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A Escola dos Annales: legados historiográficos de três gerações

(1929-1989)
A proposta deste texto é realizar algumas considerações sobre o papel e a
importância da chamada "Escola dos Annales" para a cultura historiográfica do século
XX e nestes idos do século XXI, pois embora a chamada Quarta Geração, não possua
o mesmo impacto paradigmático das gerações anteriores, ainda sim, a influência
dessas três gerações são sentidas nos dias de hoje, principalmente da terceira em
aspecto de estudos culturais, e nas duas primeiras em aspectos de estudos sociais e
teóricos.

Nesse texto procurei apresentar um pouco da história do surgimento


da Revue Annales d'historie économique et sociales (Revista dos Anais de
história econômica e social), mais conhecida como revista dos Annales. Assim como
falar sobre os principais historiadores que representaram essa revista e a
contribuição metodológica e teórica para a historiografia do século XX.

INTRODUÇÃO:

Para compreendermos os motivos que levaram os historiadores franceses Marc


Léopold Benjamin Bloch (1886-1944) e Lucien Paul Victor Febvre (1878-1956)
a se unirem para criar uma revista de história a fim de publicar suas ideias e
propostas teóricas, devemos conhecer o contexto da cultura histórica e da cultura
historiográfica vigentes na França no final do século XIX e no começo do século XX,
aspectos estes que marcaram o desenvolvimento teórico e metodológico destes dois
historiadores. Na França dos anos 20, a influência
do Positivismo, da "Escola Metódica" e doHistoricismo ainda vigoravam.

Auguste Comte
O Positivismo foi concebido pelo filósofo e sociólogo francês,Auguste Comte (1798-
1857), consistindo numa doutrina filosófica, sociológica e política que ao longo da
História tomou novos conceitos e sentidos. Daí ser recomendável usar Positivismo
Comteano para se referir a doutrina original, pois hoje existem várias formas de
Positivismo, e nem todas são iguais ao conceito original. Mas, na sua origem, Comte
concebia o positivismo como uma doutrina que se opunha ao racionalismo
cartesiano, ao idealismo, as explicações teológicas e metafísicas. Para ele, o
mundo deveria ser explicado através do sentidos e do que era palpável, logo, a ideia
de racionalismo deRené Descartes, que considerava a razão acima da própria
realidade, e que o conhecimento era nato, não era vista como fundamento empírico
por Comte, assim como, o fato de você atribuir causas a questões divinas e
metafísicas, que estariam relacionadas a vontade de Deus. Comte privilegiava o
conhecimento empírico, assim como Francis Bacon havia escrito no começo do
século XVII. Ao mesmo tempo, sua doutrina visava construir um modelo de ética,
para o trabalho científico, e até mesmo para a convivência em sociedade.

"O positivismo foi considerado por Augusto Comte como a base e o fundamento
metodológico de uma nova ciência social, a 'física social' ou 'sociologia'. Mais tarde,
o positivismo foi concebido por Comte como uma nova religião da humanidade".
(Grande Enciclopédia Larousse Cultural, 1998, p. 4736).

Para Comte a humanidade deveria cada vez mais, buscar a razão e o conhecimento
científico, evitando explicações teológicas e metafísicas, as quais ele via como
crendices e superstições de mentes ignorantes. A ciência seria a explicação para o
mundo e o universo. Tais ideias foram bastante fortes no século XIX, a ponto de
influenciar o meio acadêmico da época, e no caso da história não foi diferente.

Leopold von Ranke


Na Alemanha um historiador chamado Leopold von Ranke (1795-1886)
influenciado por algumas das características do positivismo comteano, começou a
questionar a forma de como a História vinha sendo estudada, pesquisada e escrita.
Ranke ficaria conhecido como o "Pai da história moderna" ou o "Pai da história
científica". Ranke tinha a preocupação de contar a história da forma mais próxima da
realidade que ela foi, algo que ficou conhecido comoHistoricismo.

"O que era novo sobre a abordagem historicista era sua generalização de que a
atmosfera e a mentalidade das eras passadas tinham que ser também reconstruídas,
pois só assim o registro formal dos eventos teria qualquer significado". (TOSH, 2011,
p. 22).
Um dos problemas que o historicismo apresentou, foi seu forte conservadorismo em
se tratar da história política nacional, algo que inibiu o desenvolvimento da
historiografia pelo restante do século, pois mesmo a história cultural, a história social
e econômica que já existiam no século XIX, não tinham muito espaço no meio
acadêmico, fortemente historicista, e posteriormente metodista e positivista,
metodologias que possuíam em comum essa tentativa de se "resgatar o passado" ou
se "refazer o passado".

Para Ranke, a história deveria ser melhor analisada através dos


documentos, de forma a se evitar enganos e identificar fraudes
documentais. Sua formação em filologia contribuiu para isso. Não
obstante, sua ideia de cientificidade, tentava aproximar a história das
ciências exatas, uma pretensão de encontrar exatidão no saber
histórico, daí a referência de se escrever uma "história universal", ideia
que esteve em alta no século XIX.

O problema disso é que o passado por si só não é História, a História


não chega ao historiador já pronta e finalizada nos documentos, como
os positivistas e metódicos acreditavam. A História consiste numa
reunião de fragmentos do passado (Certeau, 2009; Chartier, 2009),
um discurso que representa o passado. Nesse aspecto, o historiador
hoje, busca representar o passado, mas não reconstruí-lo ou refazê-
lo, pois isso é impossível. O passado é um grande quebra-cabeça, e
nem todas as peças foram encontradas e algumas talvez nunca serão
achadas. Tentar contar a História plenamente como Ranke propunha,
é uma questão impossível.

Mas se por um lado o historicismo sofreu duras críticas no começo do século XX,
especialmente pelos franceses e ingleses, não significa que Ranke não tivera em o
que contribuir. Ranke chegou a escrever mais de 60 livros, embora muitos não são
tão conhecidos e alguns até raros de se encontrar hoje, mas como Holanda [1979]
dissera, sua principal contribuição não se encontra na forma de se entender a História
e pensar sobre ela, mas sim na metodologia de como se estudá-la.

"Foi ele quem criou para os estudos históricos o sistema dos seminários, que aos
poucos iriam proliferar em outros países Ao mesmo tempo desenvolveu recursos de
pesquisa e crítica das fontes, adaptando para isso, à História, processos já em uso,
antes dele, entre filólogos e exegetas da Bíblia. (HOLANDA, 1979, p. 16).

Ranke defendia a cientificidade da História, embora não negasse que a historiografia


(escrita da história) tivesse uma proximidade com a Literatura, devido a narrativa
histórica, para ele a influência da linguagem romanceada deveria ser deixada de lado.
Tal aspecto se fez como uma crítica a outros historiadores da época que eram
influenciados pelo movimento artístico, político e filosófico doRomantismo, como foi
o caso do historiador e filósofo francês, Jules Michelet (1798-1846).

Contudo, embora sua defesa de uma "historia ciência" e de um "método mais eficaz"
para se escolher as fontes, analisá-las e desenvolver a crítica documental, sua
tendência em se privilegiar a história política, foi um dos principais motivos de crítica
ao seu trabalho, embora que é inegável que o historicismo esteve em alta na
Alemanha e França no final do século XIX e começo do XX, tornando-se uma área
dominante, e um dos principais motivos de crítica que Bloch e Febvre viriam fazer
com sua revista futuramente.
Unindo-se as ideias comtianas sobre o positivismo e o método de
pesquisa de Ranke, surgiu na Alemanha um grupo de historiadores que
passaram a serem chamados de metódicos. Ranke se tornou um dos
principais expoentes dessa cultura historiográfica na Alemanha.

"A escola metódica é criada “em torno de um axioma, o da história como “ciência
positiva” (DOSSE, 2003ª, p. 39-40), fugindo do subjetivismo em nome da ciência e
do respeito à verdade. Estes historiadores metódicos afirmavam, através de suas
revistas não serem defensores de nenhum credo dogmático e que apenas buscavam
o máximo possível de exatidão para com as fontes". (FARIAS;FONSECA;ROIZ,
2006, p. 121).

"O primeiro objetivo, deste movimento, era o de delinear maneiras claras na


abordagem documental (métodos), para os historiadores profissionais. O historiador
deveria estar ciente de que pertencia a uma comunidade de profissionais que zela
pela objetividade, e que seu papel era apresentar seus escritos sem qualquer traço
da estética literária; um discurso frio, duro e sem qualquer resquício das “paixões”
pessoais do historiador; ele deveria somente descrever o que está objetivamente
contido na fonte, deixando o que há de subjetivo nela. O historiador deveria rechaçar
qualquer precipitação imaginativa: “o ponto de partida do ofício de historiador
envolvia pesquisar documentos, reuni-los, classificá-los e, com o amparo das
chamadas ‘ciências auxiliares’ da história, proceder à crítica externa, especialmente
sobre a origem das fontes; em seguida passar à crítica interna visando à
determinação dos fatos para, finalmente, coroar com a construção narrativa,
agrupando e ordenando os fatos numa seqüência de causalidades” (SILVA, 2001, p.
196)". (FARIAS;FONSECA;ROIZ, 2006, p. 121-122).

Na França, tivemos dois notórios historiadores metodistas,Charles-Victor


Langlois (1863-1929) e Charles Seignobos(1854-1942), proeminentes
doutores da Universidade de Sorbonne, o qual era então o centro dos
estudos de história e da formação de historiadores em França. Os dois
são bastante lembrados por seu livro Introdução aos estudos
históricos(1898), onde eles repensaram a metodologia da "Escola
Metódica". Obra essa que se tornou de leitura obrigatória nos cursos
de história na França. Tal fato levou Bloch e Febvre a chegarem ler tal
livro. "Este famoso livro é tido como principal manual dos cultores desta História,
por expressar o “pensamento metódico ao explorar em detalhes os procedimentos
para a coleta de fontes, operações analíticas, críticas interna e externa de
documentos, defendendo a compreensão do particular e do circunscrito para se
chegar a conhecer o específico da história” (JANOTTI, 2005, p. 12). Apesar, dessa
tênue “flexibilidade”, o manual manteve ileso os aspectos essenciais, principalmente,
no trato do subjetivismo, não o negando em momento algum". (FARIAS; FONSECA;
ROIZ, 2006, p. 122).

Gabriel Monod
Outro importante metodista francês, foi o historiador Gabriel Monod (1844-1912)
lembrado entre algumas de suas obras, por ter criado a Revue historique(Revista
histórica ou Revista de história) em 1904. Monod foi um árduo defensor da
profissionalização do historiador, pois no século XIX e começo do XX, vários
historiadores amadores escreviam sobre história. Monod foi mais conservador e
menos flexível que Langlois e Seignobos acerca do metodismo. Para ele apenas os
historiadores deveriam escrever a História, e essa escrita deveria ser isenta de
qualquer influência literária e passional. Neste sentido, ele alegava que alguns temas
só deveriam ser tratados muitos anos depois, para se evitar que as "paixões" do
historiador interferissem em seu julgamento.

"A grandeza do historiador estava na capacidade de controlar sua subjetividade.


Segundo François Dosse, “o ‘bom historiador’ metódico é(era) reconhecível por seu
amor ao trabalho, sua modéstia e critérios incontestáveis de seu julgamento
científico”, rejeitando o que “Langlois e Seignobos chama[vam] de ‘a retórica’ e as
aparências ou ‘micróbios literários’ que poluem o discurso histórico culto” (DOSSE,
2003ª, p. 38-41). Mas como fugir da sombra da subjetividade que tanto persegue o
historiador? Convém lembrar que os processos imprescindíveis da “crítica externa” e
da “crítica interna”, supramencionados, encontravam-se na obra Introdução aos
Estudos Históricos, e essa foi a resposta dos autores a esta indagação. O
subjetivismo estaria contido na fonte, bastaria então que o historiador virtuoso o
controlasse, e, se possível, o ocultasse. Para estes autores “a história tinha como
objetivo descrever por meio de documentos as sociedades passadas e
suas metamorfoses". (FARIAS;FONSECA;ROIZ, 2006, p. 122).

Por essa perspectiva, os metódicos defendiam que a História deveria apenas ser
escrita e ensinada por historiadores, estando recluso o seu debate ao meio
acadêmico. Essa questão é importante a ser mencionada, pois na França antes de
1870 não havia um Curso de História regular nas universidades.

No ensino fundamental e médio, a História teria um papel de doutrinação


nacionalista. Em 1815 o ensino de história começou a se tornar regular nas escolas,
especificamente para o ensino médio ou no caso da época, os períodos chamados
de seconde, premiére e terminale. No ensino fundamental, especialmente a fase que
compreendia o que hoje chamamos de sexta, sétima, oitava e nona série, o ensino
de história na regular. Em 1864 durante a Segunda República Francesa, o Estado
começou a cobrar o ensino da História na oitava série, chamada na época
de quatrième. No final do século, o governo francês começou a propor a criação de
cursos de pós-graduação para várias disciplinas, o que incluía a história.

Em 1878 a Universidade de Paris-Sorbonne só possuía duas cátedras


(disciplinas) em História e mesmo assim tais disciplinas eram realizadas no
Departamento de Geografia. Em 1912, o número de cátedras subiu para 12 e dois
anos depois já eram 55, o que levou a criação de um Departamento de História. Ao
longo do século XIX a história nas universidades era ensinada nos cursos de Letras
ou Geografia. A partir de 1880 com a criação do agregátion para o ensino superior,
vários historiadores do ensino fundamental e médio, começaram a fazer essas provas
para ingressar nas universidades. Mas, além de historiadores, outros estudiosos de
outras áreas também fizeram tal prova para o cargo de professor de história, pois a
profissão de historiador como apontara Prost (2008, p. 34-35) ainda não era
regularizada na França Oitocentista.

Além da questão de tentar transformar a História numa ciência "exata",


e deliberar que a escrita e a pesquisa da mesma fosse feita apenas por
profissionais. A "Escola Metódica" e o pensamento positivista
comteano, também refletiam no aspecto que a "história presente"
deveria ser posta de lado, pois devido a brevidade dos acontecimentos,
e dependendo da sua ordem, isso poderia influenciar no seu estudo.
Os metódicos falavam que o historiador que escrevia sobre a "história
presente", estava sob a influência de "ideias" ou "paixões" que
poderiam afetar sua imparcialidade e juízo de valores. Pelo fato do
historicismo ser a principal área de estudo nessa época, falar sobre
política sempre foi algo polêmico, logo, recomendava-se que tais
assuntos fossem postos de lado, e se espera-se o tempo passar, para
se "apagar" eventuais "paixões" sobre estas causas. Tal repercute
quando vemos que a maioria dos historiadores dessa época estudavam
a Antiguidade, o Medievo e a Modernidade, limitando-se
a Contemporaneidade a pelo menos uns 30 anos antes da data que
estavam vivendo.

O pensamento metódico de certo modo contribuiu para essa necessidade de se


melhorar o ensino de História na França e a formação acadêmica dos historiadores.
O Estado francês tomou como exemplo o modelo alemão, o qual até então era o
melhor em termos universitários da época. Assim de 1870 a 1930, a influência da
"Escola Metódica" e do historicismo foram preponderantes na formação acadêmica e
escolar francesa.

PRIMEIRA GERAÇÃO (1929-1946)

"A primeira geração, liderada por Marc Bloch e Lucien Febvre, compreende o período
entre 1929 e 1946. É marcada por alianças entre história, economia, sociologia,
geografia e demografia, pelos conceitos de compressão, história-problema, história
global e pelo trabalho de superação dos princípios que regiam a história tradicional
como a história política e a história dos eventos". (PORTO, 2010, p. 133).

Os fundadores:

Se na introdução conhecemos a cultura historiográfica vigente na França em fins do


XIX e começo do XX, passamos para conhecer um pouco da formação dos fundadores
dos Annales.

"O movimento dos Annales, em sua primeira geração, contou com dois líderes:
Lucien Febvre, um especialista no século XVI, e o medievalista Marc Bloch. Embora
fossem muito parecidos na maneira de abordar os problemas da história, diferiam
bastante em seu comportamento. Febvre, oito anos mais velho, era expansivo,
veemente e combativo, com uma tendência a zangar-se quando contrariado por
seus colegas; Bloch, ao contrário, era sereno, irônico e lacônico, demonstrando um
amor quase inglês por qualificações e juízos reticentes. Apesar, ou por causa dessas
diferenças, trabalharam juntos durante vinte anos entre as duas guerras". (BURKE,
1992, p. 28).
Marc Bloch
Marc Léopold Benjamin Bloch nasceu em 6 de julho de 1886 em Lyon, sendo filho
de Gustave Bloch(1848-1923) o qual também foi um historiador, sendo
especializado em Idade Antiga e Idade Média. Marc ingressou no Liceu Louis-le-
Grand, e em 1904 passou para a Escola Normal Superior de Paris, onde quatro
anos depois, prestou o agregátion, e foi aprovado como professor de história e
geografia. Viajou por um breve tempo a Berlim e Leipzig, até que foi aprovado em
1909 na Fundação Thiers, onde estudou por quatro anos como bolsista. Atuou
como professor de história no ensino médio até a eclosão da Primeira Guerra
Mundial (1914-1918), Bloch foi convocado a servir o país, atuando na infantaria,
onde recebeu as patentes de sargento, tenente e capitão. Liderou tropas, foi ferido
em batalha, e também ganhou duas honrarias: a Legião de Honra e a Cruz Militar.
Em 1919 casou-se com Simone Vidal, com quem teve seis filhos. No mesmo ano
foi aceito para se tornar professor de história na Universidade de Estrasburgo.
Mudou-se com a família para essa importante cidade no leste da França, próximo a
fronteira com a Alemanha.

Bloch se especializou em história medieval, tornando-se um


respeitado medievalista em seu tempo. Em 1924 publicou Os reis
taumaturgos (Les rois thaumaturges: Étude sur le caractère surnaturel attribué à
la puissance royale particulièrement en France et en Angleterre). Tal livro foi bem
peculiar para a época, pois Bloch abordou crendices populares ligadas a ideia do
"toque de cura dos reis", pois entre a Idade Média e a Idade Moderna, havia a
crendice em França e Inglaterra que os reis possuíam dons de cura.

"Em segundo lugar, o livro era uma contribuição ao que Bloch denominava “psicologia
religiosa”. O núcleo central do estudo era a história dos milagres e concluía com
uma discussão explicita do problema de como explicar que o povo pudesse acreditar
em tais “ilusões coletivas” (Idem, p. 420 ss). Observou ainda que alguns doentes
retornavam para serem tocados uma segunda vez, o que sugere que sabiam ter o
tratamento fracassado, mas que o fato não destruía sua fé". (BURKE, 1992, p. 37).

Uma edição de Os reis taumaturgos, prefaciada por Jacques Le Goff.


"Um terceiro aspecto que enfatiza a importância do estudo de Bloch é o que seu autor
chama de “história comparativa”. Algumas comparações são feitas com sociedades
distantes da Europa como a Polinésia, embora sejam feitas de passagem e com
extrema cautela: (“não transfiramos os Antípodas para Paris ou Londres”)
(Bloch, 1924, pp. 52ss, 421n.). A comparação entre a França e a Inglaterra, porém,
é central no livro, os dois únicos países em que o toque real era praticado.
Acrescente-se, porém, que a comparação é feita de maneira a permitir a constatação
das diferenças". (BURKE, 1992, p. 38).

Bloch realizou uma análise não política como tradicionalmente era feito devido a forte
influência historicista, mas procurou abordar outros tipos de fontes, e chegou a
realizar um estudo social e cultural. Uma das grandes questões que ele quis mostrar
com esse livro, era que o poder dos reis também poderia está ligado a causas
"sobrenaturais", milagrosas, ou como chamava-se na época supersticiosas, crendice
popular, mas uma crendice que assegurava a autoridade real.

Em 1931 ele publicou Les caractères originaux de l'histoire rurale française,


onde abordara uma história rural social e econômica da França, conotando o estudo
do desenvolvimento agrícola no país no período medieval e moderno. Para este livro,
Bloch usou informações do campo da demografia, botânica, economia, agronomia,
etc. A obra é importante no sentido que mostrou um uso interdisciplinar da história
com outros saberes, algo que comumente não era feito na época.

"Les caractères originaux de l’histoire rurale française é mais famoso, talvez, pela
aplicação do “método regressivo”. Bloch encarecia a necessidade de ler a “ história ao
inverso”, pois conhecemos mais a respeito dos últimos períodos e deve proceder-se
de maneira a ir do conhecido ao desconhecido (Idem, p. xii). Bloch trabalha de
maneira eficiente o método, contudo não reclama sua criação. Sob o nome de
“método retrogressivo” havia já sido empregado por F.W. Maitland – um estudioso
admirado por Bloch – em sua obra clássica Domesday Book and Beyond (1897); o
“além” do título refere-se ao período anterior à realização do Domesday Book, em
1086". (BURKE, 1992, p. 45).

Em 1939, ele publicou seu último livro ainda em vida, intitulado A sociedade
feudal (Le Société féodale). Nessa obra, Bloch procurou estudar as características
do feudalismo como suas origens, formação, desenvolvimento, consolidação,
estruturas de poder, estruturas sociais, etc. Ainda hoje, é um livro recomendável
para se compreender o feudalismo, embora que hoje já tenhamos trabalhos mais
atualizados sobre o assunto.

"La societé féodale, é o livro pelo qual Bloch é mais conhecido. É uma ambiciosa
síntese que abrange mais de quatro séculos de história européia, vai de 900 a 1300,
enfocando uma grande variedade de tópicos, muitos dos quais discutidos em outras
obras: servidão e liberdade, monarquia sagrada, a importância do dinheiro e outros.
Por isso, pode-se afirmar que se trata de uma obra que sintetiza o trabalho de toda
a sua vida. Diferentemente de seus primeiros estudos sobre o sistema feudal, não
se restringe à análise das relações entre a propriedade agrária, a hierarquia social, a
guerra e o estado. Preocupa-se com a
sociedade feudal como um todo, com o que hoje designaríamos “a cultura do
feudalismo”. Como também, ainda uma vez, com a psicologia histórica, com o que o
autor chamava de “modos de sentir e de pensar”". (BURKE, 1992, p. 46).

Foi durante essa longa fase em Estrasburgo de 1919 a 1936 que Bloch conviveu com
outros historiadores, e entre eles, Lucien Febvre, seu grande amigo.

Lucien Febvre
Lucien Paul Victor Febvre nasceu em 22 de julho de 1878 em Nancy (Meurthe-et-
Moselle). Estudou no Liceu de Nancy, posteriormente mudou-se para o Liceu Louis-
le-Grand, onde por dois anos estudou retórica superior. Em 1897 com 21 anos,
ingressou na Escola Normal Superior e depois por um tempo na Universidade Paris-
Sorbonne, até que em 1902 prestou o agregátion em história e geografia. Passou a
trabalhar como professor no ensino médio e a escrever sua tese de doutorado, tendo
sido orientado por Gabriel Monod. Em 1911defendeu sua tese intitulada Phillipe II
et la Franche-Comté: la crise de 1567, ses origines et ses conséquences,
étude d'historie politique, religieuse et sociale. No ano seguinte a Editora
Champion publicou sua tese. Nessa obra como aponta no longo título, Febvre
procurou analisar essa crise no reinado do rei espanhol, Filipe II, não apenas sob
uma óptica política, mas religiosa e social. Aqui podemos notar que o seu estudo
sobre essa crise ocorrida no Franco-Condado partiu de um viés triplo, e não do
tradicionalismo historicista. Além disso, o foco também não foi estudar a pessoa do
rei, mas suas decisões governamentais. Novamente rompia-se com o estudo dos
"grandes homens".

Tornou-se professor na Faculté de Lettres de Dijon (1912-1914), acabou servindo


na guerra, onde chegou a patente de capitão, ao ponto de comandar umas das
baterias de artilharia. Em 1919ingressou na Universidade de Estrasburgo onde
ficaria até 1931, quando no ano seguinte tornou-se professor no Collège de France,
onde manteve-se trabalhando até 1953.

"Essa fase de sua carreira iniciou-se com quatro conferências sobre os primórdios do
Renascimento francês, uma biografia de Lutero e um artigo polêmico sobre
as origens da Reforma francesa, a qual descreveu como “uma questão mal posta”.
Todos esses trabalhos referiam-se à história social e à psicologia coletiva". (BURKE,
1992, p. 39).

"Escreveu mais de uma dezena de livros e mais de dois mil artigos em revistas
especializadas. Participou como fundador da Revue d'Histoire Moderne (1926),
da Revue d'Historie de la Seconde Guerre Mondiale, dos Cahiers d'Historie Mondiale.
[...]. Colaborou, principalmente, na Revue de Synthèse Historique, na Revue
Historique, na Revue de Histoire Moderne e na Revue de Critique d'Historie et
Littérature. Dirigiu a Encyclopédie Française (1935-1940), onde pode pôr em prática
as suas ideais contra a especialização em história e a favor do espírito de colaboração
entre as ciências humanas e sociais". (CORDEIRO JR, 2010, p.71).

Um dos livros que publicou nessa época foi Martinho Lutero, um destino (1928).
Talvez, o seu segundo trabalho mais importante se tratando de estudos sobre a Idade
Moderna, até então feitos por ele. A temática do Renascimento, da Reforma, das
mentalidades modernas, seriam objetos de estudo de Febvre em outras de suas
obras.

Febvre também foi membro de dezenas de instituições científicas e históricas, como


também dirigiu algumas delas, além de atuar como consultor e conselheiro. Alguma
das instituições que ele atuou estiveram Centre Nationale de Recherche
Scientifique (CNRS), Comité Français de sciences historiques, Comission
internationale pour i'Histoire de développement scientifique et culturel de
i'humanité, e até mesmo na UNESCO.

"Pois o Febvre universitário, predominante aqui, houve um outro, o Febvre militante


e cidadão doSocialiste Comtois ou do Comitê de vigilância dos intelectuais
antifascista, o Febvre conferencista e organizador, homem de palavra e de ação,
enfim um dos últimos espécimes destes historiadores românticos habitados pelo
passado para melhor viver no presente, como Michelet, este mestre reconhecido e
amado do historiador do Franco-Condado". (CORDEIRO JR, 2010, p.
72 apud CHARLE, 1991, p. 1488).

Influência das ciências sociais:

Émile Durkheim
No campo das ciências sociais, a sociologia, filosofia, geografia, antropologia,
psicologia, etc., haviam se modificado em relação ao século anterior. Na sociologia,
o notório sociólogo francês, Émile Durkheim (1858-1917) ainda no final do século
XIX começou a publicar importantes trabalhos que redefiniriam o rumo da Sociologia,
rompendo com o positivismo de Comte, propondo um novo método para se estudar
sociologia, algo visto em seu livro Regras do método sociológico (1895).
Em 1896 ele criou a revista L'Année Sociologique que contribuiu para difundir
suas ideias pela França e depois Europa e América do Norte. Os trabalhos de
Durkheim tiveram grande influência na formação de Bloch. Ainda na sociologia
também tivemos os trabalhos do sociólogo, jurista e economista alemão, Max
Weber (1864-1920), que ficou mundialmente conhecido com a publicação de seu
livro, A ética protestante e o espírito do capitalismo (1904). Obra essa que
Burke [2010] disse que além de tratar de sociologia também possui aspectos
culturais.

Na filosofia tivemos os trabalhos de Henri Berr (1863-1954) que especialmente


influenciaram Lucien Febvre, o qual chegou a manter contato e desenvolver uma
amizade com esse filósofo francês. Berr em 1900 criou a Revue de synthèse
historique, a qual influenciou Febvre quase três décadas depois, a criar sua própria
revista. No campo da filosofia também não poderíamos esquecer de Karl
Marx (1818-1883). Embora o marxismo não teve uma grande influência na
historiografia dos Annales, mas teve uma influência bastante significativa em outros
países como Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos e Brasil. Mas, o pensamento de
Marx contribuiu para moldar a Sociologia do início do século XX, juntante com
Durkheim e Weber.
Vidal de La Blache
Da geografia tivemos a influência de Paul Vidal de La Blache (1845-1918), o qual
fundou a Escola Francesa de Geografia. Em 1893 em parceira com Lucien
Gallois, criou a revista Annales de Géographie, o qual se tornou uma importante
revista acadêmica do gênero no país. O geógrafo alemão, Friedrich Ratzel (1844-
1904) teve bastante destaque no século XIX, principalmente por seu conceito
de "determinismo geográfico". Embora fosse mais conservador do que La Blache,
a obra destes dois geográfos influenciaram Febvre, o qual mostrava interesse em
unir a geografia a história. Por sua vez, Bloch, visava fazer essa união entre a história
e a sociologia. O filósofo, sociólogo e antropólogo francês Lucien Lévy-Bruhl (1857-
1939) foi um estudioso do qual algumas de suas ideias como "pensamento pré-
lógico" e "mentalidade primitiva" influenciaram Febvre nos anos 30. Além disso,
Lévy-Bruhl chegou a ser professor Marc Bloch.

O historiador francês, Émile Mâle (1862-1954) começou a desenvolver trabalhos de


ordem cultural, estudando as artes. Sua atenção dada ao estudo das artes no meio
social, também influenciou Febvre, assim como os trabalhos do linguista Antoine
Meillet (1866-1936) um dos discípulos de Durkheim.

"Febvre reconheceu também seu débito para com inúmeros historiadores anteriores.
Durante toda a vida expressou sua admiração pela obra de Michelet.
Reconheceu Burckhardt como um de seus “mestres”, juntamente com o historiador
da arte Louis Courajod. Confessa também uma surpreendente influência, a do político
de esquerda Jean Jaurès, através de sua obra Histoire socialiste de la révolution
française (1901-3), “tão rica em intuições sociais e econômicas” (Febvre, 1922, p.vi.
Cf. Venturi, 1966, 5-70)". (BURKE, 1992, p. 30).

Uma das características marcantes dos Annales seria sua tendência a


interdisciplinaridade, em se combinar o desenvolvimento metodológico, teórico e
técnico de outras ciências sociais para ampliar os horizontes da pesquisa história e
seu debate no passado e no presente, de forma a romper com o historicismo.
"O grupo ampliou o território da história abrangendo áreas inesperadas do
comportamento humano e a grupos sociais negligenciados pelos
historiadores tradicionais. Essas extensões do território histórico estão vinculadas à
descoberta de novas fontes e do desenvolvimento de novos métodos para explorá-
los. Estão também associadas à colaboração com outras ciências ligadas ao estudo
da humanidade, da geografia à linguística, da economia à psicologia. Essa
colaboração interdisciplinar manteve-se por mais de sessenta anos, um fenômeno
sem precedentes das ciências sociais (BURKE, 1997, p. 126-7)".

Uma "crise da história":

"Durante quase toda primeira metade do século XX, a mentalidade metódica,


baseada nas regras da erudição, atingiu de maneira tão ampla e profunda a
historiografia que se manteve hegemônica. Entretanto, isto não impediu que a
disciplina histórica tivesse sofrido mudanças significativas, especialmente no que
concerne ao alargamento do campo de atuação dos historiadores, bem como da
expansão das temáticas e das abordagens até então desprezadas ou desconhecidas
no século XIX". (CORDEIRO JR, 2010, p. 74).

Após a Primeira Guerra a educação em França sofreu alguns abalos. Parte dos
investimentos foram reduzidos, o acesso as universidades ficou mais difícil; o ensino
de história nas escolas começou a ser questionado, especialmente na fase do ensino
fundamental, pois alguns políticos alegavam que não havia necessidade de ensinar
as crianças a História; no campo historiográfico, ao se estudar as causas que levaram
ao desencadeamento da guerra, alguns historiadores começaram a observar que
apenas fatores de ordem política não justificavam o início daquele conflito. Havia
mais por trás de tudo aquilo. Isso levou a uma "crise da história", ou pelo menos, a
uma das "várias crises" que a história vivenciou no século XX. Pois de acordo com
Chartier [2010] até os anos 90 ainda vivenciava-se uma "crise da história".

"Neste momento, podem-se verificar duas dimensões diferentes e ao mesmo tempo


complementares da crise da história: no âmbito das ciências humanas, vive-se de
fato uma forte tensão intelectual concernente às limitações da história metódica, que
por sua vez revela uma dimensão macro-histórica da problemática social e política
das primeiras décadas do século XX. O esforço em garantir objetividade à história,
mas se limitando à história política, não mais atendia aos interesses das novas
gerações de historiadores que percebiam com certa preocupação, alentadas pelo
otimismo frente ao avanço das ciências sociais, a instabilidade de que se estabelecia
na historiografia". (CORDEIRO JR, 2010, p. 75).

"Eis que nos permite notar que a crise da história, a incontestável crise que atravessa
a história no nosso mundo contemporâneo, os ataques ao mesmo tempo de vários
flancos opostos dos quais ela é o objeto, as incerteza e os torvelinhos sobre ela
mesma de quem ela dá o espetáculo cotidiano, tudo isto não a sequela de um mal
próprio a esta velha Clio; tudo isto é o aspecto especificamente histórico de uma
grande crise do espírito, melhor, ela é somente um dos signos, e ao mesmo tempo
uma das consequências, de uma transformação muito recente da atitude dos homens
de ciência diante da ciência". (CORDEIRO JR, 2010, p. 76 apud FEBVRE, 1955, p.
306).

"Baseada nas críticas formuladas desde a aurora do século XX, o movimento dos
Annales vem com o objetivo de revolucionar o trabalho e o universo científico do
historiador. Será dessas críticas que a escola dos Annales extrairá seu caráter
inovador, da história-problema à promoção de pesquisas coletivas (DOSSE, 2003ª,
p. 48). A “escola” dos Annales sacramentaria a guerra à história tradicional tendo
“como alvo essencial a escola metódica, chamada pejorativamente de “história
historicizante (...) tratava-se, portanto, de se afastar o sujeito para quebrar o relato
historicizante e fazer prevalecer a cientificidade do discurso histórico renovado pela
ciências sociais” (FARIAS;FONSECA;ROIZ, 2006, p. 123 apud DOSSE, 2003b,
p. 327).

Bloch e Febvre em sua residência em Estrasburgo testemunharam essa crise pós-


guerra, mas principalmente essa "crise da história", e tal condição foi preponderante
para o surgimento da revista deles, como uma resposta a essa crise teórico-
metodológica.

Os anos em Estrasburgo:

"Nos anos que se seguiram à Primeira Guerra Mundial, Estrasburgo era efetivamente
uma nova universidade, pois a cidade vinha de ser recentemente desanexada da
Alemanha, criando um ambiente favorável à inovação intelectual e facilitando o
intercâmbio de idéias através das fronteiras disciplinares". (BURKE, 1992, p. 34).

"Quando Febvre e Bloch se encontraram em 1920, logo após as suas nomeações


como professor e maitre de conférences respectivamente, rapidamente tornaram-
se amigos (Febvre, 1945, p. 393). Suas salas de trabalho eram contíguas, e as portas
permaneciam abertas (Febvre, 1953, p. 393). Em suas infindáveis discussões
participavam colegas como o psicólogo social Charles Blondel, cujas idéias
eram importantes para Febvre, e o sociólogo Maurice Halbwachs, cujo estudo sobre
a estrutura social da memória, publicado em 1925, causou profunda impressão em
Bloch". (BURKE, 1992, p. 34).
Vista do Palácio universitário da Universidade de Estrasburgo, um dos principais prédios do campus
universitário.
"Outros membros da faculdade de Estrasburgo participaram, ou vieram a participar,
das preocupações de Febvre e Bloch. Henri Bremond, autor da monumental Histoire
littéraire du sentiment religieux en France depuis la fin des guerres de religion (1916-
1924), lecionou em Estrasburgo durante o ano de 1923. Sua preocupação com
a psicologia histórica inspirou Febvre em sua obra sobre a Reforma. O historiador da
Revolução Francesa, Georges Lefebvre, cujo interesse pela história das mentalidades
era muito próximo do dos fundadores dos Annales, aí lecionou de 1928 a 1937. Não
é gratuito sugerir que a idéia do famoso estudo de Lefebvre sobre “o grande medo
de 1789” deve alguma coisa ao ensaio anterior de Bloch sobre o rumor. Lecionaram
também em Estrasburgo: Gabriel Le Bras, um pioneiro da sociologia histórica das
religiões, e André Piganiol, cujo ensaio sobre os jogos romanos, publicado em 1923,
revela um interesse pela antropologia semelhante ao de Bloch na sua obra Les Rois
Thaumaturges, editada um ano depois". (BURKE, 1992, p. 35).

Henri Pirenne
Em 1920 Lucien Febvre havia planejado criar uma revista de história econômica, a
qual seria dirigida pelo renomado historiador belga Henri Pirenne(1862-1935), mas
devido a algumas dificuldades, entre elas, a recusa de Pirenne a aceitar a direção,
Febvre acabou abandonando a ideia. Oito anos depois, Bloch tentou retomar esse
antigo plano. Febvre concordou, e no ano seguinte criaram osAnnales d'historie
économique et sociale.

"Novamente, foi solicitado que Pirenne dirigisse a revista; contudo, em virtude de


sua recusa, Febvre e Bloch tornaram-se os editores. Originalmente
chamada Annales d’histoire économique et sociale, tendo por modelo os Annales de
Géographie de Vidal de la Blache, a revista foi planejada, desde o seu início, para ser
algo mais do que uma outra revista histórica. Pretendia exercer uma
liderança intelectual nos campos da história social e econômica. Seria o porta-voz,
melhor dizendo, o alto-falante de difusão dos apelos dos editores em favor de uma
abordagem nova e interdisciplinar da história". (BURKE, 1992, p. 42).

Uma revista de combate:

"O primeiro número surgiu em 15 de janeiro de 1929. Trazia uma mensagem dos
editores, na qual explicavam que a revista havia sido planejada muito tempo antes,
e lamentavam as barreiras existentes entre historiadores e cientistas sociais,
enfatizando a necessidade de intercâmbio intelectual. O comitê editorial incluía não
somente historiadores, antigos e modernos, mas também um geógrafo (Albert
Demangeon), um sociólogo (Maurice Halbwachs), um economista (Charles Rist), um
cientista político (André Siegried, um antigo discípulo de Vidal de la Blache)".
(BURKE, 1992, p. 42).

"Os historiadores econômicos predominaram nos primeiros números: Pirenne, que


escreveu um artigo sobre a educação dos mercadores medievais; o historiador sueco
Eli Heckscher, autor do famoso estudo sobre o mercantilismo; e o americano Earl
Hamilton, muito conhecido por suas obras sobre as finanças americanas e sobre a
revolução dos preços na Espanha. Nessa ocasião, a revista tinha a feição de
um equivalente francês, ou de uma rival, da Economic History Reviewinglesa.
Contudo, em 1930, declarava-se a intenção de a revista estabelecer-se “sobre o
terreno mal amanhado da história social”. Preocupava-se também com o problema
do método no campo das ciências sociais, tal como a Revue de Synthèse Historique".
(BURKE, 1992, p. 41-42).

"Entre o ano de sua fundação (1929) e 1945, quando esteve em mãos do “duo
de Estrasburgo” (Lucien Febvre e Marc Bloch), cerca de 60% dos trabalhos por ela
publicados estiveram dedicados à história econômica. De 1946 a 1969, período em
que mais se fez sentir o peso da influência de Fernand Braudel, tal porcentagem
oscilou ao redor de 40%". (FRAGOSO; FLORENTINO, 1997, 53).

Em 1933 Bloch mudou-se com sua família para Paris, para ingressar como professor
no Collège de France, renomada instituição a qual por duas vezes lhe foi negado
trabalho. Três anos depois, foi a vez de Febvre se mudar para a capital francesa, pois
foi nomeado professor de história econômica na Sorbonne, e presidente do comitê
da Enclyclopèdie Française. Essa mudança do centro "aberto" de Estrasburgo para as
instituições mais conservadoras e tradicionais na capital, não interferiu no modo de
pensar dos "annalistes" como ficariam conhecidos seus membros e colaboradores. A
partir desse posicionamento na capital, Bloch, Febvre e seus colaboradores
aproveitaram para intensificar suas propostas e debates.

"Pouco a pouco os Annales converteram-se no centro de uma escola histórica. Foi


entre 1930 e 1940 que Febvre escreveu a maioria de seus ataques aos
especialistas canhestros e empiricistas, além de seus manifestos e programas em
defesa de “um novo tipo de história” associado aos Annales – postulando por
pesquisa interdisciplinar, por uma história voltada para problemas, por uma história
da sensibilidade, etc. (Febvre, 1953, pp. 3- 43, 55-60, 207-238)". (BURKE, 1992, p.
49).

Essa ideia de crítica e combatividade, levou alguns como o historiador Antoine Prost
a chamar osAnnales de uma "revista de combate". Um "combate" a "Escola
Metódica", ao historicismo e ao positivismo comteano. Castro [1997] fala que o
surgimento dos Annales, e sua abordagem a história econômica e social, pode ser
considerado como uma ruptura e um confronto a cultura historiográfica vigente, daí
ela falar que a ideia que hoje temos de "história social", começou com o Annales,
embora essa área já existisse antes.

"Com os Annales a história se renovou reformulando suas regras, impondo o


tríptico “economia-sociedade-civilização” em detrimento do binômio metódico
“história factual-história política”. Esse tríptico manterá juntos sociólogos,
geógrafos, psicólogos e historiadores dos Annales, em prol da rejeição comum do
historicismo. Assim os Annales propõem o alargamento da história, orientando
o interesse dos historiadores para outros horizontes: a natureza, a paisagem, a
população e a demografia, as trocas, os costumes. Ampliam-se as fontes e os
métodos, os quais devem incluir a estatística, a demografia, a linguística, a
psicologia, a numismática e a arqueologia". (FARIAS; FONSECA; ROIZ, 2006, p.
124 apud DOSSE, 2003ª, p. 83).

"Há dois eixos gerais que subentendem a experiência dos Annales: a reivindicação
de uma história experimental científica (mais do que culta) por um lado; e, por outro,
a convicção de uma unidade em construção entre a história e as ciências sociais. Os
dados acerca destes dois pontos eram, à partida, abertos; e continuaram a ser
reformulados desde os primórdios do movimento, ao mesmo tempo que se
transformavam as próprias condições do trabalho histórico". (CORDEIRO JR, 2010,
p. 77apud REVEL, 1989, p. 12).

"Sob o signo mais forte dos Annales, desenvolvia-se, desde a década de 1930, uma
“história econômica e social”. Apesar da maior ênfase na história econômica, nos
primeiros anos da revista, a “psicologia coletiva” e as hierarquias e
diferenciações sociais também encontravam-se presentes. A oposição
à historiografia rankiana e a definição do social se construía, assim, a partir de uma
prática historiográfica que afirmava a prioridade dos fenômenos coletivos sobre os
indivíduos e das tendências a longo prazo sobre os eventos na explicação histórica,
ou seja, que propunha a história como ciência social". (CASTRO, 1997, p. 79).

Repensando a história:

Duas ideias fundamentais dessa primeira geração, foram a chamada "história


total" e a "história-problema". Durante o VI Congresso Internacional de
Ciências Históricas ocorrido em Oslo,Dinamarca em 1928; Marc Bloch defendeu
a concepção de "história total" a qual compartilhava com Febvre. E que viria a ser
desenvolvida na revista dos Annales.

A ideia de "total" não referia-se a um pensamento positivista de se tentar contar a


História em sua totalidade, mas no princípio de contar a História não limitada apenas
a história política, ao Estado-nação, aos "grandes homens", aos "grandes
acontecimentos", mas abordar os aspectos sociais, econômicos e posteriormente
culturais; em se construir uma interdisciplinaridade com a sociologia, geografia,
filosofia, arqueologia, antropologia, psicologia, etc. Contar a História sob várias
perspectivas que de tal forma pudessem responder as perguntas e questões que a
história política não era capaz de responder.

A partir desse princípio, Febvre concebeu o que ele chamou de "história-problema".


Para ele o fato histórico não existia por si só, ele não se encontrava "pronto" nos
documentos aguardando ser descoberto por um historiador, como o pensamento
positivista passou a expor. Pelo contrário, os fatos históricos são "construções" que
o historiador elabora a partir da crítica das fontes e suas investigações. Não devemos
entender aqui o conceito de "construção" como criar uma mentira ou inventar, não.
A ideia aqui é que nem todos os fatos são importantes para a História, que o passado
por si só não faz a História.

Para Febvre o historiador inicia sua investigação a partir de um "problema", onde ele
irá procurar nas fontes a solução para esse "problema", de forma a confirmá-lo ou
desmenti-lo. Aqui Febvre reforça sua concepção que os fatos históricos não são
inatos, não residem "prontos" nos documentos, pois um documento pode ter muito
a dizer, ou pelo contrário, pouco a dizer. E além disso, nem todo documento possui
uma significância para a História. Uma fonte tem serventia para a História, quando
um historiador concede a ela uma cadeia de significados que a permitam ser
encaixada num conjunto de significância maior em sua pesquisa que leve a alguma
contribuição para algum aspecto da História. É a partir do "problema" proposto pelo
historiador que se inicia a pesquisa histórica.

"Pois é exatamente em face de um novo entendimento da relação do


passado/presente e da noção de que a história é um conhecimento
produzido a partir das exigências do contexto de vida do historiador,
que Febvre vai aos poucos construindo seu pensamento historiográfico.
Suas obras históricas são orientadas pelo princípio da problematização,
observada na própria montagem do seu relato histórico, obedecendo a
uma lógica de elaboração de perguntas ou hipóteses dirigidas ao
passado. Assim, a história, como toda produção científica,
independente do campo disciplinar ao qual pertence, tem como motivo
fundante de seu exercício racional a busca por respostas a problemas
que são postos à partida do trabalho de pesquisa". (CORDEIRO JR,
2010, p. 89).

"A novidade dos Annales não está no método, mas nos objetos e nas questões .
As
normas da profissão foram integralmente respeitadas por L. Febvre e
M. Bloch: o trabalho a partir dos documentos e a citação das
fontes. Eles haviam aprendido o ofício na escola de Langlois e Seignobos, sem
deixar de criticar a estreiteza das indagações e a fragmentação das pesquisas;
rejeitam a história política factual que, nessa época, era dominante em uma
Sorbonne que, além de se isolar, estava corroída pelo imobilismo". (PROST, 2008,
p. 39).
Além dessa tendência de ruptura com o tradicionalismo historiográfico
vigente na época, e além de propor uma interdisciplinaridade com as
ciências sociais, e repensar o estudo e a pesquisa da História, Febvre
e Bloch também propuseram uma aproximação da sua revista com o
público leigo. OAnnales nessa primeira geração procurou dar atenção
ao fato que a História não tratava apenas do passado, mas também do
presente, e também procurou levar dar acesso a esses debates ao
público "não iniciado", ao público não acadêmico, de forma que os
aproximassem não necessariamente dos embates teóricos, mas da
ciência histórica.

Nos Annales, o estudo da história passou a ser tratado de fato como uma ciência,
fosse ela chamada de "ciência humana" ou "ciência social", mas de qualquer forma,
eles queriam mostrar que havia essa identidade científica no saber histórico. Não
obstante, uma característica que reforça essa tendência, foi o uso de
uma temporalidade relativa, baseada na Relatividade de Albert Einstein. Com
essa ideia, o tempo não era visto como algo homogêneo e monolítico, mas o tempo
passou a ser visto como sendo interpretado de diferentes formas pelos povos, de que
a ideia de progresso não era unânime, que o tempo da História não é igual ao tempo
natural. Sobre isso, voltaremos a ver durante a Segunda Geração, onde Braudel
desenvolveu essa questão de temporalidade.

Outro aspecto que os Annales defenderam foi uma maior atenção para o estudo
da materialidade histórica (não confundir com o materialismo histórico proposto
por Marx e Engels), ou seja, estudar o papel do desenvolvimento tecnológico nas
sociedades, e a importância do consumo e da produção para a economia e o
desenvolvimento das sociedades. Pelo fato dos Annales de se proporem e escrever
sobre história econômica, esse viés da materialidade histórica foi bastante
empregado nessa área.

Contudo, Vainfas [1997] também assinala que ainda nessa primeira geração,
podemos destacar a produção de artigos ligados a "história das mentalidades",
tendência que aumentaria na segunda geração, mas principalmente na terceira
geração. A "história das mentalidades" como Chartier [1997] fala, consiste num
termo difícil de ser conceituado fora da língua francesa, daí de se haver confusões
para se identificar o início desses estudos.

"Bloch e Febvre inauguraram, pois, nos primórdios dos Annales, o estudo das
mentalidades, delas fazendo um legítimo objeto de investigação histórica. Mas não
se pense que foram eles os primeiros a se dedicarem ao estudo de sentimentos,
crenças e costumes na historiografia ocidental. Para citar apenas alguns autores que
lhes antecederam ou foram deles contemporâneos nessas preocupações, vale
lembrar o próprio Michelet, autor de La sorcière, em 1862 (traduzido em Portugal),
e o importante Georges Lefebvre, autor de La grande peur, livro sobre a onda de
pânico que varreu a França rural no contexto revolucionário francês. E se for o caso
de dar exemplos fora da França, não se pode esquecer do grande historiador
holandês Johan Huizinga, autor de O outono da Idade Média (de que há várias
traduções), obra publicada em 1919 sobre sentimentos, costumes e religiosidades
na França e nos Países Baixos nos séculos XIV e XV, nem de Norbert Elias, sociólogo
e historiador alemão que, antecipando-se a Foucault em décadas, publicou em 1939
o seu 0 processo civilizador, livro sobre a sociedade de corte e o surgimento da
etiqueta na Europa moderna". (VAINFAS, 1997, p. 197).

Mudanças de nome na revista e o adeus de Bloch:


Em 1939 a revista mudou de nome para Annales d'historie sociale. Nesse caso,
os diretores e seus colaboradores visavam focar o desenvolvimento da revista apenas
no campo social, pois antes havia o campo econômico também incluso, mas isso não
significa que a história econômica saiu de pauta, não; ela apenas deixou de ter um
maior espaço no material publicado nessa revista. Ao mesmo tempo, Marc Bloch aos
seus 53 anos de idade, alistou-se voluntariamente ao Exército francês para lutar na
Segunda Guerra. Assim, Febvre nesse período cuidou da direção da revista quase
que sem o apoio de seu amigo e sócio.

"Enquanto isso, Febvre continuava a editar a revista, primeiramente com o nome de


ambos, mais tarde apenas sob o seu. Muito velho para lutar, passou a maior parte
da guerra em sua casa de campo escrevendo artigos e livros sobre a Renascença
Francesa e a Reforma. Diversos desses estudos são sobre indivíduos,
como Marguerite de Navarre e François Rabelais, não são, porém, biografias
estritamente falando. Fiel aos seus preceitos, Febvre elaborava seus estudos tendo
por centro problemas. Como pode, por exemplo, Marguerite , uma princesa letrada e
piedosa, escrever uma série de histórias, L’Heptameron, algumas das quais
extremamente obscenas? Era ou não Rabelais um ateu?". (BURKE, 1992, p. 51).

Em 1942, a revista voltou a mudar de nome, agora paraMélanges d'historie


sociale. Nessa época, Bloch havia retornado do campo de batalha, após duras
derrotas para a França, e também por ter sido ferido. Contudo com o avanço do
nazismo sobre a França, e a consolidação do Regime de Vichy (1940-
1944) imposto pela marechal francês Phillipe Pétain, o mesmo começou a adotar
a tendência antissemitista do Estado alemão nazista. Bloch que vinha de uma família
judia, se tornou alvo do Estado ditatorial francês. Ao mesmo tempo, embora tenha
retornado a vida acadêmica, ainda manteve-se ligado a grupos de resistência, mas
isso não viria a lhe dá bons resultados. O governo francês cobrou que os judeus
deixassem seus cargos na instituições públicas, de ensino, militar, etc., Bloch foi
sentenciado a deixar sua função no Collège de France e na direção dos Annales. Marc
Bloch a partir de 1942 entrou na clandestinidade. Em 1943 aliou-se a Resistência
em Lyon, motivo a mais para se tornar um foragido do Estado. Posteriormente
acabou sendo capturado e preso pelos alemãs ainda em 1943. Nesse período que
também acabou sendo capturado e mantido preso, escreveu dois livros:L’Étrange
défaite, obra essa iniciada em 1940, onde ele tentou dar seu parecer e opinião sobre
a Primeira Guerra Mundial e a recém iniciada Segunda Guerra Mundial, como também
encontrar motivos para a derrota francesa.

O segundo livro foi o Apologia da história ou o ofício do historiador, obra


publicada postumamente com o apoio de um dos seus filhos Étienne Bloch e Lucien
Febvre. Tal livro acabou ficando incompleto e apresenta comentários, notas e dúvidas
do autor, pelo fato de não ter tido acesso a suas fontes. Apologia da história consiste
numa obra de teor teórico, onde Bloch procurou debater o papel da história e a
profissão do historiador. Ainda hoje é considerado um livro importante para se
compreender o papel do historiador na sociedade.

Marc Bloch acabou sendo torturado pela Gestapo (a polícia secreta do Estado
alemão), a fim de delatar informações sobre a Resistência, e em em 16 de julho de
1944 em Saint Didier de Formans, perto de Lyon, foi fuzilado pelos nazistas. Bloch
recebeu honrarias por parte dos familiares, amigos e do próprio Estado. Sendo
lembrado não apenas como um grande historiador, mas como um francês que serviu
e lutou por sua pátria durante duas guerras mundiais.

Pós-guerra:

"Depois da guerra, Febvre teve finalmente sua chance. Foi convidado a auxiliar na
reorganização de uma das instituições mais prestigiosas no sistema francês
de educação superior, a École Pratique des Hautes Études, fundada em 1884. Foi
eleito membro do Instituto e tornou-se também o delegado francês na UNESCO,
participando da organização da coleção sobre a “História Cultural e Científica da
Humanidade”. Em razão dessas múltiplas atividades, sobrou-lhe pouco tempo para
escrever com vagar, e os projetos de seus últimos anos jamais foram concluídos
(como o volume sobre o “Pensamento ocidental e a crença”, de 1400 a 1800), ou,
então, foram terminados por outros". (BURKE, 1992, p. 56).

Em 1945, a revista voltou a assumir o nome de Annales d'historie sociale, embora


que duraria pouco esse nome, pois viria a sofrer uma nova mudança em breve. Mas,
devido a suas outras ocupações e a sua idade de 67 anos, Febvre viu que era hora
de pedir ajuda para manter os negócios na revista, enquanto cada vez mais, estava
ocupado com o trabalho na Escola Prática de Altos Estudos (École Pratique des
Hautes Études), onde em 1947 viria a fundar a Seção VI e tornar-se seu presidente,
assim como também o diretor do Centro de Pesquisas Históricas, criado dentro
da Seção VI.

"Os Annales começaram como uma revista de seita herética. “É necessário ser
herético”, declarou Febvre em sua aula inaugural, Oportet haereses esse (Febvre,
1953, p.16)46. Depois da guerra, con tudo, a revista transformou-se no órgão oficial
de uma igreja ortodoxa. Sob a liderança de Febvre os revolucionários intelectuais
souberam conquistar o establishment histórico francês. O herdeiro desse poder
seria Fernand Braudel". (BURKE, 1992, p. 57).

A SEGUNDA GERAÇÃO (1946-1968)

"A segunda geração, dirigida por Fernand Braudel, compreende o período entre 1946
e 1968 e é marcada pelo tema das civilizações e temas demográficos. Constitui-se
como escola, ao aportar conceitos (estrutura e conjuntura) e métodos (história serial
das mudanças na longa duração) definidos. O estudo das utensilagens mentais (ou
psicologia histórica dos anos 30), ao lado de fontes massivas, representativas e
temporalmente comparáveis e com certa regularidade, os leva a utilizar os conceitos
de regularidades, quantificação, séries, técnicas, abordagem estrutural, tendo como
centro de um projeto intelectual oferecer certa dinâmica às estruturas trabalhadas
pelas ciências sociais e ainda tentar articular a longa duração como acontecimento".
(PORTO, 2010, p. 133).

O historiador do mar:

Foto de Braudel tirada no Brasil.


Fernand Paul Achille Braudel (1902-1985) nasceu emLumeville-en-Ormis em
24 de agosto. Seu paiCharles-Hilaire Braudel era professor e lecionava em Paris,
contudo o pequeno Fernand foi enviado para a casa de sua avó e lá passou o início
da vida vivendo no campo. Braudel já na sua maturidade escreveria que tivera uma
origem camponesa. Posteriormente, ele sua mãe e irmãos se mudaram para os
subúrbios de Paris. Braudel chegou a dizer que a distância onde os subúrbios se
encontravam, lembrava muito uma zona rural. Em 1913 ingressou no Liceu
Voltaire onde permaneceu até 1920. Pelo fato de ser uma criança, não foi convocado
para a Primeira Guerra Mundial. Enquanto a guerra se desenrolava, na qual Febvre
e Bloch estavam lutando, Braudel estava na escola estudando e começou a mostrar
grande interesse pela História. Na adolescência decidiu que queria se tornar
historiador. Após se formar, ingressou no mestrado na Universidade de Sorbonne,
onde em pouco tempo conquistou sua pós-graduação, tendo escrito uma dissertação
sobre o impacto da Revolução Francesa (1789-1799) na região de Bar-le-Duc, local
onde ficava a vila onde nasceu. Inicialmente, Braudel cogitava se tornar professor
em Bar-le-Duc, mas após ser aprovado no agregátion em 1922, no ano seguinte
surgiu uma oportunidade de emprego.

Naquela época a Argélia ainda era uma colônia francesa, e havia a necessidade de
professores para lecionar principalmente em Argel, a capital do país, vista como um
"modelo de cidade francesa" em solo africano. Braudel se mudou para a colônia ainda
em 1923 e permaneceria até 1932.
"Seu primeiro artigo importante, publicado nesse período, tinha por tema a presença
dos espanhóis no Norte da África, no século XVI. Esse estudo, cujas dimensões são
a de um pequeno livro, merece ser resgatado de seu imerecido esquecimento. Era,
ao mesmo tempo, uma crítica a seus predecessores no tema pela ênfase que haviam
atribuído aos grandes homens e às batalhas; uma discussão sobre a “vida diária” das
guarnições espanholas; e também uma demonstração da estreita relação, embora
invertida, entre a história africana e européia, isto é, quando estourava a guerra na
Europa as campanhas africanas eram suspensas, e vice-versa (Braudel, 1928)".
(BURKE, 1992, p. 58-59).

Entre 1925 e 1926 tivera que servir no Exército, já que não havia prestado serviço
militar anteriormente. Ele atuou um ano na região da Renânia na Alemanha, local
do qual achou bastante belo. Em 1927 seu pai morreu, Braudel retornou para a
França, buscou sua mãe a qual passou a morar com ele e ainda no mesmo ano,
casou-se com Paule Valier. Retornou para a Argélia e continuou com sua carreira
como professor de história nas escolas, além de também coordenar eventos e
comissões científicas.

Nesses nove anos que passou transitando entre a Europa e a África, Braudel se
encantou com odeserto do Saara, mas principalmente com o Mar Mediterrâneo,
o qual cruzou várias vezes em suas jornadas de idas e vindas. Ainda em 1927 ele
começou a planejar sua tese de doutorado, estava interessado em abordar o governo
do rei de Espanha e Portugal, Filipe II (Filipe tornou-se rei de Portugal e suas colônias
a partir de 1580, e manteve-se como soberano das duas coroas até o fim da sua vida
em 1598). Ele chegou a se corresponder com Febvre, pois esse havia escrito sua tese
sobre o rei espanhol. Febvre lhe respondeu com uma carta: "Mais que Filipe II, seria
apaixonante conhecer o Mediterrâneo dos povos berberes".

Com o apoio do historiador francês, Georges Pagès (1867-1939), Braudel


conseguiu contatos na Espanha para lá viajar e iniciar suas pesquisas sobre o rei
Filipe II. Tivera que agir por conta própria, pois como ele lembra, nessa época não
havia bolsas de pesquisa disponíveis. Em Simancas na Espanha ele iniciou suas
visitas aos arquivos, e tendo comprado uma máquia fotográfica de segunda mão de
um operário e cineasta americano, Braudel realizou fotos de milhares de documentos.

"Deixei os arquivistas e buscadores de Simancas cheios de inveja e admiração ao


fazer, por rolos de trinta metros, duas a três mil fotos por dia. Usei e abusei do
expediente na Espanha e na Itália. Graças a esse cineasta engenhoso, fui sem dúvida
o primeiro utilizador de verdadeiros microfilmes, que eu próprio revelava e lia, ao
longo de dias e noites, com uma simples lanterna mágica". (FLORES, 2010, p. 97-
98 apud BRAUDEL, 2002, p. 8-9).

A medida que investigava os arquivos e bibliotecas, aproveitou para escrever alguns


artigos sobre assuntos e documentos que foi descobrindo. Em 1931 assistiu em Argel
a apresentação de Henri Pirenne sua tese sobre o fechamento do Mediterrâneo pelos
árabes. Fernand Braudel começou a se especializar na Idade Moderna e até mesmo,
escreveu artigos sobre a África do Norte, região a qual visitou vários dos países. A
partir de suas pesquisas nos arquivos e contato com as obras de outros historiadores
crescera nele a ideia de escrever sobre o Mediterrâneo.

"Eu havia na cabeça a ideia de descobrir o passado desse mar que via todos os dias
e do qual os hidroaviões de então, que voavam baixo, me proporcionavam imagens
inesquecíveis. Ora, as séries ordinárias de arquivos falavam sobretudo dos príncipes,
das finanças, dos exércitos, da terra, dos camponeses. De depósito de arquivos em
depósito de arquivos, eu me embrenhava, então, através de uma documentação
fragmentária, mal explorada, por vezes mal ou não classificada. Lembro-me de meu
deslumbramento ao descobrir, em Dubrovnik, m 1934, os maravilhosos registros de
Ragusa; finalmente, barcos, fretes, mercadorias, seguros, tráficos... Pela primeira
vez, eu via o Mediterrâneo do século XVI". (FLORES, 2010, p. 98 apud BRAUDEL,
2002, p. 9-10).

Em 1932 foi convidado a se tornar professor em Paris, atuando em algumas escolas


como o Liceu Pasteur e o Liceu Condorcet. Ainda no mesmo ano, separou-se de
sua esposa, mas no ano seguinte reataram o casamento. De 1932 a 1934 continuou
com suas pesquisas nos arquivos espanhóis e até mesmo viajou para a Itália, para
consultar alguns arquivos. Ao mesmo tempo tivera contato com a revista
dos Annales, e com a historiografia que estava sendo desenvolvida por Bloch e
Febvre. Braudel na época de seus estudos universitários, tivera influência da
geografia e um pouco da sociologia, embora tenha sido educado num ambiente
tradicional do metodismo e do historicismo, sua visão da História ia para além da
ideia política.

Foto de Lévi-Strauss no Brasil.


Em 1934 recebeu o convite do Ministério das Relações Exteriores da
França para participar de uma missão diplomática que seria enviada ao Brasil, para
auxiliar no desenvolvimento dos cursos de sociologia, história, geografia e filosofia
na Universidade de São Paulo (USP). Junto a sua comitiva de jovens professores
seguiram também o recém sociólogo e futuro antropólogo Claude Lévi-
Strauss (1908-2009), o filósofo Jean Maugüe (1904-1990),
o geógrafo especialista na América do Sul, Pierre Monbeig (1908-1987) entre
outros. Após o nascimento de sua filha em 1935, Braudel seguiu viagem com sua
família para São Paulo, onde residiriam pelos dois anos seguintes. Em sua estada no
Brasil, visitou os estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Bahia.
Aproveitou para conhecer obras brasileiras como Os Sertões (1902) de Euclides da
Cunha, Casa Grande e Senzala (1933) de Gilberto Freire, livro esse o qual
Braudel escreveu uma resenha para os Annales. Nessa época o historiador e
economista Caio Prado Júnior havia publicado em 1933, a obraEvolução Política
do Brasil, uma obra de caráter marxista.

Ele também chegou a escrever um pequeno trabalho sobre a Bahia, como também
mostrou interesse pelos cangaceiros (em geral grupo de homens que usavam a
violência, força e medo para combater o Estado, mas também causavam problemas
a sociedade devido a seus crimes. Hobsbawm os comparou com uma espécie de
banditismo). Na Bahia, Braudel chegou a comprar peças do traje dos cangaceiros e
a ouvir histórias sobre Lampião (1898-1938) notório chefe cangaceiro.

Durante sua permanência no Brasil ele ainda continuou a realizar suas pesquisas e
estudos para sua tese embora de forma mais restrita devido a distância e o tempo
de férias, pois aproveitava as férias de verão para retornar a Europa. Braudel chegou
a dizer que os quase três anos que viveu no Brasil foram seus anos mais felizes de
sua vida. Embora ele não tenha voltado a morar no país, realizou viagens para o
mesmo posteriormente.

Acabado seu contrato, em 1937 enquanto ele e sua família embarcavam no navio
que os levaria a França, Braudel se encontrou com Lucien Febvre o qual retornava
de uma viagem feita a Argentina. Febvre havia viajado para a Argentina e o Chile,
apresentar e participar de congressos. Ambos seguiram viagem de volta a França, e
isso contribuiu muito para a visão histórica de Braudel e a sua aproximação ainda
mais com os Annales, pois ele passaria a se tornar colaborador da revista.

"Foi no retorno de sua viagem ao Brasil que Braudel conheceu Lucien Febvre, que o
adotou como um filho intelectual e persuadiu-o – se é que ainda necessitava
de persuasão – de que o título da tese deveria ser realmente “O Mediterrâneo e Felipe
ll”, e não “Felipe II e o Mediterrâneo” (Braudel, 1953, especialmente p. 5; conf.
(Febvre, 1953, p. 432)". (BURKE, 1992, p. 59).

Contudo o retorno para a França lhe traria momentos difíceis e perigosos. Em 1938
seu nome foi escolhido para compor uma lista de soldados, devido a eminência de
problemas militares com a Alemanha nazista de Adolf Hitler. No ano seguinte os
alemães invadiram a Polônia e a Segunda Guerra se iniciou. Em 1940 Braudel foi
oficialmente convocado para a guerra.

"Ele participa da guerra, na fronteira do Reno, na Linha Maginot, um conjunto de


fortificações construído na década de 1930, na condição de oficial francês. Nessa
condição, Braudel se torna prisioneiro na Alemanha e é deslocado para duas prisões:
Mogúncia, até 1942, onde recebia soldo mensal e tinha direito 'a cantina e distrações
intelectuais' lendo livros alemães de geografia sobre o Mediterrâneo e ministrando
aula aos demais prisioneiros; depois foi transferido para Lübeck, 'um campo
disciplinar' considerado 'aterrorizante', permanecendo prisioneiro até 1945, mas
continuava a 'ler, ensinar e escrever". (FLORES, 2010, p. 101-102 apud LIMA, 2009,
p. 143-163).

Embora tenha ficado cinco anos preso, diferente dos quase dois anos que Bloch ficou
preso, o cárcere de Braudel foi menos danoso do que o de Bloch. Com o fim da guerra
ele foi libertado com seus companheiros e retornou para casa. Acabou se unindo a
Febvre para pedir conselhos e orientação na conclusão de sua tese. Em 1946 a
apresentou na Seção IV da Escola Prática de Altos Estudos, e no ano seguinte,
a defendeu na Sorbonne, sob o título de O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo
na época de Filipe II (La Méditerranée et le monde méditerranéen à l'époque de
Philippe II), livro que o consagraria.
Uma edição de O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo na época de Filipe II.
"O Mediterrâneo é um livro de grandes dimensões, mesmo que consideremos os
padrões da tradicional tese de doutoramento francesa. Sua edição original
continha aproximadamente 600.000 palavras, o que perfaz seis vezes o tamanho de
um livro comum. Dividido em três partes, cada uma das quais – como o prefácio
esclarece – exemplifica uma abordagem diferente do passado. Primeiramente, há
a história “quase sem tempo” da relação entre o “homem” e o ambiente; surge então,
gradativamente, a história mutante da estrutura econômica, social e política e,
finalmente, a trepidante história dos acontecimentos". (BURKE, 1992, p. 60).

"Braudel superou, de fato, a concepção cronológica da história política que contava


os eventos a partir de datas sucessivas num ritmo mais ou menos previsível de causa
e efeito". (FLORES, 2010, p. 103).

Braudel dedicou sua obra a seu amigo e mentor, Lucien Febvre. Ele tentou publicar
sua volumosa tese, mas as editoras se recusaram a financiar esse livro, pois
consideraram a obra demasiadamente cara e com baixo público de leitura, no que
renderia péssimos ganhos. Ele teve que juntar dinheiro para vim a publicar seu livro
dois anos depois. Ainda em 1947 viajou para o Brasil, Argentina e Chile para
participar de conferências e congressos.

A era Braudel:

"Após a guerra, os Annales - cuja revista passou a ter o título de Annales, Économies,
Sociétés, Civilisations - perseguiram essa dupla estratégia em um contexto diferente.
Em primeiro lugar, em 1947, com o apoio de fundações americanas e da diretoria do
ensino superior, a criação de uma VI section na École pratique des hautes études
direcionada para as ciências econômicas e sociais, cuja presidência foi entrega a L.
Febvre. No início da década de 50, o revezamento foi assumido por Fernand Braudel
que vinha de ser consagrado por sua tese sobre La Méditerranée à l' époque de
Phillippe II(1949)". (PROST, 2008, p. 40-41). Em 1950, Braudel se tornou professor
do Collège de France e na sua aula inaugural como de obrigatório para todos aqueles
que entram nesta instituição, ele explanou um pouco da sua vida, mas principalmente
da sua opinião sobre como a História estava sendo vista e estudada.

"A história se encontra, hoje, diante de responsabilidades temíveis, mas também


exultantes. Sem dúvida porque jamais cessou, em seu ser e em suas mudanças, de
depender de condições sociais concretas. (...) E se seus métodos, seus programas,
suas respostas mais precisas e mais seguras ontem, se seus conceitos estalam todos
de uma só vez, é sob o peso de nossas reflexões, de nosso trabalho e, mais ainda,
de nossas experiências vividas. Ora, essas experiências, durante estes últimos
quarenta anos, foram particularmente cruéis para todos os homens: elas nos
lançaram, violentamente, no mais profundo de nós mesmos e, além no destino
conjunto dos homens, isto é, nos problemas cruciais da história. Ocasião de nos
apiedar, de sofrer, de pensar, de recolocar forçosamente tudo em questão. Aliás, por
que a frágil arte de escrever a história escaparia à crise geral de nossa época?
Abandonamos um mundo sem sempre termos tido tempo de conhecer ou mesmo de
apreciar seus benefícios, seus erros, suas certezas e seus sonhos - diremos o mundo
do primeiro século XX? Nós o deixamos, ou antes, ele se subtrai inexoravelmente,
diante de nós". (FLORES, 2010, p. 106-107 apud BRAUDEL, 1992, p. 17-18).

De 1950 a 1952, Braudel cooperou com Febvre não apenas nos Annales, mas
também no Centro de Pesquisas Históricas na Escola de Altos Estudos. Eles
publicaram três séries entre os anos de 1951-1952: A primeira série intitulava-
se “Portos-Rotas-Tráficos"; a segunda, “Negócios e Gente dos Negócios”; e a
terceira, “Moeda-Preço-Conjuntura”.Visivelmente aqui nota-se a presença da
história econômica a qual retomou um lugar de destaque nas publicações
dos Annales nesta época, como atesta também a mudança do nome da revista.

Além disso, um dos membros e colaboradores da revista era o historiador


francês Ernest Labrousse(1895-1988), especialista em história econômica e social,
que desde a primeira geração dos Annales vinha cooperando com Bloch e Febvre.
Prost (2008) salienta que entre as décadas de 40 e 50, as obras de Labrousse
estiveram em alta no meio econômico e historiográfico. Sua metodologia de estudo
e pesquisa era benquista nestas áreas. Outro importante nome foi o historiador
francêsGeorges Duby (1919-1996) que por vários anos colaborou com os Annales,
especialmente durante a segunda geração e a terceira.

Robert Mandrou
Em 1954 o historiador francês Robert Mandrou (1921-1984), especialista em
história moderna e história da França, discípulo de Lucien Febvre, tornou-se
secretário da revista, cargo esse que manteve até 1962, quando se demitiu devido a
desavenças com Braudel. Em 1956 com a morte de Febvre, Braudel se tornou de fato
o diretor dos Annales, contudo, ele não se dava bem com Mandrou e outros dos
membros e colaboradores da revista. Isso ficaria mais visível nos anos 60. Mandrou
também é lembrando como tendo sido ao lado de Duby, iniciador do campo de
pesquisa chamado "história das mentalidades", o qual hoje é visto como sendo
história cultural. Mandrou e Duby apresentaram interesse para se estudar o
comportamento, as representações, as opiniões, a compressão das classes sociais e
das sociedades na História. A "história das mentalidades" se popularizaria na terceira
geração. Phillipe Àries e Michel Vovelle ainda no final da segunda geração,
também passariam a estudar o lado cultural da história.

"Braudel também sucedeu Febvre como presidente da VI Seção da École. Em 1963,


criou uma nova entidade dedicada à pesquisa interdisciplinar, a Maison des
Sciences de l’Homme. No seu tempo, a Seção, o Centro e a Maison, todos se
mudaram para o 54, Boulevard Raspail, onde a convivência com antropólogos e
sociólogos da qualidade de Claude Lévi-Strauss e Pierre Bourdieu, disponíveis para
as conversas de café e para seminários conjuntos, manteve e continuou a pôr os
historiadores dosAnnales em contato com as novas idéias e desenvolvimentos das
ciências vizinhas". (BURKE, 1992, p. 75).

"Tendo conservado em suas mãos, durante os seus anos de direção, o controle dos
fundos para a pesquisa, publicações e nomeações, guardou para si um grande poder,
que usou para promover o ideal de um “mercado comum” das ciências sociais, onde
a história era um membro dominante. (Braudel, 1968b, p.349). As bolsas de estudo
concedidas a jovens historiadores estrangeiros, como os poloneses, para estudar em
Paris ajudaram a difundir no exterior o novo estilo francês, de fazer história. Por
outro lado, era notório que Braudel destinava os recursos preferentemente
aos historiadores que se dedicavam à época moderna (1500-1800). Se seu império
não foi tão vasto quanto o de Felipe II, tinha, porém, um dirigente mais decidido".
(BURKE, 1992, p. 75-76).

Além desse controle, poder e autoridade sobre os Annales, Braudel também


influenciou com seu trabalho, historiadores velhos e novos como Pierre
Chaunu (1923-2009), Emmanuel Le Roy Ladurie, Jacques Le Goff, Pierre
Goubert (1915-2012), Pierre Vilar (1906-2003), etc. Como será visto adiante,
alguns destes nomes como Le Roy Ladurie e Le Goff, se tornariam diretores e
secretários dos Annales durante a terceira geração. Braudel se manteria na direção
até 1968, quando devido a uma onda de acontecimentos, pediria afastamento do
cargo.

A longa duração e os "três tempos":

Um dos maiores legados da segunda geração foi o desenvolvimento da temporalidade


realizado por Braudel, sua ideia de dividir o tempo histórico-processo em três
durações e velocidades, algo marcante em seu livro O Mediterrâneo e nas suas
demais obras após esse livro.

Para entendermos esse legado, é preciso conhecer um pouco dessa teoria


braudeliana. Primeiro, é importante saber que o "tempo histórico" não é igual ao
"tempo natural", ou seja, para o estudo da História, em muitos casos o historiador
ele "recorta" o tempo, a fim de determinar fronteiras pelas quais ele guiará a pesquisa
histórica. Não obstante, foram também os historiadores que criaram a divisão
temporal da História, por exemplo, o que chamamos de Pré-história, Idade Antiga,
Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea é uma temporalização na qual
dividi-se certas épocas da História humana (vale lembrar que a geografia possui
divisões temporais para o que ela chama de eras geológicas), de forma a facilitar e
guiar a compreensão do mundo e das sociedades no tempo. Se não fosse essa
construção do "tempo histórico" ficaria complicado as pessoas localizarem os
acontecimentos históricos.

No caso de Braudel sua teoria temporal não foi concebida para nomear períodos
históricos como mencionado acima, mas sim tornar-se uma metodologia para a
pesquisa e a escrita da história. Braudel concebeu dividir o tempo em três
durações: curta, média e longa durações, sendo a última a mais famosa, pois foi
a qual ele usava e desenvolveu o conceito, embora que a partir da conceitualização
da longa duração, ele chegou a repensar as outras duas temporalidades também.

"Entendamo-nos: não há um tempo social com uma única e simples corrente, mas
um tempo social com mil velocidades, com mil lentidões que quase nada têm a ver
com o tempo jornalístico da crônica e da história tradicional. Creio assim na realidade
de uma história particularmente lenta das civilizações, nas suas profundezas abissais,
nos seus traços estruturais e geográficos. [...]. Além disso, há, ainda mais lenta que
a história das civilizações, quase imóvel, uma história dos homens e suas relações
estreitas com a terra que os suporta e os alimenta; é um diálogo que não cessa de
repetir-se, que se repete, que pode mudar e muda na superfície, mas prossegue,
tenaz, como se estivesse fora do alcance e da mordedura do tempo". (FLORES, 2010,
p. 108 apud BRAUDEL, 1992, p. 25-26).

Braudel dizia que certas mudanças históricas só seriam apenas perceptíveis após se
passarem dezenas de anos, pois tais mudanças agiriam de forma lenta, que em
determinado momento chegariam ser quase que "imóveis", e quase passariam
despercebidas, mas para se notar que elas transcorreram, o historiador deveria olhar
para a História a partir de um ponto de vista da longa duração, abrangido um século
ou mais.

A partir dessa ideia de se estudar a História de um recorte extenso, Braudel adentrou


a área da"história das civilizações", campo surgido no século XIX, mas que
ganhou novas diretrizes no século XX, tendo com história britânico Arnold J.
Toynbee (1889-1975) um dos seus expoentes. Braudel chegou a dizer que certas
questões de ordem econômica, política, social, cultural, religiosa, etc., só seriam
visíveis ao se estudar as civilizações, as comparando, procurando levantar
semelhanças e diferenças, destrinchando seus processos formadores e de mudança.

Por exemplo, para se entender a disseminação do cristianismo ou do capitalismo,


seria necessário estudar tais acontecimentos sob uma óptica de longa duração, pois
foram acontecimentos que levaram séculos para se adaptarem e se consolidar em
diferentes cantos do mundo, em diferentes épocas, sob diferentes contextos e em
diferentes velocidades. Nesse âmbito, Braudel dizia que a história tradicional: "atenta
ao tempo breve, ao indivíduo, ao evento, habituou-nos há muito tempo à sua
narrativa precipitada, dramática, de fôlego curto". (BRAUDEL, 1978, p. 44).

Se lembrarmos que a história tradicional era de vertente historicista, que focava a


História ao relatar os governos, os feitos dos soberanos, dos generais, dos políticos,
dos grandes nomes, dos grandes acontecimentos, logo, tínhamos uma história
bastante limitada e reduzida a acontecimentos e as ações destes homens, o que
levava a deixar de fora outros aspectos da História. Na longa duração, não se estuda
sujeitos e nem as ações, mas sim as transformações daí, quando Braudel dissera
que no seu primeiro volume de O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo, ele
escrevera uma geo-história. um "tempo geográfico", onde enfatizava o espaço
geográfico e sua influência sobre as sociedades, ao mesmo tempo, nessa geo-história
que fazia parte da longa duração, Braudel não dava atenção aos "grandes homens"
e aos "grandes acontecimentos", mas o "sujeito" era o lugar e as pessoas.

"Será Braudel, o historiador das águas, montanhas, planícies, barcos e carros de boi
(e seus usuários e modificadores), e não a primeira geração dos Annales, a libertar
o século XX historiográfico das prisões biográficas oitocentistas". (FLORES, 2010, p.
105).

"Águas mais calmas, que correm mais profundamente, são o objeto da segunda parte
do Mediterrâneo, denominada “Destinos coletivos e movimentos de conjunto”;
sua preocupação, a história das estruturas-sistemas econômicos, estados,
sociedades, civilizações e formas mutantes de guerra. Esta história se movimenta a
um ritmo mais lento do que a dos eventos. As mudanças ocorrem no tempo
de gerações, e mesmo de séculos, por isso os contemporâneos dos fatos nem sempre
se apercebem delas. Mas, mesmo assim, eles são carregados pela corrente. Numa
de suas mais famosas análises, Braudel examina o império de Felipe II como uma
“colossal empresa de transporte terrestre e marítima”, que “se exauriu por sua
própria dimensão”, e não poderia ser diferente numa época em que
“cruzar O Mediterrâneo de norte a sul levava uma ou duas semanas”, enquanto
atravessá-lo de leste a oeste “dois ou três meses” (Ibid., p. 363). A observação
lembra o veredicto de Gibbon sobre o Império Romano destruído pelo seu próprio
peso e suas afirmativas sobre geografia e comunicações, no primeiro capítulo
do Declínio e Queda". (BURKE, 1992, p. 62-63).

Por sua vez, seu primeiro volume, ele dedicou a abordar a média duração, ou pelo
menos referir-se a ela, pois essencialmente o livro como um todo, tende a longa
duração, mas ao mesmo tempo, mescla essas três temporalidades. Braudel
comparou a média duração ou "tempo social", com a chamada"história
ocorrencial" ou "história conjectural", onde estuda-se um tempo que varia de
uma década a décadas, mas jamais se passando de um século.

"Aparece uma nova forma de narrativa histórica, digamos o 'recitativo' da conjuntura,


do ciclo, até mesmo do 'interciclo', que propõe à nossa escolha uma dezena de anos,
um quarto de século e, no limite extremo, o meio século do ciclo clássico de
Kondratieff. Por exemplo, sem levar em conta acidentes breves e de superfície, os
preços sobem, na Europa, de 1791 a 1817; baixam de 1817 a 1852: esse duplo e
lento movimento de elevação e de recuo representa na época um interciclo completo
da Europa e, ou menos, do mundo inteiro". (BRAUDEL, 1978, p. 47-48).

Pelo fato da aproximação de Braudel com a história econômica e com os trabalhos


de historiadores econômicos como Ernst Labrousse, sua concepção de média duração
está bastante influenciada pela historiografia econômica, a qual trabalhava essa
questão de "ciclos" e "intercliclos". Devemos nos lembrar que no início,
os Annales estivera bastante voltado para a história econômica, pois a possibilidade
do uso de dados e da quantificação, na visão de alguns historiadores era uma forma
de apresentar um respaldo "científico" para a história, pois estaria-se trabalhando
com números e dados quantitativos. Durante a Segunda Guerra Mundial, o foco da
revista passou para a história social, mas a partir de 1946 ela foi recobrando o espaço
dado a história econômica.

Por fim, a curta duração ou o "tempo individual", foi chamada de história


factual ou história pessoal. Aqui Braudel dizia que se encontrava a "história
tradicional", uma história voltada para contar os "grandes acontecimentos" (factual)
e os "grandes homens" (pessoal). O tempo dessa história se passa de forma breve e
rápida, podendo durar horas, dias, semanas, meses ou anos. Revoltas, revoluções,
guerras, invasões, atentados, declarações, decretos, discursos, etc., seriam
acontecimentos que exprimem essa ideia de brevidade, de se tratar a História como
um "conjunto de eventos" costurados numa colcha temporal.

"A parte mais tradicional, a terceira, parece corresponder à idéia original de Braudel
de uma tese sobre a política exterior de Felipe II. Ele oferece aos seus leitores
um trabalho altamente profissional de história política e militar. Traça breves mas
incisivos esboços do caráter dos atores principais da cena histórica, do Duque de
Alba, “esse falso grande homem”, “de mente estreita e curta visão política”, ao seu
senhor Felipe II, lento, “solitário e discreto”, cauteloso e perseverante, um homem
que “via sua tarefa como a sucessão infindável de pequenos detalhes”, mas ao qual
faltava uma visão do todo. São descritos com vagar a batalha de Lepanto, o cerco e
a libertação de Malta, e as negociações de paz do final da década de 1570". (BURKE,
1992, p. 60-61).

"Para mim, a história e a soma de todas as histórias possíveis - uma coleção de


misteres e de pontos de vista, de ontem, de hoje, de amanhã. O único erro ao meu
ver, seria escolher uma dessas histórias com a exclusão das outras. Foi e seria o erro
historizante". (BRAUDEL, 1978, p. 53).

"Como poucos livros anteriores, se é que algum o fez, O Mediterrâneo torna seus
leitores conscientes da importância do espaço na história. Braudel consegue
isso fazendo do mar o herói de seu épico, e não uma unidade política como o Império
Espanhol, deixando abandonada uma personagem como Felipe II – e também pela
constante repetição da importância da distância e da comunicação". (BURKE, 1992,
p. 71).

As ideias sobre temporalidade de Braudel foram bastante atrativas por vários anos,
mas hoje em dia, sua noção de longa duração está praticamente em desuso. Os
historiadores hoje preferem trabalhar com a curta duração e a média duração, mas
sob metodologias diferentes das quais eram aplicadas na época de Braudel. Além
disso, há também o fato que recortes menores ajudam a se aprofundar mais nos
temas, pois um dos problemas dos recortes em longa duração, é que não se tem
como realizar um trabalho profundo e específico, pois o torna inviável devido a
abrangência de informações e possibilidades a se levar em consideração.

"A segunda, bem mais útil, é a palavra estrutura. Boa ou má, ela domina os
problemas da longa duração. Por estrutura, os observadores do social entendem uma
organização, uma coerência, relações bastante fixas entre realidades e massas
sociais. Para nós, historiadores, uma estrutura é sem dúvida uma articulação,
arquitetura, porém mais ainda, uma realidade que o tempo utiliza mal e veicula mui
longamente. Certas estruturas por viverem muito tempo tornam-se elementos
estáveis de uma infinidade de gerações: atravancam a história, incomodam-na,
portanto, comandam-lhe o escoamento". (BRAUDEL, 1978, p. 49).

Não obstante, a ideia de estrutura concebida por Braudel e


posteriormente adotada também doestruturalismo antropológico, especialmente
de Claude Lévi-Strauss, fato esse que levou a um distendimento entre os dois, pois
Lévi-Strauss passara a alegar que o conceito de estrutura utilizado por Braudel
advinha do campo da antropologia, e ao mesmo tempo, a sua teoria da longa duração
não era algo claro. Braudel em resposta, escreveu História e Ciências Sociais: a longa
duração (1958) em resposta a esse questionamento de Lévi-Strauss.

Contudo o estruturalismo, seja ele braudeliano ou straussiano, limitava a ação de


estudo, pois a macro-abordagem em muitos casos torna inflexível a pesquisa do
historiador ou do antropólogo, embora que Braudel defendesse que essas estruturas
pelo contrário, auxiliariam na pesquisa história, contudo nem todos os temas, objetos
de estudos se encaixam nessas estruturas, nestas macro-abordagens. Quando
adentrarmos a terceira geração ficará mais claro o porque dessa gradativo abandono
da longa duração.

A cultura material:

Vimos que Braudel foi um adepto da "história das civilizações", assim como Duby,
Vouvelle e Mandrou escreveram acerca da "história das mentalidades", mas outro
aspecto que também marca essa segunda geração, é o aumento dado a cultura
material, algo iniciado na primeira geração com estudos econômicos, mas apenas
realmente salientado a partir da segunda geração. Braudel ora e outra faz referências
a cultura material em seus livros e artigos.

"Durante esses anos dedicados às atividades de organizador, 1949-1972,


Braudel trabalhou num segundo estudo ambicioso. Muitos historiadores franceses,
depois dos longos anos de pesquisa e de elaboração necessários para escrever a
exaustiva tese doutoral, instrumento fundamental de sucesso acadêmico, optam por
uma vida comparativamente pacífica, nada produzindo anão ser artigos e textos
escolares. Não Braudel. Logo depois da publicação de O Mediterrâneo, Lucien Febvre
convidou-o a participar de um outro grande projeto. A idéia era escreverem uma
história da Europa, em dois volumes, abrangendo o período de 1400 a 1800.
Febvre responsabilizar-se-ia pelo “pensamento e crença” e Braudel ficaria com a
história da vida material. Febvre ainda não escrevera sua parte quando de sua morte
em 1956; Braudel escreveu a sua em três volumes, entre 1967 e 1979, sob
o título Civilization matérelle et capitalisme". (BURKE, 1992, p. 77).

"Sua preocupação nos três volumes está mais ou menos concentrada nas categorias
econômicas do consumo, distribuição e produção, nessa ordem, mas ele
prefere caracterizá-las de maneira diferente. A introdução ao primeiro volume
descreve a história econômica como um edifício de três andares. No andar térreo,
está a civilização material – a metáfora não está longe da “base” de Marx – definida
por “ações recorrentes, processos empíricos, velhos métodos e soluções manipuladas
desde tempos imemoriais”. No andar intermediário, há a vida econômica “calculada,
articulada, emergindo como um sistema de regras e necessidades quase naturais”.
No andar superior – para não dizer superestrutura – existe o “mecanismo capitalista”,
o mais sofisticado de todos (Braudel, 1979a, pp. 23-26)". (BURKE, 1992, p. 78).

"Existe paralelo óbvio entre as estruturas tripartites de O Mediterrâneo e


da Civilisation et Capitalisme. Em ambos os casos, a primeira parte trata da história
quase imóvel, a segunda, das mudanças estruturais institucionais lentas e a terceira,
de mudanças mais rápidas – eventos no primeiro livro, tendências no outro".
(BURKE, 1992, p. 78).

Essa volumosa obra dividida em três volumes procura contar a história do capitalismo
desde o chamado "capitalismo mercantilista" do século XV até chegar ao "capitalismo
industrial" do século XVIII, durante a Revolução Industrial na Inglaterra. Embora o
foco da obra se der sobre a Europa, Braudel explorou bastante as relações
econômicas com a Ásia, passando pelo Oriente Médio, Índia e China. Nestes livros,
ele aborda vários aspectos dos mercados europeus, asiáticos e um pouco dos
africanos, mostrando as relações de consumo e produção e o uso desses produtos na
sociedade.

"Como em relação ao espaço, Braudel em seus temas subverte as fronteiras


tradicionais da história econômica. Deixa de lado as categorias tradicionais de
“agricultura”, “comércio” e “indústria”, e observa, substituindo-as, “a vida diária”, o
povo e as coisas, “coisas que a humanidade produz ou consome”, alimentos,
vestuários, habitação, ferramentas, moeda, cidades... Dois conceitos básicos
subjazem a esse primeiro volume, um deles, “vida diária”, o outro, “civilização
material”". (BURKE, 1992, p. 79-80).

"Na introdução à segunda edição, declara que o objetivo de seu livro era nada menos
do que “a introdução da vida cotidiana no domínio da história”. Não foi, é claro,
o primeiro historiador a tentar.La civilization quotidienne era o título de um dos
volumes da Encyclopédie Française de Lucien Febvre, para o qual Bloch contribuiu
com um ensaio sobre a história da alimentação". (BURKE, 1992, p. 80).

Braudel além de ser chamado de o "historiador do mar", também pode ser chamado
de o "historiador do capitalismo". Além de seu livro Civilização Material, Economia e
Capitalismo (1979), ele também escreveu A Dinâmica do Capitalismo (1985),
como também alguns artigos sobre o assunto.

A história quantitativa - economia e demografia nos Annales:

Ernest Labrousse
Peter Burke [1992] chama atenção do papel da história econômica na segunda
geração dos Annales, especialmente os trabalhos de Ernest Labrousse como já
mencionado aqui. Burke fala que os estudos ligados ao preço ("história dos preços"),
taxas, câmbios, ciclos econômicos, dados demográficos, foram determinantes para
essa "revolução quantitativa".

"Foi com Labrousse que o marxismo começou a penetrar no grupo dos Annales. O
mesmo ocorreu com os métodos estatísticos, pois Labrousse foi incentivado
pelos economistas Albert Aftalion e François Simiand a empreender um rigoroso
estudo quantitativo da economia francesa do século XVIII, publicado em duas
partes: Esquisse (1933), sobre os movimentos dos preços de 1701 a 1817, e La crise
de l’économie française à la fin de l’Ancien Régime et au début de la
Revolution (1944), sobre o fim do antigo regime. Estes livros, saturados de gráficos
e tabelas, referem-se a movimentos de longa duração e a ciclos de curta duração,
“crises cíclicas” e “interciclos”. Labrousse, muito engenhoso em encontrar maneiras
de mensurar as tendências econômicas, utilizou conceitos, métodos e teorias
de economistas como Juglar e Kondratieff, preocupados respectivamente com os
ciclos econômicos de curta e longa duração; e de seu professor Albert Aftalion, que
escrevera sobre crises econômicas". (BURKE, 1992, p. 91).

"A história da população foi a segunda grande conquista da abordagem quantitativa,


depois da história dos preços. O surgimento da história demográfica deu-se na
década de 50, e isso se deve à consciência da explosão populacional mundial, da
mesma forma que a história dos preços na década de 30 está intimamente
relacionada ao craque financeiro. O desenvolvimento dessa área de estudo foi, pelo
menos na França, o resultado tio trabalho conjunto de demógrafos e historiadores.
Louis Henry, por exemplo, que trabalhava no Institut National d’Études
Demographiques(INED), transferiu, na década de 40, sua atenção dos estudos
da população atual para a população do passado. Desenvolveu o método da
“reconstituição familiar”, que vincula os registros de nascimentos, casamentos e
mortes, investigando uma região e um período, através do estudo de casos de
famílias em Gênova, Normandia, e outras partes". (BURKE, 1992, p. 94).

Pierre Goubert
No campo da história demográfica, Pierre Chaunu e Pierre Goubert foram seus
principais representantes ligados aos Annales. Como vimos, Chaunu teve influência
das obras de Labrousse, Simiand e de Braudel, no caso de Goubert, seu
trabalho Beauvais et le Beauvaisis de 1600 à 1730, embora tenha sido uma obra
de história social, influenciou as perperctivas demográficas, sociais e econômicas de
Braudel, Labrousse e outros estudiosos do século XX. Goubert se tornou colaborador
dos Annales durante as três gerações. É considerado por alguns como um dos
principais responsáveis pela introdução dos estudos demográficos durante a primeira
geração.

"Ele fez mais, contudo, do que demonstrar a relevância para os beauvisianos do que
veio a se tornar a interpretação ortodoxa da recessão econômica e da crise
demográfica, no século XVII. Deu considerável ênfase no que chamou “demografia
social”, isto é, no fato de que as chances de sobrevivência variavam de um grupo
social para outro. Considerou seu estudo uma contribuição à “história
social”, uma história preocupada com todos, não somente com o rico ou com o
poderoso, um aspecto reiterado em sua obra posterior, Louis XIV et vingt millions de
français (1966)". (BURKE, 1992, p. 96).

"A parte mais interessante do livro, a meu ver, são os capítulos sobre a sociedade
rural e a sociedade urbana, sobre o mundo da produção têxtil em Beauvais, por
exemplo, ou sobre os camponeses ricos, médios e pobres. Esse cuidadoso estudo das
diferenciações sociais e das hierarquias sociais, que Goubert, posteriormente,
ampliou num ensaio sobre o campesinato francês do século XVII, é um
excelente corretivo para qualquer visão simplista da sociedade do antigo regime
(Goubert, 1982)". (BURKE, 1992, p. 96-97).

Unindo-se a ideia de estrutura e geografia (geo-história) de Braudel, com o conceito


de conjectura de Labrousse, também adotado por Chaunu, agora somando-se aos
estudos demográficos e ruralistas de Goubert, vemos na segunda geração um
crescimento de estudos geográficos e demográficos, algo que de certa forma
surpreende alguns, pois geralmente pensamos que a segunda geração foi marcada
apenas pela "história das civilizações", tendo Braudel como principal representante
nosAnnales.

Braudel e Labrousse orientaram vários trabalhos relacionados a Idade Moderna, se


estudando o social, o econômico e o demográfico. No caso de Georges Duby, ele
realizou trabalhos desse caráter, mas voltado para a Idade Média, pois devemos nos
lembrar que Braudel, Labrousse e Goubert eram especialistas na Idade Moderna, mas
Duby era um medievalista assim como foi Bloch.

"A maioria desses estudos locais foi orientada por Braudel ou Labrousse, e tinham
por objeto o início da época moderna. Houve exceções, contudo, a essas regras.
O medievalista Georges Duby foi um dos primeiros a escrever uma monografia sobre
a propriedade, a estrutura social e a família aristocrática na área de Mâcon nos
séculos XI e XII. A monografia de Duby era supervisionada por Charles Perrin, um
antigo colega de Bloch, e tinha como fonte a geografia histórica". (BURKE, 1992, p.
98).

Nesse aspecto como Burke [1992] dissera, os anos 60 nos Annales foram marcados
por trabalhos monográficos de cunho regional e local, relacionados a história
econômica e demográfica. Além dos nomes citados acima, Ladurie, Vovelle e Vilar
também foram alguns membros dos Annales que produziram obras regionalistas
nestes aspectos por essa época, embora que a obra de Ladurie rompeu com algumas
características tradicionais vigentes na época, e a obra de Vilar teve foco não na
França, mas sim na Catalunha e na Espanha em si.

Pierre Vilar
Pierre Vilar (1906-2003) escreveu sobre economia, política e sociedade na Espanha
moderna, tornando-se um dos principais historiadores em seu tempo em referência
aos estudos. De vertente marxista, ele introduziu em suas obras a influência dessa
vertente, ao mesmo tempo, influenciado pela longa duração braudeliana e a "história
total" de Febvre, Vilar escreveu livros abordando séculos de extensão, estudando
estruturas econômicas e sociais na Espanha, na Europa, no Mediterrâneo e no
Atlântico. O seu livro Ouro e Moeda na História: 1450-1920 (Oro e Moneda en la
Historia: 1450-1920), esboça o uso das metodologias assimiladas dos Annales.

"Se vamos às atas do Primeiro Congresso de História Econômica, realizado em


Estocolmo em 1960, nos defrontamos com a afirmação de Pierre Vilar, segundo a
qual “o crescimento humano, seus saltos, suas hesitações, suas desigualdades, seus
conflitos, requerem, pois, na verdade, uma análise histórica global, não uma análise
muito segura de si mesma no que se refere aos mecanismos econômicos ‘puros’
(...)”. A observação de Vilar adquire todo seu sentido quando
identificamos seu interlocutor nesta passagem dos anos 50 para a década seguinte:
a então emergente tendência que, já o vimos, no interior da história econômica,
privilegiava de forma unilateral e atemporal as pesquisas acerca de fatores como
capital, força de trabalho e tecnologia. Dito de outro modo, o alvo aqui era
uma quantificação sistemática de aspectos que, embora parciais em si mesmos,
prestavam-se à elaboração de teorias pretensamente globalizantes". (FRAGOSO;
FLORENTINO, 1997, p. 61-62).
Nos estudos regionais produzidos pelo círculo dos Annales, há uma
importante exceção na ênfase atribuída às estruturas socioeconômicas e à
conjuntura. A tese doutoral de Emmanuel Le Roy Ladurie, Les paysans de
Languedoc (1966), engaja-se na “aventura”, como diz seu autor, “da história total”,
num período de mais de duzentos anos (Le Roy Ladurie, 1966, p.11).

"Aceite-se ou não o modelo explicativo do autor, Les paysans de Languedoc impõe


admiração por sua vitoriosa e incomum combinação de meticulosa história
quantitativa e econômica com uma história política, religiosa e
psicológica, brilhantemente impressionista. Vendo esse estudo vinte anos depois de
sua publicação, agora está claro que Le Roy foi o primeiro a notar as insuficiências
do paradigma braudeliano e a trabalhar para modificá-lo. Essas modificações, em
grande parte obra da terceira geração dos Annales, são o tema do próximo capítulo".
(BURKE, 1992, p. 105-106).

A crise de 1968:

Os anos 60 foram uma década conturbada do breve século XX. Durante esses dez
anos alguns acontecimentos de nível regional e mundial causaram impactos nos
âmbitos sociais, políticos, legais, econômicos, culturais, ideológicos, etc. Enumerar
todos os acontecimentos importantes é algo extenso, mas citarei alguns destes.
 Yuri Gagarin se tornou o primeiro homem a ir ao espaço (1961);
 Início da construção do Muro de Berlim (1961);
 Guerra colonial portuguesa (1961-1974);
 Fim da Guerra da Argélia (1956-1962): Os franceses perderam sua colônia
africana, e a Argélia se tornou independente;
 Concílio Vaticano II (1962): Presidido por João XXIII e Paulo VI;
 Crise dos misseis de Cuba (1962): por pouco não se iniciou uma Terceira
Guerra Mundial;
 Movimento pan-africanista pela independência das colônias europeias em
África (1950-1980);
 Embargo econômico de Cuba feito pelos Estados Unidos (1963);
 Assassinato de John F. Kennedy (1963);
 Discurso "I have a dream" de Martin Luther King Jr. (1963);
 Nelson Mandela é preso por liderar e organizar grupos contra o Apartheid
(1963);
 Instauração de ditaduras militares nas América Latina, Europa, África e Ásia;
 Assassinato de Malcom X (1965);
 Revolução Cultural Chinesa de Mao Tsé-tung (1966-1976);
 Assassinato de Che Guevara (1967);
 Guerra dos Seis Dias (1967): Conflito que pois Israel contra o Egito, Síria,
Jordânia, Iraque, etc.
 Guerra Civil na Nigéria (1967-1970): mais de um milhão de mortos;
 Massacre de Tlateloco (1967): Vários estudantes foram assassinados durante
uma passeata nesta cidade mexicana;
 Assassinato de Martin Luther King Jr (1968);
 Primavera de Praga (1968): Revolta para se libertar a Checoslováquia do
domínio da URSS;
 Chegada do homem à Lua (1969);
 França e Estados Unidos abandonam a Guerra do Vietnã (1956-1975) ainda
nos anos 60;
 Festival de Woodstock (1969);
 Movimento hippie;
 Onda de protestos pelos Estados Unidos, Europa e América Latina contra as
políticas neoliberalistas, a crise do sistema capitalista, a opressão das ditaduras, etc.;
 Aumento de movimentos estudantis na América Latina e Europa: Brasil,
Argentina, Chile, México, França, Inglaterra, Itália, Alemanha, Polônia, Iugoslávia e
Ucrânia são tomados por várias manifestações estudantis;
 A China rompe com a URSS;
 Judeus voltam a ser expulsos da Polônia;
 Movimento literário e cultural indiano chamado "Geração com Fome";
 Greves universitárias na América Latina e Europa;
 Lutas pelos direitos humanos em todo mundo, em resposta aos crimes de
guerra e aos crimes cometidos pelas ditaduras;
 Lutas pelos direitos civis em todo o mundo;
 Expansão da televisão em cores;
 Popularização do cinema hollywoodiano no Ocidente;
Após essa breve lista podemos ver como os anos 60 foram conturbados, foram uma
fase de mudanças, algumas eu diria mesmo que extremas. No caso da França, o ano
de 1968 foi marcado por vários protestos estudantis principalmente em Paris, onde
universidades como a Sorbonne e Nantarre chegaram a ter suas atividades
paralisadas. Grupos de estudantes chegaram a fazerem barricadas na rua e entrar
em conflito com a polícia. Os estudantes protestavam pelo fim da Guerra do Vietnã,
protestavam por melhorias na educação, nos direitos civis, na oportunidade de
emprego, por condições sociais; por liberdade de expressão (movimento de
contracultura, algo visto em vários outros países), etc.

"O furacão de maio de 1968 atingia os Annales. Os combates eram históricos:


confrontava-se com o Governo em torno de reformar educacionais; de outro, contra
os estudantes e os professores secundários". (SILVEIRA, 2010, p. 39).

"Mas, especificamente a VI Seção da HPHE houve fraturas internas diante do


acontecimento. Braudel via no movimento como iconoclasta e libertário, denotando
não uma revolução política, mas uma crise da civilização, que desvalorizava o
trabalho, a cultura, os valores. Não aceitava a imputação à cultura vigente de
equivalência aos valores das classes dominantes e nem a imputação à universidade
de aparelho ideológico de Estado, perspectiva essa derivada da concepção
althusseriana. Reconhecia a esclerose da universidade quanto ao ensino, mas temia
que o movimento estudantil pudesse impedir sua renovação". (SILVEIRA, 2010, p.
39 apud DAIX, 1991, p. 501-502).

Embora tenha sido ligado ao governo francês pelo menos no âmbito das políticas de
educação, Silveira [2010] fala que Braudel nem por isso se mostrou engajado nas
manifestações de maio de 1968. Ele meio que se manteve neutro nesses protestos,
pois via que as revoltas não eram organizadas, não aparentavam ter uma ordem,
mas apenas um surto caótico de estudantes enfurecidos ou se deixados por levar
pela efervescência do momento. Embora se mostra-se opositor ao controle do
governo sobre as universidades, Braudel reivindicava maior autonomia das
universidades perante o Estado, mas não negava sua atenção a uma sociedade
hierarquizada não no sentido de classes sociais, mas numa estrutura de poder.

Fernand Braudel
No mesmo ano diante dessas mudanças vistas ao longo de 1968 em França e
ocorridas no mundo nestes últimos anos, Braudel discordando do futuro dos estudos
históricos, pois havia uma crise não apenas na história política, mas agora também
na história social e na história econômica, Braudel viu que as tendências cambiavam
para um aspecto já explorado pelos Annales nesta segunda geração, mas que
cresceria muito a partir dos anos 60, a história cultural. Pelo fato dele não ser muito
chegado a história cultural, preferiu se afastar da direção dos Annales. Braudel
passaria os anos seguintes escrevendo novos livros, artigos, além de ainda trabalhar
como professor e participar de eventos acadêmicos.

Com a saída dele da direção, os Annales iniciava sua terceira geração a qual seria
bastante marcada pela história cultural.

TERCEIRA GERAÇÃO (1968-1989)

"A terceira geração se constitui a partir de 1968 e foi dirigida por vários
pesquisadores, não apresentando assim uma marca pessoal, tal como nas anteriores
fases. Uma de suas formas mais visíveis foi como história das mentalidades, que terá
seduzido uma geração com seus acenos de profundezas: a 'reconstituição de
comportamentos, expressões e silêncios que traduzem concepções do mundo e as
sensibilidades coletivas, as representações de imagens (da natureza, da vida e das
relações humanas, deus) mito e valores, todos parte de uma psicologia coletiva', tal
como expressa por R. Mandrou [1988]". (PORTO, 2010, p. 134).

"O surgimento de uma terceira geração tornou-se cada vez mais óbvio nos anos que
se seguiram a 1968. Em 1969, quando alguns jovens como André Burguière e
Jacques Revel envolveram-se na administração dos Annales, em 1972, quando
Braudel aposentou-se da Presidência da VI Seção, ocupada, em seguida, por Jacques
Le Goff; e em 1975, quando a velha VI Seção desapareceu e Le Goff tornou-se o
Presidente da reorganizada École des Hautes Études en Sciences Sociales, sendo
substituído, em 1977, por François Furet". (BURKE, 1992, p. 107).

Uma geração policêntrica:

Muitos historiadores que estudam ou estudaram a terceira geração dos Annales


praticamente são unânimes em se dizer que embora a história cultural tema crescido
bastante nessa fase, não significa que todos os "annalistes" compartilhassem esse
mesmo ponto de vista. Silveira [2010] e Burke [1992] apontam que havia diferentes
segmentos de estudos históricos na "Escola dos Annales" da terceira geração, onde
alguns historiadores eram mais conservadores em relação as tendências adotadas
pelas gerações anteriores, enquanto outros eram mais "flexíveis" a se enveredar-se
por novas tendências, essas ligadas a história cultural a qual começava a despontar
nos anos 60 e nas duas décadas seguintes como alegara Burke [2008].

"Deve-se admitir, pelo menos, que o policentrismo prevaleceu. Vários membros do


grupo levaram mais adiante o projeto de Febvre, estendendo as fronteiras da história
de forma a permitir a incorporação da infância, do sonho, do corpo e, mesmo, do
odor. Outros solaparam o projeto pelo retorno à história política e à dos eventos.
Alguns continuaram a praticar a história quantitativa, outros reagiram contra ela".
(BURKE, 1992, p. 108).

Parte dos novos "annalistes" não viviam em França, mas viviam nos Estados Unidos,
Inglaterra, Itália, Espanha, Alemanha, etc., viveram por poucos anos ou há bastante
tempo, mas se tornaram colaboradores da revista e até mesmo seus membros. A
partir destes distintos lugares, estes historiadores propuseram ampliar a
interdisciplinaridade dos estudos históricos realizados nosAnnales. Procuraram se
aproximar da psico-história e da "nova história econômica" ambas
desenvolvidas nos Estados Unidos; a história da cultura popular em evidência na
Inglaterra, aantropologia simbólica, em evidência na própria França; a história
das mulheres, praticada em várias locais da Europa, etc.

"O centro de gravidade do pensamento histórico, porém, não está mais em


Paris, como seguramente esteve entre os anos 30 e 60. Inovações semelhantes
acontecem mais ou menos simultaneamente em diferentes partes do globo".
(BURKE, 1992, p. 109).

A historiadora brasileira Rosa Maria Godoy Silveira, a quem tive a oportunidade de


conhecer e assistir algumas palestras, redigiu uma breve análise das tendências
adotadas pelos "annalistes" dessa terceira geração:
 Constante busca da interdisciplinaridade, na direção de outras ciências
sociais, resultando em alianças com novos campos do saber: linguística, literatura,
arte, ciências (naturais), cinema, multiplicando os objetos. O próprio tempo presente
se torna objeto, assim como aprática dos historiadores, seus condicionantes
epistemológicos, a relação com o seu tempo, as repercussões da produção
historiográfica, em suma, a própria história-conhecimento ou cultura historiográfica
é teorizada;
 Interesse da pesquisa histórica deslocado para o estudo das estruturas
mentais, em sua multiplicidade, heterogeneidade e dispersão;
 Busca de foros de cientificidade à história, dando continuidade à posição da
1a e 2a gerações, agora alimentado pelo uso do computador na pesquisa histórica e
uma aproximação com as ciências naturais. Mantém-se a rejeição às filosofias da
História como racionalização do social; recusam-se as finalidades marxistas, as
abstrações weberianas e as intemporalidades estruturalistas straussianas;
 Abandono da orientação para a construção da totalidade histórica,
inacessibilidades. Desliza-se para o que Foucault, denomina de história geral,
abordada por parte, conceitualmente, e (pretensamente) sem juízo d valor de sentido
teleológico ("dever ser"), que introduziam um futuro no passado;
 A pluralidade dos sistemas explicativos: não há um denominador ideológico
comum. É mantida em comum a concepção de uma História inscrita na longa
duração. Le Goff arvora uma história escrita por homens livres para homens livres
ou em busca de liberdade (REIS, 2000, p. 120);
 A memória, de suporte à operação histórica, passa a ser, ela própria, um dos
seus objetos, sobre o qual elabora, a partir das proposições foucaultianas, o conceito
de documento-monumento. A penetração da história pela antropologia implica em
certa recusa ao documento escrito, derivada da recusa à tirania do evento e da
linearidade de perspectiva;
 Temporalização dos fatos históricos orientada pela história estrutural e a
história serial: a recusa ao evento se radicaliza ao ponto de uma 'história imóvel', de
uma 'História sem os homens', levando - como um Ladurie (história do clima) - ao
paroxismo a orientação original dos fundadores: do tempo longo e da estrutura:
desliza-se para o imobilismo, a exacerbação das continuidade e permanências, o
estudo cientificamente conduzido à ciência exata, quantificada, lógica, capaz de
previsões;
 A estruturalização da História implica no descentramento do Homem, posto
desde os fundadores, ampliado na 2a geração com Braudel e ainda mais aprofundado
na 3a fase, com o estruturalismo.
A partir desses apontamentos feitos por Rosa Godoy podemos notar a ideia de
policentrismo sugerida anteriormente. Para Dosse [1992] foi a partir dessas
tendência acima mencionada que Braudel teria pedido afastamento dos Annales,
declarando sua aposentadoria, pois a ideia de estrutura e conjuntura foi
gradativamente sendo abandona por parte dos "annalistes", assim como a longa
duração foi sendo substituída pela média duração e a curta duração, sendo essa
última influenciada pela micro-história, da qual falarei mais a frente. Ao mesmo
tempo, Burke [1992] e Vainfas [1997] assinalam que com a mudança na diretoria
das revista, tendo Jacques Revel e André Burguière na direção, e posteriormente
em 1972, Le Goff assumiria a direção da Seção VI da Escola Prática de Altos Estudos,
instituição ligada aos Annales, a tendência aos estudos das "história das
mentalidades" foi apenas crescer, daí usar-se a expressão "do porão ao sótão", pois
anteriormente a "história das mentalidades foi marginalizada nas gerações
anteriores, agora se tornava o centro das atenções.

Além disso, houve também o que Rosa Godoy chamou de "retorno ao político", neste
caso, trataria-se de um interesse pela história política, renegada pelas duas gerações
anteriores. Não obstante, a tendência de uma história quantitativa embora tenha sido
tentada a ser adaptada a história cultural, os historiadores preferiram manter a
tendência de uma "história serial", mas com base nas perspectivas de Michel
Foucault, assim como um apoio conceitual na antropologia histórica,
especialmente na conceituação da palavra cultura.

Velhas e novas caras nos Annales:

Para entendermos melhor essa característica policêntrica e dispersa, ao ponto de


François Dosse dizer que a terceira geração escreveu uma "história em migalhas",
devido a esse caráter pouco coeso e até mesmo como ele sugerira, certa indiferença
entre os "annalistes", pois como foi dito, uns preferiram se manter mais fiéis as
gerações anteriores e seus métodos e teorias, enquanto outros alegavam a
necessidade de se investigar e estudar as novas tendências vigentes, especialmente
nesse período conhecido como "virada cultural", ou "virada linguística",
ou "virada antropológica" como falara Burke [1992; 2008] e entre outros.

Nessa "virada" mencionada por Burke, ele apontara que entre os nomes da
antropologia da época, o que causou grande impacto para essa nova perspectiva
foi Clifford Geertz (1926-2006). Anteriormente tal lugar era ocupado por Lévi-
Strauss, fato esse que Le Goff e Duby foram influenciados pelo seu trabalho sobre
mitologia dos povos ameríndios. Contudo, o conceito de cultura proposto por Geertz
além de outros conceitos por ele desenvolvidos influenciou uma nova leva de
historiadores em estudos sociais e culturais.

Emmanuel Le Roy Ladurie


Um dos primeiros historiadores a se mencionar aqui diz respeito a Emmanuel Le Roy
Ladurie que atualmente ainda estar vivo. Ladurie como vimos, uniu-se aos Annales
ainda durante a segunda geração, tendo sido orientando de Braudel, além de realizar
trabalhos de "história quantitativa" sob a orientação e supervisão de Braudel, a quem
ele admirava. Alguns desses trabalhos já foram mencionados aqui, contudo, embora
fosse um adepto da história social, econômica e demográfica, estas representadas
pela "história quantitativa", Ladurie também realizou trabalhos envolvendo a longa
duração, como sua "história do clima", mas durante a terceira geração ele decidiu
ingressar no estudo da "história das mentalidades" depois que descobriu fontes que
permitiram mudar sua proposta inicial de pesquisa. No início dos anos 70, já ciente
das mudanças ocorridas nos Annales e na cultura histórica e historiográfica da época,
Ladurie procurava por fontes para um estudo de caráter quantitativo sobre a região
de Languedoc no sul da França, mas acabou se deparando com os relatos
inquisitoriais do bispo Jacques Fournier (c. 1285-1342) o qual se tornaria o papa
Bento XII.

"Montaillou é uma aldeia em Ariége, sudoeste da França, região em que a heresia


cátara teve influência considerável, em princípios do século XIV. Os heréticos locais
foram processados, interrogados e punidos pelo bispo local, Jacques Fournier. Os
registros dos interrogatórios sobreviveram e foram publicados em 1965. Foi, sem
dúvida, o interesse de Le Roy pela antropologia social que lhe permitiu ver o valor
dessa fonte, não somente para o estudo dos cátaros, mas também para a história
rural francesa". (BURKE, 1992, p. 130-131).

A partir dos relatos inquisitoriais de Fournier que revelavam aspectos sociais e


culturais da vila de Montaillou em Languedoc, Ladurie fascinado com aquele "pequeno
mundo medieval" de um vilarejo occitânico, decidiu mudar sua pesquisa e analisar
os documentos inquisitoriais assim como conhecer o contexto social e cultural
daquele povoado, e porque pelo menos vinte cinco pessoas foram investigadas pela
Inquisição Episcopal da região. O resultado dessa pesquisa tornou-se público
em1975 com o livro: Montaillou village occitan de 1294 à 1324. Um livro que
fizera bastante sucesso na época, e também foi considerado por Burke [2008] como
a primeira obra ligada aos Annales com tendência a micro-história.
"Ele notou que vinte e cinco indivíduos, cerca de um quarto dos suspeitos
arrolados, procediam da mesma aldeia. Sua inspiração foi tratar os registros como
se fossem gravações de um conjunto de entrevistas com esses vinte e cinco
indivíduos, mais ou menos dez por cento da população da aldeia. Tudo o que tinha
de fazer, diz-nos Ladurie, era re-ordenar a informação fornecida aos inquisidores,
pelos suspeitos sob a forma de um estudo de comunidade do tipo que os
antropólogos escrevem freqüentemente. Dividiu-o em duas partes. A primeira
trabalha com a cultura material de Montaillou, as casas, por exemplo, construídas de
pedras sem argamassa, permitindo aos vizinhos observar e ouvir uns aos
outros, através das fendas. A segunda parte do livro se preocupa com as
mentalidades dos aldeões – seu sentido de tempo e espaço, infância e morte,
sexualidade, Deus e natureza". (BURKE, 1992, p. 131).

"Montaillou é também um estudo de história social e cultural ambicioso. Sua


originalidade não reside nas questões postas, que, como já vimos, são as questões
propostas por duas gerações de historiadores franceses, incluindo Febvre(sobre o
ateísmo) e Braudel (sobre a casa), Ariès (sobre a infância), Flandrin (sobre a
sexualidade) e tantos outros. Le Roy foi um dos primeiros a usar os registros da
inquisição para a reconstrução da vida cotidiana e suas atitudes, mas não estava
sozinho nisso. A novidade de sua abordagem está em sua tentativa de escrever um
estudo histórico de comunidade no sentido antropológico – não a história de uma
aldeia particular, mas o retrato da aldeia, escrita nas palavras dos próprios
habitantes, e o retrato de uma sociedade mais ampla, que os aldeãos
representam. Montaillou é um primeiro exemplo do que viria a se chamar de
“microhistória”. Seu autor estudou o mundo através de um grão de areia, ou, em sua
própria metáfora, o oceano através de um gota de água". (BURKE, 1992, p. 131).

Podemos notar que o livro de Ladurie estudou um período da Idade Média, mas ele
não foi o único a dedicar obras ao medievo; Le Goff e Duby também fizeram isso.
Assina-lo tal aspecto, pois durante a segunda geração, Braudel prezou muito
pesquisar-se a Idade Moderna, especialmente os séculos XVII e XVIII. Além dele,
Labrousse e outros annalistes como o próprio Ladurie também dedicaram-se a
modernidade. Le Goff e Duby que já também adentraram os Annales nos anos 60,
mantiveram-se ligados ao medievo, assim como Bloch fizera anteriormente. No caso
dos dois como já mencionado, o foco dado foi a "história das mentalidades".

"A partir do maio de 1968 catalisaram-se posições que vinham se desenvolvendo


pelo menos desde meados dos anos 60, e autores como Jacques Le Goff e outros,
atuando de dentro dos próprios Annales, puseram em dúvida o predomínio
desses princípios. Mesmo profissionais que, no início de suas carreiras, haviam se
transformado em historiadores econômicos de peso, como Georges Duby e
Emmanuel Le Roy Ladurie, autores de clássicos como Guerreiros e camponeses e Os
camponeses do Languedoc, acabaram por voltar-se integralmente para
outros campos de estudo, como o das estruturas mentais". (FLORENTINO, 1997, p.
56).

Jacques Le Goff
Le Goff sofisticou as generalizações de Febvre, elas mesmas um pouco imprecisas, e
discutiu o conflito entre as concepções do clero e as dos mercadores. Sua
contribuição mais substancial, contudo, para a história das mentalidades, ou à
história do “imaginário medieval”, como agora denomina, foi realizada vinte
anos depois com a publicação do La naissance du Purgatoire, uma história das
mudanças das representações da vida depois da morte. Segundo Le Goff, o
nascimento da idéia de Purgatório fazia parte da “transformação do cristianismo
feudal”, havendo conexões entre as mudanças intelectuais e as sociais. Ao mesmo
tempo, insistia na “mediação” de “estruturas mentais”, de “hábitos de pensamento”,
ou de “aparatos intelectuais”, em outras palavras, de mentalidades, observando que,
nos séculos XII e XIII, surgiram novas atitudes em relação ao tempo, espaço e
número, inclusive o que ele chamava do “livro contábil da vida depois da morte”.

Le Goff também foi um admirador de Braudel e até mesmo seu "discípulo" como foi
Ladurie. Além disso, ambos chegaram a serem diretores da revista ou pertencerem
ao grupo da direção. São dois nomes bastantes conhecidos da terceira geração.

Georges Duby
No caso de Georges Duby (1919-1996), assim como Le Goff e Ladurie, ele ingressou
durante a segunda geração, tendo como influência nem tanto Braudel, mas sim
Bloch. Duby escreveu artigos e outros trabalhos seguindo uma ideia parecida com a
vista em A sociedade feudal e em As características originais da sociedade rural
francesa, ambas obras escritas por Bloch e já mencionadas neste texto. Contudo
Duby começou a se enveredar mas para o lado da história cultural como Burke
[1992], procurando pensar o "imaginário social", a cultura material, as ideologias,
etc.

"Seu mais importante livro, Les trois ordres, em muitos aspectos, caminha
paralelamente ao livro de Le Goff, O Purgatório. Sua investigação recai sobre o que
autor denomina “as relações entre o mental e o material no decorrer da mudança
social, através do estudo de caso, a saber, o da representação coletiva da sociedade
dividida em três grupos, padres, cavaleiros e camponeses, isto é, os que rezam, os
que guerreiam e os que trabalham (ou lavram – o verbo latino laborare é
convenientemente ambíguo)". (BURKE, 1992, p. 118).

Duby foi um dos grandes nomes da terceira geração dos Annales, embora tenha sido
um medievalista escreveu sobre a Idade Moderna, e até mesmo atuou em parceria
em trabalhos sobre história urbana e história das mulheres.

Ainda na tendência dos estudos da "história das mentalidades" e "imaginário


social", Philippe Ariès(1914-1984) foi um dos nomes importantes nesta terceira
geração. Ariès estudou a educação, ensino, a ideia de infância no medievo e na
modernidade, o Antigo Regime, a família, etc.

"Foi realmente um historiador da geração de Braudel que despertou a atenção pública


para a história das mentalidades, através de um livro notável, quase
sensacional, publicado em 1960. Philippe Ariès era um historiador diletante, “um
historiador domingueiro”, como ele próprio se chamava, que trabalhava num
instituto de frutos tropicais, devotando seu tempo de lazer à pesquisa
histórica. Demógrafo histórico por formação, Ariès veio a rejeitar a perspectiva
quantitativa (da mesma maneira que rejeitou outros aspectos do mundo burocrático-
industrial moderno). Seus interesses direcionaram-se para a relação entre natureza e
cultura, para as formas pelas quais uma cultura vê e classifica fenômenos naturais
tais como a infância e a morte". (BURKE, 1992, p. 110).

Philippe Ariès
"Seus últimos anos foram dedicados a estudos sobre as atitudes perante a morte,
focalizando de novo um fenômeno da natureza refratado pela cultura, a cultura
ocidental, e atendendo a um famoso reclamo de Lucien Febvre, em 1941, “Nós não
possuímos uma história da morte” (Febvre, 1973, p. 24). Seu alentado
livro,L’Homme devant la mort, distingue, num panorama de seu desenvolvimento
sob uma muito longa duração, quase mil anos, uma seqüência de cinco atitudes, que
vão desde a “morte domada” da baixa Idade Média, uma visão definida com um
“compósito de indiferença, resignação, familiaridade e ausência de privacidade”, ao
que ele chama “morte invisível” (la mort inversée), de nossa própria cultura, na qual,
subvertendo as práticas vitorianas, tratamos a morte como um tabu e discutimos
abertamente o sexo (Ariès, 1977). L’Homme devant la mort tem os mesmos méritos
e defeitos do livro L’Enfant et la vie familiale sous l’Ancien Regime. Nele se encontram
a mesma audácia e a mesma originalidade, o mesmo uso de uma ampla variedade
de evidências, que inclui literatura e arte, mas não a estatística, e a mesma vontade
de não traçar cartas regionais ou sociais de diferenças". (BURKE, 1992, p. 112).

Jean Delumeau
Nesse âmbito de se estudar a morte, um historiador que começou a despontar nesta
geração foi Jean Delumeau, pois até aqui, os nomes citados acima, já estavam
ligados a revista desde a segunda geração. Delumeau seguiu um caminho
compartilhado por Ariès e Mandrou, o que Burke [1992] chamara de
"psicologia histórica". Mandrou havia deixado osAnnales após desentendimentos com
Braudel, mas acabou posteriormente retornando e seguindo nos estudos culturais,
tendo a psicologia como referência em seus estudos. No caso de Delumeau, ele
estudou a Idade Média e a Idade Moderna, estudando as "mentalidades" e
representações culturais ideológicas e o impacto destas nas sociedades europeias.
Um dos seus livros mais famosos é A história do medo no ocidente: 1300-
1800 (1978), obra na qual Delumeau estudou o medo e suas representações
culturais e ideológicas: Delumeau aborda o medo do mar, da escuridão, das florestas,
de monstros, de fantasmas, de demônios, da peste negra, do Apocalipse cristão, etc.
Ele realizou um trabalho sobre uma "psicologia do medo", mostrando que em muitos
casos o medo é uma tendência mais cultural do que natural.

"Outros membros do grupo dos Annales iam na mesma direção, especialmente Alain
Besançon, um especialista na Rússia do século XIX, que escreveu um longo ensaio
na revista sobre as possibilidades do que ele denominava “história psicanalítica”.
Tentou pôr em prática essas possibilidades num estudo sobre pais e filhos. O
estudo focalizava dois tzares, Ivã, o Terrível, e Pedro, o Grande, o primeiro matou
seu filho, e o segundo condenou o seu à morte (Besançon, 1968, 1971)". (BURKE,
1992, p. 116).

Marc Ferro
Na terceira geração também não podemos esquecer de antigos nomes como Michel
Vovelle e Pierre Nora, ambos já citados, contudo, temos também novos nomes a
citar, como Marc Ferro o qual tivera seu talento descoberto por Braudel, e na terceira
geração ganhou destaque, chegando a ser co-diretor da revista. Ferro é
principalmente lembrado neste período por sua empreitada em se unir o cinema e a
história, em se usar a cinematografia como fonte de estudo, assim como, meio para
se compreender a retratação do mundo e da História. Além de trabalhar com cinema,
Ferro também trabalha com a Segunda Guerra Mundial, Revolução Russa, história da
Rússia soviética, movimentos sociais, o papel da mídia na sociedade, etc. Marc
chegou a ter um programa de televisão semana chamado Histórias
Paralelas (Historie parallèle) onde abordava temas sobre o século XX. O programa
era transmitido aos sábados no pela emissora FR3, e se tornou um sucesso na
época. Ferro ainda hoje é uma referência para quem estuda cinema e história.

Enumerar todos os historiadores da terceira geração é algo extenso e demandaria


um texto próprio apenas para debater suas contribuições, contudo, preferi citar os
mais conhecidos, mas isso não significa que os outros não tenham suas contribuições
para não apenas osAnnales, mas também a historiografia contemporânea. Contudo,
um aspecto a salientar é o fato que foi a partir da terceira geração que tivemos o
ingresso de historiadoras aos Annales.

"A terceira geração é a primeira a incluir mulheres, especialmente Christiane


Klapisch, que trabalhou sobre a história da família na Toscana durante a Idade
Média e o Renascimento; Arlette Farge, que estudou o mundo social das ruas de
Paris no século XVIII; Mona Ozouf, autora de um estudo muito conhecido sobre os
festivais durante a Revolução Francesa; e Michèle Perrot, que escreveu sobre a
história do trabalho e a história da mulher (Klapisch, 1981; Farge, 1987, Ozouf,
1976, Perrot, 1974)". (BURKE, 1992, p. 108).

Michelle Perrot
Além do ingresso de historiadoras, a terceira geração também passou a tratar acerca
da história das mulheres, gênero, sexualidade, família, trabalho, etc., envolvendo em
muitos casos o papel e o lugar das mulheres na História, de forma a revelar que elas
não eram e não são coadjuvantes do processo histórico como se pensou por muito
tempo. A obra mais ousada dessa produção feminista dos Annales, foi o livro
organizado por Michelle Perrot e Georges Duby, Histoire des femmes en
Occident (1990-1991) lembrando que tal coleção em cinco volumes foi publicada
por uma editora italiana, a Laterza, pois as editoras francesas na época não
mostraram interesse por publicar uma história das mulheres, mesmo estando na
década de 90. Além disso, a própria Perrot e Duby foram convidados para organizar
essa extensa obra que ainda hoje é referência para a "história das mulheres". Nesta
coleção a qual traça a trajetória das mulheres da Antiguidade ao tempo presente,
procurou mostrar sob vários aspectos o papel e o lugar das mulheres nas sociedades
ocidentais: a mulher como esposa, filha, mãe, dona de casa, concubina, escrava,
trabalhadora, governanta, etc. Analisou aspectos culturais e sociais, e até mesmo o
machismo sobre elas.

A nova história (nouvelle historie):

"O movimento da Nouvelle Histoire, inaugurado na França pela Escola dos


Annales, constitui certamente uma das influências mais emblemáticas e duradouras
sobre a Historiografia Ocidental. A expressão “Nouvelle Histoire” aqui estará sendo
empregada em seu sentido ampliado, que inclui tanto a Escola dos Annales
propriamente dita como a corrente a que, a partir dos anos 1970, muitos se referem
também como Nouvelle Histoire, em sentido mais restrito. A acepção ampliada da
expressãoNouvelle Histoire é utilizada por José Carlos Reis no seu ensaio “O
surgimento da Escola dos Annales e o seu programa”, incluído na coletânea de textos
deste autor sobre A Escola dos Annales (2000). Em outros âmbitos de reflexão, a
expressão também tem sido criticada e relativizada por alguns historiadores, sendo
este o caso de Le Roy Ladurie em seu texto “Quelques orientations de la Nouvelle
Histoire”, publicado em 1987". (BARROS, 2010, p. 2).

De acordo com François Dosse em seu livro História em migalhas (1987) a "nova
história" no sentido de movimento, ingressa nos Annales durante a terceira geração,
logo após a saída de Braudel da direção, contudo Barros [2010], lembra que Iggers
enfatizava que a "nova história" já tivesse começado bem antes, ainda na segunda
geração, nessa perspectiva, se lembrarmos o que foi lido neste texto, a "história das
mentalidades", os estudos de cultura material, a "história das civilizações", etc., sob
este ponto de vista, já eram estudadas na segunda geração, embora a "história das
mentalidades" não possuísse naquela época tanto espaço como as outras formas de
estudo, mas mesmo assim, ela estava presente.

Burke [1992] assinala que o termo "nova história" já existia desde pelo menos 1912,
tendo sido utilizado por um estudioso americano chamado James Harvey Robinson.
Além disso, Burke também ressalva que para ele, os Annales surgidos em 1929, de
certa forma propunham uma "nova história", embora que ele acabe concordando com
o uso do termo para referir-se a cultura historiográfica da terceira geração. Para
Barros [2010], a "nova história" nos Annales representa um paradigma difícil de ser
conceituado e temporalizado.

"Os Annales constituem um paradigma, como propõem Gemelli (1987)


ou Stoianovitch (1976) em seus ensaios? Estão imersos no conjunto de variações
e contribuições atinentes a um paradigma mais amplo, como propõe Ciro Flamarion
Cardoso ao integrar a Escola dos Annales a um moderno paradigma iluminista?
Existiria apenas um único paradigma dos Annales, ou mais de um, como propôs
Jacques Revel em um artigo escrito em 1979 para a própria Revista dos Annales,
com o título “Os paradigmas dos Annales”? Ou será que, ao invés de um “paradigma”
ou conjunto integrado de paradigmas, os Annales constituem um Movimento ou
Escola, tal como sugerem François Dosse e Peter Burke em perspectivas bem
diferenciadas um do outro? Se é uma Escola, até que ponto existirão inovações
suficientemente decisivas para que se possa atribuir aos Annales uma contribuição
realmente transformadora para a Historiografia Ocidental, tal como propõe
José Carlos Reis nas suas diversas análises sobre as radicais e inovadoras
contribuições que emergem da instituição pelos Annales de um novo Tempo Histórico
(REIS, 1994)?". (BARROS, 2010, p. 3).

"Como vimos, na geração de Braudel, a história das mentalidades e outras formas


de história cultural não foram inteiramente negligenciadas, contudo, situavam-
se marginalmente ao projeto dos Annales. No correr dos anos 60 e 70, porém, uma
importante mudança de interesse ocorreu. O itinerário intelectual de alguns
historiadores dos Annales transferiu-se da base econômica para a “superestrutura”
cultural, “do porão ao sótão"." (BURKE, 1992, p. 110).
Pierre Nora
A "nova história" dos Annales começou a se tornar mais evidente com a publicação
da coleção organizada por Pierre Nora e Jacques Le Goff, intitulada Fazer a
História (Faire de i'historie) em 1973. Nesta obra dividida em três volumes: Novos
Problemas, Novas Abordagens e Novos Objetos, os dois "annalistes" e seus
colaboradores, entre eles Vovelle e Ariès, apresentaram a cultura historiográfica
vigente na terceira geração. Tal cultura historiográfica já teve vários de seus aspectos
assinalados no tópico acima, mas tentarei enumerar algumas de suas características,
embora pondere que não seja algo fácil, e alguns historiadores acharão divergências
em minha opinião.

A "nova história" no contexto teórico expressava algumas das seguintes


características:
 Renegação a história tradicional historicista. Embora houvesse alguns
"annalistes" na época que estavam tentando retomar a história política, mas sob
outras formas de estudo;
 Renegação a ideia tradicional de fontes históricas. Nesse caso a ideia
tradicional enfatizava muito o documento escrito, e de preferência relacionado a
órgãos do Estado, ou escrito pelos "grandes homens";
 Ampliação no conceito de fontes históricas, especialmente pelo lado dos
estudos sobre cultura;
 Afastamento da longa duração braudeliana;
 Retorno ao recorte monográfico;
 Aproximação da micro-história (isso em alguns casos);
 Influência da antropologia histórica;
 Aumento nos estudos ligados as mentalidades, ideias, representações,
performances, ritos, etc.;
 Influência dos trabalhos de Michel Foucault, especialmente no que concerne
na questão teórica, envolvendo conceitos;
 Aumento na interdisciplinaridade, especialmente com a psicologia e a
antropologia;
 Indecisão acerca do papel da narrativa histórica. Roger Chartier, Eric
Hosbawm, Michel de Certeau, Peter Burke e Hayden White foram alguns que
questionaram o papel da narrativa histórica nesse período, mostrando que parte do
movimento negava a narrativa histórica, pelo menos a de tendência tradicional,
contudo, outra parte defendia um "retorno a narrativa histórica", mas não de caráter
tradicional;
 Afastamento do conceito de estruturalismo braudeliano e straussiano;
 Ampliação da ideia de "história total" proposta por Lucien Febvre. Dosse
questiona essa ideia, e sugere o oposto, uma fragmentação;
 Afastamento da história quantitativa, embora essa ainda se manteve nessa
geração;
 Adoção da perspectiva de uma "história vista de baixo", ou seja, estudar não
apenas as classes dominantes, mas as classes marginalizadas;
 Reinterpretação sobre o conceito de fato histórico;
 Aproximação do estudos memorialistas;
 Influência dos estudos pós-coloniais;
 Influência do feminismo;
"De acordo com François Dosse, a Interdisciplinaridade renovadora dos
primeiros annalistas teria sido deturpada e perigosamente exagerada pelos
historiadores da Nouvelle Histoire, que com isto ameaçavam sacrificar a identidade
da história e pulverizaram a produção historiográfica em uma quantidade desconexa
de novos objetos e modalidades historiográficas, sem ligação umas com as outras
(REIS, 2000, p.188). Além disto, para este novo modelo historiográfico, teria sido
rompido o modelo annalista original, que para além de analisar o Passado a partir de
uma problematização do Presente, buscava considerar o Passado como uma instância
que poderia beneficiar a compreensão do Presente e mesmo a sua transformação.
Desta maneira, traindo essa interação entre temporalidades que fora a marca da
historiografia anterior, com os historiadores da História em Migalhas o diálogo entre
Presente e Passado estaria rompido, e o Passado começaria a ser cultuado
como campo de análise a ser contemplado unidirecionalmente, sem o benefício que
poderia ser trazido pelo retorno ao Presente da reflexão sobre os tempos históricos
anteriores para o vivido atual. De alguma maneira, a História teria voltado a ser
objeto de análise para colecionadores, tal como na história antiquaria que havia sido
condenada pelos próprios fundadores dos Annales". (BARROS, 2010, p. 6).

"Para além da análise de Dosse sobre a Nouvelle Histoire como descontinuidade, e


mesmo como traição, em relação aos fundamentos que unificaram as duas primeiras
gerações dos Annales, há certamente as leituras da continuidade, ou as que ficam a
meio caminho. Peter Burke (1989) assume o próprio discurso dos historiadores dos
Annales sobre si mesmos e adota a classificação da Nouvelle Histoire como “terceira
geração dos Annales”. José Carlos Reis (2000) procura fazer um balanço crítico para
dar conta do período que faz a passagem “Da História Total à História em Migalhas”.
Entre estes dois momentos, enumera algumas mudanças de perspectivas, entre as
quais (1) passagem da Síntese à Especialização, (2) passagem do todo (holismo)
para o tudo (micro); (3) passagem do homogêneo (mudança) para o heterogêneo
(conservação); (4) passagem da explicação/conceito à
descrição/constatação/relativismo; (5) passagem da estrutura ao indivíduo, do social
objetivo ao individual/subjetivo; e, sucessivamente, a passagem (6) do material ao
imaginário; (7) do Racional ao Irracional; (8) da revolução ao imobilismo; (9) da
memória à desmemoria; (10) da História-Ciência social à História-Literatura; e (11)
da Identidade Epistemológica à não-identidade (REIS, 2000, p.204)". (BARROS,
2010, p. 7).
Vou me deter apenas a comentar isso sobre a nouvelle historie, devido a
complexidade deste assunto, que eu particularmente não domino muito, como
também, demandaria um texto próprio, além de ser um texto de sentido mais
específico para os historiadores; aqui, estou escrevendo também para o público leigo.
Contudo, adiante, já caminhando para a conclusão desse trabalho, falarei um pouco
da influência da micro-história nos Annales e no movimento da "nova história", assim
como o as contribuições de Foucault, até aqui já referidas, mas ainda não
apresentadas.

Também é importante lembrar que nem todos os países adotaram a "nova história"
neste período. A mesma surgida em França, influenciou alguns historiadores ingleses,
especialmente o caso daRevista Past and Present; no caso da Itália, houve
influência conjunta a surgida micro-história. Outros países ainda demorariam a
adotar tais perspectivas, e no caso dos Estados Unidos, nos anos 80, surgiria a
chamada "nova história cultural", herdeira dessas mudanças vigentes nos anos
60 e 70.

Todavia, se algumas dúvidas ainda perduraram, recomendo relerem o tópico anterior


sobre alguns dos trabalhos publicados nessa época, de forma que isso facilitará a
compreensão e assimilação do conteúdo e das características da "nova história", a
partir de vermos como isso foi posto em prática na época.

A influência da micro-história:

Carlo Ginzburg
A micro-história surgiu nos anos 70 com dois historiadores italianos, Carlo
Ginzburg e Giovanni Levi, ambos ainda estão vivos. Os dois historiadores
passariam a ficarem bastante conhecidos no mundo a partir da abordagem de
pesquisa e estudo, posteriormente chamada micro-história. Aqui é importante
ressalvar que a micro-história é uma abordagem, uma metodologia de estudo e não
uma área de estudo como a história política, social, econômica, etc. No início, tal
metodologia foi confundida com a história das mentalidades, estudos de cultura
material, história cultural, história descritiva, etc. Porém, o certo é que a micro-
história é uma metodologia de estudo que visa estudar acontecimentos em um
recorte temporal de curta duração, ao mesmo tempo aprofundar o máximo que for
possível a pesquisa, pois uma das críticas que estes historiadores fizeram, era que
os estudos históricos estavam "superficiais", exploravam pouco as possibilidades,
assim como, certas fatos só poderiam ser conhecidos a partir de uma análise mais
meticulosa, daí Burke [2008] referir-se a micro-história como "um estudo da História
sob a lente do microscópio". Burke também dá três motivos para o surgimento da
micro-história:

"Em primeiro lugar, a micro-história foi uma reação contra um certo estilo de história
social que seguia o modelo da história econômica, empregando métodos
quantitativos e descrevendo tendências gerais, sem atribuir muita importância à
variedade ou à especificidade das culturas locais". (BURKE, 2008, p. 61).

"Em segundo, a micro-história foi uma reação ao encontro com a antropologia. Os


antropólogos ofereciam um modelo alternativo, a ampliação do estudo de caso onde
havia espaço para a cultura, para a liberdade em relação ao determinismo social e
econômico, e para os indivíduos, rostos na multidão. O microscópio era uma
alternativa atraente para o telescópio, permitindo que as experiências concretas,
individuais ou locais, reingressassem na história". (BURKE, 2008, p. 61).

"Em terceiro lugar, a micro-história era uma reação à crescente desilusão com a
chamada 'narrativa grandiosa' do progresso, da ascensão da moderna civilização
ocidental, pela Grécia e Roma antigas, a Cristandade, Renascença, Reforma,
Revolução Científica, Iluminismo, Revolução Francesa e Industrial. Essa história
triunfalista passava por cima das realizações e contribuições de muitas outras
culturas, para não falar dos grupos sociais do Ocidente que não haviam participado
dos movimentos acima mencionados". (BURKE, 2008, p. 62).

Três livro merecem ser destacados no contexto da micro-história, o primeiro, foi


escrito por Ginzburg e publicado em 1976, intitulado O queijo e os vermes: o
quotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição ( Il
formaggio e i vermi: Il cosmo di un mugnaio del '500). O moleiro em questão
chamava-se Domenico Scandella, conhecido mais pelo seu
apelido Mennocchio(diminutivo de Domenico). Mennocchio foi acusado
pela Inquisição Romana durante o século XVI, de acreditar e espalhar
ideias heréticas especialmente no que concernia sobre a origem do universo, do
mundo, dos seres vivos, etc. Embora fosse um camponês, ele sabia ler e escrever,
algo raro mesmo na época, e tal fato é atestado, pois em seus interrogatórios ele
cita os livros e autores que leu, de onde veio as ideias que o levaram a questionar as
"verdades" postas pela Igreja Católica.

"O título do livro deve-se a explicação de Mennocchio de que no princípio tudo era o
caos, e os elementos formavam uma massa 'exatamente como o queijo faz com o
leite, e naquela massa apareceram alguns vermes, que eram os anjos'". (BURKE,
2008, p. 62).

A partir dos documentos inquisitoriais do caso de Mennocchio, Ginzburg começou a


explorar esse momento da vida deste simples moleiro italiano de Friuli, assim como
também entender a sociedade e o mundo onde ele vivia. O livro recebeu críticas
mistas na época, sendo negativado por alguns, mas aplaudido por outros. Hoje é um
dos marcos para se entender a abordagem da micro-história.

"O queijo e os vermes pode ser descrito como uma 'história de baixo', porque se
concentra na visão de mundo de um membro do que o marxista italiano Antonio
Gramsci chamava de 'classes subalternas'. O herói do livro, Menocchio, pode ser
descrito como um 'extraordinário homem comum', e o autor explora suas ideias sob
diferentes ângulos, tratando-o algumas vezes como um indivíduo excêntrico que
deixava seus interrogadores desconcertados porque não se encaixava no estereótipo
de herege, e em outras ocasiões como porta-voz da cultura camponesa, tradicional
e oral". (BURKE, 2008, p. 63).

Giovanni Levi
A segunda obra, foi escrita por Giovanni Levi, lançada em 1985, intitulada A
herança imaterial. Trajetória de um exorcista no Piemonte do século
XVII (L'eredità immateriale. Carriera di un esorcista nel Piemonte del seicento).
Nesse livro, Levi estudou as práticas mágicas de um exorcista chamado Giovan
Battista Chiesa, habitante do pequeno povoado de Santena. Assim como Ginzburg
fizera com Mennocchio em seu estudo sobre a vida e as ideias daquele moleiro, aqui
vemos algo parecido, mas agora voltado para um exorcista. Contudo, o grande marco
da obra de Levi, não foi nem tanto estudar a trajetória de Giovan Battista, mas sim
a cultura imaterial de sua época. Levi deu grande atenção para se estudar as práticas
sociais e culturais vigentes em Santena e na região de Piemonte, como forma de
compreender o mundo em que Giovan Battista vivia e atuava. A cultura imaterial se
defere basicamente da cultura material, pois trata-se de algo não palpável, não se
trata de objetos, mas sim de práticas, costumes, ritos, performances. Festas,
cerimônias, ritos, música, cantos, poesia oral, etc., são aspectos que pertencem a
cultura imaterial. No caso do livro, Levi procurou analisar como se dava as relações
ligada a herança imaterial, a transmissão de costumes, de saberes comunitários.
O terceiro livro a ser mencionado já foi comentado anteriormente aqui; trate-se
de Montaillou: vilarejo occitânico do "annaliste" Emmanuel Le Roy Ladurie publicado
em 1975. Na época a obra não chegou a ser identificada por todos como sendo uma
abordagem micro-histórica, mas a medida que tal abordagem italiana ficava mais
conhecida, principalmente após o lançamento de O queijo e os vermes, e nos anos
80 com a coleção intitulada Microhistória (Microstorie), organizada por Ginzburg e
Levi, o livro de Ladurie passou a ser reconhecido como exemplar dessa abordagem,
e o mesmo chegou a fazer outras obras nesta perspectiva.

Hoje em dia, a maioria dos historiadores da micro-história se concentram na Itália,


França, Inglaterra e Estados Unidos. No Brasil há um ligeiro aumento ainda tímido
nesse campo, pois embora a micro-história adote a curta duração, não podemos
confundir qualquer trabalho que aborde um tempo curto, sendo esse escrito a partir
da abordagem micro-histórica.

Voltando aos Annales, além de Ladurie, Jacques Revel, um dos nomes importantes
da atual quarta geração também é adepto da micro-história. Embora a micro-história
tenha surgido no campo da história social, Burke [2008] salientara que ela contribuiu
muito nos estudos culturais, e na consolidação da "nova história cultural" nos anos
80.

O pensamento foucaultiano:

Michel Foucault
O filósofo e historiador francês Michel Foucault (1926-1984), tivera uma grande
influência nos estudos filosóficos e históricos nos anos 60 e 70. Embora não tenha
sido historiador de formação, mas dedicou-se vários anos a lecionar história, assim
como também escreveu livros de história cultural, e para mim, isso o torna
historiador, ainda mais, pelo fato dele estudar filosofia da história e pensar em forma
de se repensar o estudo da História. Foucault por algum tempo foi negligenciado ela
historiografia francesa, de fato, ele viveu alguns anos fora da França, retornando em
1960 para concluir seu doutorado, tendo publicado sua tese intitulada História da
Loucura na Idade Clássica(1961) obra a qual Vainfas [1997] dissera que "custou
a ser assimilada pela historiografia francesa". De fato, aHistória da Loucura só viria
a ser reconhecida como um trabalho importante, mais de dez anos depois. Em 1966
ele publicou outro de seus importantes livros, A ordem das coisas, que na época
fez sucesso, tendo sido recebido bem pela crítica, contudo, Foucault acabou sendo
chamado de estruturalista, algo que não lhe agradava.

"A ordem das coisas (1966) trata das categorias e dos princípios subjacentes e
organizadores de tudo o que possa ser pensado, dito ou escrito em um dado período,
no caso, os séculos XVII e XVIII; em outras palavras, os 'discursos' do período. Nessa
obra, Foucualt sugeriu que tais discursos coletivos, mais que os escritores
individualmente, são o objeto adequado de estudo, o que chocou alguns leitores, mas
inspirou outros". (BURKE, 2008, p. 75).

Em 1968 se envolveu nos movimentos estudantis em Túnis, capital da Túnisia,


cidade onde residia desde 1966, atuando como professor universitário. Em 1969
retornou a França e publicou mais um livro, Arqueologia do Saber (1969) o qual
para Vainfas [1997] definitivamente colocou Foucault no centro das atenções
historiográficas francesas na época. Neste livro, Foucault procurou apresentar o que
ele chamava de "método arqueológico" para se estudar as ciências sociais, o que
incluiria também a História. Três livros anteriores, História da Loucura (1961), O
nascimento da clínica (1963) e A ordem das coisas (1966), segundo ele expressaram
sua ideia de "arqueologia" posta em prática. O seu livro de 1969, consistiu num
trabalho teórico e metodológico para explicar sua metodologia empregada nestas
três obras.

"Michel Foucault que, ao publicar sua L’archeologie du savoir (Arqueologia do


saber), em 1969, pôs em xeque os paradigmas ocidentais do conhecimento
científico, o racionalismo e o próprio saber histórico. Poder-se-ia objetar que Foucault
custou a ser assimilado pela historiografia francesa, lembrando que sua Histoire de
la folie (História da loucura), del961, ficou quase despercebida por muito tempo. Mas
o fato é que pouco a pouco sua obra filosófica e “historiográfica” foi penetrando nas
pesquisas dos historiadores profissionais, fazendo renascer antigas preocupações de
Febvre e de Bloch com os discursos e rituais, e estimulando novos temas, como o da
sexualidade, das prisões, dos micropoderes, da doença etc". (VAINFAS, 1997, p.
202).

"Foucault encarava os sistemas de classificação, chamados por ele de 'epistemes' ou


'regimes de verdade, como expressões de uma dada cultura e, ao mesmo tempo,
forças que lhe dão forma. Ele se definia como 'arqueólogo', porque achava a obra
dos historiadores superficial, sendo necessário cavar mais fundo para chegar às
estruturas intelectuais ou, como preferia chamar, 'redes' (réseaux) e 'grades'
(grilles)". (BURKE, 2008, p. 75).

A sua ideia de "arqueologia" era chamar atenção para a necessidade de se rever as


metodologias de pesquisa, pois como Burke assinalou, Foucault dizia que os
historiadores estavam trabalhando apenas na "superfície do problema", com tudo a
História "é feita de várias camadas", e cada "camada possui seu tempo e suas
características", daí ele defender uma descontinuidade temporal e uma historia
seriada. De forma que assim pudessem estudar assuntos que normalmente eram
ignorados. Ao mesmo tempo, ele criticou os "annalistes" da terceira geração acerca
dos seus estudos sobre a "história das mentalidades", dizendo que eles tinham uma
"ideia pobre do real", pois ainda estavam limitando seus estudos.

Neste caso, Foucault realizou algumas obras bastante importantes na época, dentre
algumas irei mencionar aqui: A já mencionada História da Loucura, analisa como a
loucura era interpretada pela medicina e pela sociedade, assim como os loucos eram
tratados socialmente; neste caso, Foucault chama a atenção que em diferentes
épocas a loucura era concebida de forma diferente, e não consistia numa ideia
imutável. O nascimento da clínica e outros livros também voltam analisar essa
questão de saúde e psicológica, pois a psicologia teve influência nos estudos
foucaultianos.

Em sua coleção História da Sexualidade, ele também analisa a recepção da


sociedade moderna e contemporânea ocidental acerca da sexualidade, do
sensualismo, do gênero, das relações sexuais, do corpo, das representações sociais,
culturais sobre esse assunto, etc. Para ele entre os séculos XVII e XIX no Ocidente,
houve uma repressão da sexualidade, algo que deveria ser analisado, e também
servir para entender o porque da "liberdade sexual" iniciada nos anos 60, seja com
o movimento hippie, os movimentos homossexuais e os movimentos feministas, pois
a ideia de sexo que ele remete-se aqui não diz apenas na relação carnal, mas nas
ideias de masculinidade, feminilidade, orientação sexual, etc.

Em Vigiar e Punir (1973) Foucault analisou o papel do Estado e


suas instituições (polícia, escolas, hospitais, quartéis, fábricas, presídios, sanatórios,
etc) no controle da população, agindo como um órgão de vigilância, punição, e
disciplinarização, a fim de controlar a vida social. Em seu livro ele analisa
estas instituições e seu papel na sociedade moderna e contemporânea, e até mesmo
criticando a ideia de "disciplina" e "punição" na época. Aqui Foucault também
questiona a questão de liberdade, individualismo, submissão, controle, etc.

Em seu livro Microfísica do poder (1979) outra de suas famosas obras, ele encara
o "poder" estando dividido em várias camadas e lugares, e não apenas centralizado
nas mãos de alguns. Para ele, cada camada, lugar, grupo, etc., possuía suas
hierarquias, seus chefes, suas ordens, seus deveres, etc. Novamente, vemos aqui a
ideia de descontinuidade e ruptura, assim como o seu conceito de "epistemes".

Burke [2008] falara que a reação de alguns "annalistes" as críticas de Foucualt, foi
criar os estudos chamados de "imaginário social", o qual passou a estudar alguns
dos assuntos trabalhados por Foucault. Ao mesmo tempo, Burke fala que isso
começou a ficar mais nítido no decorrer dos anos 70 e 80, com a "nova história
cultural", da qual, segundo Burke, foi influenciada por Foucault. Embora ela não
tenha se unido a Escola dos Annales, suas críticas contribuíram para gerar mudanças,
pelo menos em alguns dos membros dessa escola.

Considerações finais:

Atualmente a Escola dos Annales vivencia sua quarta geração desde 1989, quando
novas rupturas levaram ao início de uma nova geração, pois lembrando os dizeres
de Roger Chartier, um dos membros da atual quarta geração: a História vem
vivenciando uma crise de identidade desde os anos 30, que vai se transformando ao
longo do tempo. Ele chega a dizer que nos anos 80 e 90 vivenciamos alguns aspectos
dessa crise, e isso levou a novos rumos nos Annales. Em 1994 a revista mudou de
nome para Annales. Historie, Sciences sociales, título que conserva até hoje.

Pelo fato de não dispor de material para falar acerca da quarta geração, me prendi a
comentar as outras três, as quais são mais abordas pelos historiadores. Futuramente
acho que haverá um maior número de análises sobre a atual quarta geração, embora
das quatro, ela seja a menos paradigmática. Além de Chartier, outros nomes que se
mantêm ligados direta ou indiretamente a quarta geração estão: Jacques Revel,
Emmanuel Le Roy Ladurie, Jacques Le Goff, Marc Ferro e André Burguière.

Todavia o que podemos concluir nesse extenso texto é que de fato a Escola dos
Annales foi um movimento como defende Revel, foi uma mudança paradigmática,
como sustentam Burke, Chartier, Barros, Vainfas, Reis, Porto, entre outros; as
mudanças historiográficas, ou melhor dizendo os debates sobre a forma de como
estudar e pesquisar a História realmente foram pertinentes a ponto de não apenas
influenciar a França no século XX, mas outras nações como visto, embora que é
necessário lembrar que nem todos os historiadores franceses foram adeptos
aos Annales.

Uma questão também a se deixar clara é que embora os Annales tenham evitado de
se trabalhar com a história política, não significa que ela seja algo ruim ou errado,
mas sim foi fruto de uma momento, de uma crise de conceitos no início do século
XX. A história política hoje em dia não é igual a daquela época.

Outra questão a se ressalvar é que embora Bloch e Febvre tenham criticado o


historicismo, a Escola Metódica, Leopold von Ranke, o Positivismo Comteano, não
podemos desmerecer seus trabalhos, pois eles tiveram o que contribuir, e se não
fossem as falhas deles, não haveria ruptura para novos caminhos.

Também é necessário salientar que os Annales não foram perfeitos em tudo, Burke,
Chartier, Dosse, entre outros assinalam problemas nas teorias e ações dos
"annalistes", pois como Burke [1992, p. 168-169] mencionara: "A contribuição dos
Annales pode ter sido profunda, mas foi também profundamente desigual. Uma das
críticas feitas aos annalistes foi sua grande atenção dada ao Antigo Regime Francês,
cerca de 1600 a 1789, pois embora houvessem trabalhos no período medieval como
visto alguns aqui, a Idade Antiga e a Idade Contemporânea ficaram de fora dessas
pesquisas. Aqui podemos notar que após Bloch e Febvre a ideia de "história total"
acabou se tornando limitada em um espaço (a França) e em um tempo (o Antigo
Regime). A segunda geração foi o auge dos estudos modernos, já na terceira vemos
mudanças nesse âmbito, mas o direcionamento para outros temas, mas ainda
mantendo a questão temporal da modernidade.

Mas, mesmo com esse problemas e outros dos quais alguns aqui mencionados, é
inegável que os Annales tiveram a contribuir para moldar a historiografia ocidental
nestas últimas oito décadas, pois embora a quarta geração não tenha o mesmo
impacto das gerações anteriores, alguns de seus membros como Chartier, Le Goff e
Ferro ainda continuam a contribuir para a historiografia atual.

"Da minha perspectiva, a mais importante contribuição do grupo dos Annales,


incluindo-se as três gerações, foi expandir o campo da história por diversas áreas. O
grupo ampliou o território da história, abrangendo áreas inesperadas do
comportamento humano e a grupos sociais negligenciados pelos historiadores
tradicionais. Essas extensões do território histórico estão vinculadas à descoberta de
novas fontes e ao desenvolvimento de novos métodos para explorá-las.
Estão também associadas à colaboração com outras ciências, ligadas ao estudo da
humanidade, da geografia à linguística, da economia à psicologia. Essa colaboração
interdisciplinar manteve-se por mais de sessenta anos, um fenômeno sem
precedentes na história das ciências sociais". (BURKE, 1992, p. 173).

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