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COMO PROJETAR

ESTRUTURAS DE
CONCRETO

O GUIA DEFINITIVO
COMO PROJETAR ESTRUTURAS
DE CONCRETO

O Guia Definitivo

Vinicius Rebuli
Vitor Folador

2018

VENDA PROIBIDA
© 2018 Aprenda Estruturas. Todos os direitos reservados.

Este ebook é um guia prático de design de estruturas de


concreto e é destinado à estudantes e profissionais de
Engenharia Civil iniciantes na área de Estruturas.

Este ebook não substitui em hipótese alguma o uso das


normas técnicas vigentes. Os autores não se
responsabilizam pelo mau uso do conteúdo aqui
apresentado, sendo de total responsabilidade do leitor o
correto uso deste conteúdo.

As imagens e demais informações usadas neste ebook


estão referenciadas no final do mesmo.

Este ebook foi otimizado para leituras em celulares,


tablets e computadores.

Fica vedada a cópia ou reprodução do livro sem o


consentimento prévio e por escrito dos autores.

Esse material tem distribuição gratuita. Venda proibida.

Caso tenha alguma dúvida, algum comentário, sugestão


de melhoria, ou deseje dar algum tipo de feedback, envie
um e-mail para contato@aprendaestruturas.com. Será um
prazer atende-lo.

Aprenda Estruturas
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contato@aprendaestruturas.com
Sobre os Autores:
Vinicius Rebuli

Vinicius Rebuli é formado em Engenharia Civil pela Universidade


Federal do Espírito Santo, e Mestre em Engenharia Civil pela
Carnegie Mellon University (EUA). Atua há 8 anos na área,
elaborando projetos em diversas áreas como infraestrutura
urbana, estruturas de plataformas offshore, além de edifícios de
múltiplos pavimentos residenciais e comerciais. Trabalha como
engenheiro em uma empresa multinacional e, recentemente,
montou o Aprenda Estruturas para ajudar estudantes interessados
nessa área.

Vitor Folador

Vitor Folador é formado em Engenharia Civil e Mestre de


Engenharia de Estruturas pela Universidade Federal do Espírito
Santo, além de ter estudado na University of Adelaide (Austrália).
Atua há mais de 8 anos na área de projetos estruturais elaborando
projetos diversos como edifícios de múltiplos pavimentos,
hospitais, além de estruturas para fins industriais como pisos e
galpões. É pesquisador da área e um dos autores do livro
“Introdução à Teoria da Estabilidade Elástica”. Atualmente é sócio
da Empresa DOME Engenharia Integrada, além de atuar na área
acadêmica como professor de graduação e pós-graduação das
disciplinas de Engenharia de Estruturas.
Por que eu preciso deste e-book?
Este livro foi escrito para ajudar estudantes e engenheiros que
estão entrando na área de Estruturas a elaborarem um projeto
estrutural seguro, profissional e de qualidade.

Porém esse livro é diferente de tudo que você já leu! Ele não foca
nas partes teóricas, como é comum em livros deste assunto, mas
sim na prática de um engenheiro de estruturas, trazendo para
quem não tem experiência a vivência prática de um escritório de
projetos.

Lógico que a teoria é importante para entendermos o que estamos


fazendo, mas o procedimento prático é também extremamente
importante, porém é deixado de lado nas formações tradicionais.

A motivação para esse texto surgiu da nossa prática como


professores universitários, onde percebemos que muitos dos
nossos alunos de último ano, mesmo os que tinham as melhores
notas, demonstravam com suas perguntas não entender a
aplicação real daquilo que estudavam.

Entenda a fonte do problema: Os cursos das faculdades têm seu


currículo definido pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC).
Porém, o curso de Engenharia Civil é muito amplo, e cobre áreas
que na prática são bem distintas entre si. Dessa maneira, você
acaba aprendendo de forma bem superficial sobre as principais
áreas da Engenharia Civil.
As faculdades são obrigadas a seguir essas ementas, e não podem
implementar mudanças drásticas. Muitas tentam fazer eventos
para ajudar os alunos para ajudar a obter conhecimentos mais
voltados para o mercado, mas com tantas áreas diferentes na
engenharia civil é difícil cobrir todas as áreas, especialmente as
mais técnicas, como a de estruturas.

Então os alunos passam metade do tempo no ciclo básico,


estudando Cálculo e Física, e não tem tempo de aprender a aplicar
os conhecimentos do ciclo específico na solução de problemas
reais.

Você não aprende como funciona uma empresa de engenharia,


não aprende a usar os softwares da profissão, não aprende como
as diferentes áreas da engenharia interagem entre si, enfim, você
não sai preparado para o mercado de trabalho!

Apenas como professores na rede de ensino superior tradicional


não temos poder nenhum para mudar essa situação, porque
somos obrigados a cumprir a ementa preestabelecida, caso
contrário o curso não recebe os certificados que ele precisa para
continuar.

A ideia deste e-book é quebrar esse ciclo e trazer conhecimentos


de projetos de estruturas de concreto que não são abordados nas
faculdades de engenharia.
Este e-book vai te ajudar a superar essa deficiência na formação
em engenharia e te deixar mais preparado para exercer a profissão
de engenheiro de estruturas.

Escrito por quem atua há quase 8 anos com projetos estruturais


diariamente, você tem aqui um guia completo de como entregar
um projeto de estruturas de concreto, desde o contato com o
cliente até a emissão dos documentos finais.

Começando com as primeiras interações com o cliente, você vai


aprender sobre os documentos que devem ser solicitados
inicialmente, e seguir destrinchando todo o caminho que deve ser
percorrido, passando pela concepção estrutural, lançamento dos
elementos e carregamentos, análise, verificação, chegando até o
detalhamento final e os documentos entregáveis.

Para aqueles que querem refrescar a memória em algumas noções


primárias do material, o apêndice no final traz as definições
básicas, explica o seu funcionamento e as diferentes
nomenclaturas do concreto usadas na rotina de trabalho do
engenheiro.

Quem deseja trabalhar com projetos estruturais tem a obrigação


de conhecer os assuntos aqui abordados para saber elaborar um
projeto seguro, preciso e econômico. Se você está entrando na
carreira de engenharia estrutural agora, temos certeza de que
esse livro lhe será muito útil.

Bons estudos!
Vinicius Rebuli e Vitor Folador
1

Sumário

1. Consegui um projeto, e agora? ........................................... 2


2. Como eu lanço a estrutura? .............................................. 10
3. Quais os carregamentos que atuam na estrutura? ........... 24
4. Como eu confiro se meu modelo está correto? ................ 30
5. Como eu refino e otimizo o meu modelo?........................ 32
6. Como eu detalho tudo que projetei para a construção? .. 40
7. Afinal de contas, o que eu entrego para o cliente? .......... 49
Apêndice: Entendendo o material e o sistema construtivo .... 54
Referências Bibliográficas ....................................................... 64

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1. Consegui um projeto, e agora?


Imagine que você tenha sido colocado como responsável por
elaborar seu primeiro projeto estrutural de um edifício de
concreto.

Primeiramente, parabéns! É uma grande responsabilidade, mas


também uma atividade extremamente gratificante projetar
estruturas!

Antes de tudo, corra atrás das ferramentas básicas do engenheiro,


como o computador com o software de estruturas de sua
preferência, as normas, e uma calculadora de mão para auxiliar.

Muita gente se pergunta qual o melhor software para se usar


num projeto de estruturas. A verdade é que não existe um
software melhor que todos os outros. Cada um tem suas
vantagens e suas limitações. O mais importante é que você
conheça bem o software que está usando, para saber quais são
as possíveis limitações dele e corrigi-las de maneira apropriada.
Fique atento também à tecnologia BIM. A maioria dos
softwares hoje em dia já estão adaptados ao BIM, mas é
importante que você confirme no seu antes de começar.
Falaremos sobre os entregáveis BIM no último capítulo do
ebook. Se você tiver um software compatível e seguir os passos
indicados aqui não terá nenhum problema.

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Para começar o projeto você precisa de diversas informações com


relação à edificação em questão. Portanto você deverá solicitar
alguns documentos ao cliente, se ainda não tiver acesso a eles. Os
principais documentos que você precisa são:

O projeto arquitetônico:

O projeto arquitetônico é o projeto principal de um


empreendimento, porque todos os outros projetos são
elaborados em cima dele. Não há muito o que fazer sem esse
projeto, por isso você solicita ele primeiro.

Fig. 01: Modelo 3D de projeto arquitetônico


Uma coisa importante é garantir que o cliente te forneça o projeto
final, já aprovado na prefeitura local. Isso é essencial porque
mudanças pequenas no projeto arquitetônico podem levar a
grandes mudanças no estrutural, e te gerar muito retrabalho.

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Se você já começa a trabalhar em cima da versão final, tem muito


menos chances de o projeto sofrer mudanças, e de você ter que
refazer muita coisa que já fez.

Quando o cliente diz não ter o projeto final ainda, é interessante


combinar um pagamento para revisões grandes no projeto, para
que você não tenha muito trabalho extra sem receber por isso. Se
você não valoriza o seu trabalho, ninguém mais irá!

O projeto geotécnico:

Outro projeto extremamente importante é o geotécnico, que


analisa a capacidade de carga dos solos que receberão a nova
edificação. Como as cargas do prédio que você projetar serão
transmitidas para o solo pelas fundações, é importante garantir
que o solo é capaz de absorvê-las, evitando assim graves acidentes
no futuro.

Os projetos geotécnicos são elaborados após investigações do


solo, em geral com realização da sondagem à percussão, o famoso
SPT. Ele deve conter recomendações com relação ao tipo de
fundação apropriado ao solo estudado, dependendo da carga. No
entanto, a determinação das cargas e o detalhamento das
fundações são suas responsabilidades, no papel do engenheiro de
estruturas.

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Fig. 02: Exemplo de perfil de solo com fundações profundas

É comum que pessoas sem vivência na área pensem que o


projeto geotécnico seja responsabilidade do mesmo engenheiro
que elabora o projeto estrutural. Tudo cai na categoria de
“engenheiro calculista”.
Enquanto é verdade que o projeto geotécnico envolvem muitos
cálculos, assim como o projeto estrutural, na prática são
projetos bem diferentes.
Certos engenheiros se especializam em trabalhar com os dados
de investigação do solo, e estes engenheiros elaboram o projeto
geotécnico, enquanto outros engenheiros se especializam em
entender o comportamento das estruturas, e trabalham com o
projeto estrutural.
Esclareça isso com seu cliente, ou corra o risco de ele achar que
você tem que entregar dois projetos!

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Analisando os Projetos:

Após receber os projetos solicitados do cliente, você deve estuda-


los com calma, a fim de entender exatamente o que o projeto está
dizendo, e como encaixar uma estrutura que atenda às
necessidades do projeto. Fique atento a características como
shafts existentes, diferenças de níveis de laje, etc.

Muitas vezes o sistema estrutural a ser usado é proposto pela


construtora, que já tem experiência com as técnicas daquele
sistema específico. Se for esse o caso, você deve analisar se os
dados do arquitetônico são compatíveis com a segurança
estrutural daquele sistema, como por exemplo ver se os vãos não
estão muito grandes, se há apoio para todos os elementos, etc.

As dúvidas mais sérias devem ser esclarecidas com os autores do


projeto arquitetônico antes do início do lançamento da estrutura,
para garantir a melhor solução e evitar retrabalho.

Definindo os parâmetros de projetos:

Ao abrir o software de estruturas e começar um novo projeto, as


primeiras definições que serão feitas são as dos parâmetros
globais de projetos. Todo o lançamento e posterior análise
estrutural vai ser feita baseada neles. Alguns desse parâmetros
são:

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• Materiais: Características do concreto, como fck e módulo de


elasticidade. Às vezes é possível especificar um tipo de
concreto para cada tipo de elemento.

• Pavimentos e Níveis: A quantidade de pavimentos é


especificada na ordem, com seus respectivos pés-direitos, de
onde sairão os níveis de referência.

• Normas Consideradas: Para estruturas de concreto no Brasil,


é só confirmar o uso da NBR 6118:2014.

Diferentes softwares poderão exigir alguns parâmetros a mais no


começo, como por exemplo se serão consideradas as cargas de
vento, e segundo qual norma elas serão calculadas (no Brasil: NBR
6123:1988 Versão Corrigida 2:2013). Também quais cargas
especiais considerar, como sísmicas, entre outras.

Limpando a Arquitetura:

Você já sabe que todos os demais projetos são feitos com base no
arquitetônico. Portanto a melhor prática é você inserir as plantas
desse projeto como referência nos softwares de estruturas. Porém
os projetos arquitetônicos vêm com muitas informações que não
são interessantes para a estrutura, e que deixam o desenho
pesado e atrapalham a visualização dos elementos mais
importantes.

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Para contornar essa dificuldade, você deve fazer, antes de lançar


os desenhos como referência, o que chamamos de Limpeza da
Arquitetura. A limpeza consiste em pegar os arquivos DWG
enviados pelos arquitetos e tirar todas as informações
desnecessárias para o projeto de estruturas. Este procedimento é
feito no AutoCAD.

Fig. 03: Exemplo de arquitetura com muitos elementos que não são
usados no projeto estrutural

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Os passos deste procedimento são:

• Tirar as cotas;
• Tirar as linhas desnecessárias;
• Tirar hachuras e blocos desnecessários, como os de
móveis;
• Colocar todos os layers para o 0 (white);
• Escalar o desenho para a unidade de comprimento padrão
do software (cm, m, etc);
• Usar o comando “purge” no AutoCAD para limpar os
arquivos;
• Escolher um ponto de referência, comum a todos os
pavimentos (geralmente um pilar importante, ou o limite
do terreno);
• Mover, em todos os arquivos, o ponto de referência para a
origem (0,0) no AutoCAD. Usa-se sempre um arquivo DWG
para cada pavimento;
• Exportar o arquivo para o formato DXF, usando o comando
dxfout no AutoCAD.

Desse modo, você tem um arquivo leve e simples, só com as


informações necessárias, para usar como referência no seu
software. Agora é só importar esses arquivos e começar a lançar a
estrutura.

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2. Como eu lanço a estrutura?


Com todos os parâmetros estabelecidos e com as referências
devidamente inseridas, é hora de começar a inserir (lançar) os
elementos da estrutura no modelador do software.

É extremamente importante que você escolha a posição dos


elementos tendo em mente o provável comportamento que eles
terão durante a vida útil da estrutura. Antes de lançar no software,
você deve enxergar como a estrutura vai funcionar na sua cabeça,
como ela irá se deslocar, como as forças serão distribuídas, etc.
Desse modo você lança a estrutura com mais facilidade, e tem um
resultado com mais segurança. Isto é chamado de Concepção
Estrutural.

É comum em edifícios com múltiplos pavimentos de concreto


armado optar-se por uma concepção em pórticos tridimensionais,
posicionando os pilares e vigas adequadamente, dando uma boa
estabilidade para a estrutura.

Você também precisa definir as ligações entre os elementos, e o


tipo de apoio nas fundações. Em estruturas de concreto armado
convencional é comum que você inicialmente considere todas as
ligações engastadas, mas em certos casos você pode considerar
elementos simplesmente apoiados, rotulados ou semi-rígidos.

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Na etapa de lançamento da estrutura você ainda não fez nenhuma


verificação rigorosa quanto à dimensão dos elementos, mas
precisa de alguma dimensão para lançar no modelador.

Portanto você deve fazer o pré-dimensionamento dos elementos,


que nada mais é que atribuir a eles alguns valores que você julga
serem adequados para aquele tipo de elemento, para depois
efetivamente verificar se aquele valor atende.

Fig. 04: Exemplo de lançamento de estruturas em software

O pré-dimensionamento é apenas uma referência inicial. Ele


jamais deve ser usado se depois não for devidamente verificado e
confirmado, seguindo todo o processo de dimensionamento
estrutural.

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A concepção e o pré-dimensionamento em geral são feitos


baseados na experiência do engenheiro projetista. Não se
preocupe, abaixo você encontra dicas de como lançar e pré-
dimensionar cada elemento da melhor maneira. Em geral, em uma
estrutura de concreto armado convencional, os elementos mais
comuns são pilares, vigas, lajes e os de fundação.

Pilares:

Em geral o projeto arquitetônico te dará sugestões com relação ao


posicionamento dos pilares. A qualidade dessas sugestões
dependerá da experiência e familiaridade do arquiteto com as
necessidades estruturais do sistema a ser usado, mas em geral
servem como um bom ponto de partida.

Ainda que você não siga plenamente a recomendação do


arquiteto, o seu posicionamento dos pilares deve sempre estar em
harmonia com a concepção arquitetônica.

Deve-se lembrar que cada pilar também terá um elemento de


fundação associado a ele, portanto se você escolher um número
muito grande de pilares, acabará deixando mais cara a fundação
da estrutura.

Por outro lado, se você reduz demais o número de pilares, os vão


ficam maiores, e você vai ter elementos sustentando mais carga,
o que pode deixá-los mais pesados e caros, inclusive a fundação.

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O aumento de carga por elemento da fundação pode gerar


tensões maiores no solo, e comprometer a segurança estrutural.
Você deve sempre buscar o equilíbrio nessas situações, e levar em
conta as prioridades específicas do projeto que está fazendo.

A distância entre pilares recomendada para estruturas de


concreto armado de médio e pequeno porte são entre 4 e 6
metros [2].

Quando você tem um edifício de múltiplos pavimentos, a melhor


opção é começar o lançamento dos pilares pelo Tipo, isto é, o
pavimento que mais se repete no prédio. Depois verifique se esses
pilares também atendem as exigências arquitetônicas dos
pavimentos inferiores e superiores.

Você também deve locar os pilares de modo a manter as vigas com


vãos similares, para que elas tenham todas as mesmas dimensões,
e a estrutura fique mais prática para ser executada na obra.

Posicione então os pilares de maneira que as vigas também sejam


mais bem atendidas, como nos casos acima, ou também, por
exemplo no encontro entre vigas, para evitar que uma viga apoie
na outra, e gere esforços concentrados desnecessariamente.

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Fig. 07: Exemplo de pilares locados com espaçamentos iguais

O ideal é que os pilares sejam contínuos, desde de o elemento de


fundação onde “nascem” até o seu pavimento final, onde
“morrem”. É possível que você tenha pilares nascendo no meio do
edifício, em elementos de transição.

Porém, em geral, esses elementos de transição são pesados (e,


portanto, caros), além de serem mais complicados de se construir.

Recomendamos que você use esse recurso, de elementos de


transição, apenas como última alternativa. É sempre melhor,
estruturalmente, que os pilares sejam contínuos em todo edifício.

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A NBR 6118:2014 estabelece dois critérios para as dimensões


mínimas das seções dos pilares:

• A área mínima da seção transversal deve ser de 360 cm²;


• A menor dimensão, sem majoração dos esforços, deve ser de
19 cm.

A norma ainda admite pilares com dimensões de até 14 cm, porém


os esforços devem ser aumentados conforme a tabela abaixo,
cujos dados foram retirados da própria norma:

b (cm) 19 18 17 16 15 14
γn 1,00 1,05 1,10 1,15 1,20 1,25

Sendo b é a menor dimensão da seção transversal e γn o


coeficiente de majoração.

As dimensões que sugerimos para um rápido pré-


dimensionamento de edifícios, considerando que você seguiu os
demais critérios apresentados, são:

• Edifício com até 2 pavimentos: 15x25 cm;


• Edifício entre 3 e 5 pavimentos: 19x40 cm;
• Edifício entre 5 e 8 pavimentos: 25x60 cm.

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Vigas:

O posicionamento das vigas altera diretamente o tamanho das


lajes. Desse modo, você deve posicionar as vigas de tal maneira
que resulte em panos de lajes com dimensões da mesma ordem
de grandeza.

Quando se tem lajes com dimensões muito diferentes, e,


portanto, vãos diferentes, a espessura ideal irá variar muito de
uma laje para outra. Se você adotar várias espessuras diferentes
para as lajes gerará inúmeras complicações construtivas
desnecessárias. Se adotar um só valor para a espessura das lajes,
ainda que os vãos sejam muito diferentes, você terá que adotar o
maior valor, e sua estrutura será antieconômica.

Fig. 05: Exemplo de lançamento de vigas em planta

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O ideal é que as vigas sejam colocadas sob as alvenarias. Como as


vigas tem mais rigidez que as lajes, o carregamento da alvenaria
causará menores deslocamentos se estiver sobre a viga.

Em lajes pré-moldadas com enchimentos esse problema requer


ainda mais atenção, já que elas possuem rigidez menor que as das
lajes maciças.

Mas tome cuidado para não exagerar na quantidade de vigas, pois


isso pode encarecer a estrutura.

Também recomenda-se locar as vigas sobre as alvenarias do


pavimento inferior, para que a laje, ao se deslocar, não se apoie
indevidamente na alvenaria e tenha esforços não previstos pelo
projetista. Relembramos aqui que a alvenaria convencional não
tem função estrutural, apenas de vedação.

Fig. 06: Situação onde vigas recebem carga de alvenaria

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De acordo com a NBR 6118:2014 as vigas não podem ter


dimensões menores que 12 cm. Para que se tenha maior rigidez,
coloque a maior dimensão da seção transversal como sendo a
altura.

Um critério de pré-dimensionamento simples que você pode usar


é colocar a altura da viga como 8% do maior vão, e a largura entre
1/3 e 1/4 da altura [1]. Por exemplo, se o vão (distância entre os
pilares) é de 5,0 m, o pré-dimensionamento da viga seria:

0,08 × 500 𝑐𝑚 = 40 𝑐𝑚 𝑑𝑒 𝑎𝑙𝑡𝑢𝑟𝑎 (𝑎𝑑𝑜𝑡𝑎𝑑𝑜)


40/3 = 13,3 𝑐𝑚; 40/4 = 10 𝑐𝑚;
𝐴𝑑𝑜𝑡𝑎𝑑𝑜 12 𝑐𝑚 𝑑𝑒 𝑙𝑎𝑟𝑔𝑢𝑟𝑎 (𝑣𝑎𝑙𝑜𝑟 𝑚í𝑛𝑖𝑚𝑜)

Então lançaríamos uma viga com seção transversal de 12x40 cm.

Como você vai procurar colocar as vigas sob e sobre as paredes, é


recomendado que você use valores de largura que sejam maiores
ou iguais à largura das alvenarias finalizadas. Se no exemplo
anterior as paredes acabadas tiverem 14 cm de largura, seria
melhor adotar uma viga de 14x40 cm.

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Lajes:

Caso você tenha seguido as recomendações para vigas e pilares


que nós demos, as lajes precisarão apenas preencher os vazios
entre as vigas.

É só posicioná-las adequadamente no modelador, não tem


mistério algum no lançamento. Lembre-se sempre de atender as
especificidades do sistema estrutural escolhido na concepção.

A espessura mínima definida pela NBR 6118:2014 para lajes


maciças é de 7 cm, e para capas de lajes nervuradas é de 4 cm.
Para lajes maciças, caso tenha seguido os critérios anteriores, você
pode usar 12 cm de espessura como valor de pré-
dimensionamento.

O pré-dimensionamento de lajes pré-moldadas pode ser feito


pelas tabelas fornecidas pelos fabricantes. Também existem
tabelas similares para lajes nervuradas baseadas na altura da
forma, no tamanho da nervura, e na espessura da lâmina e da
capa.

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Fundações:

Existem dois tipos básicos de fundações:

Fundações diretas, ou rasas, são aquelas que transmitem a carga


diretamente para a superfície do solo, como as sapatas e os
radiers. Elas são mais baratas e simples de serem executadas.

Fundações profundas são as que transmitem a carga para camadas


mais profundas do solo, através de estacas que penetram o solo,
distribuindo a carga lateralmente e/ou pela resistência de ponta.
Essas estacas são unidas em suas pontas superiores por um
elemento de concreto armado, chamado bloco de coroamento.
Por serem mais caras, essas fundações são usadas quando a
camada superficial do solo não é capaz de resistir as cargas
satisfatoriamente.

O pré-dimensionamento dos elementos de fundação é um pouco


mais complicado que os dos demais elementos, porque as
fundações dependem diretamente da resistência do solo e da
carga que os pilares transmitem a elas.

A resistência do solo você encontra facilmente no projeto


geotécnico, porém para obter as cargas dos pilares você precisa
que o software faça os cálculos com o resto do modelo. Portanto
você vai lançar os demais elementos da estrutura e vai lançar os
carregamentos atuantes sobre ela (ver próximo capítulo).

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Depois você manda o software calcular a estrutura e então obtém


as cargas nas bases dos pilares.

Pilares geralmente são os elementos mais críticos em uma


estrutura, então não é bom confiarmos cegamente nos softwares.
Após o processo acima você deve validar os resultados por meio
de área de influência das cargas dos pavimentos nos pilares.

Você poderia ainda fazer o pré-dimensionamento diretamente


por área de influência, mas devido à importância desse valor
recomendamos que faça das duas maneiras.

Considere primeiramente fundações diretas: com as cargas do


pilar, você escolhe uma área tal que a força distribuída gere uma
tensão menor que a tensão admissível do solo, conforme figura
abaixo.

𝑃 6𝑀
𝜎𝑠𝑜𝑙𝑜 = +
𝑎 ∙ 𝑏 𝑎 ∙ 𝑏2

𝜎𝐴𝐷𝑀 ≥ 𝜎𝑠𝑜𝑙𝑜

Fig. 08: Pré-dimensionamento de sapatas isoladas

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Mas nem sempre isso será viável. O solo pode ser fraco demais
para a carga, o que exigiria uma fundação com área muito grande
para distribuir a carga do pilar.

A tabela abaixo dá um indicativo do tamanho do prédio (número


de pavimentos) que um determinado solo suporta com fundação
direta, baseado na tensão admissível desse solo [3]:

Tensão Admissível (kN/m²) Número de Lajes


50 a 100 1a2
100 a 150 4a5
200 a 300 10 a 15
400 a 500 15 a 20

Se o solo não suportar uma fundação rasa, você pode usar


fundações profundas. O pré-dimensionamento de fundações
profundas é feito escolhendo um tipo de estaca, que vai ter uma
resistência específica. Então você divide a carga total do pilar pela
carga que a estaca escolhida suporta, calculando, portanto, o
número de estacas.

Existem vários tipos de estacas: hélices, raiz, Franki, perfis


metálicos, etc. Você pode usar tabelas que estimem a capacidade
de cada tipo de estaca, baseada no seu tamanho, mas a palavra
final sobre a capacidade de carga da estaca é do engenheiro de
solos, que vai incluir os dados no projeto geotécnico para que você
os use.

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Contudo os blocos de coroamento são sua responsabilidade. O


bloco tem que ter seu centro de gravidade coincidindo com o
centro de gravidade das estacas, que coincide com o centro de
carga do pilar, e tem que ser rígido o suficiente para que a carga
seja distribuída igualmente entre as estacas.

Fig. 09: Exemplo de lançamento de fundação de blocos sobre estacas

O pré-dimensionamento da altura do bloco é feito considerando


que a biela comprimida (diagonal entre a base do pilar e o topo da
estaca) esteja inclinada num ângulo α entre 40° e 60°, conforme
figura abaixo [4]:

Fig. 10: Inclinação da biela comprimida dentro de um bloco

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3. Quais os carregamentos que atuam na


estrutura?
Após o lançamento dos elementos pré-dimensionados da
estrutura, você deverá lançar as cargas que atuam sobre esses
elementos. É importante sempre ter em mente como se dá a
distribuição dessa carga, para lançá-la adequadamente.

O levantamento dos valores das cargas é feito consultando-se as


tabelas da NBR 6120:1980 - Cargas para o cálculo de estruturas de
edificações. Essa norma estabelece o peso específico dos
materiais mais usados, como o concreto, argamassa, blocos
cerâmicos, etc., que deve ser considerado para o carregamento
das edificações.

Ela também mostra as cargas de utilização que aparecem


normalmente de acordo com o uso de cada ambiente. Ou seja, a
NBR 6120 fornece tanto as cargas permanentes, como as cargas
variáveis.

Cargas Permanentes são aquelas que agem com valores


praticamente constantes, ou com pequena variação, durante
toda a vida útil da estrutura. Esse tipo de carga inclui os pesos
próprios dos elementos estruturais, peso das paredes e
acabamentos, e demais elementos fixos na edificação.

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Cargas variáveis são aquelas que apresentam variações de


intensidade significativas durante a vida da edificação. Em
geral são cargas relacionadas ao momento do uso efetivo da
estrutura. Numa sala de aula, por exemplo, o peso dos alunos
só está presente enquanto os alunos estão na sala. Durante a
noite com a escola fechada a carga não está atuando. Portanto
essa é uma carga é variável.

Fig. 11: Esquema de diferentes cargas atuando numa edificação

A NBR 6120 está em fase final do processo de atualização, em


consulta pública, e sua nova versão entrará em vigor em breve.
Como esse processo ainda não foi formalmente finalizado, você
pode baixar o projeto de revisão sem custo na internet, e já ter o
texto base da nova norma.

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Apesar da adição de várias seções com definições mais claras, e


um número maior de elementos com valores normatizados na
nova versão, o princípio de uso da norma para consulta é o mesmo
para ambas as versões. É só consultar os dados na tabela e lançar
no software.

Escrevemos este capítulo do livro já pensando na nova versão, mas


fique à vontade para usar a versão de 1980 (enquanto a revisão
não entra em vigor).

Em geral os softwares de projeto calculam automaticamente o


peso próprio das estruturas. Você só precisa confirmar esse dado
no seu software e já terá a primeira carga permanente
considerada.

Calcule então o peso dos demais elementos permanentes de


acordo com o que foi considerado no projeto arquitetônico,
seguindo os dados da NBR 6120.

Pesos que atuam em uma superfície na estrutura são calculados


como distribuídos por área, em kN/m². Já o peso de elementos
como paredes, que são mais lineares, é calculado em kN/m.

Fique atento pois alguns softwares não usam as mesmas unidades


da norma, como por exemplo as tradicionais tf/m e tf/m². Lembre
de converter as unidades quando for o caso. Você pode usar a
aproximação 1 tf = 10 kN.

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27

Considere esse exemplo de cálculo: Você quer o peso de um


contrapiso de 15 mm de espessura, feito com uma argamassa de
cal, cimento e areia. Olhando na norma, tabela 5.1 item 3, vemos
que o peso específico dessa argamassa é de 19 kN/m³.

Desse modo:

19 𝑘𝑁/𝑚³ × 0,015 𝑚 = 0,285 𝑘𝑁/𝑚²

Portanto, você poderia considerar uma carga aproximada de 0,3


kN/m² para esse contrapiso, então lançar essa carga no software.

Uma das grandes vantagens da revisão da norma é que ela já te dá


as cargas das paredes de acordo com o material e a espessura do
revestimento. A versão de 1980 exigia que as contas fossem feitas
manualmente, pois ela só fornecia os dados dos materiais
separadamente.

O próximo passo são as cargas variáveis. As cargas variáveis de uso


geral são bem simples. São cargas uniformes e distribuídas
superficialmente (kN/m²).

Você deve consultar a tabela 6.1 da norma de acordo com o uso


da edificação que está sendo projetada, e lançar o valor dado
como carga variável.

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28

Por exemplo, para uma biblioteca, você vai colocar 3 kN/m² para
as salas de leituras sem estantes, porém na sala das estantes, onde
estão os livros, você lança a carga de 6 kN/m², devido ao peso
maior.

Lembre-se também de cargas não triviais, como caixa d’água,


elevador, cofres em bancos, máquinas pesadas em indústrias, etc.
Além, é claro, das cargas de ventos, normatizadas pela NBR 6123.

Existem ainda cargas chamadas especiais, que são cargas variáveis


de altíssima intensidade que atuam num intervalo de tempo muito
curto, como explosões, colisões veiculares, abalo sísmico, etc.

No uso dos carregamentos para o dimensionamento, dois grupos


de critérios de segurança básicos são usados para se prever o
comportamento da estrutura, os quais chamamos de estados
limites.

O primeiro considera a estrutura submetida aos carregamentos


mais usuais, que ela provavelmente receberá todos os dias
enquanto tiver sendo usada. Em geral considera-se aqui fatores
relacionados a conforto e durabilidade. Esse estado é chamado de
Estado Limite de Serviço (ELS).

No ELS nos você se preocupa mais com as deformações da


estrutura, com a abertura de fissuras, com a vibração excessiva,
etc.

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29

O segundo considera a estrutura submetida a carregamentos mais


altos, que podem levar ao esgotamento da capacidade de
resistência, i.e., ao colapso. Esse é o Estado Limite Último (ELU).

No ELU você se preocupa com a resistência última da estrutura aos


carregamentos que atuam sobre ela, garantindo que ela tenha
capacidade de resistir às diferentes solicitações, que se não
combatidas poderiam levá-la a ruína.

Como a estrutura que vai resistir a esses estados é uma só, a que
vai ser construída, a diferença nas considerações dos estados está
na combinação de cargas. As cargas devem ser combinadas com
diferentes fatores, de acordo com o estabelecido pelo capítulo 11
da NBR 6118:2014.

A norma estabelece combinações específicas para avaliar os


diferentes critérios do ELS, chamadas combinações de serviço, e
combinações específicas para os critérios do ELU, chamadas
combinações de resistência, ou combinações últimas.

Os diferentes fatores que são aplicados às cargas são o que


determinam se você está dimensionando para o ELS ou o ELU.
Saiba de antemão que a estrutura deve atender aos dois critérios.

Em geral o software de estrutura já gera todas as combinações


requeridas pela norma automaticamente, baseado apenas no
correto lançamento das cargas. Cabe a você avaliar criticamente
cada combinação, quando estiver verificando os resultados.

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4. Como eu confiro se meu modelo está


correto?
Com o modelo lançado, a próxima etapa é de realização dos
cálculos. Solicite que o software faça os cálculos com os dados
lançados, ou seja, processe (ou “rode”) o modelo. Você poderá
consultar os relatórios de todas as verificações feitas na análise em
geral.

Não esqueça de voltar às fundações para lança-las


adequadamente, conforme discutido no capítulo anterior.

Com o modelo processado, analise o comportamento da estrutura


qualitativamente. A ideia é entender se de acordo com o software
a estrutura está tendo o comportamento esperado.

Se você receber algum aviso, de que algum elemento não resiste


as solicitações, não se preocupe ainda. O mais importante agora é
verificar se o seu modelo foi lançado corretamente. Essa
verificação é chamada de validação do modelo.

Você faz essa verificação olhando para partes da estrutura onde é


possível ter uma ideia prévia de como ela se comportaria numa
situação real, e então conferindo se os resultados do software
confirmam essa ideia inicial.

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31

Por exemplo, numa parte da estrutura em balanço, espera-se que


os deslocamentos sejam maiores na ponta do balanço, e que as
tensões sejam maiores no engaste. Em vigas bi-apoiadas espera-
se um deslocamento maior no meio do vão, e assim por diante.

Se uma parte da estrutura que você está verificando não está se


comportando de maneira esperada, então você deve voltar e
revisar o lançamento dos elementos e das cargas. É comum, por
exemplo, acontecer de uma peça está se deslocando muito mais
que as demais por um erro de digitação no carregamento, ou por
falta de especificar corretamente um apoio.

Essa validação é uma etapa extremamente importante para


detectar erros cedo, antes de prosseguir ao detalhamento, que
costuma ser trabalhoso.

Quando você avaliar e chegar à conclusão que o modelo está em


conformidade com o esperado de seu comportamento estrutural,
passe ao dimensionamento final e ao refinamento.

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5. Como eu refino e otimizo o meu modelo?


Com o modelo devidamente validado, prossiga para a definição
final das dimensões dos elementos. Nessa etapa você deve
verificar se há algum elemento cujas dimensões não atendem a
solicitação, ou que está muito maior que o necessário.

Lembre-se que é necessário verificar o ELS e o ELU. Você vai usar


as combinações de serviço para verificar se a estrutura atende aos
critérios do ELS e as combinações últimas para verificar se atende
ao ELU.

Os softwares geram relatórios com os cálculos de análise e


dimensionamento, e alertam sobre elementos que não estão
resistindo às cargas no ELU. Quando isso acontece dizemos que o
elemento não “passou”.

Em geral a solução mais simples para esse problema é apenas


aumentar o tamanho do elemento, rodar o programa novamente,
e verificar se ele passou. Porém temos que tomar cuidado para
que o aumento do elemento não interfira com a arquitetura e com
as outras disciplinas (instalações hidrossanitárias, elétricas, etc).

Por exemplo, uma viga que cobre um vão grande no meio do


cômodo não pode ter sua altura aumentada indefinidamente até
passar, porque vai interferir com o pé direito livre daquele
cômodo, causando desconforto e problemas aos usuários.

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Fig. 12: Exemplo de ambiente onde o aumento da altura da viga traz


consequências indesejáveis na arquitetura

Casos assim acontecem com mais frequência quando o


engenheiro lança o modelo sem ter em mente o provável
comportamento da estrutura e sem entender o sistema estrutural,
e por isso acaba com um resultado que não atende às demandas
de carga da estrutura.

Tão importante quanto a verificação ao ELU, onde verifica-se se os


elementos estruturais passaram ou não, é a verificação do ELS. Em
geral, devem-se verificar deslocamentos excessivos de lajes e
vigas, além de deslocamentos máximos do topo dos pilares da
edificação.

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Ao processar o modelo estrutural verifique os deslocamentos para


garantir que a estrutura, além de resistir aos esforços (passar no
ELU), também trabalhará dentro dos limites de deslocamentos e
fissuração do concreto (verificação do ELS).

Se você verificar que, por exemplo, alguma laje está com


deslocamento acima do limite, tome medidas para combater esse
excesso de deformação. Essas medidas podem variar desde o
aumento da espessura da laje, até a prescrição de contraflechas.
Entretanto, as contraflechas devem ser limitadas a L/350 para seu
efeito isolado no plano de deslocamento, onde L é o vão da laje.

Fig. 13: Verificação de deslocamentos em lajes num software

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Não esqueça de ficar atento aos deslocamentos sob as paredes de


alvenaria. Após a construção da mesma, o deslocamento deve ser
limitado a L/500 ou 10mm. Caso esses limites sejam
ultrapassados, as alvenarias estão sujeitas a trincas e rachaduras
indesejáveis.

Você deve também analisar os casos onde há elementos


superdimensionados, ou seja, que são muito maiores do que
precisam ser. Apesar de eles serem seguros estruturalmente, eles
representam um gasto desnecessário, e, portanto, um desperdício
de recursos e tempo.

É comum os softwares mostrarem coeficientes de aproveitamento


para cada elemento, mostrando qual a capacidade dele está sendo
solicitada, numa escala de zero a um. Por exemplo, um elemento
com aproveitamento 0,5 está com 50% da sua capacidade
resistente sendo solicitada. Uma estrutura econômica e segura
tem normalmente esse coeficiente entre 0,8 e 1.

O processo de refinamento é realmente iterativo, não tem jeito.


Alguns elementos mais críticos podem requerer diversas
tentativas antes de se encontrar a melhor solução. Contudo, com
um bom lançamento da estrutura e um software adequado, o
processo de refinamento pode ser bem mais eficiente. Quanto
mais você estudou a estrutura para o lançamento, menos trabalho
terá no refinamento.

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36

Porém, saiba que o aproveitamento do elemento não deve ser


tratado como fator absoluto, porque outra parte importante do
projeto é a padronização do tamanho dos elementos. É muito
contraprodutivo para a construção quando cada elemento tem
um tamanho diferente. Um projeto de qualidade sempre leva em
conta a construção!

Por isso você deve procurar ao máximo manter os elementos que


tenham características similares com mesmas dimensões. Mas
como fazer isso na prática? Mais uma vez depende do bom senso
e da experiência do engenheiro, mas vamos dar algumas dicas
práticas que podem te ajudar.

A primeira é separar elementos em categorias similares. Por


exemplo, você pode separar os pilares em pilares de borda e
pilares centrais, com uma seção transversal para cada. Em geral as
cargas são maiores nos pilares centrais, então faz sentido que eles
tenham seções mais robustas. Você pode também abrir uma
exceção para os pilares na região do poço de elevador, onde as
vezes se usa um pilar parede em todo o contorno do poço.

Outra dica é analisar as separações geométricas próprias da


edificação sendo projetada. Por exemplo, se você tem um hospital
com várias alas, cada uma com uma demanda estrutural diferente,
é possível padronizar cada ala conforme sua necessidade.

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Não esqueça que você sempre tem a opção de ligar para cliente e
perguntar sobre detalhes do processo que ele pretende usar na
construção. Esses detalhes talvez possam te ajudar a otimizar o
projeto. A comunicação efetiva entre as partes envolvidas é
essencial para o sucesso do empreendimento como um todo.

Tão importante quanto a verificação dos tamanhos das dimensões


nas formas é a verificação das armaduras. Às vezes os programas
geram armaduras cujas áreas de aço atendem aos critérios dos
estados limites, porém acabam causando problemas na obra.

Um problema muito comum é a quantidade muito grande de aço


nos nós da estrutura, isso é, onde os elementos se encontram.

Esse erro é especialmente comum para engenheiros com pouca


experiência, que analisam as armaduras dos elementos
separadamente (do jeito que o software mostra) mas esquecem
de verificar os nós, porque eles não são explicitamente expostos
na maioria dos softwares. Considere-se prevenido contra esse
erro.

Fig. 14: Exemplo de ligação com excesso de armadura


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Fig. 15: Exemplo de ligação com armadura adequada

Você também pode usar algum critério para padronizar as barras,


caso o programa dê soluções não muito práticas. Usar muitas
bitolas diferentes na mesma região, por exemplo, aumenta a
chance de que se confunda alguma coisa na construção.

Nosso critério pessoal é evitar o uso de bitolas de aço diferentes


em uma mesma região de viga. Por exemplo, se o programa
sugere, para uma viga, uma armadura positiva de 2 ferros de 12,5
mm e dois de 8,0 mm (As = 3,50 cm²) trocamos por 3 ferros de
12,5 mm (As = 3,75 cm²). Você pode aplicar critérios similares.

Por último, você deve fazer a verificação de estabilidade global da


estrutura. A verificação anterior que você fez, para refinar o
modelo, levava em conta os elementos da estrutura
individualmente, analisando cada pilar e cada viga como se
estivessem separados.

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Contudo a estrutura atua em conjunto, e as vezes pode falhar


como um todo, mesmo que os elementos separadamente não
falhem, devido a efeitos de segunda ordem. Por isso é importante
a verificação de estabilidade global. Os efeitos de segunda ordem
são especialmente importantes em prédios muito altos e esbeltos.

Segundo a NBR 6118:2014 você está dispensado de fazer essa


verificação na sua estrutura se:

1) O parâmetro de instabilidade 𝛼 for menor que os valores


limites 𝛼1 . Os valores limites são:

𝛼1 = 0,2 + 0,1𝑛; 𝑝𝑎𝑟𝑎 𝑛 ≤ 3


𝛼1 = 0,6; 𝑝𝑎𝑟𝑎 𝑛 ≥ 4

Onde n é o número de pavimentos acima da fundação.

2) O parâmetro 𝛾𝑧 for menor ou igual a 1,1 em estruturas de


pelo menos 4 andares.
Em geral os softwares calculam esses fatores para você, então o
processo é bem simples. Se atender a qualquer um dos dois
critérios, a verificação está dispensada.

Caso não sua estrutura não atenda a esses critérios, você deve
realizar, no software, a análise dos efeitos de segunda ordem. O
item 15 da NBR 6118:2014 normatiza as verificações de
instabilidade e efeitos de segunda ordem.

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40

6. Como eu detalho tudo que projetei para a


construção?
Agora que toda a estrutura está definida, é hora de detalhar tudo
que foi projetado para que a equipe de obra possa entender o que
de fato devem construir. Lembre-se sempre que um projeto não
pode gerar dúvidas, portanto ele deve conter todas as
informações necessárias de forma clara e precisa.

Todos os desenhos têm que estar em uma escala apropriada. Em


geral usa-se 1:50 em plantas de formas e cortes. Para detalhes usa-
se valores menores, como 1:25 ou 1:20, ou até menos,
dependendo da necessidade do detalhe. A escala deve estar
claramente indicada no título do desenho.

Lembre-se que muitos dos trabalhadores da construção civil no


Brasil são pessoas com pouca ou nenhuma instrução. Num nível
global nossa mão de obra é considerada de baixa qualificação[5].
Por isso o detalhamento adequado é tão importante no projeto. É
essencial que a pessoa que receber o projeto não tenha a menor
dúvida do que deve ser executado.

Vamos mostrar aqui as boas práticas de detalhamento de


projetos. Começando pelas formas:

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Identificação:

Todos os elementos da sua estrutura devem ser facilmente


identificáveis nas pranchas que o cliente recebe, de modo que
você possa se referir ao elemento pelo nome.

Logo abaixo do nome do elemento, você deve mostrar as


dimensões da seção transversal. O padrão para estruturas de
concreto é que o projeto seja desenhado e cotado em
centímetros.

Fig. 16: Exemplo de planta de formas com elementos corretamente


identificados

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Locação:

Todos os elementos devem estar bem locados, e referenciados


baseados em um ponto em comum, que será usado como
referência topográfica na obra. Um ponto comum é alguma
extremidade do terreno onde a edificação será construída.

É comum, para facilitar a visualização, que se determinem eixos


nas vertical e horizontal, e que esses eixos sejam cotados em
relação ao ponto de referência. E então os demais elementos são
cotados em relação aos eixos. Isso evita um excesso de cotas no
desenho, que pode atrapalhar a leitura do projeto.

Alguns profissionais gostam de dizer que cota nunca é demais, e


que é melhor sobrar informação do que faltar. Eu concordo, desde
que não se atrapalhe a visualização do projeto.

Uma prancha muito importante para que a estrutura seja


corretamente posicionada na obra é a Planta de Locação dos
Pilares e Cargas na Fundação, onde os eixos e os pontos de
referência são mostrados pela primeira vez, e servem como guias
para toda a construção.

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Fig. 17: Exemplo de planta de locação da fundação bem cotada

Detalhes:

Os cortes são os detalhes obrigatórios. A planta de formas deve


conter uma quantidade suficiente de cortes para que a estrutura
seja facilmente compreendida. É comum que se use no mínimo
dois cortes, que passem por toda a planta, um em cada direção da
planta. Veja um exemplo de corte na próxima figura.

Fig. 18: Exemplo de cortes mostrando diversos detalhes

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A localização do corte tem que ser escolhida de modo que ele


mostre as escadas, rampas, trechos em desníveis, e demais
detalhes difíceis de se representar apenas em planta.

Uma coisa muito importante nos cortes é o uso de hachuras e


espessuras de linhas diferentes para que sejam facilmente
identificáveis os elementos que estão em corte e os que estão em
vista no desenho, como foi usado acima.

Caso haja algum outro detalhe da forma que não foi possível
mostrar com a planta de formas e com os cortes, você deve criar
um corte adicional para mostra-lo. Nesse caso o corte não precisa
passar por toda a planta, podendo ficar restrito ao ponto de
interesse.

Armação:

Quando estamos tratando de armação, os princípios são similares,


mas temos algumas particularidades importantes a serem
seguidas.

Todo desenho de armação deve deixar claro, já no título, de qual


elemento se trata. As barras de aço da armação são separadas e
indicadas por posições, ou níveis.

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45

Duas barras só terão o mesmo nível se tiverem a mesma bitola,


mesmo comprimento, e mesma dobra. Ou seja, só se forem iguais
mesmo. Veja a figura abaixo.

Fig. 19: Exemplo de armadura de viga

Repare nos títulos de cada barra. Eles apresentam informações


específicas para a barra em questão. De maneira geral, as
informações seriam do tipo:

18 N1 ϕ 10 C/12 C = 261

Essa nomenclatura representa:


• Quantidade: 18 ferros
• Posição: Nível 1
• Diâmetro: 10 mm
• Espaçamento: Uma barra a cada 12 cm
• Comprimento total: 261 cm

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Dependendo do tipo de ferro, alguma dessas informações podem


ser omitidas. Na armadura principal de vigas, por exemplo, não é
comum informarmos o espaçamento, mas sim a quantidade de
barras.

Observe também que nos detalhes de armação, a melhor prática


é mostrar como o elemento se posiciona dentro da peça de
concreto e, externamente, como ele deve ser dobrado. Você deve
fazer isso porque dentro da peça as dobras podem se confundir
com os demais elementos mostrados.

Em geral, os estribos (armaduras para combater as tensões de


cisalhamento no concreto) não são mostradas na vista lateral de
vigas explicitamente, apenas o espaço em que eles serão
distribuídos no elemento. O detalhamento da dobra dos estribos
pode ser visto no detalhamento da seção transversal em corte,
como no exemplo acima.

Quantitativos:

Outra parte importante do detalhamento, tanto das formas como


das armações, é a tabela de quantidades. É baseado nessas tabelas
que o cliente irá estimar os custos da obra, e comprar os materiais
dos fornecedores.

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Nas formas devemos indicar:

• Volume de concreto usado [m³] e;


• Área de formas [m²].

Em cada pavimento você deve especificar esses valores separados


por elementos: pilares, vigas e lajes. No final, mostre o valor total
do pavimento.

Nas armações, cada elemento da prancha deve ter indicado uma


série de informações sobre a armadura. Essas informações são:

• Nível;
• Bitola (mm);
• Quantidade;
• Comprimento Unitário (cm);
• Peso (kg).

Todos os elementos da prancha devem ser contemplados. No final


você também deve inserir uma tabela resumo de todos os aços
usados naquela prancha, contendo:

• Tipo de aço (CA-50 ou CA-60);


• Bitola (mm);
• Comprimento total (m);
• Peso total (kg)

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Fig. 20: Exemplo de tabela resumo de aço

Os softwares costumam gerar essas tabelas automaticamente. Se


você está perdido com as pranchas que citamos, sem saber quais
deve montar e o que incluir em cada uma, não se preocupe! O
próximo capítulo tem uma lista de todas as pranchas que devem
ser entregues ao seu cliente.

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7. Afinal de contas, o que eu entrego para o


cliente?
Finalizado todo o detalhamento, você ajuntará todos os desenhos
em pranchas, e essas pranchas, com todos os dados do seu
projeto, é o que você entregará ao cliente.

O formato da prancha depende do tamanho e da escala do


desenho, mas os formatos mais usados são o A0 e o A1.

Todas as pranchas devem conter um carimbo, mostrando os dados


dos engenheiros responsáveis pelos projetos, do cliente, e com as
informações daquela prancha específica, como título, escala e
revisões. Veja um exemplo na figura abaixo.

Fig. 21: Exemplo de carimbo

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Acima do carimbo você pode colocar notas relevantes para o


pleno entendimento do projeto, como o fck especificado para o
concreto, e outras considerações relevantes.

A lista de pranchas a ser montada é:


• Locação dos Pilares e Cargas na Fundação
• Formas da Fundação
• Armação da Fundação
• Armação dos Pilares

E para cada pavimento superior:


• Planta de Formas
• Armação das Vigas
• Armação Positiva das Lajes
• Armação Negativa das Lajes

Lembre-se sempre de manter a sua prancha organizada e de fácil


leitura. Como você edita e organiza as pranchas dentro do
software de estruturas, ou no arquivo DWG posteriormente, é
recomendável exportar o arquivo para um formato mais universal
e fácil para ser plotado pelo cliente.

O formato mais comum em uso é o PDF. Você pode exportar seu


desenho para PDF usando comando “plot” do AutoCAD, e
escolhendo a plotter pré-instalada “DWG to PDF.pc3”.

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51

Agora suas pranchas estão em um formato fácil de ser aberto em


qualquer lugar, e podem ser enviadas ao cliente.

Mas ainda temos mais um detalhe: A construção civil no Brasil está


rapidamente adotando a tecnologia BIM, sigla para Building
Information Model (Modelo de Informação da Construção, em
tradução livre).

Inclusive, o presidente Michel Temer assinou em 2017 um decreto


criando um comitê estratégico de Implantação da Tecnologia BIM
no Brasil no âmbito federal, e lançou, em 2018, uma iniciativa
chamada “estratégia nacional para disseminação do BIM”.

Fig. 22: Ciclo BIM

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52

O BIM permite o eficiente compartilhamento de informações


entre as partes envolvidas no projeto, planejamento e execução
das edificações.

Lembre-se de escolher um software que esteja preparado para


compartilhar informações nesse sistema. Você, como engenheiro
de estruturas, precisa lançar todas as informações relativas à
estrutura no seu software detalhadamente, e desse modo poderá
compartilhar com os profissionais das outras disciplinas.

Isso permite, entre outras coisas, que sejam feitas verificações de


interferência entre os diferentes projetos, e havendo tais
interferências, você corrige o projeto antes de ele chegar na obra,
aumentando a eficiência do empreendimento como um todo.

O compartilhamento das informações pode ser feito em serviços


de nuvem, em geral com arquivos IFC, que abrem em diferentes
softwares de compatibilização.

Tendo seguido os passos dados nesse ebook corretamente e


lançado a estrutura toda de maneira coerente, você precisa
apenas exportar seu modelo para o formato IFC e compartilhar de
acordo com a plataforma que seu cliente usa.

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53

Este ebook é um guia geral, que entrou em tantos detalhes o


quanto foi possível nesse espaço. Espero sinceramente que ele
seja muito útil na sua carreira como engenheiro!

Se você tem interesse em conteúdos de qualidade para


engenheiros de estruturas, se inscreva em nossas redes sociais e
interaja conosco. Você vai encontrar os links logo abaixo, é só
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Apêndice: Conhecendo o material


O concreto é o material formado pela mistura de água, cimento e
agregados. O cimento é chamado de aglomerante, porque serve
para solidarizar os grãos de agregados inertes. Os agregados
podem ser miúdos, sendo areia o mais utilizado, e graúdos, como
pedra britada e seixos rolados.

Fig. 23: Aplicação manual de concreto


As diferentes combinações desses componentes recebem os
seguintes nomes [6]:

• Pasta: Cimento + Água;


• Argamassa: Pasta + Agregado Miúdo;
• Concreto Simples: Argamassa + Agregado Graúdo.

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A mistura deve seguir uma proporção específica entre os


materiais, de acordo com a resistência que se pretende obter. Essa
proporção recebe o nome de traço. O traço pode ser representado
de várias maneiras, sendo a mais comum assim:

1: 2: 3

O que significa que será misturada 1 parte de cimento com 2


partes de areia com 3 partes de brita. Essas partes podem ser
expressas em unidades de volume ou de massa.

Em geral usa-se traço em volume nas misturas com menos rigor


técnico e controle tecnológico, como as feitas manualmente ou
com betoneira no próprio local da obra. Já as empresas
concreteiras especializadas aplicam um rigoroso controle
tecnológico sobre seu material, por isso usam o traço em massa,
que é mais preciso.

A quantidade de água varia porque depende da umidade da areia


e da trabalhabilidade final do concreto. A tabela 7.1 da NBR
6118:2014 dá valores recomendados para a quantidade de água
em relação ao cimento, em massa, a serem usados em diferentes
tipos de concreto.

Abaixo você pode encontrar algumas recomendações de traços


para diferentes elementos estruturais das construções usuais, em
volume. Considera-se nessa tabela que os agregados estão secos
e que as latas têm volume de 18 L [7]:

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56

Aplicações Traço
Base de Fundações 1 saco de cimento 50kg
(Concreto Magro) 5 latas de areia
6 latas de brita
2,5 latas de água
Fundações 1 saco de cimento 50kg
(Baldrame, Broca e Radier) 5 latas de areia
6 latas de brita
2,5 latas de água
Pilares, Vigas e Lajes 1 saco de cimento 50kg
3 latas de areia
3 latas de brita
1,5 latas de água
Pisos de Concreto e Cintas 1 saco de cimento 50kg
3 latas de areia
4 latas de brita
1,5 latas de água

Quando se projeta uma estrutura onde o concreto é usinado, ou


seja, comprado diretamente de uma concreteira, a principal
propriedade do concreto a ser especificada pelo engenheiro
projetista é a resistência característica à compressão aos 28 dias,
o famoso fck, medido em MPa. Em geral usam-se valores de fck
entre 25 MPa e 40 MPa, de acordo com a necessidade do projeto.

É responsabilidade de concreteira garantir que o concreto tenha o


fck especificado de acordo com as definições da NBR 6118:2014.

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57

O engenheiro de obra, ao receber o concreto, deve realizar testes,


como o Slump, para garantir que o material atende aos requisitos
de projeto. Existem também concretos de alto desempenho, CAD,
que podem atingir valores de fck de até 100 MPa, mas são bem
menos usuais.

Ao ser misturado, o concreto é um material pastoso, e, portanto,


altamente maleável. Para que o concreto fique disposto do modo
indicado pelo projeto são necessários elementos temporários nas
obras, chamados de formas, que servem como moldes para o
concreto que será despejado no local.

As formas podem ser de madeira, de aço ou mesmo de plástico.


As formas de madeira em geral são mais baratas para se adquirir,
porém não podem ser reutilizadas várias vezes.

Fig. 24: Concreto sendo lançado em formas numa fundação

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58

Com o tempo o concreto endurece, adquirindo resistência


mecânica e rigidez, num processo que chamamos de cura. A cura
do concreto acontece porque o cimento reage quimicamente com
a água, numa reação exotérmica (liberando calor). O tempo de
cura pode variar de um concreto para outro, dependendo da
relação água/cimento no traço, e ainda da presença de aditivos no
concreto que alterem esse tempo.

Existem, por exemplo, aditivos para cura rápida, quando se quer


ganho rápido de resistência, e também para a cura lenta, quando
o concreto tem que ser misturado em um local, porém seu destino
final é outro e ele tem que ser transportado por grandes distâncias
em caminhões betoneiras.

Como o ganho de resistência e rigidez do concreto é gradativo, o


ideal é que se espere 28 dias antes de aplicar carga ao concreto
recém lançado, para que ele atinja sua resistência de projeto, o fck.
Quando isso não acontece, o projetista deve levar em conta a
resistência menor do concreto para receber os primeiros
carregamentos e/ou exigir o uso de aditivos.

Ressaltamos aqui que na maioria dos edifícios com múltiplos


pavimentos os 28 dias não são respeitados entre a concretagem
de um pavimento, e a concretagem do pavimento superior. Isso
acontece porque em geral a empresa construtora tem uma
agenda de trabalho que leva em contas fatores não técnicos, como
a mobilização de mão de obra e o fluxo de caixa.

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O engenheiro estrutural deve prever esse fato no seu projeto,


esclarecendo os detalhes de como a estrutura será executada com
o engenheiro responsável pela obra.

Em casos de obras com volumes muito grandes de concreto, o


calor liberado na reação exotérmica, chamado calor de
hidratação, pode interferir no bom andamento da cura.

As partes mais externas do concreto enrijecem primeiro, e liberam


seu calor para o ambiente, enquanto as partes mais internas
liberam o calor para as partes externas, gerando tensões térmicas,
que podem causar fissuras não previstas no concreto.

Para evitar esse problema, usa-se algum método de resfriamento,


como por exemplo usar a água com baixa temperatura para a
mistura do concreto, inclusive com gelo. Esse fenômeno acontece
em obras de barragens, por exemplo, mas é irrelevante na maioria
dos edifícios usuais, por isso não damos ênfase a ele neste ebook.

O concreto, após a cura, apresenta boa resistência aos esforços de


compressão, porém tem baixíssima resistência à tração. Num
projeto a prática recomendada é desprezar a resistência à tração
do concreto, por ser muito pequena. Porém, as tensões de tração
surgem inevitavelmente nas peças de concreto, principalmente na
flexão.

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Para combater esse esforço de tração usamos elementos de aço


posicionados adequadamente no concreto, sendo o aço um
material que apresenta excelente resistência à tração. Esse aço
recebe o nome de armadura, e, portanto, chamamos essa mistura
de concreto com aço de Concreto Armado.

Usamos como armadura barras de aço com a superfície nervurada,


para dar aderência com o concreto. Essas barras são também
conhecidas como vergalhões, ou mesmo ferros. Os vergalhões
usados hoje em dia têm tensão nominal de escoamento de 500
MPa (50 kgf/mm²) ou de 600 MPa (60 kgf/mm²), por isso recebem
o nome de CA-50 e CA-60. Abaixo você encontra uma tabela dos
principais aços usados na grande maioria das obras.

Tipo Diâmetro 𝝓 (mm) Área de Aço (cm²) Massa Linear (kg/m)


CA-60 5,0 0,20 0,16
CA-60 6,0 0,28 0,22
CA-50 8,0 0,50 0,40
CA-50 10,0 0,80 0,63
CA-50 12,5 1,25 1,00
CA-50 16,0 2,00 1,60
CA-50 20,0 3,15 2,50
CA-50 25,0 5,00 4,00
CA-50 32,0 8,00 6,30

Os vergalhões são posicionados adequadamente nas formas,


antes da concretagem, nas partes onde o concreto sofrerá as
tensões de tração, de acordo com as posições detalhadas no
projeto.

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Ao realizar-se a concretagem, deve-se garantir que o concreto


possa preencher totalmente a área ao redor da armadura, para
que de fato haja aderência entre os materiais, e para proteger o
aço de ataques corrosivos do ambiente, que podem deteriorar o
seu estado. Todo cálculo usado no dimensionamento das
estruturas de concreto depende dessa aderência aço-concreto.

O projetista deve estar especialmente atento aos cobrimentos,


isto é, às distâncias entre a barra de aço e a superfície externa do
concreto.

O cobrimento depende da agressividade do ambiente e do tipo de


elemento estrutural. A tabela 7.2 da NBR 6118:2014 estabelece
valores de cobrimento recomendados para diferentes elementos
em estruturas de concreto.

Ao sofrer essas tensões de tração, o concreto começa a se deslocar


microscopicamente, e a fissurar. Se a aderência dos vergalhões ao
concreto foi garantida na execução, essa fissuração fará o
vergalhão tracionar, e ele vai assim impedir maiores fissurações na
peça. Portanto essa armadura é chamada armadura passiva, pois
ela só é tensionada após o esforço começar a afetar o concreto.

O concreto armado não é, portanto, apenas um material, mas dois


materiais trabalhando juntamente. Seu comportamento durante
a vida útil da estrutura deve ser entendido como tal.

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Existem armaduras que são tensionadas antes do concreto, mas


essas não são armaduras do tipo CA. Em geral são fios de aço que
são enrolados de forma helicoidal, formando cordoalhas. Como
essa armadura é tensionada independentemente das tensões do
concreto, por equipamentos específicos, ela é chamada de
armadura ativa. O concreto com esse tipo de armadura é chamado
de Concreto Protendido.

Os projetos em concreto protendido são bem mais complexos,


com procedimentos e considerações bem diferentes, dos projetos
de concreto armado. A maioria das obras no Brasil hoje em dia são
mesmo de concreto armado. Como esse ebook é feito para dar à
iniciantes o conhecimento necessário para começar a elaborar
projetos, preferimos não fazer referência ao concreto protendido
no corpo do texto principal.

Recomendamos que só quando você tiver o domínio do projeto de


concreto armado, então passe a se preocupar com concreto
protendido. Até porque em geral uma obra que usa peças de
concreto protendido também usa peças de concreto armado.

A análise e o dimensionamento das estruturas de concreto


envolvem uma quantidade grande de cálculos, e por isso são feitos
na prática com a ajuda de um software específico. Existem vários
softwares no mercado brasileiro e internacional.

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É extremamente importante para o engenheiro estrutural


conhecer o bem o software que ele escolheu e saber avaliar
criticamente os resultados apresentados pelo programa.

Os critérios de dimensionamento do software devem obedecer


também aos demais parâmetros estabelecidos pela já muito
mencionada NBR 6118:2014 - Projeto de estruturas de concreto –
Procedimento.

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Referências Bibliográficas
TEXTO:

[1] REBELLO, Y. C. P. Bases para projeto estrutural na arquitetura.


São Paulo: Zigurate Editora, 2007.

[2] REBELLO, Y. C. P. A concepção estrutural e a arquitetura. São


Paulo: Zigurate Editora, 2001.

[3] SANTOS, J. S. Descontruindo o projeto estrutural de edifícios.


São Paulo: Oficina de Textos, 2017.

[4] LEONHARDT, F. & MONNING, E. “Construções de Concreto.”


Volume 3. Rio de Janeiro: Editora Livraria Interciência, 1978.

[5] MOHR, Micheli. “Detalhamento Em Concreto Armado: Boas


Práticas Para Seu Projeto.” Mais Engenharia. AltoQI. 3 de julho de
2018, https://goo.gl/jwEpPQ.

[6] Carvalho e Figueiredo (2014). Cálculo e detalhamento de


estruturas usuais de Concreto Armado. São Carlos: EDUFSCAR.

[7] Mauá, Cimento. “O Que é Traço De Concreto e Como Ele


Influencia Na Concretagem.” Cimento Mauá, Lafarge Holcim, 19
de fevereiro de 2018, https://goo.gl/DYwKoM.

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FIGURAS:

[CAPA] Panorama urbano da cidade de New York, EUA. Arquivo


pessoal do autor do ebook.

[01] Modelo 3D de projeto arquitetônico. Imagem criada pelo


autor do ebook.

[02] Exemplo de perfil de solo com fundações profundas. Retirado


de https://goo.gl/sAFKKX. Acesso em 25/07/2018.

[03] Exemplo de arquitetura com muitos elementos que não são


usados no projeto estrutural. Retirado de
www.pinterest.pt/pin/71494712816183571/. Acesso em
25/07/2018.

[04] Lançamento de uma estrutura sendo realizado. Imagem


criada pelo autor do ebook.

[05] Exemplo de lançamento de vigas em planta. Adaptado de


http://www.altoqi.com.br/eberick/. Acesso em 25/07/2018.

[06] Situação onde vigas recebem carga de alvenaria. Retirado de


https://goo.gl/ZHJqg1. Acesso em 25/07/2018.

[07] Exemplo de pilares locados com espaçamentos iguais.


Retirado de www.consegg.com.br/imagens/residencial. Acesso
em 25/07/2018.

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[08] Pré-dimensionamento de sapatas isoladas. Imagem criada


pelo autor do ebook.

[09] Exemplo de lançamento de fundação de blocos sobre estacas.


Retirado de https://youtu.be/vWvI8fLDKZI. Acesso em
26/07/2018.

[10] Inclinação da biela comprimida dentro de um bloco. Adaptado


de http://wwwp.feb.unesp.br/pbastos/concreto3/Blocos.pdf.
Acesso em 01/08/2018.

[11] Esquema de diferentes cargas atuando numa edificação.


Adaptado de https://youtu.be/7pBZNOuMByE. Acesso em
26/07/2018.

[12] Exemplo de ambiente onde o aumento da altura da viga traz


consequências indesejáveis na arquitetura. Retirado de
https://goo.gl/ADXGZM. Acesso em 26/07/2018.

[13] Verificação de deslocamentos em lajes num software.


Retirado de https://goo.gl/H5Vck9. Acesso em 01/08/2018.

[14] Exemplo de ligação com excesso de armadura. Retirado de


https://goo.gl/BNHgz1. Acesso em 26/07/2018.

[15] Exemplo de ligação com armadura adequada. Retirado de


http://www.structuremag.org/?p=13012. Acesso em 26/07/2018.

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[16] Exemplo de planta de formas com elementos identificados.


Retirado de http://galeriadeprojetos.altoqi.com.br/. Acesso em
26/07/2018.

[17] Exemplo de locação de pilares bem cotada. Retirado de


http://galeriadeprojetos.altoqi.com.br/. Acesso em 26/07/2018.

[18] Exemplo de cortes mostrando diversos detalhes. Retirado de


http://galeriadeprojetos.altoqi.com.br/. Acesso em 26/07/2018.

[19] Exemplo de armadura de viga. Retirado de


http://galeriadeprojetos.altoqi.com.br/. Acesso em 26/07/2018.

[20] Exemplo de tabela resumo de aço. Retirado de


http://galeriadeprojetos.altoqi.com.br/. Acesso em 26/07/2018.

[21] Exemplo de carimbo. Imagem criada pelo autor do ebook.

[22] Ciclo BIM. Retirado de https://goo.gl/UfWL83. Acesso em


20/07/2018.

[23] Aplicação manual de concreto. Retirado de


https://goo.gl/QHPef3. Acesso em 20/07/2018.

[24] Concreto sendo lançado em formas numa fundação. Retirado


de https://youtu.be/E0QA01x6hDM. Acesso em 20/07/2018.

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