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Psicologia da Saúde

Material Teórico
O Normal e o Patológico – Aspectos do Funcionamento Psicológico

Responsável pelo Conteúdo:


Profa. Dra. Carmen Lúcia Tozzi Mendonça Conti

Revisão Textual:
Profa. Dra. Selma Aparecida Cesarin
O Normal e o Patológico – Aspectos
do Funcionamento Psicológico

• O Que é Normalidade e Patologia?


• Abordando os Critérios
• Qual é a Origem das Ideias de Normalidade e Patologia?
• Os Aspectos Constitutivos da Normalidade Psicológica
• Um pouco mais sobre a Abordagem da Psicanálise
• O Normal e o Patológico para Autores das Ciências Sociais
• Considerações Finais

OBJETIVO DE APRENDIZADO
· Compreender os conceitos de normal e patológico, sua origem e seu
desenvolvimento ao longo da história da Humanidade.
· Conhecer aspectos da Psicologia e das Ciências Sociais acerca dos
conceitos de normalidade e patologia.
Orientações de estudo
Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem
aproveitado e haja uma maior aplicabilidade na sua
formação acadêmica e atuação profissional, siga
algumas recomendações básicas:
Conserve seu
material e local de
estudos sempre
organizados.
Aproveite as
Procure manter indicações
contato com seus de Material
colegas e tutores Complementar.
para trocar ideias!
Determine um Isso amplia a
horário fixo aprendizagem.
para estudar.

Mantenha o foco!
Evite se distrair com
as redes sociais.

Seja original!
Nunca plagie
trabalhos.

Não se esqueça
de se alimentar
Assim: e se manter
Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte hidratado.
da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e
horário fixos como o seu “momento do estudo”.

Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar, lembre-se de que uma


alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo.

No material de cada Unidade, há leituras indicadas. Entre elas: artigos científicos, livros, vídeos e
sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você também
encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua
interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados.

Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discussão,
pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato
com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e aprendizagem.
UNIDADE O Normal e o Patológico – Aspectos do Funcionamento Psicológico

O Que é Normalidade e Patologia?


Para começar a nossa unidade, vou propor um exercício mental. Quando fala-
mos em normalidade, quais são as imagens e as ideias que o seu cérebro projeta?
Em que você pensa?

Existe um senso comum sobre a normalidade como algo estático, modelo a ser
seguido, uma espécie de perfeição essencial.

Será que é mesmo possível estabelecer um critério fixo de normalidade, que não
se transmuta ao longo do tempo e de acordo com a circunstância?
“Estamos mais preocupados em compreender a normalidade, em fixar o
seu conceito, do que propriamente em defini-la. Em sua essência complexa,
o problema seria prejudicado por uma definição que procurasse fixá-lo em
palavras, desde que se trata, na realidade, de um conceito essencialmente
dinâmico. Nessas condições, a definição não auxiliaria em nada a
compreensão do assunto. O que importa, sobretudo, é o conhecimento
dos fatores a tomar em consideração quando falamos em normalidade,
pois deles depende a limitação do conceito e a base de qualquer tentativa
definidora” (DOYLE, 1950).

normal. nor·mal adj m+f 1 Conforme a norma; regular: O juiz aplicou a sanção normal ao
Explor

caso. 2 Que é comum e que está presente na maioria dos casos; habitual, natural, usual:
“[…] essa dor que eu estou sentindo no braço não pode ser normal”(NR). 3 Tudo que é
permitido e aceito socialmente: Divorciar-se é prática bastante normal hoje em dia. 4 Diz-
se de pessoa que não tem defeitos ou problemas físicos ou mentais: um aluno normal. 5
PEDAG, OBSOL Diz-se de escola ou curso destinado a formar professores do antigo ensino
primário (atual primeiro ciclo do ensino fundamental). 6 GRÁF Diz-se de tipo redondo, com
largura padrão de corpo e fonte, e com peso comum entre o claro e o preto; regular. 7 QUÍM
Diz-se de composto cujo conjunto de átomos de carbono é ligado em cadeia aberta. Sf GEOM
Reta perpendicular a uma superfície ou curva. EXPRESSÕES Normal principal, GEOM: normal
a uma superfície contida no plano tangente. INFORMAÇÕES COMPLEMENTARES, ANTÔNIMO:
anômalo, anormal. ETIMOLOGIA lat normalis.
Patológico pa·to·ló·gi·co adj 1 MED Relativo à patologia. 2 Que denota doença; doentio,
mórbido. ETIMOLOGIA der de patologia+ico2, como fr pathologique.

Dicionário Michaelis online.

Como vimos, se recorrermos ao dicionário, percebemos que a noção menos


dinâmica, mais estática, está atribuída à definição de normalidade.

Diferente de sua etimologia, que significava medida, vamos entrar no campo do


uso da palavra hoje, bastante diferente do que significava em sua origem greco-latina.

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O que é importante deixar claro é a relatividade da normalidade, que representa
realidades distintas e contingenciais, que fazem com que a sua representação seja
diferente em casos distintos, de acordo com a perspectiva pela qual enxergamos.

A normalidade e a patologia, portanto, não são universais. Quando falamos da


Humanidade, existem diferentes aspectos que podem ser encarados para pensá-las,
sejam eles orgânicos, fisiológicos, psicológicos. Os três possuem relação entre si,
embora cada um tenha suas particularidades e diferentes critérios para definição
de normalidade.

Quando tratamos dos aspectos psicológicos dos seres humanos, há grande


variedade de critérios que têm sido abordados para pensar o problema da
normalidade, apontando o nível de complexidade para a definição de padrões
de normalidade e diagnóstico, material de trabalho para psicólogos e psiquiatras.
A normalidade é, portanto, muito elástica, assumindo caráter absolutamente
dinâmico, imprimindo grande dificuldade ao trabalho daqueles que tentam defini-la
de forma estanque. Sua definição não é matemática, mas relativa a diferentes
camadas tênues, que se compõem.

Doyle nos dá um exemplo prático para percebermos o choque entre a compre-


ensão do senso comum sobre a normalidade e o trabalho dos profissionais da área,
demonstrando a complexidade do tema e da definição dos diagnósticos psicológicos:
“Estamos nos recordando no momento de uma senhora que nos trouxe
o filho de 18 anos para observação psicológica, com o seguinte preâm-
bulo: ‘Eu mesma não sei se meu filho precisa de tratamento, mas achei
prudente trazê-lo para ouvir a sua opinião, porque ele é diferente do
irmão, e eu acho mais natural o modo pelo qual o outro se comporta no
meio social’. A análise da estrutura caracterológica revelou boa organi-
zação do jogo de forças psicológicas orientadoras da conduta explícita
e implícita, ausência de sintomas e de ansiedade neurótica; chegamos
mesmo à conclusão de que se tratava de um adolescente extraordina-
riamente inteligente, capaz, honesto, com ideais construtivos capazes
de serem realizados por ele, atendendo às suas qualidades potenciais,
apenas não é grande apreciador das futilidades sociais e é menos loquaz
do que o irmão. No caso vertente, ficou apurado que justamente o filho
mais apreciado era realmente o que precisava de tratamento, pois a sua
grande atividade era um recurso que usava para escoar um pouco da sua
ansiedade” (DOYLE, 1950).

Depois dessa lógica mais dinâmica ter começado a fazer parte do pensamento
e da psicologia normal e patológica, as investigações e os diagnósticos não se
restringem mais apenas à aparência dos comportamentos, que passam a se
contrapor à separação artificial entre normalidade e anormalidade psicológicas.

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UNIDADE O Normal e o Patológico – Aspectos do Funcionamento Psicológico

Abordando os Critérios
Vejamos alguns diferentes critérios para as áreas do conhecimento, com as quais
a Psicologia não coincide, necessariamente:

Critério Normativo Homem normal como tipo perfeito, como um modelo de representação.

Critério Estatístico Homem mais frequente.

Critério Clínico Homem sem sintomas.

Critério Constitucionalista Homem normal, é o de “estrutura genotípica normal”.

Critério Sociológico Homem que melhor representa a sua cultura, de acordo com o espírito de seu tempo.

Critério Criminológico Homem que não fere as leis.

Critério Médico-Legal Homem capaz de guiar suas ações de modo civilizado e que pode ser responsável por suas atitudes.

No caso da Psicanálise, por exemplo, a noção de normalidade não é uma


ferramenta. Com os estudos de Freud acerca da neurose, percebida por ele com
muita frequência nas pessoas, a noção de normalidade psicológica assumiu posição
muito delicada, na medida em que diferentes distúrbios ou comportamentos gerados
em uma realidade tão contraditória e com problemas sociais tão profundos.

A difusão das noções travadas por Freud e pela Psicanálise imputou ao conceito
de normalidade psicológica a necessidade de muito cuidado na abordagem, muitas
vezes tratada entre aspas: a “normalidade”. Trataremos posteriormente mais sobre
a abordagem da Psicanálise acerca do tema.

Sigmund Freud foi um dos grandes pes-


Explor

quisadores e cientistas da modernidade.


Austríaco, de família judia, nascido em
1856, foi importante médico neurologista
e responsável pela criação da Psicanálise.
Seus estudos possibilitaram profundo
avanço no desenvolvimento da Psicologia
como Ciência e nos estudos da mente hu-
mana, principalmente, do inconsciente e Figura 1 – Sigmund Freud
de suas manifestações. Fonte: Wikimédia Commons

O filme “Método Perigoso” (2011), do diretor David Cronenberg, mostra como a relação entre
Explor

Carl Jung e Sigmund Freud faz nascer a Psicanálise. Aborda a intensa e polêmica relação da
dupla com a paciente Sabina Spielrein.
Veja o trailer em: https://youtu.be/n_kfCljrmtY

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Qual é a Origem das Ideias de
Normalidade e Patologia?
Na História das Ciências e da Humanidade, em diferentes civilizações, a
necessidade de definir o homem normal esteve presente em muitos momentos,
senão em quase todos.

Os grandes pensadores clássicos, como Aristóteles e Platão, dedicaram sua


Filosofia a estabelecer padrões e fórmulas que definissem a normalidade.

As sociedades gregas antigas tinham concepção dinâmica do que seja a doença,


sendo a Saúde definida por equilíbrio e harmonia e a doença como transtorno
dessa condição. Contudo, a percepção do transtorno não assumia exatamente
um caráter negativo, sem função, mas de restabelecimento de novo equilíbrio,
regeneração, como uma reação que tem o sentido da cura, movimento próprio da
natureza (CANGUILHEM, 1904).

Para Augusto Comte, pai do pensamento positivista, o excesso é constitutivo


da doença, ou a falta de vivacidade do corpo. A ausência de estímulo, necessário à
saúde, conduziria ao estado de doença.

Há ainda outros autores que consideram outros aspectos e apresentam outras


explicações, como Claude Bernard e Leriche.

Claude Bernard Doença possui função normal em relação à totalidade da saúde.

Leriche A saúde é a vida na tranquilidade dos órgãos; a doença é o contrário.

O que podemos notar nessas Teorias é que elas se amparam na organização ou


na desorganização do organismo a partir das mudanças fisiológicas corporais, e não
abordam o campo da psicopatologia e das intervenções das emoções e afetividade.

Será mesmo que seria possível pensar a esfera fisiológica e a psicológica em


separado? E, além disso, seriam mesmo a normalidade e a patologia condições
antagônicas entre si, ou integradas e fundidas, com combinações distintas, em um
nível de complexidade importante a ser analisado?

É por onde queremos caminhar.

Há, ainda, outro aspecto importante, relativo à terminologia, que devemos


abordar. Canguilem (1904) alerta sobre a distinção entre o patológico e o anormal.

Todo patológico é anormal, mas o inverso não é sempre verdadeiro. O anormal


pode ter caráter adaptativo, não correspondendo necessariamente a sofrimento e
impotência (pathos). Por isso, é importante o cuidado no trato com esses conceitos
de normalidade, anormalidade e patologia, termos de profunda complexidade.

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UNIDADE O Normal e o Patológico – Aspectos do Funcionamento Psicológico

Uma abordagem curiosa, por exemplo, é frequente entre pensadores e literatos


do início da Modernidade, que relacionavam a normalidade à futilidade, à falta de
profundidade do ser, a ser supérfluo e não contraditório. Diferente dos pensadores
da Filosofia Clássica, eles não almejavam a normalidade, mas fugiam dela.
“[...] o homem normal está personificado pelo homem da massa, “o que
nos rodeia aos milhares, o que prospera e se reproduz no silêncio e na
treva”; é o homem sem ideias, sem personalidade, por essência imitativo,
apto a viver como carneiro de rebanho, refletindo a rotina social, aceitando
os preconceitos e dogmas úteis à sua condição doméstica; a alma desse
homem medíocre não tem nada de espontaneidade, é um reflexo da alma
da sociedade em que vive, porque a característica deste homem é imitar a
quantos o rodeiam, pensar com a cabeça alheia, e ser incapaz de formar
concepções e ideais próprios; deste modo, ele é o espírito conservador
do grupo, interessado em manter os seus hábitos, que lhe amenizam o
esforço de viver” (DOYLE, 1950).

Tanto a idealização da normalidade quanto o seu desprezo, portanto, não cor-


respondem a uma visão equilibrada do que a questão trata. É muito difícil, hoje,
sustentar uma ideia estática de saúde e doença.

Vamos pensar a respeito!


“A noção estática de saúde e doença é difícil de ser sustentada hoje, já
que, no sentido da ausência de sintomas, todos seriam normais até o
ponto crucial em que surge a patologia. Além disso, sabe-se que todo o
ser humano possui uma grande suscetibilidade a adquirir doenças mais
ou menos graves ao longo da vida. Mesmo considerando apenas aquelas
doenças incuráveis e que, consequentemente, acompanharão o indivíduo
até o fim de sua vida, cabe questionar o que o define como anormal,
já que muitas vezes é possível prosseguir a vida mantendo as atividades
anteriores à doença” (DELATORRE et al., p.319).

Um dos aspectos a ser considerado para o estabelecimento do normal é a


pressão cultural, visto que as culturas estabelecem seus modelos de normalidade e
anormalidade, questão que tirar o normal como a média não leva em considera-
ção. Se tirássemos pela média, aqueles que se destacassem do ponto de vista da
adequação social ou do acordo com as regras, mesmo em relação à sua capaci-
dade intelectual, seriam considerados deslocados e anormais (AJURIAGUERRA;
MARCELLI, 1986).

O normal, portanto, é constituído a partir de um sistema de valores estabelecido


cultural e socialmente; portanto, não havendo, como dissemos, definição universal
do que seja normal ou patológico.
“O normal, como o ideal pressupõe, primeiramente, é um determinado
sistema de valores. Cabe questionar, primeiramente, como seria escolhido
um sistema de valores padrão para o estabelecimento da normalidade.

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Caso o ideal fosse um grupo social, voltaríamos à noção da norma
estatística, já que todos teriam de enquadrar-se no modelo de tal grupo;
caso o sistema de valores ideal fosse pessoal, cada indivíduo possuiria
sua própria definição de normalidade, o que torna inútil o conceito”
(AJURIAGUERRA; MARCELLI, 1986 apud DELATORRE et al.).

Por último, a apreensão dinâmica do que seja normalidade e patologia está


associada à capacidade de retomar o equilíbrio do estado de normalidade, o que
requer um processo de se adaptar à determinada condição. Essa adaptação pode ou
não gerar conformismo e submissão, gerando outros problemas (AJURIAGUERRA;
MARCELLI, 1986).

Os Aspectos Constitutivos da
Normalidade Psicológica
Ao tentar sintetizar o conceito de normalidade, devemos levar em conta os
diferentes aspectos da vida psicológica, considerando estruturas que são parte da
estrutura emocional, afetiva e social.

É importante a observação da aparência, mas não somente ela dará conta de um


diagnóstico adequado. A ótica sobre o equilíbrio pessoal e sua estabilidade, das po-
tências do indivíduo e suas capacidades poderão indicar os aspectos de normalidade.

O comportamento explícito e o implícito devem estar em consonância, cuja


avaliação demanda o olhar integral de múltiplas determinações sobre o indivíduo
e sua vida.
“Não basta, entretanto, o funcionamento intelectual satisfatório; a este
se deve associar uma organização afetiva-emocional, não só explícita
na conduta, mas como realidade íntima, caracterizada por equilíbrio. A
normalidade reveste ainda um aspecto ético, que exige a presença das
virtudes humanas, sem as quais as próprias potencialidades intelectuais
adquirem aspecto estéril” (DOYLE, 1950).

Um pouco mais sobre a


Abordagem da Psicanálise
Winnicott (1967) analisa a tendência dos psicanalistas no entendimento da
normalidade que, segundo o autor, caminha no sentido de pensar a saúde como
ausência de distúrbios psiconeuróticos.

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UNIDADE O Normal e o Patológico – Aspectos do Funcionamento Psicológico

O autor, no entanto, defende a adoção de critérios mais sutis, considerando a


normalidade em termos de liberdade no âmbito da personalidade, da capacidade
de possuir confiança, constância, liberdade em relação à autoilusão, estando rela-
cionada à saúde, à autonomia e ao livramento em relação à dependência. A vida
saudável seria caracterizada, ainda, por momentos e sentimentos positivos e ne-
gativos, conquistas e frustrações (WINNICOTT, 1967 apud DELATORRE et al.).

Para Freud, no entanto, a ênfase é dada ao desenvolvimento psíquico sobre a


classificação das doenças. O trunfo do Pai da Psicanálise, portanto, é que os meca-
nismos da normalidade e da neurose são os mesmos, sendo diferente o seu uso e a
sua flexibilidade, não havendo continuidade entre eles (BERGERET, 1996).
“Percebe-se que nenhuma das classificações é capaz de explicar exaus-
tivamente os fenômenos envolvidos nos diferentes estados psicológicos.
Assim, considera-se indispensável levar em conta conjuntamente os as-
pectos fisiológicos, psicológicos e dinâmicos do sujeito. Qualquer tentativa
de definição apoiada em apenas um desses aspectos torna-se simplista,
ignorando a complexidade do ser humano” (DELATORRE et al., 2011).

O Normal e o Patológico para Autores


das Ciências Sociais
Para encerrar a nossa Unidade, gostaria de abordar alguns autores das Ciências
Sociais que podem contribuir para uma visão mais ampla dos conceitos trabalhados.
Como viemos tratando nas últimas duas Unidades, é fundamental que as pontes
interdisciplinares sejam estabelecidas, para que possamos ter Visão mais ampla
da teoria e dos conceitos com os quais trabalhamos, principalmente quando
falamos em Psicologia, a contextualização social e os aspectos filosóficos, sociais
e econômicos podem contribuir muito para uma análise mais rica de nosso objeto
de estudo e pesquisa.

Durkheim foi um dos pensadores que elaborou Teoria a respeito do normal e do


patológico. Como pensador da corrente teórica do Funcionalismo, foi influenciado
por teorias como o Evolucionismo, e sua compreensão da relação entre indivíduo
e Sociedade estabelecia praticamente uma determinação absoluta da Sociedade
sobre o indivíduo.

O indivíduo teria, praticamente, nenhuma margem de ação, escolha, e a


Sociedade, a partir de formas coercitivas, determinaria a vida dos indivíduos em
suas mais diferentes instâncias.

Para o autor, a Sociedade é constituída de fatos sociais e instituições sociais,


a partir dos quais a conduta humana é determinada de forma coercitiva. Desse
modo, a realidade social antecede a vida individual.

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Explor
Émile Durkheim é um dos grandes nomes
das Ciências Sociais. Nascido na França, em
1858, foi um dos criadores da Disciplina
Sociológica. Em sua vida, escreveu sobre
a organização social, a relação entre indi-
víduo e Sociedade e os mecanismos por
meio dos quais a Sociedade se organiza e
os comportamentos humanos são desen-
hados. Suas obras mais conhecidas são As
regras do método sociológico (1895) e Figura 2 – Émile Durkheim
Da divisão do Trabalho Social (1893). Fonte: emiledurkheim.org

Para chegar às suas elaborações sobre o normal e o patológico, tema de


nossa Unidade, Durkheim procurava entender os meios pelos quais a Sociedade
funcionava daquela maneira, seus mecanismos e regras. Existiriam leis gerais que
organizassem a sociedade, suas instituições e determinassem o comportamento
dos indivíduos na vida em comum?

O Positivismo, como corrente de pensamento, influenciou fortemente as teorias


e as pesquisas acerca da questão da patologia e da normalidade.

Comte, autor fundamental dessa corrente, compreendia a normalidade


e a patologia a partir da mesma chave de funcionamento. Seriam regidas por
mecanismos semelhantes ou equivalentes.

O Positivismo é uma corrente da Filosofia,


Explor

tendo nascido na França, no século XIX.


Augusto Comte e John Stuart Mill são seus
principais idealizadores, tendo como pon-
to de partida para o seu desenvolvimento
o Iluminismo. Opõe-se ao Racionalismo
e ao Idealismo, propondo um método de
análise científica baseada na experiência
sensível, “concreta”, para a produção da Figura 3 – Augusto Comte, um dos
“verdadeira Ciência”. fundadores da corrente Positivista.
Fonte: emiledurkheim.org

Com esse caminho sedimentado, a partir de seus critérios metodológicos e concep-


ção da realidade, Durkheim constrói a diferenciação entre normalidade e patologia.

O pensamento do autor baseia-se no pressuposto de que a Sociedade possui


duas formas bastante diferentes de fato, os que são o que deveriam ser e os que são
o que deveriam ser outra coisa, ou seja, os fenômenos do normal e do patológico.
Para estabelecer esses conceitos, parte da oposição entre saúde e doença, não
apenas do ponto de vista da saúde fisiológica ou médica, mas de expressões sociais
daquilo que é “normal” e daquilo que é “patológico”.

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UNIDADE O Normal e o Patológico – Aspectos do Funcionamento Psicológico

“O critério atualmente utilizado para a determinação da doença, segundo


ele, é o sofrimento e a dor. Mas ele acha esse critério insuficiente, à
medida que reconhece que estados de sofrimento, por exemplo, fome,
fadiga e parto, são normais. Outra forma de se encarar a doença seria
a da perturbação da adaptação do organismo ao meio, o que, para ele,
seria, no mínimo, duvidoso, pois, nesse caso, seria preciso estabelecer
princípios que definissem que um determinado modo de adaptação é mais
perfeito do que outro. Esse princípio, entretanto, poderia ser estabelecido
em relação às possibilidades de sobrevivência, definindo-se como estado
saudável aquele em que as possibilidades de vida fossem maiores, e como
doentio o que diminuísse essas possibilidades” (WANDERLEY, 1999).

Desse modo, a diferença entre o normal e o patológico estaria em que?

Para o autor, os fenômenos sociais e biológicos podem ser delimitados em dois


tipos: os comuns à toda a espécie, que encontramos em todos ou na maioria
dos indivíduos; e os fenômenos atípicos, próprios de pequenos grupos e que não
necessariamente duram por longo tempo.

A partir dessa separação, o autor determina uma espécie de norma genérica


da espécie humana. O que determinaria se um fato social é atípico ou comum é a
sua frequência. Percebe que essa ideia de excepcionalidade é ainda muito presente
hoje. Aquilo que é tido como normal está associado à frequência, enquanto que o
excepcional, raro, excêntrico, é observado muitas vezes como patológico.

Foucault, um importante filósofo do século XX, contrapõe-se às elaborações


de Durkheim no que diz respeito ao normal e ao patológico. Na medida em que a
doença se tornou um assunto chave na Sociologia, na medida em que é relativa a
uma Sociedade e à sua expressão de frequência ou não, para Foucault, nem sempre
essa relatividade cultural é explicada claramente na concepção durkheimeana.

Contrapondo-se às ideias de Durkheim, Foucault vai enxergar a doença não apenas


por seu viés negativo, mas pela positividade subjacente, na possibilidade gerada
pelo patológico, na medida em que o normal e o patológico se complementam, e
não são antagônicos.
“Isto é, retornando às fases anteriores da evolução, a doença faz
desaparecer as aquisições recentes e redescobre as formas de conduta
ultrapassadas. A doença apresenta-se não como um ‘retrocesso’, mas
como um processo ao longo do qual se desfazem as estruturas evolutivas.
Nas formas mais benignas, há dissolução das estruturas recentes e, no
término da doença ou no seu ponto extremo de gravidade, das estruturas
mais arcaicas. Para Foucault, portanto, a doença não é um déficit que
atinge radicalmente esta ou aquela faculdade; há, no absurdo do mórbido,
uma lógica que é preciso ‘desentranhar’, pois ela é, em última instância,
a própria lógica da evolução normal. Ele visualiza o patológico ou a
doença não como uma essência contra a natureza da ‘normalidade’, mas
sendo a própria natureza dessa normalidade, num processo invertido, o
qual se firma numa sociedade que não se reconhece como seu artífice”
(WANDERLEY, 1999).

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Considerações Finais
Como pudemos estudar, as teorias positivistas de Comte e Durkheim se base-
aram fundamentalmente na Biologia para compreender a noção de normalidade
e patologia.

É importante compreender que o biológico respalda a identificação da patologia,


mas não é suficiente para caracterizá-la. Tampouco a frequência é o único método
de identificação da normalidade e da patologia.

A normalidade ultrapassa a ideia de frequência, na medida em que a normatização


“só é a possibilidade de uma referência quando foi instituída ou escolhida
como expressão de uma preferência e como instrumento de uma vontade de
substituir um estado de coisas insatisfatório por um estado de coisas satisfatórias”
(CANGUILHEM, 1982).

Nas próximas Unidades, continuaremos os estudos sobre a Psicologia da Saúde


e os temas que permeiam o seu estudo e seu campo de atuação.

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UNIDADE O Normal e o Patológico – Aspectos do Funcionamento Psicológico

Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:

 Livros
A Infância Normal e Patológica: Determinantes do Desenvolvimento
FREUD, A. A infância normal e patológica: determinantes do desenvolvimento. 3.
ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1895.
Individualismo e Cultura: Notas para uma Análise Antropológica da Sociedade Contemporânea
VELHO, G. Individualismo e Cultura: notas para uma análise antropológica da so-
ciedade contemporânea. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.
Educação Especial
FONSECA, V. de. Educação Especial. Porto Alegre: Artes Médicas, 1987.
O Conceito de Indivíduo Saudável
WINNICOTT, D. W. O Conceito de Indivíduo Saudável. In: Tudo começa em casa.
São Paulo: Martins Fontes, 1967. p. 3-22.

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Referências
AJURIAGUERRA, J.; MARCELLI, D. Manual de Psicopatologia Infantil. Porto
Alegre: Artes Médicas, 1986.

CANGUILHEM, G. O normal e o patológico. 4.ed. Rio de Janeiro: Forense


Universitária, 1904.

BERGERET, J. A personalidade normal e patológica. 3. ed. Porto Alegre:


Artmed, 1996.

DELATORRE, Marina Zanella; SANTOS, Anelise Schaurich dos; DIAS, Hericka


Zogbi Jorge. O normal e o Patológico: Implicações e Desdobramentos no Desen-
volvimento Infantil. Revista Contexto & Saúde. Ijuí, v.10 n.20 jan/jun., 2011.

DOYLE, Iracy. Estudo da normalidade psicológica. Arq. Neuro-Psiquiatr., São


Paulo,, v.8, n.2, Apr./June, 1950.

DURKHEIM, E. As Regras do Método Sociológico. Série Os Pensadores. 2.ed.


Tradução de Carlos Alberto Ribeiro de Moura et al. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

FOUCAULT, M. Doença Mental e Psicologia. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo


Brasileiro, 1975.

WINNICOTT, D. W. A criança e seu mundo. Rio de Janeiro: Zahar, 1964.

WANDERLEY, Fabiana. Normalidade e patologia em educação especial. Psicol.


cienc. prof. Brasília, v.19, n.2, 1999.

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