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Revista Brasileira de Ensino de Fı́sica, v. 33, n.

1, 1602 (2011)
www.sbfisica.org.br

Uma discussão epistemológica sobre a imaginação cientı́fica: a


construção do conhecimento através da visão de Albert Einstein
(An epistemological discussion of scientific imagination: The construction of knowledge across Albert Einstein’s views)

Ivã Gurgel1 e Maurı́cio Pietrocola2


1
Pós-Doutorado em Educação, Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
2
Departamento de Metodologia de Ensino, Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
Recebido em 6/12/2009; Aceito em 24/4/2010; Publicado em 28/3/2011

Este trabalho tem como objetivo discutir o papel da imaginação cientı́fica na construção do conhecimento.
O estudo teórico foi realizado em duas etapas. Primeiramente, discutimos a relação da racionalidade com a
imaginação na epistemologia contemporânea. A discussão teórica é complementada com uma análise histórica
do pensamento de Albert Einstein, para tornar possı́vel a apresentação de uma visão de construção do conheci-
mento cientı́fico que considere e valorize o papel da imaginação.
Palavras-chave: imaginação cientı́fica, Albert Einstein, racionalidade, epistemologia.

The goal of this work is to discuss the role of the scientific imagination in construction of knowledge. The
theoretical study is composed of two parts. Firstly, we have discussed the relationship between rationality and
imagination on contemporary epistemology. The theoretical study is completed with a historical analysis of
Albert Einstein’s thoughts to present one view of the scientific knowledge construction which considers and
valorizes the role of the imagination.
Keywords: scientific imagination, Albert Einstein, rationality, epistemology.

1. Introdução tivo e objetivo, de se gerar ideias sobre o mundo pas-


sou a ser mais aceita. Com o avanço de novas teo-
De uma maneira geral, a filosofia da ciência ques- rias, como a relatividade e a mecânica quântica, que
tiona a natureza das teorias e ideias cientı́ficas e, con- deixavam claro o papel da imaginação e outros aspec-
sequentemente, a validade destas proposições. Uma tos subjetivos durante a elaboração do conhecimento,
visão de ciência como uma forma de conhecimento ge- tornou-se difı́cil sustentar a visão que negava o papel
radora de verdades sobre o mundo fez com que diver- criativo da mente no fazer cientı́fico. Esse problema
sos pensadores questionassem os diferentes métodos que foi parcialmente resolvido pelo empirista-lógico Hans
a ciência utiliza para criar sua concepção do mundo Reichenbach [2]. Ele procurou distinguir dois momen-
natural. Durante um longo perı́odo, do século XVI tos da atividade do cientista. O primeiro, denominado
até aproximadamente o final do século XIX, o obje- contexto da descoberta, seria o momento da criação das
tivo de muitos filósofos era definir quais procedimentos ideias e proposições. O segundo, denominado contexto
eram mais adequados para a obtenção do conhecimento da justificação, seria o momento em que o cientista a-
e quais eram as possibilidades de estabelecermos um presenta suas ideias de forma sistemática. Com isso,
corpo de saberes seguros. Dentro deste contexto, duas ele afirma que somente o segundo momento deveria ser
correntes filosóficas foram predominantes, o empirismo o objeto das análises da filosofia da ciência. Na justi-
e o racionalismo. Não cabe neste artigo discutir as ca- ficação o conhecimento deixa de ter os atributos subje-
racterı́sticas destas correntes de pensamento, mas vale tivos, inclusive os elementos relativos ao processo cria-
notar que em ambos os casos toda subjetividade que tivo, e pode ser caracterizado e avaliado através da des-
pudesse aparecer no processo de construção do conhe- crição lógico-analı́tica. O primeiro momento, da desco-
cimento era rejeitada. Um detalhamento destes estudos berta, deveria ser relegado aos estudos em psicologia,
pode ser encontrado em um trabalho anterior [1]. sociologia ou história da ciência. A influência de suas
A partir do inı́cio do século XX, a visão de que ideias, e da escola filosófica à qual pertencia, fez com
não poderı́amos estabelecer um método único, defini- que a imaginação e o processo criativo, em um sentido
1 E-mail: gurgel@usp.br.

Copyright by the Sociedade Brasileira de Fı́sica. Printed in Brazil.


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mais amplo, fossem pouco considerados como temas de sendo que certa regularidade nos eventos pode, por
estudo da filosofia da ciência. Como afirma o filósofo indução, gerar uma lei ou princı́pio cientı́fico comum a
Michel Paty, a análise epistemológica explorou muito todos observadores. John Stuart Mill, filósofo do século
pouco o contexto da descoberta e se restringiu à análise XIX, é uma das principais referências quando se trata
do contexto da justificação [3]. de discutir o papel da indução. Em seu terceiro livro do
Muitas importantes obras do século XX, de autores Sistema de Lógica Dedutiva e Indutiva de 1843, quando
como Ludwick Fleck, Karl Popper, Thomas Kuhn, Gas- disserta sobre a indução, ele nega que as inferências ge-
ton Bachelard, Imre Lakatos, buscaram romper com radas a partir desta sejam criações, sendo que estas são
as perspectivas empı́rico-positivas e trouxeram novas dadas pelos eventos. Mesmo admitindo o papel que a
questões para a discussão epistemológica. Nesta cor- mente desempenha na construção das ideias, precisando
rente, muitos desses autores passaram a valorizar a ter uma estrutura já previamente formada sobre algu-
história da ciência como elemento de análise impor- mas delas, Mill elimina qualquer caráter subjetivo em
tante, pois o objetivo da filosofia seria o de compreen- sua construção, sendo que quaisquer observadores que
der como a ciência se desenvolve efetivamente, ao invés se deparassem com os mesmos fatos deveriam inferir as
da busca sobre como a ciência deveria ser. Contudo, mesmas conclusões. Ao analisar a construção da lei das
os temas da imaginação e dos processos criativos na órbitas elı́pticas de Kepler, ele faz a seguinte declaração:
ciência ainda foram pouco explorados, ou explorados
de forma pouco sistemática. Um exemplo curioso disto A concepção de uma elipse deve ter-se
é a conhecida obra de Karl Popper com tı́tulo origi- apresentado à mente de Kepler antes que
nal Logik der Forschung. O tı́tulo em alemão significa pudesse identificar a órbita planetária com
A Lógica da Pesquisa Cientı́fica ou A Lógica da In- ela. De acordo com o Dr. Whewell, a con-
vestigação Cientı́fica. No entanto, a tradução para o cepção era algo acrescentado aos fatos. Ele
inglês que tornou a obra conhecida foi The Logic of expressa como se Kepler tivesse colocado al-
Scientific Discovery, que é traduzido como A Lógica da guma coisa nos fatos pela sua maneira de
Descoberta Cientı́fica. O erro de tradução se torna re- concebê-los. Mas Kepler não fez tal coisa. A
levante quando notamos que a obra não se dedicará aos elipse estava nos fatos antes que a reconhe-
processos de descoberta ou invenção na ciência. Isto é cesse (...) Kepler não colocou o que conce-
apontado pelo principal tradutor da obra para o por- bera nos fatos, mas viu isso neles. [7, p. 134]
tuguês, que afirma: Na citação anterior é clara a posição do autor contra
O tı́tulo inglês dado sempre nos pareceu ina- a ideia de criação ao citar o filósofo Willian Whewell,
dequado como indicação do conteúdo. [4, que considerava um papel ativo da mente no processo
p. 2] de elaboração de ideias. Para Mill o papel da mente
seria apenas o de ter a construção conceitual prévia da
Dentre os autores atuais, o destacado historiador ideia de elipse e isso seria suficiente para o reconheci-
Gerald Holton foi um dos poucos autores que explo- mento do padrão das órbitas.
raram o tema da imaginação na ciência [5, 6]. Apesar Diferentemente da indução, em um processo ima-
de contribuições importantes dadas pelo autor, consi- ginativo o sujeito tem um papel maior na criação dos
deramos que o tema ainda carece de uma exploração conteúdos cientı́ficos, pois a percepção de uma regula-
mais profunda, que aborde a questão da criação em ridade ou a proposição de uma simetria pode ser cri-
relação às questões epistemológicas sobre a natureza ada por ele e não demonstrada pela natureza. A prin-
do pensamento cientı́fico discutidas atualmente como cipal diferença entre a criação e a indução reside no
“as possibilidades de existência e caracterı́sticas de um foco da ação. Neste sentido, a palavra “descoberta”,
pensamento racional” ou o debate sobre “os limites do como normalmente a utilizamos, privilegia o objeto, que
pensamento na tentativa se de apreender a realidade”. está pronto em suas regularidades à espera que alguém
Desta forma, consideramos que este tema deve ser ob- construa um caminho de acesso até ele. Já a palavra
jeto de discussão, algo que buscaremos explorar neste criação (ou invenção) demonstra uma maior subjetivi-
artigo. dade, pois envolve uma nova forma do indivı́duo o-
lhar uma parcela do mundo atribuindo caracterı́sticas
2. A Imaginação cientı́fica à mesma. Isso faz com que o indivı́duo tenha uma par-
ticipação ativa no processo.
Como apontado anteriormente, a filosofia da ciência As afirmações anteriores somente estabelecem, de
pouco explorou os momentos de criação na ciência. maneira geral, como podemos conceber a ideia de
No entanto, cabe questionar qual o sentido de se falar criação na ciência como um contraponto aos pressupos-
em imaginação em ciências. A imaginação, como uma tos indutivistas. Para compreender com mais detalhe as
criação individual, distingue-se fundamentalmente de caracterı́sticas deste processo, faremos um tratamento
um processo indutivo. Neste processo temos uma cons- histórico-epistemológico em duas etapas. Primeira-
trução objetiva do conhecimento em relação aos fatos, mente buscaremos discutir ideias epistemológicas so-
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bre a racionalidade e a intuição baseados nos tra- mundo e servem como apoio ao pensamento. É a par-
balhos de Gaston Bachelard, Gilles-Gaston Granger tir deste campo simbólico que damos sentido à reali-
e Michel Paty. Estes autores trabalham dentro de dade e este é a base para a construção de ideias con-
uma tradição francesa da epistemologia que podemos ceituais mais elaboradas. Podemos definir a noção de
chamar de Filosofia do Conceito,2 que busca estabele- imaginário como esse campo que configura as possibili-
cer uma visão renovada da filosofia racionalista. Em dades de representação e que leva em conta as formas
seguida exploraremos historicamente a descrição que pessoais (subjetivas) de apreender o mundo perceptı́vel
Einstein faz ao buscar relatar como seu pensamento [9-11]. Com isso, a base do entendimento não é rele-
funciona durante a criação.3 Com base nestes estudos, gada a uma representação direta da realidade, mas a
nosso objetivo é tecer considerações sobre o papel da uma forma de representação individual desta. Assim
imaginação na ciência e indicar em nossas considerações podemos afirmar com base na literatura que:
finais possı́veis consequências para o ensino da mesma.
O domı́nio do imaginário é constituı́do pelo
conjunto de representações que exorbitam
3. Racionalidade e imaginação simbó- do limite colocado pelas constatações da ex-
lica na apreensão do real periência e pelos encadeamentos dedutivos
que as autorizam. [12, p. 291]
Anteriormente vimos que a imaginação goza de pouco
prestı́gio nos principais sistemas de conhecimento ela- O imaginário definido como o campo de repre-
borados desde o inı́cio do perı́odo moderno até, ao sentações sobre o qual o pensamento operará deter-
menos, o final do século XIX. Devemos então, neste mina a primeira forma de descrevermos a imaginação.
momento, nos perguntar se é possı́vel uma definição de Ela trabalha construindo um campo simbólico que se
imaginação como um processo de pensamento que con- enriquece quando novas representações são construı́das
temple as exigências de um raciocı́nio cientı́fico. Colo- com base nas pré-existentes. Devemos notar que este
cando a questão de outra forma, podemos questionar processo difere muito de uma abstração indutiva, pois
se é possı́vel que a imaginação cumpra as exigências de nesta o conhecimento conceitual é uma representação
um pensamento racional ao buscar tornar inteligı́veis direta da realidade. No caso proposto por este tra-
fenômenos naturais. Apresentamos a questão desta balho, a imaginação opera em organizações sucessi-
maneira, pois consideramos que um trabalho episte- vas dos sentidos simbólicos, sendo que os novos sig-
mológico sobre a criação não pode deixar de considerar nificados advêm de uma nova composição, estabelecida
os próprios fundamentos (ou possı́veis fundamentos) da através de relações entre as representações que formam
ciência. o imaginário. Este aspecto é particularmente impor-
Uma das possı́veis definições para a imaginação é tante, pois quando consideramos um processo indutivo,
a criação de objetos em um sistema simbólico [8]. O o processo de aquisição de conhecimento deve partir de
pensamento humano se constitui fundamentalmente na um contato o mais objetivo possı́vel com a realidade,
capacidade de gerarmos representações mentais para de forma a garantir uma relação entre esta e o pensa-
os elementos do mundo, habilitando-nos a nos rela- mento. No entanto, no processo imaginativo, por este
cionar com este não somente através dos sentidos, mas depender fundamentalmente da capacidade de compor
também através de construções simbólicas. Isto permite novos elementos simbólicos, para esta composição é
que o ser humano trabalhe sobre estas bases e desen- mais importante que o pensamento parta de uma plu-
volva um pensamento conceitual à medida que consegue ralidade de percepções subjetivas, em que o individuo
operacionalizar estes elementos, isto é, consegue esta- tem uma representação própria para um determinado
belecer relações entre eles, fazendo com que a partir setor da realidade. A partir desta, através da criação,
destas imagens simbólicas, em um sistema mais elabo- ele pode constituir uma unidade entre elas. Com isso, o
rado, possa estabelecer relações que nos permitem gerar imaginário se torna importante, pois este permite que
afirmações sobre o mundo. o pensamento opere sobre uma diversidade de repre-
A imaginação como criação simbólica é geralmente sentações constituı́das na mente e não se reduza às per-
vinculada à imaginação nas artes. Em uma primeira cepções imediatas da realidade.
aproximação, estas buscam criar novas representações Contudo, a imaginação para ser denominada cientı́-
para o mundo com o objetivo de sensibilizar a pessoa fica, por mais que seja um ato bastante complexo e de
que as apreciam através de composições de elementos grande subjetividade por estar relacionada à construção
significantes, seja através de cores, nas artes plásticas; simbólica mental do indivı́duo, não pode ser uma ativi-
de palavras, na literatura; ou de sons, na música. No dade puramente livre, isto é, desvinculada dos objetivos
caso das ciências, estes elementos simbólicos criam re- da ciência. As novas ideias, quando compostas, de-
presentações que são fundamentais para a descrição do vem ser conduzidas a uma construção racional. Neste
2 Termocunhado pelo filósofo Jean Cavaillès.
3Opensamento de Albert Einstein já foi explorado por outros autores. No entanto consideramos que o enfoque dado neste trabalho
se diferencia em alguns aspectos destes autores, o que justifica e faz necessário a busca pelos originais.
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sentido, a consideração da imaginação depender das suas operações, há muito que ele já re-
construções simbólicas da mente, isto é, do imaginário, começou. Ele é a consciência de uma ciência
não compromete os compromissos racionais da ativi- retificada, de uma ciência que carrega a
dade cientı́fica. Visto que: marca da ação humana, da ação refletida,
operosa, normalizante. O racionalismo só
A razão encontra-se no imaginário e no sen- tem a considerar o universo como tema de
tido da lógica interna, que não é contrária progresso humano, em termos de progresso
ao real, mas que, como um caleidoscópio, de conhecimento. [14, p. 144]
recria, reconstrói, reordena e reestrutura,
criando outra lógica que desafia a lógica Bachelard ainda considerará que a racionalidade da
formal. Nesse sentido, o imaginário é um ciência não é um corpo de relações absoluto, que se
processo cognitivo no qual a afetividade está aplica indiscriminadamente da mesma forma a todas
contida, traduzindo uma maneira especı́fica as áreas do pensar cientı́fico. Para fundamentar essa
de perceber o mundo, de alterar a ordem da visão ele apresentará a noção de racionalismos regio-
realidade. [11, p. 79] nais [14]. Para o autor, quando buscamos estabelecer
O elemento que merece destaque na consideração padrões racionais muito amplos, que buscam se aplicar
anterior é a possibilidade de o imaginário buscar ser a qualquer setor da realidade de modo indiferente às
constituı́do por um corpo coerente de representações qualidades da mesma, recaı́mos a um idealismo. Esta
para o real, coerente no sentido de ser uma forma de implicação se deve à constatação de que quando o pen-
organizá-lo. No entanto, na mesma afirmação devemos samento se aplica a proposições demasiadamente gerais,
estar atentos ao sentido proposto para a palavra lógica. este deixa necessariamente de considerar caracterı́sticas
Na forma utilizada pelos autores, esta é mais bem in- especı́ficas da realidade ao qual ele se aplica. Para evi-
terpretada como racionalidade, pois sua função não é tar isso, o pensamento precisa dispor de uma diversi-
a operação formal de proposições gerais ou abstrações dade de estruturas racionais que se diferem entre si.
matemáticas, mas sim de sistemas de representações Isso possibilita a elas se aplicarem a uma “regionali-
simbólicas que tem como objetivo aproximar nossas re- dade”, no sentido de uma forma de pensamento des-
presentações ao mundo exterior. Desta forma é impor- tinada a um setor determinado da realidade. Embo-
tante retomarmos o sentido de racionalidade na episte- ra exista nesta visão uma perspectiva de abandono do
mologia.4 projeto racionalista de busca de proposições universais,
A formulação racional envolve uma estrutura que re- esta é a forma mais adequada de apreender o mundo
laciona os elementos conceituais. A evolução da ciência exterior.
descrita por Gaston Bachelard na forma de evolução Devemos ainda notar que essa perspectiva bachelar-
de perfis epistemológicos [13] considera que a ciência diana de descrever o pensamento racional não perde de
progride ao se estabelecer novos padrões de racionali- vista o caráter realista da atividade cientı́fica. Contudo,
dade. A cada ruptura epistemológica de uma noção a realidade não é um “dado bruto” que se submete à
cientı́fica, há um processo de reorganização desta em mente. O vetor epistemológico que Bachelard estabe-
direção a uma maior racionalização, que, no limite, es- lece coloca a representação do real como etapa final da
tabelece o ultra-racionalismo. Este último é o momento construção do conhecimento, em um processo que se
no qual a descrição de uma entidade chega ao limite funda em uma dialética entre pensamento e materiali-
“máximo” de relações que este pode ter com outros dade.
conceitos. Quando atuamos através da imaginação, as A partir das considerações anteriores podemos afir-
formulações que esta constrói devem ser racionalmente mar que a racionalidade não é um sistema de regras
relacionadas com os outros conceitos cientı́ficos, isto é, fechadas que, de uma forma preestabelecida ao entendi-
sempre que formulamos novas proposições, os conceitos mento individual, define o significado das ideias pre-
nela definidos devem ser inseridos na teia de relações sentes em uma teoria. Na criação, ao mesmo tempo
que uma estrutura teórica define. Em muitos casos, em que novos significados simbólicos são criados, novos
para a inserção de um novo conceito, é necessário reor- padrões racionais que os definirão também deverão ser
ganizar essa estrutura, constituindo uma nova raciona- estabelecidos. Devemos estar atentos a essas conside-
lidade. Assim Bachelard afirma: rações, pois a racionalidade não deixa de ter regras
próprias, que organizam e estabelecem as relações entre
(...) o racionalismo é uma filosofia que conceitos. O elemento fundamental é considerar que es-
não tem começo; é da ordem do re- sas mesmas possam ser retificadas, o que possibilita o
começo. Quando o definimos em uma de espaço de criação na ciência. A imaginação na ciência
4 Considerando as diferentes teorias da racionalidade, podemos atribuir quatro dimensões a esta, a conceitual, a dedutiva, a indutiva

e a crı́tica. No entanto, neste trabalho, para a discussão acerca da imaginação, tomamos a racionalidade em sua dimensão conceitual,
que consiste na capacidade, necessária ao entendimento nas ciências empı́ricas, de organização de conceitos pela mente no processo
de formação de leis, princı́pios, modelos etc, com o objetivo de estabelecer relações entre estes e outros conceitos que forem julgados
convenientes para a descrição de um fenômeno.
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trabalha assim, em alguma medida, guiada pelas re- A racionalidade, mesmo vista em um sentido mais
gras da racionalidade no momento de constituição de amplo e aberta a mais possibilidades, não deixa de
novos conceitos. Com isso, a fecundidade das ideias ser o fundamento que possibilita a compreensão do
simbólicas, isto é, a capacidade de serem relacionáveis mundo exterior. Podemos notar que existe uma cor-
na forma de modelos racionalizados, passa a ser a prin- respondência nas formas de se conceber a racionalidade
cipal caracterı́stica da imaginação cientı́fica. nas obras de Paty e Bachelard. Paty ainda considera
Neste sentido, o filósofo Gilles-Gaston Granger, em que a racionalidade que torna o mundo inteligı́vel, pois
uma importante obra sobre a razão irá considerar: a inteligibilidade é a apropriação pela razão, nos pensa-
mentos singulares, de tal elemento de conhecimento da
A razão evolui no sentido de que o ideal de realidade, sendo que é o fato do mundo ser inteligı́vel
ordem e o processo de construção dos novos que permite que a ciência exista como forma de sua
conceitos variam ao longo da história. As- descrição.
sim progride a razão matemática que, longe Com o estabelecimento de uma nova definição de ra-
de ser um corpo fechado de princı́pios, é cionalidade, como função do pensamento que integra os
imaginação regulada, mas criadora. [15, conhecimentos [16, 17], esta deverá se unir à intuição,
p. 71] para tornar possı́vel a criação na ciência.
Devemos deixar clara a presença deste duplo as- Esse trabalho de criação se utiliza do
pecto inerente à imaginação caracterı́stica da ciência. raciocı́nio (que não encerra apenas dedução,
Se por um lado, a imaginação, de uma forma geral, mas também é construtivo ao constituir
consiste na criação de elementos simbólicos através da objetos) tanto quanto da intuição, termo
composição de representações presentes no imaginário pelo qual designamos aqui uma percepção
do indivı́duo que cria, quando consideramos a ciência, (intelectual) sintética de um complexo de
as regras que regulam esta operação de composição são conceitos. Acrescentamos ainda que o
baseadas na racionalidade. Isso faz com que ela tenha raciocı́nio, mais explı́cito, e a intuição, con-
um papel importante, pois a racionalidade é por na- cebida neste sentido, não são dois modos de
tureza a forma de pensamento que busca estabelecer pensamento em oposição, já que na escolha
regras organizadoras do pensamento conceitual. de seus caminhos o raciocı́nio é frequente-
Podemos encontrar forte apoio às ideias precedentes mente guiado pela intuição. [17, p. 9]
na obra do filósofo Michel Paty. Em sua atual pesquisa,
ele busca compreender como novas ideias são criadas, Podemos notar que Paty, assim como Descartes e
sendo o objetivo de seu trabalho elaborar uma Filosofia Espinosa, utiliza o termo intuição de modo diferente do
da Criação Cientı́fica [16]. No entanto, diferentemente sentido comum. Para ele, a intuição é uma é definida
de outros filósofos do século XX, ele não abandonará como sendo a capacidade de apreender, através do pen-
a perspectiva do conhecimento racional para pensar as samento, o mundo em suas diferentes partes como um
construções da ciência, e buscará deixar claro que: todo integrado. É importante notar que esta forma
de compreensão através do pensamento precisa se dis-
Tudo mostra, com efeito, que o pensamento tinguir da lógica, pois esta somente nos permite um
criativo de novas ideias não escapa, numa entendimento analı́tico das questões cientı́ficas. No en-
parte bem significativa, do campo do pen- tanto, para compreensão através da imaginação, que
samento racional. [17, p. 2] busca formar uma representação simbólica clara dos
problemas apresentados, é necessário que o pensamento
Para dar ao ato criativo uma dimensão racional, ele
opere sinteticamente, isto é, buscando uma unidade na
dará uma nova definição a esta, que a distinga clara-
totalidade dos elementos da percepção.
mente da lógica, e que possa dar conta das construções
e modificações ocorridas nas formas de pensamento da A intuição fı́sica, sem a qual não haveria
ciência com o passar do tempo, isto é, que dê conta da atividade criativa na pesquisa, é essencial-
historicidade das ideias. mente uma atitude em relação à experiência
(mas a experiência já clareada pela razão),
A razão é mais complexa do que a lógica, e constitui como uma compreensão em pro-
pois ela opera de maneira não tão precisa- fundidade desta (...) por exprimir sintetica-
mente definida e sobre objetos que não são mente o conteúdo. [18, p. 458]
definidos de maneira exata e unı́voca como
os objetos de um raciocı́nio lógico. A razão Percebemos que o autor unifica a racionalidade à
é complexa, ela não se reduz à lógica, mas intuição para fundamentar a possibilidade do conheci-
sabemos por experiência (...) que sem ela mento apreender de forma sintética a realidade. Assim,
não terı́amos conhecimentos seguros e obje- podemos considerar através das ideias de Paty que a
tivos (...) e nem poderı́amos comunicar os construção do conhecimento se dá através de uma in-
nossos conhecimentos a outros. [17, p. 7] tuição racional.
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No entanto, para “sintetizar” esta discussão, deve- 4. Einstein: filósofo e cientista


mos esclarecer a possı́vel relação das ideias de Paty
com a discussão feita no inı́cio desta seção. A intuição Albert Einstein se tornou um famoso cientista devido,
racional, durante o ato criativo, busca formar uma re- principalmente, à criação das teorias da relatividade,
presentação sintética do complexo de percepções com o publicadas nos anos de 1905 e 1915. Parte da im-
objetivo de integrar e dar significado a uma parcela da portância atribuı́da a essas teorias está no fato de elas
realidade. No entanto, essa faculdade da mente seria terem modificado conceitos fundamentais da fı́sica, o
muito restrita se operasse somente sobre a percepção espaço e o tempo, marcando assim uma clara ruptura
imediata do mundo exterior. Com isso, no momento na forma de pensar da época. No entanto, inicialmente
da criação, podemos fazer apelo a outras representações elas não foram completamente aceitas pela comunidade
que transcendem as constatações determinadas naquele cientı́fica. Isso ocorreu pois, por mais que elas fos-
momento pela experiência sensı́vel. Assim, podemos sem matematicamente coerente e resolvesse problemas
fazer apelo a diversos elementos simbólicos presentes na legı́timos da ciência da época, a relatividade é uma teo-
mente por um contato anterior com a realidade perce- ria extremamente abstrata, e sua formulação dependia
bida. Estes elementos foram definimos anteriormente da aceitação de princı́pios que não poderiam ser verifi-
como compondo o imaginário, que acaba por ter a prin- cados diretamente na realidade através de um método
cipal função de dar subsı́dios ao pensamento imagina- experimental. No entanto, com a passar do tempo, as
tivo quando este opera como uma intuição racional na primeiras evidências experimentais previstas pela teo-
construção de novas teorias, conceitos etc, que dão sig- ria foram verificadas. Podemos destacar um importante
nificado a uma realidade. experimento, feito pela comitiva liderada por Arhur S.
Com isso, temos que a imaginação opera sobre três Eddington, em 1919, em que se verificou o desvio da
bases. O imaginário, que se constitui das ideias for- luz pela gravidade numa quantidade consistente com a
madas por uma forma subjetiva de percepção da reali- teoria de Einstein, dando um forte indicativo da vali-
dade; a racionalidade, que estabelece regras que orga- dade de suas ideias. No entanto, a importância prática
nizam estas ideias e a intuição, que aliada à racionali- da teoria ficou clara quando a fı́sica de altas energias
dade, busca uma compreensão sintética das percepções se desenvolveu, o que tornou obrigatória as correções
que compõem o imaginário. relativı́sticas nos fenômenos envolvendo as colisões de
Para terminar esta seção, apresentaremos uma des- partı́culas subatômicas.
crição feita por Paty da descoberta do princı́pio de re- Considerando que, invariavelmente, os princı́pios
latividade por Einstein, que resume bem suas ideias: de uma teoria não podem ser inferidos diretamente
de resultados experimentais, e que somente suas con-
O fio de uma racionalidade direta já não sequências podem ser confrontadas com o conhecimento
parece suficiente, aqui, para guiar sozinho empı́rico, como entender a maneira pela qual Einstein
o movimento do pensamento: a dificuldade criou sua teoria? O objetivo da próxima seção será res-
era de fato um obstáculo real, que deman- ponder a essa pergunta.
dava, para que se seguisse adiante, um ver- Devemos indicar que Einstein é um referencial in-
dadeiro salto conceitual (...) O obstáculo teressante para a compreensão de como o pensamento
que se erguia perante o pensamento pode cientı́fico cria não somente porque ele foi uma pessoa
ser visto como um nó de conceitos imbrica- que elaborou uma teoria bastante abstrata sem o apelo
dos, no qual nada permite à primeira vista direto à experimentação, mas, sobretudo, porque ele
a identificação dos fios que possibilitam a foi um cientista que elaborou muitas reflexões sobre
resolução do novelo embaraçado. Somente sua atividade. Dentre elas, buscou compreender sis-
um tipo de apreensão sintética imediata, tematicamente seu próprio ato criativo, fornecendo re-
mais intuitiva do que analı́tica, deu a ver, latos muito interessantes que possibilitam pesquisas so-
de súbito, depois de várias semanas de es- bre sua estrutura de pensamento. É importante ainda
forços infrutı́feros, uma via de saı́da, os fios ressaltar que Einstein tinha um bom conhecimento da
a serem puxados (...) depois do momento filosofia e epistemologia de sua época, o que torna suas
de intuição sintética que abriu o caminho, reflexões verdadeiros trabalhos filosóficos, mesmo que
e a reconstrução das grandezas no percurso estas não constituam um sistema completo de conheci-
desse caminho a partir de então balizado. mento.
[17, p. 3]
5. Einstein e a sua formação
Com isso, passaremos à análise da descrição feita
por Einstein de seu processo criativo, com o objetivo É interessante partimos de uma breve apresentação da
de mostrar, através de um exemplo histórico, como as visão de Einstein sobre sua própria formação, pois nela
noções discutidas anteriormente podem ser aplicar à encontramos a motivação de sua ‘Filosofia da Livre
forma do pensamento criar. Criação”. Ele, ao relatar em sua autobiografia um dos
Uma discussão epistemológica sobre a imaginação cientı́fica 1602-7

principais episódios de sua formação afirmará: cão ensinado do que a uma criatura harmo-
niosamente desenvolvida. [20, p. 29]
Quando eu era um jovem razoavelmente
precoce, fiquei impressionado com a futi- Assim, a educação para Einstein não tem a função
lidade das esperanças e dos esforços que de apenas ensinar conteúdos especı́ficos de cada área
atormentam incansavelmente os homens du- do saber, teórico ou profissional, mas, sobretudo esti-
rante toda a sua vida. Além disso, muito mular o pensamento livre. Ao refletir sobre sua própria
cedo percebi a crueldade dessa busca, que educação ele observa:
naquele tempo era mais cuidadosamente O problema era que, como estudantes,
disfarçada pela hipocrisia e por palavras éramos obrigados a acumular essas noções
brilhantes. Todos estavam condenados a em nossas mentes para os exames. Esse
participar dessa busca pela mera existência tipo de coerção tinha (para mim) um efeito
dos seus próprios estômagos. O estômago frustrante. Depois de ter passado nos exa-
talvez se saciasse com essa participação, mes finais, passei um ano inteiro durante
mas não o homem, na medida em que é o qual qualquer consideração sobre proble-
um ser pensante e dotado de sentimento. mas cientı́ficos me era extremamente de-
A primeira válvula de escape era a religião, sagradável. Porém, devo dizer que na Suı́ça
implantada nas crianças pela máquina edu- essa coerção era bem mais branda do que
cadora tradicional. Assim – embora fosse em outros paı́ses, onde a verdadeira criação
filho de pais absolutamente não religiosos cientı́fica é completamente sufocada (...) Na
(judeus) – entreguei-me a uma religiosi- verdade, é quase um milagre que os métodos
dade profunda, que terminou abruptamente modernos de instrução não tenham exter-
quando tinha apenas doze anos. A leitura minado completamente a sagrada sede de
de livros cientı́ficos populares convenceu-me saber, pois essa planta frágil da curiosidade
de que a maioria das histórias da Bı́blia não cientı́fica necessita, além de estı́mulo, es-
podia ser real. A consequência disso foi pecialmente de liberdade, sem ela, fenece e
uma orgia positivamente fanática de livre- morre. [19, p. 25-26]
pensamento, combinada com a impressão de
que a juventude é decididamente enganada Quando Einstein reflete sobre os motivos que leva
pelo Estado, com mentiras; foi uma des- alguém à pesquisa, seja o cientista profissional, seja
coberta esmagadora. Essa experiência fez o estudante, ele considerará que esta atividade não
com que passasse a desconfiar de todo tipo provém apenas da curiosidade de conhecer e formar
de autoridade (...). [19, p. 14-15] uma imagem do próprio mundo, mas, além disso, con-
siste na vontade de evasão do cotidiano [20, p. 138],
Einstein apresenta uma clara crı́tica à religião. O isto é, na possibilidade da construção de uma nova re-
fundamento de sua crı́tica não consiste na negação alidade. Aqui encontramos um elemento fundamental
da metafı́sica religiosa, mas, sobretudo a maneira de reflexão. Se a ciência tem um papel na formação do
dogmática que esta era imposta aos indivı́duos. A des- sujeito, claramente para Einstein esse papel é o de levar
coberta de outra forma de pensamento pelo autor vai a uma nova forma de concebermos o mundo material no
levá-lo a considerar a necessidade de um livre pensa- qual vivemos. Essa nova concepção tem a função de ‘ir
mento. O ponto mais relevante é que da mesma forma além das aparências’ e revelar aspectos do mundo que
que Einstein negava a religião como dogma, o autor terá são desconhecidos.
claro que mesmo outras formas de pensamento podem
se reduzir a formas dogmáticas. Além disso, devemos
6. Einstein e o pensamento filosófico
lembrar que o contexto polı́tico da época, a Alemanha
do inı́cio do século XX, fez com que Einstein criasse Einstein tem consciência dos debates entre os par-
um forte valor em relação à liberdade, não apenas a tidários das principais correntes filosóficas [20], e bus-
liberdade fı́sica, mas principalmente à liberdade de pen- cará deixar claro que suas concepções sobre o conhe-
samento. Devido a essa concepção, Einstein será um cimento diferem dos autores que o precederam, tanto
grande crı́tico dos métodos de instrução que buscam os empiristas, quanto os racionalistas dos séculos XVII
“domesticar” o pensamento do indivı́duo, impondo-lhe e XVIII. A principal diferença consiste nas possibili-
ideias estabelecidas. Para ele: dades de fundamentarmos o pensamento em uma ativi-
dade mental livre. Ao considerar as posições de Hume
Não basta ensinar ao homem uma espe-
e Kant e a oposição entre racionalismo e empismo, ele
cialidade. Porque se tornará assim uma
declarará:
máquina utilizável, mas não uma personali-
dade (...) [e, assim] ele se assemelhará, com Penso, que é preciso ainda superar esta
seus conhecimentos profissionais, mais a um posição. Os conceitos que aparecem em
1602-8 Gurgel e Pietrocola

nosso pensamento e em nossas expressões Ao falar aqui de compreensibilidade, esta-


linguı́sticas são – do ponto de vista lógico mos usando o termo em seu sentido mais
– puras criações do espı́rito e não po- modesto. Ele implica: a produção de al-
dem provir indutivamente de experiências gum tipo de ordem entre impressões sen-
sensı́veis. Isto não é tão simples de soriais, sendo essa ordem produzida pela
admitir porque unimos conceitos certos e criação de conceitos gerais, pelas relações
ligações conceptuais (proposições) com as entre esses conceitos e por relações entre
experiências sensı́veis, tão profundamente os conceitos e as experiências sensoriais,
habituados que perdemos a consciência do relações estas que são determinadas de to-
abismo lógico insuperável entre o mundo do das as maneiras possı́veis. É nesse sentido
sensı́vel e do conceptual e hipotético. [20, que o mundo de nossas experiências senso-
p. 48] riais é compreensı́vel. O fato dele ser com-
preensı́vel é um milagre. [22, p. 56]
Apesar de propor um livre pensamento, Einstein
buscará deixar claro que suas ideias diferem do ide- Ao criar os primeiros conceitos que estão proxima-
alismo, pois ele não abandona uma postura realista mente relacionados com o mundo sensı́vel, o cientista
[21]. Devemos ter muito cuidado em como interpre- já começa a trabalhar com categorias de objetos e não
tar a ideia de “Livre Criação” proposta por Einstein, mais com a realidade percebida (Einstein chama estes
pois ela adquire um significado muito especı́fico quando conceitos de conceitos primários). Apesar de ter cri-
a interpretamos dentro de sua filosofia. Como vimos ado arbitrariamente conceitos, esta primeira elaboração
anteriormente, o autor fundamentalmente se opõe a ainda é insuficiente do ponto de vista lógico, pois são
posturas dogmáticas em relação à religião, à ciência e, pouco relacionáveis racionalmente uns com os outros.
poderı́amos incluir, à filosofia. É em relação a isso que Torna-se necessário a criação de conceitos mais abs-
o autor se posiciona para falar de livre criação. Para tratos, que Einstein designa de conceitos secundários.
compreender sua posição em termos epistemológicos, Estes últimos têm a vantagem de poderem ser mais
devemos partir das considerações sobre como ele vê bem relacionados através da lógica, mas que são catego-
a própria natureza dos conceitos cientı́ficos elaborados rias que têm seus significados mais distantes das repre-
pelo pensamento. sentações da realidade. Os conceitos primários devem
Einstein considera que a ciência é uma forma de pen- ser deduzidos logicamente dos conceitos secundários. O
samento que opera com as mesmas bases que o pensa- valor da relação lógica está em tornar a totalidade da
mento comum. No entanto, a ciência é um processo refi- experiência um todo compreensı́vel. Para o cientista,
nado deste pensar [22]. Os conceitos da ciência também a simplicidade lógica deve ser critério de cientificidade,
são extraı́dos da nossa relação com o mundo sensı́vel pois nela se encontra a possibilidade de tornarmos o
(experiências sensoriais) que precisam ser organizadas mundo inteligı́vel a nós, pois quanto mais simples a
em nossa mente para tornar o mundo compreensı́vel. lógica de relações, mais facilmente se poderá organizar
No entanto, para Einstein, o pensamento para ser cons- um número grande de dados sensoriais. No entanto, a
tituı́do, não basta que representações do mundo vindas relação dos conceitos operados pela lógica com o mundo
destas experiências se detenham em nossa memória, sensı́vel não é simples. Einstein alerta para a impossi-
mesmo que nestas exista alguma sequência que ligue bilidade de relacionarmos logicamente os conceitos fun-
sua recorrência. Ele define o ato de pensar como a damentais com o mundo experimental. Com isso ele
construção de conceitos que são os elementos de or- elabora uma maneira própria de pensar a função da
ganização do pensamento [19]. Essas construções não lógica na ciência, que se aproxima mais da racionali-
são apenas representações diretas do exterior, mas ele- dade que apresentamos anteriormente. O próprio autor
mentos que fazem dos dados da experiência um todo esclarece:
organizado. Um adepto das teorias da abstração ou
indução poderia chamar nossas camadas de
O fato de a totalidade de nossas expe- “graus de abstração”; não considero jus-
riências sensoriais ser tal que é possı́vel tificável, porém, esconder o quanto os con-
pô-las em ordem por meio do pensamento ceitos são logicamente independentes das
(operações com conceitos, a criação e uso de experiências sensoriais. [22, p. 58]
relações fundamentais definidas entre eles,
e a coordenação das experiências sensoriais, A relação entre conceitos e o mundo sensı́vel é um
com esse conceitos) é por si só assombroso aspecto importante no pensamento filosófico de Eins-
(...). Podemos dizer que o “eterno mistério tein. Sua concepção de não haver uma relação lógica
do mundo é sua compreensibilidade” (...) entre estes elementos e a experiência significa que não
5 A tentativa de estabelecer relações diretas entre conceitos teóricos e conceitos da experiência foi um dos ideais do positivismo lógico,

doutrina filosófica importante no final do século XIX e na primeira metade do século XX.
Uma discussão epistemológica sobre a imaginação cientı́fica 1602-9

podemos relacioná-los através de regras claras e obje- Mas para Einstein, o mundo é efetivamente
tivas.5 Ele considerará que a relação entre o “mundo concebı́vel, as leis que o fı́sico lhe atribui
racional” e o “mundo sensorial” é feita através da in- – ainda que os conceitos que elas implicam
tuição, mesmo que essa não possa ser considerada uma sejam criações livres – não são puras con-
categoria objetiva ou “cientı́fica”. venções. E foi aparentemente o sucesso da
sua experiência de investigador que o levou
A conexão dos conceitos básicos do pen- a juntar à intuição a criação conceptual livre
samento comum com os complexos de ex- como elemento indispensável ao progresso
periências sensoriais só pode ser compreen- do conhecimento. [23, p. 46]
dida de modo intuitivo, não se prestando
a uma determinação cientificamente lógica Com isso, esta livre criação de conceitos passa a
[22, p. 56] ter um significado especial quando Einstein considera
que é somente através dela que nos orientamos na rea-
Um dos elementos mais importantes da cientifici- lidade. Assim, o realismo proclamado por Einstein é na
dade se vinculará principalmente pela coerência lógica verdade um abandono do realismo ingênuo, que busca
que os conceitos apresentam entre si quando operam uma correspondência entre construção simbólica e re-
internamente no pensamento. O estabelecimento de alidade, em prol de uma visão em que o conhecimento
uma teoria se baseia no estabelecimento de uma lógica não é uma cópia da realidade, mas sim um caminho de
cientı́fica, que seria a busca de uma perfeição interna acesso a ela.
da teoria [19]. Einstein aponta que o estabelecimento É isto que queremos dizer quando asso-
dessas regras é mutável, contudo, são estas construções ciamos uma “existência real” ao objeto
que tornam a ciência possı́vel. corpóreo. A legitimidade desta associação
repousa unicamente sobre o fato de que,
O essencial é o objetivo de representar a com o auxı́lio de tais conceitos e das
multiplicidade de conceitos e proposições relações mentalmente estabelecidas entre
próximos da experiência como teoremas, eles, podemos nos orientar por entre o
logicamente deduzidos e pertencentes a uma emaranhado de sensações. É por este mo-
base, o mais estrita possı́vel, de conceitos tivo que estes conceitos e relações – embora
e relações fundamentais, que possam, eles livres definições do pensamento – parecem-
próprios, ser livremente escolhidos (axio- nos mais firmes e imutáveis que a ex-
mas). Essa liberdade de escolha, porém, periência sensı́vel única, cujo caráter nunca
é de um tipo especial; não é nada similar poderemos com segurança deixar de atribuir
à de um escritor de ficção. Assemelha-se, à ilusão ou a alucinação. Por outro lado,
antes, à de um homem empenhado em re- conceitos e relações, em particular o esta-
solver uma charada bem formulada. Ele belecimento de objetos reais ou mesmo de
pode, sem dúvida, propor qualquer palavra um “mundo real”, só são justificáveis na me-
como solução; mas há apenas uma que re- dida em que estão associados a experiências
solve realmente a charada em todas as suas sensı́veis entre as quais criam associações
formas. É um efeito da fé que a natureza mentais [21, p. 9]
– tal como é perceptı́vel a nossos cinco sen-
tidos – assuma o caráter de uma charada Com isso, o que garante a ontologia dos conceitos
igualmente bem construı́da. [22, p. 68] não é a correspondência direta com a realidade, mas
o fato de as ideias elaboradas nos orientarem corre-
A “resolução de charadas” vai ser fundamental para tamente nela. Em uma analogia simples, poderı́amos
a concepção de imaginação de Einstein. Ele afirma que afirmar que os conceitos são como um “mapa mental”,
nosso pensamento é um jogo livre de conceitos, havendo que nos permite caminhar sobre uma realidade que per-
uma distinção entre a atividade sensória das impressões manecerá oculta e escura aos nossos olhos. O sucesso
e a produção dos conceitos. Segundo ele, o ato de “pen- está em que apesar deste mapa ser algo bem diferente
sar” põe em jogo além das imagens resultantes das im- da realidade, as novas teorias sempre estabelecerem ca-
pressões dos sentidos, os conceitos. No entanto, a livre minhos mais precisos e bem delimitados. Neste sen-
criação considerada por Einstein é de um tipo especial, tido, ele irá dar um papel especial à matemática, pois
pois o autor irá considerar que somente uma resposta ela estrutura e direciona o acesso à realidade [21, 24],
serve como solução. Com isso, a imaginação adquire e quando a imaginação se submete às suas proposições,
um aspecto objetivo, pois apesar do pensamento operar as organizações criadas por ela podem ser legitimadas
sem restrições cognitivas, ele é guiado a uma resposta como conhecimentos verdadeiros. Apesar de o conhe-
que se torna a mais adequada para a apreensão de um cimento partir de nossas percepções sensoriais, nesta
fenômeno. Como afirma o filósofo Jacques Merleau- perspectiva a busca da fidelidade e, em alguma medida,
Ponty: da correspondência do saber epistêmico em relação à
1602-10 Gurgel e Pietrocola

realidade deixa de ser ponto de partida e passa a ser A quinta-essência de tudo isso é a conexão
uma forma de acesso às partes do mundo que não são eternamente problemática entre o mundo
aparentes a nós. das ideias e aquele que pode ser experimen-
Além de apresentar sua visão sobre a natureza do tado (experiências imediatas dos sentidos).
pensamento e a relação deste com a realidade, Einstein O trabalho para o volume jubileu de de
ainda buscará discutir como seu pensamento funciona Broglie será traduzido em francês pelos cole-
durante seu processo de criação de novas ideias. Ao gas de lá. Mas o conteúdo será para as
escrever uma carta a um amigo, Maurice Solovine, em pessoas uma heresia da pior espécie. Eu
7 de maio de 1952, Einstein apresenta uma descrição só posso lhe enviar quando ele estiver im-
sobre seu processo de criação cientı́fica, nos seguintes presso.
termos:
Nós estamos muito bem. Mas minha capaci-
(...) Eu vejo as coisas, esquematicamente, dade de trabalho já diminuiu sensivelmente.
da seguinte forma: Mas isso também tem seu lado bom.
De todo coração A. E. [25, p. 43]

O passo mais importante, que devemos notar aqui,


é o salto que há do plano da experiência sensı́vel, para o
plano das premissas. Essa é a criação subjetiva do ser,
em que ele pode representar sinteticamente as ideias,
isto é, o momento em que elas se tornam organizadas
pelo pensamento, em que as experiências inicialmente
desconexas são apreendidas conjuntamente formando
A: Sistemas de Axiomas.
uma totalidade única. Esta é uma visão imediata, a
S: Proposições Deduzidas. partir da qual se podem reconstituir logicamente as
E: Variedade das Experiências Imediatas. razões, mas que repousa sobre as experiências anteri-
ores do pensamento.
As E (experiências imediatas) nos são
dadas. (...) Se o senhor quer estudar em qualquer
A são os axiomas, de onde nós tiramos as dos fı́sicos teóricos os métodos que emprega,
conclusões. sugiro-lhe firmar-se neste princı́pio básico:
não dê crédito algum ao que ele diz, mas
Psicologicamente os A se repousam sobre as
julgue aquilo que produziu! Porque o cri-
E. Mas não existe nenhum caminho lógico
ador tem esta caracterı́stica: as produções
conduzindo das E aos A, mas somente uma
de sua imaginação se impõem a ele, tão in-
conexão intuitiva (psicológica), que é sem-
dispensáveis, tão naturais, que não pode
pre “até a nova ordem”.
considerá-las como imagem do espı́rito, mas
A partir dos A, são deduzidos por via lógica as conhece como realidade evidentes. [20,
as afirmações particulares S, que podem p. 145]
pretender a ser exatas.
Essa afirmação sobre a visão imediata no ato cria-
Os S são colocados em relação com as E
tivo deixa bastante claro que este pensamento opera,
(verificação pela experiência). Este procedi-
como afirmamos anteriormente, de forma sintética. As-
mento, a ser visto de perto, pertence igual-
sim, uma forma analı́tica de pensar, que reduz um pro-
mente à esfera da extralógica (intuitiva),
blema às partes que podem ser analisadas, parece-nos
porque a relação entre as noções apresen-
imprópria à descrição da criação.
tadas em S e as experiências imediatas E
Em uma carta direcionada ao psicólogo Jaques
não são de natureza lógica.
Hadamard, Einstein responderá sobre como opera
Mas essa relação entre os S e as E, é (prag- seu pensamento, principalmente em seu ato de com-
maticamente) muito menos incerta que a preensão de algo novo.
relação entre as A e as E. (Por exemplo,
a noção cachorro e as experiências imedi- As palavras e a linguagem, escritas e fala-
atas correspondentes.) Se uma tal corres- das, não parecem representar o menor papel
pondência não pudesse ser obtida com uma no mecanismo de meu pensamento. As enti-
grande segurança (bem que ela não seja logi- dades psicológicas que servem de elemento
camente mantida), a maquinaria lógica seria ao pensamento são certos signos ou umas
sem nenhum valor para a “compreensão da imagens mais ou menos claras, que podem
realidade” (exemplo, a teologia). “à vontade” ser reproduzidas e combinadas.
Uma discussão epistemológica sobre a imaginação cientı́fica 1602-11

Existe naturalmente uma certa relação en- pertence a uma categoria criada por nós,
tre esses elementos e os conceitos lógicos em sem conteúdo lógico que lhe seja próprio,
jogo. É igualmente claro que o desejo de e baseada somente sobre a oportunidade,
chegar finalmente a esses conceitos logica- ela só é uma banalidade. Eu a mencionei
mente ligados é a base emocional desse jogo para mostrar que a livre escolha dos elemen-
muito vago sobre os elementos das quais eu tos construtivos inteligı́veis, colocados livre-
falei. Mas do ponto de vista psicológico, esse mente e impossı́veis de deduzir empirica-
jogo combinatório parece ser uma carac- mente, não começa na ciência propriamente
terı́stica essencial do pensamento produtor dita, mas ela pertence à vida intelectual de
– haveria alguma passagem anterior à cons- todos os dias. [27, p. 449]
trução lógica em palavras ou outros gêneros
de signos que nós não possamos comunicar O valor que ele atribui às reflexões diárias o leva
a outro. a considerar que a construção do conhecimento não
depende somente das relações de conceitos formais da
Os elementos que eu venho de mencionar
ciência, mas das percepções cotidianas que o indivı́duo
são, no meu caso, de tipo visual e, por vezes,
adquire por sua vivência. Isso é interessante porque
motor. As palavras ou outros signos con-
demonstra, mais uma vez, que a base da criação na
vencionais só vêm a ser procurados com di-
ciência pode depender de pensamentos que seriam con-
ficuldade em um estado secundário, onde o
siderados “comuns” e, portanto, desprovidos de caráter
jogo de associações em questão é suficiente-
cientı́fico. No entanto, estes são as bases do que, em
mente estabelecido e pode ser reproduzido
uma construção mais elaborada, passará a ser visto
à vontade.
como um conteúdo cientı́fico.
Após isso que acabei de dizer, o jogo sobre Einstein apresenta uma visão bastante nova sobre a
os elementos mencionados visa ser análogo à criação cientı́fica mesmo para os dias de hoje. O ele-
certas conexões lógicas que nós procuramos mento mais importante de sua filosofia é o de conseguir
[26, p. 82-83] conciliar as dimensões da racionalidade e da imaginação
no trabalho de criação na ciência. Ao mesmo tempo em
Nesta carta é interessante notar o papel atribuı́do
que fica evidente a importância da liberdade de pensa-
ao pensamento não-conceitual como condição prévia à
mento e de sua dimensão subjetiva na construção do
conceituação, em que imagens ou signos mais gerais são
conhecimento (em que há a busca de uma compreensão
a base do entendimento6 que buscará, em um segundo
individual e intuitiva do mundo), fica também evidente
momento, uma formulação lógica e estável ancorada na
a importância dos valores lógico-racionais (em que há
linguagem. Isto não apenas mostra que o pensamento
necessidade de conhecimento coerente que possa ser
tem nı́veis diferentes de representação, algo bastante
compartilhado com uma comunidade). Além disso, o
aceito em diversas epistemologias, mas principalmente
objetivo da ciência como uma forma de apreensão do
que esses diferentes campos representacionais se rela-
real não é abandonada. Mesmo admitindo que o pensa-
cionam entre si nos momentos de produção de ideias
mento abstrato não tenha uma correspondência direta
novas. Aqui também é interessante notar o papel que
com a realidade a ser compreendida, este não deixa de
Einstein dá à vontade emocional necessária ao processo
ser a maneira mais fiel que temos de lidar com ela. Isso
de construção das ideias, vontade esta que consiste em
ocorre à medida em que o pensamento é colocado à
obter um entendimento individual de uma realidade que
prova como guia de nossa relação com o mundo exte-
se apresenta fragmentada. Assim temos que a busca da
rior. Com isso, o desenvolvimento do pensamento está
apreensão do real passa necessariamente por etapas bas-
aberto a etapas de diferentes naturezas, confrontando-
tante subjetivas, isto é, que envolvem a forma particular
se de diversas maneiras com a realidade.
do sujeito se posicionar perante o mundo exterior.
Ainda nesta perspectiva, encontramos elementos so-
bre o pensamento de Einstein que nos indicam a diver- 7. Considerações finais
sidade das origens de suas imagens mentais. Para ele a
construção do conhecimento não depende das questões Neste trabalho se buscou abordar o tema da imaginação
puramente intelectuais, mas também dos pensamentos através do enfoque histórico-epistemológico e foi con-
diários que devem ser organizados. Em uma carta à siderada a imaginação como função do pensamento que
Michele Besso, datada em 15 de junho de 1950, ele irá busca apreender o real. No entanto outras abordagens
considerar: são possı́veis, bem como o papel da imaginação em ou-
tras funções da atividade cientı́fica como, por exemplo,
Quanto à minha afirmação que a distinção a elaboração de procedimentos experimentais. Com isso
entre experiência sensı́vel e alucinação é pu- as considerações finais deste trabalho se limitarão a esse
ramente hipotética (convencional) e que ela papel bastante especı́fico dado à imaginação.
6 Elementos que denominamos como imaginário na primeira seção deste artigo.
1602-12 Gurgel e Pietrocola

O estudo histórico que busca resgatar a reflexão [4] L. Hegemberg, Nota do Tradutor, in: K. Popper, A
que Einstein elabora sobre seu próprio pensar nos per- Lógica da Pesquisa Cientı́fica. (Cultrix, São Paulo,
mite aprofundar a discussão epistemológica elaborada 1974).
neste trabalho sobre o papel da imaginação no pensa- [5] G. Holton, A Cultura Cientı́fica e seus Inimigos
mento cientı́fico. Neste sentido retomaremos ambas as (Gradiva, Lisboa, 1998).
discussões para apontar algumas consequências decor- [6] G. Holton, A Imaginação Cientı́fica (Zahar, Rio de
rentes da perspectiva teórica adotada neste trabalho. Janeiro, 1979).
Einstein valoriza muito as impressões subjetivas, so-
[7] J.S. Mill, Sistema de Lógica Dedutiva e Indutiva Col.
bretudo as baseadas no pensamento ainda não con-
Pensadores (Abril Cultural, São Paulo, 1979).
ceitual. Esse elemento corresponde ao que denomi-
namos imaginário, como campo simbólico no qual o [8] G.G. Granger, Discurso 29, 7 (1998).
pensamento opera. Este primeiro dado nos permite [9] G. Durand, O Imaginário (DIFEL, Rio de Janeiro,
refletir sobre a maneira como concebemos determi- 2001).
nadas formas de aprendizado. É muito comum que [10] G. Durand, As Estruturas Antropológicas do Ima-
experiências realizadas no contexto didático busquem ginário (Editorial Presença, Lisboa, 1989).
ser demonstrações de fenômenos. Por mais que estas
[11] F. Laplatine e L. Trindade, O que é Imaginário
tenham algum campo de validade na prática docente,
(Brasiliense, São Paulo, 2003).
vimos que a criação individual reside muito mais em
uma apreensão subjetiva da realidade do que a busca [12] E. Patlagean, in: A História Nova, org. J. Le Goff
de uma representação fiel da mesma. Neste sentido (Martins Fontes, São Paulo, 1993).
podemos considerar que estratégias que valorizem e ex- [13] G. Bachelard, A Filosofia do Não Col. Pensadores
plorem essa forma subjetiva de percepção possam ter (Abril Cultural, São Paulo, 1978).
algum papel prévio à busca de uma formalização con- [14] G. Bachelard, O Racionalismo Aplicado (Zahar Edi-
ceitual de certas ideias. O que notamos é que o ima- tores, Rio de Janeiro, 1977).
ginário dos alunos é muito pouco explorado quando con- [15] G.G. Granger, A Razão (Edições 70, Lisboa, 1985).
duzimos nossas aulas em classes de ciências.
Um segundo ponto que gostarı́amos de retomar [16] M. Paty, in: Filosofia, Ciência e História, org. M.
Pietrocola e O. Freire Jr (Discurso Editorial, São Paulo,
são as considerações sobre a racionalidade e a lógica.
2006).
Por mais que as operações formais tenham um pa-
pel inegável nas ciências, sobretudo na fı́sica e na [17] M. Paty Estudos Avançados 19, 54 (2005a).
matemática, parece-nos claro que a atividade criadora [18] M. Paty, Einstein Philosophe (PUF, Paris, 1993).
não se limita a elas. Einstein deixa muito claro o pa-
[19] A. Einstein, Notas Autobiográficas (Editora nova Fron-
pel da intuição na resolução de problemas e isso se liga teira, Rio de Janeiro, 1982).
diretamente à intuição racional que definimos através
da filosofia de Michel Paty. A partir disso podemos [20] A. Einstein, Como Vejo o Mundo (Editora nova Fron-
teira, Rio de Janeiro, 1981).
repensar as formas como conduzimos problemas fı́sico-
matemáticos em sala de aula. A limitação às operações [21] A. Einstein, Revista Brasileira de Ensino de Fı́sica 28,
formais não nos possibilita a compreensão da realidade 1 (2006).
à qual uma formulação se refere. Neste sentido práticas [22] A. Einstein, Escritos da Maturidade (Editora nova
que valorizem a criação de regras, como determinados Fronteira, Rio de Janeiro, 1994).
tipos de jogos matemáticos permitem, podem se con- [23] J. Merleau-Ponty, Einstein (Instituto Piaget, Lisboa,
figurar como boas estratégias de ensino. 1993).
[24] A. Einstein, Scientiae Studia 3, 4 (2005).
Referências [25] A. Einstein, Lettres à Maurice Solovine (Gauthier-
Villars, Paris, 1956).
[1] I. Gurgel A Imaginação Cientı́fica como Componente
do Entendimento: Subsı́dios para o Ensino de Fı́sica [26] J. Hadamard, Essai sur la Psycologie de l’Invention
(Instituto de Fı́sica, São Paulo, 2006). dans lê Domaine Mathématique (Gauthier-Villars,
[2] H. Reichenbach Experience and Prediction (University Paris, 1959).
of Chicago Press, Chicago, 1938). [27] A. Einstein e M. Besso, Correspondance (Hermann,
[3] M. Paty, Estudos Avançados 15, 41 (2001). Paris, 1972).