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David Samuel Margoliouth

MAOME E A
,,_, ,,_,

ASCENSAO DO ISLA

TRADUÇÃO

Sérgio Lamarão

conTRAPOnTO
©desta edição, Contraponto Editora Ltda, 2012
Título original: Mohammed and the Rise ofIslam

Vedada, nos termos da lei, a reprodução total ou parcial deste livro,


por quaisquer meios, sem autorização da Editora.

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1 a edição, julho de 2012


T iragem: 2.000 exemplares

Revisão de originais: Ângela Souza


Revisão tipográfica: Tereza da Rocha
Projeto gráfico: Regina Ferraz

CIP-BRASIL CATALOGAÇÃO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE L IVROS, RJ

M283m Margoliouth, D. S. (David Samuel), 1858-1940


Maomé e a ascensão do Islã / David Samuel Margoliouth ;
tradução Sérgio Lamarão. - Rio de Janeiro : Contraponto, 2012.

Tradução de: Mohammed and the Rise of Islam


ISBN 978-85-7866-048-2

1. Maomé, m. 632. 2. Muçulmanos - Arábia Saudita - História.


3. Islamismo. 1. Título.

CDD: 297.63
12-2313 CDU: 28
SUMÁRIO

Prefácio 7
Bibliografia 13

1. O local de nascimento do herói 17


2 . Os primeiros anos de vida de Maomé 53
3. O Islã como sociedade secreta 83
4. O Islã vem a público 111
5. História do período de Meca 1 39
6. A migração 1 67
7. A Batalha de Badr 209
8. Progresso e retrocesso 243
9. A destruição dos judeus 271
1 0. Passos para a tomada de Meca 295
1 1 . A tomada de Meca 327
12. A formação da Arábia 355
13. O último ano 383
PREFÁCIO

Os biógrafos do Profeta Maomé1 formam uma longa série cuja


totalidade é impossível abarcar aqui, mas da qual seria uma gran­
de honra compartilhar. O mais famoso, provavelmente, é sir Wal­
ter Raleigh,2 embora os louros pela eloquência e pela visão histó­
rica possam ser concedidos, em justa medida, a Gibbon. 3
Durante a época em que Gibbon escreveu, e por um longo
tempo ainda, os historiadores confiaram seu conhecimento a res­
peito da vida de Maomé sobretudo à biografia de Abu'l-Fidã, que
morreu no ano de 722 a.H. [ano da Hégira], 1 322 d.C., de cujo
trabalho Gagnier produziu uma edição desprovida de brilho.4 Os
estudiosos do século XIX, que sem dúvida não estavam satisfeitos
com um trabalho tão pouco recuado no tempo, foram bem-suce­
didos na tarefa de trazer à luz os mais antigos documentos pre­
servados pelos muçulmanos. O mérito da descoberta e da utili­
zação desses antigos trabalhos deve ser compartido por G. Well,
Caussin de Perceval, F. Wüstenfeld, A. Sprenger e sir William Muir.
As biografias de Maomé escritas pelos dois últimos5 serão consi­
deradas clássicas enquanto houver, na Europa, estudiosos da his­
tória do Oriente. Vale destacar, porém, que a biografia da autoria­
de Muir foi escrita de uma perspectiva expressamente cristã, e que
a de Sprenger é prejudicada por uma compreensão erudita um
tanto enganosa e uma arqueologia pouco confiável.6

1. E. Sachau, Ibn Sa'd III, i. O prefácio fornece um relato valioso sobre as fontes usadas
para a biografia do Profeta.
2. Walter Raleigh, The Life and Death ofMahomet, Londres, 1637.
3. Merece menção, entre os eloquentes relatos sobre Maomé, o que se encontra em Rea­
de, Martyrdom ofMan, 14• ed., 260 p. O de Wellhausen, na introdução a Das Arabische
Reich und sein Sturs, é magistral.
4. Oxford, 1723. Abu'l-Fida é referido como o maior dos estudiosos, quiçá dos últimos
tempos, por T. Wright, Christianity in Arabia.
5. Muir, Londres, 1857-186 1 ; Sprenger, 2• ed., Berlim, 1869.
6. O julgamento que Wellhausen faz dele ( Wakidi, p. 24-26) é absolutamente justo e
sensato.

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DAVID SAMUEL MARGOLI OUTH

Desde que esses trabalhos foram produzidos, o conhecimento


acerca de Maomé e sua época foi ampliado pela publicação de
muitos textos em árabe e pelos esforços de estudiosos europeus
voltados à antiguidade muçulmana.7 As obras de 1. Goldziher,
J. Wellhausen e Nõldeke elucidaram muito do que era obscuro e
facilitaram a compreensão da história árabe, tanto antes quanto
depois do Profeta. Foram revelados muitos detalhes interessantes
e até eventualmente importantes dos trabalhos em árabe mencio­
nados a seguir, publicados, em sua maioria, depois que Sprenger e
Muir escreveram seus livros.
1 . Musnad, ou coleção de tradições de Ahmad Ibn Hanbal, que
morreu em 24 1 a.H. (855 d.C.: Cairo, 1 890, 6 v., in folio). Nesse
trabalho, as palavras do Profeta, registradas por diferentes indi­
víduos, são apresentadas em seletas de cada um deles. A mesma
tradição é exposta dez, vinte ou mesmo uma centena de vezes.
A maior parte desse material é dificilmente encontrada em outros
lugares, e provavelmente é autêntica. O relato desse trabalho, feito
por Goldziher, ZDMG [revista da Sociedade da Alemanha Orien­
tal], l, 463-599, sem dúvida é excelente.
2. O gigantesco Commentary on the Koran, do historiador Ta­
bari, que morreu em 310 a.H. (922 d.C.: Cairo, 1 902-1904, 30 v.,
in falio). Para o historiador, esse comentário é muito mais valioso
que as interpretações populares de Zamakhshari e Baidawi, que
viveram muitos séculos depois e foram influenciados por contro­
vérsias posteriores.
3. O Isabah, ou dicionário de pessoas que conheceram Maomé,
de Ibn Hajar (Calcutá, 1 853- 1 894, 4 v.). A despeito da data relati­
vamente recente desse grande dicionário, o trabalho de Hajar é
valioso do ponto de vista histórico, pois consolida informações

7. As mais importantes biografias de Maomé lançadas na Europa são as de L. Krehl (Lei­


pzig, 1884), H. Grimme (Münster, 1892-1895) e F. Buhl (Copenhague, 1903). As novas
edições dos trabalhos de Grimme e de Wollaston, Half-hours with Mohammed, e o
magnífico trabalho de Prince Caetani não foram publicados a tempo para que eu
pudesse utilizá-los.

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MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

retiradas de fontes que não são mais acessíveis. Ibn Hajar era dono
de uma extraordinária biblioteca.
4. Os trabalhos dos antigos escritores árabes, especialmente o
polígrafo 'Amr, filho de Bahr, chamado Al-Jahiz, que morreu em
255 a.H. (868 d.C.). Das suas obras, três encontram-se hoje aces­
síveis, organizadas por Van V loten, além do tratado sobre retórica
publicado no Cairo. Embora não tratem diretamente de Maomé,
esses volumes contêm muitas alusões passíveis de utilização.
O escritor da atualidade pode lançar mão, além desses traba­
lhos (na medida em que lhe sejam acessíveis), dos estudos já utili­
zados por seus predecessores, dos quais são enumerados os prin­
cipais nas referências bibliográficas. Um deles, Class Book of Ibn
Sa'd (e. 230 a.H., 845 d.C.), está para sair em livro.
Uma vez que os autores dos livros publicados na presente co­
leção dispõem de um número limitado de páginas,* julguei ne­
cessário sintetizar, e isso foi feito pela omissão de três tipos de
assuntos:
1 . Traduções do Alcorão (exceto nos casos mais raros).
2. Todos os relatos que óbvia ou muito provavelmente são fa­
bulosos.
3. Os incidentes que têm pouca importância em si mesmos ou
para o desenvolvimento da narrativa.
Algumas orientações para se avaliar a credibilidade das tradu­
ções são formuladas por Muir, na introdução de seu livro, e por
Goldziher, em Muhammadanische Studien. Observações impor­
tantes a respeito do tema também são feitas por Nõldeke, ZDMG,
lii, 1 6ss. O número de motivos que levam à fabricação das tradi­
ções é tão grande que o historiador corre o risco constante de em­
pregar, como registros verazes, aquilo que na verdade era ficção.
Espero que eu não tenha sido apenas mais crédulo que meus ante­
cessores. Ao condenar algumas das tradições como não históricas,

* O autor refere-se à série de estudos biográficos da qual seu livro faz parte, intitulada
Heroes of the Nations. [N.T.]

9
DAVID SAMUEL MARGOLI OUTH

em geral considerei suficientes os óbelos* de Goldziher, Nõldeke


e Wellhausen.
O ponto de vista a partir do qual este livro foi escrito é sugeri­
do pelo título da série. Considero Maomé um grande homem que
resolveu um problema político extremamente difícil - a constru­
ção de um Estado e de um império para as tribos árabes. Esforcei­
-me, ao narrar a maneira pela qual ele realizou sua tarefa, por fa­
zer justiça à sua capacidade intelectual e por observar em relação
a ela a atitude respeitosa que sua grandeza merece; por outro lado,
porém, este livro não almeja ser uma apologia nem uma acusação.
Na verdade, não é mais necessário elaborar um trabalho do tipo
apologético nem do tipo acusatório. O encantador e eloquente
tratado de Syed Ameer Ali8 provavelmente é a melhor realização
de uma apologia de Maomé já composta em alguma língua euro­
peia. As acusações, por sua vez, são muito numerosas, algumas
elegantes e moderadas, como o trabalho de sir William Muir, ou­
tras fanáticas e virulentas.9 Essas obras em geral são concebidas
para mostrar a superioridade ou a inferioridade da religião de
Maomé em relação a algum outro sistema, preocupação da qual
espera-se que este livro esteja totalmente isento.
Há duas modalidades literárias às quais devo endereçar meu
reconhecimento especial. Uma delas consiste em autênticas bio­
grafias de pessoas que convenceram muitos de seus amigos de que
elas recebiam comunicações divinas. Posso mencionar, em par­
ticular, a história do espiritualismo moderno, por F. Podmore, 10 e
o estudo sobre o fundador do mormonismo, de W. Riley.11 A vida
de Joseph Smith, fundador do mormonismo, fornece exemplos

* óbelo: sinal com que os antigos copistas marcavam as palavras ou passagens erradas
a serem emendadas na nova cópia. [N.T.]
8. The Spirit ofIslam, Londres, 1896; Calcutá, 1902.
9. Provavelmente toca-se o fundo da questão em New but True Life of the Carpenter,
Including a New Life ofMohammed, de Amos (Bristol, 1903 ).

10. Modern Spiritualism, Londres, Macmillan, 1902.


11. A Psychological Study ofJoseph Smith, Jr., Londres, Heinemann, 1903.

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MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

extremamente instrutivos do uso de "revelações" como instru­


mento político e das dificuldades que se apresentam na trajetó­
ria do homem que é profeta e estadista. O biógrafo de Maomé
deve invejar apenas a riqueza e a autenticidade do material à dis­
posição de Riley, sem o qual as fórmulas da psicologia moderna
não poderiam ter sido aplicadas à interpretação de Smith de for­
ma tão exitosa.
A segunda categoria de trabalhos são aqueles nos quais a vida
selvagem é descrita de forma direta. Entre eles, Autobiography of
James P. Beckwourth merece destaque especial. Há capítulos em
que, se substituirmos camelo por ,cavalo, podemos encontrar uma
reprodução das maneiras e das instituições dos beduínos - e a
questão da veracidade de Beckwourth não afeta a verdade geral de
suas descrições.
Para concluir, devo agradecer a diversas pessoas de quem rece­
bi ajuda. Sou especialmente grato, pelas inúmeras sugestões e cor­
reções, ao organizador da série, a J. P. Margoliouth e ao reverendo
W. J. Foxell, que leram e releram as provas; ao dr. J. Ritchie, fellow
do New College, e R. B. Townshend, pela orientação no que con­
cerne aos trabalhos médicos e antropológicos; e a G. Zaidan, edi­
tor do jornal cairota Hilal, pelos nomes de certos trabalhos em
árabe sobre os quais eu nada sabia. Zaidan é muito conhecido nos
países de língua árabe como historiador, romancista e jornalista, e
espero não demorar muito para ter o prazer de apresentar alguns
de seus trabalhos aos leitores de língua inglesa.

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BIBLIOGRAFIA*

I. Biografias de Maomé e livros sobre a história da época inicial do Islã

Ibn Ishak (citado nas notas como Ishak), morto cerca de 767. Seu livro existe em duas
versões: a de Ibn Hisham, morto em 833, que foi publicada por Wüstenfeld, Gõttingen,
1860, e depois por Zubair Pasha; e aquela publicada por Tabari, morto em 922, incluída
em seu Chronicle, publicado em Leyden, 1882-1885.
Wakidi, morto em 823, autor de um tratado sobre as campanhas militares de Maomé.
Uma edição imperfeita foi publicada por von Kremer em Calcutá, 1 856; uma tradução
abreviada de uma cópia muito melhor foi feita por Wellhausen e publicada com o título
Muhammed in Medina em Berlim, 1 882. Usamos Wakidi ( W.) para esta última versão.
Ibn Sa'd, secretário de Wakidi, morto em 845, autor de uma obra enciclopédica sobre o
Profeta e seus seguidores. Os três volumes foram publicados em Berlim sob a supervisão
de E. Sachau.
Ya'kubi, morto cerca de 905, autor de uma história em duas partes, pré-islâmica e islâ­
mica, publicada por Houtsma em Leyden, 1883.
Ibn al-Athir, morto em 1 233, autor de Universal History, publicado em Leyden e no
Egito.
Diyarbekri, morto em 1 574, autor de Life of the Prophet, seguido de um esboço sobre a
história do Islã chamado Ta'rikh al-Khamis, publicado no Cairo, 1894.
Halabi, morto em 1634, autor de uma biografia do Profeta chamada Insan al-'uyun,
publicada no Cairo, 1882.

II. Livros tradicionais (coleções de frases atribuídas ao Profeta por testemunhas con­
sideradas verossímeis)

Musnad, de Ibn Hanbal. Ver o prefácio, p. 8.


Coletânea de Bokhari, morto em 870. A edição incompleta publicada por Krehl em
Leyden, 1 864-1868, é citada como Bokhari (K.); para as partes restantes usamos Bokha­
ri (Kast.), que se refere à sexta edição do Commentary de Kastalani, Cairo, 1896.
Coletânea de "Muçulmano", morto em 875, publicada no Cairo, 1880.
Coletânea de Tirmidhi, morto em 892, publicada no Cairo, 1 882, em dois volumes, e em
Lucknow, 1891, em um volume.
Coletânea de Nasa'i, morto em 916, publicada no Cairo, 1904.
Essas coletâneas estão colocadas aqui em ordem de importância. As coletâneas remanes­
centes de Malik Ibn Anas, morto em 795, Ibn Majah, morto em 887, e Abu Dawud,
morto em 889, não foram citadas.

* Os trabalhos mencionados no prefácio não estão repetidos aqui.

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DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

III. Comentários sobre o Alcorão

Tab. ou Tabari (Comm.) refere-se aos comentários sobre o Alcorão pelos historiadores
cujas datas foram apresentadas acima, publicados recentemente no Cairo. Outros co­
mentários citados ocasionalmente são de Zamakhshari, morto em 1144, e Baidawi, mor­
to em 1292.
Trabalhos modernos sobre o Alcorão: citamos ocasionalmente Smith, The Bible and Is­
lam, Nova York, 1897. O autor se beneficiou dos tratados de' H. Hirschfeld, embora não
tenha tido ocasião de citá-los. Outros trabalhos árabes ocasionalmente citados nas notas
são bem conhecidos pelos estudiosos.

IV. História de Meca e de Medina

History ofMeccah, de Azraki, morto cerca de 859, editado por Wüstenfeld, Leipzig, 1858.
O editor agregou, em dois volumes, extratos de outros historiadores que escreveram
depois sobre Meca, bem como um terceiro volume com um resumo do conjunto, escri­
to em alemão.

History of Medinah, de Samhudi, morto em 1505, publicado no Cairo, 1875, resumido


por Wüstenfeld em seu Geschichte der Stadt Medina, Gõttingen, 1873.
Trabalhos modernos sobre Meca e Medina.
Burckhardt, Traveis, citado a partir da tradução francesa, Paris, 1835.
Burton, Pilgrimage to Al-Medinah and Meccah, Memorial Edition, Londres, 1893.
A. H. Keane, Six Months in the Hejas, Londres, 1887.
Soubhy, Pêlerinage à la Mecque et à Médine, Cairo, 1894.

Muhammad Basha Sadik, The Pilgrim's Guide (em árabe), Cairo, 1895.
Gervais-Courtellemont, Mon Voyage à la Mecque, Paris, 1897.
Sabri Pasha, Mirror ofthe Two Sanctuaries (em turco), Constantinopla, 1886.

V. Trabalhos de 1. Goldziher

MS, abreviatura de Muhammadanische Studien, Halle, 1889-1890.


Abhandlungen zur arabischen Litteratur, Leyden, 1896, 1899.

VI. Trabalhos de Th. Nõldeke

Geschichte des Korans, Gõttingen, 1860.


Das Leben Muhammeds, Hanôver, 1 863.
Geschichte der Perser und Araber zur Zeit der Sasaniden, Leyden, 1879.
Die Ghassanischen Fürsten aus dem Hause Gafna's, Berlim, 1887.

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MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

VII. Trabalhos de J. Wellhausen

Muhammed in Medina, ver acima; a introdução e as notas são citadas como Wellhausen
(W.) ou (Wakidi).
Reste arabischen Heidenthums, Berlim, 1897.
Skizzen und Vorarbeiten, viertes Heft, Berlim, 1889.
Die Ehe bei den Arabern, Gõttingen, 1893.
Das arabische Reich und sein Sturz, Berlim, 1902.
Cito também numerosos outros artigos desses estudiosos no ZDMG ( Zeitschrift der
deutschen morgenliindischen Gesellschaft) e no WZKM ( Wiener Zeitschrift für die Kunde
des Morgenlandes). JRAS remete a Journal of the Royal Asiatic Society.

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1

O LOCAL DE NASCIMENTO DO HERÓI

Em algum momento, no ano 594 da nossa era, uma caravana


transportando as mercadorias de uma rica mulher de Meca era
conduzida em segurança para Bostra e trazida de volta, também
em segurança, com os lucros proporcionais ao risco da empreita­
da. As qualidades necessárias à condução de uma viagem dessa
natureza diferem muito pouco daquelas exigidas de um general
bem-sucedido: capacidade de reforçar a disciplina, habilidade
em escapar dos inimigos e coragem para enfrentá-los, perspicácia
para distinguir as notícias falsas das verdadeiras e para entender os
desígnios de outros homens. Quando se chega ao mercado em
segurança, e o chefe da caravana ou agente tem de vender os bens
a ele confiados de modo a obter o melhor retorno, outro conjunto
de qualidades é chamado à cena; entre elas, a principal é a fideli­
dade ao empregador, embora paciência e astúcia também sejam
indispensáveis.
O líder da expedição a Bostra, Maomé, órfão de Abdallah, en­
tão com 25 anos, desempenhou seu papel a contento e deu satis­
fação à sua patroa, a viúva Khadijah, talvez alguns anos mais velha
que ele. Como recompensa por seus serviços, a viúva concedeu­
-lhe sua mão, assegurando assim, para ela e para o esposo, um
lugar na história.
Sobre o país que eles tornariam famoso há um véu que mesmo
no começo do século XX está apenas soerguido. 1 O explorador
que penetra seu interior ainda coloca a vida em risco. Crônicas
oficiais que se referem às vicissitudes enfrentadas pelos governos
do país raramente são conservadas; seus historiadores são visitan­
tes a quem a curiosidade ou algum outro motivo dá coragem de
entrar na terra proibida. O fanatismo religioso foi introduzido

1. Ver D. Hogarth, Unveiling ofArabia, 1904.

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DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

pelo Islã como um acréscimo aos perigos do país; em certos aspec­


tos, a Arábia do século XX é semelhante à Arábia do século VI.
A respeito dos árabes antes do Islã, conta-se a resposta que um
de seus príncipes deu2 ao rei persa que declarara não haver nenhu­
ma raça superior aos persas. Que nação, refutou o príncipe, pode­
ria ser colocada à frente da dos árabes em força, beleza, devoção,
coragem, generosidade, sabedoria, orgulho ou fidelidade? Entre os
vizinhos dos persas, somente os árabes haviam mantido a inde­
pendência. Suas fortalezas eram o dorso de seus cavalos, suas ca­
mas, o chão, seu teto, o céu; enquanto outros povos entrincheira­
vam-se atrás de pedras e tijolos, a defesa dos árabes eram a espada
e a coragem.
Outras nações nada sabiam sobre suas linhagens, mas o árabe
conhecia sua genealogia até o pai da humanidade; por isso, ne­
nhum homem podia ser admitido numa tribo que não a própria.
O árabe era tão desprendido que abateria o camelo, sua única ri­
queza, para proporcionar uma refeição ao estranho que chegara
até ele à noite. Nenhuma outra nação possuía uma poesia tão ela­
borada ou uma linguagem tão expressiva como a deles. Dali eram
os cavalos mais nobres, as mulheres mais castas, as vestimentas
mais finas; suas montanhas eram repletas de ouro, prata e pedras
preciosas. Para seus camelos, nenhuma distância era excessiva e
nenhum deserto selvagem demais para ser atravessado. Eles eram
tão fiéis às determinações de sua religião que, se um homem en­
contrasse o assassino de seu pai desarmado em um dos meses sa­
grados, não o feriria. Um sinal ou um olhar de um deles constituía
um compromisso absolutamente inviolável. Se ele garantia prote­
ção e os clientes saíssem prejudicados, não descansaria até que a
tribo daquele que cometeu o dano fosse exterminada, ou sua pró-:­
pria tribo perecesse na busca de vingança. Se outras nações obede­
ciam a um governo central e a um dirigente único, os árabes não
necessitavam de uma instituição desse tipo; cada um deles era

2. Encontrado em muitos livros "Adab"; por exemplo, Ikd Farid, Alif-Bã.

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MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

apto a se tornar rei e perfeitamente capaz de se proteger, sem dis­


posição alguma para se submeter à humilhação de pagar tributo
ou suportar reprimendas.
Essa descrição, bastante elogiosa, requer considerável modifi­
cação antes de ser admitida como verdadeira. Após a difusão do
Islã, os homens começaram a dar importância às suas linhagens, e
a genealogia passou a ser reconhecida como objeto de estudo. An­
tes do Islã, porém, as genealogias nunca foram comprometidas
com a escrita, e somente em casos excepcionais eram rememo­
radas. A população da Arábia central não tinha a mais vaga noção
de como havia chegado até ali. A introdução do Velho Testamento
foi uma bênção para os arqueólogos, quando isso aflorou, porque
ali eles encontraram os primórdios de genealogias às quais, pelo
cálculo do tempo e pelas inserções arbitrárias, podiam relacionar
as linhagens com que estavam familiarizados. Antes do começo
do Islã, somente nos casos mais raros essas linhagens eram histó­
ricas por mais de duas gerações. Uma teoria dos genealogistas, que
deriva todas as tribos de heróis epónimos,* e que torna todos os
coraixitas descendentes de Kuraish e todos os kilabitas descenden­
tes de Kilab, derruba uma variedade de fatos que a pesquisa mo­
derna apreciou e que a arqueologia antiga não ignorava de todo: o
totemismo, a instituição da poliandria, a separação das ideias liga­
das à parentela e à procriação, todos eles atestados entre os árabes
nômades.
A unidade genealógica da tribo era uma fantasia quase sempre
sobreposta ao que, na origem, seria uma unidade local,3 ou união
de emigrantes sob um só chefe,4 ou alguma outra combinação
fortuita.5 Laços de família genuínos, se algum deles fosse preserva­
do, eram, assim, misturados pelos genealogistas com produtos da

* Herói epónimo: fundador, real ou mítico, de uma cidade, família, clã, dinastia etc.
(N.T.)
3. Goldziher, MS, i, 64.
4. Nõldeke, ZDMG, xi, 159.
5. Sprenger, Alte Geographie Arabiens, 290.

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DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

fantasia, até que os fragmentos da história real fossem absorvidos


para além do reconhecimento nas tabelas artificiais. Um homem
era conhecido por pertencer a um clã, e era provável que esse clã
fosse considerado o ramo de uma tribo. Contudo, os passos que
ligavam o indivíduo ao fundador do clã, e aqueles pelos quais o clã
era inferido a partir da tribo, representavam uma teoria, raramen­
te uma tradição legítima, e não faltam exemplos tanto de pessoas
quanto de clãs artificialmente transplantados para tribos com as
quais não tinham qualquer conexão física.
Pode-se atribuir maior precisão à assertiva a respeito da devo­
ção dos árabes, pelo menos no que concerne à observância dos
meses sagrados. Escritores gregos atestam o mesmo. Muitas tribos
observavam a trégua de Deus para os três meses de outono6 e um
mês da primavera. Nesses períodos, as tribos baixavam suas armas
e não derramavam sangue. Essa instituição, na forma fixada e que
foi assumida no começo do Islã, deve ter sido resultado de muitos
estágios de desenvolvimento, e foi frutífera quanto aos efeitos.
Não se pode ser severo em relação ao desejo de se visitar um san­
tuário e celebrar um banquete; na verdade, as duas estações cor­
respondem à do nascimento de animais domésticos e à da colhei­
ta das frutas. O mês anterior e o mês seguinte àquele no qual a
visita mais importante era realizada podem ter sido incluídos, na­
quele tempo, em benefício dos visitantes que vinham de longe e,
desse modo, podiam chegar e partir em segurança. Para os que
não precisavam atravessar grandes distâncias, a trégua propor­
cionava um período no qual podiam se recuperar das pilhagens
das guerras constantes e assegurar a troca de ideias, bem como de
produtos.
Nas cercanias dos santuários, surgiram feiras tão bem organi­
zadas que passaram a demarcar o período de espera. Assim, pois,
as tribos que visitavam o santuário preservavam ou estimulavam

6. Nonnosus e Procopius: "dois meses após o solstício de verão, e um na metade da


primavera''.

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MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

a ideia de uma nacionalidade comum, embora algumas das ceri­


mônias guardassem a memória das distinções originais. A feira de
Ukaz,7 em particular, servia a um propósito similar àquele para o
qual foram criados os grandes jogos da Grécia. Os assuntos que
diziam respeito a toda a família árabe podiam ser ali comunica­
dos, abrindo espaço para que se atendessem outras aspirações que
não as da guerra. Considerada o lar da família árabe, Ukaz era um
lugar onde as mulheres podiam ser cortejadas.8
Meca, o lar do Profeta Maomé, onde residia uma sociedade de
negociantes, estava situada a curta distância de muitas dessas fei­
ras. A comunidade que ali se fixou havia abandonado a vida nô­
made, embora a mantivesse na memória.9 Os escritores dos pri­
meiros tempos10 preservam a tradição de uma época em que Meca
era habit;ida apenas em duas estações do ano, sendo o verão pas­
sado em Jeddah, no litoral, e o inverno no oásis vizinho de Taif.
Muito embora a especulação religiosa tenha feito os muçulmanos
atribuírem à sua capital religiosa uma antiguidade fabulosa, outra
tradição, mais sóbria, datou a construção da primeira casa em
Meca de apenas algumas poucas gerações antes da época de Mao­
mé. Essa iniciativa foi atribuída a um membro da tribo Sahm, cujo
nome variava de Su'aid, filho de Sahm, 1 1 a Sa'd, filho de 'Amr.12
O primeiro estaria separado por três gerações do Profeta, ao passo
que o segundo estaria ainda mais próximo de sua época. 1 3 A pri­
meira casa não é descrita, mas provavelmente era uma forma pri­
mitiva de moradia. Embora um poeta refira-se ao povo de Tiha­
mah como construtores de casa de argila e argamassa, é possível
que uma construção desse gênero tenha sido feita em Meca, em

7. Uma brilhante descrição encontra-se em Wellhausen, Reste, 88-91. Ele afirma que os
locais das feiras devem ter sido originalmente santuários.
8. Wellhausen, Ehe, 442.
9. Jahiz, Mahasin, 226.
10. Jahiz, Opuscula, 62.
11. Chronicles ofMeccah, iii, 15.
12. Isabah, ii, 9 1 5.
13. Wüstenfeld, Genealogische Tabellen.

21
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

pequena escala. O segundo califa 14 sentiu falta de edificações de


tijolos, o que, na realidade, o Profeta já havia observado antes
dele. 15 As melhores casas deviam ser toscas construções de pedra.
As demais moradias provavelmente eram áreas cercadas que abri­
gavam variações de barracas e tendas. 16
A comunidade que se estabelecera no vale de Meca (ou Bec­
cah) - um desfiladeiro de cerca de uma milha e meia de compri­
mento e um terço de milha de largura, que se estendia de nordeste
para sudoeste, em algum lugar no centro da Arábia, a uma distân­
cia de setenta milhas da costa ocidental -, quando o local foi se­
lecionado, não podia esperar viver do que produzia. Afinal, aquele
solo era incapaz de fornecer qualquer coisa, algo confirmado por
todos que o conheciam, da época do autor do Alcorão aos dias de
hoje. A presença da comunidade ali deve ser relacionada ao seu
santuário, chamado Caaba, que na verdade não era a única Caaba
(ou casa de Deus em forma de cubo) da Arábia, mas aquela que
atraía o maior número de visitantes. Isso tinha relação com a Pe­
dra Negra, situada no canto noroeste, beijada pelos devotos; e
uma vez que tanto os escritores gregos quanto os árabes atestavam
que os árabes adoravam pedras, muitos pensavam ser esse o ver­
dadeiro deus dos mequenses, sendo a própria Caaba uma amplia­
ção ideal do deus.
Ademais, a Caaba, nos tempos de Maomé, certamente abrigava
a imagem de um Deus, bem como representações de outros. Ha­
via, ainda, a tese de que a Caaba continha uma tumba, o que pode
explicar a origem de uma tenda que fora erguida sobre um túmu­
lo por um lamentador ansioso por permanecer próximo ao ente
perdido.17 Que a pedra Caaba substituiu uma tenda original, isso
é atestado pelo fato de ela não ser coberta, salvo por um pedaço de

14. Jahiz, Bayan, ii, 25.


15. Musnad, iii, 220.
1 6. Segundo Azraki, parece que a casa do Profeta não tinha teto.
1 7. Sobre essa prática, ver Goldziher, MS, i, 255.

22
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

pano, até a época de Maomé.18 Sendo a santidade uma qualidade


que se dissemina por contato, a Pedra Negra, a Imagem ou a Tum­
ba originalmente conferiam santidade à Caaba que as continha, e
a área de santidade, no tempo de Maomé, estendia-se por algumas
milhas quadradas. Se estamos certos quando relacionamos à Caa­
ba de Meca as referências de escritores gregos a um grande san­
tuário árabe, e quando supomos que essas referências são corretas,
a santidade da construção era reconhecida, no século VI a.C., em
parte considerável da Arábia. A Caaba era visitada tanto em esta­
ções fixas do ano quanto em momentos ditados pela conveniência
dos peregrinos. As pessoas que desejavam amaldiçoar seus vizi­
nhos ou inimigos faziam-no mesmo a certa distância da Caaba, de
onde suas imprecações sem dúvida podiam ser ouvidas. 19 Nume­
rosos hábitos e cerimônias cresceram em torno dessa construção,
muitos dos quais ainda não se tornaram obsoletos, e oferecem ao
antropólogo matéria para conjecturas, enquanto o teólogo pode
encontrar neles algum significado profundo. O real significado
de muitos deles provavelmente estava esquecido antes da época de
Maomé.20
Os árabes supõem - e realmente são compelidos a isso, por
seu sistema - que a Caaba era anterior aos coraixitas, a tribo que
encontramos em posição dominante em Meca, no século VI da
nossa era. É provável que isso esteja correto. A posse do templo
que servia de destino às peregrinações era um recurso valioso,
uma vez que possivelmente os peregrinos deviam pagar para visi­
tar Deus. Essa taxa era arrecadada pelos coraixitas entre os visitan­
tes estrangeiros,21 e é provável que o direito de recolhê-la tenha
sido motivo de disputa. Mesmo sem essa vantagem material, o
controle de um templo é um processo natural, uma vez que desse

18. Azraki, 106.


19. Ibid., 299.
20. Wellhausen, Reste, 7 1 .
2 1 . Ibn Duraid, 172.

23
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

modo se pode obter o controle do Deus que o habita. O nome


Kuraish não nos diz nada sobre a história da tribo assim chamada:
ou trata-se de uma designação totêmica (que significa peixe-espa­
da), ou de um nome arbitrariamente criado a partir de três letras
sucessivas do alfabeto.22 Os genealogistas árabes que fazem de Ku­
raish uma pessoa prejudicam sua reivindicação de serem encara­
dos com seriedade.
Ali, primo e genro do Profeta, declarou que os coraixitas eram
nabateus originários de Kutha, na Mesopotâmia, o que podia sig­
nificar somente que eles eram descendentes de Abraão. Contudo,
a história de que o deus tribal Hubal veio de Hit, no Eufrates, e
que Kutha,23 nome de uma cidade conhecida no Eufrates, também
designava Meca, ou parte dela, empresta alguma cor a essa afirma­
ção, que acaba fortalecida, de certo modo, pela capacidade comer­
cial e política exibida pela tribo.24
Não é seguro se retirar qualquer história real da longa série de
fábulas dignificadas com o título de Crônicas de Meca. Uma tribo
chamada Jurhum, residente, nos tempos históricos, na costa do
Iêmen, reivindicou a supremacia sobre Meca durante séculos.25
Supostamente eles foram expulsos e proibidos de entrar no distri­
to26 pelos Khuza'ah, tribo que realmente residia em Meca no co­
meço desse período e que era tão intimamente relacionada aos
coraixitas que o sangue destes só era considerado puro se tivesse
uma marca khuza'ita.27 A expulsão está descrita em um mito cujo
objetivo parece ser mostrar que o conquistador pertencia à tribo
excluída. Um deles, Kusayy - cuja mãe, casada com um homem
de outra tribo, o levara para a Síria -, voltou e casou-se com a
filha do governador de Meca. Quando este morreu, Kusayy reivin-

22. Chronicles ofMeccah, ii, 133.


23. Yakut; ver Hila� de Amedroz, Índice.
24. Wellhausen, Reste, 93.
25. Ibn Duraid, 253, oferece um exemplo de seu dialeto.
26. Wellhausen, Reste, 91.
27. Jahiz, Bayan, ii, 16.

24
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

dicou a sucessão. Como sua demanda foi contestada, ele apelou


a seus conhecidos, por intermédio do segundo marido da mãe.
Após algumas escaramuças, chamou-se um árbitro que reconhe­
ceu a reivindicação de Kusayy. Este, no entanto, não fez tentativa
alguma de banir os Khuza' ah de seus lares.
O significado provável dessa história é que a colônia khuza'ita
era anterior à coraixita, e que os recém-chegados, embora não te­
nham sido mal recebidos, acabaram assegurando para si a posição
dominante, por demonstrar maior atividade e capacidade que os
antigos colonos. Durante os primeiros anos de vida de Maomé,
contudo, às vezes ocorr�am rupturas entre os khuza'itas e os co­
raixitas,28 o que levava a uma série de lutas e à intervenção de ár­
bitros.29 Na história do Islã, antes de Meca ter sido tomada, os
khuza'itas alinhavam-se a Maomé contra os coraixitas. Parece que
a supremacia destes últimos não era do gosto dos khuza'itas, em­
bora eles tenham esperado que a sorte se decidisse até adotar a
causa de Maomé. De todos os mitos, o mais próximo da história é
o que atribui a chefia da colônia coraixita em Meca a certo Hisham,
filho de Mughirah,30 da tribo Makhzum. Tradições dignas de cré­
dito afirmam que, durante certo tempo, Hisham e Meca foram
termos intercambiáveis, e que, por ocasião da morte de Hisham, as
pessoas eram convocadas a comparecer ao funeral de seu "senhor'�
Os coraixitas formavam um grupo de tribos que, de acordo
com uma teoria corriqueira entre os antigos, eram descendentes
do pai da tribo principal. Como iremos deparar muitas vezes com
os nomes desses clãs, não precisamos aqui sobrecarregar a memó­
ria com eles. Eles moravam lado a lado, em conjuntos de habita­
ções, em Meca. O mais antigo manual sobre Meca, organizado no
terceiro século do Islã, enumera 36 desses conjuntos. Os clãs mais
nobres viviam no centro do vale, ao passo que os menos nobres

28. Baihaki, Mahasin, 495, 17.


29. Ibn Duraid, 106.
30. Ibid., 94.

25
DAVID SAMUEL MARGOLI OUTH

residiam na encosta. Muitos clãs mantinham, como aliados, agre­


gados que correspondiam aos metecos gregos, pessoas que, por
alguma razão - normalmente, acusadas de assassinato, mas mui­
tas vezes por pobreza -, deixaram seus locais de origem e se mu­
daram para Meca, pondo-se sob a proteção de estranhos; é pro­
vável que certas manufaturas estivessem nas mãos de metecos.31
Alguns deles eram ricos e tinham boa situação, embora um me­
teco não pudesse proteger um nativo. 32 Próximos a eles em termos
de status estavam os clientes, pessoas que vinham para Meca co­
mo escravos e depois eram emancipadas, embora, pelo artifício
da adoção, elas, bem como outros clientes, pudessem se tornar
membros efetivos de seus próprios clãs.33 Finalmente os escravos
completavam a população. Era comum o casamento entre clãs;
contudo, com a rixa de sangue, eles e seus respectivos clientes se
distinguiam uns dos outros, muito embora pareça que as práticas
conflitantes de parentesco masculino e feminino produziam às
vezes algumas complicações.
Quanto à base econômica da comunidade, dispomos de pou­
cos dados para estabelecer qualquer perspectiva estatística. A pos­
se de um santuário popular assegurava certa renda proveniente
dos estrangeiros, parcialmente constituída do imposto cobrado
aos visitantes e da taxa paga ao funcionário do oráculo (dizem que
era de cem dirhems e um camelo, a cada consulta) e parcialmente
da remuneração do entretenimento oferecido e das indumentárias
fornecidas aos visitantes. Segundo uma regra lucrativa, os peregri­
nos não podiam fazer uso de comida ou de roupas trazidas por
eles mesmos. 34
Em segundo lugar, a santidade que se atribuía à vizinhança do
templo tornava o local apropriado à busca das artes da paz. Daí
nossos estudiosos listarem inúmeros ofícios praticados em Meca,

3 1 . Cf. Jacob, Beduinenleben, 1 50.


32. Tabari, i, 1.203.
33. Nallino, Nuova Antologia, 1 .893.
34. Jahiz, Mahasin, 165.

26
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

tais como carpintaria, ferraria, feitura de espadas, comércio de


vinhos, azeite, couros, alfaiataria, tecelàgem, fabrico de flechas,
papelaria, agiotagem. Os habitantes de Meca aplicavam um im­
posto de 1 0% sobre·os bens importados do Império Bizantino, em
parte para uso nessas atividades.35 Se um beduíno desejasse com­
prar um ídolo para sua tenda, ele teria de ir a Meca adquiri-lo.36
Em terceiro lugar, o caráter sagrado atribuído aos "vizinhos de
Deus" conferiu-lhes grande vantagem para a realização do trans­
porte de mercadorias. O uso de certas insígnias facultava aos mer­
cadores se proteger de ataques em diversos lugares.37 Muito será
ouvido, a seguir, sobre essas caravanas e as somas que auferiam.
Os lucros do comércio de exportação excediam em muito a renda
proporcionada por outras fontes, e a comunidade dependia dela
de forma constante e crescente para comprar seu pão, feito com o
milho trazido de Yemamah, situada a nordeste. Aquele que quises­
se ter Meca à sua mercê devia deter as caravanas. Porém, antes que
o plano ocorresse ao exilado ilustre, o transporte de bens fornecia
a Meca riquezas consideráveis, inclusive o ouro escavado nas mi­
nas do país do Sulaim, trazido algumas vezes para a cidade,38 onde
podia ser empregado de forma lucrativa.
Aisha, a esposa-menina do Profeta, talvez inclinada a exagerar,
estimava as propriedades de seu pai nos "Dias de Ignorância" em
1 milhão de dirhems.39 Talvez 40 mil dirhems fossem a estimativa
mais verossímil.40 Estimava-se em quatrocentos dinares o preço de
uma residência em Meca, antes de a cidade ter sido tomada por
Maomé. Um mequense, segundo consta, deu cinquenta dinares
por uma veste antiga41 e trezentos dirhems por um excelente cava-

35. Azraki, 107.


36. Ibid., 78; Wakidi (W.), 350.
37. Jahiz, Opuscula; Azraki, 1 55. Essa insígnia era de um latido; de acordo com Wellhau-
sen, Wakidi, 400, uma insígnia humilhante de sujeição.
38. Wakidi (W.), 290.
39. Alif-Bã, i, 3 19. O texto fala em "onças''.
40. lbn Sa'd, iii, 1 22.
41. Musnad, iii, 403.

27
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

lo de guerra.42 Se os relatos das negociações ocorridas após a Ba­


talha de Badr são confiáveis, havia pessoas que podiam bancar
o pagamento de 4 mil dinares por um resgate. Consta que Hind,
uma das filhas de Abd al-Muttalib, libertou quarenta escravos
num só dia.43 A prevalência de certo padrão de luxo em Meca
pode ser inferida também dos presentes deixados na Caaba, que
ficava coberta de tecidos - panos finos e sedas - trazidos do
Iraque e do Iêmen.44 Os membros abastados da comunidade pos­
suíam granjas ou vilas no oásis vizinho de Taif.45 Às vezes as moe­
das eram acumuladas, mas é provável que a maior parte dos me­
quenses preferisse ter suas riquezas em cabeças de gado ou outra
forma de bem. As casas de cidadãos ricos e respeitados (como a do
próprio Maomé) eram usadas como bancos.
Ao que tudo indica, todos os homens mais importantes de
Meca estavam envolvidos em uma ou outra das atividades comer­
ciais já enumeradas. No terceiro século do Islã, a lenda encarregou­
-se de nomear o exercício comercial de cada um dos contemporâ­
neos de Maomé. Abdallah, filho de Jud'an, homem importante
quando o Profeta era menino, negociava com escravos; o general
com quem o Profeta lutou diversas batalhas, Abu Sufyan, vendia
azeite e couro; o guardião da chave da Caaba era alfaiate. Esse fato
não excluía a existência de numerosas distinções sociais, aparente­
mente não determinadas por diferenças de riqueza, mas quase sem
dúvida baseadas em tradições históricas, no contingente numérico
e na capacidade de luta dos clãs. Os Banu 'Amir Ibn Luway po­
diam não proteger um estranho contra os Banu Ka'b;46 os Banu
'Adi Ibn Ka'b eram considerados inferiores aos Banu 'Abd Manaf. 47
"Pessoas cujas tradições não apontavam ancestrais distintos eram

42. Wakidi ( W.), 42.


43. Jahiz, Mahasin, 77.
44. Azraki, 1 74.
45. Amr Ibn al-'Asi, Wakidi (W.), 303: Abu Sufyan, Abbas.
46. Tabari, i, 1.203.
47. Azraki, 448.

28
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

passíveis de desprezo, e o descaso que experimentavam as conde­


nava a exercer ocupações humilhantes;que as degradavam ainda
mais."48 O casamento com alguém de um clã inferior era conside­
rado uma desgraça.49 Essas distinções sociais serão mencionadas
adiante, e irão figurar como propiciadoras de um dos fatores que
contribuíram para a causa do Islã.
Parece notável que uma comunidade que alcançara esse grau
pacífico de prosperidade não contasse com uma organização po­
lítica e judicial do mesmo modo desenvolvida; no entanto, parece
que ela teve pouco mais que os rudimentos dessa.50 No interior
dos clãs e das tribos havia um tipo de organização patriarcal. Pa­
rece, portanto, que foi apenas a vontade de Abu Talib que evitou
que o clã hashimita desistisse de Maomé. Segundo consta, porém,
essas pessoas discordantes haviam conseguido se dissociar de seus
irmãos. Afirma-se que havia contribuições para os clãs cobrirem a
Caaba51 e para o entretenimento dos peregrinos; se for verdade,
isso implica também alguma forma de organização municipal.
O mesmo está implícito na afirmação das tradições, de que os vi­
sitantes pagavam impostos e as importações pagavam taxas de
alfândega, visto que havia um orçamento que incluía uma varie­
dade de funcionários.
Desconhece-se o princípio pelo qual se escolhia o chefe do clã.
Normalmente, algumas riquezas iam para a administração, mas
nossos estudiosos afirmam que era raro um homem pobre ocupar
a chefia. 52 A capacidade oratória, a coragem e a dignidade pessoal
eram essenciais. 53 O chefe, contudo, não era necessário nem nor­
malmente o líder da tribo na guerra. Nossos especialistas fome-

48. Goldziher, MS, i, 40.


49. Wellhausen, Ehe, 439.
50. Comparar a conferência de Wellhausen, Ein Gemeinwesen ohne Obrigkeit, Gõttingen,
1900.
5 1 . Azraki, 1 76.
52. Wakidi (W.), 5 1 . 'Utbah, filho de Rabi'ah.
53. Nallino, Nuova Antologia, 1 893, outubro, p. 618.

29
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

cem uma relação de cargos públicos em Meca, e não podemos


duvidar de que o santuário e suas cerimônias garantiam a existên­
cia de certos funcionários. Assim, havia um sacristão que guardava
a chave da Caaba e um sacerdote que permanecia no oráculo do
deus Hubal, cuja imagem ficava dentro do templo. Afirma-se tam­
bém que o entretenimento dos peregrinos era privilégio de certas
pessoas. Nenhuma dessas funções, contudo, parece ter adquirido
significação política. Em tempos de guerra, como em muitas co­
munidades, os combatentes sujeitavam-se em alguma medida ao
líder; mas, em tempos de paz, havia pouco governo. Alguns assun­
tos eram discutidos em um conselho, ou comitia, no qual os chefes
das tribos, outros cidadãos livres e mesmo estrangeiros,54 ao que
parece, podiam ser ouvidos. Todavia, a tese de que se decidia por
maioria de votos sem dúvida é incorreta.
Quando surgiam reivindicações conflitantes no interior da
comunidade, talvez elas fossem resolvidas por uma consulta ao
oráculo do deus Hubal, cujo sacerdote decidia segundo o dese­
nho das flechas, ou recorria-se à opinião de uma feiticeira. Essas
sibilas* desempenhavam, na realidade, um papel importante no
começo da história da Arábia. Embora combinassem as profis­
sões de advogado, médico e sacerdote, elas desfrutavam de pou­
co respeito. A reivindicação podia ainda ser submetida a algum
homem cuja celebridade, por justeza ou acuidade, lhe conferisse
a posição não oficial de juiz. Consta que algumas dessas pessoas
chegaram mesmo "a decidir o julgamento do Islã nos Dias da Ig­
norância': ss Entretanto, elas não eram obrigatoriamente residen­
tes em Meca, e quando havia uma briga entre dois homens na ci­
dade eles podiam ser obrigados a ir até o Iêmen para resolver a
pendência. 56

54. Tabari, i, 1.230.


* Sibila: nome genérico dado a diversas profetisas da Antiguidade que faziam suas
profecias em estado de transe. [N.T.]
55. Ibn Duraid, 234.
56. Aghani, viii, 51.

30
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Todos esses modos de obter justiça eram não somente caros e


fortuitos como também não oficiais; não havia nenhuma certeza
sobre a sentença a ser executada; se ela consistisse em morte ou
mutilação, a tribo do réu podia interferir para evitar a execução. 57
As penalidades monetárias deviam ser as mais comuns, e ouvimos
dizer que um ancestral do Profeta havia pago uma casa como ex­
piação de um golpe dado;58 a principal atribuição do árbitro seria,
então, avaliar a reivindicação de danos. Não temos autoridade al­
guma para afirmar que foram cometidos muitos danos sem puni­
ção em Meca. Uma liga da qual ouvimos falar - chamada Liga do
Fudul, nome que talvez significasse certo número de pessoas cha­
madas Fadl -, instituída durante a juventude de Maomé com o
objetivo de prevenir danos, voltava-se sobretudo contra aqueles
que atacavam estrangeiros em visita a Meca. Devemos inferir da
história de Maomé que o medo da luta civil e de suas consequên­
cias levou a uma extraordinária tolerância mútua.
Talvez houvesse alguma conexão entre Hubal, o deus cuja itna­
gem estava no interior da Caaba, e Alá ("o Deus"), de quem muito
se ouvirá falar. Contudo, a identificação dos dois, sugerida59 por
Wellhausen, não é mais que uma hipótese. Parece possível que Alá
- sem dúvida uma divindade masculina, da qual Al-Lãt era a di­
vindade feminina correspondente 60 -, identificado por Maomé
como objeto da adoração monoteísta, fosse o deus tribal dos co­
raixitas. Efetivamente, em linhas que podem ser pré-islâmicas, os
coraixitas são chamados de "a família de Alá".61 Nas cerimônias de
Muzdalifah, os coraixitas e aqueles que compartilhavam de suas
crenças religiosas costumavam dizer "Nós somos a família de
Alá'',62 e eles eram conhecidos por esse nome na Arábia. 63

57. Ibn Duraid: caso de Abu Lahab.


58. Azraki, 462.
59. E aprovado com hesitação por Nõldeke, ZDMG, xli, 715.
60. Wakidi ( W.), 362.
6 1 . Ibn Duraid, 94; ZDMG, xviii, 226.
62. Tirmidhi, i, 1 67.
63. Azraki, 98, 1 55.

31
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

Algo desse gênero também é admitido numa polêmica do Al­


corão.64 De acordo com um costume antigo, os coraixitas, quando
assumiram a supremacia, deram à sua divindade um lugar ao lado
dos deuses das tribos mais antigas, como Al-'Uzza, Al-Lãt, Manãt
e outros, processo descrito no Alcorão pelo termo comercial "as­
sociação" ou "parceria", o que provavelmente não trazia qualquer
especulação teológica subjacente. Essa associação não levava a dis­
tinção alguma de funções entre diferentes deuses e deusas,65 en­
contrada na Arábia apenas por aqueles que tinham sido instruídos
segundo a teologia do Egito ou da Grécia. Na Arábia, cada tribo
tinha seu deus ou patrono, de quem se esperava tudo. Onde as
tribos eram confederadas, a relação entre os deuses era amigável;
um homem podia se considerar filho de diferentes deuses, como o
avô de Maomé. É possível, e em alguns casos provável, que esses
deuses ou alguns deles, em estágios anteriores do desenvolvimen­
to árabe, tivessem sido personificações de alguma qualidade moral
ou física, ou pertencessem a um sistema de teologia astronômica,66
mas essas associações tinham desaparecido havia muito, assim
como os adoradores rotineiros de Zeus ou Júpiter não tinham
consciência de que seu nome significava o céu. O número de deu­
ses que tinham assento perto da Caaba parece ter sido muito gran­
de, e alguns deles foram também identificados com árvores ou
pedras da vizinhança, que pessoas devotas visitavam, levando
oferendas. Havia também representações em família desses e de
outros deuses, que eram reverenciados em ritos domésticos. Em
parte, deve-se atribuir a vigência desses deuses à prática da exoga­
mia, ou de obter esposas fora da tribo, sendo elas frequentemente
acompanhadas de seus deuses; e em parte ao comércio dos habi­
tantes de Meca, que tinham oportunidade de conhecer a existên­
cia e o poder de divindades estrangeiras.

64. Capítulo V, ultra.


65. "Auf keinen Fall dürfte man es versuchen die arabischen Gõtter durch ehie fõrmliche
Mythologie zu verknüpfen", Nõldeke, ZDMG, xli, 714.
66. Um escritor egípicio empenhou-se, recentemente, em levar todos eles para o Egito.

32
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

O paganismo é chamado pelo Alcorão de Dias da Ignorância,


expressão tomada emprestada, segundo alguns, do Novo Testa­
mento. 67 Assim é explicado no Alcorão: os mequenses, estamos
certos disso, não tiveram qualquer revelação prévia, nenhum Pro­
feta, nenhum livro, nenhuma orientação. 68 Os ritos que pratica­
vam se justificavam porque seus pais tinham feito o mesmo.
Parece provável que esse relato esteja próximo da verdade. Per­
deremos muito sobre a origem do Islã se não levarmos em conta,
em nossa mente, sua pretensão de constituir uma primeira instru­
ção para as pessoas às quais se dirigia. Por conseguinte, o Alcorão
não argumenta contra nenhum código anterior, da mesma forma
que não se apoia em qualquer experiência preexistente. É verdade
que os muçulmanos supõem que os árabes tinham sido original­
mente limitados pelo código de Abraão e Ismael, e que houvera
outros profetas enviados a determinadas etnias árabes. Porém,
esta não passa de uma hipótese elaborada no intuito de provar que
a adoração fetichista e as práticas pagãs constituíam inovações; os
árabes podiam até nomear o infame que fora responsável pela
introdução dessas práticas.
Na verdade, o Alcorão abre uma exceção quando nega que os
árabes tivessem qualquer orientação anterior. Está registrado69 que
alguns daqueles que questionaram o Islã haviam declarado que
antes tinham o Livro de Lukman, e que o Alcorão reproduzia algu­
mas máximas endereçadas por Lukman a seu filho. Um número
ainda maior de máximas é citado por escritores muçulmanos, mas
infelizmente não temos qualquer bom motivo para acreditar que
elas tenham surgido em tempos muito remotos. O Alcorão supõe
claramente que Lukman fora monoteísta, e os ditos a ele atribuí­
dos em geral têm o estilo dos provérbios bíblicos, com uma mistu­
ra de conselhos religiosos, morais e seculares. Alguns de seus pre-

67. Wellhausen, Reste, 7 1 . De acordo com Goldziher, MS, i, 225, erradamente, o que a
torna um "barbarismo''.
68. Sura xxxiv, 43, xxxvi, 5.
69. Tabari, i, 1 .207.

33
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

ceitos podem ter sido empregados na instrução do jovem árabe;


e supõe-se que ele era árabe, ainda que algumas lendas70 afirmem
que ele era negro. No entanto, não ouvimos falar de nenhum nome
reverenciado e amado que possa ser responsável pela prática pagã.
Atribuiu-se ao Profeta Maomé a prática geral de uma série de ge­
rações, mas, aparentemente, nenhum código oficial.
Onde essas práticas são descritas - e muitas delas foram es­
quecidas no momento em que os muçulmanos começaram a es­
tudá-las com alguma simpatia -, elas continuamente admitem
uma fácil aproximação, quando não identificação, com as práticas
de outras raças pagãs. Não precisamos fazer mais que uma alusão
às instituições religiosas (tais como orações, votos, sacrifícios) que
os árabes compartilhavam com as nações da Antiguidade clássica.
É natural que deva haver muitos ritos de natureza supersticiosa
relacionados ao camelo, considerando a importância que era con­
ferida a esse animal na vida dos árabes. Os costumes da Arábia
central têm muitos exemplos da prática do tabu, tão ricamente
ilustrados no livro de Manning, Old New Zealand. Foram pre­
servados traços de adoração ancestral,71 sacrifícios aos mortos,72
sacrifícios humanos73 e mesmo canibalismo. Na biografia do Pro­
feta, registraram-se casos de mulheres mordendo o fígado ou be­
bendo no crânio de um inimigo morto. Também se dá um exem­
plo ilustrativo do santuário ou domínio controlado por um deus
cuja força o percorre como uma corrente elétrica, doutrina tão
lucidamente explicada no livro de Frazer, O ramo de ouro. Uma
mitologia ingênua foi ensinada pelas babás às crianças, e alguns de
seus detalhes afloram de tempos em tempos. Pensava-se que, com
a morte, a alma assumia a forma de um pássaro.74 Supunha-se que
o Sol mergulhava num poço ao entardecer.

70. Jahiz, Opuscula, 58.


71. Goldziher, MS, i, 230.
72. Ibid., 239.
73. Wellhausen, Reste, 1 1 5.
74. Globus, 1 901, 358ss, reúne exemplos dessa superstição.

34
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Embora as práticas do paganismo fossem extremamente nu­


merosas e complicadas, não parece ter havido nenhum conheci­
mento sistemático delas. Os homens podiam afirmar, até onde
alcançasse sua memória, qual era o costume invariável; mas é im­
provável que se ensinasse alguém a observar ou a fazer listas de
casos, e um sistema só pode existir quando isso se torna um hábi­
to. Por conseguinte, não devemos incorrer no erro de supor que
havia noções definidas e regras fixas onde no máximo existia uma
vaga tendência à uniformidade.
Alguns autores afirmaram que já se sentia em Meca a insu­
ficiência do paganismo para atender às necessidades religiosas,
e que os árabes, em seu conjunto, estavam prontos para algo me­
lhor. A afirmação é correta quando se supõe que o paganismo
estava ficando ultrapassado. Os que tinham viajado pelo mundo
achavam que os crentes devotos de Al-Lãt e Al-'Uzza estavam fora
da realidade. Práticas que remetiam à selvageria já se encontravam
condenadas pelo senso comum dos homens influentes; e aqueles
que, tendo viajado, constataram que o paganismo era desprezado
e ridicularizado no Império Romano e na Pérsia muitas vezes jul­
gavam apropriado desprezá-lo e ridicularizá-lo eles mesmos. No
entanto, a afirmação de que o fetichismo dos árabes, de algum
modo, era insuficiente para suas necessidades religiosas não pode
ser comprovada. Um deus é um ser imaginário que pode fazer o
bem ou o mal, e tudo contribui para mostrar que os árabes que
não tinham visto o mundo lá fora estavam firmemente convenci­
dos de que seus deuses e deusas podiam fazer as duas coisas. Daí
as imagens dos deuses que forneciam refúgio para as pessoas que
enfrentavam dificuldades na vida, e esse refúgio era respeitado por
todos, a não ser os mais ilustrados.75
Entre os filantropos e reformadores reais homens que des­
-

perdiçavam sua substância para salvar a vida de meninas con-

75. lbn Duraid, 235.

35
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

denadas à morte76 ou libertar prisioneiros,77 ou que cumpriam


sua palavra a qualquer custo -, alguns eram adeptos fiéis dos
cultos de Al-'Uzza e Al-Lãt. Ocupadas com a reforma de suas pró­
prias vidas e com a correção de erros verdadeiros, essas pessoas
não faziam alarde e, para sermos sinceros, não supunham que o
estabelecimento de um culto no lugar de outro tornaria os ho­
mens virtuosos. O próprio Maomé teve oportunidade de fazer
uma comparação entre a conduta de seu genro pagão e a de seu
genro crente, ficando este último em grande desvantagem. En­
quanto o sentimento religioso exigia gratificação, não há evidên­
cia alguma de que o paganismo tenha fracassado em gratificá-lo.
As inscrições revelam que os árabes pagãos dedicavam muita afei­
ção e gratidão a seus deuses e patronos. De fato, poucos estavam
prontos para morrer por suas divindades, quando instados a rejei­
tá-las ou prestes a serem executados. Mas então, com uma lógica
clara, embora incomum, eles inferiam de sua condição que seus
deuses eram impotentes e tinham sido adorados em vão.
Um grande estudioso, de quem é arriscado discordar, constata
uma diferença entre os árabes do centro e aqueles do sul da pe­
nínsula e supõe que, enquanto estes últimos eram adoradores
sinceros, os primeiros eram indiferentes. A base para essa afirma­
ção parece residir na ausência de inscrições religiosas na Arábia
central, mas não há nada a dizer quando essa lacuna em nosso
conhecimento pode ser preenchida; e pouco pode ser inferido,
nesses assuntos, das evidências negativas. Além do mais, o fato
de que muitos dos principais objetos de adoração eram deusas
sugere que os árabes da região central não careciam de devoção,
uma vez que o culto de deusas em todo o mundo parece ter tido
especial fervor, colocando em cena sentimentos que um culto
masculino não é capaz de estimular. É igualmente inegável que

76. Esse ato também é atribuído ao monoteísta Zaid, filho de 'Ainr. lbn Sa'd, iii, 277.
77. lbn Duraid, 1 93: Sa'd, filho de Mushammit, jurou que nunca veria um prisioneiro,
mas que o libertaria.

36
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

a identificação desses objetos variou muito segundo a capacidade


mental dos diferentes adoradores; para alguns, os objetos podiam
incluir estrelas, fetiches, sentimentos, mas em sua grande maio­
ria eram mulheres, muitas vezes não vistas, mas nem por isso
invisíveis ou distantes; e elas eram certamente mais poderosas que
as mulheres da tribo, mas a elas se assemelhavam em caráter e
disposição.
No que concerne à moral, não há dúvida de que os árabes pos­
suíam as noções de certo e errado, mas a conotação atribuída a
essas noções em geral era muito diferente daquilo que espera­
mos nos países civilizados. Beckwourth fala-nos de como um dia,
quando vivia entre os índios norte-americanos Pés Pretos, bateu
em sua esposa porque ela o desobedecera; a presumível morte da
mulher, contudo, não provocou qualquer ressentimento no pai
dela, que deu a Beckwourth sua segunda filha como substituta, na
mesma tarde. A situação não se complicou nem quando o marido
descobriu que a primeira esposa estava apenas desacordada, não
tinha morrido. Não seria fácil contar quantas violações da mora­
lidade europeia ele cometera em 24 horas. Em um país civilizado,
teria sido detido por assassinato e preso por bigamia; infringindo
tabus referentes a meia dezena de temas, seria expulso de uma
sociedade decente. Entre os Pés Pretos, sua conduta era normal e
louvável, e o comportamento do sogro - para nós, impiedoso
e indecente ao extremo - não era impróprio.
De forma similar, entre o povo da Ignorância, um estigma mo­
ral ligava certos estados a determinados atos, mas nem sempre a
estados e atos que a experiência de séculos de civilização haviam
mostrado ser deletérios para a comunidade, e que os membros de
Estados organizados consideravam tabus. É evidente que não se
pensava em relacionar nenhuma culpa moral à retirada da vida
humana, e parece que os árabes eram pouco capazes de fazer dis­
tinção entre o homicídio acidental e o assassinato intencional.
Quando alguns homens, ao construírem uma armadilha para um

37
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

leão, empurraram78 ou puxaram,79 por acidente, uns aos outros e


foram mortos pelo animal, houve grande dificuldade para evitar
que seus parentes vingassem as mortes, e não se levantou dúvida
alguma quanto ao direito à cobrança da dívida de sangue. Por ou­
tro lado, não vingar um assassinato era vergonhoso. A cobrança
da dívida de sangue pelos parentes era considerada degradante
não porque implicasse algo cruel e sórdido, mas porque sugeria
fraqueza e medo. Somente quando a acumulação constante de ri­
queza passou a ser considerada atraente, e a paz, vista como con­
dição necessária para isso, a presença de um espadachim na tribo
mostrou-se inconveniente. Por conseguinte, essa pessoa estava
apta a ser publicamente descartada. Porém, se continuasse na tri­
bo, os assassinatos cometidos por ela poderiam envolver todos
numa guerra, uma vez que a rixa de sangue exigia a morte de
qualquer um dos homens da tribo do assassino, e a entrega do
matador à vingança dos herdeiros do assassinado era considerada
desonrosa no mais alto grau.
Em outro tema que a civilização guarneceu de uma série de
regras e regulamentações, a Arábia central exibe a existência si­
multânea de diversos estágios de desenvolvimento. Em nossa
acepção, a instituição do casamento sem dúvida existiu por mui­
tos séculos; da poliandria, em suas várias formas, sobreviveram
apenas alguns traços apagados. Mesmo numa comunidade atrasa­
da como a de Medina, para ter condições de se casar, uma menina
devia dispor de um dote, no sentido que atribuímos à palavra,80 e
há evidências de que o concubinato era considerado impróprio
em algumas tribos.81 A questão de se a esposa devia entrar na tribo
do marido ou o marido na da esposa era resolvida pelas circuns­
tâncias de cada caso. Em circunstâncias normais, a primeira al­
ternativa se impunha. Ademais, a condição social descrita por

78. Musnad, i, 77.


79. lbid., i, 128.
80. Ibn Sa'd II, ii, 78.
8 1 . ZDMG, xlvi, 2; Wellhausen, Ehe, 440.

38
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Beckwourth parece ter existido em algumas tribos árabes. Aqueles


homens que mais contribuíam para a comunidade se casavam
com muitas mulheres; porém, ao que tudo indica, a dissolução do
casamento era prerrogativa da mulher, não do homem.
Não parece que em todo lugar a desonra estivesse ligada à au­
sência de pureza das mulheres, embora as opiniões sobre esse as­
sunto variassem muito nas diferentes tribos. Em algumas, o nas­
cimento de uma filha era ocasião de felicitações especiais,82 em
alusão ao dote ou ao dinheiro que ela traria aos pais. Por outro
lado, o Alcorão assegura que o nascimento de uma filha era consi­
derado um infortúnio, e que a prática de enterrar meninas vivas
era comum, sendo essas ocorrências atestadas no período que
coincide com os primeiros anos de vida de Maomé.83 Essa prática
não pode ser totalmente dissociada dos medos relativos à fragili­
dade feminina. Mesmo no período mais civilizado do califado,
constatamos que a morte de uma filha na infância era vista como
motivo para congratulações, sendo o pai, portanto, poupado de
uma possível fonte de risco para sua honra. "Se não fosse'', afirma
o autor de uma carta de condolências, em uma dessas ocasiões,
"pelo meu conhecimento das raras virtudes de sua falecida filha,
eu estaria mais inclinado a parabenizá-lo do que a lhe dar minhas
condolências, pois o ocultamento do ponto fraco de alguém é
uma vantagem, e o enterro de uma filha é algo desejável."84 Alu­
dindo à mesma noção, os poetas, ao louvarem as mulheres, falam
delas enterradas antes de morrer, no segredo do harém, ou mor­
tas, na transferência de um harém para outro. Uma teoria ainda
mais antiga, contudo, é a de que o pai cai em desgraça de qualquer
modo, por entregar sua carne e seu sangue ao poder de outro ho­
mem.85 Onde o infanticídio não era praticado, o medo da desonra

82. Hariri, Sch., 334.


83. Musnad, i, 398. Sobre esse assunto, ver Wellhausen, Ehe, 458.
84. Letters ofKhwarizmi ( Const.), 20.
85. Wellhausen, Ehe, 433.

39
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

(ou talvez algum escrúpulo religioso) levava ao casamento na in­


fância, sendo sete ou oito anos a idade normal em que as meninas
se tornavam esposas.86
A liberdade vigente no período pagão e a variedade das práti­
cas das diferentes tribos permitiram um desenvolvimento desco­
munal. A sensualidade e a ausência de castidade eram normais,
mas, em algumas tribos, o sentimento erótico assumia uma forma
sublime e romântica, e muitas lendas referem-se à nobreza da pai­
xão em termos cansativamente cavalheirescos e refinados. Por cos­
tume, privadas do direito à herança,87 as mulheres com frequência
acumulavam riquezas e delas dispunham livremente. Como poe­
tisas, podiam atear fogo às contendas inflamadas; como profetisas,
dirigir os movimentos de suas tribos. Acompanhando os homens
no campo de batalha, encorajavam os combatentes com música
selvagem, ou (como a "Folha do Pinheiro': de Beckwourth) lida­
vam com feridos e mortos, e muitas vezes despojavam e mutila­
vam os assassinados. As instituições (se é que esse termo pode ser
usado) do paganismo não eram desfavoráveis à preeminência das
mulheres que tinham os atributos da coragem ou do discernimen­
to. A narrativa a seguir mostrará exemplos de mulheres agindo
com originalidade e resolução quando havia espaço para exibir
essas qualidades.
A Arábia pagã não mostra nenhum padrão exaltado de respei­
to à propriedade, à lealdade e à honra. A instituição da proprie­
dade privada parece ter existido, e na realidade estava bem desen­
volvida em Meca, a despeito de sua aparente contradição com a
doutrina das rixas de sangue. Assim, os chefes de família mequen­
ses são representados como integrantes de uma sociedade anôni­
ma voltada para o comércio externo, cujos lucros são divididos
proporcionalmente, a cada ocasião, entre os acionistas, e por eles
gastos, acumulados ou investidos em novas operações. Vendas de

86. Alif-Bã, i, 394.


87. Perron, Femmes Arabes avant et depuis l'Islamisme, 1 858.

40
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

vários tipos entre os indivíduos são registradas no período ante­


rior à tomada de Meca. Por isso tudo indica que essa comunidade
era um tanto mais avançada na civilização comercial que os Crow
ou os Pés Pretos da época de Beckwourth.
O curso da narrativa a seguir mostrará que a missão de Maomé
em Meca foi um fracasso; apenas em Medina, havia anos em guer­
ra civil, ele prontamente encontrou uma audiência; tendo conver­
tido a cidade em um campo armado, foi capaz, recorrendo à força
e ao suborno, de subjugar Meca e daí prosseguir para submeter o
resto da Arábia. A conquista da região em pouco tempo levou ao
domínio das nações vizinhas.
Daí podemos fazer, com respeito a Meca, certas inferências que
correspondem muito bem à tradição histórica. A cidade adquiriu
claramente, na época em que Maomé despontou, uma posição de
destaque na Arábia, uma vez que seu exemplo logo foi seguido. Na
realidade, muitos Estados árabes parecem ter apenas esperado que
o Profeta submetesse Meca para se render. A importância da cida­
de não se devia à força militar, mas ao respeito que as divindades
do templo inspiravam ou à superioridade intelectual e política de
seus habitantes. Um escritor antigo, talvez com justeza, a atribui
à forma miraculosa pela qual foi rechaçada a invasão abissínia,
o que deixou os árabes impressionados com a ideia de que os me­
quenses haviam sido favorecidos pelos céus. 88 Wellhausen, por
sua vez, a atribui à capacidade dos coraixitas, "que entenderam
melhor que os outros como retirar água de seu próprio poço e
fazer a água dos vizinhos fluir para seus canais".89
Meca encontrava-se, pois, numa condição suficientemente fa­
vorável para ser capaz de superar, sem qualquer dificuldade séria,
uma doença civil como a representada por uma sociedade secreta
visando à reconstrução do tecido social. Fora de Meca, porém,
havia muita instabilidade e oportunidade para a intervenção de

88. Azraki, 98.


89. Reste, 93.

41
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

uma vontade forte. O título de rei era ostentado por um punhado


de chefes tribais,90 e algumas outras designações históricas ainda
não estavam extintas entre as populações do sul e do centro da
península. Na verdade, esses manda-chuvas se aproximavam dos
barões feudais, cuja autoridade não ia muito além das fortalezas
de onde podiam empreender suas incursões, o que não trazia ne­
nhum proveito para a proteção da vida ou da propriedade.
Esses vizinhos dos mequenses ainda levavam uma vida nôma­
de, na qual o ataque a camelos era a única ocupação masculina e a
vendeta era a mais importante das instituições. Esse costume be­
duíno ainda era mantido pelos mequenses, embora eles tivessem
abandonado o estado nômade. O sangue derramado por outra
tribo exigia vingança, e, por conseguinte, a qualquer momento
uma causa trivial podia provocar uma guerra ou lançar os grupos
uns contra os outros. A guerra representava uma imensa pertur­
bação dos arranjos, e percebemos que os magnatas de Meca eram
dominados pelo desejo de paz.
A riqueza que algumas das comunidades adquiriram tornou-as
importantes o suficiente para serem honradas com apelos de vá­
rios contendores. Nesses casos, constatamos que a política dos
árbitros de fazer algo mais que um pronunciamento talvez gerasse
confusão. A lenda - que pode ter uma base de verdade - faz de
Abu Sufyan, de quem muito se ouvirá falar, o árbitro designado
por pessoas que disputavam as atenções de seus respectivos clãs.
Favorecer um ou outro significaria envolver ambos - a parte fa­
vorecida e o árbitro - numa disputa.91 Abu Sufyan não foi além
de dizer que eles eram "como os joelhos de um camelo", recusan­
do-se a afirmar qual das partes era o joelho direito. Os outros líde­
res coraixitas não foram menos cautelosos e recorreram a grandes
sacrifícios para abafar as disputas no nascedouro.

90. Isso acontecia em Kindah, e também no Hajar e em Omã.


9 1 . Agh., XV, 54.

42
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Em direção ao norte e ao leste, havia dois postos avançados


cristãos, ou parcialmente cristãos: o reino gassânida, que contro­
lava o golfo de Ácaba e era dependente de Bizâncio, e o reino de
Hirah, que vigiava os acessos à Mesopotâmia e dependia da Pérsia.
Nos dois casos, potências civilizadas lançavam mão de árabes para
manter os árabes em ordem,92 sendo que o objetivo desses reinos
árabes era formar um baluarte contra os ataques beduínos. Toda­
via, por volta de 602 d.C., a dinastia de Hirah foi abolida pelo su­
serano persa, por uma série de razões. Poucos anos depois, em
Dhu Kar, os beduínos tiveram uma antecipação da futura con­
quista do império de Cosróis.
Ao que parece, algumas mercadorias tinham sido confiadas
a certa tribo árabe por Nu'man, filho de Mundhir, rei de Hirah,
pouco antes de sua deposição. O novo vice-rei exigiu que as mer­
cadorias, sobretudo armas e armaduras, e os reféns fossem recu­
perados. Um chefe dos Banu'Ijl, Hanzalah, filho de Tha'labah, foi
levado à frente de batalha por causa dessa demanda, que tinha
sido apoiada pelo poderoso Império Persa. Hanzalah resolveu re­
sistir. As armas, em vez de entregues aos persas, foram distribuídas
entre os homens capazes de carregá-las. Forjaram-se planos para
neutralizar a organização dos persas e a habilidade de seus arquei­
ros. As forças persas foram atraídas para um lugar onde não havia
água, e em pouco tempo seus soldados ficaram fora de combate,
pela sede. Armou-se uma emboscada e, no momento crítico da
refrega, um destacamento de beduínos apareceu de repente. Afi­
nal, os árabes aliados dos persas foram obrigados a deixar o cam­
po quando a batalha começou e a arrastar o resto de seu exército
pela estrada. A Batalha de Dhu Kar, assim chamada por causa da
fonte perto da qual foi travada, expôs as Sawad, as férteis terras
banhadas pelo Eufrates, às incursões dos Bakr Ibn Wa'il e de ou­
tros invasores árabes, e também abalou a crença no poder da Pér­
sia, por muito tempo um verdadeiro dogma na Arábia.

92. Rothstein, Lakhmiden, 127.

43
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

Em Golã, na Palestina Secunda,* reinavam os gassânidas da


casa de Jafna, cujos domínios haviam abrangido, no passado, des­
de a terra de Hermon até o golfo de Acaba, e que eram respon­
sáveis por todos os nômades "permanente ou temporariamente
estabelecidos na Palestina Secunda, na Arábia, na Fenícia e no Lí­
bano, e talvez também na Palestina III** e mesmo nas províncias
do norte da Síria':93 Por volta de 583, a dinastia ficou por um tem­
po inativa, pelas disputas com os suseranos bizantinos, que, con­
tudo, parecem tê-la restaurado, até ser derrubada em 6 1 3 ou 614
pelos invasores persas. Desde então, não se pode afirmar com cer­
teza se ela foi restaurada.
A religião da potência mundial penetrara em outros Estados
árabes do sul e do norte da Arábia, e algumas tribos eram total ou
parcialmente cristãs.94 Mas tratava-se de uma semente plantada
em terreno pedregoso, cujo fruto não tinha resistência quando
chegava o calor. Com o surgimento do Islã, ela pereceu sem deixar
rastros. Um fato estranho é que esses cristãos árabes tinham bis­
pos, sacerdotes e igrejas, e mesmo suas próprias heresias. Hoje não
se pode comprovar, recorrendo aos nossos estudiosos, se as Es­
crituras cristãs chegaram a ser interpretadas no vernáculo desses
conversos ou se apenas os sacerdotes tinham livros religiosos, es­
critos numa língua que os obrigava a ir para o exterior a fim de
aprendê-la. A segunda alternativa é a mais provável, e foi ela uma
das causas do irrefreável colapso do cristianismo árabe.
Mesmo antes da época de Maomé, quando o judaísmo se ins­
talara no sul da Arábia, certo rei sabeu foi derrotado pelos judeus

* Durante o período bizantino, toda a região que atualmente corresponde, grosso


modo, a Síria, Jordânia, Líbano e Israel era denominada Palestina e subdivida nas
províncias de Palestina 1 e Palestina II. A Palaestina Secunda correspondia à Galileia,
à região do Golã e aos vales ao norte do rio Jordão [N.T.]
** Os bizantinos renomearam uma área desértica, incluindo o Negev, a península do
Sinai e o litoral oeste da Arábia, a Palestina Salutaris ou Palestina III. [N.T.]
93. As afirmações constantes do parágrafo são retiradas de Nõldeke, Die Ghassanischen
Fürsten aus dem Hause Gafna's, Berlim, 1 887.
94. Havia igrejas nas ilhas Farsan, cf. Sprenger, Alte Geographie Arabiens, 254.

44
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

de Yathrib. Pela primeira vez, homens da fé judaica tinham co­


ragem para lutar e até para morrer. Um Estado conquistador, go­
vernado pela lei de Moisés! Esse Estado judeu, na verdade, teve
curta duração. Como outras comunidades religiosas que pregam
a tolerância quando oprimidas, tornaram-se perseguidores logo
que conquistaram a soberania. Foi então que pela primeira vez95
despontou uma inquisição na qual judeus empilhavam gravetos,
ateavam fogo e queimavam os cristãos. Essas piras brilharam
como um raio de luz na escuridão da história árabe antes do Islã.
A letra siríaca em que é contada a história dos mártires de Najran*
é como o fragmento de uma crônica pré-islâmica.% A perseguição
foi um ato de insensatez e de crueldade. Os judeus, na verdade,
tinham muito a vingar, mas não se vingar teria sido mais seguro.
Logo se espalhou a notícia de que a Igreja estava em perigo. Da
Abissínia cristã foi enviado um destacamento para ajudar os per­
seguidos partidários do Evangelho. Derrotado por alguma fatali­
dade, o rei judeu teve uma morte de herói. Os abissínios, porém,
não fizeram a conquista para os najranitas, mas para si próprios.
Reis abissínios estabeleceram-se no sul da Arábia, oprimiram os
árabes e se organizaram para difundir o cristianismo à força da
espada. Consta que no presumível ano em que o Profeta nasceu,97
por muito tempo conhecido como ano do Elefante, o governante

95. Em 523. Fell, ZDMG, xxxv, 74. Nõldeke, Sasaniden, 1 86, nota.
* No começo do século VI, os abissínios de Axum cruzaram o mar Vermelho e esten­
deram seu domínio sobre árabes e judeus de Himyar (Iêmen), aos quais impuseram
um vice-rei. Dunaan, membro da família himyarita afastada do trono, pegou em
armas, tomou Zafar e, como havia se convertido ao judaísmo, assassinou os mem­
bros do clero e transformou a igreja em sinagoga. Em seguida, sitiou Najran, um dos
grandes centros cristãos da região. A cidade defendeu-se com tamanha valentia que
Dunaan prometeu anistiar a população caso ela se rendesse. Os defensores aceitaram
a oferta, mas Dunaan não cumpriu a palavra, condenando à morte todos os cristãos
que não abjurassem sua fé. Calcula-se que 4 mil homens, mulheres e crianças te­
nham sido assassinados nesse episódio. [N.T.]
96. Mordtmann, ZDMG, xxxv, 700, julga isso inautêntico; Nõldeke e outros, autêntico.
97. Nõldeke, Sasaniden, 205, fornece argumentos que situam a expedição em data muito
anterior.

45
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

árabe do sul, provocado por insultos lançados contra seu próprio


santuário, enviou um exército para destruir o santuário de Meca,
mas diz a lenda que ele fracassou. Algum desastre atingiu suas
forças, a exemplo daquele que se abateu sobre Senaqueribe, * pois
eventualmente os deuses defendem seus templos. Após o retorno
a Sana, ainda a capital do Iêmen, os árabes descontentes encontra­
ram um líder em Saif, filho de Dhu '1-Yazan, que importunou a
corte persa até que se prestasse o último socorro contra os usur­
padores abissínios, a quem ele afastou, substituindo a submissão à
Pérsia por outra vassalagem. Os resquícios de judaísmo e cristia­
nismo foram extirpados do sul da Arábia, dando a entender que o
paganismo fora restaurado. Isso não aconteceu, porém, em Na­
jran, onde o cristianismo permaneceu como uma ilha; mas os di­
rigentes eram pagãos e ligados ao pior inimigo da Cruz. Nesse
meio-tempo, os temas de divergência entre as seitas despertavam
curiosidade no pensamento daqueles que sempre haviam se con­
servado distantes deles.
A introdução tanto da religião cristã quanto da religião judaica
às vezes era acompanhada pela difusão de certas virtudes. A leal­
dade era vista como resultado do judaísmo ou do cristianismo.
Supõe-se que o rei de Hirah tenha se tornado cristão graças a um
brilhante exemplo de lealdade demonstrado a ele por um membro
da tribo cristão de Tay.98 No essencial, os efeitos sobre a vida e o
caráter das pessoas se dissipavam. Um membro dessa tribo, 'Adi,
filho de Hatim, foi ridicularizado por Maomé por se apropriar de
um quarto do espólio, o que era contrário aos princípios de sua
religião e apropriado às práticas do paganismo. Ali declarou que
o cristianismo dos taghlibitas limitava-se ao costume de beber

* Senaqueribe: assírio que invadiu o reino de Judá em 701 a.e. O rei de Judá, Ezequias,
enviou-lhe mensagem de submissão, acompanhada de valiosos presentes, mas Se­
naqueribe não se satisfez, exigindo a rendição de Jerusalém, o que foi recusado.
O monarca assírio, porém, por intervenção divina, segundo declarou, acabou desis­
tindo do cerco da cidade, retirando-se para sua capital, Nínive. [N.T.]
98. Jahiz, Mahasin, 75.

46
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

vinho.99 O rei de Hirah, embora cristão, tinha mais de uma espo­


sa.100 Esse também era o caso do gassânida Al-Mundhir.101
Há o registro de uma longa história do cristão Haudhah, filho de
'Adi, membro da tribo Hanifah. Ele foi encarregado de escoltar a
caravana do rei persa, levando-a em segurança à fronteira da Pérsia.
A caravana, porém, foi atacada e emboscada pelos Banu Sa'd. Hau­
dhah resgatou os prisioneiros com seus próprios recursos, tendo em
vista, naturalmente, uma recompensa do rei persa, que correspon­
deu plenamente às suas expectativas. Atendendo ao pedido do rei, e
sob pretexto de vender-lhes milho em um ano de fome, ele atraiu os
Banu Sa'd para uma construção na qual foram mortos um a um, à
medida que iam entrando. Não surpreende verificar que ele consi­
derava a conversão ao Islã uma mera questão de barganha.
Precisamos, portanto, conhecer mais da vida no interior dessas
tribos cristianizadas antes de afirmar que sua conversão foi mui­
to além de suspender as restrições que as superstições pagãs lhes
impunham. Parece, pois, que, enquanto a Arábia pagã respeitou
os quatro meses sagrados, era arriscado atravessar o território
das tribos cristãs sem salvo-conduto nesse período. 102 Um cris­
tão taiita, que no batismo recebera o conhecido nome de Sergio e
fora convertido ao Islã durante o tempo de vida de Maomé, ex­
plicou aos seus novos amigos alguns notáveis expedientes que
inventara para promover ataques montado em camelo. Ele cos­
tumava armazenar água em ovos de avestruz e enterrá-los em de­
terminados pontos do deserto, só dele conhecidos. Assim, podia
dirigir os camelos para regiões onde ninguém se preocupava em
segui-lo.103 Todos os membros de sua tribo eram considerados
ladrões experientes. 104

99. Fell, 49.


100. Nõldeke, Sas., 329.
1 0 1 . Id., Ghass., 29, nota 1 .
102. Cf. Muslim, ii, 254.
103. Ishak, 985.
104. Tirmidhi, 481 (ii, 1 58).

47
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

Dispomos de considerável quantidade de poemas de um desses


cristãos, 105 compostos certamente nos dias da segunda dinastia is­
lâmica; sua inspiração, porém, parece brotar dos árabes da era an­
terior ao Islã. O poeta zomba de seus inimigos, que preferem mer­
cadorias e bens móveis à vingança, que aceitam sangue e dinheiro
onde homens honrados teriam se satisfeito apenas com sangue. Se
ele já tinha ouvido falar de uma vida futura, isso não afetava seus
cálculos mais do que pensar em como os Campos Elíseos afetavam
Horácio.* Estava convencido de que só deixaria de ter prazer quan­
do a terra se fechasse sobre ele. Possuía uma aguda percepção das
glórias de sua tribo, constituídas de antigas vitórias nas quais eles
tinham assassinado, quando não milhares ou dezenas de milhares,
um número respeitável de inimigos. Suas relações com as mulheres
eram rigorosamente semelhantes àquelas dos poetas maometanos
seus rivais, e não diferiam em nenhum aspecto importante das dos
pagãos. Receber de presente uma menina escrava (que lhe fora
dada pelo califa), por exemplo, não lhe causou nenhum tipo de
embaraço. Ele se divorciava e casava-se tão facilmente quanto um
muçulmano. Sua inspiração era despertada pelo pensamento do
vinho, cujas virtudes ele compreendia integralmente.
Na Idade Média, a vida cristã consistia na instituição do feuda­
lismo, com .cavaleiros usando armaduras e lutando uns contra os
outros, e a rixa de sangue era a mais importante das instituições
existentes. Porém, certa classe da população mantinha-se afastada
da luta e vivia em paz: os monges e as freiras. Estes, provavelmen­
te, não eram muito numerosos na Arábia, pois o amor e o orgulho
pela descendência, tão característicos desse país, tendiam a tornar
as instituições monásticas impopulares, mesmo antes de conside­
radas por Maomé uma inovação ímpia. De todo modo, porém,

105. Al-Akhtal.
* Referência ao poeta e filósofo romano Horácio e à sua possível crença na vida após
a morte. Os Campos Elíseos são o paraíso dos gregos. Neles, os homens virtuosos
repousavam dignamente após a morte, rodeados de paisagens verdes e floridas,
dançando e se divertindo noite e dia. [N.T.]

48
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

havia monges e freiras, 106 e provavelmente a introdução dessa mo­


dalidade de vida era a alteração mais importante produzida pela
conversão das tribos árabes ao cristianismo. Parece possível que a
aplicação do moderno alfabeto árabe à linguagem falada tenha
surgido com esses homens, 107 e que a difusão desse alfabeto pela
península Arábica deva-se à comunicação entre eles. Como algu­
mas dessas pessoas despenderam seu vasto tempo livre em alguma
forma de estudo, espalhou-se a noção de que a verdadeira religião
era uma religião aprendida.
As primeiras partes do Alcorão põem em evidência o extremo
respeito que "o conhecimento do Livro" despertava nos árabes que
não o possuíam. A própria vacuidade da noção contribuiu para
que se desejasse saber o que a inspirava. Os judeus e os cristãos
eram alfabetizados, os pagãos eram analfabetos. 108 No início de
sua trajetória, Maomé pressupunha que a evidência de um dos
povos do Livro poderia estabelecer alguma questão histórica que
fosse além de uma possível contradição. Em momento algum teve
qualquer dúvida quanto à veracidade do Livro. Os romancistas às
vezes descrevem a veneração que o aprendizado do livro provoca­
va naqueles que não o possuíam. Essa atitude, que durante certo
tempo foi a de Maomé, se não era normal, pelo menos era comum
entre os pagãos da Arábia que tinham entrado em contato com
judeus e cristãos.
Supõe-se em geral que alguns moradores de Meca, mesmo an­
tes de Maomé, tinham curiosidade de se imiscuir nesse terrível
mistério do Livro. 109 Esse interesse pode ter sido despertado pelos
cativos ou por desertores abissínios deixados para trás após a fra­
cassada invasão no ano do Elefante. no Talvez eles se refiram à pre-

106. Cf. Goldziher, ZDMG, xlvi, 44.


107. Rothstein, Lakhmiden, 27, a atribui aos cristãos de Hirah.
108. Ali, não muito cuidadoso em suas declarações, afirmou que, durante a infância e a
adolescência de Maomé, nenhum árabe podia ler um livro Nahj al-balaghah, 5 1 .
-

1 09. Para uma lista, ver sir C. Lyall, JRAS, 1903.


1 10. Azraki, 97.

49
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

sença, em Meca, de alguns abissínios que se tornaram preeminen­


tes nos primórdios do Islã. Além disso, ouvimos falar de certos
cristãos gassânidas que estavam estabelecidos em Meca sob a pro­
teção dos Banu Zuhrah,1 1 1 os tios maternos do Profeta. Posterior­
mente, as tavernas puseram em circulação entre os infiéis as ideias
cristãs e judaicas. 1 12
É provável que um dos inquisidores mequenses, Warakah, filho
de Naufal, primo de Khadijah, tenha tido muito a ver com o come­
ço do Islã. A ele é creditada a tradução de um Evangelho (ou de
parte de um Evangelho) para o árabe - talvez o Evangelho da
Natividade -, mais tarde útil para o Profeta. A lenda atribui a
Kais, filho de Nushbah, da tribo Sulaym, que ficava perto de Meca,
algum conhecimento do Livro; acredita-se que ele tenha feito per­
guntas a Maomé, fora dos livros desconhecidos para nós, e que
Maomé respondeu corretamente. 1 13 Não sabemos se o estudo do
Livro foi considerado pelos mequenses o equivalente à adoção da
religião cristã, mas é provável que sim. Não estão tão distantes os
dias em que os europeus tinham uma visão análoga, e qualquer
contato com livros heréticos era visto como comprometedor do
livre-arbítrio. A tradição muçulmana traz muito poucos registros
desses "precursores" de Maomé - como eles são chamados - que
merecem algum crédito. Eles viveram, em sua maioria, num tempo
em que não ser contra Maomé significava estar com ele.
A influência do judaísmo, e talvez do cristianismo, expandiu-se
mesmo fora desse pequeno círculo (supondo-se que ele seja histó­
rico) . A afirmação de que a Caaba tinha uma imagem da Madona
pode ser rejeitada como erro, mas os antigos nomes para sexta­
-feira e domingo114 devem ter derivado de nomes judeus ou cris­
tãos, e há razão para supor que algumas cerimônias pertencentes

1 1 1 . Ibid., 466.
1 12. Rothstein, Lakhmiden, 26.
1 1 3. Isabah, iii, 522.
1 14. Ver Fischer, ZDMG, !, 224.

50
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

a essas seitas eram imitadas em Meca. Visto que na Roma pagã não
era despropositado respeitar os dias santos judaicos, não sur­
preende que em Meca o esclarecimento tenha tomado a forma de
uma imitação dos modos das comunidades ilustradas. Atribui-se
a alguns mequenses a prática de uma forma de flagelação, "segun­
do a moda dos padres cristãos": eles se despiam, transformavam
seus trajes em cintos e flagelavam-se uns aos outros.115 A absten­
ção do vinho como forma de ascetismo religioso, segundo consta,
era praticada por muitos pagãos coraixitas. Vez por outra ouviam­
-se pregadores cristãos nas feiras nacionais, e há um provérbio que
perpetuou o nome daquele que, nessas ocasiões, exibia um grau
previamente inatingível de eloquência. Kuss, cujo nome parece ser
uma corruptela da palavra síria Kasha, "padre", e que se afirma ter
sido bispo de Najran, proferiu um discurso no mercado de Ukaz e
foi ouvido pelo Profeta. 116 O discurso, da forma como os árabes o
preservaram, apresenta marcante semelhança com as primeiras
passagens do Alcorão e pode ter contribuído de algum modo para
o Livro. m Nossos estudiosos não sugerem que as pessoas que ado­
taram o cristianismo ou por ele demonstraram simpatia tenham
sofrido muitas atribulações em Meca. Por conseguinte, mesmo
que a invasão abissínia tenha causado algum recrudescimento do
paganismo no começo da vida de Maomé, o efeito disso já havia
desaparecido na época em que ele era um jovem adulto..
A especulação talvez não renda frutos quando dirigida ao pro­
vável curso da história sob circunstâncias diferentes daquelas que
realmente aconteceram. Se Meca tivesse continuado a crescer em
riqueza e poder, sob seus astutos líderes, é provável que o povo
prosseguisse satisfeito com um sistema religioso considerado bár­
baro nos países onde as pessoas eram compelidas a buscar a ciên-

1 15. Musnad, iv, 1 9 1 .


1 16. Bayan, i , 1 19.
1 1 7. Narra-se uma longa história a respeito de Kuss em Baihaki, Mahasin, 35 1 -355, na
qual Kuss figura como um adivinho, mas provavelmente isso é pura invenção. Mais
mitos acerca dele encontram-se em Al-Dhakha'ir, 254.

51
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

eia e a instrução. Contudo, o fato de que a velha religião era a


fonte de prosperidade material tornara impraticável sua substitui­
ção, quer pelo cristianismo, quer pelo judaísmo. A solução ideal
do problema foi descoberta a tempo por Maomé, que se sobrepôs
às duas religiões ilustradas, retendo a velha fonte de riqueza em
um sistema que, longe de ser retrógrado, era avançado em relação
ao culto do Império Romano. Tão tortuoso, contudo, era o pro­
cesso pelo qual essa solução foi descoberta e executada que a sime­
tria da construção se perdeu, o que talvez ocorra, em geral, quan­
do a pedra rejeitada pelo construtor se torna a pedra angular.

52
2

OS PRIMEIROS ANOS DE VIDA DE MAOMÉ

Maomé era filho de pais nascidos em Meca. Consta que seus no­
mes eram Abdallah (Servo de Alá) e Aminah (A Segura, ou A Pro­
tegida). A mãe pertencia aos Banu Zuhrah, e o pai era filho de Abd
al-Muttalib, do clã chamado Banu Hashim. É certo que o pai do
futuro Profeta morreu antes de o filho nascer, segundo dizem,
quando visitava Yathrib, mais tarde conhecida como Medina.
A mãe não sobreviveu por muito tempo ao marido, e s�u túmulo,
como afirmam alguns,1 encontra-se em Abwa, um lugar a meio
caminho entre Meca e Medina, onde, cerca de cinquenta anos de­
pois, seus ossos corriam o risco de ser exumados.
O filho herdou uma constituição robusta, capaz de suportar
fadiga, privação e excesso. Por outro lado, a noção, corrente entre
escritores cristãos,2 de que ele sofria de epilepsia encontra uma
curiosa confirmação nas notícias acerca de suas experiências du­
rante o processo de revelação - a importância disso não é dimi­
nuída pela probabilidade de que os sintomas tenham sido muitas
vezes produzidos de modo artificial. Esse processo era marcado
por perda de consciência, acompanhado - ou às vezes precedido
- da impressão de ouvir sinos tocando3 ou de que alguém estava
presente,4 o medo, que deixava a pessoa molhada de suor,5 a cabe­
ça revirada para o lado,6 a boca espumando,7 o rosto avermelhado
ou muito pálido e a sensação de dor de cabeça.8 Temos conheci-

1. Azraki, 48 1 . Talvez um mito etimológico; a palavra parece significar "dois pais''.


2. Nõldeke, Gesch. d. Korans, 18.
3. Gowers, Epilepsy, 70.
4. Ibid., 69.
5. lbid., 80.
6. Tabari, Comm., xxviii, 4. De acordo com Gowers, para o lado no qual a convulsão é
mais severa.
7. Gowers, 169.
8. Alif-Bã, ii, 29.

53
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

mento de apenas dois casos ocorridos depois, em sua vida, em que


os ataques não estavam sob seu controle: uma vez em que des­
maiou em circunstâncias de intensa excitação, na Batalha de Badr,
e outra quando ele próprio se feriu depois de jejuar.9 Alguns indí­
cios de epilepsia grave - morder a língua, deixar cair o que está
nas mãos10 e a gradual degeneração da capacidade cerebral - não
estavam presentes.
Maomé foi recebido pela família do pai, e dizem que passou os
primeiros oito anos de vida sob os cuidados de Abd al-Muttalib.
A condição de menino sem pai não era algo desejável, e mais tarde
Maomé foi insultado pelo tio Hamzah. Bêbado, este afirmou que
o menino era um dos escravos de seu pai. 1 1
Sendo uma criança nascida depois da morte do pai, Maomé
pouco teve a ver com a história reunida a respeito de Abdallah; já
o avô era um piedoso muçulmano, bem conhecido. Talvez um ou
dois fatos possam ser afirmados a respeito de Maomé. Parece não
haver dúvida de que ele vinha de uma família humilde, o que apa­
rece em muitos lugares. No Alcorão, os coraixitas se perguntavam
por que lhes enviaram um profeta que não tinha origem nobre.
Quando o Profeta tornou-se todo-poderoso, eles o compararam a
uma palma que pende de um monte de estrume. 12 No dia da sua
entrada triunfal em Meca, Maomé disse ao povo que a aristocracia
pagã agora chegava ao fim pelo sangue. 13 Ele próprio recusou o
título de "Senhor e filho de Nosso Senhor", que lhe fora oferecido
por algum devoto. 14 Com base nesses relatos, rejeitamos como
fabulosas todas as narrativas em que Abd al-Muttalib figura como
homem importante em Meca. 15

9 . Musnad, i , 148.
10. Gowers, 1 30.
1 1 . Bokhari (K.), ii, 270.
1 2. Musnad, iv, 166.
13. lshak, 82 1 .
1 4 . Musnad, iii, 24 1 .
1 5. Cf. Nõldeke, Sas., 291.

54
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Preservou-se nos cofres de Ma'inun, cujo reinado começou em


8 1 2 d.C., um documento no qual um himiarita de Sana admitia
dever a Abd al-Muttalib mil dirhems de prata do padrão de Hu­
daydeh; "foram testemunhas disso Alá e os dois anjos"; a escrita
era de Abd al-Muttalib, e a outra letra parecia feminina. 16 "Os dois
anjos" representam, segundo supomos, "as duas 'Uzzas", isto é, as
deusas Al-Lãt e Al-'Uzza, cujos nomes podem ter figurado no do­
cumento original.17 Este talvez seja inautêntico, mas é difícil com­
provar isso. Por que uma falsificação teria assumido essa forma?
Se era autêntico, devemos inferir que Abd al-Muttalib possuía al­
gum capital e ocasionalmente o emprestava. Isso seria corrobo­
rado pelo relato de que seu filho Abbas emprestava dinheiro aos
habitantes de Taif.
A fim de harmonizar a riqueza do avô de Maomé com sua con­
dição humilde, somos levados a supor que a profissão com a qual
fazia dinheiro não era honrada. Uma tradição que não pode ser
facilmente afastada18 atribui-lhe as funções de fornecedor de água
e de comida para os peregrinos. Como a água da fonte Zemzem
- que, de acordo com uma lenda surgida posteriormente, foi ele
quem cavou - era salobra, ele costumava torná-la potável mistu­
rando-a com leite de camelo, mel e passas, estas últimas adquiri­
das em Taif, onde, mais tarde, seu filho 'Abbas foi dono de uma
vindima.19 Não é crível que ele tenha se dedicado a essas atividades
sem remuneração; daí se depreende que as profissões de "aguadei­
ro e apresentador'', que posteriormente os escritores qualificam

como ocupações de honra em Meca, transformaram-se em co­


mércio, e um comércio indigno, visto que o Profeta proibiria a
venda de água; a hospitalidade pródiga é característica dos árabes
nobres. A outra profissão (de agiota) também não era bem-vista

16. Fihrist, 5.
17. Cf. W. R. Smith, Kinship and Marriage, 60.
18. Assim, Wakidi (W.) faz Hamzah retê-lo no campo de Batalha de Uhud.
19. Azraki, 70.

55
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

entre os árabes, e muitos poetas gabavam sua habilidade em con­


tornar as reclamações dos credores.20 O nome Abd al-Muttalib,
"escravo de al-Muttalib", para o qual é dada uma explanação fan­
tasiosa por nossos historiadores, provavelmente indicava que seu
portador, em determinado momento, foi de fato escravo, embora
depois tenha sido libertado e inscrito no clã Hashim.21
Os nomes de seus dez filhos e seis filhas provavelmente são
históricos, e quatro dos filhos e duas das filhas vieram a desempe­
nhar papéis de alguma importância. Consta que todos os filhos
homens eram de constituição robusta e de cor escura.22 Sabemos
pelos nomes de alguns deles que Abd al-Muttalib era piedosamen­
te devoto das divindades Alá, Manãt e Al-'Uzza. 'Abbas parece ter
herdado os negócios de agiotagem e de fornecimento de água e
se saído bem em ambos. Ele também importava especiarias do
Iêmen e as vendia por ocasião dos banquetes.23 Abu Talib nego­
ciava roupas e perfumes,24 e não teve tanto sucesso. Outro filho,
Hamzah, ganhava a vida caçando. O quarto, Zubair, estava envol­
vido em atividades de transporte; isso talvez tenha assegurado os
meios de subsistência para os demais. Supõe-se que Abdallah, o
pai do Profeta, tenha morrido quando estava ausente de Meca,
numa viagem de negócios.
O nome Maomé (do qual Ahmad e Mahmud eram varia­
ções),25 dado ao futuro Profeta, aparentemente não era incomum
e se referia a um parentesco distante.26 Tempos depois, quando os
inimigos de Maomé queriam insultá-lo, eles o chamavam de filho
de Abu Kabshah. Uma grande incerteza subsiste quanto à identi-

20. Nõldeke, Beitriige zur Kenntniss der Poesie der alten Araber, 183- 199.
2 1 . Baihaki, Mahasin, 393, localiza nele a origem do costume de tingir o cabelo de preto.
22. Jahiz, Opuscula, 75, 5.
23. Tabari, 1 162, 13.
24. Jahiz, Mahasin, 165.
25. O debate sobre esses nomes, em Rõsch, ZDMG, xlvi, 432-440, não leva a qualquer
resultado.
26. Vale informar que o nome do elefante trazido por Abrahat contra a Caaba era Mah­
mud (Azraki, 96). Pode-se supor, a partir daí, que o Profeta nasceu no ano seguinte?

56
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

dade dessa pessoa. Alguns afirmam que era um antepassado do


Profeta27 ou um antigo coraixita28 que se empenhara em mudar a
religião nacional, substituindo a adoração de Sirius pela das pe­
dras. Por isso, quando Maomé começou a introduzir inovações
religiosas, foi considerado seu descendente moral.
Uma interessante passagem dessa história pode estar inserida
na fábula a seguir. Dizem que Maomé falava ocasionalmente de
seu pai adotivo, e muita gente achava que Abu Kabshah era esse
homem. A essa afirmação relaciona-se a lenda de que Maomé fora
amamentado por alguma outra mulher além de sua mãe, e que o
marido dessa mulher, de acordo com as ideias árabes, estabeleceu
com Maomé uma relação não muito diferente da que um pai tem
com seu filho. Num momento posterior de sua trajetória, uma
mulher cativa afirmou ser sua irmã adotiva, e, para satisfação do
Profeta, comprovou a assertiva ao exibir as costas, onde ele certa
vez a mordera. A irmã adotiva, contudo, recusou o oferecimento
de permanecer perto de seu importante parente. Podemos inferir
daí que ela talvez fosse uma impostora. Em todo caso, a prova que
forneceu de sua identidade parece ter ajudado Maomé a reco­
nhecer que fora uma criança voluntariosa.
Pouco se sabe a respeito das figuras que compunham a família
a quem ele foi confiado. Consta que a tribo à qual pertencia era a
dos Banu Sa'd, um ramo dos Hawazin, que acampavam não muito
longe de Meca. 29 A identificação de Abu Kabshah como o pai da
família parece estar assentada, de maneira muito clara, numa
combinação que pode ser perfeita, mas de nenhum modo corre­
ta. O patronímico30 Abu Kabshah era bastante comum, e chamar
Maomé de filho de Abu Kabshah expressava alguma ofensa. Mas
não podemos definir com certeza qual a natureza do insulto. Ou-

27. Baidawi, sura liii, 50.


28. Zamakhshari, ibid.
29. De acordo com Al-Bekri, em Hudaybiah, após a cena de algumas notáveis nego-
ciações.
30. "Pai do mais ou menos': não "filho do mais ou menos''.

57
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

tra mulher a quem é atribuída a honra de ter amamentado Mao­


mé foi Thuwaibah, escrava de seu tio Abu Lahab.
Consta que Abd al-Muttalib morreu quando o neto tinha oito
anos, deixando-o aos cuidados de Abu Talib, um dos tios paternos
do Profeta. Este provavelmente empregou-o como cuidador das
ovelhas e dos camelos que mantinha em Uranah, nas proximi­
dades do monte Arafat.31 Ele também mantinha seu filho Ja'far
como empregado, encarregando-o de cuidar de ovelhas em Badr.32
Quando Maomé atingiu o poder e a fama, ainda costumava cuidar
de seu próprio camelo,33 e divertia-se marcando os camelos e as
ovelhas34 que lhe eram trazidos em doação, atividade na qual de­
monstrava alguma habilidade técnica. 35
Ele costumava surpreender seus seguidores com a familiarida­
de que demonstrava em relação aos detalhes da vida beduína. Em
sociedades como a de Meca, a diferença entre as ocupações dos
grandes e as dos humildes sempre é diminuta, sobretudo no pe­
ríodo da juventude. É provável que Maomé tenha feito o mesmo
que seus primos e tios de sua geração. Há algumas brincadeiras
que as crianças beduínas praticam, certas armas cujo uso apren­
dem ainda no início da vida. A lenda36 mostra-nos o jovem Profe­
ta brincando com o "osso branco". Um osso de "brancura impres­
sionante" é atirado a distância, à noite, e o menino que o encontra
torna-se líder. Em outra tradição,37 Maomé revela que, por duas
vezes, quando estava alimentando seu rebanho, deixou o cuidado
dos animais a cargo de um de seus companheiros, a fim de tomar
parte nas farras da cidade; nas duas ocasiões, se é para lhe darmos
crédito, caiu no sono miraculosamente antes que pudesse fazer
algo que viesse a envergonhá-lo.

3 1 . Azraki, 71.
32. Wakidi (W.), 73.
33. Musnad, iii, 1 75.
34. Ibid., iii, 254.
35. Isabah, i, 525.
36. Alif-Bã, i, 322.
3 7. Chronicles ofMeccah, ii, 7.

58
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Mayeux afirma que os beduínos ainda conferem grande im­


portância ao estudo da eloquência, do discurso fluente e correto,
e Maomé pode ter tido alguma prática precoce nessa seara, na qual
mais tarde se destacaria. Os árabes que especulam sobre o assunto
observam que eloquência árabe significa, invariavelmente, impro­
visação;38 a preparação elaborada de um discurso, tão valorizada
pela oratória europeia, lhes é desconhecida.
Ademais, é provável que o amor aos cavalos, que caracterizou
Maomé em momento posterior,39 tenha sido incutido nele ainda
na primeira juventude. Muitas tradições registram sua admiração
pelos corcéis árabes, e algumas delas provavelmente eram autênti­
cas, mesmo quando se diz que o Profeta, como soberano de Medi­
na, encorajou e tomou parte em corridas de cavalo.40 Não poucos
mequenses possuíam cavalos, como se pode perceber pela histó­
ria de suas campanhas. Contudo, o emprego de cavalos parece ter
se restringido à guerra; para viajar, os árabes usavam o camelo.
O cavalo, contudo, é um tema favorito nas descrições poéticas, e
o orgulho em relação a esse animal é característico da raça árabe.
Os cachorros eram detestados pelo Profeta, e ele esteve prestes a
dar ordens para extinguir a espécie.
Surpreende como - omitindo-se o que tem grande probabili­
dade de ser inexato no transcurso dos quarenta anos de vida de
Maomé anteriores à "missão" - resta pouco a ser narrado. Con­
tudo, parece não haver terreno algum para confirmar a informa­
ção de que ele atuou como ajudante, fornecendo flechas ao tio
Zubair, em uma série de batalhas que ocorreram quando era ado­
lescente. Essas batalhas diziam respeito ao que é conhecido como
a segunda guerra Fijar, travada entre os coraixitas e seus aliados,
os Kinanah, contra uma confederação de tribos chamada Kais.
A disputa, como a maioria delas, surgiu a partir dos ingredientes

38. Jahiz, Bayan.


39. Musnad, v, 27; Wakidi ( W.), 402.
40. Musnad, iii, 160; Wakidi ( W.), 184.

59
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

fundamentais da vida árabe, a rixa de sangue e a relação patrão­


-cliente. O rei de Hirah desejava a proteção de um chefe da Ará­
bia central para os bens que mandava para o mercado de Ukaz.
A proteção foi oferecida por um homem chamado Al-Barrad, que
fora expulso sucessivamente de diversas tribos pela falta de cará­
ter, mas a quem o coraixita Harb, pai do adversário de Maomé,
Abu Sufyan, havia tomado sob sua proteção. O rei, talvez sabia­
mente, preferiu a garantia de um chefe kaisita, da tribo Hawazin,
chamado 'Urwah. Ressentido, Al-Barrad, depois de provocar
'Urwah, armou-lhe uma cilada e o matou. Logo depois, porém,
lembrou-se de um fato incômodo: para os Hawazin, sua vida não
contava, porque ele não teria uma equivalência em parentela; eles
não desejariam um proscrito como ele, mas algum membro des­
tacado da tribo que insensatamente o engajara.41
Sugeriram a Abdallah Ibn Jud'an, eminente mequense com
quem as tribos que vinham à feira de Ukaz depositavam suas ar­
mas, que ele se apossasse das armas dos Hawazin, tornando-os
inofensivos. Mas ele se recusou a se aproveitar dessa vantagem in­
justa; ao contrário, devolveu as armas a todas as tribos e pediu que
os coraixitas retornassem a Meca. No caminho de volta, eles foram
atacados pelos Hawazin, que, após uma batalha trivial, prepararam
a continuação da guerra para o mesmo período, no ano seguinte.
Por quatro anos sucessivos a guerra - ou, antes, o jogo - foi re­
tomada, com resultados variados. Na quarta batalha, os coraixitas
saíram vitoriosos; porém, autorizaram uma mulher coraixita que
se casara com um homem de Kais a garantir a vida de qualquer
kaisita que buscasse refúgio em sua tenda, a qual ela ampliou com
esse objetivo, No quinto ano, os kaisitas levaram a melhor; depois
disso, a guerra descambou para assassinatos ocasionais, quando os
membros das tribos rivais se encontravam. Finalmente, as partes
decidiram contar os mortos, ficando acertado que o lado com me­
nor número de perdas pagaria a diferença em dinheiro.

4 1 . Kamil, ii, 239; Procksh, Blutrache.

60
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

A série de arrernedos de batalhas foi datada pelos arqueólogos


árabes baseados no fato de que Maomé não tornara parte na pri­
meira, mas testemunhou as demais. Deduziu-se daí, naturalmen­
te, que ele fora poupado de participar da primeira luta porque era
muito jovem; mais tarde, ele mesmo adotou corno prática não
admitir recrutas com idade inferior a 15 anos. Se esse raciocínio
é correto, o período compreendido pela guerra seria de 584 a
588 d.C. O próprio Maomé datou urna das lutas, dizendo que se
travara quanto ele tinha vinte anos.
Não ficou registrado (exceto numa lenda cuja veracidade pou­
cos reivindicam) se Maomé se distinguiu de alguma forma nessas
guerras, mas quando ele passou a dirigir um Estado, constatamos
que duas das lições que elas sugerem ao leitor moderno marcaram
de forma bastante profunda sua mente. Urna delas era a neces­
sidade de definir as questões de sangue por meio de algum ex­
pediente menos devastador e mais satisfatório do que aquele em­
pregado na guerra do Fijar; a segunda era que a guerra deve ser
vista não corno um jogo que pode ser praticado por um período
indefinido, mas corno uma maneira de obter resultados decisi­
vos. Quando foram bem-sucedidos, seus inimigos acertaram que
prosseguiriam a batalha no ano seguinte, mas ele não. Nem o en­
contramos imitando a conduta do cavalheiresco Abdallah, filho de
Jud'an, que forneceu a um inimigo vingativo as armas para serem
usadas contra seus amigos.
A história dessa guerra é digna de nota porque, entre os que dela
participaram, muitos eram pais de homens que se tornaram pree­
minentes na época do Profeta, e alguns continuavam em suas ativi­
dades naquele período. É provável que Abdallah, filho de Jud'an,
assomasse aos olhos do jovem Profeta como urna figura poderosa.
A lenda faz dele alguém fabulosamente rico, que teria descoberto
urna pilha de joias escondida numa colina e, com a ajuda delas, se
tornara chefe de sua tribo - e, na verdade, o homem mais impor­
tante de Meca, pródigo em presentes e exagerado em termos de

61
DAVID SAMUEL MARGOLlOUTH

hospitalidade.42 Mais tarde, Maomé relembrou os banquetes ofere­


cidos pelo grande homem nos quais se recitavam versos em seu
louvor.43 Harb, filho de Umayyah, que comandou as ações em um
dos dias de luta,44 era pai do mequense que moveu a mais encarni­
çada resistência a Maomé. Al-Zubair, o tio do Profeta, que ocasio­
nalmente estava no comando, aparece poucas vezes na história;
consta, contudo, que ele era poeta e que praticou a hospitalidade
numa escala pródiga em comparação com os poetas de outras tri­
bos. Certa feita, levou o sobrinho numa viagem ao Iêmen. Uma
história cuja veracidade não é comprovada conta que ele se lançou
na disputa pela proteção de Harb, pai de Abu Sufyan, quando seu
próprio pai, Abd al-Muttalib, já estava disposto a respeitá-lo.45
Não há dúvida de que Maomé com frequência acompanhou as
caravanas de Meca para diversos destinos. Os homens mais desta­
cados da cidade estavam sempre envolvidos na condução dessas
caravanas, nas quais, como se viu, muitas qualidades militares po­
diam ser demonstradas. Suas caravanas visitavam regularmente
a Síria e o Iêmen, às vezes o Egito, a Abissínia e a Pérsia, abastecen­
do seus mercados; o último desses países não mantinha relações
comerciais regulares com os árabes.46 Consta que o reino cristão
de Hirah também era visitado pelos mercadores de Meca, e que
um dos amantes de Hind, filha de Utbah, de quem se ouvirá falar
adiante, era cortesão do rei de Hirah, o qual pode ter pedido seu
auxílio tendo em mira projetos matrimoniais.47 De acordo com
uma tradição, o Profeta refere-se aos palácios brancos de Hirah,
vistos por ele de Medina.
O Alcorão mostra-o familiarizado com viagens tanto pelo mar
quanto por terra. Ele descreve o movimento dos navios e as con-

42. Goldziher, ZDMG, xlvi, 7.


43. Isabah, ii, 706.
44. Kamil de Mubarrad, i, 187.
45. Jahiz, Mahasin, 1 54.
46. Isabah, iii, 379.
47. Aghani, viii, 50. Provavelmente há um anacronismo aí envolvido.

62
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

sequências dos temporais com um realismo que tem sabor de ex­


periência. Conhecia também um mar doce e um mar salgado; o
primeiro ele chama de Eufrates; os dois, supunha ele, tinham se
misturado numa barragem. Suas referências ao Egito deixam en­
trever que também esteve lá,48 e há motivos para supor que viu o
mar Morto. As tumbas rochosas de Al-Hijr impressionaram pro­
fundamente sua imaginação antes mesmo de ter passado por elas,
à frente de um exército. Visitou o Bahrein, no golfo Pérsico, e mais
tarde se lembrava perfeitamente dos nomes das diversas aldeias de
lá, bem como dos nomes locais de diversas variedades de tâma­
ras. 49 Também chamou sua atenção, no Iêmen, um rebanho de
ovelhas sem cauda.50
Parece provável que Maomé tenha conhecido pessoas que mais
tarde se mostraram úteis. Na verdade, sabemos os nomes de al­
guns de seus amigos estrangeiros, embora em geral apenas os pre­
nomes. Khalid, filho de Hawari, é referido como conhecido abis­
sínio; o dialeto do nome paterno torna possível essa afirmação.
Iyad, filho de Himar, da tribo Mujashi, seria outro deles. 51
Não podemos atribuir data a nenhuma dessas viagens, à exce­
ção da que já mencionamos, quando ele mesmo comandou uma
expedição a Bostra. Parece, porém, que reunia informações obti­
das em todas elas. Algumas dessas informações provêm de visitas
a lugares como fundições. Uma dessas visitas pode ser inferida de
sua curiosa comparação da torrente, que elimina a escória e carre­
ga a água fertilizadora, com o metal fundido, do qual a escória é
retirada, enquanto a substância com a qual são feitos os utensílios
permanece.
Contudo, a maior parte das informações de que ele dispunha,
sem dúvida, era reunida a partir de conversas (por exemplo, em

48. Nõldeke, Sketches, e. ii, mostra que Maomé não tinha consciência de que não chove
no Egito; talvez, contudo, o erro se devesse a um esquecimento momentâneo.
49. Musnad, iv, 206.
50. Ibid., iv, 297.
5 1 . Ibn Duraid, 147.

63
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

lojas de vinhos) ou de histórias contadas. Afinal, nos países do


Oriente, as caravanas bem guardadas atraíam o interesse de es­
tranhos, que, ansiosos por desfrutar da segurança, mostravam-se
úteis ou agradáveis. Entre eles encontravam-se com toda a certeza
os mercadores judeus que negociavam roupas52 e outras mercado­
rias. É provável que o Profeta tenha retirado muitos de seus relatos
e também de suas expressões bizarras do intercâmbio com essas
pessoas. Algumas delas figurariam em sua conversação. 53 Mais tar­
de, o Livro Sagrado conteria um número de frases que mesmo
seus amigos íntimos em Meca não compreendiam. 54
É evidente que Maomé não recebeu aquilo que se entende por
educação. Assim, quando era criança, não aprendeu a ler e es­
crever, embora essas artes fossem conhecidas por muitos mequen­
ses, como veremos. O uso da leitura e da escrita no comércio era
habitual, como o próprio Maomé enfatizou, e sua deficiência de
aprendizado pode ser atribuída à negligência que em geral cerca
uma criança órfã. Ele não manifestava interesse algum pela outra
bela arte árabe, a poesia. Podemos inferir daí que a forma de edu­
cação que consistia em aprender de cor, observada entre as socie­
dades tribais,55 também lhe foi negada.
Todavia, mesmo aqui sua capacidade de obter informações não ·

fracassou de todo. A tradição narra versos que atraíram a imagi­


nação do Profeta de forma especial. 56 A linguagem do Alcorão foi
concebida pelos especialistas para manter uma semelhança im­
pactante com a da poesia dos primeiros tempos, e embora seja
difícil para nós emitir opinião a esse respeito, constatando que a
poesia primitiva é em grande parte uma fabricação moldada no
·
Alcorão, podemos aceitar a opinião dos árabes. Alguns versos da­
quelas baladas recitadas em ocasiões solenes ou festivas ficaram

52. Goldziher, ZDMG, xlvi, 185.


53. Kamil, i, 27.
54. Comm., sura xvi, 47.
55. Jahiz, Bayan, i, 107.
56. Jahiz, Mahasin, 186; Musnad, vi, 3 1 .

64
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

gravados na memória de Maomé e lhe forneceram a forma de fu­


turas revelações. Não obstante esse fato, ele tinha sincera aversão
não somente à poesia57 como também à única outra forma co­
nhecida de composição literária58 - a prosa rimada. Talvez assim
se vingasse da insuficiência de educação que o tornou incapaz de
lidar com esses assuntos.
Do relacionamento com judeus e cristãos árabes Maomé reti­
rou uma espécie de fraseologia bíblica59 que pode ser encontrada
nos trabalhos de judeus e cristãos orientais, mas também nos escri­
tos das modernas línguas europeias. Para um estudioso da Bíblia,
seria muito fácil revelar a fonte em que Maomé buscou certas ex­
pressões - como "gosto de morte'', "trazer da escuridão para a luz'',
"corromper o caminho direto para Deus", "as trombetas soarão",
"o céu desaparecerá como um rolo que se dobra", "eles têm pesos
nos ouvidós", "os novos paraísos e a nova terra'', "a primeira e a
segunda morte'', "aquilo que os olhos não vêem nem o ouvido ouve
não entrou no coração do homem'', "um camelo passar pelo bura­
co de uma agulha'', "tão longe o Oriente é do Ocidente, tão longe
ele removeu nossos pecados de nós':60 Empregava-as nas conversas
com seus amigos devotos e adotou-as de forma automática. Em
síntese, ele parece ter adquirido o hábito de recolher informações e
depois utilizá-las. Após ouvir, casualmente, de sua jovem esposa
Aisha que um judeu tinha falado com ela sobre o tormento do tú­
mulo, ele introduziu uma oração a ser proferida em sua devoção
comum. Tendo ouvido uma menção a Maria na história de Moisés
e outra na história de Jesus, não lhe ocorreu fazer uma distinção
entre as duas. Depois, ouviu de um visitante de Najran que elas
estavam separadas por milhares de anos. Não rejeitou a informa­
ção, mas achou uma maneira de conciliá-la com sua afirmação

57. Goldziher, MS, i, 53, considera essa uma aversão teológica, sendo os poetas os princi-
pais expoentes das ideias pagãs. sura xxxvi, 69.
58. Musnad, iv, 245; Jahiz, Bahan, i, 1 1 2.
59. Smith sugere que muitas dessas frases teriam sido simplesmente semitas.
60. Musnad, vi, 57.

65
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

anterior.61 Quando, às vezes, algum judeu ou cristão testemunhava


publicamente que Maomé havia reproduzido a informação que
recolhera de modo correto, isso lhe provocava imenso prazer.62
Parece que Maomé tinha assimilado uma larga fatia das su­
perstições dos árabes, que diferem ligeiramente, se é que dife­
rem, daquelas de outras raças. Ele atribuía grande importância às
profecias, sobretudo as relacionadas a nomes. Quando precisava
contratar alguém para ordenhar um camelo, dispensava um can­
didato após outro até que aparecesse alguém cujo nome significas­
se "longa vida".63 Toda vez que o nome de um novo adepto sugeris­
sem maus presságios, Maomé costumava mudá-lo. Se um converso
se chamasse Áspero, ele o chamava Suave. Por ocasião da crise mais
importante de sua trajetória, a preparação para a Batalha de Badr,
e mesmo em outros momentos,64 sua estratégia foi orientada pelos
nomes dos lugares situados nas diferentes rotas. Assim como as
tribos beduínas eram guiadas em suas migrações pelo instinto de
seus camelos, Maomé às vezes confiava a determinação de sua po­
lítica à conduta do animal que montava na ocasião.
Ele acreditava firmemente no mau-olhado, na possibilidade de
evitá-lo com feitiços, e parece não ter duvidado da eficácia dos
encantamentos. Por isso, certa feita, recomendou o Pai-Nosso, ou
quanto conhecia dessa oração;65 quando determinados trechos do
Alcorão tornaram-se clássicos concordou que fossem usados com
esse propósito, e chegou a reivindicar parte dos emolumentos
quando uma mordida de serpente foi curada com a ajuda de um
dos versos.66 Autorizou a crença nos djins, seres misteriosos que
assombravam o deserto, quer acreditasse neles, quer não. Com o

6 1 . Muslim, ii, 168. Há uma controvérsia sobre esse tema. Ver ed. Sayous, Jésus-Christ
d'apres Mahomet, Paris, 1 880, p. 36.
62. Muslim, ii, 380.
63. Isabah, i, 655.
64. Wakidi ( W.), 266.
65. Musnad, vi, 2 1 . Ela foi usada da mesma maneira pelos cristãos: J. M. Robertson,
A Short History of Christianity, 1 25.
66. Musnad, ii, 1 83.

66
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

passar do tempo, libertou-se de algumas superstições. Registrou­


-se que, quando seus seguidores desejaram atribuir a morte de seu
filho Ibrahim a um eclipse do Sol, assegurou-lhes que os eclipses,
embora importantes, não se relacionavam ao destino de ninguém.
De todo modo, continuou a considerar os eclipses eventos de na­
tureza digna de consideração, para os quais recomendava uma
forma especial de oração.
Sua experiência como garoto de caravana ensinou-lhe a arte da
sentinela, a capacidade de fazer inferências rápidas a partir de si­
nais e indicações, muitos deles retirados do destino, do número e
dos equipamentos do inimigo. Talvez não conhecesse mais do que
muitos condutores de caravana, mas isso era suficiente para man­
tê-lo em boa posição quando se tornou líder de bandidos. As vezes
os caminhos secretos da informação ficavam sob seu controle,
cujo gênero mal podemos adivinhar. A natureza, mais que a expe­
riência, dotou-o de um atributo a ser invejado acima de qualquer
outro: o conhecimento do ser humano. Seu julgamento instintivo
dos homens e dos povos poucas vezes - podemos dizer nunca
- estava errado.
A aparência pessoal do Profeta, na metade de sua vida, foi re­
gistrada por muitas pessoas. De acordo com a tradição comum,
ele tinha "peso médio, o cabelo não era nem liso nem encaracola­
do, a cabeça grande, os olhos também, pestanas pesadas, um tom
avermelhado nos olhos, barba espessa, ombros largos, mãos e pés
grandes':67 Outra descrição acrescenta "boca larga, olhos grandes
e rasgados, pouca carne nos calcanhares':68 De acordo com uma
narrativa, suas mãos eram extremamente macias, o que, de acordo
com as quiromantes, significa "tendência natural para o milagre':
O estilo de vestir parece ter variado com o tempo. Sua roupa favp­
rita era uma veste listrada feita no Iêmen,69 embora algumas vezes

67. Musnad, i, 89; Bokhari (K.), ii, 392.


68. Muslim, ii, 21 7.
69. Hibrah, Muslim, ii, 154.

67
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

trajasse uma jubbah síria, com mangas estreitas,7° ou um manto


( mirt) de crina negra trançada,71 ou uma toga vermelha ( hullah).72
No dia da tomada de Meca, usava um turbante negro.73
O que se registrou sobre seus gostos e hábitos revela grau ele­
vado de requinte e sutileza. Ele abjurava qualquer coisa que pro­
duzisse mau odor. Alho e cebolas eram descritos por ele como
coisas do mal,74 e seu asco por tudo aquilo que prejudicasse o
hálito devia ser levado em conta pelas integrantes do seu harém.
Quando se tornou rei, achava defeito nas mulheres com cabelos
em desalinho ou roupas sujas.75 Preocupava-se particularmente
com a própria aparência. Não gostava de dentes amarelos,76 e qua­
se tornou o uso do palito de dentes uma imposição religiosa.
Sabemos, pelo Alcorão,77 que Maomé foi um jovem promissor,
e podemos imaginar que os incríveis talentos que revelou mais
tarde já estivessem presentes na juventude. Temos provas de sua
ambição pela tranquilidade que seu renome lhe ofereceu num
momento em que poucas coisas iam bem com seu projeto: "Não
expandimos teu peito e exaltamos teu nome?" é a forma que a
consolação divina assume quando o Profeta tem problemas. A ex­
pansão de seu credo, a organização da vida em torno de um novo
centro, como afirma o professor Starbuck, e a celebridade foram
coisas pelas quais ele ansiou, mas seu compromisso precoce não
permitiu que nenhum dos fiascos com que teve de lidar, a despei­
to dos esforços, comprometesse o resultado final.
Como Maomé poderia se distinguir? Como Beckwourth, sem
dúvida, que em toda luta matava o chefe rival, que em cada ataque
era o primeiro a escalar o muro; as Batalhas de Fijar (e outras,

70. Musnad, i, 29.


7 1 . Ibid., vi, 1 62.
72. Bokhari (K.), ii, 392.
73. Musnad, iii, 363.
74. Ibid., iv, 19.
75. Ibid., iii, 356.
76. Ibid., 442.
77. Sura xi, 65.

68
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

talvez, das quais não se tem registro) deram a Maomé a oportuni­


dade de se firmar como o primeiro entre os coraixitas. Nessas lu­
tas, seus futuros adversários, Abu Sufyan e seu irmão, ganharam a
denominação de "Os Leões':78 Homens que também desempenha­
ram papel semelhante ao de Davi não eram queridos na Arábia.
O rei poeta Imru'ulkais, expulso do lar por seu pai, reuniu um
bando de proscritos e com eles atacou de surpresa os vizinhos.
A sequência dos fatos mostra que Maomé não nascera para esse
tipo de distinção. Os cuidados com a vida e a segurança eram sua
primeira preocupação. Diante do perigo, mantinha a calma e, se
necessário, lutava bravamente. Faltava-lhe, porém, a coragem do
homem que, quando um campeão é requisitado, se apressa em ser
o primeiro. Por conseguinte, as quatro Batalhas de Fijar não lhe
trouxeram nenhum louro.
Os rapazes preparados para passar a vida montados em came­
los ou exercendo ocupações semelhantes tomavam suas esposas
aos 17 ou 18 anos e, em seguida, se fixavam num estado degradan­
te de pobreza, do qual não podiam sair salvo por um fantástico
golpe de sorte. Maomé - embora não sem sua cota desse tipo de
paixão, que, como afirma o Talmud, coube em nove partes aos ára­
bes, sobrando uma parte para o resto do mundo - esperava casar­
-se quando estivesse em melhor situação. Na verdade, tinha feito
uma oferta pela mão de sua prima, Umm Hani, filha de Abu Talib,
menina a quem encontrara muitas vezes na infância e na juventu­
de. Pela natureza das relações entre os sexos na época, pode-se es­
tabelecer uma analogia entre a vida beduína e a vida na cidade,
introduzida pelo fundador do Islã; na vida beduína, os casamentos
entre primos, coisa bem natural, quase sempre são precedidos e
determinados por uma ligação fraternal.79 A proposta de Maomé
foi rejeitada pelo tio, que preferiu outro primo, provavelmente

78. Ibn Duraid, 103.


79. Mayeux, iii, 143. O bem informado romancista, na revista egípcia Ra'is (ii, 93), faz
disso - o amor não deve preceder o casamento - uma regra dos beduínos.

69
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

mais rico. A rejeição precoce pode ter tido algo a ver com a futura
trajetória do Profeta, a quem os males da pobreza impressionavam
muito. Bem depois, Umm Hani, liberada do marido, desejou que
Maomé renovasse a oferta, mas ele se recusou a fazê-lo.
Quando ele tinha 25 anos, Khadijah, uma rica mulher cuja ca­
ravana conduzira em segurança, ofereceu-lhe sua mão. As senho­
ras árabes não têm hoje em dia qualquer iniciativa nessas ques­
tões; elas eram mais livres na época pagã, antes de o Islã introduzir
o uso do véu; alguns de seus privilégios datam dos antigos tempos
do matriarcado.80 Khadijah era alguns anos mais velha que Mao­
mé, mas sem dúvida não tinha quarenta anos, como asseguram os
biógrafos do Profeta, embora a lenda afirme que algumas senho­
ras beduínas mantinham boa aparência até os oitenta ou mesmo
os cem anos.81 As mulheres coraixitas eram vistas como exceção
à regra que torna a gravidez impossível depois dos sessenta anos. 82
O sobrinho de Khadijah, Hakim, filho de Hizam, era um dos mag­
natas de Meca. Mais tarde, apareceria como comerciante, na rea­
lidade, especulador no comércio de milho. 83 Ele afirmou ter li­
bertado quarenta escravos nos tempos pagãos.84 Se é verdade que
pagou quatrocentos dirhems85 pelo escravo Zaid, filho de Hari­
thah, e depois deu-o de presente à tia, devia realmente ter recur­
sos, acumulados, segundo consta, com rígida economia.86
Consta que Warakah, primo de Khadijah, abençoou a união na
linguagem doméstica dos beduínos, chamando Maomé de camelo
"cujo nariz não seria atingido':87 O futuro Profeta deixou os carne-

80. Robertson Smith, em Kinship and Marriage, pesquisa o casamento de Khadijah, mas
não traz qualquer novidade.
8 1 . Jahiz, Mahasin, 205.
82. Id., Opuscula, 78, 5.
83. Musnad, iii, 403.
84. Ibid., iii, 434.
85. Ibn Sa'd, iii, 27.
86. Baihaki, Mahasin, 3 1 5. Ele era um dos que não participaram da Batalha de Badr. Ibn
Duraid, 103.
87. Mubarrad, Kami� i, 93. Outra tradição atribui as palavras a Abu Sufyan, quando
Maomé casou sua filha. Letters ofHamadhani, 2 16.

70
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

los de seu tio para se tornar senhor de uma casa, ou de parte dela,
pois Khadijah vivia na casa do já mencionado sobrinho, na rua
Hizamiyah, com um caminho de entrada coberto e um jardim
com uma porta que dava para a casa de Awwam, que se casara
com uma tia do Profeta. 88
Aquele grande passo na trajetória de Maomé foi dado por um
homem que, livre das ocupações para o ganha-pão cotidiano, co­
meçava a subir como um balão sem amarras. Doravante, não con­
duziria camelo algum além do seu. Na realidade, porém, parece ter
se estabelecido com negócios em Meca, tendo por sócio Kais, filho
de Al-Sa'ib, cuja fidelidade muito elogiou posteriormente. A tra­
dição parece não saber com que mercadorias ele abastecia seus
amigos cidadãos, embora tenha preservado esse detalhe no caso
dos sócios imediatos. Na única cena de compra e venda no pe­
ríodo da qual temos registro, o Profeta é comprador, não ven­
dedor. Suwaid, filho de Kais, disse: "Makhramah, o Abdita, e eu
trouxemos um fardo de roupas de Haji para Meca; o Profeta bar­
ganhou conosco um par de bombachas; havia na loja algumas
pessoas que pesavam peças de argila, e o Profeta disse-lhes que nos
dessem um bom peso."89 Visto que as bombachas dificilmente po­
deriam ser vendidas a peso, talvez o Profeta lhes tenha dado alguns
cereais ou frutas, em contrapartida.
Maomé e seu sócio punham suas mercadorias à venda na casa
de Kais.90 Os indícios dessa atividade são encontrados em todo o
Livro Sagrado. Há um trabalho sobre a linguagem comercial do
Alcorão mostrando que o Profeta negociante não se livrara das
metáforas provenientes de seus negócios. "Deus", afirma repeti­
damente, "é bom nas contas. Os crentes estão fazendo um bom
negócio; os não crentes, infiéis, um mau comércio." O aperto de
mãos com o qual se fecha um negócio tornou-se, com Maomé e

88. Azraki, 463.


89. Musnad, iv, 352.
90. Azraki, 47 1 .

71
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

seus seguidores, a forma pela qual se homenageava um soberano.


Mesmo quando ele era o soberano em Medina, não deixou de
comprar mercadorias no atacado e ter lucro vendendo-as no vare­
jo,91 e ocasionalmente concordou em atuar como pregoeiro.92
O casal teve quatro filhas e um ou mais filhos, e Maomé pôde
se chamar honradamente Abu'l-Kasim, pai de Kasim, à maneira
dos árabes; talvez acreditasse, como os indianos, que um homem
sem filhos do sexo masculino vai direto para o inferno, ou que
um homem sem um filho homem não tinha completa liberdade.
No entanto, o filho ou filhos do sexo masculino morreram na in­
fância,93 e as meninas eram frágeis; a que viveu mais tempo não
chegou a completar quarenta anos. Os que entendem alguma coi­
sa de medicina podem daí fazer suas inferências a respeito do pai.
Os nomes de alguns dos filhos revelam que seus pais eram idóla­
tras quando os escolheram.
Nada aí indica que Maomé, na época, estivesse em um mo­
mento de transição religiosa para o monoteísmo. Ele e Khadijah
realizavam alguns ritos domésticos em homenagem a uma das
deusas toda noite, antes de se recolherem.94 No casamento de sua
prima, a filha de Abu Lahab, informa-se que ele pediu diversão;95
mesmo quando já era o Profeta, manteve o gosto pelas exibições
de meninas cantoras. 96 Ele confessou ter sacrificado uma ovelha
cinzenta a Al-'Uzza,97 e provavelmente fez isso mais de uma vez,
dado que depois de sua missão costumava abater ovelhas para o
sacrifício com as próprias mãos.98 Uma história que pode ser ver­
dadeira nos mostra Maomé com o enteado, convidando o mo-

91. Musnad, i, 255.


92. Ibid., iii, 1 1 1 . Supõe-se, daí, que ele teria inventado os leilões. Baihaki, Mahasin,
393, 3.
93. Um deles nasceu sob o Islã, de acordo com nossos especialistas, quando sua mãe
tinha mais de 52 anos. Ibn Sa'd, iii, 2.
94. Musnad, iv, 222.
95. Ibid., iv, 67.
96. Ibid., iii, 391.
97. Wellhausen, Reste, 34.
98. Musnad, iii, 99.

72
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

noteísta de Meca, Zaid, filho de 'Amr, a comer com eles a carne


oferecida aos ídolos; mas o velho recusou-se, inspirando assim
Maomé a se afastar desse tipo de alimento.99
Não ficou registrada muita coisa sobre os filhos de Khadijah
(parece que Maomé tinha dois enteados e duas enteadas). O tem­
po todo, Maomé foi extremamente amoroso com os filhos e en­
teados, e demonstrava isso de forma expressa. Manifestou seu
desgosto em relação a um homem com dez filhos que declarara
nunca ter beijado um deles, 100 e permanceu claramente afeiçoado,
até o fim, ao escravo Zaid, a quem adotara como filho. Em suas
orações, às vezes segurava um dos filhos nos braços, quando estava
de pé, colocando-o no chão quando se prostrava. 101 Em Medina, 102
deixou uma menininha pegar suas mãos e levá-lo para onde ela
quis. O tratamento carinhoso dado aos enteados é atestado em
período posterior de sua vida. 103 É improvável que ele tenha falha­
do nas obrigações para com os filhos de Khadijah, e consta que
um deles perdeu a vida ao tentar salvar Maomé da fúria do popu­
lacho, quando ele começou a pregar a unidade de Deus. Conta-se
que outro enteado teria dado um conselho amigável ao padrasto.
As filhas de Maomé cresceram e foram dadas em casamento:
Umm Kulthum, a seu primo do lado paterno, filho de Abu Lahab,
o pior inimigo de Maomé; Zainab, a seu primo do lado materno,
Abu'l-'Asi. Tudo isso era normal. Abu'l-'Asi era um homem bom
e sincero, 104 que costumava passar a noite na casa de Maomé. 105
Esse casamento baseava-se na afeição, e isso o Islã não pôde mu­
dar. Depois, Zainab lançaria mão repetidas vezes de seus privilé­
gios como filha do Profeta para salvar a vida do marido, incréu.

99. lbid., i, 1 89.


100. Tirmidhi, 321 (i, 348).
101. Nasa'i, i, 132.
102. Musnad, iii, 1 74.
103. lbid., vi, 101.
1 04. lbid., iv, 326.
105. Isabah, iv, 223.

73
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

A lealdade demonstrada por Abu'l-'Asi para com ela valeu elogios


calorosos do sogro ao genro.
Acreditamos também que, durante esses quinze anos, Maomé
tenha sido um respeitado e anônimo comerciante. O pouco que
há a recolher de seus dizeres do período é lugar-comum. Um deles
refere-se ao fato de 'Arfajah, filho de Al-As'ad, ter perdido o nariz
em uma batalha pré-islâmica, substituindo-o por um nariz de
prata. Como isso o deixara muito feio, Maomé recomendou-lhe
que tentasse um nariz de ouro. 106
No caso de muitos heróis nacionais, é possível apontar a oca­
sião em que pela primeira vez desempenharam um papel heroico.
Sobreviera uma crise, à qual eles responder�m. No caso de Mao­
mé, é impossível indicar qualquer evento desse tipo. Como vimos,
ele foi por muitos anos um cidadão respeitável, um comerciante
comum. Aos quarenta anos, contudo, estava no centro de uma
sociedade secreta, almejando a reconstrução de todo o tecido so­
cial. Afirma-se que aos quarenta anos, na qualidade de cidadão
mequense, ganhou assento no Senado local. Pode haver verdade
nessa afirmação, embora só se permita uma interpretação vaga a
esse respeito, uma vez que não há registro algum disso em Meca;
quando o Profeta morreu, não se sabe ao certo se tinha 64 ou 65
anos. Supondo-se que tenha guardado para si, durante anos, seu
esquema de reformas, talvez tenha esperado primeiro avaliar as
possibilidades de ingressar no Senado.
Se acaso o Senado se assemelhasse a qualquer outra instância
de debate, o Profeta teria pouca chance de ser bem-sucedido, pois
não era um debatedor preparado; quando se tornou polemista
religioso, recebeu ordens divinas para evitar confrontação pública.
Também não fazia parte do caráter de Maomé tentar métodos fá­
ceis e usuais antes de adotar os incomuns e difíceis. Talvez haja
alguma conexão entre os fatos de seu quadragésimo ano ter sido a
época da aquisição da franquia e o período de sua vida em que

106. Musnad, v, 23ss.

74
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

teve início a missão. Dado que era costume seu só apresentar seus
planos quando já estavam maduros, o papel que ele teria de repre­
sentar devia estar presente em sua cabeça por muitos anos, suge­
rido por conversas com judeus, cristãos e parsis. Essas conversas
lhe revelaram, de forma imperativa, as dificuldades e as injustiças
que clamavam por correção.
Judeus, cristãos, mágicos, sabeus, todos tinham algo que os
árabes não possuíam: um legislador que atuava como comissário
divino. Nenhum dos membros dessas seitas hesitava nem um mo­
mento sequer quando indagado a respeito do código que seguia
ou de quem ele emanava. Moisés, Jesus, Zoroastro, são João Ba­
tista, todos responderiam imediatamente com seriedade. Mas a
quem os adoradores de Hubal, Al-Lãt e Al-'Uzza seguiam? Nin­
guém. Os estrangeiros lhes contavam que eles tinham Abraão
como pai, mas apenas os estrangeiros sabiam alguma coisa a res­
peito de Abraão. Para os mequenses, ele não era sequer um nome.
Aqueles que tentaram descobrir ali uma comunidade abrâmica ou
um código abrâmico atravessaram o mundo em vão. Contudo,
cada nação devia ter um líder. 107 Residia aí a oportunidade para
um Profeta.
Quase nunca é lembrado de que forma um homem se con­
vence da existência de uma necessidade que ele pode ou deve su­
prir. Maomé tinha uma grande experiência nos males do sistema
tribal e na rixa de sangue, e as visitas a países onde a população
como um todo estava sujeita à lei de Deus podem perfeitamente
tê-lo convencido de que os árabes eram atrasados, e de que a reve­
lação de um código divino era uma fase preliminar, indispensável
ao progresso. Esse código estava associado ao Deus dos judeus e
dos cristãos, mas não aos de Meca - Alá, Al-Lãt e Al-'Uzza -,
embora essas divindades aprovassem e desaprovassem vários atos.
Mas o nome do Deus dos judeus e dos cristãos era idêntico ao do
Deus dos coraixitas. A inferência de que havia espaço para um

107. Sura xiii, 8.

75
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

mensageiro de Alá reside nas premissas fornecidas pelos fenôme­


nos. A grandeza de Maomé deve ser encontrada nos dois fatos: a
percepção desse espaço e sua capacidade de dar materialidade a
essa percepção.
A execução disso tudo fecha esse período de quarenta anos ou
mais; seu espírito elevado havia encontrado a saída ascendente
pela qual dava prosseguimento à sua trajetória. Em geral, esse per­
sonagem é mais um inquiridor que encontra do que alguém que
não está à procura. Quando Starbuck desejou reunir casos de con­
versão, teve de procurar seitas nas quais isso acontecia normal­
mente, onde havia homens e mulheres prontos para se converter.
As conversões que estudou assemelhavam-se aos casos em que as
pessoas consideravam essa ideia com inquietação e perplexidade,
até afinal ter consciência clara do que isso representava.
"A vontade não realizada sem dúvida é uma indicação de que
novas conexões nervosas estão germinando; que um novo canal
de atividade mental está sendo aberto; que o ato de centrar forças
(tentando) na direção dada, por meio de uma circulação ampliada
e de uma nutrição crescente, diretamente naquele ponto exato,
pode contribuir para a formação das conexões nervosas pelas
quais a elevada energia potencial, que corresponde à nova percep-
- . ))
çao, consome a s1 mesma.
No presente caso, não podemos dar seguimento a essa explica­
ção psicológica, mas a evidência de que Maomé produziu a con­
versão significa o início de uma nova trajetória; o ato de levar o
indivíduo converso à nova conexão com seus amigos representa
muito para sua proposição. Para a ampliação do alento e a exalta­
ção do nome, o Alcorão acrescenta o perdão do pecado. Casos
normais de conversão apenas acentuam esta última sensação, o
perdão do pecado; a ampliação do alento e a exaltação do nome
são encontradas em casos nos quais a pessoa convertida reúne
talentos fora do normal.
A ideia de reproduzir o papel de Moisés, Jesus ou Zoroastro
não deve ser julgada a partir do ponto de vista moderno, em que

76
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

esses personagens são totalmente a-históricos ou devem ao mito e


à lenda o que têm de invejável em sua história. Para Maomé, os
dois primeiros (talvez não tenha ouvido falar do terceiro) foram
homens extremamente favorecidos por Deus, é verdade, mas ain­
da assim eram carne e sangue, "nutriam-se de comida".
Desempenhar na prática o papel de herói mítico, como ele
constatou depois, era extremamente difícil, mas nunca entrou em
sua cabeça que seus predecessores teriam sido míticos. A ideia de
que um profeta era aguardado na Arábia, de que judeus ou cris­
tãos haviam previsto a chegada de um profeta, pode ser afastada
como vaticinium post eventum. Do mesmo modo, quando o Islã
conquistou a Pérsia, descobriu-se que houvera presságios nesse
país quando nasceu Maomé. Os mequenses, como vimos no caso
das guerras de Fijar, ou na construção da Caaba, não pareciam de
modo algum desolados à espera de um profeta. Eles gozavam a
vida de forma extremada; mesmo quando era iminente a Batalha
de Badr, lutaram bêbados, gastando com prodigalidade; vinho e
música estavam sempre presentes em seus banquetes. A melhor
prova de que desfrutavam da vida pode ser constatada na boa dis­
posição com que lutavam. Manifestavam sua coragem com alegria,
mas não guardavam qualquer hostilidade em relação ao inimigo.
É mais do que evidente que Maomé, no decorrer de suas con­
versas com judeus e cristãos, convenceu-se da verdade geral de
seus sistemas, ou melhor, não lhe ocorreu duvidar deles. Ele com­
partilhava a atitude generalizada da população de Meca para com
seus vizinhos letrados. Essas conversas, porém, chamaram mais
sua atenção para as divisões vigentes, não apenas entre judeus e
cristãos - cada um deles negava que o outro tivesse qualquer base
em suas afirmações -, mas também no interior das seitas cristãs,
que anatematizavam umas às outras. Fato curioso é que, bem
cedo, o fundador dos mórmons também tenha recebido uma pis­
ta das diferenças entre as seitas rivais. 108 Quem estava do lado cer-

108. History of the Mormons, Londres, 1851.

77
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

to, judeus ou cristãos? Se eram os últimos, qual de suas seitas era


a correta? Evidentemente era necessário um novo profeta para
esclarecer esse aspecto, e Maomé, em Medina, afirmava que sua
missão era pôr todos de acordo naquilo que discordavam.
As noções que ele adquirira, contudo, tanto da doutrina judai­
ca quanto da cristã, como foi visto, eram as de um observador
superficial, embora sagaz. Se ele pensava que os cristãos adora­
vam uma deusa e dois deuses, isso estava em oposição ao caráter
teórico de todas as seitas, exceto a do cristianismo nestoriano, no
Oriente. 109 Ele também não deixou de observar que os cristãos
eram mais negligentes em matéria de alimentos que os judeus.
Maomé simpatizava com todas as comunidades em um ou outro
aspecto, mas teria sido um grave erro, algo completamente ina­
dequado a seus planos, se juntar a uma das duas comunidades, ou
se tornar missionário de uma delas.
O cristianismo não podia ser dissociado da sujeição à suserania
de Bizâncio, e Maomé era extremamente patriota para considerar
a possibilidade de introdução de um jugo estrangeiro. Na condi­
ção de converso a uma religião estabelecida havia muito tempo,
ele não pretendia deter o mesmo conhecimento que os membros
mais antigos, nem ser indicado chefe de uma nova congregação.
Ele teria sido compelido, pois, a filiá-la a algum ramo já existente.
É certo que um dogma fundamental de seu sistema era o preceito
pessoal de que ele era o Profeta de Deus. Acordos sobre outros
pontos logo se revelariam inúteis, caso isso não fosse aceito.
Por conseguinte, parece que Maomé julgava esses sistemas so­
bretudo como conjuntos fundados respectivamente por Moisés
e Jesus - ponto de vista do qual eles em geral não são conside­
rados, visto que os homens pensam mais em cada caso do código
do que naquele que o elaborou. Quem não se honra não deve ser
honrado, canta Zuhair. O cristão ou o judeu ambicioso alimenta a
esperança de vir a ser bispo ou rabino, mas olha para o fundador

109. J. M. Robertson, A Short History of Christianity, 1902, p. 1 84.

78
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

do sistema como alguém acima de qualquer possibilidade de com­


petição. No entanto, pensamentos não são impraticáveis, por mais
audaciosos que sejam, e esse árabe concebeu uma ideia que extra­
polava a noção do prosélito do judaísmo ou do cristianismo. Para
o prosélito, ambas as figuras pareciam simplesmente inacessíveis,
colocadas em pináculos acima de qualquer escalada. Para o pon­
derado estudioso da natureza humana, as figuras eram homens, e
ele poderia fazer o mesmo que tinham feito.
Podemos afirmar com certeza que a noção que Maomé tinha
de um profeta provavelmente passou por certa evolução ao longo
de sua trajetória. É possível mesmo acompanhar os passos com os
quais a missão se estendeu de Meca para o mundo; e sabemos que,
antes de chegar a Medina, Maomé talvez não estivesse muito fami­
liarizado com a palavra que designava profeta em h ebraico. Po­
.
rém, havia certas noções relacionadas ao ofício que estavam em
sua cabeça o tempo todo. Um mensageiro de Deus tinha tudo para
ser bem-sucedido. Os mensageiros, como ele devia aprender, eram
cercados de oposição e descrença, mas com o tempo obtinham
êxito. A noção de que Jesus fora crucificado era repugnante para
seu sistema. Ele tinha certeza de que a verdade estava com os ju­
lianistas, ao afirmarem que o traidor Judas é que fora crucificado:
o verdadeiro profeta, natural e certamente, seria o vitorioso. Isso
seria aplicável a todo o conjunto, de Abraão a Maomé.
Por conseguinte, a crença em si próprio foi o dogma que ele
ensinou - em primeiro lugar a si mesmo, depois aos outros. Não
podemos estar tão certos acerca de suas fortes convicções a respei­
to de outros temas. Em todo caso, a acusação de fanatismo, que
lhe foi lançada por diversos escritores, pode facilmente ser esclare­
cida. Razões políticas e humanitárias foram suficientes para fazê­
-lo modificar ou, às vezes, até abandonar cada uma das doutrinas
e práticas sobre as quais assentou a maior parte de sua obra. A
essas vozes os ouvidos dos fanáticos estão fechados, mas o dele
estava sempre aberto. Maomé sempre teve horror a exageros, quer
em práticas religiosas, quer em termos de liberalidade. Por trás da

79
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

máscara do entusiasta havia o senso comum mais sensato e saudá­


vel. Embora tivesse criticado a idolatria, não tinha qualquer re­
pugnância física em relação a ela, coisa muitas vezes exibida por
outros homens. De outro modo, o Beijo da Pedra Negra não teria
sido uma cerimônia da qual Maomé sentia falta quando dela pri­
vado, e à qual preservava com cuidado. Não parecia ter repugnân­
cia por fetiches, mas por representações que, de acordo com al­
guns relatos registrados, achava preocupantes e inquietadoras.
Sua identificação do Deus Alá com o Deus dos judeus e dos
cristãos aconteceu de maneira acidental; foi semelhante aos esfor­
ços de são Paulo para tornar sublime o "Deus Desconhecido" em
Atenas, com a exclusão das demais divindades. Entretanto, os re­
gistros judaicos e cristãos narravam como o Alá de judeus e cris­
tãos havia enviado mensageiros, e um desses mensageiros podia
ser ele. Em muitos casos, a mensagem consistia em subordinar-se
à dignidade do ofício, assim como nós imaginamos o embaixador
de um rei mais como um alto funcionário do que como o portador
de uma mensagem definida. Quanto ao conteúdo da mensagem,
Maomé teve de voltar às Escrituras judaicas e cristãs até que o cur­
so dos acontecimentos fizesse com que ele já tivesse coisas a dizer.
Não podemos sequer arriscar um palpite sobre por que e como
a ideia de desempenhar esse papel chegou à mente desse árabe em
particular, ou, no caso desse árabe em particular, encontrou um
homem com paciência, determinação e ingenuidade para torná-la
um sucesso. Como afirma Carlyle, no tempo de Tubal Caim* ha­
via ferro e água fervente, mas, ao longo desses milênios, ninguém
inventou a máquina a vapor. Os homens desejavam ou a inge­
nuidade para examinar as possibilidades das coisas ou a paciência
para tornar suas descobertas frutíferas. A filha de Abu Jahl, um dos
principais oponentes de Maomé, declarou que seu pai poderia ter

* Tubal Caim: personagem mencionado no Velho Testamento. Descendente de Caim,


segundo a Bíblia, teria sido o primeiro homem a fazer uso do cobre e do ferro em
construções. [N.T.]

80
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

sido o profeta caso desejasse, mas ele não estava disposto a criar
sedição. 110
Na realidade, houve profetas que despontaram na Arábia antes
de Maomé. No Iêmen, entre os himaritas, um certo Samaifa tinha
imitado a façanha do velho Zamolxis: escondeu-se durante um
tempo e depois reapareceu, quando 100 mil homens prostraram­
-se perante seu Senhor em ascensão.1 1 1 Lendas que talvez tenham
algum germe de verdade informavam como, pouco tempo antes
de Maomé, um certo Khalid, filho de Sinan, foi enviado para pre­
gar na tribo de 'Abs, e certo Hanzalah, filho de Safwan, entre ou­
tros habitantes da Arábia. Também em Yemamah, um tal Mas­
lamah deu um sinal de que era enviado de Deus: introduziu um
ovo inteiro no gargalo estreito de uma garrafa até o fundo. 112 Uma
vez que Yemamah abastecia Meca de milho, a tradição que apre­
senta Maomé como pupilo de Maslamah deve ter algum funda­
mento. Mas Maomé tinha muito mais a ensinar a Maslamah do
que a aprender com ele. As aspirações deste último mal iam além
das de um mágico; seu pupilo, muito menos capaz de mistificar,
pensava em como um profeta poderia se tornar chefe de Estado.
Quando o plano se mostrou um sucesso garantido, outros se
sentiram inclinados a adotá-lo em seu próprio benefício. Para
Maomé, os clamores desses homens não pareciam merecer con­
sideração; ele os tratava como havia sido tratado, no início, pelos
cidadãos de Meca. O desejo de que todas as pessoas do Senhor
fossem profetas, provavelmente jamais sentido por alguém que o
tenha proferido, não era expresso nem mesmo por ele. Se os ho­
mens discordassem de seu segundo dogma, o seu próprio aposto­
lado, Maomé divisava razões engenhosas para provar que também
não concordavam com o primeiro, a Unidade de Deus. Por isso
é lícito supor que ele con�eria maior importância ao segundo.

1 10. Azraki, 192; Wakidi ( W.), 343.


1 1 1 . Isabah, i, 1 .003.
1 12. O fato de Maslamah ter usado o título de Rahman antes de Maomé ter deixado
Meca é atestado por Wakidi ( W.), 58; ver também IRAS, 1903.

81
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

Se um profeta não era uma pessoa carregada de obrigações dolo­


rosas, mas um soberano privilegiado, com direitos extraordiná­
rios, a unidade do profeta de Deus não estava menos assegurada
que a unidade de Deus.
Os ditos registrados do Profeta mostram que ele jamais com­
prometeu essa elevada dignidade com qualquer humildade - ge­
nuína ou afetada - do tipo encontrado nos discursos dos que
pregavam uma doutrina sem ter ambições políticas. ln dieta que
lhe são atribuídos, ele se declarou o melhor em caráter e o mais
perfeito em beleza da espécie humana. Sua linhagem era a mais
nobre,1 13 consistindo integralmente em homens bem-nascidos e
mulheres castas. Era o mais eloquente de todos os que tinham
pronunciado a característica letra árabe dãd. No Alcorão, aponta
repetidas vezes que sua presença é um privilégio, e que ele é uma
comprovação ou uma corporificação da misericórdia de Deus
para com o mundo. Se chegou a se referir a si mesmo num estilo
menos exaltado, isso aconteceu quando algum revés ou alguma
censura pelo que se recusou a aceitar o levou a dizer a seus segui­
dores que eles tinham uma expectativa grande demais. É cabível,
a partir disso, supor que muitos motivos podem ter contribuído
para a adoção do papel de profeta. O delírio pela distinção pessoal,
que o Alcorão coloca na boca dos adversários de Noé1 14 - ou,
antes, permitam-nos afirmar, por um lugar na comunidade de
onde ele pudesse reforçar suas ideias sobre os demais -, era um
deles; poderemos apreciar e admirar melhor a habilidade com a
qual Maomé guiava seu caminho se tivermos claro o destino que
ele então assumia.

1 13. Musnad, iv, 107, 166.


1 14. Sura xxiii, 24.

82
3

O ISLÃ COMO SOCIEDADE SECRETA

No 39° ano de vida, Maomé foi apresentado a - ou tornou-se


íntimo de - Abu Bakr, filho de Abu Kuhafah, mercador de roupas
dois anos mais novo que ele. Abu Bakr tinha algumas qualidades
como homem de negócios, razão pela qual amealhou considerável
fortuna; como seu pai era cego, ele se tornou o chefe da família.
Era um homem de natureza gentil e amável, maneiras encantado­
ras e presença de espírito; embora por vezes empregasse lingua­
gem obscena, sua companhia era muito requisitada. Dado que as
tribos de Meca, como outros árabes, em geral se reuniam em cír­
culos, à noite, e algumas senhoras' promoviam reuniões nos pá­
tios de suas casas, na cidade, sempre havia ocasião para conversar.
Abu Bakr era um adorador de heróis, se é que alguma vez isso
existiu. Possuía uma qualidade comum nas mulheres, embora vez
por outra presente nos homens: a disponibilidade para acompa­
nhar o destino de alguém com cega e completa devoção, sem ja­
mais questionar nem olhar para trás. Ter acreditado muito, para
ele, era razão para acreditar ainda mais. Maomé, arguto avaliador
de homens, percebeu essa qualidade e fez uso dela.
Um ano depois que os dois se aproximaram, aconteceu o cha­
mado de Maomé, e o proselitismo passou a ser feito não mais
por ele, mas por Abu Bakr. Não se sabe se Maomé tinha sondado
alguém antes para verificar se poderia encontrar discípulos caris­
máticos. O certo é que descobriu em Abu Bakr um homem capaz
de acreditar que um de seus compatriotas recebera uma mensa­
gem de Deus, a qual fora incumbido de acolher e difundir. É tão
mais fácil convocar os homens para reconhecer os clamores de
outro do que o seu próprio clamor que, na história final do Islã,

1. Azraki, 467.

83
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

os mahdis (Guiados) mais bem-sucedidos permaneciam escon­


didos, embora um ou outro seguidor proclamasse seu advento.
Em geral, porém, esses casos eram de conspiração, na qual cada
parte antecipava alguma vantagem definida no arranjo. No caso
de Abu Bakr, não se pode pensar em conspiração. Maomé costu­
mava afirmar que, se tivesse de fazer de algum homem seu confi­
dente ( khalil), esse homem seria Abu Bakr - apesar de ele não ter
tomado confidente algum. Embora Abu Bakr fosse um ajudante
inestimável, não era um cúmplice. Jamais esqueceu a distância que
havia entre ele e seu senhor.
Quando um homem afirma ser capaz de produzir mensagens
de outro mundo, deve fazê-lo de tal modo que a forma correspon­
da à origem sobrenatural. O problema que o médium enfrenta
é produzir uma mensagem da qual ele não pareça ser a origem,
e Maomé teve de resolver o problema tanto quanto qualquer
médium moderno. Quando as revelações ocorriam em público,
parece que, instintivamente2 - ou talvez seguindo o exemplo dos
kahins (poetas) -, ele adotou um processo comum aos profetas
de todas as eras, e mesmo à sibila:
talia fanti
Ante fores subito non voltus, non color unus,
Non comptre mansere comre; sed pectus anhelum,
Et rabie fera corda tument: majorque videri
Nec mortale sonans, adflata est numine quando
Jam propiore dei.*

Maomé caía em violento estado de agitação, sua face ficava lí­


vida, 3 e ele se cobria com um manto, do qual emergia depois,

2. Uma das principais autoridades nas tradições do Profeta às vezes introduzia seus re­
gistros a respeito dos discursos de Maomé com performance similar. Tabari, Comm.,
xii, 9.
* "Súbito, às portas, o semblante muda, a voz não mais uma, decomposta a cabeleira;
colérico incha-lhe o peit0; arqueja e ofega. Maior parece, em tom mortal não soa,
quando a bafeja mais perto do nurne." Versos de Eneida, de Virgílio, livro IV. [N.T.]
3. Tabari, Comm., xxviii, 4.

84
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

suando copiosamente,4 com uma mensagem pronta. Em certas


ocasiões, a mensagem articulada parece ter sido precedida por ou­
tra, não articulada, letras do alfabeto que não formavam palavras,
assemelhando-se, curiosamente, aos motivos iniciais de uma tá­
bula. 5 Temos motivos para acreditar que, em algum momento,
Maomé teve ataques epilépticos. Por isso os fenômenos que acom­
panhavam esses ataques podem ter lhe sugerido a forma a ser ar­
tificialmente reproduzida depois. O processo descrito, às vezes
acompanhado por roncos e vermelhidão do rosto,6 logo acabou
por ser reconhecido como o modo normal de inspiração, e poderia
ser produzido sem qualquer preparação anterior. O Profeta podia
receber uma comunicação divina como resposta imediata a uma
questão que lhe fora endereçada enquanto comia. Após manifestá­
-la daquela maneira, prosseguiria até acabar o pedaço que tinha na
mão quando fora interrompido.7 Ou a revelação vinha em respos­
ta a uma pergunta a ele dirigida quando estava no púlpito.8 Em
revelações que parecem ter ocorrido muito cedo, Maomé era reco­
nhecido como "o homem do manto" ou "o homem que está enro­
lado". Fosse qual fosse a ocasião em que esse processo se dava, o
Profeta parece tê-lo mantido sob controle do início ao fim.
As outras questões que o médium devia resolver referiam-se ao
assunto da revelação. Tão logo ficou à frente de um Estado, Mao­
mé tinha muita coisa a dizer, mas, no começo de sua carreira, o
tema não era fornecido pelas circunstâncias. Os médiuns, que são
colocados sob a mesma regra, atuam em plano similar. Eles põem
na boca de Deus ditos que em geral já são reconhecidos como

4. Bouveret, Les Sueurs morbides (Paris, 1 890) , afirma: "Adamkiewicz mostrou que a
respiração pode ser provocada por incitação artificial ou voluntária de músculos e
nervos."
5. Nõldeke abandona sua engenhosa explicação das letras místicas como assinaturas de
MSS, nos Sketches, em favor de teoria semelhante à apresentada.
6. Musnad, iv, 222; Bouveret, 47: ''A pele pode enrubescer simultaneamente" quando a
transpiração resulta de violenta emoção.
7. Musnad, vi, 56.
8. Ibid., iii, 2 1 .

85
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

Dele - isto é, versos do Velho ou do Novo Testamento. Sendo


conhecidos como a Palavra de Deus, ninguém se compromete
com a repetição. Quando Maomé, forçado pelas circunstâncias a
produzir revelações em quantidade crescente, seguiu esse método
seguro, pôde declarar que era um milagre o fato de ter se familia­
rizado com o conteúdo de livros que jamais lera. Quando seu es­
tilo de pregador granjeou-lhe, com toda a justiça, o aplauso de
amplas audiências, pôde de algum modo mudar a argumentação
e declarar que o milagre estava em sua eloquência sem rival.
Mas isso é antecipar. Os primeiros fragmentos da revelação,
que foram comunicados a Abu Bakr, parecem ter sido imitações
de discursos dos pregadores revivalistas, que Maomé presenciara
em suas viagens. Como vimos, há uma tradição segundo a qual ele
ouvira sermões "do mais eloquente dos árabes", Kuss, filho de
Sa'idah, aquele que fez os homens lembrarem a transitoriedade
da vida e inferirem a existência do Criador a partir dos fenômenos
do mundo. Os assuntos com os quais esses pregadores lidavam,
sem dúvida, eram o Juízo Final, as dores do fogo do inferno e a
necessidade de adorar Alá mais que os ídolos (temas comuns dos
revivalistas cristãos). Além do mais, a experiência mostra que as
advertências sobre a proximidade do fim do mundo logo encon­
tram uma audiência.9 Aqueles que descrevem os primeiros discur­
sos do Profeta referem-se a eles como uma advertência aos me­
quenses sobre a punição divina: o orador compara-se a alguém
que dá o alarme quando o inimigo está atacando. 10 Como pode­
mos hoje perceber, essa doutrina não deve ser dissociada da cren­
ça na ressurreição, e os traços distintivos dos ensinamentos de
Maomé, opostos às ideias do paganismo, eram, do início ao fim, a
doutrina de uma vida futura e da unidade de Deus. Ao que parece,
a oratória árabe foi construída sobre alguma espécie de rima, e
Maomé a imitava, embora pouco entendesse de sua natureza.

9. History of the Mormons, Londres, 1851.


10. "Eu sou o nu que dá o alarme'', Alif-Bã, i, 133.

86
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Contra a suposição de que Maomé mistificava deliberadamen­


te seus contemporâneos, pode-se recorrer à afirmação, tornada
tanto nos tempos antigos quanto nos modernos, sobre a lisura de
seu caráter, que lhe fez merecer o nome de "O Confiável': Por isso
a história de que ele treinara urna pomba para bicar grãos em seu
ouvido provocou amarga indignação em Carlyle, entre outros. Na
verdade, a tradição muçulmana não registra ocasião alguma em
que ele tenha recebido revelações de pombos.* E mais. Estão regis­
tradas muitas cenas em que ele parece ter estudado efeitos teatrais
de tipo rnenós ingênuo. Em urna sala vazia, declarava não conse­
guir um lugar para sentar, pois todos os assentos estavam ocupa­
dos por anjos. Desviou discretamente seu olhar de um cadáver
para evitar a visão de duas huris** que tinham descido do paraíso
a fim de dar atenção ao "marido". Há mesmo razão para supor que
às vezes ele deixava seus colaboradores atuarem no papel de Ga­
briel, ou permitiu que seus seguidores identificassem algum de
seus interlocutores corno esse anjo.11
As revelações que Maomé produziu encontram estreito parale­
lo com aquelas dos rnédiuns modernos, estudadas na história do
espiritualismo por F. Podrnore, cujas pesquisas lançam grandes
dúvidas sobre a afirmação de que um homem honrado não misti­
ficaria seus amigos; também deixam transparecer que a convicção
produzida pelo desempenho de um médium raramente é abalada
por urna explicação mais clara. O autor observa, em relação a um
dos rnédiuns cuja trajetória descreve, que ele desfrutava da amiza­
de e da perfeita confiança de seus amigos, e isso foi sedimentado
pelas emoções religiosas inspiradas pelos discursos que fazia em

* Dizia-se que Maomé adestrara uma pomba para bicar ervilhas em suas orelhas, a fim
de parecer que o Espírito Santo, que a pomba classicamente representa, sussurrava­
-lhe ao ouvido. [N.T.]
** As huris são belas virgens de olhos negros que estão no paraíso esperando para dar
prazer aos fiéis, sobretudo aos homens que morrem como mártires. [N.T.]
1 1 . Ibn Sa'd II, ii, 52. Um certo Harithab Ibn Al-Nu'man declarou ter visto Gabriel duas
vezes.

87
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

transe; o médium podia apelar para um caráter imaculado, uma


vida ativa e honrada. A posse dessas vantagens ajudava muito o
médium a produzir crença em sua sinceridade. Todavia, o histo­
riador do espiritualismo, embora inseguro acerca de como expli­
car todos os fenômenos, e reconhecendo as dificuldades que sua
exposição deve enfrentar, tende a atribuir tudo que é maravilhoso
no desempenho do médium a truques de ilusionismo.
Claro é que Maomé possuía as mesmas qualidades que Pod­
more enumera e, por conseguinte, ganhou adeptos. Não obstante,
o processo de revelação era tão suspeito que um dos escribas em­
pregados para registrar as possessões ficou convencido de que
se tratava de impostura e, por isso, afastou-se do Islã.12 Mas, para
aqueles que estudam simplesmente a efetividade política das reve­
lações sobrenaturais, a sinceridade do médium é uma questão de
menores consequências.
Consideremos, então, que Maomé assumiu o papel de médium
em decorrência da receptividade de Abu Bakr. 13 Estava na perso­
nalidade do Profeta esperar com paciência antes de dar qualquer
passo, até que chegasse o momento favorável. Mas esse novo papel
não podia ser adotado assim, de repente - impunha-se um perío­
do de transição entre a velha e a nova vida. Nessa transição, mui­
tos médiuns passam por uma fase de solidão. Assim, Joseph Smith,
fundador da seita mórmon, vagou por uma floresta e lá, sob o
controle dos anjos, revelou o Livro de Mórmon. O vidente de
Poughkeepsie, em março de 1844, "errou pelo país, sob a orienta­
ção de seu Espírito guia, e caiu num transe espontâneo, durante
o qual Galen e Swedenborg apareceram para ele num quintal de
igreja e o instruíram acerca de sua mensagem para a humanidade':
A obra que produziu, The Principies of Nature, enunciada mais
tarde, quando ele estava em transe, embora não tenha sido tão

12. Musnad, iii, 12lss.


13. Nõldeke, ZDMG, lii, 16-21, estabelece a seguinte ordem dos conversos: Khadijah, Zaid,
Ali, alguns escravos, Sa'd, filho de Abu Wakkas, e Abu Bakr, com outros coraixitas.

88
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

bem-sucedida quanto o Alcorão, teve 34 edições em trinta anos,


e ainda é citada14 por alguns como uma revelação divina.
Parece ter-se confirmado que a carreira profética de Maomé
começou com um período de solidão, embora haja alguma incon­
sistência entre nossos especialistas quanto aos detalhes. Durante
determinado mês do ano - e esse mês supostamente seria o do
Ramadã, estereotipado depois como o mês de jejum do Islã -, os
mequenses praticavam um rito chamado tahannuth, cujo signifi­
cado exato é desconhecido; aparentemente, tratava-se de algum
tipo de estrita abstinência (ascetismo). Durante esse período, era
costume de Maomé retirar-se para uma caverna no monte Hira, a
cerca de três milhas de Meca, na direção de Taif. Parece que ele
levava a família, ainda que provavelmente não praticasse a adora­
ção diária de Al-Lãt ou Al-'Uzza15 na época. Além do mais, um
mês devotado à observância do jejum era seguido de aspirações a
uma forma de religião mais espiritual do que o paganismo roti­
neiro. Então, em algum momento desse mês, tendo ele descido
sozinho até o centro do vale, ocorreu a teofania (ou seu equivalen­
te) que deu início à trajetória de Maomé como mensageiro divino.
A ideia de Joseph Smith era comunicar ao mundo o conteúdo
de certas tábuas escondidas, acessíveis apenas a ele e escritas numa
linguagem que só ele poderia traduzir, "pela graça de Deus': A de
Maomé era muito semelhante. Ele fora autorizado - ou, de acor­
do com um relato, forçado - a ler o assunto contido numa tábua
bem guardada, sendo até então incapaz de ler ou escrever. Maomé
alude ao milagre pelo qual estava habilitado a ler sem ter apren­
dido - o que talvez lhe tenha sido sugerido pelo milagre similar
de Jesus de Nazaré -, 16 mas não insiste nisso. Sua ideia de que o
acesso à tábua guardada lhe fora permitido de forma apenas oca­
sional era melhor que a de Smith, porque o capacitava a legislar

14. Contemporary Rev., out. 1903.


1 5. Musnad, iv, 222.
16. Sura xxix, 47.

89
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

quando surgisse a ocasião. Nas tradições que se apoiam nesse


tema, a comunicação é feita por Gabriel, o anjo que, no Novo Tes­
tamento, se encarregava das mensagens; mas, na teofania registra­
da pelo Alcorão, parece que o próprio Deus descia e, numa distân­
cia inferior a dois disparos de arco,17 dirigia-se ao Profeta. Numa
segunda ocasião, era visto por Maomé "no lótus do extremo, onde
fica o jardim do alojamento". A substituição posterior de Deus por
Gabriel provavelmente se deve ao desenvolvimento da teologia
do Profeta.
Nunca se conhecerá mais que um vago esboço do começo des­
sa revelação. O relato mais antigo mostra o Profeta tão alarmado
com sua experiência, tão temeroso de tornar-se um kahin, que
quase comete suicídio. Khadijah, encontrando-o, conforta-o com
a certeza de que ele iria se tornar o nab'f (profeta) nacional, pala­
vra que ele talvez mal conhecesse. Ela então consulta seu parente
instruído, Warakah, filho de Naufal, que se mostra igualmente
encorajador. Suas palavras teriam sido "Kaddosh, Kaddosh, este é
o Nomos Maior': As primeiras palavras em hebraico significam
"sagrado"; a penúltima, grega, quer dizer "lei". A natureza curiosa
e híbrida das expressões faz supor que haja algo de verdadeiro na
história; mas o fato de que a exclamação não coubesse na ocasião
em que a frase supostamente foi proferida foi destacado pelos co­
mentaristas, que atribuem a "lei" o significado de mensageiro do
rei, aplicando a palavra a Gabriel.
Segundo outro relato, Khadijah não consultou Warakah, mas
um escravo cristão, que reconheceu o nome Gabriel. Warakah não
figura na narrativa,18 por isso seria imprudente afirmar que a en­
trevista entre ele e Khadijah de fato tenha ocorrido. Sabe-se que
um parente de Khadijah era iluminado, e a lenda no mínimo deve­
ria dizer que ela reconheceu a missão do marido. Não podemos

1 7. O original é obscuro.
18. Em Usd al-ghabah, i, 207, consta que ele testemunhou a tortura de um dos seguido­
res de Maomé.

90
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

atribuir qualquer valor histórico à tradição de que Maomé viu Wa­


rakah num sonho depois da morte deste, em vestes brancas, o que
significa um lugar no paraíso.19 Porém, não é improvável que Kha­
dijah tenha sido preparada, pelas especulações e pelos estudos de
seu primo, para admitir a ruptura com a religião dos mequenses.
Além do mais, no caso de Khadijah, podemos esperar a priori
que a aflição materna em relação aos filhos mortos contribuísse
para o processo de conversão, e isso é confirmado por uma histó­
ria contada nas memórias de Ali.20 Perguntava ela ao marido: se os
idólatras fossem para o inferno, seus pais estariam lá? Maomé res­
pondeu que sim; ao ver que a esposa parecia sofrer, assegurou-lhe
que, se pudesse ver os pais em sua verdadeira natureza revelada,
ela também os detestaria. Em seguida, Khadijah indagou se seus
_
filhos mortos também tinham ido para o inferno. A essa pergunta,
o Profeta produziu uma revelação: "E aqueles, então, que acre­
ditam e são seguidos por sua semente na fé, a eles juntaremos
essa semente."21 É uma resposta brilhante, pois dessa maneira a
mãe enlutada se certificava de que a felicidade eterna de seus filhos
mortos tornava-se condição de sua crença. Portanto, lhe era dada
a possibilidade não apenas de recuperá-los como também de dar­
-lhes acesso ao Jardim das Delícias. Não admira que Khadijah te­
nha se devotado de corpo e alma à missão e recebido a promessa
de um lugar muito especial no paraíso. 22
Fica evidente que algumas das ordenações do Islã devem ter
começado no momento em que as revelações foram comunicadas
a Abu Bakr e Khadijah. Todavia, elas não eram de nenhum modo
suficientes para advertir as pessoas sobre os horrores do dia do
Juízo Final. Alguma resposta devia ser dada à pergunta: "O que
devo fazer para ser salvo?" A fim de que a resposta pudesse ser
satisfatória, ela devia envolver certas injunções. Parece ter havido

19. Musnad, iv, 68.


20. Ibid., i, 1 35.
21. Sura lii, 2 1 .
22. Musnad, iv, 356.

91
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

ordens no sentido de lavar as roupas e evitar os ídolos. A primeira


delas era um simples ato simbólico - para muitas raças, as roupas
são quase idênticas àqueles que as envergam.23 A segunda ordem
era difícil para uma comunidade em que as pessoas sabiam tudo
umas das outras; deduzimos, das histórias que nos chegaram, que
a adoração de ídolos era um aspecto da vida cotidiana.
A idolatria não podia ser facilmente extirpada dos lares, por
isso o segredo da missão do Profeta devia ser revelado quase si­
multaneamente aos dois jovens que estavam na casa de Khadijah:
Zaid, filho de Harithah, o filho adotado; e Ali, primo do Profeta,
filho de Abu Talib, de quem Maomé se comprometera a tomar
conta, pois o tio tinha dificuldade em sustentar sua numerosa fa­
mília. 24 De acordo com o relato mais fidedigno, Ali tinha cerca
de dez anos e Zaid era dez anos mais novo que o Profeta.25 Mas,
como teremos ocasião de ver, ele estava inteiramente sujeito à au­
toridade de Maomé.
Segundo consta, as revelações cessaram um tempo depois de
começar, fenômeno que pode ser comparado com o fato percebi­
do por Starbuck nos casos de conversão que estudou. Ele mostra
que os períodos de recaída completa são poucos, mas os de inati­
vidade e apatia são numerosos. Credita-se a Khadijah o consolo
do Profeta durante a suspensão temporária das visitações divinas.
Talvez caiba atribuir isso ao fato de que a resoluta mulher se man­
teve fiel durante os anos em que a paixão principal de Maomé era
mais forte, compelindo-o a persistir no rumo que havia tomado.
Na verdade, porém, ele foi instado a prosseguir por Abu Bakr, que
imediatamente começou o proselitismo. Sem dúvida, como era
desejo do Profeta, a missão era conduzida em profundo sigilo.
Abu Bakr nada disse sobre salvação para as pessoas nas quais tinha
confiança e das quais era capaz de obter alguma vantagem. Porém,

23. Wellhausen, Reste, 196.


24. Nõldeke, ZDMG, lii, 19, considera isso ficção.
25. Ibn Sa'd, iii, 30.

92
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

nem ele nem o Profeta eram impacientes, e ficaram satisfeitos,


porque o primeiro ano de propaganda de Abu Bakr produzira três
conversos. 26
Há forte razão para pensar que eles foram auxiliados, desde o
início, por um escravo abissínio, Bilal, sobre cujos antecedentes
gostaríamos de saber mais. Afinal, Omar declarou que Bilal repre­
sentava um terço do Islã,27 e, a menos que estejamos equivocados
a respeito do significado da frase, um adepto posterior costumava
chamar-se um quarto do Islã,28 porque, quando visitou Maomé
em Ukaz, encontrou-o seguido por um homem livre, Abu Bakr,
e um escravo, Bilal. A tradição não informa de quem era o escravo.
À espera de informações mais precisas, estamos inclinados a atri­
buir a Bilal alguns dos ingredientes abissínios nas produções do
Profeta.29 Depois de certo tempo, ele foi comprado e emancipado
por Abu Bakr.
Não ficaram muitos registros a respeito de como Abu Bakr pro­
cedia. Há contudo uma história que deve ser verdadeira e exem­
plar. Othman, filho de 'Affan, seis anos mais novo que o Profeta, era
um mercador de roupas que tinha por sócio um primo de Mao­
mé.30 Ele também fizera alguns negócios como agiota, adiantando
somas para empreendimentos de cujos lucros ficaria com a meta­
de.31 Mostrava-se extraordinariamente astuto em assuntos de di­
nheiro.32 Sua irmã era costureira e se casara com um barbeiro. 33
Othman era de uma beleza fora do comum, cheio de encanto pes­
soal e dignidade. Nem Maomé se aventurava a aparecer despido
diante dele;34 tampouco permitia que suas escravas batessem tam-

26. Isabah, ii, 162.


27. Jahiz, Opuscula, 58.
28. Musnad, iv, 385.
29. Enumeradas por Wellhausen, Reste, 232.
30. Isabah, i, 1 .036.
3 1 . Ibn Sa'd, iii, l l l .
32. Wakidi (W.), 23 1 .
3 3 . Isabah, i , 714.
34. Muslim, ii, 234.

93
DAVID SAMUEL MARGOLI OUTH

bor em sua presença. 35 Othman não era um homem de luta, como


provou sua história subsequente; foi displicente em um campo de
batalha, abandonou outro e foi morto como um padre, lendo de
forma ostensiva o Alcorão. Amava a bela filha de Maomé, Rukayyah,
e ficou mortificado ao saber que ela ficara noiva de outro homem.
Quando recebeu a triste notícia, foi derramar seus lamentos nos
ouvidos amigos de Abu Bakr. Em troca, este lhe perguntou se não
achava que os deuses de Meca eram animais e pedras, questão que
pode parecer não muito adequada. Othman percebeu que, se op­
tasse por declarar os deuses de Meca merecedores de desprezo e
reconhecer que Maomé tinha a missão de suprimi-los, a filha do
Profeta ainda poderia ser sua. Nesse momento, Maomé passou pe­
los dois. Abu Bakr sussurrou algo em seu ouvido e a situação foi
arranjada. Othman tornou-se crente e casou-se com Rukayyah.
Nesse caso, o processo de conversão foi bastante revelador, não
oferecendo qualquer dificuldade adicional para o leitor. Em cada
um dos outros casos, o missionário arguto deve ter percebido algu­
ma predisposição, embora muitas vezes não saibamos qual era ela.
Abu Bakr provavelmente estava ciente de que as mulheres são mais
sensíveis à conversão que os homens, os residentes estrangeiros
mais que os nativos,36 os escravos mais que os homens livres, as
pessoas em aflição mais que aquelas que vivem um período de
prosperidade e afluência. Quando o Islã foi descoberto, o caráter
humilde de muitos dos seguidores de Maomé foi um ponto crucial
para os aristocratas mequenses, que pediram que o Profeta se li­
vrasse daquela escória antes de estabelecer qualquer conversação
com ele. Na verdade, o Alcorão reconhece tão claramente que os
seguidores do Profeta vinham da camada mais baixa da popu­
lação37 que deve haver sérias dúvidas acerca das tradições iniciais
conflitantes com essa afirmação. A fraseologia empregada, "à pri-

35. Musnad, iv, 353.


36. Wellhausen, Reste, 22 1 .
37. Sura xi, 27.

94
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

meira vista, o pior de nós': é curiosamente lúcida. Mais tarde, quan­


do foram forçados a aderir ao Islã, os aristocratas já estavam acos­
tumados a censurar seus novos irmãos quanto à condição anterior.38
Muitos homens reivindicaram a honra de ser o primeiro con­
verso de Abu Bakr, mas o tempo pelo qual a missão permaneceu
em segredo torna difícil avaliar suas reivindicações. Quando se
perguntava aos homens o que os levara a Maomé, eles estavam
prontos a dar respostas fantásticas, e talvez tenham esquecido o
motivo real, ou preferido omiti-lo. Khalid, filho de Sa'id, o quarto
ou quinto converso, sonhou que seu pai o empurrava para um
abismo cheio de fogo quando um homem o salvou. Ele pediu a
Abu Bakr que interpretasse o sonho.39 Este o conduziu até Maomé,
que estava então em retiro em Ajyad, nas proximidades de Safa.
Khalid reconheceu em Maomé seu salvador e se converteu.
Os homens realmente sonham? Flammarion e Myers respon­
deriam que sim. Abdallah, filho de Mas'ud, cliente e servo, decla­
rou que, quando alimentava o rebanho de 'Ukbah, filho de Mu'ait,
mais tarde destacado opositor de Maomé, este e Abu Bakr - que
caminhavam a certa distância - lhe pediram uma tigela de leite.
Abdallah foi convertido ao perceber a teta da cabra se avolumar e
contrair-se de acordo com a vontade do Profeta.40 Othman, filho
de Maz'un,41 homem de mente ascética, um dia foi se sentar perto
do Profeta; este olhou fixamente para o paraíso e em seguida
olhou para determinado ponto, repetindo o gesto várias vezes.
Perguntado sobre o significado daquilo, respondeu que fora visi­
tado por um mensageiro de Deus, que lhe dissera que pregasse
justiça, bondade, castidade etc. Othman acreditou.
Várias pessoas declararam que a insatisfação com as crenças
pagãs as levara ao Profeta, e que, se houvesse um traço desse sen-

38. Wahidi, 1 1 8.
39. Abu Bakr aparece diversas vezes como intérprete de sonhos. Wellhausen ( W.), 14.
40. Musnad, iv, 462.
4 1 . Ibid., i, 3 1 8.

95
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

timento num homem, Abu Bakr não o deixaria escapar. Esse con­
verso pode ter sido Sa'id, filho de Zaid Ibn 'Amr; seu pai rejeitara
o politeísmo e a idolatria antes de a missão de Maomé começar,
sem, contudo, adotar o judaísmo ou o cristianismo. A conversão
de Sa'id foi prematura, mas ele não figura entre os prosélitos de
Abu Bakr. O converso também pode ter sido 'Abd al-Ka'bah (servo
da Caaba), filho de 'Auf, rebatizado 'Abd al-Rahmãn, pois a Caaba
ainda não se dissociara do paganismo. 42
Esse homem era mercador, sócio de um certo Rabãh, chamado
por seus novos amigos de "O Confiável". Ele tinha raro talento
para fazer dinheiro, o que o tornava um homem generoso. Anos
depois, quando ele43 e os outros emigrantes chegaram a Yatrib sem
nada, Rabãh pediu uma quantidade suficiente de bens que pudes­
se ser exibida no mercado. Lá chegando, teve condições de prospe­
rar, embora não dispusesse de qualquer capital.44 Consta que ele
era um completo cético antes da conversão, e depois desaprovou a
luta pela causa do Islã, mesmo quando já havia começado, mas
não era inferior a ninguém em coragem. Um homem assim, oito
anos mais jovem que Abu Bakr, podia não parecer material pro­
missor, mas talvez tenha ficado sujeito à influência dele. É possível
que uma mulher estivesse envolvida nesse processo.
Havia em Meca um certo Mikdad, que fugira de sua própria
tribo por ter cometido assassinato e foi recebido pelos Kindah.
Também entre eles houve derramamento de sangue, e então
Mikdad fugiu para Meca, onde foi adotado por um homem cha­
mado Al-Aswad, da tribo da mãe de Maomé. 'Abd al-Ka'bah acon­
selhou-o, numa conversa, a se casar, mas não lhe concedeu a mão
de sua filha. Mikdad acabou encontrando consolo em Maomé,
que lhe entregou a filha de seu tio Zubair, já falecido, reproduzin­
do as condições, supõe-se, pelas quais Othman foi levado a se con-

42. Não se sabe ao certo o nome original; outros o dão como servo de 'Amr.
43. Alif-Bã, i, 437.
44. Isabah.

96
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

verter. Os passos seguintes que levaram à conversão de 'Abd al­


-Ka'bah são desconhecidos. Havia outro converso com Mikdad,
'Utbah, filho de Ghazwan, também cliente e provavelmente pobre.
Três homens figuram entre os primeiros conversos: Al-Zubair,
filho de 'Awwam, Sa'd, filho de Abu Wakkas, e Talhah, filho de
'Ubaidallah. O primeiro, de acordo com as diferentes tradições,
tinha oito, dez ou dezessete anos na ocasião. Era primo do Profeta,
filho de um comerciante de milho, em treinamento para se tomar
açougueiro. Afirma-se que ele recebera um duro tratamento em
casa. Se sua conversão ocorreu mesmo nesse período, talvez ele
fosse companheiro de Ali, iniciado nos mistérios que ele poderia
não revelar, pois, como vimos, suas casas eram ligadas.
Talhah, sem dúvida, era adulto e revelou ter sido encaminhado
a Maomé por um monge que encontrara quando viajava a negó­
cios para a Síria. Se devemos atribuir algum valor a essa afirmação,
ela provavemente significa que ele ouvira o paganismo árabe ser
ridicularizado pelos seguidores do credo da moda, e embora suas
manobras não surtissem efeito em muitas mentes, algumas se dei­
xaram impressionar. Mais tarde, Talhah ficou célebre por sua libe­
ralidade com o dinheiro.45
Sa'd reivindicava ter passado uma semana inteira com o tercei­
ro muçulmano, e nesse caso teria sido o primeiro converso de Abu
Bakr. Ele era um fabricante de flechas, e acredita-se que seu sangue
tenha sido o primeiro a ser derramado pela nova causa. Tinha
dezessete anos quando se converteu.
Todo converso, ao ser trazido a Maomé, demonstrava alguma
repugnância, exceto Abu Bakr. Isso foi reconhecido mais tarde
pelo Profeta, mas ele não revelou o que desagradava os recém­
-chegados. Não dispomos de registro algum dos procedimentos
adotados nessas cenas solenes. No máximo, sabemos que o Profe­
ta ensinava os prosélitos a orar. Mais tarde, no entanto, ver o Pro­
feta significava que o prosélito estava pronto para jurar lealdade e

45. Ghurar al-Khasa'is, 245.

97
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

para abster-se de certos atos imorais, pois, se os cometesse, iria


sofrer punição nesta vida, caso tencionasse escapar de castigos no
futuro;46 num período ainda posterior (no caso dos homens), o
neófito teria de se comprometer a lutar contra todas as nações até
que elas adotassem a nova religião. Não podemos duvidar de que
os prosélitos, desde logo, comprometiam-se a alguma obrigação
séria, a exemplo daqueles que ingressavam em outras sociedades
secretas.
Em geral, essas obrigações não constituem desempenhos de­
finidos no presente, mas disposição para realizá-los no futuro.
Parece que desde o início o Profeta instituiu irmandades entre
pares de crentes, e esse novo relacionamento devia se sobrepor aos
clamores de sangue, assim como o cristianismo das tribos que for­
mavam o 'Ibad, ou cristãos de Hirah, proporcionara um elo di­
ferente daquele que unia a tribo. A repugnância observada em
relação ao Profeta talvez se originasse na ansiedade que até os jo­
vens sentem ao se comprometerem com algo por toda a vida -
em especial quando isso é em proporções desconhecidas -, ao
longo da qual a questão permanece obscura.47
Dispomos de poucos detalhes sobre a evolução da cerimônia
maometana chamada salá (salãt), palavra emprestada do nome
judaico ou cristão que designa oração. Na forma mais tarde este­
reotipada, a prática judaica de ficar ereto, a da prostração cristã48
e uma terceira de inclinar-se (as costas na horizontal, com as mãos
nos joelhos) combinavam-se a certas fórmulas prescritas. Dizia
um converso: "Quando rezávamos, no início, não sabíamos o que
dizer para saudar Deus, Gabriel e Miguel, mas o Profeta logo nos
ensinou outra fórmula:'49 A oração, correspondente ao Pai-Nosso,
provavelmente foi composta em momento posterior e contém

46. Tabari, i, 1 .213.


47. Rothstein, Lakhmiden, 25.
48. Von Kremer, Streifzüge, J S.
49. Musnad, i, 423.

98
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

referências polêmicas a alguma(s) seita(s) não especificada(s).50


Como iremos ver, a salá foi empregada posteriormente como um
tipo de exercício militar, mas no início tinha caráter de ascese, e o
devoto "amarrava uma corda ao peito".51 A tradição afirma que
a divisão do dia em períodos, com o objetivo de praticar a salá
cinco vezes, foi uma inovação da época mequense tardia; e os de­
talhes da legislação sobre a pureza parecem ser ainda posteriores.
Contudo, a teoria de que Deus deve ser abordado apenas por pes­
soas em estado de pureza era conhecida no sul da Arábia antes de
Maomé, portanto é provável que seus primeiros conversos tenham
sido instruídos quanto a isso. Na realidade, a limpeza das vesti­
mentas que marcava a conversão pertence a esse mesmo conjunto
de ideias.
Durante esse período inicial, a salá foi executada em estrita
privacidade, e sem dúvida os encontros dos crentes eram marca­
dos por grande precaução. Independentemente do papel que os
conversos tivessem desempenhado anteriormente na adoração em
Meca, com toda a certeza continuavam a se desincumbir de al­
guma função. Não sabemos se, nessa época, o Profeta defendia a
santidade da Caaba. Tampouco se a questão da direção para a qual
se orientar na prece estava presente. Mas podemos supor que
o templo de Jerusalém era o ponto para o qual o crente se voltava.
A conexão do mito de Abraão com a Caaba parece ter resultado de
especulações posteriores e se desenvolvido completamente quan­
do surgiu uma necessidade política.
Uma parcela significativa do Alcorão deve ter sido produzida
quando Abu Bakr começou sua missão. Ao menos ele deve ter sido
capaz de assegurar aos prosélitos que seu Profeta recebia comuni-

50. "Conduzi-nos pelo caminho reto, pelo caminho daqueles com quem o Senhor
tem sido misericordioso, não no daqueles com quem o Senhor tem sido colérico [os
judeus?] nem daqueles que se extraviaram [os cristãos? ] ." Esta é a explicação de Tir­
midhi.
5 1 . Tabari, Comm., xvi, 90. Provavelmente a outra extremidade da corda estava ligada ao
teto. Histoire du Bas-empire, xiii, 3 1 2.

99
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

cações divinas, lançando mão disso como prova de seu conheci­


mento do verdadeiro Deus; e é provável que, com o aumento gra­
dual do número de crentes, o Alcorão tenha se transformado, da
comunicação "mediúnica" inicial, nos sermões poderosos que ca­
racterizaram o segundo período. Para uma plateia muito pequena,
os processos empreendidos pelo médium são mais que efetivos.
A necessidade de excluir estranhos mantém os presentes em es­
tado de alerta; a abordagem da "condição superior" - demons­
trada pelo desmaio do médium, que em seguida é coberto e
depois passa a um violento estado de transpiração - é impressio­
nante; os processos maravilhosos que os espectadores testemu­
nham fazem com que atribuam um valor extraordinário aos dis­
cursos do médium, como resultado de seu transe. Se algum incréu
está presente, em muitos casos o médium não pode agir; levando­
-se em conta as palavras dos biógrafos, esses primeiros conversos
deviam abrir mão de suas crenças antes de serem levados à pre­
sença de Maomé.
Identificando-se cada vez mais com seu papel, o Profeta esfor­
çou-se para ser digno dele. Consta que ele usava habitualmente
um véu, 52 e que esse costume pode ter começado na época das
sessões misteriosas, nas quais ele servia para realçar a solenidade.
Com o decorrer do tempo, Maomé adquiriu modos benevolentes
e bucólicos. Quando apertava a mão de alguém, não retirava a
sua primeiro; quando olhava para um homem, esperava que ele
desviasse o olhar. 53 Era meticuloso nos cuidados pessoais. Toda
noite pintava os olhos e o corpo, e o tempo todo recendia a perfu­
mes. 54 Seus cabelos demoraram a crescer até a altura dos ombros,
e quando começaram a embranquecer55 ele os cobriu com tinta.56
Possuía a arte de falar a palavra apropriada aos neófitos - dizer

52. Jahiz, Bayan, ii, 79, 84.


53. Tirmidhi, 410 (ii, 80).
54. Alif-Bã, ii, 29.
55. Musnad, iv, 1 88.
56. lbid., iv, 163. Isso é controverso.

100
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

algo que enaltecesse as qualidades especiais de cada um, ou que


manifestasse familiaridade com os antecedentes do novato. É difí­
cil dizer quantas dessas histórias ilustrativas acerca desse aspecto
de seu talento são verdadeiras, mas poucos duvidam de que ele
se sentia à vontade com os artifícios conhecidos pelos médiuns
modernos, pelos quais se obtêm informações particulares ou insi­
nua-se conhecê-las. Ademais, no período inicial, ninguém estava
autorizado a ver o Profeta como um missionário ou alguém a ser
venerado.
As necessidades de sua profissão parecem não ter feito de Mao­
mé um estudioso, embora seja indubitável que, à medida que o
Alcorão se ampliava, seu conhecimento das histórias bíblicas tor­
nava-se um tanto mais preciso; embora essa exatidão possa ser
atribuída à memória do Profeta, é mais provável que ele tenha
aproveitado essas oportunidades, quando oferecidas, para adqui­
rir novas informações. A história a seguir nos dá uma ideia de seu
método. Jabr, cliente dos Banu 'Abd ai-Dar, era um judeu57 que
trabalhava como ferreiro em Meca. Ele e Yasar, também judeu,
costumavam se sentar juntos na oficina e, durante o trabalho, ler
seu livro sagrado. O Profeta costumava passar por lá e ouvi-los.
Em pouco tempo Jabr foi convertido por ouvir a leitura feita por
Maomé da sura de José.58
Sugeriu-se que alguma coisa do material cristão presente no
Alcorão foi aprendida de um seguidor dos primeiros tempos, um
grego de Mossul chamado Suhaib.59 A possibilidade de mais de
uma pessoa ser mentora do Profeta foi cogitada pelos mequenses,
porém o Alcorão refuta até a existência do encargo, afirmando que
a pessoa a quem aludem falava uma língua estrangeira, por con­
seguinte, não poderia ser autora de um texto em árabe. Talvez a
réplica não seja convincente, mas a impressão que o Alcorão deixa

57. Ou um cristão. Os muçulmanos não se importam com a distinção.


58. Isabah, i, 452; Wakidi ( W.), 349.
59. Loth em ZDMG, x:xxv, 62 1 .

101
DAVID SAMUEL MARGOLI OUTH

é a de uma informação colhida ao acaso, mais do que adquirida


por estudo metódico.60 Numa sura divulgada em Medina, em que
se contava a história de Saul, o nome deste é grafado Talut, em
clara alusão a Galut, o mais próximo que o Profeta conseguira
chegar de Golias. O nome de Samuel é esquecido, confundido
com Gideão, e a história deste último é contada de forma equivo­
cada. Esse fenômeno quase descarta a teoria de um mentor, pois
ninguém com essa função poderia ser tão ignorante a respeito
da Bíblia. Ademais, as fontes do Alcorão são muito numerosas -
em abissínio e em siríaco, assim como em hebraico e grego.61 Até
então, as narrativas bíblicas do Alcorão não passavam de repro­
duções dos relatos ouvidos por Maomé em suas primeiras ocu­
pações, e é provável que tenham sido colhidas por ele em rituais
ou em leituras da Bíblia. O Profeta julgava que os djins ouviam
os conselhos celestiais, por conseguinte, as informações colhidas
eram apenas parcialmente corretas. Não havia como evitar esse
perigo, exceto contratando um professor, o que acarretaria riscos
ainda maiores.
Maomé desencorajava expressamente a publicidade. Um sírio
- 'Amr, filho de 'Abasah, que tempos depois reivindicou ser o
quarto muçulmano - afirmou que, depois de ter abandonado a
adoração de ídolos,62 foi a Maomé, que estava com a verdade. En­
controu-o agachado, guardando o segredo de sua missão. 'Amr
ofereceu-se para se juntar a Maomé, mas foi proibido de fazê-lo,
pois serviria melhor a causa voltando a seu país - podemos pre­
sumir, para desempenhar o papel de Abu Bakr. Consta que algu­
mas das primeiras revelações se deram numa caverna, uma forma
natural de esconderijo;63 nos relatos a esse respeito, Maomé estava
em isolamento. Quando Abu Dharr, que depois se tornou um fa-

60. Nõldeke, Sketches, c. ii.


61. A melhor comprovação disso é a forma assumida pelos nomes próprios. Syc, Die
Eigennamen im Koran, 1903, dá pouca importância ao tema.
62. Musnad, iv, iii.
63. Muslim, ii, 1 94.

102
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

moso asceta, veio de longe, de acordo com um relato, para conhe­


cer as opiniões do Profeta, este estava escondido nas montanhas.64
Porém, um fato que emerge da obscuridade que paira sobre os
primeiros dias da missão é que Maomé, após algumas conversões,
dirigiu-se "à casa de Al-Arkam, no monte Safa". Esse Al-Arkam era
membro da tribo Makhzum e devia ter aproximadamente dezes­
sete anos quando a missão começou. Alguns o consideram o séti­
mo converso, outros, o décimo. Sua casa em Safa parece ter servi­
do de local de encontro, onde o Profeta podia receber os neófitos
ou realizar reuniões sem medo de ser perturbado. Assim, somos
informados sobre dois conversos, dois escravos gregos - Suhaib,
filho de Sinan, e 'Ammar, filho de Yasir - que se encontravam por
acaso na porta da casa de Al-Arkam. Eles entraram para fazer sua
profissão de fé e, ao anoitecer, já estavam se escondendo.65 Muitos
anos se passariam antes de Maomé poder recompensar seu fiel
divulgador, presenteando-o com uma moradia em Medina. Ainda
que não fosse desejável o segredo, a intensa curiosidade dos orien­
tais teria interferido seriamente nas reuniões realizadas numa ci­
dade densamente povoada. Mas a curiosidade não chegaria a pon­
to de obrigar os árabes a uma curta jornada fora da cidade, por
isso Maomé conseguiu promover seus encontros em paz. Dado
que a primeira conversão não interferiu nos negócios do homem,
é provável que essas reuniões ocorressem a intervalos irregulares.
Felizmente, podemos lançar mão das tabelas elaboradas pelo
professor Starbuck ao analisar o próximo conjunto de conversões.
No entanto, o registro das idades é muito irregular, e talvez não
haja método na interpretação dos fenômenos. As pessoas que fre­
quentavam a casa de Arkam pertenciam a todas as faixas etárias.
O mais velho era dez anos mais velho que o Profeta; alguns esta­
vam no meio da vida, entre 34 e 46 anos, e muitos eram extrema­
mente jovens. Diversos eram escravos ou homens livres, pessoas

64. Isabah, iii, 1 1 73.


65. Ibn Sa'd, iii, 1 62.

1 03
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

para as quais o novo sistema, ao encerrar perspectivas igualitárias,


exercia um poder de atração facilmente compreensível. Na rea­
lidade, a condição dessas pessoas melhorou depressa, pois logo
se declarou que a libertação dos crentes era um dever piedoso.66
Alguns pertenciam à classe dos metecos, não mantendo relações
com Meca. Hatib, filho de Abu Balta' ah, provavelmente cristão de
Hirah - a quem iremos nos referir adiante uma ou duas vezes -,
é uma prova disso. Em sua maioria, porém, não passam de meros
nomes para nós.
Em poucos casos, as famílias eram convertidas em· conjunto.
Três filhos de Jahsh, três filhos de Al-Harith (Hatib, Hattab e
Ma'mar), quatro filhos de Al-Bukair, três filhos de Maz'un são ar­
rolados entre as adesões desse período, e, em diversos casos, a con­
versão de um irmão era sucedida pela de outro. Assim, o irmão
mais velho de Ali, Ja'far, uniu-se ao movimento, no qual estava
destinado a desempenhar um papel de certa importância, embora
menos ilustre que o do genro do Profeta. O privilégio de reno­
mear os seguidores já tinha sido exercido por outros profetas, e
Maomé se aproveitou disso, trocando o nome do prosélito sempre
que este se relacionasse a um ídolo ou sugerisse mau agouro. Tam­
bém foram conferidos títulos honoríficos especiais, mas isso acon­
teceu provavelmente algum tempo depois. Abu Bakr foi chamado
de "O Amigo Fiel"; Zubair, "O Apóstolo"; Abu Ubaidah, filho de
Jarrah, "O Fiel"; Omar, "O Salvador': Esses títulos eram como as
condecorações concedidas, na era moderna, pelos soberanos a
pessoas que prestaram algum serviço público, ou às quais foram
confiados encargos importantes.
Os precursores de Maomé não entram em cena nesse período,
e é improvável que atuassem em sigilo, supondo-se que mais de
um estivesse vivo na época. "Aqueles que são um todo não preci­
sam de um médico", e os orgulhosos possuidores de conhecimen­
to livresco do monoteísmo de modo nenhum propiciavam mate-

66. Assim, Abu Balcr comprou e libertou 'Amir Ibn Fuhairah.

1 04
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

rial para proselitismo. Ademais, essas pessoas, ao que parece, não


guardavam suas opiniões em segredo.
Surpreende bastante que a conversão fosse mantida em segre­
do durante certo período; se a parte positiva do novo sistema po­
dia ser executada em segredo, a parte negativa depressa iria se des­
velar. A adoração dos deuses era um aspecto da vida do dia a dia.
As visitas a seus domicílios, por determinado número de dias,
acompanhadas por sacrifícios de ovelhas e camelos, não eram in­
comuns. 67 O parceiro de Maomé, ou seu filho, assim descreveu
alguns dos ritos domésticos: "Meus pais costumavam bater o leite
até que virasse nata, aí derramavam um pouco dela numa vasilha
e me pediam que a levasse aos deuses. Depois, um cachorro podia
beber o leite ou comer a manteiga, poluindo assim a vasilha."
Esse rito não era mais nem menos ridículo que qualquer outro
no qual uma pessoa imaginária é tratada como ser humano, mas
podia ser visto como despropósito, e aqueles cujos olhos estives­
sem focalizados no ponto em que o sacrifício do leite a Al-Lãt pa­
recia ridículo sentiriam a maior das repugnâncias quando chama­
dos a tomar parte dele: o jovem distraído ansiaria por desempenhar
o papel de Abraão, que quebrou os ídolos do pai. Na verdade, Ali
afirmou que o ato de Abraão fora imitado pelo próprio Profeta. Os
dois dirigiram-se secretamente à Caaba para destruir um ídolo
que estava no teto. Primeiro, Maomé tentou subir nos ombros de
Ali, mas este não era forte o suficiente e, por conseguinte, Maomé
teve de aguentar o primo, que retirou o ídolo do lugar e o arremes­
sou ao chão, quebrando-o em pedaços.68 Provavelmente essa his­
tória diz mais sobre aquilo que eles deveriam ter feito do que sobre
o que fizeram de fato. Percebemos ainda a necessidade de proseli­
tismo apenas para as pessoas que lhes inspiravam confiança e dis­
punham de autocontrole. Dizem que Maomé, num período pos­
terior, teria recomendado determinado procedimento às pessoas

67. Azraki, 8 1 .
68. Musnad, i , 84ss.

105
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

que, para salvar suas vidas, tiveram de participar de algumas ce­


rimônias idólatras. Os homens davam a impressão de estar em
adoração, embora em segredo despejassem algumas expressões de
desprezo em relação ao ídolo. Aqueles que consideravam os ídolos
incapazes de se ressentir desse comportamento somente confirma­
vam seu desprezo. Enquanto isso, a adoração que deveria substi­
tuir os velhos ritos tinha lugar em estrita privacidade.
Não sabemos em que medida a sociedade secreta estava cônscia
de suas potencialidades. Nos primeiros anos, a vantagem do oculta­
mento era grande. Isso salvou a comunidade de ser esmagada no
nascedouro. Era mais fácil suportar o ridículo e o descaso quando
estavam envolvidas algumas centenas de pessoas do que se o Profe­
ta fosse obrigado a suportá-los sozinho. Isso o poupou, também, do
papel de sábio excêntrico (que Warakah e outros desempenharam),
investindo-o, em sua primeira aparição pública, na função de líder
de um partido. Isso deu tempo a Maomé para se assegurar da in­
fluência que poderia exercer, em grau extraordinário, sobre um nú­
mero razoável de pessoas. Também o preparou para dirigir os ho­
mens em grande escala. Na casa de Al-Arkam estavam reunidos
representantes da maior parte das classes com as quais sua trajetória
posterior colocou-o em contato. Havia o religioso entusiasmado e o
fanático sombrio ( Othman, filho de Maz'un, parece ter sido alguém
desse tipo), pessoas de espírito fraco e as supersticiosas, e muitos
que encontravam na religião a possibilidade de uma carreira.
A habilidade tanto de Abu Bakr quanto do Profeta era demons­
trada quando mantinham o controle desse grupo que crescia de­
vagar. No caso dos pobres, isso era feito por meio de subvenções;
mais tarde, quando o Islã foi perseguido, o Profeta constatou que
tinha famílias inteiras em suas mãos. Não temos dúvida, porém,
de que a riqueza que controlou desde o início mostrou-se de uti­
lidade. Ao contrário dos missionários cristãos, que deviam ser sus­
tentados pelos conversos, ele podia afirmar que não buscava re­
compensa e se recusava a desfrutar pessoalmente das esmolas, ou
a permitir que qualquer membro de sua família delas se aprovei-

1 06
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

tasse. O mais bem-sucedido dos médiuns jogou essa cartada, e


com isso abriu caminho numa sociedade de príncipes.
Como a maioria daqueles que conhecem o ser humano em
profundidade, Maomé afirmou - e às vezes quase confessou
abertamente - a doutrina de que todo homem tem seu preço, na
realidade, um preço estimado em camelos.
Mas onde não se exigia "alívio temporal'', a promessa do Jardim
funcionava maravilhosamente. As radiantes descrições desse Jar­
dim contidas no Alcorão ainda representam um poderoso instru­
mento nas mãos dos missionários muçulmanos. A história do Islã
é um registro de sacrifícios feitos de bom grado a fim de obter
aquelas delícias retratadas de forma tão atraente. Seu teor não é
diferente do de alguns paraísos selvagens: "Há mulheres mais bo­
nitas na terra do Grande Espírito que qualquer uma de suas mu­
lheres índias, e jogo em maior abundância", disse um índio Crow
a Beckwourth,69 incitando-o à luta. O nome foi tirado do paraíso
de judeus ou cristãos, e a descrição, parcialmente inspirada no
oásis Taif, onde os mequenses ricos possuíam jardins, mas vários
detalhes eram acrescentados, se a ocasião o exigisse.
Tão logo o Islã se robusteceu, instituiu-se a regra corrente da
sociedade secreta, segundo a qual quem a ela uma vez se filia está
para sempre comprometido, e sua vida será prejudicada caso a
abandone. Essa regra, que torna a conversão de um maometano,
até hoje, quase uma impossibilidade, está de tal modo conectada à
natureza das sociedades secretas que devemos datar seus primór­
dios em um tempo muito antigo; deve-se supor também que sua
existência manteve muitos prosélitos sob perseguição. Contudo,
a religião abraçada por motivos sórdidos é quase sempre conser­
vada por razões honradas, e observadores dos primeiros tempos
constataram que entre os crentes mais sinceros no Islã estavam
pessoas que tinham sido induzidas por suborno a nele ingressar.70

69. Autobiography, 1 6 1 .
70. Muslim, ii, 2 1 2; Musnad, iii, 1 75.

107
DAVID SAMUEL MA RGOLIOUTH

Além disso, para algumas pessoas o sigilo exerce um atrativo,


há algum tipo de gratificação quando se leva uma vida dupla. As
sociedades secretas ainda existem, reunindo-se onde ninguém
suspeita, algumas vezes por um objetivo pueril, outras para deba­
ter esquemas de importação a longa distância. Um escritor sensí­
vel julga que, nos primeiros encontros de Maomé, discutiu-se al­
gum tipo de esquema socialista, alguma divisão mais justa das
riquezas entre ricos e pobres.71 Porém, não há muita evidência
disso. É mais do que provável que ásperas palavras sobre a adora­
ção dos ídolos pronunciadas nesses encontros incluíssem a conde­
nação dos representantes da adoração oficial em Meca; é também
possível que a noção de que o profeta deve ser um autocrata tenha
se desenvolvido precocemente. Mas se um membro de uma socie­
dade secreta perguntasse a outro a razão da filiação, o primeiro
responderia: "Para ganhar o paraíso e escapar do fogo."72 Os ho­
mens foram iniciados nos mistérios de Elêusis* por razão similar.
Não faltam exemplos de conversos cuja fé adveio de um choque
repentino, ou que (como os infiéis poderiam dizer) de súbito des­
pertaram para a irrealidade do sistema como um todo.
Novas seitas exigem algum tipo de maçonaria, isto é, seus
membros podem reconhecer uns aos outros; e talvez o cumpri­
mento "Que a paz esteja contigo" tenha sido introduzido no pe­
ríodo inicial, embora um visitante que foi a Medina quinze anos
depois do começo da missão tenha declarado que ele era recente.73
Esse cumprimento, sem dúvida, era usado por judeus e por cris­
tãos, mas, de qualquer modo, parece ter afetado profundamente

7 1 . Os pregadores também descrevem Maomé como o enviado que poderia obter justi­
ça para os pobres em detrimento dos ricos; Hariri, 328.
72. Cf. Tabari, i, 1.218, 10.
* Os mistérios de Elêusis, festejados na cidade de mesmo nome, eram ritos de inicia­
ção ao culto das deusas agrícolas Deméter e Perséfone. Eram considerados os mais
importantes entre todos os mistérios celebrados na Antiguidade. [N.T.]
73. Isabah, iii, 70; mas Wellhausen ( w:, 75) apresenta isso de outra forma. Em Muslim,
ii, 255, Abu Dharr afirma tê-la inventado. Ver também Goldziher, ZDMG, xlvi, 22.

108
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Maomé, que repetidas vezes a ele se refere no Alcorão. Deus o pro­


nuncia para os profetas, os anjos o ensinaram a Abraão, com ele os
mortos abençoados são saudados no paraíso, onde, na verdade, se
dá a conversação total. Ao adotar essa saudação, Maomé pratica­
mente identificou seu sistema com o dos judeus e o dos cristãos.
Como no início não se permitia que essa saudação fosse feita em
público, talvez os muçulmanos se reconhecessem por alguma pe­
culiaridade discreta da indumentária (por exemplo, deixavam a
ponta do turbante pendurada atrás, enquanto os pagãos a escon­
diam).74 Do mesmo modo, mais tarde, os membros das principais
seitas do Islã puderam ser distinguidos pelo modo de amarrar
seus turbantes.75
Por fim, devia-se dar um nome à nova seita, que, por aciden­
te ou por escolha, foi chamada de "muçulmanos" (moslens), ou
hanifs. Não eram esses os nomes pelos quais eram conhecidos
os seguidores de Maslamah, o Profeta do Banu, Hanifah? Ou ha­
via alguma outra seita monoteísta assim designada que seguisse
abertamente Abraão e que entre seus descendentes, de acordo
com a Bíblia, tivesse alguns árabes? Nada podemos afirmar sobre
isso. Ao que parece, nenhum árabe conhecia coisa alguma a res­
peito dos hanifs, a não ser que Abraão era um deles, assim como,
talvez, um ou dois dos precursores de Maomé; e uma vez que essa
palavra em hebreu quer dizer "hipócrita", e em siríaco, "infiel", os
piedosos seguidores de Maomé não se preocuparam em estudar
sua etimologia.
O outro nome, muçulmano, significava naturalmente "traidor':
e quando a nova seita veio a ser satirizada, isso deu munição aos
zombadores. Maomé demonstrou algum lampejo de humor ao
adotá-lo, mas revelou grande ingenuidade ao lhe atribuir um sig­
nificado honrado. Apesar de "muçulmano" designar "aquele que

74. Hariri, Schol., 346.


75. Hamadhani, Makamas, 199. Esse é o caso dos kaisitas e dos iemenitas (Goldziher,
MS, i, 84). Há, também, uma evidência incidental de que Maomé, inicialmente, usa­
va o cabelo no estilo judaico, e os discípulos, nesse particular, tendiam a segui-lo.

1 09
DAVID SAMUEL MARGOLJOUTH

entrega seus amigos aos inimigos'', a palavra foi glorificada com o


significado de "aquele que entrega sua pessoa a Deus"; embora o
cristão pudesse acreditar que isso fora inventado pelos inimigos
da seita a quem a palavra designava, a autoridade divina foi evo­
cada para proclamar que Abraão cunhara o nome.
Como os judeus, esses novos abramitas chamavam seus irmãos
pagãos de "os gentios", usando uma palavra abissínia. Parece que
os pagãos em geral referiam-se aos adeptos da nova seita - quan­
do ela deixou de ser secreta - como sabeus,76 palavra que, com
muita propriedade, significava batista, pertencente a uma comu­
nidade ainda hoje perpetuada como os soubbas, cujo lar fica nos
pântanos do Eufrates.77 A aplicação desse nome aos seguidores de
Maomé pode ter sido ocasionada pela simples ignorância, assim
como os árabes atualmente chamam Doughty de judeu porque
ele era cristão; ela também pode ser explicada pelo destaque atri­
buído por Maomé à cerimônia da lavagem.

76. As passagens são reunidas por Wellhausen, Reste, 236, 237.


77. Siouffi, Les Soubbas.

1 10
4

O ISLÃ VEM A PÚBLICO

Não se sabe ao certo quem primeiro professou a nova religião pe­


rante o mundo. Uma tradição1 atribui a iniciativa a um certo
Khabbab, filho de Gago, escravo que trabalhava na fabricação de
espadas, e de uma mulher muito pobre.2 Professar o Islã significa­
va renunciar publicamente à adoração nacional, ridicularizar e, se
possível, quebrar os ídolos, usar abertamente a nova saudação e
celebrar os novos ritos.
Deve-se ter em mente que o Islã era polêmico por sua própria
natureza. Alá não se satisfazia com a adoração, a menos que ne­
nhuma honra similar fosse prestada a outro nome; sua adoração
tampouco era tolerante em relação a ídolos nem aos ritos não ins­
tituídos ou aprovados por Ele próprio. Era esse, pois, o motivo das
reuniões na casa de Al-Arkam, e também dos olhares significativos
que, como se observou, os membros da nova seita trocavam entre
si. Maomé e Abu Bakr planejavam um ataque à religião nacional,
aquele culto de que todo mequense se lembrava com orgulho, por
tê-lo defendido, por um milagre, dos invàsores abissínios - e em
seus mitos havia relatos de frequentes triunfos anteriores. Os deu­
ses que eles adoravam, segundo afirmavam Maomé e Abu Bakr,
não eram deuses. Esses inovadores substituiriam essa adoração
pela dos judeus, cujo poder no sul da Arábia fora recentemente
derrubado, e pela dos cristãos, cuja derrota acabara de despertar o
espírito nacional dos árabes.
Mr. Grote, * em sua abordagem do caso do hermocópidas, en­
sinava os homens a julgar uma era pela outra. As pessoas toleran-

1. Isabah; em Musnad, i, 404, sete pessoas são nomeadas nesse contexto, mas não
Khabbab.
2. Tirmidhi, i, 1 8 1 .
* George Grote ( 1 794- 1 8 7 1 ) : historiador inglês que se tornou conhecido pela monu­
mental History of Greece. [N.T.]

111
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

tes com as opiniões diferentes das suas ficam indignadas quando


suas crenças são atacadas de forma impiedosa. Quando as afirma­
ções de Maomé eram ouvidas pela primeira vez por aqueles que
não tinham sido consultados a respeito delas, nem estavam prepa­
rados para elas, era natural que parecessem ridículas, maldosas e
suicidas. Ridículas, porque os deuses eram figuras completamente
familiares. "Suas companheiras'',3 Al-'Uzza e Al-Lãt, não existiam?
Muitos homens podiam relatar as ocasiões nas quais elas lhes ha­
viam prestado um serviço pessoal; inúmeras crianças deviam sua
existência à intervenção das deusas, fato atestado pelo nome que
essas crianças portavam. A muitos, elas apareceram em sonhos;
a outros, sem dúvida nas horas de vigília, haviam solicitando e
outorgado favores. Se a ligação dos homens com suas divindades
às vezes era frágil, a das mulheres, que precisavam mais de sua
ajuda, era forte.
Porém, o que importava para os homens que tinham calma
para pensar4 era o fato de que Meca vivia sobretudo de sua con­
dição de centro religioso e da instituição pagã dos quatro meses
de paz. Os cristãos eram conhecidos por não observarem essa va­
liosa instituição. Uma vez que os seguidores de Maomé oravam
na direção de outro santuário e não beijavam mais a Pedra Ne­
gra,5 podia-se inferir que eles queriam destruir a Caaba; na reali­
dade, até um período tardio da trajetória do Profeta, houve mu­
çulmanos que desejavam essa destruição.6 Uma revelação anterior
parece ter sido feita para tranquilizar os habitantes de Meca em
relação a esse ponto, pois Maomé, que jamais perdeu o senso prá­
tico, preocupava-se em encontrar um lugar para a Caaba em seu
sistema.
Alguns de nossos estudiosos descrevem a primeira prédica pú­
blica do Islã como uma cena teatral. Maomé vai ao recinto da

3. Sura vi, 1 37.


4. Wellhausen, Reste, 220.
5. Ibn Sa'd, iii, 88, 10.
6. Wellhausen, Reste, 69, nota l.

112
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Caaba e convoca a multidão ali reunida para proferir o dito "Alá é


o único Deus". Suas palavras blasfemas provocam um tumulto, e a
notícia de que ele corria perigo logo chega à sua família. Um dos
filhos de Khadijah, Al-Harith, filho de Abu Halah, pereceu no afã
de defender o padrasto, tornando-se o primeiro mártir do Islã.7
Porém, na verdade, o fato de a doutrina islâmica ter deixado de ser
secreta deve ter acontecido por algum ato deliberado, se é que se
pode empregar essa expressão.
Quando um membro após outro da comunidade mostrou es­
tar contaminado pela heresia, e cada um deles passou a se referir
a Maomé como seu guia, é lícito supor que o Profeta tenha sido
confrontado em termos de autoridade e desafiado a assumir sua
posição. Ele confessava, não negava. Em ocasiões posteriores,
quando compelido a correr um grande risco em determinada ta­
refa, não poupava esforços na preparação. Seu primeiro discurso
público aos habitantes de Meca sem dúvida foi preparado com
cuidado. Quer tenha a assembleia irrompido em regozijo, quer em
tumulto, o Rubicão fora atravessado.* O marido de Khadijah rei­
vindicava sobrepor-se a toda autoridade existente e ser o represen­
tante acreditado do Deus da tribo. Houve em Meca algo como
uma centena de pessoas que reconheceu seus clamores. De todo
modo, o anúncio não deixou de ser uma surpresa para aqueles que
não estavam a par do segredo. Abu Sufyan, que então se encontra­
va no Iêmen, ao receber uma carta sobre o assunto - contando
que alguém de suas relações reivindicava ser o Apóstolo de Deus
-, teve de perguntar quem era essa pessoa. 8
A visão prevalecente em Meca a respeito de Maomé parece ter
sido a de que ele era um louco sob a influência de um djin, um dos

7. Isabah, i, 60.
* Alusão à decisão do general Júlio César de atravessar o rio Rubicão com seu exército,
desobedecendo às determinações do Senado de Roma. A decisão teve importantes
desdobramentos na história romana. A expressão tornou-se sinônimo de decisão im­
portante e irreversível. [N.T.]
8. Aghani, ii, 96.

113
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

seres que, acreditava-se, falavam por intermédio de poetas e feiti­


ceiros. Essa acusação atingiu profundamente Maomé e isso pode
ser inferido da virulência com a qual ele a rejeitou e da veemência
com que atacou o "bastardo" que a havia proferido.9 Acusava o au­
tor do ultraje de ser incapaz de escrever e de estar com a cabeça e os
ouvidos comprometidos, e ameaçou marcá-lo no "grande nariz':
A violência logo se manifestou contra os seguidores mais hu­
mildes10 da nova doutrina, e aumentou com o passar do tempo.
Eles eram queimados com ferro em brasa e tinham o rosto expos­
to ao sol do meio-dia, até que encontrassem refúgio na casa de
seus irmãos mais poderosos, fossem resgatados pelos mais ricos,
ou abjurassem em público (com a aprovação de Maomé),11 embo­
ra mantendo a fé em seus corações. Consta que apenas cinco deles
realmente reconverteram-se ao paganismo por causa disso.12 Mes­
mo os estrangeiros que, ao visitar Meca, perguntavam pelo Profe­
ta estavam sujeitos à violência. Contra os ricos e poderosos, a vio­
lência não podia13 ser testada de imediato. Na verdade, os muito
jovens talvez fossem repreendidos e punidos por seus pais, e os
homens adultos estavam salvos por certo tempo graças à institui­
ção do paganismo, que tornava os laços de clã e de família mais
fortes que qualquer lei moral e transformava os parentes necessa­
riamente em cúmplices de suas faltas.
Em alguns casos, os pais procuravam recuperar seus filhos ape­
lando para o afeto. A mãe de Sa'd, filho de Abu Wakkas, jurou que
não comeria até que ele se retratasse, mas o filho não se retratou;
por isso a mulher foi obrigada a comer à força. 14 Abu Talib - que,
por alguma razão, parece ter sido chefe de seu clã - foi encarre­
gado de proteger Maomé da fúria dos ortodoxos, mas devia obter

9. Sura lxviii, 10-16.


1 0. Como Khabbab, Suhaib lbn Sinan, 'Amir Ibn Fuhairah, 'Ammar e sua família (Ibn
Sa'd).
1 1 . Ibn Sa'd, iii, 1 78.
12. Ya'kubi, ii, 28.
13. Muslim, ii, 254.
14. Ibid., 24.

1 14
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

a aprovação do clã. Provavelmente já era protetor secreto do Pro­


feta havia algum tempo. Consta que ele surpreendeu o filho Ali
com Maomé, prostrando-se no vale de Nakhlah, e que, quando a
natureza da cerimônia lhe foi explicada; declarou não fazer obje­
ção a ela, mas não gostava da ideia de erguer o traseiro acima da
cabeça - gracejo cuja lembrança, anos depois, provocava-lhe
riso. 15 É provável que essa história seja verdadeira e típica de Abu
Talib, aparentemente um homem afável, não inclinado a levar as
coisas a sério, embora estivesse rigidamente ligado às ultrapassa­
das ideias de obrigação.16 No entanto, outros membros da família
opuseram-se com veemência a Maomé, sobretudo seu tio Abu
Lahab e seu primo Abu Sufyan, filho de Al-Harith.17
Durante algum tempo, pois, a luta entre Maomé e os moradores
de Meca foi uma guerra de palavras - um longo tempo, não me­
nos que oito anos, ou, de acordo com a maioria, dez anos -, tão
ciosa era a comunidade de Meca em relação ao culto do clã, e tão
desconfiada das consequências que advinham do derramamento
de sangue da família. Se o chefe do clã de Maomé permitira que ele
ficasse fora da lei, então Meca poderia ter-se livrado dele. Mas Abu
Talib não se convenceu disso, e seu veto bloqueou o caminho.
Talvez Abu Talib e sua numerosa família não pudessem aban­
donar o rico parente; na verdade, tendo ou não Maomé algum
poder sobre o tio, é improvável que este tivesse se submetido
à inconveniência que a missão do sobrinho lhe trazia. O lúcido
homem que desempenhou o papel de Profeta poderia ter-se en­
carregado, em algum momento, de sua própria segurança, refu­
giando-se em um país cristão. Porém, como seu objetivo não era
ser súdito, mas soberano, não cometeu esse erro. A mão com a
qual ele começava a jogar continha algumas boas cartas: a devoção

15. Musnad, i, 99.


16. Supôs-se que Abu Talib era poeta, mas a maioria dos versos a ele atribuídos nos
primeiros tempos está sob suspeita. Alguns, porém, são considerados autênticos
pelos especialistas modernos; ZDMG, xviii, 223.
17. Wakidi (W.), 328.

1 15
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

de Khadijah e sua fortuna; a afeição de Abu Talib e sua influência;


a confiança cega de Abu Bakr e seu poder de persuasão. Quando
as duas primeiras cartas lhe foram tiradas, por sorte outras me­
lhores as substituíram, e assim Maomé venceu o jogo.
O biógrafo relata (ou inventa) que três delegações separadas de
mequenses dirigiram-se a Abu Talib. Os homens que comanda­
vam Meca foram ao xeique pedindo que ele não apoiasse o sobri­
nho. Numa ocasião, acenaram com a possibilidade de lhe fornecer
um substituto - 'Umarah, filho de Al-Walid -, um homem tão
bom quanto qualquer outro em Meca, caso se tratasse apenas de
não perder um membro da família. 'Umarah parecia um Adônis,
virava a cabeça das mulheres. Certa feita, ele participou de uma
expedição à Abissínia, na companhia de 'Amr, filho de Al-'Asi, e
teria matado seu companheiro para ficar com a esposa dele; em
seguida, seduzindo uma das rainhas abissínias, não foi punido
com a morte, mas com o que, para um árabe, era tão grave quanto
isso. Além do mais, bebia muito. Talvez Abu Talib não estivesse
satisfeito com o fato de que, com a troca, ganharia paz. Quaisquer
que fossem suas razões, resistiu bravamente e convenceu o resto
do seu clã a se juntar a ele na proteção ao parente.
Deve-se admirar Maomé por ter se aproveitado ao máximo da
inviolabilidade do clã, embora ele mesmo não tenha lucrado nada
em consequência disso. Num período posterior, os filhos não tive­
ram o menor escrúpulo em deixar os pais serem mortos pela cau­
sa do Islã. Porém, mesmo num período mais recuado da missão,
os conversos começaram a tratar os parentes pagãos com grande
desrespeito. Consta que Maomé ficou espantado com a rudeza dos
neófitos em relação a seus pais não conversos, fenômeno originá­
rio do sentimento abordado por Lecky* e que algumas vezes torna
a religião incompatível com o sentimento de família.

* William Edward Hartpole Lecky ( 1 838- 1903): historiador irlandês. A questão abor­
dada pelo autor pode ter sido tratada por Lecky na obra The Religious Tendencies of
the Age. [N.T.)

1 16
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Assim, a história dos primeiros anos de pregação de Maomé


em Meca não está isenta de peripécias, mas trata-se, em essência,
da história de um debate no qual só se preservaram os discursos
de um dos lados. As suras de Meca no Alcorão raramente podem
ser datadas com alguma precisão. Muitas delas são relatos ou ano­
tações da mesma sequência de palestras, repetidas inúmeras vezes
pelo orador. Por conseguinte, não se conhece a ordem em que
cada pergunta foi formulada pelo adversário.
A história oferece tantos exemplos dos procedimentos pelos
quais uma reforma religiosa se propaga que, recorrendo a um ou
outro, podemos retratar o que aconteceu em Meca à medida que
o número de adeptos de Maomé crescia. Os reformistas tornaram­
-se invariavelmente agressivos e procuraram interferir na ado­
ração, que consideravam imprópria. Não há dúvida de que os se­
guidores de Maomé traçavam essa trilha para os ritos aos quais
foram instruídos a se opor em Meca. O Alcorão elogia a conduta
de Abraão, que derrubou os ídolos na loja de seu pai e, ironi­
camente, imputou essa atitude ao ídolo maior. Os primeiros con­
versos em Medina eram conhecidos por terem agido no estilo
de Abraão, e é provável que os conversos de Meca tivessem segui­
do seu exemplo. Cenas violentas certamente foram o resultado
dessas ações.
A velha religião pagã sem dúvida não estava livre de regras
quanto à alimentação, embora os conceitos de "limpo e não lim­
po" talvez fossem estranhos a ela. Afirma-se expressamente que
algumas comidas eram permitidas somente aos homens, enquan­
to outras eram exclusivas das mulheres. Há detalhes ocasional­
mente registrados sobre outros preceitos. 18 As conversações de
Maomé com judeus e cristãos ensinaram-lhe a conferir a esse te­
ma uma importância maior do que a que era atribuída pelos pa­
gãos. Durante toda sua vida o Profeta preocupou-se muito com
os preceitos judaicos nesse sentido, mas enquanto o sistema ju-

18. Nõldeke, Sasaniden, 203; Wellhausen, Reste, 1 25, nota 1, 168.

117
DAVID SAMUEL M ARGOLI OUTH

<laico proibia o consumo de carne de camelo, Maomé não podia


adotá-lo, preferindo o dos cristãos, que seguiam o preceito do
Concílio de Jerusalém, descrito nos Atos XV.* Sangue e carnes
oferecidos aos ídolos, animais estrangulados e suínos19 estavam
proibidos, mas as outras carnes eram permitidas.
Provavelmente, em período posterior, animais carnívoros, aves
de rapina e burros foram proibidos. 20 Essa regra, que aparente­
mente podia ser seguida com facilidade, seria suficiente para im­
possibilitar o muçulmano de compartir as refeições da maioria de
seus compatriotas.21 Afinal, o abate de um animal era, na maioria
dos casos, um ato religioso,22 e Maomé fez do preceito "comer o
que abatemos" um teste para o Islã.23 Um converso costumava
falar com pesar de como o sangue lhe dava prazer nos tempos
pagãos.24 A impossibilidade de comer o alimento dos outros im­
plicava, nesses casos, asco e repugnância em relação a eles. Por
conseguinte, podemos facilmente imaginar a indignação com que
essa ideia de pureza era vista por aqueles cuja conduta era ques­
tionada por Maomé.
Os debates que marcaram os primeiros anos foram conduzi­
dos de várias maneiras. Ocasionalmente, o próprio Profeta con­
cordava em entrar na arena e confrontar o antagonista. Ele era um
poderoso pregador, e "quando falava do dia do Juízo Final, seu
rosto brilhava, sua voz subia de tom e ele assumia um jeito entu­
siasmado";25 aparentemente, contudo, não era um debatedor afia­
do, e se saía muito mal quando tentava planejar a disputa. Além

,. Concílio de Jerusalém: reunião de lideranças cristãs ocorrida em meados do século I


para debater se os gentios (não judeus), ao se converterem ao cristianismo, deveriam
seguir costumes da religião israelita. [N.T.]
19. Bentley conjecturou xotpeiaç para 7tOpveiaç.
20. Musnad, i, 302.
2 1 . Tempos depois, um prisioneiro muçulmano em Meca implorou a seu guarda que
não lhe desse a carne oferecida aos ídolos. Isabah, iii, 963.
22. Wellhausen (W.), 160.
23. Isabah, iii, 943.
24. Ibid., 670.
25. Musnad, iii, 37 1.

118
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

do mais, tinha dificuldade em controlar seu temperamento nas


disputas; ele era capaz de dar respostas violentas e insultantes a
quem o questionasse.26 Por isso recebia instruções divinas para
não tomar parte em debates abertos; se inquirido e questionado
pelos não crentes, devia evitar a pergunta e ir embora.27 A conten­
da era conduzida, mais frequentemente, como acontece hoje, nes­
te país, em época de eleição,* quando diferentes oradores discur­
sam em diversas reuniões. As perguntas são registradas e enviadas
pelos membros da plateia ao antagonista, que, então, prossegue,
caso julgue que vale a pena responder. É certo também que o Al­
corão, num período inicial, circulava por escrito, embora não sai­
bamos de que forma. A revelação podia ser publicada em resposta
a uma objeção, algumas vezes com uma fórmula prefixada, "Isso
será feito por".28
Algumas das cenas relacionadas aos debates que a tradição
descreve podem ser históricas. Na época em que as revelações do
Profeta atraíam curiosos, qualquer aparecimento seu em público
denotava a ocorrência de algo novo. Ele é encontrado no recinto
da Caaba por Abu Jahl, que pergunta com arrogância pelas no­
vidades. O Profeta responde que fora levado a Jerusalém e manda­
do de volta durante a noite. Abu Jahl não o contradiz, mas, dese­
jando saber que efeitos a declaração terá sobre os seguidores do
Profeta, convoca uma assembleia de clãs, na qual Maomé repete a
afirmação. As pessoas presentes que haviam estado em Jerusalém
pedem-lhe que descreva a cidade. Ele assente, mas se vê em difi­
culdade. A tradição acrescenta que, por isso, um modelo da cidade
surgiu diante dele para que descrevesse Jerusalém com precisão.29
E ainda acrescenta que a história da jornada noturna fez alguns

26. Tabari, Comm., xxiii, 19.


27. Sura vi, 67.
* O autor refere-se à sistemática eleitoral na Grã-Bretanha no final do século XIX e
início do XX. [N.T.]
28. Sura vi, 149.
29. Musnad, i, 309.

1 19
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

seguidores afastarem-se de Maomé.30 Abu Jahl tinha a expectativa


de que isso abalasse a fé de Abu Bakr, mas este replicou que já
acreditara em coisas mais improváveis sobre o poder de Maomé.
Afirmou-se que os mequenses haviam conseguido a ajuda dos
judeus para assisti-los em sua refutação ao Profeta. Isso pode pa­
recer um anacronismo, porque, depois da Fuga, quando o Profeta
começou a debater com os judeus de Medina, não havia dúvida
alguma de que alguns deles foram a Meca e deliciaram os me­
quenses ridicularizando a ignorância do Profeta. Porém, durante
os primeiros anos da missão em Meca, há forte razão para acre­
ditar que os judeus interferiram em prol de Maomé. O Profeta
considerava os judeus a autoridade final.31 É bastante assertivo
quando diz que esse povo (em oposição aos "gentios") acreditava
nele. Na realidade, quando em dúvida em relação à sua própria
missão, ele recorria aos judeus para reforçar sua convicção.32
Enquanto a campanha de Maomé contra a idolatria e em favor
de "Alá" não revelava qualquer indício de interferir nos interesses
dos judeus, não havia razão alguma para que não fossem amigá­
veis com ele e se recusassem a apoiá-lo. Como havia um grande
perigo de que toda a Arábia se tomasse cristã, eles podiam julgar
esperto de sua parte encorajar um pregador não cristão. Contudo,
também havia pessoas "a quem o Conhecimento fora dado antes"
e que se prostravam quando o Alcorão era lido, o que significava
que o Profeta também tinha algum apoio entre os cristãos de
Meca. 33 Um estudioso nos informa que os coraixitas contavam
com o apoio dos pársis,34 e isso não é completamente improvável.
As objeções registradas e ostensivamente respondidas no Alco­
rão parecem ter sido dirigidas contra cada parte e cada aspecto do
novo sistema, contra a pessoa de Maomé, contra sua noção de

30. Tabari, Comm., xv, inic.


3 1 . Sura xiii, 43; :x:xviii, 52; xxix, 46.
32. Sura x, 94.
33. Sura xvii, 1 08, 9.
34. Tabari, Comm., viii, 12.

1 20
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

profecia, contra seu estilo, suas afirmações, suas doutrinas. É im­


possível sugerir qualquer ordem cronológica para elas.
Em relação à primeira, ele seguiu o exemplo dos profetas do
Novo Testamento, lançando ameaças de que um terrível dia se
aproximava. As histórias repetidas com tanta frequência no Alco­
rão eram entendidas, sobretudo, como advertências. Profetas
cujos nomes Maomé conhecia, em parte por intermédio dos ju­
deus, em parte dos cristãos e dos pagãos, tinham feito a mesma
coisa antes. Eles vieram anunciar um terrível julgamento, apenas
para avisar que deviam ser obedecidos e ter seguida sua lei. Aque­
les que lhes desobedeceram logo foram atingidos pelo julgamento
e pereceram, enquanto o Profeta e seus seguidores escaparam.
As histórias do Velho Testamento são trabalhadas nessa pers­
pectiva. Moisés, por exemplo, fora enviado ao faraó, rei do Egito,
que tinha como assessores ou ministros Haman e Corah. O faraó
dividira seu povo em castas, uma das quais oprimia as demais.
Moisés vem clamar ser o mensageiro do Senhor do mundo. O fa­
raó exige que ele prove o que diz por meio de um sinal, o que
Moisés faz. O faraó recusa-se a acreditar, por isso é afogado com
seus anfitriões, enquanto as castas oprimidas que seguiam Moisés
herdam o país. É esse o cenário da história de Moisés, da maneira
como Maomé a apreendeu. A conversão posterior levou-o a se
informar ainda mais a respeito desse relato no qual trabalhou em
seu estilo peculiar e que contou repetidas vezes. Em Medina, che­
gou a aprender bastante sobre a história dos filhos de Israel. Po­
rém, quando tinha de lidar apenas com os pagãos, ele recorria à
narrativa tal como foi aqui contada.
Em certos casos, a história transforma a mensagem do Profeta
numa condenação um tanto viciada. O objetivo da missão de Lot
em Sodoma* é naturalmente autossugestiva. Um profeta chamado

* Referência à passagem de Lot por Sodoma, cidade conhecida pelo comportamento


pecaminoso de seus habitantes. Como afirma o Velho Testamento, Sodoma e Gomor­
ra foram destruídas pelo Senhor com uma chuva de enxofre e fogo. [N.T.]

121
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

Shu'aib35 é enviado a Midyan para advertir sobre pesos e medidas


enganadores; o profeta Hud adverte a tribo de 'Ad sobre o orgulho
etc. Com maior frequência, a exortação pareceria ser contra o po­
liteísmo. Maomé identifica-se em pensamento com cada um des­
ses profetas e, na pessoa deles, supera as objeções de seus oponen­
tes. Portanto, ao advertir os mequenses sobre os problemas que
lhes adviriam, podia referir-se a todos esses exemplos.
É um erro distinguir essa punição de forma muito clara do dia
do Juízo Final e do mundo futuro. Para John Bunyan, os dois cer­
tamente não eram distintos; a consumação da Terra pelas chamas
celestes e a ressurreição da vergonha e do desprezo eterno eram fa­
ces do mesmo evento; os conceitos contaminavam-se um ao outro,
como as doutrinas do inferno de Virgílio.* Em período posterior,
Maomé qualifica o banimento dos seus inimigos, os nadiritas, como
"o começo da ressurreição': uma primeira parte do Juízo Final. 36
Provavelmente Maomé desejava que os moradores de Meca pensas­
sem que, a menos que lhe obedecessem, seriam engolidos pela terra
ou esmagados pelo céu. Houve homens em Meca que, embora acre­
ditassem nos ritos do paganismo, tinham uma visão filosófica da
ordem dos eventos, e justamente por isso ridicularizavam qualquer
ameaça de punição temporal por desobediência a um Profeta.
Embora soubessem menos a respeito da ordem dos eventos
do que sabe o século XX, a conduta moral da humanidade nada
tinha a ver com aquilo de que eles tinham perfeita consciência.
Portanto, disseram desafiadoramente ao Profeta que derrubasse
o céu quando isso lhe aprouvesse, na data que julgasse melhor.
Constatando que nenhum tipo de ameaça levaria a natureza a al­
terar seu curso, o Profeta declarou, de modo engenhoso, que sua
presença em Meca impedira a calamidade, ou que a experiência de

35. A sugestão de Halévy, de que essa é uma leitura equivocada da forma siríaca de
Jobab, parece adequada.
* Referência à chegada do escritor romano Virgílio ao Inferno, narrada em A divina
comédia, de Dante Alighieri. [N.T.]
36. Sura lix, 2.

1 22
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Alá em outras cidades que não se haviam convencido dos milagres


impedira que ele realizasse o seu milagre.37
Na verdade, uma das críticas que as histórias de Moisés rece­
beram foi que ele não fez milagre algum. No começo, ele possuía
um estoque inteiro de milagres, e, embora nem todos os profetas
dispusessem disso, não havia dúvida, nos casos de Moisés e de
Jesus, de quem fizera os pardais de argila ganhar vida e quem rea­
lizara vários milagres de cura.* É interessante observar, a fim de
nos transportarmos para uma região de pensamento tão diferente
da dos tempos modernos, que nenhuma das histórias milagrosas
da Bíblia ou fora dela gerou dúvidas em Maomé. Assim, ele re­
petiu as narrativas com boa-fé, o que o deixou vulnerável quanto
a essa séria objeção dirigida à sua missão.
O milagre que mais teria agradado os habitantes de Meca seria
alguma melhoria efetiva na condição física da cidade, em especial
a criação de um rio perene.38 Mas o aparecimento de um anjo,
ou até de algum apoio sobrenatural assegurado pelo Profeta, já
os teria satisfeito. Podiam também ver o fundador da tribo -
Kusayy, filho de Kilab - erguer-se dos mortos e testemunhar a
veracidade das palavras de Maomé. Teriam prazer em ver o monte
Safa transformado em ouro.39 Parece que apenas em uma ocasião
Maomé foi levado a fazer uma profecia - a famosa declaração de
que, embora os gregos tivessem sido derrotados pelos persas "na
parte mais próxima da terra", mais uma vez sairiam vitoriosos.
Para nós, o que importa na profecia é que ela nos fornece uma
data para uma sura de Meca no Alcorão. De acordo com a tradi­
ção, os habitantes de Meca, nesse momento, favoreceram os per­
sas, enquanto os muçulmanos se alinharam aos gregos. A profecia

3 7. Sura xvii, 61.


* Passagem d a infância de Jesus Cristo e m que ele teria feito alguns pardais de argila
no sábado, dia sagrado dos judeus; como foi repreendido pelos adultos porque pro­
fanava o sábado, deu vida aos passarinhos, mandando que voassem bem alto. [N.T.]
38. lshak, 185.
39. Musnad, i, 242.

123
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

foi produzida pela satisfação dos mequenses com a vitória de Cos­


roes em 616, o que deixara o Oriente mais perto.* Abu Bakr pare­
ce ter cometido o erro de apostar que isso aconteceria no espaço
de cinco anos,40 e perdeu a aposta. A suposição não deixava de ser
arriscada, e a ambiguidade da escrita árabe tornou-a tão clara
quanto a predição délfica para Creso. **41
Muitos anos tiveram de se passar antes de Maomé atender,
triunfalmente, à demanda de um milagre. A Batalha de Badr,
quando trezentos muçulmanos derrotaram um número duas ve­
zes maior de infiéis, foi considerada um milagre. Antes disso, ele
teve de introduzir mudanças no Alcorão. Se não possuísse qual­
quer poder milagroso, podia retrucar que tinha um saber milagro­
so. No passado, ele era incapaz de ler ou escrever, agora podia fazer
as duas coisas. Não estivera presente às cenas da história antiga que
descreveu, mas as conhecia. Se a autenticidade de suas narrações
fosse colocada em xeque, as pessoas que sabiam dos fatos - isto é,
os judeus e os cristãos - poderiam atestá-la. Enfim, quando se
tornou perfeito em seu estilo peculiar, o Profeta pôde se gabar de
que ninguém, sem a ajuda divina, poderia compor tão bem quan­
to ele. Ainda que toda a humanidade, com a ajuda dos djins, ten­
tasse produzir dez suras, ou uma sequer, não o conseguiria.42

* Referência à tomada de Alexandria, no Egito, naquele ano, pelo rei persa Cosroes II.
O comentário sobre "o Oriente mais perto" talvez se deva à proximidade entre o
Egito e a península Arábica. [N.T.]
40. Ibid., 276.
** Creso, o último rei da Lídia, depois de submeter as principais cidades da Anatólia
( Ásia), ficou preocupado com o rei Ciro I I da Pérsia. Por isso resolveu enviar um
mensageiro ao oráculo de Delfos. Este lhe respondeu que, se conduzisse um exército
e cruzasse o rio Hális, destruiria um grande império. Tentado pelas palavras do orá­
culo, Creso partiu para a guerra. No entanto, foi vencido por Ciro em 547 a.C. e
feito prisioneiro. Dessa forma, completou-se o vaticínio do oráculo, não pela des­
truição do império persa, mas do império lídio. [N.T.]
4 1 . Compare com as observações de Riley sobre a profecia de Joseph Smith em relação
à Guerra Civil Americana, l.c., p. 184.
42. Do mesmo modo, Joseph Smith critica um de seus associados: "William E. McLellin, o
homem mais sábio, segundo sua própria avaliação, esforçou-se por escrever um man­
damento como se fosse um dos últimos do Senhor, mas não conseguiu" (Riley, p. 322).

124
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

As críticas sobre essas afirmações eram numerosas e consis­


tentes. O milagre, lido ou escrito, provavelmente não foi exortado,
porque o Profeta jamais foi adepto de um ou de outro; mas o ca­
ráter miraculoso tanto da matéria quanto do estilo do Alcorão era
repetidamente evocado. Se o Profeta contava histórias que podiam
ser encontradas em livros cristãos e judeus, seus opositores decla­
ravam que alguém lhe ensinara, e chegavam a prometer que da­
riam o nome do mentor.
Não está ao nosso alcance asseverar se a acusação era justa ou
não; os fatos apresentados no último capítulo deste livro não ava­
lizam a teoria de um mentor. Mas, havendo ou não um mentor,
é provável que as histórias não fossem totalmente novas para os
habitantes de Meca, que, no curso dos negócios ou do lazer, ha­
viam entrado em contato com judeus e cristãos e tinham ouvido
alusões aos temas. Daí os Atos dos Profetas serem chamados de
"Histórias dos antigos': ou talvez "Fábulas das velhas esposas", sem
necessidade de interposição divina para se reproduzirem. Um ho­
mem chamado Ibn al-Nadir Harith aceitou o desafio de produzir
algo dessa qualidade e versificou ou colocou em rima os contos
dos reis persas que Firdausi, * cerca de quatro séculos mais tarde,
tornou imortais, ou talvez os contos dos reis de Hirah. Ele leu es­
sas "suras" em sessões semelhantes àquelas que o Profeta reprodu­
zia no Alcorão. O efeito dessa crítica deve ter sido muito prejudi­
cial, pois quando o Profeta, na Batalha de Badr, teve Harith em seu
poder, executou-o sem piedade, embora tenha permitido que os
outros prisioneiros fossem resgatados.
Outra objeção ao Alcorão era a de que ele era revelado em pe­
daços ou parcelas, de acordo com a ocasião. Se era realmente copia­
do de "uma tábua bem guardada", por que não fora produzido em
edição definitiva, de uma vez por todas? A razão alegada pelo Pro-

* Firdausi (935- 1 O 1 5): pseudônimo de Mansur ben Hasan, destacado poeta persa, autor
do poema épico Shahnama, ou Livro dos reis, que envolve mitologia, história, litera­
tura e propaganda. [N.T.]

1 25
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

feta era que isso se dava para seu próprio conforto ou conveniência
pessoal.43 Da mesma forma, Joseph Smith, ao publicar o seu Livro
de Mórmon em um só volume, foi obrigado a completá-lo, aqui e
acolá, com revelações ocasionais. A teoria da "tábua preservada"
parece ter sido mais útil para gerações posteriores de teólogos do
que para o próprio Profeta. Foi como fonte viva de revelação que
ele ganhou a reverência de seus seguidores, não como alguém que
tinha acesso a um livro de outro modo inacessível.
Não há dúvida de que enquanto o debate entre Maomé e os
mequenses prosseguia a capacidade crítica destes últimos ficou
bastante afiada, e a atenção deles viu-se atraída para uma varie­
dade de assuntos sobre os quais não haviam especulado. Os me­
quenses eram constantemente insultados por não possuírem um
livro sagrado que pudessem citar em sua prática, visto que Maomé
referia-se às revelações dos preceitos muçulmanos.44 Formularam­
-se perguntas sobre o caráter de outros livros sagrados que, como
se descobriu, eram escritos sobretudo em línguas mortas e sagra­
das. Buscaram-se algumas noções dos atributos e do caráter de
pessoas que, supostamente, emitiam mensagens sobrenaturais,
e foram sugeridas investigações sobre a vida de alguns homens
cujos nomes eram conhecidos entre judeus e cristãos.
Ibn Ishak conta uma história segundo a qual os mequenses
teriam enviado dois emissários a Medina para obter o parecer dos
judeus daquela cidade acerca da pregação do Islã. Os judeus suge­
riram três questões às quais Maomé deveria responder caso qui­
sesse se apresentar como um verdadeiro profeta. De acordo com o
biógrafo, Maomé comprometeu-se a respondê-las em um dia, mas
foi incapaz de fazê-lo antes que se passassem quinze dias, fato que
confirma muito fortemente a teoria do mentor, que é contudo
enfraquecida pelo conselho da sura ao Profeta de que não consul-

43. Sura xvii, 107.


44. Ver especialmente sura vi, 145, 6.
45. Sura xviii, 22.

126
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

tasse ninguém.45 No entanto, podemos ter certeza de que as ques­


tões relativas aos Sete Dorminhocos* e a Alexandre, o Grande não
foram sugeridas pelos judeus.
O Alcorão dá algumas pistas das críticas que as respostas a es­
sas perguntas ocasionaram. Maomé cometeu um erro em relação
ao número dos Dorminhocos. Numa edição posterior da sura,
embora tenha confirmado o número que mencionara original­
mente, reconheceu que havia opiniões diversas sobre o assunto e
declarou que Deus devia saber melhor. Outra afirmação que teve
de ser corrigida foi a de que o adorado será punido, bem como o
adorador - essa doutrina foi aprendida a partir de um midrash
rabínico.** Um criativo habitante de Meca argumentou que Jesus
estaria entre aqueles que seriam punidos. Uma revelação veio in­
troduzir a necessária exceção.46
Alguém que conhecesse a humanidade menos profundamente
que Maomé talvez se deixasse influenciar pelo medo desse tipo de
crítica, e, para evitar a reincidência dos erros, teria recorrido ao
estudo. Mas o Profeta sabia que a exatidão e a sabedoria não ti­
nham utilidade alguma para uma empreitada como a sua. As pes­
soas preparadas para acreditar na Revelação não eram afetadas
pela refutação dos erros do Alcorão. O risco a ser temido, o da
confiança em qualquer autoridade viva, era muito maior do que
aquele que poderia vir das distorções da história antiga. A afirma­
ção e a garantia ganhariam o respeito de Abu Bakr e outros, e se-

* Os Sete Dorminhocos: também conhecidos como os Sete Dorminhocos de Éfeso;


denominação dada a um grupo de jovens cristãos de Éfeso que se escondeu numa
caverna nos arredores da cidade, por volta de 250 d.C., para escapar de uma perse­
guição contra os cristãos ordenada pelo imperador romano Décio. Segundo a lenda,
eles caíram no sono dentro da caverna, e só teriam acordado de 1 50 a 200 anos de­
pois, durante o reinado de Teodósio II. [N.T.]
** Midrash: forma narrativa criada por volta do século I a.C. pelo povo judeu.
Desenvolveu-se pela tradição oral até ter a sua primeira compilação por volta de
500 d.C., no livro Midrash Rabbah. Segundo a tradição oral judaica, Deus teria reve­
lado a Moisés não somente as leis de seu povo (Torá), mas também uma série de
conhecimentos complementares que deveriam passar de pai para filho. [N.T.]
46. Ishak, 237.

127
DAVID SAMUEL MARGO LIOUTH

riam apoiadas por eles contra todo o conhecimento do "Povo do


Livro", caso viesse a se produzir do lado adversário. No entanto,
nesse período houve alguma dificuldade para que isso ocorresse,
pois, como vimos, o "Povo do Livro" estava do lado de Maomé.
Muitas são as críticas registradas sobre as doutrinas que se
opunham à história do Alcorão, como as que habitualmente fa­
zem livre-pensadores. A doutrina da vida futura não poderia ser
dissociada por Maomé da doutrina da ressurreição do corpo,
contra a qual há objeções muito óbvias. Os pagãos acreditavam
em algum tipo de "sobrevivência da personalidade humana", mas
a ideia de reconstituição do corpo lhes parecia um absurdo do
mais alto grau. A promessa de Maomé dos esposos celestes, po­
rém, causou alegria.47 O Profeta foi convidado a provar seu ponto
de vista trazendo a eles seus antepassados falecidos. Sua única res­
posta foi o sofisma de que a ressurreição do corpo não era mais
maravilhosa do que sua concepção original, processo que ele ja­
mais se cansava de descrever. Talvez fosse isso, mas os pagãos pen­
savam que o argumento deixava a questão no mesmo ponto em
que estava.
Devemos, no entanto, reconhecer a sabedoria de Maomé em
aderir a essa doutrina. Seus sermões mais efetivos, como vimos,
eram descrições de tortura e prazer, exigindo e implicando, am­
bos, a posse de órgãos corporais. Assim, ele não hesitou em afir­
mar que o corpo seria restaurado a fim de ter prazer e dor, e che­
gou a alertar para o perigo de que o sofrimento consumisse o
corpo, e disse que este seria renovado várias vezes, a fim de pa­
decer continuamente. Essas descrições não deixavam de conter
algumas declarações descuidadas, que deram origem a críticas
irreverentes, das quais - se outra explicação não fosse dada -
ele poderia se defender dizendo que seu propósito fora testar a fé
dos crentes,48 para ver quanto eles estavam dispostos a suportar.

47. Wakidi (W.), 1 3 1 .


48. Joseph Smith usou algumas vezes o mesmo apelo.

128
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Ou, se a imprudência cometida fosse muito considerável, o ver­


so podia ser substituído. Para isso - tirar uma revelação e subs­
tituí-la por outra - era preciso, afirmava o Profeta, estar em con­
sonância com o poder de Deus. Isso é indubitável, mas também
era óbvia a necessidade de estar de acordo com o poder do ho­
mem. Por isso nos surpreende como amigos e inimigos auto­
rizaram a inclusão desse procedimento tão comprometedor no
sistema de fé.
Temos alguns relatos, que podem ser verdadeiros, sobre o
modo pelo qual a doutrina da vida futura produziu conversões.
'Amr Ibn Al-'Asit49 declarou ter-se convertido por efeito dos argu­
mentos de alguém que lhe perguntou se os mequenses eram ou
não melhores que os bizantinos e os persas. Ele respondeu que
eram. A pergunta seguinte era se os habitantes de Meca eram me­
lhores que os das outras nações. Ele teve de retrucar que eram
piores. Assim, caso fosse superada neste mundo, a superioridade
mequense devia ser exibida em outro mundo. Mas quem sabia
sobre esse outro mundo, a não ser Maomé? O argumento infil­
trou-se na mente do homem, mas ele esperou para se juntar a
Maomé no momento em que a fortuna estivesse definitivamente
do lado do Profeta. Os antigos aliados perceberam a crescente frie­
za do convertido, e ele finalmente os abandonou.
Outra controvérsia que causou certa dificuldade a Maomé
foi a antiga questão do livre-arbítrio e do determinismo. No Al­
corão, a descrição da onipotência de Deus levou à crença de que
os atos dos homens eram atos de Deus; por conseguinte, a adora­
ção de ídolos poderia ser desejada por Deus, ficando os idólatras
livres de culpa. Pelizmente, Maomé tinha muito pouco de filósofo
para perceber a dureza dessa consequência, e o Alcorão responde
a essa objeção da mesma maneira que a outras. Contudo, graças às
suas repetidas declarações sobre os casos alegados e os eventos
projetados por Deus, ganhou terreno a opinião de que ele era fa-

49. Isabah.

129
DAVID SAMUEL M ARGOLIOUTH

talista. Inventaram-se tradições nas quais ele afirmava positiva­


mente que a ação humana era predeterminada, sem dar margem
à inovação.50
Na realidade, muitos dos fenômenos do Islã são explicados
com base nessa suposição. O fato é que sua mente não se deixava
afetar por proposições contraditórias. Quando os insatisfeitos in­
sinuavam que, caso seus amigos tivessem ficado em casa, em vez
de partir para a guerra, eles não teriam sido mortos, Maomé era
capaz de afirmar, com a convicção do senso comum, que aqueles
que estavam destinados a morrer em determinado dia teriam
morrido, de um jeito ou de outro. Porém, com o mesmo senso
comum, também advertia os homens das consequências que te­
riam de enfrentar dependendo do rumo que tomassem. A contro­
vérsia islâmica sobre esse assunto refere-se a um período poste­
rior, no qual os trabalhos de Aristóteles começaram a influenciar
os pensadores de Bagdá.
Portanto, assim se passaram os anos da controvérsia de Meca,
em que as partes envolvidas subiram de tom em veemência e an­
tagonismo e as polêmicas bem-sucedidas dos mequenses a res­
peito da nova religião baseavam-se na ridicularização e na refu­
tação das noções religiosas correntes entre os pagãos. Como foi
dito, o ponto de vista dos mequenses é sabido apenas por meio
das declarações do adversário, cujo conhecimento da religião de
Meca podia não ser profundo. Se as afirmações dos seguidores de
Maomé são dignas de crédito, cumpre supor que os habitantes
de Meca chegaram muito perto do monoteísmo. Cabe inferir que
Alá era o Deus nacional, para quem apelavam em qualquer situa­
ção problemática, enquanto em períodos de conforto e calma vol­
tavam ao politeísmo. Devemos supor que eles reconheciam Alá
como o Criador do céu e da terra, e atribuíam às outras divin­
dades funções bastante subordinadas. "Quantas divindades você
adora?': teria perguntado Maomé a um khuz'aita (Hasin, filho de

50. Musnad, iv, 67ss.

1 30
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

'Ubaid)51 enviado pelos coraixitas para debater com ele. "Sete na


terra e uma no céu" foi a resposta; uma conversa posterior deixou
escapar a confissão de que, em todos os problemas sérios, apenas
o Deus do céu (Alá) era invocado.
Para os outros seguidores, a inovação de Maomé parecia re­
pousar, sem dúvida, na fusão de todos os cultos subordinados ao
culto do Deus do céu. Num momento posterior, o chefe da tribo
Muzainah, que quebrou o ídolo Nahum, declarou em seu verso
que ele, dali em diante, adoraria o Deus do céu.52 Um converso
thakafita (de Taif, cidade gêmea de Meca) perguntou a Maomé
se deveria manter um voto feito antes da conversão. Quando o
homem informou que o voto fora feito para Alá e não para um
ídolo, Maomé declarou que devia ser mantido.53
Essas suposições amiúde são necessárias à compreensão do
Alcorão e assumidas sem hesitação. Os mequenses eram ridicula­
rizados pela adoração de outras divindades, que, sendo femininas,
eram chamadas de filhas de Alá e identificadas por eles com os
anjos cristãos. Parece que esses seres, embora teoricamente infe­
riores a Alá, recebiam uma fatia maior nas oferendas. É evidente
que não podemos confiar implicitamente nas afirmações feitas
pelo adversário; é admissível supor que a adoração dos habitantes
de Meca a Alá não passava de uma crença no poder do Deus ado­
rado por judeus e cristãos. Porém, as afirmações de que as divin­
dades de Meca eram filhas de Alá e adoradas como intercessoras
podem ter sido mencionadas no decorrer do debate com Maomé,
quando, talvez pela primeira vez, os pensadores de Meca começa­
ram a refletir sobre sua religião. 54
Contudo, as dificuldades sempre nos assaltam. A teoria de que
Alá tinha filhas é refutada pela afirmação de que uma filha é con­
siderada um infortúnio, de modo que, se Alá tivesse filhos, certa-

5 1 . Isabah, i, 692.
52. lbid., 874.
53. lbid., iii, 5 8 1 ; Musnad, iii, 4 1 9.
54. Ver Wellhausen, Reste, 208.

131
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

mente seriam homens. Isso implica que a teoria dos filhos de Alá
não se aplicou às divindades masculinas, a cuja adoração os me­
quenses, bem como outras tribos árabes, se dedicavam, como se
sabe. Supomos que esse argumento sobre as filhas acarretou algu­
mas zombarias bem merecidas a Maomé, que só tinha filhas. Na
verdade, foi revelada uma sura para consolá-lo e aliviar a carga de
ser um abtar, ou alguém sem filhos homens.
Devemos depreender, a partir de alguns textos55 e tradições,
que a objeção dos mequenses não dizia respeito à glorificação de
Alá, mas à identificação de sua divindade com aquele a quem os
judeus chamavam de Rahmtin (o Misericordioso), título aplicado
também a divindades pagãs. A razão da objeção, porém, está além
do nosso alcance.
Ao avaliar os argumentos do Alcorão para os mequenses, de­
vemos lembrar sempre que Maomé está desempenhando o papel
de um profeta hebreu, conclamando seus compatriotas à adora­
ção única do Deus nacional cujos ritos foram abandonados por
outros cultos e idolatrias. Talvez ele acreditasse sinceramente que
cumpria esse papel; enquanto o representava, provavelmente atri­
buiu papéis correspondentes a seus antagonistas. Porém, se o pa­
ganismo de Meca chegou assim tão perto do monoteísmo re­
presentado no Alcorão, é evidente que, com um pouco de boa
vontade e candura, as diferenças insignificantes poderiam ter sido
superadas.
Essas qualidades, contudo, não estavam presentes. Enquanto
a controvérsia progredia, despontava entre os mequenses uma an­
tipatia pessoal em relação a Maomé que parece inteligível para
nós. Embora os mitos posteriores o representem como membro
de uma família nobre, o Alcorão diz que não era bem assim. Se
os mequenses deviam mesmo ser "reformados", teriam preferido
que isso fosse feito por um homem de alta extração, de Meca ou
de Taif. A liderança política e a religiosa não podiam ser disso-

55. Ver sura xvii, 1 10.

132
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

ciadas, e eles não estavam preparados para ver Maomé à frente


do Estado.
O debate prosseguiu, não chegando a termo até que surgissem
armas mais poderosas que as palavras. Embora a vida de Maomé
fosse poupada, aparentemente ele tinha de lidar com muita gros­
seria e, vez por outra, até com a violência pessoal. Quando se pros­
trava na nova cerimônia de orações que ele mesmo inventara, as
pessoas lançavam fezes de camelo nas suas costas; é provável que
agressões similares fossem comuns. As pessoas contra quem o
Profeta lançava maldições eram quatro: Abu Jahl, 'Utbah, filho de
Rabi'ah, Shaibah, filho de Rabi'ah, e Umayyah, filho de Khalef.
Lendas inventadas posteriormente mostraram como todos aque­
les que injuriaram o Profeta ou zombaram do Alcorão foram pu­
nidos por Deus. Durante as vicissitudes desse período, os sucessos
e fracassos, as conquistas e os retrocessos, o Alcorão serviu como
o fiel confidente do Profeta, que, como Lucílio,* a ele recorria para
saber se agia de modo certo ou errado.
Ele registra no Alcorão - ou deixa Alá registrar por ele -
os ditos e as atitudes de seus inimigos, suas próprias mortifica­
ções, seu desânimo e as reflexões nas quais encontrava consolo.
Bastaria que seus versos fossem datados para que pudéssemos co­
nhecer seu estado de ânimo dia após dia, nos anos que testemu­
nharam a luta do Islã para vir à luz. Mas, mesmo durante esse
período, nem sempre Apolo exercitava seu arco. Boa parte do
Alcorão não é polêmica, mas homilética** ou narrativa. Qualquer
fragmento do Velho ou do Novo Testamento, da Vidas dos santos,
dos Provérbios dos Pais Judeus ou do folclore comum que por aca-

* Caio Lucílio ( 1 84-102 a.C.): poeta romano considerado o inventor da poesia satírica,
gênero poético que se firmava na crítica irônica aos vícios, aos absurdos e às injus­
tiças da sociedade, aos homens e instituições. [N.T.]
** Homilética: termo derivado do grego homilos, que significa "multidão", "assembleia
do povo", dando origem a outro termo, "homilia': ou "pequeno discurso", do verbo
omileu, "conversar". A palavra homilia significa um discurso com a finalidade de
convencer e agradar. Portanto, homilética significa "a arte de pregar''. [N.T.]

133
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

so estivesse na memória do Profeta era considerado por ele como


material apropriado para o Alcorão. Maomé raramente se arrisca
a citar suas fontes nominalmente; em casos excepcionais, mencio­
na que este ou aquele sentimento é "escrito por Nós" nos salmos
de Davi ou na lei de Moisés; em passagens muito anteriores, são
citados os rolos de Abraão e Moisés. O nome da lei parece ter sido
aprendido por ele no decorrer da polêmica, e é provável que os
Provébios dos Pais Judeus, chamados pelos judeus de Perakim, esti­
vessem escondidos no nome de um livro sagrado que ele chama
de Furkan.
Suas homilias assemelham-se àquelas ouvidas nos púlpitos
modernos, em que o pregador narra uma história bíblica, acres­
centando algum detalhe de sua imaginação, ampliando-a ou ex­
plicando-a ao longo da preleção. A história que é contada com
maior recorrência e extensão é a de José, a conhecida narrativa
bíblica que os cristãos orientais jamais se cansaram de versificar
ou recontar numa variedade de versões. Uma ou duas vezes, tam­
bém, Maomé guarda de memória a Bíblia para ser capaz de contar
a história de Moisés e Aarão com uma abordagem precisa. A his­
tória de Moisés e de um profeta a quem os muçulmanos identifi­
cam com Elias parece a fusão de uma série de relatos sobre pessoas
diferentes. Ele conhece a história de vários heróis, mas é incapaz
de dar nomes. Este é o caso de Dhu'l Karnain, que é, sem dúvida,
Alexandre, o Grande. Porém, é visível seu conhecimento a respei­
to de numerosos heróis bíblicos e outros. Ele sabe que Salomão
conhecia os djins e a rainha de Sabá - essa história, por se rela­
cionar à Arábia, sem dúvida era familiar até para alguns mequen­
ses, mas seu conhecimento dela provém dos judeus contadores
de histórias, não da Bíblia.
Era de se esperar que Maomé tivesse conhecimento do julga­
mento de Salomão,56 uma vez que se trata de uma narrativa cujo
estilo lhe convinha. Evidentemente ele não tinha ouvido falar dela,

56. A tradição atribui-lhe o conhecimento desse julgamento.

1 34
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

mas sabia a história de Davi e Natan, * embora tenha relatado de


forma equivocada o episódio. Também ouvira falar do tear de Pe­
nélope, mas os árabes, que encontraram uma Penélope nativa, não
conheciam a história.**
A ingenuidade foi bem empregada na descoberta das fontes do
Alcorão, e aquelas de origem incerta não são numerosas. Não se
deve negar a seu autor a posse de certa facilidade de expressão, de
uma exuberância de estilo e até de alguma grandeza poética. Se,
para nós, as repetições no texto parecem intoleráveis, devemos
lembrar que os homens que causam impressão ao mundo, em sua
maioria, são aqueles que dizem o mesmo sobre as mesmas coisas.
Napoleão afirmava que só existe uma figura de retórica impor­
tante, a repetição. 57 Assim como os ouvintes de Sócrates estavam
preparados para escutar e ser indagados sobre o alfaiate e o sapa­
teiro,*** os seguidores de Maomé muitas vezes ouviram os contos
de 'Ad e Thamud, ou as lendas de Abraão e Lot.
Em alguns casos, as suras parecem simplesmente ser produto
de uma imaginação exuberante e poética, e só se pode lamentar
que lhes tenha sido sempre atribuído um valor teológico. Essa sura
é a narrativa do djin que ouve a pregação e se converte; ele pro­
fessa o horror às blasfêmias dos idólatras e reconhece que as es­
trelas cadentes agora o afastam dos conselhos celestes que cos­
tumava ouvir. Essa sura, de um agradável transbordamento, deve
ser comparada ao relato de Horácio sobre a visão que teve de Pã,

* Davi: segundo rei de Israel; Natan: profeta. O profeta repreendeu Davi por ele ter
cometido adultério com a rainha Betsdabâ, quando ela era a mulher do hitita Urias,
cuja morte o rei também tramou para esconder sua transgressão. (N.T.]
** Penélope: esposa de Ulisses, cujo retorno da Guerra de Troia é narrada por Homero
na Odisseia.
57. Lebon, Crowds, p. 126.
*** Trata-se, provavelmente, de uma alusão à metáfora de Sócrates sobre a especificida­
de cada um, conforme o trecho a seguir: "Assim como seria ridículo chamar o filho
do nosso alfaiate ou do nosso sapateiro para que nos fizesse uma roupa ou umas
botas, não tendo ele aprendido o ofício, assim também seria ridículo consentir ou
admitir no governo da República os filhos daqueles varões, que governaram com
acerto ou prudência, não tendo eles a mesma capacidade dos pais." [N.T.]

135
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

cujos seguidores, os espíritos das florestas, não são muito dife­


rentes dos djins, espíritos do deserto. Essa também era a sura per­
dida, na qual o Profeta descrevia sua visita noturna a Jerusalém
- e, como vimos, lhe causou problemas e acabou suprimida.
Contudo, além de uma recitação do Alcorão, à qual se atri­
buía a descendência direta do céu, havia declarações do Profeta,
"A Sabedoria", que só se tornaram infalíveis tempos depois, por
necessidade lógica. Elas se aproximavam mais do atual sermão,
pois não eram acompanhadas nem precedidas de sinais de posses­
são. Consistiam em aforismos sobre vários assuntos, entre os quais
o principal talvez fosse a conduta. O registro escrito dessas conver­
sas à mesa era proibido pelo Profeta, e, dos muitos temas que lhe
são atribuídos, não podemos ter certeza de que mais de um déci­
mo tenha sido realmente proferido por ele. Às vezes, contudo, re­
latos sobre essas conversas à mesa circulavam e davam origem a
críticas não mais sucintas do que as divulgadas pelo Alcorão.
De vez em quando, o Alcorão também faz alusões aos ditos do
Profeta, nas ocasiões em que seu autor tinha alguma razão especial
para ficar satisfeito com eles. Grande quantidade de ditos a ele
atribuídos são aforismos, afirmações sentenciosas sobre ele mes­
mo e sobre terceiros; por exemplo, as três coisas que constituíam
objeto de sua atenção eram o perfume, as mulheres e a oração.
Havia fórmulas em que ele resumia a visão teológica que domina­
va sua mente no momento, como a de que o coração de um ho­
mem encontra-se entre dois dedos de Deus, que podem mudar de
acordo com a Sua vontade; ou de que toda criança recém-nascida
é atacada por Satã e, por isso, chora. "Quando um homem morre,
três o seguem, mas apenas um permanece com ele: ele é seguido
por sua família, suas propriedades e seus trabalhos; seus trabalhos
persistem, o resto volta."58 "Três coisas alegram o olhar de quem
olha: campos verdes, água corrente e rostos agradáveis."59

58. Bokhari, iv, 8 1 .


59. Hariri, SchoL, 492.

1 36
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Não podemos falar com precisão de qualquer efeito moralizan­


te ou desmoralizante produzido pelos ensinamentos de Maomé
sobre seus seguidores. Quando ele estava diante de uma comuni­
dade de ladrões, é provável que a influência desmoralizante come­
çasse a se sentir; nessas ocasiões, os homens que jamais haviam
quebrado um juramento aprendiam que podiam se esquivar de
suas obrigações;60 que os homens do mesmo sangue, do mesmo
clã, começavam a derramar esse sangue com impunidade pela
causa de Deus; e que a mentira e a traição à causa do Islã recebiam
a aprovação divina, e a hesitação que às vezes levava ao perjúrio
não era considerada uma fraqueza.61
Foi então, também, que os muçulmanos se tornaram conheci­
dos pela obscenidade da linguagem.62 E aí igualmente ficou clara a
cobiça de bens e esposas (possuídos pelos infiéis), não desenco­
rajada pelo Profeta. Contudo, foi nesse período que a teoria das
obrigações mútuas entre os membros da irmandade muçulmana
ganhou desenvolvimento mais evidente, e a moralidade necessária
à existência do Estado foi imposta de forma mais severa. No entan­
to, não é provável que esses desenvolvimentos tenham se revelado
em Meca. Por outro lado, não há evidência alguma de que os mu­
çulmanos, quer na moralidade pessoal, quer na altruística, fossem
melhores que os pagãos, embora aqueles que haviam sido comer­
ciantes bem-sucedidos antes da conversão achassem a nova vida
incompatível com os negócios. 63 A ingestão de álcool ainda não era
proibida, e mesmo em Medina deparamos com um tio de Maomé
que era alcoólatra. Há notícia também de uma determinação de
que os crentes não orassem quando estivessem intoxicados, por
receio de que maculassem suas orações. Isso significa que era co­
mum encontrarem-se os crentes em estado de intoxicação.64

60. Bokhari, iv, 90; Musnad, iv, 256.


6 1 . Musnad, iv, 79.
62. Ishak, 433, 744; Ibn Sa'd, iii, 1 16, 1 3.
63. Abu'l-Darda, Isabah, iii, 89.
64. Ver Musnad, iii, 447.

137
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

A proibição do jogo também foi uma medida tomada no pe­


ríodo de Medina. Como o jogo praticado em Meca provavelmente
se integrava à cerimônia religiosa, talvez a adoção do monoteísmo
evitasse que os crentes dele tomassem parte. É difícil falar com
precisão de avanços na moralidade sexual; é possível que a prosti­
tuição já fosse proibida pelo Profeta, embora haja razões para su­
por que ela era encarada em Meca do mesmo modo que na maio­
ria das grandes capitais contemporâneas, isto é, como uma ofensa
contra o decoro, mas não algo que envolvesse um estigma sério.
Registrou-se repetidas vezes, para benefício da posteridade, que o
''Apóstolo" Zubair, filho de Awwam, desferiu um tapa tão forte na
esposa que quebrou o braço dela.65 Nossos especialistas nos brin­
dam com frequentes exemplos de brigas conjugais entre os con­
versos.66 Não há dúvida, contudo, de que a perseguição de que
foram objeto os muçulmanos impôs uma moralidade mais rigo­
rosa do que antes. Afinal, somente assim podem sobreviver as co­
munidades perseguidas, e a necessidade de apoio mútuo, sem dú­
vida, incentivou algum grau de altruísmo.
Posteriormente, o Islã provocou o efeito - corretamente enfa­
tizado por Wellhausen - de tornar os homens sérios. Mesmo a
experiência dos dias atuais mostra que a pregação revivalística pode
ser altamente efetiva nessa direção. Aqueles que não são afetados
pela experiência da miséria terrena com frequência tornam-se sé­
rios pela ameaça do fogo eterno e do eterno descaso. Alguns dos
conversos certamente desejavam ser ascetas, mas foram convenci­
dos a desistir por advertências expressas de Maomé, que decidiu
não admitir práticas monásticas no Islã. Como está registrado, um
desses conversos, alarmado pela declaração de Maomé de que o dia
do Juízo Final se aproximava, vendeu suas quinhentas ovelhas, pro­
vavelmente gastando os rendimentos no caminho de Deus.67

65. Jahiz, Mahasin, 235.


66. Ver lbn Sa'd II, ii, 86.
67. Isabah, ii, 128.

138
5

HISTÓRIA DO PERÍODO DE MECA

O fato de manter sua missão em segredo pelo tempo que foi pos­
sível mostra que Maomé estava cônscio de que ela representava
grande risco. Não sabemos que passos eram considerados legí­
timos em Meca para alguém que tivesse abandonado os deuses
de seu país. Contudo, é certo que os deuses sofrem com a negli­
gência das obrigações, e, como eles têm representantes na Terra,
alguns homens também sofrem com isso. Visto que se julgou ne­
cessário o favor dos deuses para o bem-estar do Estado, muitos
que não tinham outro interesse comercial na matéria estavam an­
siosos por suprimir a heresia, por medo de ofender seus senho­
res. Assim, quaisquer que tenham sido os motivos, havia em Meca
muitas pessoas dispostas a fazer oposição a Maomé. Mas, no mo­
mento em que ele foi obrigado a enfrentá-la, estava muito bem
preparado.
Com exceção da figura de Abu Sufyan, os magnatas mequenses
são figuras obscuras. Quando morreram, a tradição dos não con­
versos se calou a respeito deles; quando viveram o suficiente para
abraçar o Islã, ela adulterou deliberadamente suas biografias. Abu
Sufyan provavelmente não era um opositor destacado antes da
Batalha de Badr, quando passou a comandar os mequenses contra
Maomé, até a tomada da cidade. Ao longo desse período, ele não
se mostrou incompetente nem lhe faltou energia, mas, intelec­
tualmente, não estava à altura do Profeta. Uma tradição1 o apre­
senta como um integrante do partido dos livre-pensadores, que
tinham conhecido o ateísmo com os "cristãos do Harrah"; ele
acrescentou a seu ceticismo uma moralidade frouxa. 2 A frieza em
relação aos insultos e injúrias, traço tão notável de seu filho

1. Lata'if al-Ma'arif, 64.


2. Ibid., 63.

139
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

Mu'awiyah, parece também tê-lo caracterizado, visto que nós o


encontramos empregando como lugar-tenente Khalid, filho de
Al-Walid, cujo irmão matara um homem protegido por Abu Su­
fyan, causando, desse modo, a morte de muitos coraixitas. 3
Ao que parece, os mais destacados adversários de Maomé antes
da Fuga foram Abu Jahl, ou Abu 'al-Hakam, filho de Hisham, da
tribo Makhzum, e o tio do Profeta Abu Lahab Abd al-'Uzza.4
O primeiro desfrutava de grande reputação por sua sagacidade.
Aos trinta anos foi admitido no Conselho do Senado, enquanto os
demais habitantes de Meca deviam esperar até completar quaren­
ta anos. 5 Quanto ao segundo, consta que ele, a exemplo de Abu
Sufyan, levava uma vida dissoluta, envolvido, com outros, no rou­
bo das gazelas de ouro da Caaba, que ele e os companheiros der­
reteram para distribuir entre suas mulheres cantoras. Isso poderia
lhe acarretar a perda da mão, se não fosse pela intercessão dos
Khuza'ah, tribo à qual pertencia sua mãe.6 Ele professava grande
devoção a Al-'Uzza,7 apostando na possibilidade de a deusa existir;
caso não existisse, estava pronto para se consolar com o fato de
que o arqui-inimigo da deusa, Maomé, era seu sobrinho.
Essas duas pessoas, ao que parece, recorreram pelo menos al­
gumas vezes à violência, e o mesmo é atribuído a Abdallah, filho
de Umayyah, primo do Profeta. Já os outros nomeados parecem
ter se empenhado mais em suprimir os tumultos e as brigas do
que em provocá-los de forma deliberada. As mãos de todos esta­
vam igualmente atadas pelo medo do derramamento de sangue,
mas, no caso dos conversos humildes, eles estavam prontos a che­
gar bem perto desse limite. As pessoas mais bem-vindas ao Islã
eram os homens fisicamente fortes, e deve ter havido muita luta

3. Ibn Duraid, 295.


4. O nome significa "Pai da chama", e lhe foi atribuído, segundo dizem, por sua cor aver-
melhada.
5. Ibn Duraid, 97.
6. Ibid., 76.
7. Azraki, 8 1 .

140
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

em Meca antes da Fuga; se não fosse assim, por maior que tenha
sido a presteza dos muçulmanos na Fuga, não seria possível expli­
car o número de campeões que foram a julgamento. Os campeões
devem ter sido julgados em algum lugar específico, e não há regis­
tro de lutas externas nem alusão a isso nesse período.
Consta que, certa feita, o próprio Profeta, depois da recitação
da sura xxxvi, jogou terra na cabeça de seus oponentes. 8 A nova
religião parece ter sido caracterizada, desde o começo, pelo sábio
princípio de reagir quando atingida, e essa pode ter sido a causa
de seu rápido sucesso.
Aprendemos, a propósito,9 que o ofício profético não impe­
dia que Maomé continuasse a trabalhar em seus negócios, mas
os seus seguidores que se encontravam em situação de dependên­
cia certamente os perderam. Aqueles que, como Khalid, filho de
Sa'id, eram expulsos de seus lares por pais indignados deviam ser
alimentados à mesa do Profeta. O crescimento da nova religião
tendia a espalhar discórdia entre as famílias, colocando, assim, a
cidade em estado de baderna e confusão. Aqueles que, por qual­
quer razão, sentiam-se discriminados por sua condição podiam
dar vazão à hostilidade juntando-se a Maomé, e alguns provavel­
mente o fizeram em momentos de irritação. Bandidos dos quais a
cidade se envergonhava parecem ter sido recebidos nas fileiras do
Islã. Então, com base na força de sua fé, eles podiam afirmar que
eram melhores que seus vizinhos.
Os moradores de Meca tomaram uma medida que, para nós,
parece natural e inofensiva: os muçulmanos foram mantidos fora
dos recintos da Caaba. E quando para lá se dirigiram, a fim de
praticar suas devoções, foram rudemente rechaçados.
O Profeta ficou livre de violência contra sua pessoa graças à
proteção de conhecidos, especialmente depois que seu tio, o pode­
roso caçador Hamzah, juntou-se ao Islã. Uma tradição afirma que

8. Wakidi ( W.), 5 1 .
9 . Ishak, 189.

141
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

a proteção se devia à indignação de Hamzah diante dos insultos


dirigidos contra Maomé por Abu Jahl; outra diz que ele exigiu ser
apresentado ao arcanjo Gabriel, e Maomé aquiesceu; o anjo, cujos
pés eram de esmeralda, apareceu na Caaba usando roupas caras. 10
Se essa história for verdadeira, devemos conectá-la a outra, em
que Hamzah aparece desgraçadamente intoxicado.11 A espada de
Hamzah estava destinada a fazer um bom serviço depois.
Após certo tempo, a situação tornou-se intolerável. Os recursos
dos fiéis independentes não bastavam para fazer face às dificul­
dades de seus irmãos famintos, nem a vida destes era suportável
em meio a vexames e perseguições sem fim. Alguns poucos, como
aprendemos no Alcorão, desistiram, embora o Profeta tenha asse­
gurado que seus sofrimentos eram leves quando comparados aos
suportados pelos monoteístas nos tempos antigos. A ideia que
ocorre prontamente, e que com tanta frequência provou ser a sal­
vação das comunidades perseguidas, é autossugerida. Se a terra
de Deus era grande por que os injuriados em seu país natal deve­
riam se refugiar em outro lugar? Afinal, poucas gerações atrás, os
mórmons, vexados e perseguidos, fugiram para outra terra e lá
deram início a uma nova e próspera colônia. O fato de os muçul­
manos não terem feito a mesma coisa pode ser explicado por se­
rem eles essencialmente artesãos e negociantes, acostumados ao
manuseio de matérias-primas, não à sua produção.
Além do mais, parece que o abandono permanente de Meca
jamais passou pela cabeça do Profeta, embora o modo como o
santuário da cidade se integrava ao seu sistema provavelmente
fosse o produto de um lento desenvolvimento. E mais: um refúgio
temporário era desejável, e Maomé não precisava olhar muito lon­
ge para encontrá-lo. Foi naquele país - que enviara uma ajuda
efetiva aos cristãos árabes perseguidos e que manifestara detes-

10. lbn Sa'd, iii, 6.


1 1 . Pode ter sido ainda o caso de uma "alucinação hipnótica" - modo pelo qual Riley
explica a evidência das três testemunhas que viram os pratos de ouro de Joseph
Smith (loc. cit., p. 2 1 2).

142
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

tar a idolatria dos moradores de Meca - que Maomé resolveu


encontrar refúgio para seus seguidores, na expectativa, talvez, de
vê-los retornar à frente de um exército abissínio.12 Entre aqueles
com os quais ele certamente tinha se associado estavam os abissí­
nios, e na verdade ele mesmo teria visitado o país, conhecendo
alguma coisa sobre suas condições.
Os mequenses mantinham relações comerciais com o estado de
Axum, cujo porto, Massaua, está separado da costa da Arábia por
uma curta jornada. Os primórdios do cristianismo naquele país
perderam-se na obscuridade, e todas as suas crônicas até a invasão
portuguesa são meras especulações. Todavia, os autores gregos
atestam a lenda árabe de que, no século VI, o negus* enviara um
exército para socorrer os cristãos perseguidos no sul da Arábia.
Qualquer criança em Meca sabia que uma força abissínia fora en­
viada para destruir a Caaba e tinha sido miraculosamente repelida.
Consta que foi para a Abissínia que os muçulmanos começa­
ram a se dirigir, no quinto ano da missão, 13 provavelmente em
pequenos grupos, embora o número de refugiados tivesse che­
gado, com o tempo, a 83 famílias. Uma tradição coloca à frente
da lista o fraco Othman, filho de 'Affan, com sua esposa Rukayyah,
filha de Maomé, enquanto outra afirma ter sido um certo Hatib,
filho de 'Amr, que não ocupa lugar preeminente na história.
O resto da lista parece incluir quase todas as pessoas enumeradas
entre os conversos. Ja'far, filho de Abu Talib, era um dos emigran­
tes. Abu Bakr chegou à Abissínia, mas foi chamado de volta pela
promessa de proteção de um certo Ibn Dughunnah. Ele, porém,
fazia suas orações com tamanho estardalhaço que acabou cha­
mando atenção, o que obrigou seu amo a retirar publicamente a
proteção. Em alguns casos, os mequenses empenhavam-se em evi­
tar a fuga de seus irmãos perseguidos. Isso é registrado por Sala­
mah, irmão de Abu Jahl.

12. Essa sugestão foi dada por sir William Muir.


13. Wakidi em Dhakha'ir wa A'lak, 204.
* Negus: título usado pelo rei da Abissínia (depois Etiópia) desde a Antiguidade. [N.T.]

1 43
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

Pouco se sabe sobre a condição dos refugiados na Abissínia.


A maioria das nossas informações provém da narrativa de Umm
Salamah, esposa de Abdallah Ibn Abd al-Asad, que depois iria se
tornar esposa do Profeta. Algumas das questões incluídas nessa
narrativa ocorreram a posteriori, mas as palavras etíopes nos dis­
cursos do rei da Abissínia parecem uma evidência de autenticida­
de. Não se sabe quantas pessoas viviam na Abissínia, nem se elas e
os abissínios faziam-se entender mutuamente. 14 Suas vidas não
devem ter sido das mais agradáveis, uma vez que todos manifesta­
vam grande ansiedade em retornar, com exceção daqueles que se
tornaram cristãos. Uma das refugiadas (Asma, filha de Unais) des­
creveu a vida na Abissínia como miserável no mais alto grau. 15
Talvez eles tenham encontrado alguns empregos domésticos, ca­
pacitando-os a ganhar a vida. A princípio, o rei não manifestou
nenhum grande interesse por eles, mas provavelmente não era
avesso ao acolhimento dos emigrantes estrangeiros.
De acordo com Umm Salamah, contudo, os mequenses não
estavam dispostos a perder um número tão considerável de conci­
dadãos. Num momento posterior, vamos encontrá-los irracional­
mente zelosos com os cidadãos que, ao abandonarem sua religião,
deixaram de ter qualquer utilidade para eles. Os mequenses, po­
rém, preferiam mantê-los acorrentados em casa a permitir que
partissem livremente. A razão para esse comportamento deve-se,
em parte, ao costume chamado munãfarah, 16 uma espécie de com­
petição na qual os homens tinham de comprovar que suas famílias
eram maiores que as dos outros. O munãfarah é ridicularizado no
Alcorão, em certo trecho no qual se afirma que alguém aumentou
sua lista contando lápides. Por conseguinte, o exílio voluntário era
considerado um desafio para os amigos. 1 7

14. ii necessária a presença de intérpretes entre abissínios e árabes. Nõldeke, Sass., 220.
1 5. Muslim, ii, 265.
16. Goldziber, MS, i, 56.
1 7. Ibn Duraid, 223.

1 44
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Uma delegação - formada por Abdallah (então chamado


Bujair), filho de Abu Rabi'ah e pai de um celebrado poeta, e 'Amr,
filho de Al-'Asi, que ficaria famoso mais tarde - foi enviada à
Abissínia para convencer o negus a extraditá-los. 'Amr, filho de
Al-'Asi, era uma figura muito conhecida na corte abissínia, por ter
revelado ao rei a infidelidade de uma de suas rainhas, 18 vingado
assim seu próprio erro, embora tenha vingado o do rei. Os re­
presentantes foram instados a levar presentes para os nobres e a
encontrar o rei por intermédio deles. Com o caminho devidamen­
te pronto, os enviados apresentaram a intenção de que seus irmãos
desorientados fossem mandados de volta com eles. Esse regresso,
devemos supor, contaria com uma escolta abissínia até a costa
da Arábia.
O rei desejou conhecer primeiro o que era a nova religião. Foi
convocada uma reunião na qual Ja'far, indicado para responder,
leu a primeira parte 1 9 da sura xix, discurso especialmente prepara­
do por Maomé para a ocasião. Sua descrição das experiências da
Virgem Maria levou o negus às lágrimas, e este decidiu que jamais
abandonaria esses seguidores de Cristo. Desapontados, os envia­
dos esforçaram-se por mostrar ao rei que as opiniões de Maomé a
respeito da natureza de Cristo não eram ortodoxas, mas, para de­
sespero deles, o soberano declarou que a doutrina corânica sobre
aquele assunto era a única verdadeira.
Não se sabe até que ponto essa narrativa é verdadeira. De acor­
do com um relato posterior, parece que Ja'far tivera, por acaso,
alguma familiaridade com a corte do negus. 20 De qualquer modo,
o fato é que o negus favoreceu a causa de Maomé contra os co­
raixitas e permaneceu amigo fiel do Profeta até a morte. Quando
o sucesso coroou Maomé, o rei abissínio mandou-lhe de volta os
seguidores, e isso se deu à custa do dote de uma de suas numerosas

18. Agh., viii, 53.


19. Wakidi, Dhakha'ir, 205.
20. Wakidi ( W.), 302.

145
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

noivas - o cristianismo etíope, ao contrário da maioria das ou­


tras variantes, tolerava a poligamia. Sem um relato abissínio do
acontecimento, certamente não podemos estabelecer as motiva­
ções do rei, nem a trajetória efetiva da política de Maomé.
A sura xix - que, como muitas outras, é um resumo de um
ensinamento do Profeta - ocupa lugar central apenas na história
da Natividade. A elaborada tradução de Warakah do Evangelho
deve ter sido útil nesse período. A negação indignada da filiação
divina de Jesus, sem dúvida, é um acréscimo posterior. Maomé
evitou esse tema espinhoso até que este se tomou uma questão
política para ele na disputa com os cristãos. A parte provavelmen­
te lida mais vezes perante o rei é uma inocente reprodução de afir­
mações correntes nosJivros cristãos, com alguns toques da sofisti­
cação do Profeta. A história de que Cristo falou no berço deve ter
origem na Abissínia; contudo, mesmo que fosse formulada pela
primeira vez, não teria gerado ofensa. Não podemos acreditar pia­
mente que Ja'far traduziu essa sura, cuja beleza decorre, em gran­
de parte, da rima em outra língua. Por conseguinte, a plateia abis­
sínia merece nossa admiração por ter sido capaz de avaliar o
significado de um relato num dialeto intimamente ligado ao seu.
Quando os muçulmanos começaram a perseguir os cristãos,
estes, sem dúvida, mantinham na memória a ajuda oportuna do
negus, pela qual a primeira comunidade foi salva da destruição.
Elaboraram-se ficções para mostrar que o negus não era cristão,
mas um seguidor do Islã. Por analogia com cenas similares, deve­
mos supor que os enviados de Maomé instaram o negus a tomar
parte ativa na supressão do paganismo, lembrando-lhe o papel da
Abissínia no sul da Arábia, fato que conferia um tipo de autorida­
de ao país; conta-se também que a ideia de retomar essa antiga
possessão levara o negus a apoiar os insurgentes de Meca.
Um importante evento, a conversão de Omar, é localizado por
volta da primeira secessão. 21 Esse homem era cerca de dez anos

2 1 . Dhu'l-Hijjah do ano 6 da Missão. Ibn Sa'd, iii, 193.

1 46
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

mais novo que o Profeta. Cavaleiro famoso e dotado de uma força


hercúlea, como Hamzah, era aficionado do vinho. Na juventude,
viveu em situação de pobreza extrema22 e, como os demais me­
quenses, estava envolvido em atividades comerciais, além de ter a
malícia de um beduíno.23 Em suas expedições comerciais, ele ten­
tara escapar dos impostos sobre o ouro, cobrados pelos gassâni­
das, fazendo um camelo engolir as moedas e depois abatendo o
animal para recuperá-las. O funcionário gassânida deixou-se en­
ganar apenas uma vez; na segunda oportunidade, foi mais esperto
que Omar, detectando o camelo que engolira as moedas. O animal
acabou por expelir o dinheiro, e seu dono teve de se satisfazer com
as ameaças de vingança. Como São Paulo,* a quem foi compara­
do, ele perseguiu a religião da qual mais tarde se tornaria paladino.
Maomé, com sua infalível habilidade para julgar os homens,
desejou ansiosamente ter Omar entre seus partidários. Embora
nossos especialistas se calem no que concerne aos passos que ele
teria dado para conseguir sua adesão, o fato de Omar ter se con­
vertido depois da irmã, e de esta ter se casado com o filho de um
monoteísta, fornece elementos para a reconstrução do processo.
Circulava uma história de que o sogro de sua irmã morrera bus­
cando a fé que Maomé fora autorizado a pregar. A conversão de
Omar teve uma infinidade de versões, e muitas delas concordam
em um ponto: ela pode ser atribuída ao encanto do Alcorão.
A mais popular das versões mostra Omar abraçando o Islã na
casa de sua irmã Fátima (ou Ramlah), esposa de Sa'id, filho de

22. Baihaki, Mahasin, 301 .


23. Isabah, ii, 2 1 . Versos de sua autoria são ocasionalmente citados. Ibn Duraid, 225.
* Paulo de Tarso, ou apóstolo Paulo, Saulo de Tarso e São Paulo ( e. 10-67): um dos
mais influentes escritores do cristianismo primitivo; suas obras compõem parte sig­
nificativa do Novo Testamento; exerceu papel fundamental durante a difusão inicial
do Evangelho pelo Império Romano; conhecido como Saulo antes da conversão,
dedicava-se à perseguição dos primeiros discípulos de Jesus na região de Jerusalém;
de acordo com o relato bíblico, durante uma viagem entre Jerusalém e Damasco, viu
Jesus envolto por uma grande luz. Ficou cego, mas recuperou a visão após três dias e
começou então a pregar o cristianismo. [N.T.]

147
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

Zaid, ambos prosélitos secretos. Khabbab, filho de Al-Aratt, estava


lendo uma sura (xx) na casa deles quando foram surpreendidos
pela entrada de Omar. O leitor fugiu precipitadamente, deixando
o rolo com Fátima, que tentou em vão escondê-lo. Omar exigiu
que o entregasse, e, como não foi atendido, feriu a irmã com a
espada. A visão do sangue tornou-o penitente; ele rogou humilde­
mente para ver o rolo, que lhe foi passado com a condição de la­
var-se antes de tocá-lo. Ele leu uma parte da sura e pediu que o
levassem a Maomé, a fim de fazer sua profissão de fé. O leitor da
escritura, ao ouvir essas palavras, saiu de seu esconderijo e condu­
ziu Omar ao Profeta. Hamzah, que estava escondido com Maomé,
preparou-se para matar Omar caso ele se mostrasse ameaçador;
mas, como viera como um prosélito, foi recebido calorosamente.
Em seguida, Omar comunicou a veracidade de sua conversão ao
pregoeiro público amador da cidade, depois visitou Abu Jahl, o
inveterado inimigo do Islã, que lhe agradeceu a informação baten­
do a porta na sua cara.
Os muçulmanos podiam agora sair dos locais onde se escon­
diam e até orar abertamente nos recintos da Caaba, tal era o medo
que a força de Omar inspirava. "Se Satã esbarrasse com Omar",
afirmava Maomé, "sairia fora do caminho dele."24 Todavia, não
dispomos de registro sobre qualquer ocasião em que Omar tenha
demonstrado coragem notável, embora tenhamos em mãos mui­
tos exemplos de seu caráter cruel e sanguinário. Na Batalha de
Hunain, ele fugiu;25 em outra ocasião, teve a vida salva graças à
boa índole de um inimigo.
Essa história, provavelmente, é a mais pura verdade. Algumas
vezes romancistas lançam mão de argumentos similares - um
homem impetuoso porém cavalheiresco acredita que cometeu um
ato grosseiro e, em seu desejo de agradar, perde o comando de sua
vontade. O susto que Omar tomou por ter ferido a irmã deixou-o

24. Muslim, ii, 234.


25. Wakidi ( W.), 361 .

1 48
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

ansioso por fazer qualquer coisa que o redimisse. Ele apressou-se


em seguir o caminho mais óbvio, expressando admiração pelo
Alcorão e tomando-se muçulmano. Foi admitido na sociedade e
tomou-se seu membro mais fanático. Além do mais, parecia pro­
fundamente ligado à irmã. Quando os dois eram crianças, toma­
vam conta do camelo da mãe no deserto; quando o calor aumen­
tava, Omar costumava colocar sua veste sobre a irmã e proteger o
animal, expondo-se sem nenhuma proteção à luz do sol. 26 Isso
explica a dificuldade que a conduta de Omar manifesta em outras
ocasiões, quando não exibe traço algum de cavalheirismo. Ele cos­
tumava bater na esposa27 e chegou ao cúmulo de flagelar algumas
mulheres que choravam a morte de uma das filhas de Maomé. 28
Em outras oportunidades, fez pouco das preocupações das mulhe­
res, de maneira que revelava uma natureza extremamente brutal.
Deve-se acrescentar, na explicação de como se converteu, que
ele pertencia a um clã humilde e, consequentemente, tinha algo a
ganhar com a igualdade que o Islã prometia. Anos mais tarde,
quando se tomou califa, deleitou-se ao humilhar o aristocrata Abu
Sufyan, agradecendo a Deus pelo fato de que, graças ao Islã, um
membro de sua humilde família podia mandar num dos ilustres
Abd Manaf.29 Maomé - que, ao perceber a ruptura dos laços fa­
miliares e tribais, instituiu fraternidades entre pares de seus segui­
dores - aproximou Omar de seu principal adepto, Abu Bakr,30 e,
a despeito das diferenças de personalidades, ouvimos falar apenas
de uma discussão séria entre os dois.31
O Profeta aconselhava-se regularmente com ambos, naquilo
que eles concordavam.32 A tradição em geral apresenta Omar re-

26. Baihaki, Mahasin, 301.


27. Musnad, iii, 328.
28. Ibid., i, 237ss. Ver Goldziher, MS, i, 253.
29. Azraki, 448.
30. Ishak, 934.
3 1 . Musnad, iv, 6.
32. Ibid., 227.

1 49
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

comendando a violência, e Abu Bakr defendendo atitudes gentis.


Embora não pedisse a opinião de Omar com frequência nesses
casos, Maomé tornou-o um dos integrantes de seu gabinete mais
íntimo. A fórmula "Eu, Abu Bak e Omar" estava constantemente
em seus lábios. 33 Quando acatava as sugestões dos dois, o Profeta
costumava observar que chegara à sua decisão de modo indepen­
dente. Esse processo não fragilizou de forma alguma a confiança
de Omar, cuj a crença só se via abalada quando o Profeta permitia
que seus direitos como mensageiro de Alá fossem reduzidos. Cer­
ta feita, o Profeta, depois de se recusar a vestir seda, ofereceu-lhe
uma veste desse tecido, e Omar prorrompeu em lágrimas.34
Se os coraixitas ficaram indignados antes desses acontecimen­
tos, sua fúria então se elevou ainda mais. Os enviados que haviam
despachado para a Abissínia retornaram com a notícia de que os
presentes haviam sido recusados pelo senhor de Axum, o qual ti­
nha mais confiança nos seguidores de Maomé do que neles. Sa­
biam tudo sobre Maomé e seus antecedentes, mas a opinião deles
não exercera influência alguma sobre o negus; os famintos refu­
giados tinham mais peso que eles. A afronta, sem dúvida, fez os
aristocratas mequenses sentirem-se mal, porém, o que era mais
importante, o auxílio dos abissínios deve ter lembrado a todo me­
quense que eles haviam invadido a Arábia, e que sua má conduta
provocara os esforços heroicos de Saif, filho de Dhu'l-Yazan, para
expulsá-los.
A devolução dos presentes aos enviados de Meca soava como
uma declaração de guerra, e assim esse ato foi encarado nas ne­
gociações entre os wahhabitas e Ibrahim Pasha, registradas por
Palgrave.35 Não era provável que a expectativa de Maomé fosse
satisfeita, e que enviassem um exército para abolir os ritos de
Meca - e, com eles, o comércio da cidade? São poucas as razões

33. Muslim, ii, 232.


34. Ibid., 1 53.
35. Traveis, ii, 5 1 .

1 50
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

para duvidar que o fundador do Islã, ao enviar seus seguidores


para Axum, planejasse algo com esse desfecho. Poucos anos de­
pois, ele aliou-se a outra cidade, segundo consta, com o objetivo
expresso de envolver a todos na causa de sua religião.
A razão pela qual esse temor não foi concretizado é sugerida
por Umm Salamah. Pouco depois da chegada dos refugiados, o
negus envolveu-se numa guerra de fronteiras (não se registra com
quem, mas a história da Abissínia sugere muitas possibilidades). Os
refugiados aguardaram com a mais incontida ansiedade o resulta­
do da batalha que iria influenciar seu destino. O confronto, afirma
Umm Salamah, foi favorável ao negus, mas é provável que isso te­
nha tirado os negócios com Meca do rol de suas preocupações.
A história da conversão de Omar mostra-o como alguém em­
penhado em encontrar Maomé, armado de espada para libertar
Meca do impostor. Esse traço provavelmente foi tomado empres­
tado do Omar dos últimos dias, acostumado a desatar todos os
nós com aquela arma. O medo de uma vendeta entre as famílias
de Meca atuava como barreira intransponível, colocando esse ex­
pediente fora do alcance dos mequenses. Eles ainda não estavam
preparados para recorrer a uma solução desse tipo; mesmo quan­
do isso aconteceu, a falta de jeito e a timidez tornaram a tentativa
malograda.
Havia, contudo, um processo - conhecido tanto dos árabes
pagãos quanto dos cristãos - que eles poderiam tentar sem violar
suas consciências. Tratava-se da excomunhão, que privava a família
do réu do jus connubii e do jus commercii; para alcançar esse obje­
tivo, tramaram-se conspirações especiais.36 Parece que, nessa épo­
ca, as listas eram de uso corrente. Firmavam-se solenemente um
pacto e uma liga, numa lista que ficava pendurada na Caaba e se­
gundo a qual os chefes das famílias mequenses empenhavam-se
em excluir os Banu Hashim e os Banu '1-Muttalib de seus direitos,
até que Maomé fosse declarado fora da lei e jurado de vingança.

36. Goldziher, MS, i, 65.

151
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

O próprio escriba era um membro do clã Hashim, mas, aparente­


mente, havia a possibilidade de qualquer dos seus membros abju­
rar pertencer ao clã - e, assim, escapar do banimento. Abu Lahab,
tio do Profeta, foi um daqueles que se aproveitaram dessa alterna­
tiva, e talvez por isso tenha sido amaldiçoado no Alcorão. O primo
de Maomé, Abu Sufyan, filho de Al-Harith, foi outro.37
O clã hashimita como um todo, com essas exceções, reunia-se
na rua em que Abu Talib estava estabelecido, onde vivia prova­
velmente com recursos de Khadijah. A área tinha capacidade para
quatrocentas pessoas e podia se defender de ataques. 38 Como
outros prisioneiros, os hashimitas conseguiam comida, mas a pre­
ços proibitivos. A generosidade dos mequenses e suas hesitações
em muito contribuíram para tornar o bloqueio ineficaz. Certo
Mut'im, filho de 'Adi, prestou serviços desse tipo e por isso, mais
tarde, Maomé teria feito dele um presente para todos os prisio­
neiros de Badr. Hisham, filho de 'Amr, parente remoto dos hashi­
mitas, costumava enviar animais carregados de provisões para o
local.39 Havia algumas pessoas, entre as quais Sahl, filho de Wahb,
que depois declararam ter sido conversos secretos, para quem o
"bloqueio" era desagradável, e por isso pressionavam para vê-lo
suspenso. Nessa época, os muçulmanos, mais que em qualquer
outro momento, acreditavam na doutrina de oferecer a outra face.
Um dos primos do Profeta, Tulaib, filho de 'Umair, feriu Abu
Lahab; capturado pelos coraixitas, teria sido eliminado não fosse
Abu Lahab, que, generoso como de hábito, o protegeu.4° Consta
também que Abu Jahl foi espancado em um encontro com alguns
amigos de Maomé.41
A duração do banimento, ao que se afirma, foi de dois a três
anos. Não se sabe ao certo o número de pessoas por ele afetadas,

37. Wakidi ( W.), 328.


38. Chronicles ofMeccah, ii, 3 1 .
39. Ishak, 247.
40. Isabah, apud Baladhuri.
4 1 . Tabari, i, 1 . 1 90.

1 52
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

mas era um número muito significativo, suficiente para tornar a


contenda uma questão séria. Um dos expulsos foi o tio do Profeta,
Abbas, cujo filho, Abdallah, nascido durante o banimento, iria se
tornar figura eminente entre os pais da Igreja maometana.
O período do banimento é artisticamente ilustrado pelos bió­
grafos com notícias das controvérsias corânicas, mas é provável
que a disputa pertencesse a um período anterior; a guerra de
proezas aconteceu depois, não ao mesmo tempo que a guerra de
palavras. O trunfo abissínio era de imenso valor, embora não tão
valioso quanto foi Medina, mais tarde, porém capaz de ser apro­
veitado com grande eficácia. Toda a argumentação do Alcorão,
que na verdade poucos em Meca podiam entender,42 foi superes­
timada pelo testemunho do grande homem. O negus acreditava
que Maomé era um profeta; esse fato agora podia ser ostentado,
e os mequenses - que, provavelmente, viam nesse testemunho
apenas o desejo, da parte dos abissínios, de interferir em seus ne­
gócios - constataram que Maomé deixava de ser polêmico para
se tornar perigoso.
Na verdade, graças ao patrocínio que deu à causa, o negus se
tornara uma força política, uma pessoa odiada, mais temida do
que desprezada. No momento, os recursos de Maomé eram gastos
com rapidez, e ele provavelmente tinha de lidar com muitas repri­
mendas dos homens dos clãs com os quais se comprometera de
forma tão séria. Todavia, os acontecimentos da Abissínia lhe eram
favoráveis, e o resultado da campanha no local deve ter sido acom­
panhado em Meca com grande ansiedade.
Sabemos que logo se chegou a um compromisso, e as causas
que levaram a isso podem ser antecipadas. Após a bem-sucedida
campanha abissínia, era importante para os mequenses convencer
os fugitivos a voltar para casa, de modo que, no futuro, não se te­
messe uma invasão abissínia. Por outro lado, o Profeta devia estar
cônscio de que a invasão representaria para ele uma vantagem

42. Sura xi, 93.

153
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

duvidosa, visto que os abissínios, se possível, conquistariam tudo


em benefício próprio. Se Maomé fizesse alguma concessão razoá­
vel a Al-Lãt e a Al-'Uzza, o Profeta de Alá seria reconhecido.
Foi isso que aconteceu. O Profeta fez uma revelação na qual
Al-Lãt e as outras deusas eram promovidas, de "nomes inventados
por seus pais e às quais Alá não atribuía autoridade alguma", à po­
sição de "intercessoras cuja atuação era esperada". A cena para a
divulgação da revelação parece ter sido cuidadosamente preparada.
Os mequenses dirigiram-se em massa à Caaba; o Profeta apareceu,
proferiu seu discurso e prestou as mais elevadas saudações às deu­
sas, a ·quem antes tratara com tamanho desdém. No fim do dis­
curso, prostrou-se ao solo e a congregação prostrou-se também.
Alguém a quem o enrijecimento da idade avançada impedia de
participar da cerimônia tirou um pouco de terra do chão e colo­
cou na testa. A notícia de que Alá e as deusas tinham ficado ami­
gos correu rápido, e, com ela, a de que os coraixitas tinham aceita­
do o Islã, ou que Maomé recaíra no paganismo. O banimento dos
hashimitas foi suspenso e os refugiados na Abissínia voltaram.
O compromisso, que para nós parece inteligente e digno de um
estadista, foi visto como o episódio mais vergonhoso na trajetória
do Profeta, sendo suprimido na principal edição de sua biografia.
Na edição que o preserva, consta que Maomé voltou ao mono­
teísmo no mesmo dia.43 A suspensão do banimento dos hashimi­
tas é desvinculada do compromisso e atribuída à ação de certos
indivíduos cujos ternos corações haviam se afligido com a ideia de
que uma tribo coraixita podia perecer. Por conseguinte, eles resol­
veram induzir os coraixitas a destruir a lista, a qual - o que foi
então constatado - já fora comida pelos vermes.
Entretanto, o fato de os refugiados na Abissínia terem retor­
nado em consequência do compromisso mostra que o evento foi
de importância mais que imediata. É totalmente improvável que
Maomé tenha feito essa concessão sem receber em troca algo pelo

43. Tabari, i, l . 195.

154
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

menos equivalente. Isso seria a suspensão do banimento. Por con­


seguinte, julgamos que essa iniciativa, que se pode atribuir à natu­
reza generosa de certas pessoas, foi determinada pela intenção de
lançar o compromisso no esquecimento. Por que o banimento foi
suspenso? Essa era uma pergunta natural. A resposta mais piedosa
era a de que os vermes haviam comido o documento no qual ele
fora inscrito, com a devida reverência ao nome de Deus, que esta­
va acima dele. Para os que julgavam isso improvável, a natureza
generosa de determinados mequenses fornecia uma resposta mais
plausível. Nossos especialistas nos brindam com uma combinação
das duas interpretações, mas parecem estar certos quando atri­
buem ternos sentimentos aos pagãos.
Não sabemos o que estragou o satisfatório sincretismo que ha­
via restaurado a concórdia. O mais provável é que tenha sido o
fato de que muitos dos seguidores de Maomé eram sérios. Na ver­
dade, a longa perseguição à qual haviam se submetido eliminara
os elementos que não eram metal genuíno. Os julgamentos que
tiveram de enfrentar enalteceram a doutrina que seguiam, e aque­
les acostumados a falar de Al-Lãt e Al-'Uzza com desdém e repul­
sa recusavam-se a dar uma reviravolta tão radical e admitir a efi­
cácia das deusas junto a Deus.
Essa não foi a única ocasião em que Maomé constatou que nem
todos os seus seguidores eram aventureiros, que alguns deles eram
entusiastas. Homens a quem ele apontara a perspectiva de bens
materiais às vezes respondiam que não necessitavam desses bens;44
havia conversos que, ao serem informados de que iriam ter lucro
com a conversão, pela apropriação de bens a eles confiados pelos
infiéis, declinaram de fazer do roubo seu ingresso para a nova con­
dição;45 alguns homens tentaram obstinadamente obter permissão
para se tornar ascetas.46 Maomé, como outros que elevam os espí-

44. Musnad, iv, 197.


45. Ishak, 470.
46. Musnad, i, 1 75; vi, 122.

155
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

ritos, nem sempre podia controlá-los. O compromisso ameaçava


representar uma completa vitória para um lado. E é improvável
que os mequenses tenham disfarçado seu prazer por ter extraído
tamanha concessão.
Alguém -,um refugiado abissínio, ou talvez Omar, cuja fé, em
momento posterior, quase foi destruída por uma tergiversação do
Profeta - exigia que a concessão fosse retirada. Nós não estáva­
mos ali, como diria Maomé, quando a discussão foi entabulada,
mas sabemos que as disputas grassaram, mesmo que a posteridade
tenha esquecido tudo a respeito delas. Forte como era a vontade
do Profeta, houve vezes em que ele pode ter se curvado e se resig­
nado a aprovar o politeísmo mequense, mas agora tinha de con­
cordar em declarar que havia cometido um erro. Como vimos, no
Alcorão, a retratação dos erros cometidos era um processo fami­
liar. Alá não era orgulhoso. Os versos comprometedores eram apa­
gados da sura e uma apologia os substituía. Nesse caso, ele decla­
rava que sempre que um profeta recita suas previsões, o diabo está
a postos para interromper. Deus, contudo, revisa as provas e joga
fora as inclusões do diabo.
Portanto, o fruto das longas negociações estava perdido. Os
refugiados, em sua maior parte, voltaram para a Abissínia (na ver­
dade, poucos deles chegaram a entrar em Meca). Os 33 que ali
permaneceram tiveram de obter proteção. As pessoas que tinham
aceitado o compromisso estavam, mais que nunca, desiludidas
com a hesitação e a má-fé de Maomé.
A estratégia dos dirigentes de Meca, contudo, evitara um sério
perigo. Os fugitivos deixaram a Abissínia espalhando o boato da
conversão de seus inimigos, história que, sem dúvida, foi amplia­
da, pois os exilados alimentam-se muito de esperanças. A ajuda
abissínia não era mais necessária, declararam eles, para forçar seus
compatriotas a respeitar o Escolhido de Deus. Essas mesmas pes­
soas, que voltaram um mês depois dizendo que tudo não passara
de um lamentável equívoco, fizeram uma triste figura e não ousa-

1 56
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

ram - acreditamos - contar a história da interferência do diabo.


Assim se evitou o perigo da Abissínia.
O intervalo entre o fracasso do compromisso e os eventos de
importância que se seguiram é preenchido pelo biógrafo com nar­
rativas miraculosas, claras invenções necessárias à interpretação
de passagens no Alcorão. Por mais difícil que seja manchar uma
reputação, é provável que o recuo e a retratação de Maomé te­
nham manchado seriamente a dele. A grande cena na Caaba seria
lembrada pelos cidadãos de Meca, e o Profeta foi alvo de muito
sarcasmo por não ser capaz de distinguir as inspirações de Satã
das de Deus. Devem ter sido poucos os prosélitos conquistados
em Meca, da época da ah-rogação dos versos até o êxodo.
Os próximos eventos de impacto são as mortes, no espaço de
um ano, de Khadijah e Abu Talib. Esse é considerado como o ano
1 0 da Missão, e afirma-se que esses acontecimentos tiveram lugar
após a suspensão do bloqueio e depois que os hashmitas deixaram
seu refúgio. É possível que a morte de ambos tenha sido conse­
quência da agitação provocada pelas cenas de que só podemos
reproduzir um pálido esboço, e da privação e da exasperação que
o bloqueio ocasionou; ou, ainda, e mais provavelmente, da pers­
pectiva de uma renovação dessa privação depois da suspensão
temporária. Segundo consta, Maomé fez tudo para que Abu Talib,
em seu leito de morte, proferisse sua confissão islâmica, mas não
foi bem-sucedido; quanto a Khadijah, ele assegurou-lhe, na hora
de sua morte, que ela, com outras três mulheres famosas - a Vir­
gem Maria, a esposa de Putifar* e "Kulthum, a irmã de Moisés" -,
compartilharia o quarto dele no Paraíso. Faleceu desejando ao
marido "paz e filhos", o costumeiro cumprimento nupcial.47
Parece que o Profeta falou com Abu Talib com afeição bastante
moderada. Sua proteção, sem dúvida, fora semelhante à do freio,

* A esposa de Putifar, comandante da guarda pessoal do faraó, tentou seduzir José.


Essa passagem é uma das mais conhecidas do Gênesis. [N.T.)
47. Isabah.

157
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

que, embora salve o veículo da destruição, reduz a velocidade.


Ademais, Maomé não conseguia reconhecer a dimensão dos ser­
viços prestados por Abu Talib à Missão, por maior que tenha sido.
Este, por conseguinte, foi condenado ao inferno; o máximo que o
sobrinho lhe pôde garantir foi que, enquanto outros praticantes
do mal estavam num lago de fogo, ele ficaria num lodaçal, sem,
contudo, ter muito alívio do sofrimento que isso envolve. Ali, mais
fanático que o Profeta, mostrou alguma relutância quando orde­
nou que seu pai, que morrera como infiel, fosse enterrado.48
Quanto a Khadijah, em contrapartida, consta que Maomé di­
rigiu-se a ela com afeto e admiração; nos últimos anos, costumava
tratar com favores regulares as mulheres que tinham sido benefi­
ciadas pela bondade de Khadijah, declarando ser a fidelidade uma
parte da fé.49 Isso incitou o ciúme de uma das muitas substitutas
da esposa. De fato, o viúvo consolou-se casando um mês dépois
com Saudah, filha de Zama'ah, cujo irmão espalhou cinzas sobre
a própria cabeça quando ouviu falar das bodas da irmã;50 em se­
guida, comprometeu-se com a filha ainda menina de Abu Bakr,
Aisha, de quem ainda se falará. Criança de sete anos, ela foi envia­
da pelo pai com uma cesta de tâmaras a ser entregue ao Profeta,
cujos modos inspiraram-lhe alarme e aversão.51 Mas isso, claro,
fortaleceu a determinação de Maomé, embora Aisha já estivesse
destinada ao filho de seu patrono Mut'im, que, no entanto, não
estava ansioso por estabelecer aliança com um muçulmano.
Os numerosos casamentos de Maomé depois da morte de Kha­
dijah foram atribuídos, por muitos escritores europeus, a uma
paixão desenfreada, mas na verdade parecem ter sido ditados so­
bretudo por motivos de natureza menos carnal. Muitas de suas
alianças eram de caráter político, mostrando-se o Profeta ansioso
por trazer seus principais seguidores cada vez mais para perto.

48. Musnad, i, 97.


49. Alif-Bã, i, 141.
50. Musnad, vi, 2 10.
5 1 . Mikhlat, 1 56.

1 58
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Era esse seu objetivo ao se casar com as filhas de Abu Bakr e


Omar, embora possa ser encontrado um motivo político de outra
ordem em suas alianças com as filhas de opositores políticos ou
de inimigos derrotados. A vitória sobre um inimigo só seria con­
sumada, ao que parece, quando a filha do oponente fosse introdu­
zida no harém do conquistador. 52 O resto deve ser explicado por
sua extrema ansiedade em ter um filho e, assim, escapar de uma
censura à qual era profundamente sensível. "O dono deste castelo
encontrava-se em grande pesar porque não tinha filho [homem] .
Por isso ele não parou de selecionar noivas, uma após outra, até
que afinal houvesse uma perspectiva de sucesso." Isso é mencio­
nado por um escritor árabe53 como um acontecimento normal;
na verdade, a instituição do casamento baseia-se, entre os árabes,
apenas nas duas primeiras dentre as razões pronunciadas na ce­
rimônia do casamento anglicano.54
Durante a vida de Khadijah, como se viu, Maomé não pôde
seguir nem um dos dois ditames alegados. Visto à luz de sua con­
duta posterior, o comportamento que teve antes da morte de Kha­
dijah ilustra, de maneira impactante, seu extraordinário autocon­
trole e a determinação para esperar o momento favorável antes de
colocar qualquer plano em execução. As mulheres no Oriente, em
especial as mequenses, são mais ligadas aos lares em que nasceram
do que os homens,55 e foi a morte de Khadijah, provavelmente,
que tornou a Fuga praticável. A morte de Abu Talib fez dela uma
solução natural para as dificuldades do Profeta, e uma tradição
afirma que o próprio Abu Talib teria sugerido a Fuga ao sobrinho,
em seu leito de morte.56 Maomé não se ligava a ninguém do modo
como era ligado a seu tio, de cuja proteção desfrutara por tanto
tempo; não sobrara nenhum outro não converso que pudesse in-

52. Wellhausen, Ehe, 435, nota 5. Ele dá uma justificativa para isso.
53. Hariri, 430.
54. Ibid., 329.
55. Wellhausen, Ehe, 470.
56. Ibn Sa'd II, ii, 9 1 .

1 59
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

terferir de forma tão ativa em seu comportamento. A tradição quis


atribuir a Abbas participação semelhante, mas há uma boa razão
para suspeitar de que isso só foi assegurado quando os descenden­
tes deste ascenderam ao trono de Maomé.
Consta que depois da morte de Abu Talib o Profeta sofreu pe­
sada perseguição, e que se chegou até a jogar poeira em sua cabe­
ça. 57 Assim, ele deixou Meca com a intenção de estabelecer sua
base em outro lugar. A primeira visita que fez foi a Taif, cidade li­
gada a Meca por muitos laços. Aparentemente, ele não poderia ter
feito pior escolha. A população de Taif não era menos devotada às
suas deusas que os efésios a Ártemis. * Anos depois, eles promove­
riam uma luta mais tenaz por sua religião do que qualquer outra
cidade árabe. Encontramos, no fato de Maomé não ter ido muito
além de Taif, a prova da prudência e da timidez que caracteriza­
vam seus movimentos. Um dos homens influentes em Taif tinha
uma esposa coraixita; como coraixita, o Profeta podia reivindicar
a proteção dessa importante família. Ao que parece, ele teve a pro­
teção assegurada até que começou a explicar seus pontos de vista,
recebidos pelos xeiques com descaso e rejeições explícitas. Mor­
tificado com a atitude deles - essa história é reveladora demais
para ser omitida -, o Profeta implorou-lhes que não mencio­
nassem seus pontos de vista, tão determinado estava a se manter
fora do caminho perigoso. Sua solicitação não foi atendida, e ele
foi atacado pelo populacho fanático; seus sofrimentos foram tes­
temunhados por alguns de seus adversários coraixitas, que, contu­
do, como era de costume, o trataram com generosidade.
Muito depois, um converso tardio lembrava-se de ter visto o
Profeta num local elevado em Taif, curvado como um kahin 58 so­
bre um cajado, ou ajoelhado, recitando uma sura (lxxxvi) na qual

57. Tabari, i, 1 . 196.


* Alusão à extrema devoção que os habitantes da cidade de Éfeso, na Ásia Menor, de­
dicavam a Ártemis. A deusa era adorada num imenso templo que podia abrigar
milhares de pessoas. [N.T.]
58. Isabah, iii, 1 . 1 27.

1 60
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

argumentava sobre a ressurreição do corpo a partir da natureza de


sua origem, e assegurava aos ouvintes, com estranhas promessas,
que ele era uma pessoa séria. O papel do Profeta certamente asse­
melhava-se ao de um louco, mas Q converso admitia ter-se com­
prometido com o texto pela lembrança daquele tempo, embora
isso tenha sido muito depois de ele ter reconhecido ser aquela
a palavra de Deus. 59 Na ocasião, ele aceitou a opinião de alguns
coraixitas que lhe disseram conhecer bem o Profeta, e que o te­
riam seguido caso ele fosse autêntico.6° Consta que uma mulher
(Rakikah) teria dado água a Maomé, tendo sido então convertida;
mas, como uma conversão aberta teria significado a morte para
ela, foi-lhe permitido adotar um compromisso similar àquele de
Naaman, a síria: ela devia afirmar que seu Deus era o ídolo thaka­
fita, mas devia ficar de costas para ele enquanto orava.61
Maomé não poderia retornar para Meca sem uma promessa de
proteção, pois qualquer um que sucedesse Abu Talib na chefia do
clã dos Hashim não estaria disposto a concedê-la. Ele finalmente a
obteve, com extrema dificuldade, de Mut'im, filho de 'Adi, cujo
nome já lhe ocorrera antes. Nada mais de importante aconteceu
durante essa viagem, salvo o encontro com um escravo cristão a
quem Maomé dedicou uma admiração incontida, por saber por
ele que Nínive era o lar de Jonas.*
Na verdade, os habitantes de uma cidade dão pouca atenção às
preocupações de outra. Taif fica apenas a dois dias de viagem de
Meca. Como se pode deduzir dessa história e de outras evidências,
muitos mequenses tinham propriedade ali. Entretanto, era evi­
dente que a profética missão de Maomé, que completara então dez
anos consecutivos, não chegara aos ouvidos da população de Taif.
Nada sabendo sobre Meca, salvo o que os biógrafos de Maomé

59. Ibid., i, 826.


60. Musnad, iv, 335.
6 1 . Isabah, ii, 2 1 2.
* Jonas: importante profeta do Velho Testamento, pregou em Nínive, capital assíria.
(N.T.]

161
DAVID SAMUEL M ARGOLIOUTH

registram, supomos que os habitantes dessa cidade estavam ocu­


pados exclusivamente com ele e sua missão. É evidente, porém,
que eles deviam ter outras preocupações, e mais, que a cidade vi­
zinha e irmã deve ter sabido alguma coisa sobre o Profeta por in­
termédio dos mequenses.
O Profeta recebeu, pois, menos consideração na primeira ten­
tativa em outro país do que em seu próprio. Mas esse primeiro
fracasso não chegou a fazer qualquer diferença, porque ele con­
cebera um plano. De todo modo, visto que suas jornadas como
missionário não estavam isentas de perigo, resolveu tirar vanta­
gem da imunidade que a época do festival proporcionava. Nessas
ocasiões, as tribos das redondezas afluíam em massa para as vizi­
nhanças de Meca e erguiam suas tendas em grupos, como prova­
velmente fazem ainda hoje. A partir do começo do Dhu'l-Ka'dah,
elas mantinham a feira em Ukaz por vinte dias, por dez dias em
Majannah e por oito em Dhu'l-Majaz. Nada mais fácil que circular
por esses acampamentos, como faziam muitos pedintes, e recitar
passagens do Alcorão, oferecendo o paraíso a qualquer tribo que
estivesse preparada para recebê-lo.62 Anos depois, quando a Mis­
são já se tornara um sucesso, os velhos lembravam-se de tet visto
o Profeta na feira de Dhu'l-Majaz difundindo sua mensagem.
Maomé apresentava-se coberto de vermelho; naquela época
a cor da sua pele era branca, e seu cabelo era negro e abundante.
Abu Jahl ficava por perto, atirando terra no pregador e advertindo
os presentes de que não abandonassem seus deuses.63 Quando
chegava a hora do festim propriamente dito, e as duas seitas árabes
se separavam, Maomé costumava surpreender os jovens mequen­
ses permanecendo ao lado da seita que não era a sua.64 Na realida­
de, uma tribo, os Banu 'Amr Ibn Sa'sa'ah, parece ter considerado o
pedido de proteção, embora as condições que ela apresentou não

62. Musnad, iii, 339.


63. lbid., iv, 63.
64. Azraki, 130.

162
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

fossem aceitas por Maomé. Para os demais, o Profeta parecia um


blafesmo ou um bufão. Consta que Abu Lahab o seguia de perto,
para advertir os árabes de que não dessem importância às suas
propostas. Por outro lado, Abu Bakr é representado como alguém
que se utilizava de seu conhecimento genealógico para obter o
crédito do Profeta.
Visto que os favores são usualmente concedidos com condições
a eles relacionados, sentimo-nos à vontade para inferir, da condu­
ta do Profeta após a morte de Abu Talib, que só lhe seria permitido
desfrutar da proteção de alguma família de Meca se ele dirigisse
seus esforços de proselitismo apenas aos estrangeiros. Não raras
vezes essas condições eram impostas aos missionários cristãos
que trabalhavam nos países muçulmanos, onde tinham permissão
para converter judeus e cristãos como lhes aprouvesse, contanto
que deixassem os cidadãos privilegiados em paz. Os que estipula­
ram essa norma provavelmente deixaram de olhar Maomé como
uma fonte de perigo, na certeza de que sua pregação não teria ou­
tro efeito a não ser expô-lo ao ridículo. Por isso ele teve permissão
para ver o que podia fazer com os visitantes atraídos em grande
número, e também com os convidados eventuais, que, por uma
série de motivos, acorriam a Meca.
Assim, um certo Tufail, filho de 'Amr, da tribo Daus, foi a Meca
e acreditou no Profeta. Sua tribo havia produzido, se não um pro­
feta, pelo menos um homem que deduzira a existência de um
Criador, não sabendo quem era Ele. Seu discípulo foi a Meca pre­
parado para aprender. Ele ofereceu a Maomé um refúgio seguro
em sua fortaleza, mas Maomé não ficou satisfeito com o ofereci­
mento.65 O mesmo aconteceu com um homem da tribo Hamdan,
que também ofereceu refúgio a Maomé. Como o Profeta pediu
que ele obtivesse o consentimento de sua tribo e retornasse no ano
seguinte para levá-lo, o homem chegou tarde demais.66 Por isso,

65. Muslim, i, 44; lsabah, ii, 578; Musnad, iii, 370.


66. Musnad, iii, 390.

163
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

também, Maomé estava à espera quando os enviados de Yathrib


chegaram, e, nesse meio-tempo, outra causa ajudara a preparar
a população de Yathrib para recebê-lo.
Esse parece ter sido o curso dos acontecimentos durante o pe­
ríodo de Meca, do qual raramente são lembradas datas precisas,
embora a falsificação de parte deles tenha sido naturalmente pro­
movida.
Ao longo de todo esse tempo, a conduta dos líderes mequenses
parece ter sido a de homens respeitáveis e bondosos. Eles não fo­
ram rigorosos com a excentricidade de Maomé, apoiada pela ri­
queza e pela posição social de Khadijah. Mas tornaram-se impie­
dosos em relação aos indivíduos humildes, que, sem riqueza nem
posição, ou tendo apenas um pouco de cada uma delas, escolhiam
pensar por conta própria.
Quando a bem-sucedida diplomacia de Maomé ameaçou des­
truir a independência da cidade, eles adotaram medidas de for­
ça. Mesmo assim, contudo, mostravam-se dispostos a firmar um
compromisso honroso. Quando isso fracassou, e a sucessão de
infortúnios reduziu Maomé à impotência, eles não se aprovei­
taram da fraqueza do Profeta; deixaram que ele sustentasse suas
próprias opiniões, contanto que não trouxesse problemas para os
cidadãos. Diz um provérbio árabe que, se o fim de um caminho
fosse claro como o começo, não se encontraria ninguém lamen­
tando. Nem eles nem ninguém podia prever naquela época as pos­
sibilidades do Islã.
Podemos perceber na conduta de Maomé a influência daquilo
que Carlyle chama de ideia fixa - a determinação de ser reconhe­
cido como o Profeta de Alá. Uma lenda mostra os chefes coraixitas
oferecendo a ele qualquer coisa que quisesse, uma riqueza além
dos sonhos da cobiça, a soberania ou qualquer outra coisa, bastan­
do apenas voltar atrás em sua reivindicação de ser Profeta; mas ele
tudo recusa. Evidentemente, não atribuímos credibilidade alguma
a essa lenda; contudo, mesmo no caso das ideias fixas que Carlyle

164
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

tornou imortais - a determinação de Boehrner de vender seu


colar, a determinação de Rohan de se reconciliar com a rainha -,
o abandono das ideias seria visto como uma inconveniência pes­
soal, e voltar atrás era só um pouco menos estranho do que seguir
em frente. Depois que o papel de embaixador divino já fora de­
sempenhado por dez anos, com um sucesso bem considerável,
não havia mais espaço para a desistência.

165
6

A MIGRAÇÃ01

Ao contrário de Meca, Yathrib está situada numa fértil planície.


"Habitações muradas, campos verdes, água corrente, todas as bên­
çãos que uma mente oriental pode desejar estão ali."2 Na verdade,
a riqueza do solo encontra expressão no nome Taibah, "O Praze­
roso", que seus colonos árabes consideraram, em determinado mo­
mento, substituir pelo nome egípcio Athribis, Atrepe, "Residência
de Triphis". O nome pelo qual ela é hoje conhecida, ''A Cidade",
é uma abreviação de ''A Cidade do Profeta". A colônia egípcia apa­
rentemente não era muito parecida com o sítio atual. Ficava um
pouco mais para o norte, na confluência dos riachos que se uniam
no Zaghabah, tomando seu curso até o mar.
As crônicas árabes levam-nos de volta no tempo ao elucidar as
circunstâncias que levaram ao acolhimento de Maomé. É certo
que uma região tão favorecida pela natureza seria ocupada desde
muito cedo. Na verdade, já nos tempos pré-cristãos, Yathrib figu­
ra como uma próspera cidade comercial,3 mas a tradição nativa
pouco sabe dos habitantes que antecederam os judeus. Alguns
deles, dizia-se, tinham se estabelecido ali na época de Moisés; ou­
tros teriam se reunido aos seus irmãos após a tomada de Jeru­
salém pelos romanos.4 Colonos judeus, sem dúvida, eram en­
contrados em muitos dos oásis localizados entre a Síria e o Iêmen.
Os árabes contabilizam um número considerável de tribos judai­
cas em Yathrib (cerca de vinte), embora apenas três figurem na
vida de Maomé. Nenhum dos nomes dessas tribos é hebreu; em
sua maioria, são nomes árabes, semelhantes aos nomes das tribos

l. Em árabe, hijrah, quase sempre grafado erradamente Hégira.


2. Keane, p. 2 1 9.
3. Winckler, Altorientalische Forschungen, ii, 339.
4. Aghani, xix, 94.

167
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

árabes. Um ou dois são derivados de totens, e um ou dois são ara­


maicos. Portanto, é improvável que o sangue desses judeus fosse
principalmente judaico. Seus bens eram protegidos por setenta
fortificações. 5
A história árabe registra que os judeus, na época de Maomé,
eram uma minoria da população de Yathrib, e que muitos deles,
de acordo com certas hipóteses, eram clientes dos árabes, e não
seus superiores. Quando houve a dispersão causada pelo rompi­
mento da barragem em Marib,6 os Aus e os Khazraj tomaram a
direção do oásis de Yathrib, onde eles obtiveram terras, mas não
dispunham de capital algum. Como o número de árabes aumen­
tava, eles começaram a invejar e a suspeitar dos ricos residentes
judeus - que, a exemplo do tratamento que o faraó dera aos seus
ancestrais, continuavam a oprimir os colonos. Um chefe judeu,
que portava o curioso nome de Bedchamber,7 chegou mesmo a
fazer uso do jus primce noctis. Mediante um expediente que raras
vezes deixava de funcionar em situações desse tipo, o irmão de
uma das noivas, disfarçado em trajes nupciais, assassinou o tirano;
em seguida,8 os recém-chegados impuseram sua supremacia re­
correndo a dois atos extremamente cruéis. Um rei gassânida -
contando com o auxílio de um khazrajita, Malik, filho de 'Ajlan
- convidou os chefes judeus para um banquete e os decapitou,
deixando a Malik a tarefa de completar a sujeição dos judeus. Ma­
lik fez isso em um segundo banquete, ao qual os chefes remanes­
centes foram crédulos e impulsivos o bastante para comparecer.
Depois desse duplo massacre, os judeus não foram mais capazes
de fazer frente aos recém-chegados e caíram na condição de vas­
salagem. Quando um judeu era atacado, em vez de chamar seu
irmão para socorrê-lo, apelava para a ajuda de um patrão árabe.
É dessa maneira que os Banu Kainuka, proprietários do mercado

5. Samhudi, 80.
6. Alguns ainda consideram esse evento não completamente mítico.
7. Apud Samhudi (Kaitun), mas provavelmente Fatyun (Ibn Duraid, 259) é melhor.
8. Samhudi, 8 1 .

1 68
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

de Yathrib que dependiam dos Khazraj, aparecem em um relato


que logo será narrado.
Hoje é impossível saber se essa história contém algum ele­
mento de verdade ou se é produto da imaginação. Mas não resta
a menor dúvida de que os judeus se relacionavam com muitas
tribos de Yathrib. Porém, as vítimas da armadilha podem per­
feitamente não ter sido as tribos Nadir e Kuraizah, que têm uma
participação nas cenas que começamos a narrar, pois, nos primór­
dios do Islã, elas não se encontravam em condição de vassalagem.
Ao que parece, essas tribos mantiveram-se a distância dos ne­
gócios de seus vizinhos pagãos até pouco antes do início do Islã.
Contudo, o fato de haver nos nomes dessas tribos consoantes es­
pecificamente árabes requer alguma explicação. Em muitos países,
os israelitas portam nomes que indicam assimilação a seus vizi­
nhos, mas o fato de agirem dessa maneira implica que se sentem
alienígenas, e, pelo menos até certo ponto, ocultariam essa cir­
cunstância. Se tivessem colonizado um novo país, esses israelitas,
provenientes de seu lar em Canaã, certamente teriam preservado
tanto sua língua quanto seus nomes nacionais. Assim, parece claro
que esses judeus de Medina não conservavam mais da língua do
que do nome. Eles falavam árabe - um idioma árabe próprio,
ao que parece, mas não tão diferente da língua dos seus vizinhos
quanto o ídiche do alemão.
Por conseguinte, não podemos dar crédito ao relato árabe, mas
a hipótese óbvia de que essas tribos não tinham origem judaica,
sendo seus integrantes árabes judaizados,9 só pode ser aceita até
certo ponto. 1 0 As características que eles exibem são nacionais de­
mais para que julguemos terem absorvido seu judaísmo de es­
trangeiros. Essas tribos podem ter migrado para Yathrib depois do
colapso do Estado judaico no sul da Arábia. É inquestionável a
superioridade de sua cultura em relação à dos árabes. Eles eram

9. Ibn Duraid, 259, parece concordar com essa opinião. Ya'kubi avalia-a positivamente.
10. Apud Nõldeke.

1 69
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

mais bem equipados em termos de instrumentos de agricultura


e instruídos em muitas indústrias estranhas aos árabes. Também
eram adeptos da magia e preferiam as armas da magia negra àque­
las utilizadas em uma guerra aberta. Na época em que essa história
começa, eles tinham alguns guerreiros renomados. Maomé, um
bom juiz de homens, avaliou isso, como veremos, de forma muito
apropriada.
Não há dúvida de que as comunidades judaicas tinham adqui­
rido, em razão de suas atividades pacíficas, considerável riqueza.
Um poeta dos primórdios do Islã equipara os palácios dos Banu
Nadir aos dos monarcas persas e bizantinos. A deterioração da
raça, julga ele, levara à queda de todos de maneira semelhante.
Eles dispunham de alguns recursos públicos e contavam com um
tesoureiro para administrá-los. Ouvimos falar, ocasionalmente,
de um valioso prato, propriedade de membros da tribo. Não há .
dúvida de que parte da sua riqueza foi conseguida com a prática
da usura; em diversas ocasiões na história subsequente os judeus
aparecem sobretudo como agiotas. 1 1 Quando o Profeta morreu,
sua armadura foi mantida em penhor por um judeu. Esse fato
torna mais fácil compreender por que eles foram levados à des­
truição pela população de Yathrib.
Como vimos, os judeus gozavam em Meca, ao que tudo indica,
merecidamente, da reputação de intelectuais. Mantinham uma ou
mais escolas nas quais a Torá era ensinada, e é provável que os
membros de sua comunidade tenham sido os primeiros a ser em­
pregados por Maomé como escribas ou contadores, pois poucos
pagãos em Yathrib eram capazes de escrever em árabe. 12 Ao que
parece, ao escrever em árabe empregavam seus conhecidos carac­
teres hebraicos, e entre os fragmentos antigos que ainda podem

1 1 . Por exemplo, Wakidi (W.), 1 74.


12. Ibn Sa'd menciona como escritores Abu 'Abs Ibn Jabr, Ma'n Ibn 'Adi, Ubayy Ibn
Ka'b, Sa'd Ibn AI-Rabi', Abdallah Ibn Rawahah, Bashir Ibn Sa'd, Abdallah Ibn Zaid,
Aus Ibn Khawali, Al-Mundhir Ibn 'Amr, Usaid Ibn Al-Hudair, Sa'd Ibn 'Ubadah,
Rafi' lbn Malik.

1 70
MAOMt E A AKENSÁO DO illÃ

ser descobertos encontram-se sem dúvida cartas e contratos nessa


língua. Seu domínio da "clara língua árabe'', em alguns casos, era
suficiente para capacitar seus poetas a competir em igualdade de
condições com os poetas das tribos árabes pagãs, e mais de um
deles encontra-se entre os clássicos dos Dias de Ignorância. Em
suas composições, os poetas judeus se atribuem as virtudes e as
distinções dos chefes pagãos e dos cavaleiros errantes, e devemos
deduzir, de uma cena à qual logo faremos alusão, que eles acredi­
tavam seriamente que possuíam essas qualidades.
As tribos chamadas Aus e Khazraj formavam, contudo, a maio­
ria da população de Yathrib. Entre a tribo e a família havia, como
em outros lugares, uma série de grupos mais ou menos numero­
sos, que, contudo, não admitiam delimitações precisas. Grupos
separados residiam em áreas separadas, cercadas por suas próprias
plantações de palmeiras. Essas áreas eram agrupamentos de caba­
nas enlameadas, e alguns deles tinham casas de encontro, mas não
há notícia de santuários. 13 Alguns tinham torres ou fortalezas
onde, em épocas de perigo, podiam abrigar suas famílias e seus
pertences. A antiga descrição de uma dessas torres afirma que ela
foi construída com pedras negras e "uma ou outra pedra branca;
para ser vista a distância': Quanto ao formato, ao que parece, eram
normalmente quadradas. Elas só eram usadas em situações de
emergência, visto que o regulamento de guerra proibia que o con­
quistador entrasse no reduto dos vencidos.
Parece que os yathribitas pagãos estavam mais atrasados que os
habitantes de Meca em termos de civilização. Um "homem perfei­
to", em sua definição, era aquele que podia escrever em árabe, na­
dar e atirar, 14 e poucos deles reuniam esses atributos. A principal
ocupação em tempo de paz consistia no cultivo da palmeira. Boa
parte do essencial à vida era importada dos nabateus, que manti­
nham um mercado próprio em Yathrib. O pagamento provavel-

13. A largura de um quarto seria equivalente a trinta cúbitos (66 cm). Ibn Sa'd II, ii, 10.
14. Ibn Sa'd II, ii, 9 1 .

171
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

mente era feito em tâmaras, que funcionavam como medida de


valor em Yathrib, assim como o camelo em Meca. Embora tenha­
mos conhecimento dos nomes de um ou dois ricos yathribitas,
parece que, em sua grande maioria, eles eram pobres. "Em Yathrib,
na época do Profeta, havia apenas um traje de casamento; os orna­
mentos deviam ser tomados de empréstimo aos judeus." 15 Essa po­
breza devia ser agravada pela prática da usura por parte dos judeus.
Como em Meca, parece não ter havido em Yathrib nenhum
governo reconhecido, nenhuma maneira regular de administrar a
justiça. Um determinado grupo tribal era responsável pelas ações
de seus integrantes. O derramamento de sangue era algo comum,
como resultado de brigas inconsequentes, caprichos ou conflitos
de interesses que ocorriam muitas vezes entre os grupos. Por vá­
rias razões, os clãs tomavam partido nas relações mais distantes
contra seus parentes mais próximos. Ainda assim, essas pequenas
guerras eram travadas, ao que parece, com a estrita observância
das regras do jogo. Derrotado no campo de batalha, o inimigo não
era perseguido até sua habitação. Após muitas lutas, a questão era
solucionada pelo pagamento em dinheiro: o número de elimina­
dos era contado e a família que perdera mais homens recebia uma
compensação dos vitoriosos. Era frequente, sem dúvida, que as
disputas fossem acertadas sem derramamento de sangue, pela de­
signação de árbitros 16 que, contudo, esbarravam constantemente
em dificuldades para ter suas sentenças reconhecidas pela parte
contra a qual se decidia a questão.
Há um complicado relato sobre a origem das dissensões em
Yathrib que levaram à convocação de Maomé. Ao que parece, as
disputas eram causadas muitas vezes pelo fato de um chefe tribal
conceder proteção a algum estrangeiro a quem um nativo, irres­
ponsavelmente, feria ou matava. A honra do benfeitor era atingi-

15. Wellhausen, Ehe, 443.


16. Ibn Duraid, 266, menciona Al-Mundhir ibn Haram como árbitro entre os Aus e os
Khazraj.

1 72
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

da por um ato dessa natureza, e seu clamor por vingança acarre­


tava um distúrbio de sérias proporções. Todavia, as consequências
desses atos eram tão bem conhecidas que aqueles que os come­
tiam deviam ter algum objetivo secreto - a obtenção de terras
ou os despojos, se achassem que o chefe a quem tinham ofen­
dido sucumbiria em combate. Um membro dos Aus, Hatib, do
clã Mu'awiyah, concedeu sua proteção a um estrangeiro da tribo
Tha'labah, de Dhubyan, ao mesmo tempo que, no mercado judeu,
um khazrajita - Yazid, filho de al-Harith - oferecia uma veste a
um judeu se ele esmurrasse as orelhas do estrangeiro. O judeu
aceitou a oferta e deu no homem uma pancada que foi ouvida em
todo o mercado. Ele pagou com a vida por essa agressão quando
Hatib, exasperado com o tratamento dado a seu cliente, chegou ao
local. 1 7 O khazrajita que instigara a violência correu atrás de Ha­
tib, mas, não conseguindo alcançá-lo, recorreu ao apoio de um
membro de seu clã. Cada tribo pegou em armas, e se seguiu uma
série de confrontos nos quais os Aus sofreram duros reveses. Um
de seus clãs, chamado Nabit, foi expulso de suas terras e forçado a
deixar Yathrib.
As tribos judias Kuraizah e Nadir estavam envolvidas no con­
fronto final, a chamada Batalha de Bu'ath, travada seis anos an­
tes da Fuga. 18 Parece que até essa época eles vinham cultivando
suas terras em paz, e, mesmo que a história mencionada fosse
verdadeira, aparentemente suportaram a perda de seus homens
em silêncio, preferindo uma guerra de maledicências e impreca­
ções ao uso da espada ou da lança. Derrotados, os Aus, numa si­
tuação desesperadora, negociaram com essas tribos para obter o
apoio delas na guerra. Ao saber disso, os Khazraj mandaram um
recado aos judeus contra a interferência, e exigiram quarenta ra­
pazes como reféns, que foram providenciados. Porém, o objetivo
real dos Khazraj era forçar os judeus a uma disputa com o obje-

1 7. Ibn Athir, i, 247.


18. Ibn Sa'd II, ii, 1 35.

173 (
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

tivo de conquistar suas terras; o jogo deles foi imitado mais tarde
por Maomé com o mais evidente sucesso. Os Khazraj exigiram as
terras dos judeus e ameaçaram matar os reféns, o que produziu
muito sofrimento. Assim, os judeus foram enviados para ajudar os
Aus e para tomar parte na guerra, à qual eles estavam atentos. Eles
abriram suas portas para os Nabit fugitivos. Lutando sob o co­
mando de estrangeiros e ao lado de homens bravos, os judeus
muitas vezes se mostraram tão bons soldados quanto os demais,
e na batalha que resultou dessa longa preparação os Khazraj foram
derrotados pelos Aus e seus aliados judeus. No momento posterior
à vitória e durante o período de vingança completa, os judeus não
se viam limitados pelos costumes respeitados pelos árabes.
Um dos chefes khazrajitas desempenhou um papel significa­
tivo nessa história, que ele estava destinado a reproduzir muitas
vezes depois da chegada de Maomé. Esse chefe era Abdallah, fi­
lho de Ubayy, do clã Balhubla. Ele não participaria do crime de
assassinato dos reféns, esforçando-se por dissuadir os demais a
mandar de volta os reféns sob seus cuidados. Também se manteve
distante da batalha, por escrúpulos de consciência. Assim, quando
a maré da fortuna voltou-se contra os Khazraj, ele foi capaz de
garantir a libertação de sua própria fortaleza. Porém, tirar vanta­
gem completa de uma vitória era um procedimento que os árabes
haviam de aprender com Maomé. A Batalha de Bu'ath deu a vitó­
ria aos Aus, mas o inimigo não fora exterminado, apenas humilha­
do; era um resultado pesado contra eles, que todos os membros da
tribo estavam sob solene obrigação de pagar com sangue. As tri­
bos hostis ainda habitavam lado a lado, e nenhum homem estava
a salvo ao sair de casa. O dia de Bu'ath, disse Aisha, foi arranjado
por Deus para benefício dos muçulmanos. 1 9
Durante a guerra civil, alguns dos antagonistas, segundo cons­
ta, apelaram para a distante Meca e tentaram se aliar aos coraixi­
tas, mas sem sucesso. Aos representantes desapontados Maomé

19. Samhudi, 90.

1 74
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

ofereceu o Islã como substituto, mas a sugestão não foi aceita. Ou­
tros visitaram os lugares sagrados de peregrinação nos períodos
usuais, quando, como vimos, era costume do Profeta proporcio­
nar parte do espetáculo. Em uma dessas ocasiões, dois yathribitas
- As'ad, filho de Zurarah, já monoteísta quanto à crença,20 e
Dhakwan, filho de Abd Kais - envolveram-se numa disputa re­
ferente a seus clamores por distinção, a qual eles submeteram ao
altamente respeitado cidadão de Meca 'Utbah, filho de Rabi'ah,
que, provavelmente seguindo o exemplo de seus colegas, não con­
seguia se decidir quanto à questão. Enquanto esperavam sua re­
solução, eles ouviram em Dhu'l-Majaz os discursos do Profeta
e tornaram-se os primeiros dos Ajudantes,21 como foram depois
chamados os habitantes de Yathrib que se juntaram ao Islã. Outro
relato22 faz de Rafi', filho de Malik, o primeiro converso; ele ouviu
a sura de José e levou-a com ele para Medina. Uma narrativa dife­
rente23 afirma que o primeiro converso de Medina foi Mu'adh, fi­
lho de Al-Harith.
Outros relatos ainda apresentam como os primeiros conversos
um grupo de seis, sete ou oito pessoas.24 É provável que estes cuja
atenção foi despertada pelas palavras do Profeta tenham sido
principalmente membros dos Khazraj. Também afirmou-se que
Asad, filho de Zurarah, o mais destacado dos Ajudantes, era inimi­
go dos judeus. 25 Os khazrajitas tinham acabado de sofrer pesada
derrota numa luta que haviam travado contra as forças conjuntas
de Aus e judeus. A tradição nativa representa-os tentando compe­
tir com Maomé por se considerarem mais espertos que ele. Os
judeus tinham falado, em momentos de desespero - como ainda
falam hoje -, do Messias que um dia ia aparecer e conquistar o

20. Ibn Sa'd II, ii, 22.


2 1 . Isabah, i, 988.
22. Ibid., 102; Ibn Duraid, 272.
23. lsabah, iii, 874.
24. lbn Sa'd II, ii, 55.
25. Wakidi ( W.), 4 14.

175
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

mundo para eles. Se esse Profeta era o Messias - e ele se apresen­


tava como algo desse tipo -, fazer essa reivindicação não seria
uma excelente política para fortalecê-lo perante os judeus? Assim
argumentavam os khazrajitas. Por essa razão, eles escutavam com
prazer a pregação do Profeta.
A história que chegou até nós é sucinta e unilateral. Pouco ou­
vimos falar do triunfo dos Aus ou do orgulho das tribos judaicas
em sua vitória sobre os opressores. Quando os homens têm de
suportar malogros e humilhações, um pequeno sucesso já lhes
sobe à cabeça. Não se pode duvidar de que a vitória de Bu'ath
tenha sido vista pelos judeus como uma intervenção direta de seu
Deus, e, uma vez que os deuses dos Aus falharam em lhes assegu­
rar a vitória, isso preparou os inimigos para reconhecer o poder
transcendente do Deus israelita, cujo posto de emissário e agente
Maomé reclamava para si, como vimos, com algum apoio judaico.
Talvez o Profeta tenha confirmado essa visão da situação para eles.
O que era mais natural do que Alá ajudar seus adoradores? Os
khazrajitas voltaram para casa com muita munição para pensar.
Podemos, portanto, interpretar o dito da perspicaz Aisha. Na
guerra civil em Yathrib, o lado que durante mais tempo parecia
derrotado obteve um sinal de vitória com a ajuda de Alá, o Deus
dos judeus. Estes, porém, davam pouca atenção à conquista de
prosélitos, e não se aproveitaram do acontecimento para fazer
propaganda religiosa. Mas alguns dos que se encontravam do lado
derrotado ficaram sabendo de um homem que poderia obter para
eles o favor de Alá, por isso estavam dispostos a dar uma atenção
favorável à pregação de Maomé. Para os vitoriosos, o nome de Alá
estava associado ao sucesso, e eles não desejavam que o favoreci­
mento do Profeta se transferisse para os derrotados. O expediente
que originalmente fora pensado para dar continuidade à guerra
civil resultou na união das partes. Os judeus de Yathrib, precipita­
dos e imprevidentes ao extremo, devem ter atestado a correção
dos primeiros princípios do Islã a chegar até eles - a unidade de
Deus, a necessidade da destruição dos ídolos e a ressurreição dos

1 76
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

mortos. O fato de a oração ter de se dirigir para o Templo fechava


a questão.
Ademais, um século antes, os judeus tinham conseguido con­
verter um chefe tribal árabe que estabelecera um trono judeu no
sul da Arábia. Há ainda alguns precedentes clássicos de um profe­
ta chamado para lidar com um Estado que sofria de stasis ( dissen­
são interna); um culto novo era o expediente pelo qual a doença
se tornava curável. Esses precedentes não eram efetivamente co­
nhecidos dos yathribitas, mas a história é coerente. Por conseguin­
te, o solo de Yathrib estava completamente preparado para o Islã.
Se, numa comunidade saudável como a de Meca, o Islã não obti­
vera nenhum apoio, numa comunidade afligida por longos anos
de luta civil ele se difundiria com rapidez.
Os khazrajitas retornaram para o festim do ano seguinte. Seu
número havia aumentado para doze e alguns membros da facção
rival os acompanhavam. Essas pessoas foram introduzidas nos
fundamentos do Islã e submetidas a um catecismo grosseiro. Elas
tiveram de fazer a promessa de se abster de infanticídio, roubo,
adultério e mentira, e obedecer a Maomé em questões legais. Um
dos seguidores de Maomé - Mus'ab, filho de 'Umair, um homem
parecido com ele na aparência, e em cujas suavidade e amabili­
dade ele podia confiar26 - foi mandado de volta com eles para
comandar as orações e ensinar-lhes algumas passagens do Alco­
rão que já se haviam tornado parte do ritual. Essa foi a primeira
vez que Maomé escolheu um lugar-tenente. Quando eles vol­
taram - apenas um ou dois desses khazrajitas permaneceram27
em Meca - seu número, ampliado provavelmente por clientes e
dependentes, cresceu depressa até quarenta, tendo sido improvi­
sado um local para oração no Harrah dos Banu Bayadah, um clã
dos Khazraj. 28

26. lbn Sa'd, iii, 82.


27. lbn Sa'd II, ii, 93, 128, 1 3 1 .
28. Ishak, 290.

1 77 (
DAVID SAMUEL MARGOLI OUTH

Não sabemos de que maneira os conversos difundiram sua re­


ligião entre a população de Yathrib. Mas o missionário que Mao­
mé havia enviado era um homem de confiança. Na juventude, fora
um dândi que se comprazia com vestimentas finas e perfumes
delicados. Ele ocultou sua conversão até que o segredo foi contado
a seus pais por alguém que o vira orar. A partir de então, abraçou
abertamente a causa, deixando de lado a vaidade. Fugiu para a
Abissínia e regressou com os outros. A pobreza e a privação mu­
daram seus modos elegantes de tal forma que o Profeta chorou ao
vê-lo vestido em farrapos que mal cobriam o corpo, em lugar da
elegante indumentária. Em pouco tempo, uma morte como már­
tir o esperava. Se outros muçulmanos colheram algumas recom­
pensas neste mundo, o primeiro Emigrante não colheu nenhuma.
Janotas e dândis eram considerados um bom material por Epicte­
to,* que talvez conhecesse bem os homens.
Uma conversão valiosa conquistada por Mus'ab praticamente
assim que chegou foi a de Mohamed, filho de Maslamah,29 ho­
mônimo do Profeta, de 3 1 anos. Porém, as pessoas cuja conver­
são decidiu a sorte do Islã em Yathrib foram dois chefes tribais
dos Aus: Usaid, filho de Huraith, e Sa'd, filho de Mu' adh. Os dois
foram convertidos de acordo com a mesma receita. Ambos se
aproximaram do missionário fazendo ameaças, mas foram con­
vencidos a escutar e se encantaram com o canto da sereia. Os di­
reitos dos clientes e dos parentes, aqui, como quase sempre, fize­
ram parte do mecanismo. As'ad, filho de Zurarah, era o khazrajita
sob cuja proteção o missionário estava vivendo em Yathrib. O che­
fe aussita, Sa'd, filho de Mu'adh, era seu primo, daí a proteção
do missionário recair parcialmente sobre ele, que foi induzido a
ouvi-lo sob o pretexto de que era provável que seu primo viesse
a sofrer injúrias por suas opiniões. Mas se a ideia dos primeiros

* Epicteto: filósofo grego pertencente à corrente estoica que passou a maior parte da
vida como escravo em Roma. [N.T.]
29. Ibn Sa'd II, ii, 19.

1 78
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

conversos, como afirma o historiador, era curar a úlcera que ar­


ruinava Yathrib introduzindo uma religião que unificaria os com­
batentes, os ouvintes de Mus'ab foram bem preparados para os
sermões.
No caso desses homens, podemos perfeitamente procurar ana­
logias nas listas de conversos reunidas por alguns estudiosos. Hon­
radez e ceticismo, somados a refinamento, produzem milagres.
Pode-se pintar um quadro cor de rosa do Profeta, algo como
aqueles que os maometanos devotos traçam amiúde. Talvez as
expectativas judaicas de um Messias fossem relembradas a esses
aliados dos Kuraizah e Nadir, e seus chefes tribais os exortassem a
aproveitar a chance, enquanto ela ainda estava ali, de garanti-las
para si. Foi a Alá, o Deus que tinha vencido a Batalha de Bu'ath,
que o missionário os consagrou, e seu representante não devia ser
um dos judeus, mas alguém com uma relação distante com as tri­
bos yathribitas.
Talvez numa era mais avançada do que a nossa se possa saber
algo definido sobre as condições físicas e psicológicas que deter­
minam a propagação de ideias germinais; para nós, o processo é
absolutamente misterioso. Quaisquer que tenham sido os argu­
mentos empregados, Mus'ab saiu-se bem. Sa'd, filho de Mu'adh,
tornou-se um entusiasta da nova fé, trazendo não apenas Mus'ab
e As'ad para seu alojamento30 como também jurando não contar
sua conversão a ninguém de seu clã, os Banu Abd al-Ashhal, até
que eles fossem convertidos. Essa enérgica medida levou à conver­
são de todo o clã.31 Em seguida, ele assumiu as características de
um converso fanático. Quando os chefes tribais aderiram ao mo­
vimento, o Islã entrou na ordem do dia em Yathrib. Em pouco
tempo havia apenas um clã - os Ausallah - que não contava
com nenhum membro muçulmano. Contudo, alguns anos ainda
decorreriam antes que a vendeta entre os Aus e os Khazraj fosse

30. Ibn Sa'd II, ii, 2.


3 1 . Isabah.

1 79
DAVID SAMUEL M A RGOLIOUTH

esquecida, e os assassinatos sem sentido continuariam a ser come­


tidos durante um tempo.32
Não sabemos o que as pessoas de Yathrib pensavam a respeito
do novo movimento. Quando o regime do Profeta começou a cair
pesadamente sobre eles, não havia, no interior do grupo, pessoas
que afirmassem ter previsto tudo aquilo, mas é provável que
apoiassem qualquer movimento que promovesse a tranquilidade
e a segurança. Não era costume de Maomé romper com as pessoas
até que estivesse bem certo de que se encontrava em posição van­
tajosa. Assim, até o momento em que abandonou Meca, ele pro­
vavelmente estava em bons termos com os judeus locais, e estes
divulgaram relatos favoráveis sobre o Profeta entre seus irmãos
dos oásis do norte. A tradição afirma ter sido um judeu o primeiro
a reconhecer o Profeta em sua chegada a Yathrib, o que significa
que narrativas detalhadas a seu respeito circularam entre os israe­
litas das duas cidades.
Entre os outros magnatas de Yathrib a única figura de interesse
é Abdallah, filho de Ubayy, que já foi mencionado. Esse "arqui­
-hipócrita" era um homem respeitado por seus talentos e suas
virtudes, ambos de uma natureza pouco comum a um homem
de Estado, em especial em tempos de problemas e desordem. Ele
detestava derramamentos de sangue e abominava a traição. Seus
poderes mentais o colocavam acima de todos os contendores teo­
lógicos, pois dava pouca atenção a esse tipo de coisa. Quando ten­
tava interferir na política, fracassava por falta de prática, de dispo­
sição e de habilidade.
Assim que o Islã começou a se difundir em Yathrib, os conver­
sos mais jovens apressaram-se em dar alguma demonstração de
seu zelo. Os ídolos eram amarrados a cães e afundados em poços,
e os antes mais reverenciados agora eram os primeiros a serem
esmagados na poeira. Em seu entusiasmo pelo novo Deus, os fero­
zes prosélitos entregavam-se a um acerto de contas iconoclasta,

32. Isabah, iii, 1 . 1 79.

1 80
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

quebrando a cabeça dos ídolos em lugar de partir a dos homens


das tribos rivais. Os feitiços passam por uma fase ruim quando
seus devotos podem ser levados a despertar, e a população de
Yathrib agora estava amplamente ciente do assunto.33 Não temos
registro das reflexões e deliberações do próprio Profeta durante
esse período. Ele se manteve constantemente a par daquilo que
acontecia em Yathrib, e com regularidade enviava instruções para
seu representante.34 A medida que os relatórios do representante,
dando conta do sucesso alcançado, chegaram a ele, Maomé come­
çou a delinear o esquema de conduta a ser seguido quando viesse
o convite para ir a Yathrib. O fato de o Profeta estar bem informa­
do dos assuntos da cidade pode ser atribuído a essa eficiente co­
municação com seu representante.
O episódio seguinte é o que os muçulmanos chamam de o se­
gundo (ou o terceiro) Akabah. O número de conversos que visita­
ram Meca no festim seguinte35 aumentou para setenta. O grupo
foi liderado por As'ad, filho de Zurarah, assessorado por sua fi­
lha.36 Os muçulmanos de Yathrib, com quem estavam em contato,
provavelmente por sugestão de Mus'ab, perguntavam-se: "Por
quanto tempo teremos de deixar o Profeta de Deus vagar pelas
montanhas, temendo por sua vida?"37 No fim da noite, eles se en­
contraram com o Profeta no lugar combinado, o desfiladeiro sob
a colina de Akabah. Agora Maomé podia ser convidado a ir a Ya­
thrib, e eles podiam, definitivamente, lhe jurar fidelidade.
No primeiro Akabah, os neófitos prometeram muito pouco:
cumprir cerca da metade dos dez mandamentos. No segundo,
conforme consta, prometeram algo mais: lutar com homens de to­
das as cores a fim de defender a fé. Nesse momento, como afirmam
os muçulmanos, o uso da espada recebeu autorização divina. Pa-

33. Isabah, i, 452.


34. lbn Sa'd, iii, 84.
35. Ou no mês de Rejeb. Musnad, iii, 390.
36. lsabah, iii, 1 . 135.
37. Musnad, iii, 322.

181
DAV I D SAMUEL M A RGOLIOUTH

rece, contudo, que se trata de uma projeção no passado da teoria


relativa a um período posterior. Os Ajudantes não tomaram parte
das primeiras expedições do Profeta, pois seu contrato os relacio­
nava a operações defensivas, não às ofensivas. Algo na atitude dos
seguidores do Profeta ou na natureza de seus discursos, uma vez
aberta a perspectiva de soberania sobre Yathrib, tornou possível
que ele viesse a embarcar naquela empreitada. As' ad, filho de
Zurarah, destacara antes para os ouvintes o caráter extremamen­
te importante da iniciativa com a qual eles estavam se compro­
metendo, mas não havia pessoas medrosas entre eles.38 O Profeta
chegou mesmo a designar alguns oficiais - doze, numa imitação
do número dos Apóstolos - para dirigir a nova comunidade.39
O encontro era secreto, apenas o conheciam os iniciados. Po­
rém, é impossível guardar um segredo entre setenta pessoas; na
manhã seguinte Meca sabia que o Profeta a quem eles tinham re­
jeitado havia estabelecido uma aliança, e uma retirada para Medi­
na provavelmente seria mais vantajosa do que seguir rumo a
Axum, uma vez que para se chegar a Yathrib não havia mar a atra­
vessar, e, o que é ainda mais importante, seus habitantes não se­
riam suseranos de Maomé, mas seus súditos. Admoestações públi­
cas foram dirigidas a alguns yathribitas que estavam em Meca,
mas estes, como não sabiam do segredo, só puderam expressar
surpresa.
Fez-se uma tentativa malograda de deter alguns daqueles que
haviam prestado juramento como reféns. Sa'd, filho de 'Ubadah,
foi tratado de forma rude antes de receber permissão para ir em­
bora. Mas os dirigentes de Meca não eram homens capazes de
prever emergências ou saber como agir quando alguém chegasse.
Na prática, podiam suspeitar vagamente de que seus inimigos ti-

38. Ibid., 323.


39. Nossos especialistas apresentam Abbas convencido de que o Profeta desfrutará em
Yathrib da mesma proteção de que gozava em Meca. Como Maomé estava sob a
proteção de Mut'im, filho de 'Adi, essa é provavelmente uma ficção para glorificar os l
abássidas.

1 82
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

nham conquistado a adesão da cidade situada na principal rota de


suas caravanas. Percebiam, porém de forma menos vaga, que os
homens só pregam paciência diante de ofensas quando não têm
condições de vingá-las, e que os escrúpulos que agrilhoavam sua
própria ação podiam ser revogados por um mensageiro do céu.
O segundo Akabah foi seguido por um êxodo de Meca. Algu­
mas pessoas tinham fugido logo depois do primeiro Akabah, tão
logo a perspectiva de refúgio em Yathrib se abriu. Abdallah, filho
de Abd al-As'ad, foi designado primeiro Emigrante.40 Os habi­
tantes de Meca tentaram deter a fuga de seus concidadãos; al­
guns foram perseguidos e mesmo trazidos de volta à força, ou
por meio de estratagemas; outros, excluídos do acesso ao novo
refúgio, desapareceram e voltaram ao paganismo. Omar, Hisham,
filho de Al'Asi, e 'Ayyash fizeram um acordo para escapar juntos.
Omar e 'Ayyash fugiram, mas Hisham foi detido, e 'Ayyash depois
foi atraído de volta.41 Há o registro de um homem, Nu'aim, filho
de Sallam, famoso como filantropo, que os habitantes de Meca
convenceram a ficar, temendo perder a vantagem da presença do
Profeta, dando-lhe o direito de defender a religião que escolhesse.
Mas a mesma ambiguidade que levou ao colapso da resistência de
Meca fez malograr a maioria de suas iniciativas.
Muitos daqueles que desejaram fugir foram bem-sucedidos.
Alguns tinham parentes em Medina que podiam hospedá-los.
Foi o caso de Sa'd, filho de Abu Wakkas, cujo irmão fugiu de Meca
por ter sido acusado de um crime de sangue e se estabeleceu em
Kuba.42 Muitos eram levados pelos conversos para Yathrib, a pedi­
do de outros Emigrantes.43 Como um poeta dos Ajudantes alar­
deou posteriormente,44 eles compartilhavam suas posses com os
recém-chegados, como nos velhos tempos os camelos eram com-

40. Há informação de que ele chegou no dia 10 de Muharram. 'Hm..Sa'à;-iú,Í 7 1 .


4 1 . lbid., 194.
42. lbid., 99.
43. Bokhari ( K.), ii, 163.
44. Isabah, iii, 1 . 1 57.

1 83
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

partilhados pelos arqueiros. Sa'd, filho de al-Rabi', ofereceu a


Abd al-Rahman, filho de 'Auf, a metade de suas propriedades,
além de uma de suas esposas. 45 Os Emigrantes eram tratados
de forma tão generosa que começaram a temer que seus colegas
estivessem obtendo todo o paraíso como recompensa.46 Foi insta­
lado um local de adoração em Kuba - situada a uma hora de
distância de Yathrib, na direção de Meca -, e Salim, o escravo li­
berto de Abu Hudhaifah, porque conhecia o Alcorão, tornou-se
seu ministro.47
O sagaz fundador do Islã esperou até o fim, embora Abu Bakr
o pressionasse a partir e tenha gritado de alegria quando, afinal,
Maomé se decidiu.48 A fé da população de Yathrib seria testada
antes que o Profeta se comprometesse com eles. Se deviam recebê­
-lo, teriam antes de receber seus seguidores. Se todas aquelas bocas
famintas saudassem em nome de Alá e de seu Profeta, este podia
deixar sua fortaleza e entrar em seu palácio. Porém, mesmo que a
população de Yathrib se mostrasse volúvel, os Emigrantes forma­
riam uma legião de homens desesperados, de cuja lealdade Mao­
mé poderia estar absolutamente seguro. "Quando voltarmos", dis­
se um hipócrita mais tarde, "os mais fortes entre nós excluirão os
mais fracos." Os mais fortes eram aqueles que sacrificaram todas
as esperanças e todas as convicções por uma esperança só.
A partida de Meca foi provocada pela ação dos inimigos de
Maomé. A ideia de um homem que tinha amigos e adeptos de um
novo tipo os alarmou; a defesa de um louco por seus parentes se
encaixava totalmente em suas opiniões a respeito do que era ade­
quado, e não causou ressentimento. No entanto, quando, em lugar ,
da proteção dos parentes, surgiu um grupo de seguidores perten­
centes a diferentes cidades e a diferentes tribos, alguns dos me-

45. Musnad, iii, 190.


46. Ibid., 200.
47. Isabah, ii, 1 10.
48. Tabari, i, 1.238.

184
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

quenses mais inteligentes entreviram, embora de maneira pouco


clara, as consequências que isso poderia acarretar. A Arábia teria
permanecido pagã se não houvesse surgido um homem em Meca
capaz de mudar a situação; um homem que atuaria e estaria pron­
to a aceitar a responsabilidade de agir. Conquanto fossem muitos
os inimigos de Maomé, nenhum deles tinha esse tipo de coragem;
como se viu, não havia nenhum poder constituído que pudesse
julgá-lo. A história conta como eles se encontraram na casa do
Senado e discutiram um plano após outro, até que, no final, con­
cordaram que Maomé deveria ser assassinado. Todas as tribos de
Meca enviariam um representante para tomar parte no assassi­
nato. A tribo de Maomé, excessivamente fraca para exigir uma
vendeta de todas as outras tribos, teria de aceitar o crime de san­
gue, que seria facilmente pago, talvez até prontamente recebido.
Abdallah, filho de Abu Bakr, possuía algum talento para a es­
pionagem e conseguiu estar presente nessas deliberações. O ho­
mem resoluto com quem eles lidavam logo foi informaão desse
plano, para o qual já tinha uma estratégia pronta, que o livraria
dele. Quando os hesitantes conspiradores chegaram à casa de
Maomé para executar o plano na hora em que ele acordasse, o
Profeta não estava lá. Tinha escapado por uma janela49 dos fundos
da casa de Abu Bakr, acompanhado pelo próprio Abu Bakr, que
levou consigo 500 dirhems, tudo o que sobrara de sua fortuna. 50
O genro, Ali, que dormia sob as cobertas de Maomé, serviria de
refém. Os coraixitas, porém, eram muito cavalheirescos para se
aproveitarem de uma vantagem sobre o inimigo. Eles se satisfize­
ram com a oferta de uma recompensa de cem camelos pelas cabe­
ças do Profeta e de Abu Bakr5 1 e o emprego de rastreadores profis­
sionais para seguir a trilha dos dois.52

49. Isabah, ii, 6 19.


50. Ibn Sa'd, iii, 122.
5 1 . Musnad, iv, 176.
52. Muruj al-dhahab, i, 233.

1 85
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

Quando os conversos escaparam da prisão, seu plano, ao que


se sabe,53 era esconder-se nas redondezas por três dias, antes de
buscar refúgio em outro país. O clamor público então se acalmou,
pois os mequenses acabaram não encontrando nenhum homem
com o talento de um espião. O plano de Maomé continuava o
mesmo. Antes de deixar Meca, assegurou-se de um refúgio, conhe­
cido desde sempre como a Caverna, situado na montanha Taur, na
região chamada Mafjar, ao sul de Meca. Poucos mequenses eram
espertos o bastante para procurá-lo na direção oposta a Yathrib; se
eles procurassem, não conseguiriam encontrar o esconderijo, em­
bora um certo Kurz, filho de 'Alkamah, tenha revelado mais tarde
ter seguido a trilha do Profeta até a Caverna.54
O segredo foi revelado a algumas poucas pessoas de confiança.
Um deles era 'Amir, filho de Fuhayrah, escravo liberto de Abu Bakr
e um dos primeiros conversos, cujo juramento lhe valera a liber­
dade. Ele trabalhara na casa de Abu Bakr e, na fuga, dividiu o
camelo com o patrão. Encarregou-se da difícil tarefa de garantir
comida para os fugitivos, visitando a Caverna à noite com esse
propósito (é isso que lemos). Entretanto, os condenados, que ha­
viam estocado de antemão as provisões em seus locais de tocaia,
foram mais espertos, embora a precaução de Maomé não tivesse
sido menor. Outra pessoa de confiança foi um guia que conhecia
a estrada entre Meca e Yathrib, a qual, segundo Keane, se estende
por 375 milhas pelo caminho mais curto, mas Burton informa ter
248. Esse guia era um pagão chamado Abdallah, filho de Arkat,55
que guardava os camelos adquiridos para a jornada e os levou até
a Caverna na ocasião combinada. Mais tarde, o Profeta registraria
no Alcorão como ele e seus companheiros esperaram na Caverna,
e como ele profeticamente assegurara a Abu Bakr o auxílio de

53. Boisgobé, Trente années d'aventures. Os seguidores de Maomé fizeram o mesmo:


Wakidi ( W.), 1 7 1 .
54. Isabah, iii, 585.
55. Diferentes relatos abordam sua origem e seu status.

1 86
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Deus, dizendo-lhe que não ficasse aflito.56 Não temos dúvida de


que Maomé, cujas faculdades mentais atingiam o auge em mo­
mentos de extremo perigo, comportou-se com frieza e coragem.
Por conseguinte, a distância que os fugitivos se propuseram ven­
cer era aproximadamente a mesma que há entre Londres e Newcas­
tle, ou talvez Londres e Edimburgo. Só aqueles que já cumpriram
essa jornada uma vez sabem das suas dificuldades e de seus horro­
res. Parte dela foi percorrida sobre rochas nuas, atravessando desfi­
ladeiros estreitos; parte, sobre uma grande planície brilhante e suja.
Cada jarda no interior dessa evanescência morta e árida, com
suas constantes e movediças miragens de fantasmas, faz você se
sentir mais triste e insignificante do que em cem milhas dentro
do brilhante, efervescente e salgado oceano; mesmo o próprio
mar Vermelho, com uma temperatura de cem graus [Fahrenheit]
à sombra, nada é [se comparado] ao deserto, em seu absoluto
sofrimento e desamparo.

Assim escreve Keane. Burckhardt compara parte do caminho


com o deserto da Núbia. Burton refere-se ao mesmo como "um
deserto povoado apenas de areia, um lugar de morte, no qual ha­
via pouca coisa até para morrer, só a natureza escarpada, áspe­
ra, revelando todo seu esqueleto ao olhar de quem contempla".
O egípcio Soubhi, tendo se deslocado de Meca para Medina, inve­
ja os viajantes europeus, na Suíça ou no sul da França.
A hesitação de Maomé em migrar para Yathrib pode ter sido
causada pela falta de disposição para se defrontar com esses hor­
rores físicos, que, embora menos penosos para um árabe do que
para um europeu, não podiam ser menosprezados. Além do mais,
ele detestava viajar,57 daí no Alcorão exílio relacionar-se com mor­
te.58 O Profeta, como muitos homens, foi tímido no começo e se
mostrou corajoso quando adquiriu experiência.

56. Sura ix, 40.


57. Muslim, ii, 107.
58. Baihaki, Mahasin, 326.

1 87
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

A estrada seguida pelo guia não parece ter sido idêntica a ne­
nhuma das quatro mencionadas por Burton. Os primeiros dois
dias da jornada os levaram perto de Usfan, a 36 milhas de Meca;
esse local fica na borda extrema das colinas, e, aparentemente,
manteve sua denominação até a época de Burckhardt. Dos demais
nomes que figuram na narrativa da fuga do Profeta, poucos pare­
cem ser conhecidos dos viajantes europeus. O guia, intencional­
mente, seguiu a trilha conhecida, apenas de vez em quando cor­
tando a rota ordinária. A forma verdadeira da alguns dos nomes
era duvidosa no terceiro século do Islã. Os incidentes fabulosos
com os quais algumas das crônicas embelezam a jornada não pre­
cisam ser repetidos, mas é significativo que, quando eles alcança­
ram 'Arj, e Maomé foi informado de que a terra pertencia à tribo
Aslam, cujo nome significa "mais seguro", o Profeta aceitou alegre­
mente o presságio.59 Seu camelo ficou doente ali, e um membro da
tribo lhe providenciou outro.
De acordo com um relato, alguém de uma família a quem uma
filha de Abu Bakr servia de ama-seca, que também tinha fornecido
um guia, informou sobre um atalho para Medina,60 que passava
por cima de uma montanha íngreme chamada Raktibah, onde o
Profeta conseguiu colocar a seu serviço uma dupla de assaltan­
tes.6 1 Os Aslam eram um ramo dos Khuza'ah. Ao conciliar-se com
eles, o Profeta deu o primeiro passo rumo à recuperação de Meca,
pois, como vimos, os Khuza'ah lembravam que tinham sido pri­
vados de seus privilégios pelos coraixitas.62
Não se pode afirmar que os perseguidores vindos de Meca es­
tavam muito longe na estrada para Medina, e é provável que os
líderes coraixitas, isentos de premeditação, se congratulassem por
se livrarem dos polêmicos compatriotas sem ter de derramar san-

59. No entanto, essa história talvez seja um exagero do biógrafo. Com frequência encon-
tram-se narrativas similares.
60. Isabah, ii, 180.
61. Musnad, iv, 74.
62. Ver Wellhausen, Wakidi, 320, 374.

1 88
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

gue. 'Akil, filho não converso de Abu Talib, avaliou e vendeu as


residências de Maomé e dos outros membros muçulmanos de sua
família.63 Ataque similar foi desferido contra as casas e os bens de
outros Emigrantes. Durante certo tempo, a cidade desfrutou de
completa calmaria.
Numa segunda-feira, dia 9 do Rabi' I do ano 1 a.H. - corres­
pondente ao dia 20 de setembro de 622 d.C. -, o Profeta chegou
a Kuba, então um lugar de jardins e pomares. O guia os deixou ali
e voltou para informar à família de Abu Bakr que tudo correra
bem. 64 Maomé chegou ao meio-dia, e os neófitos não sabiam
quem era o Profeta e quem era Abu Bakr, porque ambos estavam
vestidos com trajes brancos, que lhes tinham sido enviados por
Talhah, filho de Ubaidallah;65 logo, porém, viram Abu Bakr cobrir
Maomé com seu casaco, e então deduziram que o Profeta era
aquele que fora atendido.
Quem lhes ofereceu hospitalidade foi um converso mais velho,
Kulthum, filho de Hind, dono de um escravo que atendia pelo
,,
nome de "Sucesso , o que pareceu ao Profeta um bom augúrio.66
O oferecimento foi aceito, embora a casa de outro converso tenha
sido considerada mais conveniente para acolhê-los. Eles decidi­
ram permanecer em Kuba, todos reunidos, o que se estendeu até
a quinta-feira seguinte; com ele estava Suhaib, filho de Sinan,67
que fora forçado a entregar suas economias aos coraixitas. Ao que
parece, a iconoclastia predominava entre os habitantes, e conta-se
que o Profeta iniciou a construção de uma mesquita, assunto so­
bre o qual, porém, resta alguma dúvida. Há evidências de que os
habitantes de Kuba manifestaram, posteriormente, alguma irrita­
ção com o fato de o Profeta não ter feito da cidade sua residência
permanente.

63. Azraki, 389.


64. Isabah, ii, 696.
65. lbn Sa'd, iii, 1 22.
66. Isabah, iii, l . 138.
67. Ibn Sa'd, iii, 163.

189
DAVID SAMUEL M ARGOLIOUTH

Uma vez que Yathrib ficava tão próxima, era de se esperar que
toda a cidade acorresse a Kuba para buscar seu Profeta e levá-lo
para casa; os habitantes das cidades localizadas a leste teriam de
enfrentar uma jornada de muitas horas para saudar convidados de
distinção moderada. Como os moradores de Yathrib não agiram
desse modo, é provável que, no começo, o precavido Profeta, que
escapara de Meca às ocultas, tenha guardado sua chegada em se­
gredo, conhecido apenas de alguns poucos escolhidos. Mesmo
Abu Bakr, conhecido das pessoas na estrada, quando indagado
sobre quem era seu acompanhante, respondia "um guia contrata­
do para me conduzir':68 O Profeta não era homem de aceitar de­
clarações amenas sem algum ceticismo. De Kuba, ele comunicou
sua chegada a As'ad Ibn Zurarah e outros conversos em Yathrib,
mas sem dúvida seu tempo foi bem empregado em descobrir a
verdade sobre as boas-vindas que ele devia receber.
Na sexta-feira,69 o Profeta saiu de Kuba em direção a Yathrib e,
segundo consta, realizou um serviço religioso no Wadi Ra'unah,
que se situa na rota entre as duas cidades. Isso parece um ana­
cronismo, e a adoção da sexta-feira como dia sagrado só aconte­
ceria mais tarde, por sugestão de um medinense, quando as rela­
ções com os judeus tinham deixado de ser amistosas. Na verdade,
uma confirmação disso pode ser encontrada no fato de ele ter es­
colhido a sexta-feira para trabalhar. Conta-se que cada tribo pela
qual passou desejou ter a honra de sua presença e solicitou-lhe
fixar sua residência nela. Ele recusou todas essas ofertas para não
estimular ciúme e confiou ao seu camelo a tarefa de indicar um
sítio. O animal escolheu o lugar da futura mesquita, e o Profeta
só aceitou hospitalidade até sua própria casa ser construída. Anas
Ibn Malik afirmou que quinhentos Ajudantes foram encontrá-lo70

68. Musnad, iii, 122.


69. Anas, filho de Malik, afirma que o Profeta permaneceu quatorze dias em Kuba. Mus­
nad, iii, 2 1 2.
70. Musnad, iii, 222.

1 90
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

e que uma dança de guerra abissínia foi executada à guisa de


boas-vindas. 71
Essas histórias podem ou não ser verdadeiras. Sabemos que, a
princípio, ele era incapaz de dormir uma noite inteira por con­
ta de suas preocupações, e que só fechava os olhos quando consta­
tava que alguns dos seus fiéis adeptos de Meca estavam montando
guarda.72 O horror da tentativa de assassinato e dos dias e noites
na Caverna ainda estava presente. Ele também tinha ciência de que
um dos seus novos adeptos, Nufai', filho de Al-Mu'alla, fora assas­
sinado antes de sua chegada, em consequência da rixa de sangue.73
Enquanto a residência a ser construída para ele não ficava
pronta, Maomé alojou-se na casa de Khalid, filho de Zaid, um
khazrajita que se alinhava entre os primeiros conversos de Yathrib
e que estava muito próximo de Mus' ab, filho de 'Umair, o missio­
nário a quem o Profeta havia enviado para preparar o caminho.
Um primeiro passo dado por ele foi estabelecer com alguns de
seus principais seguidores de Meca e conversos de Medina um
relacionamento, ao qual denominou irmandade, que buscava en­
volver muitos dos direitos próprios desse título. Ele tentara o mes­
mo método antes e fora muito bem-sucedido, a ponto de romper
com a superstição sobre o parentesco. A iniciativa, em Medinâ,
parece ter tido um caráter apenas temporário, sendo abolida após
a Batalha de Badr.74
O Profeta entendia perfeitamente que seu ofício envolvia todas
as responsabilidades de um rei, tanto a chefia religiosa quanto a
política. E nós podemos imaginar com que prazer um homem
inteiramente qualificado para governar encontrou-se enfim numa
posição em que seus talentos podiam ser exercitados. Entretanto,
ele não assumiu todas as obrigações de imediato. Durante certo

71. Ibid., 1 6 1 .
72. Isabah, ii, 163.
73. Ibn Duraid, 271.
74. Ibn Sa'd II, ii, 12 lss.

191
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

tempo, os antigos adivinhos continuavam a manter alguns clien­


tes, quando contendores solicitavam que suas diferenças fossem
solucionadas;75 mas em pouco tempo tornou-se proibido recorrer
a eles, sob pena de privação dos méritos das orações de quarenta
dias,76 e seus honorários foram declarados ilegais.77 A organização
rudimentar que existia entre as tribos antes da chegada de Maomé
não desapareceu logo. Aos poucos, contudo, o princípio de que
toda autoridade emanava de Maomé passou a permear a consti­
tuição de Medina. Ele reivindicou o direito de depor os líderes
tribais e substituí-los por chefes de sua própria escolha.78 As dis­
putas entre seus seguidores eram trazidas naturalmente até ele, a
quem cabia solucioná-las, e em seguida as disputas entre eles e
seus vizinhos.
Maomé herdou a devoção e a adulação que até aquele momen­
to eram conferidas aos ídolos, e ainda que nunca tivesse permitido
que a palavra adoração fosse pronunciada nas cerimônias de que
era objeto, logo tornou-se coberto de atenções que em pouco di­
feriam das que cercavam um deus. Conversos mais entusiastas em
geral disputavam a honra de se lavar na água que o P � feta havia
usado em sua ablução, e depois a bebiam. Em pouco � ele
passou a engarrafar o precioso líquido e enviá-lo, a exemplo das
relíquias dos santos, aos novos adeptos. Quando contratou os ser­
viços de um barbeiro, os muçulmanos se amontoaram ao seu re­
dor, desejosos de pegar fios de seu cabelo79 e fragmentos de unhas,
que guardavam como amuletos e relíquias.80
A liberdade de aproximação que caracterizava os velhos chefes
beduínos logo foi proibida; uma revelação divina vedava aos mu­
çulmanos o direito de se dirigirem ao Profeta como se dirigiam

75. Wakidi, 1 2 1 .
76. Musnad, iv, 68.
77. Ibid., 1 18.
78. Ibn Duraid, 274; Wakidi ( W.), 249.
79. Musnad, iii, 1 33.
80. Ibn Sa'd II, ii, 87.

192
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

uns aos outros. Em determinado momento, Maomé ordenou a


seus seguidores que fizessem uma doação aos pobres antes de se
dirigirem a ele, mas isso teve de ser revogado.8 1
Maomé estabeleceu a regra de não entrar em nenhuma casa de
Medina, exceto a sua;82 talvez essa determinação só fosse quebrada
para que ele ministrasse as últimas palavras de conforto aos mo­
ribundos. Depois de certo tempo, porém, adotou-se o costume
de trazer os moribundos ou os mortos até ele.83 Contudo, ele se
absteve até o fim da custosa parafernália que tanto agradava ao
gosto infantil de outros monarcas. Rejeitou uma proposta de
Omar para que comprasse uma veste de seda a fim de receber as
delegações. Independentemente da carência ou da abundância de
recursos, estes jamais deveriam ser desperdiçados em joias, mo­
saicos ou roupas feitas de ouro, e sim empregados na aquisição
de armas e homens.
Em Medina, o Alcorão ingressou em um novo estágio de sua
existência, servindo de instru ento para legislação e liberando-se,
assim, das funções de oráculo; ssou a funcionar também como
crônica oficial, na qual os aconteci ntos correntes eram analisa­
dos do ponto de vista do Profeta.84 Parece que, até o fim, Maomé
não permitiu que mesmo seus associados mais próximos tivessem
acesso ao segredo de suas revelações, ainda que, às vezes, informas­
se antecipadamente sobre a importância de uma futura revelação
e afirmasse que suas palavras tinham a mesma força das palavras
de Deus. Em pouco tempo, uma equipe inteira de escribas foi con­
tratada para colocar no papel seus transbordamentos; segundo se
afirma, um desses escribas voltou ao paganismo, observando que
o Profeta só lhe havia consentido escrever o que ele quisesse. 85

8 1 . Sura lviii, 13.


82. Bokhari (K.), ii, 2 12. O contrário é afirmado em Musnad, iv, 393.
83. Musnad, iii, 66.
84. A sentença de Sprenger, ''Artigos de fundo", descreve essas suras de modo tão adequa­
do que passou a ser adotada.
85. Musnad, iii, 1 2 1 .

1 93
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

O fiel, contudo, não raciocinava assim. Omar registra, em per­


feita boa-fé, como - quando Maomé veio proferir orações sobre
o hipócrita falecido Abdallah ibn Ubayy - reclamara com o Pro­
feta por prestar essas homenagens a seu inimigo. Ao mesmo tem­
po, ficou espantado consigo mesmo por sua audácia ao criticar a
conduta do mensageiro de Deus. Pouco depois, porém, o Profeta
produziu uma revelação: "Oremos não sobre qualquer deles que
morre a qualquer tempo, nem que fica sobre seu túmulo." Para
Omar, a coincidência não sugere, aparentemente, a mais remota
suspeita; para nós, a revelação parece ter sido nada mais que a


adoção formal de uma sugestão de Omar, que o Profeta supunha
representar a opinião públi .
Em outra ocasião, Omar u algum outro), ao concluir que a
Chamada à Oração não devia p cer uma imitação de judeus e
cristãos, comunicou a sugestão ao Profeta e soube por ele que o
arcanjo Gabriel já se antecipara sobre a matéria. Em três outras
ocasiões, afirmou haver coincidência com as determinações de
Alá. Ao dar uma sugestão ao Profeta, este lhe comunicou que uma
revelação havia se dado, incorporando sua ideia às suas próprias
palavras.86 O acontecimento adulou a vaidade de Omar, mas não
levantou suspeita de impostura. Outros seguidores talvez fossem
menos ingênuos, mas estavam cientes do risco de ridicularizar o
Alcorão. Vez por outra, surgiam brigas entre os muçulmanos, por­
que o Alcorão fora repetido para eles de formas diferentes, e cada
um, naturalmente, afirmava que sua versão era a correta. O Profe­
ta, que nunca se dava por vencido, afirmava que o Alcorão fora
revelado em não menos que sete textos.
Conquanto estivesse presente tanto na mente do Profeta quan­
to na de seus seguidores a noção de que o Alcorão era a palavra de
Deus no sentido mais literal, é bastante surpreendente que seus
conteúdos fossem tratados com certo descuido, como é ilustrado
por essa narrativa e também transparece em outros relatos. De

86. Ibid., i, 24.

1 94
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

acordo com Aisha, um texto de enorme importância - aquele em


que o apedrejamento era imposto como punição para o adultério
- constava de um pergaminho depositado sob a cama de Maomé
que depois foi perdido. Recitadores ocasionais do Alcorão lem­
bravam o Profeta de textos que ele declarava ter esquecido. Um
texto de enorme importância, recitado por Abu Bakr depois da
morte do Profeta, era uma novidade para Omar. Às vezes, as pes­
soas eram classificadas em ordem de mérito, de acordo com a


quantidade de textos do Alcorão que reuniam, como se o processo
s asse elhasse ao da coleta das folhas de sibila.* Certos crentes,
na é ca do Profeta, fizeram daquela coleta- um negócio. 87
erta feita, quando indagado por contendores se determinada
sura tinha 35 ou 36 versos, o Profeta apenas corou, e deu a enten­
der que tanto fazia. 88 Maomé, que algumas vezes era provocado
por ser "todo ouvidos" - isto é, por estar pronto a ser guiado por
qualquer sugestão -, podia facilmente ser levado a produzir mo­
dificações ou abolir revelações, quando convencido de que uma
legislação era superficial e impraticável; mas aqueles que aponta­
vam a falha tinham de tomar o cuidado de não lançar a menor
sombra de dúvida sobre o caráter divino dos oráculos anteriores.
Como o Profeta e seus seguidores não faziam qualquer concessão
a esse respeito, Maomé foi capaz de manter até o fim seu poder de
produzir, como um deus ex machina, oráculos aos quais podia efe­
tivamente recorrer sempre que surgisse uma emergência séria; o
temor de se tornar objeto de um texto evitou que muitos homens,
de uma maneira ou de outra, se opusessem ao Profeta.
A primeira tarefa de Maomé em Medina era construir um lu­
gar de adoração, a primeira igreja do Islã, a menos que seja verda­
de que a mesquita de Kuba era mesmo anterior. O terreno selecio-

* Sibila: nome genérico dado a diversas profetisas da Antiguidade que pronunciavam


as profecias em transe ou escreviam-nas em folhas; se ninguém as recolhesse, as fo­
lhas eram dispersadas pelo vento. [N.T.]
87. Apud Kais Ibn Al-Sakan. Ibn Sa'd II, ii, 70.
88. Musnad, i, 106.

195
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

nado por seu camelo, conta-se, pertencia a dois órfãos, a quem o


Profeta mandou pagar com os recursos de Abu Bakr. Os órfãos
estavam ligados de algum modo ao zeloso As' ad, filho de Zurarah.
Ao que parece, porém, Abdallah Ibn Ubayy tinha algumas rei­


vindiações sobre a terra. 89 Lemos vários detalhes a respeito da
construção da primeira das mesquitas, alguns fornecidos pela
im gin ção. O relato mais provável parece ser aquele em que
o Proti a não se envolveu nos trabalhos de construção, mas utili­
zou celeiro ou depósito que tinha servido para secar tâmaras,
pe o qual deve ter pagado uma soma razoável. Alguns especialistas
sugerem que esse celeiro tinha sido usado como local de oração
antes mesmo de Maomé chegar a Medina; considerando que era
pouco provável que o Profeta deixasse qualquer coisa ao acaso, é
possível que seu camelo tivesse alguma razão para ter ajoelhado
nesse ponto em particular. As medidas que são dadas variam, mas
talvez setenta por ses·senta por sete cúbitos* seja a mais provável
entre aquelas registradas.
O telhado do celeiro, feito de folhas de palmeira e barro, não
era sólido o bastante para proteger da chuva. O Profeta encon­
trou aí uma analogia com o Tabernáculo de Moisés, mas parece
que o confundiu com as tendas no banquete dos Tabernáculos,
cujo telhado não devia evitar a luz ou a umidade. Esse telhado era
suportado por troncos de palmeira, e era apoiado em um deles
que o Profeta costumava pregar até o púlpito ficar pronto. O celei­
ro estava voltado para o norte, com portas para sudeste e oeste; no
primeiro desses lados, uma porta situada para o norte foi substi­
tuída quando mudou a direção da prédica. A colocação de pe­
dregulhos no telhado parece ter sido feita gradativamente pelos
adoradores, que ficavam incomodados com as pequenas poças

89. Ibn Sa'd II, ii, 53.


* Cúbito: unidade de medida utilizada desde o antigo Egito. É definido pelo compri­
mento do braço, medido do cotovelo à extremidade do dedo médio esticado, e equi­
vale a pouco mais de 50 centímetros. [N.T.]

196
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

formadas nos dias chuvosos. Uma porta situada do lado leste fun­
cionava como entrada privativa para o Profeta, que deu continui­
dade à preparação de alojamentos para ele e suas esposas naquele
lado da mesquita.
O primeiro dos alojamentos destinava-se à esposa Sauda e à
noiva Aisha, com quem Maomé se casou pouco depois da chega­
da. Até sua morte, o número de esposas tinha aumentado para
nove. Um estudioso conta-nos que esses alojamentos não eram
construções novas, mas sim tendas pertencentes a um certo Hari­
thah, filho de Al-Nu'man,90 que tornava disponível cada uma delas
tão logo o Profeta o solicitava. Quatro delas eram feitas de tijolos
de barro, com paredes internas de ripas de madeira e barro; cinco
eram de ripas de madeira e barro, sem paredes internas. Em mui­
tos casos, uma cortina de tecido rústico servia de porta. Essas ten­
das se distribuíam ao redor de três lados da mesquita; apenas o
lado oeste ficava livre.
Muitas das instituições do Islã se organizaram em torno desse
conjunto de construções. Na ausência de relógios, os adoradores
se reuniam em momentos diferentes, por isso houve muita con­
fusão. Um antigo e fiel seguidor de Maomé, chamado Bilal, que
tinha uma voz forte, estava encarregado de convocar os adorado­
res para tratar de algo importante, como o telhado do celeiro. Em
algum momento, nos primeiros meses de residência do Profeta
em Medina, essa prática tornou-se regular e foi considerada uma
tradição do Islã. Aqueles que ouviam o chamado eram instados a
vir para o encontro, sob pena de ter suas casas queimadas; nenhu­
ma desculpa era aceita.91
A voz de Bilal salvou seu senhor da necessidade de imitar o
martelo cristão e a trombeta judaica. Ele esteve prestes a adotar a
primeira tradição. Um certo Abdallah, filho de Zaid, alegou ter
ouvido a "Chamada à Oração" numa revelação em sonho, que co-

90. Samhudi, 126 (segundo Ibn Sa'd II, ii, 52).


91. Musnad, iii, 423.

197
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

municou ao Profeta;92 já de acordo com outra narrativa, a suges­


tão veio de Omar. Os minaretes, agora um aspecto tão familiar das
cidades muçulmanas, só vieram a ser acrescentados muito depois
da morte de Maomé.93 Com esse substituto do sino da igreja, a
adoração começou a assumir uma forma regular e estereotipada.
Os de lhes teriam sido supostamente comunicados ao Profeta
du nte sua ascensão ao céu, numa analogia muçulmana à senten­
ç judaica "uma norma entregue a Moisés no Sinai': Afinal, é evi­
dente que as regras da oração devem ter sido passadas a Maomé
em algum momento; quando não eram encontradas .nas revela­
ções corânicas, a ascensão ao céu era a ocasião mais provável de
sua transmissão.
O celeiro teve de ser ampliado durante a vida do Profeta e, no
decorrer desses anos, foi substituído por edifícios mais elaborados.
Outras mesquitas foram erguidas antes mesmo da morte do Pro­
feta, e quando uma facção rival chegava ao poder, dava início à sua
curta trajetória com a construção de uma mesquita. Até a morte
do Profeta, contudo, o celeiro serviu não somente como santuário
do Islã, mas também como prefeitura e tribunal da corte de Medi­
na. Era ali que se divulgava cada revelação recente. Nas modestas
acomodações da primeira mesquita podemos perceber um claro
exemplo do cuidado e da economia de Maomé. Todo dirhem des­
pendido na construção seria retirado da boca dos famintos Emi­
grantes, pois Maomé conhecia os homens o suficiente para calcu­
lar com precisão o tempo que duraria o entusiasmo dos Ajudantes.
Uma história, que pode ser verdadeira, mostra o proprietário
do celeiro a oferecê-lo gratuitamente a Maomé, mas este insiste
em pagar por ele. Se isso é fato ou não, o certo é que, nessa época,
o Profeta absteve-se de demandar qualquer contribuição desne­
cessária. Se as casas de oração de judeus e cristãos eram ricamente
decoradas, ele podia afirmar que Gabriel havia proibido a ostenta-

92. Ibid., iv, 43.


93. Kamil de Mubarrad, ii, 66.

198
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

ção na casa dos muçulmanos. Na verdade, ele afirmava que o des­


perdício de dinheiro era a pior falta que um muçulmano poderia
cometer.
Enquanto a mesquita era adaptada para a adoração, e as tendas,
erguidas para as famílias de Maomé, ele sem dúvida demorava a
atender todos os chefes de Medina que vinham visitá-lo e exercia
sua aguda visão sobre eles. A constituição robusta parece tê-lo
mantido livre da febre que assolou Medina por um tempo e atin­
giu alguns dos seus seguidores mais leais - Abu Bakr, seu escravo
liberto Amir e Bilal. Seu modo de lidar com os homens em geral
era tão fascinante e afirmativo que esses visitantes, já convertidos
ao Islã, não ficavam desapontados. O Profeta tinha muitas manei­
ras de tomar essas visitas agradáveis. Ele podia mudar os nomes de
visitantes que evocassem objetos pagãos de adoração, ou substituir
nomes de maus presságios por outros mais auspiciosos.
Entre seus visitantes, ou pelo menos entre aqueles com quem
travou conhecimento, encontravam-se representantes de dois par­
tidos dos quais muito se falará: os judeus e os hipócritas. Estes úl­
timos, ou os medinenses ressentidos, são elogiados pelo Profeta
pela aparência agradável e as _vozes melodiosas, mas ele logo pas­
sou a compará-los a uma fileira de gravetos,94 homens tão covar­
des e irresolutos que não lhe agradavam. Por sua vez, os hipócritas
davam aos recém-chegados um apelido bem-humorado, "Sur­
tout",95 sugerindo, talvez, que Medina estava cheia deles. A tradi­
ção96 mostra o Profeta solicitando ser levado à casa ou ao castelo
de Abdallah, filho de Ubayy, que, de maneira descortês, lhe disse
que ficasse com as pessoas que o haviam enviado. Maomé não
era homem que aguentasse uma afronta desse tipo. Uma tradição
mais autêntica97 apresenta a visita do Profeta a Abdallah, que se
queixou do cheiro do animal de carga que o Profeta cavalgava.

94. Sura lxii, 4.


95. Tabari, Comm., xxviii, 68.
96. Samhudi, 8.
97. Bokhari, ii, 165.

199
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

Essa observação provocou uma rusga entre os seguidores dos dois


lados, que o Profeta conseguiu apaziguar. Esses hipócritas - nome
abissínio pelo qual são chamados no Alcorão, que significa "aque­
les em cujos corações encontra-se a doença" - estavam destina­
dos a ser um espinho no pé do Profeta ainda por muito tempo.
Reconhecendo expressamente sua missão e a consequente au­
toridade, eles procuravam frustrar os planos do Profeta, intrigan­
do-o com seus inimigos e chamando atenção para a inconsistência
do Alcorão. Para Maomé, contudo, o mundo consistia em apenas
duas classes: aqueles que reconheciam sua missão e os que a re­
jeitavam. E embora discorresse sobre a questão dos hipócritas
no Alcorão, confiava em que a falta de lógica da posição que de­
fendiam iria torná-los inimigos declarados ou amigos leais. Por
conseguinte, lidou com muitas afrontas da parte dos hipócritas e
viveu o suficiente para ver o líder deles acabar sem seguidores.
Provavelmente os hipócritas não tinham qualquer noção pre­
concebida de como deveria ser um profeta. Mas os judeus tinham.
E é certo que Maomé desejava se conciliar com eles tão logo fosse
possível. Um dos problemas que teve de enfrentar era se devia ou
não identificar seu sistema com o judaísmo, e parece provável que
estivesse inclinado a fazê-lo. Ao chegar a Kuba no dia da Redenção
dos judeus, ele o adotou como dia de jejum e chegou a enviar or­
dens à tribo Aslam, quando esta foi convertida, para que o guar­
dasse98 (podemos conjecturar o que os judeus devem ter pensado
sobre isso, não conhecendo o dia da Redenção), e a tarefa de de­
terminar o dia em que isso devia acontecer foi confiado a um ju­
deu.99 Ao selecionar o trecho da informação de que os judeus es­
peravam profetas que estavam por vir da Síria, ele deu início a
uma jornada naquela direção, mas encontrou dificuldades no ca­
minho, e então desistiu. 100 Quando um funeral judaico passava

98. Isabah, iii, 1.259.


99. Tabarani apud Mahmoud Effendi, Le Calendrier Arabe, p. 25.
100. Baidawi na sura xvii, 76.

200
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

por eles, o Profeta e seus seguidores ficavam de pé até que o corte­


jo sumisse de vista.101 Um judeu, afirma Anas Ibn Malik (o servo
do Profeta), convidou-o a fazer uma refeição de pão de cevada e
gordura rançosa, e ele aceitou o oferecimento. 1 º2
O pedantismo impediu os judeus de verem que o sinal de um
verdadeiro profeta - ou, pelo menos, o melhor substituto de pro­
feta - era a posse de uma vontade e de um intelecto capaz de in­
troduzir a ordem e a tranquilidade em Yathrib. Se os judeus esti­
vessem preparados para dar-lhe o título de Profeta, eles poderiam
tê-lo feito seu discípulo. Se o Velho e o Novo testamentos são dig­
nos de crédito, mesmo os profetas que poderiam produzir as cre­
denciais mais genuínas tinham pouca chance com os judeus. Por
isso Maomé, que não possuía nada que os judeus pudessem iden­
tificar, não teve chance alguma com eles.
Os rabinos provavelmente esperavam que um profeta fosse ca­
paz de falar hebraico; verificando que não, alguns deles expres­
saram suas opiniões quanto ao clamor profético de Maomé de
modo um tanto livre. Outros lhe fizeram perguntas de um grau
não muito grande de dificuldade (por exemplo, quais eram os
nove sinais dados a Moisés?) e, constatando que suas respostas
eram definitivamente incorretas, declararam cortesmente que es­
tavam satisfeitos, mas escusaram-se de reconhecer, na prática, que
seu messias pertencia à semente de Davi.103 Nas assembleias em
que a Chamada era discutida, Maomé teve de lidar com sérias
afrontas pessoais da parte dos judeus, e esses encontros eram ca­
pazes de provocar tumultos e violência. 1 04
O biógrafo Ibn. Ishak refere-se a um contrato, redigido pouco
depois da chegada de Maomé, no qual detalha-se o modus vivendi
em Medina. Wellhausen, que analisou em profundidade seu con­
teúdo, não hesita em atribuí-lo ao trabalho do Profeta, mas en-

1 0 1 . Musnad, iii, 295ss.


102. lbid., 2 1 1 .
103. Musnad, iv, 240.
104. Bokhari, iv, 4.

201
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

contra alguma dificuldade para explicar por que ele nunca é cita­
do durante as muitas disputas que irromperam entre Maomé e os
judeus; e também por que não há registro de qualquer formalida­
de concernente à sua vigência nem como poderia ser executado.
Alguém na posição de Maomé, entretanto, não teri� firmado um
tratado; até surpreende que ele tivesse reescrito o decreto que lhe
teria chegado na forma de uma revelação divina. Mas o Profeta
demonstrava tamanha cautela que talvez relutasse em colocar na
boca de Deus concessões que, como ele sabia desde o princípio,
deveriam ser suprimidas mais tarde.
O propósito do documento é acertar as relações das diferentes
comunidades que residiam em Medina. Vendetas e resgates de­
viam ser obrigatórios às respectivas tribos, como antes, mas se
recomendava aos muçulmanos de todas as tribos que ajudassem
nesses casos, a fim de evitar que qualquer um dos seus viesse a se
incomodar. Prometeu-se proteção aos judeus, contanto que eles
não provocassem nenhuma ofensa. No caso de uma guerra gene­
ralizada, cada tribo arcaria com suas próprias despesas. Somente a
população de Meca estaria excluída da possibilidade de relações
amigáveis.
Não é certo se o contrato foi firmado nessa ocasião ou um
pouco mais tarde. De qualquer forma, a posição dos judeus era
um tanto difícil. Não se deye esquecer que as fontes de informação
sobre profetas, revelações, anjos etc., tanto para os moradores de
Meca quanto para os de Medina, eram os judeus, e que Maomé
confiava nos testemunhos deles. Os judeus de Medina, pelo sim­
ples fato de não estarem com Maomé, estavam contra ele. Pois se
não davam boas-vindas ao messias, ou eles ou o messias deviam
ser repreendidos. Além do mais, a inveja de muitos era despertada,
sem dúvida alguma, pela reflexão de que o poder de Maomé ven­
cera pelo uso que dera à Bíblia judaica, da qual o Profeta tinha um
.conhecimento de iniciante, se comparado com o deles. Portanto,
os esforços dos judeus concentraram-se no intuito de desacreditá­
-lo perante seus seguidores de Meca e Medina.

202
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Consta que um judeu da tribo Kuraizah assumiu a problemáti­


ca tarefa de traduzir uma parte do Velho Testamento para o árabe,
na expectativa de arruinar a reputação do Profeta. Ele levou sua
versão a Omar, esperando talvez que os olhos desse formidável per­
sonagem pudessem se abrir. Mas Omar não leria o livro sem a per­
missão do Profeta, que naturalmente não lhe foi dada. 105 "Se o pró­
prio Moisés voltasse à vida", acrescentou Maomé, "você não teria
direito algum de segui-lo e de me abandonar:'106 Outros arquiteta­
ram um plano de se juntarem aos muçulmanos por um tempo e
depois voltar, alegando que haviam encontrado motivos para insa­
tisfação e esperando, assim, tornar mais fácil a saída dos demais.
Como era de se esperar, apenas uns poucos judeus juntaram-se
de forma permanente aos recém-chegados. Abdallah, filho de
Saiam, da tribo Kainuka, era o mais célebre. Consta que ele acon­
selhou Maomé a indagar sobre seu caráter junto a seus irmãos,
antes que soubessem de sua apostasia; e, depois de terem dado
um testemunho brilhante, eles ficaram muito embaraçados quan­
do entenderam o que havia acontecido. Maomé, encantado com
essa adesão, disse-lhe que ele já estava no paraíso, cumprimento
que não fazia a qualquer pessoa. 107 Os dois sobrinhos de Abdallah
e mais quatro judeus - Asad* e Usaid, filhos de Ka'b, Tha'labah,
filho de Kais, e Yasin, ** filho de Yamin - seguiram seu exemplo,
perfazendo assim o total de sete egressos da comunidade judai­
ca convertidos ao Islã.108 Mais de um deles apropriou-se do texto
do Alcorão no qual é citado o testemunho de um membro dos fi­
lhos de Israel. 109 Provavelmente eles não aderiram todos ao mes­
mo tempo.

105. Isabah, ii, 699; Musnad, iii, 387.


106. Musnad, iv, 266.
107. lsabah, i, 169.
* Asad: nome que significa "leão" (Lõwe). [N.T.]
** Talvez um Benjamin que adotou o nome Yasin. [N.T.]
108. lsabah, ii, 23 1 .
109. lsabah, iii, 968.

203
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

Consta que os judeus haviam submetido um caso de adultério


a Maomé para julgamento, e que expressaram extrema insatis­
fação quando ele ordenou que os acusados fossem apedrejados.
O Profeta declarou que sua decisão estava de acordo com as leis
de Moisés, como realmente parecia estar. Porém, a passagem não
pôde ser encontrada, levando Maomé a supor que houvera fraude.
Em outro caso, 1 1 0 ele determinou que um judeu fosse apedrejado
por ter roubado e assassinado uma menina escrava crente. Nove
meses1 1 1 após sua chegada, um sério infortúnio recaiu sobre ele
com a morte do perseguidor de judeus112 As'ad, filho de Zurarah,
que tanto tinha contribuído para a realização da Fuga. O Profeta
tentou curá-lo por cauterização, mas isso acelerou o processo da
doença ou pelo menos não evitou sua morte. Os judeus, natural­
mente, zombaram dele. 1 13 Seus profetas tentaram remédios menos
dolorosos e foram bem-sucedidos. Infortúnio ainda pior atingiu o
Profeta quando, por ignorância da cultura da palmeira, proibiu a
fertilização das palmeiras fêmeas. Em consequência disso, quando
uma plantação ficou estéril, ele teve de confessar ter falado sem
fundamentação.1 14
Disputas que descambavam em violência irrompiam entre os
judeus e os fanáticos seguidores de Maomé. As tradições mostram
que mesmo nessas disputas os judeus baseavam-se em argumen­
tos. Abu Bakr veio lhes pedir dinheiro, citando as palavras do Al­
corão: "Quem fará a Deus um bom empréstimo?" "Se Deus quer
um empréstimo", replicou Pinchas, filho de Azariah, "Ele deve es­
tar em situação difícil", esquecendo que no Velho Testamento os
homens são aconselhados a emprestar ao Senhor. A observação foi
respondida por um golpe; em vez de devolver a violência, os ju­
deus foram se queixar a Maomé, que aparentemente negou ter

1 1 O. Musnad, iii, 163.


1 1 1. Ibn Sa'd II, ii, 141.
1 12. Wakidi (W.), 4 1 4.
1 13. Tabari, i, 1 .260.
1 14. Musnad, iv, 138; Ibn Sa'd II, ii, 1 40.

204
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

dito alguma coisa. O arcanjo Gabriel veio em socorro de Abu


Bakr, 1 1 5 confirmando seu relato da atrocidade; não era provável
que o próprio Abu Bakr tenha inventado isso, e sim desenterrado
a velha acusação de que os judeus queriam matar os profetas.
A mesma acusação serviu como resposta àqueles israelitas pie­
dosos que, examinando seus livros sagrados, descobriram que no
tempo de Elias* em geral se chegava a um acordo sobre como al­
guém podia provar que era profeta oferecendo um sacrifício, que
o fogo celeste devoraria': "Se é assim'', retrucou Maomé, autori­
zado pelos céus, "quem matou os profetas?"
Afirmou-se que os judeus tentaram lidar com Maomé com
aqueles procedimentos mágicos dos quais eles eram supostamente
adeptos. Um pajem teve acesso ao cabelo do Profeta, e a posse
de um fio de cabelo daria ao feiticeiro controle sobre a pessoa a
quem ele pertencesse. A imagem de cera, os laços e as agulhas,
todos foram tentados. Consta ser Labid, filho de Al-A'sam, o fei­
ticeiro que, mediante pequena remuneração, enfeitiçou o Profeta.
É possível que esse expediente não tenha sido tentado até que
Maomé manifestasse, por suas ações, a intenção de exterminar a
comunidade judaica. Porém, ainda assim, pouco depois de sua
chegada, os judeus glorificaram sua mágica e com ela provocaram
a esterilidade entre as mulheres muçulmanas.1'6 Isso é plausível,
se for verdade que a primeira criança nascida entre os muçulma­
nos de Medina veio ao mundo quatorze meses após a chegada do
Profeta. 11 7
Poucos meses foram suficientes para gerar o desprezo e a an­
tipatia mútuos. Os estudantes judeus podiam refutar as preten­
sões do Alcorão, e os chefes tribais judeus podiam ser espancados
impunemente pelos seguidores de Maomé. Os judeus também

1 15. Sura iii, 1 77.


* Elias: um dos principais profetas do Velho Testamento. [N.T.]
1 16. Tabari, i, 1 .264, 3.
1 17. lsabah, iii, 1 . 1 5 1 .

205
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

manifestavam seu desconforto diante de um profeta cuja principal


preocupação era seu harém, muito embora os estudos sobre o Ve­
lho Testamento devessem ter-lhes mostrado que isso não era uma
incoerência. Maomé achava que os judeus estavam sempre tra­
mando assassiná-lo, e, numa afirmação que é provavelmente au­
têntica, declarou que sempre que um muçulmano sentava-se com
um judeu, este ficava pensando em como poderia matá-lo,1 1 8 ao
passo que os judeus, com mais razão, afirmavam o contrário.1 19
Em relatos inventados mais tarde, os precursores do Islã advertem
o avô do Profeta ou o próprio Profeta ainda criança contra a hos­
tilidade dos judeus.
Como vimos, havia muitas causas para o atrito. A necessidade
de asseio nas habitações dos judeus depois ofendeu o Profeta, 1 20
que, nessa matéria, era um tanto difícil de agradar. No entanto,
sem dúvida, a determinação final de Maomé de destruir os judeus
devia-se ao fato de ele reconhecer, no seu íntimo, que eles deti­
nham um conhecimento superior dos assuntos em relação aos
quais reivindicava autoridade. Esse conhecimento era perigoso
para ele, mas inútil para os judeus. O aprendizado judaico era su­
ficiente para incomodar, mas não conferia aos aprendizes qual­
quer poder de autodefesa; é improvável que os membros mais
respeitáveis da comunidade atribuíssem qualquer importância
às suas feitiçarias, salvo sob o impacto do desespero. Carentes de
coragem, os judeus poderiam, por meio de um estudo bem dire­
cionado, ter-se tornado mais que apenas equivalentes a um ho­
mem que não sabia sequer que o ano era determinado pela relação
entre a Terra e o Sol. Mas o estudo do Talmud não tinha nenhum
valor para qualquer propósito prático.
Outro visitante que merece menção é o "cristão" Abu 'Amir,
influente chefe tribal de Medina que, segundo consta, rejeitara o

1 18. Jahiz, Bayan, i, 165.


1 19. Talm. Bab. Erubin.
120. Ibn Duraid, 315.

206
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

paganismo antes da chegada dos missionários de Maomé. Não


era de se esperar que Maomé encontrasse receptividade num ho­
mem como Abu 'Amir, e o encontro entre os dois foi tempestuoso.
O cristão e seus seguidores deixaram Medina e realizaram muitas
tentativas malogradas de ferir Maomé. Talvez tivesse ocorrido a
Abu 'Amir que, se Yathrib desejasse um professor de monoteísmo,
ele poderia ocupar o posto.

207
7

A BATALHA DE BADR

Poucos meses haviam se passado após a chegada a Medina, e os


recursos do Profeta já se encontravam no fim. Os recém-chegados
de Meca - como Mikdad, filho de 'Amr, já mencionado anterior­
mente - não encontraram nenhum dos Ajudantes pronto para
recebê-los.1 Muitos dos Emigrantes não tinham abrigo além da
mesquita, não dispunham de roupas suficientes para se vestir de
modo decente e estavam quase sem comida. Maomé tinha de en­
sinar que o suficiente para duas pessoas bastava também para três
ou até para quatro.2 Uma tâmara por dia, misturada com algumas
ervas que os camelos procuravam, representava a ração de um
homem,3 e uma veste tinha de servir para dois usuários.
O fato de ter se casado com Aisha sete meses após sua chegada,
e de não ter havido festa de casamento, mostra como o Profeta
fora obrigado a ser parcimonioso. Uma vez que o pai dela, Abu
Bakr, dera ao noivo o presente indispensável à noiva, talvez essa
união desajustada (que é como devemos caracterizar o casamento
de um homem de 53 anos com uma criança de nove, arrancada de
seu balanço e de seus brinquedos) tenha sido apressada pelo dese­
jo de conseguir algum dinheiro.
Originalmente, foi acertado que os Emigrantes deveriam dar
assistência aos Ajudantes em seu trabalho de campo,4 mas como
nada sabiam da cultura da palmeira,5 só podiam executar os ser­
viços braçais. Portanto, alguns6 apenas cortavam madeira e carre­
gavam água; outros7 eram contratados para molhar as palmeiras,

1. Musnad, vi, 4.
2. Muslim, ii, 148.
3. Ibid., 1 10.
4. Bokhari, ii, 174.
5. Tabari, Comm., xxviii, 27.
6. Musnad, iii, 1 37.
7. Ibid., i, 8.

209
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

carregar peles nas costas. Pelo menos numa ocasião, Ali ganhou
dezesseis tâmaras para encher recipientes com água e esvaziá-los
sobre a lama, para fabricar tijolos, à razão de uma tâmara por ces­
ta, e isso mal compunha uma refeição, a qual ele dividia com
o Profeta.8 Os Emigrantes encontraram melhores perspectivas
de ganhar dinheiro com o comércio varejista. Assim, Abu Bakr
passou a vender roupas no mercado;9 Othman, filho de 'Affan , 10
tornou-se fruteiro, comprando tâmaras dos Banu Kainuka, e
revendendo-as a preço mais elevado; Abd al-Rahman, filho de
'Auf, estabeleceu-se como leiteiro;11 Omar também passava boa
parte de seu tempo barganhando no mercado, 12 e outros13 ga­
nharam o nome de "os ambulantes", mudado por Maomé para
"os mercadores':
No entanto, o cultivo de tâmaras foi severamente afetado pelas
determinações do Profeta, que proibiu a fertilização artificial e
os empréstimos baseados na certeza de uma possível produção.
O desconforto causado pela primeira dessas medidas parece sufi­
ciente para explicar as consequências que vieram a seguir. Aquela
proibição produziu escassez artificial em um momento em que
era necessária grande quantidade de alimentos. Um ou dois dos
Emigrantes parece ter tentado se dedicar ao comércio exterior, no
estilo de Meca, e logo encontraremos Ali dando início, embora
sem sucesso, a um negócio desse tipo. Omar também parece ter
estabelecido conexões comerciais com a Pérsia. 14
Deve-se registrar que o Profeta compartilhou integralmente
o infortúnio de seus seguidores. Na realidade, como se recusara
a usar as esmolas para atender às suas necessidades particulares,

8. Ibid., 1 35; Tiraz al-Majalis, 1 57.


·

9. Ibn Sa'd, iii, 130.


10. Musnad, i, 62.
1 1. Ibn Sa'd II, ii, 77.
12. Musnad, iv, 400.
13. lbid., 6, 7.
14. Musnad, iii, 347.

210
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

não tinha qualquer fonte de renda. A exemplo de outros grandes


dirigentes, relacionava taxação com impopularidade, e a noção
- familiar no Evangelho - de que cidadãos independentes não
pagam impostos sem dúvida era corrente em Medina. Por conse­
guinte, quando a generosidade casual e particular falhava, ele fica­
va faminto. Pessoas caridosas costumavam convidar o Profeta, ao
ver seu rosto contraído pela fome.15 Passavam-se meses, diz Aisha,
sem que qualquer fogo fosse aceso em sua morada, e eles se ali­
mentavam apenas de tâmaras e água. 16 Sua filha Fátima era frugal,
e, após seu casamento, o pouco que se sabe dela consiste, sobretu­
do, nas queixas sobre seu destino miserável. 17
Quando o Profeta era presenteado com comida, ele a compar­
tilhava com "as pessoas do Shed", os desabrigados muçulmanos
que tinham sido obrigados a buscar refúgio na mesquita, onde
foi instalada uma espécie de hospital, por uma mulher chamada
Ku'aibah, filha de 'Utbah.18 Milagres foram atribuídos a Maomé
pela imaginação de gerações futuras: multidões eram alimentadas
ou uma pequena quantidade de provisões durava indefinidamen­
te; mas é evidente que, por mais bem-vindos que fossem esses po­
deres, ele não os possuía, nem se supunha que os possuísse.
Oprimidos por essa pobreza aflitiva, famintos, nus e gelados, os
Verdadeiros Crentes sentiam naturalmente algum ressentimento
contra os judeus, que nada faziam sem garantia e que eram im­
piedosos em relação ao pagamento das dívidas.19 Ao que parece,
eles desfrutavam de certa opulência graças às suas habilidades
em indústrias de vários tipos, à parcimônia e à capacidade para
fazer negócios. Em consequência, ouviam-se amargas reprovações
quanto à mesquinharia dos judeus, vindas da boca do Profeta e
por meio das revelações. O pedido de empréstimo de uma vesti-

1 5. Tirmidhi, 1, 203.
16. Musnad, vi, 7 1 .
1 7. Ver, por exemplo, Musnad, v, 26.
18. Wakidi ( W.), 2 1 5.
19. Ver Musnad, iii, 423.

211
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

menta, endereçado a "Halik, o Cristão", não recebeu resposta mais


favorável.2° Entre a população de Medina, algumas mulheres pie­
dosas,21 como se podia esperar, colocaram consideráveis parcelas
de suas posses à disposição do Profeta. Algumas delas responsabi­
lizaram-se por atender um número fixo de indivíduos, mas era
evidente que se devia encontrar uma nova fonte de renda.
Sabe-se que, quando há impunidade, abre-se aos muito pobres
uma maneira de sobreviver, que é o roubo. Não sabemos se o Pro­
feta, quando fugiu para Medina, anteviu que assumiria o papel de
chefe dos ladrões; mas sua ligação com os ladrões da tribo Aslam
e a cláusula no contrato já citado, excluindo os habitantes de Meca
de qualquer relação amigável, tornam provável que mesmo então
ele tenha pensado em voltar atrás quanto à pilhagem das carava­
nas. Como tantas vezes acompanhara essas viagens, ele detinha
um conhecimento muito especial acerca do melhor modo de ata­
car as caravanas.
Todavia, consta que a ideia de aproveitar a localização de Me­
dina para atacar as caravanas ocorreu primeiro a um dos conver­
sos da cidade, que visitara a Caaba logo após a Fuga.22 A experiên­
cia de Maomé ensinou-lhe, além do mais, a desqualificar o poderio
militar dos moradores de Meca. Muitos, na Arábia, sustentavam a
opinião de que os coraixitas eram covardes23 - e não sem justiça,
como se mostrará a seguir -, e o modo como eles lidavam com
Maomé deve ter reforçado, em sua mente, essa opinião.24 O trata­
mento que eles lhe deram revelava um grau de covardia e imbeci­
lidade que não poderia deixar de ser julgado da maneira correta
por um homem capaz de avaliar seus companheiros com precisão
após uma simples entrevista. Além disso, como muitos exilados,

20. Ibid., 244.


2 1 . Muslim, ii, 379.
22. Musnad, i, 400.
23. Jahiz, Opuscula, 61.
24. Ele tem a seu crédito a afirmação de que "a força de um coraixita é igual à de dois
homens", mas sua origem é duvidosa. Musnad, iv, 83.

212
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Maomé tinha um desejo apaixonado de rebater o insulto que lhe


fora infringido, ao ser forçado a deixar sua cidade natal. As pessoas
que o expulsaram eram aquelas sobre as quais ele desejava impor
sua autoridade, as que desejava ver arrependidas, na poeira e nas
cinzas de sua insolência.
Se os coraixitas temiam derramar seu sangue, Maomé não te­
mia derramar o sangue deles. Um relacionamento recente fora
substituído pelo parentesco tribal. Quando ele anunciou pela pri­
meira vez sua nova política, alguns de seus seguidores mais con­
fiáveis ficaram chocados com a ideia de lutar, relembrando que em
Meca lhes fora dito que o mal se paga com o bem;25 mas os escrú­
pulos foram silenciados por uma revelação, e outras ainda foram
necessárias para confortar aqueles Emigrantes que, efetivamente,
sentiam falta da companhia de seus amigos não crentes. 26
Foi por ocasião do casamento com Aisha que teve lugar a pri­
meira dessas expedições; embora elas tenham se repetido conti­
nuamente, alguns meses se passaram antes que tivessem provoca­
do algum resultado brilhante. De acordo com o contrato, somente
os Emigrantes tomariam parte delas. De início, porém, eles não
detinham o conhecimento da região, indispensável para o com­
batente. Chegavam a campo muito tarde, ou alguma outra coisa
ocorria para frustrar seus esforços. Essas tentativas, contudo, ensi­
naram ao Profeta algo sobre a capacidade de seus seguidores, e
colocaram-no em contato com as tribos vizinhas. Foram exata­
mente os fracassos que imprimiram nos Emigrantes a necessidade
de ganhar a vida com a espada.
Os primeiros comandantes dos quais o Profeta lançou mão
foram seu tio Hamzah e seu primo 'Ubaidah, filho de Harith.
Hamzah foi enviado para emboscar uma caravana que voltava da
Síria na primavera. O local escolhido ficava no território da tribo
Juhaynah, onde a estrada que vai para o interior da Arábia passa

25. Wahkdi, 24.


26. Tabari, Comm., xvi, 88.

213
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

perto do mar e é atravessada por um riacho temporário chamado


'Is. Os caravaneiros de Meca, que eram mercadores pacíficos, ti­
nham a proteção das tribos por cujas terras passavam; o chefe dos
Juhaynah, Majdi, filho de 'Amr, cumpriu sua obrigação virilmente,
e a caravana não foi atacada em suas terras. Em outra ocasião em
que ele aparece na história,27 executa obrigação similar. Hamzah,
com seus trinta homens, não podia lidar ao mesmo tempo com
Kuraish e Juhaynah, e voltou para casa.
Poucas semanas mais tarde, 'Ubaidah, filho de Harith, foi man­
dado, com um grupo mais numeroso, para emboscar uma carava­
na em Rabigh, também próximo ao litoral, a meio caminho entre
Medina e Meca. Sa'd, filho de Abu Wakkas, um dos integrantes do
grupo, disparou uma flecha, mas parece ter faltado coragem ao
comandante, e os mequenses por ora não estavam dispostos a lu­
tar com seus antigos irmãos, cujas tentativas provavelmente ridi­
cularizavam.
A expedição seguinte, em maio de 623, foi confiada a Sa'd, filho
de Abu Wakkas. Ele devia surpreender uma caravana num lugar
chamado Kharrar, que ficava próximo de onde as estradas de pe­
regrinos que vinham da Síria e do Egito se encontravam, a cinco
dias de Medina. Ele chegou um dia depois.
Nada foi tentado durante os meses sagrados, mas, em meados
do mês de agosto seguinte (Safar), Maomé fez outra tentativa, co­
mandando pessoalmente a expedição. Esta foi encaminhada para
um lugar chamado Waddan, onde funcionara um empório nos
tempos de Ezequiel,* mas naquele momento não servia para nada.
A caravana conseguiu escapar, mas ele firmou uma espécie de
compromisso com o chefe dos Banu Damrah, em cujo território
Waddan estava situado.

27. Agh., iv, 22.


* Ezequiel: sacerdote que atuou durante o período do Exílio do povo judeu na Babilô­
nia; é considerado um dos três profetas principais do judaísmo, e um dos grandes
profetas do cristianismo. [N.T.]

214
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

As informações sobre esse acontecimento são tão escassas que


não temos conhecimento do processo pelo qual Maomé perpetrou
esse pequeno êxito. Dizem que o Profeta simulou atacar os pró­
prios Banu Damrah e poupou-os, com a condição de eles entra­
rem numa aliança ofensiva e defensiva, embora o contrato, como
foi mencionado,28 conferisse a Maomé o direito extraordinário de
atacá-los, se ele assim escolhesse, a fim de forçá-los a se converter
ao Islã. Essa cláusula seguramente era uma interpolação dogmáti­
ca desculpando o Profeta por ter firmado uma aliança ofensiva e
defensiva com idólatras. Cabe questionar, porém, como ele pôde
estabelecer a aliança com os Banu Damrah e ainda mover uma
guerra implacável contra os coraixitas. Essa questão, porém, foi
respondida por uma revelação especial,29 excluindo os mequenses
(como opostos aos outros idólatras) das relações amistosas.
O rumo tomado pelo Profeta, defensável ou não em termos
morais, era politicamente sensato. A experiência lhe havia de­
monstrado que, para atacar as caravanas com segurança, devia se
assegurar da cooperação das tribos em cujos territórios se dis­
punha a fazer as emboscadas. Se é verdade que a caravana que
ele acabara de deixar escapar tinha 2.500 camelos, os argumentos
com os quais conquistou os Banu Damrah podem facilmente ser
deduzidos.
Maomé empreendeu novas tentativas em setembro e novem­
bro, agora na direção de Yanbo, ambas sem sucesso. Na segunda,
deu prosseguimento à sua política de estabelecer acordos com as
tribos vizinhas. O trajeto seguido por essa expedição (chamada de
"a incursão de Ushayrah"), narrado com grande precisão numa
crônica, era marcado por uma série de santuários. Isso porque
demorou muito - quase um mês - a espera do Profeta, na ex­
pectativa de que obtivessem algum butim no caminho. Ele acaba­
ra de retornar a Medina quando as hordas da cidade foram ataca-

28. Halabi, ii, 1 66.


29. Sura lx, 7, 8.

215
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

das por um ladrão mais experiente, e uma expedição cujo objetivo


era recuperar o butim acabou em novo fracasso.
Maomé falhara na tentativa de assegurar o sucesso por méto­
dos que, na opinião dos árabes seus contemporâneos, eram coe­
rentes com a personalidade de um Profeta de Deus. Durante os
ataques do primeiro ano de exílio ele não perturbara a paz dos
meses sagrados,30 uma das instituições que retirara a Arábia do
estado de selvageria. Durante algumas semanas do ano, os homens
podiam circular desarmados e em segurança. Isso, porém, ofere­
cia uma oportunida,de a alguém sem escrúpulos. Um contingente
armado que atacasse uma caravana desarmada nos meses sagra­
dos certamente traria para casa alguns prisioneiros e um butim.
Aí residia, pois, uma possibilidade de se obter o que estava se tor­
nando cada vez mais necessário - sucesso. O mês seguinte ao
último fracasso era o período sagrado do Rejeb,3 1 e foi aí que Mao­
mé recorreu a esse expediente.
Os historiadores não concordam plenamente a respeito dos
detalhes, mas tudo indica que foi esse o raciocínio do Profeta.
Vamos primeiramente ouvir o relato sobre o assunto atribuído a
Sa'd, filho de Abu Wakkas. 32
Quando o Apóstolo de Deus chegou a Medina, os Juhainah vie­
ram até ele e disseram: você se estabeleceu entre nós, então nos dê
um contrato pelo qual possamos chegar até Deus, e faça de Deus
nosso líder. Então, ele lhes deu um contrato, e eles se tomaram
muçulmanos. Então, o Apóstolo nos enviou no mês de Rejeb, nós
éramos menos de cem, e nos mandou atacar alguns Kinanah que
moravam perto dos Juhainah. Assim o fizemos, mas eles eram
muito mais numerosos que nós, por isso nos refugiamos junto
aos Juhainah, que nos protegeram. Eles nos disseram: "Quer dizer
que vocês lutam no mês sagrado?" E nós dissemos: "Só lutamos
no mês sagrado contra aqueles que nos expulsaram do nosso

30. Wakidi situa um dos ataques em Dhu'l Kadah.


3 1 . Começando em 29 de dezembro de 623 d.C., nos calendários comuns.
32. Musnad, i, 1 78.

216
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

país." Então consultamos uns aos outros e alguns disseram: "Va­


mos até o Profeta de Deus para contar a ele:' Mas outros disse­
ram: "Vamos ficar aqui." Eu, com mais alguns, disse: "É melhor
atacarmos a caravana dos coraixitas e acabar com ela." Assim, nos
dirigimos contra a caravana e os demais voltaram ao Profeta e
contaram a ele. Ele ergueu-se, seu rosto estava vermelho de raiva,
e exclamou: "O quê?! Vocês partiram daqui todos juntos e agora
voltam divididos? Foi a divisão que arruinou os que estavam an­
tes de vocês. Eu enviarei para chefiar vocês um homem que não
é o melhor, mas é quem mais suportou a fome e a sede." Assim,
eles nos mandou Abdallah, filho de Jahsh, que foi o primeiro co­
mandante no Islã.

A maior parte desse relato não pode ser conciliada com a his­
tória comum, embora seja evidente que a memória de Sa'd ficou
marcada pelo fato de ter acontecido no mês sagrado. O coman­
dante do destacamento era o primo de Maomé, Abdallah, filho
de Jahsh, sob cujas ordens colocaram-se sete homens. O pouco
que se sabe de Abdallah revela que, segundo consta, ele era um
fanático. Ao que parece, ele teria feito uma oração para morrer no
campo de batalha e ser mutilado. Ele tinha participado da dupla
fuga para a Abissínia, e agora era um pobre Emigrante em Medi­
na. Maomé o enviou para Nakhlah com um envelope selado con­
tendo orientações expressas sobre o que fazer. O envelope só po­
deria ser aberto após dois dias de marcha, e, quando Abdallah o
abriu, soube que não deveria obrigar ninguém a acompanhá-lo
dali em diante.
Essas preparações indicam que se planejava algo que não era
digno de crédito, pois o serviço nos meses sagrados não era pe­
rigoso, porém, na opinião dos árabes, árduo. O texto das orien­
tações, conforme a tradição genuína,33 continha instruções defi­
nidas para atacar um grupo que se deslocava sem escolta, sob a
proteção do mês sagrado. Nenhum dos seguidores de Abdallah
aproveitou-se da permissão para se retirar, à exceção de dois in-

33. Wakidi ( W.), 25; Wellhausen, ibid., 2.

217
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

tegrantes do grupo - Sa'd, filho de Abu Wakkas, e 'Utbah, filho


de Ghazwan -, que logo tramaram se perder saindo em busca
de seus camelos perdidos. Os demais emboscaram uma caravana
escoltada por quatro homens. Destes, um escapou, dois foram fei­
tos prisioneiros e um foi morto. 'Amr, filho de Al-Hadrami, o ho­
mem de Hadramaut, foi o primeiro entre os milhões trucidados
em nome de Alá e seu Profeta. Wakid, filho de Abdallah, da tribo
Tamim, foi o assassino. Os dois prisioneiros e um considerável
butim foram levados para Medina. Pelo menos um sucesso fora
alcançado.
De certa maneira, esse sucesso foi a semente daqueles que se
seguiram, e, ao organizá-lo, Maomé demonstrou seu completo
conhecimento do caráter de seus súditos. Uma parte do butim era
absolutamente necessária, mas não se impunha que fosse conquis­
tado de forma honrada. Proclamando-se o Mensageiro do Todo­
-Poderoso, o Profeta tinha o direito de autorizar qualquer ato.
Nessa ou em outra ocasião, quando censurado por seus seguidores
por alguma atrocidade, ele repudiava o direito de criticarem sua
conduta, asseverando-lhes que era ele quem sabia mais, e, entre
todos, quem mais temia a Deus. 34 O efeito desse sucesso, como
Maomé acertadamente calculara, foi que, na próxima vez que or­
ganizou um ataque, tanto os Ajudantes quanto os Emigrantes o
pressionaram para que dele participasse.
A violação, por parte do Profeta de Alá, dos meses sagrados
que os pagãos respeitavam não fez Maomé perder nenhum voto
que valesse a pena conservar. Os judeus, por sua vez, faziam zom­
barias ofensivas e lançavam epigramas com péssimas rimas sobre
os nomes das pessoas envolvidas, como Wakid, "O Maçarico", e
Hadramaut, "A Presença da Morte". Agora os coraixitas podiam
contar a seus compatriotas muçulmanos35 que Maomé havia tira­
do a máscara e revelado um caráter que, para eles, não era segredo.

34. Muslim, ii, 220; Musnad, i, 45.


35. Ibn Arabi Colloquies, ii, 1 57.

218
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Maomé manteve a cabeça fria e satisfez cada parte que ele j ulgava
merecer alguma satisfação, revelando um desprezo pela coerência
digno de um estadista.
Para os tímidos muçulmanos, a coragem e a consciência foram
restauradas pelo invariável expediente de uma revelação: "Lutar
num mês sagrado é uma ofensa séria, mas expulsar pessoas de
Meca é ofensa ainda pior." Os muçulmanos deviam deduzir dessa
sentença ambígua que a atrocidade cometida pelos coraixitas ha­
via autorizado um ataque contra eles no mês sagrado; ou que,
embora esse ataque não tivesse sido perpetrado, os mequenses não
poderiam se queixar, caso tivesse ocorrido. O butim foi concedido
ao bravo destacamento que o conquistara, descontado o percen­
tual de um quinto reivindicado pelo Profeta. Como os dois me­
quenses mantidos como reféns teriam de voltar um dia, ele acei­
tou o pagamento de um resgate pelos prisioneiros.
A morte do hadramita, contudo, teve um desdobramento con­
siderável. Esse homem e seu irmão encontravam-se sob a proteção
de 'Utbah, filho de Rabi'ah, um eminente coraixita a quem en­
contraremos depois desempenhando papel heroico na Batalha de
Badr. O protetor, nesse caso, era obrigado a vingar a morte de seu
cliente. Em Badr, o irmão do homem morto, 'Amir, exigiu essa
vingança de seu protetor, que, em contrapartida, ofereceu paga­
mento em camelos. Mas 'Amir recusou essa alternativa, instigado,
ao que parece,36 pelo inimigo de Maomé, Abu Jahl. Por conseguin­
te, 'Utbah resolveu lutar, o que resultou no que será visto. A ven­
deta, que impeliu os mequenses à luta com os medinenses, surgiu
da relação entre cliente e patrão; esta, pela sua natureza instável,
provocou muitas complicações. Mas, a exemplo de outros assun­
tos que são deixados à consciência, produziu um conjunto de di­
reitos e obrigações que aqueles de caráter mais honrável eram os
mais dispostos a observar.

36. Wellhausen (Wakidi, 14) considera, nesses casos, que a introdução de Abu Jahl foi
determinada pelo desenvolvimento de um mito.

219
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

Não sabemos exatamente o que Maomé teve de suportar dos


judeus durante essa sucessão de reveses que terminou com um
sucesso retumbante. Com um fracasso após outro, as zombarias
deles tornaram-se cada vez mais pesadas, e o sarcasmo, cada vez
mais mordaz. Muitas vezes eles repetiam o processo de triunfo
prematuro, de irritar sem ferir. Maomé perdeu a paciência com
os judeus depois de suportar por muito tempo suas zombarias.
A maneira normal como eles falavam, para o Profeta, escondia
uma arriere-pensée ofensiva, e os muçulmanos estavam proibidos
de fazer a mesma coisa. A ingenuidade moderna não é capaz de
discernir onde reside a capacidade de ser ofensivo. Provavelmente,
depois do caso que acabamos de descrever, Maomé decidiu rom­
per definitivamente com os judeus.
O Profeta recebeu uma repentina revelação solicitando que,
quando orasse, virasse as costas para o Kiblah judeu (ou a direção
da oração), Jerusalém, mantendo a face voltada para o templo
de Meca, a Caaba. Ele substituiu o Dia do Perdão por um novo
jejum, o mês do Ramadã, a ser guardado num estilo familiar aos
visitantes dos países orientais: comida alguma (líquida ou sólida)
pode ser consumida do nascer ao pôr do sol, não se permite qual­
quer farra à noite. Alguns estudiosos relacionam essa prática a
outra, seguida pelos sabeus de Harran. Segundo consta, essa seita
jejuava durante um mês inteiro, e Maomé, nos aspectos em que
se sentia obrigado a ser diferente dos judeus e cristãos, pode ter se
inspirado neles.37 Outros especialistas38 supõem que o mês de je­
jum tenha sido uma prática tomada da velha religião árabe à qual
Maomé retrocedia.
Considerando a natureza da mudança na direção da oração,
isso não é impossível. Além de ferir os judeus, a decisão serviria
para manter seus seguidores em treinamento para alcançar o ob­
jetivo que praticavam havia tantos meses, pois os bandidos fica-

37. Winckler, Altorientalische Forschungen, ii, 348.


38. Nielsen, Altarabische Mondreligion, 168.

220
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

vam escondidos durante o dia e só se deslocavam à noite. O festim


que se seguia ao mês de jejum devia servir como sucedâneo para
um dos dois feriados públicos que os medinenses celebravam em
seus dias pagãos;39 nele, o Profeta ordenou que rufassem os tam­
bores.40 Somaram-se a isso algumas das cerimônias da antiga ado­
ração dos mortos.4'
Podemos relacionar a essas práticas a posterior adoção da sex­
ta-feira como dia de adoração pública. Não se tratava, na verdade,
de um sabá. * Maomé não tinha vontade alguma de imitar essa
prática, mas de estabelecer uma correspondência com o dia da
semana sagrado nas outras comunidades; Uma vez que os cristãos
haviam elegido o dia seguinte ao sábado, ele não tinha outra esco­
lha senão indicar o dia anterior. A sugestão de que esse seria o dia
desejável foi feita por um medinense chamado Rabãh ou Riyah,
filho de Rabi'.42 A mudança da direção na qual a oração era pro­
ferida não se tratava simplesmente de uma atitude antijudaica.
Antes Maomé não derramara o sangue dos mequenses, ainda de­
cidido a abrir caminho para um acordo com eles. Seu templo, por­
tanto, deveria ser mantido na orgulhosa posição de santuário cen­
tral da Arábia. A religião de Maomé não afetaria as solenidades
que tornaram Meca rica e famosa. Podemos supor, também, que
ele tinha sido informado, por acaso, de que o Templo em Jerusa­
lém não estava mais de pé, e imaginou que sua reconstrução po­
deria significar a ruína de Medina.43
Os judeus, ao que parece, estavam completamente alarma­
dos com a nova iniciativa de Maomé, e conta-se que chegaram a

39. Musnad, iii, 105.


40. Ibid., 422.
41'. Goldziher, MS, i, 240.
* Sabá: em hebraico, Shabat, "descanso", "inatividade"; é o nome atribuído ao dia de
descanso semanal, no judaísmo, representando o sétimo dia depois da Criação.
[N.T.]
42. Usd al-ghabah. lbn Sa'd, iii, 83, afirma que isso foi instituído na correspondência
entre Maomé e Mus'ab, filho de 'Umair.
43. Jahiz, Bayan, i, 165.

221
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

propor o reconhecimento de sua missão caso ele voltasse a pro­


ferir a reza na antiga direção. Mais ou menos nessa época, porém,
Maomé já decidira destruí-los, e mesmo que a oferta pudesse
ser entendida como algo sincero, teria sido insensato aceitá-la. Se
os judeus não tivessem medo dele, nunca a teriam formulado; se
possuíssem algum plano, alguma decisão, alguma determinação,
eles teriam se aproveitado do período de fracasso e ignomínia de
Maomé para esmagá-lo. É impossível saber se, caso os judeus ti­
vessem cooperado de forma amistosa com Maomé, isso o teria
afetado em Medina. Mas se eles tivessem movido, por algum tem­
po, uma oposição resoluta e corajosa contra ele, isso teria um efei­
to positivo.
Desde então, o afastamento entre as duas partes se aprofundou;
se, poucos meses antes, Maomé imitara cuidadosamente as práti­
cas judaicas, agora proibia seus seguidores de fazer qualquer coisa
à maneira dos judeus.44 Se eles jejuavam no Dia do Perdão, seus
seguidores deviam manter o jejum um dia antes ou um dia de­
pois.45 Após ter mudado a maneira de usar o cabelo, diferencian­
do-o do estilo pagão, que era repartido, para o estilo dos judeus,
que deixavam o cabelo solto, voltou então à moda pagã;46 em suas
regulamentações sobre tingir o cabelo, proibiu que se imitassem
os judeus. 47 Determinou a seus seguidores que empregassem o
modelo pagão de sepultamento, em oposição ao dos judeus,48 e
que ficassem de pé durante os funerais e não sentados, como na
prática judaica.49 As regras concernentes ao período menstrual das
mulheres foram alteradas de maneira tal que implicasse oposição
ao código judaico.50

44. Musnad, i, 165.


45. Ibid., 242.
46. Ibid., 246.
47. Ibn Sa'd, iii, 1 57, 27.
48. Musnad, iv, 363.
49. Ibid., 85.
50. Ibid., 132.

222
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

A consulta aos judeus sobre pontos duvidosos foi proibida.51


Uma longa revelação, algo no estilo da Apologia de Estevão,52* foi
fulminante contra eles. Essa diatribe, que constitui a maior parte da
segunda sura, é considerada pelos muçulmanos uma maravilha de
eloquência, e parece ter causado profunda impressão não apenas
entre os próprios judeus, mas também sobre os sentimentos que a
população de Medina desenvolveu contra eles. Essa revelação foi
seguida de outras. Podemos, pelo menos em parte, atribuir essas
sucessivas filípicas às circunstâncias com as quais Maomé se depa­
rou. Embora continuasse a tomar medidas severas contra os judeus,
encontrou pouca ou nenhuma oposição da parte de seus ex-aliados.
Nesse meio-tempo, a sorte havia mudado. A violação do mês
sagrado chocara alguns de seus seguidores, mas não chegou a cau­
sar nenhuma apostasia. A rede estava ainda mais espalhada sobre
a consciência daqueles que haviam concordado em se comprome­
ter com isso. O velho argumento de Abu Bakr era aplicado num
círculo cada vez maior de revelações que agora serviam a muitos
objetivos. Tendo acreditado tanto, por que agora não acreditariam
mais? Depois de deixar de lado tantos escrúpulos, por que ser im­
pedido por alguns de seguir a trajetória do Profeta?
Entre os habitantes de Meca e o Profeta havia agora uma ven­
deta. 'Amr, filho do hadramita, fora morto sob circunstâncias espe­
cialmente infames. Eles agora tinham um crédito a ser lembrado,
que poderia ser cobrado não somente de Maomé e seus co-Emi­
grantes, mas também dos Ajudantes, que haviam ficado sob sua
proteção. A cena a seguir, portanto, representa um avanço muito
considerável. Nem todos os mequenses estavam determinados a
evitar um conflito com seus parentes ladrões; alguns estavam tão
ansiosos por lutar quanto Maomé. E os nativos de Medina segui­
ram o Profeta até o campo de batalha, assim como os Emigrantes.

5 1 . Ibid., 338.
52. Preserved Smith, 84, faz essa comparação.
" Estevão: primeiro mártir do cristianismo, proferiu um discurso perante os legislado­
res judeus destacando o caráter universal do Evangelho. [N.T.]

223
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

Em março, a caravana que havia escapado de Maomé em no­


vembro estava a caminho de casa. Era comandada por Abu Sufyan,
cujos descendentes reinariam sobre o Islã, formando o que ficou
conhecido como dinastia omíada. Eles tinham feito bons negócios
na Síria e, segundo consta, traziam para casa bens no valor de 500
mil francos. O prêmio valia a pena, e Maomé resolveu ganhá-lo.
Seria ótimo saber como as notícias circulavam no Oriente na­
queles dias. Provavelmente o pombo-correio trabalhava mais do
que se imagina. Especuladores de diferentes tipos contavam com
agentes que os mantinham informados de diversos acontecimen­
tos, sobretudo com objetivos comerciais, mas as informações tam­
bém podiam ser usadas com outros propósitos. Havia outras for­
mas organizadas de sinalização cujo segredo é raras vezes revelado.
Além do mais, membros dos Khuza'ah, em Meca, já estavam em
contato com Maomé, apoiando-o contra os coraixitas.53 Nessa
ocasião, o Profeta enviou espiões para um determinado ponto da
estrada, um pouco antes de a caravana passar, mas eles foram lu­
dibriados por um chefe tribal em cujo território se encontravam.
No entanto, de acordo com um relato, as notícias chegaram a
Maomé por intermédio de um certo Busaisah.54 Ao receber as in­
formações, ele conclamou seus homens à luta, e a lembrança dos
despojos que haviam chegado a Medina era como amostras de
pepitas trazidas de uma mina de ouro a todos aqueles que dese­
javam participar da pilhagem.
Da multidão que respondeu à chamada foram selecionados
cerca de sessenta Ajudantes e 240 Emigrantes55 (talvez com a in­
tenção de reproduzir os números usados por "Talut", isto é, Gi­
deon-Saul, na batalha registrada no Alcorão).56 Dois cavalos e se-

53. Musnad, iv, 325.


54. Ibid., iii, 136.
55. As estimativas do número de muçulmanos que lutaram em Badr são diferentes:
Ishak, 3 1 4 (83 Emigrantes, 61 Aus, 1 70 Khazraj); Abu Ma'shar, 3 13; lbn 'Ukbah, 3 16.
Ibn Sa'd II, ii, 134.
56. Musnad, iv, 291.

224
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

tenta camelos eram todos os animais que puderam ser reunidos;


muitos camelos tinham sido retirados das atividades agrícolas.
O Profeta solicitou aos proprietários dos animais que cada um
deles liberasse dois ou três de seus camaradas que não tinham
montaria para usá-los, revezando com eles por turnos, o que acei­
taram.57 Provavelmente, os homens levavam pequenas quanti­
dades de tâmaras,58 à guisa de suprimento de comida. Em algumas
expedições, os soldados só podiam contar com gafanhotos como
alimento,59 enquanto, em outros tempos, eram tiras secas de carne
cozida usadas pelos peregrinos que os abasteciam de comida.60
Quando os muçulmanos ficaram mais ricos, os camelos eram
enviados pelos membros mais afortunados da comunidade para
serem abatidos na proporção de um camelo para cem soldados.61
O sistema de fornecimento dos mequenses era semelhante, e seus
soldados também transportavam suprimentos de carne. Um certo
Abu Lubabah foi enviado para governar Medina na ausência do
exército; também se enviou um governador para manter a ordem
em Kuba, onde parecia haver risco de distúrbios.62 Abu Sufyan,
contudo, foi informado antes, em Zarka,63 de que Maomé plane­
java um ataque em grande estilo, e embora tenha se apressado
para chegar a Meca por trajetos conhecidos de poucos além dele,
e por meio de marchas forçadas, resolveu enviar um emissário a
Meca para pedir ajuda. Esse emissário, segundo a tradição, feriu
seu camelo e mandou-o de volta. Os mequenses ouviram a men­
sagem de Abu Sufyan numa assembleia geral, de que todos os ho­
mens participaram ou para a qual mandaram substitutos. O plano
de Maomé era se infiltrar no trecho da estrada que passava próxi-

57. Ibid., iii, 358.


58. Ver Musnad, iii, 446.
59. lbid., iv, 353.
60. lbid., iii, 85.
61. Wakidi ( W), 231.
62. Ibn Sa'd II, ii, 36.
63. Wakidi, 2 1 .

225
DAVI D SAMUEL MARGOLIOUTH

mo a Medina. Depois de três dias de preparação, o exército me­


quense, com quase mil homens,64 dirigiu-se para lá.
Pela importância da Batalha de Badr, o número de relatos con­
flitantes sobre ela é muito grande, e cada afirmação deve ser re­
cebida com alguma desconfiança, uma vez que há muito espaço
para falsificação.
Consta que quando as forças mequenses ficaram sabendo, pelo
mensageiro, das condições de segurança da caravana, muitas pes­
soas julgaram que a decisão mais sábia era voltar a Meca sem lutar,
e uma ou duas tribos realmente fizeram isso (como os zuhritas,
tribo à qual pertencia a mãe de Maomé, e os Banu Adi). Esse con­
selho é atribuído, pela tradição, a 'Utbah, filho de Rabi'ah, en­
quanto a determinação para prosseguir é relacionada a Abu Jahl,
o antigo oponente de Maomé. Um argumento para a proposta de
retirada era o fato de que os mequenses estavam em conflito com
outra tribo, os Bakr Ibn Kinanah, e havia a expectativa de que eles
atacassem a cidade enquanto seus defensores estivessem fora.
Foi também lembrado que os Emigrantes, embora inimigos,
eram seus próprios parentes, muito embora, por outro lado, o san­
gue que Maomé derramara clamasse por vingança. Para nós, em­
penhados em rememorar a situação com um conhecimento - é
verdade - imperfeito dos fatos, é difícil afirmar qual decisão teria
usado melhor da verdadeira sabedoria. Se a caravana estivesse em
perigo, não haveria dúvida, mas, se estivesse em segurança antes
da batalha, e se Maomé tivesse dificuldade para retornar a Medina
sem ter ganhado nada, a bancarrota e o fracasso combinados po­
deriam tê-lo prejudicado tanto quanto uma batalha perdida.
Por outro lado, um importante elemento na situação, a capaci­
dade militar de Maomé, era desconhecido tanto dos mequenses
- que eram muito superiores em termos numéricos e, em alguns
aspectos, em equipamentos - quanto dos próprios amigos do
Profeta. A retirada poderia acarretar-lhes desprezo quando havia

64. Novecentos e cinquenta homens, setecentos camelos e cem cavalos; Wakidi ( W.), 44.

226
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

sangue a ser vingado. Os ataques de Maomé haviam provocado


certo desconforto, mas nenhum prejuízo mais sério, até aquele
momento. Ademais, não devia ser negligenciada a oportunidade
de se verem livres do Profeta. É provável que, para a maioria da­
queles que tinham voz sobre o assunto, os argumentos a favor de
avançar parecessem mais consistentes do que os de recuar. Sua
decisão mostrou-se desastrosa, mas não sabemos se o curso opos­
to seria mais benéfico.
Badr, o cenário da famosa batalha, está situada no fim da rami­
ficação oriental da grande cadeia de montanhas que acompanha
a linha do litoral da Arábia. Conta-se que ali houvera uma feira
anual, realizada nos primeiros oito dias do mês anterior ao da pe­
regrinação; a localidade fica próxima do ponto em que a estrada
que vem da Síria em direção a Meca se afasta da costa e avança por
passagens difíceis. Ao que parece, Maomé, baseado no número de
homens que levava consigo, esperava esmagar os opositores.
O trajeto seguido por Maomé é registrado em detalhe.65 Dos
nomes com os quais deparamos, o mais familiar é Safra, aldeia a
cerca de um dia de viagem de Badr, que foi visitada por Burck­
hardt. O caminho normalmente seguido, que vai de Safra a Badr,
passa por um vale muito estreito e acidentado. Consta que Maomé
o evitou porque alguns dos nomes feriam seu senso de delicade­
za, e que preferiu passar por um vale chamado "Doce Odor". Os
motivos pelos quais esse homem notável se impôs eram tão nu­
merosos que essa narrativa não deve ser questionada. Não é pro­
vável que a decisão de Maomé tenha significado a perda de um
tempo precioso, em que a caravana podia ser surpreendida, mas,
sem dúvida, perdeu-se algum tempo.
No dia anterior à batalha (Ram. 1 8),66 os dois lados estavam
separados por uma colina de areia. Dois homens do exército de
Meca, tentando encontrar água, acabaram descobrindo o cami-

65. Ishak, 433.


66. 16 de março de 624 d.C., de acordo com o calendário comum.

227
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

nho para o acampamento do Profeta. Um deles,67 capturado, trou­


xe a notícia de que a caravana escapara, mas o exército mequense
estava à mão. Essa informação causou um amargo desaponta­
mento; os muçulmanos procuraram desacreditá-lo, torturando o
mensageiro até que ele se retratasse, mas Maomé, ao que parece,
convenceu-se de que a notícia era verdadeira. Por conseguinte, ele
tinha agora de lidar com o mesmo problema que os mequenses
haviam enfrentado quando as notícias sobre a segurança da cara­
vana chegaram até eles.
Consta que Maomé confiou a decisão aos Ajudantes, reconhe­
cendo que o contrato que eles tinham firmado não os obrigava, de
maneira alguma, a auxiliá-lo numa guerra de agressão. No entan­
to, os Ajudantes estavam ansiosos pela batalha, talvez duvidando
de que a caravana estivesse realmente em segurança. Há, contudo,
uma história segundo a qual Maomé teria enviado Omar para ofe­
recer o pagamento da dívida de sangue de 'Amr, o hadramita, mas
que seu irmão, 'Amir, instigado por Abu Jahl, recusara. A história
é narrada em detalhe, o que lhe confere alguma plausibilidade.
Conta-se que 'Amir teria praticado os ritos peculiares que reforça­
vam a exigência de sangue. Talvez se possa explicar essa atitude
pelo orgulho e a ostentação de que Maomé, em seus comentários
sobre a batalha, acusa os mequenses, embora também deixe entre­
ver que os muçulmanos não estavam assim tão ansiosos por lutar.
Depois da vitória, porém, era natural que os muçulmanos dessem
a entender que estavam ansiosos por lutar desde o começo.
A experiência demonstra que a carreira militar, mais que qual­
quer outra, pode começar mais tarde na vida. Porém, se Maomé,
participando de sua primeira batalha como comandante aos 53
anos, foi bem-sucedido acima de qualquer expectativa, é porque o
resultado deve ser atribuído à sua disposição para receber suges­
tões. A ajuda dos anjos ou de outras instâncias sobrenaturais foi
reconhecida com gratidão ex post facto, mas adotaram-se expe-

67. Memoirs ofAli.

228
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

clientes muito mais banais para que o objetivo fosse alcançado.


Hubab,68 filho de Al-Mundhir, vinte anos mais novo que o Profeta,
tendo constatado que eles estavam envolvidos numa situação co­
mum de guerra, e detendo um conhecimento especial dos poços
situados nas redondezas, aconselhou o Profeta a colocar seus ho­
mens na proximidade de todos, menos de um; assim, formavam
um reservatório, garantindo o fornecimento regular de água para
as tropas: a posse desse elemento tão valioso salvaria o dia. O Pro­
feta recebeu bem a sugestão e dispôs suas forças sob a orientação
de Hubab. Consta que um mequense correu até o reservatório
para matar a sede e acabou pagando esse gesto com a vida. Mas
quando certo número de inimigos se aproximava, era autorizado
a beber sem ser molestado, em respeito a um princípio estabele­
cido nos tratados persas sobre tática.69
Não dispomos de nenhum relato claro ou detalhado da bata­
lha, mas conhecemos pelo menos alguns dos fatores que contri­
buíram para o resultado. A disciplina do salat, ou "oração", segun­
do a qual os muçulmanos foram distribuídos em fileiras e tinham
de executar, obedecendo a um líder, determinados exercícios físi­
cos70 - quem saísse da linha era ameaçado com punição divina7 1
-, serviu como uma espécie de árduo adestramento. Maomé, an­
tes da batalha, dispensou a obrigatoriedade de manter as tropas
em linha. O general mequense 'Utbah, filho de Rabiah, ficou im­
pressionado com a visão das tropas inimigas: os muçulmanos es­
tavam agachados sobre os joelhos, silenciosos, como se fossem
mudos, e estiravam a língua como se fossem cobras.72 Todos eles
estavam sujeitos à vontade única de seu Profeta, cientes de que o
general não deveria arriscar sua vida; para ele, pois, foi construída

68. Visto que Hubab era o nome de um demônio, é estranho que ele não tenha sido al-
terado.
69. 'Uyun al-Akhbar, 140, 12.
70. Musnad, iv, 228.
7 1 . lbid., iv., 271.
72. 'Uyun al-Akhhar, 135.

229
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

uma barraca na retaguarda do exército, onde, atendido por seus


conselheiros de maior confiança, podia dar as ordens. Lá ficavam
amarrados os camelos que seriam usados pelos líderes para fugir,
em caso de desastre.
Quando o primeiro sangue foi derramado, o Profeta entrou em
sua barraca e desmaiou; quando voltou a si, dedicou o tempo que
tinha a uma apaixonada oração, revelando-se completamente alar­
mado.73 Os membros do gabinete, que consideravam essas orações
inadequadas, permaneceram na barraca com o mestre, emitindo
ordens quando necessário. As armaduras usadas pelos soldados
provavelmente foram fornecidas pelos judeus de Medina, que po­
diam avaliar corretamente esses bens, embora não tivessem habi­
lidade para usá-los. A armadura, quando completa, cobria todo o
corpo, com exceção das pernas;74 o elmo complementava-se com
uma proteção para a garganta;75 assim, as aberturas de olhos e per­
nas eram os pontos mais indicados para os golpes.
Do outro lado estava uma horda de árabes muito superior nu­
mericamente (de trezentos a mil homens a mais) e bem suprida
em cavalaria e camelos; mas justificavam as censuras dirigidas
posteriormente contra os árabes da parte de muçulmanos estran­
geiros que os consideravam inferiores às outras raças. Diziam
que eles76 não conheciam sequer os rudimentos da ciência mili­
tar. Lutavam sem organização alguma, sem liderança, sem armas
ou trajes apropriados, nem reconhecimento do terreno, artilha­
ria ou defesa para o acampamento. Os árabes da Ignorância não
tinham conhecimento algum das centenas de termos técnicos que
a guerra do Islã desenvolveu.
Na verdade, os líderes mequenses romperam relações antes da
batalha. 'Utbah, filho de Rabl'ah, matou o cavalo de seu compa­
nheiro Abu Jahl. Este, então, a fim de demonstrar sua coragem

73. Muslim, ii, 55.


74. Wellhausen ( W), 1 53.
75. Wakidi (W.), l lO.
76. Jahiz, Bayan, ii, 50.

230
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

perante o rival, abandonou os afazeres de chefe de operações e


exigiu que um campeão do inimigo fosse encontrá-lo em comba­
te individual; nesse minicombate - 'Utbah e mais dois mequen­
ses, de um lado, contra Ali, Hamzah e outro -, os três mequenses
foram mortos. Uma tradição refere-se a um chefe mequense que
teria desertado no meio da luta e, desse modo, rompido a linha de
homens em combate. Porém, a fonte dessa afirmação parece mais
uma interpretação excessivamente literal da linguagem realista do
Alcorão a respeito de Iblis ou do demônio. O outro general, Abu
Jahl, a p-é, foi forçado a lutar e acabou morrendo. Sem qualquer
líder reconhecido, os mequenses foram tomados de pânico e recu­
aram, perdendo setenta homens, que foram assassinados, e dei­
xando setenta prisioneiros. Os muçulmanos perderam quatorze
homens.
Fica claro que a vitória nesse importante confronto deveu­
-se sobretudo à proeza de Ali, que lutou sem armadura,77 e de
Hamzah. Conta-se que o Profeta fez um elogio especial à valentia
de Simak, filho de Kharashah, a Sahl, filho de Hunaif, al-Harith,
filho de al-Simmah, e Kais, filho de al-Rabi, todos eles medinen­
ses.78 Segundo consta, a armadura de Abu Jahl foi usada sucessi­
vamente por três homens, e todos pereceram em combate indi­
vidual. Após a morte do terceiro, não apareceu mais ninguém
disposto a vesti-la. Os muçulmanos permaneceram organizados
em formações seriadas na maior parte do dia, lutando (ou me­
lhor, se defendendo) como uma muralha, exceto quando um cam­
peão adiantava-se para responder a um desafio. Não temos notícia
de nenhum tipo de organização ou disciplina do lado de Meca.
O maior número de mortes e capturas parece ter ocorrido no final
do dia, quando os mequenses bateram em retirada.
O que não podemos entender é como - se é que se pode en­
contrar alguma espécie de propósito nas táticas dos mequenses

77. 'Uyun al-Akhbar, 162, 1 8.


78. Isabah, iii, 49 1 .

231
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

- a cavalaria de Meca não conseguiu esmagar o inimigo. Spren­


ger supõe que ela foi dissuadida pelo medo do arco e flecha dos
muçulmanos; o ataque, em formação quadrangular, parece ter en­
contrado resistência. Porém, com a superioridade numérica, não
devia haver dificuldade alguma para os mequenses flanquearem
o inimigo, pois os relatos da batalha não sugerem que a posição
dos maometanos fosse particularmente forte. O próprio Maomé
deve ter se surpreendido com o resultado, considerando-o, em
suma, consequência de uma estimativa equivocada das forças de
ambos os lados. Os mequenses acreditavam que os muçulmanos
eram duas vezes mais numerosos, ao passo que os muçulmanos
do mesmo modo subestimaram a força mequense.79 As declara­
ções de Maomé a esse respeito, provavelmente, baseiam-se em um
conhecimento preciso. No confronto seguinte, a vitória de Uhud
resultou infrutífera para os mequenses, pela errônea suposição
de que Maomé ainda possuía um enorme contingente sob seu
comando.
A afirmação do Alcorão obriga-nos a rejeitar, como ficção bio­
gráfica, a história de que Maomé, antes da batalha, fizera uma ava­
liação exata das forças dispostas contra ele, baseada no consumo
diário de camelos dos mequenses; e que uma sentinela de Meca,
inspecionando as forças muçulmanas, foi capaz de estimá-las com
precisão, e também de verificar que elas não poderiam contar
com reforços nem com homens emboscados. É mais fácil acredi­
tar, porém, que os mequenses estivessem firmemente convencidos
de que Maomé possuía uma enorme reserva.
Os escritores maometanos, baseando-se em uma passagem do
Alcorão, suporiam mais tarde que a pesada chuva que caiu na noi­
te anterior à batalha representou uma vantagem para os muçul­
manos e um desfavor para os mequenses. Eles acreditam que a
chuva, ao molhar a areia, tornou-a mais firme e adequada à infan­
taria, talvez tomando de forma excessivamente literal as palavras

79. Sura iii, II, viii, 46.

232
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

do Alcorão. Na verdade, um escritor contemporâneo, que "seguiu


a trilha dos tuaregues mascarados", declara que as patas dos came­
los são inúteis quando o terreno está molhado. Mais tarde, os au­
tores muçulmanos interpretaram a passagem dizendo que as for­
ças de Maomé haviam dormido bem na noite anterior à batalha,
começando o combate mais descansados que os mequenses, que
ficaram acordados, temendo uma surpresa - e talvez duvidando
também da fidelidade de diferentes destacamentos depois que
dois deles haviam desertado. Se a noite foi passada dessa maneira
pelos dois exércitos, não pode haver dúvida de que Maomé estava
certo quando declarou que ambos haviam se enganado em suas
estimativas quanto ao número de adversários.
Entretanto, não se deve atribuir muita veracidade às decla­
rações do Profeta. Ele declarou que Deus lhes havia prometido,
antes da batalha, a caravana ou os reféns mequenses. Todavia, pa­
rece que Maomé não tinha conhecimento algum da chegada dos
reféns até o dia anterior à batalha; o próprio mensageiro que le­
vara notícias da chegada das forças de Meca também deve ter
transmitido informações sobre a segurança da caravana. Assim,
a uma oração muçulmana pedindo ajuda, afirma ele, veio como
resposta a afirmação de que se enviaria um reforço de mil anjos,
cada qual com um cavaleiro às costas. No final, mesmo esses anjos
tiveram de ser encorajados por uma promessa especial de assis­
tência divina.
Não podemos acreditar firmemente que a promessa de ajuda
dos anjos tenha sido feita antes da vitória alcançada. Se Maomé
soubesse de antemão o tamanho das forças adversárias, é impro­
vável que tivesse lutado; ele era cauteloso demais para prometer a
ajuda dos anjos quando não havia chance alguma de isso aconte­
cer. Contudo, uma vez chamados, não custava nada multiplicar o
número de anjos. No ano seguinte, os entes que combateram em
Badr tinham passado para 3 mil. 80 Na tradição popular, porém, o

80. Ibid., iii, 120.

233
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

crédito da batalha foi atribuído não aos anjos, mas à proeza da


família de Abd al-Muttalib,81 que, anos depois, continuava a ser
lembrada como humilhação pelos descendentes de Abu Sufyan.
Dizem que as batalhas são ganhas com disciplina e firmeza
de propósitos, e é evidente que essas qualidades estavam presen­
tes no lado muçulmano, mas não no mequense. Segundo consta,
Maomé, ao colocar suas tropas em linha, acabou por ferir um de
seus seguidores com o bastão; o homem ferido, querendo sarar,
beijou o estômago de seu líder. Em contraste com essa cena há
outra sobre as brigas completamente descabidas entre os dirigen­
tes de Meca para tentar entender a razão pela qual os mequenses
fracassaram. Ademais, há evidências de que a motivação, que tan­
tas maravilhas fazia em inúmeros campos de batalha muçulma­
nos, também havia contribuído de forma significativa nesse cam­
po específico.
A morte no caminho de Deus era olhada por não poucos luta­
dores como algo melhor que a vitória. Desesperados pelo desejo
de chegar a seu paraíso, pintado com espalhafato, eles serravam as
correntes que os ligavam a este mundo; arremessavam-se em esta­
do de êxtase sobre o inimigo, cujas espadas formavam verdadeiras
chaves para os portões do reino eterno. Perfeitamente capazes de
prestar ajuda com seus conselhos e de transmitir força e resis­
tência, as deusas Al-Lãt e Al-'Uzza, contudo, não possuíam reser­
va alguma no Jardim das Delícias com acesso pelo túmulo e pelo
portão da morte. Aqueles que morreram a serviço dessas deusas,
se não padeceram no Fogo, como declarou Maomé, eram destina­
dos, no máximo, segundo o relato deles, a permanecer com sua
personalidade.
No final, os primeiros satiristas, sem hesitação, acusaram os
coraixitas de covardia. Na condição de mercadores, eles tinham
alguma liberdade para não lutar; portando um pedaço de cortiça
ou outro sinal quando deixavam suas casas, podiam passar em

8 1 . Jahiz, Mahasin, 140.

234
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

segurança onde outros seriam desafiados. O poeta que se refere a


essa prática zomba dos coraixitas por terem abandonado a Caaba
na época da invasão; a falta de vontade de derramar sangue e a
presteza em deixar o campo de batalha que caracterizaram suas
ações até a tomada de Meca parecem mostrar que ele estava certo
em sua avaliação.82
É provável, porém, que o ponto sobre o qual sir William Muir
insiste, o horror do derramamento de sangue de parentes, por um
lado, e o desejo de derramá-lo, que prevaleceu, por outro lado,
tenha sido o principal fator apesar na decisão da batalha a favor
dos muçulmanos. Os casos em que membros da mesma família
estavam alinhados em campos opostos eram numerosos, e o Islã,
como aparece nas mais autorizadas tradições, provocava mais o
efeito de tornar os homens ansiosos do que, por outro lado, de
testar a fé desses homens com o parricídio ou o fratricídio. A tra­
dição registra um caso, supostamente depois dessa época, em que
um homem contou a Maomé que matara o pai porque este tinha
se referido ao Profeta de maneira desrespeitosa. Maomé recebeu
a notícia com tranquilidade,83 e, para que não restasse qualquer
afeição filial, proibiu expressamente os homens de orar pelas al­
mas de seus pais não crentes.
Quando se observou que, de acordo com o Alcorão, Abraão
tinha feito o mesmo com o pai, houve uma revelação especial,
explicando que Abraão prometera a Azar que faria isso - não
se sabe como ou quando; em revdações bem posteriores, a atitude
de Abraão é caracterizada como uma mancha em seu caráter.84
Consta que o filho de Abu Bakr, que se converteu muito depois,
contou a seu pai que ele o poupara no dia da Batalha de Badr. Abu
Bakr respondeu que, se houvesse oportunidade, teria assassinado
o filho. Abu 'Ubaidah, filho de Al-Jarrah, realmente matou o pai,

82. Jahiz, Opuscula, 61.


83. Isabah, iii, 708.
84. Sura lx, 4.

235
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

que lutava do lado mequenses; mas dizem que se esforçou para


evitar isso. Embora não lhe tenham permitido lutar com o pai -
'Utbah, filho de Rabi'ah - em combate individual, Abu Hudhai­
fah ajudou na tarefa de acabar com ele.85 Mus'ab, filho de 'Umair,
pressionou o homem que capturou seu irmão a exigir um pesado
resgate, uma vez que a mãe podia pagar por isso, alegando que o
raptor, por ser muçulmano, era seu parente mais próximo que o
próprio irmão. 86
A sinceridade muçulmana provavelmente era um exemplo da­
quele princípio da natureza humana segundo o qual "o que antes
era extremamente temido é o mais avidamente esmagado sob os
pés': Na realidade, parece que Maomé se esforçara a fim de obter
imunidade para seus próprios parentes e ex-benfeitores e, por
conta disso, acabou sendo reprovado por um de seus seguidores,
que achava que ele devia ter dado melhor exemplo - logo o Pro­
feta, que durante anos respeitara tanto o sangue dos parentes! Mas
a verdade é que em nenhum momento o Profeta foi um fanático
sombrio, ao contrário de alguns de seus seguidores. Pode ser ver­
dadeiro o relato que um mequense faz antes da batalha, compa­
rando o rosto saudável dos idólatras à aparência angustiada e me­
lancólica dos monoteístas, e advertindo os líderes de Meca sobre o
caminho que poderia reduzir os mequenses à mesma condição
miserável. A Revolução Francesa revela casos bem conhecidos de
homens para os quais os princípios se transformaram em sede
de sangue. Essa paixão, na realidade, apoderou-se das fileiras vito­
riosas em Badr. Alguns homens que foram feitos prisioneiros não
puderam ser resgatados por seus captores das mãos dos fanáticos,
que preferiam o sangue ao resgate.
Os que haviam experimentado a tortura em Meca aproveitaram
a oportunidade para exigir vingança de seus perseguidores.87 Omar,

85. Wakidi (W.), 54.


86. Ibid., 79.
87. Eram eles Bilal e 'Ammar.

236
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

sempre pronto para fazer o papel de carrasco, era favorável à cha­


cina de todos os prisioneiros; um fanático, o poeta Abdallah, filho
de Rawahah, sugeriu que eles fossem queimados;88 e Maomé, em
sua revelação, declarou que um massacre teria sido mais agradável
a Deus. O derramamento de sangue em grande escala seria calcu­
lado para impressionar a imaginação. Considerações de ordem
econômica provavelmente fizeram com que ele voltasse atrás na
decisão. Embora o saque somasse 1 50 camelos e dez cavalos, além
de alguns bens que os especuladores de Meca levaram consigo na
expectativa de encontrar comprador, e as roupas e armaduras dos
que morreram, setenta prisioneiros representavam recursos que a
condição de seus seguidores não permitia que ele desconsiderasse.
O Profeta passou três dias em Badr antes de começar sua triun­
fal jornada de volta para casa. Conta-se que alguns seguidores o
pressionaram para fazer um ataque rápido a Meca, mas provavel­
mente ele não estava preparado para uma empreitada dessas.89
Antes de deixar Badr, cavou-se ou limpou-se uma cova e nela fo­
ram atirados os cadáveres dos não crentes, e o exultante conquis­
tador, embora em geral reverente com os mortos,90 não pôde dei­
xar de perguntar aos cadáveres se eles agora se haviam convencido,
dizendo a seus estupefatos seguidores que os corpos podiam ou­
vir, embora fossem incapazes de responder. Na verdade, ele exul­
tava por ter-se libertado de Abu Jahl, agradecendo a Alá, que so­
correra seu servo e fortalecera sua religião.91
Mais alguns dias mais foram suficientes para livrá-lo também
de Abu Lahab. Dois dos prisioneiros foram chacinados no cami­
nho: Al-Nadir, filho de Al-Harith, e 'Ukbah, filho de Abu Mu'ait.
Consta que este último teria tratado o Profeta de forma rude e
que, anteriormente, também estabelecera relações com os judeus;

88. Musnad, i, 383.


89. Ibid., 229.
90. Ibid., iv, 252.
91. Ibid., i, 442.

237
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

por isso talvez tivesse auxiliado, em algum momento, o Profeta


com informações. Ele chegou mesmo a abraçar formalmente o
Islã, mas depois voltou atrás. O canto fúnebre92 pronunciado para
Al-Nadir por sua filha (ou irmã) é um dos mais emotivos da pa­
tética literatura de cantos fúnebres dos árabes. Conta-se que o
canto levou o próprio Maomé às lágrimas de remorso. A ofen­
sa feita pelo homem, segundo consta, foi ter dito que o Profeta
havia comprado os livros dos gregos, persas e árabes do Hirah, e
recitado seu conteúdo; se contar histórias era o critério para ser
um profeta, argumentou, ele tinha todo o direito ao título, como
Maomé. Sua filha pensou que o bravo homem podia ser perdoado,
mesmo cometendo essa afronta, mas ela estava errada.
Nenhum acontecimento na história do Islã foi mais importan­
te do que a Batalha de Badr. O Alcorão a chama, acertadamente,
de Dia da Libertação, o dia em cuja véspera os muçulmanos eram
fracos, o dia depois do qual ficaram fortes. É difícil superestimar
seu valor para o próprio Maomé. Ele possivelmente o considerava
um milagre, e quando o declarou como tal muitos de seus vizi­
nhos aceitaram a afirmação sem hesitar. Sua participação na luta
parece ter sido pequena - ele se limitou, na realidade, a atirar
um punhado de pequenas pedras no rosto dos inimigos.93 Sabia­
mente, porém, reivindicou o conjunto da obra, não como traba­
lho seu, mas de Deus. O destino que tinha recaído sobre o inimigo
foi uma justa retribuição àqueles que ousaram resistir a Deus e a
Seu Profeta. Como vimos, a necessidade de possuir o poder de
realizar um milagre era algo que amargurava a vida de Maomé.
Agora, finalmente, a provação acabara.
Riqueza, fama, honra, poder, tudo isso fora assegurado ou pos­
to a qualquer preço ao alcance dos muçulmanos pelo Dia da Li­
bertação. Num período posterior, ter tomado parte na Batalha de
Badr era como uma carta de nobreza, e quando a receita do te-

92. Zahr al-adab, i, 28.


93. Ali, contudo, afirmou que ele tinha lutado bravamente.

238
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

souro foi dividida entre os muçulmanos, no tempo de Omar, os


chamados badris receberam quinhentos dirhems por cabeça.94 Até
o fim de sua vida, Maomé sempre esteve pronto a perdoar qual­
quer ofensa cometida por alguém que participara da luta. Por
tudo que ele sabia, Deus lhes dera autorização para fazer o que
lhes aprouvesse.95
Quase imediatamente após a batalha, os chefes das vizinhan­
ças, ansiosos por obter favores de Maomé, lhe ofereceram presen­
tes, mas ele só os aceitaria se os doadores abraçassem o Islã. Al­
guns dos que recusaram, mais tarde, teriam ocasião para lamentar
não ter compartilhado, naquele momento, da nova empreitada.96
Estava chegando a hora em que os Emigrantes não depende­
riam mais da caridade dos Ajudantes. Estes começavam a desfru­
tar dos benefícios de sua aposta na adesão ao Islã, e aqueles que
tinham ficado em casa desejavam ter se unido à expedição. A par­
te que foi concedida a cada soldado representava, para os famin­
tos, uma riqueza. A de Ali foi um casal de camelos. O escravo de
Maomé, Salih, encarregado dos prisioneiros, recebeu em gorjetas
deles o equivalente a mais de uma parte no butim.97 Os prisionei­
ros mequenses não eram feitos daquele estofo inflexível que Ho­
rácio nos ensinou a admirar em Regulus. * Não era rara a oferta de
resgates. A soma mais elevada foi quatrocentos dirhems; para ou­
tros, mais pobres, uma quantia menor era suficiente.
Conta-se que, no caso dos homens muito pobres, o montante
era pago em lições de escrita dadas aos rapazes medinenses; os
professores, às vezes, eram recompensados com pancadas.98 A im­
portância dessa arte agora era plenamente reconhecida por Mao-

94. O badri que sobreviveu mais tempo foi Sa'd, filho de Abu Wakkas. Bokhari (Kast.),
vi, 274.
95. Musnad, iii, 350.
96. Ibid., iv, 68.
97. Ibn Sa'd, iii, 34.
* Horácio: historiador romano que narra a história do chefe militar Regulus, famoso
por sua resistência heroica na guerra contra Cartago. [N.T.]
98. M_usnad, i, 247.

239
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

mé, que99 percebia a utilidade de planejar realizações ligadas à


propriedade e aos empréstimos, e de atestá-las. O método em uso
era desajeitado, e em pouco tempo uma nova moda foi trazida
para Medina, que Abu Sufyan teve muito trabalho em aprender. 100
Entre os prisioneiros estavam Abbas, tio de Maomé, e os filhos de
seu tio al-Harith. O Profeta exigiu como resgate de um deles, Nau­
fal, mil lanças que ele guardava em Jeddah. Segundo consta, Nau­
fal tornou-se muçulmano de imediato, por supor que o Profeta
fora informado acerca dessa reserva por meios sobrenaturais. 1 0 1
Afirma-se que, em relação ao próprio Abbas, o Profeta de­
monstrou algum conhecimento similar. "Redimam-se você, seus
sobrinhos e seus colaboradores", disse ele a Abbas, que declinou,
declarando que ele era muçulmano de coração e servira contra sua
vontade. "Deus sabe mais sobre isso'', foi a resposta. "Externamen­
te você era contra nós, então redima-se:"'Você tem vinte onças de
prata que emprestei a você. Leve-as como meu resgate." "Elas são
um presente de Deus para mim." "Mas eu não tenho mais dinhei­
ro algum:' "Então onde está o dinheiro que você, quando partiu
de Meca, deixou guardado secretamente com sua esposa Umm
Fadl, com instruções de como seria dividido entre seus filhos, em
caso de sua morte?" Abbas, de acordo com seu criativo filho, teste­
munhou que Maomé era o Profeta de Deus quando ouviu esse
segredo revelado. Contudo, ao que parece, ele acabou pagando o
resgate a fim de voltar para Meca. 1 02
É conferido mais crédito à tradição que mostra o empenho
de Maomé em utilizar ritos religiosos impressionantes como meio
de fazer prosélitos entre os visitantes que iam resgatar seus ami­
gos; 103 essas tentativas eram feitas concedendo-se tratamento gen­
til aos prisioneiros, a fim de atraí-los para o Islã.

99. Sura ii, 282, 283.


100. Ibn Duraid, 223.
1 0 1 . Isabah, iii, 1 .090.
102. Musnad, i, 553.
103. Ibid., iv, 83.

240
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Conta-se que um único homem obstinou-se em não engordar


o tesouro de Maomé. Abu Sufyan, agora o líder reconhecido em
Meca, em vez de mandar um resgate pelo seu irmão, que fora cap­
turado por Ali, esperou até que um homem de Medina viesse a
Meca em peregrinação. Abu Sufyan prendeu esse homem e o tro­
cou por seu irmão. A soma total que Maomé provavelmente reu­
niu não foi inferior a 1 00 mil dirhems. Sua ideia inicialmente foi
reivindicar para si o total, em nome de Deus e Seu Profeta, mas ele
foi induzido a rever essa reivindicação. Assim, do conjunto do res­
gate, Deus e Seu Profeta ficaram com um quinto. Cada raptor de­
veria ficar com o resgate de seu prisioneiro. Afirmou-se que a rei­
vindicação de um quinto representava uma redução em relação
aos ganhos desfrutados pelos soberanos anteriores a Maomé. Eles
não somente ficavam com um quarto da pilhagem como também
com outros privilégios dos quais Maomé abriu mão.
As notícias da derrota foram levadas a Meca por um certo Hai­
suman. A cena que se seguiu à chegada do exército derrotado é
registrada apenas em fragmentos. Alguns justificaram a fuga afir­
mando que tinham se confrontado com antagonistas sobrenatu­
rais, mas a desculpa foi recebida com escárnio e indignação. Hind,
filha de 'Utbah, exigiu dos hashimitas seu pai, seu irmão e seus
tios, cujos rostos estavam habituados a brilhar como faróis para os
viajantes na noite escura. 104 Fez-se uma tentativa de sequestro dos
bens pertencentes aos Banu Zuhrah na caravana que Abu Sufyan
tinha salvo, mas o líder dos Banu Zuhrah assinalou que o próprio
Abu Sufyan ordenara aos mequenses desistir da expedição contra
Maomé, e eles, com seu retorno, atenderam às suas ordens. Em
vista disso, Abu Sufyan não insistiu nesse ato de justiça, mas o lu­
cro obtido pela expedição, que fora salvo do inimigo, foi usado
para equipar uma força a ser enviada contra Medina. 105

104. Ghurar al-Khasa'is, 200.


105. Wakidi, 1 99.

241
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

Aparentemente, todos os olhos agora se voltavam para Abu


Sufyan. A batalha tinha retirado de cena todos os possíveis rivais
de sua influência, embora infligindo-lhe perdas que ele, como ho­
mem honrado que era, devia vingar. Na realidade, era evidente
que da capacidade que tinha a comunidade de vingar suas perdas
dependia não somente sua honra, mas também sua própria exis­
tência. O dinheiro do resgate não duraria para sempre, e, quando
estivesse perto de acabar, Maomé estaria pronto para um ataque
às caravanas, e não teria dificuldade em encontrar auxiliares para
uma expedição tão lucrativa.
Ibn Ishak, em sua biografia, fornece numerosas versões da Ba­
talha de Badr. Deixar os mortos no local, sem os lamentos de pra­
xe, teria sido, sem dúvida alguma, desrespeitoso.1 06 No entanto, a
autenticidade da maioria dos cantos fúnebres então produzidos é
contestada; só alguns podem realmente ter sido cantados na oca­
sião. O ponto comum a todos é o mesmo - a vingança não pode
ser adiada. Em outro momento, os mequenses mostrarão vanta­
gem maior. Veremos se eles farão isso. Entrementes, alguns ta­
lentos poéticos cresciam também em Medina, uma vez que uma
guerra de forças na Arábia seria incompleta sem uma guerra de
rimas; 1 07 uma vez mais, o conhecimento genealógico de Abu Bakr
era considerado útil para a causa do Profeta.1 08 Pois o satirista,
embora não fosse escrupuloso em suas afirmações, devia ser ali­
mentado com material que ele pudesse enfeitar ou expandir.
Como somente os Emigrantes eram alvo da sátira mequense, as
réplicas versificadas podiam ser ensinadas agora às meninas escra­
vas de Medina. 1 09

106. Goldziher, WZKM, xvi, 307.


107. lbid., MS, i, 44.
108. Zahr al-adab, i, 44.
109. Musnad, iv, 263.

242
8

PROGRESSO E RETROCESSO

O arauto enviado por Maomé para anunciar sua vitória em Medi­


na, Abdallah, filho de Rawahah, 1 de início foi tratado como men­
tiroso - o único sobrevivente de um bando de derrotados. Os
judeus, raramente abandonados pela má sorte nessas ocasiões,
parecem ter desfrutado um triunfo especial, mas de curta duração.
Muitos homens em Medina usaram o dia entre a chegada do arau­
to e a entrada triunfal de Maomé para maldizer o novo governan­
te, porque poucas horas depois não haveria mais segurança para
pronunciar esses discursos. O Profeta entrou na cidade quase no
fim do Ramadã, precedido pelos prisioneiros. A rapsódia triun­
fante que dá forma à sura viii, sem dúvida, foi divulgada num
serviço de ação de graças. Com o entusiasmo de alguém que deu
um passo bem-sucedido numa nova carreira, o Profeta exagerou
nas glórias do combate e, referindo-se às perdas do outro lado,
declarou que, para os propósitos da guerra, um muçulmano equi­
valia a dez infiéis.
A instituição que os gregos chamavam de tirania parece produ­
zir em toda parte efeitos semelhantes. Se, numa comunidade, atri­
bui-se a um homem a autoridade absoluta e desmedida, certo nú­
mero de parasitas seguramente despontará, todos prontos para
mergulhar em algum tipo de atoleiro na esperança de ganhar um
sorriso de seu senhor. O Ramadã não acabou antes de essa raça ter
começado a aparecer. Se alguém incorresse no desagrado do Pro­
feta, ele poderia ordenar o assassinato dessa pessoa.
Havia gente em Medina que criara problemas para o Profeta,
mas o mal dessas pessoas é que elas eram incapazes de compar­
tilhar as aspirações de seus vizinhos. Para elas, a vitória de Badr
representava mais um ultraje que um triunfo. Os mortos que os

1 . Apud Ibn Sa'd, iii, 38, Zaid Ibn Harithah.

243
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

conquistadores deixaram em campo eram seus pais e seus irmãos;


aqueles que traziam de volta, de mãos amarradas e atados a seus
camelos, eram seus parentes mais próximos. Esse tipo de triun­
fo chocou aqueles cuja antiga humanidade não fora morta pela
nova religião. Mesmo a esposa do Profeta, Saudah, perguntou ao
coraixita Sulaim, que foi trazido atado e amarrado, por que ele
não morrera como homem. É provável que as esposas e os filhos
dos vitoriosos também tenham feito eco a esses sentimentos, ten­
do sido inclusive objeto de uma advertência, acompanhada, con­
tudo, de um pedido de que eles não fossem punidos com muita
severidade. 2
Nas tribos residentes em Medina havia satiristas que expressa­
vam livremente suas opiniões sobre assuntos públicos. O gênero
não morreu nem mais tarde, no califado; mas nas grandes cidades,
em períodos posteriores, ele não foi detectado tão facilmente, e as
sátiras circulavam sob a forma escrita.
Talvez em Medina também se tenham escrito sátiras,3 contudo,
é mais provável que fossem declamadas com as formalidades de
praxe. O satirista ungia um lado de seu cabelo, deixava a capa pen­
der e calçava apenas um sapato.4 'Asma, filha de Marwan e esposa
de um membro da tribo Khatmah, mãe de cinco filhos, tinha o
dom poético. Ela zombava das pessoas de Medina por obedecerem
a um estranho que esperava apenas a cidade "ficar bem caótica
para desfrutar da 'sopa"', e pediu que alguém cortasse essa possibi­
lidade pela raiz. Abu 'Afak, membro da tribo 'Amr Ibn 'Auf, foi
incapaz de perceber que a chegada do Profeta havia unificado a
população de Medina e fez pouco da cidade, por estar dividida por
aquele estrangeiro cujas noções de certo e errado eram muito di­
ferentes das deles. Achava que, se acreditavam em força e tirania,
era melhor terem obedecido os antigos reis do Iêmen.

2. Sura lxiv, 14.


3. Goldziher, ZDMG, xlvi, 18.
4. Ibid., 5; Abhandlungen, i.

244
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Maomé deu a entender que queria se livrar dos satiristas, e logo


uma dupla de assassinos ofereceu seus serviços. Os dois poetas
foram mortos no final da noite, quando dormiam calmamente em
suas casas; os assassinos foram aplaudidos publicamente e erigidos
como padrão de conduta.5 Essas execuções foram perpetradas na
semana imediatamente posterior a Badr.6 Talvez tenha sido nessa
mesma ocasião que 'Umair, filho de Umayyah, ao encontrar sua
irmã na praia, a tenha matado, por ter proferido ofensa similar.7
Antes da chegada do Profeta, não havia dúvida alguma a res­
peito das consequências desses atos. A vida do assassino seria cei­
fada sem questionamentos. O filho da mulher assassinada estaria
tão comprometido em vingar sua morte quanto Orestes em des­
forrar a morte do pai.* Os homens da tribo do velho poeta teriam
caído sobre o primeiro membro da tribo do assassino que passas­
se em seu caminho. Parece que em casos comuns, mesmo se nos
afastarmos das superstições relacionadas ao sangue, o sentimento
filial não era menos importante entre os árabes que entre outros
povos. Mas o resultado dessas execuções mostra como Maomé
entendia perfeitamente as pessoas que o cercavam. Quando o as­
sassino de 'Asma perguntou-lhe se devia temer pelas consequên­
cias do que fizera, o Profeta, cunhando um novo provérbio, disse­
-lhe que haveria tanto distúrbios quanto aqueles que dois bodes
podem promover.
Os historiadores nos contam que as tribos das pessoas assassi­
nadas adotaram o Islã em consequência disso. Traduzindo a cena

5. Ibn Ishak (995-996) situa esses eventos depois de Uhud. Ibn Duraid dá o nome de
Ghishmir, filho de Kharshah (265), ao assassino de 'Asma.
6. Wakidi.
7. Isabah, iii, 56.
* Orestes: na mitologia grega, filho do rei de Micenas, Agamemnon, e de Clitemnestra.
Esta e o amante, Egisto, mataram Agamemnon quando ele retornava da Guerra de
Troia. Único capaz de vingar o crime, Orestes transferiu-se para a Fócida, suspeitando
que o amante da mãe pretendia matá-lo. Ao tornar-se adulto, em obediência às ordens
de Apolo, Orestes matou a mãe e Egisto. Perseguido, refugiou-se no santuário de Apo­
lo, em Delfos. Julgado por seu crime em Atenas, o voto de Atena desempatou o resul­
tado a seu favor. [N.T.]

245
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

para a linguagem moderna, podemos afirmar que eles considera­


vam os atos execuções legítimas, ordenadas pelo poder soberano,
situado acima do poder de resistir, de cuja proteção julgavam ade­
quado desfrutar. Assim, se os versos atribuídos a 'Asma são ge­
nuínos, ela incitara deliberadamente a população de Medina a um
ataque assassino contra o Profeta; desse modo, sua execução não
teria sido - julgada por qualquer padrão - uma medida indes­
culpavelmente impiedosa. Não se deve esquecer que a sátira era de
longe uma arma mais efetiva na Arábia do que em outros lugares, 8
e que, durante o califado, ela foi às vezes objeto de penalidade.9
O emprego de um assassino no lugar de um carrasco - que, nes­
se caso, teria sido plausível - é que causa horror. 10
Maomé podia argumentar que, ao lidar com tribos que não
tinham adotado o Islã, não dispunha de carrascos, e que a disci­
plina devia ser mantida mais pela demonstração de força que
pela autoridade. Daí, a habilidade manifesta na seleção do tempo
e do agente certos para obter um resultado, em um Estado par­
cialmente organizado, era o único substituto possível para os mé­
todos legais e judiciais próprios de um Estado plenamente organi­
zado. O fato de somente o culpado sofrer foi um aperfeiçoamento
decisivo no sistema existente, pelo qual a sátira em relação a um
indivíduo significava uma guerra entre tribos. Foi então intro­
duzido o princípio de que cada pessoa deveria arcar com seus
próprios erros. Aquele que ficasse horrorizado com esses assas­
sinatos devia deixar Medina ou guardar seu horror para conver­
sas particulares. Logo, porém, até as críticas ao Prófeta feitas em
particular foram condenadas numa revelação, 1 1 e os verdadeiros
crentes, ao ouvir essas conversas, sentiam-se no dever de informar
seu senhor.

8. Goldziher, Abhandlungen, i.
9. Goldziher, ZDMG, xlvi, 19.
10. Tanto Muir quanto Sprenger consideram esses atos assassinatos a sangue-frio e trai-
çoeiros.
1 1. Sura lviii, 9.

246
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Um passo mais sério teve de ser dado contra os judeus (os


Banu Kainuka) que moravam no mercado principal de Medina
(diz-se que eram trezentos homens capazes de portar armas e
quatrocentos desarmados). Eles - que eram ourives e, sem dúvi­
da, os mais ricos habitantes de Medina - tinham adotado a polí­
tica de provocação sem propósito, como já foi dito. Antes de reco­
nhecer Maomé como profeta, manifestaram o desejo de ver um
milagre, no estilo de Elias no monte Carmelo.*
O Profeta, orgulhoso com a vitória em Badr, dirigiu-se ao mer­
cado dos judeus e perguntou-lhes se eles estavam satisfeitos, se a
miraculosa multiplicação de seus homens no campo de batalha
não era tão boa quanto um sacrifício devorado pelo fogo celeste.
Parece que, em resposta, eles riram da covardia dos compatriotas
de Maomé; os judeus também se gabaram do que teriam feito caso
Maomé tivesse lutado com eles. Na realidade, o que conseguiram
foi causar o fechamento das portas de seus estabelecimentos por
quinze dias, e, depois, uma discreta capitulação. Foi provavelmen­
te nesse momento que Maomé passou a desafiar os judeus a mos­
trar sua ânsia de morte, posto que se julgavam os escolhidos de
Deus, e a garantir que eles não teriam essa ânsia.12
Cerca de um mês depois que o Profeta voltou de Badr, 1 3 irrom­
peu uma disputa entre ele e os Banu Kainuka que parece ter come­
çado assim. A parte de Ali do butim em Badr fora dois camelos.
Como estava ansioso para ganhar dinheiro, a fim de se casar com
Fátima, a filha do Profeta, Ali pensou em empregar seus camelos
no comércio de exportação, e alguns judeus Kainuka concorda­
ram em apoiá-lo, encarregando-se de fornecer as mercadorias
que ele venderia e trazer outras de volta. Os camelos foram deixa­
dos na rua, aguardando a carga. Ao passar pelo local, Hamzah -

* Monte Carmelo: na costa do atual Estado de Israel, foi onde se travou o duelo es­
piritual entre o profeta Elias e os profetas de Baal, no qual o primeiro provou aos
homens que o verdadeiro Deus era o de Israel. [N.T.]
12. Ibid., lxiii, 6.
13. Halabi, ii, 274.

247
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

outro herói de Badr -, como qualquer velho chefe tribal árabe,


abateu os animais e começou a preparar um banquete para ofe­
recer a seus amigos. Quando Ali percebeu que suas perspectivas
de comércio e casamento haviam sido arruinadas, foi se queixar
a Maomé.
O Profeta dirigiu-se aos farristas, com a intenção de protestar
com seu tio. Este, porém, estava tão bêbado que chegou a esquecer
de fazer a devida reverência ao mensageiro de Deus. Examinando
o Profeta dos pés à cabeça e da cabeça aos pés, perguntou-lhe:
"Você não é o escravo do meu pai?" Até esse ponto, a narrativa
se apoia numa autoridade inatacável. 14 Para seguir adiante, deve­
mos investigar. Quando os judeus que tinham se comprometido a
fornecer a Ali as mercadorias para exportação chegaram, eles vi­
ram os animais mortos e devorados, o Leão de Deus perigosamen­
te intoxicado, Ali se lamuriando e o Profeta bastante contrariado.
Como seres de carne e osso que eram, eles expressaram ou insi­
nuaram desprezo e repulsa pela sagrada família.
O contratempo foi um daqueles que parece muito sério no
momento em que acontece, mas depois se torna insignificante. Ali
e Hamzah eram heróis do recente triunfo em Badr. Era impossível
ressarcir Ali pela perda de seu butim à custa de Hamzah; porém,
mais indesejável ainda era que Ali perdesse seu capital. Também
era indesejável que Ali partisse em viagem de negócios, visto que
seu braço forte poderia ser novamente necessário. O casamento de
Ali e Fátima também era desejado pelo Profeta, tanto por razões
domésticas quanto econômicas. Provavelmente a própria Fátima
também o queria, uma vez que ficava envergonhada com a expan­
são que seu pai vinha fazendo em seu próprio harém.
Nessa época, as revelações denunciando os judeus tinham pre­
parado os muçulmanos para um ataque contra eles; por conseguin­
te, a pilhagem de suas lojas forneceria um meio fácil e satisfatório
de superar a inconveniência causada pelos excessos de Hamzah.

14. Bokhari (K.), ii, 270; Muslim, ii, 1 23.

248
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Não era nada complicado encontrar na conduta dos judeus, na


ocasião que foi descrita, algo que configurasse um pretexto plausí­
vel para um ataque. Tampouco duvidamos de que os judeus exco­
mungassem aqueles que haviam abraçado o credo de Maomé e ri­
dicularizassem as demonstrações religiosas dos muçulmanos. 15
A conduta vergonhosa de Hamzah sugeriu uma importante
inovação ao Profeta - a proibição do uso de vinho e de outras
bebidas tóxicas. Aparentemente, perguntas sobre esse assunto lhe
haviam sido encaminhadas por pessoas que tinham consciência
de que a prática de alguns ascetas proibia o uso do álcool. Sua
primeira resposta foi um compromisso declarando que os usos do
vinho (que ele associava à caça com arco e flecha) eram conside­
ráveis, embora o dano produzido fosse grande, na verdade, maior
que o lucro. Tudo indica que a cena de desordem na qual Hamzah
e Ali se envolveram - em que não havia caça com arco e flecha
- logo o levou a proibir16 tanto o vinho quanto o arco e flecha.
Aisha lembra que, quando se divulgou a revelação sobre o tema, o
Profeta foi até a mesquita e proibiu a venda de bebidas alcoólicas.
De acordo com um relato,17os donos da bebida foram devida­
mente informados de que um texto seria revelado, e que eles se­
riam aconselhados a vender os seus negócios; mas, quando a reve­
lação foi proferida, seguidores zelosos cercaram as casas dos
muçulmanos e esvaziaram os recipientes de toda a bebida que
continham, porque, supostamente, ela intoxicava; em muitos ca­
sos, quebraram os próprios vasos. Depois desse episódio, os mu­
çulmanos que haviam trazido vinho da Síria foram obrigados a
abrir mão de seus ganhos;18 não foi concedido tratamento mais
brando aos órfãos cuja propriedade fora utilizada por seus guar­
diões para o investimento em vinho.

1 5. Wakidi, 148, 149.


16. A data é incerta. Um relato apresenta o Profeta bebendo vinho pouco antes da Bata­
lha de Uhud, Bn Sa'a', iii, 63; outro, quatro meses antes de Uhud, Wakidi (W.), 1 0 1 .
1 7. Jauzi, Adhkiya, 14.
18. Musnad, iv, 336.

249
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

A proibição estendeu-se ao vinagre feito de vinho, e houve uma


negativa categórica à sugestão de que o vinho tinha valor medici­
nal; não havia nada de positivo nele (Maomé estava convencido
disso nesse momento). "Toda a possível perversidade está reunida
num único cômodo e fechada ali; a chave desse cômodo é a em­
briaguez:'19 Essa proibição provavelmente acarretou algum dano ao
comércio dos judeus, visto que a fabricação de vinho (em geral fei­
to a partir de tâmaras) estava em grande parte nas mãos deles. Foi
também um teste para a fé dos muçulmanos, porque muitos deles,
mais cedo ou mais tarde, a desrespeitariam. Porém, ao que parece,
o Profeta não voltou a ser mais vítima da insolência dos bêbados.
A altercação com os Kainuka provavelmente foi a razão direta
da denúncia do tratado e de um ataque às residências dos ourives.
Segundo consta, eles não tinham terras nem campos, mas suas ca­
sas, como as demais moradias de Medina, haviam sido construídas
de modo a resistir a um assédio. Os maometanos declararam que
os Kainuka tinham a reputação de serem os mais corajosos entre os
judeus, e suas lojas estavam repletas de excelentes armaduras.
Deveríamos nos admirar com a cegueira das outras tribos ju­
daicas, que não saíram em auxílio de seus irmãos nessa crise, se o
restante da história dessas tribos não nos deixasse ainda mais pas­
mos. As crônicas nos falam que, nesse mesmo momento, membros
dos Banu Nadir refletiam sobre a possibilidade de um entendi­
mento com os mequenses, mas não há indicação de qualquer ten­
tativa das tribos judias de ajudar os Kainuka, nem se fez nada de
concreto. Certamente os Kainuka deviam ser numerosos o bastan­
te para lidar, eles mesmos, com Maomé e seus trezentos seguido­
res, mas seus irmãos, sem dificuldade, poderiam trazer para cam­
po uma força quatro vezes maior do que aquela que os atacava.
O Profeta chegou à conclusão de que o medo da morte consti­
tuía, para essas pessoas, uma motivação imperativa, não menos
que a ligação que tinham com aquela religião, que lhes trouxera

1 9. Jahiz, Misers, 39.

250
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

tanto sofrimento e fizera com que eles buscassem a paz a qualquer


preço, exceto o reconhecimento do Profeta. Essa explicação da
conduta dos judeus provavelmente é correta; contudo, como os
israelitas de Medina não contavam com nenhum Josefo,* a poste­
ridade conhece muito pouco sobre as causas que determinaram
seu destino. O Alcorão sugere,20 em uma passagem, que havia sé­
rias dissensões internas nas colônias judaicas, e isso é bastante
provável. Eles eram bastante corajosos uns contra os outros, mas
não conseguiam formar uma frente unida.
Dos dois aliados que eles tinham, um, 'Ubadah Ibn Al-Samit,
o aussita, lavou as mãos assim que a disputa começou. O outro,
Abdallah, filho de Ubayy, líder dos hipócritas, era mais leal. Ele
relembrou, de acordo com os cronistas, que nas batalhas que pre­
cederam a chegada do Profeta os judeus haviam intercedido para
que sua vida fosse poupada. Se Abdallah fosse adotar qualquer
política, essa era a ocasião para implementá-la. Sua forte objeção
ao derramamento de sangue fez com que não tentasse qualquer
mudança, mas, quando os esfaimados judeus passaram a correr o
risco de ser massacrados por ordem do Profeta, diz-se que Ab­
dallah capturou o Profeta e recusou-se a libertá-lo até que a vida
dos judeus estivesse garantida.
Os hebreus partiram em direção à Síria, deixando todos os seus
pertences, exceto, ao que parece, suas montarias; foram tratados
com gentileza por seus parentes em Wadi Al-Kura. Segundo cons­
ta, não encontraram trabalho permanente em Adhri'at e se disper­
saram ou pereceram. 21 Seus bens foram tratados pelo Profeta

* Flávio Josefo: conhecido também pelo nome hebraico Yosef ben Matityahu; historia­
dor e apologista judaico-romano que registrou in loco a destruição de Jerusalém, em
70 d.C., pelas tropas romanas; suas obras fornecem um importante panorama do
judaísmo no século 1 da Era Cristã. [N.T.]
20. Sura lix, 14.
2 1 . Um ou dois parecem ter tramado para ficar em Medina. Há informação de que
Rafa'ah, filho de Zaid, membro dessa tribo, era o ponto de ligação com o lado des­
contente no máximo até o ano 5; e de que Zaid Ibn Al-Lukaib havia tomado parte
numa expedição no ano 9. Wakidi ( W.), 398.

251
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

como despojos de guerra. Ele se apossou do seu quinto e dividiu o


resto entre os seguidores. As casas e propriedades de setecentos
dos mais ricos membros da comunidade, sem dúvida, tornaram
os muçulmanos relativamente opulentos. Ali pôde então fornecer
o necessário dote de casamento à sua noiva Fátima, e a auspiciosa
cerimônia foi realizada.
Não há qualquer lição moral a ser retirada do destino dos Kai­
nuka, a não ser que um conhecimento superior é inútil a me­
nos que venha a produzir os recursos da autodefesa e se combine
com a coragem. Em períodos posteriores do Islã, o banimento e
a pilhagem de um segmento trabalhador da comunidade teriam
sido muito pouco políticos, além de criminoso; mas, naquele mo­
mento, isso não estava claro. Muitas cidades e países continua­
ram a ser pilhados antes que os muçulmanos fossem obrigados
a trabalhar.
O banimento dos Banu Kainuka, aparentemente, levou as ou­
tras tribos judaicas a refletir sobre o destino que lhes era reser­
vado. Is$O não as incitou a qualquer ato de coragem, mas um de
seus membros, Ka'b, filho de Al-Ashraf, um nadirita, dirigiu-se a
Meca para pressionar os mequenses a acorrer depressa. Esse ho­
mem desfrutava de uma elevada reputação como poeta. O crítico
Kudamah22 menciona alguns de seus versos como modelos de es­
tilo. Não se sabe o que se passou entre Ka'b e os mequenses. Pode­
mos somente imaginar que seu objetivo era promover alguma
ação conjunta entre os descontentes de Medina e os mequenses,
preparando a invasão que se impunha. Contudo, como vimos,
Maomé tinha como saber o que acontecia em Meca. Lançando
mão de seu poeta da corte Hassan, filho de Thabit, para satirizar
os anfitriões de Ka'b em Meca, ele conseguiu tornar o lugar pouco
acolhedor;23 quando Ka'b voltou, Maomé determinou que ele fos­
se assassinado.

22. Nakd aJ.Shi'r, 1 1 .


23. Wakidi ( W.), 96.

252
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Se há algo de verdadeiro no relato sobre seu assassinato, ele


deve ter acontecido de maneira diferente do modo como foi des­
crito. Os biógrafos mostram Maomé pedindo publicamente que o
livrem de Ka'b, filho de Al-Ashraf; e Mohamed, filho de Masla­
mah, conhecido como um libertino,24 tendo se certificado de que
o Profeta desejava o assassinato, encarregou-se de cometer a faça­
nha. Mais quatro medinenses juntaram-se a ele e obtiveram a per­
missão do Profeta para mentir para a vítima. Os cinco medinenses
foram se queixar a Ka'b da pobreza em que a iniciativa de Maomé
os havia lançado e solicitaram-lhe um empréstimo de comida, o
qual seria garantido com o penhor de suas próprias armas. Eles
voltaram de noite, numa hora combinada, mas Ka'b deve ter es­
quecido, pois dormia com a noiva. Em vez de depositar as armas
e levar a comida, eles levaram Ka'b consigo, alegando que dese­
javam ter com ele uma conversa noturna; quando já tinham se
afastado o suficiente, atacaram-no e o mataram.
Um relato aumenta o horror, afirmando que dois dos assassi­
nos eram irmãos adotivos de Ka'b. Isso nos leva a formular a se­
guinte pergunta: como um judeu podia ser irmão adotivo de dois
medinenses? Não acreditamos que a aquisição de comida median­
te depósito fosse um ato que exigisse segredo; e, a menos que a
história do ataque noturno tenha sido uma invenção, devemos
supor que Ka'b tinha sido aliciado com a perspectiva ostensiva de
realizar um atentado contra Maomé, iniciativa à qual a perfídia
de seus companheiros conferiu uma direção inesperada.
Nossos autores prosseguem mostrando que o Profeta declarou
os judeus fora da lei e deu a todo e qualquer muçulmano que se
deparasse com um judeu o direito de matá-lo. Supõe-se que um
certo kazrajita, Mahisah, tirou proveito desse direito para matar
um judeu chamado Ibn Subainah, que fora muito gentil com ele.
Esse ato deixou seu irmão tão impressionado com a grandeza do
Islã, que ele imediatamente se tornou muçulmano. Podemos ver

24. Musnad, iv, 225.

253
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

nessa conversão, acima de tudo, o sentimento da inutilidade da


resistência a um sistema que não reconhecia nenhuma obrigação
moral quando esta se opunha ao seu avanço. Mas se os judeus fo­
ram realmente declarados fora da lei, alguma razão ostensiva deve
ter sido dada para essa ordem, e a conspiração de Ka'b forneceria
um fundamento adequado para isso. Sem a autorização do Profe­
ta, os judeus não podiam continuar em Medina. 25
Um ano após a Batalha de Badr, o poder do Profeta continuava
a crescer e a sorte continuava a lhe sorrir. Em parte por conquista
e em parte por tratados, o país que se estende entre Medina e
Meca, em direção ao litoral, passara para o lado do Profeta - e um
Profeta que começara roubando gado havia de parecer, para mui­
tos dos homens das tribos, um personagem muito digno. A rique­
za cada vez maior de Medina também atraía saqueadores, mas es­
tes não tinham chance contra as disciplinadas forças de Maomé.
Por conseguinte, os mequenses deviam pensar numa nova rota
para suas caravanas, a menos que quisessem passar fome. Des­
cobriu-se que era possível chegar no inverno ao leste do vale do
Eufrates, pois a água, que tornava o Nefud impenetrável no verão,
não representava obstáculo naquela estação. Um guia foi contra­
tado e em dezembro despachou-se uma caravana, com uma pesa­
da carga. Notícias dela foram trazidas a Medina por um mequense
que estivera num banquete oferecido por um dos nadiritas, e que
ficava comunicativo quando bebia. Um seguidor do Profeta que
estava presente logo contou a novidade a seu senhor, que enviou
uma expedição para surpreender o comboio. O capitão era o filho
adotivo do Profeta, Zaid Ibn Harithah. Ele obteve êxito absoluto e
quase capturou o próprio Abu Sufyan. Conta-se que o valor dos
bens apoderados chegava a 1 0 mil dirhems.
Esse aumento de riqueza habilitou o Profeta a ampliar seu ha­
rém, que agora começava a assumir dimensões principescas. Mais

25. A "expedição Sawik" é omitida porque o mesmo nome é atribuído a outra expedição.
Além disso, há mais improbabilidades relacionadas a essa história.

254
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

tarde, ele deu a Othman sua filha Umm Kulthum, como substituta
de Rukayyah, que morrera durante a Batalha de Badr. Por volta da
mesma época, ocorreu outro evento doméstico que levou a alegria
do Profeta ao máximo - o nascimento de seu neto Hasan, filho
de Ali e Fátima. No sétimo dia de vida, o menino foi batizado e
circuncidado, teve a cabeça raspada e fez-se em seu nome o sa­
crifício de um carneiro. Conta-se que Al-Hasan, "o Belo", foi o
primeiro a usar esse nome próprio. Ao dá-lo ao seu neto, o Profe­
ta imaginou que traduzia o nome de um filho de Aarão.26
Assim, depois de pouco mais de dois anos em Medina, Maomé
e seus seguidores possuíam riqueza, poder e felicidade doméstica.
O Profeta podia começar a conceber projetos de conquista em
grande escala: o horizonte definitivamente se expandia. Porém,
alguns contratempos ainda estavam por vir.
Pouco mais de um ano após a vitória de Badr, enquanto Maomé
e sua família encontravam-se em meio às alegrias domésticas, che­
gavam notícias em Medina de que uma força bem equipada, três
vezes maior que aquela derrotada em Badr, estava a caminho, para
reparar o desastre. Parece que Abu Sufyan despertara para a gravi­
dade do problema. Convenceu seus compatriotas a se prepararem
para a expedição com o lucro que trouxera em segurança para casa,
por ocasião da Batalha de Badr; contava com alguns aliados nas
tribos do litoral e com os Kinanah, e lançou mão do talento poético,
como se fazia em Meca. Recebera o apoio de um homem influente
de Medina, Abu 'Amir, "o monge': o aussita que, antes da chegada de
Maomé, manifestara disposição de abraçar a religião reformada,
mas a quem a presença de Maomé convencera da superioridade do
paganismo. Consta que ele levara para Meca cinquenta seguidores.27
Parece que Abu Sufyan fez o que pôde e - como um sucedâ­
neo de música militar - determinou ou permitiu que o exército

26. Algumas vezes ele é chamado por seu nome siríaco; Mez, Baghdader Sittenbild, 5.
Mez considera a relação com Aarão uma invenção xiita.
27. Wakidi, 205.

255
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

fosse seguido por um destacamento de mulheres, o qual, amea­


çando e prometendo, recitando versos e batendo tambores, devia
manter o moral das tropas num nível apropriado. Nada causava
mais receio aos refugiados do campo de batalha que as censuras de
suas acompanhantes.28 Além disso, elas podiam atender os feridos
e coser os cantis.29 Nas guerras de Beckwourth, as mulheres encar­
regavam-se dos cavalos que não eram montados e, quando solici­
tadas, traziam animais descansados para os combatentes.30
Pode ser que as mulheres coraixitas tivessem obrigação similar,
e entre elas algumas certamente prestavam um serviço curioso.
A esposa de Abu Sufyan sugeriu que o corpo da mãe de Maomé
fosse exumado e mantido como refém, mas os coraixitas rejeita-
'

ram essa ideia (cuja praticabilidade era bastante duvidosa), por


medo de represálias. Uma das mulheres, 'Amrah, esposa de Ghu­
rab, ergueu o estandarte coraixita quando este caiu, permitindo
que eles o recuperassem. Ao que se diz, outras mulheres apoiaram
a carnificina e foram poupadas pelos cavalheirescos muçulmanos,
que não desonrariam suas espadas atacando mulheres. Diante da
derrota, paradas atrás das tropas, elas estimulavam atos de cora­
gem e lançavam reprovações contra aqueles que demonstravam
qualquer intenção de fuga.
Onde a história de uma derrota é contada pelo derrotado são
tantos os interessados em deturpar o que ocorreu que fica difícil
desenterrar a verdade. Maomé foi derrotado em Uhud, e isso não
se questiona. Como um profeta não podia cometer erros, a culpa
pela derrota não era sua; daí, em dois momentos da história, afir­
mar-se que seus seguidores o desobedeceram, provocando assim o
desastre.
Fala-se que o exército coraixita apareceu a oeste de Medina,
numa montanha chamada 'Ainain, "os dois poços", e mandou seu

28. Wellhausen, Ehe, 45 1 .


29. Ibid., Wakidi, 283.
30. Autobiography, 1 58ss.

256
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

gado pastar nos campos de alguns medinenses, em um lugar cha­


mado 'Uraid. Maomé intimou seus seguidores a atacar, prometen­
do-lhes a ajuda de 5 mil anjos, compromisso que teve de explicar
depois, planejado como encorajamento, mas não para ser literal­
mente cumprido. Abdallah Ibn Ubayy, sempre cauteloso, aconse­
lhou os medinenses a permanecer na cidade e esperar até que os
mequenses resolvessem ir embora, acreditando que não se tentaria
um assalto a Medina, e que, caso se tentasse, ele seria facilmente
repelido. Maomé ainda não tinha experiência para reconhecer a
sabedoria desse conselho, e, sem dúvida esperando uma segunda
Badr, determinou que a colheita fosse salva. Ele convocou seus
homens às armas. Daqueles que atenderam ao seu chamado, cerca
de mil foram reunidos.
Mais tarde afirmou-se que Maomé teria aconselhado os mu­
çulmanos a permanecer em Medina, mas depois teria sido pressio­
nado pelo mais ansioso e ardoroso de seus seguidores. Este tam­
bém contou a Maomé um sonho predizendo exatamente o que
iria ocorrer, incluindo detalhes como a morte do tio do Profeta.
A principal fonte sobre a Batalha de Uhud - a sura iii - com­
prova que essa afirmação é a-histórica; numa descrição da luta,
pretensamente feita pelo poeta da corte, Ka'b Ibn Malik,31 Maomé
é apresentado como o primeiro a incitar seus seguidores. Da mes­
ma fonte confiável temos o relato modificado de outro incidente
que supostamente mitiga a vergonha da derrota - a alegada de­
serção de Abdallah Ibn Ubayy. Quando o exército muçulmano
estava a meio caminho entre Medina e Uhud, contam os biógra­
fos, Abdallah Ibn Ubayy desertou com trezentos homens, reduzin­
do os efetivos em um terço.
O Alcorão, porém, afirma que dois grupos (supõe-se que te­
nham sido as tribos Banu Salamah32 e Banu Harithah), cujos cam-

3 1 . Ishak, 614.
32. Wakidi, 207.

257
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

pos haviam sido devastados pelos invasores, 33 revelaram covardia,


o que significava que a linguagem corajosa do Profeta os havia
dotado de coragem. Na verdade, muitos membros dessas tribos
eram conhecidos por terem lutado em Uhud. Podemos inferir do
texto34 que Abdallah, filho de Ubayy, simplesmente permaneceu
em casa, não tendo, pois, desertado após o início da expedição.
Por conseguinte, o incidente da deserção de Abdallah foi ampliado
em momento posterior; com base no que lemos, não parece que
ele desfrutasse de influência suficiente para determinar essa deser­
ção em massa.
Uhud, a montanha que dá seu nome à batalha, está situada a
noroeste de Medina, "integrando a grande cadeia que irrompe na
planície de tal modo que é quase isolada";35 sua extensão total, na
direção leste-oeste, é de aproximadamente quatro milhas.36 As in­
formações sobre a distância de Medina variam entre dois terços e
três quartos de uma hora, mas isso se refere a um tempo em que a
ampla estrada que vai de Medina a Uhud era visitada por todos os
peregrinos e medinenses piedosos às quintas-feiras. Na época de
Maomé, a estrada não existia, e mesmo para aquela curta distância
era necessário um guia. O objetivo do Profeta era se apossar do
abrigo do monte Uhud pela retaguarda, alcançando essa posição
sem ser visto e cercado pelos coraixitas. Foi com grande dificulda­
de que ele conseguiu colocar as tropas em linha, lembrando como
essa precaução fora efetiva em Badr.37
Ele invocou a coragem de seus seguidores com uma oração,
registrada ou imaginada por Wakidi, na qual utilizava os temas
comuns que oferecem material para discursos prolixos nessas oca-

33. Eles suplicaram, certa feita, que lhes permitissem mudar a residência para perto da
mesquita; Musnad, iii, 371.
34. Versos 1 62 - 1 67.
35. Burekhardt, ii, 104.
36. Ibid., 107.
37. A data da Batalha de Uhud é apresentada como sábado, 7; Sharowal, a.H. 3, o que
corresponde a 24 de março de 625 d.C.

258
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

siões, acrescentando um pouco mais do que um general comum


pode evocar, sobre sua consciência de ser o canal pelo qual os co­
mandos e as proibições de Deus se transmitiam à humanidade,
explicando a eles tudo o que Deus exigia ou desaprovava.
Encontrou-se um caminho pelo "Harrah dos Banu Harithah",
em meio a plantações de tâmara cujo proprietário, que era cego,
segundo consta, tinha desempenhado o papel de Simei* e atacado
os muçulmanos com lama. Ainda assim, as forças do Profeta con­
seguiram chegar a Uhud antes que os coraixitas tivessem se dado
conta de sua tática. Para leste, a montanha 'Ainain vigia a estrada
em que as forças muçulmanas poderiam se instalar. Nesse local,
Maomé dispôs um destacamento de cinquenta arqueiros, os quais,
segundo se conta (talvez após o evento), receberam ordens estritas
de ali permanecer até que fossem autorizados a sair.
Os coraixitas estavam estacionados nas terras baixas do wadi
(vale) chamado Kanat (ou o canal), que separa Medina de Uhud.
O terreno foi profundamente alterado, desde os tempos do Profeta,
por inundações e terremotos,38 razão pela qual as descrições dos
visitantes modernos são apenas parcialmente úteis para o entendi­
mento da situação. É evidente que o Profeta garantiu uma forte
posição, mas, ao fazer isso, dispôs os coraixitas entre seu exército e
Medina. Ele deduziu que o inimigo não atacaria a cidade - e os
acontecimentos confirmaram seu cálculo. Ele supôs que o desastre
de Badr teria ensinado alguma coisa aos coraixitas, e que o valor de
Hamzah, Ali e alguns outros produziria pânico, como já ocorrera.
Por outro lado, não sabia que, por insistência de Abu 'Amir, "o mon­
ge': o terreno fora cavado para provocar danos aos muçulmanos.
A luta começou, como se afirma, com esse exilado medinense,
Abu 'Amir, apresentando-se a seus parentes, os Aus, com a expec­
tativa de que estes logo se unissem a ele. Quantos exilados come-

* Simei: da tribo Benjamin, filho de Gera; amaldiçoa o rei Davi, quando este conquista
a cidade de Jerusalém, atirando pedras em seu exército. [N.T.]
38. Samhudi, 20.

259
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

teriam tamanho erro de avaliação? Seus irmãos responderam com


reprimendas e desdém.
Ao que parece, no começo as coisas estavam saindo como ima­
ginara o Profeta. Os campeões de Badr, Ali e Hamzah, lidavam com
a morte da mesma maneira temerária; o heroísmo dos coraixitas
os obrigava a enfrentar esses campeões numa série de combates
individuais em que seus próprios campeões eram mortos; essas
derrotas espalhavam desassossego e pânico. Wakidi fornece uma
lista das pessoas que sucessivamente empunharam o estandarte
coraixita. Ele passou pela mão de sete homens da família Abd, e
cada qual foi assassinado por um muçulmano. Ninguém tentou
ajudar os portadores do estandarte, simplesmente entregues à pró­
pria sorte; em um caso, os bravos companheiros, que nada tinham
feito para proteger sua vida, conseguiram salvar os despojos.
Da maneira que imaginamos a cena, o portador do estandar­
te encontrava-se à frente da linha; como suas mãos estavam ocu­
padas com o estandarte, era uma vítima fácil para qualquer cam­
peão que optasse por se lançar sobre ele, vindo do lado inimigo. Já
o estandarte muçulmano não era concebido para atrair a destrui­
ção. Hamzah, contudo, foi morto por um escravo abissínio, que se
havia exercitado no arremesso da lança; tendo realizado esse ser­
viço considerável, ele resolveu não mais tomar parte na contenda,
temendo nunca chegar a desfrutar da liberdade que lhe fora pro­
metida como recompensa do sucesso. Depois da morte de alguns
carregadores de estanda�tes e campeões, o exército de Meca ba­
teu em retirada, deixando seu acampamento para o inimigo, que
procedeu a uma pilhagem desordenada. As mulheres abandona­
ram seus tambores e correram para a colina. Muitas, as menos
ágeis, deixaram-se prender pelos muçulmanos.39
O próprio Abu Sufyan escapou por pouco da morte. Os ar­
queiros que haviam se posicionado para proteger a retaguarda
muçulmana acorreram para se juntar aos demais na pilhagem. Foi

39. Halabi.

260
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

isso que deu a Khalid, filho de Al-Walid, mais tarde um intrépido


paladino do Islã, a oportunidade de uma arremetida com sua ca­
valaria pela retaguarda do exército de Maomé; essa manobra foi
decisiva, deixando os muçulmanos presos entre dois fogos. A dis­
ciplina não pôde ser restaurada; já não se distinguia amigo de ini­
migo. Alguns dos cavaleiros perceberam a importância de matar
Maomé, e um grupo inteiro de mártires se lançou diante dele, até
a chegada de um destacamento de resgate, o qual, porém, não
conseguiu evitar que o Profeta sofresse alguns ferimentos leves no
rosto e na cabeça, o que pareceu chocante ao homem que já der­
ramara uma considerável quantidade de sangue pelos seus ideais.
O Profeta parece ter feito o que não fizera em nenhuma outra
ocasião - empunhou armas e lutou (chegando a matar um ho­
mem), além de deixar que homens e mulheres lutassem por ele;
até ofereceu um lugar a seu lado no paraíso para quem mantivesse
o inimigo longe dele.40 Diz-se que Maomé foi salvo por sua seme­
lhança com Mus'ab, filho de 'Umair, com quem Ibn Kami'ah o
confundiu.41 Este, depois de ter matado Mus'ab, achou que colo­
cara um ponto final na guerra. O grito de que o Profeta fora mor­
to logo se fez ouvir; como se afirmou, se Satã o pronunciara, seu
objetivo deve ter sido salvar o Islã, não o arruinar.
Por um momento, esse brado desencorajou muitos seguidores
de Maomé, levando ao desespero outros homens valorosos, cujo
comprometimento com o Islã era tamanho que já não se impor­
tavam mais com suas vidas após a derrota esmagadora. Por sua
vez, os conquistadores, que não experimentavam nenhum tipo de
sentimento negativo em relação aos seguidores de Maomé, supon­
do que a tarefa que lhes fora atribuída por seu chefe já fora cum­
prida, não cuidaram em prosseguir.
É provável que o grito "Maomé está morto" tenha salvado o
Profeta e sua causa. Na realidade, ele, que afirma ter tentado de-

40. Musnad, iii, 286.


4 1 . Diyarbekri, i, 483.

261
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

ter a fuga, às voltas com seus ferimentos, era astuto o bastante


para perceber a vantagem do rumor que circulava. O valente Ali,
com outros bravos homens, o encontrou e levou-o às ocultas para
um desfiladeiro, onde ficou aguardando enquanto a notícia de
que Maomé estava morto continuava a fazer sua parte. O Profeta
chegou a trocar de armadura com um de seus partidários, para
não ser reconhecido caso fosse encontrado no esconderijo.42 Ibn
Kami'ah garantiu a Abu Sufyan que Maomé tombara por suas
próprias mãos, e a afirmativa foi aceita pelo comandante; até ter
tempo de procurar no campo de batalha, com Abu 'Amir, ele não
pôde confirmar essa versão.
Se o exército coraixita tivesse mantido sua posição original en­
tre Medina e os muçulmanos, estes teriam sido destruídos até o
último homem, quando a desordenada retirada começou. Porém,
a primeira parte da batalha dispersara quem estava de costas para
Medina, e, por conseguinte, os muçulmanos derrotados puderam
escapar para a cidade, bem como em outras direções. Não foram
registrados os nomes de todos os fugitivos, mas entre eles figura­
vam Sa'd, filho de Mu'adh,43 que logo se imbuiu da obrigação de
lavar essa nódoa com sangue judeu; Anas, filho de Nadir, a quem se
tentou fazer voltar ao campo de batalha, mas em vão. Outro contra
quem se levantou depois a acusação de fuga do campo de batalha
foi o genro do Profeta, Othman, filho de 'Affan, que, no ano ante­
rior, encontrara na doença da esposa uma desculpa para se ausen­
tar de Badr. O primeiro dos fugitivos levou a Medina a notícia da
morte do Profeta, que parece ter sido recebida com descrédito; os
recém-chegados do campo de batalha logo a contradisseram.
A fuga foi facilitada, sem dúvida, pelo cair da noite, quando a
perseguição do inimigo teria sido perigosa. Porém, enquanto o
Profeta estava em seu esconderijo, a carnificina prosseguiu, e com
considerável intensidade; embora histódas favoráveis tenham sido

42. Wakidi, 233.


43. Musnad, iii, 253.

262
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

criadas, tempos depois, referindo-se à coragem exibida pelos fiéis


seguidores do Profeta na ocasião, outras os descrevem como sen­
do completamente desorganizados. De todo o saque assegurado
no assalto ao acampamento coraixita, somente dois homens fica­
ram com alguma coisa; duas bolsas de ouro entregues por dois
medinenses foram a única relíquia dessa vitória inicial.
Das pessoas que caíram em combate, algumas declararam, com
todas as letras, que não estavam lutando pelo Islã, mas por Medi­
na; outros, segundo consta, teriam participado da batalha na espe­
rança de um martírio, e receberam as bênçãos do Profeta para que
atingissem seu objetivo. Ao menos um muçulmano parece ter fei­
to uso da confusão para infligir ao companheiro também muçul­
mano uma desforra em consequência de uma vendeta pré-islâmi­
ca, razão pela qual foi posteriormente executado por Maomé.44
As mortes do lado dos coraixitas chegaram a 22, e as do lado
muçulmano a exatamente setenta, o mesmo número de vítimas
que em Badr. Uma narrativa fidedigna acrescenta a esses setenta
mortos outros setenta feridos,45 entre os quais Abu Bakr, Omar e
Ali. Na realidade, não podemos supor que esses paladinos tenham
escapado ilesos, ou que o número de feridos não fosse proporcio­
nal ao de mortos. Preservaram-se relatos detalhados, verdadeiros
ou imaginários, da maioria das situações em que os coraixitas pe­
receram. O massacre de um muçulmano logo passou a ser uma
lembrança inglória, e os atos de proeza que o provocaram acaba­
ram por cair no esquecimento. Parece que os coraixitas não fize­
ram prisioneiros. É quase certo que a descoberta de setenta cadá­
veres no campo foi o que levou o general coraixita a confundir sua
vitória com uma conquista, e a partir sem demora.46 Para cada
vítima em Badr pagou-se com uma vida equivalente; a população
de Meca e a de Medina agora estavam quites.

44. Wakidi ( W.), 140.


45. Diyarbekri, i, 482.
46. Assim, em lbn Sa'd II, ii, 78, um coraixita declara-se satisfeito por ter matado nú­
mero equivalente de inimigos.

263
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

Os mequenses, em geral enérgicos, desencorajaram o prosse­


guimento da vitória, baseados no fato de que, no ano anterior, os
muçulmanos não tinham dado continuidade à sua vitória.47 Vê-se
como os mequenses entendiam pouco o que significava a guerra.
Alguns dos cadáveres foram alvo de uma crueldade selvagem por
parte das mulheres, cujo desejo de vingança era uma paixão arrai­
gada, mais que o respeito a um costume tribal. Parece evidente,
porém, que os mequeneses eram absolutamente isentos daquilo
que hoje se chama de imperialismo; tendo atendido às demandas
da honra, estavam ansiosos por retomar os tratados de paz.
Quando os mequenses se retiraram, os medinenses estavam cer­
tos de que sua cidade seria atacada, tendo tomado medidas a fim de
proteger a casa para onde fora transportado o Profeta ferido. Abu
Sufyan, porém, não apoiou essa decisão; logo suas forças partiam,
montadas em camelos e conduzindo seus cavalos. Conta-se que
Omar, por solicitação do Profeta, respondeu às bênçãos coraixitas
a Hobal com um reconhecimento em honra de Alá; como Abu Su­
fyan se certificara da sobrevivência e da segurança de Maomé, ele
teria marcado um encontro, no estilo das guerras de Fijar, para
uma renovação das hostilidades no ano seguinte, em Badr.
Ao cair da noite, pois, ao que parece, o exército de Abu Sufyan
começou a se retirar do campo de batalha; na manhã seguinte, o
Profeta foi informado de que não havia perspectiva de Medina ser
atacada. Apesar de seus ferimentos, o Profeta conseguiu montar
seu cavalo e chegou a convencer seus seguidores, a despeito dos
efeitos do desastre do dia anterior, a acompanhá-lo a uma mani­
festação, na distante Hamra al-Usd, a aproximadamente doze mi­
lhas de Medina, na direção que os mequenses haviam tomado.
Enquanto isso, os mequenses chegavam a Rauha; segundo consta,
foi lá que perceberam a estupidez de deixar o conflito sem conclu­
são, e começaram a considerar a conveniência de voltar para ata­
car Medina. Foram dissuadidos pelo conselho de Safwan, filho de

47. Wakidi ( W.) , 1 38.

264
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Umayyah, cujo pai perecera em Badr, que os advertiu do perigo


de levar os heróis daquela luta para um novo confronto.
Afirma-se que o chefe de uma das tribos locais prestou um
serviço a Maomé, convencendo os coraixitas de que o Profeta ti­
nha à sua disposição um exército de reserva, com um número
exagerado de homens, o que Maomé confirmou artificialmente,
acendendo fogueiras à noite em toda uma imensa área. As opera­
ções desse dia resultaram na captura de dois homens de cada lado.
Maomé permaneceu no campo por cinco dias, na expectativa de
que os mequenses mudassem de ideia, e voltou a Medina na sexta­
-feira. Uma justa homenagem foi prestada à coragem dos solda­
dos, que, a despeito dos ferimentos e da derrota no sábado, esta­
vam prontos para retornar ao campo no domingo, quando o
Profeta divulgou a revelação acerca desses acontecimentos.
O procedimento de Abu Sufyan se justificaria se ele estivesse
lidando com um inimigo comum. Ele puniu com severidade o
ataque à sua própria gente, imaginando que essa punição inti­
midasse o inimigo e evitasse uma renovação dos ataques. Porém,
com um inimigo como Maomé, devia ter percebido que uma der­
rota poderia não ter esse efeito, que a energia do Profeta não seria
calada do lado de cá do túmulo. Os aliados que mandaram Na­
poleão para a ilha de Elba, aliás, parecem não ter compreendido
melhor a natureza humana. Talvez Abu Sufyan tenha-se entregado
à esperança de que uma vitória tão decisiva sobre Maomé rom­
pesse o feitiço que encantava os muçulmanos - que agora ti­
nham uma demonstração testemunhal de que o Profeta não pos­
suía aliados no plano sobrenatural, que nem sua pessoa sagrada
estava imune a armas materiais.
A experiência de uma invasão posterior a Medina também
comprova que Abu Sufyan não tinha a menor noção da maneira
pela qual a cidade poderia ser tomada ou mesmo atacada; tendo
escapado por pouco da morte na batalha de sábado, talvez ele não
quisesse arriscar a vida de novo no domingo. Não conhecemos as
opiniões de seus competentes lugares-tenentes que garantiram a

265
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

vitória. Porém, depois de exercer sua liderança ainda algumas


vezes, encontramos Abu Sufyan abandonando sua causa pela do
enérgico e ousado comandante sobre quem tinha sido vitorioso.
No entanto, após a conversão de Meca, foi difícil para os vence­
dores de Uhud explicar os motivos que guiaram sua conduta na­
quele dia. Os arqueólogos curiosos demovidos a pesquisar a esse
respeito encontraram respostas ambíguas.
Como qualquer outro evento que ocorreu a partir da chegada
de Maomé a Medina, a Batalha de Uhud acentuou a hostilidade
entre muçulmanos e judeus. Embora a luta tivesse sido travada
durante o sabá, algumas tropas judaicas se aprontaram, segundo
se afirma, para seguir Abdallah, filho de Ubayy. Mas Maomé re­
cusou a ajuda. Mesmo assim, um indivíduo chamado Muchairik
faleceu naquele combate, tendo uma morte de herói; ele veio a
receber do Profeta o título de "o melhor dos judeus". Como em
outras ocasiões, houve indivíduos que aproveitaram a oportuni­
dade para ridicularizar, junto aos muçulmanos não combatentes,
os percalços do Profeta. Não temos conhecimento de qualquer
esforço por parte dos inimigos, dentro de Medina, para se aprovei­
tarem do retomo humilhante do Profeta. A frieza e a estupidez
com as quais ele ridicularizava os não fiéis na verdade parecem
tê-los atingido com a mesma frequência com que eles tinham
oportunidade de servir ao lado dele.
A "fonte principal" sobre a Batalha de Uhud é uma das mais
extensas passagens contínuas do Alcorão, composta e divulgada,
sem dúvida, depois que a primeira impressão desfavorável causa­
da pela derrota começou a se dissipar. Seu propósito, em parte, era
apresentar uma resposta e uma ameaça àqueles que viram falhas
na estratégia do Profeta, e que, apontando o desastre, tentavam
demover a população de Medina de fazer a novas expedições.
Como era de se esperar, o Profeta lançou a responsabilidade pela
derrota sobre todos, menos sobre si próprio. Ele chamou atenção
para seu caráter suave e indulgente, para a bênção que sua presen­
ça representava para seus seguidores. Encontrava razão para a der-

266
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

rota na desobediência aos seus comandos, na avidez dos muçul­


manos pela pilhagem e no propósito de Deus, que "saberia" quem
eram os crentes e quem eram os hipócritas - uma explicação que
deu muito trabalho aos teólogos. Não obstante, o conselho divino
ao Profeta de "se aconselhar com eles no futuro" significa que
Maomé cometera um erro ao não se aconselhar nessa ocasião.
O resto da arenga é o consolo de praxe, que pode ser emprega­
do por um homem valente após a derrota; o reconhecimento das
vicissitudes e incertezas da guerra; de que o destino não pode ser
evitado; de que nenhum homem, por ficar em casa, é mais esperto
que a morte, que virá a seu tempo, não importa onde esteja a víti­
ma; a repetição de alguns dos lugares-comuns da religião, que ten­
tam assegurar aos crentes que a morte é melhor que a vida; que os
mártires da guerra sagrada não estão mortos, mas vivos, gozando
de felicidade; que esta só não é completa pela ausência dos irmãos
que ainda não se juntaram a eles; e o louvor eloquente àqueles a
quem nenhum perigo detém, e cujo ardor nenhum obstáculo ar­
refece, quando instados a renovar a luta um dia após a derrota.
Além dessa arenga, muitos poemas foram produzidos pelos
biógrafos, dos quais a Batalha de Uhud foi, supostamente, a moti­
vação; os autores eram os poetas da corte de Medina ou pessoas
que tomaram parte no combate. A autenticidade da maioria des­
ses versos é questionável, mas eles nos proporcionam um relato
correto da impressão que a batalha deixou na mente do contem­
porâneos.
Parece que a morte de Hamzah foi a calamidade que obscure­
ceu tudo o mais. Os poemas atribuídos aos medinenses são pouco
mais que lamentos fúnebres sobre Hamzah; mesmo os mequenses
vangloriam-se disso, mais que de qualquer outro acontecimento
da batalha. De acordo com a tradição, o Profeta esforçou-se um
pouco para esconder esse desastre de Safiyyah, a irmã de Hamzah.
Quando lhe comunicou o fato, contudo, constatou que ela supor­
tou a notícia bravamente. Sa'd, filho de Mu'adh, obrigou as mu­
lheres medinenses a deixar de chorar seus próprios mortos para

267
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

prantear Hamzah. Esse costume permaneceu entre eles: quando


ocorria uma morte na família, chorava-se por Hamzah antes de
prantear os próprios mortos.48 O Alcorão não faz alusão a isso.
E embora suponha-se que Maomé tenha se ressentido profun­
damente da morte de Hamzah, seu poder chegara a tal ponto
que pouco lhe importava a perda de um braço forte. As táticas
recém-aprendidas também se destinavam a tornar a proeza in­
dividual menos importante que a atuação de um grupo nas pri­
meiras batalhas. A mutilação do cadáver de Hamzah49 levou-o,
primeiramente, a proferir apaixonadas ameaças de retaliação
quando tivesse oportunidade, mas ele logo percebeu a improprie­
dade de imitar a barbárie.
Conta-se que, em repetidos discursos, Maomé instou seus se­
guidores a se absterem da mutilação dos mortos. Esses atos, segun­
do consta, não tinham sido autorizados pelos generais mequen­
ses, mas provocados pela fúria das mulheres. Hamzah, apesar do
valor do seu braço em batalha, não foi uma das figuras preemi­
nentes do Islã no estágio inicial. Contava-se com sua força e sua
coragem quando era necessário desferir um golpe certeiro, mas o
Profeta, ao que parece, não atribuía confiança alguma ao cérebro
do assecla. Os maus-tratos que Hanzah havia infligido a Ali e ao
próprio Maomé, quando estava bêbado, provavelmente não foram
esquecidos.
A morte do marido da filha de Omar, Hafsah, deu ao Profeta
oportunidade de aliar-se a seu fiel seguidor. Omar ofereceu sua
filha a Abu Bakr e a Othman, mas eles preferiram deixá-la para o
Profeta. Ela era uma mulher de temperamento violento, que mui­
tas vezes precisava ser controlada.
O volume maior de perdas, contudo, não recaiu sobre os Emi­
grantes, mas sobre os cidadãos de Medina. Se as listas fornecidas

48. lbn Sa'd, iii, 4.


49. Hind, filha de 'Utbah, mordeu seu fígado. De acordo com sir S. Baker, Isma'ilia, ii,
354, essa prática é mantida por algumas tribos, na crença de que o fígado atua como
um talismã.

268
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

estão corretas, somente quatro daqueles pereceram, enquanto


mais de sessenta morreram entre os últimos. Conta-se que, no
começo do conflito, Abu Sufyan (talvez por intermédio de Abu
'Amir) havia solicitado aos Ajudantes que deixassem os coraixitas
disputar sozinhos, mas a proposta foi repudiada com indignação.
Provavelmente a pesada perda sofrida pela população de Medina
apenas consolidou a ligação e a lealdade com o Profeta: os mur­
múrios de uns poucos descontentes mal puderam ser ouvidos en­
tre a aclamação dos que declaravam que, enquanto o Profeta esti­
vesse a salvo, a morte de todos os seus entes mais próximos e mais
queridos não tinha a menor relevância.
Tivesse o próprio Profeta perdido a esperança, o resultado teria
sido completamente diferente. Mas ele possuía força de espírito
- e a intenção de jogar a responsabilidade da derrota inteiramen­
te sobre a atuação de seus subordinados, e de se aproveitar da re­
tirada do inimigo para alegar uma vitória moral. Os ferimentos
que o atingiram não o atrapalharam por mais de um mês, e seu
aparecimento na mesquita, apoiado nos braços de seus camaradas
e com as feridas ainda à mostra, divulgando mensagens guerreiras
e encorajadoras como as da sura iii, não deixava de ter um efeito
teatral. As pessoas que, naquele tempo, viam a situação com rea­
lismo estavam em desvantagem. Os homens não ficavam impres­
sionados, mas chocados quando lhes diziam que a promessa de
paraíso era ilusória, e que, sob o governo do Profeta, o sangue, que
previamente correra em vales, agora se derramava em rios. A der­
rota de Uhud não abalou a fé de um só prosélito. Na verdade, re­
ferir-se a ela como algo diferente de vitória podia até acarretar
penalidades.

269
9
A DESTRUIÇÃO DOS JUDEUS

Não dispomos de informações concretas sobre os sentimentos


suscitados na Arábia pelas notícias do sucesso coraixita, mas o
evento seguinte que foi registrado' é a traiçoeira captura de alguns
seguidores de Maomé por duas tribos (chamadas 'Adal e Kãrah)
que haviam pedido ao Profeta que enviasse missionários que lhes
explicassem os princípios do Islã. O objetivo delas era capturar
'Asim, filho de Thabit, por cuja cabeça fora oferecida a recompen­
sa de cem camelos, a ser paga pela mãe dos homens assassinados
por ele em Uhud. Maomé, que raramente era pego de surpresa,
enviou um grupo de seis homens, sendo 'Asim um deles; o grupo
caiu nas mãos da tribo Hudhail, famosa por seus poemas narrati­
vos. Os Hudhail pensaram em vendê-los para os mequenses, ou
trocá-los por prisioneiros de sua própria tribo, ou de outra, mas
três deles morreram lutando, e um morreu ao tentar escapar. Dois
(Khubaib e Zaid, filho de al-Dathinnah) foram levados a Meca,
vendidos e dados às famílias de homens que haviam tombado em
Uhud, para serem assassinados. Eles foram crucificados, maldi­
zendo seus captores. Posteriormente, o califa Mu'awiyah,2 o pri­
meiro dos omíadas, lembrou que seu pai o obrigara a mentir, a seu
lado, na execução, e que as imprecações saíam naturalmente de sua
boca, tão difícil era para eles distinguir a palavra da arma.
Não podemos simpatizar com os seguidores de uma seita que,
como foi visto, praticava a traição sempre que a considerasse
aconselhável, mesmo sendo vítimas de um crime como esse.
O acontecimento, porém, é de interesse, mostrando que Uhud
deixara profunda impressão sobre seus vizinhos. E nós podemos
reproduzir em pensamento a zombaria com que então se recor-

l. Safar, a.H. 4; identificado como julho-agosto, 625 d.C.


2. Aghani, iv, 40. Ibn Duraid, 262, com alguns erros.

271
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

davam as antigas jactâncias de Maomé a respeito da ajuda ce­


lestial. O Profeta recorreu ao expediente que já lhe fora muito útil
ao lidar com os judeus refratários. Enviou um assassino para ma­
tar o chefe hudhalita, Sufyan, filho de Khalid. Ele e as mulheres
da família, montados em camelos, procuravam uma residência
de verão. O assassino o pegou desprevenido e deixou as mulheres
em prantos.3
Outro assassino, 'Amr, filho de Umayyah, foi enviado com um
projeto mais ambicioso - matar Abu Sufyan em Meca. 'Amr era
mequense e estava familiarizado com os costumes da cidade. Le­
vava em sua companhia um homem natural de Medina. A história
de seus feitos é preservada por Tabari, que pintou de forma vívida
o caráter dos criminosos que Maomé tinha a seu serviço. Antes de
atacar Abu Sufyan, o piedoso companheiro de 'Amr desejava fazer
suas orações na Caaba.
No momento em que a cerimônia terminou, os mequenses es­
tavam sentados em grupos, do lado de fora de suas casas. 'Amr,
filho de Umayyah, foi reconhecido e perseguido, mas sabia como
escapar da justiça, e fugiu para uma caverna do lado de fora de
Meca - que não era, segundo supomos, a mesma em que seu
mestre se escondera. Um dos seus perseguidores mequenses des­
cobriu a caverna, mas foi morto e empalado por 'Amr antes que
pudesse indicar para os companheiros onde estava o assassino.
Um ou dois dias depois, quando a perseguição afrouxou, 'Amr fez
uma tentativa de remover a cruz na qual Khubaib fora empalado.
Perturbado com essa tentativa audaciosa, pegou a estrada para
Medina e ocultou-se por um tempo em outra caverna, onde aca­
bou assassinando mais um mequense. Em seguida, deparando
com dois emissários de Meca, matou um deles e fez do outro seu
prisioneiro. Nesse ínterim, ele garantira a segurança de seu com­
panheiro, que chegara a Medina antes dele. 'Amr foi para Medina

3. Diyarbekri, i, 507.

2 72
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

em seguida, levando o prisioneiro e recebendo um caloroso agra­


decimento do Profeta.4
Além de despachar assassinos, Maomé julgou aconselhável dar
uma demonstração de força ao receber informações de que outras
tribos haviam sido encorajadas, pelo sucesso coraixita, a tentar
enfrentá-lo. Contra os Banu Asad, que pareciam se preparar para
isso, foi enviado um destacamento de 1 50 homens, que não en­
controu resistência alguma e teve de se satisfazer com um ataque
de surpresa aos camelos, em escala moderada.
O sucesso dos Hudhail em atrair os muçulmanos encorajou
outro chefe tribal a tentar o mesmo plano. Abu Barã 'Amir, filho
de Malik, chefe dos Banu 'Amir, encaminhou um pedido de mis­
sionários para a região de Nejd. O Profeta, após alguma hesitação,
enviou uma companhia de setenta homens, todos eles devotos,
cujos estudos do Alcorão lhes valeu o título de leitores. ''Ao cair da
noite, eles costumavam ir até a casa de um professor em Medina e
passar a noite estudando. Quando amanhecia, os mais fortes jun­
tavam madeira e traziam água, enquanto os mais bem-dispostos
compravam uma ovelha, temperavam-na e a deixavam pendurada
nos aposentos do Profeta:'s
Setenta - se este é o número correto - era um destacamento
grande, se a missão era pregar, mas não tão grande assim se lutar
também estava no programa. No poço de Ma'unah, não distante
de Medina, eles foram atacados por 'Amir, filho de Tufail, chefe
da grande tribo Sulaim. A promessa de proteção de Abu Barã não
pôde ser cumprida, embora ele e sua tribo não tivessem tomado
parte no ataque. Os setenta teólogos foram massacrados, com ex­
ceção de um, que escapou por ter sido dado como morto.
'Amr, filho de Umayyah, também aparece nessa ocasião. Ele
estava com a bagagem da expedição e foi capturado pelo inimigo,
mas depois deixaram-no ir embora, por algum pretexto plausível

4. Tabari, i, 1 .441 .
5 . Musnad, iii, 1 37.

273
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

por ele alegado, embora tivesse o cabelo tosquiado. No caminho


de volta, ele deparou com dois membros dos Banu 'Amir, aos
quais emboscou e matou. Porém, esse ato acabou se tornando
uma desnecessária demonstração de zelo, dado que os Banu 'Amir
não tinham rompido ostensivamente nenhum contrato, e Maomé
foi obrigado a pagar uma dívida de sangue por eles.
Segundo consta, a morte dos setenta emissários chocou Mao­
mé mais do que o desastre de Uhud. Durante trinta manhãs -
ou, de acordo com outras fontes, quarenta -, ele vociferou con­
tra seus autores e chegou a divulgar uma mensagem divina na
qual abordava o assunto; não se sabe por que ela não foi incorpo­
rada ao Alcorão.6 Com uma causa como a sua, o resultado natural
daqueles fracassos poderia ser o descrédito, o que acarretaria sé­
rias consequências. A cruz do martírio, tão avidamente desejada
por alguns, não era cobiçada por outros. A patética mensagem que
veio dos homens assassinados, no paraíso, afirmando que eles
tinham encontrado seu Deus e estavam satisfeitos uns com os
outros, talvez não tenha sido bem recebida depois desse segundo
desastre.
Um indício de que o Profeta estava alarmado é que ele aceitou
pagar a dívida de sangue e devolver o que fora roubado dos dois
amritas a quem o bandido 'Amr havia matado. Por essa razão, ele
buscou o auxílio da tribo judia Nadir - até o fim da vida, ele
sempre recorreria aos judeus quando precisasse de dinheiro. Os
desastres sofridos por Maomé deixavam os judeus cada vez mais
exultantes. Isso é atestado e facilmente digno de crédito. Jamais
saberemos se a visita que Maomé lhes fez nessa ocasião foi o pri­
meiro passo de um plano preconcebido ou se ele tirou partido
dessa iniciativa depois. Além do mais, a morte do nadirita Ka'b,
filho de Al-Ashraf - se é que efetivamente não teve lugar mais
ou menos nessa época (há alguma base para se pensar isso) -,
provavelmente não fora esquecida pelas duas partes.

6. Diyarbekri, i, 5 10.

274
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Por conseguinte, a solicitação de Maomé de que os nadiritas


ajudassem no pagamento da dívida de sangue talvez tenha pareci­
do desrespeitosa a uma tribo que tinha o direito de exigir o paga­
mento da dívida a Maomé. Ainda assim, o pedido do Profeta foi
bem acolhido. Mas uma voz do paraíso o informou de que seus
anfitriões pensavam em se aproveitar de sua fraqueza, e que um
deles, 'Amr, filho de Jihash, estava subindo ao telhado com a inten­
ção de atirar uma pedra em sua cabeça. Não sabemos, dado que
não dispomos de nenhum relato judeu sobre o assunto, se esse
audacioso plano foi realmente cogitado, mas, visto que o Profeta
tinha a ideia fixa de que os judeus pretendiam assassiná-lo -
ideia que tinha origem na acusação de "morte aos profetas", lança­
da contra ele pelo fundador da cristandade -, ele pode ter acre­
ditado sinceramente que o atentado era verdadeiro.
Por conta disso, apressou-se a voltar a Medina, afirmando que
escapara de um ataque traiçoeiro e conclamando seus seguidores a
sitiar os Banu Nadir. Os homens estavam prontos. Eles tinham
uma ampla experiência da capacidade de luta dos judeus e da ener­
gia de seus partidários em Medina. Não havia a menor chance de
qualquer resistência a um ataque enérgico. Na verdade, um relato
informa-nos de que Maomé enviou um mensageiro oferecendo aos
judeus oito dias para retirarem seus pertences, e que essa proposta
teria sido aceita de imediato, não tivesse o infeliz Abdallah Ibn
Ubayy os aconselhado a resistir e lhes prometido apoio, caso eles
viessem a fazer isso. Os Banu Kuraizah, aos quais fora feito um
apelo para que apoiassem seus irmãos, recusaram-se categorica­
mente a romper com Maomé. Esse ato de covardia leva-nos a sentir
menos simpatia por eles, quanto ao destino que tiveram de enfren­
tar mais tarde. As fortalezas ocupadas pelos Nadir provavelmente
não eram de pior qualidade que as outras em Medina. A lenda, se
não a história, testemunhou como as fortalezas de Yathrib resisti­
ram ao grande rei iemenita Tubba' e forçou-o a suspender o cerco.7

7. Aghani, xiii, 1 20.

275
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

A experiência mostra que as fortalezas mais inexpugnáveis e


mais bem guarnecidas são inúteis, a menos que tenham homens
dentro delas. Abdallah Ibn Ubayy tinha boas razões para acreditar
que as fortalezas judaicas eram capazes de resistir sem problemas
a um ataque, e que os defensores estavam bem armados. Pensava
ele: deixemos os judeus cansarem Maomé com uma defesa bem­
-sucedida, pelo menos por alguns meses. Enquanto isso, ele po­
deria organizar suas forças, que estavam escondidas, e atacar os
muçulmanos pela retaguarda ou pelos flancos. A tradição men­
ciona Abdallah na companhia de alguns outros hipócritas que,
para nós, não passam de nomes. Aparentemente, todos eles parti­
lhavam a idiossincrasia dos judeus - estavam prontos para fazer
tudo, menos lutar. Também esperava-se para breve uma expedição
vinda de Meca. Huyayy, o chefe dos Banu Nadir, fora convencido
por algumas falsas promessas e preparava-se para defender suas
terras.
As fortalezas, porém, protegidas por covardes (que além disso
estavam divididos internamente)8 e atacadas por soldados disci­
plinados, provaram-se indefensáveis. O orgulho dos nadiritas era
uma espécie de tâmara tão clara que o caroço podia ser visto atra­
vés da polpa. Maomé derrubou ou queimou essas tamareiras, dei­
xando os nadiritas inconsoláveis. Eles objetaram, inutilmente, que
essa gratuita destruição de propriedade estava em contradição
com os preceitos do Alcorão e da lei que o Livro supostamente
corroborava. As noções do Profeta no tocante a esses assuntos
eram elásticas. Depois de três semanas de resistência, os nadiritas
acenaram com a capitulação, sob a condição de lhes permitirem
ir embora sem ser molestados, levando consigo os pertences que
seus camelos pudessem transportar, à exceção das armaduras. Al­
guns muçulmanos os ajudaram a desmontar suas casas. Somente
dois renegados conservaram suas terras. Os demais marcharam

8. Sura lix, 14.

276
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

com todas as honrarias de guerra. A vitória do Profeta foi incruen­


ta, dando-lhe o direito de dispor de todo o saque.9
O fio condutor no Alcorão10 do tema da expedição acusa os
nadiritas de terem resistido ao Profeta; possivelmente, no momen­
to em que teve a "revelação", Maomé havia descoberto que sua
antiga suspeita não tinha fundamento. Aparentemente, o propósi­
to da revelação era justificar o procedimento pelo qual a terra dos
nadiritas foi concedida apenas aos Emigrantes. O autor, porém,
não abriu mão de sarcasmos em relação aos judeus e aos hipócri­
tas. Ele compara estes últimos ao Tentador, que pressionou o ho­
mem a se rebelar contra Deus e, quando ele se rebelou, lavou as
mãos. Os hipócritas podiam prometer compartilhar qualquer pe­
rigo ou desastre que acontecesse aos judeus, mas jamais cumpri­
riam a promessa. Seu medo dos muçulmanos era maior que o te­
mor a Deus. E não havia unidade entre eles; cada qual tinha um
projeto ou um objeto de sua própria lavra. De fato, resume Mao­
mé, eles não tinham a compreensão. Essa revelação também con­
tinha uma justificativa ex post facto da destruição das tamareiras.
Tudo fora feito de acordo com os desígnios de Deus.
Os poetas cujos versos comemorativos são citados pelos bió­
grafos relacionam o banimento dos nadiritas ao assassinato de
Ka'b, filho de Al-Ashraf, que, na verdade, dificilmente deixaria de
suscitar alguma reprovação e mesmo ameaças de vingança. O Pro­
feta parece sugerir que as fortalezas dos nadiritas passaram a ser
indefensáveis por algum tipo de surpresa - Deus viera até eles,
quando não esperavam. Qualquer que tenha sido a sequência exa­
ta de eventos, Maomé provou ser o mesmo ao lidar com adversá­
rios internos, não obstante seu fracasso na guerra externa.
O banimento dos Banu Nadir colocou algumas cartas valiosas
nas mãos do Profeta. Em primeiro lugar, fez-se uma provisão per­
manente para os Emigrantes, que não precisaram mais, em cir-

9. Rabi' I, a.H. 4; identificado como agosto-setembro, 625 d.C.


10. Sura lix.

277
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

cunstância alguma, depender da caridade dos Ajudantes - os


quais, aliás, se tornavam menos entusiasmados a cada ano. Na ver­
dade, essa conquista de propriedades parece ter permitido uma
mudança no sistema de caridade, e alguns poucos necessitados,
embora fiéis, medinenses obtiveram uma parte da pilhagem. Por
outro lado, a fragilidade, a falta de decisão e a incompetência do
lado adversário ficaram mais uma vez patentes. Os judeus dese­
javam, de todo o coração, a destruição de Maomé, mas esse mo­
tivo nada significava quando comparado à preocupação com a
própria pele. Romper abertamente com o Profeta, sem dúvida,
representava um risco, pois matar Ali, Omar e os outros seria di­
fícil e custaria muitas vidas. Mas o Profeta fez pouco dos judeus
de forma ingênua, não percebendo que, ao mesmo tempo que
eliminava seus inimigos, grupo a grupo, tornava certo um destino
que a união e a energia ainda podiam evitar. Não se deixou regis­
tro algum a respeito da justificativa do comportamento de Ab­
dallah, filho de Ubayy, mas sua ação enérgica em apoio aos Banu
Kainuka possivelmente fez com que ele desempenhasse o papel de
um Demóstenes* ou de um Cícero** depois da morte de César:
o homem que se esforça em vão para inspirar coragem e confiança
nos fracos.
O banimento dos Banu Nadir foi seguido de uma inútil tenta­
tiva de encerrar a Batalha de Uhud. Dispomos da informação de
que Abu Sufyan marcou um encontro para renovar as hostilidades
no ano seguinte, em Badr; mas, por essa ou aquela razão, o encon­
tro não se deu. O mais provável é que Abu Sufyan tenha julgado
haver superestimado o golpe que desferira no sistema de poder do
Profeta, em Uhud; que tenha cometido o erro, tantas vezes repeti-

* Demóstenes: importante orador e político grego, de Atenas; aos sete anos perdeu o
pai e teve a herança roubada pelos tutores; posteriormente, abriu processo para re­
cuperar os bens, ganhou, mas não reentrou na posse da totalidade deles; aos 27 anos
iniciou sua bem-sucedida carreira de orador. [N.T.]
** Cícero: filósofo, orador, escritor, advogado e político romano; introduziu em Roma
as escolas da filosofia grega, tendo criado um vocabulário filosófico em latim. [N.T.]

278
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

do, de confundir vitória com conquista. Quando verificou que de


modo algum enfraquecera o controle do Profeta sobre seus se­
guidores, e que, pelo saque e a expatriação de inimigos internos,
Maomé, nesse meio-tempo, fortalecera consideravelmente sua po­
sição, ele deixou de se mostrar ansioso pela "partida de volta".
Um relato revela-nos que Abu Sufyan se esforçou para fazer
o Profeta romper o combinado, enviando a Medina um espião,
contratado para espalhar boatos sobre o poderio dos mequenses.
Maomé, que já praticara o mesmo estratagema com sucesso no
ano anterior, interpretou corretamente a manobra como um sinal
de fraqueza. Quando esse recurso fracassou, ao que parece, Abu
Sufyan organizou uma malograda expedição a Badr, à qual quase
imediatamente chamou de volta, sob o pretexto de que a estação
não era propícia. O exército que ele fez voltar atrás foi sarcastica­
mente denominado pelos muçulmanos "exército mingau", porque
Abu Sufyan o teria desarticulado por carecer dos produtos neces­
sários para fazer esse prato. A explicação zombeteira é improvável,
e a origem real do gesto parece ter sido esquecida.
Maomé enviou um exército de 1 .500 homens (e dez cavalos)
para o encontro. O tamanho e os equipamentos dessa força eram
uma demonstração, para os mequenses, de que a causa muçulma­
na fora apenas superficialmente afetada pelo incidente de Uhud,
provocando certa consternação em Meca. 1 1 Ficamos surpresos
ao verificar que a feira anual se realizou no que seria o campo de
batalha, e que os muçulmanos, embora incapazes, nessa ocasião,
de persistir nos negócios da guerra, insistiram com lucro no co­
mércio da paz.12
Os acontecimentos que acabamos de narrar parecem ter dado
tempo ao Profeta para se concentrar nas questões domésticas e,
concomitantemente, testar o compromisso de seus seguidores.
Um dos abusos que Maomé abolira foi o casamento com a espo-

1 1 . Wakidi (W.}, 168.


12. Dku'l-Ka'dah, a.H. 4; identificado como abril-maio, 626 d.C.

279
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

sa do pai, costume que parece ter prevalecido antes de sua missão,


quando as esposas do pai eram herdadas pelo filho, assim com
as outras posses. Como vimos, muitos anos antes, Maomé ha­
via adotado Zaid, filho de Harithah, e o antigo sistema dizia não
haver diferença entre filho adotado e filho biológico.13 Zaid fora
casado com uma mulher livre; depois casou-se com uma prima
do próprio Profeta, chamada Zainab, filha de Jahsh. Por uma
razão ou outra, Maomé desejou acrescentar essa senhora a seu
próprio harém, ou, em todo caso, quis colocá-la sob sua influên­
cia. Sua motivação não é conhecida, mas talvez tenha sido a admi­
ração pela reconhecida piedade de Zainab. Numa ocasião, ela pen­
durou cordas entre os pilares da mesquita para se apoiar durante
a oração, 14 ato que, se aconteceu antes do seu casamento com o
Profeta, pode perfeitamente significar que ela desejava atrair sua
atenção.
Pelo relato que o Alcorão faz desse tema, parece que Zaid ficou
ciente de que o Profeta queria sua esposa, e considerou mais sábio
abdicar de seus direitos sem demora. Parece também que o Profe­
ta estava relutante em tirar vantagem da complacência de Zaid,
mas achou que esse era o melhor caminho. Na verdade, Zainab
não concordou com esse passo sem uma revelação especial, 15 que
logo foi produzida. Por conseguinte, Zaid divorciou-se de Zainab,
que se casou com o Profeta. Maomé previu que esse ato daria sur­
gimento a um grande escândalo, mas, mesmo assim, ofereceu o
costumeiro banquete de bodas, que na realidade se revestiu de um
luxo especial. Seus seguidores foram recebidos com pão e carnei­
ro,16 ao passo que, em outras ocasiões similares, tiveram de se con­
tentar com tâmaras e soro de leite.17

13. W. R. Smith, Kinship and Marriage, 2• ed., 53. Wellhausen (Ehe, 1 4 1 ) afirma que o
escândalo foi causado pelo fato de Maomé ter violado sua própria lei.
14. Musnad, iii, l O l ss.
15. Ibid., 1 95.
1 6. Ibid., 98, 242.
17. Ibid., 99, 1 72.

280
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Essa liberalidade não evitou severos comentários daqueles que


encaravam a relação entre pai e filho adotado da mesma forma
que a de pai e filho biológico - visão à qual a instituição das ir­
mandades, promovida por Maomé, deu alguma sustentação -, e
que, por conseguinte, consideraram essa união incestuosa. A pro­
fundidade com que o escândalo atingiu o Profeta é evidenciada
pelo fato de que o nome de Zaid é mencionado na revelação em
que esse delicado assunto foi tratado. A inteira responsabilidade
pelo acontecimento é atribuída a Deus; a hesitação do Profeta em
se casar com Zainab foi produto de seu medo dos homens, en­
quanto apenas Deus devia provocar medo. Zaid é descrito como
alguém a quem tanto Deus quanto o Profeta favoreceram, e os
muçulmanos estão seguros de que não houve oportunidade para
o Profeta se gêner * (a palavra em francês dá conta com precisão da
palavra árabe) com os privilégios que diziam respeito a seu ofício
profético.
Um filho adotado não era a mesma coisa que um filho bioló­
gico e não devia contar como tal. A ciumenta Aisha, depois, de
modo um tanto sarcástico, provou com esse versículo como o Pro­
feta reproduzia com fidelidade as mensagens que lhe eram confia­
das; pois se algum verso do Alcorão devia ser suprimido em bene­
fício dele, este era o exemplo apropriado. 18 Parece que o Profeta
não pretendia se arriscar comunicando essa revelação até que ou­
tra vitória tivesse assegurado sua posição. Aisha não tinha muita
razão em ver problema nisso, uma vez que ela própria logo se
aproveitou, por interesse divino, das irregularidades domésticas
do Profeta.
Não se sabe qual foi a participação do próprio Zaid na história.
Devemos levar em conta que ele não era um homem de fortes li­
gações domésticas, visto que havia passado repetidas vezes pelo
casamento e pelo divórcio. A ele é creditado - não sabemos até

* Se gêner: "constranger-se", "não estar à vontade"; em francês no original. [N.T.]


1 8. Ibid., i, 63.

281
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

que ponto isso é verdade - o fato de ter preferido, no início de


sua trajetória, Maomé a seus pais, que, perdendo-o em razão
do cativeiro, pretendiam recuperá-lo. No fim, Maomé atribuiu a
seus poderes confiança ilimitada, a qual os muçulmanos não com­
partilharam. O Profeta estava tão pouco convencido da revelação
que declarava a invalidade da adoção que - se Aisha for digna
de crédito - pretendia fazer de Zaid seu sucessor. 19 Entretanto,
a revelação foi encarada como lei, e os filhos adotivos foram leva­
dos aos seus pais ou aos antigos donos.20 Mesmo um homem ado­
tado por um mequense nos tempos pré-islâmicos, Mikdad, fi­
lho de Al-Aswad, referia-se à sua filiação original como Mikdad,
filho de 'Amr.2 1
Os judeus, que com tanta facilidade haviam abandonado suas
fortalezas, agora tentavam tenazmente atrair terceiros para a luta.
Eles mandaram delegações para todos os cantos, denunciando o
impostor que desejava subjugar toda a Arábia. Como nos velhos
tempos, quando seus ancestrais denunciaram o cristianismo antes
dos pagãos, agora eles afirmavam aos mequenses que a religião
judaica era superior à de Maomé. Era provável que os mequenses
se lembrassem de como, poucos anos antes, os judeus haviam sido
as testemunhas às quais Maomé apelava quando desejava atestar
suas declarações e quando estava em dúvida acerca de sua missão.
A ira que ele demonstrou ao saber do apoio judaico à idolatria
parece ter sido sincera. Entretanto, os emissários dos judeus foram
bem-sucedidos em firmar um tratado com os mequenses por trás
das cortinas da Caaba, pelo qual ambas as partes se uniam em
oposição a Maomé enquanto todos estivessem vivos. 22
Além dos mequenses, os emissários judeus conseguiram incitar
as chamadas tribos Ghatafan, das quais três - os Banu Fazarah,
os Banu Murrah e os Banu Ashja' - tomaram o caminho de Me-

19. Isabah.
20. Ibid., ii, 109.
2 1 . Ibid., iii, 932.
22. Wakidi (W.), 190.

282
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

dina sob o comando de seus líderes - 'Uyainah, filho de Hisn,


Al-Harith, filho de 'Auf, e Mis'ar, filho de Rukhailah. As tribos
Asad e Sulaim também participaram da conjura.23 Cumpre di­
zer que essas tribos tinham sido incitadas pelos judeus de Khai­
bar, que lhes haviam prometido em troca um ano de colheita de
tâmaras.
O Profeta, para advertir os judeus de Khaibar, enviou Abdallah,
filho de Rawahah, a fim de atrair alguns deles para fora da cidade,
sob pretexto de uma nobre visita ao Profeta, e assassiná-los no
caminho. A missão foi executada com sucesso, e os judeus árabes
se revelaram incautos na mesma medida em que sua execução foi
covarde. 24 O objetivo da grande expedição era tomar Medina e,
assim, cortar o mal pela raiz. Dois anos antes, os medinenses su­
punham que a cidade era inexpugnável. Talvez a débil resistência
apresentada no bairro judeu a um destacamento que o atacou te­
nha convencido Maomé e também seus inimigos de que isso era
um erro. Picaretas, pás e cestas foram emprestadas pelos Banu
Kuraizah.
É atribuída a um certo Salman, o Persa a ideia de defender Me­
dina com uma trincheira. Esse homem, ao que parece, era escravo
em Medina quando o Profeta lá chegou. Ele adotou o Islã talvez
para ganhar a liberdade, uma vez que a libertação dos escravos era
um dos primeiros atos de caridade impostos aos muçulmanos que
podiam arcar com isso. Os relatos sobre seus antecedentes são tão
evidentemente fabulosos que não cabe mencioná-los aqui. Somos
inclinados a supor, com base em seu nome, que ele era nabateu e
talvez tivesse nascido ou vivido na Pérsia. O nome que deu à "sua"
trincheira, Khandak, é, sem dúvida alguma, persa. Parece também
que o plano de defender as posses das pessoas com esse expedien­
te simples não atraía os árabes, cujas noções sobre a guerra, como
vimos, eram mais galantes que práticas.

23. Ibid.
24. Ishak, 980.

283
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

Em todo caso, havia um trecho em que as construções de Me­


dina não eram suficientemente próximas umas das outras para
formar uma defesa. O Profeta, com o bom senso que amiúde exi­
bia quando a ocasião pedia, pegou uma picareta, marcou a linha
da trincheira e dividiu a tarefa de escavar entre seus trezentos se­
guidores, que trabalharam sem parar, num esquema de rodízio.
A tradição registra como o Profeta cantava enquanto trabalhava:
"Não há vida a não ser a do paraíso. Perdoe os Ajudantes, Senhor,
e os Emigrantes." Seus seguidores assim respondiam: "A Maomé
asseguramos nossa fé. Combater seus inimigos e não esmorecer
até a morte."25
A linha se estendia "do 'forte dos dois homens velhos' a al-Ma­
dhad, e em seguida a Dhubab e Husaikah, na direção de Ratij, in­
cluída a montanha dos Banu 'Ubaid, em Khusbah':26 Todos esses
nomes logo depois tornaram-se obsoletos. Esses lugares parecem
estar situados a nordeste de Medina, além da elevação chamada
Sal', onde o exército muçulmano estava acampado. Por motivo de
segurança, mulheres e crianças, nesse momento, estavam instala­
das nas torres.
A escavação da trincheira é um dos episódios da história do
Islã que mais deu margem a idealizações míticas.
O número de invasores relatados pelos biógrafos chegou a 1 0
mil;27 quer se trate de exagero ou não, parece que o importante
não era a força, mas a estratégia.28 A trincheira planejada por Sal­
man, o Persa demonstrou ser um obstáculo insuperável ao avanço
dos inimigos. O Profeta e seus seguidores, na realidade, tinham de
suportar adversidades consideráveis, protegendo a trincheira du­
rante as noites frias de inverno; mas apenas uns poucos perderam

25. Musnad, iii, 205ss.


26. Wakidi (W.), 192. Tabari, i, 1 .407.
27. Kuraish com seus aliados, 4 mil: Sulaim, 700; Fazarah, mil; Ashja', 400; Murrah,
400. Os números dos Asad e provavelmente de algumas outras tribos não foram
fornecidos.
28. Wakidi (W.), 1 9 1 .

284
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

a coragem. A campanha, que durou cerca de um mês, pode ser


resumida da maneira que se segue.
Os invasores aguardaram do lado de fora da trincheira, na ex­
pectativa de que os muçulmanos viessem para o combate. Quan­
do constataram que os seguidores de Maomé não tinham a menor
intenção de fazer isso, foram embora. Na verdade, em determina­
do ponto, houve um choque,29 levado a cabo por um destacamen­
to temerário; mas não ocorreu ao general que esses homens de­
viam ser apoiados, e o resultado foi um duelo no qual um campeão
coraixita, 'Amr, filho de Abd Wudd, foi assassinado pelo temível
Ali. Alguns incidentes também aconteceram, causados pelo arco e
flecha, entre os quais um ferimento no chefe dos Aus, Sa'd, filho de
Mu' adh, destinado a ter sérias consequências. Khalid, filho do co­
mandante da cavalaria coraixita, teve algumas oportunidades para
renovar os lauréis ganhos em Uhud, mas não conseguiu fazê-lo.
Outros chefes mequenses realizaram alguns ataques sem con­
sequências, frustrados pela vigilância dos muçulmanos ou por sua
própria incapacidade de colaboração. Essa foi a melhor e também
a última oportunidade dada aos mequenses e aos judeus para que­
brar o poder de Maomé. E ela foi totalmente desperdiçada, em
parte porque faltou coragem física, mas sobretudo porque não
havia nenhum homem com tirocínio no comando. O estratagema
imprevisto da trincheira parece tê-los paralisado completamente,
assim como a metralhadora pode paralisar um inimigo que nunca
tenha ouvido falar de pólvora.
Um exército deve ser bem organizado e bem disciplinado para
suportar uma longa espera, mas essas hordas não eram nem uma
coisa nem outra; mesmo que o comandante dos coraixitas tivesse
alguma noção de qual era seu objetivo, as tribos auxiliares pouco
sabiam a esse respeito. Conta-se que Maomé deu início a negocia­
ções para comprar a retirada dos inimigos, mas elas foram abor­
tadas, não por qualquer lealdade das tribos com seus aliados, mas

29. Ishak, 678.

285
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

por causa do fanatismo dos seguidores de Maomé, os quais, como


quase sempre, adotaram um ponto de vista mais exaltado sobre a
honra do Islã do que seu fundador.
O maior sofrimento estava destinado aos judeus Banu Ku­
raizah, cujo flexível senso de obrigações com Maomé os impedira
de se aliar aos Banu Nadir no ano anterior. O agitador nadirita
Huyayy, filho de Akhtab, que não conseguira obter o apoio deles
naquela ocasião, encontrava agora uma audiência mais atenta, já
que apareceu na companhia de 1 0 mil soldados árabes. A tribo
judaica não era muito numerosa, mas esse inimigo interno po­
deria ter feito um trabalho sério enquanto todos os efetivos que
Maomé conseguira reunir estavam ocupados com um inimigo
externo três vezes mais numeroso. Ao que parece, sem autorização
nenhuma, Huyayy lhes ofereceu reféns mequenses como uma ga­
rantia de que estes não os deixariam em dificuldades.30 Por conta
dessa promessa, o chefe da tribo, Ka'b, filho de Asad, foi induzido
a anular o contrato com Maomé.
Zubair, filho de 'Awwam, enviado pelo Profeta para observar as
ações, relatou que estas eram altamente suspeitas. Uma delegação
de eminentes medinenses foi então enviada para insistir com os
Kuraizah que permanecessem calmos, mas não conseguiu ne­
nhum resultado efetivo. Essa informação não foi passada aos mu­
çulmanos; os medinenses reservaram-na para uma audiência pri­
vada com Maomé,31 de acordo com um costume do qual a história
de Palgrave sobre os wahabitas fornece alguns exemplos. Os corai­
xitas não estavam destinados, contudo, a tirar proveito de sua
aliança com os judeus, embora estes parecessem ter apostado nis­
so. Quando o chefe coraixita foi enviado para exigir uma vigorosa
demonstração dentro da cidade, uma vez mais a consciência não
guerreira dos judeus fez-se presente: era sabá, e eles não podiam
lutar nesse dia.

30. Wakidi ( W.), 206.


3 1 . Ibid., 1 97.

286
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Afirma-se também que um homem da tribo Ashja', de Ghata­


fan, chamado Nu'aim, filho de Mas'ud, um desertor e converso,
começou a semear a discórdia entre os Kuraizah e os coraixitas.
Ele convenceu os primeiros a se recusarem a agir a menos que os
últimos lhes dessem os reféns prometidos; por outro lado, asse­
gurava aos coraixitas que a intenção dos reféns era autorizar os
Kuraizah a fazer a paz com Maomé. Em outra versão da história,32
a deslealdade da parte do intermediário é apresentada como não
intencional e motivada por uma mentira contada por Maomé; é
mais provável que isso seja verdade, dado que Nu'aim era incapaz
de manter um segredo,33 e que dificilmente o Profeta teria confia­
do em sua discrição.
Seja qual for a história, é evidente que os coraixitas, não dis­
postos a colocar seus próprios pescoços em risco, pretendiam que
outras pessoas lutassem por eles contra os inimigos. Podemos fa­
cilmente acreditar que, durante esse momento de tensão, mem­
bros do clã foram para as ruas, onde as mulheres estavam entrin­
cheiradas, a fim de advertir do desastre que representava tentar
superar o Profeta, e de que não era improvável que um daqueles
homens tivesse sido morto por Safiyyah, a tia do Profeta.
Se os judeus tivessem sido fiéis ou ao Profeta ou aos coraixitas,
provavelmente teriam sido salvos e teriam salvado outras pessoas.
A escolha que fizeram foi ficar no meio do caminho, o isso os le­
vou, inevitavelmente, à destruição.
Não parece que Abu Sufyan e seus amigos tivessem qualquer
intenção de matar de fome a população de Medina; na verdade,
mesmo cercados, os medinenses eram capazes de levar adiante
algumas de suas atividades rotineiras. O que finalmente levou os
mequenses a deixar o campo de batalha foi o mau tempo. As noi­
tes frias eram insuportáveis para eles. A debilidade dos Kuraizah
transmitiu-se a seus aliados. A trincheira fizera sua parte. O plano

32. Isabah, iii, 844.


33. Ibn Duraid, 168.

287
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

de tomar Medina foi abandonado, e Abu Sufyan e seus aliados vol­


taram para casa. Os muçulmanos perderam apenas seis mártires. 34
Conta-se que Maomé passou a maior parte do tempo do cerco
orando, embora qualquer conselheiro que tivesse um plano viável
para sugerir, ou que se oferecesse para executar algum projeto po­
sitivo, sempre encontrasse nele um ouvinte atento. Quando o Pro­
feta constatou que suas orações tinham sido atendidas, e que a
grande congregação dos gentios se dispersara, decidiu só retirar
a armadura depois que começasse o trabalho de vingança contra
os Kuraizah. Essa vingança deveria ser sumária, e isso foi indica­
do pela entrega do estandarte ao conhecido Ali. Huyayy, filho de
Akhtab, que organizara a campanha original, permaneceu leal aos
coraixitas até o fim.
As forças muçulmanas investiram contra as moradias dos co­
raixitas sem propor, aparentemente, qualquer tipo de acordo.
Atendendo à recomendação de Hubab Ibn al-Mundhir, a comu­
nicação entre os diferentes fortes foi interrompida e os muçul­
manos acamparam entre eles.35 Ao que parece, os Kuraizah esbo­
çaram pouca reação. Contudo, segundo consta, o muçulmano
Khallad, filho de Suwaid, foi morto por uma pedra arremessada
por uma mulher judia; por essa morte inglória, recebeu em dobro
sua recompensa como mártir. A história que se conta a respeito do
conselho reunido entre os sitiados pode ser uma invenção fanta­
siosa, mas talvez dê um retrato fiel do que teria ocorrido ali, onde
um ou dois homens tentaram incutir algo semelhante a uma deci­
são na cabeça de um bando de partidários desanimados.
Deveriam eles abandonar o judaísmo e se tornar muçulmanos?
Não, sua consciência não lhes permitiria fazer isso. Deveriam pro­
mover um holocausto de suas famílias e pertences, e, tendo salva­
do a honra, colocar suas vidas em risco num confronto final? Caso
fossem bem-sucedidos, esposas e filhos seriam facilmente subs-

34. Ishak, 699; Dhu'l-Ka'dah, a.H. 5; identificado como março-abril, 627 d.C.
35. Ibn Sa'd II, ii, 109.

288
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

tituídos. Não, não poderiam ser tão cruéis. Deviam, então, tentar
uma manobra no sabá, quando a vigilância muçulmana provavel­
mente seria relaxada? Ó, não, violar o sabá seria muito deplorável!
O que vingou foi o plano de cair aos pés do conquistador e supli­
car demência. Mas que demência os judeus podiam esperar de
quem, poucos dias antes, estivera em estado de euforia diante do
sofrimento deles, e recusara a única homenagem a que atribuía
importância?
Atendendo a um pedido dos judeus, um integrante de seus an­
tigos aliados, os Aus, chamado Abu Lubabah,36 às vezes empregado
por Maomé como tenente-governador de Medina, foi autorizado
a visitá-los a fim de aconselhá-los. Ao que parece, Abu Lubabah
lhes disse que resistissem como homens, já que o Profeta não mos­
traria demência. Porém, arrependido de ter dado esse conselho,
expiou sua culpa amarrando-se a um pilar da mesquita; foi li­
bertado por Maomé somente seis dias ou uma quinzena depois,
quando Alá manifestou seu perdão em uma revelação.
Depois de um cerco de aproximadamente quatro semanas, os
Kuraizah capitularam, com a condição de que seu destino fosse
decidido por um membro dos Aus - na expectativa, sem dúvida,
de que se buscassem termos favoráveis para eles, a exemplo do que
o chefe dos Khazraj havia feito três anos antes pelos Banu Kainuka.
O homem a quem o destino deles era entregue, todavia, não era
um apartidário indiferente, como Abdallah Ibn Ubayy. Sa'd Ibn
Mu'adh, que antes fora amigo da tribo judaica, tinha sido ferido
poucos dias antes durante as escaramuças na trincheira, e não es­
tava, de forma alguma, com um humor muito generoso. Ele tivera
a veia mediana três vezes cortada, depois cauterizada por Maomé;
por isso, sua mão inchava cada vez mais. Conta-se que ele, por um
ato de vontade, conseguiu não sangrar até a morte antes que se
tivesse vingado dos Banu Kuraizah.37 Sua sentença foi algo inevitá-

36. Wakidi, 373, omite seu nome.


37. Musnad, iii, 350, 363; Wakidi ( W.}, 222, situa as operações após o massacre.

289
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

vel: os homens deviam ser mortos, seus deuses, confiscados, e as


mulheres e crianças, escravizadas. Os jovens passariam por exames
médicos para determinar se eram homens ou crianças.38
Uma grande trincheira foi escavada, e nela foram atirados os
judeus, depois de serem decapitados. Essa trincheira, na qual os
mártires de Najran tinham sido lançados não muitos anos antes,
provocou horror e indignação no Profeta, que expressou seus sen­
timentos numa revelação. A verdade é que os atos que os homens
mais detestam são aqueles cometidos por eles próprios. Cuidou-se
para que alguns dos antigos aliados assistissem à execução. O Pro­
feta recebeu o pedido para poupar a vida de uns poucos e, sem
muita dificuldade, atendeu à solicitação. Alguns dos cativos foram
mandados para Nejd, por Sa'd, filho de Zaid, dos Banu Abd al­
-Ashhal, em troca de armas e palmeiras.39 No intuito de estimular
a mobilidade, os poucos cavaleiros muçulmanos foram recom­
pensados com três cotas do rico butim, duas para o cavalo e uma
para o homem.
Em um só caso, pelo menos, a dádiva da vida não foi aceita
pelo homem a quem fora concedida: Al-Zabir, filho de Bata, pre­
feriu morrer com os grandes homens de sua tribo, embora, ao que
parece, sua família tenha sobrevivido. Quanto a Sa'd, filho de
Mu'adh, que tinha previsto o destino dos israelitas, Maomé pres­
tou-lhe os mais elevados tributos que sua imaginação podia ofer­
tar. Ele declarou que a morte de Sa'd, ocorrida logo depois, abala­
ra o trono de Deus; que a sala onde seu corpo jazia estava tão
repleta de anjos que seria difícil achar um assento; e que, se o ca­
dáver de um muçulmano pudesse escapar do peso da tumba, este
seria o de Sa'ds.40 Anos depois, quando ganhou de presente uma
túnica ricamente adornada, Maomé declarou que um dos lenços
de Sa'd no Paraíso era superior a ela.41

38. Isabah, iii, 873.


39. lbid., ii, 1 52.
40. Musnad, vi, 55 (Aisha).
4 1 . lbid., iii, 207.

290
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Os fatos, tal como foram registrados pelos historiadores, pro­


vocaram pouca simpatia e admiração em qualquer das partes en­
volvidas. A grande invasão, que Maomé declarou ter sido mila­
grosamente frustrada, fora causada - ou acreditava-se que tenha
sido - pela propaganda de membros dos Banu Nadir, cujo bani­
mento tinha deixado o Profeta satisfeito. Se banisse os Kuraizah,
ele estaria liberando um grupo de propagandistas muito criativos.
Por outro lado, aqueles que haviam tido parte, abertamente, com
os invasores de Medina não podiam permanecer ali. Se bani-los
era pouco seguro, permitir que eles ficassem se tornava ainda mais
perigoso. Por isso eles deviam morrer. Somente alguns dos desa­
fetos medinenses ficaram chocados com a execução. Como parece
que os Kuraizah tinham se voltado contra o Profeta simplesmente
porque ele estava em grande perigo, não tendo havido qualquer
provocação desde o tempo em que eles lhe emprestaram ferra­
mentas para escavar a trincheira, o destino dos judeus, terrível
como foi, não nos surpreende. Se eles não tinham conseguido feri­
-lo, pelo menos haviam manifestado intenção de fazê-lo.
Ao avaliar esse assunto, também devemos pensar no derrama­
mento de sangue da maneira como os árabes o concebiam, ou
seja, como um ato que não envolvia qualquer estigma. O Profeta,
na realidade, lhes oferecia uma alternativa - aceitar o Islã e não
somente preservar suas vidas e propriedades, mas tornarem-se
conquistadores. A maioria dos combatentes das cidades não estava
disposta a sacrificar todos os frutos da vitória por uma ideia.
Parece surpreendente que tão poucos dos conquistados te­
nham se beneficiado dessa oferta. O poeta Jabal, filho de Juwal, é
mencionado como um desses conversos.42 Mesmo uma mulher,
Raihanah, de quem Maomé fez sua escrava-concubina, preferiu
por muito tempo ser uma concubina judia a esposa muçulmana.
O amor teórico e o ódio prático de Maomé pela raça judia são
um fenômeno tão claro que dificilmente chama atenção. O Al-

42. Isabah, i, 453.

291
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

corão nunca se cansa de repetir que os israelitas tinham sido


"escolhidos no mundo". O Profeta costumava passar noites intei­
ras contando histórias sobre os filhos de Israel43 - e Sprenger está
provavelmente certo ao pensar que, por um longo tempo, o desejo
mais almejado de Maomé era ser reconhecido por eles. Como os
judeus não fizeram isso em Medina, foi rompida a base que ele
erguera em Meca; mas essa base funcionava como uma ponte
de madeira provisória, que é removida quando a estrutura de pe­
dra, erigida com o apoio dela, se completa. Cada vitória do Profe­
ta, em especial cada adesão à pilhagem, tornava os argumentos
dos especialistas judeus cada vez menos substanciais. Após a des­
truição dos coraixitas, tornou-se indiferente para Maomé se os
judeus o seguiriam ou não. A mudança de uma argumentação
racional para o argumento da força aconteceu gradualmente, e
agora finalmente se completara.
Outra parte envolvida também recebera seu coup de grace com
a campanha das trincheiras. Os desafetos medinenses, chamados
no Alcorão de hipócritas ou covardes, encorajaram e deram falsas
promessas aos Banu Nadir, mas eles não são mencionados pelos
estudiosos confiáveis como envolvidos no ataque aos Banu Kurai­
zah. Procuraram se livrar da tarefa de cavar, e, argumentando que
suas casas estavam expostas, quiseram deixar a defesa da trinchei­
ra e voltar a seus lares.
O término inesperado da campanha acabou com as expectati­
vas dos hipócritas. Se Maomé declarara que as forças da natureza
tinham feito sua parte, e que os coraixitas tinham sido derrotados
por falanges de anjos, o evento pendia para o lado dele. Não pode­
mos deixar de admirar sua sabedoria e sua paciência em se con­
tentar com sarcasmos em relação ao comportamento dos adversá­
rios, divulgados no Alcorão, não retaliando de nenhuma maneira
prática. Contudo, ele afinal aderiu ao princípio de aceitar a sua
como a palavra final sobre o Islã, recusando-se a indagar sobre a

43. Musnad, iv, 437.

292
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

sinceridade de sua profissão. Vitórias e sucesso envolviam o Islã


em fama e glória. Se professá-lo, no início, era algo vergonhoso,
agora se tornava motivo de orgulho.
O triunfo sobre os Kuraizah foi completado com o assassinato
de Sallam, filho de Abu Hukaik, um dos organizadores do último
ataque. Ele se refugiara em Khaibar, e, com a bênção do Profeta,
cinco golpes desferidos em sua garganta o assassinaram na cama.
Seus algozes eram membros dos Khazraj e tiveram como propósi­
to, ao que consta, imitar a glória dos assassinos de Ka'b, filho de
Al-Ashraf, membros da tribo rival. Quando souberam da sorte
dos Kuraizah, os judeus de Khaibar chegaram a pensar, por um
momento, em unir toda a população judaica da Arábia num ata­
que a Medina, mas sua coragem evaporou muito depressa.44
Não temos registro do efeito sobre a opinião pública do resulta­
do da campanha, mas é provável que tenha sido significativo. Uma
vitória alcançada com a ajuda de espíritos era muito mais valiosa
que um triunfo assegurado pela força física. Os que não foram si­
lenciados quando batidos por campeões mortais não sentiriam ver­
gonha em se reconhecer incompetentes para lidar com anjos. Não
sabemos se Maomé, que recorrera tão prontamente à ajuda do pu­
nhal de assassinos, acreditava nesses aliados sobrenaturais.
Alguns dos árabes que eram espectadores desinteressados fica­
ram suficientemente impressionadbs com o sucesso do Profeta e se
juntaram a ele de modo espontâneo. Uma dessas adesões foi a de
Abbas, filho de Mirdas e da poetisa Al-Khansa, de grande renome
na tribo dos Sulaim, que ocupava uma vasta porção do Hijaz. De
acordo com um relato, após a retirada dos coraixitas, esse homem
fora orientado por uma série de sinais a queimar o ídolo da família
e a visitar Maomé em Medina. A princípio, recebeu uma repri­
menda de sua tribo, mas logo conseguiu convertê-la. Na Batalha
de Hunain, após a tomada de Meca, uma tropa de mil homens,
comandada por Dahhak, sogro de Abbas, logrou retomar o campo.

44. Wakidi ( W.), 224.

293
10

PASSOS PARA A TOMADA DE MECA

Livre da controvérsia com os judeus e do temor de invasão por


parte de seus inimigos mais antigos, o Profeta agora podia voltar­
-se para os esquemas de vingança e conquista. A vingança era ne­
cessária em razão do pérfido assassinato de Khubaib e seus segui­
dores pelos Banu Lihyan, ato análogo aos assassinatos autorizados
pelo Profeta. A diferença é que, enquanto os judeus eram incapa­
zes de retaliação, o Profeta se vingaria. Sua estratégia era seme­
lhante àquela que se mostrou bem-sucedida em muitas campa­
nhas. Visto que os Lihyan residiam ao sul de Medina, a expedição
começou com urna marcha em direção ao norte, na estrada para
Damasco. Em um ponto chamado al-Batra, o Profeta virou à es­
querda e gradativamente tornou o rumo da estrada de Meca, de
onde fez urna manobra sobre o sítio ocupado pelos Lihyan, num
vale chamado Ghuran, que ficava a oeste de um dos Harrahs, em
direção ao mar.
No entanto, os Lihyan haviam recebido em tempo um aviso
sobre a chegada dos muçulmanos e transferiram-se para colinas
inacessíveis, não deixando em suas residências nada que valesse
a pena ser saqueado. O único bem que possuíam era o rebanho,
que costumavam levar consigo quando a guerra ou problemas
climáticos os obrigavam a deixar suas casas. Os móveis que pos­
suíam podiam ser facilmente carregados por eles mesmos ou em
suas montarias. Por conseguinte, a expedição de Maomé foi um
fracasso.
Quando ainda estavam perto de Meca, o Profeta pensou em
dar urna demonstração de força nas vizinhanças da cidade, o que
poderia aumentar seu prestígio. Assim, ele avançou com duzentos
seguidores até se aproximar de Meca o suficiente para que as no­
tícias sobre a expedição chegassem aos ouvidos coraixitas.

295
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

Todo o sexto ano foi ocupado com expedições comandadas


algumas vezes pelo próprio Maomé, mas com frequência lideradas
por Abu Ubaidah, Ali e Zaid. Em geral - embora não invariavel­
mente - eles eram bem-sucedidos, e a incansável energia do Pro­
feta espalhou a fama do Islã numa área em constante ampliação,
garantindo-lhe o respeito que o sucesso inspira.
A campanha contra os Banu Mustalik, ocorrida no mesmo
ano ( 6), 1 foi notável por dois eventos. Ao que parece, essa tribo
- um ramo dos Khuza'ah liderado por Al-Harith, filho de Abu
Dirar - havia tramado um ataque a Medina. Maomé, com a aju­
da de um espião, tomou ciência de seus movimentos e os atacou
pelo Muraisi', um curso d'água situado nas proximidades do lito­
ral, entre Medina e Kudaid, tendo "capturado 2 mil camelos, 5 mil
ovelhas e duzentas mulheres",2 entre elas Barrah, a filha do chefe,
a quem o Profeta tomou como esposa, a fim de consumar sua vi­
tória. A divisão do butim (ou algum outro incidente) quase pro­
vocou uma batalha entre os Ajudantes e os Emigrantes. Por sua
vez, os partidários de Abdallah Ibn Ubayy deram sinais de recupe­
ração. Contam que nessa ocasião empregaram estas palavras peri­
gosas: "Se retornarmos a Medina, o mais forte de nós se tornará o
mais fraco."
A velha história do cachorro que morde a mão que o afaga
parece ter sido sugerida a Abdallah como exemplo da conduta dos
Emigrantes com os Ajudantes. Numa situação como essa, Omar
teria solucionado as dificuldades com Abdallah Ibn Ubayy por
meio da espada, mas o Profeta não deu permissão para isso e dei­
xou o acampamento no calor do meio-dia, a fim de que os solda­
dos, pelo cansaço, esquecessem o dissabor.3 Logo Maomé recebeu
do filho do arqui-hipócrita o pedido de autorização para matar o
pai, caso isso fosse necessário. Omar foi forçado a admitir que o

1. Ishak identifica Sha'ban, a.H. 6, como dezembro de 627-janeiro de 628. Já Wakidi si­
tua-a um pouco antes.
2. Wakidi ( W.) , 1 78.
3. Ibid., 1 82.

296
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

método do Profeta era superior ao seu, e, embora o parricídio não


tenha sido autorizado, conta-se que o filho de Abdallah serviu ao
pai certa quantidade de água na qual o Profeta se havia lavado, na
esperança de que isso pudesse abrandar seu coração.4
Um evento ainda mais sério do ataque contra os Banu Musta­
lik foi a desonra de Aisha. A última vez que a encontramos, ela
havia sido arrancada de suas brincadeiras de menina para se ca­
sar com o Profeta, por quem demonstrara uma aversão infantil e
natural. Tendo agora chegado ao décimo quinto ano de vida, ela
aprendera a apreciar as vantagens do posto de favorita real e de­
senvolvera uma natureza arrogante, que a fez angariar muitos ini­
migos. O Profeta, para quem era difícil manter a paz em seu ha­
rém, adotou o plano de deixar que as mulheres decidissem por
sorteio quem teria a honra de acompanhá-lo nas expedições, e
Aisha fora contemplada nessa ocasião. Quando o exército iniciava
o caminho de volta, Aisha, que se encontrava na retaguarda, dete­
ve-se para pegar um colar que deixara cair na areia. O colar fora
encontrado por um jovem chamado Safwan, filho de Al-Mu'attal,
que também ficara para trás; ela foi escoltada por ele até o acam­
pamento. Não sabemos por que se pensou mal daquilo que para
nós parece uma ocorrência perfeitamente natural; mas devemos
lembrar que, nessa época, a mentalidade dos muçulmanos era um
tanto envenenada pela licenciosidade; por isso, qualquer encontro
entre pessoas de sexos diferentes dava origem a rumores sinistros.
O suposto delito de Aisha era afirmado com avidez por uma
série de pessoas. Dentre elas havia reconhecidos intrigantes, como
o covarde poeta Hassan Ibn Thabit, que provavelmente já fora
vítima da língua de Aisha; outros que eram movidos por interesse
nas rivais de Aisha no harém, ou que desejavam usar o assunto
como capital político, com o propósito de criar problemas para o
Profeta. É nesse contexto que se menciona o famigerado Abdallah
Ibn Ubayy. Na verdade, argumentava-se que, punindo Aisha, o

4. Tab., Comm., xxviii, 69.

297
DAVID SAMUEL M ARGOLIOUTH

Profeta certamente ofenderia seu mais fiel aliado, o pai dela, ao


passo que, desculpando a ofensa, se mostraria desprezível e daria
motivo para que os poetas a serviço de seus inimigos se aprovei­
tassem da situação.
Silenciar o assunto era impossível, e as violentas discussões que
o tema produziu ameaçavam provocar uma guerra civil. Enquan­
to isso, o Profeta tratava Aisha com visível desfavor, chegando a
permitir que ela voltasse para a casa dos pais, talvez para sempre.
Isso significava divórcio, e era o caminho recomendado por Ali,
que também se esforçava por obter alguns testemunhos contra
Aisha. Mas as pessoas não estavam dispostas a se envolver em in­
trigas, quer contra Maomé, quer contra Aisha. Esta, ao ser aberta­
mente questionada pelo Profeta na presença de seus pais, recusou­
-se, de forma indignada, a responder; ela seguia o exemplo do pai
de José (Aisha confessou ter esquecido o nome de Jacó),* que, sob
dolorosas circunstâncias, refugiou-se "invocando paciência".
Felizmente para ela, o Profeta não era nenhum Otelo,** mas
um homem cujo julgamento poucas vezes revelava falta de equi­
líbrio. Se julgasse Aisha culpada, não era desejável reconhecer a
suspeita, uma vez que o descrédito, ao recair sobre Abu Bakr, afe­
taria sua própria causa, mesmo que esse aliado fiel não o deixasse.
O Profeta recorreu a uma revelação; cobriu-se todo e em seguida
exibiu um violento estado de transpiração. Enquanto isso durou,
a plateia provavelmente encontrava-se em estado de febril ansie­
dade em relação ao resultado. Alguns se lembraram da decisão que
ele tomara quando ocorreu um caso de adultério entre os judeus
e estes recorreram ao Profeta. Maomé rejeitara deliberadamente a
alternativa mais demente e condenara os acusados ao apedreja-

* Jacó: também conhecido como Israel, terceiro patriarca da Bíblia; arqueólogos não
encontraram, contudo, qualquer evidência significativa de sua historicidade. [N.T.]
** Otelo: personagem de William Shakespeare, da peça Otelo, o mouro de Veneza, cuja
trama, uma das mais conhecidas de Shakespeare, culmina com o assassinato de
Desdêmona, esposa do protagonista que, movido pelo ciúme, a mata e depois se
suicida. [N.T.]

298
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

mento. Mesmo no caso da esposa de um dos seus seguidores, con­


ta-se que ele seguiu a lei.5
Será que esse horrível fado recairia sobre aquela menina que
desabrochava, que reivindicava a primazia no harém, a imperti­
nente namoradeira, como as outras a chamavam? Ela, que fez tan­
tas vítimas de sua indolência e seus caprichos que levou o Profeta
ao extremo de se julgar devedor de seu pai? Teria o Islã efetiva­
mente extinguido os instintos naturais a ponto de permitir que o
pai de Aisha continuasse a ser o braço direito do Profeta, caso esse
desastre chegasse a acontecer? Aquela era uma nuvem muito es­
cura, mas a revelação de Maomé fez com que ela passasse clara
sobre a cabeça das pessoas que tinham cometido a insolência de se
intrometer em seus assuntos domésticos. Deus Todo-Poderoso
declarou Aisha inocente e protestou contra a conduta daqueles
que por certo tempo a tinham posto sob suspeita. A altiva Aisha
disse ao marido que agradecia a Deus, mas não devia nenhum
agradecimento a ele.6
Violentos castigos pessoais foram administrados aos intri­
gantes, inclusive, de acordo com uma narrativa, o poeta da corte
Hassan, filho de Thabit. Segundo outro relato,7 Hassan fora ferido
por alguém envolvido no caso, Safwan, filho de Mu'attal. A prova
de adultério a ser exigida dali em diante era de tal ordem que seria
praticamente impossível obtê-la. No futuro, a privacidade do Pro­
feta deveria ser protegida das línguas intrigantes. O temporário
descrédito de Aisha era amplamente expiado pela honra e pela
glória de uma comunicação de Deus Todo-Poderoso, cuja inten­
ção direta fora esclarecer o caráter da jovem. Quanto ao valente
guerreiro Ali, ele teve nessa menina um inimigo cuja vingança o
acompanhou sem descanso por 35 anos.8 No intuito de não disse-

5. Bokhari ( C.), ii, 69.


6. Musnad, vi, 30.
7. Wakidi (W.), 189.
8. Um dia, Abu Bakr ficou chocado ao ouvir Aisha dirigindo-se a seu ilustre marido, em
voz alta e mal-humorada. Ela o acusava de preferir Ali a seu pai. Musnad, iv, 275.

299
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

minar mal-estar entre seus seguidores, o Profeta logo compensou


Hassan pelo ferimento, ou por ter sido espancado, presenteando-o
com uma propriedade e uma concubina.
O fato de Medina não estar a salvo dos inimigos internos suge­
riu ao Profeta alguns passos na direção da retomada de Meca. No
mês anterior ao da peregrinação (março de 628), ele determinou
que se fizesse uma tentativa para assistir ao festival e anunciou que
Deus lhe dissera, em sonho, que ele devia entrar na mesquita sa­
grada.9 De acordo com a tradição, era extremamente seguro -
tanto para Maomé quanto para qualquer outro árabe ou estran­
geiro - fazer a peregrinação durante o mês sagrado. Mas, como o
próprio Maomé violara o mês sagrado antes da Batalha de Badr,
ele perdera o direito de que todos gozavam. Ao que consta, o Pro­
feta lançou uma proclamação às tribos árabes ao redor de Medina
convidando seus membros a acompanhá-lo em sua expedição sa­
grada, na expectativa de impressioná-los com o fato de se dedicar
tanto à preservação da religião nacional.
Esse apelo encontrou uma fria resposta, no entanto; entre seus
asseclas em Medina, de 700 a 1 .400 estavam dispostos a seguir
com ele, e, de modo coerente, começaram a separar certo número
de camelos,para o sacrifício. Os animais foram enfeitados com
esse objetivo em Dhu'l-Hulaifah - ao que parece, a cerca de
seis milhas de Medina. Maomé enviou então um de seus espiões
khuza'itas para descobrir o que os mequenses estavam fazendo.
O espião encontrou-se com ele na fonte de Ashtat, próximo a
'Usfan, levando notícias de que os mequenses tinham reunido
uma grande força, postado inúmeras sentinelas entre Sarawi e
Baldah, onde eles acamparam, e mandado Khalid, com duzentos
cavaleiros, para Kura' al-' Amim.1 0
Ao ser informado dos preparativos, Maomé lamentou-se por­
que os mequenses não haviam deixado que os árabes lidassem

9. Sura xlviii, 1 7.
10. Wakidi ( W.), 244.

300
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

com ele - caso em que teriam se livrado dele, sem qualquer pro­
blema para si mesmos, ou se juntado a ele, sem perdas, caso fosse
bem-sucedido. Ocorreu-lhe a possibilidade de tomar Meca de sur­
presa, se entrasse pelo passo de Dhat al-Hanzal, rota secundária,
conhecida de poucos, que seus guias conseguiram achar com algu­
ma dificuldade. Por isso eles emergiram em Hudaibiyah, a cerca de
oito milhas de Meca, acreditando que as forças mequenses, cientes
de seus planos, estavam preparadas para encontrá-los. Contudo, a
razão que ele alegou mais tarde para desistir da investida contra
Meca foi o medo em relação ao destino dos muçulmanos que vi­
viam (em retiro) naquela cidade, ou o temor de que seu camelo
fosse detido na estrada por uma força divina - o mesmo poder
que deteve o elefante etíope.
Se, no entanto, a ideia de atacar Meca teve de ser abandonada,
a intenção da peregrinação ainda permanecia de pé, bem como
a vontade de impressionar os mequenses com uma demonstra­
ção de seu poder e sua riqueza, da reverência e da veneração que
inspirava. Não é provável que algum encontro efetivo tenha tido
lugar entre os crentes e os não crentes; mas os coraixitas faziam
repetidos contatos para saber o que Maomé queria, e se manifes­
taram determinados a não o deixar entrar na cidade, quer viesse
como amigo, quer como inimigo; ao mesmo tempo, as garantias
dadas a respeito das intenções pacíficas do Profeta foram recebi­
das com extremo ceticismo por Budail, filho de Warka, o khuzàita,
e 'Urwah, filho de Mas'ud, o thakafita (reencontraremos esses dois
homens adiante).
Finalmente, os mequenses enviaram o líder de seus aliados,
Hulais, filho de 'Alkamah, que Maomé sabia ter escrúpulos reli­
giosos. O Profeta tomou precauções para que esse homem visse os
camelos sacrificiais e os peregrinos despenteados. Afetado pela
visão, 'Hulais instou os mequenses a fazer um acordo com seus
visitantes indesejados. 1 1

1 1. Ibid., 252; Musnad, iv, 323.

301
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

Logo determinou-se que fosse enviado um representante a


Meca, mas a consciência de que a maioria dos muçulmanos estava
manchada com o sangue mequense não dispôs os heróis do Islã a
arriscar a vida na missão; até Omar, em geral pronto para lutar, re­
cuou. No fim, o genro do Profeta, Othman, filho de 'Affan, que op­
tara por tomar conta da esposa em vez de participar da Batalha de
Badr, foi enviado como grata persona. Ele ficou em Meca cerca de
três dias, aproveitando a oportunidade para visitar as famílias mu­
çulmanas que haviam ficado na cidade. Quando surgiram boatos de
que ele tinha sido morto, firmou-se um pacto solene entre os segui­
dores do Profeta, que apertaram a mão de Maomé sob uma árvore,
comprometendo-se a não voltar as costas se tivessem de lutar.12
Ma'kil, filho de Yasar, segurou um ramo sobre a cabeça do Profeta.
Os rumores, contudo, mostraram-se falsos. Othman saiu-se
bem na tarefa de convencer seus ex-concidadãos de que o Profeta
não queria causar danos, e que aquela era uma ocasião para as
comunidades assinarem um tratado que vigorasse por alguns
anos, pois ambos os lados teriam de suportar muito sofrimento
com uma guerra prolongada. Provavelmente os mequenses eram
os mais dispostos a ouvir, porque alguns de seus hesitantes aliados
estavam chocados com o fato de os adoradores serem proibidos de
honrar a Deus em sua casa sagrada, e ameaçavam se rebelar caso
os coraixitas persistissem na blasfêmia. Eles enviaram a Maomé,
como plenipotenciário, Suhail, filho de 'Amr, famoso como ora­
dor, que fora capturado em Badr e depois resgatado. Parece que
ele considerou um blefe a demonstração com que Maomé procu­
rara impressionar os inimigos, e obteve vantagens do Profeta que
fariam corar os muçulmanos - na realidade, teriam feito Omar
virar um renegado, caso pudesse encontrar seguidores. 13
No documento que prepararam, não eram permitidas a auto­
proclamação de Maomé como mensageiro de Deus nem a identi-

12. Musnad, v, 25; cf. iii, 292.


13. Wakidi ( W.), 255.

302
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

ficação de Alá como o Rahman do Profeta. A paz entre coraixi­


tas e muçulmanos devia vigorar durante dez anos, e as tribos es­
tariam livres para ingressar na confederação do lado do Profeta
ou do lado dos coraixitas. 14
Os que haviam fugido de Meca para Medina deviam ser re­
clamados, mas os renegados que escaparam para Meca não seriam
devolvidos. As forças maometanas teriam de voltar a Medina, po­
rém, no ano seguinte, um grupo desarmado de muçulmanos po­
deria fazer a peregrinação. Por isso Meca seria evacuada durante
três dias. Para provar que Maomé tencionava honrar esse tratado,
não se fez nenhuma tentativa de resgatar o filho de Suhail, que,
tendo se tornado muçulmano, estava preso em Meca. Na noite
que se seguiu à assinatura do tratado, por pouco as hostilidades
não irromperam, em virtude do assassinato - confessado pelos
mequenses - de um muçulmano chamado Zanim, ou Ibn Za­
nim. O Profeta, porém, conseguiu acalmar os distúrbios.15 Mas
os muçulmanos ficaram em silêncio, demonstrando mau humor,
quando foram instruídos a raspar a cabeça e oferecer seus sacrifí­
cios. Por fim, atendendo ao conselho de sua esposa Umm Sala­
mah, o próprio Maomé fez isso, e seus seguidores o imitaram. 16
Os motivos que guiaram o Profeta nesse cenário (que é descri­
to com vivacidade incomum pelos biógrafos) podem ser adivi­
nhados. Ele certamente submeteu-se à humilhação, visto que seus
seguidores, embora tenham matado os camelos e raspado a cabe­
ça, podiam perfeitamente, pronunciando as palavras de praxe, in­
gressar em segurança no recinto sagrado. Além do mais, os termos
nos quais o direito à peregrinação fora concedido pelos coraixitas
envolvia uma condição que os favorecia mais que aos muçulma­
nos: a cláusula a respeito da extradição dos desertores. Porém,
Maomé julgou que se alguém quisesse abandoná-lo, seria melhor

14. Ishak, 803.


IS. Musnad, iv, 49.
16. lbid., iv, 325.

303
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

que fosse para longe mesmo.17 Medina, observou ele - fazendo


uma comparação com um beduíno que, depois de ter tido febre,
desejava ficar livre de seu juramento de lealdade -, era como uma
fornalha que descarrega as impurezas enquanto retém a pureza
do ouro.18
O Profeta também estava ciente de que os tratados têm pouca
utilidade quando podem ser descumpridos em segurança pelo
outro lado, e não foi econômico em momento algum nas conces­
sões verbais. Se Omar o tivesse abandonado, como ameaçou fazer
diversas vezes durante esses episódios, o Profeta teria suportado a
perda. Ele sabia muito bem, todavia, que Omar e seus outros se­
guidores temiam essa catástrofe, e ele tinha em suas mãos o trunfo
de Khaibar.
O capítulo do Alcorão que a tradição relaciona a esses episó­
dios adota um tom triunfante que as circunstâncias não parecem
justificar. Ele é, contudo, endereçado aos árabes que não quiseram
acompanhar a expedição, aos quais acusa de supor que o Profeta
não voltaria vivo. O texto afirma que os muçulmanos obtiveram
uma vitória sobre os coraixitas no vale de Meca, e que um derra­
mamento de sangue posterior fora evitado pela intervenção divi­
na. Essa declaração devia ter como alvo "aqueles que foram deixa­
dos para trás': Todavia, lhes foi dada a oportunidade de pegar em
armas contra uma força poderosa, tendo sido ameaçados de "ter­
rível punição" caso se recusassem a obedecer. Aparentemente, as
tribos às quais ele se refere experimentaram a mesma mudança
em suas condições que acometera grande parte da população de
Medina. Originariamente envolvidos numa aliança defensiva, eles
foram obrigados, pela força dos acontecimentos, a se oferecer para
fazer um serviço externo.
Verificou-se em pouco tempo que a cláusula no tratado que
previa a devolução dos prosélitos coraixitas a Meca, sem a extradi-

17. Musnad, iii, 268.


1 8. Ibid., 365.

304
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

ção correspondente de um muçulmano, era tão inviável quanto


previra o Profeta quando a aceitou. A pompa e a circunstância que
envolveram a expedição a Hudaibiyah foram eficazes, e mais ainda
a magnificência das oferendas à casa de Deus. Quando a nova re­
ligião acarretou um aumento na reverência pelo santuário dos
mequenses, a questão do dogma já interessava a poucos. Os corai­
xitas estavam cada vez mais orgulhosos de seu parente, e começa­
vam a prestar em seu próprio país as homenagens de que ele era
alvo em outros lugares. Se esse filho de Meca era tratado pelos
estrangeiros com uma adoração não desfrutada por nenhum ou­
tro monarca na Terra, estariam eles sendo sábios ao repudiar tão
honrosa conexão?
'Ut-bah, filho de Usaid, escapou de Meca para Medina e foi re­
clamado pelos mequenses, que enviaram dois homens para bus­
cá-lo. Maomé foi fiel à sua palavra e deixou-os levar o prosélito.
Mas o exemplo de 'Amr, filho de Umayyah, era do conhecimento
do neófito. Sob pretexto de examinar a espada de um dos seus
guardiões, ele se apossou da arma e partiu para o ataque ao captor.
Este e o assistente fugiram. De volta a Medina, ele recebeu um con­
selho do Profeta. Se conseguisse organizar um bando de prosélitos,
o tratado com Meca talvez fosse rompido. Esse muçulmano em­
preendedor não teve muita dificuldade na tarefa, e, durante certo
tempo, o bando emboscou e assaltou as caravanas de Meca. Por
fim, desesperados, os mequenses imploraram ao Profeta que rom­
pesse o tratado e oferecesse a esses fiéis um refúgio em Medina.
Como era de se esperar, algumas senhoras mequenses senti­
ram-se atraídas pela fama que o Profeta adquiria e desejaram se
unir a ele em seu refúgio, eventualmente, em consequência de al­
guma irritação após uma discussão conjugal.19 Nesses casos, fez-se
um simples arranjo. Para uma mulher, o presente de casamento
(um substituto do dote) era a parte mais importante de sua iden­
tidade. Por conseguinte, se as mulheres ficassem mas os presentes

1 9. Tabari, Comm., xxviii, 42.

305
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

de casamento trazidos a elas por seus maridos infiéis fossem de­


volvidos, nenhuma injustiça real seria cometida. Essas visitantes
bem-vindas encontraram com facilidade novos laços em Medi­
na, embora algum tipo de exame 20 devesse ser empreendido para
atestar a autenticidade da sua fé, talvez mesmo para verificar se
elas não eram iscas cuja fuga tinha por objetivo afastar os verda­
deiros crentes de sua fé.
Tempos depois, quando a fraqueza do Profeta já era conhecida,
belas mulheres se apresentavam a ele, ou eram-lhe enviadas de
diversas partes da Arábia; ou os maridos de belas e férteis mulhe­
res ofereciam-se para entregá-las ao Profeta.21 Mesmo em Medina,
sempre que uma mulher ficava viúva, seus parentes procuravam
saber se Maomé gostaria de tê-la em seu harém. 22 Uma passagem
em que o Profeta rejeita uma moça baseado no fato de que "ela
jamais gritou nem se queixou"23 revela o tipo de predicado que ele
buscava numa esposa.
Outro conscrito que foi a Meca nessa época, e ocupou inicial­
mente um lugar humilde entre os pobres na mesquita de Medina,
estava destinado a ter uma posição de destaque na evolução do
Islã. Esse homem era Abu Hurairah, a respeito de cuja origem e
nome há numerosas versões (talvez trinta ou quarenta) . Quando
o Profeta já havia morrido, e seus ditos se tornaram preciosos,
Abu Hurairah alcançou fama e importância por ter sempre na
ponta da língua um inesgotável estoque deles. Seu lugar no Islã
pode ser comparado, de acordo com algumas teorias, com o lugar
ocupado pelo autor do quarto Evangelho na evolução do cristia­
nismo.* Onde quer que um dito atribuído a Maomé seja conside-

20. Sura lx, 10.


2 1 . Foi esse o caso de 'Uyainah, filho de Hisn. Isabah, iii, 108.
22. Musnad, iv, 422.
23. lbid., iii, 155.
* São João: um dos doze apóstolos de Cristo, filho de Zabedeu e irmão de Tiago Maior;
segundo a tradição, o autor do quarto e último Evangelho, na maior parte dedi­
cado a eventos da vida de Jesus Cristo e suas palavras nos últimos dias antes da
morte. [N.T.]

306
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

rado místico ou sublime, onde quer que o Profeta assuma o valor


de um santo medieval ou de um asceta, o mais provável é que Abu
Hurairah tenha sido o responsável por isso.
O admirável conhecimento que Abu Huiraiah tinha a respeito
do que o Profeta havia dito despertou certo ceticismo sobre a au­
tenticidade de sua sabedoria, mesmo naquela época. Porém, ele
explicava esse conhecimento em parte por um milagre forjado
pelo Profeta e em parte pela afirmação de que, enquanto os Aju­
dantes se ocupavam de suas palmeiras e os Emigrantes, do comér­
cio a varejo, 24 sua preocupação era ouvir e registrar o que o Profe­
ta dizia. A transformação da imagem de Maomé na mente dos
homens, de estadista e guerreiro em santo e filantropo, deve-se em
grande parte às invenções de Abu Hurairah, o primeiro tradicio­
nalista. Seu método foi adotado depois por muitos muçulmanos
e provavelmente fez mais bem do que mal, mas a honra de inven­
tá-lo parece pertencer a esse engenhoso converso.
A volta do Profeta de Hudaibiyah foi marcada por um sucesso
discreto, ilustrando o grau de coragem e competência que se podia
esperar então de um combatente muçulmano. A história pode ser
contada nas palavras do principal ator, que deve ter exagerado
suas façanhas mas talvez não tenha comprometido seriamente a
representação dos fatos.25 Diz Salamah, filho de Al-Akwa:
Chegamos a Medina, vindos de Hudaibiyah, com o Profeta. Ru­
bah, o escravo do Profeta, e eu levamos seus camelos para pastar,
e eu levei também o cavalo de Talhah, filho de Ubaidallah. No
meio da noite, os camelos foram atacados por Abd al-Rahman,26
filho de 'Uyainah, que matou o homem que tomava conta dos
animais e conseguiu levar os camelos, com a ajuda de alguns ho­
mens a cavalo. Eu roguei a Rubah que subisse no cavalo, corresse
até seu dono, Talhah, e informasse o Profeta do ataque a seus
camelos. Ao chegar no alto de uma colina, virei meu rosto na

24. Muslim, ii, 261 .


25. Musnad, iv, 52, 53. Outros atribuem uma data diferente ao evento.
26. Esse nome, que só poderia ter pertencido a um muçulmano, está incorreto.

307
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

direção de Medina e pus-me a gritar "Ataque!", três vezes. Em


seguida, corri atrás dos agressores com minha espada e minhas
flechas e consegui acertá-los e ferir seus cavalos. O terreno ali era
coberto de árvores, e quando um cavaleiro cavalgou na minha
direção eu sentei-me ao pé de uma árvore e atirei no cavalo que
ele montava, gritando meu nome. Quando o desfiladeiro estrei­
tou-se, cheguei ao topo da colina e comecei a arremessar pedras
sobre eles. Fiz isso até que tive todos os camelos que pertenciam
ao Profeta do meu lado, em segurança. Isso continuou até que
eles mirassem trinta lanças em mim e se desfizessem de trinta
mantos, para aliviar a carga de seus cavalos. Atirei uma pedra em
cada um. Perto do meio-dia, foram trazidos reforços para eles
por 'Uyainah, filho de Badr, da tribo Fazarah. Os inimigos esta­
vam numa ravina estreita, e eu, na montanha acima dela. 'Uyai­
nah perguntou-lhes quem eu era, e eles responderam que eu lhes
criava muitos problemas e tinha lhes tirado tudo o que fora pi­
lhado. 'Uyainah afirmou que, sem dúvida, eu devia ter alguns
reforços atrás de mim, senão os teria deixado em paz. Então, qua­
tro homens de seu comando subiram a montanha para me atacar.
Quando lhes disse quem eu era, assegurei-lhes que nenhum deles
poderia lidar comigo ou correr mais rápido que eu, se os seguisse.
Um deles retrucou: "Não acho que seja assim." Mas, nesse mo­
mento, vi alguns dos cavaleiros do Profeta entrando na floresta.
O primeiro era Al-Akhram, da tribo Asad, seguido por Abu-Ka­
tadah, o melhor cavaleiro do Profeta, e depois por Al-Mikdad.
O inimigo imediatamente deu meia-volta e fugiu. Eu corri colina
abaixo e, segurando as rédeas do cavalo de Al-Akhram, pedi que
ele tomasse cuidado, porque o inimigo poderia decepá-lo. Era
melhor ele esperar, disse eu, até que o Profeta e seus seguidores
aparecessem.
"Salamah", respondeu ele, "se você acredita em Deus e no
último dia, e sabe que o jardim é real e que o fogo é real, então
não fique entre mim e o martírio." Eu então soltei as rédeas e
galopei até Abd Rahman, filho de 'Uyainah, que caiu sobre ele, e
os dois trocaram golpes de espada. Al-Akhram acabou sendo
morto, e o cavalo de Abd al-Rahman ficou incapacitado. Abd al­
-Rahman montou o cavalo de Al-Akhram, mas foi imediatamen­
te atacado por Abu Katadah. Nesse momento, Abd al-Rahman foi

308
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

morto e o cavalo de Abu Katadah ficou incapacitado. Abu Kata­


dah montou no cavalo de Al-Akhram, mas, enquanto isso, corri
até ficar na frente de meus amigos e desviei o inimigo, com mi­
nhas setas, de um poço em que eles pretendiam se abastecer de
água. Chamei Dhu Karad e me apossei de dois de seus cavalos,
levando-os para o Profeta, que agora contava com cinquenta ho­
mens. Então eu roguei ao Profeta cem homens, prometendo sur­
preender e aniquilar, com a ajuda deles, todos os inimigos. Mas
antes que eu começasse, chegaram notícias ao Profeta de que eles
estavam no país do Ghatafan, onde um chefe abatera um camelo
para distraí-los. Porém, vendo a carne do camelo já sem a pele e
acinzentada, eles ficaram assustados com o mau presságio e fugi­
ram em desabalada carreira para suas casas. Por isso o Profeta me
deu, do butim, o correspondente às partes de um soldado de in­
fantaria e de um cavaleiro. Quando regressamos a Medina, sen­
tou-me em seu camelo, e fui atrás dele.

Toda vez que o Profeta falhava, ou quando seu sucesso não era
completo, ele compensava atacando os judeus; essa política serviu
muito bem, até que fora temporariamente abandonada depois do
insatisfatório caso de Hudaibiyah. Por isso logo se planejou um
ataque aos judeus de Khaibar.27 Essa aldeia era conhecida como a
mais rica do Hijaz. De acordo com o seu nome (que em hebraico
significa "comunidade"), deve ter sido originalmente uma colônia
judaica, separada de Medina por cerca de cem milhas de extensão
de harrah, ou formação de lava.28 Raramente visitada pelos euro­
peus, a área serviu de residência ao grande explorador Doughty*
por alguns meses, em 1 877. O oásis à margem do qual Khaibar
está situada é extremamente fértil e foi cultivado pelos judeus com
extrema habilidade. Além disso, o local era bem fortificado. Ibn
Ishak menciona os nomes de muitas fortalezas; algumas partes das

27. Muharram, a.H. 7, identificado como junho de 628 d.C.


28. Doughty, i, 73.
* Charles Montagu Doughty: poeta e escritor inglês; seu trabalho mais conhecido é o
livro de viagens Traveis in Arabia Deserta, publicado pela primeira vez em 1888 e que
teve diversas edições. [N.T.]

309
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

velhas fortificações sobrevivem até hoje. Hisn, ou a cidadela de


rocha basáltica, ergue-se solitária no Wadi Zeydieh, e a aldeia de
argila é construída na vertente sul. O comprimento da plataforma
murada é de duzentos passos por noventa de largura.
A essa altura, Maomé já conhecia os judeus perfeitamente
para saber que não enfrentaria dificuldade alguma em atacar suas
fortificações, embora elas fossem poderosas. Seguindo o mesmo
princípio do ataque contra Uhud, ele só se deixou acompanhar
por aqueles que haviam participado da expedição a Hudaibiyah.
A rota que tomou demandou-lhe três dias; os nomes dos locais em
que ficou são preservados pelos biógrafos, mas, por outro lado,
são localidades desconhecidas.
Conta-se que Abdallah Ibn Ubayy (cujo nome os judeus nessa
época provavelmente maldiziam) teria avisado os habitantes de
Khaib.ar do temporal que estava por vir, e os judeus - a quem
isso, aliás, dificilmente poderia passar despercebido - enviaram
um pedido de auxílio às tribos do Ghatafan, cujo lar ficava nas
vizinhanças. Maomé, com habilidosos guias da tribo Ashja', conse­
guiu descobrir um caminho entre o Ghatafan e Khaibar, e, desfe­
chando um ataque simulado sobre as possessões dos primeiros,
evitou o perigo de se formar uma confederação. Parece que a aju­
da cordial raramente vigorava entre os israelitas, que, como foi
visto, abandonavam regularmente uns aos outros à destruição.
A oração do Profeta, proferida por ocasião desse ataque, foi
fielmente registrada. Nessa época, seu Deus adquirira os princi­
pais atributos da Laverna romana, a deusa dos ladrões, e ele rezava
para que obtivessem um rico butim. Na realidade, é provável que
já tivesse consultado a palavra de Deus para saber do sucesso da
expedição. Quando divulgou a revelação a respeito de Hudaibiyah,
disse que Deus lhes prometera muita pilhagem, e começava por
dar-lhes aquilo (isto é, Khaibar). Essa incursão numa cidade a cem
milhas de Medina, na direção oposta daquela tomada por suas
incursões anteriores, mostra que ele já cogitava a conquista da
Arábia, se não do mundo.

310
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Wakidi fez um longo relato do cerco, e os judeus parecem ter


se defendido melhor do que era de se esperar. Algumas narrati­
vas prolongam-no por dois meses, e, durante o primeiro mês, os
judeus acreditaram que seriam ajudados pelos aliados árabes. Es­
tes, no entanto, aproveitaram a oportunidade para abandoná-los,
por causa de um boato de que suas casas tinham sido atacadas. As
fortificações judaicas resistiram bem, mas conta-se que em uma
delas, chamada Sa'b, muitas vidas foram perdidas. Alguns dos
judeus de Khaibar mereceram respeito pela capacidade de luta.
Um certo Marhab, antes de morrer, matou o irmão do assassino
Mohammed, filho de Maslamah. Depois caiu nas mãos do próprio
assassino, ao que parece, numa luta não muito justa. Porém, quan­
do Khaibar se rendeu, o prisioneiro foi entregue a Mohammed,
filho de Maslamah, e assassinado por ele.29
Com o passar do tempo, o exército muçulmano esteve pres­
tes a se retirar, pela necessidade de comida. Contudo, havia trai­
dores entre os judeus de Khaibar, e, com a ajuda deles, alguns for­
tes foram atacados; outros traidores revelaram aos muçulmanos
o lugar onde os equipamentos de cerco estavam escondidos e
instruíram o inimigo sobre seu uso.30 Maomé refletiu então so­
bre o plano que logo se tornaria uma destacada instituição do
Islã. Matar ou banir os operosos habitantes de Khaibar não seria
uma boa política, uma vez que não era desejável que os muçul­
manos, constantemente ansiosos por prestar serviço nas áreas de
operação, se estabelecessem tão longe de Medina. Ademais, suas
qualidades como agricultores não eram equivalentes às dos ex­
-proprietários das terras. Assim, o Profeta decidiu deixar os judeus
na área, recebendo como pagamento a metade do que produzis­
sem, avaliada por Abdallah, filho de Rawahah,31 em 200 mil wasks
de tâmaras.

29. Isabah, iii, 788.


30. Wakidi ( W.), 269.
3 1 . Musnad, iii, 367.

311
DAVID SAMUEL M A RGOLIOUTH

Esses judeus de Khaibar foram os primeiros dhimmis, ou mem­


bros de uma casta de súditos cujas vidas deviam ser garantidas,
mas cujos rendimentos se destinavam a apoiar os verdadeiros
crentes. Posteriormente, o fanático Omar desalojou os pobres
agricultores a quem o Profeta havia poupado. Embora tenham
conservado suas vidas e suas terras, os judeus perderam todos os
seus bens, menos os rolos da Lei. Como o compromisso de Alá
poderia ser redimido? Os dhimmis, ou raças sujeitadas, deviam seu
nome à relação de cliente e patrão, que, como vimos, foi de grande
importância na Arábia. O cliente em geral era um homem que,
por uma ou outra razão, colocava-se sob a proteção de uma tribo
que não a sua, que, por algum motivo, o defendia de seus inimi­
gos. Portanto, os muçulmanos responsabilizavam-se por proteger
e lutar pelos não muçulmanos que reconheciam sua supremacia,
embora rejeitassem o Profeta. Os muçulmanos que matassem
membros dessas comunidades protegidas eram ameaçados com
severas penalidades.32 O reconhecimento, por parte de Maomé, do
princípio de que um pagamento em dinheiro substituiria a adesão
religiosa mostra-nos que o Profeta não era muito fanático.
A tomada de Khaibar foi marcada por dois eventos que, embora
não tivessem importância permanente, tornaram a cena vívida.
Huyayy, filho de Akhtab, tinha sido o mais obstinado adversário do
Profeta entre os judeus e fora assassinado, como se viu, por ordem
de Maomé. Sua filha Safiyyah33 era casada com Kinanah, neto de
Abu'l-Hukaik e, como seu pai, um dos nadiritas que buscaram re­
fúgio em Khaibar. A cobiça do Profeta foi estimulada pela lem­
brança de alguns ricos vasos de prata que o pai de Safiyyah possuía,
e eram a glória de sua casa. A família foi solicitada a trazer todas as
suas posses e a não ocultar nada, sob pena de execução. Eles esta­
vam ansiosos por salvar os vasos, tanto quanto o Profeta por rou-

32. Ibid., iv, 237ss.


33. A palavra significa titbit, isto é, um artigo especialmente selecionado pelo conquis­
tador do butim. É improvável que fosse esse o nome da mulher.

312
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

há-los. Depois de escondê-los, a família jurou que os vasos tinham


sido vendidos ou derretidos havia muito tempo.
O arcanjo Gabriel revelou ao Profeta onde estavam os va­
sos, o que não era difícil de se adivinhar, como se vê em I Promes­
si Sposi: * o saqueador com prática sabe quais são as possibilidades
de se esconder algo no caso de uma casa sitiada e descobre o segre­
do no solo recém-revolvido, nos tijolos desconjuntados, nas teias
de aranha ou na poeira recentemente removidas. Algumas coisas
preciosas talvez tenham sido escondidas quando Medina estava
sitiada; os homens agem nesses casos de maneira instintiva ou
uniforme, como formigas. Porém, a produção desses arranjos sig­
nificava a morte para os homens e o cativeiro para as mulheres.34
Safiyyah foi convidada a aceitar o Islã e acabou noiva do assas­
sino do pai, do marido e dos irmãos; casou-se com o inimigo trai­
çoeiro que tinha exterminado todos de sua raça, menos ela.
Safiyyah aceitou a oferta. Alguns muçulmanos prestaram-lhe a
honra de pensar que ela queria fazer o papel de Judith,** mas fize­
ram-lhe mais que justiça. Assim como cada uma das tribos ju­
daicas só cuidava de si, não se importando com a sorte das de­
mais, para essa mulher, um lugar no harém do conquistador com­
pensava a perda do pai, do marido, dos irmãos e da religião.
Beckwourth também achou que algumas poucas horas eram sufi-

* Em português, Os noivos: romance histórico de Alessandro Manroni, considerado


uma das mais importantes obras do gênero na literatura italiana antes da unidade
nacional; a primeira versão foi publicada em 1 827. [N.T.]
34. Cf. Wakidi; porém, Wakidi ( W.) e lbn Ishak afirmam que outro judeu revelou o
esconderijo. Depois disso, Kinanah foi torturado por Al-Zubair e morto por
Mohammed, filho de Maslamah. Os curdos ainda tentaram arrancar tesouros de
seus cativos por métodos semelhantes. Em Musnad, iii, 123, a história de Safiyyah é
narrada de uma forma que não combina com a descrita.
** Judith: um dos livros deuterocanônicos do Antigo Testamento. Teria sido escrito no
fim do século II a.C. ou mais tarde, e baseia-se em fatos ocorridos durante a domi­
nação persa. O livro relata a história de Judith, piedosa viúva que sai da cidade cer­
cada e dirige-se ao acampamento do exército inimigo; com sua beleza envolve o
comandante Holofernes, que se embriaga durante um banquete e tem a cabeça cor­
tada por Judith. [N.T.]

313
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

cientes para adaptar os índios Squaw da América do Norte ao ca­


tiveiro. Retiradas dos banhos de sangue em que seus maridos, pais
e irmãos pereceram, em pouco tempo as mulheres estavam alegres
e felizes. 35
Outra judia, Zainab - a esposa de Sallam, filho de Mishkam,
que figura como partidário de Maomé -, tentou, com sucesso
parcial, um plano que já fora experimentado, mas falhara inteira­
mente. Ela descobriu que o assado era a comida favorita do Profe­
ta, e preparou-lhe um prato temperando-o com bastante veneno.
O convidado do Profeta, Bishr, filho de Al-Bara, se serviu de uma
porção, engoliu-a e morreu em seguida, em meio a convulsões.
O Profeta, experiente com os inimigos que lhe levavam presentes,
regurgitou o bocado antes que ele passasse por sua garganta e foi
submetido a uma sangria para eliminar o veneno.36 No entanto,
três anos depois, quando adoeceu, antes de morrer de febre, atri­
buiu o mal a Zainab, cujo veneno ainda atuaria em seu corpo; por
isso, entre as honras que recebeu, foi incluída a do martírio.
Quando os muçulmanos foram pegar sua parte no butim, ve­
rificaram que a conquista de Khaibar ultrapassava todo e qualquer
benefício que Deus conferira ao Profeta. A parcela equivalente a
um quinto, que ficou para o líder, permitiu-lhe enriquecer as es­
posas e as concubinas, as filhas e os descendentes delas, os amigos
e conhecidos, chegando até os servos. Mil e oitocentos lotes foram
distribuídos pelos 1 .400 combatentes, tendo os duzentos cavalei­
ros recebido, de acordo com o costume, lotes dobrados. A um ba­
julador, Lukaim, o absita, foram destinadas todas as ovelhas de
Khaibar, como recompensa por alguns versos muito apropriados.
Além do mais, não havia receio de que essa riqueza desaparecesse,
como acontecera com o butim anterior, pois os judeus ficaram
para arar a terra que se tornara propriedade dos ladrões. As no­
tícias da vitória alarmaram a aldeia vizinha de Fadak. Seus habi-

35. Autobiography, 147, 180, 296, 297.


36. Jsabah, iv, 400.

314
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

tantes enviaram ao Profeta a metade de seus produtos, antes que


ele fosse até a aldeia e tomasse o que tinham. Pois o lucro todo
cabia a ele, já que fora obtido sem espada nem lança. O rico Wadi
al-Kura, o principal oásis do Hijaz, também caiu em suas mãos
após uma breve luta. Os judeus de Taima aceitaram as mesmas
condições que os demais. 37
A tomada de Khaibar marca o momento em que o Islã passou
a constituir uma ameaça para o mundo todo. Na verdade, Maomé
vivia então, havia seis anos, de saques e bandidagem, mas, ao pi­
lhar os mequenses, ele poderia alegar que tinha sido afetado em
sua honra e em suas propriedades. Ele sofrera, por parte de cada
uma das tribos judaicas de Medina, algum ultraje real ou suposto,
que devia vingar. Os habitantes de Khaibar, porém, àquela distân­
cia toda de Medina, certamente nada haviam feito de errado con­
tra ele e seus seguidores, pois o fato de terem deixado sem vingan­
ça o assassinato de um dos seus pelo emissário do Profeta não era
um ato de agressão.
Quando Ali foi informado de que comandaria as forças contra
Khaibar teve de perguntar por que estava lutando. Disseram-lhe
que deveria obrigá-los a adotar a fórmula do Islã.38 Khaibar foi
atacada porque havia um butim a ser conquistado, e o pretexto
para o ataque era que seus habitantes não eram muçulmanos. Essa
desculpa justificaria atentados a qualquer lugar fora de Medina e
seus arredores. Ao deixar Khaibar, o Profeta parecia já ver o mun­
do ao seu alcance. Isso representava um grande avanço em relação
aos primeiros dias de Medina, quando os judeus deviam ser tole­
rados como iguais, e mesmo os idólatras não eram molestados,
conquanto não manifestassem uma hostilidade aberta. Mas o fato
de uma comunidade ser idólatra, judaica ou qualquer outra coisa
que não maometana justificava um ataque homicida. A paixão

37. Wakidi ( W.), 292.


38. Muslim, ü, 237. Por outro lado, a narrativa de Wakidi mostra a população de Khaibar
envolvida em planos para atacar Medina.

315
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

por novas conquistas dominava o Profeta, assim como antes do­


minara um Alexandre e, depois dele, um Napoleão.
Em Khaibar, os refugiados abissínios juntaram-se a ele. Maomé
declarou que a chegada de alguns deles lhe agradava mais que a
tomada de Khaibar. Havia dezesseis homens e mais ou menos o
mesmo número de mulheres, para os quais o monarca abissínio
havia providenciado dois barcos. Supomos que, depois do massa­
cre dos Kuraizah, e havendo terra de sobra para oferecer-lhes, o
Profeta mandara buscá-los. Ele enviara como presente para o rei
abissínio um jubbah de seda, uma veste que lhe fora presenteada
por um monge,39 talvez como sinal de respeito por um homem
que massacrara tantos judeus.
Dos refugiados abissínios, não poucos terminaram a vida no
exílio: um se tornara cristão e dizia a seus amigos que seus olhos
estavam totalmente abertos, enquanto os deles permaneciam se­
micerrados. Até morrer, o rei abissínio manteve relações amigáveis
com Maomé, mas a hospitalidade bem-intencionada do cristão
não assegurou vantagem alguma àqueles que compartilhavam de
sua religião, quando o processo de rapina alcançou as fronteiras
cristãs. Talvez o homem jamais chegasse longe a menos que se
afastasse de todas as escadas por meio das quais ascendera; outros,
que viessem depois, poderiam sobrepujá-lo.
Quando se incorporou ao Alcorão a homilia que originalmen­
te obtivera os favores do cristão, novos textos foram inseridos,
condenando a teoria cristã da natureza de seu Senhor em termos
nada ambíguos. A doutrina do Filho de Deus foi estigmatizada
como uma blasfêmia suficiente para causar um terremoto ou uma
convulsão geral no Universo. A partir daí, podia-se fazer dos cris­
tãos, impunemente, alvo de pilhagens. Mesmo um cristão que vi­
vesse em Medina era intimado a adotar o Islã, sob pena de perder
metade de seus bens. 40

39. Musnad, iii, 337.


40. Isabah, i, 482.

316
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Por ocasião da campanha de Khaibar, Maomé divulgou seu


programa de conquista do mundo enviando cartas aos governan­
tes de cuja fama ele ouvira falar. Quando lhe disseram que essas
cartas deviam ser seladas, ele providenciou um selo feito de prata,
com as palavras "Maomé, o Profeta de Deus", inscritas depois
numa pedra abissínia.4 1 Conta-se que esse selo adornou o dedo de
seus três sucessores, até que o último deixou-o cair num poço.
Quando, mais tarde, aprendeu que os embaixadores estrangeiros
deveriam receber presentes, Maomé deu início a um procedimen­
to que reservava parte do, tributo de Khaibar para essa e outras
despesas extraordinárias.42 O que se segue é um exemplo dessas
cartas, de acordo com a tradição.43
Em nome de Alá, o Rahman, o Misericordioso. Do Apóstolo de
Alá ao Mukaukis, chefe dos coptas. Paz sobre aquele, que segue a
orientação. A seguir, eu vos intimo com o apelo do Islã: tornai­
-vos um muçulmano e então sereis salvo. Deus vos dará a recom­
pensa duas vezes. Mas se vós, pois, declinardes disso, é culpa dos
coptas. Ó, vós, povo do Livro, vinde fazer arranjo igual entre nós
e vós, que nós não devemos servir a ninguém que não salve a
Deus, nada associando a Ele, e não tomando outro Senhor além
de Deus. E se vós declinardes, então sustentai o testemunho de
que nós somos muçulmanos.

Não sabemos quantas dessas cartas chegaram a seu destino.


Escritores árabes e gregos44 concordam em fixar o ano de 628
como aquele em que a carta de Maomé chegou a Heráclio, muito
embora o ano seguinte estivesse mais de acordo com a tradição de
que o imperador a recebeu em Emesa ou em Jerusalém, onde ti­
nha ido em peregrinação para agradecer por suas grandes vitórias.
Ambas as versões oferecem relatos fabulosos sobre o resultado.

4 1 . Muslim, ii, 1 58.


42. Musnad, iv, 37.
43. Husn al-Muhadarah, l, 47 (nova edição). O documento, de que se oferece um fac­
-símile, contém esse texto. Se a teoria do dr. Butler está correta (ver adiante), ele
certamente não é genuíno.
44. Muralt, Essai de Chronologie Byzantine, fornece a data de abril de 628.

317
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

De todo modo, a história contada pelos árabes, que pode ser falsa,
não contém qualquer erro cronológico. De acordo com esse relato,
Heráclio, ao receber a carta de Maomé das mãos do belo Dihyah,
sob cuja forma o arcanjo Gabriel estava acostumado a aparecer,45
perguntou se algum compatriota do Profeta podia ser encontrado
na Síria. Vivia-se a época da trégua entre mequenses e muçul­
manos; por isso, Abu Sufyan, filho de Al-Harith,46 estava muito
próximo, em Gaza. Ele foi intimado a comparecer à presença do
imperador para explicar a conduta de seu compatriota, e deu res­
postas que, sem qualquer intenção de sua parte, resultaram na
conversão do imperador - fato que, apenas por medo de seus sú­
ditos, ele foi forçado a esconder.
Essa história, várias vezes embelezada, remete supostamente ao
próprio Abu Sufyan, que estava muito impressionado com o ter­
ror que o nome de Maomé inspirava no imperador dos gregos: ele
agora estava convencido do sucesso definitivo do Islã. É difícil des­
cobrir quais elementos de verdade encontram-se escondidos nessa
narrativa. A coincidência de Abu Sufyan estar na Síria - prova­
velmente é histórica - foi suficiente para dar a ideia de que foi
intimado a fazer um relato sobre seu famoso compatriota. Tivesse
sido realmente intimado, ele dificilmente perderia a oportunidade
de procurar obter ajuda para Meca contra o perigoso exilado, de
destacar a ameaça às províncias vizinhas representada pela ascen­
são do poder muçulmano.
Na verdade, de acordo com uma versão,47 Abu Sufyan acusou
o Profeta perante Heráclio, mas sua acusação foi respondida por
um poeta chamado A'sha de Kais. Provavelmente a missiva, numa
língua desconhecida, era considerada indigna da atenção do mo­
narca. Muitos lunáticos de nossa época se preocupam com perso­
nagens da realeza e suas inspirações! Se essa recepção foi realmen-

45. Isabah, i, 973.


46. Ver Wakidi ( W), 329, nota. Nesse relato, Abu Sufyan é apresentado como um paren­
te próximo de Maomé, o que não combina com o tão conhecido Abu Sufyan.
47. Aghani, xv, 58.

318
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

te favorável, sabemos de um laço entre Maomé e o imperador que


pode ter favorecido isso. Para Heráclio, que acabara de ordenar
um massacre de judeus, chegavam as notícias de um Profeta na
Arábia que tinha chacinado seiscentos judeus em um só dia; que,
tendo destruído seus assentamentos em Medina, acabara de trazer
desolação à sua maior e mais florescente colônia, matando os ho­
mens e tornando as mulheres suas concubinas. A pretensão dele a
uma missão divina podia parecer plausível, até que os judeus cris­
tãos fossem substituídos.
De acordo com a tradição, outra carta foi enviada ao rei per­
sa, a quem Heráclio derrotara e que em seguida foi assassina­
do pelo próprio filho. A data da morte desse rei é dada, aparente­
mente,48 com grande precisão - terça-feira, o 1 0° de Jumada I do
ano 7 -,49 cerca de três meses depois da tomada de Khaibar. Figu­
ra-se o rei persa dando à mensagem do Profeta tratamento muito
diferente do que deu Heráclio. Ele a rasgou em pedaços e ordenou
que o governador do Iêmen levasse a ele como escravo quem ou­
sara enviar tal mensagem a seu suserano.
Os mensageiros oficiais dirigiram-se em primeiro lugar a Taif,
cujos habitantes, felicíssimos com a possibilidade de Maomé ter
caído no desagrado do grande rei, encaminharam-nos a Medina.
Lá o Profeta os recebeu com alguma relutância, porque eles, se­
guindo seu estilo nacional, haviam raspado a cabeça e deixado o
bigode crescer,50 quando a própria prática maometana era a in­
versa. Enquanto os emissários parlamentavam com o Profeta, a
notícia da morte de seu senhor chegou até eles; por isso tiveram de
esperar novas ordens. Estas eram no sentido de que não deviam
molestar o Profeta.

48. Diyarbekri, ii, 39.


49. A verdadeira data era 29 de fevereiro de 628 d.C. (Nõldeke, Sas., 432; Gerland, Per­
sische Feldzüge des Kaiser's Herakleios). A data acima é identificada como 1 5 de se­
tembro de 628 d.C.
50. lbn Arabi, Musamarat, ii, 73. De acordo com ele, as familias dos mensageiros eram
sobreviventes no Iêmen, nessa época (século VII d.C.).

319
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

O contexto que cerca essa história é ainda mais misterioso que


o da outra; em todas as formas que ela assume, o Profeta anuncia
a morte do rei persa na ocasião em que ela realmente aconteceu, e
isso, por conseguinte, fez com que os emissários hesitassem em
prendê-lo até que tivessem comprovado a afirmação de Maomé:
era deveras pobre a disciplina mantida entre os empregados do rei
persa. Agora Maomé tinha muitos agentes secretos para obter as
informações depressa; mas não podemos acreditar que os mensa­
geiros tenham se eximido de cumprir suas obrigações em conse­
quência da afirmação do Profeta. Contudo, se a data da morte do
rei persa está correta, a história se sustentará melhor se supuser­
mos que, em meio à confusão que resultou do assassinato do rei,
o assunto, aparentemente pouco importante, tenha sido negligen­
ciado. A mensagem nunca foi entregue ou jamais foi respondida.
Outra carta destinava-se ao Mukaukis do Egito, ou ao governa­
dor de Alexandria, erroneamente identificado pelos cronistas árabes
com Ciro, vice-rei e arcebispo na época da invasão árabe, chamado
pelos coptas de Pkauchios.51 O certo é que a carta, a quem quer
que tenha sido endereçada, teve uma acolhida favorável. O Mu­
kaukis, quando a recebeu, enviou belos presentes por Jabr, filho de
Abdallah:52 um cavalo, uma mula, um asno e algo que quase iria
perpetuar a dinastia do Profeta, a concubina Maria, uma copta en­
viada pelo governador; não muito tempo depois, ela geraria um fi­
lho de quem Maomé reivindicou a paternidade, atestada pelos tra­
ços fisionômicos do menino - embora a esposa rival, Aisha (que
não lhe deu filhos), não tenha visto qualquer semelhança.
Com base apenas na carta de Maomé, não era possível ao go­
vernador adivinhar o gosto de seu autor: duas concubinas teriam
sido um presente adequado para Aquiles.* Mas como o alexan-

5 1 . Ver Butler, Arab Conquest ofEgypit, Apêndice C.


52. Isabah, i, 480.
* Aquiles: herói da Guerra de Troia e personagem principal da Ilia� de Homero; ti­
nha o corpo invulnerável, exceto pelo calcanhar; sua morte teria sido causada por
uma flecha envenenada que o teria atingido exatamente no calcanhar. [N.T.]

320
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

drino teria sabido que elas também eram apropriadas para o


fundador de uma nova religião? Ele deve ter tido conhecimento
disso pelo mensageiro Hatib, filho de Balta'ah, cuja descrição dos
massacres de israelitas talvez tenha assegurado a aceitação parcial
da reivindicação de Maomé. Uma amostra dessa conversa com o
Mukaukis foi preservada. 53 "Se Maomé é um profeta", perguntou
ele, "por que não amaldiçoou a população de Meca quando o ex­
pulsou?" - comportamento que seria autorizado pelos dois Tes­
tamentos. Hatib foi rápido na resposta: "Se Jesus foi um profeta",
retrucou, "por que ele não amaldiçoou as pessoas que queriam
crucificá-lo?"
Outros mensageiros foram enviados aos chefes de pequenos
Estados na Arábia, para os quais a reivindicação de hegemonia por
parte de um dos seus pares soava no mínimo surpreendente. Na
história da Arábia, aparentemente, isso representou um desses
momentos de altos e baixos. Quando um governante competente
ia em pessoa a uma província era porque queria receber a home­
nagem dos demais. Esses príncipes parecem ter contemporizado,
esperando para ver se o novo poder esmagaria a resistência de seus
vizinhos ou se sucumbiria. Não há informações de que o efeito
sobre essas pessoas tenha sido tão notável quanto o produzido
sobre os três potentados cristãos. Talvez a série de batalhas cele­
bradas pelos bardos em versos copiosos tivesse, nessa época, lhes
levado notícias de Maomé e suas reivindicações. Uma vez que o
partido mequense era tão vaidoso quanto o de Medina, eles teriam
aprendido que, se um dia a sorte era a favor dele, outro dia seria
contra.
Os massacres de judeus ordenados por Maomé podem tê-lo
tornado popular também junto aos árabes do sul da península,
uma vez que a lembrança da hegemonia israelita não era doce.
Haudhah, o governante cristão dos Banu Hanifah em Yemamah,
deve ter enviado uma resposta cortês, visto que, na campanha de

53. Usd al-ghabah, i, 362ss.

321
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

Khaibar, a montaria de Maomé era conduzida por um escravo


núbio que o monarca lhe enviara de presente.54 Logo Haudhah se
dispôs a aceitar o Islã, sob a condição de ser designado sucessor do
Profeta, oferta que, claro, foi recusada. 55
Como se aproximava o fim do ano 7, chegava a hora de execu­
tar o projeto do Profeta, de uma peregrinação cuja autorização
fora arrancada dos mequenses no ano anterior. A causa do Profeta
avançara materialmente desde sua visita a Hudaibiyah, e ele tinha
todo o interesse em possuir um personagem real ligado a ele. Além
do mais, incluíra em seu harém a filha de seu resoluto oponente
Abu Sufyan. Por solicitação de Maomé, Umm Habibah, viúva de
um de seus seguidores, lhe fora enviada pelo rei abissínio, com um
alentado dote providenciado pelo próprio monarca. De acordo
com os termos combinados no ano anterior, Meca devia ser esva­
ziada pelos coraixitas por três dias, durante os quais Maomé pode­
ria ter a Caaba para si. Depois desse tempo, teria de partir. Prova­
velmente nenhum dos dois lados estava seguro da boa-fé do outro.
Maomé levou consigo duzentos cavaleiros, para o caso de uma
emergência. Os coraixitas estavam tão pouco dispostos a prolon­
gar a visita de seu convidado que lhe negaram permissão para ofe­
recer, em Meca, a diversão que de hábito se seguia a seus casamen­
tos, sendo esse preparado para celebrar-se em sua cidade natal.
Preservou-se um relato preciso do roteiro do Profeta e da dire­
ção que tomou quando se aproximava de Meca. Sua escolta de
duzentos cavaleiros foi deixada para trás em Yajuj, uma elevação
de onde se podiam ver as imagens que nessa época cercavam a
Caaba.
A procissão de sessenta camelos para sacrifício, seguida pelos
1 .200 muçulmanos, procedia de Kada, passando pelo cemitério na
estrada para Abtah e Mina.56 Temendo que os mequenses achas-

54. Isabah, iii, 588.


55. Khafaji, Comm. on Durrah, 46.
56. Diyarbekri, i, 690.

322
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

sem que os muçulmanos continuavam maltrapilhos e fatigados,


como em Badr, ordenou-se que integrassem a procissão, e esse
costume perdurou até muito tempo depois. Eles tinham pedido
para comer carne de camelo, a fim de que seus semblantes pare­
cessem felizes, mas o Profeta considerou isso muito caro e deu­
-lhes uma refeição de tâmaras.57
Essa peregrinação,58 como a anterior, seria para impressionar
os mequenses com uma demonstração de poder e riqueza, e, sem
dúvida, ajudou materialmente na captura de Meca, então já não
muito distante. Profundo desgosto devem ter sentido os firmes
embora nem sempre sensatos oponentes de Maomé, como Abu
Sufyan, pelos Cíceros da época - os débeis partidários cujos te­
mores em geral eram de mau agouro para sua própria causa, e que
agora podiam constatar a realização de seus presságios. Se alguém
reclamara medidas vigorosas no dia em que deixaram Maomé es­
capar de seus punhais, se alertara que a vitória de Uhud não podia
ficar incompleta, e cujas previsões não foram anunciadas pelo es­
tratagema do fosso, esse alguém podia olhar para trás com justifi­
cável orgulho dos avisos valiosos que haviam sido dados, porém,
negligenciados.
Coma-se que, no casamento com Maimunah, uma bela viúva
que o Profeta acrescentava agora a seu harém, seu tio Abbas com­
portou-se como o guardião da noiva. O casamento teve lugar em
Sarif, a cerca de oito milhas de Meca, e a questão de saber se o
Profeta encontrava-se em condição sagrada ou profana no mo­
mento interessa aos muçulmanos - embora não a nós - que
conhecem a elasticidade da consciência profética. Como o im­
pério fundado por Maomé ficaria para os descendentes de Abbas,
na época em que se produziram nossos principais documentos
foram feitas algumas tentativas para representá-lo, em todas as
ocasiões, como um aliado íntimo do Profeta. Supõe-se que a pró-

57. Musnad, i, 221, 306.


58. Dhu'l-Ka'dah, a.H. 7, identificado como março de 62? d.C.

323
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

pria mulher seja referida no Alcorão como uma fiel que se ofere­
ceu ao Profeta. De acordo com alguns, ela foi a sua última esposa.
A fama de Maomé começou a atrair para Medina os bardos
que iam de corte em corte vendendo elogios. O poeta de Yema­
mah, A'sha, de Kais, que desfrutava de uma reputação exagerada,
pensou em ganhar alguma coisa nessa ocasião e juntou a seus ver­
sos uma superstição similar à que, nos tempos antigos, coubera
às palavras de Balaam: aqueles a quem ele elogiava se tornavam
grandes, aqueles a quem ridicularizava decaíam. No caminho de
Medina, ele desviou-se para Meca e, provavelmente desconhe­
cendo a relação entre as duas cidades, mostrou seus versos a Abu
Sufyan. Este ofereceu-lhe cem camelos, se prosseguisse e obser­
vasse a evolução dos eventos antes de publicar o elogio a Maomé.
O poeta tinha ares de homem de negócios capaz de aceitar a ofer­
ta, mas um de seus camelos recém-adquiridos o matou.
O espetáculo da peregrinação fez um importante converso,
Khalid, filho de Al-Walid, logo destinado a receber o nome de Es­
pada de Alá. Ele e o outro grande general muçulmano, 'Amr, filho
de Al-'Asi, se converteram mais ou menos na mesma época. Che­
ga-se a afirmar que os dois se encontraram no caminho para Me­
dina. Khalid tinha ido embora de Meca para não passar pela hu­
milhação de ver os muçulmanos entrarem na cidade, e uma carta
de seu irmão, Walid, que se convertera pouco depois de Badr, es­
crita por insistência do Profeta, foi decisiva para levá-lo a se juntar
aos conquistadores. 59
A conversão de 'Amr é atribuída algumas vezes àquele potenta­
do abissínio em cujo palácio ele não era exatamente uma figura
pouco familiar. 'Amr retirou-se para lá, de acordo com seu próprio
relato,60 depois do caso do fosso, julgando que o sucesso de Mao­
mé em sua guerra com os coraixitas estava agora assegurado, e que
a corte de seu amigo abissínio seria um porto seguro para ele.

59. Isabah, iii, 1 .3 1 8.


60. Musnad, iv, 199.

324
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Mesmo que Maomé fracassasse, dali ele poderia facilmente retor­


nar a Meca. Vale observar que seu regresso da Abissínia deve ter se
seguido ao dos exilados muçulmanos. A defecção desses dois ho­
mens privou Meca da única habilidade estratégica que a cidade
possuía. Num quebra-cabeça sem solução, é legítimo perguntar
por que essa habilidade, que se mostrou tão valiosa a Maomé e
seus seguidores, não foi aproveitada pelos mequenses.
Esses homens de guerra não estavam livres da paralisia que
manteve os mequenses ocupados com seus compromissos até que
se colocaram sob o comando do resoluto e engenhoso fundador
do Islã; sob as ordens de Maomé, eles iriam alcançar vitórias fe­
cundas. Khalid, o melhor comandante dos dois, sob o califado,
demonstrou-se mais capaz de comandar do que de obedecer; era
pouco propenso a se deixar limitar por regras ou a ser controlado,
em seus movimentos, pela autoridade central. Mas não ficou atrás
de ninguém em sua cega reverência a Maomé, que teve oportu­
nidade de repreendê-lo pelos excessos, bem como de elogiá-lo por
salvar muitos homens em um dia. Uma palavra do Profeta podia
acalmar a conduta mais selvagem desse herói61 (ele usava um pu­
nhado do cabelo do Profeta como amuleto, em seu barrete de sol­
dado).62 'Amr foi um dos diplomatas árabes em cuja sagacidade
se podia confiar, embora, sob o regime mequense, não pareça ter
sido bem-sucedido.
A conversão dessas pessoas é com justeza considerada por
Sprenger63 um reconhecimento, da parte dos homens que enxer­
gavam longe, de que não se podia resistir mais ao progresso do
Islã. Na verdade, eles não estavam traindo seus concidadãos, mas
se erigindo como exemplos que a modéstia da política mequense
tornava fácil imitar. O grande acesso à riqueza e à força que os
últimos anos haviam levado ao Profeta tornou seus compatriotas

6 1 . Ibid., iv, 89.


62. Wellhausen, Reste, 166.
63. Cf. Wakidi ( W.), 304.

325
DAV I D SAMUEL M A RGOLIOUTH

ansiosos por obter algo da glória que refletia sobre todos que com
ele se relacionavam. Abu Sufyan64 trabalhara arduamente para
convencer muitos de seus compatriotas a aderir à religião de seus
pais. Hakim, filho de Hizam e sobrinho de Khadijah, gastou tem­
po e dinheiro para comprar uma veste que se dizia ter pertencido
ao herói Dhu Yazan, por cinquenta dinares, e levou-a a Medina65
como presente para seu distinto parente; este, no entanto, recu­
sou-se a aceitar uma dádiva vinda de um não crente. O que nos
surpreende não foi o fato de Maomé ter tomado Meca com tanta
facilidade no ano seguinte, mas que ele tivesse de conciliar tantos
de seus antigos opositores com propinas.

64. ]auz� Adhkiya, 95.


65. Musnad, iii, 403.

326
11

A TOMADA D E MECA

O ano 8 foi marcado pelo primeiro confronto entre as forças do


Islã e as de Bizâncio, que não parece ter sido deliberadamente pla­
nejado pelo Profeta, mas resultado de sua ignorância a respeito da
política bizantina e da ausência generalizada de comunicação en­
tre as duas partes do Império Bizantino. Dentre as cartas enviadas
por Maomé, no momento em que ele se sentiu na obrigação de
intimar toda a humanidade a seguir sua doutrina, uma foi ende­
reçada ao governador de Bostra, levada por Al-Harith, filho de
'Umair.1 O mensageiro foi atacado e assassinado pelo gassânida
Shurahbil, filho de 'Amr, que se dizia ser um oficial a soldo de Cé­
sar. Como se viu, Maomé jamais permitiu que um ultraje ficasse
sem vingança. Ele logo2 reuniu um destacamento com o objetivo
de vingar o assassinato, mas não acreditamos que tivesse consciên­
cia de que um ataque a Shurahbil significava um ataque ao grande
Império Romano.
Maomé não teria enviado um contingente de 3 mil homens
para enfrentar o imenso exército do grande imperador; nem se
pode esperar que ele soubesse que os gassânidas, povo de nomes
árabes, eram politicamente mais romanos que árabes. Ele conside­
rava essa ação mais um dos muitos ataques a tribos árabes que
mantinham seu tesouro repleto, e por isso enviou um contingente
forte o bastante para esse fim, mas completamente desigual em
relação àquilo que o Império Bizantino poderia fazer contra ele.
O poeta Abdallah, filho de Rawahah, informa que os cavalos
foram levados de Aja e Far', montanhas situadas no país de Shamr.
Zaid, filho de Harithah, bem-sucedido chefe de ações anteriores,
foi escolhido para o comando e instruído a firmar tratados, se

1 . Wakidi ( W.), 309.


2. Jumada l , 8 a.D.; identificado como setembro de 629 d.C.

327
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

necessário, em seu próprio nome, não no do Profeta, de tal modo


que eles pudessem ser desrespeitados com maior facilidade.3 Entre
a soldadesca encontrava-se Khalid, filho de Al-Whalid, lutando
pela primeira vez sob novas ordens. Em seguida, deram-se algu­
mas orientações para o comando em caso de desastre, mas poucos
na hierarquia dos oficiais maometanos sabiam alguma coisa sobre
o combate. Na realidade, ao que parece, esse sistema violaria a
igualdade entre todos os muçulmanos.
Os estudiosos não encontraram problemas para retraçar o ca­
minho tomado por Zaid nessa que foi a mais extensa das incur­
sões muçulmanas. Provavelmente eles seguiram a estrada que cor­
responde à atual rota peregrina de Damasco a Meca, que era a
velha rota das caravanas. O primeiro destino era Mu'an ou Ma'an,
à beira do deserto, ponto em que a estrada para Meca converge
para outra, que vem de Akabah.
Havia ali, nessa época, uma importante fortaleza sob as ordens
de um governador árabe subordinado aos bizantinos. Lá eles ou­
viram falar que os gregos estavam em grande número em Maãb,
nas proximidades do mar Morto, contando com o concurso de
guerreiros de diversas tribos árabes. Diz-se que o próprio Herá­
clio, que havia pouco recuperara a Palestina dos persas, encontra­
va-se entre eles. Não precisamos repetir os números fabulosos que
os muçulmanos atribuem ao exército bizantino à guisa de descul­
pa pelo que aconteceu. Constituiu-se então um conselho de guer­
ra, e alguns sugeriram que se enviasse a informação ao Profeta -
que sem dúvida não imaginava algo sério pela frente.
Todavia, Abdallah, filho de Rawahah, poeta e entusiasta, o pri­
meiro a avançar e o último a recuar em todos os combates, desta­
cou a inconsistência de se perder a oportunidade do martírio, algo
que todo muçulmano deveria saudar mais que a vitória. Depois de
dois dias de deliberações, eles decidiram avançar. O alvo que ti­
nham em mente era uma planície chamada Masharif - não iden-

3. Wakidi ( W.), 309.

328
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

tificada nos tempos modernos, mas relacionada pelos árabes a


Bostra, ou Bosra, que Maomé visitara repetidas vezes, sobretudo a
região conhecida como o Hauran. À vista do exército bizantino, os
muçulmanos se recolheram a uma aldeia chamada Mutah, que
deu seu nome à campanha. Ali foi travada a batalha. Alguns dos
chefes muçulmanos desceram de seus cavalos e deliberadamente
aleijaram os animais, para que não caíssem na tentação de fugir.
Sabemos muito pouco sobre a sucessão dos eventos na batalha.
Três porta-estandartes (Zaid, Ja'far, primo do Profeta, e Abdallah,
filho de Rawahah) foram mortos, e houve certa dificuldade para
encontrar pessoas dispostas a arcar com essa perigosa tarefa.
A julgar pelo que aconteceu em Uhud, os muçulmanos estavam
à beira da derrota. Khalid, cuja capacidade fora demonstrada em
Uhud quando seu destacamento começou a debandar, novamente
estava pronto para uma situação de emergência. Segundo dizem,
ele firmou-se na posição de líder, a exemplo de Khalid, filho de
Arkam. Não há registro, mas parece que ele conseguiu reunir as
forças muçulmanas dispersas e retirá-las em segurança do campo
de batalha. Ainda assim, as perdas dos muçulmanos foram con­
sideráveis, embora seus historiadores não tenham se mostrado
preocupados em investigá-las. Provavelmente a ação do exérci­
to vitorioso ficou a cargo sobretudo das tribos Lakhm, Judham,
Kain, Bahra e Bali, que falavam a mesma língua e usavam as mes­
mas armas que os adversários muçulmanos.
Na história maometana, Ja'far, filho de Abu Talib, é o herói de
Mutah, assim como Hamzah é o herói de Uhud. Ja'far retornara
da Abissínia havia apenas um ano, de modo que aproveitara por
pouco tempo a posição real de seu primo. O comandante Zaid,
filho de Harithah, esteve envolvido em um dos mais graves escân­
dalos da vida doméstica do Profeta, e o fato de não ter retornado
talvez fosse um consolo. Conta-se que Abdallah, filho de Rawahah,
que se responsabilizara pela marcha de Ma' an, mostrou alguma
tendência a se retrair. Homens mais frios teriam nervos mais for­
tes que ele. Abdallah era um dos poetas da corte de Maomé, e suas

329
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

sátiras não eram bem recebidas pelos coraixitas, porque ele os ri­
dicularizava por não serem crentes e se gabarem disso.4
O generoso Profeta a todos concedia honras elevadas no paraí­
so, mas para Ja'far ele encontrou asas que o carregaram até o trono
de Deus. Com lágrimas nos olhos, Maomé dirigiu-se aos muçul­
manos narrando a ordem das mortes e dizendo que não podia
desejar aqueles homens de volta.5 Os sobreviventes dessa luta de­
sastrosa foram considerados desertores pelos muçulmanos, e al­
guns chegaram a ficar com medo de aparecer em público por al­
gum tempo, o que mostra quão espartana se tornara a população
de Medina nesses oito anos de guerra. O Profeta, cuja mente era
sempre mais aberta nesses períodos de tensão, de modo algum fez
eco a essa atitude.
Se a quantidade de inimigos correspondesse a um décimo dos
números fornecidos pelos historiadores, nem um muçulmano te­
ria escapado. Entrar em colisão com o grande poder mundial e
não ser exterminado não era uma vitória, mas estava muito perto
disso. Além do mais, para os maometanos, as tribos árabes que
agora serviam sob os comandantes bizantinos eram como trigo
pronto para a colheita.
Era hábito do Profeta, como já vimos muitas vezes, redimir um
desastre, o mais depressa possível, com algum sucesso estrondoso.
Enquanto houvesse judeus disponíveis, ele podia estar seguro de
uma vitória fácil. Os muçulmanos encontravam-se esgotados nes­
se momento, mas Meca continuava lá, e as experiências que ha­
viam tido nos últimos anos indicavam que a cidade estava madura
para cair. Tudo de que Maomé precisava era um pretexto decente
para atacá-la, e esse pretexto foi fornecido pelo tratado que ele
firmara com os mequenses na época da peregrinação fracassada.
Vimos repetidas vezes que, uma vez derramado, o sangue ja­
mais é esquecido, a menos que ocorram expiações formais. Quem

4. Aghani, xv, 29.


5. Musnad, iii, 1 18.

330
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

se aproveitou da cláusula constante no tratado de Hudaibiyah


que permitia às diferentes tribos tomar parte nas confederações
rivais de Meca e Medina foram os Khuza'ah, que entraram na
de Medina, e os Banu Bakr, uma seção dos Kinanah, que entraram
na de Meca. Entre essas duas tribos havia uma rixa de sangue que
datava de período anterior ao começo do Islã e tivera início, como
quase sempre acontecia em Medina, com o assassinato de um co­
merciante estrangeiro a quem os Banu Bakr se comprometeram a
proteger. Um membro dos Khuza'ah foi morto em contrapartida
e, em decorrência disso, três nobres bakritas foram assassinados
em Arafat.
Cabe lembrar que, por ocasião da Batalha de Badr, temeu-se
que os Kinanah atacassem Meca, mas isso acabou não acontecen­
do. Por razões que ignoramos, durante os anos em que as carava­
nas mequenses foram alvo de ações armadas ordenadas por Mao­
mé, a rixa parece ter sido suspensa. Porém, a cessação do perigo
vindo de Medina deu coragem aos coraixitas para apoiar seus alia­
dos, os Kinanah, os quais, numa incursão noturna, mataram um
membro dos Khuza'ah no interior do santuário. As relações entre
as duas confederações foram abaladas por esse derramamento de
sangue, fornecendo o pretexto de que o Profeta precisava para en­
trar em Meca. Na realidade, a ocasião para a intervenção de Mao­
mé era tão óbvia que muitos muçulmanos infiltrados entre os
Khuza'ah se apressaram em solicitar primeiro a ajuda do Profeta.
Nesse contexto, os historiadores registram os nomes de 'Amr, filho
de Salim, e Budail, filho de Warka.
Acredita-se que 'Amr tenha se apresentado na mesquita em
Medina e recitado alguns versos inflamados. O Profeta apontou
para uma nuvem na direção de Meca e declarou que ela levava
ajuda aos oprimidos Khuza'ah. O outro homem provavelmente
gozava da confiança do Profeta havia muito tempo. Sua família
guardou durante anos uma carta de Maomé, na qual Budail é con­
vidado a ir para Medina, ou a "migrar" sem deixar seu país. Ao que
parece, o Profeta abstinha-se de se comunicar com a população de

331
DAV I D SAMUEL M A RGOLIOUTH

Meca, a não ser na época da pequena ou da grande peregrinação.


A carta diz o seguinte:
Em nome de Alá, o misericordioso, o clemente. De Maomé, o
Apóstolo de Deus, a Budail, filho de Warka, e aos chefes dos Banu
'Amr. Eu vos louvo, Alá, para quem não há outro Deus. Prossiga­
mos. Eu não espezinhei seus corações, nem coloquei um peso às
suas costas (?). Aos meus olhos, vocês são o povo mais precioso
de Tihamah e meus parentes mais próximos, incluídos entre vo­
cês aqueles que fazem o bem. Agora eu tirei de vocês para ele,
aquele que migrará, assim como tirarei para mim se eu migrar
em sua própria terra, não me fixando em Meca, salvo pela peque­
na ou pela grande peregrinação. Não deixei nenhuma carga sobre
vocês, e assim fiz a paz, e vocês não precisam ter medo de mim
nem ficar alarmados por minha causa.6

Essa carta curiosa traz as marcas da autenticidade e contém


frases sobre as quais alguns comentários se tornam cabíveis. Co­
mo Wellhausen explica, a carta refere-se à época imediatamente
posterior ao tratado de Hudaibiyah, quando, ao que tudo indica,
Maomé, tendo menor necessidade dos serviços dos Khuza'ah, pa­
rece pensar menos a respeito deles. O homem a quem ele escreveu
tinha agora a oportunidade de fazer uma visita a Medina, a fim de
dar ao Profeta as boas novas de que havia chegado a hora de inva­
dir Meca. Atribui-se pouca credibilidade à lenda de que o Profeta,
desconfiando de Budail, havia enviado espiões a Meca para confir­
mar a verdade ou para exigir a extradição dos verdadeiros crimi­
nosos, antes de se decidir por um ataque à cidade.
É improvável que alguma das partes envolvidas tenha sido en­
ganada em relação ao tema da invasão. Os biógrafos mostram o
próprio Abu Sufyan à frente de uma delegação a Medina, tendo
por objetivo assegurar a renovação dos termos que os mequenses
haviam considerado tão benéficos ao seu comércio. Todos os ho­
mens, mulheres e crianças que ele pensou em levar, porque ti-

6. Em Isabah, s.v. Budail; para uma tradução, ver Wakidi ( W.), 306.

332
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

nham alguma relação com o Profeta, recusaram-se a participar da


delegação. Assim, uma questão de Estado tão importante quanto
aquela teve de ser tratada apenas pelo chefe. O Profeta recebeu
pessoalmente seu distinto antagonista, com sorrisos sardônicos.
Era verdade que os coraixitas que tinham lutado com os Khuza'ah
o fizeram disfarçados e sem autorização, mas, aparentemente, não
havia dúvida quanto à cumplicidade deles. O Profeta não era ho­
mem para desperdiçar o trunfo que tinha agora em mãos para
usar quando chegasse o momento oportuno. Abu Sufyan voltou
a Meca com o reconhecimento de que sua longa rivalidade com
Maomé estava próxima do fim.
Teve lugar, então, a expedição a Meca, que começou no dia
1 0 do Ramadã,7 e para a qual não menos de 1 0 mil homens fo­
ram reunidos. Era desejo do Profeta esconder seus objetivos dos
mequenses. Ele já estava perto da cidade, e ainda não tinha clareza
se os coraixitas ou os Hawazin eram seu alvo - e se realmente
pretendia fazer a guerra.8 Os mequenses, contudo, não alimen­
tavam ilusão alguma sobre o assunto, e cada passo dado desde
Medina fazia a resistência coraixita se dissolver cada vez mais
depressa.
No início daquela jornada, Maomé estava reunido com seu tio
Abbas, que os estudiosos maometanos supõem ter sido, durante
anos, apoiador e incentivador secreto do Profeta. Não sabemos se
era isso mesmo ou se, quando o califado caiu nas mãos dos abás­
sidas, foi preciso encobrir os erros do fundador da linhagem. Nas
cercanias de Meca, em Marr Zahran, eles depararam com uma
patrulha de reconhecimento que incluía o próprio Abu Sufyan,
sobrinho de Khadijah, e Budail, de quem acabamos de falar. Abu
Sufyan fora informado por Abbas que ainda teria tempo para sal­
var sua cabeça se fizesse uma profissão de fé na missão do homem
que passara a vida toda tentando provar ser um impostor. Essa

7. Identificado como 1° de janeiro de 630 d.C.


8. Wakidi, 329.

333
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

atitude poderia salvar muitas vidas, levando-se em conta que


Meca cairia de qualquer jeito.
Não sem relutância, Abu Sufyan sujeitou-se à humilhação. As­
sim obteve - e não apenas para sua própria segurança - o direi­
to de oferecer o mesmo para todos os mequenses que procuras­
sem refúgio em sua casa, que fechassem suas próprias portas ou se
dirigissem ao santuário de Meca. Mas ele teve de ouvir algumas
palavras duras ditas pelas mulheres do povo quando regressou a
Meca com sua casaca (metaforicamente) virada do avesso Elas
teriam preferido alguém que, se não pudesse viver por uma causa,
ousasse morrer por ela. Caso ele tivesse trazido de volta os bons
termos, os mequenses teriam tirado proveito disso.
A estratégia adotada por Abu Sufyan foi semelhante àquela
usada por líderes espertos e patrióticos quando deparavam com a
alternativa entre a submissão e o aniquilamento. Deve-se admitir
a censura à sua pobre liderança pela situação à qual Meca estava
agora reduzida. Porém, tendo ao menos compreendido em que pé
estavam as coisas, agiu com prudência, salvando vidas e proprie­
dades no limite de suas possibilidades. Ele admitiu que seus deuses
haviam sido derrotados pelo Deus de Maomé, e, por conseguinte,
não devia mais qualquer lealdade a eles.
Isso não quer dizer que todos os mequenses pensassem como
seu chefe. Alguns poucos sabiam que tinham ofendido muito
Maomé para serem perdoados. Essas pessoas eram aquelas que
já haviam acreditado nele uma vez, mas depois o abandonaram.
Outro grupo tinha diferenças pessoais que ainda clamavam por
vingança. Entre eles estavam Safwan, filho de Umayyah, que acon­
selhou que a Batalha de Uhud não tivesse prosseguimento; Suhail,
filho de 'Amr, que providenciara o pacto de Hudaibiyah; 'Ikrimah,
filho de Abu Jahl, que desde a morte do pai se destacara como
preeminente opositor do Islã. Dispondo de algumas armas e mu­
nições, eles formaram um destacamento que se posicionou em
Khandamah, montanha localizada nas proximidades de Abu

334
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Kubais,9 que, de acordo com Burckhardt, é o ponto culminante


de Meca.
Visto que Maomé entrava em Meca por cima (isto é, pelo nor­
deste), suas forças seriam obrigatoriamente ameaçadas por um
destacamento de homens que ocupasse essa posição. Houve uma
escaramuça entre eles e a cavalaria comandada por Khalid, com
pequenas perdas de ambos os lados, mas em seguida os heróis
mequenses abandonaram suas posições e fugiram. Meca agora era
do Profeta. Os ídolos que havia tantos anos provocaram o des­
prezo do Profeta, e aos quais deveu seu banimento, podiam ser
completamente abolidos. As imagens - provavelmente tentati­
vas artísticas grosseiras - foram removidas de dentro da Caaba
por Omar, enroladas em panos10 e depois mergulhadas na fonte
Zemzem. Só dispomos de informações sobre quem ou o que re­
presentavam dadas por Maomé, e não estamos inclinados a con­
fiar nelas. Uma curiosa tradição afirma que ele colocou suas mãos
sobre um quadro da Virgem Maria e assim a salvou da destrui­
ção.11 As imagens que cercavam a Caaba e estavam presas aos su­
portes com chumbo foram derrubadas e retiradas.
A chamada à oração ecoou do topo da Caaba, cantada por Bi­
lal, o escravo abissínio, sem deixar de provocar, contudo, expres­
sões de horror e desgosto por parte de alguns que ainda não ti­
nham se acostumado ao novo regime.12 Todavia, a santidade da
Caaba não iria sofrer qualquer abalo em virtude das inovações
religiosas. Qualquer que tenha sido a riqueza aí armazenada -
conta-se que eram 70 mil onças de ouro! -, o Profeta recusou-se
a tocar nela. Uma nova mitologia substituía a antiga, mas as ceri­
mônias, as mais importantes para a maioria da população, iriam
permanecer. Agora13 toda a cidade de Meca estava fadada a se tor-

9. Azraki, 1 55.
10. Musnad, iii, 396.
1 1. Azraki, l l l .
1 2 . Ibid., 192, cita o que eles disseram.
13. Ibid., 172.

335
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

nar um santuário inviolável. Não se verteria mais sangue no in­


terior de seus recintos, cujos marcos territoriais, parcialmente
apagados, eram agora restaurados, com a ajuda dos anjos. 14 Se o
próprio Profeta derramasse algum sangue, o privilégio dos favori­
tos de Deus não poderia ser reivindicado pelas pessoas de nível
inferior.
Como o cardeal Motley ao pregar a tolerância religiosa, Mao­
mé aproveitou a primeira oportunidade para impressionar seus
concidadãos, conclamando-os a encarar a rixa de sangue com
abominação. Embora tenha elaborado, no início, uma pequena
lista de interdições, por uma ou outra razão acabou reduzindo-as
a duas. Podemos ver aí não somente um exemplo de clemência
do Profeta, mas também um indício da excessiva satisfação que
a tomada de Meca lhe causara. Todas as velhas injúrias foram es­
quecidas nesse dia de triunfo final. Não se permitiu que os Emi­
grantes reclamassem suas casas apropriadas ou vendidas pelos
mequenses. Eles teriam de se satisfazer com a promessa de casas
no paraíso. 15 Maomé deu o exemplo com a antiga residência de
Khadijah. Mesmo as chaves da Caaba não foram tomadas de seus
detentores hereditários, mas voltaram a eles, embora o meritório
Ali as reivindicasse.
A tomada de Meca foi o resultado da sucessão de eventos que
começou no dia em que se concedeu a Maomé permissão para ser
o guia de uma comunidade que se estendia entre os coraixitas
e seus mercados. Interesse similar àquele que um equilibrista na
corda bamba adiciona à sua carreira enquanto se esforça por não
cair. A destruição o ameaça de todos os lados, mas ele supera os
perigos porque tem uma vontade determinada, enquanto seus ini­
migos não têm vontade alguma.
Os historiadores contam-nos um pouco da história interna de
Meca durante os oito últimos anos em que a gradual mudança

14. Azraki, 360.


15. Chronicles of Meccah, iv, 67.

336
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

de opinião a favor de Maomé pode apenas ser intuída. Falta-nos,


porém, o conhecimento dos detalhes. Temos motivo para supor
que a campanha de Maomé contra os bizantinos desempenhou
um papel importante nisso. Muito embora não tenha sido tem­
porariamente bem-sucedida, ela fez do Profeta o paladino de uma
ideia nacional que os árabes até então tinham dificuldade em
compreender. Mesmo a iniciativa de Saif, filho de Dhu Yazan, ser­
vira apenas para substituir a soberania persa pela abissínia. Com
essa atitude, ele ajustava sua habitual ternura em relação à vida
dos árabes com a inclemência com que massacrou os judeus. Além
do mais, a experiência parece mostrar que um homem que conse­
gue manter por muitos anos a atenção concentrada em si acaba
adquirindo popularidade até entre seus inimigos.
Organizaram-se recepções, se esse é o termo apropriado, para
a admissão dos novos conversos - primeiro para homens e de­
pois para mulheres, não sendo permitido a elas apertar a mão do
Profeta.16 Na verdade, àqueles que não estavam preparados para
ingressar na nova religião de imediato concedeu-se um tempo
razoável para estudá-la. Mas o Profeta não fez segredo de sua re­
solução final, de não tolerar qualquer outra religião. A presença
dos neófitos nessas recepções revelava muitos traços de caráter. Os
poetas que haviam lançado mão da facilidade de versificação para
satirizar o Profeta mostravam agora que podiam se dedicar à sua
glorificação. Abundavam a adulação e o servilismo.
Por outro lado, algumas das mulheres que deviam jurar leal­
dade não puderam deixar de manifestar - mesmo correndo o
risco de ofender o conquistador - seu sarcasmo diante da natu­
reza do código que lhes provocara sofrimento, muito sofrimento.
"Tudo isso eu observei desde a minha juventude", foi o comentá­
rio de Hind, a esposa de Abu Sufyan, em resposta a algumas das
regulamentações. À recomendação "não matem seus filhos", ela
retrucou que as mulheres em Meca tinham criado seus filhos para

16. Tabari, Comm., xxviii, 49.

337
DAVI D SAMUEL MARGOLIOUTH

serem mortos pelos partidários de Maomé em Badr. Além disso,


quando voltou da recepção, ela pegou um machado e fez em pe­
daços seu ídolo doméstico, censurando-o por tê-la enganado todo
aquele tempo.17 Em Meca, uma iconoclastia desse gênero torna­
va-se agora descontrolada.
A permanência do Profeta em Meca não passou de quinze dias.
Ele estava ansioso por assegurar a seus amigos de Medina que não
tinha intenção de deixá-los pela antiga casa. Na verdade, havia
algum risco de isso acontecer, visto que Maomé não escondia sua
opinião de que Meca era o melhor recanto da Terra, entre todos os
lugares, o mais querido por Deus. 1 8
No dia seguinte à entrada em Meca e à proclamação da área
sacrossanta, um dos fiéis, um khuza'ita, exerceu a vendeta assassi­
nando um hudhalita que matara um homem de sua tribo. Maomé
repetiu sua oração e pagou, aos hudhalitas ainda não convertidos,
a rixa de sangue pela vítima.19 Ele apenas evitava que o assassino
fosse entregue à vingança deles, de acordo com a doutrina de que
um muçulmano não deveria ser morto por um não crente. Missio­
nários - nome que aparece pela primeira vez no Islã nesse con­
texto - foram enviados às tribos vizinhas, advertindo-as de que
pusessem de lado seus ídolos e se submetessem à nova religião.
Khalid, filho de Al-Walid, enviado numa missão desse gênero en­
tre os Jadhimah, aproveitou a oportunidade para vingar um velho
delito - o assassinato de seu tio, acontecido anos antes. Ele atacou
a tribo em Ghumaisa e provocou uma considerável chacina.
O Profeta, que agora encarava todos os árabes como súditos
naturais, prontamente pagou a rixa de sangue por esse assassinato
e ainda forneceu um bônus à tribo. Não era seu costume, contu­
do, achar que seus subordinados pecavam por excesso de zelo, e
Khalid foi encarregado de destruir outros ídolos e casas sagra-

1 7. Azraki, 78.
1 8. Musnad, iv, 305.
19. Azraki, 353.

338
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

das na vizinhança. Os sacerdotes pareceram abandonar os ídolos


para cuidar de sua própria defesa, de acordo com o princípio de
Jerubbaal* e com resultado semelhante. Por conseguinte, a Casa
de Alá estava livre de alguns rivais bem perigosos. Afinal, como já
se viu, temos pouca ou nenhuma razão para supor que a Casa em
Meca tenha permanecido de pé como centro de peregrinação.
A ideia que então se propagava era de que a Casa em Meca fora
a primeira, afirmação que deu margem a muita especulação, e daí
a muitos mitos. Essas outras casas eram imitações precárias da
Caaba, não mereciam ser mantidas como Casas de Alá, para cuja
adoração não haviam sido projetadas. Somos inclinados a espe­
cular: como Maomé teria tratado a "mesquita mais distante'', o
muro do Templo em Jerusalém, caso ele tivesse vivido para con­
quistar aquela cidade sagrada? Ele saberia (talvez não soubesse)
que o Templo não existia mais; e, uma vez que havia proibido a
peregrinação a Jerusalém, provavelmente teria assegurado, de al­
guma maneira, que não se relacionasse mais qualquer santidade
especial ao Sion.
Embora Maomé não tenha aprendido o valor político da ado­
ração centralizada a partir do exemplo dos reis judeus, ele estava
atento a isso. Depois de alguma deliberação, decidiu qual ritual
devia manter e em seguida montou um esquema em que certo
número de ritos, pertencentes originalmente a santuários diferen­
tes, foram agrupados numa longa apresentação. As desigualdades,
que no sistema antigo distinguiam os diferentes clãs, foram com­
pletamente abolidas - todos os muçulmanos eram iguais. Na­
quelas cerimônias, não era muito difícil citar o mito de Abraão no
lugar dos contos que os antigos guias narravam. Se em algum lu­
gar atiravam-se pedras para manter o corpo de um inimigo no
chão, ou para assegurar que determinado terreno não devia ser

* Jerubbaal ou Gideão (e. século XII a.C.): segundo a Biblia, quinto juiz de Israel, exem­
plo de homem de fé. Para escapar dos midianitas (a cuja dominação estavam conde­
nados por Deus), os israelitas foram obrigados e viver sete anos escondidos em caver­
nas, tendo por isso abandonado suas riquezas. [N.T.]

339
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

apropriado por um ano,20 agora podia-se dizer que elas deviam ser
atiradas em Satã. Por acaso Satã não era chamado de "o Apedre­
jado" no Alcorão?
Uma drástica alteração estava prestes a se seguir, quando o Pro­
feta concebeu a infeliz ideia de alterar o calendário sem conhecer
elementos de astronomia, ou mesmo sem se importar com a fina­
lidade de se marcar o ano. Antes, por uma associação não científi­
ca, os meses eram grosseiramente associados às estações. Maomé,
que baseou seu calendário em doze meses lunares, acabou com
toda e qualquer relação entre eles. Não podia haver mais dúvida
alguma quanto à acomodação dos meses da peregrinação às ne­
cessidades do comércio. Maomé não pretendia esse resultado, cujo
acerto ignorava, mas ele aconteceu, e os mercados dos "Dias da
Ignorância" logo caíram no esquecimento. O comércio de Meca
estava arruinado, mas a cidade saíra ganhando; em primeiro lugar
pela parcela considerável que recebia da pilhagem do mundo, de­
pois pelo aumento sem precedentes do número de visitantes nas
estações sagradas, torrente raras vezes afastada pela sedição e pelo
fanatismo, crescente nos tempos de paz, desde quando Meca foi
tomada até hoje, quando o trem a vapor ajuda a cidade a crescer.
Se Maomé tomou alguma coisa de Meca, deu-lhe mais em troca.
Das cidades que existiam no século VII da nossa era, poucas
são as que tiveram uma existência tão contínua, afetada apenas
por problemas superficiais, como Meca. Sua população, depois
que a cidade se tornou o grande santuário do mundo, rapidamen­
te esqueceu a política e o comércio. Os mequenses transforma­
ram-se em gerentes de um espetáculo, guardiões de uma exposi­
ção que todo mundo tinha a obrigação de visitar. Para os fiéis, que
passaram a vida sonhando com Meca antes de ter a oportunidade
da peregrinação, a cidade sagrada ganhou as·cores de um encanto
fantástico, e era difícil para eles a dissociarem daquele paraíso para
o qual a visita representava uma preparação e do qual era o sím-

20. Chauvin, Le Jet des pierres au pélérinage de la Mecque, Antuérpia, 1902.

340
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

bolo. "Abençoados por aqueles que residem na Tua Casa, eles de­
vem estar sempre louvando a Ti." Não parece que a população de
Meca tenha passado todo o seu tempo dessa maneira edificante,
mas tinha agora a grande vantagem de saber que os negócios che­
gariam até ela, sem ter mais de sair para procurá-los.
Dando ao império do Islã uma capital religiosa, em nenhum
momento utilizada como capital política, o fundador fixou em
Meca a base que assegurou a continuidade do sistema diante das
mais violentas convulsões. Depois de saqueada, uma capital polí­
tica é quase sempre abandonada pela dinastia vitoriosa, que se
volta para outra; várias considerações comerciais e militares tor­
nam essa substituição desejável ou mesmo imperativa. Por isso o
centro político do Islã foi deslocado à medida que as dinastias se
sucediam, uma após outra; mas, a cada vez, era ali que o soberano
maometano mais poderoso decidia instalar sua corte.
Meca foi igualmente honrada por todos esses soberanos. Cada
um deles se orgulhava de dar presentes à cidade de Deus, cada
qual considerava que protegê-la e adorná-la eram obrigações es­
pecialmente atribuídas a ele. Identificada assim com o Islã, como
religião, a cidade que tinha oferecido a mais encarniçada resis­
tência à sua ascensão logo se tornou sua mais fanática adepta.
Uma pessoa que não é muçulmana pode viver e mesmo prosperar
em qualquer país islâmico. Em Meca, ela deve esconder o fato de
não ser crente, sabendo que, se for descoberta, estará condenada
à morte.
A tomada de Meca foi seguida quase imediatamente de uma
luta perigosa com uma horda de árabes nômades, liderada por
alguns daqueles heróis pagãos com os quais a velha poesia e os
trabalhos de arqueólogos estão constantemente ocupados, mas
que até então não haviam marcado muita presença na vida do
Profeta - passada sobretudo em meio a debates com os judeus
civilizados ou com os moradores parcialmente civilizados das
cidades. O crescimento e a consolidação do Estado muçulmano

341
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

haviam alarmado profundamente esses beduínos, que prezavam


muito a liberdade do deserto. A expedição de Maomé contra
Meca, cujo objetivo a princípio era secreto, foi idealizada para se
voltar contra eles. Porém, mesmo quando se soube que o alvo era
Meca, e que a expedição fora bem-sucedida, os líderes beduínos
decidiram formar uma aliança pela liberdade da Arábia.
As tribos que se reuniram chamavam-se Hawazin e Thakif;
seus pastos ficavam nas proximidades de Meca. Como muitas
tribos que viviam numa condição primitiva, elas faziam de um
homem seu chefe quando partiam para a guerra. Seu líder, nessa
época, foi Malik, filho de 'Auf, do clã Nasr, um ramo dos Hawazin.
Mas também levaram para o campo de batalha, numa liteira, o
herói mais velho de uma centena de combates, Duraid, filho de
Simmah, do clã Jusham.21 De certo modo, ele foi conduzido para
o campo de batalha da mesma maneira que algumas vezes se le­
vavam os ossos de heróis mortos, em virtude de uma crença que
os maoris chamariam de mana, e os árabes, de nakibah, uma com­
binação de fortuna, habilidade e eficiência, que tornaria sua pre­
sença desejável em qualquer empreitada.
Não são poucos os relatos sobre a vida desse herói que, co­
mo muitos do seu clã, tinha alguma reputação como poeta, em
especial como panegirista22 de coragem, embora não possamos
afirmar se qualquer um dos versos a ele atribuídos é autêntico.
O começo de sua vida foi passado na costumeira perseguição dos
ladrões de camelo, sempre que possível de tribos hostis, mas tam­
bém de clãs amigos. As represálias levavam a rixas de sangue. To­
dos os irmãos de Duraid morreram em ataques a camelos, e para
cada um deles Duraid se comprometia a exigir muitas vidas em
troca, bem como a registrar seus elogios em verso. Suas façanhas
como amante eram tão notáveis quanto seus feitos de guerra. Oca-

2 1 . Jusham é considerada por Al-Akhtal (Kami� ii, 60) a pior das tribos, e, como os Ka­
tas, nem preta nem vermelha. Bayan, i, 55, faz referência a uma guerra entre os
Thakif e os Nasr.
22. Goldziher, MS, i, 252.

342
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

sionalmente, e nas duas frentes, ele topou com reveses, mas com
muito mais frequência foi exitoso. Numa ocasião, escapou de ser
assassinado fingindo-se de morto, truque também praticado pelos
índios americanos. A riqueza do ladrão de camelos não dura mui­
to. Se for mantida em segurança, é logo dissipada com esposas
novas e velhas, com companheiros de clã e convidados. "Para ve­
lhacarias" desse tipo "não há caixa-forte':
A velhice encontra-o pobre, despreparado para a guerra ou
para o amor, mas ainda não desprovido de seu mana e talvez an­
sioso por morrer em campo de batalha, pronto para dar ao assas­
sino desastrado algumas pistas úteis sobre a maneira de proceder.
Esse tipo de homem tem horror instintivo à ordem, à disciplina e
à organização. Onde o sangue não pode ser derramado livremente
ele não encontra seu verdadeiro ambiente.
A coalizão dos Hawazin com os Thakif apoderou-se de um
posto em um wadi chamado Autas, ao que consta não muito longe
de Meca, local que não tem sido visitado nos últimos tempos. Fica
em algum ponto a sudeste da cidade, nas proximidades de um
lugar chamado Dhu'l-Majaz, ou "o Passo", um dos locais de mer­
cado dos velhos tempos. Para lá se dirigiram as tribos, acompa­
nhadas, no verdadeiro estilo selvagem, por esposas e filhos, ove­
lhas e rebanhos, procedimento que não seria aprovado pelo idoso
Duraid, mas que provavelmente era sancionado pelo costume.
Vimos que em Uhud as mulheres desempenharam um papel im­
portante. Conta-se também que ele aconselhou a retirada, em par­
te pela ausência de alguns dos melhores homens da tribo Hawazin.
Porém, como a cada dia o poder de Maomé aumentava, o líder
decidiu tentar a sorte de uma só vez.
Os homens ficaram escondidos dos dois lados do vale de Hu­
nain, por onde os muçulmanos desciam. Os efetivos de Maomé23
foram estimados em 1 2 mil homens: os 1 0 mil com que invadira

23. Para essa campanha Maomé contraiu empréstimo de 30 mil ou 60 mil dirhems de
Abdallah Ibn Abi Rabi'ah, que foi pago honestamente. Musnad, iv, 36.

343
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

Meca reforçados por 2 mil novos conversos ou aliados. As forças


combinadas dos Hawazin e dos Thakif foram calculadas em 4. 100.
Provavelmente esta estimativa numérica é extremamente grossei­
ra, mas os autores muçulmanos merecem crédito por apresentar,
nessa ocasião, seus próprios efetivos muito superiores aos do anta­
gonista. No início da manhã,24 as forças muçulmanas entraram no
vale de Hunain e foram rapidamente atacadas por todos os lados.
Os inimigos receberam ordens para desembainhar suas espadas
quando o embate começou, como demonstração de que estavam
totalmente concentrados naquela empreitada.
No primeiro momento, o plano de Malik, filho de 'Auf, reve­
lou-se inteiramente bem-sucedido. Os muçulmanos recuaram e
fugiram precipitadamente, em meio a uma grande confusão; de
acordo com certas fontes, alguns dos novos conversos acreditaram
ser aquela a ocasião propícia para desferir um golpe no conquis­
tador. Na verdade, chegou-se mesmo a afirmar que um desses se­
guidores relutantes teria se atrevido a atacar o próprio Profeta,
mas não teve coragem para isso. Uma mulher muçulmana, que
tinha se armado com uma cimitarra para ser usada em emergên­
cias, sugeriu mais tarde que os traidores deviam ser mortos. 25
Conta-se que alguns fugitivos26 levaram a boa notícia a Meca,
onde foram recebidos com aclamação. Um dos mequenses decla­
rou, um tanto prematuramente, que aquele tinha sido o último
dia de feitiçaria.
Os muçulmanos foram recebidos por uma chuva de flechas (os
Hawazin eram exímios atiradores). O Profeta, porém, estava pro­
tegido por uma armadura tão compacta que não tinha motivo
para temer essa arma; além disso, como em Uhud, ele deu mostras
de presença de espírito e total consciência do fato de que uma
derrota nas cercanias de Meca, conquista por tanto tempo deseja-

24. Shawwal, a.H. 8, identificado como janeiro-fevereiro de 630 d.C.


25. Musnad, iii, 286.
26. Halabi, 1 57.

344
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

da e tão recentemente alcançada, seria um desastre de magnitude


muito diferente de uma derrota nas proximidades de sua devotada
Medina. Se é que os biógrafos são dignos de crédito, ele permane­
ceu calmo, cercado por um punhado de integrantes do seu círculo
mais íntimo, enquanto os outros combatiam. E lançou mão dos
poderosos pulmões do seu tio Abbas para lembrar aos fugitivos
seu juramento, suas obrigações e suas vitórias gloriosas. Os heróis
de Badr reuniram-se em torno do Profeta e conseguiram deter a
debandada geral. Homens que tinham dificuldade para controlar
suas montarias apearam e vestiram as armaduras de infantaria. Ali
mirou o camelo que um dos líderes Hawazin montava e, com a
ajuda de um homem de Medina, derrubou o cavaleiro.
Não se sabe exatamente o que aconteceu então, mas parece
que, de qualquer maneira, os Hawazin não conseguiram se apro­
veitar da vantagem inicial, e que a feroz resistência conjunta de
uma centena de homens agrupados ao redor do Profeta foi sufi­
ciente para alterar o quadro. Conta-se que o gigantesco Abu Ta­
lhah matou, sozinho, vinte homens.27 O poeta dos Banu Sulaim,
no entanto, reivindicou o mérito da vitória para sua própria tribo,
liderada por Dahhak, equivalente em bravura a cem homens:
"Quando o Profeta conclamou os Banu Sulaim a se erguer, eles se
ergueram, senão o inimigo teria varrido os crentes e se apoderado
de seus bens." Ao que parece, as principais iniciativas para a des­
truição dos inimigos partiram mesmo dos Banu Sulaim, que per­
seguiram os inimigos até "Buss e Aural", lugares situados já no
território jushamita.
Entre os thakafitas, o clã chamado Banu Malik combateu com
heroísmo, tendo perdido setenta homens. Outros fugiram e salva­
ram suas peles, inclusive um chefe chamado Karib, que chegou em
segurança a Taif, o quartel-general da tribo Thakif. Por essa atitu­
de, ele recebeu a calorosa exaltação de um poeta a quem devemos
uma vívida descrição da batalha.

27. Musnad, iii, 279ss.

345
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

Segundo consta, o comandante Malik, filho de 'Auf, colocou


seus cavaleiros próximos uns dos outros, de modo a resguardar os
membros mais fracos do grupo, e em seguida conduziu-os em
segurança para uma colina de onde puderam seguir seu caminho
para Taif. Lá, aparentemente, algumas mulheres foram salvas, mas
outras caíram nas mãos dos muçulmanos. Khalid, filho de Al-Wa­
lid, cuja selvageria já fora repreendida pelo Profeta, ganhou outra
reprimenda apenas por achar que tinha o direito de matar essas
amazonas. Esse tipo de atitude ia totalmente contra as ideias de
bravura do Profeta. Assim, ele considerou necessário censurar ou­
tros homens que se julgavam no direito de matar os filhos dos
infiéis. "O que são os melhores de vocês", indagou, "senão filhos de
infiéis?"28
Entre as mulheres cativas havia uma que afirmava ser irmã
adotiva do Profeta, conhecida apenas como Al-Shaima, "a mulher
com uma marca" - que ela declarou ter sido causada por uma
mordida do Profeta quando ambos eram crianças. A relação foi
reconhecida, e a mulher, enviada com presentes para seus paren­
tes. Beckwourth também encontrou uma mulher da tribo Crow
que o identificou como filho por causa de uma verruga, coisa que
coincidia com o propósito dele de admitir a evidência. Duraid,
filho de Al-Simmah, encontrou uma morte de soldado em sua li­
teira; foi assassinado por um sulamita, membro de uma tribo que
a bravura de Duraid salvara, mas "o Islã apagou tudo o que houve
antes disso". Seu filho Salamah conseguiu escapar, salvando tam­
bém sua esposa.
Conta-se que morreram quatro muçulmanos nessa ocasião,
número surpreendentemente pequeno, se verdadeiro. Contudo,
se as forças muçulmanas realmente eram de 1 2 mil homens, é
pouco provável que se tenham contado os mortos com a precisão
que seria possível se houvesse apenas algumas centenas de guer­
reiros. Combatentes sobrenaturais supostamente teriam tomado

28. Ibid., 435.

346
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

parte da batalha, como em Badr; na verdade, em alguns versos


atribuídos ao comandante Malik, filho de 'Auf, que podem efe­
tivamente ser de sua autoria, atribui-se a derrota final dos Hawa­
zin à intervenção de Gabriel - algo difícil de se esperar, uma vez
que o contingente muçulmano era o triplo dos Hawazin. Embora
seja provável que Maomé encorajasse com prazer a crença na aju­
da sobrenatural, os poetas seus partidários não recorrem a essa
explicação para o sucesso, conquanto admitissem que Alá, por
cuja causa tinham violado todos os laços de amizade, estava do
lado deles.
O mais destacado dos poetas dessa época foi Abbas, filho de
Mirdas, de quem já ouvimos falar. Como muitos daqueles paladi­
nos, ele nutria de longa data ojeriza a alguns dos Hawazin, e estava
satisfeito com a oportunidade de vingança. A devoção de seus ver­
sos torna-os especialmente edificantes, embora um acidente, por
infortúnio, lhe tenha revelado que seu Profeta não conseguia dis­
tinguir verso e prosa.
Independentemente de os anjos terem ou não ajudado, obteve­
-se um êxito muito importante, e a sorte do Profeta provou-se
constante no momento em que um revés traria seriíssimas con­
sequências. Também para Abu Sufyan poderia ser vantajoso se
aproveitar de um eventual desastre, embora ele mesmo não tivesse
energia suficiente para provocar qualquer incidente. Há registro
de que ele teria feito o comentário sarcástico de que a fuga desen­
freada dos muçulmanos só acabaria no mar, observação que não
teve repercussão favorável entre os infiéis, a quem ela se dirigia.
Eles consideravam a submissão a um coraixita menos humilhante
que a sujeição aos Hawazin. A referência a Hunain, a exemplo da­
quela a Badr, foi considerada digna de menção no Alcorão, sinal
de que o Profeta atribuía grande importância à vitória. Se a derro­
ta dos coraixitas começara em Badr, ela se consumou em Hunain.
Depois da vitória de Hunain, era natural que o Profeta quisesse
tomar Taif, o quartel-general da tribo Thakif. Alguns membros

347
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

dessa tribo já tinham visitado o Profeta em Medina, onde ele man­


tinha uma tenda ( kubbah) erguida para eles. Nesse lugar, depois
da oração do final da tarde, Maomé conversava com eles durante
horas, queixando-se dos mequenses e mostrando eomo a condi­
ção de seus seguidores havia melhorado desde a Fuga. 29
Taif era uma cidade murada (este, talvez, seja o significado do
seu nome) num oásis de água doce e solo fértil, a não mais de
36 horas de jornada de Meca.30 Situa-se numa planície cercada
por montanhas na forma de ferradura, com a parte aberta voltada
para leste. Essas montanhas são cortadas por pequenos vales que
descem em direção à planície que cerca toda a cidade e a divide em
jardins. Arvores frutíferas de quatorze espécies são enumeradas
por Tamisier, cultivadas nos pomares; mas o plantio das vinhas
conferia renome a Taif já nos tempos antigos. As passas feitas das
uvas pareciam frascos de puro mel.31 Mesmo hoje, grandes quan­
tidades de uva são plantadas ali para atender ao mercado de Meca.
Além disso, vários tipos de grãos são cultivados, alguns deles pro­
duzindo diversas safras. Na vizinhança há abundância de argila
aproveitável para o fabrico de tijolos. A pilhagem ali, portanto, era
mais desejável que em Khaibar.
Não precisamos repetir aqui nada do que foi dito a respeito da
fabulosa história de Taif. Seus habitantes, em virtude do acúmulo
de riqueza e da preocupação com a indústria, haviam adquirido
algum conhecimento das artes da construção e da guerra. Os bió­
grafos afirmam que, na época em que a Batalha de Hunain era
travada, dois de seus chefes - 'Urwah, filho de Mas'ud, e Ghailan,
filho de Salamah - encontravam-se longe dali, em Jurash, no Iê­
men, aprendendo a construir equipamentos de artilharia. 'Urwah
era um homem honrado nas duas cidades que, de acordo com os
mequenses dos velhos tempos, merecia receber uma revelação di-

29. Ibid., iv, 343.


30. Visitada por J. Hamilton, Tamisier e Donghty.
3 1 . Mez, em Baghdader Sittenbild, 48.

348
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

vina, caso Deus quisesse enviar alguma mensagem. Ghailan era


um dos sábios de seu tempo, cujos adágios tinham agradado tanto
a um rei persa que este mandara um arquiteto construir uma for­
taleza para ele em Taif. 32
Antes de o cerco ser suspenso, eles estavam de volta, trazendo
algum conhecimento que se revelou útil, embora não saibamos
por que Jurash era a escola indicada para esse tipo de aprendizado.
Eles fecharam os portões a Malik, filho de 'Auf, o malsucedido
comandante em Hunain.33 O castelo de Ghailan, que não ficava
muito longe dali, foi destruído pelo Profeta, e seu proprietário foi
obrigado a se tornar muçulmano.
A rota do Profeta para Taif é dada: Nakhlah Yamaniyyeh, Karn,
Mulaih, Buhrat al-Rugha, em seguida uma estrada denominada "a
Estreita", a qual o Profeta, após sua passagem, rebatizou de "a Fá­
cil", e finalmente Nakhb. Desses lugares, apenas Karn (ou Karn
al-Manazil) está marcado no mapa de Doughty. É aí que fica a
extremidade da curva que a estrada, orientada pelos wadis, des­
cerra, seguindo primeiro para o norte e, nesse ponto, tomando a
direção do sul, rumo a Taif, que está situada a leste de Meca. As
mesquitas foram fundadas por Maomé ou por seus seguidores nos
lugares que ele indicou durante a rota. O Profeta entrou na pla­
nície onde se encontra Taif e destruiu algumas das plantações.
Quando esbarrou com os portões fechados e uma resistência obs­
tinada, empenhou-se em atemorizar os thakafitas, procurando
submetê-los pela completa destruição de suas propriedades. Foi
dessa maneira que lidou com os Banu Nadir. Mas os thakafitas
não eram os judeus.
O cerco de Taif assinala uma importante etapa no avanço do
Islã, na qual o Profeta recorreu aos dispositivos bélicos e à moda­
lidade de artilharia de cerco em uso antes da invenção da pólvora.
Não dispomos de informações sobre os recursos bélicos que em-

32. Isabah, iii, 377.


33. Apud Wakidi. Ishak, 879, porém, situa-o em Taif.

349
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

pregou nessa ocasião (como na Batalha de Ditch),* mas, por essa


época, já era acompanhado de árabes familiarizados com a ma­
neira como os bizantinos guerreavam, embora talvez ainda não
detivessem um conhecimento mecânico muito avançado, neces­
sário para uma primeira tentativa. Seguindo a orientação desses
homens, construiu-se uma estrutura leve, feita de tecido, similar
àquelas sob as quais os romanos costumavam avançar com o in­
tuito de abrir uma brecha nas muralhas inimigas. Os thakafitas,
porém, destruíram essas estruturas despejando uma quantidade
de barras de ferro em brasa sobre a cabeça dos soldados. Em se­
guida, alvejaram com suas setas os muçulmanos, que, sem pro­
teção, fugiram em debandada. Aquele foi chamado "o dia da es­
pada", e sem dúvida foi um dia notável. Até aquele momento, as
forças do Profeta jamais tinham deparado com tamanho poderio
de autodefesa. Os Thakif demonstravam que a prosperidade e a
riqueza podiam ser acompanhadas de algum conhecimento da
arte de guerra.
Não se sabe por quanto tempo o Profeta insistiu no cerco; nos
relatos, varia entre vinte e quarenta dias. O clássico expediente
de promessa de liberdade aos escravos que se unissem a ele trou­
xe-lhe um grupo de desertores que desceram das muralhas.34 Os
thakafitas declararam que tinham suprimento para dois anos, o
que certamente representava um período mais longo do que os
muçulmanos podiam esperar. Pouco depois, o Profeta teve um
sonho que indicava que daquela vez não seria bem-sucedido.
Conta-se que esse sombrio prognóstico foi divulgado por uma
moça que desejava tomar as joias de uma rica mulher de Taif.
O Profeta teria dito a ela que não havia nenhuma chance de obtê­
-las. A notícia de que o cerco estava para ser suspenso causou sério

* Batalha de Ditch: batalha ocorrida ao longo desses anos de consolidação do Islã, na


qual Fátima, a filha favorita do Profeta, desempenhou papel muito importante, pre­
parando comida durante o cerco. No local foi erguida uma mesquita em homena­
gem a ela. [N.T.]
34. Sobre esses escravos, ver Isabah, ii, 7 1 7.

350
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

desapontamento. Os muçulmanos foram exortados a realizar uma


tentativa final de tomar o local aproveitando-se de uma tempesta­
de, mas ainda então foram rechaçados. A conversão de Abu Sufyan
foi confirmada quando ele perdeu um dos olhos. Os muçulmanos
não mais se opuseram à ordem de retirada. A brava resistência de
Taif chegou a arrancar alguns elogios por parte dos muçulmanos
cuja natureza não fora inteiramente alterada pela nova religião.
A resistência de Taif, nesse momento da história do Islã, não
teve importância permanente, mas demonstrou que se outras for­
talezas haviam cedido com tanta facilidade quando os seguidores
de Maomé ainda eram poucos, foi porque não havia homens den­
tro delas. Meca tivera muito tempo para se preparar para um cer­
co e poderia ter feito causa comum com Taif, se o grupo de Abu
Sufyan fosse mais confiante.
O Profeta, revelando um excelente poder de previsão, não di­
vidira os despojos de Hunain. Eles foram armazenados em
Ji'irranah, a uma dezena de milhas de Meca, sem dúvida sob boa
custódia. A insensatez dos Hawazin, de levar as famílias e os bens
para o campo de batalha, fez com que a pilhagem de Hunain fosse
particularmente rica. Por conseguinte, embora o Profeta tivesse
muito prazer em colocar as mãos nos despojos de Taif, havia bas­
tante para acalmar os descontentes e determinar que o fracasso do
sítio fosse esquecido. Contudo, o butim não estava inteiramente
destinado aos conquistadores. Nesse meio-tempo, os Hawazin,
derrotados, decidiram converter-se e foram a Ji'irranah anunciar
a decisão ao Profeta, reivindicando que, como agora eram muçul­
manos, tinham direito a receber de volta suas famílias e seus bens.
Obviamente eles não podiam obter as duas coisas, e acabaram
optando pelas mulheres e os filhos. Houve alguma discussão para
decidir se os muçulmanos consentiriam em compartilhar essa va­
liosa metade do saque. E ainda mais: a fim de acalmar a consciên­
cia daqueles que hesitavam em violar as mulheres casadas (cujos
maridos não tinham sido mortos), o Profeta, com base na autori­
dade divina, havia declarado que o casamento ficava anulado pelo

351
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

cativeiro. Os seguidores mais antigos do Profeta prontamente con­


sentiram em sacrificar seus escravos e suas concubinas; os conver­
sos mais recentes, ansiosos por testar as bênçãos da religião que
tinham adotado, agarraram-se mais ainda aos seus prêmios, dos
quais, contudo, foram levados a abrir mão em virtude da promes­
sa de uma grande participação no próximo butim que o Profeta
viesse a conquistar.
Com respeito à propriedade dos Hawazin, não havia dúvida
acerca da divisão do que estava disponível. O Profeta tirou partido
da disposição dos medinenses para sacrificar suas vantagens terre­
nas e nada lhes deu. Em contrapartida, presenteou com vultosas
gratificações os antigos inimigos, os chefes coraixitas, como Abu
Sufyan e seus filhos, e os Banu Sulaim, que tinham vencido a ba­
talha para ele. Enquanto pessoas que não tinham fé recebiam cem
camelos cada, outros, qualificados como o sal da terra, foram
aconselhados a encontrar seu prêmio na própria fé.35 Mesmo ao
líder dos Hawazin, Malik, filho de 'Auf, foram oferecidos cem ca­
melos caso ele se tornasse muçulmano; o bravo guerreiro foi per­
suadido e passou a fazer parte dos conversos. O Profeta confessou,
com ingênua franqueza, que esses presentes tinham por objetivo
confirmar os novos conversos em sua fé. Como vimos muitas ve­
zes, ele nunca se interrogava sobre os motivos que produziam a
conversão.
As razões que ditaram essa estranha política são difíceis de en­
tender. Para nós, ganhos obtidos de modo escuso são consumidos
depressa demais para supor que Maomé esperava ganhar a grati­
dão permanente de seus antigos inimigos com esses subornos. Tal­
vez a cara fechada com a qual os coraixitas receberam os membros
da família do Profeta o tenham levado a conceber um plano para
salvar seus parentes de qualquer desconforto.36 Quem sabe ele
considerasse muito importante impressionar os mequenses com a

35. Ibid., i, 688.


36. Musnad, i, 207.

352
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

magnificência de seus presentes, como impressionara antes com


seu status real - e isso, ele sabia, poderia ser feito às custas dos
medinenses. Efetivamente, alguns deles haviam manifestado sua
convicção acerca da missão divina do Profeta em decorrência de
sua pródiga generosidade, que excedia toda atuação humana.37 Os
visitantes ocasionais a Medina eram tratados de forma tão cordial
que podiam prometer a seus companheiros de tribo independên­
cia para a vida toda caso se tornassem muçulmanos. 38
Os medinenses realmente sentiam que não eram tratados de
modo cordial e acabaram manifestando sua indignação. Isso deu
origem a uma cena daquelas apreciadas por quem gosta de ações
dramáticas, como as discussões entre os amantes, que provocam
o revigoramento do amor. O Profeta invocou seus fiéis "Ajudan­
tes" e lamentou que eles estivessem insatisfeitos com sua conduta.
O pensamento de que qualquer palavra que tivessem pronunciado
causasse dor ao Profeta afastou dos corações medinenses a lem­
brança dos equívocos de Maomé. Os Ajudantes declararam que
deviam tudo ao Profeta, e este reconheceu, com muito gosto, que
devia tudo a eles. Lágrimas copiosas prorromperam, e a delegação
deixou a presença sagrada satisfeita por sair com um prêmio ainda
maior que o de seus novos aliados. Se os outros voltavam com
ovelhas e camelos, eles iam para casa com o Profeta de Deus. As­
sim, Maomé, não pela primeira vez, retribuía com palavras e não
com ouro e prata, e não teve dificuldade alguma em fazer valer
essa moeda. É bem verdade que Omar estava ali perto, pronto para
decapitar qualquer um, amigo ou inimigo, que acusasse o men­
sageiro de Deus de injustiça. Contudo, o mensageiro de Deus não
teve necessidade dos seus serviços. Malik, filho de 'Auf, mostrou
que valera a pena a compra, uma vez que assediou seus ex-aliados,
os Thakif, da mesma forma que o próprio Maomé havia impor­
tunado os coraixitas.

37. Jahiz, Misers, 1 70.


38. Musnad, iii, 108.

353
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

A visita a Meca, acompanhada de tantas vicissitudes, chegava


ao fim com a participação do Profeta nas cerimônias da peregri­
nação menor. Depois, 'Akib, filho de Usaid, foi nomeado governa­
dor de Meca, recebendo o salário de um dirhem por dia. Essa foi a
primeira nomeação civil permanente no Islã; em Khaibar, a única
outra cidade de importância que os muçulmanos capturaram, o
governo local fora abandonado. Além do governador, deixou-se
em Meca um funcionário espiritual, Mu'adh, filho de Jabal, nativo
de Medina em cuja competência para ensinar a nova religião o
Profeta tinha plena confiança. Segundo consta, esse homem de
boa aparência tinha liberdade de ação. Essa atribuição, contudo,
certa feita o levou à bancarrota.39 Os dois homens tinham menos
de trinta anos de idade.
Depois, portanto, de ter arrumado a situação em Meca, o Pro­
feta voltava para casa, levando a parte do butim de Hunain que
tinha reservado para si.

39. Essa expressão é apropriada. Maomé, a quem os credores recorreram, foi instado a
entregar-lhes Mu'ad. O Profeta, porém, preferiu reunir a quantia devida, pagando
aos credores de Mu'ad um dividendo de cinco sétimos (cf. Ibn Sa'd, 123).

354
12
- ,
A FORMAÇAO DA ARABIA

O retorno a Medina' provavelmente foi do tipo entrada triunfal.


Como se viu, Maomé reservara uma parte do que fora obtido no
saque de Hunain para exibir na ocasião, de modo que a vitória
não parecesse estéril ou ambígua. Medina encontrava-se agora
na posição de capital de um império, enviando, às tribos submis­
sas, governadores e coletores de impostos para arrecadar tributos.
Ademais, havia a perspectiva de sujeição dos heroicos thakafitas,
visto que, antes de chegar à sua casa, o Profeta recebeu a submis­
são de 'Urwah, filho de Mas'ud, um dos dois homens cuja habili­
dade salvara Taif do temporal. Não sabemos o que pode ter ocor­
rido para fazer esse homem mudar tão depressa de opinião.
Naquele momento, seus concidadãos eram menos volúveis, pois,
quando ele voltou a Taif, na expectativa de que seu exemplo fosse
seguido sem hesitação, percebeu que estava enganado: uma sarai­
vada de projéteis acabou com a vida do traidor.
Outro visitante de Medina nesse período foi o poeta Ka'b, filho
de Zuhair. Seu pai fora um poeta beduíno de grande e merecida
celebridade. Dos versos atribuídos a esses primeiros bardos, aque­
les que trazem seu nome são os de mais alta qualidade, pois cor­
porificam muito de um sábio e nobre sentimento. O filho, como
outros rimadores da época, empregava parte de sua energia satiri­
zando Maomé, e ridicularizava seu irmão muçulmano por seguir
um sistema do qual seus pais nada sabiam. A Arábia se tornava um
lugar perigoso para um idólatra, e o dom poético talvez fosse um
atributo lucrativo entre os serviços do novo monarca. Em Medina,
Ka'b foi guiado até onde o Profeta estava sentado (ou de cócoras)
no meio de uma multidão. Ao seu redor havia círculos cada vez

1 . Dhu'l-Ka'dah 24, a.H. 8, identificado como 16 de março de 630 d.C.

355
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

mais amplos de pessoas que ouviam, com o coração pulsante, os


sábios discursos. O poeta encontrou seu lugar exatamente no
meio da audiência, e ali recitou sua ode apologética, com alguns
sonoros elogios ao Profeta e aos Emigrantes, e alguns risos dis­
farçados dirigidos aos Ajudantes.2 Maomé pediu à plateia que ou­
visse; quando o poema terminou, ele concedeu perdão a Ka'b,
com o pedido - facilmente atendido - de que compusesse al­
guns versos em homenagem a seus amigos medinenses.
Embora esse poema represente uma das composições clássicas
da Arábia, sua beleza muito provavelmente passou despercebida
ao Profeta, que, contudo, não estava disposto a ser visto como al­
guém que não entendia a situação. Antes disso os poetas já lhe
haviam causado muitos problemas. Na Arábia nômade, eles fa­
ziam parte do dispositivo de guerra das tribos. Defendiam sua
própria gente e causavam danos a tribos hostis, pelo emprego de
uma força que se supunha misteriosa, mas que de fato consistia
em compor frases brilhantes, que atraíam a atenção e que, por
isso, seriam difundidas e amplamente relembradas.
A atração exercida por Medina sobre poetas sem relação algu­
ma com as tribos amigas do Profeta mostrava que a cidade come­
çava a ser reconhecida como a residência de um soberano que ti­
nha entre seus poderes recompensar os elogios brilhantes feitos a
ele. Ka'b, filho de Zuhair, foi o primeiro de uma legião de poetas
que marcou profundamente as cortes dos monarcas muçulmanos;
graças a seus esforços, o elogio árabe tornou-se uma notável obra
de arte. Ademais, o exemplo que ele lançou, de mudar de direção
conforme o vento, também foi adotado por seus seguidores.
Quando os árabes se apressaram em aceitar o Islã, eles estavam
aptos a passar por cima de uma série de exigências, como, por
exemplo, o pagamento regular de uma taxa, chamada por eufe­
mismo de esmola. As fases pelas quais as esmolas passaram até
adquirir as características de um imposto não podem ser traçadas

2. Isso sugere que a disputa mencionada atraiu muita atenção.

356
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

aqui, mas sem dúvida elas começaram como contribuições volun­


tárias que os membros mais ricos da comunidade foram instados
a fornecer em benefício dos membros mais pobres. Na verdade, as
palavras que designam essa instituição se assemelham bastante a
termos judaicos. Um deles significa "honradez", outro, "mereci­
mento"; o primeiro, mesmo nos tempos bíblicos, parecia significar
"doação de esmolas". No Alcorão, contudo, assim como na Bíblia,
a doação de esmolas é mais recomendada como ato virtuoso que
avaliada pela quantia com a qual cada fiel deve contribuir; os có­
digos judaicos também não parecem quantificá-la.3 Todavia, as
maneiras pelas quais ela pode ser doada e os objetivos aos quais
pode atender são claramente definidos.
Presume-se que a coleta de esmolas tenha ficado a cargo de
funcionários designados para isso. As esmolas judaicas assemelha­
vam-se, por conseguinte, às coletas cristãs informais; enquanto a
comunidade muçulmana reunia um número reduzido de pessoas,
a esmola era mais recomendada que imposta; quando o Profeta
declarou que a "verdadeira caridade não seria alcançada até que os
homens dispusessem de suas posses favoritas", todos os presentes
valiosos incluídos nesse aforismo receberam o rótulo de "esmola".
Diz-se que Abu Bakr teria dado tudo o que possuía como "esmo­
la': Othman, filho de 'Affan, redimiu-se de alguns deslizes com sua
liberalidade na doação de esmolas.
No entanto, a ideia de tornar as esmolas um tributo anual pa­
rece ter relação com a necessidade de o Estado se organizar assen­
tado em algum tipo de base financeira; surgiu quando se precisava
de dinheiro, e o expediente até então empregado - o roubo de
judeus - não era mais possível, uma vez que todos os judeus ha­
viam sido massacrados ou espoliados. A experiência mostrara
ao Profeta que os novos conversos estavam muito mais ansiosos
por receber que por dar. A prodigalidade em presentes foi julgada
aconselhável no caso dos mequenses, para induzi-los a permane-

3. Cf. Saalschütz, Mosaisches Rech., 284.

357
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

cer fiéis ao Islã. Não havia, pois, qualquer perspectiva de os novos


conversos oferecerem contribuições por conta própria.
A ideia de lhes impor uma contribuição sob a forma de impos­
to parece ter sido pensada por Abu Bakr, que, no início do seu
califado, fez da recusa ao pagamento um motivo de guerra. Essa
orientação esbarrou na opinião contrária de Omar, que, contudo,
acabou por aceitar essa doutrina. Mais tarde,4 Abu Bakr seria ci­
tado como detentor de um código preparado pelo Profeta deta­
lhando as contribuições em espécie, que depois se tornou a lei do
Islã. A avaliação que acabou prevalecendo fez com que a contri­
buição sobre cada espécie de produto importasse em cerca de 1/40
(2,5%), embora, no caso das contribuições em espécie, tenham se
contabilizado muitas regulamentações específicas. Considerava­
-se, em geral, que um camelo equivalia a dez ovelhas, e uma ovelha
a vinte dinares. É provável que essa tarifa só tenha se estabelecido
depois de se tentar uma variedade de alternativas.
No início do ano 9, Bishr, filho de Sufyan, dirigiu-se às tribos
Khuza'ah e Tamim para recolher esmolas. Os Banu Ka'b, clã inte­
grante da primeira tribo, autorizaram a coleta da contribuição,
mas em seguida os Tamim os dissuadiram, e ambos negaram que
a religião à qual tinham aderido envolvia esse tipo de sacrifício.
O Profeta, ao ouvir a notícia dessa insubordinação, logo tomou
medidas para controlá-la. 'Uyainah, filho de Hisn, foi enviado
com um destacamento de cinquenta árabes que colocaram em
prática a manobra regularmente empregada nessas expedições de
ataque - viajar durante a noite e se esconder de dia. Assim, con­
seguiram capturar um número considerável de homens, mulheres
e crianças, que foram levados a Medina.
Logo em seguida, os Banu Tamim enviaram uma delegação ao
Profeta, integrada por seu principal orador, 'Utarid, filho de Hajib,
e seu principal poeta, Al-Akra', filho de Habis. Eles provavelmente
haviam perdido a esperança de ganhar alguma vantagem sobre

4. Nasa'i.

358
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

os muçulmanos no campo de batalha, mas os árabes não com­


preendiam bem a diferença entre os danos que um punhado de
setas pode causar e os que a boca pode fazer, e esperavam com­
pensar esse equipamento inadequado para a guerra real superan­
do o Profeta em termos de autoglorificação. * Na verdade, conta-se
que eles tinham convocado Maomé com certa rispidez para uma
disputa de elogios.
O Apóstolo de Deus, naturalmente, não aceitou participar pes­
soalmente da contenda. Se não houvesse nada que o prevenisse
a esse respeito, suas reminiscências de encontros similares em
Meca não eram nada encorajadoras. Mas ele tinha seus campeões
a postos: o poeta Hassan, filho de Thabit - de quem Maomé to­
mara as dores e com quem se reconciliou depois que o poeta foi
justamente punido -, e o orador Thabit, filho de Kais. Com esses
aliados, ele não hesitava em autorizar o início daquele debate fora
de moda. Os poetas e oradores rivais exibiam os feitos de suas
respectivas tribos num fraseado fluente e em versos reverberantes.
O resultado, contudo, era inevitável: os Tamim não teriam recor­
rido a uma competição verbal se tivessem alguma intenção de lu­
tar, nem o Profeta teria permitido a contenda exceto como ato
de cortesia.
Quando os prêmios pelas composições foram entregues, os de­
legados Tamim naturalmente declararam-se satisfeitos com a su­
perioridade da poesia e da retórica que se alinhara ao Islã. Os pri­
sioneiros foram devolvidos aos tamimitas, e seus delegados
receberam o tratamento gentil em geral concedido aos embaixa­
dores, mas também tiveram de entender, sem qualquer sombra de
dúvida, que o tributo devia ser pago. Em virtude da bem-sucedida
defesa do Profeta, Hassan Ibn Thabit foi homenageado com a ins­
talação de um púlpito na mesquita.5

* No original, outboasting ( to outboast): elogiar a si mesmo, mais do que outra pessoa o


faria, gabar-se. [N.T.]
5. Musnad, vi, 72.

359
DAVI D SAMUEL MARGOLIOUTH

Outro incidente também ilustra a má vontade com a qual se


concediam as esmolas. Os Banu Mustalik, cujo nome já nos é fa­
miliar, receberam a visita de um coletor de impostos que estava
envolvido numa vendeta com a tribo que datava de período ante­
rior ao Islã. A maneira pela qual os Banu Mustalik vieram a seu
encontro sugeriu-lhe que eles não tinham boas intenções, por isso
o coletor apressou-se em voltar para Medina. Contudo, agora que
sua presa estava fora de alcance, os Mustalik - nada dispostos
a organizar um ataque a Medina - enviaram as mais solenes ga­
rantias de que suas intenções eram as mais nobres. O Profeta des­
pachou Khalid à frente de um destacamento com o intuito de se
certificar disso; se houvesse qualquer indício de que eles estavam
abandonando o Islã, seriam atacados. Ao verificar que as tribos
cumpriam de forma meticulosa suas devoções, Khalid foi conven­
cido a fazer um relatório favorável, dizendo que não havia mais
dificulda�e alguma relativa às esmolas.
Em algum momento desse ano (ano 9) houve certos problemas
domésticos, tratados em grande número de relatos, mas nenhum
deles muito edificante. Nenhuma alusão a eles foi considerada de­
sejável, visto que não receberam menção no Alcorão. Hafsah, filha
de Omar - que, depois da morte do marido em Badr, tivera algu­
ma dificuldade em se casar de novo e foi tomada pelo Profeta por
razões políticas -, era uma mulher de temperamento violento.
Julgando que seus direitos eram prejudicados em favor da concu­
bina Mariah, provocou um tumulto no qual as demais integrantes
do agora numeroso harém tomaram seu partido. Tudo indica que
o Profeta teria dado sua palavra a Hafsah de que, no futuro, evi­
taria a companhia de Mariah. Contudo, depois que prometera,
obteve permissão divina para não manter a palavra. O descum­
primento da promessa teve como desculpa o fato de Hafsah ter
revelado um segredo que jurara guardar.
Em razão das violentas reprimendas proferidas pelas integran­
tes do harém, o Profeta resolveu deixar a companhia delas por um
mês inteiro, e chegou a ameaçar divorciar-se de todas. Provavel-

360
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

mente o harém o conhecia o bastante para temer essa ameaça;


antes de o mês ter expirado, Maomé selou a paz com as mulheres.
Para tal, ele produziu uma revelação6 meio séria, meio cômica,
pela qual elas foram informadas de que o Profeta não teria dificul­
dade alguma em conseguir outro conjunto de esposas equivalente
àquele em todos os aspectos, caso fosse necessário tomar medidas
extremas. Alguns biógrafos reproduzem, para nosso benefício, a
curiosa cena do Profeta deitado num aposento, num andar supe­
rior, acessível por uma escada. Nada além de uma esteira de junco
o separava do chão. No fim do mês, as confusões domésticas ha­
viam deixado o Profeta extremamente abatido e cabisbaixo. Omar
subiu a escada, muito angustiado, e perguntou-lhe se era verdade
que ele tinha se divorciado de suas esposas. O Profeta, que a essa
altura já se recompusera, respondeu negativamente, ao que Omar
exclamou "Hurra!" ("Deus é poderoso") num tom de voz tão alto
que pôde ser ouvido em grande parte de Medina. O doloroso in­
cidente estava encerrado.
Outra dessas cenas domésticas é de natureza um pouco dife­
rente. Abu Bakr e Omar bateram à porta do Profeta e, inicialmen­
te, não obtiveram permissão para entrar. Quando foram admiti­
dos, encontraram Maomé sentado, sombrio e silencioso, com as
esposas ao seu redor. Elas haviam lhe pedido uma série de itens
domésticos que o Profeta não podia fornecer. Omar, esperando
agradar o Profeta, contou que, quando a esposa lhe pedira dinhei­
ro, ele respondera com um sonoro tapa no pescoço dela. O Profe­
ta, explodindo numa gargalhada, explicou que suas esposas tam­
bém eram inoportunas. Os dois amigos manifestaram a vontade
de experimentar a solução dada por Omar com suas respectivas
filhas, mas o Profeta não concordou. O que ele fez foi oferecer às
esposas a possibilidade de deixá-lo, caso preferissem o mundo
real. Aisha declinou da oferta, e as outras seguiram seu exemplo. 7

6. Sura lxvi.
7. Musnad, iii, 328.

361
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

Após o encerramento dessa queda de braço, no Rejeb do


ano 9,8 o Profeta convocou seus seguidores às armas para atacar os
bizantinos em Tabuk, uma parada na estrada dos Peregrinos, a
meio caminho entre Damasco e Medina. Alguns mercadores na­
bateus informaram o Profeta de que um grande contingente de
bizantinos estava ali reunido, com seus aliados árabes das tribos
Lakhm, Judham, Ghassan e 'Amilah. Esse relatório provavelmente
era falso;9 na realidade, de acordo com uma narrativa, os árabes
cristãos haviam anunciado prematuramente a Heráclio a morte
do Profeta, portanto não haveria ocasião para esse tipo de recru­
tamento. Não obstante, Maomé acreditou nos mercadores, e tal­
vez estivesse ansioso por uma brilhante vitória que jogasse no es­
quecimento a variedade de problemas que se haviam acumulado:
a derrota de Mutah, as disputas domésticas e a divisão desigual do
butim de Hunain.
As consequências desse último escândalo só agora começavam
a aparecer. A população de Medina não se mostrava disposta a
participar de uma expedição cujos lucros iriam para terceiros.
Queixaram-se da estação do ano em que a expedição acontece­
ria, bem como do sofrimento e da doença que ela acarretaria.
O partido dos "hipócritas" começou a levantar a cabeça, e mesmo
um judeu chamado Suwailim cometeu a insensatez de permitir
que sua casa servisse de ponto de encontro para os descontentes.
O resultado, muito natural e até inevitável, foi que o Profeta en­
viou um emissário para queimar a casa do judeu com eles dentro.
Os descontentes escaparam das chamas, mas não de ser atingidos
pessoalmente.
Somos levados a acreditar que Abdallah Ibn Ubayy teve uma
boa oportunidade para agir como já havia feito antes, em Uhud.
Diz-se que ele equipou um destacamento não menor que o de
Maomé, acampou fora de Medina na ocasião em que o Profeta

8. Identificado como outubro-novembro de 630 d.C.


9. Diyarbekri, ii, 136.

362
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

acampou, mas depois se recusou a seguir adiante, sob o argumen­


to de que o contingente muçulmano não teria condições de êxito
num confronto com os bizantinos. A menos que o descontenta­
mento em Medina tivesse ido muito além do registrado e mesmo
do sugerido, não podemos acreditar, em sã consciência, que os
arqui-hipócritas, depois de tudo o que haviam passado, ainda es­
tivessem em condições de ad�tar as velhas táticas.
Não sabemos se Abdallah, filho de Ubayy, foi ou não mais uma
vez ao campo de batalha, mas afirma-se que o Profeta se empe­
nhou ao máximo a fim de reunir força suficiente para qualquer
emergência. Assim, pediu a ajuda de todos para a aquisição de
novos equipamentos para o Islã; ao preparar aquele contingente
(o qual, conta-se, somava 30 mil homens), esgotou seus próprios
recursos e aqueles que seus amigos colocaram à sua disposição. Ele
decidiu comandar pessoalmente o exército. Algumas críticas lhe
foram dirigidas por ter mandado Ali para casa, a fim de tomar
conta da família real.
A expedição era do interesse do Profeta, e, à frente das tropas,
ela passou por aquelas cidades em ruínas de cuja história o Alco­
rão está repleto; pelas habitações de pedra que ele supunha que
fossem do Thamud, que, tendo se recusado a ouvir a voz do Pro­
feta, foram destruídas; as mansões de pedra permaneceram como
monumento e advertência. Explorações recentes provaram que
aquilo que o Profeta supunha que fossem mansões, na realidade,
eram tumbas. Mas, ao atravessar essa região que lhe era familiar,
ele não podia deixar de fazer uma observação a respeito do fato
de que os muçulmanos estavam em presença do grande teatro da
vingança divina. Eles deviam passar diante daquelas habitações
desertas com o rosto coberto, esporeando seus corcéis. Não de­
viam comer ou beber nada que fosse encontrado ali e, depois que
caísse a noite, quando acampariam, deviam ficar todos juntos.
Fábulas inventadas mais tarde mostravam a importância dessas
proibições pelo destino que sobrevinha àqueles que as violavam.
Muitos anos se haviam passado desde que Maomé ouvira pela

363
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

primeira vez a emocionante história do destino do Thamud, nar­


rada por integrantes de uma caravana. Na verdade, a semente fora
lançada em solo fértil.
O registro da expedição a Tabuk está em numerosas narrativas
que falam de hipocrisia, covardia e mesmo deserção de parte das
tropas. O Profeta logo tomou conhecimento - por algum milagre
ou pelo sistema de espionagem que tão bem funcionara em Medi­
na - de manifestações de descrença, algumas das quais bastante
radicais. De acordo com os biógrafos, essas pessoas não eram pu­
nidas em circunstância alguma, mas refutadas por uma série de
demonstrações do poder profético.
Vale observar ainda que os muçulmanos estavam profunda­
mente impressionados com a grandeza do poder bizantino, e te­
merosos com a ideia de que lutar contra eles seria completamente
diferente de lutar contra os árabes.
Quaisquer que tenham sido os temores alimentados, eles não
se concretizaram. A informação que levou o Profeta a dar início
à expedição era falsa; não havia exército bizantino a ser enfrenta­
do. Todavia, Maomé não desejava que sua marcha fosse infrutífe­
ra, e o plano de impor tributos a cristãos e judeus agora amadure­
cera em sua cabeça. O governador de Ailah, diante do golfo de
Ácaba - cujo nome, Johanna, filho de Rubah, indica que ele era
cristão -, comprometeu-se a pagar um tributo ao líder muçul­
mano. Fontes seguras nos dizem 10 que a quantia chegava a trezen­
tos dinares, equivalendo um dinar a dez francos por cabeça. Estava
preparado o caminho para a invasão do Egito. Duas comunidades
sírias, as de Jarba e Adhruh, também enviaram declarações de vas­
salagem e se comprometeram a pagar nas mesmas bases: o dinhei­
ro devia ser entregue todo o mês de Rejeb.
Como a população de Ailah era judaica, impuseram-lhe termos
mais duros: eles teriam de pagar um quarto do que produziam. Os
judeus desse lugar tinham em mãos um documento que lhes asse-

10. Baladhuri, 59.

364
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

gurava inteira proteção, com a condição de que pagassem essa par­


te do produto de palmeiras, pesca e tecelagem, e concedia ao Pro­
feta o direito de acesso a seus escravos, cavalos, mulas e armas.
Mais adiante, somos informados de que os moradores eram cha­
mados de Banu Habibah. Vinte e cinco por cento dos produtos
significavam dez vezes a quantia imposta aos muçulmanos na
condição de esmola. Esses termos tão rígidos atestariam a auten­
ticidade do documento; contudo, a assinatura revela que ele é es­
púrio, a menos que o acordo não tenha sido feito nessa ocasião.
Enviou-se um destacamento sob o comando de Khalid para
Dumat al-Jandal, com o objetivo de combater o príncipe cristão
Ukaydir, o bíblico Duma. Conta-se que Khalid o encontrou fora
da cidade, caçando, e o capturou, tendo antes matado seu irmão.
Tudo indica que o príncipe aceitou prontamente o Islã, mas os
termos estabelecidos com ele e seu povo eram muito severos, de
acordo com um documento cuja autenticidade é atestada por sua
linguagem arcaica. 1 1 Todas as suas armas e seus cavalos tiveram de
ser colocados à disposição do Profeta, que também reivindicou as
fortalezas e as terras desocupadas e sem cultivo. O príncipe con­
servaria o resto das propriedades, mas ele e seu povo tiveram de
aderir às regulamentações do Islã, que estavam ali especificadas,
como a oração e as esmolas.
Foram elaboradas certas regras para a coleta das esmolas, asse­
gurando que elas não seriam desnecessariamente onerosas. É pro­
vável que a distância entre essa comunidade e Medina tenha im­
possibilitado o Profeta de impor a seus membros a necessidade
de serviço militar; ademais, o fato de Medina ser uma cidade su­
perpovoada tornou indesejável, posteriormente, que se encorajas­
se a emigração. A política de Maomé com essa aquisição distante
era experimental e não foi imitada pelos califas.
O tempo passado às voltas com essas negociações variou de
uma quinzena a dois meses. Quando foram concluídas, o Profeta

1 1. lbid., 6 1 .

365
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

fez o caminho de volta, levando consigo ganhos bastante modes­


tos. O casaco bordado de ouro do irmão do príncipe Duma, que
fora assassinado por Khalid, era o troféu mais importante. Segun­
do alguns estudiosos, Omar foi encarregado da retirada. Ele supu­
nha que os bizantinos tinham ouvido falar da expedição do Pro­
feta e estavam prontos para enfrentá-la.
A jornada de volta para casa mostrou que Maomé, como ou­
tros fundadores de tiranias, começava a ficar impopular. Acredita­
-se que, no caminho, foi vítima de uma nova tentativa de assassi­
nato, frustrada como as outras pela falta de determinação dos
conspiradores e pela constante vigilância do Profeta. Um fato ain­
da mais grave é que o Islã começava a produzir dissidentes. Mao­
mé fora informado sobre a construção de uma mesquita nas pro­
ximidades de Kuba, "com a perspectiva de espalhar o dissenso
entre os muçulmanos e apoiar o inimigo do Profeta". Esse inimigo
mais tarde foi nomeado "Abu 'Amir, o Monge", o cidadão de Me­
dina que abraçara o monoteísmo antes da chegada de Maomé,
fora intimidado pela religião do Profeta e inutilmente procurara
estimular a deserção entre as fileiras de Ajudantes em Uhud; de­
pois de Hunain, ele se refugiara na corte do monarca bizantino, no
intuito de obter apoio contra o bem-sucedido fundador do Islã.
A nova mesquita não foi erguida em sigilo, e o Profeta foi con­
vidado para inaugurá-la. O líder da oração era um certo Mujam­
mi', que devia sua fama (e talvez o seu nome) ao seu zelo em reco­
lher os ditos do Alcorão. Mas o segredo - mantido a duras penas
-, ou o relato que o Profeta teve dificuldade de aceitar, era que a
mesquita estava destinada a servir de centro para os seguidores de
Abu 'Amir quando ele ali chegasse com seus aliados bizantinos.
Enquanto isso não acontecesse, seria o quartel-general de uma
sociedade secreta cujo objetivo era desalojar o Profeta. A maneira
pela qual Maomé lidou com esses planos foi rápida e eficiente.
Convidado pela segunda vez para inaugurar a mesquita, ele en­
viou um destacamento de homens para queimá-la de cima a bai­
xo, tornando-a um local completamente inviável no futuro.

366
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Nunca se saberá ao certo o que há de verdade nesse caso. A re­


velação em que é mencionado - e que contém uma variedade de
adivinhações, liberadas em conexão com a expedição a Tabuk -
apresenta um tom de amargura e preocupação, bem como de de­
sapontamento e oposição, que, sem dúvida, afetaria um homem
com o temperamento do Profeta. A população de Medina e seus
novos aliados beduínos eram acusados de abrigar hipócritas. Pa­
rece também que o Alcorão começava a ser alvo do mesmo tipo de
crítica que o Profeta recebera em Meca. Quando uma nova revela­
ção vinha à luz, os moradores de Medina perguntavam uns aos
outros, sarcasticamente, se a fé deles aumentara. Podia-se encon­
trar muita gente falando e rindo; e, a despeito das negativas mais
firmes, o Profeta achava que o Alcorão fornecia ingredientes para
a diversão dessas pessoas.
O recrudescimento da descrença provavelmente devia-se à po­
lítica do Profeta de "reconciliar corações", isto é, de convencer
os homens, por suborno, a se tornarem muçulmanos. As pessoas
convertidas dessa maneira tendiam a conservar o sarcasmo que
vinha à tona quando a ocasião pedia. Há também referências su­
gerindo que alguns dos descontentes não gostavam da ideia de
viver de pilhagem, agora uma das marcas características do Islã, e
desejavam que se instaurasse um sistema mais honesto.
O que se sabe a respeito dos construtores da chamada "Mes­
quita do Dissenso" não é suficiente para nos permitir avaliar de
modo correto os seus propósitos. Se o caso foi interpretado com
acerto por Maomé, o exemplo dele mesmo já teria impressionado
profundamente os árabes com a noção de que um movimento
político deve ser precedido por um movimento religioso, e que
a operação preliminar necessária para aquele que quer começar
uma revolução é construir uma igreja. O programa desses conspi­
radores fracassados talvez tenha sido uma forma de abraamismo,
como se diz que Abu 'Amir praticou, acusando Maomé de ter se
corrompido. O profeta retrucou que a mesquita construída por

367
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

Abu 'Amir estava assentada sobre areia movediça, pronta para cair
no fogo do inferno.
Tanto no começo da expedição a Tabuk como durante a ação
houve muitas deserções. O retorno do Profeta alarmou os culpa­
dos, e nós somos informados, pelo Alcorão, de que o Profeta reser­
vou alguns dos casos para deliberação especial. Uma dessas pes­
soas deixou-nos um relato de seus sofrimentos que ilustra bem os
métodos do Profeta. 12 Ka'b, filho de Malik, era um khazrajita que
recebera onze ferimentos em Uhud e ganhara uma propriedade
em Khaibar. Era também poeta, e sua inspiração servia a Maomé.
Conta-se que ele teria coagido a tribo Daus a adotar o Islã. Duran­
te a estação quente, ficava à vontade em Medina e, por indolência,
não conseguiu se aprontar a tempo de participar da expedição
nem de se juntar a ela mais tarde.
Ka'b não fez segredo disso para o Profeta, que reservou o caso,
com outros dois, para futura revelação. Nesse meio-tempo, nem o
Profeta nem qualquer muçulmano falaria com Ka'b. Durante o
período de sua excomunhão, segundo suas palavras, chegou-lhe
uma mensagem do príncipe gassânida na Síria, oferecendo-lhe
patrocínio e proteção caso ele optasse por deixar Medina; Ka'b
rejeitou essa tentação do diabo. Em seguida, veio uma mensagem
do Profeta punindo os três delinquentes com uma penitência que
Maomé sem dúvida considerava severa. Durante certo tempo, eles
teriam de ficar longe de suas esposas. Enquanto isso os três conti­
nuariam praticando suas devoções com regularidade meticulosa,
na esperança de que a ira do Profeta passasse. Depois de cinquen­
ta dias, ela passou.
A revelação que veio em seguida assegurou-os do perdão. Con­
gratulações afetuosas chegaram de todos os lados. No entusiasmo
do momento abençoado, Ka'b estava pronto a dar tudo o que pos­
suía como agradecimento por sua readmissão na sociedade dos

1 2. Muslim, ii, 330.

368
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

crentes. Se as pessoas de Medina eram infantis a esse ponto, não é


de admirar que um homem adulto pudesse moldá-las de acordo
com sua vontade! Sabemos também que outros se mantiveram
fiéis em momentos de extrema tentação, por medo de se tornarem
tema de um texto do Alcorão.
A fortuna era muito amiga do Profeta para permitir que seu
sucesso sofresse um eclipse, ainda que temporário. Logo depois
de sua volta, chegaram enviados de Taif anunciando a submissão
dos bravos e obstinados Thakif. A última notícia que se tinha deles
era que haviam matado seu chefe 'Urwah, filho de Mas'ud, por
abraçar o Islã; e que Malik, filho de 'Auf, ex-aliado deles, provava
sua sinceridade de muçulmano atacando quem saísse de Taif. Sua
submissão fora apressada pela crença de que Maomé era irresis­
tível, de que prolongar a resistência só lhes renderia sofrimento
e, afinal, seria inútil. Parece também que muitos deles careciam
de uma causa qualquer à qual conscientemente dessem impor­
tância e pela qual estivessem preparados para sofrer ou morrer.
O procedimento dos Thakif parece ter sido muito mais me­
tódico e digno do que o daqueles que os precederam em submis­
são. Um grupo de seis, representando diferentes estratos da popu­
lação, foi enviado em delegação a Medina. Eles temiam que, ao
retornar, esse pequeno número de pessoas fosse vítima de outra
onda de indignação popular. Quando chegaram a Medina, os en­
viados também agiram com cuidado e esforçaram-se para entrar
em bom termo com o Profeta. Estavam ansiosos por manter o
direito de adorar seus ídolos durante certo período de tempo e ser
dispensados das cinco orações diárias, que muitos dos conversos
julgavam extremamente incômodas, além das lavagens, muito de­
sagradáveis no clima frio de sua região. 13 Desejavam também re­
ceber permissão para cobrar juros, beber vinho e cometer certas
irregularidades sexuais. 14

13. Musnad, iii, 347.


14. Wakidi ( W.), 384.

369
DAVID SAMUEL MARGOLIOUTH

Abu Bakr e Omar tomaram precauções para que o Profeta não


fizesse concessões em demasia: a experiência mostrara-lhes que,
quando o ponto principal era definido, Maomé revelava-se negli­
gente quanto aos detalhes. De todo modo, foram passadas instru­
ções a Othman - filho de Abu 'al-'Asi, jovem que fora nomeado
governador como recompensa pelo desejo que havia manifestado
de aprender o Alcorão a fundo - para que não fosse muito exi­
gente no que dizia respeito às cerimônias do Islã.
O acordo firmado com Taif era muito menos oneroso que
os outros a que o povo de Alá tivera de se submeter. O velho san­
tuário da deusa Al-Lãt devia ser respeitado sob o novo proprie­
tário. 15 A idah (uma erva que os camelos comiam) e o jogo de
Bajj (o antigo nome de Taif) foram abandonados, sob pena de
severas punições. Contudo, os thakafitas tiveram de ser liberados
das esmolas e da obrigação de lutar. Maomé observou que, a partir
do momento em que aceitassem o Islã, eles iriam querer dar es­
molas e tomar parte na guerra santa. 1 6
Os thakafitas também estabeleceram que não deviam ser força­
dos a quebrar seus próprios ídolos. Eram tantos os muçulmanos
dispostos a responsabilizar-se por essa tarefa piedosa, que especi­
ficar isso talvez parecesse desnecessário. Afinal as duas pessoas en­
carregadas disso foram um ex-sacerdote da deusa,17 Mughirah,
filho de Shu'bah, um thakafita que fora a Medina como converso,
alguns anos antes, e Abu Sufyan, em cujas capacidade e lealdade
Maomé agora depositava absoluta confiança. A deusa do lugar -
uma pedra branca - possuía certa riqueza, como era de se espe­
rar, graças às prósperas condições de Taif. Ela estava alojada num
buraco sob a pedra, a um fathom * de profundidade. 18

15. Wellhausen, Reste, 30.


16. Musnad, iii, 341 .
17. Wellhausen, Reste, 3 1 .
* Fathom: unidade de medida equivalente a 1,8 m . [N.T.]
1 8. Wellhausen, Reste, 3 1 .

370
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

Tomaram-se precauções para evitar que os destruidores se tor­


nassem vítimas da fúria popular, mas elas foram desnecessárias.
É bem verdade que as mulheres se despiram, choraram e chega­
ram a admoestar os homens por terem traído a deusa, mas os ára­
bes tinham uma doutrina segundo a qual Deus devia ser capaz de
se defender, e não interfeririam na execução das ordens do Profe­
ta. O dinheiro e as joias da deusa foram tomados por Abu Sufyan,
que, supomos, teve de prestar contas deles a Maomé. Não dis­
pomos de informações, nesses casos, sobre o que foi feito dos sa­
cerdotes idólatras; contra todas as expectativas, eles achavam que
seus deuses iriam dar algum sinal de ressentimento. Entretanto,
os novos conversos podiam facilmente ser levados a pilhar; por
isso supomos que, nesse momento, eles ganhavam a vida como
a maioria dos muçulmanos.
Aquele ano foi marcado por um importante evento na história
do Islã: a primeira peregrinação presidida por um funcionário
muçulmano. Designou-se Abu Bakr para executar a honrosa tare­
fa. Pouco depois de ele ter começado, o Profeta lembrou que dese­
java dar outras instruções. Por conseguinte, produziu-se uma re­
velação que consistiu, na realidade, em um manifesto para os
árabes que poderiam se reunir para a peregrinação, e Ali foi envia­
do a toda pressa para comunicá-lo a Abu Bakr enquanto ainda
houvesse tempo.19
Esse sanguinário documento20 mostrava que as coisas tinham
chegado longe. Os árabes receberam quatro meses de indulgência,
após os quais o Profeta os atacaria, caso não aceitassem o Islã.
Também se anunciou que, depois daquele ano, nenhum infiel po­
deria tomar parte na peregrinação. O crime de afastar as pessoas
da Casa de Deus, tão sério quando acusaram os coraixitas disso,
assumiu um aspecto diferente quando o Apóstolo teve poder para

19. Em Musnad, i, 3, consta que Abu Bakr fora chamado de volta de tal modo que al­
guém da casa do Profeta pudesse entregá-lo, mas isso parece uma invenção xiita.
20. Wellhausen, Sturz, 14, aceita a data costumeira para esse documento; Grimme a si­
tuaria após a tomada de Meca.

371
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

cometê-lo. A infeliz noção do Profeta relativa ao calendário foi


assim reforçada, causando a ruína do comércio mequense ao colo­
cá-lo na dependência da peregrinação e dos meses sagrados. Mas
as perdas eram indenizadas pela pilhagem de judeus e cristãos,
cujo lugar como casta tributária agora fora definitivamente esta­
belecido. O Profeta não estava consciente do caráter desses expe­
dientes. Defendia-os com uma série de ataques dirigidos contra as
pessoas que agora oprimia ou exterminava. As consequências do
recente descontentamento em Medina logo se fizeram notar.
A divulgação do manifesto em Meca levou ao Profeta uma sé­
rie de delegações, integradas por pessoas ansiosas por fazer amiza­
de com o novo governante da Arábia, ou aprender mais sobre seu
sistema. Pequenos príncipes e governadores de tribos e províncias
estavam desejosos de obter a confirmação de seus direitos e asse­
gurar a posse do domínio21 de que se apropriaram, ou a posse de
um domínio que pertencia a algum deus. Visto que fora procla­
mada a guerra contra todos os que não aceitassem o novo sistema,
não se deixou escolha alguma aos homens: ou entravam na guerra
ou se preparavam contra ela.
A iconoclastia que grassara em Medina no momento da chega­
da do Profeta espalhava-se por toda parte. Era importante agora
provar claramente que os velhos deuses eram incapazes de se de­
fender ou de se vingar daqueles que os destruíam. Fatos que ha­
viam sido negligenciados durante gerações agora começavam a
sugerir importantes inferências. Um homem observou que seu
deus sofria ao ser profanado por animais e deixou de adorar uma
divindade sobre a qual as raposas urinavam. 22 As pessoas que se
apressam em colocar incenso no altar de adoração são figuras fa­
miliares em todas as idades e muitas cenas foram representa­
das nessas visitas. Alguns dos visitantes23 admitiam examinar os

2 1 . Wellhausen, Reste, 107.


22. Isabah, i, 1 .012.
23. Musnad, i, 264.

372
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

clamores proféticos de Maomé com o maior cuidado. Eles elabo­


raram uma série completa de questões a que o Profeta deveria
responder de modo satisfatório, caso contrário se recusariam a
aceitá-lo. Exigiam certezas mais positivas sobre um ou outro tema,
de modo a atender a necessidade de apaziguar a consciência e o
intelecto cético.
O Profeta respondeu de forma satisfatória também a esses exa­
minadores inflexíveis, que foram confirmados em seus privilégios,
ou receberam novos; alguns tentaram roubar seus vizinhos, apro­
veitando-se da ignorância do Profeta acerca das condições locais.24
Guerreiros valentes, que tinham ficado famosos em muitas lutas,
expressariam sua convicção na verdade do Islã. Talvez uma peque­
na parcela deles não tenha sido sincera, voltando atrás em suas ma­
nifestações de crença tão logo o Profeta se retirava. De todo modo,
a proezas e a maestria deles no comando do camelo lhes eram úteis
nesse tipo de disputa, assim como foram no campo de batalha.
Dois chefetes resolveram visitar o Profeta e combinaram que, en­
quanto um o mantivesse ocupado com perguntas, o outro enfiaria
o punhal no mensageiro de Deus. Mais fácil dizer que fazer!
'Amir Ibn Tufail falou com bastante desenvoltura com o Pro­
feta e prendeu sua atenção, mas seu colega Abrad - ponderan­
do o destino que o assassino de Maomé deveria enfrentar em Me­
dina, "e que as cores nascentes da coragem empalidecem perante
o frouxo clarão do pensamento"* - atribuiu sua própria covar­
dia a um milagre. Durante a entrevista, o Profeta teria ficado invi­
sível, de modo que o homem não soube onde desferir o golpe.
Para nós, a conduta de Charlotte Corday ** parece mais mira­
culosa ainda.

24. lkd Farid, i, 104. Nem todos os enviados se converteram. Ibn Duraid, 236, menciona
Wazar lbn Jabir como um deles.
* Frase do monólogo de Hamlet, da peça homônima de William Shakespeare. [N.T.]
** Charlotte Corday ( 1 768- 1 793): jovem francesa que assassinou, com uma facada, o
revolucionário Jean-Paul Marat, um dos mais ardorosos defensores da política do
Terror durante a Revolução Francesa. [N.T.]

373
DAV I D SAMUEL MARGOLIOUTH

A delegação do estado cristão de Najran - a única comuni­


dade de cristãos árabes que deixou vestígios no martirológio e
cujos sofrimentos, sob a dominação temporária dos judeus, fo­
ram uma das primeiras inspirações do Alcorão - foi diferente
da maioria das outras. Uma grande delegação dessa comunidade
chegou a Medina. Ao que tudo indica, seus integrantes esperavam
que o Profeta os saudasse como correligionários no terreno reli­
gioso e até os declarasse "muçulmanos", pretensão que Maomé se
recusou a reconhecer, uma vez que desaprovava certas doutrinas e
práticas dos najranitas. Parece que o porta-voz da delegação estava
ansioso por debater com o Profeta a natureza de Cristo. Não tinha
dúvida de que, como Maomé aceitara a doutrina da concepção da
Virgem,* sua visão sobre esse tema delicado não diferiria muito
seriamente da deles, ou, se diferisse, que o assunto estaria aberto a
debate. Maomé conhecia suficientemente o cristianismo para sa­
ber que muito sangue fora derramado por causa dessa controvér­
sia. Porém, em vez de argumentar - o que o teria exposto a uma
desvantagem muito séria -, ele recorreu a uma revelação.
Alguns anos antes, quando procurou obter refúgio para seus
seguidores na Abissínia, Maomé escrevera um evangelho, e com
sucesso, levando-se em conta o resultado. Tudo o que tinha a fazer
agora era reproduzir esse evangelho, destacando os pontos que ele
sabia ser da maior importância para os cristãos de Najran. Final­
mente, se essa comunicação direta de Deus não fosse considerada
convincente, o Profeta se comprometia a oferecer o que parecesse
razoável. As duas partes deviam invocar a maldição de Deus para
si mesmas e para todos os mais próximos e mais queridos caso o
relato não estivesse correto. Depois de terem recebido a mensagem
do Profeta, os delegados pediram um pouco mais de tempo para
refletir. Eles deliberaram que o risco de invocar a maldição era
grande demais e preferiram se submeter ao tributo. Compromete-

* Referência ao fato de Maria ter concebido Jesus tendo permanecido virgem. Este é um
dogma caro tanto ao cristianismo quanto ao islamismo. [N.T.]

374
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

ram-se, assim, a fornecer anualmente trinta couraças e 2 mil ves­


timentas manufaturadas em seu país, esforço que teriam empre­
endido com cruel satisfação caso soubessem que dentro de dois
anos uma dessas vestes faria parte da mortalha do Profeta. 25 Omar
queria ser o administrador de Najran, mas o Profeta preferiu al­
guém menos fanático e mandou Abu Ubaidah.
Essa é a história contada para ilustrar a passagem da sura iii,
em que os cristãos são convidados a essa simples provação. Não
estamos seguros de sua veracidade, mas alguns aspectos presen­
tes nos relatos parecem dignos de crédito. Se os líderes cristãos
se recusavam a estabelecer a questão pelo processo recomendado
pelo paraíso, provavelmente é porque o consideravam uma ar­
madilha. O Profeta precisaria apenas enviar algumas legiões a
Najran, com ordens para destruir aqueles predestinados a isso, e
a verdade de sua doutrina estaria demonstrada. Havia em Medina
pessoas prontas para informar os najranitas sobre alguns dos de­
sastres que vitimaram os judeus, que haviam pretendido manter
uma posição de independência para sua religião, e assegurar-lhes
de que a submissão era necessária, caso a resistência física fosse
impossível.
O Profeta estava certo do triunfo, quer eles aceitassem o desa­
fio, quer o recusassem; neste último caso, seriam poupados de al­
gumas cenas sangrentas. Contudo, a recusa dos cristãos em reco­
nhecê-lo provocou-lhe um rancor não menor do que aquele
nutrido contra os judeus. Maomé declarou os najranitas e os cris­
tãos taghlibitas as duas piores tribos da Arábia26 e proibiu o jejum
na sexta-feira,27 tendo como perspectiva, sem dúvida, evitar a prá­
tica cristã. Ali declarou que o Profeta lhe transmitira instruções
privadas para retirar os cristãos de Najran.28 Os cristãos e os ju­
deus deviam servir como substitutos dos muçulmanos no fogo

25. Musnad, i, 222.


26. Ibid., iv, 387.
27. Ibid., iii, 296.
28. Ibid., i, 87.

375
DAVID SAMUEL MARGOLI OUTH

do inferno.29 Cristão isolados que tivessem se convertido ao Islã,


como Tamim al-Dari, que foram a Medina nessa época, recebe­
ram ardorosas boas-vindas, e sua confirmação do status do Pro­
feta foi amplamente divulgada.30
Contam-se histórias interessantes e mesmo tocantes a respeito
de outros visitantes. Tufail, filho de 'Amr, que havia oferecido um
refúgio ao Profeta em seu castelo, foi a Medina e levou com ele um
amigo que contraiu a febre de Medina e, em sua dor, cortou fora os
dedos, sangrando até a morte.31 Zaid dos Cavalos, um cavaleiro
conhecido em toda a Arábia, chegou com um grupo de tayitas e, ao
ouvir a pregação do Profeta, se declarou crente. Outros, de quem
Maomé já tinha ouvido falar, o desapontaram quando os viu. Zaid,
cujos pés tocavam o chão quando montava o cavalo, teve sua repu­
tação reconhecida. Há relatos maravilhosos a respeito desse herói
chamado Zaid dos Cavalos porque possuía muitos desses animais,
cujos nomes imortalizou em versos. Ele desempenhou a sério o
mesmo papel que Beckwourth desempenhara por esporte. Sempre
pronto para a luta, ajudando ora uma tribo, ora outra, tinha prazer
em fazer a guerra porque resgatava os vencidos, enriquecendo os
pobres com o butim quando eles o solicitavam. Como Ulisses, po­
dia mandar setas certeiras com seu arco, fazendo-as atravessar os
aros de uma correia, como se as tivesse enfiado com as mãos.
Quando sua meta era a vingança de sangue, não tinha misericór­
dia. Às vezes assumia nomes falsos, mas Zaid dos Cavalos não po­
dia se disfarçar. Sua vida foi a trajetória sem rumo de um cavaleiro
errante, interessante como um romance, inútil e perigosa para
qualquer Estado que aspirasse a um desenvolvimento tranquilo.
Maomé saudou o famoso guerreiro dando-lhe parte do ouro
que Ali enviara do Iêmen, o que causou inveja aos Emigrantes e
Ajudantes,32 e reservou-lhe ainda terras e honrarias. O Profeta es-

29. Muslim, ii, 329.


30. Ibid., ii, 380.
3 1 . Musnad, iii, 370.
32. Ibid., 68.

376
MAOMÉ E A ASCENSÃO DO ISLÃ

perava dirigir as energias desperdiçadas de Zaid para guerras de


verdade. Porém, antes de deixar Medina, ele foi coberto pela som­
bra da febre, contraída no curto contato com o ar pestilento da
cidade. Morreu antes mesmo de chegar em casa. Sua mulher, que
não se havia convertido, queimou o edito do Profeta; embora ele
se proclamasse o enviado do paraíso, possuía menos recursos para
combater as doenças que o mais humilde dos médicos. Outras
delegações que tinham a intenção de abraçar o Islã estavam ate­
morizadas com a morte de alguns de seus integrantes.33
O filho de outro cavaleiro árabe, 'Adi Ibn Hatim, membro da
tribo de Tay, também esteve em Medina. Seu pai fora um herói
famoso - graças à herança dessa glória, uma vez, quando foi feito
prisioneiro por uma tribo agressora, libertaram-no sem resgate.34
Como os muçulmanos impunham gradualmente o Islã a toda a
Arábia, esse homem, cristão confesso, fugiu para Síria. Ele havia se
preparado para essa eventualidade, mas esperou até o último mo­
mento a fim de colocar em prática seu projeto. Uma de suas irmãs
foi capturada, levada para Medina e entregue a Maomé para ser
enviada como isca para o irmão. Este, para não ser superado em
generosidade, não podia fazer menos do que ir a Medina, com a
mente aberta para conhecer a missão profética de Maomé. Embo­
ra tenha tido uma experiência diminuta dessa missão, ela foi sufi­
ciente para convencê-lo.
De fato, a argumentação do Profeta parece ter sido bastante
poderosa. De uma forma ou de outra, ele destacou sua intenção de
difundir a pax islamica por toda a Arábia. A religião seria o elo a
unir o conjunto da península, de forma ainda mais firme que o
sangue unira os clãs. Mas o que seria feito então do comércio de
homens como 'Adi e Hatim, seu pai, que viveram e prosperaram
com os ataques de surpresa? A vantagem de que os cristãos ha­
viam desfrutado, ao ficarem livres da instituição dos meses sagra-

33. lsabah, i, 655.


34. Ibn Duraid, 224.

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DAV I D SAMUEL M A RGOLIOUTH

dos, tornava-se agora comum à maior parte da Arábia. Se, por


conseguinte, a pilhagem afinal tivesse de ser feita, isso seria mais
fácil unindo-se ao novo poder para saquear os cristãos.
O filho de Hatim pode ter percebido a força desse argumento
- talvez de forma débil, embora efetiva -, pois quando, após a
morte de Maomé, os árabes se levantaram, esperando livrar-se do
jugo muçulmano, ele permaneceu firme e continuou a pagar as
esmolas. O exílio e o desamparo ensinaram-lhe a lição. Ademais,
a conversa desse cristão com Maomé parece ter se referido menos
aos pontos da doutrina do que a assuntos relacionados à caça.35
A tradição liga-o à curiosa regra de que se devia pronunciar o
nome de Deus aos cachorros usados em caçadas; os animais mor­
tos por um cachorro não consagrado não serviam para comer.
E assim, um a um, os árabes que haviam sido nominalmente
cristãos se tornaram nominal ou efetivamente muçulmanos. Em
muitos casos, a mudança não acarretou nenhum sacrifício. O po­
der bizantino não estava em condições de mover qualquer tipo de
perseguição. O governador de Ma' an, o primeiro aprisionado por
eles e depois crucificado, foi um exemplo isolado.
Ao regressar de Tabuk, o Profeta foi procurado por mensagei­
ros do histórico estado de Himyar, que traziam uma carta em
nome de Al-Harith, filho de Abd Kulal (na opinião de um poeta, o
segundo melhor homem no mundo),36 e de seus irmãos Nu'aim e
Nu'man, kai� ou chefes, respectivamente, de Dhu Ru'ain, Ma'afir
e Hamdan. Esses homens haviam sido convidados a se converter
dois anos antes. Os precavidos chefes apostaram na sorte para se
declarar de forma mais determinada; quando se sentiram à vonta­
de a esse respeito, apressaram-se em demonstrar sua seriedade em
relação à matança e à