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O jovem e a descoberta do mito pessoal: mobilizadores e


bloqueadores
Flávia Moreira da Silva1
Rosana Pena2
Resumo
Neste trabalho, pautado na abordagem analítica junguiana, refletiremos acerca do jovem e da descoberta do mito pessoal,
entendido como convocação do Self; tendo em vista o processo de individuação e ainda, possíveis aspectos mobilizadores
e bloqueadores no decorrer do processo. Após breve consideração do contexto histórico, buscaremos definir o termo mito
pessoal e relacioná-lo com o conceito de individuação. Ser e viver, segundo uma mitologia própria, ou melhor, segundo
uma designação pessoal, desenvolver a personalidade, estão intimamente ligados com às escolhas que fazemos. Somos
mobilizados, tanto interna quanto externamente, a viver sendo „fiéis à própria lei‟. Contudo, este movimento só se
efetivará se pudermos escolher nosso próprio caminho. Enriquecemos nossa reflexão com testemunhos de jovens. Não
obstante a suposta „falta de sentido‟, vislumbramos possibilidades, os percebemos como sendo „provocados‟ a ter uma
nova percepção acerca de si mesmos. No entanto, eles necessitam encontrar espaços temênicos, nos quais sintam-se
mobilizados, despertados, para tomar suas vidas como próprias; onde eles possam acolher o chamado do Self e percorrer
o caminho da individuação com mais consciência.

Palavras chave
Mito pessoal. Mobilizadores e bloqueadores. Individuação. Escolha. Educação.

Abstract

In this work, guided by the Jungian analytical approach, we will reflect on the youth and the discovery of the personal
myth, understood as a convocation of the Self, in view of the individuation process and, of possible activating and
blocking aspects during the process. After brief consideration of the historical context, we will seek to define the term
“personal myth” and relate it with the concept of individuation. Being and living, according to a personal mythology, or
rather according to a personal designation, developing the personality, are closely linked with the choices we make. We
are mobilized, both internally and externally, to live with being 'faithful to our own law.' However, this movement can
only become effective if we can choose our own path. We enrich our reflection with testimonies of young people. Despite
the supposed 'lack of meaning', we envision possibilities, we perceive them as being 'provoked' to have a new perception
of themselves. Nevertheless, they need to find “temênicos” spaces, where they feel mobilized and awakened to take their
lives as their own; where they can accept the call of the Self and tread the path of individuation with more awareness.

Key Works
Personal myth. Activating and blocking. Individuation. Choice. Education

Introdução

A meta de toda nossa existência é alcançar a Individuação, compreendida, segundo a concepção analítica
junguiana, como a realização mais plena possível de nossas potencialidades, processo este construído ao longo de toda
vida; que, por sua vez, possui como um dos marcos inicial a descoberta do mito pessoal, entendido aqui como o chamado
fundamental, ou seja, aquilo para o qual o ser humano é convocado a realizar segundo suas características pessoais. Estar
consciente deste chamado e qual missão à qual se é convocado face a determinado modo de vida é condição sine qua non
para se viver com sentido, “sendo fiel à própria lei”(Jung,1982).
No contexto atual, principalmente entre os jovens, percebe-se uma considerável valorização da chamada
realização pessoal, para maioria está relacionada com a escolha de uma profissão rentável. Faz-se necessário um olhar
atento para aspectos subjetivos, para questões as quais mobilizam as escolhas, escolhas estas que nem sempre vão de
encontro com o mito pessoal.
Os jovens possuem consciência da dimensão da vocação, aqui nomeada de mito pessoal? Quais são os aspectos
que os mobilizam a escolher, seja uma profissão ou outro modo de ser no mundo que proporcione o desenvolvimento da

1
Graduanda de Psicologia pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo Unidade Lorena-2011. Email: flavia.aion@gmail.com
2
Professora Orientadora, Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Email: rosanapena1@hotmail.com
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personalidade? Ou o contrário, o que bloqueia, limita esta escolha? Como a psicologia analítica pode contribuir para a
tomada de consciência do mito pessoal?
Neste sentido nos propomos a compreender um pouco mais o jovem na descoberta do mito pessoal, entendido
como chamado - convocação, a partir do qual se desenvolve a personalidade que por sua vez possui como meta a
Individuação. Bem como os aspectos bloqueadores (limitadores) e mobilizadores (facilitadores) para a compreensão do
mito pessoal e consequente acolhida do mesmo. E ainda, verificar as possíveis contribuições da psicologia analítica
junguiana referente ao tema proposto.
Graças ao avanço tecnológico ocorrido principalmente no último século, possuímos cada vez mais respostas e
explicações detalhadas acerca do ser humano e da natureza. Somos capazes de decodificar o genoma humano, explicar
fenômenos complexos, manipular medicamentos, em segundos enviar ou receber informações para qualquer parte do
mundo, hoje nomeado de „aldeia global‟. No entanto, o ser humano, cuja essência é marcada pela possibilidade, ainda
permanece como mistério, onde nem ciência nem religião, com toda bagagem histórico cultural serão suficientemente
capazes de abarcá-lo. Neste sentido, o simbólico irrompe como portador de uma verdade que transcende a objetividade e
o racionalismo, que em muito alienam e condicionam à repetição vazia, embalada pelo frenético borbulhar de novidades.
É neste contexto de pós modernidade, com suas conquistas e perdas, que somos convocados a trilhar o caminho,
cuja meta é a individuação, palavra que em sua raiz nos remete a tornar-se um, inteiro, sem divisão, integrado. Processo
este que possui seu início na pergunta: Qual o sentido de minha vida?
Quando nos propomos a refletir sobre o sentido da vida nos deparamos, com palavras tais como: vocação,
chamado, destino, caráter, missão, talento, fado, mito pessoal; palavras estas carregadas de significados, atualmente um
tanto esquecidos ou mal compreendidos.
Comumente relacionamos vocação à profissão, o que a primeira vista faz sentido, uma vez que a palavra vocação
vem do latim, vocatus, chamado ou convocação, ou seja, segundo minhas características sinto-me ou não, chamado para
exercer determinada profissão. Porém, nossa proposta aqui é compreender melhor o sentido do chamado em nossa vida,
que transcende a realização profissional, diz respeito aquela porção genuína na história da humanidade que somente eu
enquanto ser humano devo revelar.
Jung (1980), em seu texto sobre o desenvolvimento da personalidade, afirma que um dos maiores propósitos de
nossa existência consiste no “desenvolvimento daquela totalidade do ser humano que dá se o nome de personalidade” (p.
173). Segundo a concepção junguiana, nossa personalidade já existe como germe desde o nascimento, todavia, esta “só se
desenvolverá por meio da vida e no decurso da vida.” (p. 176). Atingir o pleno desenvolvimento da personalidade exige,
como bem pontua o citado autor, determinação e inteireza, tarefa para toda vida. “Personalidade é a obra que se chega
pela máxima coragem de viver, pela afirmação absoluta do ser individual, e pela adaptação, a mais perfeita possível, a
tudo que existe de universal, e tudo isto aliado à máxima liberdade de decisão própria.” (p. 177)
Hillmam (2001), em seu livro O Código do Ser, desenvolve a teoria do “fruto do carvalho”, na qual “cada pessoa
possui uma singularidade que pede para ser vivida e que já está presente antes mesmo de ser vivida.” (p.16)
Para James Hollis (2004), analista junguiano, “mitos são imagos dramaticamente corporificadas, às quais nossas
almas servem, quer as conheçamos ou não” (p. 62). Por acreditamos que a linguagem que mais nos toca é a simbólica,
usaremos, conforme alguns teóricos da abordagem analítica junguiana, a palavra mito pessoal, equivalente a vocação,
compreendida como o chamado da psique para vivermos a vida que por nós é para ser vivida.
Nossos ancestrais possuíam ritos de passagem que marcavam a vida do indivíduo de modo que ele sentia-se
incluído num determinado sistema de valores que salvaguardavam sua identidade, sua história era construída segundo os
mitos oferecidos pela tribo. Considerando as devidas proporções, podemos dizer que em nossa cultura ainda encontramos
determinados ritos que marcam a passagem de uma fase do desenvolvimento para outra. Talvez um dos mais visíveis seja
o momento da escolha profissional, com isso a definição de um papel social, preferencialmente aquele no qual se possa
sobressair, não obstante ao fato de negligenciar questões referentes ao mito pessoal.
Ainda que desde o início de nosso desenvolvimento possuamos características que nos convocam para a escolha
de determinado caminho, a juventude é vista como um tempo oportuno, no qual espera-se que se descubra qual é de fato
seu mito pessoal, a fim de acolhe-lo, com “máxima liberdade de decisão própria.” (JUNG, 1980 p. 177)
No decorrer deste processo de tornar-se pessoa nos deparamos com uma série de interrogações a respeito da vida
e do sentido de nossa própria existência. Na juventude estes questionamentos intensificam-se levando o jovem a refletir
mais profundamente sobre sua identidade, vocação e profissão. Até porque, conforme salienta Jung (1981): “a
personalidade jamais poderá desenvolver-se se a pessoa não escolher seu próprio caminho de maneira consciente e por
uma decisão consciente e moral.” (p.179)
Diante de sua própria angústia e mistério este pode acomodar-se aceitando respostas prontas, ditadas pelo social,
ou fechar-se considerando-se incapaz de assumir e construir sua própria história, de acordo com suas possibilidades.
Conforme parâmetros de organismos internacionais, jovens são aqueles que compõem o grupo etário entre 15 e
24 anos, pode-se também acrescentar a este grupo os considerados „jovens adultos‟, entre 25 e 29 anos. No Brasil, ambos
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somam um total aproximado de 50 milhões. Grupo este marcado por grande diversidade cultural bem como desigualdades
sociais.
Muitos sãos os discursos vigentes acerca dos jovens, desde „futuro da nação, portadores de esperança, energia,
força e entusiasmo‟ até mesmo „classe perigosa, inquietos, insatisfeitos, acomodados, violentos, sem perspectivas‟ a estes
se seguem muitos outros, que oscilam entre luzes e sombras, todavia, compreender este fenômeno requer muito mais que
simples rótulos, exige deter-se longamente sobre o mesmo com o intuito de aproximar o mais possível de sua verdade,
considerando que esta será sempre um recorte, dada a complexidade do mesmo.
Percebemos que na última década o número de pesquisas e estudos sobre a temática da juventude cresceu
consideravelmente, no entanto, como ressaltado acima, há muito que se conhecer sobre o jovem, principalmente no que
diz respeito à construção de sua identidade, motivações, angústias, temores, projeto de vida, bem como os aspectos
motivadores e bloqueadores apresentados no decorrer do processo de tomada de consciência do mito pessoal, até porque,
“somos, inescapavelmente, seres mitológicos. As únicas questões são: qual o mito e de quem, nosso ou de outrem?”
(HOLLIS, 2004 p.70)
Jung (1981), portador de uma intuição singular, nos alerta que educar alguém com o intuito de que este tome
consciência de si, de suas escolhas não é tarefa simples, “trata-se sem dúvida da maior tarefa que nosso tempo se propôs
para si no campo do espírito [...] é na verdade tarefa perigosa, perigosa pela extensão que tem [...] é algo tão perigoso
como o empreendimento ousado e sem consideração da natureza em fazer com que as mulheres dêem à luz os filhos.”
(p.177)
Numa época onde os jovens, em sua grande maioria, vivem como que anestesiados, cada vez mais conduzidos
para fora, „distraídos‟ por ideologias que procuram silenciar a pergunta pelo Sentido, refletir acerca de seu mito pessoal e
descobrir a força mobilizadora que ele contém, talvez seja uma das questões mais pertinentes no que diz respeito à
mudança de paradigmas.
Neste sentido, é compromisso da psicologia, enquanto ciência que busca compreender o ser humano em suas
dimensões biopsicossociais, pautada em referenciais teóricos consistentes, aprofundar mais esta temática e buscar meios e
ações que venham a contribuir de modo efetivo com a orientação do jovem durante este período de elaboração do projeto
de vida e descoberta do mito pessoal.

Juventude: breve contextualização

Na clássica sociedade grego-romana, as tradições culturais destacam a figura da deusa Juventa, que era invocada
durante a cerimônia que oficializava a troca da roupa simples dos mancebos pela tradicional toga, como indicativo de
ingresso na vida adulta. No sentido etimológico, “juvenis” quer dizer “aquele que esta em plena força”. O termo
juventude é ainda compreendido como um processo de aperfeiçoamento, que busca a finalização de todos os aspectos já
existentes no ser humano. Até porque, segundo Jung (1981), os aspectos que compõe a personalidade já existem como
germe na criança, ou seja, como possibilidade, no entanto, estes só se desenvolverão aos poucos ao longo da vida, “sem
determinação, inteireza e maturidade, não há personalidade” (p. 172). Sendo assim, este será melhor compreendido
quando entendido a partir da ótica sociológica e cultural, uma vez que as normas e tradições culturais direcionam a
natureza da juventude.
Chamamos então de juventude o período de transição da infância à vida adulta. A noção de juventude adquire
importância no decorrer do século XX. Antes definida com base em marcos etários, hoje refere-se principalmente ao
período “marcado por ambivalências, pela convivência contraditória de elementos de emancipação e subordinação sempre
em choque e negociação”. (NOVAIS e JANUCCHI, 2004 apud in GONÇALVES 2008). É típico que o ingresso na
juventude seja marcado por tensões, questionamentos de valores, inserção em novos círculos de conveniência, adoção de
novos empreendimentos e saída do espaço „protegido‟ no âmbito familiar, movimento necessário nesse contexto
transacional da dependência à autonomia. De acordo com Abramovay (2006) ser jovem é ser autônomo e fazer com
segurança a travessia da ponte que parte do ser criança e termina no ser adulto. A autora entende juventude como:

O período da vida em que as pessoas passam da infância à condição de adultos, e durante o qual
produzem mudanças sociais e culturais que se realizam em condições diferenciadas, segundo as
sociedades, as culturas, as classes sociais e o gênero, bem como outras referências objetivas e
subjetivamente relevantes para os que a vivenciam. (p.3)

Podemos ainda considerar a juventude como resultante de uma vivência em determinado período histórico e
social, que traz os dados da cultura onde ela está estabelecida e o tempo o qual é concebida. Segundo Guimarães (2002) a
imagem do jovem que está centralizada na sociedade atual traz uma característica de metamorfose, de aglutinação, de
inconstância, de incerteza, de desvinculação, uma vez que estes também representam uma categoria consciente e
desafiadora na busca de novos valores sociais, morais e afetivos que os capacite estruturar sua identidade. Mergulhados
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nos conceitos da modernidade deparamo-nos com jovens assustadoramente inseguros e imediatistas. Sendo esse período
demarcado por conflitos e angústias, uma vez que o jovem precisará, conforme aponta Gonçalves (2009), arguir a si
próprio e construir projetos que viabilizem a transição em condições às vezes adversas.
Jung (1981), ao refletir acerca do desenvolvimento da personalidade, como já citado, afirma que é processo para
toda uma vida, que toma a pessoa como um todo.
Na atualidade, a experiência humana, torna-se mais complexa e plural. É como se a cada momento devêssemos
reeditar aquilo que ainda nem foi totalmente escrito. Conhecer e compreender a juventude requer, primeiramente,
contextualizá-la dentro das aceleradas mudanças socioeconômicas, advindas do processo de industrialização e
urbanização aliadas às mudanças demográficas e na vida familiar.
Estudos apontam que, do ponto de vista demográfico, a população brasileira mudou significativamente nos
últimos 30 anos. Embora tenha ocorrido uma queda da fecundidade, em termos absolutos, houve expressivo crescimento
populacional, certamente fruto de melhores condições de vida, o que consequentemente influência na expectativa de vida.
Em 1970, 55% da população viviam nas cidades, em 2000, o patamar é de 80% da população. Junto com esses dados
percebemos um prolongamento da chamada juventude, muito associada ao período de formação educacional (VIEIRA,
2008). O jovem hoje permanece por mais tempo junto à família nuclear além de prorrogar o tempo de fazer escolhas
especificamente ao que chamamos vocacionais.
No entanto, esse jovem é constantemente pressionado, seja pela família, seja pelos meios de comunicação, a fazer
escolhas profissionais que melhor o capacite a “competir” no concorrido mercado de trabalho. Se a juventude é marcada,
como apontamos no início, por contradições, inquietações e busca, tanto mais desafiadora se apresenta na atual
conjuntura.
Uma pesquisa realizada na Itália traz dados relevantes acerca dos jovens, segundo esta, a juventude de nosso
tempo é uma juventude satisfeita com sua própria condição juvenil, tanto é que procura prolongá-la o mais possível. É
também uma juventude que busca, por um lado, o desempenho social, religioso e político e, por outro, de modo mais
intenso, tende a todas as formas de diversão e evasão e ao consumismo; está mais interessada em viver o momento
presente, da melhor forma possível, do que projetar e preparar seu próprio futuro. (CENCINI, 1999).

Os jovens de hoje, estão mais absortos, sobretudo, pelo desejo de viver, ávidos pelo bem estar,
que não pretendem mudar o mundo. Porém eles têm dificuldades em relação ao que passa
dentro deles mesmos, porque não sabem o que são. Portanto, eles deveriam se ajudados a
entender o sentido do mistério que pervade a vida. (ROSA, 1993 p.297 apud CENCINI, 1999
p.8)

Na sociedade moderna, chamada por Bauman de “líquida”, a própria percepção do tempo foi alterada, o que antes
era vinculado à natureza, hoje passou a ser associado a uma máquina, o relógio, objetivamente medido; agora, volta-se
para o que é simultâneo, instantâneo, virtual. Estes aspectos refletem na idéia do curso de vida conforme pontua Vieira
(2008): “Cogita-se que a era pós-moderna traz consigo a despadronização do curso de vida, ou seja, maior
heterogeneidade intra grupo etário”. (p. 25). Hoje os papéis se misturam e até se confundem levando a uma ampla gama
de possibilidades. A esse respeito acrescenta a autora: “quanto maior a heterogeneidade de combinações realizáveis,
maior é a complexidade do curso de vida” (p. 26). Acrescentaríamos, mais difícil se torna fazer escolhas e elaborar o
projeto de vida que vá ao encontro de suas inquietações mais profundas que os faça verdadeiramente comprometidos em
sua jornada pessoal. Corroborando com este pensamento pontua James Hollis (2004):

Não importa o quão pequeno seja o nosso papel, cada um de nós é um portador de energia
cósmica e uma parte crucial de um grande padrão de desenvolvimento. Nós não vamos chegar
ao fim deste padrão, mas precisamos carregar nossa própria parte dele até o fim. [...] Algo nos
vive, até mais do que nós o vivemos. Quanto mais conscientemente nós lidarmos com as
questões de nossa vida, tanto mais experenciaremos nossa jornada como significativa.(p.19)

O sociólogo Zigmunt Bauman (2004) aponta um aspecto pertinente em nossa cultura, segundo ele, um dos
maiores desafios para o homem moderno e consequentemente do jovem, é criar laços, especificamente laços que
permaneçam. Em face à dificuldade de criar laços que permaneçam, pois estes exigem capacidade de se fazer escolhas
com liberdade e responsabilidade, cria-se “substitutos” que tira do ser humano a possibilidade de confrontar-se consigo e
com os demais, de crescer como pessoa, vivendo com inteireza seu mito pessoal.
Vivemos num contexto, onde a todo instante são nos dadas respostas, explicações. Parece que isso tem nos
distanciado da pergunta essencial. Daquela que, carregada de angústia, desperta, desinstala, motiva. Onde tudo está como
dado, pronto, pensado, perguntar chega a ser uma ofensa. Em meio a esse „emaranhado‟ de conexões, encontramos o
jovem, que, paradoxalmente, frente a todas as possibilidades, se vê impossibilitado. As perguntas, tidas como essenciais:
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Quem sou eu? Para onde estou indo? Qual é o sentido de minha vida? Muitas vezes são caladas ou negadas, o que gera
um sentimento de apatia que paralisa e acomoda.
Seguramente as respostas a estas perguntas são „encontradas‟ ao longo do processo de individuação que, numa
concepção analítica consiste num “processo espiritual de formação da personalidade” (GOLDBRUNNER, 1961 p.138),
em outras palavras é ser aquilo que verdadeiramente se é em essência, aquilo que minha psique me convoca, até porque,
afirma Jung: “não sou eu que crio a mim mesmo, mas eu aconteço.” (JUNG in HOLLIS, 2004 p.26). Caminho este a ser
percorrido a vida inteira, seguramente em meio a angustias, uma vez que estaremos envolvidos no movimento dialético de
ser e não ser, que nos leva a encontrar e conquistar nossa verdade. Além do mais, “o desenvolvimento da personalidade é
uma tal felicidade que se deve pagar por ela um preço elevado.”(JUNG, 1981 p.179)
Todavia, ao longo de nossa vida corremos o perigo de nos distanciarmos de nosso projeto essencial, isso é um
tanto paradoxal, uma vez que para encontrá-lo, perder, a princípio, é parte inerente do processo. Porém, muitas são as
situações que podem nos levar a viver num constante afastamento de si: aspectos da história pessoal, da educação, da
cultura, etc. Não obstante, salienta Hollis (2004), há uma força motriz em nós que nos convoca a viver “a vida que a
psique deseja que vivamos” (p.15). Jung (1981), numa conferência proferida em Viena, em novembro de 1932, afirma: “o
mais forte dos desejos consiste no desenvolvimento daquela totalidade do ser humano à qual se dá o nome de
personalidade.” (p. 173)
Novamente nos reportamos a Hollis (2004), para ele, em nossa jornada a psique apresenta duas grandes questões,
sendo a primeira para a metade da vida e a segunda para outra metade: “a questão da primeira metade da vida é
essencialmente esta: „o que o mundo está pedindo de mim?‟ [...]a questão para a segunda metade da vida é bem diferente:
„o que, agora, a alma pede de mim?‟”(p.17)
É pertinente observarmos no que diz respeito ao objeto de pesquisa deste trabalho, a primeira questão, apontada
por Hollis (2004) está intimamente ligada ao conhecimento de si, a descoberta do mito pessoal, mobilizado pela
experiência de sentir-se chamado, elaborar o projeto de vida. Aspectos fundamentais na juventude, caso contrário,
podemos viver alienados, distantes da totalidade à qual somos convocados por nossa psique, apegados a aparências e
obscuridades, como seres fragmentados, frutos de escolhas inconscientes.

A descoberta do mito pessoal e o processo de individuação

A psicologia analítica, teoria desenvolvida por Carl Gustav Jung, médico psiquiatra suíço, possui como um dos
conceitos centrais a Individuação. Termo originário da filosofia o qual percebe a individualidade a partir de uma
substancia comum (PIERI, 2002), neste sentido, pontua Jung, “uso o termo "individuação" no sentido do processo que
gera um "in-dividuum" psicológico, ou seja, uma unidade indivisível, um todo” (JUNG, 2002 p.96 § 266). Como
salientado acima, individuar-se é processo para vida toda. “A meta da individuação não é outra senão a de despojar o si-
mesmo dos invólucros falsos da persona, assim como do poder sugestivo das imagens primordiais.” (JUNG, 2008 p.61 §
269).
As imagens primordiais, também conhecidas como arquétipos, se constituíram através das gerações, estas são
frutos de experiências comuns às quais nos marcaram profundamente, além do que, são essenciais na estruturação da
personalidade como um todo. Estas mesmas imagens que foram amalgamadas em nossa psique, por serem coletivas em
sua essência, tendem a reproduzir em cada época os mesmos símbolos, estes por sua vez, “persistem através dos milênios
e sempre exige novas interpretações. Os arquétipos são os elementos inabaláveis do inconsciente, mas mudam
constantemente de forma” (JUNG, 1940 IX/1, §301 in PIERI, 2002 p.47). Arquétipos são também possibilidades que se
renovam a cada movimento de ampliação da consciência.
Se ontologicamente estamos assentados sobre o coletivo, individuar é paradoxalmente viver o mais parecido com
os demais e ao mesmo tempo ser essencialmente indivíduo, sendo este o chamado fundamental a todo ser humano.
Ademais, enfatiza Jung:

Há uma destinação (...) é o caminho da individuação. Individuar-se significa tornar-se um ser


único, à medida que por „individualidade‟, entendermos nossa singularidade mais íntima, última
e incomparável, significando também que nos tornamos nosso próprio Si-mesmo. Podemos,
pois, traduzir „individuação‟ como „torna-se Si-mesmo‟ (Verselbstung) ou „o realizar-se do Si-
mesmo‟ (Selbstverwirklichung). (JUNG, 2008 p.61 § 267)

Sendo individuação, destinação, de certo modo estou „condenado‟ a este movimento vital, caso contrário, me será
„cobrado‟ das mais variadas formas sintomáticas, desde uma simples sensação de mal estar até uma invasão total de
aspectos negligenciados da consciência. Resta-nos então, caminhar em direção ao chamado através do qual teremos “o
fastigioso encontro – fastigioso, mas indispensável para a integração do inconsciente- com as componentes inconscientes
da personalidade” (JUNG, 1977/1954, VIII, § 430 in PIERI, 2002 p.258). Em outras palavras, é o movimento no qual o
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ego toma consciência do Si-mesmo e aprende a se relacionar com ele, diferenciando-se das identidades coletivas.
(EDINGER, 2004)
Jung (2002) afirma que nosso mundo interior, por vezes nomeado de obscuro, sempre possuirá um quantum de
mistério, nossa consciência jamais assimilará por completo seus conteúdos.

A psique é constituída de duas metades incongruentes que, juntas, deveriam formar um todo.
Tendemos a pensar que a consciência do eu é capaz de assimilar o inconsciente, ou pelo menos
temos a esperança de que tal solução seja possível. Infelizmente, na realidade, o inconsciente é
inconsciente, isto é, não o conhecemos. E como poderíamos assimilar algo desconhecido?
Mesmo que possamos fazer uma imagem bastante completa da anima e de outras figuras, isto
não significa que tenhamos penetrado nas profundezas do inconsciente. (p. 271 §520)

Todavia, “quanto maior for o número de conteúdos assimilados ao eu e quanto mais significativos forem, tanto
mais o eu se aproximará do si-mesmo, mesmo que esta aproximação nunca chegará ao fim.” (JUNG, 1976, p.21 § 44)
Para o fundador da psicologia analítica, o processo de individuação é vivenciado como um evento alquímico na
qual, através da união dos contrários, chega-se a „lápis‟, pedra fundamental, que equivale à unificação, tornar-se uno.
“Diríamos que a pedra é a projeção do Si-mesmo unificado.” (JUNG, 1982, p.161 § 264). Entretanto, o referido autor
chama a atenção para a função transcendente do Si-mesmo, ainda este que se manifeste à consciência via símbolo ele é
indubitavelmente superior à consciência, “o Si-mesmo constitui a quintessência da individuação” (JUNG, 1982, p.158 §
257). Porém, a individuação como tal não acontece de forma natural, como algo dado, faz-se necessário a participação
consciente, ou até mesmo aprendizado, “a apercepção é impossível sem conceitos conscientes preexistentes.” (JUNG,
1982, p.159 § 259)
Jung (1982), aos 85 anos, inicia sua autobiografia com as seguintes palavras: “Minha vida é a história de um
inconsciente que se realizou. Tudo que nele repousa aspira a tornar-se acontecimento, e a personalidade, por seu lado,
quer evoluir a partir de suas condições inconscientes e experimentar-se como totalidade” (p.5). A questão que
objetivamos pontuar no decorrer de nosso trabalho diz respeito à caminhada cujo fim é a individuação que está
intimamente ligada ao modo como vivencio o aqui chamado mito pessoal.
Neste sentido, a tarefa de todo ser humano é colaborar da melhor maneira possível afim de que a convocação do
Self, à exemplo da encarnação do Verbo, „que se fez carne e habitou entre nós‟ (Jo 1,14), se torne vida em sua vida. Viver
sendo levado pelas circunstancias, embalados através das inexoráveis mudanças do tempo, sem a consciência do „para
que‟ da própria existência é fazer a terrível escolha de, como diz Jung, „caminhar com sapatos pequenos demais.‟ (JUNG,
in HOLLIS, 2004 p. 20)
Tomar de consciência do mito pessoal, entendido como uma convocação para a realização do que somos em
essência, assemelha-se ao calçar os sapatos que nos possibilitarão caminhar com leveza, num diálogo sempre ampliado
entre consciente e inconsciente, o qual proporcionará maior apreensão do sentido da totalidade, do ser "in-dividuum".
Para darmos continuidade à reflexão do tema proposto faz-se necessário ampliarmos nossa compreensão a cerca
da palavra mito. Segundo James Hollis (2005), a etiologia de mito provém da metáfora „olhar de soslaio‟, que diz respeito
ao modo vago, parcial, estreito, oblíquo que vemos as mais diversas realidades que se nos mostram, jamais as veremos
por completo, sempre algo permanecerá oculto, à sombra, onde nossa visão se turva. Mito e mistério se entrecruzam e
possuem como principais instrumentos a metáfora e o símbolo, estes por sua vez nos convocam a uma conexão com a
energia propulsora de todo universo, que ecoa em cada ser individual, encontrá-la é ser tocado pelo numinoso.
Corroborando com este pensamento, segundo Alvarenga e Lima (2006), podemos inferir que se o universo de
nosso material psíquico possui uma estruturação arquetípica, “antes de sermos o futuro anunciado, somos previamente
sonhados, ou intuídos, ou fabulados, ou pré-vistos (fenômeno da clarividência) pelo inconsciente. Estes materiais são,
portanto, anúncios de futuros possíveis, aguardando “escolhas” de nossa psique.” (p.50)
A terminologia mito pessoal, foi introduzida pela primeira vez na literatura psiquiátrica no ano de 1956 por Ernst
Kris, austríaco, psicanalista e historiador da arte, para ele a personalidade humana era dotada de alguns elementos, aos
quais nomeou mitos pessoais, para tanto, os psicanalistas deveriam levá-los em conta se desejassem que os efeitos
terapêuticos fossem duradouros. Por sua vez, Hans Kohut, também psicanalista, enfatizava que a mitologia pessoal possui
como característica básica a psicologia do Self, entendida como o ser em evolução, que orienta o comportamento e
prepara o caminho da humanidade. (Feinstein e Krinppner, 1988).
Segundo a analista junguiana Francis Wickes, “o homem moderno não tem consciência do mito que vive em seu
interior, da imagem freqüentemente invisível, que o impulsiona de uma forma dinâmica em direção à escolha,”
(WICKES, 1963 in FEINSTEIN e KRIPPENER, 1988 p.15). Parafraseando a citada autora poderíamos supor que os
jovens, de um modo geral, não possuem consciência do mito que vive em seu interior, neste sentido, fazem escolhas
alheias ao mito que os pertence. Contudo, devemos ter claro que ser possuído por um mito, não equivale a ser possuído
por algo fechado, com começo, meio e fim determinados, ao contrário, ser possuído por um mito deve ser entendido como
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uma orientação pessoal que confere significado à existência, cuja força criativa abre possibilidades a partir de um centro
unificado que possui atributos de um daimon.

O vocábulo grego “demônio” (daimon) exprime um poder determinante que vem ao encontro do
homem, de fora, tal como o poder da providencia e do destino. Neste encontro, é ao homem que
reserva a decisão ética. Mas o homem precisa saber a respeito do que decide, e saber também o
que está fazendo. Quando presta obediência, não é apenas ao próprio arbítrio que está seguindo,
e quando rejeita, não é apenas a própria ficção que esta destruindo. (JUNG, 1982 p. 25 § 51)

Individuar, como pontuado, é fazer o movimento de aproximação das duas „metades incongruentes‟, tendo em
vista assimilação dos conteúdos de ambos. A aproximação do Si-mesmo pode ocorrer em qualquer idade, ainda que a
princípio, espera-se que na primeira metade da vida o jovem possua como tarefa estruturar o ego, estabelecer-se
profissionalmente, formar família (Guggenbuhh-Graig, 2004). Porém, este mesmo ego que no decorrer da juventude se
estrutura e fortalece, é capaz de elaborar mecanismos de defesas que podem colocar o indivíduo numa posição
confortável ao ponto de sabotar o processo de individuação. “O ego é capaz de armar os mais eficazes mecanismos de
defesa contra as mais importantes questões e os mais profundos medos da humanidade.” (GUGGENBUHH-GRAIG,
2004 p. 27)
Além do mais, para Guggenbuhh-Graig (2004), esta armadilha pode ser tão bem elaborada, que inclusive a pessoa
não apresenta sintomas neuróticos ou psicóticos, porém mantém-se afastada do processo de individuação.
Ser e viver segundo uma mitologia própria, ou melhor, segundo uma designação pessoal, desenvolver a
personalidade, está intimamente ligada com as escolhas às quais fazemos. Neste sentido, abrimos a reflexão para uma
nova perspectiva: escolher o próprio caminho, não obstante ao fato de primeiramente ter sido „escolhido‟, possuir um
destino escrito no fruto do carvalho, como aprendemos com James Hillman. Nesta mesma linha de pensamento
encontramos em Aufranc (2006), a seguinte afirmação:

Com o desenvolvimento da consciência constelam-se algumas probabilidades e, num interjogo


de feedback, algumas vão se definindo, se atualizando na realidade consciente, enquanto na
realidade inconsciente outras probabilidades vão se formando. Dessa forma, o destino vai sendo
forjado; uma mudança na consciência altera o encaminhamento das probabilidades consteladas
no inconsciente. (p. 10)

Jung (1982) enfatiza que o único aspecto capaz de ativar o desenvolvimento da personalidade é a necessidade e
esta por sua vez: “precisa ser motivada pela coação de acontecimentos internos e externos” (p.178 § 293). Sendo assim, é
pertinente a reflexão sobre quais seriam estes acontecimentos? Provavelmente, são os aspectos aqui entendidos como
mobilizadores. Somos mobilizados, tanto interna quanto externamente, a viver sendo „fiel à própria lei‟. Para tanto, este
movimento só se efetivará se pudermos escolher nosso próprio caminho: “a personalidade jamais poderá desenvolver se a
pessoa não escolher seu próprio caminho de maneira consciente e por uma decisão consciente e moral” (JUNG, 1982,
p.179 § 296). Por certo, ainda que exista uma necessidade, a escolha deverá ser feita a partir de uma decisão, consciente e
moral. “Se faltar a necessidade, esse desenvolvimento não passará de uma acrobacia da vontade, se faltar a decisão
consciente, o desenvolvimento seria apenas um automatismo indistinto e inconsciente.” (JUNG, 1982, p.179 § 296)
A partir desta perspectiva Jung acrescenta que só se escolhe um caminho quando se tem claro que se está
escolhendo o melhor. Escolher o melhor é certamente, ainda que pareça redundante, escolher „escolher‟ seu próprio mito.
Este aspecto torna-se essencial para o caminho da individuação, uma vez que se não estamos em sintonia com nosso mito
podemos viver toda uma vida em função de outros mitos, nomeados por Jung de convenções, sejam elas de ordem social,
política, religiosa ou filosófica. Na atual conjuntura estas nos tomam a todos, de modo muito sutil, conduzindo-nos cada
vez mais para um mundo com respostas prontas e poucas oportunidades de se pensar nas perguntas mobilizadoras,
grávidas de esperança no ser humano, possuidor de luzes e sombras, porém artífice de seu destino.

Método

Para atingir o objetivo proposto neste trabalho realizamos uma pesquisa bibliográfica tendo como fundamento
epistemológico a psicologia analítica junguiana, bem como autores afins. Além do mais, nos baseamos em nossa
experiência a partir de estágios e trabalhos desenvolvidos ao longo da graduação, sendo a principal delas a pesquisa
descrita no relatório de estágio da disciplina Orientação Vocacional Profissional do curso de psicologia realizada no ano
de 2010, intitulada “O jovem e a orientação vocacional”, apresentada na Jornada de Produção Científica e Prática de
Estágio do Centro Universitário Salesiano de São Paulo, Unidade Lorena, ocorrida em outubro de 2011. Desta foi retirada
a colocação de uma jovem participante, usado para ilustrar a percepção do benefício de um trabalho na escola voltado
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para a busca do sentido da vida e consequentemente do mito pessoal. Os demais depoimentos dos jovens foram retirados
do livro: Inércia, a geração Y no limite do tédio, da autora Melissa Miranda, publicado em 2011 pela Editora Idéias e
Letras – Aparecida - SP.

Discussão

Se existe uma característica comum a todos os seres esta é o movimento, a transformação, a dinamicidade, nada é
estático, estamos todos, desde os seres mais simples na cadeia alimentar até os mais complexos, envolvidos neste ciclo
cujo objetivo principal é a manutenção da vida, conceito amplo, porém compreendido como aquilo que anima a matéria,
cujo o fim, independente de nossas crenças e valores, é a morte, no entanto, nem mesmo esta é vista como ponto final,
uma vez que, conforme afirma o químico Lavoisier (1743-1794), “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se
transforma”. Para tanto, nossa reflexão procura caminhar ao lado da concepção puramente biológica da vida, objetivamos
pensá-la sob a perspectiva do símbolo, como já enfatizado ao longo do trabalho. Até porque, afirma Ervin Laszlo: “a vida
é ao mesmo tempo o mais familiar e o mais misterioso dos fenômenos naturais. Enquanto pensamos ou respiramos, não
podemos duvidar de que estamos vivos, mas esta certeza não inclui uma resposta às questões que dizem respeito à
natureza da vida.” (LASZLO apud MO SUNG, 2006, p.15)
A questão norteadora é: quais são os aspectos que mobilizam ou ao contrário, que bloqueiam o ser humano, em
especial o jovem, na descoberta do mito pessoal de modo que o encontro do mito pessoal, entendido como chamado, e a
adesão a este, possibilite viver com sentido? Lembrando que: “o sentido da existência humana não é inventado, mas
detectado, descoberto. Eis a razão por que eles não impulsionam, mas puxam” (TREVISOL, 2008, p.31). Mais do que
nomear os possíveis aspectos, almejamos compreender o jovem inserido na atual conjuntura, esta certamente permeada
por ricos valores socioculturais, porém um tanto carente de „espaços temênicos‟.
Na cultura grega, havia nos templos, a delimitação de um território considerado especialmente sagrado, onde se
era possível ofertar os dons em sacrifício, que, entre outros propósitos simbólicos, propunha-se unificar o que estava
cindido, fragmentado e ao mesmo tempo separar o eu do não eu. Segundo Pieri (2002):

[...] o temenos - entendido como símbolo – não é apenas forma expressiva, mas exerce também
uma ação, isto é, exerce a ação de traçar um „sulcus primigenius‟, um sulco mágico ao redor do
centro da personalidade mais íntima, a fim de evitar a „dispersão‟ ou de mantê-la distante das
„distrações provocadas pelo mundo externo‟. (p.494)

Além do mais, conforme aponta Jung apud Pieri (2002), o temenos possuía em sua simbologia a função de
proteção, uma vez que arquetipicamente constelado evitava que conteúdos inconscientes fossem projetados para o
ambiente circundante ou, ao contrário, houvesse uma absorção de elementos externos de forma evasiva. Em se tratando
de „espaço temênico‟, para além do ambiente físico, embora este também seja necessário, seria o espaço favorável para o
encontro consigo e consequente descoberta e adesão ao mito pessoal.
A cada época as gerações são nomeadas conforme suas características pertinentes, as mais recentes são X, Y e Z,
esta última, segundo estudiosos, é composta por jovens nascidos no início da década de 90, traz como característica o
„zapear‟, mudar, seja o canal da televisão, do celular para a internet, da internet para televisão e assim sucessivamente,
conseqüente, de uma visão de mundo para outra cujo prazer seja mais imediato; por outro lado, existe também a
conhecida geração Y, composta por aqueles que nasceram entre os anos de 1982 a 1992, para Miranda (2011) algumas
características comuns desta geração são a inércia e o tédio, exemplificados na seguinte declaração da jovem Diana, 16
anos:
As ambições das gerações anteriores deixaram de ser eficientes e não despertam mais motivação
alguma em nós, são apenas algo a mais. Comprar uma casa própria, construir um lar, casar, ter
filhos, viajar o mundo de carona, lutar contra uma guerra, derrubar a ditadura, garantir os
direitos das mulheres, acabar com a censura, subir de cargo numa empresa e se tornar chefe etc.
e etc. ninguém liga mais para isso, seja porque nos foi provado ser inútil ou seja porque já não é
mais tão inédito. Nada disso é suficiente, não sei. Nos falta um motivo, um motivo forte, e sem
isso acabamos sempre entediados novamente. (MIRANDA, 2011, p. 14)

No discurso de Diana podemos encontrar aspectos de uma tentativa forçada de buscar fora, nas convenções, um
motivo „forte‟ e „inédito‟ para se viver. A sensação é de se está caminhando com „sapatos pequenos demais‟ em
detrimento de perceber a própria vida como inédita, ou seja, parece haver um esvaziamento do sentido da própria
existência, a vida torna-se evento „entediante‟ porque não me são ditos os motivos pelos quais devo viver. Suportar a falta
como possibilidade ou chamado para uma compreensão mais ampla acerca de si é alternativa quase desconhecida para
esta geração altamente conectada, ávida por novidades. Ainda que necessitemos de sentidos que sejam comuns ao grupo
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o qual estamos vinculados, uma vez que estes nos conferem segurança e proteção, uma vida plena de sentido é: “a vida
que procura realizar sua própria lei de modo individual, e por isso, de modo absoluto e incondicionado.” (JUNG, 1981
p.309)
A percepção da falta pode ser um aspecto que mobiliza a busca daquele „resíduo de originalidade‟ outrora
adormecido, no entanto, esta é imediatamente calada pela próxima novidade, conforme pontua o universitário Pedro de 21
anos: “acabamos tão desesperados para sair deste vazio, para sentir algo que nos afete que topamos qualquer coisa... e é
bem por aí mesmo!” (MIRANDA, 2011 p.15). O desespero provavelmente se configura como um dos maiores clamores
da alma tendo em vista o existir autêntico. Os aspectos mobilizadores ou bloqueadores são avaliados pela situação
psíquica, minha reação frente ao obstáculo, mas só os saberei no momento do confronto, sem o qual não há
transformação, uma vez que não sou desafiado. O destino é forjado perante situações vivenciais às quais sou impelido a
confrontar, ali sou questionado sobre o modo como desenvolvo minhas características pessoais, únicas e irrepetíveis.
Além do mais, “para conservar a individualidade, para nos sentirmos plenamente vivos, devemos percorrer trilhas
completamente novas” (CAROTENOUTO, 1994 p.207). Isto implica, obviamente, em deixar de olhar para onde todos
olham na busca desesperada e senão inútil de preencher o vazio trilhando caminhos conhecidos, sem dor ou grandes
contradições. Neste sentido, o analista junguiano, Aldo Carotenouto (1994), afirma que vitalidade psicológica é
capacidade de mover-se nas polaridades, característica inerente ao processo de individuação.
Retomando a citação de Pieri (2002) posta anteriormente, são pertinentes os benefícios advindos do temenos, os
quais enfatizamos: evitar a „dispersão‟ ou de mantê-la distante das „distrações provocadas pelo mundo externo‟. Muito
provavelmente „dispersão‟ e „distração‟ são palavras que mais vão de encontro ao nosso contexto pós-moderno, território
das juventudes Y e Z. Corroborando com este pensamento encontramos o depoimento de Ana, 21 anos, universitária:

O dia inteiro fico ligada ao MSN - caso clássico de nossa geração - e tem lá o MNS News, com
quinhentas informações sobre tudo o que aconteceu no mundo com os famosos ou no meio
ambiente, na política, no entretenimento, na cultura...tem um monte de informação, mas
pergunta se fica na memória de alguém? Não fica. E a vida dos jovens acabou meio assim: você
tem muita informação sobre personalidade, depressão, estilo...mas, na verdade, não sabe quem
você é. (MIRANDA, 2011, p. 10)

Possivelmente, outro aspecto mobilizador para a descoberta do mito pessoal seja a inquietação, a não
conformidade com o que está dado, definido. Esta característica pode ser encontrada no discurso da jovem Ana, no qual
percebe-se um misto de insatisfação e angústia diante do volume de notícias, todavia, em meio a tantas e constantes
informações, corre-se o risco de distanciar-se cada vez mais da informação essencial, saber quem se é. Jung (1981) chama
de „fatal‟ a pergunta a cerca do sentido da própria vida, embora poucas pessoas dêem ouvidos ao questionamento sobre
quem se é. Além do mais, a própria cultura deforma o ser humano no sentido de distanciá-lo de sua voz interior, mesmo
pressentindo que esquivar-se à designação é correr o risco de pagar um preço elevado, uma vida inteira vivida na
mediocridade.
Não é novo o discurso de que nos distanciamos do senso de mistério, não possuímos a capacidade de encantar
com acontecimentos cotidianos, com isso nos perdemos. Vejamos o declaração de Sarah, 20 anos, estudante universitária:

A vida cotidiana já está saturada, ela é insuportavelmente chata [...] simplesmente não me afeta
de forma alguma, é indiferente. O que é insuportável não é minha vida em si, mas o sentimento
de inutilidade, de vazio, de tédio, que são conseqüentes dela. É aquele lance de „normalização‟
de tudo sabe? Temos informações sobre todas as coisas e nada nos choca, nada é novo, nada é
original, nada desperta qualquer excitação ou ódio suficiente. (MIRANDA, 2011, p.90)

A este respeito Amedeo Cencini (1999), doutor em psicologia, comenta que a perda do mistério leva à perda do
protagonismo e consequente à perda da originalidade, perdas estas ligadas ao fato de não se fazer perguntas, uma vez que
acredita-se que possuímos as respostas ou, na pior das hipóteses, podemos, usando uma linguagem comum aos jovens
internautas, „baixá-las‟ de algum site. Sobre este ponto James Hollis (2005) afirma: “Os deuses estão presentes sempre
que fazemos as perguntas certas sobre nossa jornada. Saber quais perguntas importam é a primeira e mais difícil tarefa.
Viver as respostas que os deuses nos dão, em vez daquelas que gostaríamos de viver, é o maior desafio.” (p. 172)
Perceber o mistério que permeia nossa existência é também permitir-se ser questionado pela voz interior, “a voz
interior é a voz de uma vida mais plena e de uma consciência mais ampla e abrangente” (JUNG, 1981 p. 190). Esta voz
desinstala o ser humano de seu mundo metodicamente pensado, entediante, o convida a uma mudança radical de
perspectiva, consequentemente de ação, ele jamais será o mesmo, vivencia este movimento como uma „ação curativa‟, “é
como um rio, que antes se perdesse em braços secundários e pantanosos descobrisse seu verdadeiro leito” (JUNG, 1981 p.
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190). Além do mais, continua Jung (1986): “nunca se sabe se o que mais nos encanta é a vista de novas margens ou a
descoberta de novas vias de acesso aquilo que, conhecido desde sempre, já está também quase esquecido.”(p.219)
Estar constantemente „conectado‟ é uma das características tidas como essenciais para os jovens, ainda sobre o
depoimento de Sarah, quando afirma: „nada desperta qualquer excitação‟, nos deparamos com outro aspecto bloqueador
da descoberta do mito pessoal, a incapacidade de permanecer à espera, não naquela atitude passiva, mas numa abertura
fecunda, onde há uma „permissão‟ para que o Self, a seu tempo e modo, se manifestar. “O deixar acontecer [...], na
expressão de Mestre Eckhart, a ação da não-ação foi para mim uma chave que abriu a porta para entrar no caminho.
Devemos deixar as coisas acontecerem psiquicamente. Eis uma arte que muita gente desconhece.” (JUNG, 2001, p.33
apud MARONI, 2008, p.120)
Outro ponto que merece reflexão diz respeito a esta colocação da jovem Sarah „o que é insuportável não é minha
vida em si, mas o sentimento de inutilidade, de vazio, de tédio.‟ Encontramos na logoterapia de Viktor Frankl (1991) uma
contribuição relevante, o qual pontua sobre os jovens, estes: “têm o suficiente com o que viver, mas não têm nada por que
viver; têm os meios, mas não têm o sentido.” (apud RISCHBIETER, 2005 p.20). A autora que cita Frankl acrescenta:
“um dos motivos da síndrome neurótica dos jovens advém do vazio existencial, gerando como característica, a depressão,
a agressão e a dependência de drogas.” (p.20).
Aspectos estes confirmado na fala de Pedro, 21 anos, universitário:

Ninguém quer viver a própria vida, porque ninguém quer ter a mesma vida que todo mundo e
fingir que gosta dela, fingir que se diverte, fingir que sente alguma coisa. Acho que estamos
todos em estado vegetativo, não sentimos mais nada. Nada nos afeta e nem nunca nos afetou,
para falar a verdade. Simplesmente fingimos até o ponto de estarmos desesperados para sentir
algo. E se a cocaína de deixa um lixo, você volta para os básicos. Passa a tomar qualquer coisa a
base de anfetamina...ecstasy, speed ou algo do tipo. Depois passa a cheirar poppers ou a
experimentar drogas alternativas. (MIRANDA, 2011p.43)

Com a colocação do jovem Pedro, nos deparamos em outro aspecto importante ao longo do desenvolvimento, a
persona, termo do latim que Jung buscou no teatro referente às máscaras usadas representar diversos papéis. Uma das
características positivas da persona é a adaptação do sujeito ao meio em que vive, serve também como proteção, uma vez
que necessitamos manter determinados papéis sociais e nossa identidade, até certo ponto, se constitui através deles.
Quando Pedro usa a palavra fingir sinaliza para uma não integração entre o indivíduo e a persona, neste sentido, ele sente-
se „obrigado‟ a desempenhar papéis que mascaram seus sentimentos, entendidos por ele como „fingir‟, aquilo que se
mostra no coletivo está distante do que de fato é. Sobre o problema da persona enfatiza Jung (1928), “a máscara que
aparenta uma individualidade, procurando convencer os outros e a si mesma que é uma individualidade [e ele próprio crê
nisto], quando, na realidade, não passa de um papel, no qual fala a psique coletiva.” (apud PIERI, 2002 p.378). O
resultado parece indicar uma completa alienação de si, sensação de despersonalização, nada mais faz sentido, com isso
„viaja-se‟ para o fictício mundo onde se pode vivenciar a ilusão de que se é alguém, seja nas drogas ou nas imagens,
identidades virtuais postadas na internet. Como verificamos no depoimento de Fernando, 17 anos, estudante do ensino
médio:
É um tédio...viver minha vida é um verdadeiro tédio. Eu me sinto como se não fosse nada[...]eu
não quero ser medíocre, não quero ser mais um. Só que ainda assim vou para a aula e fico em
casa e nada acontece...minha vida vai passando e eu fico assistindo, quase babando de tão
entediante. A internet ocupa sua cabeça, as horas passam despercebidas. Aí você embarca numa
viagem como se usasse droga, mas você não está realmente alucinado. Só que vicia... e como!
Eu não sei o que fazer com as minhas horas sem o computador. ”(MIRANDA 2011, p.78)

A fala de Fernando nos remete à temporalidade, dimensão fundamental em nossa existência, segundo Pieri (2002)
o tempo possui duas acepções, uma da ordem do mensurável, cronológico e outra da intencionalidade psíquica, estas,
ainda que vistas como opostas, estão intimamente ligadas. Individuar é também percorrer a linha do tempo, sendo
convocado à transformação segundo o momento em que se vive. Quando supostamente se está parado, assiste-se a vida
passar, „despercebido‟. Para Maroni (2008) é preciso aprender a ler os sinais para atender ao chamado, “a leitura dos
sinais pressupõe, exatamente, essa qualidade diferenciada do tempo cada vez mais sofisticada, e a sagacidade de percebê-
la é o Kairós [...] o tempo já não pode ser manipulado, consumido, usado, esquecido. O kairós nos obriga a viver no
agora” (p. 112). A referida autora usa a palavra „dis-traídos‟ para chamar a atenção para situações temporais nas quais
traímo-nos, distanciando-nos de nossa jornada. Fernando, embora insatisfeito com seu modo de ser ao afirmar „eu não
quero ser medíocre, eu não quero ser mais um‟, mostra-se ao mesmo tempo mobilizado a buscar viver de modo coerente
com suas inquietudes mais íntimas, a distanciar-se do coletivo, porém bloqueado pelo tédio, „minha vida vai passando e
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eu fico assistindo, quase babando de tão entediante‟, com isso, acolher o chamado do Self parece uma possibilidade
distante, uma vez que para Jung, chamado e busca faces de uma mesma moeda.
Existem duas forças antagônicas em nosso tempo, individualismo e globalização. Pensar o jovem inserido neste
contexto, chamado a construir sua história, a fazer escolhas que vão de encontro com suas características pessoais pode, a
princípio, parecer mais uma das adocicadas histórias televisivas, que emocionam, mas não provocam mudanças. Segundo
a universitária Caroline, 21 anos: “somos a ressaca de outras gerações, todas as lutas e ideais se esgotaram e nós
sobramos, nos sentindo enjoados e embrulhados, vazios por dentro, exaustos de todo esse „nada‟ e, conseqüentemente, de
todo nosso excesso. Somos a geração da pura ressaca.” (MIRANDA, 2011, p.93)
Então surge o questionamento: qual o sentido e o significado de tudo isso? Uma vez que olhamos ao nosso redor
e nos percebemos envolvidos por estas forças que obscurecem nossos sentidos, lançando-nos sempre mais para a
mediocridade, para o cômodo. Por outro, lado somos acalentados por uma certeza, expressa por Jung, o novo flui na
torrente do tempo (apud Moroni 2008). Ou seja, é possível. Por certo, faz-se necessário uma escuta atenta para seguir a
intuição e manter a atenção aos eventos sincronísticos, para assim iniciar a mudança a partir de nós. Antes, porém, vale
recordar:
Os maiores e mais importantes problemas da vida são, no fundo, insolúveis; e deve ser assim,
uma vez que exprimem a polaridade necessária e imanente a todo sistema auto-regulador.
Embora nunca possam ser resolvidos, é possível superá-los mediante uma ampliação da
personalidade. (JUNG, 2001 apud MARONI, 2008 p. 46)

É inegável que, enquanto humanidade, estamos vivenciando fortes „abalos sísmicos‟, nos quais tudo está sendo
posto em discussão, isso pode ser muito bom, uma vez que: “nesse afã louco, nesse profundo auto-engano, a época
moderna gerou destroços, caos, ruínas, desordens, mas também, e inadvertidamente, gerou condições para re-introduzir
no mundo „pós‟ a força do mistério” (MARONI, 2008 p. 108). O ser humano é morada do mistério, talvez o aspecto que
mais mobiliza um jovem na busca de seu mito pessoal, seja a possibilidade se vivenciá-lo como mistério que habita o
mais íntimo de seu ser, mas que ao mesmo tempo vibra em sintonia com todo o universo.
Se perguntássemos para Jung, qual é então o segredo? Com sua sabedoria única, talvez nos diria as mesmas
palavras com as quais concluiu sua reflexão sobre a formação da personalidade:

Tudo poderia ser deixado como estava. Se o novo caminho não exigisse de modo absoluto a ser
descoberto, atormentado a humanidade com todas as pragas do Egito, até ser achado. O
caminho por descobrir é como algo psiquicamente vivo, que a filosofia clássica chinesa
denomina “Tao”, e comparando-o a um curso de água que se movimenta inexoravelmente para
a meta final. Estar dentro do Tao significa perfeição, totalidade, desígnio cumprido, começo e
fim, e a realização completa do sentido inato da existência. Personalidade é Tao. (JUNG, 1981,
p. 192)

Quais são então as novas „pragas do Egito‟, que nos interpelam? Talvez delas queiramos fugir através do
saudosismo de um tempo onde as „cebolas‟ (respostas prontas) eram fartas, ou o contrário, acolher o deserto que se nos
impõe e a partir dele vislumbrar oásis de possibilidades novas. Afinal, parafraseando Jung, o ser humano é Tao.

Considerações finais

Havíamos nos proposto um desafio, conhecer um pouco mais o jovem no processo de descoberta daquilo que
chamamos mito pessoal - chamado, vocação, daimon - e ao mesmo tempo perceber quais seus aspectos mobilizadores e
bloqueadores, bem como as possíveis contribuições da psicologia analítica junguiana. Acreditamos que nosso objetivo foi
alcançado, pois, além das questões refletidas, vislumbramos novas possibilidades.
No primeiro momento nosso olhar se voltou para a juventude como uma fase do desenvolvimento da
personalidade vista e compreendida conforme seu tempo e cultura. Em seguida, para jovem inserido no contexto sócio
cultural, ao que chamamos pós-modernidade com sua concepção de mundo e ser humano. Paralelamente, nossas
percepções foram tecidas às contribuições de Carl G. Jung e da ciência psicológica por ele desenvolvida.
No que se refere à descoberta do mito pessoal, percebemos que esta é uma questão um tanto ambígua em nosso
atual contexto, uma vez que valoriza-se mais o sucesso profissional, entendido como a ocupação de funções rentáveis em
detrimento de uma escolha que vá de encontro com questões de ordem subjetiva. Muitos jovens, infelizmente, vivem
alheios a si mesmos, angustiados, confusos estagnados em meio a tantos sinais obscuros, „esquizofrênicos‟. São poucos os
espaços oferecidos ao jovem nos quais possa abrir-se de um modo efetivo para essa dimensão simbólica do chamado, da
convocação. O que não significa que este não se sinta mobilizado, isso podemos considerar a partir das colocações
relatadas ao longo do trabalho. Estas, por sua vez, são entendidas como um „arranjo‟ da psique, no sentido de criar toda
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espécie sinais: sentimentos, sensações, experiências, etc., a fim de que a pessoa „perceba‟ que não está vivendo em
conformidade com suas possibilidades, seu mito pessoal.
O distanciamento dos símbolos e ritos culturais, o viver a partir das conversões sociais, as mudanças contínuas, a
perda do senso de mistério e encanto, o mundo „padronizado‟ e respostas prontas, a dificuldade de suportar as peripécias
da vida, a conformidade com o que está dado, o consumismo massificador, o mau uso dos meios de comunicação social, a
falta de sentido para a vida, a racionalização desmedida, são alguns dos aspectos que podem atuar como bloqueadores ao
na descoberta do mito pessoal e em suas escolhas.
Em contrapartida, sempre ouvimos dizer que nada é tão unilateral que não contenha seu oposto, neste sentido, os
aspectos mobilizadores e bloqueadores são faces de uma mesma realidade. O diferencial está em criar condições, aquilo
que chamamos de „espaços temênicos‟, nos quais o jovem sinta-se mobilizado, despertado, provocado para tomar sua vida
como própria, acolher o chamado do Self e percorrer, com mais consciência, o caminho da individuação.
Jung via a educação como um dos meios eficazes de levar o ser humano, muitas vezes alheio à própria história,
tanto pessoal quanto cultural, a ampliar suas perspectivas, movimento este que só é possível a partir da capacidade de
tolerar os opostos. “Nada aumenta mais a tomada de consciência do que a confrontação interior com fatores opostos.”
(JUNG, apud VILLARES DE FREITAS, DVD 2010). Diga-se de passagem, um dos maiores desafios do homem
moderno. Neste sentido, a psicologia analítica, pode fazer-se mais presente junto à área educacional, que em muito
apresenta uma tonalidade um tanto unilateral, principalmente em sua prática.
Corroborando com este pensamento o professor e analista junguiano Alberto P. Lima Filho (2010), destaca: “uma
das funções que a escola tem é a de auxiliar na construção da persona que consiste numa espécie de ponte entre a
individualidade e a coletividade humana a qual cada pessoa pertence.” (in VILLARES DE FREITAS, DVD) Sendo
assim, para a abordagem analítica, a escola é entendida como lócus privilegiado na construção do sujeito e também na
descoberta do mito pessoal.
Ademais, a escola deve ser primordialmente espaço de vida e cidadania e proporcionar ao jovem o que chamamos
de espaço temênico. Afinal onde mais se agregam jovens e adolescentes em quantidade e tempo? Grandes educadores
nos alertam para esta realidade, isso não é novidade, talvez um sonho utópico, realidade ainda não alcançada. Com
certeza, este é o desafio da educação, formar pessoa como um todo, humanizar. Logo, “quando um processo educacional
não ajuda o educando a conhecer ou construir um sentido que faça valer a pena lutar pela vida e pelo processo de
humanização, esse mesmo processo educacional acaba por não oferecer o sentido da própria ação educativa.” (MO
SUNG, 2006 p.43)
A professora e analista junguiana Laura Villares de Freitas (2010) articula de um modo interessante três conceitos
muito presentes na obra de Jung: cultura, civilização e individuação. Estes por sua vez relacionam-se entre si e à escola,
ensino - aprendizagem. Para a educadora, a escola deveria também ocupar-se em cultivar a dimensão simbólica em seus
alunos,
o contato com essa bagagem simbólica é muito importante para o desenvolvimento. Possuímos
a cultura no sentido acervo e também no sentido de cultivar, preparar, talvez neste sentido a
escola ainda não se deu conta do que ela poderia fazer, que é o cultivo da vida psíquica, da
alma, da subjetividade.3

Desta forma, para Villares de Freitas (2010), pensar a escola, como aquela que possui a responsabilidade de
inserir a pessoa na cultura e esta por sua vez ser criadora de cultura, traz em si duas dimensões, manter o culto ao que já
está estabelecido, mas também local onde se cultiva para acolher o novo, mediado por símbolos e mitos, pois eles nos dão
modelos de identificação para todas as circunstâncias vivenciadas ao longo do processo de individuação. Além do mais,
faz-se necessário, “educar para discernir os mitos, símbolos e deuses e para encontrar um sentido para a vida que
reencante a nossa vida é uma tarefa vital para a construção de um futuro mais humano.” (MO SUNG, 2006, p. 157)
Neste sentido, é pertinente a colocação de uma jovem de 19 anos, ensino médio (EJA), após vivenciar algumas
oficinas desenvolvidas no decorrer do estágio de educação e compromisso social sobre identidade, vida e sentido:

Eu nunca sei qual caminho seguir, não tenho nenhuma religião, não consegui me encontrar. Só
tenho uma dor no peito, que é como um aperto no coração ou como um nó que não me deixa
crescer, me sinto só sem ninguém, minha vida não tinha sentido, mas com estes seus trabalhos
que vem fazendo aqui na escola me fez querer ser uma pessoa melhor, porque tudo o que eu
fazia, não sei dizer, parecia que não me levaria a nada, só seria inútil para todos a minha volta,
mas agora já sinto um pouco melhor, principalmente depois dessas suas mensagens, já tenho um
sentido em minha vida. (Fragmento retirado do relatório de estágio em educação e compromisso
social, 2010)

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Retirado do documentário Jung e a educação, 2010
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Segundo a concepção junguiana, os símbolos possuem duas funções, uma formadora e outra transformadora, Pieri
(2002). Educar, não é outra coisa senão formar e transformar. A escola cumprirá de modo afetivo e efetivo seu papel
quanto mais for para o educando este „espaço temênico‟, onde, o jovem possa expressar suas preocupações, anseios,
desejos, expectativas, temores, seus sonhos, bem como entrar em contato com os mitos, símbolos e ritos presentes nas
culturas, não para produzi-los, mas para se estabelecer uma comunicação mais ampla e profunda com os arquétipos
prenhes de possibilidades criativas. “Ao constatarmos que somos um possível „futuro anunciado‟ nos tornarmos
responsáveis pela tomada de iniciativa de sermos o que „escolhemos‟ ser.” (ALVARENGA e LIMA, 2006, p. 55)
Na escola, além dos educandos, os próprios educadores podem ser beneficiados com as contribuições da
psicologia analítica, no sentido de conhecerem o pensamento de Carl Gustav Jung, sua visão de mundo e ser humano, a
psicologia por ele desenvolvida e sua aplicabilidade para a educação, não somente o conhecimento teórico, mas a
vivência de oficinas temáticas, nas quais os educadores, como pessoas em processo de individuação, entrem em contato
com a dimensão simbólica, fundamental para a existência. O que refletirá diretamente na relação estabelecida com os
destinatários de seu ofício. Passarão então, de modo mais consciente, a cultivar, a preparar o terreno humano a eles
confiados, mesmo por que: “não podemos dizer que a semente ou o solo causam o crescimento. Podemos dizer que as
potencialidades para o crescimento encontram-se no interior da semente, no misterioso princípio vital que, quando
convenientemente alimentado, assume determinadas formas.” (M. C. Richards in BOLEN, 1990 p.19)
Acreditamos estamos no caminho certo, ainda que tenhamos percorrido apenas uma pequena parte, há muito que
aprender e viver. Nosso horizonte se amplia, vislumbramos possibilidades, tanto no sentido de pesquisas, quanto na
atuação prática junto aos jovens e educadores. Será esta uma facetas de nosso mito pessoal?

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