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o c orp o e m p oesia

Copyright © Kenedi Azevedo, 2017


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eletrônico, sem a autorização prévia por escrito da Editora/Autor.

Editor
João Baptista Pinto
Capa Luiz Guimarães
Editoração
Luiz Guimarães
Revisão
Do autor

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE


SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ.

A987c
Azevedo, Kenedi
O corpo em poesia / Kenedi Azevedo. -- 1. ed. -- Rio de Janeiro: Letra Capital, 2017.
68 p. : il. ; 14x21cm.
ISBN: 978-85-7785-520-9
1. Poesia brasileira. I. Título.
17-40329 CDD: 869.1
CDU: 821.134.3(81)-1
13/03/2017 13/03/2017

Letra Capital Editora


Telefones (21) 22153781 / 35532236
vendas@letracapital.com.br
www. letracapital.com.br
Kenedi Azevedo

o corpo em poesia
sumário
Apresentação.........................................7
advertência.......................................10
Dos Solares....................................... 11
a criança...........................................13
a pessoa............................................14
o andrógeno.....................................15
quimera............................................16
feminino...........................................18
o bruxo.............................................20
o personagem...................................21
o poeta..............................................22
o mentiroso.........................................24
o namorado......................................26
o desnudo.........................................27
o açougueiro....................................28
o inimigo..........................................29
o exilado..........................................30
masculina........................................31
Dos Lunares..................................... 33
a poetisa...........................................35
a poeta..............................................36
a escritora........................................37
a leitora............................................38
a namorada......................................39
esquizofrênica..................................40
assassina..........................................41
psicopata .........................................42
louca.................................................43
sonhadora........................................44
ninfomaníaca ..................................45
ladra.................................................46
a escrava..........................................47
a deusa..............................................48
a jogadora........................................49
a professora.....................................50
a amiga.............................................52
a travesti..........................................53
a mascarada.....................................54
a andrógena.....................................55
Dos Amantes.................................... 57
das coisas do amor..........................59
septagrama dos amantes................60
um copo p’ra morrer.......................62
Da Poesia.......................................... 63
para ler antes de dormir.................65
finge dor...........................................66
para ler na varanda........................68

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Apresentação
Na literatura, o jogo entre o visível e o invisível perfaz
a grande trajetória humana em busca da compreensão do eu,
do outro e dos espaços sócio-históricos em que esses seres
coabitam, coexistem, atropelam-se ou deixam-se esquecer.
Neste jogo, o visível não é suficiente para que consigamos
estabelecer o que é verdadeiro e, assim, o invisível se impõe
para além dos limites da nossa capacidade de percepção.
O visível e o invisível problematizam-se na voz de
Kenedi Azevedo, este leitor ávido que se constrói poeta des-
de sempre. É O corpo em poesia transformando vivência
humana em experiência na voz do eu lírico que reconstrói,
através de seres nomeados, condições existenciais e que apa-
recem fulgurais, num ápice de descoberta e encantamento.
Kenedi – e agora o parafraseio – é aquele que enlouqueceu
ao se deparar com a língua, o que se esconde e se mostra por
detrás e através das palavras, é o que se cerca de mormaço
no alambrado linguístico, criando rimas impuras e brincan-
do com os sentidos.
Nas quatro partes do livro - “Dos solares”, “Dos
lunares”, “Dos amantes e “Da Poesia”–os leitores irão
percorrer o caminho de um sujeito poético que se vê, que
se transforma, que se descobre e redescobre, em uma “uma
existência lírica/ a que fica e não retorna”, porque o seu final
transmuta-se em plenitude de poesia. Nas duas primeiras
partes da obra, os jogos existenciais e identitários mobilizam

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os seres individualmente e entre si: “feminino”/ “masculino”/
“andrógeno”; “a poetisa”/ “a poeta”; “a escritora”/ “a
leitora”, ou, simplesmente “o exilado”, o “açougueiro”, “a
ninfomaníaca”, dentre outros tantos seres que permeiam
“ruínas das mentes/ facas enferrujadas/ espadas afiadas”.
O corpo em estado de poesia é tudo aquilo que o mundo
nos oferece a possibilidade de ser, inclusive “a mascarada”:

sou como aquela que se esconde


no esconderijo das vielas estampadas
a que relapsa se esconde nos muros
em ruínas que a primavera fraturou

Nas duas últimas partes da obra, Kenedi Azevedo nos


apresenta um texto capaz de nos acalmar diante do turbilhão
anunciado nas duas anteriores, principalmente na última
poesia “Para ler na varanda”. É como se fosse possível nos
sentar com Ricardo Reis à beira do rio, pois as inquietações
iniciais se transformam em certezas, uma vez que o “Cosmo
namora o homem e pluraliza os sentidos”. Assim, não há
nada a fazer, já que o rio segue o seu curso, mesmo com
tudo que vê navegando nele e à margem. Mesmo assim, as
epifanias presentes jamais deixarão o leitor ser o mesmo,
apesar do curso.
Nesse sentido é que o campo semântico usado pelo
autor nestes poemas se abre para a multiplicidade dos seres,
com identidades desconstruídas e construídas, com imagens
retesadas e reafirmadas, com a liquidez das identidades

8
que, subjetivamente, ora se mostram, ora se escondem na
penumbra dos dias, como em o poema “a andrógena”:

enganei o mundo com o fingimento


dos mais verdadeiros que nem eu mesma
identidades mil soube bem orientar.

Reforça-se também que o leitor irá encontrar a
plenitude da representatividade do que se decidiu viver,
daquilo que, mesmo que em um descortinar silencioso,
foi preciso ser compreendido por este eu poético, desde
o desejo e a dificuldade de lidar com suas vontades, até a
escolha e o processo de amadurecimento, como no poema
“o personagem”:

construo-me todo dia como se fosse um personagem


papel de mim em ficção como se fosse uma miragem
por vezes ator do lirismo dramático agora de passagem
mil vezes estereótipo da tragédia configurante imagem

Kenedi Azevedo e o seu O corpo em poesia evidenciam


que “O poeta nasce sob as sombras do espectro canônico”,
ora sendo influenciado por este espectro, ora superando-o,
ora construindo-se poeta no ato de escrever e transformar-
se. A poesia de Kenedi é carregada da expressão da vida,
da palavra fértil, forte e questionadora.

Elaine Andreatta

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advertência
Ergo uma fortaleza em corpo
Murros serão dados no portão
Se o leitor adentrar a passagem
Descobrirá ruínas da mente
Facas enferrujadas
Espadas afiadas
Vidros envenenados
Veias entupidas
Ossos quebradiços
Carne em putrefação
Lâminas cortantes
Pele de costura
Rasura da pele
Aço oco arco dor
Flecha alvo mito flor

Senão tudo isso


Amor paixão
Choro de alegria
Lágrimas nuas
Escorrendo pelo
Corpo despido

Ou ainda assim
Poesia magia sensações
Mil mistérios

10
Dos Solares

11
a criança
o nascedouro de cristal que aquele amor envolvia
refrigerava as teias por onde quebrava o umbigo
o corte e tão somente a sorte desviou a passagem
os pequeninos olhos pupilados rebrilhavam ao ruído
um choro a cada hora até a casa escura silenciar

jazia o corpo nas mãos como um pão abençoado


escorria pela pele as últimas gotas de unção em pó
trazia esculpido na testa a força que prevaleceria
desde a antemanhã quando os ventos lograriam favor
até que a luz se infiltrara trazendo consigo os ânimos
das transformações internas inexplicáveis

tornou-se o punhal afiado a desdobrar os gentis senhores


não os de agora mas os de outrora do tempo sem tempo
esquecidos todos porém lembrados no embalo da cabeça
a ferida foi curada mas o ambiente fibroso continua
desafiando os que lhe jorraram as impaciências malditas
foi assim que veio ao mundo. só

13
a pessoa
corrias pelas horas em pranto
nunca conseguiste afirmar uma
identidade em pele no corpo
alguém induziu ao isolamento

a maquiagem sobreposta alicerça


um em mim que surge ao universo
talvez nem a égua do campo selvagem
ou a fera das noites espaças a firam

no reflexo um de mim clama


o outro contorce o beiço vermelho
as cores da minha ousadia social
travei na abertura da conferência
quis saber-te por algum em nós
e não foi assim tão fácil

broquei as carnes que me cobrem


feri os músculos retesados no intervalo
do sêmen que explodia no relógio revolto
virei as costas e tudo era de fato luz
uma vaporosa e desagradável luz
do tipo que acende e apaga na intermitência
de uma vida ao acaso prenhe de ruge

14
o andrógeno
as pupilas ativaram o vigor prematuro da angústia
reflexões que se convertem em ações diante das espigas
aquelas que estouram aqui dentro e jamais tornarão
triste realidade é essa do trovador amante que se tornou

ambiguidade da minha visão


múltiplos sendo um vomita
as vezes da vez ou outro eu
já vingou o silêncio da miragem
o osso sibilou por dentro da pele seca
éramos nós unicamente a mirar
um papel picotado do contemporâneo
éramos todos e nenhum talvez

eu me viro
eu te vejo
eu no espelho
eu quebrado
eu estilhaçado
e mil de mim
por aí
dançando
a valsa
solitária

15
quimera
desci as escadas dos edifícios da mente
invoquei qualquer força de mal revólver
trilhei ao esconderijo das múltiplas ferragens
infeliz enlouqueci ao me deparar com a língua
queimando ao lamber o rosto no escuro
furiosamente germinou em mim as duas partes
duplicadamente entornei as taças petrificadas
envoltas pelas douradas ramagens que escondia
envolto pelo vestido curto que baixava e subia

sou corpo da noite


sou copo de vidro
sou vício da mente
sou vinil na estrada
sou escada (trans)versal
sou espírito (trans)cultural
sou lua em aceso
sou parede de sol
alma viajante
pele de sal

16
gosto de sangue
morada do nada
ambiente da fera
que grita aqui dentro
e sai pela noite
escada vazia
pia de gesso
copo quebrado
vício
trans
forma
ação

17
feminino
brinquei à margem do rio da minha adolescência
alimentei os peixes que me queriam sempre devorar
foram tempos de escuros sons longínquos
piedade talvez seja a melhor forma de ilustrar
o olhar altero a mim descobridor do pensamento

deixei correrem pelo meu peito em fase


modos de amar suavam alegrias torpes
tripudiavam não sei quê não sei onde
as casas construídas imaginavam varandas
na minha janela e portas no meu coração

foi assim que cresci aqui por dentro


não explodi porque o vento sempre
baloiçava as ramagens de maneira triste
tornei-me um em mim deambulante
feri as pedras com o calcanhar sofrido
o importante é que fui e continuo a ir

fitas adesivas prendem minhas veias


transitórias mensagens se camuflam
umas modalizam o tempo de fera
outras ramificam-se (em)vertebrais

18
o meu rio ainda corre
rouco ruge no silêncio
remo dado na ramagem
rútilo rege a ripa firme
crespo balança o barco
e eu
passeio pelas ondas
retorno ao lugar da infância
muitas das vezes sem regresso
penteio os últimos fios de cabelo
o dente agudo cai no chão de passagem
sempre de passagem
e eu
fico assim solto ao vento
pensando em ser livre
exilando-me em liberdade
insulando-me em castelos de areia
vingou em mim aquele peito
ainda danço aquela valsa
mesmo com pés sofridos descalçados
uma pequena alegria
vigia a dor
uma pequena dor
acende a alegria
uma existência lírica
a que fica e não retorna

19
o bruxo
eu todo em mim me escondo por detrás das palavras
a inquisição dos pensamentos alheios busca resposta
razão pela qual os signos linguísticos adoecem no ar
prendo uma a uma cada palavra decifrável no papel

não há pena de escrever nem caneta dourada de escribas


há tão somente as letras digitais em tintas virtuais a
perpetuarem no impresso código tudo que aqui
dentro dói e muito mais sem saber também destrói

em mãos de mágica correm os rabiscos pelo rosto


uma clave perpendicular norteia as fontes de amor
trocas de olhar revoam pelas noites das mais escuras
toque no peito do animal enfeitiçado figura o feitor

um caldeirão de ingredientes impetuosos mesclam-se


na adiantada forma deitará a cabeça joanina na bandeja
ciúmes incontroláveis são convertidos em vingança torpe
outro esconderijo se cria diante de mim enquanto durmo

aprisionado apenas vejo o fogo guerrear com a vontade


desgosto pequeno se realiza na imagem metafórica
que muitos dos homens não conseguiram perceber
fisgo cada atenção à vara de magia azul o meu lugar

20
o personagem
construo-me todo dia como se fosse um personagem
papel de mim em ficção como se fosse uma miragem
por vezes ator do lirismo dramático agora de passagem
mil vezes estereótipo da tragédia configurante imagem

interpreto papéis externos àquilo que pretendi ter


objetivando ser o objeto adjetivado dos contos de ler
a leitura da nova psicologia sobreposta em pretender
aquilo que as personas descontentes veriam pra valer

inútil agente age nas agruras da fábula constante


como cactos cortantes que curam o cru espectante
de gelo que se constitui na página assim passante
viajo pelos desvãos do corpo outro um farsante

de alguma maneira
torno
em torno
do trono
que criei
não crendo
cruzado no templo
tempero do demiurgo
dramaturgo coroado
no coração de papel
do papel que decodifico como ser

21
o poeta
emerjo engajado
da escrita esquecida
palanque de outrora
recinto modesto
cada palavra
antes encravada
no peito aguda
destrava a mensagem
lacrada no busto
pendente por dentro

no alambrado linguístico
cerco-me de mormaço
e crio rimas impuras
transversal liricidade
o poético dedilhar tenta
robustos nomes no espaço
brinco no trampolim
saltitante que fui
adentro o ambiente escasso
procurando a metáfora
deixada lá fora
quase no esquecimento
e venço o tempo
anáfora de mim
nas páginas em branco

22
luto com a palavra
enluto na lavra de pá
pano tecido mulato
lavada de roupa
meu livro. uma história

23
o mentiroso
quando percebo já sou o que antes não queria
implode em mim o instante de fulgor ai
acordo
levanto
espelho
ai. já não sou
barba
banho
lavanda
ai. outro sou
cabelo
sapato
perfume
ai. de mim
rua
homens
mulheres
crianças
ai. aqui dentro
carro
acidente
luz
ai. viagem em mim
sala
argumento
computador

24
ai. explosões de sentimentos
saída
rua
casa
ai. varanda pro céu
mãos
toques
beijo
ai. por do sol

a poesia é assim
quando vem não avisa
e se vem divisa
da cor talvez sim
do cheiro de alecrim
do som da clássica nona
sentado na poltrona
sentindo vário aroma
flores silvestres
dores criadas
tempos difíceis
tudo configura
e a poesia
ai.
ah...

25
o namorado
o braço enlaçado no meio do tronco
perigoso talvez no pleito eu apronto
redijo meus toques devaneio sem fim
buraco no templo cajado por mim
sapatos pesados no pé da cama
rigorosos olhares pescoços de escama
escada ama
da cama
dama cada
amada nem mais

deito-me ao redor do sonho de antes


enlouqueço por ser realidade
um desejo adiado no ópio do ódio
das nações que jazem na ancestralidade
beiradas do telhado são cúmplices
do degredo saturado que vivi há anos
e no fim dos espelhos que revolvem por
cima
no âmbito de ir e vir no escuro que nos
tornamos

26
o desnudo
fricção audaciosa esta poesia do corpo
frêmito código no frescor da carne
um papel em lascas redigido no frisson
da angústia de não poder voltar à raiz

cada palavra escolhida


se colhe na árvore dos vocábulos
em bulas de remédios
que o homem moderno esqueceu

um dia me vesti de poeta


a capa em seguida tirei
hoje não consigo o manto tirar
minha pele não repele
apelo em vão já que
no prelo outros escritos estão

vivia do cheiro do tempo


hoje escalo o momento para viver
tento o capuz jogar fora
vejo-me logo nu
internamente me avisto
em segredos que o outro terá
quando a mim ler se manifestará
eu aceito e finjo ser o que nunca fui um dia

27
o açougueiro
vendem-se corpos em velhas bibliotecas
traças cintilantes adestradas viajantes
recolhem templos a si na gruta fechados
olhos redondos escuros a ser assim molhados
desde a apoteose dos ossos quebrados

em cada prateleira primas circulam


órgãos dilatam-se em esferas infinitas
brindes àquele que o texto releu
ou o corpo cadáver amarelado papel

compras amenas
justiças pequenas
jurados malvados
açougueiro atravessado
corte na pele
papel de fiar
anúncio da guerra
terra
fogo
mar
...
corpo
porco
oco
soco
fosso
teu

28
o inimigo
em verdade luto pelo esquecimento
da guerra das lentes
domínios das gentes

em mentira há luto no esquecimento


das horas revoltas
predomínio das incertezas

a minha casa corpo é


mistério da minha morada
distúrbio da nossa vontade
recorte no espaço de até

longe no monte
olho o todo com as partes
que de mim se fazem
numa trajetória audaz
do período mordaz
da alegria improvisada
no quarto abrigo
diante de mim
meu próprio inimigo

29
o exilado
fui expatriado do meu próprio corpo
infeliz que sempre fui nos mastros
envelados
não queira saber o percurso da dor
toantes ondas marulham no meu quintal
de diamantes
quedas d’água afogam minha mão
tiritante
arremesso as cartas nesse mar e
eu mesmo encontro meu destino
meu eu observa as horas em que o
lugar da memória subtraiu a solidão
pendurado pela corda de um amor que
não
veio jogo-me às correntes e retorno outro
talvez mais firme e experiente
talvez tão eu quanto não fui
tão exilado na minha própria liberdade
sem noção
da ação
do tempo
em mim

30
masculina
a lâmina envenena a boca do vitral antigo
enquanto o retrato especular esvai-se
instante em que a cesura cicatriza
os olhares fissurados pelo etério amante

a masculina voz imita o murmúrio da seiva


que percorre as ramificações da memória
em um momento atrás. do que não volta
o corpo texto registra o encontro entre a carne
daquela incisão amorosa como nos casos
de aluguel ou venda dos pretéritos tecidos

um jogral alimenta as cifradas cortinas


a cobrirem o elo rompido pela lâmina cortante
aniquila a alma e decifra o dinâmico espírito
beija o colo derramado no decote decomposto
como uma sinfonia em análise ao toque do objeto
ou no olhar que se projeta do espelho. um drama

o texto corpo desnudo


a alma lírica em abuso
a poesia espírito escudo
e eu masculina em
corpo
alma
espírito
poesia
infinita

31
Dos Lunares

33
a poetisa
a poesia não nasceu comigo
mas é o meu oitavo sentido

na infância quando os clássicos


de modo calcificados eu lia
viajava em mim e em mim se fazia
a melhor e mais fecunda poesia

já bem jovem em volta eu percebia


tudo que para muitos não devia
ser o sumo dos mais básicos
da expressão poética reunido do antigo
e parceiro som imperceptível
aqui dentro mantido

agora a poesia está comigo


andamos de mãos dadas
como singelos namorados
a posarem para a torre eiffel
ou a navegarem pelas águas de veneza
ou mesmo serenatarem às grandes luas
até sermos a melhor expressão lírica
em definição

35
a poeta
a minha parte masculina
um belo livro escreveu
e todos riram de mim

a vontade de rasgá-lo foi imensa


no entanto isso não o farei
já que sou ali a poesia mais intensa

talvez muitos não entendam


e dirão “isso não é poesia”
eu lhes direi eu sou poeta

alguns até abandonaram a leitura


eu sugiro a esses com fé
há significados que só o tempo dispõe

a outros eu direi não leiam


que eu não o serei
apenas executem. e aprenderam

36
a escritora
a laboriosa forma se enforma
na espessura do papel timbrado
não há algemas para remir o gemido
que estoura de dentro para fora
em oclusivos sentimentos

na cadeira em frente às teclas digitais


as imagens surgem lentamente
enquanto o ser escritor se esvai
de alguma maneira timidamente
para dar lugar à poetisa escondida
quando a escrita vale por si

37
a leitora
este livro é melhor do que o outro
justifico minha escolha ao fugir
do amargo texto renitente em ais

é mais cognição que emoção

sentada em uma cadeira aprecio em


chá as palavras se cruzarem e serem
em mim poesia delinquente

é mais emoção que cognição

o vento corre pela varanda de madeira


em sentido metafísico da expressão lírica
abraça-me ao meio dia já na metade da leitura

é mais cognição

realmente este livro é melhor do que o outro


porque tem que ser assim. todos o são
lerei somente hoje as últimas imagens

é mais emoção

talvez algures eu sentada lerei as velhas páginas


que hoje se esgarçam da minha memória cansada
e o melhor livro será outro. eu pobre leitora do tempo

é comunicação

38
a namorada
cresci nas turvas águas de março
um lugar de tristeza de mormaço
uma agulha perfurante na cosedura
das lembranças do passado. ai que agrura

meu corpo ensopado pelo fogo


adoça as peças cujo fatal jogo
pude vivenciar até então decifrar
quem realmente fui e a quem enfrentar

entrei na barcarola de vidro e viajei


por essas águas em quedas abissais
atingi o olhar da companheira que desejei
antecipando meu drama em purificações e sais

39
esquizofrênica
a mulher, na gruta do tempo, grita
e ao ouvir a voz no espelho, se agita
o arrepio no anestésico frio, reage
transfigura em fibras a dor,
em seu sangue, insigne, no auge
beija os nervos tremulantes do ator
que ao se sentir beijado foge

ações no escuro
tempo febril
choro obtuso
olhos mil
sensação sediciosa
viola do inferno senil
constelações a se abrirem
nos jardins de abril

40
assassina
os vasos ramificadores da aflição se deixam
escorrer em seivas
sedimentando as orações daquele que receberá o
cravo em sustenido
os passos hediondos, mesclam-se em risos das
máscaras em lã feitas
um animal atravessa a praça envolto na agonia
sentida no vil grunhido

olhos tremem, agudos, aguiando o mais triste e


distante alvo
os braços enlaçam-se nos degraus do relógio,
assim tentáculos
os ouvidos, já surdos, pressentem a viagem ao
corpo: obstáculos
os gritos soltos, uníssonos, aplaudem o último
em grito: bravo!

41
psicopata
um copo vazio enfeita a mesa da sociedade hirta
elucubrações
as pupilas trovejam emoções desencadeadas
remontam fascinações
o corpo atravessado pela lâmina do beijo
vagueia em alucinações
a sentença foi ditada por meio de um golpe indolor
centenários escorpiões
o sorriso agridoce se forma ante a peça estendida
as queimaduras, os brasões

42
louca
um anjo negro atravessou a porta
penetrou em mim sem dó a espada de afiar
minha mente perfurada chora o sangue
o líquido que verte no meu peito nu

meus fantasmas dormem neste leito


embrulham-se nas cortinas da minha fronte
meus olhos arrancados explodem de suor
as lágrimas perimetram meus dias no castelo
um flutuante céu em nuvem se estabelece

as asas escuras ao partirem de mim


rasgam o único momento de sanidade
aquele devorado pelo ser imaginado

talvez sonho
uma vez sempre
ao invés de medonho
que em mim se cumpre

43
sonhadora
um sonho não se sonha só
um homem se desfaz em pó
e o brilho dos olhos fechados filtram
o além da parede de concreto

sonho só não se sonha


homem pó se desfaz
as aranhas dependuram as fotografias do filme
uma película em preto e branco ou colorida

sonho só se sonha
homem se desfaz
a desilusão do bem amado acabou
como o instante entre o dia e a noite

sonho só sonho
homem
eu

sonho

44
ninfomaníaca
uma fagulha de aço perpassa o corpo em brasa
queima as noites em neves de retardo tempo
a casa em chamas será a morada dos desejos

borboletas sob metamorfose programam peles


nas camadas do relevo que envolvem o ódio faiscante
na ocasião do encontro dos ruborizados namorados

o espírito ruge aos abismos à vontade de potência


beija o âmago das montanhas no episódio desnudo
trepida sonho alado disfarçado pelo lago de inferno

e toca o observador
que quer
voyeur
a mulher
em fé
ou
em pé

45
ladra
ação demente
cão que mente
ladra o são
corrente no poste
algema doente
amor desigual
sol do poente
o roubo pretérito
na vida da gente
foi abissal o olhar
da serpente
caí como um crente
no lago ardente
pecadora que sou
doente!
aí está ausente
o objeto levado
potente
retorna os olhos
para trás
rente
e joga o jogo
dos namorados
ardentes
vazio
está
aqui
dentro
presa a presa

46
a escrava
os grilhões apertam a dor no peito
enquanto as veias saltam na testa
da viajante namorada do povo eleito
por meio do leite derramado ela protesta
os séculos que na caverna habitou
um coração que a senzala do amor
resolveu decepar em meio da gente que gritou
o estribilho som ao carregar o andor
pelo caminho do passado ao amado prender-se
verdadeiro pesadelo ao final sim desfez-se
no arraial da glória
no campo de cruzes
na hora de escória
percebeu a alegria das luzes
quando sentiu enfim a vitória

47
a deusa
escrevo sobre criação uma história
um mito narrado nos sentidos por um ancião
o que subsiste nas páginas da humanidade

o cetro de vento caiu sobre a terra


inundou o coração dos humanoides
a coroa de papel serviu pois de amparo
para os truques que a mente em mim faz

criou-se o microcosmo no lago sideral


minha memória dos costumes antigos
uma realidade obliterada pelo trono de vitral

sentei no meu universo e vi as cenas se construírem


as cortinas se rasgarem e eu desnuda interpretar
a potestade dos mistérios obscuros do tempo
cresci e me tornei o que sou
eu mesma. eu outra. outra eu – quem sou.

48
a jogadora
infiltrei-me na regra dos enigmas
perfiz a casa da liberdade criada
pela cerzidura das violáveis esgrimas
deparando-me assim com a séria aliada

rodamos a roleta em prol do bem alheio


até os búzios caírem para baixo
ou os dados cubirem lentamente
uma conta perpassou pelo tempo
e o jogo continuou de onde parou

os olhares
a vingança
a resposta
a mão amiga
o blefe
o bife
o tiro
o ai
fim

o jogou acabou!

49
a professora
sentada na cadeira ou mesmo num banquinho
carrega sua felicidade no seu coraçãozinho

vida não pode ser uma rima desajeitada


envelopada via sedex para o amante postal
uma viagem todos os dias sem volta
recorta as durezas da vida com chave de ouro
agacha na traseira do mundo um pé direito
afoga as salas com sorriso deslumbrante
apimenta os olhares descolados de um
belo dia de ensino a que as cabeças a resumem

um velho tacho borbulha as esmeraldas


que retorcem seu pescoço pequeno
num gesto de deus dará a quem puder
ela sentada observa os seres criados
virarem seus mundos em mundo sequer
vendeu flores nas praças do intervalo
apagou os quadros de uma vida de giz
que o sopro levará. não tarda.

50
ela vem vestida daquelas flores
rodada em joias de fibras de papel
louca pela felicidade alheia
doida pelo botão de desligar o tempo
muitos a virão ali sentada
hoje alguns a veem orando
num banco de histórias fixas
que um velho moveleiro produziu
e se foi. junto o tempo. e nós. todos nós
e ela.

51
a amiga
fomos loucas em horas pesadas
fomos angústias em vidas alheias
fomos recado na capa da mente
fomos prisioneiras da vida mesquinha
fomos tempero de alegres momentos

somos desgostos do absurdo


somos a febre do oprimido
somos a alegria da viúva
somos o choro da simpatia
somos a têmpora dos amantes

seremos tudo que quisermos


desde que amigas. sempre amigas
só não seremos aquilo que quiserem
que sejamos. uma fraqueza
seremos porta-voz dos alagados
seremos vingança das criancinhas esquecidas
só não seremos aquilo que quiserem
que sejamos. uma tortura
seremos tudo aquilo que quisermos
desde que amigas. sempre e eternamente
amigas!

52
a travesti
os olhos duros em festa
assombram o espelho embaçado
fabricam a máscara do teatro
da ideologia ultrapassada

respira-se firmemente no circuito


da bela noite de desvalor ao céu
a torre se estabelece nesse desvão
e um projeto simula a imagem nua

o cheiro que exala da sala vazia


eterniza o impulso em fingir
agora outra persona se revela
mesclas de ilusão se ratificam
na face já configurada

as mãos postas em oração


prenhes do silêncio
resgatam a atenção
de um dia de vigor
a porta se fecha
e a luz se apaga
um adeus

53
a mascarada
os becos habitados são todos
por imagens que sejam assim
a cratera rasgada pelo dedo de deus
cada ponto um rosto quadrado
e na esquina o olhar vingador

olhos remoem minha presença


quase imperceptível nessas camadas
de singelas massas que as maçãs
simplesmente em vez alimentaram

sou como aquela que se esconde


no esconderijo das vielas estampadas
a que relapsa se esconde nos muros
em ruínas que a primavera fraturou

vesti minha outra personalidade e


camuflei-me nesses espaços hediondos
disfarcei-me de retalhos em vertical
subi as paredes em descoberta e desapareci

eu sou a máscara e não a escondida


já eu sou as duas uma quimera em desastre

54
a andrógena
enganei o mundo com o fingimento
dos mais verdadeiros que nem eu mesma
identidades mil soube bem orientar

quem me olha de detrás ver as cores do


amor inventado por mim quando quis
ser aquilo que sou nos quintais baldios

quem me olha na fronte logo percebe


a dessemelhança entre ser o que se quer
e o querer ser aquilo que não poderá ser

abrigo duplos sentimentos de longe


todos sublimes em devires ambíguos
de perto uníssonos movimentos até

configuro-me com o corpo sem órgão algum


mesmo sofrendo com os punhais a deceparem
minha eterna criatura que se cria, crua, crendo

ser a possibilidade de uma possível


realidade improvável ao manter em dia
o cabelo penteado com as cores do universo

55
Dos Amantes

57
das coisas do amor
um tiro de espingarda arde no peito
esfinges laceradas despontam do abismo
corpos em contato recriam fantasias

mãos postas
em apostas
do tempo de nascer
elemento só
os sentimentos
escorrem pelos dedos
deságuam no coração
de empedernidas sensações

escreve-se em crases ecoantes


estalos de oclusivas metáforas
ao atingir o ápice da emoção
mesmo que ao redor desfaleça
e o mundo se dissipe

as pálpebras apalpam o frescor do sangue


o orifício formado oficia a união
o primeiro destrato do amor

um delinquente memorando a
duplicidade recria o instante
da paixão reformulada pela
flecha que atravessa a porta
e cai no chão dos proibidos amantes
e se quebra. se parte. e não volta.

59
septagrama dos amantes
Os pontos de intersecção embalam as estrelas,
Prodigiosos astros luminosos. Aludem os toques
No vapor das águas ancestrais daqueles que um
Dia foram e não conseguiram retornar. Ir para
Além desses toques é ultrapassar o contínuo das
Horas. Ocasião em que os corpos se ateiam no
No interior do tempo vazio trazido nesses peitos.

Um olhar esfíngico dribla os elementos condenados


Pelo jogo das raízes fomentadas pelas crises de amor.
Fissurados órgãos esvoaçam na mísera ideia do ano
Vindouro, cujo templo erguido aos céus plúmbeos
Resgatam as temidas forças deixadas na fila enegrecida,
Restaurada quando do corte da pele sensível no
Ato artificial da possível afeição do encontro humano.

As correntes de ar alimentam o balançar dos cabelos


Caídos sobre os ombros delicados, num misto de dor
E prazer. Principalmente ao imaginar o lavrador das
Escritas eternas registrar os ternos, negáveis e pobres
Companheiros das manhãs de sábado, da bela solidão
Equivocada. Trazem o cheiro do meu passado e vão
Para longe, num lugar de outrora restituído no hoje.

O passo caprichado em direção da aguda corda ressonante


Firma o norte desaguado em eternas primaveras senis
Do perverso e mínimo instante de um devir astral. É.
Coalhou os glóbulos nas artérias entupidas pelo beijo

60
Na testa daquele que vingará na noite do amor inventado.
Ainda assim, ficará no aguardo do transeunte desatento
– A admoestar os delírios dos pares de tênis sujos na sarjeta.

Os sete selos serão abertos diante do duplo desejo


De amar os corpos deitados nas vergas da antemanhã.
Feridos estão pelas espadas enferrujadas. Lâminas
Venenosas. A possibilidade do encontro nesse evento
Será remotíssimo. O ângulo retido na órbita daquele
Que os observa, configurará os anos em que as almas
Embrenharam-se nas florestas do destino, assim [...].

Um canto de condor refrigera a pele, indo ao monte


Em que os amantes andinos retornarão, mesmo que
Sobejados do pacto entre a história e a dissimulada
Mitologia esgotada nas franjas dos dias da mocidade.
A orquestra repercutirá nos toldos que serve de morada
Para o tempero dos pares envoltos pelo rútilo lençol,
Bordado nas marés de esplendor, ressecadas no olhar.

Os sentimentos mutilados no cerne dos dedos em


Passaporte a indicar os poros sorventes do suor que
Percorre a testa beijada outrora, quando ainda
Desejava uma noite sob o crepúsculo das luas.
Viaja inutilmente por veredas capricornianas
No embate do duplo contato, restaurando os
Anseios por um lugar no labirinto sem o fio condutor.

61
um copo p’ra morrer
meu amor caberia num copo d’agua
se tempestade fosse e dia mareasse
meu amor caberia num corpo seco
se deserto fizesse e noite atormentasse

meu amor destoa


à-toa
no lombo da brisa
infecundo
profundo
perfil dos amantes
amargos navegantes
moídos na pele
represados sentimentos
dos sonhos quebrados
simulacros irônicos
de amantes perfilados
para a morte
afogados num copo
assim em estilhaços

62
Da Poesia

63
para ler antes de dormir
Fecho os olhos antes que o sono venha.
Ele não veio. Ele não virá. Que agonia.
Desassossegado me ponho a lembrar dos
Tempos de outrora, quando passeava por
Seu corpo, tocando cada milímetro na
Alegria que ouvia ao ranger o dente, pele.
Todas as contas equacionadas na formulação
Da fatura codificada retorna preocupante.
Ele não veio. Ele não virá. Eu deságuo na
Gota de lágrima que finge oceanar meus
Olhos cansados de esperar. Olho para o teto
Confiante no rigor do canto outonal a viscerar
Minha pupila renitente, no doce amor de
Diamante. Rígido. Duro. Intransponível.
As paredes apertam meus fantasmas no
Encontro limitável entre a luz e as trevas,
Minhas parceiras. Esboço um rebrilho nas
Pálpebras no processo de repouso e viajo
Lentamente. Entregando-me minimamente
Ao sabor seco que amarga a minha boca. Não
Dou por mim já em outro paralelo nível de um
Onírico tempo-espaço-sombrio do meu próprio
Ser, esvaindo-me da realidade cujo lençol
Por sobre meus pensamentos rasga, fragmenta-se
Em múltiplos sonos arrastados pelos fatigados
Minutos de uma valsa do século XVIII. E durmo.

65
finge dor
O poeta nasce sob as sombras do espectro canônico.
Passa a existir unicamente na página do palimpsesto
Em que o homem moderno não conseguiu apagar.

{Reflexo 1}
o meu dezembro abre-se como o palimpsesto
intacto às mãos inférteis dos mais desajustados
dos scriptores de ontem. as folhas caem no meu
outono antecipado, mostrando o lado oculto
das noites enfadonhas que os mais pífios dos
poetas cantaram. ergo-me com o olhar na rasura
da pele que recobre cada membro meu. avisto
ao longe um não-sei-quê sem-igual que teima
em afundar-se nos devaneios esquecidos do sótão
da minha memória, em busca de um espaço
inabitado pelas simbólicas traças que escavam
à procura da celulose incendiária, recobridora
das minhas lembranças fortuitas [...]

Percebe-se então que a Filosofia e a poesia no embate


Da escrita revelam cruamente o filósofo e o poeta.
Uma possível resposta para a pergunta desassossegada
Do filosofar e do ato poético se instaura retoricamente
Ao vislumbrar esses princípios duplamente configurados
Na essência do humano. É transcendência. É experiência.
É imaginação. É sensibilidade, já que do cotidiano tão
Comum capta-se o oculto, o negligenciado, o inapercebido.
Olhar com os olhos de lentes ajustadas e ver o
Indizível; ouvir o inapreciável, cantar o odor do tempo.

66
{Reflexo 2}
tingido pelas cores quentes de verão, o quadro
fazia-se em poesia. os artefatos eram colhidos
ali mesmo ao redor. bastava elevar as sobrancelhas
e notar o curso do silêncio estendido na paisagem,
rasgada pelo ósculo (re)feito entre céu e rio.
um caleidoscópio floralizado sutura então o cenário
por algum momento. instante de captação e sagração
das imagens, convertidas ora em liricidade – poesia.
a única expressão do prazer: experiência poética e verbal.
a curvatura dos ouvidos colhe e compreende o
amistoso marulhar das águas revoltas e dos pássaros
em revoada, rumo à impressão dos sentidos.
respira-se a política das sensações apresentadas
pela rebeldia dos perfumes silvestres, comprometidos.
uma verdadeira festa em arte, em palavras, no poeta: poesia.

O princípio especular que projeta o ser no papel


Também o faz adornar-se e tingir-se com o gosto
Agridoce das horas de escrita. Uma mantilha
Estéril, escondida na sacada, ao relento, fez-se
Realidade, a ponto de haver a vontade de movê-la
Por sobre os ombros, em aconchego. Ela poesia.
Ele canta. Metamorfoseia-se em poeta. Sua voz
Perpassará todas as ocasiões de fingimento e será,
Assim, um verossímil mascarado na arte de trovar.

67
para ler na varanda
A nota em sustenido voa pelas penduradas folhas
Da primavera, exercendo toda força de inutilidade
Que o presente já passado esconde. Um jovem e
Insistente vento balança a mandala que circula e
Retorna ao seu centro retangular. Aviso de que o
Cosmo namora o homem e pluraliza os sentidos.

Veio de longe o olhar obedecer às horas de embalo


Sacode os espaços e enlata os momentos no ali
Volvem-se os silêncios que o som emudeceu antes
Cria-se a masculina têmpora que agora beija
Fia as histórias de amor incomuns prontas a serem
Espalmadas glórias são registradas nesse encontro
Os planetas regozijam-se de tal feito em defeito
Dos corpos no chão em sentido anti-horário.

Esta obra foi impressa em processo digital,


na Oficina de Livros para a Letra Capital Editora.
Utilizou-se o papel Pólen Soft 80g/m² e a fonte
Minion Pro corpo 12 com entrelinha 16.
Rio de Janeiro, RJ

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