Você está na página 1de 2

Disciplina: História Professora:

Luciana Brum

A era das CONQUISTAS: uma América reconstruída

Como é bem sabido, a palavra “índio” foi fruto de um equívoco. Cristóvão


Colombo, julgando haver chegado à Índia, assim se referiu à população nativa que
encontrou. Desfeito o engano, o termo persistiu. Foi utilizado durante todo o período
colonial e pós-colonial. Há algumas décadas, certos pesquisadores o acusaram de
etnocêntrico. Argumentavam que os índios não se percebiam de maneira genérica,
preferindo empregar as suas origens étnicas específicas, como guaranis, por exemplo.
Lembravam ainda a sua utilização na construção de políticas de dominação da
população nativa pelos impérios ultramarinos. Os termos, porém, são flexíveis e
podem adquirir diferentes significados. As críticas devem ser consideradas, mas não
justificam o seu abandono. Os maiores interessados na discussão, os próprios índios,
passaram a empregá-lo em suas relações com os europeus desde meados do século
XVI, com conotações bastante versáteis.
Mais problemático, porém, é que o uso do termo de maneira desavisada pode
nos conduzir a um grande equívoco: considerar que existia algum tipo de unidade da
população americana na virada do século XV para o XVI. Nada mais distante da
realidade. A América era habitada por distintos grupos com organizações sociais
específicas, cujas relações entre si eram variáveis. Há diferentes formas de analisar
tal diversidade. Algumas consideram as respectivas línguas, outras se baseiam nas
relações com o território ou, ainda, nas organizações políticas. Nunca é demais
lembrarmos que não se trata de hierarquizar as diferenças. Elas respondiam a uma
série de fatores, desde adaptações ao meio ambiente até escolhas dos envolvidos.
Entre as organizações com maior centralização política na época destacam-se os
astecas e incas. Seus impérios formaram a base da América espanhola, e a conquista
não pode ser explicada sem considerarmos as suas principais características. Mas,
quando falamos de conquista, geralmente pensamos no México e no Peru,
desconsiderando o igualmente importante caso brasileiro, por vezes
equivocadamente apresentado como mais pacífico. A população do litoral brasileiro
também era muito diversa, com predominância dos tupis-guaranis.
A organização dos nativos do Brasil baseava-se em pequenos grupos, que se
relacionavam entre si sobretudo através de atividades guerreiras. Obtinham assim
prisioneiros, que eram sacrificados em cerimônias de antropofagia. Os cativos mais
valorizados eram os líderes, pois a antropofagia era considerada uma forma de vingar
os ancestrais que haviam sido sacrificados pelos rivais. Inicialmente, essa prática foi
aproveitada pelos portugueses, que assim obtinham uma importante mercadoria
intercambiada nos primeiros contatos: os escravos.
Os grupos tupis-guaranis receberam bem os portugueses, e outros europeus,
que começaram a desembarcar na costa a partir de 1500. O comércio era
desenvolvido com interesse pelos índios, que ofereciam pau-brasil, animais exóticos e
escravos. Providenciavam também o necessário à sobrevivência dos recém-chegados,
sobretudo informações e alimentos. Em troca recebiam mercadorias variadas, como
machados de ferro, que diminuíam significativamente o tempo gasto em certas
atividades. As relações mudaram após o estabelecimento das primeiras unidades
produtivas no Brasil na década de 1530. As atividades envolvendo a fabricação do
açúcar, desde o plantio da cana até a pesada rotina nos engenhos, traziam exigências
diferentes das até então enfrentadas pelos índios. Ali foram empregados em grande
medida escravos da terra. A fim de atender à nova demanda por mão de obra, os
tupis-guaranis passaram a envolver-se em guerras cada vez mais frequentes para
obterem uma maior quantidade de cativos, por vezes incentivados pelos interesses
dos portugueses.
As guerras foram perdendo a sua função ritualística à medida que seus objetivos
visavam atender ao comércio com os colonos. Com o passar do tempo, os
portugueses, em busca de mais escravos, começaram a atacar também os grupos
com os quais mantinham relações comerciais, geralmente à traição. Quando
perceberam a mudança, os índios promoveram uma série de revoltas e foram capazes
de colocar em risco a permanência lusitana no Brasil.

Fonte: Revista História Viva

Você também pode gostar