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RICUPERO, Bernardo. O romantismo e a ideia de nação no Brasil (1830-1870).

São
Paulo: Martins Fontes, 2004.

Introdução

 Os autores ligados ao romantismo no Brasil, no período que se seguiu ao processo de


independência da antiga metrópole portuguesa – marcadamente entre 1830 e 1870 –
tiveram como um de seus projetos fundantes a investigação sobre as características
nacionais do novo país. Esta característica da busca por questões de identidade
nacional - que não é exclusiva do Brasil, mas tem suas bases relacionadas ao
romantismo francês e fundamenta todas as discussões contemporâneas aos processos
de independência nos países da América Latina -, embasou a escrita de textos que
exaltassem os aspectos relacionados à nação em construção.
 “De qualquer forma, o Estado não estará consolidado enquanto não existir nação, já
que não poderá contar com a lealdade de seus cidadãos. Em outras palavras, a
hegemonia, para ser segura, para ser completa, não pode limitar-se apenas à
dominação, precisa também funcionar como direção intelectual e moral” p. XXIII.
 “Pretendemos avaliar, numa perspectiva de longa duração, que ideia de nação
começou a formar-se no Brasil num determinado período de nossa história. Mais
especificamente, na época em torno de 1830 e 1870, que se seguiu ao imediato pós-
independência” p. XXV.
 “Elabora-se, dessa forma, entre 1830 e 1870, um dialeto político-cultural (o
romantismo) que pretende realizar a emancipação mental dos países do continente”
p. XXV.
 Enquanto o romantismo europeu teve como fator fundamental uma crítica ao
capitalismo (no sentido de uma vida que se tornava mais societária e deixava de ser
comunitária), na América Latina este sistema econômico quase não existia e era visto
com bons olhos pelos intelectuais da região.
 A busca pela emancipação mental da ex-colônia no Brasil não se deu com ruptura,
como ocorreu com os demais países sul americanos. Aspectos da colonização, como
a elevação em 1815 do Brasil à condição de reino, junto a Portugal e Algarve, e a
continuidade com a linhagem portuguesa que se deu no Império, contam para essa
relação dos românticos brasileiros com as suas origens neoclássicas. O contrário
ocorre, por exemplo, na Argentina.

A nação como problema

 “De maneira mais ampla, é possível considerar que, assim como a religião foi uma
das principais formas encontradas em sociedades tradicionais para estabelecer
identidades, o nacionalismo pode assumir papel semelhante em sociedades
modernas.
Mais especificamente, a nação expressa um anseio pela permanência de laços
comunitários num contexto histórico em que prevalecem amplamente relações de
tipo societário” p. 9.
 “É possível mesmo considerar que, entre o Estado e a sociedade civil, estabelece-se
a nação como mediação ideológica que dá aos homens e mulheres a impressão de
pertencerem a uma comunidade política maior” p. 9.
 Gramsci, com o conceito de hegemonia, foi o autor marxista que melhor pensou a
relação entre Estado e sociedade civil.
 “Em poucas palavras, a identidade nacional é uma construção política e cultural que
não possui realidade objetiva fixa. Complementariamente, determinadas relações
sociais estabelecem o ambiente que torna possível pensá-las. A partir daí, por
intermédio de variadas operações ideológicas, homens e mulheres, em situações
muito diversas, passam a acreditar que estão unidos numa mesma comunidade, a
nação” p. 26.
 “Já que a nação não é algo dado, natural, ela terá que ser construída. Quem procura
fazer isso, como projeto deliberado, são certos homens, os românticos, que, na
Europa e na América, criam os símbolos do que passará a ser conhecido como
constituindo nações. Prova do sucesso relativo dos românticos não está só nas
identidades nacionais que se formaram com o tempo, mas na ausência dessas
identidades anteriormente” p. 37.

Independência literária
 “Em nossa vida intelectual, poucas vezes insistiu-se tanto na necessidade de afirmar-
se a particularidade brasileira como durante o período de predomínio das ideias
românticas. Não por acaso, o romantismo brasileiro teve como cenário histórico os
anos posteriores à independência. Assim, a tarefa que impunha aos homens da época
era praticamente a de completar a obra de emancipação política, dotando a nação em
constituição de maior autonomia cultural. Nesse esforço, os brasileiros encontraram
no romantismo europeu – reação à universalidade da Ilustração, obcecado com as
especificidades nacionais – amplo repertório de referências para a busca da sua
emancipação mental” p. 85.
 A historiografia sobre a literatura brasileira e a discussão sobre o romantismo passa
a circular em revistas como Niterói (1836) Minerva Brasileira (1843), Guanabara
(1849).
 “Na verdade, a identidade nacional está relacionada com a independência, mas não
coincide inteiramente com ela. Isto é, o processo de autonomização de interesses e
estilos de vida entre americanos e europeus começa na colônia, ganha impulso com
a emancipação política, mas não se encerra com ela.
Em outras palavras, a criação de uma literatura e de uma nação é sempre um ato
com um certo grau de arbitrariedade, fruto, para parafrasear Antonio Candido, da
vontade de alguns homens, mas que precisa também encontrar base material e social
na realidade” p. 111.

No passado, as bases da nação

 “No esforço de estabelecer referências para a nação brasileira a história tem papel
central. Na verdade, o passado, reconstruído intelectualmente, é, de maneira geral,
uma importante fonte de legitimação para o poder político e a ordem social
existente. Basicamente, seleciona-se entre os acontecimentos e as estruturas do
passado aquilo que pode dar suporte a uma narrativa que dote de significado a
experiência da comunidade nacional” p. 114.
 “Não por acaso, a maior parte da historiografia brasileira do século XIX, assim
como a latino-americana, é, nesse momento, de construção nacional, laudatória.
Encara como sua tarefa a busca, na história, de legitimação do Brasil como entidade
separada de Portugal e com organização política baseada no Rio de Janeiro.
Complementariamente, elabora uma imagem da nação brasileira como formada pela
relação harmônica entre brancos, índios e negros” p. 114.
 “Além do mais, durante o período romântico a historiografia brasileira se
transforma. O marco principal dessa mudança será a fundação do Instituto Histórico
e Geográfico Brasileiro (IHGB), em 21 de outubro de 1838. A partir de então os
historiadores se preocuparão em balizar seus trabalhos pela utilização de
documentos originais, realizando pesquisas, mais ou menos rigorosas, que vão
ocupando o lugar dos escritos dispersos dos cronistas coloniais” p. 114-115.
 “De maneira mais ampla, a historiografia que surge do IHGB reflete uma nova
concepção de história, ligada ao fim do Antigo Regime” p. 114.
 Relação do IHGB com o projeto conservador do Império.