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Análise do poema "Abdicação"

O soneto abdicação é um soneto particular na obra de Pessoa, pois temos um relato exato de
como foi escrito e em que estado de espírito Pessoa se encontrava quando o escreveu.

Numa carta escrita a Mário Beirão, em Fevereiro de 1913, Pessoa descreve como, chegando a
casa sentiu a proximidade de uma tempestade - ele tinha um medo pavoroso dos relâmpagos,
não tanto dos trovões - e isso o colocou num estranho estado de ansiedade, em que,
paradoxalmente lhe deu para criar um soneto de calma inusitada.

Veja-se desde já como é curioso o que Pessoa diz, sem se aperceber. Embora ele na mesma carta
fale de como o " fenómeno curioso do desdobramento é a coisa que habitualmente tenho", mas
lhe escapa que esse desdobramento lhe permitia fugir ao seu medo - neste caso um medo
concreto e mundano, o medo das trovoadas.

Não chegava ao génio que era Pessoa a reza simples a Santa Bárbara. Teve neste caso de se
refugiar na musa poética. Calíope substitui-se, pagã, ao símbolo religioso e assim se criou mais
um momento de solene beleza na língua portuguesa.

"Abdicação" é também um poema que aborda um tema querido a Pessoa - a noite e a solidão.
Neste caso a noite é simbólica de um estado de solidão que Pessoa bem conhecia - era a sua
realidade quotidiana. Tão triste e simultaneamente calmo é o poema... isto porque a tristeza
que Pessoa sente, é uma tristeza de abandono, de quem deixa de resistir: eis o porquê do título
do poema, abdicação. Quem abdica, é por desistir voluntariamente, não por ser forçado. Pessoa
abdica da vida para que a noite o aceite - para ser plenamente nada na noite, já que foi nada em
vida. Pelo menos que seja plenamente nada - e o que há mais pleno de nada do que a noite?

Análise do poema "Aranha"

Poema tardio de Fernando Pessoa, datado de 10/8/1932, a "Aranha" fala de coisas muito
simples, ao menos se olhe com atenção para a vida do poeta.

A aranha do meu destino / Fez teias de eu não pensar. Quer Pessoa dizer que, por nunca ter
pensado no seu futuro, teias de aranha ocuparam o espaço que na maioria dos homens é
ocupado pela prevenção, pelo planeamento. Pessoa nunca planeou o seu futuro, só se
preocupava pelo presente e - em certa medida - pelo passado.

A referência a uma aranha é - na minha opinião - uma subtil ironia à lenda grega das tecelãs do
destino. Chamavam-se Moiras (os romanos chamavam-lhes Parcas) e eram três deusas que
teciam o destino dos homens.

Pessoa faz referência a estas deusas em outras obras, nomeadamente em fragmentos inéditos
dos seus dramas estáticos e no Livro do Desassossego.

Pessoa diz que a aranha (as deusas) não se preocuparam em tecer o seu destino. Por duas
razões: por ele em criança já "ser adulto sem o achar", ou seja, ter crescido de repente contra a
sua vontade; a segunda razão Pessoa diz ser a rede ter-lhe apanhado "o querer ir", ou seja, o
próprio presente (agora já passado) impediu que ele tivesse o destino - o destino ficou preso
por causa do que lhe aconteceu quando era criança.

Assim ficou Pessoa, "uma vida baloiçada", como uma mosca presa numa rede, viva e só à espera
da morte para desaparecer. O estar preso na rede, com a "consciência de existir", é a sua pena
pelo que lhe aconteceu.

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Análise do poema "Bóiam leves..."

Os poemas que Pessoa reuniu no que seria o seu Cancioneiro, eram poemas para serem
cantados, mas só por isso não eram poemas menores, pelo contrário. Pensava Pessoa encontrar
nesse modo de comunicar a poesia, um forte elo entre o sentimento e a compreensão.

Uma característica de Pessoa ortónimo é um sentimento de leveza e tédio, um sentimento


existencialista que precede em si mesmo o existencialismo de Sartre por dezenas de anos, mas
em que transparece a mesma angústia de viver e o desespero por procura de significados que
encontramos tão profundos na "Náusea" do mestre francês.

O texto que refere é um exemplo perfeito para ilustrar um tema muito querido a Pessoa, que o
aproximou também por intermédio de Bernardo Soares, o autor tardio do Livro do Desassossego
- o tédio de existir. Este tédio está muito perto de ser a náusea, o sentimento de nojo de ser que
Sartre sente ao caminhar pelo nevoeiro na noite da cidade, vendo as sombras indistintas dos
prédios e dos outros homens. Afinal é uma aproximação a um tema absurdo - a análise da vida
humana e do seu significado.

Vejamos o texto mais perto: "Bóiam leves, desatentos / Meus pensamentos de mágoa / Como,
no sono dos ventos, / As algas, cabelos lentos / Do corpo morto das águas." Veja-se como Pessoa
inicia por estabelecer um cenário morto, parado no tempo, em que acção e o rebuliço do mundo
se confronta com o absurdo de o pensar. Os pensamentos são a realização que existe um mundo
que não é feito só de pensamentos.

Os pensamentos, esses, "Bóiam como folhas mortas (...) / São coisas vestindo nadas". São
inconsequentes, irreais, porque absurdos, porque querem intervir no mundo e afinal não
passam de devaneios sonhadores, sem força, sem consistência de realidade. Pelo menos sem
consistência aparente, perante a avassaladora força do mundo exterior, que os esmaga e
suprime.

É o próprio Pessoa que nos esclarece na conclusão. Os pensamentos são "Sono de ser, sem
remédio / Leve mágoa, breve tédio,". Apenas um estado contemplativo, que "Não sei se existe
ou se dói." Afinal é essa a verdade sobre as suas ideias, a sua consciência de ser diferente dos
outros homens - é o que o diferencia e o torna mais nobre, é também um distanciamento.

Mais do que um estado depressivo, o poema passa uma ideia de nobre aceitação do destino
absurdo do homem, perante uma realidade que o assola como um fantasma e o torna sem
carne, um monstro sem escape perante a sua prisão-mundo.

Processo de criação heteronímica em "Diversidade e Unidade"

"Diversidade e Unidade" foi um ensaio particularmente inovador no campo dos Estudos


Pessoanos. Primeiro porque apareceu quando ainda poucos estudavam Pessoa, nos anos 70 e
porque também trazia uma visão de certa maneira original e de conjunto sobre a obra do poeta.

Tenha em atenção o titulo da obra, porque saber lê-lo é saber logo metade sobre do que o livro
trata. Prado Coelho vem sucintamente com a hipótese do poeta de facto se ter desdobrado em
diversas personalidades individuais (Diversidade), mas que esse desdobramento ter mesmo
assim uma base unitária (Unidade). Ou seja, a diversidade aparentemente da obra de Pessoa,
esconde uma unidade subjacente, ligações mais ou menos coerentes e precisas entre os
heterónimos e o homem que os fez nascer.

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Prado Coelho diz-nos que o homem que era Pessoa fingiu estas personalidades e projetou a sua
expressão poética de modo absoluto na imaginação (pág. 185). De certo modo esta é a segunda
dimensão que advém do título da obra de Prado Coelho. Isto porque há dois graus de unidade -
a unidade do homem Pessoa e a unidade de cada um dos seus heterónimos, que, sendo
diversidade, também se afirmam por si mesmos, sem ajuda do seu "pai".

A inovação de Prado Coelho é o que ele chama de "crítica imanente" (v. introdução do livro).
Ou seja, a sua análise do fenómeno heteronómico é feita "desde dentro", analisando cada uma
das personagens em busca de ligações que pudessem existir, de estilo e comportamento, entre
elas. Mantendo-se nesta crítica estilística, escapa à subjetividade da pura psicologia, analisando
verdadeiramente só o que foi escrito por Pessoa - por considerar também que os heterónimos
nascem sobretudo por uma necessidade de expressão, filosófica e poética.

Análise do poema "Dá a surpresa de ser"

"Dá a surpresa de ser" é um raro momento de poesia erótica que podemos achar no todo da
obra de Fernando Pessoa em Português.

De facto o poeta publicou em vida alguns poemas eróticos bastante ousados, mas usou a língua
Inglesa para tal. Isto de certo modo serviu para atenuar o peso de tais obras, que permaneceram
muito desconhecidas, até hoje, em Portugal, embora na altura tivessem levantado grande
polémica.

Pertencendo ao Cancioneiro, este poema tinha de origem o objetivo de ser cantado. Isto é de
certo modo importante, porque aligeira de certo modo a temática, pelo menos na nossa opinião.

A minha primeira reação é considerar este poema, embora ortónimo, como falso. Tanto é assim
que uma simples leitura do mesmo poderá dissipar qualquer dúvida imanente. Refere-se Pessoa
a uma figura feminina, que observa atentamente, mesmo que apenas em memória? Não nos
parece.

Este é certamente um momento de alto fingimento. Ousamos dizer isto? Certamente que sim,
mas certamente que teremos de nos justificar.

Primeiro que tudo: é este um poema erótico? Não.

É um poema infantil. Veremos bem isso se o lermos. Pessoa tem como temática a mulher - isso
é certo - e escreve sobre o seu objeto poético, a mulher. Mas fá-lo em termos marcadamente
infantis. Logo no título não há nome, mas um espanto, um deslumbramento que ameaça susto
da parte do poeta. De seguida, o corpo da mulher é equiparado a várias coisas - metonímias
fugidias, para um fruto, para montes, para um barco.

Logo na primeira estrofe, Pessoa comporta-se de maneira estranha. Não vemos reverência ao
corpo feminino, nem o gosto particular de quem elogia. Mas antes se observa o medo de criança
ao aproximar-se de um objeto adulto com o qual não tem a certeza como lidar. O "corpo meio
maduro", certamente não se refere à meia-idade, mas antes ao corpo de fruto, de que mais
tarde Pessoa sonha tirar um "gomo".

Na estrofe seguinte, Pessoa imagina a mulher deitada e os seus seios como "montinhos que
amanhecem / sem que tenha de haver madrugada". É evidente a maneira infantil como Pessoa
encara o corpo voluptuoso da mulher. Encara-o, é certo, sem a volúpia que ele mesmo encerra,

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mas de um modo distante e comparativo. Não há desejo nem um qualquer acender de desejo
sexual, mas antes um estranho e indisfarçável mal-estar.

A terceira estrofe marca ainda mais esta impressão. Dá a nítida impressão de um Pessoa que vê
à distância o objeto do seu poema, que o observa sabendo bem que nunca o poderá ter. Ou pelo
menos ele sabe nesse momento que não é o ideal contraponto aquele corpo insinuante. Ele em
si mesmo não parece achar coragem para assumir o seu desejo sexual. É como um repórter do
erotismo alheio e estrangeiro.

Tudo se confirma na estrofe conclusiva. O corpo de mulher parece-lhe como um barco ou como
um gomo, e ele pergunta-se a ele mesmo quando embarcará e quando vai comer. Ou seja,
quando conseguirá estar com uma mulher carnalmente, fazendo seu o objeto do seu poema,
tendo afinal coragem para assumir o seu próprio desejo sexual.

É este um poema erótico? Certamente que não. Tanto que será impossível a um poeta um
poema erótico, sem conhecer o erotismo. A menos que faça da sua poesia um fingimento
completo, um fingimento triste - como este de Pessoa. Então, e só então, este poema poderá
ser um poema erótico, mas nunca deixando de ser um poema falso, fingido.

Análise do poema "Do Vale à Montanha"

Do Vale à Montanha é um poema isotérico e iniciático de Fernando Pessoa, datado já da fase


mais tardia da sua produção literária - ano de 1932.

O interesse de Pessoa pelo esoterismo terá vindo desde 1915, altura em que escreve ao seu
amigo Mário de Sá-Carneiro falando-lhe da teosofia, uma teoria filosófica muito em voga então.
Pessoa chega mesmo a traduzir para Português vários livros desta religião-filosofia.

Em elucidativa passagem na famosa "carta dos heterónimos", Pessoa diz acreditar em "mundos
superiores ao nosso e de habitantes desses mundos, em experiências de diversos graus de
espiritualidade". É conhecedor das teorias ocultistas, tendo na sua biblioteca diversos livros
sobre o assunto, assim como sobre organizações maçónicas e espirituais, como a sociedade Rosa
Cruz.

Quanto ao poema "Do vale à Montanha", ele tem uma estreita relação com outro poema
esotérico do poeta chamado "Na sombra do Monte Abiegno". Aliás, há quem defenda (António
Quadros) que os poemas esotéricos de Pessoa estão interligados entre si, numa rede iniciática
na busca interminável do conhecimento oculto por parte de Fernando Pessoa.

"Na sombra do Monte Abiegno", Pessoa fala de um monte que liga o mundo terreno ao mundo
divino, a montanha sagrada que dá acesso ao conhecimento proibido e vedado aos mortais. O
caminho para o topo do monte, como em muitos sítios rituais até da cristandade, assemelha-se
a um processo iniciático, que filtra aqueles que têm realmente vontade ou não da ascensão ao
conhecimento absoluto. Trata-se, é certo de uma metáfora, porque na verdade a ascensão é
interna, tanto como externa. O monte é um símbolo e a ascensão outro.

Em "Do vale à Montanha", o tema é retomado, tendo por base as novelas de cavalaria, tão em
moda nos tempos medievais. O "cavaleiro-monge" remete-nos à imagem dos cavaleiros
templários - monges e simultaneamente soldados. O poema descreve um percurso iniciático,
cheio de obstáculos, que o cavaleiro-monge e o cavalo de sombra percorrem. Mas ele diz:
"caminham secretos", "sozinhos", "em mim". Ou seja, reforça-se que Pessoa fala de um rito de
iniciação, de um caminho, de o acesso a uma verdade vedada ao comum dos mortais. É o

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conhecimento absoluto, verdade secreta guardada pelos iniciados, porque apenas por eles pode
ser compreendida e aceite. Lembre-se que o percurso é uma fase essencial do processo
esotérico - as referências ocultas referem sempre o "processo da obra" ou "os passos da obra",
referindo-se à maneira como os elementos são processados pela alquimia, na busca final do
ouro espiritual. Tudo são símbolos e os elementos neste caso é a própria alma do poeta.

Pensamos que Pessoa tem de Deus uma noção quase objetiva, à semelhança dos gnósticos.
Pessoa acredita no acesso a Deus, iniciando-se nos seus mistérios e não o vê feito de um
elemento diferente do elemento humano, apenas superior, mais espiritual, avançado.

Em resumo diríamos que o poema "Do vale à Montanha" representa mais um passo no
conhecimento oculto de Fernando Pessoa e deve ser lido em conjunto com os outros poemas
esotéricos. Citando alguns: "Além-Deus", Os Passos da Cruz", "Á sombra do monte Abiegno",
"Magnificat".

Nele Pessoa, usando uma personagem de dupla dimensão (sombra e cavaleiro-monge) usa de
metáforas para acentuar a necessidade do ritual para acesso ao conhecimento oculto.
Sobretudo reforça a necessidade da solidão e do sofrimento - eles (que são só um), caminham
sozinhos, caminham libertos, caminham dentro dele. O título do poema faz-nos pensar num
poema da Mensagem intitulado "Ascensão de Vasco da Gama", onde Pessoa fala também de
um vale. Diz ele: "Pelo vale onde se ascende aos céus". Este vale poderá ser o vale mítico, falado
na Bíblia, o vale de Josafá onde iria decorrer o juízo final? Não sabemos. Intuímos que o vale e a
montanha poderão ser respetivamente o vale de Herdemos na Escócia e o monte Abiegno. Duas
referências ocultas documentadas na obra do esotérico Werner, que Pessoa leu.

Análise do poema "Entre o sono e o sonho"

Poema tardio de Pessoa, datado de 11/9/1933, "entre o sono e o sonho" trata de um tema
querido a Pessoa ortónimo: a incapacidade prática de atingir na vida real o que se imagina
poderá ser a vida ideal.

Passa neste poema a ideia de fragmentação e de divisão. São estes dois fortes alicerces, a fonte
da angústia do poeta quando analise a sua própria vida. Se por um lado a sua personalidade é
marcada por um forte idealismo, um forte "sonhar", ela é também dominada por uma fraca
capacidade de concretizar esse sonhar em realidade. Ou, por outro lado, é o "sonhar" demasiado
intenso sequer para poder ser concretizado - é demasiado inalcançável.

A fragmentação, por outro lado, "a casa que hoje sou", é um prédio solitário com demasiadas
divisões, onde habita a alma de um poeta sem esperança de dar a volta a uma vida demasiada
cruel.

Analisemos mais em pormenor cada estrofe:

"Entre o sono e sonho, / Entre mim e o que em mim / É o quem eu me suponho / Corre um rio
sem fim." - Ou seja, entre o "sono" (a vida) e o "sonho" (a vida ideal, sonhada), entre o "mim"
(agora) e o "em mim" (o futuro desejado, suposto), "corre um rio sem fim". Esse "rio sem fim" é
uma divisória, uma barreira, que divida o hoje do futuro sonhado e é impossível de atravessar.

"Passou por outras margens, / Diversas mais além, / Naquelas várias viagens

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Que todo o rio tem" - O rio, parece ter, por outro lado vida própria, tem a sua própria vontade
e a sua própria experiência. O rio é o "Destino". É afinal o destino que se opõe a Pessoa, que o
faz sofrer no caminho que é atualmente o seu. Pessoa escolhe a imagem de um rio, porque como
um rio, o destino é uma sucessão de eventos, um curso de eventos, contínuo, sem fim.

"Chegou onde hoje habito / A casa que hoje sou. / Passa, se eu me medito; /

Se desperto, passou." - O rio chegou à vida atual de Pessoa. A casa simboliza o seu "eu todo", a
totalidade de quem ele é. Mas o destino é ilusório - se Pessoa medita sobre ele, ele passa e
impede-o de o enfrentar. Mas se Pessoa desperta do seu pensamento, o Destino já passou, e
não é possível regressar a ele. Esta impossibilidade marca de maneira decisiva a mente de
qualquer pensador - que tenta lutar contra os obstáculos da vida. Se pensa sobre eles, vê que
não pode ultrapassar, mas se os ignora, eles passam por ele sem que ele dê sequer por isso.
Qualquer das realidades é infrutífera e angustiante.

"E quem me sinto e morre / No que me liga a mim / Dorme onde o rio corre — / Esse rio sem
fim." - Pessoa conclui o poema. Reflete sobre o seu estado atual, o seu "eu presente", o seu que
não se supunha. E esse eu "dorme onde o rio corre". Ou seja, ele está dominado pelo Destino,
está dentro do rio destino, imerso nele e preso nos seus movimentos de água. Para terminar a
sensação de perda e prisão, Pessoa acrescenta à descrição dizendo que é um "rio sem fim". Um
rio eterno, que prende e controla, que domina e limita - eis a descrição final do Destino e de
como este domina os homens e as suas vidas, impedindo afinal que eles sejam como se supõem,
como se ousam sonhar.

Mas a ousadia é demasiada e a força diminuta. O homem falha no seu sonho e tem de ser dar
por vencido pelo destino, nas horas finais da sua vida amargurada.

Curiosamente, ou talvez não, na mitologia grega, depois da morte, de a vida ser cortada pela
moira Atropos, a sombra do morto era conduzida às margens de um rio, guardado por Caronte,
o barqueiro do Aqueronte.

Análise do poema "Gato que brincas na rua"

Podemos imaginar Fernando Pessoa do alto da sua janela, num qualquer dos seus quartos
alugados, vendo o rebuliço normal da cidade e sobretudo o pormenor indecifrável das pequenas
coisas. Entre elas estaria o pequeno gato a brincar na rua que dava para a sua casa.

Se por um lado a "dor de pensar" é uma coisa que invade a mente de Pessoa e o impede de
viver plenamente a vida, não me parece que este poema aborde essa dor, mas antes a maneira
como Pessoa observava as coisas fúteis da vida: é nos pormenores ínfimos que a análise
filosófica de Pessoa se extrema e encontra os maiores significados. Ao ponto de ele mesmo se
exaltar enquanto "investigador solene das coisas fúteis" (Álvaro de Campos, no poema
"Passagem das Horas").

Este poema lembra o poema Tabacaria, onde a certo ponto Pessoa move a sua atenção para a
rapariga que come chocolates, absorta do resto do mundo. É esta falta de preocupação (o ser
"bruto", que aparece por ex. em Ricardo Reis), que espanta Pessoa e o intriga - sendo que
também faz nascer nele a inveja.

Gato que brincas na rua

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Como se fosse na cama

Invejo a sorte que é tua

Por que nem sorte se chama

Pessoa inveja realmente "a sorte" do gato, que é a sorte de ser inconsciente e puder brincar
sem pensar em mais nada - brinca na rua "como se fosse na cama".

Bom servo das leis fatais

Que regem pedras e gentes,

Que tens instintos gerais

E sentes só o que sentes.

O gato é "bom servo das leis fatais", ou seja, cumpre o seu destino sem se opor minimamente
a ele - cumpre o desejo mais alto de Reis, que é o de sentir o destino como coisa inevitável
enquanto se cumpre. O assumir deste destino universal, que rege "pedras e gentes" é um motivo
de alta nobreza. Mas o homem é incapaz (a menos que seja "bruto") de ter esta atitude, porque
alguns homens (como Pessoa), não têm apenas os "instintos gerais", que regem o gato - que
sente "só o que sente" e nada mais.

És feliz porque és assim,

Todo o nada que és é teu.

Eu vejo-me e estou sem mim,

Conheço-me e não sou eu

A razão da inveja de Pessoa, mais do que inveja pela falta de preocupação, é inveja pela simples
felicidade que existe quando se vive plenamente as coisas sem pensar. "És feliz porque és assim"
é uma expressão de profunda miséria, de quem observa e tem a consciência plena que é infeliz.
Embora o gato seja apenas "o nada", ele é-o plenamente, enquanto Pessoa sente que se
conhece e conhece a sua situação, mas não consegue ser feliz assim.

O paradoxo pensar/viver parece aqui encontrar novo poiso privilegiado - Pessoa inveja a
felicidade alheia, seja de pessoas ou animais, porque a felicidade alheia é inatingível e baseada
em princípios que ele sente nunca poder alcançar. Sobretudo aqueles princípios de simplicidade,
acessíveis apenas aos "brutos", ou aos animais, como o pequeno gato que brinca tranquilo na
rua. Pessoa sabe que nunca poderá ser apenas um "bruto", muito menos um animal - é este
peso enorme que esmaga a sua esperança em ser feliz."

Análise do poema "Isto"

1- O eu é acusado de ser um poeta fingidor (ou mentiroso).

1.1- Explicite o sentido da sua defesa (vs. 3 a 5).

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2-Interprete o verso 10 " essa coisa é que é linda", tendo em conta os seus conhecimentos sobre
o processo de criação poética doutrinado por Fernando Pessoa.

Respondendo às perguntas:

1. O facto de Pessoa ressentir que digam que ele finge, tem a ver com o seu processo criativo e
pelo facto de ele ter sempre sido considerado - mesmo em vida - como um poeta
eminentemente racional. Diziam os seus contemporâneos que nada nele seria espontâneo, mas
sempre pensado. Ele, "defendendo-se" diz que "sente com a imaginação", ou seja, usa a
imaginação como barreira defensiva entre ele e a crueldade (e crueza) do mundo real.

Todos os passos da poesia Pessoana - há que compreendê-lo - são terraços (como ele diz), são
passos intermédios entre uma coisa e o seu significado. Pessoa quer acima de tudo a verdade
das coisas, mas para a alcançar, e sabendo como é difícil, ele desenha degraus, pouco a pouco,
para a atingir. Deste modo se pode perceber um pouco o porquê do afastamento das coisas, e
sobretudo do fingimento.

Fingir é também possibilitar "sentir as coisas de todas as maneiras", como dizia o heterónimo
Campos. Só se pode sentir tudo de todas as maneiras, se não se sentir nada de maneira nenhuma
- ou seja, se não estivermos presos pelo sentir as coisas, é possível descobrir (talvez) a verdade
por detrás delas.

Isto é sobretudo um processo filosófico (gnosiológico), ligado ao conhecimento humano através


da linguagem. Mas de maneira simples, diremos que Pessoa nem tem de se defender de fingir,
pois fingir não é para ele uma fraqueza, mas antes um método de conhecer (e alcançar) a
verdade das coisas, não se envolvendo demasiado nelas. Afastando-se, Pessoa observa, e
apenas afastado consegue ver mais claramente tudo o que o rodeia. Ele deixa o "sentir" para os
outros, para "quem lê".

2. "Essa coisa é que é linda" refere-se aos terraços de que falei no n.º 1, nos passos intermédios
entre fases de conhecimento. Não é a coisa presente que é a realidade, a verdade, mas um passo
seguinte, e é essa descoberta, esse processo, que revela a beleza das coisas, na sua interminável
complexidade.

Podemos também entender como esta frase se insere nas correntes, nos "ismos" Pessoanos,
sobretudo no Sensacionismo. O sensacionismo, no seu essencial (sobretudo como se encontra
em Caeiro), traduz esta mesma racionalização do real e sobretudo a aniquilação da metafísica -
tudo no pensamento sensacionista se reduz a sensações, todos os objetos se reduzem a
sensações e por isso mesmo são compreensíveis pelo pensamento.

Basta ver os princípios do sensacionismo:

1.Todo o objeto é uma sensação nossa.

2.Toda a arte é a conversão duma sensação em objeto.

3.Portanto, toda a arte é a conversão duma sensação numa outra sensação.

Análise do poema "Leve, breve, suave..."

Este poema ortónimo de Fernando Pessoa reflete sobre um ato simples: a observação do canto
matinal de uma ave. Mas, quanto a mim, o poema esconde um significado mais profundo.

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Embora possamos interpretar o poema pela sua suposta musicalidade (é o que parece fazer por
exemplo Amélia Pinto Pais (no seu livro "Para Compreender Fernando Pessoa"), em que as rimas
e doçura melódica transparecem o próprio cantar da ave; eu antes preferia ver a oposição que
o poeta faz entre o canto da ave (que representa o mistério da Natureza imutável) e o papel do
observador (neste caso o poeta).

Veja-se como o princípio do poema "Leve, breve, suave, / Um canto de ave / Sobe no ar com
que principia / O dia" é marcado por uma leveza que vem da falta de significados, de análise, é
só pura realidade - é a Natureza, sem pensamento.

Quando pessoa escuta, tudo para de repente: "Escuto, e passou...". Quer ele dizer que a
oposição do seu pensamento, da análise racional, matou a ação pura da Natureza. Parece-lhe
mesmo que foi só por ele ouvir que tudo parou. Veja-se - ouvir! Nada mais. Pessoa sentiu-se um
estranho à Natureza.

O início da segunda estrofe marca esse "fim do edílio", do paraíso do que era só natural. Se a
primeira estrofe é positiva, a segunda é negativa:

"Nunca, nunca, em nada, / (Raie a madrugada, / Ou splenda o dia, ou doire no declive) / Tive /
Prazer a durar / Mais do que o nada, a perda, antes de eu o ir / Gozar".

É essencial que se separe (Raie a madrugada, / Ou splenda o dia, ou doire no declive) do resto
da estrofe, para que a possamos ler só assim: "Nunca, nunca, em nada, / Tive / Prazer a durar /
Mais do que o nada, a perda, antes de eu o ir / Gozar". Quer Pessoa dizer que nunca pode tirar
prazer das coisas naturais: ele assim que pensa mata tudo o que é natural. Não consegue ter em
si esse prazer natural das coisas, um "prazer a durar" (ou seja, um prazer que se prolongue no
tempo).

Embora pareça complexo, o poema é afinal bastante simples no seu significado:

Pessoa não consegue sentir e gozar as coisas de maneira simples. Não consegue ter prazer nas
coisas, porque pensa logo da perda das mesmas, racionaliza-as demasiado. É esta complexidade
da sua mente, do seu raciocínio que prejudica (que cala) o que é Natural. A ave calou-se
(metaforicamente) por causa da intrusão do raciocínio de Pessoa.

O poema é afinal uma metáfora sobre a oposição entre Natureza e Pensamento, entre o que é
Natural e o que é Humano (pensado) ".

Análise do poema "Não sei quantas almas tenho"

Este poema em análise é claramente um poema de reflexão por parte de Fernando Pessoa, e
não tanto um poema de análise psicológica da sua mente. Dizemos isto recordando certas
passagens do poeta em que este recorda ler o que escreveu com grande estranheza - é como se
a sua obra lhe fosse estranha, quando ele percorre as páginas do seu passado.

Devemos compreender que em Pessoa a obra se confunde com a vida. Aliás, em determinados
momentos Pessoa abdica da vida em favor da obra (o exemplo maior terá sido Ophélia, a sua
única namorada conhecida).

É pois nesta perspetiva que - pensamos - este poema deve ser lido. Imaginemos Pessoa sentado
perto da sua arca de inédito, num dos últimos meses de vida, relendo as páginas de há 5, 10, 20

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anos... e o que lia ele, senão passagens quase irreconhecíveis, de outros «eus», que não ele
mesmo.

Não sei quantas almas tenho.

Cada momento mudei.

Continuamente me estranho.

Nunca me vi nem achei.

De tanto ser, só tenho alma.

Quem tem alma não tem calma.

Quem vê é só o que vê,

Quem sente não é quem é,

Esta primeira estrofe mostra aspetos da famosa despersonalização de Fernando Pessoa. Ele diz
não saber quantas almas tem, porque mudou a cada momento. Esta instabilidade é, no entanto,
uma instabilidade de vida e não tanto uma instabilidade de "almas". Certo é que Pessoa, por
sempre se expressar por outras vozes (heterónimas ou pseudónimas), neste momento já não se
reconhece - tudo lhe foi sempre estranho, porque colocou sempre em outras vozes os seus
problemas. Esta exteriorização das coisas na sua vida torna-o estranho à própria vida - parece-
lhe que foi outro que a viveu. Claro que este sentimento é uma proteção psicológica de Pessoa,
de se recolher para dentro para não sofrer com a solidão.

A expressão "De tanto ser, só tenho alma", sendo curiosa, parece de fácil expressão. Pessoa
quer dizer que não sente ter vida, mas só alma - ou seja, a sua vida foi (e é) toda pensada, toda
racionalizada. Como sempre passou para pensamento tudo o que lhe acontecia, tudo o que
sente é na alma, e parece que nada sente no corpo. Esta divisão corpo/alma é essencial no todo
da obra de Pessoa e reflete uma das características da mesma - a extrema racionalização, o
reduzir de todos os impulsos a uma inteligência recusando as emoções puras.

Mas Pessoa sabe que a vantagem de tudo ser inteligência tem desvantagens: "Quem tem alma
não tem calma", diz ele. Quer dizer que quem pensa não tem paz - eis um novo princípio de
grande importância: é inconciliável pensar e viver, ou se vive sem pensar ou se pensa sem viver.
Viver a vida ou pensar a vida é um oposto que sempre desafia Pessoa.

"Quem vê é só o que vê, / Quem sente não é quem é," marca ainda mais esta oposição
viver/pensar. "Quem vê" é aquele que vive só a vida e não a pensa (sente). "Quem sente não é
quem é" - quer dizer que o pensamento impede a ação na vida. Reforça o que dissemos
anteriormente, que viver e pensar se tornam inconciliáveis.

Atento ao que eu sou e vejo,

Torno-me eles e não eu.

Cada meu sonho ou desejo

É do que nasce e não meu.

Sou minha própria paisagem,

Assisto à minha passagem,

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Diverso, móbil e só,

Não sei sentir-me onde estou.

Pessoa sentindo essa oposição pensar/viver transforma-se no papel, nas personagens dos seus
heterónimos. E os heterónimos nascem das necessidades da sua vida - são filtros para o que vai
acontecendo. À medida que são apresentados desafios a Pessoa, ele enfrenta-os indiretamente
pelos seus filtros literários, pelas suas personagens literárias. Por isso ele diz que os sonhos e
desejos é "do que nasce" e não dele. Ele como que apenas assiste à passagem da sua vida,
porque se recusa vivê-la simplesmente. Tudo é analisado, dissecado, e tudo por isso se torna
falso, uma ilusão de realidade simbolizada.

Pessoa é "diverso, móbil e só". Ou seja, multiplica-se, viaja, e está no final sozinho, sem salvação.
Esta instabilidade, redução do um aos muitos, acaba por significar que ele deixa de sentir - "Não
sei sentir-me onde estou". A vida é-lhe estranha e como a vida os sentimentos. Deixar de sentir
é também deixar de viver - é alienar-se de tudo, proteger-se da vida, dos perigos, de tudo, para
se recolher dentro de si, e por detrás dos seus personagens literários.

Por isso, alheio, vou lendo

Como páginas, meu ser.

O que segue prevendo,

O que passou a esquecer.

Noto à margem do que li

O que julguei que senti.

Releio e digo: "Fui eu"?

Deus sabe, porque o escreveu.

"Alheio" ele lê então "como páginas" o seu "ser". Isto reforça o que vimos dizendo. A sua vida
confunde-se com a sua obra - tanto que Pessoa diz ler como páginas o seu ser. A vida foi
racionalizada, foi reduzida a linguagem escrita, transferida para os seus personagens literários,
que acabam por viver a sua vida por si, por deixá-lo a um canto, reduzido quase a nada enquanto
individualidade.

Pessoa-ele-mesmo apenas prevê e esquece. É uma espécie de pivot, de centro físico de tudo o
resto, mas quase sem atividade. Ele é apenas uma "nota à margem" do livro que foi a sua vida.
Alheio ao seu Destino (foi Deus que o escreveu), ele já não distingue quem nele viveu as coisas.

Retiremos deste poema a grande solidão de Pessoa - já reduzido a apenas uma nota de margem
na vida (e na sua obra). Pessoa era a pessoa real, passando o pleonasmo, mas aqui torna-se
evidente que a pessoa real foi obliterada, desmultiplicada em muitos outros, até que quase nada
restasse do original. Nada para pensar, e sobretudo nada que sentisse o mundo à sua volta.
Pessoa-ele-mesmo morreu para o mundo e já nada sente, e sobretudo o que sente é que a vida
já não pode ser vivida senão por intermédio de um outro seu. E isto quer dizer que nele mesmo
a esperança de viver estava definitivamente perdida.

Análise do poema "Não sei se é sonho se é realidade"

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Este poema ortónimo de Fernando Pessoa tem por tema a contraposição entre sonho e
realidade.

Por se tratar de uma obra ortonímia, o estilo utilizado não é tão marcadamente moderno como
o que podemos encontrar em outros heterónimos, nomeadamente Álvaro de Campos, mas
incorpora um classicismo sereno e culto – marca indelével de Fernando Pessoa ele próprio, ou
seja, na ausência de máscaras: o que ele apelidava como sendo o heterónimo “menos
interessante”, ele mesmo.

No entanto, embora muitas das obras ortonímias falhem em originalidade, não falham em
muitos outros pormenores, como a métrica, o estilo ou a irrepreensível atenção ao ritmo e ao
uso de expressões delicadamente preparadas.

Este poema é certamente exemplo vivo desta atenção ao pormenor, na maneira como nele se
recortam em fino detalhe o principal tema, em subsequentes catadupas de análise e supra-
análise. Esta exaustiva procura poderia sentir-se no ritmo do mesmo, mas é a atenção ao
pormenor que evita este sentimento.

Começa o poeta por reforçar o seu sentimento nas duas primeiras linhas, expressando nas duas
o mesmo: a dúvida quanto à possibilidade de atingir a felicidade terrena. A Ilha sonhada por
Pessoa será aquela ilha dos sonhos, já descrita por Camões – a Ilha dos Amores, onde reside
escondido o Paraíso terrestre. A vida jovem e o amor são o que Pessoa considera os melhores
objetivos: a juventude eterna (a imortalidade ou negação da morte) e o amor (a negação da
solidão humana).

A dúvida subsiste, no entanto – Pessoa sabe-a só um desejo íntimo. Essas paisagens distantes
são provavelmente só “palmares inexistentes, / Áleas longínquas sem poder ser”, ou seja,
campos de palmeiras (Oásis), ilusões, avenidas grandiosas mas enganadoras.

A felicidade é ainda um talvez. Mas um talvez soturno, porque se adivinha que seja um talvez
que degenere em impossibilidade.

Isto porque o sonho degenera quando se sonha. A terra da felicidade é apenas terra da felicidade
enquanto imaginada, e “já sonhada se desvirtua”, ou seja, mesmo o sonho perde a sua essência
quando passa a ser sonhado – torna-se quase real, e a realidade mata os sonhos mais altos. A
terra imaginada, ao luar, sofre afinal dos mesmos males da realidade vivida no presente –
“sente-se o frio de haver luar (...) / O mal não cessa, não dura o bem”.

Pessoa finalmente aceita que o talvez é um não. E é com um não que concluí o seu pensamento:
“Não é com ilhas do fim do mundo, / Nem com palmares de sonho ou não, / Que cura a alma do
seu mal profundo, / Que o bem nos entra no coração”. Espantosamente aqui parece que Pessoa
assume a futilidade de sonhar, de idealizar a vida, o mesmo é dizer que Pessoa aceita a futilidade
de não aceitar a vida como ela é.

Ele diz ainda: “É em nós que tudo. É ali, ali, / Que a vida jovem e o amor sorri”.

A negatividade do início do poema escorre lentamente e definha, dilui-se. Mas não parece diluir-
se para um otimismo inverso, porque a conclusão é uma conclusão de inevitabilidade.
Poderíamos pensar que Pessoa tomasse consciência da futilidade dos seus sonhos e da
necessidade de encarar a frio a vida presente, mas o que parece ter acontecido é que Pessoa
chega à conclusão de que os sonhos de nada valem, que tudo se realiza nesta vida, mas que
mesmo assim ele não vai encontrar força para se sentir vivo, para reagir a essa adversidade.

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Isto porque é uma grande adversidade para Pessoa o facto de a sua vida não poder concretizar-
se como ele a imagina em sonhos. O que para outros poetas poderia ser um momento de
epifania, para Pessoa é um momento de triste realização da sua impotência – ele não consegue
viver normalmente, não consegue ter a vida jovem onde o amor sorri, porque deseja sempre o
sonho irreal, mesmo que por apenas um segundo.

Análise do poema "Não sei ser triste a valer..."

O poema que se inicia com "Não sei ser triste a valer..." é um poema ortónimo de Fernando
Pessoa que toca um tema querido à vertente ortonímia da sua poesia - a oposição entre pensar
e sentir, ou mais exatamente entre pensar e viver.

A temática é desenvolvida pela análise dialética e comparativa, entre o ato de pensar (humano)
e o ato de florir (natural). Pessoa tenta, na comparação, estabelecer uma linha condutora entre
o absurdo de pensar perante o absurdo de florir - ambas as ações serão afinal naturais e
semelhantes? Dizendo isto, Pessoa tira o conteúdo revolucionário do pensar e assemelha-o ao
ato simples do florir. Assim pensar, como florir, não tem um significa intrínseco, uma finalidade
lógica superior. Pensar é, como florir, uma ação sem significado além do significado que encerra
em si mesma - esgota-se portanto no seu próprio ato, não tem um seguimento e uma conclusão
e ai resido o seu absurdo.

A mudança entre os tons interrogativos (1ª estrofe) e exclamativos (2ª estrofe), que passa
depois para um tom declarativo é de simples análise. É claro que Pessoa tenta nas duas primeiras
estrofes estabelecer a sua comparação - a linha condutora, pelas evidências e semelhantes entre
pensar e florir. Por isso ele primeiro interroga e depois afirma para si mesmo a realidade. As
restantes estrofes são já produto de uma conclusão do poeta - são, à sua maneira, um ato de
pensar que também se extingue em si mesmo e em que "se pensa o pensamento". Por isso o
tom declarativo, final, de conclusão, que dá lógica continuação às duas primeiras estrofes.

O significado da quarta estrofe é quanto a nós o seguinte: para reforçar a sua ideia que o pensar,
tal como o florir, é um ato absurdo, sem final definitivo, Pessoa recorre a uma imagem forte - o
espezinhar da flor pelos pés de alguém é o mesmo que acontece com o pensar. Ou seja, quem
pensa (Pessoa ele mesmo) é esmagado pela vida, porque a vida não é para aqueles que pensam,
é precisamente para aqueles que ignoram o pensamento e apenas vivem. Pensar é sofrer. Todas
as análises e conclusões são infrutíferas, porque no final são espezinhadas pelo destino, pelos
deuses.

Identidade perdida

Consciência do absurdo da existência

Tensão sinceridade/fingimento, consciência/inconsciência, sonho/realidade

Oposição sentir/pensar, pensamento/vontade, esperança/desilusão

Anti - sentimentalismo: intelectualização da emoção

Estados negativos: solidão, ceticismo, tédio, angústia, cansaço, desespero, frustração

Inquietação metafísica, dor de viver

Autoanálise

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São estas as características de Pessoa ortónimo, e, cada uma delas está presente neste poema,
se as buscarmos. Basta relê-lo para entender isso mesmo. E é de certo modo inevitável, por
todas elas estarem relacionadas de certa maneira

Algumas figuras de estilo presentes neste poema:

Os primeiros dois versos da primeira estrofe: antítese (entre a tristeza e a alegria)

Últimos dois versos da primeira estrofe: elipse (não é dito o que as almas sinceras possam ser,
mas subentende-se)

Terceiro verso da segunda estrofe: inversão (na ordem das palavras)

Últimos dois versos da segunda estrofe: personificação (a flor sem razão e coração)

Verso 2 da terceira estrofe: aliteração (flor flore)

Versos 2 e 3 da terceira estrofe: anadiplose (repetição de "sem querer")

Últimos 2 versos da terceira estrofe: comparação

Últimos 2 versos da quarta estrofe: eufemismo (nos vêm calcar - matar)

Análise do poema "O amor, quando se revela"

Sendo o poema em questão um poema que toca o tema do amor, não se pode certamente
considerar como um poema de amor. Isto porque, como é hábito em Pessoa, muitas das vezes
os temas mais simples são processados, refinados, intelectualizados, de maneira a que a mais
simples exposição de ideias nunca é apenas uma exposição de sentimentos.

Isto nota-se ainda mais quando são poemas ortónimos, escritos em nome de Fernando Pessoa
ele próprio, porque sem artifícios ou máscaras transparece frágil e sem cor o sentimento de
estar perdido no mundo, de fragilidade, de incapacidade e tristeza - marcas indeléveis do
carácter do poeta e que encontravam na sua poesia o escape natural.

A análise do poema clarifica o que dissemos anteriormente.

"O amor, quando se revela, / Não se sabe revelar. / Sabe bem olhar p'ra ela, / Mas não lhe sabe
falar."

Vejamos como é curiosa a maneira como Pessoa olha para o amor. Em vez de elogiar o amor,
Pessoa fica perturbado pela maneira como o amor se revela em si mesmo. É a incapacidade de
sentir, ou de pelo menos de transmitir, de comunicar o sentimento, que é o verdadeiro tema
deste poema, e não o amor, o sentimento.

Não sabemos até que ponto a interpretação de Pessoa pode ser uma interpretação Universal do
amor. Pensamos que não é, que é uma interpretação tão íntima que muito nos diz da maneira
como o poeta sentia as coisas e nada mais do que isso. Por isso mesmo quando ele diz "Fala:
parece que mente / Cala: parece esquecer" Pessoa fala do seu ponto de vista particular. É ele
que parece não ser sincero quando tenta ser sincero - é a sua dor interna que impede a sua
sinceridade, a sua ligação sincera a um outro ser humano.

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Pessoa disse que o amor é a altura em que nos confrontamos com a existência real dos outros -
e esta é uma frase determinante para entendermos este poema. Uma frase dramática, mas
determinante.

É a presença sufocante do outro que impede o poeta de falar o que sente. Por isso ele nos diz
que "quem sente muito, cala; / Quem quer dizer quanto sente / Fica sem alma nem fala, / Fica
só, inteiramente!".

O seu desejo maior seria que o seu amor ouvisse este poema mas sem o ouvir, que adivinhasse
no seu olhar o sentimento, sem que houvesse necessidade de falar. Há aqui também um pouco
de medo de que o ideal decaia quando se torna real, mas essencialmente o medo é de ser
humano, o medo é medo de ligação com o outro, a perda de controlo do "eu" em favor do
"outro".

Se de alguma coisa este poema fala, não é então de amor, mas antes do que o amor pede, em
termos de sacrifícios para o "eu". O amor pede o máximo sacrifício, que é a perda da
individualidade máxima, a perda do egocentrismo, do culto da personalidade própria: a perda
do controlo sobre a realidade, em favor do caos alheio.

O poema tem a seguinte estrutura:

3 quadras e uma oitava, sendo que a divisão lógica do mesmo, quanto a mim será a seguinte:

as duas primeiras quadras introduzem o tema do poema, que de certo modo é a incapacidade
de amar a oitava desenvolve o tema, de modo dramático, sendo que o sujeito poético desenrola
para si mesmo o drama que decorre dentro de si - o amor por ela - e a maneira como esse drama
o perturba. Ele sente intensamente a dor que é não conseguir falar desse amor a ela, não
conseguir revelar o amor publicamente. a quadra final serve de conclusão. Uma conclusão
indefinida, porque o sujeito poético deseja que o seu amor o ouça sem que ele tenha de falar,
mas mesmo assim uma conclusão.

Quanto aos recursos estilísticos:

Há grande uso de antíteses, para evidenciar a oposição entre sentir o amor e conseguir falar
dele à pessoa amada. Há uso de anáfora (repetição de "fica" no início de alguns versos seguidos)
Versos 7 e 8, quanto a mim é um hipérbato, com troca da ordem das palavras. "Ouvir o olhar":
trata-se de uma invulgar figura de estilo chamada sinestesia.

Mas se tivesse de destacar o uso de um recurso, seria obviamente a antítese o mais marcante
neste poema.

Análise do poema "O que me dói não é"

Poema tardio de Fernando Pessoa, escrito em nome próprio e datado de 1933, "O que me dói
não é..." é um poema típico da fase tardia da produção poética ortonímia de Fernando Pessoa.

A poesia ortonímia de Fernando Pessoa segue um ritmo próprio e diferenciado do ritmo das
obras paralelas dos seus heterónimos. De certo modo é, como Pessoa disse, ainda Fernando
Pessoa mas estripado de todas as dimensões que eram usadas para escrever em nome dos
heterónimos.

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Resta Fernando Pessoa ele mesmo, pouco mas ainda muito. Mais racional e frio, algo intelectual
e pensativo, sem chegar a assumir a sua tristeza num desespero real e destrutivo. Cabisbaixo
mas quase indefinido nas suas palavras bem medidas.

Este poema em análise é suma perfeita de todos estes vetores complementares. Pessoa fala da
sua tristeza, mas de forma intelectual, sem assumir um sentimento seja ele qual for. Como se
conseguisse colocar a sua tristeza debaixo de um microscópio e a analisasse a frio, à maneira de
uma autópsia, para melhor compreender o que sentia.

Como análise post-mortem que é, vê-se logo que se torna infrutífera. Querer compreender o
que é depois de esse ser estar morto não traz vantagem qualquer a nenhum ser que está vivo.
Matar para compreender não é, em rigor, razão suficiente para querer saber mais, apenas
menos.

Pessoa queixa-se da ausência, do que não tem. E essa queixa é dirigida às "formas sem forma
que passam", sem que a dor as conhecesse ou o amor as faça suas.

Queixa-se não do que "há no coração", mas das "coisas lindas que nunca existirão".

Queixa-se afinal de um futuro que tema nunca vai chegar. Estamos em 1933 e Fernando Pessoa
tem 2 anos de vida restante. Estaria já certo do seu destino? Que acabaria sozinho e sem
ambições concretas, sem estar feliz? Talvez. Talvez a sua poesia sempre refletisse este medo e
esta certeza negra - de que os seus sonhos teriam sido sempre demasiado altos para alguma vez
se realizarem e que, na verdade, a sua felicidade andava na tal bruma que ele refere, mas numa
bruma rasteira, baixa demais para os seus olhos sempre em busca das estrelas.

A sua busca pelas formas indefinidas, do sonho ou da realidade, marca o seu percurso terreno.
Sejam estas formas as pessoas que passavam ou as ideias e as verdades, nem interessa. São
formas porque são confirmações da sua incapacidade de as capturar e de as fazer deixar de ser
apenas formas. Toda a forma é uma indefinição, uma falta de humanidade, de calor. Tem forma
apenas aquilo que não tem conteúdo, que é vazio, linhas, sem dentro, só fora.

A tristeza que ele sente, equipara-a a estas formas a cairem em forma de folhas à sua volta, num
ambiente frio e desolado. A sua vida é vivida no meio deste desespero racional em que se
encontra preso e para o qual nunca achará uma saída racional. Porventura porque nenhum saída
racional poderá alguma vez existir para um homem desesperado com a realidade. Mas a saída
emocional era-lhe já impossível - ele estava demasiado esvaziado, era afinal também já uma
forma, como as formas que desejava possuir e compreender, era já só fora, linhas, sem dentro,
sem conteúdo, frio e distante.

No vestígio e na bruma vivia os seus dias inconsequentes. Mesmo a sua obra talvez o
desanimasse e apenas um pequeno, indistinto timbre de imortalidade o fizesse ainda respirar e
trabalhar pelas noites frias da cidade, do alto da sua janela para a rua cheia de Universo. Ainda
assim insistia em ficar vivo enquanto pudesse. Vivo enquanto todas as folhas não caíssem da
sua árvore da tristeza e deixassem sequer de existir razões para ser apenas forma. E que pouco
pedem as formas só para existir...

Análise do poema "O sino da minha aldeia"

O poema "O sino da minha aldeia", publicado na revista Renascença, no ano de 1914, diz muito
dos sentimentos do poeta, relativamente à sua infância. Em 1913 (data em que o poema é

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escrito), Fernando tem 25 anos, uma idade em que é “normal” o surgimento de uma maturidade
intelectual, que leva da adolescência à idade adulta. Mas o que o perturba são ainda as
memórias de uma infância feliz, se bem que muito breve, face aos problemas que o assolavam
na sua adulta juventude: a instabilidade das emoções, a investigação de temas “maiores do que
ele próprio”, a sua “obra” e principalmente a sua “missão”.

João Gaspar Simões, primeiro biógrafo de Pessoa, aborda na sua Vida e Obra de Fernando
Pessoa o tema da juventude sob o título suigeneris de “Paraíso Perdido” (págs. 17-28 do Volume
I). Compreende-se este título, se compreendermos as circunstâncias da vinda a este mundo do
poeta. Ele nasce no n.º 4 do Largo de São Carlos, 4.º andar esquerdo, em Lisboa. Nasceu portanto
entre um teatro – o Teatro de São Carlos – e uma igreja – a Igreja dos Mártires. Entre uma igreja
popular, tipicamente lisboeta e um teatro das elites, o primeiro teatro lírico português, onde se
encenavam as grandes óperas, a que muitas vezes o seu pai assistira na condição de crítico para
o Diário de Notícias. Para o rapaz, ficarão para sempre marcadas na memória as badaladas do
sino daquela igreja do Chiado, num timbre que se misturaria progressivamente com aquele
timbre indistinto, apenas reconhecido pela sensação de vaga felicidade e despreocupação. A sua
vida de aldeia, que ele refere no poema, é uma vida de idílio despreocupado, em marcado
contraste com a vida citadina que o esmaga e preocupa, quando já não mais uma criança, luta
contra se tornar um adulto.

São esses primeiros cinco anos de vida edílica que para sempre ficam na sua memória, como um
conforto falso a que recorre quando o desespero o invade e o domina. A memória do
apartamento espaçoso, que respirava um ambiente vagamente aristocrático, escadarias abertas
e iluminadas, para um largo aberto e limpo, servia para serenar e pacificar. Isso e as “poeiras
musicais” trazidas pela figura do seu pai – cujas feições ele mal recorda, e que morre quando
ele tem cinco anos – com o qual ainda festejava os seus anos, enquanto era amado, filho único,
“menino de sua mãe”. São os anos em que sobretudo a vida é apenas para ser vivida e não
pensada. Uma vida que nunca mais retornaria igual senão como “um sonho”, a “soar-lhe na
alma distante”.

Análise mais pormenorizada do poema:

1. Um sino toca: o sino da aldeia do poeta. Mas cada badalada do sino "Soa dentro da minha
alma". Que diferença pode existir entre um sino que toca fora da minha alma e um sino que toca
dentro da minha alma?

2. O verso "Tão como triste da vida" tem uma construção pouco habitual. Explique o que se
passa.

3. Na segunda quadra o poeta diz uma coisa muito estranha: este sino toca a primeira pancada,
porque a primeira parece sempre a repetição de outra. Pode dizer-se que isso tem que ver com
o fato de o sino soar dento da alma do poeta? Justifique a resposta.

4. Poeta que passa "sempre errante"; que significa esse adjetivo? Que motivos levarão o poeta
a considerar-se errante?

5. Na terceira quadra há dois me muito curiosos: "por mais que me tanjas" e "soas-me na alma".
Que efeito produzem eles no texto?

6. Comente os dois últimos versos do poema.

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7. Haverá diferença entre ouvir um sino na aldeia e ouvir um sino na cidade? Quais as palavras
que dão esse ambiente tranquilo da aldeia?

1. Sino que toca dentro da alma, é um toque que lembra a Pessoa memórias de infância,
portanto um toque que não o deixa indiferente, como qualquer outro toque de outra igreja.

2. "Tão como triste da vida": o poeta quer dizer "Tão lento como triste da vida", no entanto
retira essa palavra. Parece-me o uso de uma figura de estilo chamada "elipse". Tira-se uma
palavra, que no entanto se subentende.

3. Sim. Porque é um sino metafórico: representa outra coisa, as suas memórias de infância.

4. Errante é aqui "sem destino", sem futuro, sem esperança. Isto porque ele apenas na sua
infância encontra conforto e sentido para a vida.

5. "Tanjas perto" e "tocas-me na alma distante" é uma contraposição, quase ironia. Pois que
"tanjas" é um tocar de instrumento e "tocas-me" é um tocar quase físico, de influência.

6. Sugiro que leia o link acima e comente com base no que ler no dito link.

7. "aldeia" é no poema um eufemismo para o espaço onde Pessoa nasceu e cresceu, entre uma
igreja e um teatro lírico. Pequena aldeia é no sentido de ter sido a sua aldeia dentro da grande
cidade, o seu espaço dentro do espaço indefinido que era de todos.

Análise do poema "Por quem foi que me trocaram..."

O poema que inicia com "Por quem foi que me trocaram" é um poema ortónimo de Fernando
Pessoa, incluído nas edições mais tardias da sua "poesia inédita".

Sabemos bem - porque foi o próprio Pessoa que o disse - que o poeta escrevia em seu próprio
nome, mas com a inteira consciência que ele era o "seu heterónimo mais fraco". O ímpeto e a
emoção iam-lhe para Campos, a disciplina para Reis, o son(h)o para Soares, a beleza simples
para Caeiro. O que restava então para Pessoa-ele-mesmo? Fernando Pessoa, o "impuro e
simples", como ele mesmo se classificou na famosa "carta da génese dos heterónimos"...

Mas será esta mesma a melhor classificação para o "estilo interno" dos versos ortónimos: há
em todos eles uma semi-rigidez, uma indefinição, uma simplicidade que só não é inteira porque
eles são verdadeiramente impuros. As impurezas que neles residem são como resquícios das
obras heteronímicas omnipresentes no espírito Pessoano. Pessoa pode escrever só por ele, mas
não pode ser só ele a escrever.

É nesta perspetiva - impura e simples - que devemos então ler o poema em questão.

Teria agora a tendência a analisá-lo linha a linha, mas vejo desde já que ele pede que o leiamos
de forma horizontal, por inteiro. Devo dizer, somente como introdução, que assim que o li me
veio à memória algo de Reis.

Podemos imaginar a cena: dois amantes sentados sem falar, um deles dirige a pergunta inicial
(que se adivinha quase não é feita), pedindo uma resposta também ela silenciosa. Claramente
isto leva-nos a Reis e Lídia, a Reis e Chloe... No entanto tudo é mais "simples", se bem que
"impuro" (pela presença de Reis).

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Pessoa faz a pergunta, mas depois não tira conclusões a partir da mesma. Como se aqui se
pintasse um quadro, mas por impulso inocente e cansado. Aliás, toda a poesia ortonímia é
sobretudo isso: cansaço, rendição. É isso que Pessoa sente, quando se reduz a si mesmo.

Compreendamos então o diálogo sem palavras. O amante transfigura-se quando olha quem
ama (por isso pensa ser trocado quando olha). Pelo menos é isso que intuímos. O medo de amar
faz com que queira ser correspondido - pede o sorriso, e quer que a sua amante (ou o seu
amante) só o tenha a ele no pensamento.

Mas mais do que correspondência, o amante quer a ação concreta. Quer a certeza de ser
correspondido. Apertar a mão é uma certeza física, que advém de um sentimento metafísico: é
o amor que se faz real, é o sonho que se torna vida. Mas mesmo assim persiste a dúvida: será
ele mesmo que ama, e porque se sente transfigurado no amor, mesmo agora que a olha olhos
nos olhos?

A pergunta persiste e fica. Adivinha-se que seja uma pergunta triste, mas na realidade é uma
afirmação cansada. Pessoa pode sentir a emoção, mas cansa-o a realidade e sobretudo cansa-o
o medo de essa realidade ser efémera. O poema acaba por se revelar num ciclo final, quando
vemos que o seu tema não é tanto o olhar tímido dos amantes, mas antes o medo de que todo
o amor acabe.

Análise do poema "Quando era criança"

O poema "Quando era criança" é um poema ortónimo tardio de Fernando Pessoa, datado de 2
de Outubro de 1933. Sendo um poema tardio e da autoria de Pessoa em seu próprio nome,
caracteriza-se por uma das temáticas mais queridas a Pessoa quando escrevia em seu próprio
nome: a lembrança da infância, enquanto período dourado da sua vida.

Por isso, este poema fala da própria infância de Pessoa e não só da infância enquanto período
de felicidade para todos os homens.

Passemos à análise do poema propriamente dito:

Quando era criança

Vivi, sem saber,

Só para hoje ter

Aquela lembrança.

Aqui Pessoa aborda a temática da infância enquanto período da inconsciência completa: "Vivi,
sem saber". As crianças vivem a felicidade, porque em grande medida a desconhecem estar a
viver. Esta oposição pensar/viver acompanhará sempre Pessoa nas suas análises. Ele sabe que
será impossível regressar àquela condição infantil, porque hoje adulto ele sabe qual é a sua vida
e não a pode ignorar: ele agora pensa e não se limita a viver. Por isso ele diz "Só para hoje ter /
Aquela lembrança". De facto tudo o que resta é a lembrança, porque essa inconsciência da vida
não vai regressar novamente.

É hoje que sinto

Aquilo que fui

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Minha vida flui

Feita do que minto.

"Hoje" é que Pessoa sente o que foi. Isto reforça o que já dissemos: hoje a vida de Pessoa é feita
daquele "pensar" que não existia quando ele era apenas criança. Hoje ele "sente", quando era
criança apenas "vivia". A sua vida actual é uma mentira - pela sua própria avaliação. É uma
mentira, provavelmente porque ele sente não conseguir descobrir a verdade do seu destino: é
uma mentira existencial, uma vida que Pessoa sente não lhe pertencer por direito.

Mas nesta prisão,

Livro único, leio

O sorriso alheio

De quem fui então.

Pessoa está preso então nessa vida, nessa mentira que lhe impuseram. O que lhe resta é o "livro"
que lê, o livro das memórias de uma infância perdida. E ao ler, vem-lhe um "sorriso alheio", um
sorriso do passado, que já não é dela, mas que ele pode continuar a recordar, num
apaziguamento frágil, mas que ao menos o poderá consolar na sua existência perdida. A
memória da infância perdida conforta-o, mas igualmente o sufoca.

Análise do poema "Tenho pena e não respondo"

Este poema é um poema tardio de Fernando Pessoa, datado de 1930 e escrito em seu próprio
nome - é por isso um poema ortónimo. As características da poesia ortonímia de Fernando
Pessoa são, entre outras: versos curtos, usando uma linguagem simples mas elegante, recurso
a símbolos e metáforas, inquietação, crise de identidade, lembrança do passado e um
pessimismo marcado mas intelectual.

Quanto ao tema do poema em análise, ele enquadra-se no tópico do amor e sobretudo à


incapacidade de amar. Trata-se, no entanto, não tanto num tema típico da obra Pessoana, mas
mais um estado de alma que nos transporta ao quotidiano do poeta.

Sabemos que Pessoa teve uma relação intensa com Ophélia Queiroz, uma empregada de
escritório, mais nova do que ele por alguns anos. Foi com Ophélia que Pessoa desafiou muito
dos princípios que definiu para a sua própria vida e foi ela a que mais perto esteve de o arrancar
do seu pessimismo.

Infelizmente não o conseguiu. A relação entre eles foi tumultuosa - não pelo conflito - mas pela
incapacidade de Pessoa expressar devidamente os seus sentimentos. Vemos que neste poema
ele toma as exigências da sua "amante" por coisas que lhe são impostas: "Tenho pena e não
respondo", é de certa maneira uma reação passiva-agressiva às exigências normais do amor de
Ophélia, quando Pessoa sente que ela lhe pede algo que ele não sente conseguir dar.

O facto de ele dizer que não corresponde ao que ela amou nele - isso relaciona-se com o que
disse. Pessoa não sente em si capacidade de corresponder e pensa que os sentimentos são
expressos na linearidade que ele conhece nos seus raciocínios solitários. Trata-se, em toda a
simplicidade, da infantilidade de Pessoa perante Ophélia. Aliás, esta infantilidade, ou este medo
de avançar para compromissos, está bem expresso nas cartas que trocavam - nelas Pessoa por

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vezes fala numa vida com Ophélia, mas trata-a por "bebézinho", "bebé", "vespa", e outras
alcunhas que o protegem da realidade adulta da sua presença.

Se Pessoa na terceira estrofe parece falar em despersonalização, o que realmente ele está a
falar é muito mais simples: ele refere-se à maneira como as pessoas têm de agradar umas às
outras. Está a falar da maneira como ele tem de agradar ao seu "amor", sendo uma pessoa
diferente do que sente ser.

Claro que nisto transparece essencialmente o medo de Pessoa em ser alguém diferente, mais
adulto - se bem que ele mascare isso com a "mentira" de não ter de ser diferente e dever ser
aceite tal "como se pensa".

Tudo o que dizemos se confirma na última estrofe:

Se eu não me quero encontrar,

Quererei que outros me encontrem?

A verdade é que Fernando Pessoa tinha demasiado receio de saber quem era. É certo que a
despersonalização e a multiplicação de personalidade tem a ver com isto - é também, mas não
só, uma defesa psicológica perante a vida. O outro é sempre uma ameaça na obra de Pessoa,
sobretudo um outro próximo - porque os outros são espelhos de quem somos, e mostram-nos
muitas vezes coisas que nós próprios não conseguimos (ou queremos) ver.

Se Pessoa não se queria ver a si próprio, compreende-se então que temesses os outros. Por
medo que o encontrassem, porque ele não se queria encontrar a si próprio.

Análise do poema "Tudo o que eu faço"

Pessoa foi considerado por muitos como um insincero verídico. O mesmo é dizer que muitos o
viram como alguém que fingia tudo o que dizia, enquanto poeta. É o próprio Pessoa que o
confirma quando nos diz "o poeta é um fingidor". Mas na realidade, até que ponto ele fingia nos
seus poemas, sobretudo naqueles em que transparecia uma maior emoção?

O poema "Tudo que faço ou medito..." é um poema que cai na poesia ortonímia, ou seja, escrita
no próprio nome de Fernando Pessoa. Trata-se igualmente de uma poesia tardia, de 1933, dois
anos antes da sua morte. É peculiar no todo da obra ortónima por ser mais emotiva do que de
costume. É bem verdade que Pessoa se mutilava em favor dos seus heterónimos, para que no
fim - como ele próprio dizia - restar ele próprio, simples e sem interesse. Não será bem assim,
pois em alguns momentos a poesia ortónima atinge graus de grande génio, mas nunca é tão
coerente e consistente como as poesias dos heterónimos.

Passando à análise do poema em questão:

Tudo que faço ou medito

Fica sempre na metade

Querendo, quero o infinito.

Fazendo, nada é verdade.

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A poesia ortónima Pessoana segue algumas regras. A saber: estados negativos e depressivos,
presença de uma constante autoanálise e reflexão fria e racional perante o presente e o
passado, uso abundante de símbolos e paradoxos que passam uma ideia de desespero e de
futilidade de viver e agir.

Na primeira quadra (a poesia ortónima usa predominantemente quadras e versos curtos),


Pessoa fala sobre os seus sonhos e desejos. Dono de uma imaginação delirante e febril, Pessoa
tinha sempre mil projetos a correr simultaneamente. Mas ele diz-nos que "Tudo o que faço ou
medito / Fica sempre na metade" - ou seja, dos seus projetos nada se realiza por inteiro, por a
realidade nunca se encontrar com os seus desejos. "Querendo quero o infinito / Fazendo, nada
é verdade" - os seus projetos não se realizam, confirma-se o que dissemos antes.

Que nojo de mim me fica

Ao olhar para o que faço!

Minha alma é lúdica e rica,

E eu sou um mar de sargaço —

A segunda quadra é a mais emocional. Perante o desespero de não conseguir nunca realizar os
seus projetos, fica-lhe um sentimento de vazio e de inutilidade. Veja-se como, usando uma
linguagem simples mas expressiva, Pessoa passa o que lhe vai na alma. "Que nojo de mim me
fica / Ao olhar para o que faço!". "Minha alma é lúdica e rica / E eu sou um mar de sargaço" - ou
seja, ele sente a sua grande imaginação, a quantidade infinita de ideias e de pensamentos que
nele abundam, mas ele próprio, a sua vida real, é um mar de sargaço, ou seja, um mar de algas
espessas, que prendem o movimento, que impedem que ele caminha e avance. É uma metáfora
de grande beleza que dá a entender ao leitor o estado de desespero do poeta.

Um mar onde bóiam lentos

Fragmentos de um mar de além...

Vontades ou pensamentos?

Não o sei e sei-o bem.

É o mar de sargaços um mar onde boiam pedaços de um mar de além. Que mar é este? Trata-
se porventura de um mar distante e diáfano, um mar irreal, mas livre e desimpedido, onde os
sonhos de Pessoa não o prenderiam mas antes o fariam seguir em frente, onde tudo o que ele
imagina podia ser real. Mas ele questiona-se - "vontades ou pensamentos? / Não o sei e sei-o
bem". É muito Fernando Pessoa este final, paradoxal e intrigante. O que ele nos diz é que mesmo
esse mar de além, esse futuro irreal, pode ser uma ilusão, só a sua vontade de querer ter os seus
sonhos. Ele diz saber a resposta ao mesmo tempo que a desconhece, isto porque confia no
Destino. Sabe que será impossível que se realizem todos os seus projetos, mas ao mesmo tempo
essa impossibilidade é humana, é dentro dele, e fora dele ele não sabe o que poderá acontecer
- um milagre, um imprevisto, um plano superior...? Pessoa deixa ao futuro a resposta para a sua
angústia presente.

Análise do poema "Viajar, perder países"

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O poema "Viajar! Perder países!" é um poema ortónimo de Pessoa, e ainda um poema tardio,
escrito já em 1933. Típico dos temas abordados neste período por Pessoa na sua poesia
ortónima, é um poema claramente de desilusão, de perda de esperança.

Mas vejamos mais em pormenor uma interpretação do mesmo:

Viajar! Perder países!

Ser outro constantemente,

Por a alma não ter raízes

De viver de ver somente!

Lembramo-nos de algumas passagem de Fernando Pessoa, quando ele fala do ato de viajar:
"Cada vez que viajo, viajo imenso. O cansaço que trago comigo de uma viagem de comboio até
Cascais é como se fosse o de ter, nesse pouco tempo, percorrido as paisagens de campo e cidade
de quatro ou cinco países" (Livro do Desassossego, Europa-América, pág. 192); "A ideia de viajar
nauseia-me (...) Paisagens são repetições (...) Tenho da vida uma náusea vaga, e o movimento
acentua-ma" (Livro do Desassossego, pág. 222). E ainda em Campos: "Afinal, a melhor maneira
de viajar é sentir. Sentir tudo de todas as maneiras" (Poesias de Álvaro de Campos, Europa-
América, pág. 132).

Há mais exemplos, mas todos eles ilustram essa incapacidade de sentir as coisas apenas por
aquilo que elas são. É assim compreensível que Pessoa veja no ato de viajar constantemente
igualmente o ato de negar a paz de existir sem o movimento. "Ser outro constantemente" é
assumir que a viagem anula a individualidade, porque o ser tem de interpretar as paisagens e
assim anular-se a si mesmo.

Não pertencer nem a mim!

Ir em frente, ir a seguir

A ausência de ter um fim,

E a ânsia de o conseguir!

Mas por outro lado a viagem - se é que anula a individualidade do ser - também apresenta um
desafio inovador: viajar é uma espécie de ferramenta que permite o não-ser. Ao viajar o homem
anula a sua própria individualidade e isso pode, pelo menos para Pessoa, apresentar um lado
positivo. Estar anulado é deixar de sentir a dor de viver: viajar é deixar de ser quem se é, para
ser transportado ao puro ato de observar as paisagens da viagem. É viver nas paisagens e não
em si mesmo. Ter um fim: um destino, torna-se numa ausência, porque a ausência está presente
na negação do ser - a ânsia de conseguir chegar torna-se a única preocupação dessa vida de
viajante.

Viajar assim é viagem.

Mas faço-o sem ter de meu

Mais que o sonho da passagem.

O resto é só terra e céu.

Vemos no entanto que Pessoa - ao teorizar sobre a viagem - assume também que a sua teoria
se afasta da sua prática. Ele diz-nos o que é na teoria viajar, mas na verdade ele ao viajar pode

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não sentir inteiramente o que nos disse. Ele tem aquele "sonho da passagem", o ideal do viajante
que anula tudo o resto em favor da paisagem, mas não quer dizer que sempre sinta isso. Há
porventura momentos em que ele ainda não se consegue anular - e em que tudo é apenas "terra
e céu". Aqui, como em outros instantes, há o inevitável confronto das teorias Pessoanas com a
realidade - no ponto exato em que o ideal confronta o real.

Análise do poema "Liberdade"

Datado de 16/3/1935, o poema "Liberdade" é um dos poemas mais conhecidos e citados de


Fernando Pessoa. É um poema ortónimo, ou seja, escrito por Fernando Pessoa em seu próprio
nome e aborda um tema raras vezes abordado pelo poeta de modo tão explícito: a liberdade
humana.

À primeira vista trata-se de uma abordagem leve e divertida ao tema. Essa é claramente a
sensação que se tem ao ler o poema. "Ai que prazer / Não cumprir um dever" - uma leveza
simples e reta, que fala de como é bom não ter deveres, ou tê-los e não os cumprir, numa
rebeldia com que sonham todas as crianças.

Mas em Pessoa nada é simples, muito menos reto...

Há uma chave para desvendar este poema "Liberdade". Um poema eu considero ser de uma
intensa ironia. Mas essa chave curiosamente não está no poema, mas apenas referenciada nele
de modo indireto. É uma pista que Pessoa lança ao leitor, mas apenas ao leitor mais interessado
- um leitor de segundo nível, que ignora o tom superficial leve das palavras e se interessa pelo
conteúdo escondido das intenções.

Que pista é esta? Está numa citação que Pessoa nunca colocou, mas que devia vir logo a seguir
ao título. No manuscrito original Pessoa escreve debaixo do título do poema: "(Falta uma citação
de Séneca)".

Que citação é esta? E quem era Séneca?

Séneca foi um filósofo do Séc. I, um estoico preocupado com a ética. Não nos alongaremos com
a análise da vida deste filosófica, mas citaremos dois princípios dele que nos interessam para a
compreensão do poema "Liberdade". Dizia Séneca que o cumprimento do dever era um serviço
à humanidade. Para ele o destino estava predestinado, o homem pode apenas aceitá-lo ou
rejeitá-lo, mas apenas a aceitação lhe pode trazer a liberdade. Eis o estoicismo na sua essência.

Eis o filtro que se deverá usar na leitura do poema "Liberdade": o estoicismo de Séneca.

Tudo o que antes parecia ligeiro, agora é intensamente irónico. Fernando Pessoa pensa o
contrário do que diz o seu poema. Se ele diz que bom é não cumprir um dever, ele pensa o
contrário, que o dever é essencial para a liberdade, se o homem quiser ser livre, terá de se
submeter ao cumprimento do dever que lhe é imposto.

Outra achega: a semelhança entre a ironia utilizada e a escrita que se assemelha à de Caeiro. É
Caeiro o heterónimo que renega igualmente o dever e o heterónimo que domina Pessoa no
início das suas decisões, que o prende à realidade e lhe permite ascender aos astros. Será Pessoa
aqui também um critico de si próprio e um critico de Caeiro? Não poderemos dizer ao certo,

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mas parece-nos que sim, que as palavras de Pessoa são irónicas e dirigidas a Caeiro, ao seu
próprio sonho de juventude, em que pensou ser possível ser livre das ideias.

Afinal este poema é um ensaio de revolta contra o que Caeiro disse, contra os próprios projetos
falhados de Pessoa. Ele que queria atingir a liberdade libertando-se de tudo, da civilização, dos
deveres, dos livros, ser apenas criança... O título - Liberdade - é apenas uma ironia triste e
amarga e um contra-senso propositado. Arde em Fernando Pessoa a derrota da sua aventura,
perto que está da morte quando escreve este poema. Este poema é de certo modo o epitáfio
intelectual de Caeiro - o Mestre, por parte de Fernando Pessoa - o Criador.

Ps: há quem adivinhe neste poema de Pessoa também uma crítica social implícita, sobretudo
nos versos: "Flores, música, o luar, e o sol que peca / Só quando, em vez de criar, seca." e na
referência às finanças, que encobriria um ataque a Salazar, que foi, como se sabe, Ministro das
Finanças entre 1928 e 1932.

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