o risco pelo caso fortuito e força maior).

Tipos de fortuito:

 FORTUITO INTERNO: não exclui a responsabilidade porque


participa do processo de elaboração do produto ou de execução do
serviço (é o que ocorre durante a fabricação do produto ou execução do
serviço). Ex: roubo de malote contido em carro forte.
 FORTUITO EXTERNO: haverá exclusão da responsabilidade,
porque no fortuito externo o processo de fabricação do produto ou
execução do serviço já acabou. Ex: assalto a um ônibus em uma rodovia.

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

#Qual é o tratamento jurídico dado pelos tribunais superiores em caso de assalto a


mão armada em ônibus ou transporte coletivo? A transportadora responde?
NÃO. O STJ já fixou seu entendimento no sentido de que o assalto traduz um
fortuito externo, excludente de sua responsabilidade civil (Resp 726371/RJ). Trata-
se de uma falha de segurança pública, do qual a transportadora também é vítima. Outra
posição, nos tribunais inferiores (TJRJ) que, se o assalto é reiterado numa mesma linha,
passa a haver previsibilidade e a empresa passaria a ser responsabilizada.

4 - CULPA EXCLUSIVA DA VÍTIMA


Tem o condão de romper o nexo de causalidade, eximindo o agente da
responsabilidade civil. Pode-se afirmar que, no caso de culpa exclusiva da vítima, o
causador do dano não passa de mero instrumento do acidente. Não há liame de
causalidade entre o seu ato e o prejuízo sofrido pela vitima.

A culpa exclusiva da vítima pode ser trabalhada no direito administrativo, no


direito do consumidor e em outros ramos do direito.

IMPORTANTE!!! A CULPA CONCORRENTE apenas reduz o quantum


indenizatório, não tendo o condão de afastar a responsabilidade (art. 945).

Art. 945. Se a vítima tiver concorrido culposamente para o evento


danoso, a sua indenização será fixada tendo-se em conta a
gravidade de sua culpa em confronto com a do autor do dano.

5 - FATO DE TERCEIRO
A CULPA DE TERCEIRO NÃO exonera o autor direto do dano do dever
jurídico de indenizar. Por exemplo, se o motorista colide o seu carro com o que estava
estacionado, de nada lhe adianta alegar que foi “fechado” por terceiro. Cabe-lhe
indenizar o dano causado e mover ação regressiva contra o terceiro.

 Teoria do CORPO NEUTRO

IMPORTANTÍSSIMO!!! Ressalva-se, no entanto, a hipótese de o fato de terceiro


equiparar-se a fortuito, como por exemplo, o caso em que dois veículos se encontram
parados, um em frente do outro, aguardando a abertura do semáforo, e o segundo é
colidido na traseira por um terceiro, sendo jogado contra a traseira do que está a frente.
Nesse caso se o dono do primeiro veículo acionar o motorista do segundo, este poderá
defender-se com sucesso, alegando o fato de terceiro, ou seja, que serviu de MERO
INSTRUMENTO DA AÇÃO do motorista imprudente (TEORIA DO CORPO
NEUTRO).

Esta teoria (do corpo neutro), especialmente aplicada em acidentes de


veículo, traduz uma aplicação do fato de terceiro e consequente EXCLUSÃO da
responsabilidade civil. Ex. O caso da prova do PGE-ES era a teoria do corpo neutro, o
carro que estava parado e foi lançado, era um corpo neutro, a responsabilidade não é
dele, e sim da viatura.

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

#O que se entende por teoria do corpo neutro?

O fato de terceiro é hipótese que pode romper com o nexo jurídico de


causalidade, ou seja, é o que acontece quando um terceiro da causa jurídica ao
resultado danoso, eximindo o sujeito meramente físico da ação.

Segundo o professor Pablo Stolze, a teoria do corpo neutro é uma especial


aplicação do fato de terceiro nos acidentes de trânsito, assim, é a situação na qual o
agente físico do dano, atingido, sem atuação voluntária, viola direito de terceiro
inocente. Ex. engavetamento.

Existe posicionamento no sentido de que a vítima poderia demandar o mero


agente físico da ação e este interporia ação regressiva contra o verdadeiro culpado. No
entanto, por não haver previsão específica, o melhor entendimento, amparado no
Superior Tribunal de Justiça (REsp n.º 54.444/SP), é o de que a vítima deve demandar
diretamente o causador jurídico do dano, com base na teoria do corpo neutro.

IMPORTANTE!!! Transportador. Em caso de acidente, o transportador não pode


alegar fato de terceiro, isso porque o risco é inerente à sua atividade. Cabe-lhe
indenizar o passageiro ferido no acidente e mover ação regressiva contra o
terceiro. O transportador só pode alegar fato de terceiro em caso de o dano
decorrer de causa estranha ao transporte, como uma bala perdida, ou mesmo um
assalto no interior do ônibus (fortuito externo).

STF Súmula 187 A responsabilidade contratual do transportador,


pelo acidente com o passageiro, NÃO É ELIDIDA POR CULPA
DE TERCEIRO, CONTRA O QUAL TEM AÇÃO
REGRESSIVA.

Art. 735. A responsabilidade contratual do transportador por


acidente com o passageiro não é elidida por culpa de terceiro,
contra o qual tem ação regressiva.

Nos casos de acidente causado por terceiro a passageiro (responsabilidade


contratual), pode a vítima optar pela ação não contra o próprio transportador, mas contra
terceiro, mas nesse caso, é seu o ônus da prova da culpa do terceiro.

Ex. O ônibus não pode alegar que a culpa do acidente foi exclusiva de terceiro que
retornou em local indevido, para não indenizar seus passageiros.

Ex. No caso da Gol houve fato de terceiro. Ela deve indenizar os passageiros, e após
buscar direito de regresso contra o Legacy ou os controladores de vôo.

Obs. Lembrar que o assalto é visto como fortuito externo, não como fato de terceiro.
Do mesmo modo que a chuva que fecha o aeroporto.

5.1 FATO DE TERCEIRO E DENUNCIAÇÃO DA LIDE

Não é possível o afastamento do processo do causador direto do dano,


assumindo, desde logo, o terceiro a responsabilidade. A denunciação da lide a terceiro
pode ser feita apenas para o efeito de regresso, se este existir por força de lei ou
contrato.
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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

6- CLÁUSULA DE NÃO INDENIZAR

É o acordo de vontades que objetiva afastar as conseqüências da não execução


ou da execução inadequada do contrato.

IMPORTANTE!!! O CDC NÃO ADMITE sua estipulação nas relações de


consumo.

CDC Art. 24. A garantia legal de adequação do produto ou serviço


independe de termo expresso, vedada a exoneração contratual do
fornecedor.

Art. 25. É vedada a estipulação contratual de cláusula que


impossibilite, exonere ou atenue a obrigação de indenizar prevista
nesta e nas seções anteriores.
§ 1° Havendo mais de um responsável pela causação do dano, todos
responderão solidariamente pela reparação prevista nesta e nas
seções anteriores.
§ 2° Sendo o dano causado por componente ou peça incorporada ao
produto ou serviço, são responsáveis solidários seu fabricante,
construtor ou importador e o que realizou a incorporação.

Nos contratos não regidos pelo diploma consumerista, a sua validade dependerá
da observância de alguns requisitos: a) não colisão com preceito de ordem pública, b)
bilateralidade de consentimento, c) igualdade de posição das partes, d) inexistência
de escopo de eximir o dolo ou culpa grave do estipulante e e) ausência de intenção
de afastar obrigação inerente a função.

7- A PRESCRIÇÃO

Prescrita a pretensão a reparação de danos, fica afastada qualquer possibilidade


de recebimento de indenização. A obrigação de reparar o dano é de natureza pessoal.

Contudo a prescrição não ocorre no prazo legal de dez anos, porque o art. 206
prescreve:

Art. 206. Prescreve:


§ 3o Em TRÊS ANOS:
V - a pretensão de reparação civil;

IMPORTANTE!!! A prescrição de ação de responsabilidade civil em face da Fazenda


Pública ocorrerá no prazo de 05 anos, conforme pacificado pelo Superior Tribunal de
Justiça.

CIVIL E ADMINISTRATIVO. RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO. AÇÃO


INDENIZATÓRIA CONTRA A FAZENDA PÚBLICA. PRESCRIÇÃO QUINQUENAL.
ART.1º DO DECRETO 20.910/32. ORIENTAÇÃO FIRMADA PELO STJ, QUANDO
DO JULGAMENTO DO RESP 1.251.993/PR, REPRESENTATIVO DA
CONTROVÉRSIA.AGRAVO REGIMENTAL IMPROVIDO.

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

A Primeira Seção, no julgamento do REsp 1.251.993/PR, submetido ao rito do art.


543-C do Código de Processo Civil, pacificou o entendimento no sentido de que, nas
ações de indenização contra a Fazenda Pública, o prazo prescricional é de cinco
anos, nos termos do art. 1º do Decreto 20.910/32, em detrimento do prazo trienal,
previsto no Código Civil, orientação adotada pela decisão ora agravada. (AgRg no
REsp 1317922/RS, Rel. Ministra ASSUSETE MAGALHÃES, SEGUNDA TURMA,
julgado em 18/03/2014, DJe 27/03/2014)

Obs. Art. 2.028. Serão os da lei anterior os prazos, quando reduzidos por este Código, e
se, na data de sua entrada em vigor, já houver transcorrido mais da metade do tempo
estabelecido na lei revogada.

Atenção!!! Se o fato também constitui ilícito penal, a prescrição da ação penal NÃO
influi na prescrição da ação de reparação do dano, que tem seus próprios prazos de
prescrição. Quando a ação se originar de fato que deva ser apurado no juízo
criminal, não ocorrerá a prescrição antes da respectiva sentença definitiva.

IMPORTANTE!!! O CDC distingue os prazos prescricionais dos decadenciais.


Art. 26. O direito de reclamar pelos vícios aparentes ou de fácil
constatação caduca em:
I - trinta dias, tratando-se de fornecimento de serviço e de produtos
não duráveis;
II - noventa dias, tratando-se de fornecimento de serviço e de
produtos duráveis.
§ 1° Inicia-se a contagem do prazo decadencial a partir da entrega
efetiva do produto ou do término da execução dos serviços.
§ 2° Obstam a decadência:
I - a reclamação comprovadamente formulada pelo consumidor
perante o fornecedor de produtos e serviços até a resposta negativa
correspondente, que deve ser transmitida de forma inequívoca;
II - (Vetado).
III - a instauração de inquérito civil, até seu encerramento.
§ 3° Tratando-se de vício oculto, o prazo decadencial inicia-se no
momento em que ficar evidenciado o defeito.

Art. 27. Prescreve em cinco anos a pretensão à reparação pelos


danos causados por fato do produto ou do serviço prevista na
Seção II deste Capítulo, iniciando-se a contagem do prazo a partir do
conhecimento do dano E de sua autoria.

LIVRO IV
RESPONSABILIDADE CONTRATUAL

1- RESPONSABILIDADE DO TRANSPORTADOR

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

1.1 TRANSPORTE TERRESTRE

A responsabilidade do transportador pode ser apreciada em relação a seus


empregados, em relação a terceiros e em relação aos passageiros. No tocante a
terceiros ela se tornou objetiva na modalidade risco administrativo (art. 37
parágrafo sexto da CF). O transporte coletivo é serviço público, transferido a empresas
mediante concessão ou permissão.

Aqui será tratado a responsabilidade do transportador em relação ao passageiro,


de natureza contratual e objetiva.

Não há incompatibilidade entre o CC e o CDC, visto que ambos adotam a


responsabilidade objetiva do transportador, só elidível mediante a prova de culpa
exclusiva da vítima, do caso fortuito e da força maior, ou do fato exclusivo de terceiro,
uma vez que tais excludentes rompem o nexo de causalidade.

A responsabilidade do transportador em relação ao passageiro é contratual e


OBJETIVA. Sendo um contrato de adesão, a vítima que não chegou incólume ao seu
destino porque sofreu dano no trajeto não esta obrigada a provar culpa do
transportador. Basta provar o fato do transporte e o dano (prova DPE-MA).

Aplica-se o CDC para os contratos de transporte em geral, desde que não


contrarie o art. 732 CC. Não há incompatibilidade entre o CC e o CDC, uma vez que
ambos adotam a responsabilidade objetiva do transportador.

Art. 732. Aos contratos de transporte, em geral, são aplicáveis,


quando couber, desde que não contrariem as disposições deste
Código, os preceitos constantes da legislação especial e de tratados e
convenções internacionais.

Uma vez que o art. 17 do CDC equiparou ao consumidor todas as vítimas de


acidentes de consumo, ainda que estranhas a uma relação contratual, a divisão da
responsabilidade civil em contratual e extracontratual perdeu sua razão de ser. O
fundamento dessa responsabilidade passou a ser uma relação de consumo, contratual ou
não.

Embora o art. 734 do CC disponha que a responsabilidade do transportador é


objetiva e tenha proibido qualquer cláusula de não indenizar, dispõe o art. 738 do CC:
Art. 738. A pessoa transportada deve sujeitar-se às normas
estabelecidas pelo transportador, constantes no bilhete ou afixadas à
vista dos usuários, abstendo-se de quaisquer atos que causem
incômodo ou prejuízo aos passageiros, danifiquem o veículo, ou
dificultem ou impeçam a execução normal do serviço.
Parágrafo único. Se o prejuízo sofrido pela pessoa transportada for
atribuível à transgressão de normas e instruções regulamentares, o juiz
reduzirá equitativamente a indenização, na medida em que a vítima
houver concorrido para a ocorrência do dano.

Verifica-se, assim, que a culpa concorrente da vítima constitui causa de


redução do montante da indenização pleiteada, em proporção ao grau de culpa
comprovado nos autos. Da mesma forma dispõe o art. 945 do CC:
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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

Art. 945. Se a vítima tiver concorrido culposamente para o evento


danoso, a sua indenização será fixada tendo-se em conta a gravidade
de sua culpa em confronto com a do autor do dano.

Com relação ao transporte de pessoas, prescrevem os arts. 734 e 735 do CC:

Art. 734. O transportador responde pelos danos causados às pessoas


transportadas e suas bagagens, salvo motivo de força maior, sendo
nula qualquer cláusula excludente da responsabilidade.
Parágrafo único. É lícito ao transportador exigir a declaração do
valor da bagagem a fim de fixar o limite da indenização.

Art. 735. A responsabilidade contratual do transportador por acidente


com o passageiro não é elidida por culpa de terceiro, contra o qual
tem ação regressiva.

A responsabilidade contratual do transportador pressupõe a formação de um


contrato de transporte, de modo que afasta essa responsabilidade quando se trata de
passageiro clandestino.

IMPORTANTE!!! De acordo com o CDC, a indenização por extravio de bagagem não


pode ser tarifada, devendo ser completa se houver prova dos valores transportados na
bagagem, admitindo-se a inversão do ônus da prova para proteger o consumidor. É
lícito ao transportador exigir a declaração do valor da bagagem a fim de fixar o limite da
indenização.

1.2 TRANSPORTE AÉREO

Legislação do transporte aeronáutico: código brasileiro de aeronáutica (Lei.


7565/86); convenção de Varsóvia, que regula viagens internacionais e o CDC. Além das
resoluções da ANAC.

O código aeronáutico abraçou a teoria objetiva do transportador (risco da


atividade).

IMPORTANTE!!! A responsabilidade do transportador aéreo se estende aos


passageiros gratuitos, que viajarem por cortesia, e aos tripulantes (empregados da
companhia aérea).

É objetiva a responsabilidade do proprietário da aeronave por danos causados a


pessoas em terra.

Da mesma forma que não há limite da responsabilidade do Estado (art. 37 § 6°


da CF), não há limite também para a responsabilidade das concessionarias e
permissionárias de serviços públicos (companhias aéreas).

Obs. Não se tratando de voo doméstico, torna-se inaplicável o CBA.

IMPORTANTE!!! Overbooking: quando a empresa emite mais bilhetes do que o nº de


poltronas. O overbooking não é um direito da empresa. Segundo o STJ, o overbooking
é prática ilícita e intolerável, gerando direito à indenização.

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

IMPORTANTE!!! Extravio de bagagem: pacífico no STJ que o CDC vence a


convenção de Varsóvia (que tem preço tabelado para bagagem extraviada). Resp
211604. No extravio de bagagem a responsabilidade é objetiva, com base no direito
do consumidor.

Conclusão!!! O extravio de bagagem segue o CDC, e não respeita tabelamento de


preço. O quantum é fixado de acordo com o prejuízo.

1.3 TRANSPORTE GRATUITO/CARONA

IMPORTANTE!!! Não se pode afirmar que é transporte totalmente gratuito


quando o transportador, embora nada cobrando, tem algum interesse no
transporte do passageiro. Ex. vendedor de automóveis que conduz o comprador para
lhe mostra a qualidade do veiculo; corretor de imóveis que leva o interessado a
visitar casas e terrenos (DPE MA). Tais hipóteses não configuram contratos
verdadeiramente gratuitos, devendo ser regidas pelos critérios aplicáveis aos contratos
onerosos.

Trata-se do transporte desinteressado ou cortesia.

STJ Súmula 145 - No transporte DESINTERESSADO, de simples


cortesia, o transportador só será civilmente responsável por danos
causados ao transportado quando incorrer em DOLO OU CULPA
GRAVE.

Essa súmula é só para carona desinteressada, hipótese em que aquele que deu
carona só responderá se agiu com culpa grave ou dolo. Ex. Se um amigo pega carona
com outro amigo bêbado e o carro bater, houve culpa grave, deve indenizar os danos
sofridos pelo que pegou carona.

Obs. Tartuce e CRG entendem que essa súmula merece nova leitura, eis que não há
necessidade de a culpa ser grave ou haver dolo, bastando a culpa, em qualquer grau,
para responsabilizar. O grau da culpa serve apenas para a fixação da indenização.

Analisando os arts. 730 e 736 do CC, percebe-se a adoção da responsabilidade


extracontratual no transporte puramente gratuito ou desinteressado; e da contratual,
com cláusula de garantia, no transporte aparentemente gratuito (programa de milhagem
e etc.), mas que proporciona vantagens indiretas ao transportador.
Art. 730. Pelo contrato de transporte alguém se obriga, mediante
retribuição, a transportar, de um lugar para outro, pessoas ou coisas.

Art. 736. Não se subordina às normas do contrato de transporte o feito


gratuitamente, por amizade ou cortesia.
Parágrafo único. Não se considera gratuito o transporte quando,
embora feito sem remuneração, o transportador auferir vantagens
indiretas.

2- RESPONSABILIDADE DO ADVOGADO

O advogado é inviolável por seus atos e manifestações no exercício da profissão.

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

A responsabilidade do advogado é subjetiva, nos termos do art. 14, §4º do


CDC, traduzindo uma obrigação de meio, contratual. Os advogados, que são
profissionais liberais, têm responsabilidade com base na culpa contratual.
Art. 14.
§ 4° A responsabilidade pessoal dos profissionais liberais será
apurada mediante a verificação de culpa.

O advogado responde pelos erros de fato e de direito cometidos no desempenho


do mandato. É necessário que o erro de direito se revista de gravidade para conduzir a
responsabilidade.

Não se pode exigir que o advogado recorra sempre. Só se admite sua


responsabilidade quando haja probabilidade de reforma da sentença de que deveria ter
recorrido, cabendo ao cliente a prova de que tal aconteceria. Incorre, no entanto, em
responsabilidade se deixa de recorrer, contrariando os desejos manifestados pelo cliente.

3- RESPONSABILIDADE CIVIL DO DENTISTA, DO MÉDICO E


HOSPITAIS
3.1 DO DENTISTA

O médico e dentista também tem responsabilidade civil subjetiva, baseada na


culpa profissional (art. 14, §4º do CDC), tendendo a doutrina, no caso do dentista, a
reconhecer-lhe, em geral, obrigação de resultado.

Para Pablo Stolze, no caso de patologias, doenças da boca, não há como exigir o
resultado. Quando trata de tratamento estético (clareamento) e de doenças mais simples
(cárie) ele deve garantir o resultado.

3.2 DO CIRURGIÃO PLÁSTICO

No caso do cirurgião plástico (em cirurgia embelezadora) que não atingiu


obrigação de resultado o STJ entende, atualmente, que sua responsabilidade é
SUBJETIVA COM CULPA PRESUMIDA. Entendo que o mesmo raciocínio serve
para o caso do dentista. Quando a obrigação do dentista for de resultado (clareamento
de dente) a responsabilidade será subjetiva com culpa presumida. É, também, a
posição de pablo stolze.

#A obrigação do médico é de meio ou de resultado?


Em geral, a obrigação do médico é uma obrigação de meio. O médico não pode garantir
o resultado final. Em caráter excepcional, o cirurgião plástico ESTÉTICO, assume
obrigação de resultado.

IMPORTANTE!!! O STJ diz que o cirurgião plástico que não atingiu o resultado,
responde subjetivamente culpa presumida

IMPORTANTE!!! Cirurgia para redução de mama. Se for estética, a


responsabilidade é de resultado e há presunção de culpa. Se não for estética, a
responsabilidade é de meio e subjetiva (do mesmo modo a de redução de gordura...).

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

3.3 DO MÉDICO

A responsabilidade civil do médico pressupõe a ocorrência de um dano


atribuído à um profissional da medicina, segundo as regras da responsabilidade civil
subjetiva (art., 951 do CC e art. 14, §4º do CDC).

Art. 951. O disposto nos arts. 948 949 e 950 aplicam-se ainda no caso
de indenização devida por aquele que, no exercício de atividade
profissional, por negligência, imprudência ou imperícia, causar a
morte do paciente, agravar-lhe o mal, causar-lhe lesão, ou inabilitá-lo
para o trabalho.

IMPORTANTE!!! Médico é profissional liberal. Responde SUBJETIVAMENTE,


com base na culpa profissional. Sendo o médico, no entanto, prestador de um serviço,
sua responsabilidade, embora seja subjetiva, está sujeita a disciplina do CDC, que
permite ao juiz inverter o ônus da prova em favor do consumidor (hipossuficiência
técnica do consumidor).

Em geral, a obrigação do médico é contratual. Mas pode ser extracontratual


quando for de emergência.

IMPORTANTE!!! Anestesista. A melhor doutrina entende que o anestesista responde


com base na culpa profissional, e sua obrigação é de meio.

O médico responde não só por fato próprio como pode vir a responder por fato
de terceiro que estejam diretamente sob sua ordem.

No tocante aos atos dos auxiliares e enfermeiros, é preciso distinguir entre os


danos cometidos por aqueles que estão diretamente sob as ordens do cirurgião (o
cirurgião responderá), ou os cometidos por funcionários do hospital (a culpa deverá ser
imputada ao hospital).

IMPORTANTE!!! Se o médico tem vínculo empregatício com o hospital, integrando


sua equipe médica, responde objetivamente o hospital, como prestadora de serviços. No
entanto, se o profissional apenas utiliza seu hospital para internar seus pacientes
particulares, responde com exclusividade por seus erros, afastada a responsabilidade do
estabelecimento.

CIVIL. AÇÃO DE COMPENSAÇÃO POR DANO MORAL. ERRO PRATICADO POR


MÉDICO NÃO CONTRATADO PELO HOSPITAL. RESPONSABILIDADE CIVIL.
ATRIBUIÇÃO AFETA EXCLUSIVAMENTE AO HOSPITAL. AUSÊNCIA DE NEXO
CAUSAL ENTRE O DANO MORAL E A CONDUTA INERENTE AO TRATAMENTO
HOSPITALAR.
1. Ação de compensação por dano moral ajuizada em 04.03.2002. Agravo em Recurso
especial concluso ao gabinete em 22.09.2016.
2. Cinge-se a controvérsia a definir se o recorrente possui responsabilidade civil
por erro médico cometido por profissional que não possui vínculo com o hospital,
mas utiliza as dependências do estabelecimento para a realização de internação e
exames.

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

3. Por ocasião do julgamento do REsp 908.359/SC, a Segunda Seção do STJ afastou


a responsabilidade objetiva dos hospitais pela prestação de serviços defeituosos
realizados por profissionais que nele atuam sem vínculo de emprego ou
subordinação. Precedentes.
4. A responsabilidade do hospital somente tem espaço quando o dano decorrer de
falha de serviços cuja atribuição é afeta única e exclusivamente à instituição de
saúde.
5. Quando a falha técnica é restrita ao profissional médico sem vínculo com
o hospital, não cabe atribuir ao nosocômio a obrigação de indenizar.
6. Recurso especial conhecido e provido.
(REsp 1635560/SP, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em
10/11/2016, DJe 14/11/2016)

O médico deve, a luz do princípio da boa-fé objetiva e do dever de informação


(art. 15 CC), firmar com o paciente o termo de consentimento informado. Nenhum
paciente pode ser submetido a uma intervenção sem que o paciente seja informado das
consequências da internação.

Obs. O termo de consentimento informado não é um salvo conduto para o médico, isto
é, não traduz exclusão prévia de responsabilidade. O termo poderá servir como defesa
caso se alegue que o médico não informou o paciente sobre os efeitos da intervenção
médica.

3.4 HOSPITAIS, CLÍNICAS E PLANO DE SAÚDE

Se o erro médico ocorrer em um hospital público, a responsabilidade será do


Estado.

IMPORTANTE!!! Responsabilidade dos hospitais e das clínicas. O STJ sustenta que


se você demanda o médico, deve discutir culpa profissional, e se você demanda o
hospital, também deve discutir culpa do hospital. A responsabilidade do hospital é
subjetiva para o erro médico. Para o STJ, a responsabilidade é objetiva, no que
tange a serviços secundários do hospital, serviços auxiliares (ex: raio X, a cama...).

Obs. No que tange à infecção hospitalar, o STJ tem entendido que a responsabilidade do
hospital, neste caso é objetiva (Resp 629212/RJ de 2007).

RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS E


MATERIAIS.
ERRO MÉDICO. PARTO. USO DE FÓRCEPS. CESARIANA. INDICAÇÃO. NÃO
OBSERVÂNCIA. LESÃO NO MEMBRO SUPERIOR ESQUERDO. MÉDICO
CONTRATADO.
CULPA CONFIGURADA. HOSPITAL. RESPONSABILIDADE SUBJETIVA. AÇÃO
DE REGRESSO. PROCEDÊNCIA. DANOS MORAIS. VALOR. RAZOABILIDADE.
1. A jurisprudência desta Corte encontra-se consolidada no sentido de que a
responsabilidade dos hospitais, no que tange à atuação dos médicos contratados que
neles trabalham, é subjetiva, dependendo da demonstração da culpa do preposto.
2. A responsabilidade objetiva para o prestador do serviço prevista no artigo 14 do
Código de Defesa do Consumidor, no caso o hospital, limita-se aos serviços
relacionados ao estabelecimento empresarial, tais como a estadia do paciente

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

(internação e alimentação), as instalações, os equipamentos e os serviços auxiliares


(enfermagem, exames, radiologia). Precedentes.
(...)
4. A comprovação da culpa do médico atrai a responsabilidade do hospital embasada
no artigo 932, inciso III, do Código Civil ("São também responsáveis pela reparação
civil: (...) III - o empregador ou comitente, por seus empregados, serviçais e
prepostos, no exercício do trabalho que lhes competir, ou em razão dele;"), mas
permite ação de regresso contra o causador do dano. (REsp 1526467/RJ, Rel.
Ministro RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA, TERCEIRA TURMA, julgado em
13/10/2015, DJe 23/10/2015)

Conclusão!!! Por atividade do médico a responsabilidade do hospital é subjetiva;


com base em fato da internação a responsabilidade é objetiva (STJ).

Obs. Pablo discorda. Para ele o hospital presta um serviço de consumo através do
médico, devendo responder objetivamente com base no CDC.

IMPORTANTE!!! O STJ tem entendimento no sentido de que a operadora de plano de


saúde (UNIMED) pode ser responsabilizada por erro médico (Resp 328309/RJ). Como
a seguradora credenciou os médicos, poderá a seguradora ser responsabilizada por erro
do médico. Essa responsabilidade é objetiva, com base no CDC.

Obs. Os laboratórios, bancos de sangue e etc. respondem objetivamente pelos serviços


prestados.

4- RESPONSABILIDADE CIVIL DOS BANCOS

BANCO INSTITUIÇÃO FINANCEIRA

Estabelecimento de depósito de valores e Estabelecimento de concessão de crédito.


bens. Ex. Fininvest, Mastercard, Visa, etc.

CDC estabeleceu que os serviços bancários SÃO atividades de consumo.


A responsabilidade contratual do banco é objetiva.

IMPORTANTE!!! O STF, ao julgá-la, concluiu pela aplicação do CDC aos bancos,


porém, com ressalvas.

Somente no que tange à atividade primária dos bancos (financiamento, mútuo


a juros) haverá aplicação do CDC.

Por outro lado, os bancos poderão ser responsabilizados por pagamento de


cheque falso, ou com falsificação grosseira da assinatura, etc.

IMPORTANTE!!! Têm também a obrigação de segurança, não se aplicando a tese


defensiva do fortuito externo.

Lembrar!!! Súmula 381 do STJ.

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

STJ Súmula nº 381 - Nos contratos bancários, é vedado ao julgador


conhecer, de ofício, da abusividade das cláusulas.

Obs. Valores em cofre de banco. Segundo o STJ, o banco é civilmente responsável, no


caso de subtração de valores, guardados em cofres forte, alugados a seus clientes. A
cessão do uso do compartimento envolve uma particular prestação de proteção e
segurança. Considerou-se inválida a cláusula de não indenizar, porque excludente de
indenização de cláusula do contrato, qual seja, a de guardar o local dos cofres e
implicitamente o seu conteúdo. Quanto às provas, é admitido prova testemunhal,
informações de joalheiro e etc. para provar o conteúdo do cofre.

Qual é o tratamento jurídico dado por assalto em terminal eletrônico de banco?


O STJ, no Resp 488310/RJ, firmou entendimento no sentido de que haverá
responsabilidade objetiva do banco se o assalto ocorre no interior da agência, ainda que
fora do horário de expediente, com base na teoria do risco e com base no CDC.

Obs. No transporte coletivo, o assalto é fortuito externo. No banco não, porque a


segurança é implícita ao contrato bancário.

Se o assalto ocorrer em quiosque, Pablo acha que o banco responde também,


com base na teoria do risco do négocio e no CDC. Foi o banco que criou o risco.

IMPORTANTE!!! Se o cara saca o R$ e o assalto ocorre na rua (um passo para fora), a
responsabilidade seria do estado (ocorre que aí vem aquela discussão sobre o Estado
não poder ser um garantidor universal e etc).

5- A RESPONSABILIDADE DO FORNECEDOR NO CDC


O CDC consagrou a responsabilidade objetiva do fornecedor. A
responsabilidade é estendida, solidariamente, a todos que compõem o elo básico na
colocação de produtos no mercado, quando autores da ofensa. O consumidor pode
escolher quem quer acionar: um ou todos.

No direito brasileiro não existe limitação para a indenização, estando afastada a


indenização tarifada. De modo que, havendo danos causados aos consumidores, o
fornecedor deve indeniza-los em sua integridade.

5.1 RESPONSABILIDADE PELO FATO DO PRODUTO E DO SERVIÇO

É considerado FATO do produto todo e qualquer acidente provocado por


produto ou serviço que causar dano ao consumidor, sendo equiparadas a este todas as
vítimas do evento.

Dispõe os arts. 12 e 13 do CDC:


Art. 12. O fabricante, o produtor, o construtor, nacional ou
estrangeiro, e o importador respondem, independentemente da
existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos
consumidores por defeitos decorrentes de projeto, fabricação,
construção, montagem, fórmulas, manipulação, apresentação ou

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

acondicionamento de seus produtos, bem como por informações


insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos.
§ 1° O produto é defeituoso quando não oferece a segurança que dele
legitimamente se espera, levando-se em consideração as
circunstâncias relevantes, entre as quais:
I - sua apresentação;
II - o uso e os riscos que razoavelmente dele se esperam;
III - a época em que foi colocado em circulação.
§ 2º O produto não é considerado defeituoso pelo fato de outro de
melhor qualidade ter sido colocado no mercado.
§ 3° O fabricante, o construtor, o produtor ou importador só não será
responsabilizado quando provar:
I - que não colocou o produto no mercado;
II - que, embora haja colocado o produto no mercado, o defeito
inexiste;
III - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.

Art. 13. O COMERCIANTE é igualmente responsável, nos termos


do artigo anterior, quando:
I - o fabricante, o construtor, o produtor ou o importador não puderem
ser identificados;
II - o produto for fornecido sem identificação clara do seu fabricante,
produtor, construtor ou importador;
III - não conservar adequadamente os produtos perecíveis.
Parágrafo único. Aquele que efetivar o pagamento ao prejudicado
poderá exercer o direito de regresso contra os demais responsáveis,
segundo sua participação na causação do evento danoso.

5.2 RESPONSABILIDADE POR VÍCIO DO PRODUTO E DO SERVIÇO

O consumidor, em razão da solidariedade passiva, tem direito de endereçar a


reclamação ao fornecedor imediato do bem ou serviço, como também pode, querendo,
acionar o comerciante e o fabricante do produto, em litisconsórcio passivo.

Dispõe o art. 18 do CDC:

Art. 18. Os FORNECEDORES (quando a responsabilidade é por


VÍCIO, não há diferença entre fornecedor e comerciante) de
produtos de consumo duráveis ou não duráveis respondem
solidariamente pelos vícios de qualidade ou quantidade que os
tornem impróprios ou inadequados ao consumo a que se destinam ou
lhes diminuam o valor, assim como por aqueles decorrentes da
disparidade, com a indicações constantes do recipiente, da
embalagem, rotulagem ou mensagem publicitária, respeitadas as
variações decorrentes de sua natureza, podendo o consumidor exigir a
substituição das partes viciadas.
§ 1° Não sendo o vício sanado no prazo máximo de trinta dias, pode
o consumidor exigir, alternativamente e à sua escolha:
I - a substituição do produto por outro da mesma espécie, em perfeitas
condições de uso;
II - a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada,
sem prejuízo de eventuais perdas e danos;
III - o abatimento proporcional do preço.
§ 2° Poderão as partes convencionar a redução ou ampliação do prazo
previsto no parágrafo anterior, não podendo ser inferior a sete nem
superior a cento e oitenta dias. Nos contratos de adesão, a cláusula
de prazo deverá ser convencionada em separado, por meio de
manifestação expressa do consumidor.

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

§ 3° O consumidor poderá fazer uso imediato das alternativas do § 1°


deste artigo sempre que, em razão da extensão do vício, a substituição
das partes viciadas puder comprometer a qualidade ou características
do produto, diminuir-lhe o valor ou se tratar de produto essencial.
§ 4° Tendo o consumidor optado pela alternativa do inciso I do § 1°
deste artigo, e não sendo possível a substituição do bem, poderá haver
substituição por outro de espécie, marca ou modelo diversos, mediante
complementação ou restituição de eventual diferença de preço, sem
prejuízo do disposto nos incisos II e III do § 1° deste artigo.
§ 5° No caso de fornecimento de produtos in natura, será responsável
perante o consumidor o fornecedor imediato, exceto quando
identificado claramente seu produtor.
§ 6° São impróprios ao uso e consumo:
I - os produtos cujos prazos de validade estejam vencidos;
II - os produtos deteriorados, alterados, adulterados, avariados,
falsificados, corrompidos, fraudados, nocivos à vida ou à saúde,
perigosos ou, ainda, aqueles em desacordo com as normas
regulamentares de fabricação, distribuição ou apresentação;
III - os produtos que, por qualquer motivo, se revelem inadequados ao
fim a que se destinam.

5.3 AS EXCLUDENTES DA RESPONSABILIDADE CIVIL

O CDC prevê de forma taxativa as hipóteses de excludente de responsabilidade


do fabricante, produtor, construtor ou importador. Dispõe o art. 12 § 3°:
§ 3° O fabricante, o construtor, o produtor ou importador só não será
responsabilizado quando provar:
I - que não colocou o produto no mercado;
II - que, embora haja colocado o produto no mercado, o defeito
inexiste;
III - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.

Com relação ao ônus da prova, apesar da responsabilidade ser objetiva, isto não
dispensa o lesado da prova do dano e do nexo de causalidade entre o produto ou serviço
e o dano. Em relação a esses elementos, entretanto, o juiz pode inverter o ônus da prova
quando “for verossímil a alegação” OU quando o consumidor for “hipossuficiente”,
sempre de acordo com as regras ordinárias da experiência.

A culpa concorrente não elide a responsabilidade, apenas atenua o quantum


indenizatório. Somente a culpa exclusiva do consumidor que exclui a responsabilidade.

A excludente do caso fortuito ou força maior não foi inserida no rol das
excludentes da responsabilidade do fornecedor. Mesmo assim, sua arguição é admitida,
pois o fato inevitável rompe o nexo de causalidade.

Em se tratando do fornecimento de serviços, dispõe o art. 14 § 3° do CDC:


§ 3° O fornecedor de serviços só não será responsabilizado quando
provar:
I - que, tendo prestado o serviço, o defeito inexiste;
II - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.

Lembrar!!! A responsabilidade pessoal dos profissionais liberais será apurada mediante


a verificação de culpa.

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

6- RESPONSABILIDADE CIVIL DO CONSTRUTOR, DO


EMPREITEIRO E INCORPORADORES
Dispõe o art. 610 do CC:
Art. 610. O empreiteiro de uma obra pode contribuir para ela só com
seu trabalho ou com ele e os materiais.
§ 1o A obrigação de fornecer os materiais não se presume; resulta da
lei ou da vontade das partes.
§ 2o O contrato para elaboração de um projeto não implica a obrigação
de executá-lo, ou de fiscalizar-lhe a execução.

A responsabilidade do construtor pode ser contratual ou extracontratual. A


primeira decorre da inexecução culposa de suas obrigações. Ao não executar a obra, ou
ao executá-la defeituosamente, o construtor responderá por perdas e danos, salvo se
provar que a inexecução resultou de caso fortuito ou força maior.

A responsabilidade extracontratual ou legal é de ordem pública e diz respeito


especialmente a responsabilidade pela perfeição da obra, a responsabilidade pela solidez
e segurança da obra e a responsabilidade por danos a vizinhos.

No tocante a perfeição da obra, o CC utiliza-se da teoria do vícios redibitórios,


possibilitando ao dono, no caso de defeito, enjeita-la a coisa ou recebê-la com
abatimento do preço.

Art. 445. O adquirente decai do direito de obter a redibição ou


abatimento no preço no prazo de trinta dias se a coisa for móvel, e
de um ano se for imóvel, contado da entrega efetiva; se já estava na
posse, o prazo conta-se da alienação, reduzido à metade.
§ 1o Quando o vício, por sua natureza, só puder ser conhecido mais
tarde, o prazo contar-se-á do momento em que dele tiver ciência, até o
prazo máximo de cento e oitenta dias, em se tratando de bens móveis;
e de um ano, para os imóveis.

Concluída e entregue a obra, subsiste a responsabilidade do empreiteiro, durante


5 anos, pela solidez e segurança da construção.
Art. 618. Nos contratos de empreitada de edifícios ou outras
construções consideráveis, o empreiteiro de materiais e execução
responderá, durante o prazo irredutível de cinco anos (pode até ser
maior o prazo), pela solidez e segurança do trabalho, assim em razão
dos materiais, como do solo.
Parágrafo único. Decairá do direito assegurado neste artigo o
dono da obra que não propuser a ação contra o empreiteiro, nos
cento e oitenta dias seguintes ao aparecimento do vício ou defeito.

A responsabilidade permanece não só perante o dono da obra, como também


perante quem o suceda na propriedade, ou adquire os direitos reais de promissário
comprador do imóvel.

#Mas então qual o prazo prescricional para se formular pretensão indenizatória de


responsabilidade civil contra a construtora?

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

Sumula 134 STJ: “Prescreve em 20 anos a ação para obter do


construtor indenização por defeitos da obra (defeitos lato sensu).”

Essa súmula caiu, face o Código de 2002, que afastou o prazo de 20 anos.

Prescreve:

Em TRÊS anos:

Para o dono da obra, que não é consumidor, formular pretensão indenizatória


contra a construtora (prazo do CC).

Em CINCO anos:

Para o consumidor demandar a construtora (prazo do CDC).

#Como fica o fato ocorrido após os 05 anos?


Se ficar provado que a causa é anterior à entrega do apartamento, a construtora poderá
ser responsabilizada mesmo decorridos os 05 anos. Esse prazo não é prescricional, nem
é prazo para ingressar com ação. É prazo decadencial legal, de garantia da obra.

Quanto aos danos causados aos vizinhos, respondem solidariamente o


construtor e o proprietário, admitindo-se a redução da indenização quando a obra
prejudicada concorreu para o dano, por ancienidade. O proprietário, porém, tem ação
regressiva contra o construtor, se os danos recorreram de imprudência, negligencia ou
imperícia de sua parte. Quanto aos danos causados a vizinhos provenientes de
desabamentos, a responsabilidade deve ser atribuída diretamente aquele que executa a
obra. O proprietário somente com ele se solidariza se houver confiado a obra a pessoa
inabilitada.

7- A RESPONSABILIDADE DOS ENCARREGADOS DE GUARDA


DE VEÍCULOS (ESTACIONAMENTOS, SHOPPING CENTERS
ETC.)
O depósito é contrato real; perfaz-se com a tradição do objeto.

O depositário assume o dever de segurança sobre a coisa depositada. Sua


obrigação é de resultado, uma vez que tem por efeito a presunção de culpa contra ele, se
não a restitui ao final do contrato.

Os donos de estacionamento são prestadores de serviços e respondem,


independentemente de culpa pela reparação de danos causados aos consumidores por
defeitos relativos a prestação de serviços. (art. 14 CDC)

Tem sido reconhecida a responsabilidade dos donos de estacionamentos e postos


de gasolina que exploram a guarda de veículos mediante paga dos usuários como
depositários. O boletim de ocorrência é prova hábil da existência de furto. Respondem
os donos de oficinas também pelos danos causados, por eles ou por seus prepostos, a
terceiros, na condução dos veículos, e não seus proprietários. Respondem também, por
seu desaparecimento.

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

O fato inevitável exclui a razoabilidade do depositário. Assim dispõe o art. 650


do CC:

Art. 650. Cessa, nos casos do artigo antecedente, a responsabilidade


dos hospedeiros, se provarem que os fatos prejudiciais aos viajantes
ou hóspedes não podiam ter sido evitados.

Entende o STJ que “empresa que explora estacionamentos, cobrando pelo


serviço prestado, tem dever de guarda e vigilância sobre os veículos parqueados,
respondendo por indenização em caso de subtração. O roubo, a exemplo do furto, não
pode ser alegado como motivo de força maior por quem, em razão do seu ramo de
atividade, tem por obrigação a especialidade prestar segurança”.

IMPORTANTE!!! Com relação aos supermercados, se esses estacionamentos tem um


aparato de segurança com a finalidade de inspirar confiança a quem vai ao
supermercado (grades, portões de entrada e etc.) não resta dúvida de que há um dever de
vigilância e a consequente responsabilidade em caso de furto, mesmo que as chaves do
veiculo permaneçam em poder do proprietário e o estacionamento seja gratuito.
Quando, no entanto, não existe esse aparato (mero recuo para parar os carros), não se
pode dizer que foi assumido o dever de vigilância dos veículos, e nem que existe
responsabilidade em caso de furto.

Cabe aos shoppings centers o dever de guarda ou vigilância sobre os veículos


deixados em seu estacionamento, haja ou não um aparato de segurança. Respondem
pelos furtos ou outros danos causados aos veículos por terceiros ou por seus
empregados. O fato de ser gratuito o estacionamento não significa que não esteja
este obtendo lucro, porque o pagamento se faz por via indireta, pela compra de
mercadorias. Trata-se de contrato oneroso, cabendo ao shopping o dever de guarda, haja
ou não, um aparato de segurança, tenha havido compras ou apenas passeio.

O STJ tem reconhecido a responsabilidade pelos FURTOS de veículos deixados


sob sua guarda (salvo a prova de roubo a mão armada em via pública, considerado
fortuito ou força maior) dos donos de restaurante e de hotéis, das escolas e
universidades, de hospitais e etc. mesmo em sendo gratuito o serviço, com o objetivo de
atrair clientela e que induzam o usuário do serviço a crer que seu veiculo esteja mais
seguro.

No tocante a responsabilidade dos empregadores, já decidiu o STJ que “o


empregador que admite a permanência de veículos dos empregados em seu
estabelecimento junto ao local de trabalho responde pelos danos que estes venham a
sofrer, existindo aí autêntico deposito, ao qual é inerente o dever de incolumidade do
depositário em relação aos bens depositados”.

8- RESPONSABILIDADE CIVIL DECORRENTE DE ACIDENTE


DE TRABALHO
Qualquer que seja o grau de culpa, terá o empregador o dever de suportar o
dever indenizatório, segundo as regras do direito civil, sem qualquer compensação com
a reparação concedida pela previdência social. Somente a ausência total de culpa do

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William Bossanelli Araújo e Leopoldo Martins Moreira Neto – Dezembro de 2016

patrão é que o isentará da responsabilidade civil concomitante a reparação


previdenciária.

De acordo com a EC 45, compete a justiça trabalhista julgar as ações


indenizatórias decorrentes de acidente de trabalho.

9- A RESPONSABILIDADE CIVIL DOS TABELIÕES


A jurisprudência equiparava os tabeliões aos concessionários e permissionários
de serviço público, apontando sua responsabilidade objetiva, nos termos da antiga
redação do art. 22 da lei 8935/1994. Essa era a posição do STJ:

1. O acórdão recorrido encontra em consonância com a jurisprudência desta Corte,


segundo a qual nos casos de danos resultantes de atividade estatal delegada pelo Poder
Público, há responsabilidade objetiva do notário, nos termos do art. 22 da Lei
8.935/1994, e apenas subsidiária do ente estatal. Precedentes: AgRg no AREsp
474.524/PE, Rel. Min. Herman Benjamin, Segunda Turma, DJe 18/06/2014; AgRg no
AgRg no AREsp 273.876/SP, Rel. Min. Humberto Martins, Segunda Turma, DJe
24/05/2013; REsp 1.163.652/PE, Rel. Min.Herman Benjamin, Segunda Turma, DJe
01/07/2010.
(AgRg no REsp 1377074/RJ, Rel. Ministro BENEDITO GONÇALVES, PRIMEIRA
TURMA, julgado em 16/02/2016, DJe 23/02/2016)

Porém, em maio de 2016, a lei 13.286 modificou a redação do art. 22:

Art. 22. Os notários e oficiais de registro são civilmente responsáveis por


todos os prejuízos que causarem a terceiros, POR CULPA OU DOLO,
pessoalmente, pelos substitutos que designarem ou escreventes que
autorizarem, assegurado o direito de regresso. (Redação dada pela Lei nº
13.286, de 2016).
Parágrafo único. Prescreve em três anos a pretensão de reparação civil,
contado o prazo da data de lavratura do ato registral ou notarial.
(Redação dada pela Lei nº 13.286, de 2016).

Desse modo, verifica-se que com a nova redação do art. 22 a


responsabilidade dos notários passa a ser SUBJETIVA. Porém, insta frisar que
existem diversas críticas a essa mudança e, muito provavelmente, o STF irá ser
instado para decidir sobre a constitucionalidade desse dispositivo. Por enquanto,
de acordo com a nova letra da lei, a responsabilidade é SUBJETIVA!!!

O Estado responde, de forma subsidiária, pelos atos praticados por seus


prepostos, ainda que investidos de função delegada, que, na realidade, é uma longa
manus do poder estatal. E poderá exercer o direito de regresso contra os delegados, em
caso de culpa ou dolo destes.

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