Você está na página 1de 133

Maura Saita Ravizza

JUNG,
PSICOGENEALOGIA
E CONSTELAÇÕES
FAMILIARES

INCONSCIENTE COLETIVO E SINCRONICIDADE

Título original:
Jung, Psicogenealogia e Costellazioni Familiari
Inconscio collettivo e sincronicità

Tradução e apresentação:
Jaqueline Cássia de Oliveira

Interação Sistêmica Ltda.


1
1ª edição italiana – outubro de 2011
Copyright© Golem Edizioni s.n.c., Torino, Italia.
Consultoria editorial: Sarah Perini
Capa: Duecon, Torino
Imagens e gráficos: ©Maura Saita Ravizza
Gráfica: Universalbooks srl, Rende (Cs)

Todos os direitos reservados.


©Direitos de edição da obra em língua portuguesa no Brasil adquiridos pela
Interação Sistêmica Ltda.
A reprodução de parte ou de todo o presente texto, em qualquer meio físico ou eletrônico, é
expressamente proibida sem a autorização prévia por escrito da detentora do copyright no Brasil,
conforme garantido pela lei 9610 de 19 de fevereiro de 1998.

Interação Sistêmica Ltda.®


Belo Horizonte, MG – Brasil
(55) 31 99941 4532
www.interacaosistemica.com.br
www.loja.interacaosistemica.com.br
contato@interacaosistemica.com.br

Tradução: Jaqueline Cássia de Oliveira


Revisão ortográfica: Maria Teresa Santos
Edição: Interação Sistêmica Ltda.
Ebook - Livro Eletrônico - pdf
Número de páginas: 132

Ravizza, Maura Saita

Jung, Psicogenealogia e Constelações Familiares/ Maura Saita Ravizza.

Belo Horizonte, MG – Brasil

Interação Sistêmica Ltda.

2017

2
ÍNDICE

Apresentação ...................................................................................................................................................................5
Agradecimentos..............................................................................................................................................................6
Prefácio................................................................................................................................................................................7
Introdução.......................................................................................................................................................................10

Capítulo 1
Jung e o inconsciente coletivo...................................................................................................................................13
1.1 - Jung, a vida e obra................................................................................................................................................13
1.2 - O inconsciente coletivo......................................................................................................................................16
1.3 - Sessões de Psicogenealogia com Paule (I parte)....................................................................................19
1.4 – Arquétipos..............................................................................................................................................................24
1.5 – Sincronicidades....................................................................................................................................................26
1.6 - Sessões de Psicogenealogia com Paule (II parte)...................................................................................27

Capítulo 2
Freud e a alma coletiva................................................................................................................................................31
2.1 - O inconsciente de Freud e a alma coletiva................................................................................................31
2.2 - O caso clínico de Dora........................................................................................................................................34

Capítulo 3
Outros Autores: Dolto, Dumas, Abraham, Torök, Sheldrake.......................................................................40
3.1 - A transmissão transgeracional de Françoise Dolto...............................................................................40
3.2 - O anjo e o fantasma de Didier Dumas..........................................................................................................41
3.3 - A cripta e o fantasma de N. Abraham e M. Torök..................................................................................42
3.4 - Os campos mórficos de R. Sheldrake..........................................................................................................46

Capítulo 4
Psicodrama e Constelações Familiares.................................................................................................................49
4.1 - O co-inconsciente de J.L. Moreno..................................................................................................................49
4.2 - Seminário de Constelações Familiares (I parte).....................................................................................51
4.3 - As Constelações Familiares de B. Hellinger..............................................................................................54
4.4 - Seminário de Constelações Familiares (II parte)...................................................................................58

Capítulo 5
A Psicogenealogia..........................................................................................................................................................62
5.1 - Anne Ancelin Shützenberger..........................................................................................................................63
5.2 - Lealdades invisíveis de Boszormenyi-Nagy.............................................................................................65
5.3 - Sessões de Psicogenealogia com Mariolina (I parte)...........................................................................69
5.4 - Síndrome de aniversário..................................................................................................................................73
5.5 - A criança de substituição e elaboração do luto: caso de Bárbara...................................................77

3
5.6 – Neurose de classe - Vincent de Gauléjac...................................................................................................82
5.7 - Sessões de Psicogenealogia com Mariolina (II parte).........................................................................87

Capítulo 6
Psicogenealogia prática..............................................................................................................................................90
6.1 - O genograma e o genossociograma.............................................................................................................90
6.2 - Como elaborar o próprio genossociograma............................................................................................92
6.3 - Entrevista com a Psicogenealogista C. Damiano...................................................................................97
6.4 - Psicogenealogia e o mundo do trabalho.................................................................................................102
6.5 - Segredos de família: congresso em Avignon.........................................................................................107

Conclusão......................................................................................................................................................................113

Apêndice Gráfico......................................................................................................................................................118

Bibliografia..................................................................................................................................................................130

Nota sobre a autora................................................................................................................................................132

4
APRESENTAÇÃO

“Aprendi que nesta vida temos como função levar adiante o ideal dos iniciados (avós)
para servir de base aos iniciantes (netos).
E que devemos fazer com que o ideal dos primeiros em algo,
ultrapasse a barreira do tempo e das gerações e sobreviva no seu caminho adiante.
Ora como guia para os iniciantes ou para os cegos,
ora como base para os visionários.”*

Caro leitor,

é com imensa alegria que vejo este livro sendo publicado em língua portuguesa. Desde o
primeiro momento que o li em sua versão original e algum tempo depois, tive o prazer de
conhecer pessoalmente o trabalho em Constelações Psicogenealógicas© da sua autora, fiquei
muito entusiasmada com a possibilidade de traduzi-lo e publicá-lo em meu país.
Acredito que este livro também despertará em você muito entusiasmo, porque sua
autora tratou do tema proposto de forma muito inteligente e instigante. Ela teceu e coseu, com
diversas linhas teóricas, uma “bella” colcha de retalhos transgeracional usando, como tecido
avesso dessa colcha, as ideias de Carl Gustav Jung sobre o inconsciente coletivo familiar.
Desejo que a leitura deste livro lhe traga muitas respostas, mas, sobretudo que lhe
desperte outras perguntas sobre o tema transgeracionalidade.

Jaqueline Cássia de Oliveira


Psicoterapeuta Familiar Sistêmica
Estudiosa da Psicogenealogia

________________________________________________________
* Oliveira, Jaqueline Cássia - Material didático – Psicogenealogia Sistêmica, pág. 68

5
AGRADECIMENTOS

Quero expressar reconhecimento e gratidão:

ao meu marido Francesco que me ajudou e me apoiou. Sem ele, este livro e todo o meu
percurso pessoal não seriam possíveis;

à minha família e a todos os meus antepassados que, com suas histórias, muitas vezes difíceis,
contribuíram para a minha estruturação, tanto para o bem quanto para o mal, aquilo que sou;

à minha família adquirida e extensa cujo afeto me encoraja a viver esta vida sem medos;

a todos aqueles que confiaram em mim, permitindo-me relatar suas histórias;

às pessoas que me deram formação com competência e afeto em psicoterapia, em


Psicogenealogia e em constelações familiares;

aos meus editores que, com entusiasmo contagioso, me estimularam nessa aventura;

a Jung, o meu Mestre e ao Monviso*, o Rei de Pedra, sob à sombra dos quais, durante dois
verões, elaborei esta obra.

________________________________________________________
Nota do Tradutor: *Monviso – montanha em forma piramidal, situado nos Alpes na Região de Piemonte na Itália. Conhecido como “Rei de Pedra”.

6
PREFÁCIO

"O homem que sabe porque sofre pode suportar qualquer coisa."

Nietzsche

No verão de 2003, já havia sete anos que vivíamos em Nice, na França, e festejava os
meus 50 anos.
Nesse momento delicado da vida, em particular de uma mulher, confrontaram-me
importantes transformações físicas a respeito da feminilidade e, inevitavelmente deparei-me
com balanços e reflexões nem sempre muito felizes.
Foi um momento muito difícil para mim: também precisava enfrentar o problema de
elaborar o luto depois da morte prematura dos meus pais e o rompimento da relação com
minha irmã mais nova.
Há algum tempo, meu marido e eu passávamos os verões nas montanhas italianas.
Francesco havia lido um livro que, particularmente o agradou e, eloquentemente, aconselha-
me, também, a ler.
Quem poderia imaginar que aquela leitura viria a ter tamanha importância em nossa
vida futura? Ninguém, acredito, poderia prever que tal leitura seria determinante. O livro a que
me refiro é "Memórias, sonhos e reflexões" de Carl Gustav Jung.
No retorno das férias, procurei, na França, uma formação em Psicologia, diferente dos
estudos universitários, cujos programas sempre achei muito limitados, setoriais e, algumas
matérias, completamente inúteis.
A minha principal motivação (racional) era aquela de aprofundar o meu conhecimento
da língua francesa, visto que havia estudado por três anos em uma escola francesa em Nice e
obtido os melhores diplomas nesse campo.
Porque não acrescentar à minha preparação, a língua de minha mãe, o francês, através
de uma formação para me tornar psicoterapeuta?
Ainda que esse pensamento pudesse parecer estranho, não era de todo absurdo: como é
possível aprofundar-se em uma língua senão através da capacidade de comunicar expressões
mais intensas de sentimentos e de afetividade?
E qual formação permitiria esse aprofundamento? Depois de muita procura, encontrei
uma escola que propunha formação em psicoterapia, onde, no decorrer de quatro anos,
ministravam matérias como Psicanálise, Psicologia infantil, teorias e técnicas psicoterápicas
aplicadas, sistêmicas e teorias da comunicação, além de proporem seminários de trabalho
sobre si mesmo e sobre os outros com técnicas como PNL, Eneagrama, Hipnose, Arteterapia,
Grafologia, técnicas da comunicação, em um ambiente totalmente francófono.
Logo em seguida, descobri que, na realidade, a minha motivação era bem mais complexa
e profunda daquela que me surgiu no primeiro instante. Essa posterior descoberta, em parte,
está ligada ao seminário de Constelações Familiares do qual participei em Turim no mesmo
período. Ali entendi, pela primeira vez, que a “confusão” que sentia no interior da minha

7
família, derivava dos não-ditos e dos segredos em relação ao ramo francês da família de minha
mãe.
A primeira confusão vinha do fato de que a minha língua materna, etimologicamente, a
língua própria da mãe, não era a língua do país em que nasci e cresci, a Itália, mas a língua
materna de minha mãe, ou seja, o francês. Além disso, as coisas eram complicadas pelo fato de
minha avó francesa haver rompido relações com sua família de origem. Nos relatos sobre a
história familiar não se falava jamais sobre isso, era como se nada houvesse existido. Nunca se
soube o porquê dessa ruptura.
Teria sido a necessidade de reparar a injustiça do esquecimento dos antepassados
franceses que me levou a viver na França e conquistar uma maior compreensão da cultura e da
história daquele país?
Se essa hipótese, evidenciada durante o seminário de constelações familiares e
confirmada por outras experiências, estiver certa, de onde vem essa necessidade inconsciente?

A teoria de Jung sobre a existência de um inconsciente coletivo e familiar e de uma


transmissão transgeracional inconsciente poderia responder de modo convincente a tais
perguntas.
Além disso, a experiência prática da Psicogenealogia durante diversos seminários de
formação com uma aluna de Anne Ancelin Schutzenberger me permitiu verificar
concretamente da eficácia da concepção junguiana, entendendo que isso era apenas um “mapa
do mundo” e não verdadeiramente o mundo. Como diz a PNL, “o mapa não é território”.
Quando terminei os estudos junto ao Institut Européen de Psychologie Appliquée
(IEPA) de Saint Laurent du Var, para tornar-me psicoterapeuta, escolhi apresentar uma tese
sobre a relação entre Jung, o inconsciente coletivo e a Psicogenealogia.
No ano em que preparei a tese, confrontei-me com especialistas internos e externos ao
instituto e, em particular, com especialistas junguianos. Além disso, sendo uma tese de
Psicologia Aplicada, era fundamental levarem em conta não somente a própria experiência
pessoal, mas também os casos clínicos para ilustrar as teorias propostas. Encontrei, então,
pessoas dispostas a permitir publicar suas histórias, ainda que de forma anônima, e redigi as
histórias desses encontros e das reflexões ligadas a elas.

Este livro é a história da minha busca de aprofundamento das intuições que me


empurraram em direção à Psicogenealogia, seja através da teoria de Jung e de outros autores,
seja através de uma reflexão sobre casos clínicos.
As hipóteses que são a base deste trabalho de pesquisa evidenciam que o conceito de
inconsciente coletivo formulado por Jung é, na realidade o fundamento da elaboração teórica
da Psicogenealogia e que a mesma, trabalhando sobre as transmissões transgeracionais
inconscientes, é a demonstração prática do paradigma junguiano.
Escolhi desenvolver essas hipóteses partindo da descoberta do inconsciente coletivo
por C.G.Jung. Precisarei usar conceitos-chaves ligados à Psicogenealogia, como arquétipos e
sincronicidade.
Depois apresentarei os autores mais importantes que falaram da transmissão
transgeracional, iniciando por Freud, Françoise Dolto e o seu aluno Didier Dumas, Nicolas
Abraham e Maria Torök, para concluir com a contribuição do cientista inglês Rupert Sheldrake
8
que, levantando hipóteses sobre a existência de campos mórficos, alargou os horizontes da
compreensão dos mecanismos de transmissão de eventos e traumas de gerações em gerações.
Não se pode lidar com a abordagem transgeracional sem falar de Moreno, do co-
inconsciente familiar e de grupo e do Psicodrama que, a meu ver, é uma das técnicas das quais
deriva o método das Constelações Familiares de Bert Hellinger, em que aprofundaremos.
Relato, também, a minha primeira experiência em um seminário de Constelações Familiares.
Aprofundarei, em particular, na Psicogenealogia, começando com o genograma, ou
árvore psicogenealógica, como instrumento de trabalho que permitiu a Anne Ancelin
Schützenberger desenvolver uma abordagem centrada na história familiar sobre mais
gerações.
Explicarei a teoria da Psicogenealogia transgeracional contextual à qual aderiu Anne
Ancelin. Seu idealizador, Ivan Boszormenyi-Nagy, introduziu o princípio da lealdade familiar
invisível que está na base da síndrome do aniversário, descoberta por Josephine Hildegar.
Introduzirei a neurose de classe descoberta por V. De Gouléjac que propõe um ponto de
vista sociológico, além do psicanalítico, dos conflitos multigeracionais.
Nos capítulos singulares serão expostos os casos práticos relacionados com as teorias
expostas, ilustradas por genossociogramas simplificados.
Na parte final, dedicada à Psicogenealogia prática, enfatizarei o instrumento do
genossociograma ou árvore psicogenealógica.
Para concluir o panorama das possíveis aplicações práticas, apresentarei uma entrevista
concedida a mim por Cathy Damiano, psicóloga, aluna de Anne Ancelin, formada em
psicoterapia e Psicogenealogia, um capítulo de aprofundamento sobre Psicogenealogia e
mundo do trabalho, por fim, um relato relativo ao congresso realizado em Avignon, sobre
segredos de família.
Na conclusão desenvolverei as minhas reflexões sobre a transmissão inconsciente entre
as gerações, a sua relação com o inconsciente coletivo de C.G.Jung e as regiões do crescente
desenvolvimento da Psicogenealogia na sociedade moderna.

9
INTRODUÇÃO

Psicogenealogia, a matriz junguiana

“O mundo muda.
Não podemos acolhê-lo senão sob a forma de uma imagem psíquica em nós.
E não é sempre fácil entender, quando a imagem se transforma,
se foi o mundo que mudou, ou nós ou as duas coisas”.
Carl Gustav Jung

Atualmente a Psicogenealogia começa a ser conhecida e apreciada também na Itália. Em


2009, quando retornei da França, onde a Psicogenealogia nasceu e onde é praticada
correntemente, o livro de Anne Ancelin Schützenberger, Meus antepassados, tinha sido
traduzido há pouco tempo e ninguém, além dos interessados nesses trabalhos, sabia do que se
tratava.
Anne Ancelin, sintetizando as contribuições de vários autores, permitiu, com essa obra,
que se trouxesse ao grande público a abordagem transgeracional. O livro foi traduzido, além do
italiano, para o inglês, alemão, russo, português, espanhol (na Argentina) e foi, em todos os
lugares, sucesso de crítica e público.
Quando li essa obra, morava na França e fiquei surpresa em constatar que, na parte
dedicada às teorias que permitiram a formulação da abordagem terapêutica, a Psicogenealogia,
a autora fala de Jung e do inconsciente coletivo em menos de uma página. A meu ver, as duas
teorias têm muito em comum e penso que essa falta não tenha sido por acaso.
Em efeito, Anne Ancelin admite que as teorias do inconsciente coletivo e da
sincronicidade estejam ligadas às transmissões transgeracionais, sem, porém, aprofundar
muito nesses conceitos transgeracionais, não entrando em detalhes da teoria junguiana e
preferindo dedicar as suas reflexões à ruptura entre Freud e Jung.
Como antecipei, tenho um débito de reconhecimento a Jung que me permitiu uma nova
visão da realidade e que é, entre outras coisas, meu mestre no que tange à busca interior. Então
senti a necessidade de escrever este livro para restituir uma nova voz aos contributos de Jung
na Psicogenealogia e dissipar algumas dúvidas.
Anne Ancelin cita Bruno Bettelheim a propósito da ruptura entre Freud e Jung:

“Recordava, pouco depois de seu retiro e da sua morte, que esse rompimento foi baseado
na falta de ética com a qual Freud censurou em Jung, ruptura tal que Jung teria mascarado sob
uma diferença de ideias em torno da teoria das pulsões.“1

Além disso, Anne Ancelin destaca em uma entrevista a Revue Gestalt, n.22 de junho
2004: “Mas sejamos honestos: a ruptura entre Freud e Jung acontece quando Freud joga na cara
de Jung que ele se deitava com suas pacientes e as defendia. Coisas que não se ensinam jamais em
terapia junguiana.
________________________________________________________
1 A.A.Schützenberger, Aïe mes Aïeux, pag 16

10
No entanto é um fato: as memórias de Sabina Spielrein que foram publicadas há uns
quinze anos na Itália, descrevem como ela tinha convicção de que estava grávida, bem como Jung
teria “batido a porta em sua cara”, como ela foi lamentar-se com Freud e como Freud censurou
Jung que rompeu com ele, e abrindo assim uma nova escola.”2
É necessário precisar que a revista se distancia dessas afirmações de Anne Ancelin,
dizendo em uma nota que: “o rompimento entre Freud e Jung sucedeu nos anos de interação –
mais ou menos fáceis – entre os dois homens”.
Quero aprofundar nessas afirmações graves da honra de Jung: lidando com pacientes
psicóticos internados num hospital psiquiátrico, como poderemos ver em sua breve biografia,
no primeiro capítulo, aproveitar-se de sua posição médica, não teria sido um comportamento
correto.
Procurei então o texto de Bruno Bettelheim, citado por Anne Ancelin no livro “O peso de
uma vida”, coletânea de ensaios e memórias”, no qual há um capitulo dedicado à Sabine
Spielrein e a Jung sob o título: “Uma assimetria secreta” .
Nesse artigo, publicado pela primeira vez em uma revista americana em 1983, Bruno
Bettelheim fala da descoberta feita pelo psicanalista Aldo Carotenuto, ao Instituto de Psicologia
de Genebra, de um dossiê referenciando Sabine Spielrein. Tratava-se de seu diário e das
correspondências com Freud e Jung, onde se podia ler sobre a influência excepcional que essa
mulher tinha exercido sobre a vida e pensamento de Jung, mas também sobre a Psicanálise
freudiana.
Mas quem era Sabine Spielrein e qual foi o seu real papel no rompimento das relações
de Freud e Jung?
Sabine Spielrein era uma judia russa que durante a adolescência sofreu de distúrbios
esquizofrênicos graves. Aos 19 anos foi levada pelos seus pais – “ricos, cultos e inteligentes”3 ao
Hospital Psiquiátrico de Zurique, o Burgholzli, de reputação mundial. Jung ali trabalhava havia
quatro anos e no ano seguinte tornou-se o “médico principal”. Sabina Spielrein foi uma de suas
primeiras pacientes a ser tratada com o novo método terapêutico descoberto por um médico
vienense chamado Freud: a Psicanálise.
Um ano após sua internação no hospital psiquiátrico, Sabine Spielrein se inscreveu na
Universidade de Medicina de Zurique, onde apresentou sua tese de doutorado: Conteúdo
psicológico de um caso de esquizofrenia.
“A ex-doente esquizofrênica era agora uma doutora que tratava os distúrbios mentais,
uma pensadora original, cujas ideias mais tarde se tornariam de suma importância no sistema
freudiano.”4
Depois da sua demissão do hospital psiquiátrico, Sabine continuou sua análise com Jung
e era ainda sua paciente após três anos, quando se tornaram amantes. Ela tinha 22 anos e ele
32 anos.
Segundo Bettelheim, a essa relação e à influência que Sabine Spielrein exercia sobre
Jung, que devemos uma parte das formulações junguianas, em particular os conceitos de Anima
e Sombra.
________________________________________________________
2 A.A.Schützenberger, Aïe mes Aïeux, pag 16

3 B Bettelheim, Le poids d’une vie, pag. 84


4 B Bettelheim, Le poids d’une vie, pag. 84

11
Além disso, essa mulher excepcional deu uma importante contribuição também à teoria
freudiana: em 1911 diante de um grupo de psicanalistas de Viena, na presença de Freud, expôs
as próprias ideias sobre a pulsão destrutiva e sua estreita relação com pulsão sexual,
contribuindo para o desenvolvimento da teoria freudiana sobre a pulsão de morte.
Em 1909, Freud soube de maneira oficial da relação entre Sabine Spielrein e Jung,
porque ela lhe escreveu uma carta informando. A primeira vez que Freud e Jung se
encontraram, depois dessa carta foi quando embarcaram para uma viagem aos Estados Unidos
e estiveram juntos durante seis semanas. O rompimento definitivo entre eles ocorreu em 1913,
ou seja, quase quatro anos após o conhecimento oficial da natureza da relação entre Sabine
Spielrein e Jung.
A opinião de Bettelheim reflete a moral rígida da época e não há condescendência
alguma para com Jung, na verdade, ele fala que foi um comportamento inaceitável, de conduta
escandalosa (e vale lembrar que além de tudo Jung era casado), nada ortodoxo, até mesmo
desonroso, mas teve que admitir que Jung curou Sabine Spielrein da esquizofrenia.

“Qualquer que seja o julgamento moral que se possa ter sobre o comportamento de Jung
em relação a Sabine Spielrein, sua primeira paciente psicanalisada, não se pode ignorar a
consequência mais importante: ele a curou do distúrbio para o qual fora incumbido por seus pais
quando a deixaram sob seus cuidados”.5

Além disso, a biografia de Sabina Spielrein esclarece que ela nunca engravidou de Jung,
mas que desejava um filho dele e isto foi a razão do rompimento de suas relações.
Essa mulher excepcional teve uma história de vida muita intensa: em 1911 foi viver em
Viena e se tornou membro oficial da Sociedade Psicanalítica de Viena. Depois de um ano,
trocou Viena pela Alemanha, onde se casou com um médico russo e com ele teve duas filhas.
Continuou, mesmo assim, a ter uma avalanche de correspondências com Freud e Jung, até
1918. Em 1923 retornou à Rússia. Em Moscou, dirigiu uma clínica psicanalítica infantil. Em
1925, provavelmente devido aos conflitos no poder de Stalin, retornou para sua cidade natal,
Rostov, onde faleceu seu marido em 1930. Ela morreu junto com suas filhas em 1941, quando
os alemães invadiram Rostov e fuzilaram os judeus dentro de uma Sinagoga.
Depois desse triste episódio, Jung começou uma profunda autoanálise que duraram
cinco anos e foi a base para a elaboração de sua teoria.
Aldo Carotenuto chama atenção em seu livro dedicado à descoberta do dossiê Sabine
Spielrein, para aqueles que foram os primeiros raios da Psicanálise quando ainda não se
conhecia os efeitos da transferência e contratransferência entre paciente e psicanalista.
Além disso, Jung nunca havia feito Psicanálise: “o que se pode supor que o seu olhar
através da então nova abordagem psicanalítica, na relação com os pacientes, o conduziram (por
falta de análise pessoal) a uma aventura espinhosa.”6
O tempo das disputas fora superado, diz Anne Ancelin em seu livro, mas parece que as
polêmicas e mal entendidos deixaram marcas que, evidentemente, foram difíceis de serem
canceladas.

________________________________________________________
5Op. cit. pag.111

6 Carotenuto, Diario di una segreta simmetria, pag.42

12
CAPITULO 1
Carl Gustav Jung – Inconsciente coletivo e familiar

“Toda concepção de mundo tem uma singular tendência


a considerar como sendo a última verdade sobre o universo,
no entanto é somente um nome que damos às coisas.”
Carl Gustav Jung

1.1 – Carl Gustav Jung

Carl Gustav Jung nasceu em 26 de julho 1875, em Kesswilt, um pequeno lugarejo na


costa suíça, do Lago de Constança. Seu pai era um pastor protestante que se instalou com a
família perto de Bâle, onde Jung cursou o Ensino Médio.

“Foi nesse tempo que percebi que éramos pobres, que meu pai era um pobre pastor
camponês e eu, com as minhas solas dos sapatos furadas tinha que ficar sentado na sala de aula
por seis horas, com as meias molhadas, eu era o filho mais pobre desse pastor.”7

Ao final do Ensino Médio, no momento de decidir em qual faculdade inscrever-se, ficou


muito tempo indeciso em sua escolha entre Filosofia e Ciências Naturais. Somente após um
sonho revelador, decide inscrever-se no curso de Medicina.
Obteve uma bolsa de estudos junto à Universidade de Medicina de Bâle, onde se tornou
médico. Em seguida, especializa-se em psiquiatria na clinica psiquiátrica de Zurique com o
Professor Eugen Bleuler. Após ter defendido sua tese sobre Psicopatologia dos fenômenos
ocultos, torna-se assistente do Hospital Psiquiátrico de Zurique, onde faz seu aprendizado.
“Na linha de frente de meus interesses e nas minhas pesquisas havia sempre uma ardente
pergunta: o que acontece dentro do doente mental? Naquela época não tinha entendido ainda e
entre os meus colegas nenhum se interessava por aquele problema. O ensinamento psiquiátrico
desconsiderava a personalidade do doente e se contentava de fazer um diagnóstico que
envolvesse os sintomas e dados estatísticos.”8
Cinco anos depois foi nomeado docente da Universidade de Zurique, encarregado do
curso de psiquiatria e médico chefe da clínica universitária. Em 1909 sua clientela particular
era em número altíssimo, viu-se então obrigado a abandonar as ocupações universitárias.
Em 1900, lera A Interpretação dos Sonhos de Freud que já conhecia por haver estudado,
no princípio de sua carreira, a obra de Bleuler e de Freud sobre a histeria.
Jung disse que o livro de Freud sobre a interpretação dos sonhos e a sua pesquisa sobre
um método de análise e de interpretação do mundo irreal lhe abriu “a compreensão das formas
de expressões esquizofrênicas”. Jung já o tinha intuído, a esquizofrenia tem um linguajar que é
do inconsciente, como nos sonhos.

________________________________________________________
7 C.G. Jung, Ma vie, pag. 43

8 Idem, pag. 140

13
Naquele período, Freud era considerado “persona non grata” no mundo universitário e
era arriscado ter contato com ele se alguém desejasse ter reconhecimento cientifico. As
pessoas “importantes” mencionavam Freud em voz baixa e nos congressos se falava dele nos
corredores, mas jamais em um seminário ou discussão aberta.
No entanto, Jung se posicionou publicamente favorável a ele e à Psicanálise, entendendo
ser uma nova via para a compreensão dos mecanismos psicopatológicos.
Em 1907, ocorreu o primeiro encontro com Freud: “Me convidou para um encontro e em
fevereiro de 1907 aconteceu o nosso primeiro encontro em Viena. Encontramo-nos à uma hora da
tarde e falamos por treze horas sem intervalo. Freud foi a primeira personalidade importante que
eu tinha encontrado até então. Ninguém dentre as minhas relações da época podia ser
comparado ao seu nível...o achei extraordinariamente inteligente, penetrante, notável sob todos
os pontos de vista.”9
Tornou-se discípulo e amigo de Freud que era 19 anos mais velho que ele. Trocaram,
durante seis anos, uma quantidade de correspondência equivalente a dois volumes. Viajaram
juntos pela primeira vez para os Estados Unidos e Jung seria o primeiro presidente da
Associação Psicanalítica Internacional criada por Freud.
Em seu livro Minha Vida, Jung escreve que sempre teve dúvidas sobre a teoria de Freud,
que propõe somente a repressão como trauma sexual. Não podia aceitar uma concepção da
energia psíquica (a libido) limitada somente à pulsão sexual reprimida.
Sobretudo, a atitude de Freud com relação à espiritualidade lhe era extremamente
contrária: Jung dizia que cada vez que a expressão da espiritualidade se manifestava em
alguém ou em uma obra de arte, Freud a interpretava como sexualidade reprimida.
“Objetei pesando, logicamente e a fundo, que a sua hipótese conduzia a raciocínios que
destruiriam toda a civilização, e que parecia uma simples brincadeira como consequência
perversa da repressão sexual. _ Sim, confirma ele, é exatamente isto. É uma maldição do destino
diante do qual somos impotentes. Não estava nem de longe de acordo, mas não me sentia ainda à
altura de discutir com ele”.10
Em 1912, com a publicação de Metamorfose e símbolos da libido, Jung exprime
claramente alguns de seus conceitos-chave, dentre eles, aquele do inconsciente coletivo,
provocando a ruptura com Freud.
O conflito com Freud provoca em Jung um período de incertezas interiores e
desorientação; o distanciamento do mestre teve um preço muito alto a ser pago.
De 1913 a 1918, Jung entra em uma fase de autoanalise muito intensa, era início da
Primeira Guerra Mundial, ele se encontrava em um estado de tensão e de desordem.
Frequentemente recorria a exercícios de yoga para conseguir administrar suas próprias
emoções.
“Como o meu objetivo era de vivenciar aquilo que estava acontecendo dentro de mim, não
procurava refúgio naqueles exercícios, mas encontrar a calma que me permitiria retornar ao
trabalho com o meu inconsciente”11

________________________________________________________
9 C.G. Jung, op. cit., pag. 176

10 C.G. Jung, Ma vie, pag. 176

11 C.G. Jung, Ma vie, pag.206

14
Nesse período da vida, Jung começa um trabalho sobre si mesmo que considera um
confronto com o seu próprio inconsciente: o estudo dessas experiências pessoais seria base da
elaboração teórica sucessiva.

“A princípio, havia concebido o confronto com o inconsciente como uma experiência


científica que fazia sobre mim mesmo, cujo resultado me interessava vivamente. Certo que hoje
poderia acrescentar: aquilo representava uma experiência que foi tentada comigo também.”12
Somente ao final da Primeira Guerra Mundial pôde sair “progressivamente das trevas”.
Havia começado esse confronto com o inconsciente na segunda metade da vida e esse trabalho,
durou diversos anos. Após aproximadamente vinte anos, pôde elaborar e colocar na própria
obra as experiências que havia vivido e anotado naquela época.
Jung foi também um grande estudioso; interessava-se por Psicologia, por Medicina, mas
também por Mitologia, Arqueologia, Etnologia, simbolismo da arte e alquimia.
Viajou muito, aprofundando-se em usos e costumes de outras culturas na África e na
América e estudando particularmente os costumes dos povos indianos.
A sua análise da Psicologia Humana se baseia no estudo da psique da pessoa normal: ao
invés de explorar a pessoa neurótica ou psicótica, parte da “normalidade” para dar luz a
conceitos psicológicos comuns a toda humanidade como os arquétipos, o inconsciente coletivo, a
persona ou máscara social, a anima e o animus, o “Self”, entendido como um conjunto
harmônico da personalidade.
A sua visão do homem é dinâmica, prevê a mudança e pode ser resumida em dois
conceitos: o tornar-se e a transformação. A sua Psicologia Analítica não é somente um
instrumento para o tratamento das patologias psicológicas, mas também uma filosofia de vida,
um instrumento para desenvolver a própria alma segundo um processo que chamou de
individuação; para tornarmos indivíduos completos, é necessário superar conflitos dentro de
várias partes de nós mesmos.
Tornar-se verdadeiramente “si mesmo” é ser completamente consciente do próprio
funcionamento psíquico; é uma troca dinâmica entre consciência, ou consciente (tudo aquilo do
qual o individuo está ciente), e inconsciente; nessa relação, consciência deve compreender as
manifestações do inconsciente.
Para Jung, existe um inconsciente pessoal que foi adquirido durante a vida do individuo
e um inconsciente coletivo, constituído de arquétipos que são a base comum do pensamento de
toda a humanidade.
A teoria de Jung é muito complexa e não é minha intenção aprofundá-la neste contexto.
O que me interessa é acenar os conceitos que possam estar relacionados à Psicogenealogia e à
transmissão transgeracional inconsciente como inconsciente coletivo, arquétipos e
sincronicidade.

________________________________________________________
12 Idem, pag. 207

15
1.2 – Inconsciente coletivo

“Tudo aquilo que não chega até à consciência, retorna sob a forma de destino”.
C.G. Jung

Foram filósofos como Kant, Schelling, Schopenhauer que primeiro falaram sobre o
inconsciente, mas foi Freud que, fazendo dessa entidade psíquica o centro da teoria
psicanalítica, deu relevância mundial aos mecanismos do inconsciente.
Para Freud, o inconsciente nasce do refluxo das tendências insatisfeitas que a psique
não consegue controlar. Essas tendências, apesar da censura do consciente, frequentemente
continuam a causar uma atividade perturbadora (retorno do recalcado) que é muitas vezes
patológica. O inconsciente para Freud é uma força perigosa, prejudicial: as suas manifestações
são sobretudo mórbidas e perturbadoras, mais ou menos profundas, no curso normal da vida.
Freud, a partir de seus próprios problemas, sofrimentos, angústias e dúvidas concebeu
este “buraco negro”, “não falado”, “não expresso” (outras traduções para a palavra Unbewusste,
“inconsciente” , em A.A Schützenberger, Aïe, mes Aïeux, pag.14) que cada pessoa traz consigo.
A concepção junguiana do inconsciente difere sensivelmente daquela de Freud: Jung
considera também que, se o inconsciente pode ter manifestações mórbidas, é
fundamentalmente benéfico.
“Teoricamente é possível definir limites para o campo da consciência. Empiricamente,
porém, encontra o seu limite quando alcança o ignorado. Esse último é constituído de tudo aquilo
que ignoramos e que, por consequência, não tem relação com o Eu, centro do campo da
consciência. O ignorado se divide em dois grupos de objetos, aqueles que são externos e que seria
acessível pelos sentidos e aqueles que são internos (...) o primeiro grupo constitui o desconhecido
(ignorado) do mundo externo, o segundo, o desconhecido (ignorado) do mundo interno. Nós
chamamos de inconsciente este último. “13
“O inconsciente não se compõe só de elementos excluídos, mas também de todos os
elementos psíquicos que não chegaram à consciência.”
“O consciente e o inconsciente não se opõem necessariamente, mas se completam
reciprocamente formando um conjunto, o Self.”14

Para Jung, a vida psíquica se constitui necessariamente de uma parte consciente e de


uma parte inconsciente que se compensam mutuamente. Essa totalidade psíquica não pode ser
privada de um de seus componentes: segundo E. G. Humber, um dos grandes estudiosos de
Jung, a perda da consciência é alienação, e a perda do inconsciente é empobrecimento e
transtorno mental.
O inconsciente é também caracterizado pela sua atividade criativa:

“Para mim, o inconsciente é uma disposição psíquica coletiva de caráter criativo. O


inconsciente é a matriz de todas as afirmações metafísicas, da mitologia e da filosofia – se não são
puramente críticas – e de todas as expressões da vida que são fundadas sobre as premissas
psíquicas”. 15
________________________________________________________
13 C.G. Jung, Le moi et l’incoscient, pag. 45
14 C.G. Jung, Dialectique du Moi et de l’inconscient, pag.76
15 E. G.Humbert, Jung, pag.118

16
Além disso, Jung acredita que no inconsciente se encontram também os conteúdos que
não adquirimos individualmente, mas que foram herdados, como os instintos ou os impulsos
que servem para executar algumas ações impostas pela necessidade e que não precisam de
nenhuma motivação consciente.
Nessa parte mais profunda da psique, denominada pelo Jung por inconsciente coletivo,
onde se encontram as memórias dos antepassados, dos quais trata a Psicogenealogia,
encontramos os arquétipos.

“Pode-se distinguir, inicialmente, o inconsciente pessoal que engloba todas as aquisições


da vida pessoal, aquilo que esquecemos, aquilo que removemos, percepções, pensamentos e
sentimentos subliminares. Ao lado desses conteúdos pessoais, existem outros, que não foram
pessoalmente adquiridos; que provêm da capacidade inerente do funcionamento psíquico em
geral, particularmente da estrutura herdada do cérebro (...) eu estabeleço esses conteúdos
dizendo que é o inconsciente coletivo”. 16

A ideia do inconsciente coletivo surgiu para Jung logo após um sonho que teve em 1909
a bordo de um navio que o levava juntamente com Freud para a Europa depois da viagem aos
Estados Unidos. Nesse sonho, via uma casa que tinha abaixo do nível da cantina* principal, uma
cantina suplementar, debaixo da qual se encontrava um conjunto de vasos, ossos e crânios pré-
históricos.

“Eu pensava (naquele momento) que certamente ele (Freud) tivesse aceitado a existência
dessas cantinas debaixo do “seu” inconsciente pessoal (do seu representante de inconsciente
pessoal), mas os sonhos que tive depois me falaram tudo ao contrário”. 17

Em efeito, foi analisando os seus sonhos e aqueles de seus pacientes, principalmente das
crianças, que Jung descobriu o inconsciente coletivo. Observando os sonhos das crianças,
percebeu que incluíam conteúdo ancestral que não poderiam ser conhecidos pela consciência
(consciente) deles e levantou a hipótese da existência de um inconsciente coletivo como lugar
das representações herdadas.

“Os instintos e os arquétipos constituem o conjunto do inconsciente coletivo. Denomino-o


coletivo porque, ao contrário daquele pessoal, não é construído por conteúdos individuais (...) mas
de conteúdos que são universais e que aparecem regularmente”. 18

Jung distingue diferentes camadas do inconsciente coletivo: inicialmente o inconsciente


coletivo familiar, depois o inconsciente coletivo do grupo étnico e cultural e, enfim, o
inconsciente coletivo onde tudo é comum à humanidade como medo do escuro e o instinto de
sobrevivência.

________________________________________________________
16 C.G.Jung, Types psychologiques, pag. 110

* Nota do Tradutor: Cantina é o local para armazenar alimentos e vinhos. Fica na parte de baixo da casa, como um porão.
17 C.G.Jung, Ma vie, pag. 189
18 C.G.Jung, L’énergetique psychique, pag.99

17
“Quanto mais os estados são profundos e obscuros, mais perdem a sua originalidade
individual. Quanto mais profundos (...) mais se tornam coletivos e acabam por se universalizar e
extinguir na materialidade do corpo, isto é, nos corpos químicos. O carbono do corpo humano é
simplesmente carbono. No mais profundo de si mesma, a psique não é mais que o universo.”19

A influência do inconsciente coletivo sobre a psique individual pode ser comparada,


segundo Jung, à influência da sociedade sobre o indivíduo, mas a primeira é invisível, enquanto
a segunda é evidente. Por isso, não é estranho que não sejam compreendidas as influências do
mundo interior sobre a consciência e que se trata da original patologia dos indivíduos que,
abandonando o senso comum, exprimem o inconsciente coletivo deles. Exceto quando, depois
de uma ou duas gerações, descobre-se que eram os genes.
Quanto mais o inconsciente coletivo ganha influência, mais a parte consciente e racional
perde sua posição dominante. E sem que se perceba, quem conduzia, na verdade, estava sendo
conduzido; graças a uma maturidade psíquica, a consciência deveria assimilar os conteúdos
produzidos pelo inconsciente, isto é, compreendê-los e absorvê-los.
Segundo Jung, o inconsciente coletivo supõe, entre outras coisas, certa transmissão
inconsciente.

“Não afirmo a transmissão hereditária das representações, mas unicamente a transmissão


hereditária da capacidade de evocar tal qual outro elemento do patrimônio representativo.”20

Em seu livro autobiográfico, Memórias, sonhos e reflexões, Carl Gustav Jung fez
afirmações que lhe fizeram o precursor da abordagem psicogenealógica.

“Enquanto eu fazia minha árvore genealógica, entendi a estranha semelhança do destino


que me conecta aos meus antepassados. Tenho fortemente a sensação de estar sob a influência de
coisas ou de problemas que foram deixados incompletos ou sem respostas pelos meus pais, por
meus avós e pelos meus antepassados. Parece-me que, frequentemente, existe nas famílias um
carma impessoal que se transmite dos pais para os filhos.
Eu sempre pensei que também eu deveria responder às questões que o destino havia dado
aos meus antepassados, para as quais não tinham conseguido encontrar resposta, ou que eu
deveria resolver, ou simplesmente continuar a me ocupar dos problemas que foram deixados
suspensos no passado. A psicoterapia não tem ainda embasamento suficiente para essa
situação.”21

Continuando, o inconsciente coletivo é uma parte da psique que não deve sua existência
à experiência pessoal do sujeito; manifesta-se nos sonhos, nos delírios, nas artes e é a base sob
a qual se trabalha na Psicogenealogia.
Gostaria, neste ponto, de propor a primeira parte de um caso prático de
Psicogenealogia, que ilustra a noção do inconsciente coletivo.

________________________________________________________
18 C.G.Jung, L’énergetique psychique, pag.99

19 C.G.Jung, Introduction à l’essence de la mythologie, pag.125

20 C.G.Jung, Psychologie de l’inconscient, pag.122

21 C.G.Jung, Ma vie, pag.173

18
1.3 - Sessões de Psicogenealogia com Paule (1)

Eu conheci Paule em um ambiente escolar quando ainda vivia na França e entre nós
nasceu uma simpatia imediata. Tive em relação a ela um sentimento de familiaridade, como se
ela fosse meio estrangeira como eu.
De fato, ainda que de nacionalidade francesa, ela nasceu no exterior e, como eu, também
era sempre “de outro lugar” mesmo sendo seus laços com a França, sua cultura, sua família e suas
origens, muito fortes.
Na sua família, muitos tinham trabalhado por longos períodos no exterior: desde bisavós e
até ela própria eram consideradas expatriadas, pessoas que mesmo trabalhando para empresas
de seus países de origem, viveram de modo, mais ou menos, permanente fora de suas nações.
Isso acontecia aos cidadãos de países com colônias que decidiam expatriar para regiões
com maiores oportunidades econômicas e sociais ou porque eram funcionários do estado
(governo) enviados para exercerem cargos institucionais, na colônia.
As crianças expatriadas não crescem com um modelo cultural único, como aquelas que
permanecem no seu país de origem, porque, mesmo que sejam educadas dentro da cultura
original em escolas especiais, entram em contato, na fase de crescimento, com uma cultura
diferente que pertence, pelo povo local que a acolhe.
Ralph Lindon, em Os fundamentos culturais da personalidade, explica: “A vida no seio da
própria cultura, tende a reforçar o processo de influência e de condicionamento cultural. Cada
etapa confirma o indivíduo, na validade e coerência do seu sistema”.
O autor afirma que aqueles que se adaptaram a uma cultura, para depois viver em outra,
podem aprender a agir e também a pensar em função da nova sociedade onde vivem, mas não
poderão nunca se sentir como as pessoas que cresceram naquela referida cultura.
Para Paule, o país estrangeiro onde nasceu, era para sempre como a sua pátria adotiva, já
que tiveram que sair de lá quando ela ainda tinha nove anos e nunca mais voltaram.
Ela e seus irmãos foram criados por uma governanta nativa que os acolheu e amou como
filhos. Eles também a consideravam como uma mãe e sofreram muito quando tiveram que deixá-
la, em seu país natal: o retorno para a França foi muito difícil para todos eles.

Paule chegou às sessões de Psicogenealogia em um momento delicado de sua vida: o seu


matrimônio, após a primeira separação e uma tentativa de reconciliação, estava prestes a
concluir o divórcio.
Fazendo o seu genossociograma saltaram, imediatamente aos olhos, as semelhanças entre
a história da separação com seu marido e aquela de seus pais. Existia uma repetição de cenário e
de coincidências realmente surpreendentes.
Os seus pais se separaram pela primeira vez, quando Paule tinha três anos e sua primeira
separação ocorreu quando sua filha também estava com a mesma idade: três anos.
A separação definitiva dos pais aconteceu no mesmo mês em que Paule pediu ao marido
para deixar a casa (o apartamento que pertenceu aos avós e a seus pais). Seu advogado obteve
uma sentença definitiva, no mesmo mês do divórcio dos pais. Essas coincidências que Jung
chamaria de sincronicidade, como expressão do inconsciente coletivo, do ponto de vista

19
psicogenealógico fazem pensar em uma repetição transgeracional dos conflitos: aquilo que Anne
Ancelin Schützenberger chama de síndrome de aniversário.

“A síndrome de aniversário poderia ser um caso de repetição de um fato que tenha


ocorrido na mesma data ou na mesma idade, de um acontecimento familiar ou de infinitas
repetições do mesmo, em mais gerações (e às vezes na vida da mesma pessoa)”.22

Retornando à história da família da mãe de Paule, descobrimos que o avô, comissário de


polícia alsaciano, casou-se em 1930 com uma alemã, bela, autoritária e audaz, segundo relatos
familiares. E era irmã de um SS (nazista).
Anne Ancelin lembra-nos que é muito importante situar, historicamente, o contexto no
qual a família viveu.

“Paralelamente à reconstrução biográfica familiar, é importante considerar o contexto


histórico-político e social, que mostrará muitas coisas sobre a evolução da mentalidade e o que
foi vivenciado, (provavelmente) pela família naquela época.”23

O avô de Paule, comissário de polícia e Alsaciano, nasceu em 1900 em plena invasão


alemã, após a França ter perdido a guerra em Sedan1 em 1870, quando teve que ceder Alsácia e
Lorena para a Alemanha, regiões que seriam reintegradas à França somente depois da Primeira
Guerra Mundial.
Seu pai, o bisavô de P, também era Alsaciano e comissário de polícia. Esse bisavô de Paule,
nasceu pouco depois da derrota de Sedan na Alsácia que se tornou alemã. Pode-se dizer, que,
também ele, era um expatriado: nascido de pais franceses, teve que aprender a falar alemão,
(língua obrigatória a todos os alsacianos naquela época) em uma escola de cultura alemã. Porém
depois da Primeira Guerra Mundial, decidiu se inscrever na legião estrangeira2 para aprender a
língua francesa.
Era comissário de polícia durante a ocupação alemã e, como seu filho (o avô de P), casou-
se com uma alemã, o que faz pensar que eles não eram, daqueles alsacianos que odiavam os
alemães...
Mas aconteceu a Primeira Guerra Mundial, os franceses combateram os alemães e os
venceram. Onde ficava o coração desse bisavô de P?
Após a Primeira Guerra Mundial, a Alsácia voltou a ser francesa. O filho do comissário de
polícia (avô de P), diferentemente de seu pai, teve a possibilidade de aprender francês e de
frequentar uma escola francesa, casou-se com uma alemã, desejava se tornar médico, mas, por
sua vez, tornou-se também comissário de polícia nos anos 1920/1930.
Era um homem bom e culto, mas o que ocorreu com ele, em 1940, quando os alemães
invadiram novamente a Alsácia? E o que sentiu, quando 130.000 alsacianos foram forçadamente
recrutados pelo exército alemão e enviados para enfrentar a Rússia?

________________________________________________________
22 A.A. Schützenberger, Aïe, mes Aïeux, pag.88

23 Idem, pag.93

1 Nota do Tradutor: Sedan é uma cidade Francesa onde ocorreu a invasão Alemã, 1870 (referente à guerra Franco-Prussiana).
2 Nota do Tradutor:Legião Estrangeira - Tropa composta por estrangeiros criada em 1831 que servia aos interesses franceses.

20
E após a guerra, quando a Alsácia volta a ser francesa e o ódio pelos alemães pôde ser
expresso livremente, o que sentiu sua esposa alemã, avó de P?
É necessário saber que a Alsácia, passou por três guerras em menos de um século,
passando da autoridade francesa à alemã, diversas vezes. A vida continuava, criavam-se laços que
algumas vezes resultavam em contrastes e rompimentos.
A partir de 1940, a Alsácia volta a ser alemã. Língua francesa novamente proibida,
monumentos aos mortos franceses da Primeira Guerra Mundial, destruídos. Nova administração,
ensinamento nacional-socialista. Serviço militar obrigatório, recrutamento forçado na
Wehrmacht1 ou na Waffen SS2 , segmento militar da SS.
Tudo isso deve ter provocado alguns conflitos dentro da família, mesmo havendo no lado
paterno um herói da grande guerra, como veremos mais adiante. Embora Paule não tenha dito, o
que se comenta na família é que seu avô serviu à França no Marrocos, Camboja, assim como os
expatriados...
Recebeu a medalha de ouro da Legião de Honra, medalha que só aceitou após ser
convencido por um parente do lado paterno de P, o filho de um herói cuja história veremos na
segunda parte da narração sobre Paule.
Os laços entre a França e a Alemanha são complexos na família materna, visto que um
irmão da avó alemã era um agente da SS - nazista: o neto dessa avó, filho do irmão da mãe de P,
tornou-se médico conforme seu pai queria (reparação) e o grande amor da sua vida foi uma
mulher judia...
Um fato interessante que aparece no genograma é que a avó alemã de P morreu de mal de
Alzheimer no mesmo dia em que Paule e seu marido se separaram pela primeira vez.
Essa coincidência teria relação com a separação da pátria de origem (a Alemanha) que
essa avó sofreu devido ao casamento? Algo estaria sendo reparado através da separação primeiro
da filha e agora de sua neta? Ou isso teria relação com outras separações?
A avó teve doenças graves nas gestações. P. fala de lacerações internas causadas pelo peso
de seus filhos dentro do ventre...
Além disso, havia o caráter imprudente dessa avó que, em parte, foi transmitido à mãe de
P. e à própria P., outro sinal que permite pensar na hipótese de uma transmissão transgeracional
interessante. De fato, P diz sentir uma ligação particular com essa avó alemã (que também como
P. nasceu no exterior) e sofreu muito pela ocasião de sua morte.
Mas, há ainda um segredo que atormenta a família: talvez o irmão da mãe de P. (filho da
avó e tio de P) não seja filho do casal de avós, mas sim de um fruto de adultério da avó com o
irmão do avô.
Como formula Serge Tisseron, um dos maiores especialistas em segredos e
Psicogenealogia, os segredos são sempre sustentados pelas palavras, condenadas ao silêncio.

________________________________________________________
1 Nota do tradutor: Wehrmacht era o conjunto das forças armadas alemãs do Terceiro Reich (1935 a 1945).

2 Nota do tradutor: Waffen SS era a tropa de elite nazista que atuava juntamente com as forças armadas alemãs (Wehrmacht).

21
“Para a terceira geração, o acontecimento inaugural, a princípio não revelado para as
gerações futuras, torna-se literalmente impensável. A criança, depois que se torna adulto, pode
ter algumas sensações, emoções, ações ou um potencial imaginativo que não consegue explicar
nem para si mesmo a partir da própria vida psíquica...”24

Com relação às hipóteses sobre o inconsciente coletivo e familiar no qual veicula a


transmissão inconsciente dos segredos da família, uma circunstância interessante aconteceu:
Paule desenhando seu genossociograma, por erro, colocou o irmão do avô, cunhado de sua avó,
entre os seus avós.
Quando lhe fiz notar o erro, recordou-se subitamente desse boato que circulava na
família. Em seguida, perguntei à sua mãe que confirmou a existência, realmente, dessa dúvida.
O gesto de P foi totalmente inconsciente, um deslize ou um ato falho nos diz muito mais
que as palavras sobre o conhecimento inconsciente de P, sobre a ligação de sua avó e seu
cunhado.
Anne Ancelin se fez uma afirmação e uma pergunta: “podemos encontrar um sentido
profundo em coisas inofensivas e banais da vida quotidiana, esquecimento, lapsus, faltas, sonhos.
São atos impulsivos?”25
Na verdade, Anne Ancelin conhece muito bem a resposta: Freud, em seu livro
Psicopatologia da vida quotidiana, nos mostra, através de uma vasta experiência clínica, que
todos esses atos inconsequentes, têm um profundo sentido e, como os sonhos, permitem ao
inconsciente se manifestar. Para Freud o ato inconsciente tem o valor de um sintoma que revela o
conflito entre a intenção consciente e a pulsão reprimida.
Outros elementos poderiam confirmar a suposição de uma ligação “de culpa” entre a avó e
o cunhado e assim mantido em segredo. Por exemplo, o fato de a avó ter escolhido chamar sua
filha, mãe de P, com um nome que contenha a palavra “déni” que em francês significa negar.
Alguém poderia se perguntar: o que a avó se nega a reconhecer?
Além disso, a avó teve a doença de Alzheimer que é uma doença degenerativa do cérebro,
cujo sintoma principal é a alteração da memória, até quase esquecimento do passado. E tem mais,
o filho adulterino dessa avó alemã, nasceu no mesmo mês que, como já vimos anteriormente,
testemunha os sofrimentos de suas descendentes mulheres (as separações e divórcios de P e de
sua mãe). Coincidências?

________________________________________________________
24 S. Tisseron, Nos secrets de famille, pag.138

25 A.A. Schützenberger, Aïe, mes Aïeux, pag.14

22
Genossociograma simplificado de Paule – Família Materna
(veja o genossociograma em apêndice gráfico na página 119)

Serge Tisseron nos explica qual poder desestabilizador pode ter um segredo vivido sob a
vergonha em uma família: “Essas crianças (cujos avós eram portadores de traumas não
superados e indizíveis) podem desenvolver os mesmos distúrbios da geração precedente,
como também distúrbios muito mais graves. O caráter geral desses distúrbios é de ser
aparentemente algo sem sentido. Trata-se em particular, de distúrbios psicóticos, de formas
graves de abstinência e de diversas formas de delinquência ou de toxicomania que constituem
grandes obstáculos no aprendizado e no fluxo da vida.”26

Outro lapso “gráfico” feito por P, ao desenhar a sua árvore genealógica, é de ter colocado
seu marido entre os irmãos ao invés de colocá-lo à sua direita, fora do grupo dos irmãos. Em um
primeiro instante, P explica esse erro como representante simbólico de sua necessidade de
proteção: quando era pequena, eram seus irmãos que a protegiam no país estrangeiro, onde eram
os expatriados e gostaria inconscientemente, que o marido tivesse o mesmo papel.
Mas observando seu genograma, podemos perceber que essa falha ou lapso, assemelha-se
àquele em que havia desenhado o irmão do avô entre o casal de avós.
Trata-se de uma repetição de cenário e a Psicologia crê que essas repetições tenham o
papel de recordar alguma coisa que aparentemente foi esquecida, mas que o inconsciente quer
trazer de volta à luz.
É uma repetição de cenário porque, como nos explica Anne Ancelin, a relação amorosa
entre cunhados pode ser considerada como incestuosa: “Françoise Héritier colocou em evidência
em 1994 (Les deux soeurs et leur mère, Paris, ed. Odile Jacob) um relacionamento proibido,
por muito tempo, entre parentes por afinidade, que seria quase incestuoso pela interferência
de uma terceira pessoa (...) pelo fato da contaminação dos fluídos femininos que fazem o casal
ser a mesma carne.” 27

Chama-se isso um incesto de segundo tipo e lembra que a igreja cristã e a lei francesa, por
muito tempo e até bem pouco tempo atrás, proibiam o casamento entre cunhados.
Quando P coloca seu marido entre os seus irmãos, não é como considerá-lo igual a eles e
então repetir o cenário quase incestuoso da avó?

Retomaremos, após a exposição do genossociograma de P porque, para melhor


compreender o que pretendia Jung por inconsciente coletivo, devemos ver agora as noções de
arquétipo e sincronicidade.

________________________________________________________
26 S. Tisseron, Nos secrets de famille, pag.119

27 A.A. Schützenberger, Aïe, mes Aïeux, pag.188

23
1.4 – Arquétipos

A partir de 1910, Jung formula a hipótese de que a psique humana não se forma somente
ao nascer.

“O ser humano possui muitas coisas que não adquiriu pela própria experiência, mas que
herdou de seus antepassados. Não nasce tábua rasa, mas somente inconsciente. Ao nascer, traz
consigo sistemas organizados especificamente humanos, prontos a funcionar, que se deve a
milhões de anos de evolução humana (...) os sistemas herdados correspondem às situações
humanas que prevalecem desde os primórdios, isso quer dizer que existe juventude e velhice,
nascimento e morte, filhos e filhas, pais e mães, acasalamentos... etc. Somente a consciência
individual vive esses fatores pela primeira vez. Para o sistema corpóreo e para o inconsciente, isso
não é novo.”28

O termo arquétipo não era ainda usado, mas a ideia de base já estava presente: a psique
comporta as disposições inconscientes progressivamente constituídas que tornam possíveis
sua existência e organização.
Escutando seus pacientes, suas imaginações espontâneas e seus sonhos, Jung percebe
figuras, situações, cenas que se repetem e que são as mesmas encontradas na mitologia, nas
fábulas, nas histórias de países e culturas diferentes.

“É necessário constatar que existem alguns temas, isto é, figuras típicas, nas quais se
podem encontrar traços distantes da história, e também da pré-história... Parece-me que
pertencem, de maneira absoluta, a fatores estruturais do inconsciente humano. Sem isso não
saberia explicar a sua presença universal...”29

Jung questiona o problema da transmissão dessas imagens originárias: se essas


representações estão presentes em todos os lugares e em todas as épocas, parecendo
impossível que alguém as invente de novo, então como são 0transmitidas?
Segundo ele, não são as representações que são transmitidas, mas as estruturas das
quais provêm tais representações: os arquétipos são essas estruturas congênitas.

Os sistemas hereditários correspondem às situações humanas que prevalecem desde os


primórdios... Eu dei a esse protótipo, congênito e já existente do instinto, esse “pattern of
behaviour” (esquema de comportamento), o nome de arquétipo.”30

Essa “imagem primordial”, como é chamada por Jung em seu livro “Tipos psicológicos”, é
uma forma simbólica que entra em funcionamento em qualquer lugar e surge na consciência,
tornando-se consciência somente quando a experiência pessoal a torna visível.

________________________________________________________
28 C.G Jung, Psychologie et education, pag.230

29 E.G. Humbert, Jung, pag.101

30 C.G. Jung, Psychologie et education, pag.104

24
Os principais arquétipos são:
 persona ou a máscara social;
 sombra ou a parte obscura de nós mesmos, correspondente em parte ao conteúdo da
remoção no inconsciente pessoal;
 anima, parte feminina;
 animus, parte masculina;
 self, entidade que compreende a psique consciente e inconsciente.

O conceito de arquétipo é complexo e a sua teoria evoluiu no tempo: Jung é conduzido,


partindo dos arquétipos, a falar de imagens arquetípicas. Os arquétipos não seriam as
representações, mas as formações dos centros de energia. Na realidade, são representadas por
imagens arquetípicas veiculadas pela cultura.
Por exemplo, a sombra pode ser representada pelo submundo na religião católica e por
viagem na caverna em outras culturas.

“As representações arquetípicas, transmitidas pelo inconsciente, não devem ser


confundidas com o arquétipo em si. São formações extremamente variadas que fazem referência
a uma forma não representável em si mesma. A essência, propriamente dita, do arquétipo não é
suscetível de consciência. Ainda que avançássemos na compreensão do arquétipo, são sempre
ilustrações ou expressões que pertencem à consciência. Porém fora desse modelo não podemos
falar nada dos arquétipos. Deve-se manter na consciência que aquilo que queremos significar por
arquétipo não é representável em si, mas tem efeitos que permitem ilustrações que são
representações arquétipicas.”31

A teoria das transmissões dos conteúdos psíquicos encontra uma possível confirmação
científica pelos trabalhos sobre campos mórficos do biólogo inglês Rupert Sheldrake. Veremos
isso mais detalhadamente no capítulo dedicado às suas pesquisas.
De um modo geral, segundo essa teoria, não existe somente os genes que estão
envolvidos na hereditariedade, mas também os campos mórficos. Esses campos permitem a
existência de uma gama de memória coletiva própria a cada espécie e essa memória é
enriquecida continuamente pelas experiências de cada indivíduo.
Segundo Sheldrake, os campos mórficos existem como os campos magnéticos e, como
estes, são também invisíveis.
A ressonância magnética é o processo pelo qual o passado torna-se presente no interno
desses campos.
“A memória no interno dos campos mórficos é acumulativa e é a região pela qual todos os
fenômenos se tornam sempre mais frequentes por repetições... nessa complexidade crescente, os
campos morfogenéticos conteriam uma memória inerente adquirida por processo de ressonância
mórfica, componente da memória coletiva de cada espécie (ideia emitida pelo eminente
psiquiatra Carl Gustav Jung). Cada indivíduo recolhe, assim, de uma memória coletiva, um fundo
comum que alimenta a sua vez. No contexto humano, essa memória está muito próxima ao
inconsciente coletivo de Jung.”32
________________________________________________________
31 E.G. Humbert, Jung, pag.105

32 R. Sheldrake, Les pouvoirs inexpliqués des animaux, pag.391

25
Portanto, o cérebro não é um órgão de armazenamento, mas um órgão de interação com
o banco de dados morfogenéticos onde presente e passado se misturam.
Isso abre uma porta também em relação à explicação do fenômeno da transmissão
transgeracional de histórias passadas, observada na prática da Psicogenealogia.

1.5 – Sincronidade
Como veremos detalhadamente, a seguir, na história de P. a prática do genossociograma
está constelada de chamadas coincidências que têm significado especial em relação ao contexto
que está se desenvolvendo.
Jung estudou longamente esse fenômeno e nomeou como sincronicidade.
A sincronicidade é a correlação entre os fatos internos e externos que fogem a uma
explicação de causa e efeito ou causalidade. É um princípio de concatenamento acausal; Jung se
fez a pergunta, se as coincidências surpreendentes de acontecimentos externos que
correspondem ao estado psíquico do momento e que se repetem em determinadas condições,
não responderiam a uma ordem acausal.
O homem sempre notou que os acontecimentos de sua existência não são “pura
coincidência”; a coincidência é na verdade o nome que a ciência encontrou para explicar aquilo
que não conseguia justificar ou reproduzir experimentalmente.
Jung deu o nome de sincronicidade ao princípio que conecta a nossa psique a um
acontecimento externo e levantou a hipótese de que é no inconsciente coletivo que se
encontram ou estão as raízes dos eventos sincrônicos.
A sincronicidade corresponde à coincidência no tempo de dois ou mais fatos sem
relação causal com o mesmo conteúdo significativo, mas também de fenômenos paralelos sem
relação casual.

“É, sem dúvida, oportuno chamar a atenção sobre um contrassenso eventual que o termo
sincronicidade possa provocar. Escolhi-o porque a simultaneidade dos dois acontecimentos
ligados por um senso comum, e não pelo acaso, me pareceu um critério essencial. Aplico aqui o
conceito geral de sincronicidade no sentido particular de coincidência temporal de dois ou mais
acontecimentos sem ligação causal, mas ligados por um sentido igual ou análogo: este em
oposição ao sincronismo, que designa a simples simultaneidade dos fatos.”33

Hipócrates já dizia que existem afinidades escondidas no universo que permitiriam as


coincidências graças a uma atração recíproca.
Para compreender tais correspondências, Jung avança na hipótese de um continuum
psicofísico comparável a um espectro luminoso.

“A psique que se tende a tomar como fato subjetivo se estende fora de nós, fora do tempo e
do espaço”34

________________________________________________________
33 C.G. Jung, Synchronicité et Paracelsica, pag.245

34 E.G. Humbert, Jung, pag.110

26
Um exemplo de sincronicidade é descrito pelo escritor inglês, Colin Wilson, que
procurando um artigo sobre um determinado tema em uma enorme biblioteca, viu com
espanto um livro cair ao chão e se abrir exatamente na página que ele procurava.
Para resumir, a sincronicidade pode ser:
- coincidência de um estado psíquico com um acontecimento externo simultâneo e
objetivo, correspondente ao estado ou ao conteúdo psíquico. Mas entre o estado
psíquico e o acontecimento externo não há nenhuma relação de causa e efeito;
- coincidência de um estado psíquico com um acontecimento externo correspondente
(mais ou menos simultâneo) o qual se encontra além da percepção do observador, ainda
distante e só mais tarde verificado;
- coincidência de um estado psíquico com um acontecimento correspondente, ainda
inexistente, futuro, distante no tempo, que pode ser verificado somente no momento.
Para ilustrar melhor esses conceitos continuaremos o relato das sessões de
Psicogenealogia que tive com Paule, experiência particularmente interessante no que se refere
à sincronicidade.

1.6 – Sessões de Psicogenealogia com Paule (2)

Do lado paterno da família, Paule tem um bisavô francês, herói da primeira grande guerra
mundial, morto durante a batalha de Massiges.
Era comandante do batalhão da 15ª infantaria, durante a batalha de setembro de 1917:
“O comandante de seu batalhão se lança com coragem na batalha, arrastando os seus homens,
contendo os inimigos em seu solo sagrado, infelizmente, foi alvejado e esse ferimento o tirou da
Pátria privando a todos de sua ternura, não somente companheiros de batalha como também
seus familiares e amigos. Socorrido inicialmente em Saint-Menehoud, em seguida em Val-de-
Grâce em Paris, não resiste e vem a falecer em 2 de outubro, longe daqueles que ama, fechando
os olhos pela última vez, pronunciando estas belas palavras: _morro pela França.”35
Antes de ser promovido a comandante do batalhão, estava em Somme na primeira linha,
na trincheira, comandando a 6ª companhia onde seu primeiro filho, com 17 anos, o avô de Paule,
havia conseguido se alistar.
O bisavô morre em 1917 e Paule nasce um ano e uma semana antes do cinquentenário da
morte desse bisavô herói que faleceu um ano e uma semana antes do armistício de 11 de
novembro 1918.
Essa situação é o que Anne Ancelin chama síndrome de aniversário.

“Observa-se, frequentemente no passar das gerações, uma morte brutal, marcada em


seguida na história familiar (...) por um nascimento – na mesma data aproximada – nas
gerações seguintes. É uma forma de lealdade invisível. É lembrar-se de um avô ou de um tio
sofredor, ferido ou morto durante a Grande Guerra. É recordar os sofrimentos ou os traumas
da guerra e o final dos combates com o Armistício de 11 de novembro de 1918 – através de um
nascimento ou aborto espontâneo.”36
________________________________________________________
35 R. de la Touche, L’armorial de la gloire, pag. 63/64

36 A.A. Schützenberger, Aïe, mes Aïeux, pag. 87

27
Ou seja, foi isso que aconteceu com o nascimento de P; e não foi por acaso que ela escolheu
dedicar-se a uma profissão de “reparação”.
Anne Ancelin Schützenberger explica que quando profissões de “reparação” como
médicos, psicólogos, psicoterapeutas, enfermeiros, também mecânicos, pedreiros,
marceneiros, etc., estão presentes numa família é porque existe uma vontade inconsciente de
reparar algo do passado familiar.
A morte desse bisavô foi, sem sombra de dúvidas, um trauma irreparável para o filho (avô
de P) que, como já vimos anteriormente, alistou-se ainda menor de idade na mesma companhia
de guerra que seu pai era comandante, provavelmente fez como fazem os filhos, para proteger o
seu pai.
Quando o pai (bisavô de P) foi promovido ao comando de outro batalhão, o filho não pôde
mais acompanhá-lo e podemos imaginar o quanto lamentou e chorou. Talvez tenha sentindo até
culpa com a morte do pai.
Esse avô, filho do herói, era um homem bom e generoso, como sempre afirmaram todos
que o conheceram: ficando órfão, aos 17 anos, passou a cuidar da mãe e de suas duas irmãs. Após
combater com honra, na mesma guerra que seu pai havia morrido, recebeu a cruz de honra ao
mérito militar (tal qual seu pai), tornou-se coronel da aviação: militar muito brilhante e
admirado serviu à França no Marrocos, Camboja, Vietnam.
Percebemos que esse lado paterno da família, foi constituído por patriotas franceses,
heróis de guerra e se poderia até imaginar que ocorreram conflitos conscientes e inconscientes
junto ao lado alemão (materno) no qual aconteceu um casamento com uma alemã e irmã de um
nazista.
Não se pode esquecer também, que a família do avô paterno, sofreu muito com a morte do
bisavô morto pelos alemães.
Esse avô se casou com uma mulher (avó de P) que detestava suas irmãs solteiras, era
muito autoritária com sua nora (mãe de P) e se opôs inclusive ao nascimento de P. De seu
casamento nasceu um único filho, o pai de P, que era muito ligado a ela e casou-se tardiamente,
aos quarenta anos de idade, com a mãe de P.
Era um marido egoísta e um pai pouco presente e autoritário: ao contrário de seu pai que
estava sempre no seio de toda a família e, entre outras coisas, foi contrário e impediu que seu
neto (irmão mais velho de P) fosse mandado para um colégio de padres, distante da família.
Com P, podemos observar que a reparação inconsciente da morte trágica do bisavô, foi
assumida pelo filho (avô de P), mas não pelo neto, pai de P, (P teve muito trabalho para ligar
graficamente o pai com o casal de seus pais).
Talvez seja isso que tenha acontecido, porque estamos sempre no reino das hipóteses e
somente a pessoa pode dizer se tudo isso é significativo para ela. O nascimento de P ligada a uma
data de aniversário de uma morte trágica, a de seu bisavô, querendo lembrar à família que existe
um trabalho de reparação dos sofrimentos familiares a serem concluídos.
Outra data importante (síndrome do aniversário) liga P a esse lado da família, é àquela de
seu matrimônio: casou-se no mesmo dia, doze anos após a morte de seu avô.
Outra coincidência? Todas essas Sincronicidades fazem pensar num trabalho de reparação
familiar inconsciente em relação à lealdade invisível, teoria formulada por Boszormenyi-Nagy
sobre a qual falaremos no capítulo dedicado à Psicogenealogia.

28
O psiquiatra americano de origem húngara demonstrou que as famílias são sistemas, que
têm dentro de si, leis internas que cada membro deve respeitar, sob a pena de exclusão do
sistema. Teorizou também a existência de uma contabilidade interna, como se fosse um livro
contábil familiar, onde o respeito às leis e a lealdade fazem parte dos créditos e a deslealdade dos
débitos. Os débitos nascem por não terem sido respeitadas as leis implícitas da família ou então
por haver alguém se comportado injustamente, se não são pagos por uma geração, passam para
a sucessiva, até que alguém decida honrá-los.

Genossociograma simplificado de Paule - Família paterna


(Ver o genossociograma em apêndice gráfico na pág. 120)
No caso de P. poderia se dizer que o mito fundador da família do pai era o heroísmo
intenso com espírito de sacrifício e generosidade. E ainda que o pai de P não quis ou não pôde ser
leal a esses ideais da família, criando assim um débito inconsciente que foi transmitido às
próximas gerações, até que alguém se tornasse consciente disso e reparasse a injustiça.
Poderíamos nos perguntar também se a forte ligação que Paule tinha com a avó alemã, do
lado materno, não foi uma necessidade de reparação inconsciente por qualquer injustiça que
tenha sofrido: fazem-nos pensar nisso as coincidências e repetições de datas que a cercam, como
aquela da primeira e dolorosa separação do marido no mesmo dia da morte da avó.
O trabalho de Psicogenealogia, geralmente, coloca em evidência muitas coincidências
relevantes em relação à história familiar (sincronicidade), mas no caso de Paule, foram em
grande número. No período em que estávamos trabalhando com o genossociograma,
aproximadamente alguns meses, verificaram-se também estas particularidades concomitantes:
- um historiador contatou a família com o propósito de conhecer o avô militar, Coronel da
Aviação, filho do herói da Primeira Guerra Mundial;
- o irmão mais velho de P, encontrou, na casa dos avós paternos, um baú que continha um
livreto da família dos avós com todas as datas;
- P. recebeu testemunhos de muitas pessoas que conheciam o avô e que se lembravam dele
com admiração;
- durante uma sessão, ela telefonou à sua mãe, para saber porque decidiram chamá-la
Paule e descobriu que era o nome do primeiro amor de sua mãe;
- sua mãe mandando-lhe uma mensagem com as informações relativas à família, a chamou
“Paulne”, nome alemão, e ela percebeu que por um erro (lapso) assinou “Paulne” como que
para lembrar de sua ascendência alemã.
Todas essas “coincidências”, ou melhor, sincronicidades, são, especialmente para quem
trabalha com a Psicogenealogia, traços de investigação que podem ajudar a emitir hipóteses de
trabalho. Deixando claro que se trata de hipóteses e não verdades absolutas, que devem ser
verificadas com outros dados, como repetições de cenário, datas, etc. Mas, sobretudo com a
reação verbal e não verbal da pessoa interessada. Porque, como já vimos, no inconsciente coletivo
existem todas as memórias familiares, especialmente os traumas não resolvidos (ver efeito
Zeigarnik no capítulo dedicado a Anne Ancelin).
Achei significantemente particular o trabalho com P em relação à existência de um
inconsciente coletivo e familiar transportando uma transmissão inconsciente dos traumas vividos
e não processados pelos antepassados. Essa história familiar permite clarear o conceito de

29
lealdade familiar inconsciente que são a base da “síndrome de aniversário” e das funções
patológicas dos segredos de família que possam residir como fantasmas nas gerações sucessivas,
como no caso da avó alemã e de sua relação com o cunhado, irmão de seu marido, além dos
divórcios sucessivos das mulheres da família. Como se uma ação não terminada em uma geração
anterior, devesse ser concluída pela sucessora.
No que se refere à prática, sendo para P o primeiro trabalho com o genossociograma, foi
muito complexo dissolver os diversos nós presentes na trama dos muitos membros da família;
frequentemente com muita informação inútil arriscando dissimular os fatos importantes.
Porém, em um determinado momento, o genograma falou por si só: olhando os elementos
delineados sobre a folha, “saltaram aos olhos” com evidência, as repetições e os conflitos, os nós e
as incoerências nos relatos, todos os dados úteis para evidenciarem as transmissões
transgeracionais patológicas.
Para mim, a história da Alsácia e das sucessivas invasões alemãs não era um tema que
conhecia e foi importante pesquisar historicamente para entender como as pessoas viveram esses
fatos. Trata-se de fazer aquilo que Anne Ancelin chama contextualização: é importante sempre
procurar conhecer o contexto em que estão desenvolvendo as tramas familiares, para se ter uma
visão mais ampla.
A propósito da Alsácia, os historiadores se dividem entre os que consideram que os
alsacianos sejam mais alemães que franceses e aqueles que estão convencidos exatamente do
contrário. Certos livros de história, falam de uma “alma alemã” dos alsacianos, pelo fato de que
alguém aceitou, de bom grado, as sucessivas invasões alemãs e sofreu pela reconquista da Alsácia
por parte da França. Outros historiadores, afirmam que os alsacianos são totalmente franceses,
sofreram pela derrota de Sedan em 1870 e odiaram os “colaboradores”.
Observando o cenário do filme francês de Michel Favart, “Les Alsatiens ou les deux
Mathildes”, que relata o período difícil no qual conheceram a Alsácia e Lorena, entre 1870 e
1943, finalmente pude entender o que havia acontecido a essa região do nordeste da França.
Em todas as famílias, havia os pró-alemães e os pró-franceses, os colaboradores ou
patriotas das duas partes, francesa e alemã, e é muito complexo entender quem era o vencedor e
quem era a vítima.
O único fato objetivo é o sofrimento suportado pelas pessoas, como no caso da avó de P que
foi dilacerada com o nascimento de seus filhos... Sabemos que as palavras também são portadoras
de sentimentos inconscientes e a palavra “dilacerada”, tem um sentimento também psicológico
que exprime o conflito irremediável entre duas partes incompatíveis e de igual peso.
Dilacerar não quer somente dizer causar uma forte dor física, mas também se dividir
tragicamente, causando uma dor moral desoladora.
Diz-se que um som é dilacerante quando é golpeado dolorosamente. Como não pensar
também nos não-ditos e nos segredos que caracterizaram a vida dessa avó materna e de seus
descendentes?

Genograma simplificado completo de Paule


(Ver o genossociograma em apêndice gráfico na pág. 121)

30
CAPITULO 2
A alma coletiva de Sigmund Freud

2.1 O inconsciente de Freud e a alma coletiva

Ainda que o inconsciente tivesse sido já descoberto por alguns filósofos a partir do
século XVII, a definição moderna do inconsciente pode ser atribuída a Sigmund Freud que fez
desse conceito, o foco de sua teoria psicanalítica.
Freud descobre a importância do inconsciente em Paris, nos cursos sobre hipnose de
Charcot. A hipnose mostra, sem sombras de dúvidas, que em condições particulares, através de
um hipnotizador, podem surgir conteúdos que não são comandos do consciente. No transe
hipnótico, o paciente entra em um estado de consciência modificada que lhe permite o contato
com uma parte de si mesmo desconhecida: o inconsciente.
Em 1899, Freud escreve o livro que o tornará famoso A interpretação dos sonhos. Até
aquele momento, o sonho era considerado uma produção secundária e alucinada da
consciência: Freud dá um significado ao sonho, como produções do inconsciente, o lado
desconhecido e reprimido do Eu.
De acordo com a Psicanálise freudiana, o inconsciente é um conjunto de representações,
de percepções e de emoções que não têm acesso ao lado consciente da psique, porque
provocam desconforto ou dor.
A rejeição interna desses sentimentos, impulsos, recordações provocam o cancelamento
em nível consciente e seu esquecimento. O mecanismo que exclui da consciência esses
conteúdos desagradáveis é chamado de “repressão”, enquanto os conteúdos desagradáveis
são chamados de “reprimidos”. O reprimido não é efetivamente cancelado, mas continua a sua
ação sob outras formas, frequentemente somáticas, como veremos no caso de Dora.
A terapia psicanalítica serve para levar até o nível consciente, as tendências reprimidas
através da interpretação dos sonhos, dos lapsos, dos atos involuntários, por meio das
associações livres.
Freud fala do inconsciente que se desenvolve no curso da evolução pessoal do sujeito: é
formado pelas energias e pelas tensões que não podem ser conscientes porque são proibidas,
vetadas e então, reprimidas.
A Psicanálise freudiana destaca a história pessoal e a noção da libido, entendida como
pulsão sexual: vimos no capítulo dedicado a Jung que foi uma das principais causas da ruptura
entre esses dois grandes psicanalistas.
No entanto, Freud também fala em diversas obras sobre “alma coletiva” e até admitiu
uma possibilidade transgeracional (hereditária) de uma parte da psique. Já em 1900, no seu
livro mais famoso, Interpretação dos sonhos, coloca a questão do simbolismo comum que se
encontra no inconsciente de cada indivíduo.

“Quando se está familiarizado com o uso superabundante da simbologia para representar


o material sexual no sonho, vem a pergunta, se muitos desses símbolos não são análogos aos
sinais taquigrafados, fornecidos, uma vez por todas, de um significado preciso: somos tentados a

31
elaborar mais uma chave dos sonhos, seguindo o método de decodificação. É necessário
acrescentar que esse simbolismo não é específico do sonho, encontra-se em todas as imagens
inconscientes, em todas as representações coletivas, populares, particularmente: no folclore, nos
mitos, nas lendas, nos provérbios, nos ditos populares, nos jogos de palavras, isso é ainda mais
completo que nos sonhos”.37

Em 1912, Freud escreve Totem e Tabu adotando a teoria de Darwin para o qual a forma
primitiva da sociedade humana teria sido representada por um bando absolutamente
submisso à dominação de um poderoso macho. Freud procura demonstrar em seu livro, que
“os destinos desse bando deixaram seus traços inextinguíveis na história hereditária da
humanidade.”38
Nessa obra propõe um exame minucioso dos povos “selvagens” (segundo a cultura da
época) para compreender a formação do tabu e do totem, além da origem da sociedade e de
suas leis. Segundo Freud, na pré-história, os homens viviam em pequenos bandos, cada qual
dominado por um pai violento e ciumento, que mantinha sob seu poder todas as fêmeas do
bando, caçando seus filhos machos quando cresciam.
Mas, a certo ponto, os filhos caçados se uniram e mataram seu pai tirano, e o devoraram
para apropriarem-se de sua potência. Essa “refeição totêmica”, sendo o pai o totem, pode ser
considerada, segundo Freud, a primeira festa da humanidade que, reproduzindo o ato
memorável e criminoso do assassinato do pai, serve como ponto de partida de organizações
sociais, as restrições morais e as religiões. Por causa da culpa gerada por esse ato entre os
irmãos, teria nascido o tabu do incesto e do fratricídio.

“Nós postulamos a existência de uma alma coletiva... Nós admitimos de fato que um
sentimento de responsabilidade persistiu durante milênios, transmitindo-se, de gerações em
gerações, em relação a uma culpa tão antiga que, em certo ponto, os homens não puderam
manter nenhuma lembrança. Nós admitimos que um processo afetivo tal que pôde nascer de uma
geração de filhos maltratados pelo próprio pai, pôde existir nas novas gerações que eram, ao
contrário, isentas desse tratamento graças à supressão do pai tirano.”39

Freud, com essas declarações, pode ser considerado um precursor da Psicogenealogia:


admitir que um senso de culpa possa persistir por milênios, transmitindo-se de geração em
geração, significa que se supõe a existência de uma alma coletiva na qual se transmite os
processos da alma coletiva ou a psique individual.
Nas conclusões de Totem e Tabu, escreve também: “Se os processos psíquicos de uma
geração não se transmitissem a outra, não continuasse em outra, cada geração seria obrigada a
recomeçar seu aprendizado de vida, coisa que excluiria todo progresso e todo desenvolvimento.”40

________________________________________________________
37 S.Freud, Interpretation des rêves, pag.301

38 S.Freud, Psychologie colletive et analyse du moi, pag.53

39 S. Freud, Totem et Tabou, pag.221


40 idem, pag. 221

32
É a hipótese da continuidade da vida psíquica do homem: Freud conclui que um fato
psíquico suscetível de repressão termina por desaparecer, mas não sem deixar um substituto
que se tornará, por sua vez, o ponto de partida de novas reações. Assim, no passado arcaico, os
fantasmas oriundos teriam sido cenas reais: no passado, eram acontecimentos concretos que
hoje são transformados em realidade psíquica. Portanto, para Freud o indivíduo seria portador
também de uma memória transfamiliar evolutiva da espécie humana.
Em outro livro, Psicologia coletiva e análise do eu, Freud analisa o livro de Gustave Le
Bon, Psicologia das massas, onde o autor escreve:
“Os nossos atos conscientes derivam de um substrato inconsciente, formado sobretudo de
influências hereditárias. Esse substrato contém inumeráveis resíduos ancestrais que constituem a
alma da raça. Por trás das causas confessas de nossos atos, estão as causas secretas por nós
ignoradas. A maior parte das nossas ações cotidianas estão sob o efeito de movimentos
escondidos que nos escapam.”41

Freud retoma essas afirmações para dizer que, em uma multidão, a estrutura psíquica
individual, formada em seguida a um desenvolvimento que varia de um indivíduo para o outro,
é destruída, revelando a base inconsciente, uniforme, comum a todos.
Contesta a noção de inconsciente de Le Bon dizendo que as características mais
profundas da raça não apresentam nenhum interesse pela Psicanálise, mas: “Nós reconhecemos,
certo, que o centro do eu, do qual a hereditariedade arcaica da alma humana faz parte, é
inconsciente, postulamos, além disso, a existência de um inconsciente derivado de uma parte
dessa hereditariedade. É essa noção de “reprimido” que falta a Le Bon.”42

Porém, está de acordo com Le Bon, a propósito da existência de uma hereditariedade


arcaica inconsciente, e propõe o conceito da repressão também para esse lado subliminar do
eu. Em outro parágrafo desse livro, Freud, falando da hipnose, confirma a existência de uma
hereditariedade arcaica: “Assim, através de seus procedimentos, o hipnotizador desperta no
sujeito uma parte de sua hereditariedade arcaica...”43
Moisés e o monoteísmo (1939) é outra obra de Freud, na qual se interessou pelo coletivo:
aqui ele procura entender o nascimento do monoteísmo e das neuroses junto aos homens
modernos. Também aqui fala de hereditariedade: “A hereditariedade arcaica do homem não
comporta somente as predisposições, mas também os conteúdos advindos dos traços
mnemônicos deixados por experiências feitas nas gerações anteriores.”44
Em outra obra, Freud fala dos esquemas evolucionistas que a criança traz através do seu
nascimento e que o incentiva a pensar “sou um precipitado da vida humana” (Cinco
psicanálises, o homem dos lobos) e dos sentimentos provenientes do passado, da história de
seus pais e de seus antepassados.
Freud se interessou pela transmissão psíquica entre gerações, porém, mesmo que essa
intuição lhe tenha surgido como muitas outras, em sua prática clínica, ela não foi objeto de
pesquisas específicas ainda que a tenha exposta e a confirmada em muitas de suas obras.
________________________________________________________
41 S. Freud, Psychologie colletive et analyse du moi, pag.10

42 Idem, pag. 10

43 Idem, pag. 57

44 S. Freud, Mosé e il monoteismo, pag.15

33
No prefácio de Totem e Tabu, escreveu que suas pesquisas pessoais sobre os fenômenos
“ainda obscuros” da Psicologia coletiva nasceram em oposição à escola psicanalítica de Zurique45
que procura, ao contrário, explicar a Psicologia individual com dados tomados emprestados da
Psicologia coletiva”.

Deixa pensar que o “pai potente e ciumento” da horda primitiva*, não tinha apreciado
muito a rebelião de um de seus filhos (Jung)...e que Freud teve também que reclamar a
preeminência do indivíduo sobre o coletivo, devido ao fato de que o mundo acadêmico, em sua
época, dava pouca importância ao funcionamento da psique individual. Em parte, essa escolha
foi causada pela sua obsessão sobre a importância da libido compreendida como pulsão sexual.
O século de Freud era um século doente também por conta da potente repressão sexual,
especialmente em relação às mulheres (e a histeria era uma das consequências). A inibição
sexual era tão forte a ponto de impedir qualquer discurso, ainda que científico, sobre o
funcionamento da sexualidade.
Freud teve que lutar muito para que se falasse de sexualidade no campo psicológico,
mas essa luta o fez descuidar de outros aspectos não menos importantes da psique humana,
como aquele do inconsciente coletivo que está dentro de nós por transmissão transgeracional.

2.2 - O caso clínico de Dora

Dora, na verdade Ida Bauer, é um dos casos clínicos que Freud publicou no seu livro
“Cinco lições de Psicanálise”. A propósito dessas cinco lições de Psicanálise, únicas
psicoterapias que Freud relata quase por inteiro, foram escritos rios de tinta.
Em particular, sobre Dora, Freud propôs como exemplo típico de neuroses histéricas
(histeria), com os típicos sintomas de conversão somática.
Lacan relatou demasiadamente nos seus seminários analises minuciosas sobre a
transferência de Dora e a contratransferência de Freud. Vários historiadores encontraram qual
era a verdadeira identidade de Dora e, por último, o filósofo francês Mikkel Borch-Jacobsen, em
sua obra que causou muito alvoroço na França, O livro preto da Psicanálise, chegou mesmo a
dizer que Dora não estava doente e que Freud havia errado.
Não é minha intenção propor uma nova versão: na realidade, o caso de Dora não é
analisável em uma visão transgeracional, porque não sabemos nada da geração de seus avós e
são necessárias três gerações para poder formular as hipóteses na Psicogenealogia.
O que quero demonstrar é o interesse do genossociograma como instrumento de
trabalho, também na Psicanálise, para uma maior evidência das problemáticas pessoais com
particular referência à gênese familiar dos conflitos psíquicos.
No caso de Dora, Freud se interessou particularmente pela constelação de pessoas que
gravitaram em torno de sua paciente no período em que esta desenvolveu os seus sintomas.

________________________________________________________
45 A escola de Jung

Nota do tradutor: *Quando em Psicanálise nos referimos a noção de pai, temos que ter como referencial o mito simbólico do pai da horda
primitiva. Sabemos que esse conceito é abordado por Freud, através de análises antropológicas na sua magistral obra denominada “Totem e
Tabu”(1912/13). Assim, a teoria do pai em Psicanálise possui o seu fundamento na conceituação do pai da horda primitiva ou primeva.

34
De acordo com vários especialistas, Freud escolhe relatar a história dessa curta
Psicanálise (onze semanas antes de Dora haver decidido deixar o tratamento) apesar da sua
aparente falência, pois os dois sonhos de Dora durante o tratamento foram emblemáticos para
a questão “histeria”.
Naquele período, Freud tinha acabado de publicar seu livro sobre interpretação dos
sonhos e aqueles de Dora foram muito interessantes e explicativos em relação à problemática
sexual da histeria (por exemplo, a caixa de joias como símbolo do órgão sexual feminino, etc.).
Dora, que na realidade chamava-se Ida Bauer, nasceu em Viena, de uma família rica
burguesa. Na infância já apresentava distúrbios nervosos e, em particular, dificuldades
respiratórias. Na época em que seu pai decidiu tratá-la com Freud, Dora sofria de sintomas da
“pequena histeria”, isto é, tinha convulsões somáticas (somatizações) modestas comparadas às
paralisias teatrais da época.
“É uma jovem bonita e inteligente”, explicou Freud, tem sintomas mais ou menos graves
desde os sete anos e todos os médicos consultados a diagnosticaram com distúrbio nervoso
não conseguindo verificar nenhuma causa orgânica.
Ida Bauer, nascida em 1882, desde os sete anos de idade tinha distúrbios nervosos, que
eram manifestados através da dispneia, dores de cabeça, tosse nervosa, afonia completa,
humor insociável, depressão e desgosto pela vida.
A história do caso de Dora coloca em cena:
 O pai de Dora, Philip Bauer, 47 anos de idade, “um homem muito ativo, com um talento
fora do comum” e muito amado pela filha. Grande industrial, com uma personalidade
dominante, contraiu sífilis antes do casamento e também tuberculose aos 48 anos além
do descolamento de retina aos 49. Tratado por Freud pelas sequelas da sífilis (crises de
confusão mental, paralisia temporária), levou também a filha para tratar de suas
“esquisitices”.
 A mãe de Dora, mulher de pouca instrução e pouca inteligência, obsessivamente ligada
às tarefas domésticas, era desmazelada e pouco afetuosa. Dora a criticava duramente;
 O irmão mais velho com o qual Dora tinha péssimas relações, porque sempre ficava do
lado da mãe nas discussões familiares, buscando evitar conflitos, enquanto ela se volta
decisivamente para o lado do pai. “E assim, a atração habitual sexual aproxima o pai da
filha e, por outro lado, a mãe do filho”. Tornou-se um teórico marxista de fama
internacional e Ministro do Exterior austríaco. Morreu no exílio em Paris, em 1938.
 A tia de Dora, irmã mais velha de seu pai, modelo feminino para Dora, desprezava a
mãe. Morreu de doença desconhecida quando Dora tinha 17 anos.
 O tio de Dora, irmão do pai, solteiro e hipocondríaco.
 Madame K, aliás Pepina Kellenka, nascida em Heumann, amiga da família, cuidou do pai
de Dora durante sua doença. Era muito infeliz com seu marido.
 K, marido de Madame K tentou seduzir Dora quando ela tinha 14 anos. Tinha uma
relação com a governanta. Quando Dora tinha 18 anos, durante um passeio pelo lago,
ele lhe fez uma declaração de amor, tentando em seguida beijá-la, sendo esbofeteado
por Dora.
Quando Dora relata o episódio aos seus pais, K nega tudo e a acusa de ler livros
perigosos que estão “mexendo” com sua cabeça. Buscando aproveitar-se de Dora, diz que sua

35
mulher não é “nada” para ele. A família de Dora era muito ligada aos membros da família K,
Madame K tinha cuidado do pai de Dora durante o período em que este não enxergava, devido
ao descolamento da retina e a própria Dora tinha cuidado dos filhos de Madame K.
No começo, Madame K tinha uma relação de amizade com Dora que frequentemente,
dormia em sua cama durante a permanência deles na casa do lago, mas a trai contando ao
marido que Dora lê o livro “Fisiologia dell’amore” de Mantegazza, fato que ele utilizará como
argumento para fazer com que as pessoas acreditem que o conteúdo sexual do livro a fez que
imaginar sua tentativa de sedução.
Madame K usava sua relação com Dora para poder ficar próxima ao pai sem levantar
suspeitas e, segundo Freud, era a principal fonte de conhecimento sexual de Dora.
Quem olha de fora, vê duas famílias burguesas comuns, que se encontram pela amizade
e que passam férias de verão juntas, frequentando os mesmos lugares.
A crise surge no momento em que Dora se nega a passar algumas semanas, como
previsto, na casa dos K, no lago. Ela explica a razão da sua recusa relatando que K, amigo da
família, em quem eles tinham muita confiança, havia feito ousados avanços durante um
passeio, forçando uma aproximação.
Após um confronto com o pai sobre essas acusações, K nega e acusa Dora de não pensar
em mais nada, só em sexo e em ler livros picantes. O pai tende a acreditar em K e a considerar
Dora culpada.
Dora percebe a má fé: o pai diz que é ligado à Madame K por amizade “sincera”,
quando, na verdade mantém com ela uma relação amorosa. E para preservar essa relação
prefere acusar a filha de ter inventado tudo.
Dora entendeu que seu pai adorado havia se negado a acreditar em sua denúncia por
razões escabrosas: concordando com K, poderia continuar impunemente sua relação amorosa.
No começo do tratamento, Dora relatou um fato acontecido quando ela tinha 14 anos,
anterior ao fato do lago. Um dia ela se encontrava sozinha na loja de K, este a puxou para um
canto e tentou beijá-la na boca provocando em Dora uma reação de nojo.
Esse nojo, para Freud, era a prova de que a jovem já era histérica naquela época. O nojo
seria a transferência da sensação genital (que em uma jovem normal “não teria faltado”,
segundo Freud); a sensação reprimida se desloca para a mucosa superior do canal digestivo, o
nojo corresponde a uma repressão da zona erógena labial.
No decorrer da análise, Freud descobre sentimentos ambíguos de Dora: antes da cena
do lago, Dora tinha “sentimentos apaixonados” por K, por seu pai e por Madame K. Dora
reafirma esses sentimentos em grande parte, nessa alma de adolescente atormentada
afloravam as primeiras emoções amorosas, a paixão incestuosa e os desejos homossexuais. Na
verdade, ela tinha feito de tudo para facilitar a relação entre seu pai e Madame K, até acontecer
a cena do lago.
Freud interpreta um dos sintomas de Dora, a tosse nervosa persistente, como um
fantasma de felácio* no qual Dora se identificaria com Madame K. Depois que Freud diz à Dora
essa possível explicação, a tosse desaparece.

________________________________________________________
Nota do tradutor - *felácio - o termo designa o sexo oral.

36
Então é diagnosticada uma “pequena histeria”: Freud considera histérica qualquer
pessoa que sob uma situação que pode levar a uma excitação sexual, sente predominantemente
ou exclusivamente nojo.
O diagnóstico de histeria baseia-se em duas manifestações típicas: amnésia das
histórias traumáticas vividas e somatizações dos conflitos psíquicos.
O sintoma é a realização de um imaginário com conteúdo sexual (tosse por amor oral). A
força motriz de cada um desses sintomas é a sexualidade: as manifestações patológicas são as
atividades sexuais dos doentes.
Sintomas de Dora:
 7/8 anos – enurese noturna (urinar involuntariamente durante o sono) descoberta por
Freud durante a análise do primeiro sonho e interpretada como masturbação;
 8 anos – distúrbios neuróticos, dificuldade de respiração, apneia.
 12 anos – dor de cabeça, acessos de tosse nervosa.
 16 anos – desaparecimento da dor de cabeça, porém surgimento de uma tosse com
afonia completa durante a primeira metade da crise, quando então foi levada pelo pai
até Freud pela primeira vez.
 17 anos – morte da tia paterna que ela amava muito. Suspeita de apendicite, arrastando
a perna esquerda.
 18 anos – dificuldades respiratórias, tosse nervosa que, segundo Freud, representa uma
satisfação sexual, fantasma de felácio entre o pai e Madame K (irritação na garganta). A
tosse desaparece depois da interpretação de Freud durante a análise. Afonia, dor de
cabeça, depressão, humor insociável histérico, desgosto pela vida (pouco sincero,
segundo Freud), propositalmente, Dora deixa dentro de uma gaveta uma carta com sua
intenção de suicídio.
A análise de Dora dura somente três meses, pois do nada, a jovem mulher, ao tornar-se
maior de idade, decide não continuar a análise, surpreendendo Freud. A pouca simpatia que
Freud nutria por sua paciente, percebida em um texto, era amplamente recíproca.
Quinze meses depois do fim do tratamento, Dora volta até Freud em consequência de
uma nevralgia facial, que é interpretada como uma conversão histérica do sentimento de culpa
em relação a Freud que tinha sofrido um golpe (abandono da análise) similar ao famoso tapa
dado em K. Provavelmente Dora havia feito uma transferência para Freud, projetando sua
vingança contra K sobre ele.
Quando retorna a Freud, Dora já estava há quinze dias com essa nevralgia facial (duas
semanas antes, tinha lido em um jornal uma homenagem importante que Freud havia
recebido). Seria autopunição e remorso por ter transferido a Freud todo seu ódio por K e seu
pai?
Em seguida, consegue obter a confissão de K e de Madame K e ter justiça.
Em 1903, casou-se com um jovem rapaz (Ernest Adler) que estava presente no segundo
sonho analisado por Freud, aquele que anunciava o distanciamento dela com o pai e “que a
faria reconquistar a vida”. Teve um filho (Kurt Herbert) que futuramente seria diretor da
Ópera de San Francisco.
Sabe-se que nos anos 1930 Dora e Peppina (Madame K) voltaram a ser amigas e
tornaram-se jogadoras profissionais de bridge (muito em moda na época). Dora até se

37
escondeu na casa de Madame K quando foi procurada pela SS, devido à militância política de
seu irmão Otto.
Com o caso de Dora, Freud nos fala, pela primeira vez, de modo metódico, do sistema no
qual o paciente vive durante o surgimento dos sintomas. Infelizmente, não foram citados os
avós de Dora, fato que nos teria permitido, em parte, fazer uma análise psicogenealógica do
caso.
Enfim, o genograma de Dora, que proponho, coloca em evidência a importância de seus
conflitos com a figura materna e suas infelizes tentativas de encontrar em seu ambiente uma
mulher com a qual ela pudesse se identificar durante o difícil período da adolescência.
É aquilo que diz também Lacan em seu seminário sobre relação objetal: a suposta
homossexualidade de Dora nasce da necessidade de encontrar uma resposta para a pergunta
“o que significa ser mulher?”
Sendo Dora uma menina “vivaz e inteligente”, como afirma Freud, não poderia
contentar-se com o modelo oferecido por sua mãe (neurótica por afazeres domésticos) restrito
aos cuidados com a casa. Dora provavelmente tinha encontrado na irmã do pai um possível
modelo, mas infelizmente, ela morreu quando Dora tinha 17 anos (um ano antes da crise que a
levaria a Freud).
De fato, com a morte de sua amada tia, Dora reage com uma pseudoapendicite (que
pode-se nomear “gravidez” e “ser mulher”) e sua necessidade de identificação feminina se volta
inteiramente para Madame K, que mesmo sendo amante de seu pai, desperta nela antigos
sentimentos infantis de amores edipianos e os conflitos a eles ligados.
Penso que Dora tenha procurado resolver esses conflitos inconscientemente
enamorando-se de K, porém ele se revelou com vulgaridade. E seu pai agiu com egoísmo e
indiferença às suas dificuldades, o que fez nascer nela, que já tinha um caráter muito sensível,
um forte desgosto e talvez uma definitiva repugnância pelos homens.
No que se refere à repugnância que Dora sentiu aos 14 anos, quando K tentou beijá-la,
fato que levou Freud a diagnosticá-la com histeria, acredito que o seu parecer tenha sido
influenciado pela visão masculina da sexualidade. A sexualidade de uma mulher (e sobretudo
de uma adolescente) é muito mais complexa e seletiva, então não acho estranho que Dora
tenha sentido nojo pelo assédio forçado.

Genossociograma simplificado de Dora

(Ver genossociograma em apêndice gráfico na pág. 122)

38
Concluindo: o genossociograma é um instrumento muito útil, mesmo em um contexto de
um tratamento psicanalítico, sendo outra maneira de abordar os conflitos inconscientes, os
bloqueios psíquicos, as mudanças, os traumas escondidos. Permite, ainda em parte, evitar as
resistências que impedem o trabalho de interpretação dos sintomas psíquicos.

Como Anne Ancelin ressalta:

“Constatei também que esse trabalho de evidenciação dos vínculos, das repetições e das
decifrações dá um significado aos acontecimentos e permite ter um controle sobre estes. Quando
se percebe e se compreende, o significado emerge, o contexto se transforma, outra forma emerge
do fundo e as coisas mudam: o sujeito respira, se liberta do peso do passado, frequentemente seu
corpo muda e a vida muda. Torna-se outro... e (algumas vezes) ocorre a cura.”46

________________________________________________________
46 A. A. Schützenberger, op. cit. pag.153

39
CAPÍTULO 3

Outros autores importantes:


Dolto, Dumas, Abraham, Torök

3.1 A transmissão Transgeracional de Françoise Dolto e a Psicanálise Transgeracional


de Didier Dumas

Françoise Dolto (1908-1988), médica, pediatra e psicanalista francesa é, antes de tudo,


famosa pelas suas descobertas na Psicanálise com crianças e por ter fundado a “Maison Verte”,
centro de acolhimento para crianças menores de três anos. Participou, também, com Lacan da
criação da Escola Freudiana de Paris.
Foi a psicanalista de Anne Ancelin Schützenberger, que a definiu como uma “terapeuta
ímpar”: Anne Ancelin relata ter solicitado supervisão clínica para ela, após o retorno dos
estudos nos Estados Unidos em torno de 1955 . Durante o primeiro encontro, Françoise Dolto
perguntou a ela: “E sua avó e bisavó, eram mulheres satisfeitas ou respeitáveis e frígidas?”. À sua
resposta dizendo não saber, Françoise rebateu dizendo que em uma família as crianças e os
cães sempre sabem de tudo, principalmente daquilo que não é dito.
Anne Ancelin disse que, naquele momento, teve seu primeiro contato com a transmissão
transgeracional inconsciente e involuntária.
Françoise Dolto se dedicou principalmente as crianças autistas e, a partir da sua
experiência clínica, formulou o axioma, utilizado posteriormente pela terapia sistêmica. Relata
que a psicose de uma criança não pode ser entendida sem que se conheçam três gerações, ou
seja, são necessárias três gerações para se fazer uma criança psicótica. Retomando assim um
verso bíblico: “...não te prostrarás diante desses deuses e não os servirás, porquanto sou Eu, o
Senhor teu Deus, um Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos, até a terceira e
quarta geração daqueles que me odeiam.” Êxodo 20:5
Segundo Françoise Dolto o inconsciente da mãe e da criança estão ligados. E a criança
sabe, adivinha as “coisas” familiares: aquilo que é silencioso na primeira geração, a segunda o
traz em seu corpo exprimindo, desse modo, seu ponto de vista transgeracional.
No seu livro, Le cause dês enfants, fala de sua experiência com crianças psicóticas e do
fato de que o trabalho com elas a fez descobrir, entre outras coisas, que o mal-estar delas
expressa aquilo que aconteceu na vida da mãe e do pai dessas crianças, antes de expressar o
que aconteceu com elas.

“O trabalho analítico deve ser feito precocemente, para o débito que os pais conseguiram
suportar, mas que ficou cravado neles, não seja um peso que outra criança tenha que carregar(...).
E se não for o pai, serão seus filhos ou seus netos, já que o débito se deve exprimir nessa estirpe,
porque é uma prova simbólica.”47

________________________________________________________
47 F. Dolto, La cause des enfants, pag.421

40
Nesse livro Dolto, diz também que cada criança é obrigada a suportar o clima no qual
cresce, o que significa também carregar os efeitos patológicos que restaram como
consequência do passado de sofrimentos de seus pais e avós.
Ela tinha a convicção de que a criança tem um conhecimento intuitivo, inconsciente do
seu romance familiar. No prefácio do livro “O anjo e o fantasma” de Didier Dumas, ela escreve:
“eu acredito que fui uma das primeiras psicanalistas a dizer que são necessárias três gerações
para que se seja gerada na família uma criança... As crianças, antes de terem adquirido o
pensamento reflexivo e a fala voluntária, “canalizam”, de modo simbólico, o mistério e as
possibilidades dinâmicas que veiculam pelo pertencimento das duas origens.”48
Em seguida, aborda o impensado genealógico que Didier Dumas, desenvolve em seu
livro e conclui que a genealogia está constantemente presente em nossas vidas.
Françoise Dolto sempre afirmou que é necessário dizer tudo às crianças, porque elas
percebem aquilo que é escondido ou silencioso e porque os segredos podem ter uma função
patológica, como veremos no capítulo dedicado a elas. O material escondido da consciência,
trabalha na sombra como uma potência incontrolável, oculta, como um fantasma. É sobre isso
que trabalhará principalmente Didier Dumas, seu aluno e discípulo.

3.2 – O anjo e o fantasma de Didier Dumas

Didier Dumas foi aluno, a partir de 1985, de Françoise Dolto; ele trabalhou por dez anos
com crianças psicóticas e ampliou a visão do modelo transgeracional, integrando os trabalhos
de Nicolas Abraham e Maria Torök, sobre as criptas e os fantasmas (ver próximo capítulo). Foi
um dos pioneiros do modelo multigeracional na França: retomou a noção de fantasma
inconsciente transgeracional, acrescentando que a carência de palavras (não-ditos) é que se
torna o impensado genealógico.
Em seu livro, “L’ang et le fantôme”1, explica que o fantasma que sai da cripta
transgeracional, teorizado por Nicolas Abraham e Maria Torök, tem também uma relação com
a pulsão de morte, Thanatos, em contraste com a visão de vida representada por Eros, deus do
amor que ele associa ao anjo.
O anjo é o aspecto salvador e é representado por um acompanhante que ajuda a dar voz
e a dar corpo ao fantasma.
Segundo Dumas, o fantasma corresponde sempre a um trauma que se transmite para as
gerações sucessivas, sob a forma de “segredo de família” e acrescenta aos traumas individuais
aqueles coletivos, como as guerras, as deportações, as injustiças.
Afirma que é essa dimensão coletiva não foi percebida nem por Freud nem por Jung.
Segundo ele, tudo aquilo que Freud chamou superego é na realidade, psique coletiva. Dumas
acredita que Freud recusava a hipótese de que os distúrbios mentais, possam ser transmitidos
nas relações de filiação, uma vez que não havia nunca tratado os psicóticos.

________________________________________________________
48 D. Dumas, L’ange et le fantôme, pag.7

1 Título do livro em francês – L’ang et le fantôme: O anjo e o fantasma

41
Propõe essa explicação em uma entrevista à revista Nouvelles Clès: se na obra de Freud
não existe a abordagem transgeracional (parece que a palavra avô não aparece em toda a sua
obra) isso seria devido ao fato de que Freud, sendo um neurologista e não psiquiatra, não
tratou pessoas que sofriam de psicose.
Segundo ele, essa é uma das razões que opôs Freud a Jung que, ao invés dele, era
psiquiatra e tinha experiência com pacientes psicóticos. Sua vivência profissional resultou
evidente como a psique familiar é uma entidade própria que atua da mesma forma que a
psique individual.
Porém, afirma que a abordagem transgeracional não é junguiana, porque Jung não
desenvolveu uma teoria do mecanismo da psique coletiva e segundo ele, o fato de Freud não
ter aceitado a noção do inconsciente coletivo, se deu ao fato de que Jung não havia,
preliminarmente, definido o que poderia ser o inconsciente coletivo.
Todavia, Dumas cita Nina Canault, que em seu livro Pourquoi paye-t-on la fête aux
ancêtres?1 apresenta uma ampla gama de pesquisas psicológicas e sociais sobre a
Psicogenealogia, para dizer com isso que a abordagem transgeracional, permite, enfim,
resolver a velha polemica entre Freud e Jung.
Como já vimos, na verdade, também Freud havia percebido a existência de uma
transmissão psíquica entre gerações e não penso que o fato de Jung, “não haver
preliminarmente, definido o que poderia ser o inconsciente coletivo”, fosse o verdadeiro
problema. O problema, penso eu, Freud mesmo o explica em Totem e tabu, quando fala do pai
violento e ciumento que caça os filhos da horda* para manter todas as fêmeas do clã.
Traduzindo em linguagem corriqueira, um pai que não aceita críticas e é ciumento do seu
território (no caso de Freud, a Psicanálise). Os filhos acharam por bem matá-lo (como propõe a
Psicanálise) e comê-lo.
Mas retornando a Didier Dumas: seu livro L’ang et le fantôme2, mostra a importância da
transmissão psíquica não somente pela saúde mental da criança, mas igualmente por aquela
social e coletiva, dos povos e das civilizações. Fala também do impensado genealógico: “il
manque à parler”, isto é, o não-dito, produzido por um acontecimento familiar traumático que
se torna um fantasma psíquico, conectando-se assim à concepção de Nicolas Abraham e Maria
Török.

3.3 – Criptas e fantasmas transgeracionais inconscientes - Nicolas Abraham e Maria


Torök

“Quem sobre a terra não faz valer a sua parte Divina não há,
nem sequer no inferno, repouso.”
F. Holderlin, Invocação a Parche

_______________________________________________________
1 Título do livro em francês – Por que pagamos as dívidas de nossos antepassados?
* Nota do tradutor: tribo de tártaros ou de outros nômades.
2 Título do livro em francês – L’ang et le fantôme: O anjo e o fantasma

42
Nicolas Abraham (1919-1975) nasceu na Hungria e viveu na França em 1938. Maria
Torök (1925-1998) era uma psicanalista francesa de origem húngara. São dois psicanalistas
clássicos freudianos que perceberam que certos pacientes, em análise, mostravam sintomas e
expressavam os conteúdos que não eram de origem do reprimido pessoal.
A partir daí, desenvolveram pesquisas sobre mais gerações e publicaram um livro, “A
casca e o núcleo”, em que expuseram a hipótese, segundo a qual, existem na psique humana,
criptas e fantasmas, ligados a traumas, aos não-ditos, aos segredos provenientes dos
antepassados.
As influências transgeracionais conscientes ou inconscientes são capazes, segundo eles,
de orientar ou desorientar “o processo espontâneo vivificante da filiação do inconsciente no
interno da organização familiar”. Portanto, desde o nascimento, a criança é influenciada, para o
melhor e o pior, pelas sombras das experiências de vida dos seus ascendentes.
Eles fazem distinção entre traumas psicológicos causados por uma experiência pessoal e
traumas psicológicos advindos de transmissões entre as gerações das experiências
traumáticas vividas pelos antepassados (os esqueletos no armário).
Os traumas pessoais que não são ditos, os quais não foram mencionados por vergonha
ou para não ferir, dão lugar a uma “negação clássica da realidade da morte, exclusões e abolições
de realidades catastróficas às quais é negado até mesmo o estatuto de ter acontecido.” Tais
negações são imobilizadas em uma “cripta”, parte cindida do Eu.
Os não-ditos, os segredos, são também a causa do nascimento dos fantasmas: “Esses
fantasmas, retornam para tentar preencher a lacuna que foi criada em nós, com a ocultação de
uma parte da vida do objeto amado. Seria, portanto, um fato metapsicológico entender que não
são os espíritos que nos habitam, mas as lacunas deixadas em nós dos segredos dos outros.”49

Os fantasmas não cancelam a realidade psíquica, mas, mascaram-na exprimindo-a de


modo desviado, irreconhecível, contudo mostrando-a.
Os autores dão como exemplo, a história de um homem obcecado pelo hobby da
geologia e coleção de borboletas. Esse naturalista amador estava em analise quando, através de
informações fornecidas pelo seu grupo, foi desvendado que ele era portador de um fantasma: a
sua paixão pelas pedras e as borboletas mascaravam um drama familiar.
Sua avó havia denunciado o pai que foi condenado a trabalhos forçados, quebrando
pedras e ele foi morto em uma câmera de gás. O geólogo “de final de semana” passava todo o
seu tempo livre, quebrando pedras e procurando borboletas que conservava em arsênico
(como aquele que é usado nas câmeras de gás).
Segundo Abraham e Torök, os não-ditos transmitem lacunas no inconsciente dos filhos,
um saber não conhecido: um fato sepultado na história familiar se torna para os descendentes
como uma morte sem sepultura, onde é criado o fantasma. Esse fantasma desconhecido
ressurge do inconsciente e exercita a sua influência nefasta, induzindo fobias, loucuras e
obsessões. O seu efeito pode propagar-se através de gerações e determinar o destino de uma
estirpe.

________________________________________________________
49 N. Abraham, M. Torök, L’Écorce et le Noyau, pag.427

43
Pode-se constatar que todas as culturas falam de fantasmas; desde a antiguidade e em
todas as sociedades, em forma institucionalizada ou marginal, existe a crença de que os
espíritos dos mortos, possam voltar e possuir os vivos.

“O fantasma das crenças populares não faz mais que ressaltar a metáfora que trabalha no
inconsciente: a sepultura, em pessoa, de um fato vergonhoso.”50

A obra dos dois psicanalistas colocou em evidência a importância da transmissão


transgeracional, dos segredos e dos traumas familiares não elaborados: a cripta é o túmulo no
interior de um descendente eleito como portador do fantasma excluído, de um segredo
inconfessável de um familiar.
Nicolas Abraham cita o exemplo de um jovem pesquisador químico que estava
trabalhando sobre os genes e o esperma humano e que estava sendo tratado por uma
psicanalista. Contemporaneamente à Psicanálise, apaixonou-se pelas pesquisas genealógicas e,
em particular, pela identificação de filhos ilegítimos da nobreza. Depois de um tempo, começou
a ter delírios e a convicção de ser filho de sua psicanalista e de um grande psicanalista.
Observando detalhadamente o seu delírio, podemos encontrar nas suas palavras, aquilo
que o jovem pensava ignorar: “isto é, aquilo que deveria estar coberto por um véu de pudor, ou
seja, que o pai era um bastardo e que carregava somente o nome da mãe. Fato, por si só, sem
interesse para nós, mas importante para ele, porque havia produzido no pai do doente uma
ferida oculta e a elaboração de todo um romance familiar, referente à nobreza de suas origens e à
manutenção de um rancor, muito negado, contra a mãe cortesã. O inconsciente do pai do
paciente, é focalizado sobre um único pensamento: “se minha mãe não tivesse me omitido de qual
nobre amante eu era o filho bastardo, eu não seria obrigado a esconder o meu estado de filho
ilegítimo, que me humilha.”51

Abraham diz que o paciente (o filho) parecia alucinado e possuído, não pelo seu próprio
inconsciente, mas da angústia de outro: o inconsciente do pai. Isso é o que Abraham e Torök
chamam de fantasma.

Resumindo: um evento, um luto ou um trauma não resolvido, torna-se no pai que não
pode ou não quer falar, um evento indizível. Esse pai é o portador de uma cripta dentro de si,
na qual sepultou seu sofrimento. O filho corre o risco de sofrer por algo que intui, mas que não
conhece: o fato torna-se inominável e esse descendente é o portador do fantasma. Nas gerações
seguintes, o fato torna-se impensável e pode causar nos descendentes percepções, sensações
ou imagens em relação a esse acontecimento desconhecido.

________________________________________________________
50 Idem, pag.41
51 N. Abraham, M. Torök, L’Écorce et le Noyau, pag.428

44
Genossociograma simplificado do jovem pesquisador

Entretanto, fica sem resposta, segundo Abraham e Torök, a pergunta de como o


pensamento do pai foi transportado para o inconsciente do filho mais velho e preferido,
permanecendo ativo até causar o delírio.

“O fantasma é uma formação do inconsciente que, particularmente, nunca esteve


consciente. Resulta da transmissão do inconsciente de um pai para o inconsciente de um filho.”52

Uma provável resposta para o modo como a passagem de sensações, pensamentos,


emoções e traumas são transmitidos, vem dos trabalhos de Rupert Sheldrake.

________________________________________________________
52 N. Abraham, M. Törok, L’Écorce et le Noyau, pag. 429

45
3.4 – Os campos mórficos de Rupert Sheldrake

Rupert Sheldrake, biólogo, doutor em Ciências Naturais em Cambridge, pesquisador da


Royal Society e do Instituto de Ciências Noéticas da Califórnia, passou grande parte de sua vida
profissional dedicando-se à ciência e elaborando a Teoria dos Campos Mórficos.

“São os campos mórficos: regiões de influência que se organizam de modo independente


como campos magnéticos ou outros campos reconhecidos.”53

Começou a interessar-se pelos campos mórficos estudando o desenvolvimento das


plantas na Universidade de Cambridge e perguntando-se como os vegetais, a partir de
embriões simples, desenvolvem suas formas características. A resposta simplista de que são
geneticamente programados não o convencera: todas as células do corpo contém os mesmos
genes, mas as pernas e o fígado, por exemplo, desenvolvem-se diferentemente.
Os campos morfogenéticos são a resposta que os biólogos encontraram a partir dos
anos 1920, para resolver a questão. Assim como para uma cidade na qual os imóveis sejam
todos diversos (mesmo que tenham sido construídos com tijolos, cimento e madeira) há
diferença no uso destes pelo arquiteto, também o organismo em desenvolvimento, está
subordinado a uma matriz invisível que é o campo mórfico.
Os campos morfogenéticos são as regiões de influência no espaço-tempo, situados
dentro e em torno do espaço onde se organizam. Estes englobam e conectam as diferentes
partes do sistema que ordenam, são evolutivos e têm memória cumulativa.

“Os nossos braços e nossas pernas, são idênticos: se fossem pulverizados e se fizesse uma
análise química, não seria possível distingui-los. E mesmo assim são diferentes. Para explicar suas
formas é necessário algo além dos genes e das proteínas que contêm.”54

A via pela qual uma informação ou esquema de atividade se transfere de um primeiro


sistema ao sistema seguinte do mesmo tipo chama-se ressonância mórfica.

“Essa ressonância mórfica implica uma influência dos similares; a influência dos
esquemas de atividades sobre os esquemas subsequentes similares, qualquer coisa que atravessa o
espaço e o tempo, mas que o afastamento no espaço e no tempo não é atenuado e que provém
exclusivamente do passado (...).Essa hipótese explica o fato de que a ressonância mórfica é
detectável seja na Física, Química, Biologia, Psicologia e em Ciências Sociais.”55

________________________________________________________
53 R. Sheldrake, Les pouvoirs inexpliqués des animaux, pag. 38

54 Idem, pag. 387

55 R. Sheldrake, op. cit. pag. 391

46
Segundo Sheldrake seria possível aparentar os campos mórficos à teoria da Física
Quântica que postula a existência de correlações à distância: foi provado que elementos de um
sistema quântico que foram unidos no passado, conservam uma conexão instantânea mesmo
quando estão distantes. Por exemplo, dois prótons que se distanciam em direções opostas do
átomo emissor, viajando na velocidade da luz, mantêm entre eles uma ligação imediata e,
caso seja medida a polarização de um, o outro adotará imediatamente a polarização oposta,
mesmo estando a uma grande distância. Esse fenômeno se chama correlação quântica: as duas
partes de um mesmo sistema que se encontram separadas, ficam unidas por um campo
quântico.
Sheldrake quis sintetizar a teoria dos campos quânticos com a dos campos
morfogenéticos propondo os campos mórficos: campos que se conectariam entre si, além do
espaço e do tempo pelos seres que são semelhantes ou com particulares ligações.
Ele fez uma pesquisa cientifica para verificar se alguns comportamentos animais
referentes a fenômenos de telepatia e de antecipação das ações feitas pela pessoa cuidadora,
seriam reais. Durante cinco anos, dirigiu uma pesquisa sobre animais domésticos que
“sentiam” o retorno de seu dono para casa ou demonstravam outros dons de conexões à
distância e no tempo. A hipótese base dessa pesquisa, financiada por ingleses e americanos,
envolveu centenas de donos de animais de estimação, veterinários, adestradores, além de
outros pesquisadores e mostrou que os fenômenos de antecipação do retorno à casa dos seus
donos, como outros casos de “telepatia” são mesmo reais.
As experiências filmadas demonstraram que alguns animais domésticos são capazes de
prever a volta de seus donos, até quando estes retornam para a casa em horários distintos
daqueles habituais ou mesmo utilizando transportes diferentes (táxi, meios públicos, carro,
etc.). Podem, ainda, pressentir os telefonemas feitos pela pessoa que amam.
A partir dessa pesquisa Sheldrake postulou a existência de campos que permitem a
interconexão inconsciente entre as pessoas ou animais que fazem parte. Os “poderes
inexplicáveis” dos animais são fatos reais: os animais possuem capacidades que há muito
tempo, e por razões diversas, se perderam, a nível consciente do homem. Sheldrake propõe a
teoria dos campos mórficos para explicar o fenômeno da interdependência.

“Os campos mórficos conectam os membros do mesmo grupo, estejam estes próximos ou
distantes no espaço. Essas ligações invisíveis são necessárias para a comunicação telepática do
animal para o animal, do homem para o animal e inversamente, e também do homem para o
homem.”56

Os animais sentiriam mais essas ligações invisíveis, pelo fato de não haverem um
linguajar verbal, são mais sensíveis à existência desses campos.”
Isso explicaria também os fenômenos da sincrocinidade que Jung descreve em suas
obras. Além disso, vimos que os campos mórficos, como aqueles quânticos, contêm uma
memória “histórica” que se assemelha ao inconsciente coletivo de Jung.

________________________________________________________
56 R. Sheldrake, Les pouvoirs inexpliqués des animaux, pag.360

47
“Uma ressonância menos específica com inúmeras pessoas, que tenham vivido no passado,
interliga cada um de nós à memória coletiva de nossa sociedade e de nossa cultura e, enfim, à
memória coletiva de toda a humanidade (...) A compreensão das culturas em termos de campos
mórficos revolucionariam o modo de considerar o nosso patrimônio cultural e a influência dos
nossos antepassados”.57

A ressonância mórfica está na base da memória que está presente nos campos mórficos
nos diversos níveis de complexidade. Sheldrake disse que todos os sistemas mórficos se
regulam sobre sistemas similares anteriores e dá como exemplo um embrião de girafa que se
comporta como as girafas do passado durante o desenvolvimento: “cada individuo se
movimenta dentro de uma memória coletiva que, por sua vez, também se alimenta. Em um
contexto humano essa memória está muito próxima ao inconsciente coletivo de Jung”.58

Também a noção do co-inconsciente, de Jacob Levi Moreno, poderia ser explicada com
os fenômenos de telepatia que os campos mórficos gerariam.

________________________________________________________
57 R. Sheldrake, op. cit., pag.405
58 R. Sheldrake, op. cit, pag. 398

48
CAPÍTULO 4
Psicodrama e Constelação Familiar

4.1 – O co-inconsciente de J.L. Moreno


Jacob Levy Moreno (1889-1974) nasceu na Romênia, viveu em Viena e nos anos 30 foi
emigrante nos Estados Unidos.
Psiquiatra, sociólogo, filósofo, psicoterapeuta de grupo, foi ele que inventou o
Psicodrama (1930) como método terapêutico e a Sociometria como método para o estudo da
estrutura psicológica afetiva humana.
Nos anos 1920 a sua experiência com o teatro, como terapia de grupo, levou-o a
formular a hipótese da existência de um co-inconsciente de grupo familiar.

“Freud nos trouxe o inconsciente, Jung o inconsciente coletivo e Moreno o co-inconsciente


familiar e de grupo, que nós descobrimos há quinze anos ser também um co-inconsciente
transgeracional.”59

Personagem eclético e genial, como relata Anne Ancelin que foi sua aluna nos anos 1950
quando se encontrava nos Estados Unidos, desafortunadamente não levou a término as suas
intuições geniais que outros (entre eles Winnicot, Lebovici, Anzieu, etc) elaboraram nas suas
abordagens terapêuticas.
Era um homem de ação (no princípio era a ação, dizia citando Goethe) e foi durante as
sessões de Psicodrama que percebeu a existência de um co-inconsciente de grupo, que permite
aos participantes em agir uníssono, como se todos conhecessem os detalhes da história
colocada em cena pela pessoa que faz o Psicodrama.

O psicodrama
Forma de terapia que utiliza a teatralização dramática por meio de cenários
improvisados, encenados por um grupo de participantes que colocam em cena o assunto
escolhido pela pessoa dita protagonista.
Os temas do Psicodrama são:
 O psicodramatista, formado para essa técnica, conduz a sessão, respeitando o objetivo
do protagonista. Está atento ao todo e aos detalhes da representação. Escuta aquilo que
é dito e também o não-dito pelo protagonista, sublinhando as palavras escolhidas, as
aparentes contradições ou incoerências, os sentimentos expressos, etc.
 O protagonista, membro do grupo, cuja situação é colocada em ação através do
Psicodrama.
 Os coadjuvantes são os membros do grupo que representam os vários papéis propostos
para a encenação do tema escolhido pelo protagonista.
 O auditório composto pelos participantes que assistirão ao Psicodrama e que em algum
momento, poderão propor-se ou serem solicitados para um papel.
 A cena, lugar onde se desenvolve a ação.
________________________________________________________
59 Site de A. A. Schützenberger

49
A técnica do Psicodrama prevê três fases:

 O aquecimento: nessa primeira fase o psicodramatista propõe exercícios que permitirão


às pessoas concentrarem em si mesmas e encontrarem-se com outros membros do
grupo. Durante o aquecimento é escolhida ou surge a pessoa que colocará em ação uma
situação importante de sua vida passada, presente ou mesmo futura.
 A ação: o protagonista, com a ajuda do psicodramatista, coloca em cena os diferentes
elementos que compõem a situação que decidiu desenvolver: a)o lugar e os objetos
presentes (por exemplo: o escritório, as escrivaninhas, as janelas, as portas, etc.) b) as
pessoas (por exemplo: o chefe, os colegas, etc.).
 São escolhidas as pessoas para representarem os vários elementos e o diálogo começa -
no aqui e agora – como se fosse uma situação real, mas podendo transformar-se em
uma cena anterior , e, às vezes, até mesmo da infância. O psicodramatista permite e
facilita então o retorno à cena inicial que é o “working through”1 que conduz a mudança.
 O compartilhamento final é muito importante: o protagonista se abriu completamente,
mostrando a sua fragilidade diante de todo o grupo. Do mesmo modo, os membros do
grupo devem expressar ao protagonista o efeito que lhes foi transmitido da história que
foi representada, como suas emoções, as sensações e as situações pessoais similares. É
fundamental que ninguém interprete de modo algum, o percurso efetuado na ação é
suficiente.

“As livres associações de A podem ser a via para o inconsciente de A; as livres associações
de B podem ser a via para o inconsciente de B. Mas como pode o material inconsciente de A unir-
se naturalmente com o material inconsciente de B se não há compartilhamento no inconsciente?
O conceito de inconsciente individual torna-se insatisfatório para explicar o fenômeno de
transmissão inconsciente. É necessário achar um conceito construído de maneira tal que a
indicação objetiva desse processo, em duas vias, seja incluídos: o processo não vem de uma psique
individual, mas da realidade ainda mais profunda nas quais o inconsciente de duas ou mais
pessoas estão em mutua relação com um sistema co-inconsciente... Por definição os estados co-
consciente e co-inconsciente são estágios dos indivíduos que participaram de um grupo
experimentado coletivamente e que podem ser colocadas conjuntamente em cena”.60

Segundo Moreno, existiria uma verdadeira e própria comunicação do inconsciente da


pessoa ao inconsciente interno da família que ele chamou de co-inconsciente familiar.
Na base da noção do co-inconsciente de grupo há um mecanismo de funcionamento que
recebeu o nome de tele: corrente bidirecional de comunicação afetiva inata, uma espécie de
empatia recíproca, independente da distância física e temporal. Isso lembra os campos
mórficos de Sheldrake e o inconsciente coletivo de Jung.
“O tele é um mecanismo que funciona entre os membros do grupo desde o primeiro
encontro”. Essa fraca coesão primária pode ser usada pelo terapeuta para desenvolver e
compartilhar fins terapêuticos comuns.

________________________________________________________
1 Nota do tradutor – Working through – trabalhando com o que emerge através do Psicodrama.
60 J. L. Moreno, Manuale di psicodramma. Il teatro come terapia, pag. 67

50
“Todas as interrelações entre indivíduos no curso da terapia (do Psicodrama) são
influenciadas por essa estrutura originaria e podem modificá-la.”61
O tele é um conceito social e um processo que Moreno chamou átomo social, que é uma
representação das relações significativas da vida de cada um, o mundo social pessoal do
sujeito.
Isso nos leva à sociometria e ao genossociograma que, como veremos no capítulo sobre
a Psicogenealogia, é a representação gráfica do mundo social do individuo.
A técnica do Psicodrama é muito parecida com aquela utilizada por Hellinger para
estruturar o seu método, as Constelações Familiares.
A diferença consiste no fato de que nas Constelações Familiares não está previsto o
aquecimento, ou seja, ensaio, e frequentemente também é comum compartilhar o assunto que
é posto em cena, visto que é sempre uma relação de história familiar. Mas no que diz respeito à
ação em si, assim como os coadjuvantes (chamados assim os que auxiliam na representação),
ou no papel do protagonista (constelante ou paciente), Psicodrama e Constelações Familiares
podem-se igualar. Diferente é o trabalho do psicodramatista em relação àquele do constelador,
talvez por estar mais ligado à ideia da direção e condução da cena. Mas, por experiência, sei
que como não existe um único modo de acompanhar as pessoas durante a constelação,
obviamente não existirá uma única maneira de conduzir o Psicodrama.
Proponho, então, para entender praticamente como se desenvolvem as constelações
familiares, o meu primeiro encontro com esse método.

4.2 – Seminário de Constelações Familiares (1)

A minha primeira experiência com as constelações familiares desenvolveu-se em um


centro, onde amigos organizavam atividades relacionadas à pesquisa e ao desenvolvimento
pessoal.
Como explico na introdução, naquela época eu passava por um momento de dificuldade
nas relações com minha família de origem e sentia uma forte necessidade de encontrar um meio
que me ajudasse a desatar os nós que me criavam uma situação de forte conflito interior.
No mais, estava muito curiosa por esse trabalho que tanto apaixonou amigos que já o
experimentado. Para dizer a verdade, estava ainda muito cética: os relatos entusiasmados sobre
as experiências extraordinárias suscitavam frequentemente em mim uma perplexa
incredibilidade. Em particular, não achava possível que a história familiar, colocada em cena e
encenada (Psicodrama familiar), pudesse desencadear um turbilhão.
Mas esses preconceitos acabaram dando lugar às intensas emoções que provei a partir da
primeira constelação.
Já no momento em que a primeira pessoa (constelante) posicionou as pessoas que havia
escolhido no grupo para representar os seus familiares (representantes), uma incrível tristeza me
invadiu e, como a muitos outros, me comovi profundamente.

________________________________________________________
61 J. L. Moreno, op. cit. pag. 67

51
Porque senti tal empatia por uma desconhecida e por que “lia” a constelação, como ela a
havia posicionado, como uma expressão de injustiça e aflição?
Era a minha primeira experiência com a inegável existência de uma realidade que nos une
emocionalmente e que nos conecta ao passado familiar: aquilo que Jung chama de inconsciente
coletivo, Moreno de co-inconsciente e Sheldrake de campo mórfico.
Não havia participado desse seminário com a finalidade de formação e também estava
pessoalmente envolvida, portanto não anotei nada: o que relatarei é o que ficou registrado na
memória consciente, e assim o relato não será muito fiel e preciso.
Ainda que o seminário tenha acontecido na Itália, a consteladora era francesa: na época
as constelações familiares não eram assim tão conhecidas. Tratava-se de uma mulher de uns
trinta anos que se formou com uma aluna de Bert Hellinger na França.
Muito rigorosa quanto aos fundamentos teóricos da técnica das Constelações de Hellinger
(ver próximo capitulo) distinguia-se pela relação mais humanística, centrada na pessoa.
Em particular, procurava conhecer a história da pessoa que faria a constelação e
propunha um encontro preliminar para ajudá-la a definir o objetivo que gostaria de alcançar
com o trabalho da constelação. Diferentemente de Bert Hellinger que naquela época (a sua
posição depois mudou) não queria conhecer nada da história pessoal dos constelados, antes da
encenação da constelação, preferindo que as dinâmicas se liberassem de maneira violenta diante
do público.
Gostaria de, nesse ponto, fazer uma reflexão sobre as constelações familiares na Itália,
como me foram relatadas por diversas pessoas que já a fizeram.
A Constelação Familiar é um método muito potente e tem a característica de estimular a
expressão exaltada das emoções: muitos consteladores, provavelmente, estão convencidos (como
Hellinger inicialmente), de que manifestações emocionais violentas são úteis para a resolução do
problema.
Não penso que seja verdade: essa atitude cria fortes resistências que não são, certamente,
uteis na maturação interior, condição necessária para a superação real dos distúrbios de quem
sofre. Além disso, muitas pessoas que ouviram os relatos sobre experiências terríveis, durante as
constelações, não sentiram vontade de enfrentar tais provas e o método, graças, talvez, a esses
consteladores, que nem sempre têm uma boa reputação.
Penso que a brutalidade sempre é negativa, especialmente quando o objetivo é ajudar
pessoas que sofrem. Já o modelo de trabalho da consteladora a que me refiro, é diferente disso
(centrado na pessoa, segundo a visão humanista que se relaciona com o individuo em sua
totalidade).
Nesse seminário, éramos umas vinte pessoas e, durante o final de semana, seis dentro de
nosso grupo, colocaram em cena as suas constelações, os outros estavam ali eventualmente para,
se necessário, assumir um papel na representação.
Eu não conhecia a grande maioria das pessoas presentes e sabia apenas superficialmente
do que se tratava, por isso o meu espanto foi grande. Como disse a princípio, quando, a partir do
momento em que a primeira pessoa colocou em cena a sua família, uma emoção muito intensa me
invadiu.
No que se referia à minha constelação, antes do seminário, preenchi um formulário,
indicando os acontecimentos mais importantes da historia de minha família até a terceira

52
geração e na noite seguinte do seminário, ocorreu uma breve sessão com a consteladora para
definir o objetivo que me levou a constelar.
Estava angustiada, devido a grande responsabilidade que sentia em relação aos
confrontos de minha família de origem, sentia o peso do papel que me foi designado dentro da
família e que me impediram de ser eu mesma. Em particular, sofri muito ao ver minha irmã mais
nova pegar uma estrada perigosa e não poder fazer nada para ajudá-la.
A terapeuta, percebendo meu grau de sofrimento, maior que o habitual naquelas
situações, emitiu a hipótese que eu não estava no lugar certo dentro do sistema familiar, mas, que
eu havia tomado para mim outro papel, aquele de mãe de minhas irmãs.
Desse encontro, apareceu também uma problemática da minha família materna francesa,
e, em particular, a total falta de convívio entre minha avó e sua família de origem.
No dia seguinte, na grande sala onde nos encontrávamos, “apresentei” minha família
desenhando um genossociograma simplificado com os principais acontecimentos traumáticos
(mortes prematuras, exílio, guerra, abortos, etc.). Em seguida, escolhi algumas pessoas,
instintivamente e sem muito pensar, para representar o meu pai, minha mãe, as minhas irmãs e a
mim mesma. Coloquei-os dentro do espaço, seguindo o impulso da ocasião, sem pensar muito e,
improvisadamente, uma grande tristeza me invadiu.
Na realidade, eu coloquei o meu pai, minha mãe e minhas irmãs mais velhas, defronte uns
aos outros, formando um círculo. Minha irmã mais nova e eu, estávamos fora desse circulo; o meu
representante olhava na direção deles e o de minha irmã para o externo.
Isso, provavelmente, teria feito ressurgir do passado a tristeza dos primeiros anos da
minha vida, período em que eu fui deixada de lado por minha mãe que estava ocupada cuidando
de minha irmã mais velha que estava doente. Devido a essa doença, eu e minha irmã mais nova,
fomos mandadas para a casa de nossos avós paternos, por um longo período.
Após o posicionamento dos representantes, retornei e sentei-me com os outros
participantes, invadida por uma profunda tristeza e revivendo, provavelmente, o sentimento de
angústia que já havia sentido, quando pequena, por época do afastamento de minha mãe.
Quando encontrei o público, a terapeuta começou a perguntar aos representantes da
minha família, que sentimento experimentava naquele momento, e todos responderam não se
sentirem bem; alguém se sentia angustiado, outros se sentiam tristes e infelizes.
Então ela os afastou e os colocou formando um círculo, onde poderiam se olhar. Todos
foram unânimes em dizer que se sentiram melhor, exceto a representante de minha mãe que
continuava a sentir-se angustiada.
Nesse momento, a terapeuta me pediu que escolhesse representantes para os avós
maternos e os colocasse no mesmo espaço com a representante de minha mãe.
Aconteceu que também os avós ficaram defronte um ao outro, dando as costas para a
filha, minha mãe. Entre eles não havia espaço para mais ninguém.
Sob a recomendação da terapeuta, escolhi entre o público outras duas pessoas para
representarem os meus bisavós maternos, os pais de minha avó.

Vendo a dinâmica em ação, entre minha mãe e os membros da sua família (francesa), a
terapeuta usou a hipótese de um débito inconsciente que poderia ter relação com a minha
transferência para a França.

53
Os meus bisavós expressavam uma indiferença para com a filha deles (minha avó) que se
sentia aflita. Somente quando a consteladora ordenou aos seus pais a dizerem: “te damos nossa
bênção para viver a tua vida” o representante de minha avó disse sentir-se melhor.
Devo confessar que, escrevendo tudo isso percebi que certamente esqueci muitos detalhes
sobre a minha constelação. A consteladora nos preveniu sobre essa possibilidade de que estes
fatos poderiam ser cancelados da memória consciente para serem “trabalhados” no inconsciente.

Genossociograma simplificado da Constelação Familiar


(Veja o genossociograma no apêndice gráfico na página 123)

Porém, antes de terminar o relato desse seminário de constelação familiar, gostaria de


introduzir seu inventor e maior expoente: Bert Hellinger.

4.3 - As constelações familiares de Bert Hellinger

Bert Hellinger nasceu em 1925 na Alemanha. Depois de ter entrado para um seminário,
continuou seus estudos de filosofia, teologia e pedagogia, e aos 16 anos foi enviado para a
África do Sul como missionário-instrutor entre os Zulus.
Em seguida, deixa a ordem missionária, se casa, torna-se psicanalista e pratica diversas
técnicas psicoterapêuticas como a dinâmica de grupo, a terapia do grito primário, a análise
transacional e a hipnose ericksoniana.
Desenvolve nos anos 1980, seu primeiro método de terapia familiar sistêmica e
transgeracional: as constelações familiares.
Pode-se dizer que o método das constelações familiares é muito próximo à
Psicogenealogia, porque trabalha suas relações inconscientes e ao Psicodrama de Moreno, pois
coloca em cena as relações dos conflitos familiares.
Bert Hellinger recusa aproximar o seu método de outras escolas ou abordagens e diz
que as constelações familiares não pode ser uma escola, pois não se trata de transmitir um
saber, mas sim um modo de ser.

“Aprende-se a expor-se aos fenômenos, liberando interiormente de cada objetivo


preconcebido e de cada apreensão. Cada participante pode experimentar dessa clareza
improvisada (...). Eu vejo, por exemplo, a família colocada em cena, e vejo também todos os
fenômenos que aparecem para mim, em relação à consciência ou a qualquer sentimento de
culpa.”62

Hellinger afirma que sua abordagem não é embasada em uma teoria, e sim numa terapia
fenomenológica. Segundo o vocabulário Treccani, a fenomenologia é um conceito filosófico que
tem em si o modo como se apresenta e se manifesta a realidade e pela sua descrição não
alterada por sobreposições teóricas.

________________________________________________________
62 B. Hellinger, Costellations familiales, pag. 38

54
“Vejo aquilo que dá alívio, colocando as minhas observações à prova. Quando acredito ter
uma boa pista, elaboro a minha hipótese. (...) Atuo segundo o procedimento fenomenológico e me
submeto à realidade que se apresenta, renuncio à liberdade que consiste em pensar ou querer o
meu agrado.”63

Todavia, unindo seu método às terapias sistêmicas familiares trangeracionais que


postulam o destino de um membro da família, pode ser influenciada de um modo dramático
pela história dos outros membros que a precederam.
As pessoas sofrem de mal-estar, doenças, reproduzem os comportamentos contra as
suas vontades objetivando a honestidade familiar. Esses distúrbios seriam o reflexo dos
conflitos não resolvidos das gerações precedentes e das exclusões voluntárias ou inconscientes
de pessoas ou fatos (segredos) ligados ao sistema familiar.
A prática das constelações familiares parte da constatação da existência de três grandes
princípios que regulam os sistemas humanos.
 O primeiro princípio é uma lei-chave da sistêmica, aquele de associação. Todos os
membros da família têm o mesmo direito incontestável da inscrição no sistema familiar.
Segundo Hellinger, não existem níveis de associação superior ou inferior, o simples fato
de nascer em um sistema familiar dá ao indivíduo um lugar naquela família.
Ir contra esse princípio é negar tal direito, excluindo um membro; significa deixar um
lugar vazio no sistema que não tem mais assim o seu equilíbrio. Outra pessoa nascida depois da
pessoa excluída será obrigada a preencher esse lugar vazio, para reestabelecer o sistema.
 O segundo princípio é o da posição dos lugares no interno do sistema que deve estar
antes de nada, em ordem cronológica. Desse modo, os pais vêm antes dos filhos, o maior
vem diante do menor, os adultos devem tomar as responsabilidades que lhes são
próprias, as crianças devem se comportar como crianças, etc.
Todas as vezes que um membro do sistema toma o lugar do outro, não está mais no seu
sistema, perturbando-o assim. Isso acontece, por exemplo, nos casos de parentificação (ver
capítulo sobre a lealdade invisível de Boszormenyi-Nagy), isto é, quando se pede a uma criança
para cumprir o papel do adulto, tornando-se pai do próprio pai, pois este não pode ou não quer
cumprir a sua função. Ou quando um filho pega o lugar de um irmão ou irmã: aquele que toma
o lugar que não é o seu, não poderá viver plenamente a sua vida.
Isso é aquilo que, em efeito, vivenciei quando participei da minha primeira constelação
familiar. Realmente, a denominação constelação familiar simboliza o fato de que cada indivíduo
tem o seu papel, o seu lugar no seu sistema familiar como cada estrela em sua constelação no
céu.
 O terceiro princípio fundamental é o equilíbrio entre dar e receber, que é também a
base da ideia do livro dos contos familiares de Boszormenyi-Nagy (ver seu capítulo
sobre lealdades invisíveis). Segundo esse princípio, as relações humanas se equilibram
através de uma troca entre dar e receber. Aquele que recebe do outro, encontra-se em
uma situação de débito e na necessidade de encontrar a paridade e o equilíbrio.

________________________________________________________
63 B. Hellinger, idem, pag.43

55
Essa teoria sugere que a necessidade do equilíbrio toca tanto o bem como o mal: o
perdão nesse caso é negativo, pois coloca o outro em uma situação de débito, portanto, de
inferioridade.
Assim como a troca não pode ser feita sempre igualmente, honrar a pessoa que mais
doou e agradecer-lhe sinceramente é um modo de reestabelecer o equilíbrio.
É o caso dos pais e dos filhos: os pais deram aos filhos em certo momento, e os filhos
devem dar aos pais, senão o sistema será perturbado e alguém nas gerações sucessivas pagará
as consequências.
Bert Hellinger fala de Consciência Familiar e de Memória Familiar Inconsciente para
explicar o fenômeno de transição entre a generalização dos conflitos ligados ao desrespeito das
leis do sistema.

“A memória familiar é composta de todos os sentimentos, as emoções e as sensações que


não permearam os membros da família durante ou depois dos acontecimentos da história
familiar. Essa memória se transmite de forma inconsciente e sutil, mas não é menos real. É ela que
induz a fidelidade familiar inconsciente, e tudo aquilo que os descendentes têm como missão:
tomarem para si o cargo de reestabelecer o equilíbrio na família.”64

Fala também do “grande mistério”, de “forças mais profundas”, de “alma universal”, e


isso me parece uma descrição, ainda que com palavras diferentes, do inconsciente coletivo de
Jung.
Segundo Hellinger, aquilo que torna possível a cura é trazer a luz os fenômenos
patológicos que ficaram ocultos ou excluídos do interno da família.
Durante o desenvolver da constelação, esses fenômenos são colocados em evidência, e a
reconstrução consecutiva devolve ao lugar devido, as pessoas que sofreram uma injustiça
familiar.
A constelação como já vimos, se desenvolve no interno de um grupo, no qual uma ou
mais pessoas escolhem explorar as suas dinâmicas familiares inconscientes.
O sujeito que quer fazer sua constelação, eu o chamarei constelante, diferentemente de
Hellinger e outros terapeutas modernos, que preferem a palavra “cliente”, como propõem os
anglo-saxões em contraposição à palavra paciente, caracterizada como um papel de
inferioridade, enquanto cliente, segundo eles, seria mais respeitoso. Porém, pelo menos em
italiano, essa terminação tem uma conotação mercantil que não me convence.
O constelante, após um breve relato de seu problema familiar, escolhe no grupo as
pessoas para representar os membros de sua família (pai, mãe, irmãos, cônjuges, filhos, etc.) e
ele mesmo. Depois pega pela mão, um a um, e os conduz em silêncio e máxima concentração ao
lugar que lhe parecerá mais idôneo no interno do círculo formado pelos participantes.
Deve posicioná-los no espaço sem muito refletir, de modo que “o lugar designado a cada
um, se impõe a ele do fundo de seu inconsciente e que a configuração sobressaia-se até à
superfície de seu conhecimento.”

________________________________________________________
64 www.constellationsfamiliales.fr

56
“Aquilo que se admira nessas reconstruções familiares, é que as pessoas escolhidas para
representar os membros da família, no momento em que são colocadas em cena, provam as
emoções e sentimentos próprios como os membros da família real.”65

A propósito sobre esses fenômenos, alguém falou que o inconsciente coletivo de Jung
relaciona-se com os campos morfogenéticos de Rupert Sheldrake. Mas Hellinger diz que não
lhe interessa saber o porquê isso acontece; diz que não há necessidade de formular as teorias
para utilizá-las.

“Quando é colocado em cena um sistema familiar, ele é colocado em um espaço constante.


Se o lugar designado a cada um dos representantes é adequado, estes deixam o seu sistema
pessoal e são tomados por outro. Naquele momento é possível para ele, sentir aquilo que acontece
em tal sistema encenado. No geral, sabe-se, de primeiro relance, se um sistema familiar é
corretamente colocado em cena ou não.”66

Depois de ter posicionado os representantes, a pessoa que faz a constelação, senta-se e


olha o que acontece.
O constelador tem um papel ativo; faz as perguntas aos representantes sobre como
estão se sentindo; está atento à linguagem verbal e não verbal, às tensões, às entonações
vocais, aos sinais de sofrimento e, a partir desses dados, elabora uma hipótese.
Já o modo em que os representantes foram colocados no espaço, mostra a ideia que a
pessoa tem da família; por exemplo, se os representantes dos dois pais são colocados de costas
um para o outro, pode querer dizer que está presente uma relação conflitante; é importante
também notar onde foi colocado o filho, perto de qual genitor, e quem está mais próximo a
quem, etc.
O posicionamento dos representantes, aqueles que experimentam os fatos que a pessoa
relata no início da constelação, permitem ao constelador elaborar uma hipótese sobre as
pessoas excluídas e não honradas, as identificações patológicas, os lutos não feitos, os
sofrimentos afastados, os segredos, etc.
Quando elabora sua hipótese, o constelador propõe a certos representantes falarem
algumas frases simbólicas, afasta outros e olha atentamente as reações às suas ações, seja
sobre os representantes, seja sobre a pessoa que faz a sua constelação (constelante). Está
atento às expressões, para ter a confirmação ou, ao menos, o ajustamento de suas suposições.

“Na terapia familiar, o conflito é resolvido quando todos encontram o seu benefício,
quando cada um está em seu justo lugar, pronto para assumir aquilo que o espera, quando cada
um está centrado em si mesmo e não intervém nos fatos alheios. Então, todos reencontram o
sentimento dignidade e se sentem bem. Assim, nós sabemos que encontramos uma boa solução.”67

________________________________________________________
65 B. Hellinger, Costellations familiales, pag.98

66B. Hellinger, Costellations familiales, pag.95

67B. Hellinger, Costellations familiales, pag.95

57
Aquilo que importa, nessa aproximação, é que a dinâmica de fundo, cuja ação é saudável
é ativada. Hellinger diz que concebe a psicoterapia como um tratamento da alma (alma ou
inconsciente), e que seu trabalho é ter contato com as forças que agem no profundo da pessoa.
Ao final da constelação, o cliente ocupa o lugar de seu representante e entra na sua
constelação “pessoalmente”, completando a reparação familiar e formulando algumas frases
simbólicas sugeridas pelo constelador, frases que concretizam verbalmente o processo que foi
desenvolvido.
Segundo Hellinger, as frases que foram pronunciadas são para o inconsciente uma
manifestação da realidade e a pessoa, graças a esse procedimento, partiria com uma nova
memória familiar: “as energias que estavam bloqueadas em sua memória familiar, foram
liberadas para que tivessem um uso positivo”.

“O importante não é necessariamente que o cliente se cure, tendo em vista que eu não
conheço o seu destino. Eu o ajudarei a olhar o seu destino de frente, e se necessário, também a
morte. Eu me limito a encorajar o jogo das dinâmicas de fundo, cujas ações são saudáveis. Mas eu
não posso distanciar o cliente de seu destino, e nem penso nisso, seria absurdo (...) quando nos
despedimos, ele conheceu a paz e está de acordo com seu destino, qualquer que seja ele.” 68

4.4 - Seminário de Constelações Familiares (2)

Entre as frases rituais que foram propostas pela terapeuta, durante a minha constelação,
lembro que a representante de minha avó, disse àquela que seria de minha mãe: “você é minha
filha, eu lhe dei a vida. Não recebi aquilo de que tinha necessidade dos meus pais, assim como
seu pai. E isto nos uniu. E aquilo que não recebi não pude lhe oferecer. Sinto muito”.
A terapeuta sugeria as frases observando as reações dos representantes e também as
minhas. A representante de minha mãe, disse que essa frase a fez sentir-se menos angustiada,
mais leve.
Em seguida, me fez sentar no chão diante de “meus pais” para encontrar a posição de
quando ainda eu era pequena e me fez dizer: “eu sou filha de vocês, obrigada pela vida que me
deram, não posso substituir vocês, junto as minhas irmãs, é de vocês o lugar, eu não posso ser a
mãe de minhas irmãs. Mamãe, não posso ser sua mãe, não é o meu lugar”.
A terapeuta me fez levantar e deu uma bolsa ou um travesseiro que eu deveria dar a
“minha mãe” dizendo: “eu sou sua filha, não sou sua mãe e não sou mãe das minhas irmãs. Isto
que trago aqui é a tua confusão de ter me dado um lugar que não era meu. Fiz isso por amor e
agora estou lhe devolvendo o seu lugar”. Dizendo assim, entreguei-lhe o travesseiro, símbolo do
peso que havia carregado por ela. Minha mãe me respondeu: “estava confusa, te dei o meu lugar,
sinto muito, não foi justo, agora te libero desse peso.” Isto me fez sentir imediatamente melhor.

________________________________________________________
68 B. Hellinger, Costellations familiales, pag.147

58
A terapeuta me perguntou nesse ponto, como me sentia olhando os meus pais e tive a
impressão de que “meu pai” me olhava com um ar bem severo como que contrariado. Então ela o
fez dizer: “eu sou seu pai e lhe dei a vida. Tomo a responsabilidade da minha confusão, de ter
deixado que você tomasse um lugar que não lhe cabia. Sinto muito e a libero.” Também ouvindo
essa declaração me senti melhor.
No começo da constelação, enquanto posicionava os representantes da minha família,
provei um sentimento de profunda pena, o que senti durante toda a constelação. No final, a
profunda pena deu lugar a um abatimento e me senti muito cansada, sem força.
A terapeuta disse aos representantes da minha família para posicionarem-se atrás de
mim e eles se apertaram tão fortemente atrás de mim que a terapeuta precisou intervir dizendo-
lhes para não ficarem assim tão próximos, pois poderiam me sufocar.
Particularmente a representante de minha mãe, apertava tão forte a minha mão, a ponto
de me machucar, reproduzindo inconscientemente o modo de me amar da minha mãe. E eu
demonstrava como, na realidade, não fui capaz de dizer a ela que o seu amor me fazia mal.
Depois a terapeuta pronunciou: “Se você decide viver na França, é uma livre escolha sua,
não é para reparar nenhum sofrimento de seus antepassados. Você está livre para viver a sua
vida.”
Encontrava-me ali, com todo o meu sistema familiar apoiado em mim, literalmente “sobre
minhas costas”, cansadíssima e com a impressão de peso pela carga de todas aquelas pessoas e
suas expectativas, quando a terapeuta, improvisadamente, me colocou diante de meu marido. Foi
como se visse um raio de luz sob a tempestade, encontrei a força de deixar o grupo do sistema
familiar e, em seus braços, finalmente me senti mais leve e liberta.
Naquele momento todos aplaudiram, serenamente.
Na realidade, nesse método se percebe que todos os presentes, até mesmo somente
como expectadores, estão todos muito envolvidos emocionalmente.
Existem, certamente, muitos mecanismos em ação, por exemplo, não se pode excluir
aquele da projeção para o qual certos fatos ou discursos, reproduzam ao individuo a sua
história familiar. No grupo várias pessoas choraram, sentiram tristeza, angústia ou se sentiram
melhor quando certas soluções foram encenadas.
Outro mecanismo é aquele ligado à dinâmica do grupo, que encontra um modo de
ampliar os sentimentos e as sensações de cada um.
Acredito que, em um grupo, a audição do inconsciente coletivo é amplificada e isso
poderia explicar o comportamento dos representantes, que provaram sensações e emoções
que lhes eram aparentemente estranhas.
Eu mesma, durante o seminário, tive um papel de representante da mãe de uma pessoa
que não me pertencia. Em particular, olhando os representantes dos “meus pais” (os avós da
pessoa que estava sendo constelada), senti uma frieza e gelo dentro de mim, como uma raiva
“fria” que não tinha nenhuma razão para sentir naquele momento.
Descobriu-se, durante a constelação, que a pessoa que eu representava, foi deixada em
confiança, pelos seus pais, com um tio que tentou abusar dela, até que ao completar quinze
anos, conseguiu falar com alguém sobre a situação. Logo após o relato, a justiça interveio e a
retirou dessa infame situação.

59
Essa raiva para com seus pais, que não haviam visto nada, é mais que legítima e a
ensinou a ser independente e forte. Mas também fria, dura, sem afeto, isso tudo para se
defender do sofrimento. Sentimentos que eu havia, de fato, experimentado no “seu lugar” ao
representá-la.
Quando essa mulher teve uma filha, educou-a duramente para transformá-la em uma
pessoa forte e independente, como ela teve que ser, sem talvez perceber que agindo assim com
a filha, a menina vivenciava tudo isso como recusa e falta de amor.
Essa menina virou adulta e fez sua constelação para entender e libertar-se do medo de
ser “abandonada” em uma relação amorosa.
No papel da mãe dessa pessoa, vivenciei um sentimento de cólera surda, olhando os
meus “pais”, e, provei um sentimento de frieza inacreditável. É difícil explicar os sentimentos
que me invadiram: o que é certo é que me senti realmente na “pele de outro”.
Para concluir, a minha constelação me ajudou muito a redefinir o meu papel no seio da
minha família, situação que havia sido fonte de conflito e sofrimento.
Na prática, isto significava que podia sentir-me, finalmente, livre para ter uma relação
equilibrada com minhas irmãs e, além disso, podia dar uma razão ao meu sentimento de culpa
sem tamanho, em seus confrontos. Certamente o trabalho com as constelações familiares, não
resolveu completamente o conflito sobre aquilo que eu pensava ser o meu dever (cuidar das
minhas irmãs) e as minhas necessidades pessoais, mas me ajudaram a redefinir a minha ideia
sobre responsabilidade familiar e a superar o desolador sofrimento que experimentei pelo
destino de minhas irmãs.
Se foi resultado da Constelação Familiar ou outras experiências em psicoterapia que fiz
naquele período é difícil dizer; o que é certo é que depois de ter feito a constelação, me senti
muito mais leve, como que libertada do grande peso que me esmagava. Ainda que o sofrimento,
em parte, permanecesse, eu estava mais lúcida em relação a isso.
O que se faz na prática das Constelações Familiares é trocar a imagem inconsciente da
família, graças a ações ou frases simbólicas. Por exemplo, ter colocado atrás de mim, o meu
“pesado” sistema familiar e diante de mim, o meu marido, permitiu que eu pudesse deixar
simbolicamente a minha família de origem.
Não é um trabalho que necessariamente passe pela parte do consciente do indivíduo,
mas que, ao contrário, trabalha sobre as ideias inconscientes que nós temos do nosso sistema
familiar, propondo novas possibilidades simbolizadas pelas frases ou pelas ações.
Para mim, essa experiência foi particularmente importante, porque pude viver e
experimentar durante a constelação, o funcionamento do inconsciente coletivo ou co-
inconsciente como o denominava Moreno. No mesmo período, de fato, havia começado a
estudar Jung e a sua teoria e vivi essa experiência como uma constatação da exatidão do
paradigma junguiano.
De que outra forma entender os fenômenos que havia vivido na transmissão de
sentimentos e de emoções entre desconhecidos, através de histórias familiares escondidas?
Como explicar a transmissão dessas histórias, não relatadas entre gerações sem a existência de
um inconsciente coletivo que nos liga a todos?

60
Em seguida, participei e também dirigi outras constelações, em sessões de grupos ou em
sessões individuais, mas, o assombro e admiração pela potência desses fenômenos nunca me
deixou.

Cada constelação acontece de modo particular: diversas histórias se desenvolvem,


partindo de situações colocadas em cena pelos representantes e daquilo que eles provam nas
posições em que são colocados. As frases propostas pelo constelador causam um impacto mais
ou menos forte, dependendo de sua relevância.
As frases que expressam respeito para com os pais encontram resistência, sobretudo
quando há algo contra os pais que fizeram os filhos sofrer, mas observando o rosto das pessoas
que as pronunciam, percebe-se que essas frases são as que proporcionam mais alívio.
As frases referentes às colocações impróprias (generalizações, criança substituída, etc.)
entregar “a mala” ou o travesseiro ou outra coisa que simboliza o destino difícil e injustamente
carregado do descendente, causam um imediato e visível sucesso.
As frases mais difíceis de serem pronunciadas são aquelas da “responsabilidade”. Por
exemplo, é importante assumir a própria responsabilidade em relação ao feto de um aborto
que deve estar presente na constelação. A frase, “eu choro por não ter podido acolhê-lo, era
muito jovem, muito doente, não podia, você veio e eu não pude lhe dizer sim, agora o acolho
como filho”, dita na presença do representante do filho, que responde: “sinto-me agora em
paz”, ajuda o inconsciente a superar os sentimentos de culpa.
Nem sempre as frases propostas são entendidas imediatamente e algumas são
totalmente recusadas. É necessário estar muito atento à linguagem não verbal: se a pessoa tem
alguma resistência, significa que não está ainda pronta para enfrentar certos argumentos.
É necessário ser flexível e pronto a trocar as hipóteses iniciais, caso se perceba que,
durante a constelação, as ações não se desbloqueiam. Trocar a posição de certos
representantes ou modificar os enunciados propostos, pode ser útil para a retomada da ação,
visto que algo havia bloqueado o processo.
As lágrimas e os sorrisos, a tensão ou o relaxamento, são todos sinais que confirmam ou
não a exatidão do procedimento proposto.
A pessoa que conduz a constelação, deve estar muito atenta à mínima reação, mas deve
também ser capaz de conduzir com segurança, uma vez que o processo faz surgir muitas
resistências, mas transponíveis. É necessário ter empatia para com as pessoas e entender onde
“não se deve andar, porque não é benéfico”, mas, ao mesmo tempo, guiar a constelação, sem se
deixar invadir pelas projeções e pelas emoções que são liberadas.
Bert Hellinger disse que é necessário experimentar do amor pelas pessoas que
constelam, aceitando-as pelo que são: aceitar os seus destinos, suas famílias e os problemas
que carregam com elas. Mas que é necessário, também, manter certa distância: “A intimidade
intensa, que surge dessa forma da percepção dos outros, não será útil, se não for observada à
certa distância. A dinâmica não se desenvolve quando se está muito próximo. É necessário rejeitar
cada intenção pessoal e situar-se num contexto, não naquilo que acontece.”69

________________________________________________________
69B. Hellinger, Costellations familiales, pag.39

61
CAPÍTULO 5

A Psicogenealogia
“O começo de todas as ciências é o assombro de as coisas serem o que são”

Aristóteles

Parece que ter sido Alessandro Jodorowski quem criou o termo “Psicogenealogia” em
um seu seminário. Sem entrar no mérito das semelhanças ou das diferenças, entre Anne
Ancelin Schützenberger e Jodorowski, que conheço muito pouco, a Psicogenealogia da qual me
ocuparei neste livro, é sob o ponto de vista familiar sistêmico, sobre mais gerações, que dá
importância aos fenômenos inconscientes, desenvolvidos nos anos 80, por Anne Ancelin
Schützenberger.
Ela mesma desenvolveu um método a partir de diversos estudos transgeracionais que já
nos anos 1950, nos Estados Unidos, havia começado a serem aprofundados.
Como falei nos capítulos precedentes, a questão da transmissão psíquica-inconsciente
entre gerações foi identificada por: Jung, Freud, Dolto, Abraham, Moreno, etc. Mas foi Anne
Ancelin que, a partir dos estudos estatísticos de Josephine Higard sobre repetições familiares,
juntando com a teoria sistêmica da escola de Palo Alto e as analises de Boszormenyi-Nagy
sobre lealdade invisível que foi capaz de sintetizar e propor uma abordagem tanto teórica
como prática.
Anne Ancelin propõe o genossociograma de Henry Colomb como instrumento
terapêutico que, como veremos a seguir, é a conjunção do genograma e da sociometria de
Moreno e é a representação gráfica da constelação familiar, com os seus distúrbios e os seus
problemas. Chama de Psicogenealogia o trabalho com o genossociograma ou árvore
psicogenealógica e escolheu o termo Psicogenealogia por ser menos técnico que o termo
genossociograma.
Segundo esse método, os traumas, os segredos, os conflitos vividos de modo dramático,
podem condicionar por transmissão transgeracional os descendentes que tornam portadores
tanto de distúrbios e doenças como de comportamento estranho e inexplicável. A tomada de
consciência dessa transmissão ajuda a tornar esses distúrbios “visíveis” e a liberá-los. “Ver”
ajuda a criar uma distância entre si e o objeto de sofrimento, ajudando externar aquilo que
estava interno.
Os objetivos da Psicogenealogia são: “Falar da própria vida e mostrar claramente a
história da família atual e da família de origem, evidenciando as relações entre as diversas
pessoas que a compõem. (...); situar-se em uma perspectiva transgeracional e colocar-se à
procura das próprias raízes e da própria identidade; colocar em evidência os processos de
transmissão transgeracionais e os fenômenos de repetição (...). Entender os efeitos de um luto não
resolvido, dos não-ditos, entender uma situação como a da criança de substituição (...). Evidenciar
também os diversos papéis e regras a que pertencem, para entender a modalidade transacional
em jogo na família. ”70
________________________________________________________
70 A. A. Schützenberger, Aïe, mes Aïeux, pag.89

62
5.1 - Anne Ancelin Schützenberger

“Aquilo que não se expressa, se imprime.”

A.A. Schützenberger

Anne Ancelin Schützenberger, nasceu na França em 1919: teve uma vida muito ativa e
atravessou o século XX com suas catástrofes e suas conquistas.
Cresceu em Paris, onde estudou Direito, Psicologia e Letras. Durante a Segunda Guerra
Mundial, participou da Resistência e a sua casa, em uma região do centro da França, foi
queimada por retaliações pelos nazistas. No final da guerra, foi secretária regional do M.L.N
(Movimento da Liberação Francesa) de 1944 a 1946.
Em 1948, casou-se em Londres com Marcel-Paul Schützenberger e, em 1950, partiu
para os Estados Unidos, onde se especializou por três anos em Psicologia Social e Dinâmica de
Grupo com Moreno.
Em seu retorno a França, assumiu a Psicanálise, antes com o Antropólogo e Psicanalista
Robert Gessain (diretor do Museu do Homem de Paris) e depois com Françoise Dolto. É graças
a esta grande Psicanalista que, Anne Ancelin toma consciência das transmissões
transgeracionais inconscientes e da importância dos antepassados na história pessoal de cada
um.
Durante os anos 1950/1960, trabalhou com Carl Rogers, Margaret Meal e Gregory
Bateson, o grupo de Palo Alto e Paul Watzlawick, enfim com os maiores psicoterapeutas
americanos. Mas a sua maior experiência aconteceria no encontro com Moreno: “Foi Moreno
que me transmitiu e me permitiu desenvolver certa imaginação criadora, o desejo de ir até o
outro e a obstinação em ajudar aqueles que sofriam.”71
Em 1967 dirige algumas pesquisas no laboratório de Psicologia Social e Psicologia
Clínica, na Universidade de Nice, onde se torna Professora Emérita.
Foi também durante esse período que se interessou por terapias complementares, de
ajuda psicológica aos portadores de câncer e às suas famílias. Em 1985, começou a trabalhar
com os doentes de câncer em fase terminal, no Hospital Saint Roch di Nizza.
Já em 1979, após a morte de seu segundo filho e graças a uma reflexão dolorosa de sua
filha primogênita, começou a fazer pesquisas genealógicas e a descobrir surpreendentes
coincidências.
Porém foi, sobretudo trabalhando com os doentes de câncer, que ela pôde constatar a
existência de uma transmissão transgeracional (síndrome de aniversário), de acidentes e
doenças e desenvolveu assim a Psicogenealogia como método.
Psicóloga Humanista, Psicanalista, Grupo-analista, instrutora em Psicodrama,
desenvolveu uma nova abordagem terapêutica, a partir da utilização do instrumento do
genossociograma, dos estudos de Boszormenyi-Nagy sobre lealdade invisível e pelas pesquisas
de Josephine Hildegar, sobre síndrome do aniversário e a chamou Psicogenealogia
Transgeracional Contextual.

________________________________________________________
71 A. A. Schützenberger, op. cit. pag. 77

63
A abordagem de Anne Ancelin é, ao mesmo tempo contextual, psicanalítica,
transgeracional e etológica (estudo das características dos costumes de um povo).
Utiliza contemporaneamente mais modelos em modo integrativo: ela acredita que as
relações intrapsíquicas, isto é, o Ego, o Superego e o ID (pulsões hereditárias e inatas ou
adquiridas e reprimidas), da teoria freudiana, são fundamentais para compreender os
mecanismos de funcionamento da psique, propondo não esquecer os mecanismos
transgeracionais e o contexto sócioeconômico.
A abordagem Psicogenealógica-contextual trabalha sobre vários planos ao mesmo
tempo:
 O conceito de lealdade familiar de Boszormenyi-Nagy sobre justiça, injustiça, os débitos
e os méritos no interno da família e, consequentemente, sobre o livro de contas
familiares que veremos mais extensivamente no próximo capitulo.
 As noções de cripta e fantasma de Nicolas Abraham e Maria Torök sobre as quais já
descrevi no capítulo dedicado à teoria deles sobre mortes vergonhosas e os segredos.
 A criança de substituição: um membro da família que substitui fantasmagoricamente
outra pessoa e que carrega os lutos não elaborados da família.
 A síndrome de aniversário: repetição, nas mesmas datas, de eventos (nascimentos,
mortes, doenças, acidentes, etc.), importantes para a família, descoberta de Josephine
Hilgar.
 Neurose de classe, Vincent de Gauléjac explica certos fenômenos de autossabotagem
econômica e social, especialmente em pessoas que superaram os próprios pais e
passaram para uma classe social mais alta.
 As alianças familiares com a exclusão ou a inclusão de certos membros e não de outros.

Além disso, faz a diferença entre:


 Transmissão intergeracional (consciente) que refere-se aos romances familiares, às
transmissões verbais das atitudes, dos mitos, das histórias das famílias.
 Transmissão transgeracional (inconsciente) que não está no registro do falado; são os
segredos, os não-ditos, as coisas escondidas por vergonha, às vezes proibidas, que
atravessam as gerações sem nunca serem pensadas ou metabolizadas.
São essas últimas transmissões portadoras, segundo Anne Ancelin, dos traumas
inexplicáveis, das doenças mais ou menos psicossomáticas, dos pesadelos, mal-estar durante
certos períodos, etc...

“Tudo acontece como se alguma coisa que não possa ser esquecida, seja transmitida no
decorrer das gerações. Como se não se pudesse esquecer algum fato da vida, como se não se
pudesse nem esquecer e nem falar a respeito, mas transmiti-lo sem dizê-lo.”72

A prática clínica
A Psicogenealogia proposta por ela é um trabalho de observação e de síntese em
colaboração com o cliente, no sentido Rogeriano: não existe uma doença, portanto não existe
um paciente, mas uma pessoa do mesmo nível do terapeuta que, juntos, buscam soluções.
________________________________________________________
72 A. A. Schützenberger, op. cit. pag. 77

64
A abordagem deve ser centrada sobre o outro: sobre a comunicação verbal e não verbal,
a expressão indireta dos sentimentos e das sensações através da linguagem do corpo, a
postura, o gestual, o ritmo respiratório, a ocupação do espaço, as micro tensões musculares,
etc. O terapeuta deve ser capaz de perceber todos esses sinais significativos que permitem
emitir hipóteses e de fazer perguntas pertinentes que possam ajudar a pessoa no trabalho de
memória.
O trabalho de Psicogenealogia começa com uma sessão em que a pessoa fala de si
mesma desenhando sua árvore genealógica com os acontecimentos importantes dos
membros da família (matrimônios, nascimentos, partidas, transferências, divórcios,
separações, mortes, etc.).
Anne Ancelin, através de sua prática demonstrou que pôr em evidência um trauma
familiar passado e falar, permite fazê-lo sair da sua cripta e, embora frequentemente não seja o
suficiente para uma transformação radical de vida ou de saúde, ajuda a dar um primeiro passo
para a melhora.
Anne Ancelin se dedicou, como vimos, durante uns vinte anos, em acompanhar doentes
de câncer em fase terminal: havia já coletado em 1993, antes da publicação de “Meus
antepassados”, um arquivo com cerca de quatrocentos genossociogramas.
“No decorrer da minha vida de terapeuta, vi famílias que reproduziam doenças, acidentes
ou mortes acidentais, sobre uma, duas ou até mesmo mais gerações, sem que se pudesse entender
o porquê; porém constatados clinicamente, como uma marca sobre o corpo e uma incisão sobre o
tempo”73

5.2 – Lealdades invisíveis de Boszormenyi-Nagy

Ivan Boszormenyi-Nagy, psiquiatra e psicoterapeuta húngaro, emigrou no final dos anos


1940 para os Estados Unidos, é o estudioso que elaborou o conceito de lealdade familiar
invisível que, como vimos no caso de Paule e de Mariolina, determinam os comportamentos
das pessoas sobre mais gerações.
Boszormenyi-Nagy nasceu em Budapeste em 1920, vindo de uma família de
magistrados mas decide tornar-se psiquiatra, porque quando pequeno, por várias vezes, foi
testemunha da crueldade, dos moradores de sua região, em relação a um doente mental.
Naquela época, a psiquiatria oficial europeia, acreditava que fossem incuráveis os doentes
mentais e as terapias prescritas eram os sedativos para os mais agitados.
Em 1948, teve que deixar a Hungria devido à sua negativa de se inscrever junto ao
partido comunista e também pela sua frequente incursão dentro da biblioteca da Embaixada
Americana, rica em testes sobre a psiquiatria moderna.
Deixar a Hungria, para ele significou abandonar o pai muito doente e a sua família de
origem, sem perspectivas de manter contato, devido à “cortina de ferro” que impedia qualquer
comunicação entre o Ocidente e os países do bloco soviético.

________________________________________________________
73A. A. Schützenberger, op. cit. pag. 153

65
Essa dolorosa experiência, provocou-lhe um conflito de lealdade entre o seu dever de
filho e a necessidade de se salvar da gulag*. Esse foi, portanto, o ponto de partida para a sua
sucessiva elaboração referente à ética relacional.

“O autor (...) deve ter encontrado um novo equilíbrio de lealdade, após a sua radical
separação de todo o seu universo existencial, vinte e cinco anos atrás, quando se transferiu de sua
Hungria para os Estados Unidos.” 74

Nos Estados Unidos, trabalhou em um hospital psiquiátrico, com pacientes


principalmente psicóticos, podendo observar que essas pessoas, apesar do frequente
agravamento de suas funções cognitivas, conseguiam manter uma considerável lucidez em
relação às noções de confiança, justiça e credibilidade dentro da família.
Graças à sua prática e à sua análise de milhares de horas de filmagens das sessões de
terapia familiar, pôde elaborar o conceito de ética relacional (ou ética das relações), o código
moral que guia as relações no interno da família.

“Um roteiro familiar ou código não-dito, guia as várias contribuições individuais. Esse
código determina a escala de equivalência dos méritos, vantagens, obrigações e
responsabilidades. (...) O compromisso, a devoção e a lealdade são os determinantes mais
importantes das relações familiares. Estes derivam da estrutura multigeracional da justiça dos
mundos humanos que se vêm constituindo a partir do desenvolvimento histórico das ações e das
atitudes entre os vários membros.”75

Boszormenyi-Nagy estuda também os processos de transmissão das relações


patológicas entre gerações, colocando em evidência as lealdades familiares inconscientes, os
débitos e os créditos e o conceito de generalização. Considera que cada um de nós tenha um
tipo de registro que contenha as obrigações, os méritos, as faltas e os débitos de cada membro
do sistema familiar.

“(...)cconsideramos que a subestrutura mais profunda das relações humanas, consista em


uma rede (hierarquia) de obrigações. (...) entre cada pessoa e o sistema ao qual pertence, exista
uma constante de dar-e-ter expectativas. Nós oscilamos constantemente entre acolher e fugir de
nossas obrigações. Um sistema relacional, pode ser considerado como que apoiado por um
giroscópio que mantém atualizado o saldo do equilíbrio total, das obrigações entre os seus
componentes.”76

Existiria uma contabilidade familiar implícita, daquilo que cada um tenha feito aos
outros e daquilo que os outros tenham feito com ele, do que se deve dar ou receber. As contas
devem ser pagas, para que se tenha justiça. Um grupo, uma unidade social, depende da
lealdade dos seus membros; se há justiça, as pessoas podem contar com a lealdade do grupo, se

________________________________________________________
*Nota do tradutor: sistema de campos de trabalhos forçados, para quem se opusesse ao regime soviético.
74 I.Boszormenyi-Nagy G. M. Spark, Lealtà invisibili, pag. 10
75 I.Borszormenyi-Nagy G. M. Spark, Lealtà invisibili, pag. 22/24

76 I.Borszormenyi-Nagy G. M. Spark, op. Cit., pag. 124

66
a lealdade vem a faltar, ocorre a exploração, injustiça, retaliação, vingança, além da depressão,
angústia, repetição de doenças e acidentes.
Segundo Boszormenyi-Nagy pode-se falar de relação satisfatória, se existe equilíbrio
entre o que se é dado e o que se é recebido, entre crédito e débito. Em seguida, aplica-se a
reciprocidade. Nesse caso se fala de legitimidade construtiva. Pelo contrário quando a relação
é caracterizada pela injustiça e pela exploração do outro fala-se de legitimidade destrutiva.

“Lealdade remete etimologicamente à raiz LOI (lei) e implica atitudes relativas à lei. As
famílias possuem suas leis, sob uma forma de expectativas compartilhadas não escritas. Cada
membro da família está constantemente sujeito a modelos variáveis de expectativas. (...). A
concordância das crianças menores é obtida conforme medidas disciplinares externas. As
crianças maiores e os adultos podem adaptar-se a essas regras por via de um empenho de
lealdade interiorizado.”77

A justiça está em relação com as leis internas da família que, embora seja um sistema
inserido naquele mais amplo da sociedade em que se formou, possui suas leis particulares
dependentes do seu fundador.
Por exemplo, no caso de Paule, o mito familiar veiculado da história do bisavô herói de
guerra, era aquele da generosidade e da abnegação: de fato, ele sacrificou sua vida pela sua
pátria e seu filho (bisavô de P) ficou órfão aos 17 anos, se ocupando por toda a sua vida, da mãe
viúva e de suas irmãs menores. O pai de Paule (terceira geração) não cumpriu essa lei familiar,
criando assim uma dívida que os seus descendentes, tiveram que pagar. De fato os
descendentes masculinos tiveram, todos eles, dificuldades mais ou menos graves, tais como,
alcoolismo, neuroses obsessivas, comportamentos de riscos.

Genossociogramma simplificado de Paule - mito familiar

(Veja o genossociograma no apêndice gráfico na página 124)

Segundo Boszormenyi-Nagy, cada membro da família está obrigado, por lealdade


familiar, a participar do equilíbrio das contas, e esse processo é transmitido de geração em
geração.

“A fidelidade aos antepassados, tornada inconsciente (invisível), nos governa; é importante


torná-la visível, tomar consciência, entender aquilo que nos obriga, nos administra e,
eventualmente, não enquadrar-se nessa fidelidade, para tornar a viver a nossa vida.”78

Catherine Ducommun-Nagy explica que não é verdadeiramente possível liberar-se da


lealdade familiar, mas que se pode ser leal sem renunciar a si próprio.
Relata a história de Marianna, uma mulher que estava fazendo terapia individual por
causa das suas dificuldades no trabalho. Em particular, adoecia cada vez que devia fazer uma
viagem de trabalho.
________________________________________________________
77 I.Borszormenyi-Nagy G. M. Spark, op. Cit., pag. 65

78 A.A.Shützenberger, Aïe, mes Aïeux, pag.29.

67
Em se tratando de um trabalho, cujo deslocamento era necessário para sua carreira, ela
estava sempre dentro de um impasse profissional.
Na terapia individual, depois de um longo período, foi abordada a sua relação com os
pais. Revelou que havia sumariamente mudado de região, para não ser obrigada a vê-los
frequentemente, ia visitá-los somente quando necessário.
As doenças, antes das viagens de trabalho, pareciam uma punição inconsciente
(lealdade familiar), devido ao fato de não viajar para ir ver seus pais.
A terapia lhe permitiu praticar ações simbólicas de lealdade filial: por exemplo, quando
o pai se adoentou, fez um curso de socorro para eventualmente ajudá-lo se, durante sua
estadia, ele pudesse ter uma crise. Depois que ele faleceu, Marianna ensinou à mãe como usar o
computador, para voltar ao mercado de trabalho.
Essas ações, sem modificar o juízo negativo que ela dava a seus pais que, não tinham
sabido ou podido serem verdadeiros pais, ajudaram a superar o sentimento de culpa
inconsciente que, impedia de viver a sua própria vida.
A mãe de Marianna, desde pequena, não havia tido nenhuma experiência de vida
familiar e quando a teve esperava que ela fizesse o papel de mãe.
Esse caso nos introduz outro importante conceito, proposto por Ivan Boszormenyi-
Nagy, a parentificação: quando a uma criança é dado o papel de pai do próprio pai.
Se, por uma razão ou outra, os pais não puderam estar disponíveis para com o filho, é
como se essa pessoa não tivesse recebido aquilo que tinha direito. A coisa mais comum é que
quando tiver seus filhos, recaia sobre estes, doar ao seu genitor, aquilo que não foi capaz de
dar.

“As pessoas que pensam que foram exploradas pelos pais, sentem-se por outro lado, gratos
em relação a eles. Os pais inadimplentes aparecem sempre como mártires, pessoas sofridas e
infelizes. A maneira ambígua como os filhos vêm os pais, leva-os a não reclamar nada(...). Serão
então, o cônjuge ou os filhos, que essas pessoas se dirigirão para reivindicar o que lhes é devido.”79

As pessoas que, não tendo recebido dos pais, aquilo de que necessitavam, se dirigem aos
próprios filhos, pedindo-lhes que se comportem, desde tenra idade, como adultos, tirando
desses filhos o direito de serem crianças.
A parentificação é transgeracional porque envolve três gerações: o pai incapaz pede ao
filho para tomar o papel de seu pai incapaz (o avô). Essas crianças ao crescerem, serão, por
sua vez, adultos frágeis que terão necessidade de “parentificar” os próprios filhos, exigindo
muito deles. A exploração das crianças, por parte dos pais, pode se repetir, de geração em
geração, até que alguém amplie a consciência e pare a repetição.

________________________________________________________
79 I.Borszormenyi-Nagy G. M. Spark, op. cit. pag.205

68
“Naturalmente é inevitável que, às vezes, um genitor sinta ter dado mais que ele próprio
seja capaz de dar (...) de estar vazio, exausto, explorado. Em tais momentos, pode acontecer que o
genitor peça ao filho confiança, apoio e recompensa. Frequentemente o filho está a altura e feliz
por retribuir ao pai o interesse e apoio recebido. (...) A parentificação momentânea de um filho,
faz parte da rotina familiar e é um veículo pelo qual o filho aprende a ser responsável. Nas
famílias, porém, em que essa prática acontece no sentido patogênico, essa inversão de posição se
torna regra, ao invés de exceção. Nos casos extremos, o filho é sobrecarregado pelo excesso de
responsabilidades já que nunca lhe é dada a oportunidade de ser filho. As crianças desse tipo (...)
do ponto de vista do desenvolvimento, perdem o papel legítimo de filho. 80

GENOSSOCIOGRAMA DA PARENTIFICAÇÃO

Nesse sentido é emblemático o caso de Mariolina que relatarei a seguir.

________________________________________________________
80 I.Borszormenyi-Nagy G. M. Spark, op. cit. pag.40

69
5.3 – Sessões de Psicogenealogia com Mariolina (1)

Mariolina é o nome fantasia usado para resguardar a privacidade, mesmo que tenha
tido o seu consentimento para relatar o fato, uma bela jovem, de uns vinte anos, inteligente,
cordial e também um pouco tímida.
Ela veio até mim, porque estava curiosa com o que sentia presente em sua família e
pensava que a abordagem psicogenealógica a ajudaria a entender melhor a razão de suas
sensações. Como diria Jung, trabalhar o consciente para trazer à luz o inconsciente familiar.
Além disso, sofria do que ela definiu “confusões” em suas escolhas amorosas: tinha
apenas terminado um relacionamento com um jovem e imediatamente se sentiu atraída por
uma jovem de sua idade.
Trabalhamos durante quatro sessões de três horas e meia, desenhando a árvore
genealógica de sua família (genossociograma) com os fatos mais marcantes de sua história
familiar.
De imediato, desenhou a si própria filha única, representada por um círculo (os homens
foram representados por quadrados) e depois desenhou seu pai e sua mãe.
Relata que foi muito desejada por seus pais, ao que parece, para seus pais, ter um filho
era uma verdadeira obsessão e se empenharam muito para tê-la. Após seu nascimento, sua
mãe parou de trabalhar por oito anos, ato que na França, lugar onde se passa a história, não era
comum; as mulheres francesas, em relação ao trabalho, têm a mesma atitude que os homens e
se sentem desconfortáveis sem sua autonomia econômica.
Mariolina desenhou os seus pais muito próximos a ela, o que me levou a pensar, de
imediato, que a relação entre eles era muito estreita. Ela mesma confirmou minha dedução,
dizendo-me que tinha enorme dificuldade em criar uma união de casal estável e viver a sua
vida.
Além disso, o quadrado que representava seu pai era muito maior que os outros
símbolos.
Mariolina é uma garota que foi “parentificada” segundo a expressão de Boszormenyi-
Nagy: os pais esperavam que ela completasse as lacunas deixadas pelos próprios pais.
Como veremos a seguir, todos dois genitores, haviam tido muita dificuldade afetiva com
os seus respectivos pais: o pai porque teve uma mãe que desprezava o marido e se mantinha
longe dos filhos. A mãe, por sua vez, foi uma filha indesejada pela mãe que preferia as outras
filhas maiores, suas irmãs.
O desejo deles de terem um filho pode ser entendido como uma necessidade de
reparação pela falta que sentiam dos pais, e que é confirmado até mesmo pela escolha do
nome Mariolina (Mario + Lina) que contém um nome masculino (o desejo do pai de ter um pai
“digno”) e também um feminino (o desejo da mãe de ter sido amada por sua genitora).
O pai de Mariolina morreu quando ela tinha apenas 13 anos, após uma longa e dolorosa
doença que foi diagnosticada quando, ela tinha apenas dois anos. Somente recentemente ela
havia ficado sabendo que a doença era AIDS.
Relata, ainda, que sempre via o pai em péssimas condições de saúde, doente e que
frequentemente era internado em hospitais.

70
Quando M me contou isso, percebi que carregava um forte sentimento de culpa: sabe-se
que as crianças se sentem frequentemente culpadas pelos problemas que seus pais vivem, mas
tinha a nítida impressão de que neste caso, não dependia somente de sua história pessoal.
Além disso, alguns meses após a morte do pai, durante um retiro organizado por sua
paróquia preparando os jovens para a primeira comunhão, ela teve um forte desejo de tornar-
se psicoterapeuta, ainda que essa profissão não estivesse presente em sua família.
Mariolina relata que ser psicoterapeuta, para ela, significava ter a possibilidade de
cuidar dos outros e também entender as razões para tanto sofrimento.
Aliás, na família de Mariolina, tanto seu pai quanto sua mãe, escolheu trabalhos de
“reparação”, nos quais o tratamento dos outros estava sempre presente. Isso aconteceu
também nas gerações precedentes, como veremos a seguir.
Mariolina afirma ter sentido a presença de mistérios, segredos, não-ditos, ligados a sua
história familiar e que, quando pôde, foi a todos os lugares, a procura de respostas para as suas
dúvidas inexplicáveis.
Dentre suas buscas, descobriu cartas de seu pai, nas quais ele falava abertamente de sua
homossexualidade e relatava que também sua esposa (mãe de M), era atraída por pessoas do
mesmo sexo.
Vindo daí a explicação do nome Mariolina que é composto por dois nomes (Mario e
Lina) de dois gêneros diversos, masculino e feminino. Desde já, emblemática a complexidade e
a confusão de identidade sexual na família.

Genossociograma simplificado de Mariolina – família paterna

(Veja o genossociograma no apêndice gráfico da página 125)

Retrocedendo na história familiar do pai, notamos que seu pai (avô de M) era filho
ilegítimo e não reconhecido por seu pai, cuja mãe (bisavó de M), para evitar um escândalo, o
fez acreditar que ele era filho de sua mãe, fingindo assim ser sua irmã (confusão de papéis).
Além disso, todas as irmãs de sua bisavó tiveram filhos fora do casamento, fato mal visto na
época, tido como vergonhoso e, consequentemente, escondido (secreto).
O avô paterno de M (o filho ilegítimo) casou-se com uma mulher “manipuladora e
gananciosa” (a avó paterna de M), que instigava os seus filhos homens (sendo o pai de M, um
deles) contra o pai deles. Aparentemente, foi a única entre os seus irmãos e irmãs, a não ter
uma vida difícil ou trágica: as suas irmãs sofreram de patologias mentais graves (esquizofrenia
e neurose obsessiva), seu irmão morreu de um câncer na próstata, enquanto o último filho,
temporão do bisavô paterno de M, nasceu seis meses antes do pai de M, que na verdade seria
seu sobrinho (confusão de parentela) e morreu muito jovem.
O pai da avó de M. (bisavô de M) ficou órfão de mãe, assim que nasceu. Esse bisavô foi
um militar de carreira e era descrito por todos como uma pessoa autoritária e “impossível”.
Casou-se com uma mulher suave que carregava consigo o mesmo nome de uma irmã, morta
um pouco antes de ela nascer (de novo a confusão de papeis). Geraram cinco filhos com
destinos particularmente difíceis, com doenças, exceto a única salva, a avó “manipuladora e
gananciosa” de M.

71
Tanto sofrimento faz pensar que exista um débito familiar inconsciente, de um fantasma
psíquico transgeracional, de uma injustiça pela qual as pessoas da família se sintam
condenadas a expiar.
Boszormenyi-Nagy fala da transmissão intergerações, de culpa e do sentimento de culpa
que desencadeia, além da obrigação do sistema familiar de pagar a “dívida” contraída por um
ascendente sobre um ou mais descendentes.
Aparentemente, somente a avó de M, não pagou esse “débito”. Se de débito se trata,
pelas múltiplas repetições de patologias na família, o seu filho preferido, o pai de M., parece
que, inconscientemente, se encarregou de pagar ele mesmo, essa dívida, escolhendo, ainda,
uma profissão reparadora.
Podemos supor que o pai de M. tomou o lugar de sua mãe para o pagamento da dívida
familiar. Sabemos, ainda, que frequentemente a homossexualidade tem suas raízes
identificadas precocemente, ao genitor do sexo oposto.
Ao contrário, a escolha da profissão de “reparador”, pode ter vindo do pai, avô de M,
que havia escolhido também uma profissão de reparo, ainda que modesta como a de pedreiro
(que além de consertar, constrói). Mesmo que as relações entre pai e filho fossem péssimas por
causa da mãe (avó de M) que tentava sempre fazer crer que seu marido fosse uma pessoa
ruim, a mensagem inconsciente, pela escolha de reparador, pode ter sido passada.
Além disso, o pai de M. que nasceu, como já vimos, após seis meses do seu tio, filho
temporão do casal dos avós paternos, morto muito jovem, pode ser visto como uma “criança de
“substituição”, outro exemplo de transmissão inconsciente de um destino trágico.
Anne Ancelin fala de atos inexplicáveis: “quando se refere àquilo que se chama de criança
de substituição... uma criança que substitui uma criança pequena ou um pai morto... sem que se
tenha feito o luto. Quando o luto não foi feito, o percurso da vida da criança de substituição não
será dos mais felizes”.81
Ela dá o exemplo de Vincent Van Gogh, nascido um ano depois da morte de seu irmão
mais novo Vincent Wilhelm, do qual recebeu o primeiro nome: Vincent Van Gogh se chamava,
de fato, Vincent-Wilhelm Van Gogh.
Seu irmão Theo, dá o mesmo nome a seu filho e escreve ao seu irmão Vincent uma carta
na qual dizia, a propósito desse filho: “Espero que este Vincent viva e possa realizar-se”.
Quem sabe se Vincent Van Gogh se suicidou após ter recebido tal carta, “como se, de
alguma maneira, lhe fosse impedido existir... como se para ele, não pudessem existir dois Vincent-
Wilhelm Van Gogh, viventes ao mesmo tempo”?
Podemos pensar que, também o pai de M, criança de substituição, recebeu o lugar de
uma criança morta para a qual não houve o luto necessário. Sua mãe (avó de seu pai e bisavó
de M) nunca mais foi a mesma e, como diziam em família: “perdeu a razão”. O destino do pai de
M. estaria ligado para sempre a essa perda.
“É uma criança de substituição... que se sentia de certo modo um usurpador, porque
tomara o lugar e um nome que não lhe pertenciam.”82

________________________________________________________
81 A.A. Schützenberger, op. cit. pag. 153

82 A.A. Schützenberger, op.cit. pag 154

72
Mariolina, com efeito, diz ter tomado consciência, fazendo o genograma, que seu pai se
adoentou pouco depois de seu nascimento, como uma forma de repetição de cenário: pouco
depois do nascimento de seu pai, morre o filho da avó quase gêmeo do pai e, pouco depois do
nascimento de M., começa a doença de seu pai. Como se o pai, tivesse adoecido depois de seu
nascimento porque, naquela família, como diz Anne Ancelin, um nascimento deve implicar em
morte.
Tudo isso, entre outras coisas, prova a exatidão da minha primeira intuição a respeito
do sentimento de culpa que eu senti quando ouvi M., falar da morte do pai, como se ela fosse de
alguma, forma responsável pelo o que aconteceu. No entanto, nunca havia refletido antes
sobre essas repetições de cenário, como também não conhecia a figura da criança de
substituição.
Não a conhecia conscientemente, mas, podemos hipoteticamente supor, que o
inconsciente familiar se expressava através dela, por meio de um sentimento de culpa.
O trabalho com o genossociograma fez M. entender que os mecanismos de repetição são
alheios à vontade da pessoa. Ajudou-a, também, a superar o fato de sentir-se responsável pela
morte do pai.
Veremos a continuação da história de Mariolina após ter aprofundado os conceitos da
síndrome do aniversario, da criança de substituição e das neuroses de classe.

5.4 – A síndrome de aniversário

Josephine Hilgard, médica e psicóloga em São Francisco na Califórnia, descreveu já em


1953, em um artigo de casos clínicos, que era possível se deparar com uma “reação de
aniversário”: o aparecimento de uma psicose no momento em que um filho atingisse a idade
que o paciente tinha quando um dos pais houvesse morrido ou sido internado em hospital
psiquiátrico.
O artigo fala, em específico, de dois casos de esquizofrenia ligados a uma repetição
familiar que foram resolvidos, graças à compreensão da ligação com a história parental: “Antes
que o tema central (a reação de aniversário) tivesse sido descoberto, esses dois casos pareciam
inexplicáveis (e rotulados como esquizofrenia). Os sintomas, aparentemente, surgiam sem uma
causa. Depois que os temas centrais foram incluídos, o resto do material clínico ocupou o seu
devido lugar.”83
J. Hilgard realizou, em seguida, um estudo sistemático sobre internações em dois
hospitais psiquiátricos californianos, entre 1954 e 1957 e encontrou coincidências
“estatisticamente significativas” entre a idade do paciente quando perdeu um dos pais (morte,
internação psiquiátrica) e a idade do próprio filho, no momento de uma crise psicótica.
Considerações semelhantes foram feitas por Monique Bydlowski, psiquiatra,
psicanalista e pesquisadora do ISERM, Instituto Nacional das Estatísticas Francesas, que
percebeu como frequentemente os nascimentos estão ligados às datas significativas da história
familiar. Anne Ancelin descobriu a síndrome de aniversário porque sua filha lhe fez notar, em
seguida à morte de seu irmão mais novo, uma coincidência familiar surpreendente: os
segundos filhos da família, haviam tido, todos, final trágico.
________________________________________________________
81 A.A. Schützenberger, op. cit. pag. 45

73
De fato, Anne Ancelin era a filha mais velha de uma família, na qual o segundo filho
havia morrido. Seu marido (pai de sua filha) também perdeu o segundo irmão e tornou-se filho
único. E assim, também a sua filha se torna filha única, em uma família que o segundo filho
morre.

Genossociograma simplificado deAnne Ancelin Schützenberger

(Veja o genossociograma no apêndice gráfico na página 126)

“Repetir os mesmos fatos, as mesmas datas ou as mesmas idades que constituíram o


romance familiar é uma maneira de sermos fiéis aos nossos antepassados (...) uma maneira de
continuar a tradição familiar e de viver em conformidade com esta.” 84

Anne Ancelin observou a síndrome de aniversário em um banco de dados, com mais de


trezentas árvores genealógicas, coletadas durante quinze anos, durante o tempo que trabalhou
no hospital com doentes de câncer em fase terminal. Os genossociogramas revelaram as
repetições de doenças ou acidentes que se reproduzem de geração em geração, no mesmo
período.
Alguém85 propôs como explicação o acaso ou a transmissão genética, porém não se pode
falar de acaso quando esses acontecimentos se manifestam, de modo estatisticamente
significativo (ou seja, não casual), na prática clínica de numerosos terapeutas (dentre eles,
lembramos, o mesmo Jung que fez da sincronicidade um conceito psicológico importante em
sua teoria).
Quanto à transmissão genética, ela não é capaz de explicar, nem as coincidências de
datas, nem os acidentes de carro, as mortes por afogamentos, etc.
Anne Ancelin fala de um período de fragilidade, ligado ao “estresse de aniversário”: as
pessoas que tiveram uma perda importante e não elaborada sofrem, durante os períodos em
que essa perda é lembrada, com tensão nervosa ou fadiga psicofísica que podem produzir
acidentes ou doenças de várias espécies.

“A síndrome de aniversário é a repetição de um evento familiar passado, geralmente


traumático, conhecido e, algumas vezes, esquecido ou desconhecido (inconsciente) que
enfraquecem os descendentes em certos períodos ou certa idade específica. Essa repetição ou
fragilidade podem expressar-se também como um sentimento de mal-estar ou angústia, com
pesadelos, de diversos males ou uma doença, um acidente, uma morte imprevista, mas também
como um fato feliz (nascimentos ou matrimônios na mesma data, por exemplo)”.86

No caso de Paule, vimos que nasceu um ano, uma semana e um dia antes do
quinquagésimo aniversário da morte do bisavô, herói de guerra, que morreu, um ano, uma
semana e um dia antes do armistício assinalando o final da guerra.

________________________________________________________
84 A.A. Schützenberger, Conferenza alla facoltà di Psicologia, Nizza 16/02/1987

85 Dossier psychogénéalogie, osservatorio Zetetique: www.observatoire-zetetique.org

86 A.A. Schützenberger, I segreti di famiglia, i non detti e la sindrome di anniversario, in Trasmissions, érès, 2003 pag. 175

74
Talvez o inconsciente familiar tenha querido recordar, dessa maneira, esse sacrifício
dramático de um seus membros? Ou, também, Paule devia encarnar o valor da lealdade à
história familiar que seu pai, de algum modo, havia rompido?
Somente Paule tinha uma resposta para tal pergunta; obviamente o trabalho de
Psicogenealogia a fez descobrir, dentre outras coisas, esse antepassado e o orgulho de
pertencer a esse braço familiar.
Geralmente, as pessoas não entendem porque numa determinada data lhes acontecem
algumas coisas específicas. O que se pode perceber é que desenvolvendo um trabalho de
Psicogenealogia, encontrando um sentido a esses eventos, sentem-se melhores.
A.A. Schützenberger explica o fenômeno da transmissão transgeracional como o efeito
Zeigarnik, isto é, a tendência para melhor memorização de um compromisso e os seus aspectos
quando este não foi ainda terminado.
Esse fenômeno de memória descriminante foi experimentado pela psicóloga russa
Bluma Zeigarnik, em 1927, pedindo a um grupo de crianças para fazerem 20 exercícios
diferentes (modelar animais, fazer colares, completar puzzle, etc.).
Por certo período de tempo, foi possível completar a metade dos exercícios, a outra
ficou inacabada. Algum tempo depois, as crianças relatando sobre tais os exercícios,
evidenciou-se que os exercícios que não concluídos, foram os mais lembrados – duas vezes
mais até.
O fato de realizar um exercício ou uma missão, cria uma motivação para se finalizar um
pedido e quando o objetivo não é alcançado, o indivíduo fica insatisfeito com a interrupção do
proposto.
A psicóloga russa também observou que a espera da finalização cria um estado interno
de tensão, dificuldade, mal-estar que desaparece, quando a tarefa é realizada, ou seja, a
necessidade de finalizar o que é proposto gera frustração, insatisfação e ânsia que podem ser
superados, uma vez que a tarefa seja completada.
Em Psicanálise pode-se considerar que o transfert, que é a transferência que o paciente
atua sobre a figura de uma pessoa de sua infância com a qual alguns problemas ficaram sem
resoluções, tem a mesma função de uma tarefa concluída.
Também o luto não resolvido pode ser considerado uma tarefa que não foi concluída e
que, portanto, ficou na mente como algo não terminado e, que em certas ocasiões, cria tensões
e dificuldades.
Anne Ancelin afirma que quando se ajudam as pessoas a relatar e desenhar na própria
árvore psicogenealógica (genossociograma) as histórias não concluídas de suas famílias,
produz-se o efeito de um exercício terminado e permite à pessoa libertar-se das ânsias e
sofrimentos que lhes foram proferidos.

“Alguns dentre nós, dos quais faço parte, aplicam essa descoberta ao luto não feito ou
concluído, com a finalidade de que o uso dessa descoberta se torne instrumento que permita
trabalhar os problemas e os traumas do passado, concluir um luto familiar ou uma perda
inaceitável e fechar uma chaga antiga, muitas vezes de outras gerações.”87
________________________________________________________
87 A.A. Schützenberger, I segreti di famiglia, i non detti e la sindrome di anniversario, in Trasmissions, Érès, 2003, pag. 175

75
A pessoa lembra-se do sofrimento desses fatos não concluídos, relativos a um
determinado evento, sofrimento que se transmite de geração em geração, até que não se possa
finalmente concluir a tarefa que outros não conseguiram terminar, dando como exemplo o luto
do bisavô herói, do país de origem, etc..
Isso ocorre mediante a síndrome de aniversário, com doenças, acidentes e, no social, com
as guerras, as vinganças, etc.
A conclusão, a finalização do luto não feito, que criou a síndrome de aniversário, produz-
se expressando e elaborando até mesmo com atos simbólicos, como escrever uma carta para
queimar em um determinado lugar, levar flores ao porto de onde chegou ou partiu o navio da
imigração, reparar uma injustiça cometida por um antepassado, desculpar, também de modo
simbólico, os descendentes por abusos cometidos, etc..
Exemplo de caso de síndrome de aniversário, relatado por Anne Ancelin, em uma
entrevista dada a Nouvelles Clés: levaram até ela uma menina de quatro anos, por motivos de
pesadelos repetitivos que a angustiavam, tanto a criança quanto a família. Esses pesadelos
acordavam a menina com ataques de tosse que não tinha nenhuma origem física.
No mais, esses ataques se transformavam em verdadeiras crises de asma em uma
precisa data: 26 de abril. Anne Ancelin pede à criança para desenhar o monstro que aparecia
em seus sonhos e ela desenhou um ser com uma máscara de mergulho com uma protuberância,
como uma tromba de elefante.

Genossociograma simplificado da menina que sonhava com máscaras antigas.

Explorando a árvore psicogenealógica da família, descobriu-se que o bisavô havia


morrido em 26 de abril de 1915, em uma trincheira, intoxicado por gás asfixiante. O desenho
da menina representava, então, uma máscara de gás antiga que a menina nunca havia visto.
Jamais havia sido relatada a história do bisavô, tragicamente morto e apagado da memória
familiar.

76
5.5 – A criança de substituição e a elaboração do luto: o caso de Bárbara

A criança de substituição, como vimos no caso de Mariolina, é um filho que substitui na


família uma pessoa que morreu e por quem não se fez o luto ou não se pôde fazer o luto na
ocasião.
Um pai sofreu a morte dolorosa de uma pessoa querida, não aceitou e,
consequentemente, não pôde elaborar a perda. Para preencher o vazio e se iludir com a ideia
de que a pessoa ainda estivesse viva, o pai projeta, sobre um recém-nascido ou um filho que
mais se presta ao papel, a figura do morto. O filho, vítima dessa projeção é chamado de “criança
de substituição”.
Esse mecanismo de substituição, inicialmente, foi estudado como um fenômeno das
crianças que nasciam após a morte de um irmãozinho e do qual recebiam o nome, como para
evidenciar o desejo dos pais de fazer com que essa criança, tomasse o lugar do defunto, mas
com o tempo foi expandido para todas as projeções que são feitas sobre as crianças, de
pessoas mortas e das quais não se aceitou a morte.
Vimos, na história do pai de Mariolina, os efeitos negativos que essas projeções têm
sobre as histórias das pessoas: as crianças que se adaptam rapidamente às expectativas
parentais estão condenadas a interpretar um papel que não é o seu, e assim não podem ter
uma identidade própria.

“O filho substituto, nasce em uma atmosfera de dor não resolvida, identificado com um
defunto que é sempre mencionado e a quem é dado o lugar, não tendo o direito de ser ele mesmo.
(...) Essas limitações trarão consequências no desenvolvimento da personalidade da criança de
substituição. Algumas parecem sair-se bem dos riscos incorridos. Outras, com legítimo desejo de
viverem por si próprias, serão inconscientemente levadas a sair dos cânones sociais, porque o
outro (o morto) será sempre visto em seu lugar, resumindo, serão levados a fazer-se notar para
poder se distinguir –se do morto, sempre tão vivo”.88

Vimos isso na história de Van Gogh, como sua identificação com o pequeno irmão morto
causou efeitos tão nefastos sobre sua vida e talvez tenha sido a causa de seu suicídio.
Podemos supor que toda a obra desse grande pintor, luminosa, alucinante, cheia de
cores, foi a compensação e a fuga da obscuridade que reinava em sua alma e que, desde tenra
idade, esteve diante de uma mãe em eterno luto e que o levava ao cemitério para visitar o
irmãozinho morto.
A “mãe morta”, isto é, a mãe que não consegue superar a perda de um filho morto, à qual
se refere Green e que vive em uma perene depressão, é um triste destino para uma criança.
O problema da criança que tem o dever de encarnar a pessoa morta, cuja perda não foi
elaborada, não se refere somente ao luto pela morte prematura de outro filho: mas também
pela morte emocional de um pai que não aceitou a perda (e não se falou sobre o assunto). Isso
pode ser projetado na figura de um filho, como veremos no caso de Bárbara.

________________________________________________________
88 Maurice Porot, L’enfant de remplacement, Editions Frison-Roche, Paris, 1993.

77
Bárbara, uma criança de substituição ou as múltiplas projeções

Bárbara é uma mulher adulta, que fez análise Junguiana, baseada nos sonhos. No
decorrer dessa análise se evidenciou um importante problema ligado à sua relação com
animus.
Segundo Jung, nós somos todos compostos de uma parte masculina e de outra feminina:
a parte masculina é chamada animus e a parte feminina anima. Jung diz que animus é a parte
masculina da mulher e anima: a parte feminina do homem.
Eu compartilho da visão de Hilman que alarga esses conceitos, considerando que em
cada homem e em cada mulher existe animus e anima. Isto é, em cada mulher e em cada
homem existe uma parte masculina e outra feminina.
Um excesso de animus, isto é, de masculino (hiper-racionalidade, lógica, pensamento
crítico, etc.) assim como um excesso de qualquer outro componente da psique (anima, sombra,
persona, etc.) provoca, segundo Jung, um desequilíbrio que impede as outras partes de se
expressar plenamente, colocando em dificuldade o equilíbrio interior.
Na análise Junguiana a pessoa visa atingir a realização e alcançar a plenitude do seu ser,
procurando harmonizar, o melhor possível, as diversas partes de si.
Bárbara é a segunda filha de uma mãe que por sua vez, era também a segunda filha, cujo
pai muito amado, morreu devido a uma grave doença, quando ela ainda era pequena.
A mãe se casou com um homem que, em sua família de origem, fazia o papel de criança
de substituição, portanto tinta o nome de uma pessoa muito importante na história de sua
família de origem, morta tragicamente.
O cruzamento das projeções está evidente: casando-se com uma pessoa que ocupava o
papel de substituto de um morto, inconscientemente, achou ter encontrado a pessoa ideal para
substituir o pai morto.
Posteriormente, confirmou-se que a projeção não foi satisfatória, o papel de
substituição na família de origem impedia o marido de ser quem ela gostaria, isto é, como o pai
idealizado. Somente no nascimento do segundo filho do casal que as expectativas se
endireitaram.
Essa hipótese foi confirmada, em parte, pela data de concepção de Barbara (ver
síndrome do aniversário) que se situa em torno dos primeiros dias de novembro, data em que
se comemoram os mortos. No momento em que todos se recordam dos mortos, a mãe e o pai
estavam férteis para concebê-la.
Bárbara nasce menina, ao contrário de menino, e isso decepciona as expectativas de
projeção de ambas as partes: do pai que, vindo de uma cultura fortemente patriarcal, desejava
transmitir narcísicamente a si mesmo e da mãe que queria alguém a quem daria a função
paterna (parentificação).
Para compensar a natureza que a quis menina, Bárbara recebeu uma educação
masculina, brincou exclusivamente com jogos masculinos, teve passatempos de meninos, lutou
com os outros meninos, vestiu-se de “menino”, houve uma relação “entre dois homens” com
o pai, etc. Isso até o momento em que a natureza, durante a puberdade, reivindicou a sua
predominância.

78
Assim na história de Bárbara, animus sempre teve um grande domínio.

“O sentimento é uma emoção provocada por uma representação que depende daquilo que é
historicizado na nossa memória. A primeira informação que temos de nós mesmos começa por
um fato que nos é fornecido por uma organização familiar-social.”89

O desequilíbrio entre o lado feminino e masculino, que durante sua vida levou também a
compensações patológicas, deve-se a dois lutos não resolvidos na família:
O da família paterna cuja morte do irmão do avô foi inesperada. Ele era o primeiro noivo
da avó e morreu tragicamente pouco antes de suas núpcias. Seu nome foi dado ao primeiro
filho homem (segundo nascimento) gerado pelo casamento entre o irmão e a noiva do morto,
esses que nunca elaboraram o luto.
O da mãe que não elaborou o luto do seu pai morto quando ela tinha 12 anos,
decorrente de uma doença considerada vergonhosa, a qual se escondia e da qual não se podia
falar: a tuberculose.
As projeções cruzadas dos dois lutos se encontraram em Bárbara, que era também a
segunda filha, como todas as personagens implicadas nessa história. E ela foi concebida
próximo ao dia dos mortos, momento ideal para suprir os lutos não resolvidos das duas
famílias.
Na vida de Bárbara isso implicou uma falha narcísica importante devido ao fato de
nunca ter sido amada por aquilo que era, resultando em baixa autoestima e falta de segurança
em si mesma. Além disso, no momento de enfrentar a morte de seus pais, ela projetou em
outras pessoas as figuras deles, tornando o luto patológico. O trabalho da Psicogenealogia lhe
permitiu perceber o seu papel e liberar-se.

Genossociograma simplificado de Bárbara

(Veja o genossociograma no apêndice gráfico na página 127)

Essa história nos faz entender como o luto não elaborado, ou a incapacidade de assumir
o luto se transmite de geração em geração, criando crianças de substituição, obrigadas a
ocupar o lugar dos mortos-vivos da história familiar.
Como explica a analista junguiana, Verena Kast, em seu livro ”L’esperienza del
distacco”*a nossa sociedade é doente de incapacidade para elaborar corretamente o luto.
O luto é um dos mais fortes tabus, com o qual o homem moderno é confrontado: não se
fala nele, é um assunto delegado completamente à religião, e quando acontece a alguém ter que
enfrentar uma morte, é sempre lhe aconselhado pensar em outra coisa, em fazer uma viagem,
tomar tranquilizantes, etc..
A morte e o sofrimento são considerados como eventos distantes e quando somos
pessoalmente tocados por essas experiências, automaticamente procuramos encontrar um
recurso para esquecê-las rapidamente. Obviamente, isso não é possível.

________________________________________________________
89 Boris Cyrulnik, De chair et d’âme, Editions Odile Jacob, pag.72

* Livro em italiano: L’esperienza del distacco”: A experiência da separação

79
Não existe remédio para a morte e o sofrimento que se sente com o distanciamento de
alguém que tenha sido amado: podemos, como vimos, projetar esse amor em alguma outra
pessoa, pode-se até tomar psicotrópicos para diminuir a dor, encontrar novas e interessantes
ocupações, mas antes ou depois se deve “prestar conta” para com esse acontecimento,
querendo ou não.
Essa “prestação de contas” implica, frequentemente, sentimento de culpa, ideia de
morte, sentimento de incapacidade e não valor (por não ter conseguido impedir a morte ou por
não ter morrido no lugar do outro), pesadas somatizações, desvantagens emocionais, etc..
Segundo Elisabeth Kübler-Ross, existem várias “fases” para a elaboração do luto, pelas
quais se deve passar. Ela elaborou uma “curva do luto” para se visualizar: da esquerda para
baixo e de baixo subindo à direita, a curva evidencia com clareza as emoções e sentimentos de
um luto em ordem cronológica.
A primeira fase é caracterizada por um atordoamento, choque, falta de emoções: a
pessoa não acredita que a morte tenha realmente acontecido, existe a negação da realidade.
O estado de choque provoca, segundo Dorid e Lise Langlois, a alteração hormonal que
age como uma proteção contra o grande sofrimento. Essa reação natural, produz na pessoa a
sensação de ser um bloco de gelo, paralisada e sem emoção. Existe uma evidente perda do
senso da realidade: isso, em parte, explica as alucinações visuais e auditivas que podem ocorrer
(como por exemplo, sentir ou ver o defunto).
Depois da fase do choque emocional vem a fase da negação que pode se manifestar de
muitos modos, como por exemplo, com a procura obsessiva de um culpado, ou com a
idealização da pessoa morta, a fuga para o álcool, ou psicotrópicos. O acontecimento não é
aceito pelo que é: a pessoa procura evitar, o máximo possível, não pensar e quando o faz,
procura imediatamente mudar de assunto.
A terceira fase é aquela da depressão: a pessoa consegue aceitar a perda e consegue
entrar em contato com o próprio sofrimento. Pode apresentar estados de ansiedade, angústia,
medo de morrer, sentimento de abandono, de rejeição, de impotência, sentimento de culpa,
perda de confiança em si mesmo.
Na fase sucessiva, a depressão deixa lugar para a cólera, contra si próprio, contra os
outros considerados responsáveis. Mas também, frequentemente, contra a pessoa que morreu
por ser ela “culpada” de ter deixado atrás de si o sofrimento. A cólera ajuda a sair da depressão
e, quando é vivida corretamente, leva ao perdão.
Mas antes se passa, geralmente, por um estágio de tristeza que antecede a aceitação.
Existe um sentimento de perda e aquilo que a perda veio fazer em nossa vida. A aceitação é
uma fase muito difícil e, frequentemente, é um fardo colocado sobre as gerações sucessivas.
Finalmente, há o perdão ou a cura da memória: perdoando a nós mesmos e aos outros,
por serem seres humanos imperfeitos, reestabelecemos o sentido das coisas e podemos
produzir uma renovação interior que nos conduzirá à paz e à serenidade.
Infelizmente, muitas vezes, ao contrário de aceitar o sofrimento que a morte e o
distanciamento da pessoa querida nos provocam, procuramos não aceitar e não enfrentar.
Desse modo, ficará bloqueada ao passo anterior do processo da elaboração do luto. Não existe
separação sem sofrimento, é necessário processar o luto daquilo que perdemos para entrar em
um novo estágio.

80
A nossa cultura, certamente, não nos ajuda: sendo a morte um tabu. Cada vez menos, são
realizadas cerimônias e rituais públicos como acontece nas sociedades tradicionais. A morte é
considerada uma coisa particular, não há um grupo que ajuda a família a elaborar a perda. Na
civilização ocidental, as pessoas enlutadas devem administrar a dor sozinhas, evitando, se
possível, envolver terceiros. É visto como um comportamento “digno” a postura de tristeza
“contida” sem muitas manifestações exteriores...
O que define o luto patológico é a incapacidade da pessoa de elaborar a perda. Nesse
caso a Psicogenealogia pode ser muito útil: fazer de uma pessoa morta um elemento da própria
árvore psicogenealógica significa devolver um espaço dentro e fora de si para a pessoa falecida.
Transformar os mortos em antepassados é um processo que ajuda a elaboração do próprio luto
e também daquilo que a família não conseguiu fazer.

ETAPAS DO LUTO SEGUNDO ELISABETH KÜBLER-ROSS

81
5.6 – Neurose de classe - Vincent de Gauléjac

“O indivíduo é tema de uma história que procura ser o assunto.”


V. de Gauléjac

Vincent de Gauléjac, psicanalista, sociólogo, diretor do Laboratório de alteração social,


da universidade de Paris, expoente de primeiro escalão da Sociologia Clínica, descobriu e
descreveu a neurose de classe.
A Sociologia Clínica, que deriva da Psicossociologia, é uma abordagem multidisciplinar
que engloba a Sociologia, a Psicologia, a Psicanálise, as Ciências da Educação, a Antropologia e a
História.

“A Sociologia Clínica ocupa-se das dimensões existenciais das relações sociais. Essa
pretende estar o mais próximo possível dos sujeitos (etimologicamente “clínico” significa “perto
do leito do paciente”) e de suas experiências. É, portanto, uma Sociologia fenomenológica
particularmente interessada na subjetividade, nas pessoas, nos sentimentos sociais, nas emoções
coletivas, nos aspectos obscuros dos fenômenos sociais, nos jogos de desejo e de poder e no
imaginário coletivo.”90

A neurose de classe resguarda um quadro clínico derivado de um conflito que pode


nascer logo após uma troca de classe social. É uma aplicação prática do conceito de lealdade
familiar invisível, tema já abordado por Ivan Boszormenyi-Nagy: o desejo de permanecer fiel
aos próprios antepassados se choca com o desejo veiculado por valores da cultura dominante,
da promoção social para si e seus próprios descendentes. O conflito gerado pode provocar, nas
pessoas que o vivem, comportamento de autossabotagem que leva a falhas ou fracassos
repetidos, até mesmo por mais gerações.
V. de Gauléjac em seu livro “Névrose de classe. Trajectoire sociale et conflits d’identité”,
trata da temática da lealdade invisível do ponto de vista sociológico, mais que psicanalítico: os
destinos individuais, ainda que limitados às suas específicas subjetividades, não estão
independentes do campo social em que nascem e evoluem.

“O indivíduo é, antes de tudo, um produto da sua história social registrada em uma ordem
já constituída; essa história determina o modo em que irá posicionar-se como agente de
historicidade (...). Aqui vemos aparecer o elo entre historicidade como conceito sociológico que
designa, conjuntamente, os processos para os quais uma sociedade produz a sua história e como
conceito psicológico que leva em conta, a capacidade do homem de produzir mediações
simbólicas em sua própria relação e com o mundo.”91

________________________________________________________
90 V. de Gauléjac, entrevista a “Collection Erès”

91 Vincent de Gauléjac, Névrose de classe. Trajectoire sociale et conflits d’identité, pag.49

82
Em nossa sociedade, a divisão de classes sociais (na França 80% dos filhos de
executivos, têm mais possibilidades de chegar a ser um profissional que o filho de um operário
– fonte da entrevista a “Nouvelle Clés” de Vincent de Gauléjac) é menos rígida que no passado.
Até bem pouco tempo atrás, um filho de um camponês tinha fortes probabilidades de ser
camponês como muitos em seu redor. A noção de transmissão e continuidade era um valor
dominante na sociedade, enquanto hoje, a ascensão social e o sucesso são considerados
modelos de identificação.

“O desenvolvimento da mobilidade social está relacionado a esse desenvolvimento do


individualismo. Para a estabilidade da ordem global que organiza a aproximação, substitui-se o
movimento das sociedades modernas, que compara o indivíduo à possibilidade de uma distância
em relação à posição herdada e então o expõe a conflitos de identidade quando a sua trajetória o
conduz a trocar de lugar.”92

Geralmente, são os próprios pais que esperam que os filhos tenham uma ascensão social
desejando, ao mesmo tempo, que aceitem a herança transmitida e não rejeitem as tradições
familiares.
O conflito desencadeador da neurose de classe, nasce da contradição entre a lealdade
familiar (ficar na mesma classe social dos pais) e o desejo de promoção social, impulsionados
pelos valores culturais dominantes.

“Frequentemente é falado que os pais não desejam o sucesso de seus filhos... mas, ao
mesmo tempo, sentem-se mal quando os seus rebentos fazem mais que eles. Isso pode despertar
neles velhos rancores e antigas hostilidades, uma vez que não conseguiram realizar os próprios
desejos.”93

Segundo Vincent de Gauléjac, a crise de identidade é desenvolvida devido às


discrepâncias entre identidade herdada, identidade adquirida e identidade desejada.
A identidade herdada é a origem social, isto é, a posição social dos pais; a identidade
adquirida é o lugar ocupado na sociedade atual e a identidade desejada é o sonho a se alcançar.
A diferença entre as três identidades, pode gerar um impasse genealógico, promovido pela
neurose de classes.

“A neurose é um conflito psíquico, sem causa orgânica, cujos sintomas (...) são a expressão
simbólica de um conflito que tem suas raízes na história do indivíduo e que cria um compromisso
entre o desejo e a defesa.”94

Para Freud, tem origem nas primeiras experiências infantis em relação à sexualidade:
como Jung, V. de Gauléjac não está de acordo em imputar somente à sexualidade reprimida o
nascimento da neurose, supõe que exista também uma gênese social dos conflitos psíquicos.

________________________________________________________
92 Vincent de Gauléjac, Névrose de classe. Trajectoire sociale et conflits d’identité, pag.64

93 V. de Gauléjac, entrevista a Collection Erès

94 U. Galimberti, Psicologia, Garzanti Editore, pag.672

83
“(...) muitas pessoas que seguiram a Psicanálise, mostraram-se insatisfeitas com essas
explicações (freudianas). Sou da opinião que pode haver uma gênese social dos conflitos
psíquicos. Isto é, que estes possam estar ligados a fenômenos de mudança de classe social, seja
tanto na promoção quanto na depreciação.”95

Para explicar como nasceu o sentimento de “desdobramento” em um indivíduo que


passa do seu grupo social de origem a um novo grupo, ele propõe, em seu livro, um esquema da
dissociação e da divisão do “eu” que se desenvolve em cinco eixos:

1. O efeito do conflito de diferenças entre o grupo de origem (G1) que define a posição
herdada ao qual foram incorporados os costumes na infância e o novo grupo (G2) ao
que se aspira pertencer e do qual foram adquiridos os costumes no decorrer do
desenvolvimento, é um sentimento de “desdobramento”(sentimento interiorizado de
estar dividido em dois). Um “eu” dividido em duas partes antagônicas e uma
coexistência, dentro de si mesmo, de dois universos separados. Se as relações entre
esses grupos sociais forem caracterizadas por relações de dominação/submissão que se
opõem, a partir das relações marcadas pela desvalorização (de G2 em relação ao G1) e a
ambivalência (de G1 em relação ao G2), o indivíduo acaba não conseguindo sentir-se
ligado a nenhum dos dois, sentindo-se como “estrangeiro” nos dois grupos.

2. Em relação ao seu grupo de origem, vem uma ruptura e rejeição. O indivíduo que se
torna diferente, e, pouco a pouco incorporou hábitos e costumes dos “dominantes”, com
o seu “sucesso” envia uma mensagem de desvalorização e negação ao grupo de origem,
que por sua vez, o rejeita. A rejeição advém também do indivíduo, que tem necessidade
de abandonar seu grupo de origem para se parecer ao outro grupo. Esse abandono o
leva a perda da identidade e à perda da idealização das figuras parentais, dos valores e
dos modelos do grupo de origem. Sendo os processos de identificação e de idealização
os suportes ativos da relação amorosa, com o distanciamento e desencantamento
tornando-se mais forte, o indivíduo viverá um sentimento de rejeição e desamor.

3. Esse processo de distanciamento se choca com o afeto que, seja da parte do grupo
originário, seja da parte do indivíduo, durará apesar de tudo. A rejeição do grupo é
parcial na medida em que a pessoa também é objeto de orgulho e admiração pelo seu
sucesso, fato que compensa a desvalorização e o desprezo sentidos. O seu sucesso recai
sobre todos e demonstra que também estes têm a mesma capacidade dele. Também o
distanciamento do individuo é parcial: fica ligado a sentimentos de fidelidade às suas
origens e de solidariedade em relação a sua classe. Além disso, ele se sente culpado por
se distanciar de seus antepassados, dos quais é reconhecedor pelo fato de ter sido
criado por eles (isto é, cuidaram dele) e terem contribuído em sua criação (na escala
social).

________________________________________________________
95 V. de Gauléjac, entrevista a Collection Erès

84
4. Com relação ao seu novo grupo de pertencimento, a ruptura que marginaliza o
indivíduo vem do mesmo que reproduz nas relações do indivíduo, o desprezo e a
desvalorização (que leva para o seu grupo de origem). O indivíduo confrontado com
essa humilhação e dominação, reage com ódio, desenvolvendo um complexo de
inferioridade. Colocado à margem, tende a isolar-se, a retirar-se para dentro de si
mesmo, dilacerado e dividido entre o seu desejo de aceitação e a rejeição da qual é
objeto.

5. Ao mesmo tempo, procura reduzir a distância, atenuando os efeitos da fratura social,


assimilando o linguajar, os hábitos, os valores e todos os sinais de pertencimento ao
novo grupo. Escolherá novos elementos de identificação e de idealização. Atenuando-se
a distância, poderão ser desenvolvidos alguns processos de integração, muitas vezes
com estratégias de apropriação das ideias e culturas das elites dominantes. O desejo de
pertencimento é ainda mais forte, porque se acredita que os grupos dominantes são os
“donos da legítima cultura”, aumentando a fascinação. Aqui, o indivíduo ainda está
preso a uma contradição entre o desejo de pertencimento e a rejeição da qual é o objeto,
entre a aspiração de integrar-se ao grupo e ao ódio que este lhe causa.

6. Diante dessas contradições: sentimento de estranheza dupla (não é mais do G1 – nem


do G2), e conflito de pertencimento, a pessoa reage com isolamento, à procura de
grupos intermediários ou o desdobramento entre os dois grupos.96

Por exemplo, uma pessoa que obteve uma promoção social, filho de pais
camponeses, operários ou domésticos: quando pequeno, construiu a sua identidade, como
todos nós, a partir de uma idealização dos pais. Crescendo, aprende a compará-los com os
outros e quando os vê, humilhados ou dominados, a sua imagem idealizada cai por terra.
Quando se torna dirigente, vive sentimentos conflitantes, porque tem a impressão de tomar o
lugar dos detratores de seus pais.
A história do jovem François é emblemática: quando pequeno, filho de pai operário, a
quem ele adorava, ouvia dele que a sociedade moderna, era governada por um bando de
aproveitadores, egoístas e delinquentes que exploram os operários com baixos salários. Mas
por outro lado, empurrava-o a se tornar um bom aluno para que ele não tivesse “a vida de cão”
que ele tinha e tornar-se um daqueles aproveitadores e delinquentes...
A mensagem paterna continha aquilo que é chamado de “injunção paradoxal”: um
caminho que não pode ser seguido porque contém duas afirmações contraditórias. O paradoxo
é um dilema insolúvel que coloca o interlocutor em uma posição de impasse, arriscando ter um
efeito patogênico quando este se transforma naquele que os terapeutas sistêmicos da escola de
Palo Alto denominaram “duplo vínculo”.
O duplo vínculo é uma situação em que uma pessoa é colocada diante de duas
mensagens contraditórias, sem a possibilidade de submetê-las à discussão. O uso contínuo
desse tipo de comunicação pode levar a criança a desenvolver uma esquizofrenia.

________________________________________________________
96 V. de Gouléjac, obra citada, pag.251

85
“Tem que ser como eu, mas não deve se tornar o que eu sou”. O pai considera os
burgueses como ladrões (pensar como o pai), mas o filho deve ser, no futuro como eles (não
ser como o pai). Por parte do pai, estão duas ações, duas lógicas, as quais uma empurra para a
reprodução (comportamentos e convicções parentais) e outra para a diferenciação.
François se torna um ótimo estudante, a ponto de poder se inscrever para a mais
prestigiada universidade francesa: a “ École Polytechnique” de Paris. Mas falha nos exames de
acesso à faculdade (provavelmente autossabotagem). Inscreve-se, então, em Economia, obtém
doutorado e entra para o partido comunista.
Algum tempo depois, rasga a carteira do partido e se casa com a filha de um burguês
rico e graduado pela “École Polytechnique”. Durante um período, vivem em um bairro popular,
mas por insistência dos sogros vão morar em um bairro nobre de Paris. Porém, vive muito mal:
dorme mal, sente-se nervoso e angustiado, tendo sempre a sensação de estar traindo seu pai e
seus antepassados, encontrando-se diante de um conflito de lealdade à sua trajetória pessoal e
à sua árvore genealógica.
A neurose de classe, quando não compensada ou resolvida adequadamente, pode
provocar vários distúrbios, entre eles: ânsia, mal-estar psicossomático, angústia, até a divisão
do Eu, podendo acarretar uma dissociação grave.
Segundo V. de Gauléjac, a pessoa entendendo a sua árvore genealógica, o projeto
parental, o romance familiar, as escolhas e as rupturas existenciais, pode rever a história
“passada” e se transformar em dono de sua própria vida.

“Essa capacidade do indivíduo, em relação a sua história, o trabalho que desenvolve para
modificar essa direção, para tentar se tornar o sujeito, a possibilidade de abandonar as práticas
inadequadas e adquirir outras, para fazer frente a novas situações, constitui a função da
historicidade.”97

V. de Gauléjac também fala da ocultação dos segredos de família em relação às próprias


origens: a ocultação é o processo que se coloca em ação em torno do segredo, e é um processo
tão individual quanto coletivo.
Os segredos como verão no capítulo dedicado ao congresso de Avignon, sobre esse
tema, é algo da história da família que não se deseja transmitir. O paradoxo é que o segredo
transmite alguma coisa: o silêncio e o desejo da ocultação, uma espécie de fidelidade invisível.
Quando isso acontece, pode existir um impasse genealógico que se expressará com a rejeição
da filiação e com o não querer ser aquilo que se é.
Segundo V. de Gauléjac, para entender profundamente esses mecanismos, é necessário
subir três ou quatros gerações, para compreender qual projeto parental e transgeracional pesa
sobre a pessoa.
A neurose de classe é um desconforto psíquico que interessa à Psicogenealogia, porque
pode ser transmitida de uma geração para outra, como veremos pelas imigrações na história
de Mariolina.

________________________________________________________
97 V. de Gauléjac, obra citada, pag. 45

86
5.7 – Sessões de Psicogenealogia com Mariolina (2)

A linha materna de sua árvore genealógica (antepassados da mãe) se caracteriza,


particularmente, pela história das mulheres que imigraram e consequente falta de raízes
(desenraizamento).
A meu ver, o deslocamento social e a hipótese de desdobramento do Eu, conceito de V.
de Gauléjac, podem ser aplicados, tanto nos casos de uma troca de classe social, como também
na situação referente à mudança de sociedade após uma imigração. Em ambas as situações o
indivíduo prova um sentimento de desdobramento, especialmente no caso em que as duas
sociedades ou culturas, aquela de origem e aquela na qual é recebido, apresentam
características antagônicas.
Os conflitos geradores da neurose de classe são os mesmos: de um lado, a incorporação
durante a infância de costumes ligados ao país de origem e por outro lado, a aquisição de novos
costumes, em conflito com os anteriores.
Frequentemente, as diferentes culturas, dividem-se em dominante e dominada, com
sentimentos de superioridade e desprezo por uma parte, e de frustração e oposição por outra.
No caso das imigrações, porém, o indivíduo, muitas vezes, não escolheu se integrar, mas
somente ter uma oportunidade de trabalho, em um país com mais possibilidades econômicas
daquele do qual ele veio. Isso, significa que a integração de novos modelos de idealização e
identificação não é escolhida conscientemente mas, tem um percurso mais complexo, que
passa antes pela necessidade típica do homem de se conformar com a maioria.
No caso de Mariolina, por exemplo, a primeira geração de imigrados italianos na França
escolheu não se integrar. Isto se aplica especialmente às mulheres que, não sendo obrigadas a
se confrontar com o mundo do trabalho, podiam se manter fiéis aos modelos familiares de
origem; para a segunda geração, tratou-se de uma integração, com algumas contradições entre
usos e costumes da família e da sociedade onde cresceram.
As consequências da emigração frequentemente se propagam sobre mais gerações e são
as mulheres que mais pagam o preço: sobretudo nos países do sul, existe ainda a regra que
impõe às filhas tomarem conta dos pais que são anciões. Emigrar significa não poder cumprir
essa lei implícita da família e, portanto, ser desleal. Quando a lealdade para com a família de
origem não pode mais ser expressa, cria conflitos que podem ser transmitidos aos
descendentes. Boszormenyi-Nagy fala de efeitos patológicos graves, quando a lealdade não é
respeitada. (ver capítulo sobre princípio de lealdade familiar).
No caso da bisavó de M, a grave depressão que a acometeu depois da emigração para a
França, vinda de um país do sul, pode ter sido gerada pelos sentimentos de culpa por ter que
abandonar a família de origem e com isso a lealdade que lhe era devida.
As raízes são muito importantes para a família e as lealdades invisíveis inconscientes
também, porque interiorizadas por muitas gerações, são uma necessidade antes que uma
escolha pessoal e estão numa relação estreita com os princípios e as definições do grupo de
procedência.
Os mitos familiares têm origem no contexto social, econômico, cultural e determinam o
conceito de justo ou injusto, leal ou desleal que encontram eco em cada membro da família.

87
Mas o que fazer quando os indivíduos passam a viver em um país diferente do deles,
com outros costumes, outros modos de vida, viver com uma cultura diversa?

“Quando se tenta uma integração, entra-se num sistema complexo, no qual


frequentemente a pessoa, a segunda e, sobretudo, a terceira geração, não sabe mais onde está sua
identidade familiar, nem como agir, nem o seu lugar e nem qual é a sua identidade.”98

No caso da perda das raízes logo após a emigração da família, podemos falar de
“confusões”, de conflitos, de lealdade entre os valores do país de origem e o de acolhida.
Catherine Ducommun-Nagy coloca em observação as sociedades ocidentais. A
imposição, a todo custo, da própria cultura às pessoas que imigram, cria conflitos inconscientes
pondo em risco, sobretudo as gerações nascidas no país que os recebeu.
A psicóloga suíça diz que não seria necessário apagar a cultura de origem em
detrimento daquela que os recebeu para que não se criem conflitos e frustrações inconscientes.
Mas se deveria falar de integração, isto é, de serem aceitos os costumes e a cultura de origem
(desde que não sejam contra as leis dos pais de acolhimento) como também nas escolas
deveriam ensinados os conteúdos das culturas de origem, paralelamente àquelas locais.

Genossociograma simplificado de Mariolina ramo materno


(Veja o genossociograma no apêndice gráfico da página 128)

Na família de M., a imigração significou isolamento e solidão, principalmente para as


mulheres, que por lealdade inconsciente à família de origem, verdadeiramente nunca se
integraram. As mulheres dessa família se dedicaram, até mesmo a custo de suas vidas
sentimentais, às mulheres da geração precedente, vivendo essa dedicação até mesmo após se
casarem. Encontramos, também, na história desse ramo, as repetições de matrimônios
impostos pela mãe da esposa, contra a vontade da filha.
Parece-me que, nessa parte da família, está fortemente presente, o conceito do sacrifício
ligado às condições femininas: ser mulher significa ter que sofrer, seja se dedicando às
mulheres das gerações anteriores, seja casando com qualquer um que não se tenha escolhido.
Na história da mãe de M. ainda se acrescenta o fato de que ela não foi nem desejada
pelos pais (avós de M.) que queriam um menino, já tinham uma menina. De fato, haviam até
escolhido um nome masculino e, somente no último instante, transformaram-no em um nome
feminino, colocando uma vogal no final do nome.
O nome que é escolhido pelos pais está sempre ligado a um projeto mais ou menos
inconsciente, que é concretizado sobre o neonato, a partir de sua concepção. Algumas crianças
são mais propensas que outras para satisfazer as expectativas dos pais e isso, muitas vezes,
acontece por uma insegurança ligada a notória preferência que os pais têm por outro filho.
No caso da mãe de M., a irmã mais velha era claramente preferida pelos pais e se pode
supor que M., tentando ser mais amada, tenha desenvolvido os dons masculinos que faziam
parte dos desejos paternos. Pode-se facilmente imaginar que tudo isso possa ter produzido um
problema em relação ao seu papel e sua identidade feminina.

_______________________
98 A.A. Schützenberger, Aïe, mes Aïeux, pag.48

88
Olhando o genossociograma completo de M. é possível perceber que existe, ainda, um
equilíbrio no conjunto dos elementos que compõem a representação gráfica da família do pai e
da mãe: os dois pais de M. tiveram um irmão (pelo lado do pai) ou uma irmã (pelo lado da
mãe). Do lado paterno, houve muitas doenças e do lado materno, muitos membros escolheram
profissões ligadas à cura. As emigrações da parte materna foram compensadas pela
estabilidade territorial da parte paterna, que é originária e sempre viveu em zona montanhosa
da França.
Frequentemente, trabalhando com a Psicogenealogia, notamos que as pessoas não se
escolhem por acaso: decidem formar uma família com uma pessoa ao invés de outra, sem
perceber, até mesmo para compensar as carências e as dificuldades dos próprios antepassados.
E isso nos leva à questão sobre a escolha por determinada pessoa, se não o próprio
inconsciente familiar e coletivo equilibrando os obstáculos multigeracionais.
Mariolina é uma jovem mulher que passou por muitas provas difíceis, entre tantas, a
doença e morte do pai. Mas ela tem um grande equilíbrio interior que lhe permitiu superar os
momentos de grande sofrimento, sublimando e escolhendo uma profissão de “reparação” e
dedicando-se também a cuidar dos outros.

Genossociograma simplificado completo de Mariolina

(Veja o genossociograma no apêndice gráfico da página 129)

Mariolina, no final dessa sessão, disse que o trabalho de Psicogenealogia a ajudou a se


sentir mais livre em relação ao peso de sua família. Em particular, tem a impressão de que seu
pai teve o lugar certo em sua vida e que, agora, consegue ver de modo mais sereno o passado
do pai e tudo o que sofreu. Além disso, hoje consegue não identificar-se completamente com
sua família, como antes, e discernir o que “pertence” a ela daquilo que “pertence” à história de
seus pais.
Ter feito a sua árvore genealógica, colocando as pessoas em seus “lugares”, permitiu-lhe
reencontrar sua identidade e sentir menos o fardo de sua família de origem.
Foi muito apaixonante o trabalho com M., também para mim, e encontrei, como
acontece com frequência, trabalhando com Psicogenealogia, as similaridades e semelhanças
com a minha história. Eu também venho de uma família proveniente de múltiplas emigrações e
conheço a confusão de valores e de identidades, que isso pode gerar. Nessas famílias, tanto o
país de origem é sempre vivido como místico e os descendentes conservam a nostalgia de um
país imaginário, como também há uma rejeição das origens que criam problemas de fidelidade
invisível, o que já vimos anteriormente.
A integração é um processo longo e difícil: sabemos que o inconsciente tem uma
tendência ao conservadorismo, não ama muito as mudanças devido a milhões de grossas
camadas que fazem a sua espessura (inconsciente coletivo) e que são os milênios de ideias e de
culturas que estão incrustadas em nós tornando-nos aquilo que somos.

89
CAPÍTULO 6
Psicogenealogia prática

6.1 - Genograma e genossociograma

O genograma é uma representação gráfica das ligações familiares sobre mais gerações,
uma espécie de árvore genealógica com as informações importantes sobre cada membro da
família.
“O genograma é uma técnica de representação da árvore da vida familiar (...), baseado
na construção de um papel gráfico que contém as principais informações sobre os membros de
uma família, as suas interrelações há pelo menos três gerações.”99
Existe diferença entre genograma e genossociograma: o primeiro é árvore genealógica
comentado com algum dado pessoal. É utilizado pela terapia sistêmica, sociólogos, médicos,
etc., a quem não interessa as ligações inconscientes.
Esse instrumento foi criado por Murray Bowen em 1980, para ser utilizado na terapia
familiar multigeracional e compreende:
- o nome e as idades de todos os membros da família;
- as datas de nascimento, de casamento, de separação, de divórcios, de morte e
outros acontecimentos, cujas datas ficaram na memória familiar;
- indicações das atividades, ocupações, lugares de residência, doenças, mudanças
no desenvolvimento;
- informações sobre pelo menos três gerações.
Na terapia familiar, esse instrumento permite, aos membros da família, precisar e
modificar a percepção que eles têm do próprio sistema familiar e de suas posições nesse
sistema.
Símbolos do Genossociograma

(Ver símbolos no apêndice gráfico na página 118)

O genossociograma (da genealogia – árvore genealógica, sociometria de Moreno, laços


afetivos, relações) se interessa também pelas relações escondidas e inconscientes, como a
síndrome do aniversário, a fidelidade invisível, etc..
Moreno definia átomo social, a representação do mundo do indivíduo: “a imagem de
uma vida, as suas representações, os seus interesses, os seus sonhos e as suas angústias... o núcleo
interno e externo das pessoas emocionalmente ligadas ao sujeito.”
Henri Collomb, segundo Anna Ancelin, logo após os seus trabalhos na África (“La morte
come organizzatore delle sindrome psico-somatiche in Africa”, 1977) ampliou a técnica do
genossociograma, desenvolvendo as noções de Moreno.

________________________________________________________
99 M. Anaut, Soigner la famille, pag.28

90
“O genossociograma permite uma representação sociométrica (afetiva), imaginada, da
árvore genealógica familiar (genograma) destacando, através das flechas sociométricas, os
diferentes tipos de relações do indivíduo em relação ao seu ambiente e às ligações das diversas
pessoas: da coexistência, da coabitação, as díades, os triângulos, as exclusões... Quem substitui
quem na família... as injustiças (os contos familiares e sociais), as repetições... Algumas vezes, são
as falhas de memória da família que revelam mais (como os silêncios no divã do psicanalista),
sobre aquilo que foi excluído da memória familiar.”100

Parece-me que a diferença substancial, entre os dois modos de propor a árvore


genealógica comentada, se manifesta com a importância dada na Psicogenealogia às
coincidências de datas, às criptas e aos fantasmas, às síndromes de aniversário, às fidelidades
invisíveis que são produções do inconsciente transgeracional ou coletivo familiar. (Jung)
É tanto psicanalítica (importância dada aos mecanismos inconscientes)quanto sistêmica
(importância do lugar e papel do indivíduo no sistema, que conjuga a necessidade de
compreender a fundo a realidade psíquica da pessoa e a necessidade de posicionar cada um
num sistema mais complexo do triangulo mãe-pai-filho da Psicanálise).
Antes de passar para os capítulos seguintes, gostaria de fazer uma observação a
propósito dos símbolos utilizados no genossociograma.
Alguns autores, entre eles também Anne Ancelin, utiliza o triângulo, para representar o
sexo masculino, enquanto, na formação que tenho seguido em Nice, aprendi a utilizar o
quadrado como proposto por Murray Bowen.
Na verdade, o triângulo tem diversos significados simbólicos: além do famoso triângulo
mãe-pai-criança da Psicanálise, nas regiões judaicas cristãs, é o símbolo que foi escolhido para
representar Deus.
Anne Ancelin não observou essa incongruência. Faz-se necessário dizer que o triângulo,
foi escolhido por Collomb, possivelmente para diferenciar o seu genossociograma do de
Bowen. Talvez, Anne Ancelin queria dessa maneira, enfatizar o fato de que aderia às escolhas
de Collomb (ele também formado em Psicodrama na linha de Moreno). As implicações
inconscientes dos símbolos, como nos explica Jung, são fundamentais e não podem ser
ignoradas.
Ainda um chamamento para uma época de disputas entre escolas: a psicoterapia
sistêmica dos primórdios não dava importância aos mecanismos inconscientes; em 1975 Mara
Selvini Palazzoli da escola sistêmica de Milão, escrevia que “no sistema familiar cada elemento
é inserido e interage na totalidade e as dicotomias orgânico–psicológicas e
consciente/inconsciente perdem a importância.”
Por que não dar importância aos mecanismos que, pesadamente, condicionam o
funcionamento humano?
Essas posições hoje estão mais atenuadas e também os contrastes entre as várias
escolas diminuíram; na prática, tende-se mais a uma integração de várias abordagens que a
uma utilização rigidamente preconcebida das teorias.

________________________________________________________
100 A.A. Schützenberger, Aïe, mes Aïeux, pag.20

91
Também na Psicogenealogia, mesmo que existam grandes diferenças conceituais, entre
o instrumento do genograma e do genossociograma, a tendência é uniformizar, pelo menos do
ponto de vista técnico, os dois instrumentos. A mesma Anne Ancelin, em seu livro, escreve, às
vezes, genograma para falar de genossociograma...

6.2 – Como elaborar o próprio genossociograma

Compreendendo que para elaborar um trabalho de Psicogenealogia é necessário estar


acompanhado por alguém que seja expert e capaz de descobrir os nós transgeracionais, tanto
na comunicação verbal como na não verbal (aquilo que o nosso corpo diz quando desenhamos
a nossa árvore), gostaria de dar algumas indicações práticas sobre a elaboração de um
genossociograma.

A primeira fase consiste em responder as perguntas fundamentais que proponho neste


elenco.

1- Nome: verificar quem o escolheu e o porquê; quem possuía o mesmo nome na família
(criança de substituição); verificar se existe uma relação de fatos reais ou imaginários
(filme, livros, programas televisivos) para entender qual é o “projeto senso” (programa
familiar) que a família consciente ou inconscientemente, idealizou para o recém-
nascido. Não se nasce em uma família por acaso e cada família projeta sobre os filhos,
mais ou menos inconscientemente, desejos, sonhos, vinganças (revanches), esperanças.

2- Sobrenome: até sobre os sobrenomes se podem fazer reflexões que interessam para a
Psicogenealogia. É um sobrenome típico do lugar onde se nasceu e se vive, ou é de outro
lugar? Houve imigrações? Quando? A família sofreu? Um sobrenome comum ou
diferente? Reporta a fatos históricos, como por exemplo: os sobrenomes geográficos
que foram impostos aos judeus para um recenseamento na Idade Média? Outra coisa
importante é verificar se os sobrenomes se repetem, não só na linha patriarcal, para
verificar se houve casamentos entre primos ou entre parentes, coisa que é considerada,
do ponto de vista psicogenealógico, uma espécie de incesto de segundo grau.

3- Datas de nascimento: observar as repetições de anos similares, 1961 e 1951 por


exemplo, de meses similares, quem nasceu no verão, quem nasceu na primavera, em
dias iguais, etc. Todas as repetições de datas nos permitem ter uma pista investigativa
para formular as hipóteses, como veremos no capítulo dedicado à síndrome de
aniversário. Também a concepção é considerada como uma mensagem do inconsciente
familiar: quem foi concebido por época de datas de morte, ou nascimento, ou outra data
importante em que ocorreu algo que não foi processado.

4- Lugares de nascimento: as emigrações são traumas na história familiar e serão


marcadas com vermelho. Por que a família emigrou e quais membros foram envolvidos?
Quem ficou e quem partiu? Como foi compensado o débito de lealdade para com os pais
e os outros membros da família? Por que um lugar invés de outro? Essas perguntas
ajudarão a dar luz ao efeito traumático da emigração e sobre as gerações futuras.

92
5- Profissões: as profissões de “reparação” como psicólogos, médicos, enfermeiros,
mecânicos, marceneiros, pedreiros, etc., são indícios importantes para localizar um
trauma não resolvido e que se transmite de geração em geração. É necessário dar
atenção, também, à questão da neurose de classe, evidenciada por Vincent de Gauléjac.
Segundo ele, a ascensão social frequentemente provoca conflitos: o indivíduo fica
dividido entre o desejo da escalada social e o comando de permanecer fiel às origens da
família, entre herança herdada e herança conquistada.

6- Estado civil de cada indivíduo: indicar se solteiro, casado, comunhão estável, divorciado,
separado, viúvo; possivelmente com as datas dos fatos relatados. Para os filhos, indicar
se são de pais ou mães diferentes, se são adotados. É importante, também, saber se
existem outras crianças que vivem na família, aqueles mortos, as causas e a idade da
morte. Além disso, é muito importante assinalar os “não nascidos”, sejam de abortos
espontâneos ou provocados.

Fatos importantes para serem evidenciados no genograma para cada indivíduo:

 Morte prematura de um dos pais, de um irmão ou irmã, causas e datas.


 Separação prematura da mãe ou do pai.
 Mãe morta durante o parto ou com riscos de morte durante o parto.
 Invalidez, doença grave, déficit escolar.
 Incesto, agressão sexual, homossexualidade, infertilidade.
 Acidentes graves, depressões, tentativa de suicídio.
 Toxicomaníaco, alcoolismo.
 Internamento em hospitais psiquiátricos ou em prisões.
 Membro da família que tenha seguido alguma ordem religiosa.
 Guerras, genocídios, expatriações.
 Conflitos com um membro da família.
 Pobreza, perda de herança, injustiças.
 Parceiros importantes.
 Problemas de saúde.
 Nome que tenha pertencido a algum outro membro da família.
 Abortos, filhos ilegítimos.
Todos esses dados, devem ser inseridos no genograma próximo do símbolo de cada
pessoa que faça parte do sistema familiar.
Pegue uma folha de papel em branco, 70x100, e comece desenhando um círculo se você
é uma mulher ou um quadrado se for homem, prestando atenção ao fato de que, acima do
nosso símbolo, estarão os símbolos dos pais, dos avós e bisavós e abaixo, os dos filhos e netos.
É conveniente que se tenha mais uma folha que possa ser utilizada, com fita adesiva
transparente.
Como nas Constelações Familiares, colocar um conjunto mais ou menos próximo a outro
ou de frente, até de costas, mostra o tipo de relacionamento existente. No mesmo instante, no
genograma, o posicionamento no espaço do papel diz muito mais que tantas outras palavras,
como “se vê” a si próprio e o sistema familiar. Por isso, em Psicogenealogia é fundamental que
seja a pessoa interessada a desenhar o seu genossociograma: os lapsos gráficos, os
esquecimentos, os erros, a sequência dos símbolos (quem antes de quem), as incoerências, e
93
também as palavras escolhidas para resumir o genossociograma, a vida de cada um, são pistas
que nos permitem emitir hipóteses sempre mais prováveis.
Se por exemplo, é uma mulher que quer fazer o seu genossociograma, começará a
desenhar um círculo para representá-la.

Coloca-se o símbolo para representar a si mesmo. Ao lado dele, o nome completo, a data
e o lugar de nascimento, além de um resumo dos acontecimentos mais significativos da própria
vida. Os irmãos e irmãs são colocados em ordem de nascimento da esquerda para a direita, por
exemplo, duas irmãs:

Ao lado de cada irmã, escrever os dados e um resumo de suas histórias. É necessário se


esforçar para resumir ao máximo, para escrever tudo no genossociograma, mas caso não seja
possível, é aconselhável escrever numa folha, à parte, acrescida ao genossociograma.
A seguir se agregam os pais, colocados acima dos filhos, pois são uma geração anterior
(todos que são da mesma geração são colocados na mesma linha) e, além dos dados deles, é
necessário também escrever data de casamento ou de divórcio.

94
Feito isso, ligamos as duas filhas com os pais:

Procedendo no posicionamento de cada pessoa, no genossociograma se registra


também, perto de cada símbolo, o nome, a data e lugar de nascimento, bem como os
acontecimentos importantes de sua história pessoal. Também os dados que não conhecemos
do romance familiar são importantes, uma vez que nos explicam tudo o que foi cancelado da
história familiar e as exclusões que são comuns nas injustiças que podem transformar-se em
fantasmas na vida dos descendentes.
Por que não se sabe nada da história da avó? Por que ninguém sabe se o avô ou o bisavô
foram à guerra? Como morreu a irmã da avó e porque se troca sempre de assunto quando se
tenta falar a respeito?
Todos esses não-ditos ou segredos, certamente, têm uma função que descobriremos no
capítulo dedicado aos segredos de família.

No exemplo que proponho, agora acrescentamos os pais do pai:

95
Nesse momento, desenhamos o irmão do pai:

Para cada indivíduo morto coloca-se uma cruz no símbolo, no caso, uma cruz vermelha
se o parente teve morte por acidente ou doença e, consequentemente, trata-se de uma morte
prematura.
X – Morte prematura.
Para completar o genossociograma é necessário desenhar os elos importantes entre os
membros da família, as síndromes de aniversário (mesmas datas), as crianças de substituição e
as ligações conflitantes (zig-zag) ou de afeto particular (vertical). No nosso caso, a pessoa tem
uma ligação conflitante com a mãe e uma de carinho com a avó materna:

E assim com os outros membros da família, de um modo que sejam evidenciadas todas
as tragédias, os traumas, os não-ditos que possam, por transmissão transgeracional,
influenciar a nossa vida. Olhá-los e ampliar a consciência nos ajuda objetivá-los e a tornamo-
nos mais livres de suas influências.

96
6.3 - Entrevista a Psicogenealogista C. Damiano

Entrevista com Cathy Damiano, Psicóloga Clínica e Social, ex-aluna de Anne Ancelin.
Professora do CERFPA (Centro Europeu de Estudos e Formação em Psicologia Aplicada), onde
ensina Psicologia Infantil, Psicologia Social, Psicopatologia Infantil, PNL. Instrutora de Arte
Terapia, Mandala, Terapia dos contos de fadas, Genossociograma e Psicogenealogia. Terapeuta
Junguiana.

Quando descobriu a Terapia Junguiana e em que momento aderiu a essa


abordagem?

O meu primeiro encontro com a abordagem Junguiana aconteceu na Universidade de


Psicologia em Nice: foi uma grande sorte, porque normalmente, não se ensina Jung nas
universidades francesas.
Descobri Jung no curso de Psicologia Social administrado por Anne Ancelin
Shützenberger, que era minha professora; ela falou de Jung e eu imediatamente me interessei
pela sua abordagem. Não que Anne Ancelin fosse Junguiana, mas falando de todas as correntes
de pensamento psicanalítico, abordou também o pensamento de Jung e eu, imediatamente,
fiquei fascinada pela sua visão do mundo.
Em seguida, um aprofundamento verdadeiro, eu tive tanto durante a minha primeira
psicoterapia, com um psicanalista junguiano, como quando me formei em psicoterapia, em uma
escola junguiana. Graças a Jung encontrei a minha vida: a abordagem junguiana, me abriu
novas visões e compreensão da realidade.

O que lhe interessou desde o início?

O modo de entender os sonhos, que é muito diferente de Freud. O simbolismo, por


exemplo, e a ideia do inconsciente coletivo que se manifesta no mundo onírico, me parecera
uma abertura em relação ao mundo rígido em que Freud, e, sobretudo os seus seguidores,
fecharam a psique humana. Para mim, além disso, o aspecto espiritual é muito importante e
acho que Jung tenha, mais que qualquer outro psicanalista, dado espaço a essa parte
importante do homem.

Como a senhora entrou em contato com a Psicogenealogia?

Conheci a Psicogenealogia porque Anne Ancelin era minha professora na universidade.


Fui convidada para o seu aniversário de 80 anos: eu já estava muito curiosa com a
Psicogenealogia e durante essa festa todas as minhas dúvidas desapareceram. Algumas
pessoas presentes no evento testemunharam seus agradecimentos: as enfermeiras que foram
treinadas por Anne Ancelin, os doentes que se curaram do câncer com a ajuda da
Psicogenealogia. Anna Ancelin nunca quis falar dos seus sucessos, mas, naquela ocasião, essas
pessoas quiseram testemunhar nesse sentido.
Conhecia já a Psicogenealogia porque tinha seu livro (Aïe, mes Aïeux) que me envolveu
a respeito de alguns fatos: eu tinha sonhado com minha própria história familiar, e, depois
dessa noite, decidi seguir o treinamento com Anne Ancelin. Fui até o centro de formação e lá

97
me disseram para deixar meu contato, pois a lista de espera era enorme e naquele momento
seria muito difícil conseguir uma vaga.
Duas semanas depois, a responsável pelo Centro de Formação me chamou e disse:
“Faremos um seminário, no mês de junho, com quatro psicoterapeutas, Madame Ancelin quer
fazê-lo com profissionais, a senhora estaria interessada em ser um deles?”

Que sorte!

É sim, foi assim, deveria ser assim. E foi dessa forma que eu fiz a formação com Anne
Ancelin.

Fazer uma formação com Anne Ancelin deve ser algo muito especial...

Sim, sobretudo naquele âmbito, em que ela havia decidido treinar somente
profissionais. Nós trabalhamos com o nosso genossociograma pessoal, mas também sobre o
modo de trabalhar com os outros. Anne Ancelin é uma pessoa excepcional, eu a situo no nível
de François Dolto. Tem uma capacidade de escuta do outro, realmente, única: escuta do
inconsciente, escuta daquilo que acontece no campo do não verbal. É dotada de uma grande
intuição, capaz de receber, de criar um espaço terapêutico, com uma grandeza que pude sentir
pessoalmente. Ajudou-me muito, senti acompanhada por uma pessoa extremamente humana.

A senhora disse também que Anne Ancelin a ajudou conhecer a teoria de Jung...

Sim, ela somente o citou, porque ela não é junguiana, e sim de formação freudiana. Por
outro lado, não poderia ser diferente, uma vez que no princípio estava em terapia com
Francoise Dolto.
Não é junguiana, mas, em sua abordagem, inclui conceitos de Jung, como o inconsciente
familiar. Ela faz referência também à Psicologia americana e a Moreno, em particular, que a
treinou e que falava do co-inconsciente. Numa analise final, acredito que ela esteja mais
próxima do pensamento junguiano, mais que queria admitir.

Anne Ancelin seguiu o treinamento de Moreno em Psicodrama, mas não utilizou


esse instrumento em Psicogenealogia como fez Hellinger, com as Constelações Familiares,
por que não?

De fato, foi ela quem levou o Psicodrama para a França.


É evidente que o que fazem nas Constelações Familiares é muito semelhante ao
Psicodrama: mesmo que não o tenham escolhido, trabalham de forma parecida, ainda que de
maneira diferente.
Mas Anne Ancelin trabalha mais como o genossociograma; é o seu instrumento
predileto, ela o tornou um instrumento excepcional, muito potente e eficaz.
Ela trabalha mais com esse meio, mas no Psicodrama não é excluído trabalhar com as
histórias das famílias sobre mais gerações. Ela não formalizou a Psicogenealogia no
Psicodrama, mas, talvez, tenha trabalhado em seus grupos de Psicodrama, também, com a
Psicogenealogia. Comigo trabalhou principalmente com o genossociograma.

98
Ela propõe seminários de Psicogenealogia há muito tempo; segundo a sua
experiência, pode-se dizer que exista uma ligação entre transmissão transgeracional e
inconsciente coletivo de Jung?

Existem, evidentemente, laços entre a teoria junguiana e aquilo que se constata na


experiência da Psicogenealogia com o genograma. A teoria do inconsciente coletivo permite
entender o que acontece e permite esclarecer a transmissão entre as gerações de eventos
desconhecidos da história familiar. Aquilo que se constata, continuamente, em Psicogenealogia,
é que efetivamente exista essa transmissão: porque isso acontece, ainda não foi explicado
cientificamente.
Há um cientista inglês, Rupert Sheldrake, que trabalha com os campos energéticos,
sobre fenômenos chamados de transmissão do pensamento, que também foi denominada de
sincronicidade e sobre o que os animais conseguem “sentir”, sobre aquilo que os cães e os
gatos intuem como se tivessem um “sexto sentido”. Trabalha sobre esses fatos, com a hipótese
da transmissão no plano energético por meio dos campos mórficos. Significa que hoje, também,
os cientistas se interessam por esses fenômenos particulares.
Ao que concerne a Jung, gostaria de citar esse texto, no qual se fala da diferença entre o
inconsciente individual e o coletivo: “A camada pessoal vai até as lembranças infantis mais
precoces e a camada coletiva engloba uma época pré-infância, ou seja, o resto da existência
ancestral”.

Parece óbvio que se fale também da história familiar, mas também, se alguém acredita
em vidas precedentes...
A partir da minha experiência, penso – aquilo que digo não é ainda cientifico – que
estamos todos ligados entre nós e o espírito de todos os seres, em conexão, e se há uma
transmissão familiar, ela deve passar por redes energéticas sutis. É por isso que Jung diz que o
inconsciente coletivo está em nós. O conhecimento que está em nós, como uma memória, se
ativa de certa maneira que deve ser observado...
Também o budismo fala dessa interdependência, dessa conexão entre todos os seres.

Jung estudou muito as culturas orientais...

Sim, muito, e acredito que seja possível conectar a teoria do inconsciente coletivo ao
pensamento oriental e, em particular, ao budismo; existem outros pontos.
Isso me lembra de que Anne Ancelin havia relatado ter um amigo budista que a fez
observar como o trabalho com o genossociograma era um trabalho sobre as memórias
anteriores, como são propostas pelo pensamento budista. Ela lhe respondeu que era um ponto
de vista interessante. Penso que Anne Ancelin seja uma pessoa espiritualista, mas com crenças
cristãs.
Esse potencial ou memória que está registrada em nós e à qual já me referi
anteriormente, é exatamente o que escreve Jung, nesse texto: “As imagens de lembranças,
contidas no inconsciente pessoal, são, por assim dizer, completas porque foram vividas. Os
arquétipos contidos no inconsciente coletivo são simples silhuetas, como vestígios que não foram
ainda vividos individualmente pela pessoa” e acrescenta: “quando a regressão da energia

99
psíquica ultrapassa até a época mais precoce da infância, invade os traços ou vestígios da vida
ancestral, despertando então imagens mitológicas, dos arquétipos.”
Isso poderia iluminar um pouco a nossa hipótese de transmissão transgeracional.

Nicolas Abraham e Maria Torök falam de criptas e fantasmas transgeracionais,


mas no livro escrito por eles “L’ecorce et le noyau” não falam de inconsciente coletivo,
como a senhora explica isso?

Abraham e Torök são dois “confessos” psicanalistas da linha freudiana, isso me faz
pensar na árvore genealógica; cada um está em sua “família” e a “família” freudiana não é
aquela junguiana. Eles se reconhecem na família freudiana e lacaniana e pensam não serem
aparentados com a família junguiana.
Eu acredito que estamos todos na mesma família, mas, infelizmente, existe ainda essa
diferenciação que é histórica e cultural: inicialmente a divisão Freud-Jung, se deu porque Jung
era suíço e a Psicologia Junguiana se desenvolveu mais na Suíça, nos Estados Unidos, no
Canadá, etc., isto é, fora da Europa. A França permaneceu tradicionalmente lacaniana (Lacan
era francês – nota do autor), assim, da “família” freudiana e é, por isso que aqui se fala de Freud
e não de Jung.
Por exemplo, Serge Lebovici fala na sua obra de transmissão transgeracional, que essa
transmissão está constatada clinicamente, e todos estão de acordo e admitem esse fato, mas
sem que existam conexões declaradas pela abordagem junguiana.
Agora a tendência dos terapeutas é ir de encontro ao transgeracional, que sejam
junguianos, freudianos ou mesmo terapeutas sistêmicos. Essa abordagem muda a percepção da
família que não é mais vista somente como o triangulo pai-mãe-criança, visto como o todo:
cada um traz na relação familiar aquilo que é, sem procurar as culpas de um no outro.
Há razões históricas para o fato de que algumas pessoas se liguem a certas escolas do
pensamento, mas eu creio que as escolas estejam conectadas entre si, independentemente da
vontade de cada um. Cada um tem necessidade de um professor, temos todos nós necessidades
de modelos, de nos identificar com os mestres, assim também acontece na psicoterapia. A
melhor coisa a fazer é não se fechar muito e não ficar em uma única linha.

A senhora tem grande experiência em Psicogenealogia, administra seminários há


muitos anos, é sempre possível descobrir segredos ou acontecimentos que a pessoa
ignorava?

Mantenho os seminários de Psicogenealogia desde 2000, devo ter visto mais de algumas
centenas de genossociogramas. Desnudar as coisas depende da pessoa, do seu grau de
abertura, de sua capacidade de abrir-se para o inconsciente, para essa dimensão desconhecida.
Quanto mais se abre, mais se pode avançar nesse trabalho.
A grande maioria das pessoas que vêm para um trabalho de Psicogenealogia têm essa
abertura mas pode acontecer, como no último seminário, que alguém, depois do primeiro dia,
não volte.

100
Existem pessoas que se enrijecem e resistem a mudanças: existem medos e essas
pessoas se defendem racionalizando ou usado outros mecanismos. Nesses casos,
naturalmente, não acontece nenhuma descoberta, mas é raro, muito raro.
Há um exemplo que me vem agora em mente, não tenho mais os detalhes, mas me
lembro de uma mulher, em cuja família existia um problema ligado à maternidade e à
dificuldade para engravidar: ela mesma havia tido essa dificuldade. Finalmente, na idade já
matura, teve um filho, a gravidez foi difícil, também o parto. Depois que teve seu filho, este
passou por vários acidentes, doenças, enfim, muitos problemas. Ela era originária de uma
família de colonos, estabelecidos na Argélia, de origem alsaciana por um lado; do outro, de
Malta. Ela deu um salto no passado, na história familiar e procurou na história de Malta, um
lugar preciso que estava nos relatos familiares, descobriu que houve um massacre infantil.
Conseguiu chegar até aquela época (a família se instalou na Argélia por volta de 1830 e essa
história, provavelmente, aconteceu no século anterior) e descobrir as origens das dificuldades
para se gerar um filho na sua família.
Tudo isso partiu da intuição e emoções que estavam em uma mensagem do
inconsciente.
Pôde assim encontrar uma implicação de sua família naquele massacre e compreendeu
que era como se os descendentes tivessem que pagar essa dívida contraída pelos
massacradores...
Existem coisas que parecem realmente estranhas e que Jung chamou de sincronicidade.
Por exemplo, uma mulher que tinha na sua árvore genealógica, uma ancestral que suicidou,
jogando-se debaixo de trem. Naquela família, usava-se um pingente com a forma de um trem e
a mesma ancestral que suicidou foi presenteada com essa joia quando nasceu. Depois, a joia foi
repassada por gerações, até chegar às mãos da tal senhora que fez a árvore genealógica e por
fim conheceu toda a história.
Frequentemente se pode seguir a história da família, através das joias: quem as
repassou, a quem e como foram repassadas e o porquê, além do que se sente em relação a um
colar ou a um anel que nos foi dado. As joias de família trazem uma história, como também os
móveis: através deles, podem-se seguir os traços deixados pela história familiar.
Em particular, as joias são simbólicas, contêm uma simbologia muito forte, a pessoa
pode “carregar” algo em relação à joia, além do significado da herança, dos bens adquiridos,
perdidos, doados. Tudo isso permite sentir e ver algumas pistas para a investigação.

Para a senhora, o trabalho do genossociograma, no que se refere à pessoa que


acompanha, é baseado mais na intuição ou é mais importante focar as discordâncias do
relato?

Sem dúvida, é um trabalho de intuição. A maneira como a pessoa desenha o genograma


no papel indica frequentemente que existem erros equiparados a lapsos. Não são mensagens
precisas. Existem erros, omissões e atos involuntários.
Os erros podem se referir a datas, a lugares ou nomes. Podem existir erros na disposição
dos símbolos gráficos e estes são todos elementos muito interessantes para quem acompanha
o trabalho. É preciso estar atento a esse nível de comunicação.

101
As discordâncias, ao contrário dos lapsos ou dos atos involuntários, estão desenhadas
sobre o papel e é dever do psicoterapeuta achá-las para verificar se podem indicar uma pista
na análise sobre os mecanismos familiares que criam os problemas.
Por exemplo, se alguém erra a data, como uma senhora quando me disse: - estamos em
29 de junho 19... Não falou em seguida, mas se tivéssemos a data totalmente errada talvez
pudéssemos entender a razão do erro...
Também pode ser interessante verificar como estão dispostos todos os símbolos sobre
o papel: existem pessoas muito estruturadas que, quando se trata de desenhar ou escrever, o
fazem geralmente de uma maneira ordenada, mas o seu genograma é uma total confusão.
Porque quando desenham a sua árvore, não estão mais no campo do racional; a pessoa
conseguiu relaxar e está mais em contato com o inconsciente.
Outro fato típico é o esquecimento de ligar-se nos símbolos familiares, ou ligar-se
apenas parcialmente aos próprios pais ou não ligar outros parentes aos próprios pais. Outro
exemplo, é o do luto: quando alguém está morto, deveria se fazer uma cruz sobre o símbolo
que o representa, e se a pessoa se esquecer de fazer a cruz, pode-se supor que o luto não tenha
sido feito e que o defunto, não esteja efetivamente morto para quem o desenha no genograma.
Existem também pessoas que se perdem completamente desenhando o esquema, alguns
que não conseguem processar como se desenha um casal, como unir os parceiros, como
conectar os filhos. Podem ser pessoas que têm problema de se posicionarem por não saberem
qual o seu lugar na família. Essa dificuldade vem reproduzida simbolicamente ao desenhar sua
árvore genealógica.
Se for um bom momento, o “terapeuta acompanhador” pode insistir nisso: depende de
sua intuição saber se é ou não um bom momento para intervir.
Lembro-me de uma pessoa que era muito ligada à bisavó (três gerações) e toda vez que
falava de si mesma, ao invés de mostrar o círculo que a simbolizava, mostrava o da sua bisavó.
Percebeu-se, então, que, na sua vida, ela reproduzia muitas coisas daquela pessoa, coisas as
quais nunca havia prestado atenção, antes desse lapso. Por outro lado, antes desse trabalho, ela
não conhecia nada da história de sua família, porque quase não era falado. Graças ao seminário
de Psicogenealogia, pôde reencontrar sua família. Os seus parentes não mantinham mais
contato com suas origens e assim não transmitiam suas histórias. Ela reencontrou primos,
contatou-os e conheceu sua história familiar, e isso a fez sentir-se melhor.

Acontece com frequência pessoas virem para os seminários de Psicogenealogia, não


conhecendo a história da própria família?

Oh, e como! Evidentemente as pessoas intuem que existam não-ditos: se não se fala da
história familiar, isso quer dizer que há segredos. Mas essas pessoas estão em contato com seus
inconscientes, encontram pistas investigativas e respostas. É extraordinário ver a quantidade
de informação que chegam a encontrar, a partir de uma peregrinação através de lugares de
origem da família, fazendo pesquisas de arquivo.
Lembro-me de uma pessoa que partiu para uma viagem, para encontrar os arquivos da
cidade de origem: percorreu diversos lugarejos, seguindo a sua intuição. E, uma noite,
encontrou-se em um hotel, sem saber bem o porquê de estar lá. Nesse hotel, teve um sonho

102
muito particular, sonho este que lhe deu algumas indicações sobre sua família e o fato de haver
um filho ilegítimo com uma mulher vietnamita. Viajou, depois, para o Vietnã para procurá-lo.
É dessa maneira que procuramos a história familiar: abrindo portas dentro de nós que
estavam fechadas.

6.4 – Psicogenealogia e o mundo do trabalho

Anne Ancelin Schützenberger, em seu livro, Psychogénéalogie (Psicogenealogia), escreve


que não se entra em uma família por acaso. A escolha do parceiro está ligada às transmissões
transgeracionais, assim como acontece com a empresa onde se trabalha, principalmente se o
trabalho dura muitos anos.
Muitas vezes, uma mesa de reuniões empresarial lembra aquela familiar, e os papéis
propostos são praticamente os mesmos que cada um tem na própria família: a vítima, o bode
expiatório, o líder, o bom e o mau, etc.
Acontece, assim, reproduzir, no ambiente de trabalho, os relacionamentos que as
pessoas têm ou tinham em família: as relações com o chefe são idênticas àquela com um pai
autoritário (submissão frustrada ou rebeldia velada, disfarçada), a promoção de um colega faz
reviver dolorosamente a inveja por um irmão predileto, um chefe se torna insuportável,
porque lembra sua mãe e cada encontro, com essa pessoa, provocará sentimentos e
comportamentos automáticos, já profundamente enraizados na pessoa desde a infância.
Conseguir identificar a sobreposição do passado e presente é importante para se ter,
dentro de uma empresa, relacionamentos adultos e independentes dos papéis familiares. Essa
é a condição indispensável para ser você mesmo e ter uma comunicação mais eficaz com os
outros.
A empresa assemelha-se muito a uma família de antigamente, na qual o pai-patrão era
indiscutivelmente uma figura carismática, a cada um era mandado assumir a própria função, as
próprias responsabilidades, sem discutir e sem demonstrar os próprios sentimentos.
Segundo Bernardette Picaro, em Psychogénéalogie pour em fini avec l’emprise du stress,
o excessivo controle e o perfeccionismo, que são exigidos numa empresa, reforçam
frequentemente os reflexos e os mecanismos de defesa infantil que produzem o estresse. Além
disso, a comunicação e a evolução ficam bloqueadas (o estresse suga a energia da pessoa) e,
por causa desses mecanismos, a pessoa não consegue expressar o melhor dela mesma. É
inegável que uma empresa funcione melhor, quando seus colaboradores conseguem superar as
dinâmicas que freiam suas capacidades, então é do interesse da empresa, ter um trabalho
centrado, esclarecendo os papéis e as relações no seu ambiente.
A Psicogenealogia, como as Constelações Familiares, permite clarear as dificuldades e os
bloqueios que as pessoas vivem no local de trabalho, em relação às repetições transgeracionais
que podem impedir a total satisfação do indivíduo.
No que se refere, em particular, ao problema dos bloqueios emocionais, que impedem o
sucesso no trabalho ou o pleno desenvolvimento das próprias potencialidades, algumas são
consideradas relevantes do ponto de vista da análise transgeracional:
a) A educação adquirida (carências afetivas, narcisismo e sentimentos de falta de
valor).

103
b) A dependência afetiva e financeira na idade adulta (chamada também de incesto
econômico).
c) As lealdades familiares inconscientes (os comportamentos de sabotagem, os
mecanismos de perdedor).
d) A injustiça na família (desigualdade das possibilidades, injusta repartição de herança
familiar, etc.).
A educação recebida durante a infância é importante porque, como já vimos, na vida
adulta são reproduzidos os comportamentos infantis, projetados sobre os superiores e colegas,
as figuras que foram importantes no nosso desenvolvimento emocional.
Como explicam os psicanalistas, o dinheiro é um símbolo equivalente ao amor e se
alguém se sentiu amado e valorizado no seu âmago, o sentimento de segurança lhe permitirá
ocupar o seu lugar e ter sucesso em qualquer circunstância.
A noção de sucesso pessoal é muito subjetiva e refere-se à obtenção de objetivos e
realização, com coerência ou não de suas aspirações.
Essa segurança nasce por ter o indivíduo vivido os primeiríssimos anos de idade em
situações de segurança afetiva e satisfação emocional com os pais ou outros personagens
importantes que souberam transmitir segurança e amor. Mas também, ter tido educadores que,
desde a mais tenra idade, souberam ajudar a criança a se relacionar e a superar seus limites,
permitindo que a transição da fase do prazer infantil para a vida adulta, fosse sem dificuldades.
Os limites estruturantes, impostos pelos pais, são fundamentais para a pessoa aceitar as
regras sociais de convivência e os próprios limites e, portanto, a base para uma boa integração
futura no ambiente de trabalho.
Em contrapartida, um sentimento de desvalorização, nato na infância devido à falta ou à
pouca atenção dada pelos pais, ou pelos outros em geral, terá uma incidência notável sobre o
possível sucesso social e econômico.
É como se o escasso valor recebido, quando criança, tivesse sido introjetado para ser
leal na relação com os pais: ou seja, se não me amaram, não foi porque eram limitados, mas
porque eu não era digno, porque sou um incapaz e não tenho direito ao amor dos outros.
Quando a criança não encontra na família aquilo de que precisa, é arriscado que isso lhe
cause um bloqueio por toda a vida em uma contínua procura de segurança, que o manterá
dependente dos outros, devido às dúvidas sobre suas reais capacidades de autonomia.
Alguns pais que sofreram carências desse gênero tenderão a superproteger os próprios
filhos, tornando-os, também, dessa maneira, dependentes e incapazes de conseguirem uma
verdadeira autonomia. Nesse caso, o padrão de incapacidade é transmitido de geração a
geração pela fidelidade invisível.
A criança superprotegida duvidará de suas competências pessoais, profissionais e
sociais, uma vez que não pode experimentar as próprias capacidades no dia a dia de sua vida.
Esse cenário hereditário torna-se mais que normal nessa descendência familiar, a ponto
de tornar a procura pela autonomia, dentro dessa família, uma grande traição.

“Um padrão de dependência desse gênero pode provocar no adolescente e no adulto,


desajustes sociais, fobias, crises de pânico: desse modo, sua vida social, profissional e amorosa fica

104
invalidada. A constante procura por pessoas ou por sistemas com traumas, falências, rejeições, e
estresse, acontecerão no decorrer de toda a sua vida.”101

Também na criança “parentificada” (referente ao termo parentificação), da qual, como


vimos no capítulo sobre lealdade invisível de Boszormenyi-Nagy, foi atribuído o papel de pai
para um pai incapaz de assumir a sua função, o preço a pagar é uma permanente situação de
estresse quando adulto. A criança que, por lealdade ao pai, sacrifica sua infância assumindo um
papel que não lhe compete e que, uma vez adulto, não percebe essa falta de segurança que veio
da base, o sofrimento não reconhecido e consequentemente não expresso, pode se transformar
num adulto com estresse crônico, ansiedade, fadiga permanente.
É importante reconhecer a criança que sofre dentro do adulto imaturo e procurar fazê-
los crescerem. Ao realizar-se uma Constelação Familiar sobre essa problemática, é preciso
agradecer a essa criança pela sua paciência e seu sacrifício.
No genossociograma temos a possibilidade de apontar todos esses eventos, sem que se
torne razão encontrar um “culpado”: concretamente, pode-se ver que quem não teve uma
relação equilibrada com os pais, esses pais, por sua vez, também passaram pela mesma
situação, e assim por diante... Não existem culpas, mas somente fatos ocorridos que
determinam mais ou menos comportamentos adequados ou inadequados.
No que tange à dependência emocional e financeira, já na idade adulta (ponto b), pode-
se dizer que seja um problema atual que impeça os jovens de terem uma relação mais
adequada com as próprias capacidades profissionais e de trabalho.
As noções de apego e desapego são fundamentais na educação: Voltaire dizia que a
educação deve ter como objetivo a autonomia do jovem. A crise econômica e a fragmentação da
sociedade fazem o individuo se sentir cada vez mais só, provoca nos pais uma necessidade
imensa de mantê-los o maior tempo possível em casa, frequentemente, a todo custo,
prejudicando assim a capacidade de se distanciarem para construir suas próprias famílias.
Não é raro perceber pessoas com mais de trinta anos que dependam totalmente dos
pais, seja por questões econômicas, seja pela condução de suas próprias vidas (lavar sua
própria roupa, cozinhar, etc.). Não é somente um comportamento ligado à crise econômica: no
passado, nos ambientes de operários, os filhos ficavam em casa com os pais até que se
casassem. Se por razões econômicas, esse casamento sempre era adiado, davam parte do que
recebiam para ajudar seus pais no seu próprio sustento e ajudavam em casa.
Atualmente, acontece que os filhos, mesmo depois de deixarem a família, obtêm
dinheiro para satisfazer as próprias necessidades ou continuam a fazer visitas aos pais pelas
necessidades contingentes.
Essa confusão de papéis, fortemente desejada pelos pais e à qual os filhos se adequam
por preguiça, é chamada de “incesto econômico”.
O ponto c refere-se à lealdade inconsciente, da qual já falamos no capítulo relativo às
lealdades invisíveis e neuroses de classes.

________________________________________________________
101 B. Picazo, Psychogénéalogie pour en finir avec l’emprise du stress, pag. 90

105
Resumindo: por lealdade inconsciente, o filho não pode superar o pai, padecendo de um
sentimento de culpa permanente que pode provocar comportamentos classificados como
derrotas contínuas.
A autossabotagem também é atribuída à lealdade familiar: a criança da família “cigarra”
(dilapidadores, consumidores compulsivos), quando adulta não poderá ficar sem gastar até o
último centavo ou não fazer as contas, jogar em cassinos, para evitar ter qualquer reserva que a
torne diferente dos outros de seu sistema familiar.
Ao contrário, uma família “formiga” (economizadores e trabalhadores incansáveis),
educa mais facilmente as pequenas formigas que terão uma relação “anoréxica” com o dinheiro
e terão sempre medo da falta, mesmo vivendo no conforto.
Outra grande fonte de dificuldade transgeracional é, como vimos no caso de Mariolina, a
emigração. Deixar o próprio país, a própria língua, os próprios costumes, os pais e toda a
família, provoca uma perturbação profunda em todo o sistema familiar. Instalar-se em outro
lugar e adaptar-se ao desconhecido é fonte de angústia, ansiedade, sofrimento.
Frequentemente esses sentimentos, na urgência da adaptação, são removidos. Mas
esses acontecimentos, não elaborados, são transmitidos para as gerações futuras que seguem
induzindo sentimentos de insegurança de base e hiperassimilação ou, ao contrário, rebeldia e
não integração.
Até mesmo a transmissão injusta ou a exclusão da hereditariedade (ponto d), é um dos
fatores que podem determinar alguns abalos existenciais nos descendentes.
As heranças são transmissões simbólicas da energia vital de uma estirpe: impedir sua
justa circulação pode criar um verdadeiro curto circuito na evolução da família.
Independentemente da fortuna transmitida, a divisão injusta ou exclusão da herança
podem produzir graves conflitos, porque coloca em discussão os valores e o posicionamento
afetivo concedido a cada membro.
Se nos descendentes dos “favoritos” se transmitirá um sentimento de culpa inconsciente
por ter infringido o pacto de lealdade com os outros membros, e eventualmente os
comportamentos de autopunição; para os sucessores dos “excluídos”, eventualmente serão
constatados diversos impedimentos para o que se refere ao sucesso e à relação com o dinheiro.
Em particular, podem ser reproduzidas opiniões já fortemente enraizadas de que eles não
tenham direito a prosperar.
Essas questões devem ter uma especial atenção quando se propõe desenvolver o
trabalho de Psicogenealogia dentro de uma empresa, pois esse trabalho permite desmanchar
os nós psicológicos que geram estresse, impedindo a pessoa de se sentir mais satisfeita e livre,
enfim, trabalhar melhor.
O estresse é um enorme fator de impedimento da plena utilização dos recursos
humanos. Na França, foram feitos estudos específicos sobre o estresse e o trabalho. Ficou
evidente como o estresse mata um dependente por dia.
A Agência Europeia pela Saúde e a Segurança do Trabalho define o estresse trabalhista
como “aquilo que se produz quando existe desequilíbrio entre a percepção que a pessoa tem das
obrigações que lhe são impostas e a percepção que tem de seus recursos para cumprir essas
obrigações”.

106
Pelo código deontológico, os empregadores deveriam ter a obrigação de avaliar todos os
riscos da empresa, inclusive os psicossociais; deveriam, portanto, preservar a saúde física e
mental dos seus funcionários.
Mesmo na falta de uma obrigação moral e jurídica, a empresa deveria levar em conta o
importante custo econômico, causado pela ausência, pela perda de produtividade e pela
rotatividade que são consequências do estresse das pessoas que ela emprega.
Carregar os fardos e as criptas das gerações passadas, isto é, conservar os traumas
vividos pelos antepassados, repetindo as situações de falências, de doenças, de perdas, de
separações e de vergonha é algumas das causas do estresse que consome grande energia
psíquica e física.
Carregar os “pesos” dos outros perturba gravemente o sistema de equilíbrio dos
indivíduos. É um fator de estresse que consome energia, obrigando a uma resistência
permanente. É um obstáculo na realização da pessoa.
A energia bloqueada ao se carregar as “malas” dos outros, e que são carregadas sem
mesmo se ter consciência, espera pelo momento de ser liberada. Poder liberar as forças
bloqueadas em função de manter os não-ditos, os segredos, os traumas e os cenários herdados
é a finalidade do trabalho de Psicogenealogia.

6.5 – Segredos de família – O congresso de Avignon

Reporto-me, aqui, o um resumo do congresso que foi desenvolvido no Palácio dos Papas
de Avignon e que teve como título: “De uma geração para a outra: segredos, repetições,
transmissões e resiliência.” Na imponente moldura da sala do Concílio, 400 pessoas puderam
participar do congresso que teve como relatores psicoterapeutas do nível de Anne Ancelin
Schützenberger, Boris Cyrulnik, Guy Asloos, Catherine Du-commun-Nagy e Mony Elkaim.
Anne Ancelin Schützenberger abriu os trabalhos do congresso em vídeoconferência
devido à sua precária condição de saúde (93 anos), com o tema Reconquistar a nossa liberdade
e sair da repetição.
Introduziu falando dos segredos geradores dos problemas que se repetem de geração
em geração. “Existe um péssimo hábito nas famílias: acreditar que é possível se manter um
segredo, e que tudo o que for triste não se deve comentar. Assim, não se levam as crianças aos
funerais, não se relata a elas sobre a morte do avô ou da avó. Esconde-se o que é considerado
triste, mas por tudo o que se é escondido, as crianças procuram apaixonadamente. Imaginam e,
naturalmente, o imaginam muito pior que a realidade”.
Mas como descobrir os segredos que, em diversas gerações anteriores, alguém
escondeu e que provocam transmissões transgeracionais patológicas?
Anne Ancelin propõe, antes de tudo, contextualizar a história familiar em relação ao
tempo e à cultura. Os segredos nascem da vergonha, esconde-se aquilo que é considerado
reprovável, indigno pela sociedade na qual se vive em determinada época.
Por exemplo, a convivência fora do casamento, não é mais considerada um
comportamento escandaloso na nossa sociedade (ainda que não seja igual em todos os
lugares), enquanto somente 20 anos atrás, era considerado um ato reprovável e difamador

107
para uma mulher. Assim como não é preciso mais esconder um nascimento fora do casamento,
a homossexualidade ou certas doenças como a tuberculose, etc.
Os segredos transgeracionais, que em geral são discutidos em Psicogenealogia, são,
segundo Anne Ancelin: furtos, violência sexual, incestos, passagens por hospitais psiquiátricos
e presídios, homicídios, doenças “vergonhosas”, falências, fraudes e filhos extraconjugais.
Conhecer a própria história familiar e aceitá-la como é, serve para se alcançar a
liberdade.
Nas famílias, em quase todas elas, existe aquilo que Anne Ancelin definiu como “a
síndrome da batata quente”: aquilo que passa de mão em mão, queimando todas as gerações,
até que alguém decida saber qual a origem da “batata quente”, metáfora do segredo
inconfessável.
Em certa geração, todos conheciam o segredo, mas estavam de acordo em escondê-lo: o
“segredo de Pulcinella”* se torna verdadeiramente secreto, para a geração sucessiva.
Segundo André Maurois, o “segredo de Pulcinella” frequentemente é o mito fundador
(estrutural) da família: todos sabem que todos sabem, mas todos são coniventes em não
divulgá-lo.
Para se descobrir o segredo é necessário fazer as perguntas certas para a pessoa da
família que o esconde, quem sabe por muitas gerações, um segredo que se transformou em um
fantasma.
As perguntas são: quem, o quê, onde, como, quando.
A pergunta direta permite ao inconsciente manifestar-se, porque, na realidade, as
respostas estão conosco, vêm da memória coletiva, assim basta engatilhar o processo de
conexão com essa memória. É importante que as coisas sejam nomeadas, que sejam ditas e
ouvidas; isso é fundamental para a cicatrização e para reencontrar a si próprio.
Segundo Anne Ancelin somente a verdade é a verdade do corpo, e, se a pessoa se sente
melhor, depois de ter feito os atos simbólicos, isso significa que a memória corpórea foi tocada.
Bluma Zeigarnik, em 1928, em Berlim, falou pela primeira vez sobre tarefas
interrompidas ou incompletas, como vimos no capitulo dedicado à Anne Ancelin. Quando uma
tarefa é concluída, torna-se possível ir além, virar a página. Mas se a tarefa fica incompleta ou é
interrompida, torna-se muito difícil superar o problema e continua-se a “ruminá-lo”.
Um exemplo é o luto que não se conclui nunca e que se transmite de geração em
geração. Normalmente a elaboração do luto dura de 3 a 6 anos.
A propósito disso, Freud escreveu em “Lutto finito e lutto infinito”: se o luto não se
conclui em tempo razoável, torna-se necessário um percurso de pesquisa para entender o que
impede a pessoa de viver plenamente a sua vida. Também o luto inacabado por um trauma é
considerado uma tarefa não concluída, transmitida de geração em geração, até que se faça um
luto simbólico.

________________________________________________________
*Nota do tradutor: Segredo de Pulcinella é uma expressão da língua italiana usada para indicar um segredo que na verdade se tornou de domínio
público, apesar das tentativas para mantê-lo escondido e, mais genericamente, o termo também pode ser usado para apontar o óbvio.

108
Catherine Ducommun-Nagy, esposa e colaboradora de Ivan Boszormeny-Nagy, morto
em 2007, foi a segunda relatora do congresso.
Terapeuta suíça, de orientação contextual como Anne Ancelin Schützenberger,
Catherine Ducummun-Nagy apresentou uma relação sobre as lealdades invisíveis, partindo dos
conceitos de ética relacional, homeostase do sistema (resistência à mudança) e autonomia.
Como já vimos no capítulo dedicado à lealdade invisível, a ética relacional familiar se
baseia na fidelidade às leis explicitas e implícitas, estabelecidas na família. O homem é
programado para prestar “contas” relacionais: ser capaz de contar com a confiança do outro foi
vital para a sobrevivência do homem primitivo, e a distribuição equitativa permitiu que cada
um pudesse dar a sua contribuição para a sobrevivência da espécie.
A ética relacional baseia-se naquilo que damos aos outros e naquilo que recebemos em
troca, porque aguardamos reciprocidade e justiça nas nossas relações. Segundo Catherine
Ducommun-Nagy, essa espera é uma característica determinante do nosso funcionamento
psíquico e social.
A lealdade é uma noção que prevê sempre um excluído e até que não se é obrigue
escolher a quem se deve ser leal, isso não é visível.

Pode-se classificar a lealdade como:


 lealdade direta: por exemplo, nas eleições voto no meu partido;
 deslealdade: voto em outro partido;
 lealdade indireta ou invisível: fico em casa durante as eleições e não voto em ninguém,
porque não estou de acordo com o meu partido.

Por exemplo, por lealdade direta com a sua família de origem, a criança adotada pode
rejeitar os pais adotivos; diz-se então, que foi criado um conflito de lealdade.
Para a família, a lealdade é implícita, não se manifesta, a não ser quando se cria uma
contraposição com outros grupos e serve ao sistema para manter o seu equilíbrio
(homeostase). Cada família cresce e se desenvolve em um contexto social, cujas regras gerais
são aceitas. Mas é vital para a sua sobrevivência, como sistema autônomo, que seja
diferenciada para não ser englobada nos outros sistemas. Defende-se então, procurando
manter as suas regras internas e opondo-se a cada mudança que possa provocar o seu
desaparecimento (processo homeostático).
Os jovens que se distanciam da família para alcançar a autonomia que lhes permitirá
formar um novo grupo familiar, vivem, necessariamente, um conflito de lealdade que pode
tornar-se mais ou menos patológico segundo a capacidade da família de adaptar-se às novas
exigências.
C. Ducommun-Nagy propõe uma reflexão sobre o paradoxo da autonomia: a noção do eu
existe em relação a um não eu, o eu existe porque existe um tu, o outro; mas a definição de
autonomia individual prevê a capacidade de existir sem o outro. Isto é, sem o tu.

Mony Elkaim conduziu a simulação de uma intervenção sistêmica com uma família
portadora de segredos. Foram escolhidos alguns voluntários para “encenar” os papéis de uma
família de cinco pessoas: pai, mãe, duas filhas e uma avó materna. O público e Elkaim não

109
sabiam que o segredo tratava-se da avó que tinha sofrido abusos por parte do pai na mesma
idade (12 anos) em que a neta tinha começado a sofrer distúrbios de comportamento. Todos
representaram perfeitamente seus papeis, demonstrando que, como dizem os terapeutas
sistêmicos, cada pessoa, no interior do sistema familiar, se comporta em função de seu papel.
No final, Elkaim descobriu o segredo, apesar dos esforços da “família” para escondê-lo. Mas o
fato mais interessante foi outro segredo inesperadamente descoberto: um dos participantes da
simulação tinha realmente sido abusado pelo pai. E isso demonstrou, mais uma vez, a força que
a terapia de grupo tem, permitindo fazer aparecer os segredos mais difíceis de serem contatos.
Elkaim explicou que a função do segredo é, quase sempre, a de manter o equilíbrio, a
homeostase familiar. Frequentemente, na terapia, a família defende arduamente o segredo,
mesmo sabendo que pode ser ele a razão dos seus problemas: verbalmente diz que não existe
nada a dizer, mas os sintomas mostram o contrário. Por lealdade transgeracional, a criança ou
o adolescente torna-se o portador do sintoma, desse modo descarrega o excesso de tensão que
o segredo cria na família.

Guy Ausloos, em sua apresentação, deu ao segredo uma definição paradoxal: o segredo
é a proibição do conhecimento como objeto mantido escondido, mas, ao mesmo tempo é
também uma proibição de esquecer, devido à patologia que produz, transmitida através das
gerações.
O exemplo mais conhecido é o de Édipo.
Laios, rei de Tebas, pai de Édipo, antes do nascimento de Édipo, se refugiou em Corinto,
por causa de uma conspiração e lá seduz o filho do rei que o tinha hospedado.
Quatro segredos estão presentes na história de Édipo:
- a culpa do pai que seduziu o filho de um amigo que o hospedou e da qual nasceu
a maldição que previa que o primeiro filho homem mataria o pai e se deitaria
com a mãe;
- a decisão secreta de Laios de matar o filho;
- o segredo do escravo que deveria matar Édipo por ordem de Laios e que o salva;
- a adoção de Édipo: Édipo não sabe que foi adotado.
São esses segredos que criam os pré-requisitos, para a tragédia de Édipo.
Para Guy Ausloos, pode-se dizer que, em geral, os segredos criam a força do mito. Os
segredos nos fazem agir: podem empurrar os filhos para ações fora da família, para serem
capazes de verbalizar os segredos, no interno da mesma. Isso acontece com as garotas que
engravidam muito jovens, principalmente nos Estados Unidos. Aí aparece a pergunta, se os
abortos das mães, não revelados e mantidos como segredos, não teriam levado as filhas
adolescentes a tornar visível o invisível e reparar com isso o luto não feito, já que foi removido
e assim mantido em segredo até mesmo para quem o viveu.
O segredo nasce da vergonha que, como disse também Anne Ancelin Schützenberger,
está ligada aos costumes de uma época histórica. O segredo nasce da vergonha e dos
sentimentos de culpa inconfessáveis. Pelo medo de perder o amor, como no caso de pais
adotivos. Ou por medo da punição (furtos, homicídios). Por medo de serem excluídos, como
pela AIDS. O sofrimento é, enfim, gerador de segredos, mas existem também aqueles que
servem para selar as alianças, como por exemplo, a máfia ou outra organização criminal.

110
O direito ao segredo (privacidade) é fundamental para o desenvolvimento do ser
humano desde a infância, pois cria um limite entre ele mesmo e os outros. Ajuda a superar a
simbiose inicial com a mãe e protege das intrusões de todos os tipos.
A diferença entre o bom segredo formador e o mau segredo patológico é que o primeiro
tem a função protetora, enquanto o segundo tem uma função destruidora da psique do
individuo. E se torna patológico quando, como diz Serge Tisseron: “deixamos de ser os
guardiões para tornar-nos prisioneiros”.
Os segredos são áreas de não comunicação, de estagnação relacional, fechamento de
fronteiras com o resto do mundo. As famílias com segredos visitam pouco os outros, as
crianças quase não saem de casa.
O segredo é um conteúdo que não pode ser transmitido e não pode ser compartilhado. A
diferença entre segredo e o não-dito é que o não-dito todos conhecem e estão de acordo em
não tocar no assunto; enquanto o segredo, alguém realmente não o conhece nem sabe que ele
existe.
Segredo: minha esposa não sabe que eu sei que meu filho não é meu filho.
Não-dito: papai é um alcoólatra, todos sabem mas ninguém comenta.

Boris Cyrulnik concluiu o congresso fazendo uma relação entre segredos e resiliência.
Boris Cyrulnik psiquiatra, neurologista, etnólogo e psicanalista, prendeu a atenção não
só dos adeptos a esse trabalho, mas também do grande público quando introduziu a noção de
resiliência.
A palavra resiliência vem do latim risalire que significa emergir, retornar. É usada na
Física para definir a capacidade de um metal para retornar a sua estrutura original após um
golpe.
Em Psicologia, é a capacidade que certas pessoas têm de desenvolver e progredir em
condições, particularmente, adversas, de sair dos traumas e das próprias feridas, de renascer
de seus próprios sofrimentos.
A resiliência, como fator psicológico, foi descoberta por Boris Cyrulnik a partir da sua
experiência quando ainda era criança e hebreu na França invadida pelos nazistas. Depois de ter
perdido toda a sua família após uma emboscada inimiga, esconde-se em uma casa onde
sobrevive a duras penas, até que é descoberto por uma piedosa senhora que o salva.
Crescendo, torna-se psiquiatra e estuda os relatos das experiências das pessoas que
foram mantidas nos campos de concentração: porque algumas pessoas morreram e outras, nas
mesmas condições, não somente sobreviveram, mas conseguiram transformar o trauma em
força e superação?
Deu, então, o nome de resiliência a essa atitude, que existe nas crianças e também nos
adultos, de superar um trauma fazendo de um acontecimento dramático, ocasião para emergir
a própria potencialidade. É uma característica que se pode adquirir também quando ainda
pequeno, depois de ter vivido dramas inenarráveis, graças a uma pessoa que oferece a mão
com amor, dando ainda confiança e encorajamento, tornando-se assim uma espécie de “tutor
da resiliência.”

111
As crianças que foram maltratadas pelos pais não se tornarão pais agressores, por sua
vez, se encontrarem adultos que os ajudem a desenvolver um amor seguro e que lhes permita
favorecer uma evolução resiliente.
Um exemplo, o de Bill Clinton que, apesar da violência do segundo marido de sua mãe,
pôde desenvolver um caráter normal e se tornar até presidente dos Estados Unidos, graças ao
afeto de sua mãe e de seus avós paternos, além de outras pessoas que estiveram com ele, nas
numerosas associações esportivas, musicais e culturais.
Mas para que isso aconteça, para que o fenômeno da resiliência possa ser engatilhado, é
necessário que o trauma ou o evento dramático não seja escondido, não entre na lista dos não-
ditos, tornando-se mais tarde um segredo inconfessável, fazendo com que a pessoa e os seus
descendentes estejam obrigados a carregar.

Genossociograma simplificado da transmissão transgeneracional de um segredo

112
CONCLUSÃO

Este livro nasceu da necessidade de esclarecer a gênese dos numerosos e


surpreendentes fenômenos que vivi nestes meus anos de trabalho com a Psicogenealogia e as
Constelações Familiares.
Como entender as transmissões transgeracionais dos segredos e traumas de família, se
não admitirmos a existência de uma memória inconsciente das histórias familiares que são
transmitidas de geração em geração, permanecendo, assim, numa parte inconsciente e coletiva
da nossa psique?
Por que as pessoas têm perturbações, dificuldades inexplicáveis e, quando desenham o
seu genossociograma, descobrem sempre as repetições de cenário, de datas, de acidentes e de
segredos, aparentemente esquecidos, mas relacionadas ao seu sofrimento?
Devemos sempre imputar ao acaso, se durante o trabalho de Psicogenealogia aconteçam
certas particularidades, alguns lapsos, insights, fatos inesperados, algumas coincidências que
nos ajudam a clarear, de fato, a história familiar em que estamos trabalhando?
Como explicar que, durante o desenvolvimento de uma Constelação Familiar, as pessoas
provem emoções e sensações que não têm nenhuma relação com a situação atual de cada um?
Como lidar com as emoções e sensações que foram vividas por seus antepassados, ou ainda por
outros familiares das pessoas as quais a constelação está representando?
Outro fato que me fascina sempre é falar da transmissão transgeracional dos traumas
com alguém que não conhece o assunto e ver que este adere, imediatamente, à ideia.
Mesmo os mais céticos, quando falo que, na base da Psicogenealogia, existe a hipótese
de que as dificuldades que vivemos no presente, têm origem na história de nossos
antepassados, compartilham sem duvidar dessa ideia. Na realidade, frequentemente,
consideram isso óbvio.
Por que uma coisa desconhecida, como a transmissão implícita entre gerações, tem uma
aceitação imediata nas pessoas, mesmo para aquelas mais incrédulas ou totalmente ignorantes
nessa matéria? De onde vem essa certeza?
Como são transmitidos tais conteúdos?
Por que durante uma Constelação Familiar, atos inexplicáveis, mas interligados, de uma
certa maneira, com a história que está sendo encenada, acontecem?
O que fazem os segredos de família determinar a nossa vida?
A hipótese da existência, dentro de nós, de uma parte desconhecida que define a nossa
parte consciente, foi proposta por diversos séculos. A Psicanálise de Freud, durante mais de
cem anos, fez disso o foco da cura para os distúrbios psíquicos.
Mas o inconsciente proposto por Freud, limitado somente à remoção das experiências
pessoais não é suficiente para explicar a existência desses fenômenos. Freud mesmo já havia
percebido e refletido sobre a existência de uma instância coletiva, transmitida de maneira
inconsciente (herança arcaica), mas preferiu concentrar-se, totalmente, na concepção de que
somente a libido sexual seria o motor da ação humana.

113
Tinha razões “históricas” para fazer essa escolha: no século de Freud, a sexualidade era
um tabu, até mesmo no ambiente clínico. As doenças como a histeria, só teriam cura caso os
pacientes fossem internados em manicômios.
Jung foi mais longe à elaboração de uma teoria sobre o funcionamento da psique e
postulou a existência de um inconsciente coletivo, além do individual.
Infelizmente, ele foi muito hostilizado pessoalmente, nos ambientes psicanalíticos: não
lhe perdoavam por ter “matado” o pai (Freud). Esse isolamento influenciou, de certa maneira,
até mesmo Anne Ancelin que não se aprofundou mais sobre a linha (matriz) junguiana da
Psicogenealogia.
A teoria de Jung sobre o inconsciente coletivo e a sincronicidade nos mostra que a nossa
psique não é composta somente de experiências pessoais ou repressões, mas, também por
conteúdos que pertencem às experiências de toda a humanidade.
Segundo essa concepção, na psique humana está registrada também a história de nossa
família, os sentimentos que os nossos precursores viveram, bem como os traumas e os
sofrimentos, assim como estão registradas, no nosso corpo, as características físicas herdadas
de nossos ancestrais.
Essa memória familiar faz parte daquilo que Jung chamou de inconsciente coletivo. Além
disso, ampliou o conceito de consciente, falando de uma relação entre este e os fatos que
acontecem conosco; chamando-o de fenômeno da sincronicidade.
Moreno pôde constatar na prática que o inconsciente não é somente formado por
experiências pessoais, mais ou menos reprimidas, mas que é também uma relação entre
pessoas: nas sessões de Psicodrama, (assim como naquelas da Constelação Familiar), um co-
inconsciente liga cada individuo e faz agir. É essa entidade que pude ver em ação, durante as
sessões de Psicogenealogia e Constelações Familiares, onde as pessoas “declamam” uma parte,
sem conhecimento do script; mas seguindo um roteiro, do qual não conhecem nada.
Esses inacreditáveis fenômenos foram testados até o presente por um número
significativo de pessoas e resumidos nas diversas teorias, as quais registrei neste livro.
De Jung a Freud, de Françoise Dolto a Bert Hellinger, passando por Dumas, Abraham,
Torök, Moreno, Sheldrake, Boszormenyi-Nagi e muitos outros que não citei, todos concordam
com a existência de uma transmissão psíquica multigeracional que explica o começo dos
distúrbios e dificuldades na vida presente das pessoas.
Esses terapeutas verificaram em suas práticas, com milhares de pacientes, que os males
dos quais estes sofriam, tinham estreita relação com os traumas psíquicos vividos por seus
antepassados.
Françoise Dolto, por exemplo, falou dos débitos inconscientes dos pais, assim como dos
efeitos patológicos do passado dos pais e avós, que são expressos por sofrimento das crianças.
O seu enunciado: “são necessárias três gerações para fazer uma criança psicótica” é a coluna,
tanto da abordagem sistêmica familiar quanto da Psicogenealogia.
Didier Dumas, seu aluno e discípulo, desenvolveu esse argumento, dizendo que a “falta
de palavras” dos antepassados, torna-se uma “árvore inimaginável” para os descendentes.
Aquilo que foi calado, mantido em sigilo por um bisavô, pode tornar-se para um bisneto um
distúrbio, cuja razão fica incompreensível, por ser não só desconhecida, mas também
impensada.

114
Abraham e Torök inicialmente haviam analisado o problema das patologias, geradas a
partir de traumas e não-ditos dos antepassados. Os dois psicanalistas postularam a existência
de uma “cripta” na psique, a cisão do eu, causada por lacunas criadas pela ocultação dos
acontecimentos traumáticos vividos por um antepassado.
Essa cripta é habitada por fantasmas, um trauma-fantasma, que é transmitido de
geração em geração.
Contemporaneamente os estudos de Boszormenyi-Nagy sobre ética familiar mostram
que os débitos e os méritos dos antepassados são transmitidos de geração em geração. Temos
um “livro de contas familiares” que carregamos dentro de nós e onde está escrito quem é
credor e quem é devedor.
Moreno, com a técnica do Psicodrama, pôde verificar “em campo” a existência de um elo
inconsciente entre as pessoas e as situações. Esse fenômeno, utilizado também por Bert
Hellinger no seu método das Constelações Familiares, é o mesmo que eu também pude
constatar e vivenciar nas minhas experiências, a partir do primeiro relato neste livro, com as
abordagens transgeracionais.
Durante as sessões das Constelações Familiares e de Psicodrama, cria-se uma ligação
particular entre o inconsciente da pessoa e a sua memória familiar (inconsciente coletivo) e
entre o inconsciente da pessoa e dos outros participantes (co-inconsciente e sincronicidade).
As experiências desses terapeutas nos reportam à pergunta inicial: por qual mecanismo
psíquico as pessoas, no desconhecimento da história familiar, sofrem dos distúrbios e das
dificuldades, relativas aos traumas e aos segredos dos antepassados?
Como é possível que os desconhecidos possam recitar, com tanta precisão, o papel de
quem não sabem (conscientemente) nada?
O inconsciente coletivo de Jung e a sincronicidade são ainda as teorias mais
convincentes para explicar esses fenômenos, mesmo a luz dos campos mórficos propostos por
Rupert Sheldrake.
Pensar que seja uma “mágica” é muito sugestivo, mas não ajuda a ir além da
compreensão ligada à fatalidade. Continuando a pensar que é algo “externo a mim” que faz
com que as coisas aconteçam, não procurarei nunca “dentro de mim” o caminho para modificá-
lo.
Retorna-se, assim, aos ensinamentos de Jung que propõe levar para a consciência o
inconsciente. As duas instâncias se equilibram e, em seguida, quem guia (o consciente) torna-
se aquele que será guiado (pelo inconsciente).
Minha opinião é que somente a interpretação dos sonhos e o trabalho com os arquétipos
que propõe a terapia junguiana não são suficientes: é necessário, também trazer à luz a
memória transgeracional e libertar-se dos fardos que os nossos antepassados nos deixaram e
que condicionaram a nossa vida.
A Psicogenealogia com o genossociograma e as Constelações Familiares com a
encenação das dinâmicas familiares permitem ao inconsciente familiar exprimir-se,
favorecendo essa libertação.

115
A Psicogenealogia está em desenvolvimento crescente, inclusive hoje, também na Itália.
Dois anos atrás, quando me mudei para a Itália, vinda da França, país de origem dessa
abordagem, e onde é muito praticada, aqui na Itália quase ninguém sabia do que se tratava.
Pode-se dizer que a paternidade desse método seja prevalentemente europeia: Jung e
Freud são de língua alemã, como também Hellinger; Dolto, Dumas, Anne Ancelin, De Gauléjac e
muitos outros são franceses; Abraham, Torök, Boszormenyi-Nagy, Moreno, ao contrário são do
Leste Europeu, ex-império austro-húngaro.
Certamente, as terríveis guerras que devastaram o continente europeu tenham ferido
gravemente as almas de quem as viveu, ou mesmo de quem, indiretamente, sofreu a dor de um
pai traumatizado, de uma mãe em luto eterno pelas consequências dos não-ditos e segredos
ligados a fatos indizíveis.
Os massacres e os extermínios que aconteceram na Europa, sem nenhum equivalente no
resto do mundo, foram eventos que marcaram a população civil com proporções arrasadoras,
visto que a guerra não foi somente de exércitos, mas tornou-se um drama coletivo.
Um fantasma estava de volta à Europa: o da luta fratricida, do irmão mais forte que
queria exterminar o mais fraco, o que fosse hebreu, cigano ou homossexual.
A angústia dilacerante dos massacres e das carnificinas da Primeira e da Segunda
Guerra Mundial foi vivida pelos avós e bisavós sob um silêncio mortal.
Como se, por solidariedade aos mortos que não podiam mais falar, os vivos não
tivessem o direito de relatar suas dores. Pela vergonha de terem continuado vivos após
viverem o horror. Esse passado não-dito, criador de segredos, de criptas e de fantasmas, deixou
traços profundos na psique dos sobreviventes, fosse ele o executor ou a vítima. Não somente
neles, como também em seus sucessores.
Na Alemanha, Bert Hellinger, ex-padre missionário, desenvolveu uma técnica para curar
as almas dos descendentes de uma população que se manchou pelo mais terrível dos crimes: o
extermínio programado de crianças, idosos, mulheres, homens. Um plano frio sem nenhum
envolvimento emocional: como uma operação cirúrgica, mas com seres humanos inertes e
inocentes como vitimas.
As Constelações Familiares, não por acaso, são uma terapia de grupo para os
descendentes de uma população que aceitou submeter-se à lei do mais forte, mesmo quando
pareciam absurdas.
Também a França teve os seus massacres, especialmente nas colônias: um amigo me fez
notar que, até fins dos anos 70, muitos homens nascidos na França, haviam participado de pelo
menos uma guerra. Na Indochina e na Argélia, a França deixou, para os nativos, péssimas
recordações. As atrocidades que foram cometidas são um enorme débito que se transmitiu aos
filhos, netos e bisnetos.
Isso explica porque, nesses países, nasceram as terapias transgeracionais mais
importantes: a Psicogenealogia na França e as Constelações Familiares, na Alemanha.
Sem chegar aos extremos a que passaram essas duas nações, toda a Europa foi
dilacerada, durante o século XX, pelas guerras.
Os erros cometidos foram tão terríveis, que se tornaram inenarráveis. Os filhos
“sentem” que os pais foram possuídos por monstros dos quais não conseguem nem mesmo
falar e, consequentemente, nem se libertar.

116
A Itália viveu também outro importante trauma da nossa época: a emigração. As pessoas
que foram obrigadas a deixar sua cidade ou seu país, para morar e trabalhar em outro lugar
viveram (como na neurose de classe) um conflito entre o dever em relação à família que
deixavam e a necessidade da sobrevivência.
Boszormenyi-Nagy conheceu intimamente esse conflito de lealdade que produz efeitos
devastadores: as pessoas que emigram “devem” sentir-se gratas pela possibilidade que lhes foi
dada, sem poder externar, como no luto, nenhum sofrimento.
Também nesse caso, como nas guerras, o não-dito, a falta das palavras sobre o
sofrimento padecido, cria uma cripta, na qual é sepultada a dor por não ter o “direito” de
contar o que houve.
Desse modo, nasce o fantasma que vive nos descendentes, experimentando sofrimentos,
mal-estar e angústias, sem uma razão aparente que diga respeito à vida deles agora.
Freud, inicialmente, intuiu o poder libertador da palavra: verbalizar o próprio
sofrimento serve para colocá-lo para fora de si mesmo, objetivando torná-lo menos devastador
para a psique.
A Psicogenealogia percorre a mesma estrada, usando o instrumento do
genossociograma: desenhar a história da família permite evidenciar partes que acreditávamos
não conhecer.
O uso da Constelação Familiar conclui o percurso, permitindo à pessoa viver
emocionalmente as dinâmicas familiares e pôr em prática ações simbólicas que ajudam a
reparar as injustiças e os sofrimentos da família.
Concluindo, gostaria de propor uma reflexão, sugerida por uma amiga, sobre a teoria de
Jung: se no nosso inconsciente coletivo se abriga a memória das vidas passadas de nossos
ancestrais, é como se nós tivéssemos vivido vidas precedentes, conforme propõem muitas
culturas orientais quando falam de metempsicose ou reencarnação da alma. Sendo a palavra
alma outro modo de se referir ao inconsciente (a palavra alemã é a mesma para todos dois), a
transmigração da alma poderia ser um modo de se referir ao inconsciente coletivo.
Mesmo as reencarnações inferiores - para quem se comportou mal na vida passada - das
quais falam algumas doutrinas orientais, podem ser comparadas aos fardos que devem
carregar os descendentes, quando os seus antepassados transmitem o destino negativo deles.
Os fenômenos pareceriam os mesmos: viver no presente o resultado de acontecimentos
passados. A cultura oriental, mais atenta ao “sentir” do homem, deu recentemente uma
importância maior a esses fatos.
No ocidente, ao contrário, de acordo com a estrutura da nossa cultura, temos
necessidade de entender e tomar consciência, mesmo emocionalmente, para poder aceitar
completamente o nosso destino, superar os sofrimentos e viver em paz conosco e com os
outros.

117
Símbolos usados no genossociograma

118
Genossociograma simplificado de Paule – Família materna

Tradução:
Nonni, nonno, nonna – avós, avô, avó - dubbi sulla filiazione paterna – dúvidas sobre a filiação paterna
Bisnonni alsaciani– bisavós da Alsacia - il suo primo amore – o seu primeiro amor
Bisnonni tedeschi – bisavós alemães - nata all’estero – nascida no exterior
Padre e madre – pai e mãe - temeraria - medrosa
Figlio e figlia – filho e filha - mestiere di riparazione – trabalho/ofício de reparação
Zii, zio, zia – tios, tio, tia - comissario di polizia – comissário de polícia
Fratello e sorella – irmão e irmã - espatrio – expatriado
Cugino, cugina, cugini – primo, prima, primos - legione straniera – legião estrangeira

119
Genossociograma simplificado de Paule – Família paterna

Tradução:
Nonni, nonno, nonna – avós, avô, avó - vedova di guerra – viúva de guerra
Bisnonni alsaciani– bisavós da Alsacia - tedeschi, tedesco, tedesca – alemães, alemão, alemã
Bisnonni tedeschi – bisavós alemães - nata all’estero – nascida no exterior
Padre e madre – pai e mãe - temeraria - medrosa
Figlio e figlia – filho e filha - mestiere di riparazione – trabalho/ofício de reparação
Zii, zio, zia – tios, tio, tia - comissario di polizia – comissário de polícia
Fratello e sorella – irmão e irmã - espatrio – expatriado
Cugino, cugina, cugini – primo, prima, primos - legione straniera – legião estrangeira

- nasce un giorno, una settimana e un anno da 50’ anniversario morte bisnonno eroe di guerra morto un giorno,
una settimana, un anno prima dell’armistizio (nasceu um dia, uma semana e um ano antes dos 50 anos de
aniversário de morte do bisavô herói de guerra, que morreu um dia, uma semana e um ano antes do armistício

120
Genossociograma simplificado completo de Paule

Tradução:
Nonni, nonno, nonna – avós, avô, avó - vedova di guerra – viúva de guerra
Bisnonni alsaciani– bisavós da Alsacia - tedeschi, tedesco, tedesca – alemães, alemão, alemã
Bisnonni tedeschi – bisavós alemães - nata all’estero – nascida no exterior
Padre e madre – pai e mãe - temeraria - medrosa
Figlio e figlia – filho e filha - mestiere di riparazione – trabalho/ofício de reparação
Zii, zio, zia – tios, tio, tia - comissario di polizia – comissário de polícia
Fratello e sorella – irmão e irmã - espatrio – expatriado
Cugino, cugina, cugini – primo, prima, primos - legione straniera – legião estrangeira
- nasce un giorno, una settimana e un anno da 50’ anniversario morte
bisnonno eroe di guerra morto un giorno, una settimana, un anno prima dell’armistizio - nasceu um dia, uma semana e
um ano antes dos 50 anos de aniversário de morte do bisavô herói de guerra, que morreu um dia, uma semana e um ano
antes do armistício.

121
Genossociograma simplificado de Dora

Tradução:
Nonni, nonno, nonna – avós, avô, avó - sorella maggiore – irmã mais velha
Bisnonni – bisavós - muore quando – morreu quando
Marito e moglie – marido e mulher/esposa - nevrosi della casalinga – neurose de “dona de casa”
Padre e madre – pai e mãe - prima del matrimonio – antes do casamento
Figlio e figlia – filho e filha - scollamento della retina – descolamento da retina
Zii, zio, zia – tios, tio, tia - ha sedoto la governante, non ama piu la moglie
Fratello e sorella – irmão e irmã (seduziu a governanta, não ama mais a esposa)
- quando Dora ha 14 anni cerca di approfitare di lei
(quando Dora tinha 14 anos, tentou aproveitar-se dela.

122
Genossociograma simplificado da Constelação Familiar

Tradução:
Nonni, nonno, nonna – avós, avô, avó - Francia – França
Bisnonni– bisavós - Legame molto forte – ligação muito forte
Padre e madre – pai e mãe
Marito e moglie – marido e mulher
Figlio e figlia – filho e filha
Zii, zio, zia – tios, tio, tia
Fratello, sorella – irmão e irmã
Fratelli e sorelle – irmãos e irmãs
Cugino, cugina, cugini – primo, prima, primos
Costellante – constelanda/paciente

123
Genossociograma simplificado - Mito familiar Paule

Tradução:
Nonni, nonno, nonna – avós, avô, avó - lealtà al mito familiare – lealdade ao mito familiar
Bisnonni– bisavós - slealtà al mito familiare – deslealdade ao mito familiar
Marito e moglie – marido e mulher - figli comportamenti a riscio – filhos comportamentos de risco
Padre e madre – pai e mãe
Figlio e figlia – filho e filha
Zii, zio, zia – tios, tio, tia
Fratello, sorella – irmão e irmã
Fratelli e sorelle – irmãos e irmãs
Cugino, cugina, cugini – primo, prima, primos
Costellante – constelanda/paciente

124
Genossociograma simplificado de Anne Ancelin Schützenberger

Tradução:
Genitori marito – pais do marido
Secondo figlio – segundo filho -
Figlio e figlia – filho e filha

125
Genossociograma simplificado de Bárbara

Tradução:
Nonni, nonno, nonna – avós, avô, avó - primo fidanzato della nonna - primeiro noivo da avó
Bisnonni– bisavós - lutto non risolto – luto não elaborado
Marito e moglie – marido e mulher - prima figlia e secondo figlio – primeira filha e segundo filho
Padre e madre – pai e mãe
Figlio e figlia – filho e filha
Zii, zio, zia – tios, tio, tia
Fratello, sorella – irmão e irmã
Fratelli e sorelle – irmãos e irmãs
Cugino, cugina, cugini – primo, prima, primos
Costellante – constelanda/paciente

126
Genossociograma simplificado de Mariolina - Família paterna

Tradução:
Nonni, nonno, nonna – avós, avô, avó - la madre muore alla sua nascita – a mãe morreu no seu parto
Bisnonni– bisavós - bambino di sostituzione – criança de substituição
Marito e moglie – marido e mulher - carattere “impossibile” – temperamento difícil
Padre e madre – pai e mãe - manipolatrice – manipuladora
Figlio e figlia – filho e filha - muratore (riparazione) – pedreiro (profissão de reparação)
Zii, zio, zia – tios, tio, tia - cancro prostata – câncer na próstata
Fratello, sorella – irmão e irmã - sconosciuto – desconhecido
Fratelli e sorelle – irmãos e irmãs - bisnonna sottomessa – bisavó submissa
Cugino, cugina, cugini – primo, prima, primos
Costellante – constelanda/paciente

127
Genossociograma simplificado de Mariolina – Família materna

Tradução:
Nonni, nonno, nonna – avós, avô, avó - la madre muore alla sua nascita – a mãe morreu no seu parto
Bisnonni– bisavós - bambino di sostituzione – criança de substituição
Marito e moglie – marido e mulher - carattere “impossibile” – temperamento difícil
Padre e madre – pai e mãe - manipolatrice – manipuladora
Figlio e figlia – filho e filha - muratore (riparazione) – pedreiro (profissão de reparação)
Zii, zio, zia – tios, tio, tia - cancro prostata – câncer na próstata
Fratello, sorella – irmão e irmã - sconosciuto – desconhecido
Fratelli e sorelle – irmãos e irmãs - bisnonna sottomessa – bisavó submissa
Cugino, cugina, cugini – primo, prima, primos
Costellante – constelanda/paciente

128
Genossociograma completo de Mariolina

Tradução:
- legami conflituali – relações conflitivas
- legami affetivi particolari – relações afetivas particulares
- bambino di sostituzione – criança de substituição
- ragazza morta – moça morta

129
BIBLIOGRAFIA

- N. Abraham, M.Torök, L’Écorce et le Noyau, Édition Aubier Montaigne, 1978


- M. Anaut, Soigner la famille, Édition A.Colin, Paris 2005
 Ancelin Schutzenberger, Sindrome degli Antenati, Di Renzo editore, 2010
- Ancelin Schutzenberger, E Bissone Jeufroy, Sortir du deuil, Payot, 2007
- Ancelin Schutzenberger, Aïe mes Aïeux, Édition Desclée de Brouwer, Paris
- 1993
- Ancelin Schutzenberger, G. Devroede, Ces enfants malades de leurs parents,
- Éditions Payot, Paris 2003
- Ancelin Schutzenberger, Exercices pratiques de psychgénéalogie, Payot, 2011
- Ancelin Schutzenberger, Psychogénéalogie, Payot, 2007
- A. Schützenberger, Secrets de famille, Trasmissions Érès, 2003
- J. Bergeret, La personalité normale et pathologique, Dunod, 1995
- Bettelheim, Le poids d’une vie, Robert Laffont, 1991
- Boszormenyi-Nagy G. M. Spark, Lealtà invisibili, Astrolabio, 1988
- N. Canault, Pourquoi paye-t-on la fête aux ancêtres?, Éditions Desclée de
- Brouwer, 1995
 Carotenuto, Diario di una segreta simmetria, Astrolabio, 1999
- Carotenuto, Breve storia della psicanalisi, Bompiani, 2000
- Carotenuto, Jung e la cultura del XX secolo, Bompiani, 2000
- Cyrulnik, Le murmure des fantômes, Odile Jacob, 2005
- COLL., Le psychisme à l’épreuve de générations, Dunod, 1995
- P. De Castillo, Le grand livre de la psychogénéalogie, Quintessence, 2005
- F. Delbary, La psychanalyse, une anthologie, Angora, 1996
- F. Dolto, La cause des enfants, Laffont 1985
- F. Dolto, Le cas Dominique, le Seuil 1974
- Ducommun-Nagy, Ces loyaités qui nous libèrent, J.C. Lattès, 2006
- Dumas, L’ange et le fantôme, Éditions De Minuit, 1985
- U. Franke, Il fiume non guarda mai indietro, Crisalide, 2005
- S. Freud, Interpretation des rêves, PUF, 1967
- S. Freud, Cinq psychanalyses, PUF, 1954
- S. Freud, Moïse et le monothéisme, Gallimard/Idées, 1948
- S. Freud, Psychopathologie de la vie quotidienne, Payot, 2001
- S. Freud, Totem et Tabou, Petite Bibliothèque Payot, 2001
- U. Galimberti, Psicologia, Garzanti Editore, 2003
- Ghilligan, Une voix differente, Champs Essais, 2008
- M. Granger, J. Moisset, La synchronicité, Ed. Arché, Milano, 1999
- V. de Gouléjac, Névrose de classe. Tajectoire sociale et conflits d’identité,

130
- Hommes et Groupes éditeurs, 1987
- Hellinger, G. ten. Hovel, Constellations familiales, Éd. Le souffle d’or, 2001
- J. Hillman, Anima, Adelphi, 2008
- 180
- G. Humbert, Jung, Éditions universitaires, 1983
- G. Humbert, L’homme aux prises avec l’inconscient, Retz, 1992
- Jodorowsky, Psicomagia, Feltrinelli editore, Milano 1997
- G. Jung, Ma vie, Gallimard, 1973
- G. Jung, Dialectique du Moi et de l’Inconscient, Paris, Gallimard, 1964
- G. Jung, Types psychologiques, Georg et Cia S.A., Genèvre, 1977
 G. Jung, L’énergetique psychique, Buchet-Castel, Paris, 1973
 G. Jung, L’homme à la découverte de son âme, Albin Michel, 1987
 G. Jung, Psychologie de l’inconscient, Librairie Universitaire, Georg & C.ie,
- S.A., Genève, 1952
- C.G Jung, Psychologie et Éducation, Buchet-Castel, Paris, 1963
- C.G. Jung, Psychologie et Alchimie, Éditions Buchet Chastel, Paris
- C.G. Jung, Sur l’interprétation des rêves, Albin Michel, Paris, 1998
- V. Kast, L’esperienza del distacco, Red edizioni, 2005
- J. Lacan, Le séminaire. Livre IV. La relation d’objet, Seuil, 1994
 Langlois, L. Langlois, Psycho-généalogie, Maradut, 2005
- M. N. Maston-Lerat, Psychogénéalogie, relation à l’argent et réussite, Quintes-
- sence, 2006
 Marc, D Picard, L’école de Palo Alto, Retz, 2004
- J. Miermont, Dictionnaire de thérapie familiale, Payot, 2001
 Minois, Histoire du mal de vivre, La Martinière,2003
- M. Molinié, Soigner les morts pour guérir les vivants, Le Seuil, 2006
- J. L. Moreno, Manuale di psicodramma. Il teatro come terapia, Astrolabio, Roma,
- 1985
 Nardone, Cavalcare la propria tigre, Pontr delle Grazie, 2006
- W. Nelles, Costellazioni familiari, Urra, 2006
- Picazo, Psichogénéalogie pour en finir avec l’emprise du stress, Chiron, 2008
- Potschka-Lang, M. Engel, Constellations systemiques, Le soufle d’or, 2006
- M. Porot, L’enfant de remplacement, Editions Frison-Roche, Paris, 1993
- R. Sheldrake, Les pouvoirs inexpliqués des animaux, Édition du Rocher, 2001
- S. Spielrein, Entre Freud et Jung, Aubier Montaigne, 2004
- S. Tisseron, Secrets de famille, mode d’emploi, Éditions Ramsay/Archimbaud,
- 1996
- P. Watzlawick, J. Helmick Beavin, Don D. Jackson, Une logique de la com-
- munocation, Édition du Seuil, 1972

131
NOTA SOBRE A AUTORA
Maura Saita Ravizza

Vive e trabalha em Turim, Itália.


Psicoterapeuta formada em Nice (França), docente de Análise Transgeracional no I.E.P.A
“Institut Européen de Psychologie Appliquée” de Saint Laurent du Var e facilitadora em
Constelações Familiares.
Na França, além de ter estudado quatro anos para obter a certificação de
psicoterapeuta, frequentou o curso de formação completa em Psicogenealogia com a aluna de
Anne Ancelin Schützenberger – Cathy Damiano.
Recebeu, também, o título de facilitadora de Constelações Familiares, certificado pela
AISCOM – “Associazione Italo-Svizzera di Counselling”, título reconhecido pelo Instituto para o
Desenvolvimento e a Experimentação das Constelações Familiares: Das Tao der Systemischen
Familienaufstellung, instituto, por sua vez, reconhecido por Bert Hellinger.
A pesquisa pessoal sobre sua família, abrangendo a Itália e França, a fez compreender os
laços patológicos entre gerações e procurar uma abordagem que permitisse superá-los.
Utilizando a Psicogenealogia como instrumento de pesquisa e as Constelações
Familiares para reparar as disfunções familiares, potencializou as características desses dois
eficazes métodos, nomeando seu trabalho de Constelações Psicogenealógicas©.

Em agosto de 2015, visitou o Brasil (Belo Horizonte, Minas Gerais) e ministrou o


Workshop internacional “Jung, Psicogenealogia e Constelações Familiares”, realizado pela
Interação Sistêmica Ltda.
Veja as fotos deste evento no site: www.interacaosistemica.com.br

132