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Psicologia da Saúde

Material Teórico
As Dimensões Subjetivas no Processo Saúde-Doença

Responsável pelo Conteúdo:


Profa. Dra. Carmen Conti

Revisão Textual:
Profa. Dra. Selma Aparecida Cesarin
As Dimensões Subjetivas no Processo
Saúde-Doença

• Introdução
• A Doença
• A Saúde
• A Dimensão Social do Processo Saúde-Doença
• A Perspectiva Biopsicossocial e os Aspectos Subjetivos
• Humanização, Cuidado e a Dimensão Subjetiva

OBJETIVO DE APRENDIZADO
· A partir das conceituações trabalhadas nas unidades anteriores, re-
tomando um pouco a saúde e a doença, compreender a perspectiva
Biopsicossocial da saúde e doença. Abordar a dimensão social do
processo saúde-doença. Se aproximar da concepção humanizadora,
sob uma perspectiva que leva em conta a dimensão subjetiva do
processo saúde-doença.
Orientações de estudo
Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem
aproveitado e haja uma maior aplicabilidade na sua
formação acadêmica e atuação profissional, siga
algumas recomendações básicas:
Conserve seu
material e local de
estudos sempre
organizados.
Aproveite as
Procure manter indicações
contato com seus de Material
colegas e tutores Complementar.
para trocar ideias!
Determine um Isso amplia a
horário fixo aprendizagem.
para estudar.

Mantenha o foco!
Evite se distrair com
as redes sociais.

Seja original!
Nunca plagie
trabalhos.

Não se esqueça
de se alimentar
Assim: e se manter
Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte hidratado.
da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e
horário fixos como o seu “momento do estudo”.

Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar, lembre-se de que uma


alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo.

No material de cada Unidade, há leituras indicadas. Entre elas: artigos científicos, livros, vídeos e
sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você também
encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua
interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados.

Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discussão,
pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato
com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e aprendizagem.
UNIDADE As Dimensões Subjetivas no Processo Saúde-Doença

Introdução
Ao longo das três primeiras unidades, trabalhamos com conceitos que pudessem
dar uma dimensão ampla do que seja a saúde, bem como da área da qual estamos
tratando nessa nossa disciplina. Em todo momento, a busca foi de integrar as
diferentes esferas da vida humana para compreendermos o escopo da saúde, em
suas múltiplas dimensões, e a partir de quais abordagens e metodologias a ciência
trabalha sobre ela.

Partimos de um olhar que prioriza o processo da saúde, com a promoção da


qualidade de vida, levando em conta os aspectos sociais, econômicos, culturais
e etc. de comunidades e indivíduos. E quando tratamos da doença, que também
é parte do processo da vida humana, trabalhamos desde uma perspectiva sobre
a qual gostaríamos de aprofundar neste capítulo. O objeto de nosso quarto capí-
tulo é a doença e a saúde como processo social e as dimensões que constituem
este processo.

Como vimos anteriormente, ao longo da história o processo de adoecimento e


cura vem sendo trabalhado à luz dos paradigmas que regem a saúde e a doença.
Com a revolução industrial, no século XVIII e as transformações profundas no
ambiente social e de trabalho promovidas neste período, e com os avanços tecno-
lógicos da microbiologia no século XIX, que passa a definir as causas para as do-
enças a partir do aspecto biológico predominantemente. Naquele momento a forte
influência do Positivismo, que se transforma com o passar dos séculos, ganhando
espaço nos séculos XX e XXI para o uso de tecnologias, uma preocupação maior
com controle de gastos e qualidade nesse processo.

Enfim, trata-se do surgimento de uma nova forma de ver o cuidado, como o


“acolhimento, acreditação hospitalar, humanização, e cuidado individualizado
e integral dentre outros. São fatores que possuem relação com a subjetividade
do sujeito, pois buscam laços entre aqueles que cuidam e os que são cuidados”.
(SILVA, 2006, p.3)

Vamos mergulhar no tema dessa unidade?

A Doença
Quando vivenciamos a condição da doença, ou nos deparamos com um ente
querido ou paciente em estado de enfermidade, o que nos alerta à sua situação
não é seu estado clínico, seus exames; ao menos não imediatamente. A vivência
da doença está vinculada diretamente às sensações e sentimentos causados àquela
pessoa, como o mal-estar, a tristeza, a fraqueza física, a impotência diante do limite
do próprio corpo.

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Poderíamos citar exemplos longamente. Para Brêtas e Gamba (2006), é a
expressão de sentimentos e valores que nos permitem a mediação com a doença
do outro, é através disso que a doença se expressa. A mesma doença acomete de
formas muito distintas pessoas diferentes, que lidam com a doença e sentem os
seus sintomas a partir de suas particularidades fisiológicas e subjetivas.
“O conhecimento clínico pretende balizar a aplicação apropriada do
conhecimento e da tecnologia, o que implica que seja formulado nesses
termos. No entanto, do ponto de vista do bem-estar individual e do
desempenho social, a percepção individual sobre a saúde é que conta
(EVANS; STODDART, 1990).” (OLIVEIRA; EGRY, 2000)

A Saúde
Diferentemente da doença, a saúde passa despercebida. É aquela velha história
de que percebemos o quanto estávamos bem quando ficamos tristes, ou adoecemos.
Enquanto estamos bem, a vida corre normalmente e nós não vertemos atenção a
isso, simplesmente vivemos. A atenção à saúde, se não é minuciosa e permanente,
perde de vista os pequenos sinais dados de incômodo do corpo, de que exageramos,
de que estamos indo além de nossos limites, ou ainda de que é hora de dar uma
pausa. Comumente, é na hora da doença em que a saúde vira pauta.
“A saúde é silenciosa. (...) É uma experiência de vida, vivenciada no âmago
do corpo individual. Ouvir o próprio corpo é uma boa estratégia para
assegurar a saúde com qualidade, pois não existe um limite preciso entre
a saúde e a doença, mas uma relação de reciprocidade entre ambas; entre
a normalidade e a patologia, na qual os mesmos fatores que permitem ao
homem viver (alimento, água, ar, clima, habitação, trabalho, tecnologia,
relações familiares e sociais) podem causar doenças. Essa relação é
demarcada pela forma de vida dos seres humanos, pelos determinantes
biológicos, psicológicos e sociais.” (VIANNA, s/d, p.77)

Não só entre os indivíduos o processo saúde-doença é vivenciado de forma


diferente e desigual, mas entre os diferentes povos, classes sociais, culturas, a
depender do lugar ocupado por estes na sociedade e no planeta. Pensem que
o aspecto geográfico também é um fator influente, para além destes citados,
comumente muito relacionados aos demais aspectos – vide salubridade (ou
insalubridade), condições de moradia, etc.

Para Canguilhem (apud BRÊTAS e GAMBA, 2006), a dimensão da saúde


é constituída partindo-se da dimensão da existência, do ser. O ser é onde se
manifestam a normalidade e a patologia, a saúde e a doença; é nele onde as
particularidades de cada processo vão encontrar morada e dizer quais os caminhos

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UNIDADE As Dimensões Subjetivas no Processo Saúde-Doença

a serem caminhados. O normal nesse caso, como já vimos em outras unidades,


não tem caráter estanque e, portanto, é necessário compreender que aquilo
que pode ser considerado normal em um indivíduo ou grupo social/cultura, não
necessariamente obtém o mesmo parâmetro em outros. As transformações sofridas
pelo corpo serão percebidas por cada um, decorrendo uma importância grande em
que o ser humano precise conhecer-se, aprender a avaliar essas transformações e
os sinais que elas manifestam. É em relação que este conhecimento e aprendizado
acontece. (VIANNA, s/d, p.77)

A saúde, desse modo, se apresenta como algo que o ser humano consome,
de certa forma administra – sem o controle total dela, obviamente, sendo que a
reversibilidade dos processos não é possível. Ainda que com resultantes de cura,
o corpo vai se transformando ao longo dos processos de saúde de doença, se
tornando sempre diferente daquele que era antes. (BRÊTAS e GAMBA, 2006)

A Dimensão Social do Processo


Saúde-Doença
Durante muito tempo na história da humanidade o processo de saúde-doença
foi compreendido e tratado apenas sob a perspectiva da “ausência da doença”.
Com a transformação dos paradigmas, novos conceitos dinamizaram a ideia da
vivência da saúde e da doença.
(...) é um processo social caracterizado pelas relações dos homens com a
natureza (meio ambiente, espaço, território) e com outros homens (através
do trabalho e das relações sociais, culturais e políticas) num determinado
espaço geográfico e num determinado tempo histórico. (TANCREDI;
BARRIOS; FERREIRA apud SILVA, 2006)

As dimensões fundamentais a serem apreendidas são a distinção entre saúde e


doença e a dimensão do bem-estar na compreensão do indivíduo e da sociedade
do que faz parte de uma vida saudável.

Para compreender a dimensão social do processo saúde-doença é impor-


tante percebê-lo como fenômeno humano, produzido e moldado em âmbito
social e determinado historicamente. Quais as características dos indivídu-
os que são formados neste ou em outros tempos históricos? Quais relações
produzem – entre humanos ou com a natureza - e em que isso implica no
entendimento e na práxis da vida e do bem-estar? As pesquisas empíricas
indicam uma relação estreita entre os processos sociais e os processos de saú-
de-doença, que caminham juntos. Isso não significa que o aspecto biológico
não tenha sua importância, mas que mesmo este anda integrado à dimensão
social. (BARBOSA e COSTA, 2013)

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Não temos exata clareza de como os processos sociais se transformam
em biológicos, ou o inverso, mas esta relação sem dúvida abre caminhos para
investigação. Podemos levar em conta a complexidade da relação entre saúde e
doenças e os processos de contradição social, compreendendo aspectos como a
vulnerabilidade, interação entre os grupos/indivíduos e seus meios histórico, de
ambiência, social, cultural.
“Desse modo, podemos aprofundar a compreensão de que qualquer
evento ou processo social, para representar uma fonte potencial de
risco para a saúde, necessita estar em ressonância com a estrutura
epidemiológica dos coletivos humanos. Não se trata exclusivamente
da ação externa de um elemento ambiental agressivo, nem da reação
internalizada de um hóspede susceptível, mas sim de um sistema
complexo (totalizado, interativo, processual) de efeitos patológicos.
E no arcabouço da proposta de influência dos determinantes sociais
na situação de saúde de indivíduos e populações está a necessidade
do combate às iniquidades em saúde por eles geradas”. (BARBOSA e
COSTA, 2013)

Iniquidade – Aquilo que é iníquo, contrário à equidade. A equidade define aquilo que
Explor

corresponde à necessidade e possibilidade de cada um. Uma espécie de divisão ou justiça


que dá a cada um o necessário e pede de cada um o possível. A iniquidade é o seu contrário.

A iniquidade tem múltiplas consequências e determinações, na medida em que


expõe à vulnerabilidade indivíduos, famílias e grupos sociais, muitas vezes vetando
o seu acesso à estruturas (aparatos ou instituições) que garantem o mínimo para a
reprodução material e imaterial da vida. Por exemplo, em uma sociedade desigual
como a que vivemos, sob a lógica do lucro e da mercantilização das relações huma-
nas, as pessoas pertencentes a classes sociais distintas têm possibilidade de acesso
a diferentes instrumentos que contribuem na promoção e desenvolvimento da vida
material e subjetiva. Também na saúde isso tem impacto, e produz diferentes efei-
tos no que entendemos por processo saúde-doença.

Isso porque também as políticas de saúde estão engendradas dos interesses e


da lógica do capital e da mercantilização, lógica da qual os aparelhos estatais não
estão livres, na medida em que atuam dentro de uma mesma sociedade. A distinção
social, portanto, gera diferentes padrões de saúde-doença, a partir de modos de vida
e recursos/acesso completamente distintos entre si, até mesmo entre indivíduos de
um mesmo país ou região.

Como conversamos já em outra unidade a respeito da atividade das equipes


neste processo, bem como nos conceitos de saúde e doença, além das abordagens
de diferentes linhas de pensamento, nesta unidade gostaríamos de abordar os
aspectos subjetivos do processo saúde-doença.

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UNIDADE As Dimensões Subjetivas no Processo Saúde-Doença

A Perspectiva Biopsicossocial
e os Aspectos Subjetivos
A perspectiva Biopsicossocial, ou da Produção Social de saúde, é fruto de uma
reforma sanitária no Brasil. Esta vertente abre diálogo entre o campo da saúde e a
subjetividade, sob a ótica da psicologia histórico-cultural.

Quais os preceitos da perspectiva Biopsicossocial?


a) O corpo como organismo psicológico, biológico e social, fontes a partir das
quais este é estimulado, responde e armazena significados, relacionando-
se a partir disso com o mundo, irradiando comportamentos que vivencia
e sintetiza.
b) A saúde e a doença são determinadas entre si – uma determina a outra –
a partir de variáveis biopsicossociais. Cada um desses aspectos interage
com os demais, produzindo uma condição de equilíbrio entre saúde
e doença.
c) O processo de cura para várias doenças deve considerar os três aspec-
tos citados (Biológico, Psicológico e Social) no diagnóstico, prevenção
e tratamento.
d) O estudo das causas e origens de uma doença sempre tem múltiplos
fatores, como os níveis etiopatogênicos.
e) Não existe uma só ação melhor para cuidar de pessoas doentes. As
ações integradas entre membros de uma equipe de saúde, coordenando
intervenções a partir de diferentes especialidades psicológicas, sociais e
biológicas fazem a melhor forma.
f) A responsabilidade pela saúde, desde a investigação até o tratamento
é de várias especialidades profissionais, e não apenas um grupo ou
especialidade médica.

A atuação junto à saúde, considerando os elementos apontados, encontra-se em


sua fase inicial de implementação, tendo em vista que demanda o amadurecimento
de equipes integradas e compostas por múltiplas especialidades das áreas que
compõem a perspectiva Biopsicossocial. (PEGORATO et al., 2011)

Quando da Constituição Brasileira de 1988, quando o Sistema Único de Saúde


(SUS) foi criado, várias transformações no projeto de saúde do país iniciaram seu
curso. A saúde, além de estabelecida constitucionalmente como direito universal
e inalienável, fundamental para a vida humana e para a reprodução da força de
trabalho, deveria ser garantida pelo Estado a fim de reduzir o risco de doenças e
agravos, bem como promover a recuperação e proteção de indivíduos e grupos
sociais sem qualquer tipo de distinção. (BRASIL, 1988).

O sistema de saúde foi organizado a partir da hierarquia entre os serviços, desde


os mais complexos aos menos, em composição piramidal.

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Trocando ideias...Importante!
Na verdade, esta hierarquização antecede a criação do SUS, sendo implantada pelo Con-
selho Consultivo da Administração de Saúde Previdenciária (Conasp) em 1982. O nível
primário de atenção, ou atenção básica, seria a porta de entrada ao sistema, responsável
pela prevenção e os cuidados básicos em saúde; o nível secundário de atenção consiste
na assistência especializada, nos ambulatórios de especialidades; e finalmente, o nível
terciário que responde pelas ações mais complexas na rede hospitalar.

Na próxima unidade trataremos mais do surgimento do SUS e de seu funciona-


mento. O que nos interessa neste momento é que a perspectiva Biopsicossocial no
Brasil estava na base do projeto deste sistema, considerando não só a universalidade
no atendimento, mas a atenção aos diferentes aspectos que determinam o processo
saúde-doença, como viemos tratando aqui. A reforma que dá origem ao SUS – que
posteriormente tem dificuldades estruturais e na formação de equipes integradas
para a atuação – estabelece o acompanhamento familiar e cotidiano das famílias na
prevenção de doenças, no acompanhamento e integração das equipes às comunida-
des para produzir conhecimento coletivamente e atuar em saúde de forma educativa.

Esta perspectiva está diretamente ligada à forma como as equipes de trabalho


são constituídas e atuam. No caso do SUS a formação de recursos humanos está
prevista pela mesma Constituição de 1988.
“(...) a eficiência de um sistema de saúde está diretamente relacionada
ao desempenho dos profissionais que o constituem. Cada vez mais, os
países da região das Américas constatam que muitos problemas dos
seus sistemas de serviços de saúde, como a iniquidade ao acesso aos
serviços, o descuido com a saúde coletiva e as dificuldades na gestão,
estão relacionados aos recursos humanos em saúde. Conclui-se que,
sem mudanças nas ações e na formação dos profissionais de saúde,
qualquer tentativa de reforma não produz efeitos, ou mesmo, produz
efeitos contrários.” (PEGORARO et al., 2011)

Figura 1 - Profissionais das áreas psicológica, social e biológica


atuando em equipe junto a uma comunidade
Fonte: iStock/Getty Images

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UNIDADE As Dimensões Subjetivas no Processo Saúde-Doença

Humanização, Cuidado e a
Dimensão Subjetiva
A formação dos profissionais que vão atuar em equipe, sob a perspectiva
Biopsicossocial no processo saúde-doença é fundamental, na medida em que
determina que sob tipo de abordagem estes profissionais vão atuar, se conseguirão
integrar-se a outros profissionais e dividir com eles o trabalho de atendimento e
acompanhamento. Para tanto, a estruturação curricular dos cursos de saúde desde
essa perspectiva é fundamental, bem como uma ideia de formação continuada.
(ALMEIDA e FERRAZ apud PEREIRA, 2011)

O eixo que norteia essas transformações, atualmente, vê o profissional da saúde


como cuidador e protagonista das práticas em saúde. Ao invés de tutelar, ele
acompanha e acolhe, cuida.

Você Sabia? Importante!

Existe hoje um projeto para as políticas públicas desde esta perspectiva, chamada
Política Nacional de Humanização (PNH), conhecida também como HumanizaSUS
(BRASIL, 2004). Trata-se de um planejamento para o alcance de maior qualificação dos
profissionais para a atenção aos processos de saúde-doença. Atua a partir de um projeto
de corresponsabilidade, qualificação dos vínculos interprofissionais, e destes na relação
com os usuários para promover saúde (DIMENSTEIN apud PEGORARO, 2011).
Para saber mais, acesse: https://goo.gl/MAbGP9

Ao falar em humanização, podemos entender que trata-se do resgate da di-


mensão humana e da subjetividade como elementos fundamentais no acompanha-
mento e promoção da saúde. Não é possível pensar o processo saúde-doença sem
abranger as emoções humanas, a dimensão subjetiva e os afetos. Isso acontece
porque, na medida em que boa parte do que nos faz humanos – e que portanto
reflete em nosso organismo celular, biológico, material – diz respeito à esfera sim-
bólica, subjetiva, que constitui as experiências que produzem as relações humanas
em vários âmbitos. Aqui está parte da multideterminação e integração mútua entre
as esferas sociais, psicológicas e biológicas das quais falamos.
“Nessa direção, diversos autores, estudiosos do fazer em saúde, definem
o papel do profissional de saúde no paradigma sanitário atual como
cuidador, que implica a substituição do termo tratar pelo cuidar, no
qual tratar pressupõe um diagnóstico e cuidar tornaria possível uma
visão ampliada do sujeito alvo dos cuidados (AYRES, 2001; MANDÚ,
2004; PEGORARO; CALDANA, 2007; ZOBOLI, 2004). Esses autores
enfatizam o caráter essencialmente relacional deste cuidado, privilegiando-
se a produção de sentidos resultante do encontro de subjetividades
(AYRES, 2001; MANDÚ, 2004), e considerando quem se apresenta para

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ser cuidado como um ser único, que tem uma história, uma visão de
mundo, uma maneira de entender, sentir, se relacionar e se expressar,
inclusive suas dores. Nessa concepção, a rede de interações e significados
a ela atribuídos é constituinte de identidades e construtora de saberes,
sentidos e olhares sobre a saúde e o adoecer. Também nesta concepção, a
subjetividade torna-se alvo de investimento e transformação do cuidado.”
(PEGORARO et al, 2011)

A subjetividade como chave importante deste processo, nos permite tratar da


emocionalidade como caminho para aprofundar a produção de outros sentidos
para a prática do cuidado. É na interação afetiva e nas relações onde a vida
psíquica e novos sistemas se integram na formação da subjetividade humana,
parte fundamental do que constitui a saúde, em perspectiva biopsicossocial.
Dessa forma, pautamos como necessário o desenvolvimento do olhar sobre si e
sobre o outro, do seu espaço no mundo e também o do outro, compreendendo
o que consiste saúde-doença (em mesmo processo), bem-estar, qualidade de
vida e autonomia. O conhecimento de si, e porque não dizer, também do outro,
desenvolve o olhar sobre a doença e permite a construção de um caminho de vida
saudável. (MANDÚ, 2004)
Dessa maneira, o encontro entre o profissional e o usuário no atendimento
envolve a escuta compartilhada de si mesmos, sempre se refletindo em
ambos. Esse encontro de subjetividades constitui um poderoso instrumento
que pode contribuir para a emancipação dos sujeitos alvo de cuidados e
possibilitar uma participação mais ativa destes na produção de sua saúde,
como também um maior protagonismo em relação a aspectos pessoais e
sociais. (PEGORARO et al., 2011)

Straus (2014), estudioso com formação em psicologia positiva, aborda sobre o poder
da situação social. Segundo o autor, “para muitos adolescentes (assim com adultos
jovens), os comportamentos de saúde costumam ser reações a situações sociais, em
vez de situações planejadas racionalmente. Eles bebem porque seus amigos bebem,
não porque tenham tomado uma decisão consciente de que gostam de álcool.”

Nesse mesmo estudo, aborda o modelo transteórico, ou seja a teoria de estágios


muito utilizada que afirma a passagem das pessoas por cinco estágios quando
tentam mudar de comportamentos relacionados com a saúde: pré-contemplação;
contemplação; preparação; ação e manutenção.

Na próxima unidade estudaremos um pouco sobre boas práticas em saúde, bem


como algo da formação do SUS e de como os conceitos que trabalhamos até então
se aplicam a esta experiência e às políticas públicas em saúde no Brasil. Esperamos
que tenha feito bom proveito do estudo da unidade. Não se esqueça de fazer as
atividades e se atentar aos prazos.

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UNIDADE As Dimensões Subjetivas no Processo Saúde-Doença

Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:

  Sites
Physis: Revista de Saúde Coletiva
BUSS, PM; PELLEGRINI FILHO, A. A saúde e seus determinantes sociais. Physis
[periódico na internet] 2007
Disponível em: https://goo.gl/WeSEuS

 Livros
Determinação social da saúde
BARBOSA, IR.; COSTA, IC. Determinação social da saúde. In: Proposição para o
Debate. 1º Simpósio de Políticas e Saúde do Cebes; Niterói: 2009.
La salud-enfermedad como proceso social
LAURELL, AC. La salud-enfermedad como proceso social. Revista Latinoamericana
de Salud. 1982; 2:7-25.

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Referências
AYRES, J.R.C.M. Sujeito, intersubjetividade e práticas em saúde. Ciência e
Saúde Coletiva, v. 6, n. 1, p. 63-72, 2001.

SILVA, J.L.L. O processo saúde-doença e sua importância para a promoção


da saúde. Informe-se em promoção da saúde, v.2, n.1. p.03-05. UFF, 2006.

VIANNA, L.A.C. Módulo político gestor: Especialização em saúde da família.

BARBOSA, I.R.; COSTA, I.C.C. A determinação social no processo de


adoecimento no contexto das populações negligenciadas [Internet]. Recife (PE):
Portal DSS-Nordeste; 2013 Mar 27. Disponível em: http://dssbr.org/site/
opinioes/a-determinacao-social-no-processo-de-adoecimento-no-contexto-das-
populacoes-negligenciadas/

BERLINGUER, G. A doença. In: BRÊTAS, A.C.P.; GAMBA, M.A. Enfermagem


e saúde do adulto. Barueri: Manole, 2006.

BRASIL Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Projeto Promoção


da Saúde. Distritos sanitários: concepção e organização o conceito de saúde e do
processo saúde-doença. Brasília. Ministério da Saúde, 1988.

BRASIL. Ministério da Saúde. Humaniza SUS: a clínica ampliada. Núcleo Técnico


da Política Nacional de Humanização. Ministério da Saúde: Brasília, 2004.

BRÊTAS, A.C.P.; GAMBA, M.A. Enfermagem e saúde do adulto. Barueri:


Manole, 2006.

EVANS, R.G.; STODDART G.L. Producing health, consuming health care. In:
Evans R.G., Barer M.L., Marmor, T. R., editors. Why are people healthy and
others not: the determinants of health of populations. p. 41-64. New York:
Walter de Gruyter, 1994.

MANDÚ, E.N.T. Intersubjetividade na qualificação do cuidado em saúde. Revista


Latino-Americana de Enfermagem, v. 12, n. 4, p. 665-675, 2004.

OLIVEIRA, M.A.C.; EGRY, E.Y. A historicidade das teorias interpretativas do


processo saúde-doença. Rev. Esc. Enf. USP, São Paulo, v. 34, n. 1, jan. 2000.

PEGORARO, R.F.; CALDANA, R.H.L. Sofrimento psíquico em familiares de


usuários de um Centro de Atenção Psicossocial. Interface – Comunicação,
Saúde, Educação, v. 12, n. 25, p. 295-307, 2008.

SENI, TTSOP; BARROS, MNS; AUGUSTO, MCNA. O cuidado em saúde: o


paradigma biopsicossocial e a subjetividade em foco. Mental vol.9 no.17 Barbacena:
dez. 2011.

ZOBOLI, E.L.C.P. A redescoberta da ética do cuidado: o foco e a ênfase nas relações.


Revista da Escola de Enfermagem da USP, v. 38, n. 1, p. 21-27, 2004.

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