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TADAO ANDO

Por novos horizontes


na arquitetura
O pensamento arquitetônico apoia-se na lógica abstrata. Por abstrato me refiro a uma
exploração meditativa que atinge a cristalização da complexidade e riqueza do mundo,
e não a uma redução de sua realidade pela diminuição de sua concretude. Os melhores
aspectos do modernismo não terão se originado desse tipo de pensamento
arquitetônico?
O pós-modernismo surgiu no passado recente para denunciar a pobreza do
modernismo em um momento no qual esse movimento estava se deteriorando,
tornando-se convencional e abandonando o papel que se arrogara como força de
revitalização cultural. A arquitetura moderna havia se tornado mecânica, e os estilos
pós-modernos se empenharam em recuperar a riqueza formal que o modernismo
aparentemente descartara. Esse esforço sem dúvida alguma representou um passo na
direção certa, ao voltar-se para a história, o gosto e o ornamento, e devolveu à
arquitetura uma certa concretude. No entanto, também este movimento rapidamente se
atolou em expressões de vulgaridade, produzindo uma enxurrada de brincadeiras
formalistas que mais confundiram do que inspiraram.
O caminho mais promissor para a arquitetura contemporânea é o de um
desenvolvimento que atravesse e supere o modernismo. Isso significa substituir os
métodos mecânicos, letárgicos e medíocres, aos quais o modernismo sucumbiu pela
vitalidade meditativa e abstrata que caracterizou os seus primórdios, de modo a criar
coisas estimulantes para o pensamento que sejam capazes de nos levar ao século XXI.
A criação de uma arquitetura capaz de infundir novo vigor no espírito humano deve abrir
caminho no impasse atual da arquitetura.

LÓGICA TRANSPARENTE

A criação arquitetônica funda-se na ação crítica. Nunca se resume a um método para a


solução de problemas por meio do qual determinadas condições são reduzidas a
questões técnicas. A criação arquitetônica supõe a contemplação das origens e da
essência dos requisitos funcionais de um projeto e a subsequente determinação dos
seus problemas essenciais. Somente dessa maneira o arquiteto pode manifestar na
arquitetura o caráter de suas origens.
Quando concebi o projeto do Museu Histórico Chikatsu-Asuka, em Osaka, em
um sítio fundamental para a história antiga do Japão, compreendi a importância vital de
conceber uma arquitetura que não desfigurasse a grandeza da paisagem local.
Concentrei-me então na capacidade da arquitetura de introduzir uma nova paisagem e
procurei criar um museu que pudesse acolher a paisagem ao seu redor nas exposições
que programasse.
Na sociedade contemporânea, a arquitetura é condicionada por fatores
econômicos e na maior parte das vezes governada pela padronização e mediocridade.
O projetista sério deve questionar inclusive os requisitos dados e refletir profundamente
sobre o que realmente lhe está sendo encomendado. Esse tipo de investigação poderá
revelar-lhe o caráter específico latente em uma encomenda e esclarecer o papel vital
que uma lógica intrínseca cumpre na realização de uma obra arquitetônica. Quando a
lógica permeia o processo de projeto, o resultado é uma clareza de estrutura, ou da
ordem espacial - acessível não só à percepção como à razão. Uma lógica transparente
que impregna o todo e transcende a beleza superficial, ou a mera geometria, com seu
valor intrínseco.

ABSTRAÇÃO

O mundo real é complexo e contraditório. No cerne da criação arquitetônica está a


transformação da concretude do real, por meio de uma lógica transparente, em uma
ordem espacial. Não se trata de uma abstração que suprime, mas de uma tentativa de
organizar o real em torno de um ponto de vista intrínseco para ordená-lo mediante o
poder de abstração. O ponto de partida de um problema arquitetônico - seja o lugar, a
natureza, o estilo de vida ou a história - se expressa nessa evolução para o abstrato.
Somente um esforço dessa natureza é capaz de produzir uma arquitetura rica e variada.
Quando desenho uma residência - um continente para a habitação humana -
procuro alcançar precisamente essa união entre a forma geométrica abstrata e a
atividade humana diária.
Na Row House (residência Azuma), em Suniyoshi, peguei uma casa de uma
série de três habitações geminadas de madeira e a reconstruí como um espaço fechado
de concreto, na tentativa de gerar um microcosmo no seu interior. A casa se divide em
três seções, e a seção do meio é um pátio a céu aberto. Esse pátio é um exterior que
preenche o interior, e seu movimento espacial é invertido e descontínuo. Como forma
geométrica simples, a caixa de concreto é estática; mas como nela penetra a natureza
e a casa é ativada pela vida humana, sua existência abstrata adquire vibração no
encontro com essa concretude. Minha principal preocupação nesse projeto foi
estabelecer o grau de austeridade da forma geométrica capaz de se confundir com a
vida humana. Esta preocupação também prevalece na Koshino House, na Kidosaki
House, e em outros de meus projetos residenciais ou outros tipos de construções. A
abstração geométrica se choca com a concretude humana e, então, a aparente
contradição se dissolve na incongruência. A arquitetura criada naquele momento é
preenchida por um espaço que provoca e inspira.

NATUREZA

Eu procuro instilar a presença da natureza em uma arquitetura construída com


austeridade mediante uma lógica transparente. Os elementos naturais - água, vento, luz
e céu - trazem o contato com a realidade de volta a uma arquitetura derivada da reflexão
ideológica, nela despertando a vida criada pelos próprios homens que a habitam.
A tradição japonesa abraça uma sensibilidade para com a natureza diferente da
ocidental. A vida humana não tem a pretensão de se opor à natureza e não se empenha
em controlá-la, mas antes busca uma associação íntima com a natureza a fim de unir-
se com ela. Pode-se até mesmo dizer que, no Japão, todas as formas de exercício
espiritual são tradicionalmente realizadas no contexto da inter-relação do homem com
a natureza.
Esse tipo de sensibilidade engendrou uma cultura que diminui a ênfase na
fronteira física entre a residência e a natureza circundante e que, ao contrário, instala
um limiar espiritual. Ao mesmo tempo em que protege a habitação humana da natureza,
procura trazê-la para dentro da casa. Não há uma demarcação clara entre interior e
exterior, mas

Tadao Ando, Museu das Crianças, Himeji, Hyogo, 1987-89. Vista externa.

uma permeabilidade recíproca. Infelizmente, hoje a natureza perdeu muito de sua antiga
abundância e a nossa capacidade de percebê-la também se enfraqueceu. Por isso, a
arquitetura contemporânea tem um papel a cumprir no sentido de proporcionar às
pessoas lugares arquitetônicos que as façam sentir a presença da natureza. Quando
isso acontece, a arquitetura transforma a natureza por meio da abstração e modifica o
seu significado. Quando a água, o vento, a luz, a chuva e outros elementos naturais são
abstraídos na arquitetura, esta se transforma em um lugar no qual as pessoas e a
natureza se defrontam em permanente estado de tensão. Creio ser esse sentimento de
tensão que poderá despertar as sensibilidades espirituais latentes no homem
contemporâneo.
No Museu das Crianças, em Hyogo, organizei cada um dos elementos
arquitetônicos de modo a permitir encontros genuínos com a água, a floresta e o céu,
em condições ideais. Quando a presença da arquitetura transforma um lugar, dando-lhe
uma nova intensidade, é possível descobrir uma nova relação com a natureza.

LUGAR

A presença da arquitetura - a despeito de seu caráter autossuficiente - cria


inevitavelmente uma nova paisagem. Isso implica a necessidade de descobrir a
arquitetura que o próprio sítio está pedindo.
O Edifício Time, situado à margem do rio Takase, em Kyoto, nasceu do
envolvimento com a delicada corrente do rio que passa por perto. A praça do edifício
em que se pode molhar a mão na água, o deque que passa por cima do córrego como
uma ponte, o plano horizontal de aproximação que provém das margens do rio e não de
uma estrada - todos esses elementos servem para extrair o máximo de vida possível do
extraordinário cenário da construção. O conjunto habitacional de Rokko, em Kobe,
nasceu do cuidado com um sítio igualmente singular: neste caso, uma encosta de no
máximo 6o° de inclinação. A ideia do projeto foi a de fazer a construção afogar-se ao
longo da encosta, controlando a sua projeção acima do solo a fim de misturá-la à densa
floresta ao seu redor. Dessa maneira, a cada habitação é assegurada uma visão
magnífica do oceano a partir de um terraço proporcionado pelo teto da casa vizinha
abaixo. Todos os meus projetos, seja o Museu das Crianças, em Hyogo, seja o Museu
da Floresta de Túmulos, em Kumamoto, seja o edifício central da Raika, ou o complexo
comercial Festival, em Okinawa, são fruto de um esforço para criar uma paisagem,
jogando integralmente com as características do lugar.
Eu componho arquitetura procurando encontrar uma lógica essencial inerente ao
lugar. A pesquisa arquitetônica supõe uma responsabilidade de descobrir e revelar as
características formais de um sítio, ao lado de suas tradições culturais, clima e aspectos
naturais e ambientais, a estrutura da cidade que lhe constitui o seu pano de fundo, e os
padrões de vida e costumes ancestrais que as pessoas levarão para o futuro. Sem
sentimentalismos, minha ambição é transformar o lugar, pela arquitetura, em um plano
abstrato e universal. Somente dessa maneira, a arquitetura pode repudiar o universo da
tecnologia industrial e tornar-se uma "grande arte", no verdadeiro sentido da expressão.

["Toward New Horizons in Architecture" foi extraído de Tadao Ando. Nova York:
Museum of Modern Art, 19991, pp. 75-76. Cortesia do autor e da editora]