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GUIA DE LABORATÓRIO – QUÍMICA ORGÂNICA EXPERIMENTAL I – PROFA.

EUGÊNIA CRISTINA SOUZA BRENELLI


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Capítulo

4
PURIFICAÇÃO DE SÓLIDOS
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4.1. RECRISTALIZAÇÃO
Em geral, sólidos são mais solúveis em solventes à quente que em
solventes a frio. A quantidade máxima de sólido que se dissolverá por
unidade de volume de solvente (solubilidade) depende da temperatura.
Quanto mais alta a temperatura maior a quantidade de sólido que se
dissolverá por volume de solvente. Diminuindo-se a temperatura diminui a
solubilidade do sólido no solvente. Assim, se uma solução saturada quente é
esfriada, o soluto em excesso é forçado a precipitar (cristalizar) da solução.
No processo da recristalização, dissolve-se um sólido impuro na
quantidade apropriada de solvente quente (o mínimo possível). Filtra-se por
gravidade a solução quente resultante, removendo-se o material insolúvel e
esfriando-se lentamente para forçar o sólido desejado a cristalizar. Os
cristais então são separados do líquido por filtração a vácuo. As impurezas
solúveis e uma pequena quantidade do sólido desejado permanecem em
solução na "água mãe".
Se o processo for conduzido com os devidos cuidados, o sólido
recristalizado é mais puro do que era antes de recristalização. Isto é
verdadeiro mesmo que uma impureza tenha a mesma solubilidade no
solvente que o sólido desejado, contanto que a impureza esteja presente
numa concentração menor que o sólido desejado. Quando a solução esfria, é
provável que o sólido desejado comece a cristalizar antes que a impureza. A
partir do momento em que os cristais começam a se formar, os cristais que
crescem excluem moléculas estranhas (impurezas). Os cristais puros
resultam de um crescimento relativamente lento.
Um bom solvente para recristalização deve:
ü não reagir com o sólido desejado
ü ser facilmente removido do sólido desejado
ü dissolver uma quantidade relativamente grande de sólido desejado a
temperaturas altas (normalmente o ponto de ebulição) ou não dissolver
nada
ü dissolver impurezas em todas as temperaturas ou não dissolver nada
Pode não haver um único solvente com todas as características
desejadas para permitir uma recristalização satisfatória de um sólido em
particular. Quando isso acontece utiliza-se um par de solventes (mistura de
dois líquidos). Por exemplo, naftaleno dissolve-se facilmente em etanol, mas
é totalmente insolúvel em água. Entretanto, adicionando-se água a uma
solução etanólica de naftaleno, diminui-se a solubilidade do naftaleno de tal
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modo que se recupera muito mais naftaleno quando se esfria a solução, em


relação à quantidade que seria recuperada se não fosse adicionada a água.
Muitos precipitados orgânicos são bem volumosos e filtram muito
lentamente por gravidade. Portanto, em química orgânica usa-se
preferencialmente a filtração a vácuo ao invés da filtração por gravidade.
Durante uma reação química, podem ser produzidas substâncias
contaminantes coloridas ou odoríferas. Pode-se remover estes
contaminantes adicionando-se uma pequena quantidade de carvão ativado à
solução quente. O carvão absorve os contaminantes coloridos ou odoríferos
junto com uma pequena quantidade do produto desejado (assim, somente
uma pequena quantidade de carvão deve ser utilizada). O carvão e outras
impurezas insolúveis são então removidos por filtração enquanto a solução
ainda está quente (neste caso costuma-se utilizar a filtração por gravidade
com papel de filtro pregueado).

4.2. PROCEDIMENTO EXPERIMENTAL

4.2.1. DETERMINANDO A SOLUBILIDADE DA AMOSTRA


Inicialmente você deve determinar a solubilidade da sua amostra em
vários solventes comuns (água, etanol, hexano, diclorometano, acetato de
etila).
Coloque uma ponta de espátula do sólido em vários tubos de ensaio e
adicione cerca de 0,5 mL de cada solvente aos diferentes tubos contendo o
sólido.
Agite cada mistura e determine se o sólido é solúvel em cada solvente
à temperatura ambiente.
Se a amostra não for solúvel em algum solvente, aqueça o tubo de
ensaio em banho-maria. Agite o tubo observando se o sólido é solúvel à
quente. Deixe as soluções esfriarem lentamente à temperatura ambiente. Se
houver a formação de cristais das misturas resfriadas, compare a quantidade,
tamanho cor e forma com o material sólido original.
Construa uma tabela contendo os dados de solubilidade, a partir dos
quais você será capaz de decidir qual o solvente mais apropriado para a
recristalização.

4.2.2. RECRISTALIZANDO A AMOSTRA


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Uma vez determinado o solvente mais eficiente para a recristalização


da sua amostra, coloque aproximadamente 2-3 g do material a ser
purificado em um Erlenmeyer de 125 mL.
Usando um Erlenmeyer, aqueça em uma chapa elétrica uma certa
quantidade do solvente que será utilizado na recristalização.
Adicione ao Erlenmeyer contendo a amostra, aos poucos e com
agitação, o solvente escolhido à quente até que toda a amostra se dissolva.
Caso o material apresente impurezas coloridas, retire da chapa quente
o Erlenmeyer contendo a amostra dissolvida e coloque-o sobre uma tela de
amianto. Adicione uma pequena quantidade de carvão ativo à solução e agite
a mistura. Volte o Erlenmeyer para a chapa quente enquanto você prepara o
funil e o papel de filtro pregueado (Figura 4.1), para a etapa seguinte.

Figura 4.1. Representação simplificada do modo de fazer um papel de filtro


pregueado

Filtre a solução quente por gravidade em um outro Erlenmeyer para


remover as impurezas insolúveis e o carvão ativo (Figura 4.2).

Figura 4.2. Filtração rápida de uma solução quente usando papel de filtro
pregueado.
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Coloque o Erlenmeyer com a solução saturada quente, para esfriar


lentamente na bancada em cima de uma tela de amianto.
Depois que os cristais tiverem começado a se formar e a solução
estiver fria, coloque o frasco num banho de gelo. Adicionalmente, resfrie
uma pequena quantidade do solvente utilizado na recristalização.
Colete os cristais formados por filtração a vácuo usando um funil de
Büchner e frasco de filtração (Figura 4.3). Prenda o frasco de filtração num
suporte universal para evitar uma queda acidental. Enquanto a sucção estiver
sendo aplicada, lave os cristais com um pouco do solvente que você esfriou
previamente. Permita que o processo de sucção continue até que o máximo
de líquido possível tenha sido removido. Desligue o vácuo cautelosamente.

Figura 4.3. Aparelhagem para filtração a vácuo.

Raspe suavemente os cristais sobre um vidro de relógio ou papel de


filtro e deixe-os secar ao ar tanto quanto possível (coloque-os sob um
bequer grande para protegê-los de sujeira). Coloque o sólido seco num
frasco de vidro previamente pesado. Determine o rendimento, porcentagem
de recuperação, e o ponto de fusão do material purificado.

4.3. SUBLIMAÇÃO
Do mesmo modo que para um líquido, a pressão de vapor em um
sólido pode variar com a temperatura. Devido a este comportamento, alguns
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sólidos podem passar diretamente da fase vapor sem passar através de uma
fase líquida. Este processo é chamado de sublimação. Como o vapor pode
ser ressolidificado, o ciclo total da vaporização-solidificação pode ser usado
como um método de purificação. Entretanto, esta purificação só pode ser
feita com sucesso se as impurezas no sólido tiverem menor pressão de vapor
que o material a ser sublimado.
A sublimação é geralmente uma propriedade de substâncias não muito
polares que tem estruturas altamente simétricas. Os compostos simétricos
têm altos pontos de fusão e altas pressões de vapor. A facilidade com a qual
uma substância pode escapar do estado sólido é determinada pela forças
intermoleculares. Estruturas moleculares simétricas tem uma distribuição
uniforme de densidade eletrônica e um pequeno momento dipolar. O
resultado é uma alta pressão de vapor devido às pequenas forças atrativas
eletrostáticas no cristal.
O fato de não ser necessário o uso de solvente é uma vantagem da
sublimação frente à recristalização. A sublimação também remove o material
ocluído no cristal, como moléculas de solvente por exemplo. Embora a
sublimação seja uma técnica mais rápida, ela não é seletiva. Em misturas de
sólidos que possuem pressões de vapor semelhantes, o resultado é que
haverá pouca separação.

4.4. PROCEDIMENTO EXPERIMENTAL

4.4.1. SUBLIMANDO UMA AMOSTRA IMPURA


Coloque uma pequena quantidade do sólido impuro que o seu
professor indicar, no fundo do sublimador. Ajuste o dedo frio ao sublimador
e adapte as mangueiras de água conforme indicado na Figura 4.4. Ligue o
fluxo de água.
Quando tudo estiver montado inicie o aquecimento com a chama mais
fraca do bico de Bunsen. se o aquecimento for muito forte a amostra pode
fundir ao invés de sublimar.
Quando o processo terminar, espere a aparelhagem esfriar e
desconecte cuidadosamente o dedo frio do sublimador. Raspe os cristais que
condensaram no dedo frio e guarde no frasco adequado. Faça uma medida
de ponto de fusão conforme instrução do seu professor.
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Figura 4.4. Aparelho para sublimação.

4.5. QUESTIONÁRIO
1. Em que princípio se baseia o processo de recristalização?
2. Defina os seguintes termos:
a. solução não saturada
b. solução saturada
c. solução supersaturada
d. solubilidade
e. concentração
f. filtrado
g. água-mãe
h. precipitado
3. Liste quatro propriedades que um bom solvente para recristalização deve
ter.
4. Por quê às vezes é necessária uma mistura de dois solventes para uma
recristalização?
5. Explicar por quê se dá preferência à filtração à vácuo ao invés de filtração
por gravidade em química orgânica.
6. Por quê freqüentemente se adiciona uma pequena quantidade de carvão
ativo à solução quente que contém o sólido desejado antes da solução ser
filtrada para remover impurezas insolúveis (antes que ocorra a cristalização
do sólido desejado)?
7. (a) Por quê a substância recristalizada é lavada com solvente enquanto
está no filtro?
(b) por quê o solvente usado nesta etapa deve estar gelado?
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8. Ao recuperar-se 3.60 g de ácido benzóico puro de uma amostra de 5.00


g, qual é a de porcentagem de recuperação do ácido?
9. O que previne impurezas solúveis de aparecerem no produto final durante
a recristalização?
10. Suponha que nem todo o solvente foi removido de um sólido
recristalizado. Qual seria o efeito no ponto de fusão do sólido?