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PISCICULTURA: uma perspectiva para

piscicultura orgânica
MOISES ANTHERO DA SILVA
JOÃO CARLOS NORDI

PISCICULTURA: uma perspectiva


para piscicultura orgânica

1ª Edição

2018
Copyright©2018. Universidade de Taubaté.
Todos os direitos dessa edição reservados à Universidade de Taubaté. Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida
por qualquer meio, sem a prévia autorização desta Universidade.
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Chefe do Setor EAD Profa. Ma. Sanmya Feitosa Tajra
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Supervisão Pedagógica de Objetos de Aprendizagem Profa. Esp. Antônia Lucineire de Almeida
Supervisão de Linguística dos Objetos de Aprendizagem Profa. Ma. Isabel Rosângela dos Santos Amaral
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Supervisão de Estágio Profa. Ma. Ely Soares do Nascimento
Supervisão de Tutoria Eletrônica/Presencial Profa. Ma. Jeniffer de Souza Faria
Supervisão de Avaliação Profa. Ma. Susana Aparecida da Veiga
Supervisão ENADE Profa. Ma. Juraci Lima Sabatino
Revisão ortográfica-textual Profa. Ma. Isabel Rosângela dos Santos Amaral
Projeto Gráfico Me. Benedito Fulvio Manfredini
Diagramação Bruna Paula de Oliveira Ortiz Siani
Autor Moisés Anthero da Silva
João Carlos Nordi
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Taubaté – São Paulo. CEP:12.020-270
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Sistema Integrado de Bibliotecas / UNITAU


N832p Nordi, João Carlos
Piscicultura: uma perspectiva para piscicultura orgânica. /
João Carlos Nordi, Moises Anthero da Silva. UNITAU, 2018.
186f. : il.
ISBN: 978-85-9561-066-8
Bibliografia
1. Piscicultura. 2. Peixes. 3. Criação. I. Silva, Moises Anthero
I. Universidade de Taubaté. II. Título
PALAVRA DA REITORA

Palavra do Reitor

Como gestora da Universidade de Taubaté


(UNITAU), instituição que você escolheu para
fazer seu curso superior a distância, tenho a
grata satisfação de acolhê-lo na maior
Universidade da Região Metropolitana do
Vale do Paraíba e Litoral Norte, a RMVale.

Com o compromisso de levar ensino de


qualidade e inovador para cada canto desse
país, o Ensino a Distância da UNITAU tem
como principal diferencial uma equipe
qualificada de professores mestres e doutores
empenhados em proporcionar aulas dinâmicas,
por meio de um material didático com
conteúdo rico e abrangente.

Nessa perspectiva, este livro-texto aborda


conteúdo significativo e coerente à sua
formação acadêmica e ao seu desenvolvimento
social e profissional. Cuidadosamente redigido
e ilustrado, sob a supervisão da nossa equipe
de professores, o resultado aqui apresentado
visa, essencialmente, fornecer conhecimento
atualizado para sua formação teórico-prática.

Como Universidade, nossa missão é construir


conhecimentos que se intercalem na tríade
Ensino, Pesquisa e Extensão, sempre de forma
planejada, responsável e pautada no respeito.
Temos a certeza de que o presente estudo lhe
será de grande valor.

Seja bem-vindo à maior Universidade


Municipal do Brasil!

Bons estudos!

Prof. Dra. Nara Lucia Perondi Fortes


Reitora

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Prefácio

É inegável o potencial do Brasil para a aquicultura, tanto pela condição continental,


representada pela extensão da costa, quanto pela diversidade de clima, presença de
áreas protegida e áreas adjacentes ao mar.

O Brasil por ser o detentor da mais rica fauna de peixes de água doce do mundo, com
mais de 2.500 espécies nativas, e muitas outras ainda desconhecidas, apresenta um
grande potencial de crescimento. Do total de espécies, pelo menos 40 têm sido
tradicionalmente utilizadas ou apresentam potencial para aquicultura.

O cultivo orgânico é a criação de organismos aquáticos em água isenta de


contaminantes ou poluentes, que devem ser alimentados naturalmente (com plâncton,
nécton, bentos, vegetais) ou receber ração "orgânica", preferencialmente alevinos e pós-
larvas de cultivos "orgânicos".

Na literatura, são escassos os trabalhos com piscicultura orgânica, mas de acordo com
os dados disponíveis a criação de espécies como a tilápia (Oreochromis niloticus), pacu
(Piaractus mesopotamicus) e jundiá (Rhamdia sp.) alimentados com rações orgânicas,
em diferentes sistemas de cultivo, demonstram resultados bastante otimistas.

Este livro-texto oferece informações sobre a exploração racional da piscicultura, desde a


escolha da espécie até as etapas necessárias para a instalação dos tanques voltada aos
agricultores familiares que criam peixe para incrementar a segurança alimentar da
família, bem como comercializar os produtos obtidos.

Bons estudos e sucesso!

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Sobre o autor

MOISES ANTHERO DA SILVA: possui a seguinte formação acadêmica: Graduação


na Universidade Federal de Lavras-MG em Zootecnista, (1988). Especialização em
Piscicultura Lato Sensu, pela Universidade de Maringá-PR, (1989). Especialização em
Gerenciamento de Micro e Pequenas Empresas Lato Sensu na Universidade Federal de
Lavras MG, (2001). Atuou como Assistente Técnico de Pesquisa do Instituto de Pesca
de Pindamonhangaba (1992 a 1995) e com fomento em aquicultura e assistência técnica
a criadores de peixes na região do Vale do Paraíba-SP, responsável pela Implantação de
projetos de piscicultura em toda região do Vale do Paraíba, com mais de 30 ha de
lâmina d’água de Piscigranjas instaladas (1995 a 2000). Atuou como Instrutor do
SENAR, no Programa de Qualidade Total Rural, instrutor de cursos de Piscicultura,
instrutor de cursos de Apicultura, instrutor do Programa de Empresário Rural em todo
Estado de São Paulo, autor de Cartilha do SENAR/SP de Criação de Peixe em Tanque
Rede, facilitador do SEBRAE-SP no Programa de Capacitação Rural em todo Estado de
São Paulo (1995 a 2000). Atuou como Professor da UNITAU - Universidade de
Taubaté na disciplina de Zootecnia de Pequenos Animais (2004 a 2006). Assessoria à
Prefeitura de Paranapanema em Projetos de Tanque-rede, assessoria a várias
associações de produtores de peixe na Implantação de Projetos de Piscicultura em
Tanque-rede na região de Itaí, Taquarituba e Avaré (2006 a 2010), consultoria no
SEBRAE/Botucatu, consultoria e assessoria em Projetos de Piscicultura na região de
Avaré (2007 a 2008). Atuou como Diretor Técnico e sócio proprietário da Pescados
Vitoreli, empresa de produção e beneficiamento de tilápias com 50 funcionários, em
Euclides da Cunha Paulista – SP (2010 a 2014). Técnico especialista em Piscicultura da
Distribuidora Aquasem, representante da ração Presence, antiga Purina, na região do
Lago Serra da Mesa em Niquelândia-GO, trabalhando na cadeia produtiva da
Piscicultura (2015 a 2016). Atuou na gestão de empresas aquícolas implantando
software Inovapeixe de gestão informatizada de grandes Pisciculturas, com consultoria
em Processos de Gestão (2016). Atualmente atua com consultoria e assessoria a
criatórios de peixes no Brasil.
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JOÃO CAROLOS NORDI: possui a seguinte formação acadêmica: Graduação em
Engenharia Agronômica pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho
(1983); Licenciatura Plena 2º grau – Escola Técnica Agrícola pelo Instituto Americano
da Igreja Metodista de Lins (1985); Especialização em Plantas Ornamentais e
Paisagismo pela Universidade Federal de Lavras (2007); Mestrado em Botânica pela
Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – Botucatu (1996); e Doutorado
em Botânica pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – Botucatu
(2001). É concursado como Professor Assistente Doutor na cadeira de Sistemática
Vegetal na Universidade de Taubaté. Na mesma instituição, responde pelas disciplinas:
Anatomia e Morfologia Vegetal de Criptógamas e Espermatófitas; Jardinocultura e
Paisagismo; Plantas Ornamentais; Apiterapia, para o curso de Medicina, e
Agroecologia. Atua também no Curso de Especialização em Apicultura Lato Sensu
como Professor e Coordenador, Curso de Pós-graduação Stricto Sensu em Ciências
Ambientais na Universidade de Taubaté e Coordena os Cursos Superiores de
Tecnologia em Agroecologia e Gestão do Agronegócio, modalidade EAD. Desenvolve
as seguintes linhas de pesquisa: Flora apícola, Polinização, Palinologia, Matologia e
Arborização Urbana.

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Caros(as) alunos(as),
Caros( as) alunos( as)

O Programa de Educação a Distância (EAD) da Universidade de Taubaté apresenta-se


como espaço acadêmico de encontros virtuais e presenciais direcionados aos mais
diversos saberes. Além de avançada tecnologia de informação e comunicação, conta
com profissionais capacitados e se apoia em base sólida, que advém da grande
experiência adquirida no campo acadêmico, tanto na graduação como na pós-graduação,
ao longo de mais de 35 anos de História e Tradição.

Nossa proposta se pauta na fusão do ensino a distância e do contato humano-presencial.


Para tanto, apresenta-se em três momentos de formação: presenciais, livros-texto e Web
interativa. Conduzem esta proposta professores/orientadores qualificados em educação a
distância, apoiados por livros-texto produzidos por uma equipe de profissionais
preparada especificamente para este fim, e por conteúdo presente em salas virtuais.

A estrutura interna dos livros-texto é formada por unidades que desenvolvem os temas e
subtemas definidos nas ementas disciplinares aprovadas para os diversos cursos. Como
subsídio ao aluno, durante todo o processo ensino-aprendizagem, além de textos e
atividades aplicadas, cada livro-texto apresenta sínteses das Unidades, dicas de leituras
e indicação de filmes, programas televisivos e sites, todos complementares ao conteúdo
estudado.

Os momentos virtuais ocorrem sob a orientação de professores específicos da Web. Para


a resolução dos exercícios, como para as comunicações diversas, os alunos dispõem de
blog, fórum, diários e outras ferramentas tecnológicas. Em curso, poderão ser criados
ainda outros recursos que facilitem a comunicação e a aprendizagem.

Esperamos, caros alunos, que o presente material e outros recursos colocados à sua
disposição possam conduzi-los a novos conhecimentos, porque vocês são os principais
atores desta formação.

Para todos, os nossos desejos de sucesso!

Equipe EAD-UNITAU

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Sumário

Palavra do Reitor .............................................................................................................. 1

Prefácio ............................................................................................................................. 3

Sobre o autor..................................................................................................................... 5

Caros(as) alunos(as) ......................................................................................................... 7

Ementa ............................................................................................................................ 11

Objetivos......................................................................................................................... 13

Unidade 1 Piscicultura: aspectos gerais..................................................................... 17

1.1 Classificação dos peixes de água doce ..................................................................... 17

1.2 Noções de anatomia .................................................................................................. 19

1.3 Noções de fisiologia ................................................................................................. 23

1.4 Tipos de dietas para peixes ....................................................................................... 40

1.5 Piscicultura organica................................................................................................. 62

1.6 Síntese da Unidade ................................................................................................... 77

1.7 Para saber mais ......................................................................................................... 77

1.8 Atividades ................................................................................................................. 78

Unidade 2 Peixes Produzidos no Brasil ..................................................................... 79

2.1 Espécies nativas e exóticas produzidas no Brasil ..................................................... 79

2.2 Síntese da Unidade ................................................................................................. 122

2.3 Para saber mais ....................................................................................................... 122

2.4 Atividades ............................................................................................................... 122

Unidade 3 Viveiros de Criação ................................................................................. 123

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3.1 Construção de viveiros para piscicultura ................................................................ 123

3.2 Síntese da Unidade ................................................................................................. 158

3.3 Para saber mais ....................................................................................................... 158

3.4 Atividades ............................................................................................................... 158

Unidade 4 Água, Calagem e Adubação nos Viveiros ............................................. 159

4.1 Água e piscicultura ................................................................................................. 159

4.2 Calagem .................................................................................................................. 177

4.3 Adubação dos viveiros de criação .......................................................................... 180

4.4 Síntese da Unidade ................................................................................................. 181

4.5 Para saber mais ....................................................................................................... 181

4.6 Atividades ............................................................................................................... 181

Referências ................................................................................................................... 181

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PSICULTURA: uma
perspectiva para ORGANIZE-SE!!!
Você deverá usar de 3
a 4 horas para realizar

piscicultura orgânica cada Unidade.

Ementa

EMENTA

Introdução à piscicultura orgânica. Noções de anatomia, fisiologia e


classificação de peixes de água doce. Espécies nativas e exóticas.
Construções de tanques e instalações para a piscicultura orgânica. Qualidade
da água e manejo no sistema orgânico. Alimentação.

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Objetivo Geral

Apresentar aos alunos conhecimentos básicos de piscicultura orgânica.

Obj eti vos

Objetivos Específicos

• Avaliar os métodos de cultivo utilizados para as principais espécies


nativas e exóticas, com potencial de produção orgânica.

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Introdução

Na Unidade 1, veremos alguns aspectos gerais da piscicultura, como classificação dos


peixes de água doce, noções de anatomia e fisiologia, nutrição e a piscicultura orgânica.

Na Unidade 2, conheceremos os peixes produzidos no Brasil, representados pelas


espécies nativas e exóticas.

Na Unidade 3, estudaremos os viveiros de criação, para a piscicultura, e os aspectos


operacionais envolvidos para sua implantação

Na Unidade 4, serão abordadas as propriedades físico-químicas da água envolvida na


piscicultura, a prática da calagem e a adubação dos viveiros.

Bons estudos!

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Unidade 1

Unidade 1 . Piscicultura: aspectos gerais

O objetivo desta Unidade é apresentar sucintamente a forma de identificação dos peixes


de água doce, destacando as características mais importantes, apresentando a anatomia e
fisiologia, as características produtivas das espécies, suas necessidades nutricionais bem
como uma visão geral da piscicultura orgânica no Brasil.

1.1 Classificação dos peixes de água doce

Identificar um peixe ou outro organismo qualquer é conhecer o nome cientifico da


espécie ou categoria superior (gênero, família, ordem, classe, etc.) a que pertence. Para
isso, diferentes meios são utilizados, sendo os mais comuns a consulta a especialistas, a
comparação com a descrição original da espécie, fotografias ou exemplares previamente
identificados e as “chaves de identificação”.

Uma chave de identificação é elaborada a partir do ordenamento, em forma dicotômica


(duas saídas), dos dados morfológicos e anatômicos básicos, característicos de cada
espécie ou outra categoria em questão. Normalmente, tal dicotomia inicia-se com o
conjunto de caracteres precedido do número 1, seguido do conjunto de caracteres
alternativos precedidos do número 1a, e, assim, sucessivamente, até o último.

Para a correta utilização das chaves de identificação é importante que a sequência de


alternativas seja feita com cuidado e passo a passo, sempre confrontando os dados do
exemplar analisado, com os dados fornecidos pela chave. Caso esses dados sejam
concordantes, chega-se a um determinado nome, que deve ser o nome da espécie ou
categoria em questão.
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Caso os dados sejam discordantes, passa-se para a alternativa seguinte, até que se
chegue a outro nome. Caso se chegue à última alternativa da chave, sem que com isso
seja possível determinar o nome da espécie ou categoria em questão, o processo deve
ser reiniciado, para conferência. Se, mesmo assim, não se chega a um resultado
satisfatório, é sinal de que a chave não contempla a espécie ou outra categoria a que o
exemplar sob análise pertence – nesse caso, a identificação não pode ser feita pela
chave, requerendo a consulta a outros meios.

No geral, as divisões taxonômicas na Zoologia são as seguintes:

✓ Espécie é o grupamento de indivíduos com profundas semelhanças recíprocas


(estruturais e funcionais), que mostram ainda acentuadas similaridades
bioquímicas, idêntico cariótipo (conjunto de cromossomos) e capacidade de
reprodução entre si, originando novos descendentes férteis e com o mesmo
conjunto geral de características.

✓ Gênero é o conjunto de espécies semelhantes, embora não idênticas, e mais


aparentadas entre si do que com quaisquer outros grupos de organismos.

✓ Família é o conjunto de gêneros afins, isto é, muito próximos ou parecidos,


embora possuam diferenças mais significativas do que a divisão em gêneros.
Levam a terminação “idae”.

✓ Ordem é o conjunto de famílias semelhantes; no caso dos peixes, todos os


nomes de ordem terminam com o sufixo “iformes”.

✓ Classe é o conjunto de ordens afins.

✓ Filo é o conjunto de classes afins.

Com base nesse sistema, o curimatã, por exemplo, seria assim classificado:

Espécie: Prochilodus nigricans

Gênero: Prochilodus

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Família: Prochilodontidae

Ordem: Characiformes

Classe: Teleostomi

Filo: Chordata

Reino: Animalia ou Metazoa

1.2 Noções de anatomia

A anatomia é um ramo da ciência que estuda a forma e a estrutura dos organismos. Seu
estudo é importante para entendermos a biologia geral dos peixes em suas diversas fases
de desenvolvimento. Os peixes são vertebrados aquáticos e possuem a capacidade de
fazer variar sua temperatura corporal, de acordo com o meio ambiente. Respiram
através de trocas gasosas com o meio, promovida geralmente pelas brânquias.

Os Osteichthyes ou peixes ósseos representam o maior grupo de vertebrados, tanto em


número de espécies cerca de 23.600 como em número de indivíduos. Desenvolveram
uma enorme variação de formas e estruturas, sendo abundantes em águas doces ou
salgadas em águas rasas ou profundas. Suas formas variam de acordo com as condições
ambientais em que vivem sendo o mais comum a fusiforme, estrutura que sofre pouca
resistência da água na locomoção. Possuem simetria bilateral, e se locomovem em
sentido longitudinal, sendo que a nadadeira caudal funciona como o principal apêndice
locomotor. Quanto ao tamanho podem atingir quase 20 metros como o tubarão baleia, e
os menores cerca de 1 cm como os guarus.

1.2.1 Aspectos externos

O corpo dos peixes teleósteos é fusiforme mais alto que largo, de secção transversal
oval para facilitar a passagem através da água. A cabeça estende-se da extremidade do
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focinho até o canto posterior do opérculo, o tronco desde este ponto até o ânus e o resto
é cauda. No dorso há duas nadadeiras dorsais e duas nadadeiras peitorais ou ventrais, na
ponta da cauda a nadadeira caudal e ventralmente na cauda a nadadeira anal.

Para controle nos projetos produtivos as medições de tamanho consideram o


comprimento total da ponta do focinho até a ponta da nadadeira caudal, chamado de
comprimento total (CT), e para estudo de taxonômicos e pesquisas consideram na
medição o comprimento padrão (CP), a medição da altura é da porção superior do dorso
a porção inferior do abdome (h).

O peixe inteiro é coberto por epiderme lisa, que produz um muco que facilita a
movimentação na água e é uma proteção contra a entrada de organismos causadores de
doenças, possuindo uma linha lateral ao longo de cada lado do corpo (uma fileira de
pequenos poros comunicados com um canal longitudinal situado abaixo das escamas).

A cobertura exterior, as escamas acima da epiderme, são geralmente finas imbricadas e


ósseas e crescem ao longo da vida do animal aumentando de tamanho juntamente com o
peixe. Não ocorrem trocas de escamas, mas se perdidas podem ser substituídas.

Possuem nadadeiras de várias formas, tamanhos e localização: as peitorais estão


geralmente perto das aberturas branquiais, as pélvicas estão no abdome como na truta
arco-íris Oncorhynchus mykiss. A nadadeira caudal varia conforme a espécie; as que são
bifurcadas desenvolvem grande velocidade de natação e as arredondadas nadam mais
vagarosamente e têm maior capacidade de manobrar.

1.2.2 Aspectos internos

O endoesqueleto consiste em crânio, coluna vertebral, costelas, cintura peitoral e de


muitos pequenos ossos que sustentam os raios das nadadeiras. A caixa craniana encerra
o encéfalo, os órgãos pares do sentido (olfativo, óptico, auditivo) e o esqueleto visceral,
que fornece as mandíbulas e os suportes para língua e o mecanismo branquial.

A coluna vertebral é formada por muitas vértebras separadas e similares, cada uma
consiste em pontos de inserção das costelas e raios que articulam com os raios das

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nadadeiras dorsais e anal, o aparelho respiratório branquial consiste em uma câmara
branquial com quatro arcos branquiais em cada lateral do opérculo.

Cada brânquia é sustentada por um arco branquial cartilaginoso com rastelos branquiais
por onde são feitas as trocas de oxigênio, pois o peixe necessita de suprimento constante
de água.

Possui dois rins delgados e escuros que situam dorsalmente entre a bexiga natatória e as
vértebras. A bexiga urinária excreta fluidos, amônia e ureia retirados do sangue que por
sua vez descarrega através do seio urogenital para o exterior.

Figura 1.1: Aspectos gerais internos dos peixes teleósteos.

Fonte: https://interna.coceducacao.com.br/ebook/pages/4272.htm. Acesso em: 06 abr.


2018.

O trato gastrointestinal ou digestivo é o tubo que vai da boca ao ânus e pelo qual passam
os alimentos. Pode ser subdividido em cavidade bucal ou bucofaringeana, intestino
anterior (esôfago e estômago), intestino médio (intestino propriamente dito) e intestino
posterior (reto).

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Os vários tecidos e órgãos relacionados a ele estão envolvidos com a apreensão,
mastigação e deglutição, seguidas da digestão e absorção dos nutrientes, como também
com a excreção.

Essas são variações morfológicas provocadas pela ação de fatores do ambiente sobre o
organismo, podendo ser de caráter permanente, produzidas na evolução filogenética, no
caso das adaptações, ou de caráter temporário, produzidas no ciclo ontogenético do
indivíduo (desenvolvimento do indivíduo desde a fecundação até a maturidade
reprodutiva), chamadas de modificações.

A dieta é um dos principais fatores que confere aos órgãos do aparelho digestivo
características funcionais, anatômicas e morfométricas próprias para cada regime
alimentar. Apesar da grande diversidade das estruturas de alimentação e de digestão dos
peixes, algumas generalizações são possíveis.

Os peixes podem ser divididos, basicamente, em três grandes categorias, de acordo com
o tipo de alimento consumido:

✓ Herbívoros = ingerem itens de origem vegetal a maioria se alimenta de poucas


espécies de plantas e, frequentemente, possuem estruturas de mastigação
especializadas, obtendo o máximo valor nutricional através da completa
trituração do alimento.

✓ Onívoros = se alimentam de itens de origem animal e vegetal, possuem uma


dieta mista e estruturas pouco especializadas,

✓ Carnívoros = ingerem sobretudo itens de origem animal e alimentam-se de


invertebrados de maior tamanho e outros peixes, podendo se especializar em
algum tipo em particular.

Os peixes que se alimentam de plâncton, lama ou detritos (uma mistura de sedimento,


matéria orgânica em decomposição e bactérias) não podem ser facilmente classificados
como herbívoros ou carnívoros, devido à diversidade da origem dos organismos, sendo
classificados como planctófagos, iliófagos ou detritívoros.

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Os herbívoros, onívoros e carnívoros podem ser encontrados dentro de uma mesma
família. As estruturas do aparelho digestivo são altamente adaptáveis e facilmente
modificáveis, pelo menos em termos evolutivos. Outro aspecto geral é que o
comprimento do intestino está correlacionado com a dieta. Os herbívoros possuem um
maior comprimento relativo do intestino, levando em consideração o comprimento do
intestino médio e do reto. Nos carnívoros esta relação varia de 0,2 a 2,5, nos onívoros
entre 0,6 e 8,0 e nos herbívoros de 0,8 a 15,0.

A temperatura corporal e outro aspecto a ser considerado, em função de os mamíferos e


aves serem animais homeotérmicos, ou seja conseguem manter a temperatura corporal
constante. Os peixes não possuem tal capacidade, sendo conhecidos como animais
pecilotérmicos ou de sangue frio; a temperatura corporal dos peixes varia de acordo
com as oscilações na temperatura da água.

Do ponto de vista energético, a pecilotermia confere uma vantagem aos peixes


comparados aos animais homeotérmicos, que gastam boa parte da energia dos alimentos
para a manutenção da temperatura corporal e nos peixes é utilizado para crescimento e
ganho de peso, daí o motivo de a maioria dos peixes apresentarem melhor eficiência
alimentar que os mamíferos e as aves. Dentro da faixa de conforto térmico para uma
espécie de peixe, quanto maior a temperatura da água, maior será a atividade
metabólica, o consumo de alimento e consequentemente o crescimento.

Durante os meses de outono e inverno os peixes tropicais diminuem o consumo de


alimento e podem até deixar de se alimentar em dias muito frios, resultando em
reduzido crescimento.

1.3 Noções de fisiologia

Um dos pontos chaves na piscicultura é a preparação ou escolha de rações para a


espécie que se está cultivando. Uma ração preparada para uma espécie herbívora
dificilmente apresentará bons resultados para uma espécie carnívora. O conhecimento
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das necessidades e funcionamento deste alimento para cada espécie pode determinar o
sucesso econômico ou fracasso da criação.

Para elaborar e usar uma ração é preciso conhecer as variações existentes na estrutura e
na fisiologia do sistema digestório dos peixes; a absorção dos nutrientes; as
características físico-químicas; a temperatura ideal; os resíduos nitrogenados dos
diferentes ambientes aquáticos; os controles hormonais relacionados com estresse e o
que acarreta o estresse. Todas estas variações serão descritas neste tópico de fisiologia
de peixe.

1.3.1 Sistema Digestório

Os peixes possuem uma grande variedade de hábitos alimentares, podem ser dentritivos
ou iliófagos, herbívoros, carnívoros e onívoros. E podem ser classificados em eurífagos;
que são peixes que comem grande quantidade de alimentos; peixes estenófagos, que
comem pequena quantidade de alimentos; e ainda monófagos, peixes que comem
somente um tipo de alimento. O hábito alimentar pode mudar durante a vida do animal,
ou seja, quando juvenis serem zooplanctófagos, e quando adultos apresentarem hábitos
de herbívoros. Quanto aos hábitos alimentares, os peixes podem ser classificados em:

✓ Fitoplanctófagos: são aqueles que buscam alimentos no nível mais baixo da


cadeia alimentar (algas); possuem como características principais numerosos
rastros branquiais que filtram e selecionam as algas da água, como a Carpa
prateada Hypophtalmichtys molitrix que éfitoplantófago, plantctófago.

✓ Zooplanctófagos: são aqueles que se alimentam do zooplânctone; estão situados


no segundo grau da cadeia alimentar, possuem rastros branquiais desenvolvidos
para selecionar e separar organismos do zooplâncton. Geralmente estes peixes
não apresentam dentes, ou apresentam diminutos, possuem bocas capazes de
projetar-se. Como exemplo a Carpa cabeça grande Aristichtys nobilis, que é
zooplantófago.

✓ Predadores: alimentam-se de organismos macroscópios, podem ser carnívoros e


ictiófagos ou piscívoros. São peixes que ingerem outros peixes; apresentam
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dentes fortes especialmente os caninos e os incisivos que estão dispostos até os
arcos branquiais. Como exemplo temos a Traíra, Hoplias malabaricus, que é
carnívoro.

✓ Iliófagos: buscam alimentos no fundo do viveiro ingerindo lodo, pequenos


moluscos, algas, insetos aquáticos, anelídeos, como o Curimbatá, Prochilodus
scrofa, que é lodófago.

✓ Herbívoros: alimentam-se de vegetais superiores, macrófitas aquáticos ou de


terra firme que cai na água; possuem tubo digestivo simples e longo, como
exemplo temos a Carpa capim, Ctenophary godonidella, que é macrofitófago.

✓ Onívoros: são aqueles que ingerem todo tipo de material orgânico disponível na
água. São especialistas em triturar e roer, comem moluscos, sementes, vegetais
de qualquer espécie e crustáceos, como exemplo o Tambaqui, Colossoma
macropomum, onívoro

Figura 1.2: Esquema de uma cadeia alimentar no ambiente aquático.

Fonte: Russel-Hunter\(1970); Arrignon (1979); Boyd & Lichtkoppler (1979).

25
Cavidade Bucal e Faringe

A cavidade bucal e a faringe estão associadas com a apreensão e seleção de alimentos a


ser ingerido; a dentição dos teleósteos é composta, de dentes orais, localizadas nas
bordas da boca e no palato e dentes faringeais associados com os arcos branquiais que
ficam na parte posterior da cavidade opercular.

O formato dos dentes está relacionado com a função: os dentes tipo agulha servem para
segurar e perfurar as presas, os dentes de bordas cortantes ajudam a cortar as presas em
pedaços menores. Em cascudos raspadores de substrato a boca tem forma de ventosa
com papilas adesivas para aderir ao substrato, nas carpas os dentes faringeais posterior à
cavidade opercular ao ingerir plantas aquáticas são pressionados durante o processo de
trituração dos alimentos.

Várias espécies planctófagas e detritívoras apresentam modificações nos arcos


branquiais, os chamados rastros branquiais, que formam uma rede para capturar o
plâncton, quando a água carrega as partículas de alimento para dentro do interior da
cavidade oral. Essas partículas são carreadas pelos rastros branquiais que funcionam
como um filtro direcionando o alimento para o esôfago. Nas espécies carnívoras os
arcos branquiais curtos e grossos têm a função de facilitar a apreensão da presa.

Na tilápia Oreochromis niloticus e em Pirapitinga Piaractus macropomum, o sistema de


filtração pelos rastros branquiais é auxiliado por uma camada de muco situada nessa
região, quando partículas alimentares pequenas grudam e depois seguem para o esôfago
acompanhando o fluxo de água.

Nos peixes predadores como a truta arco-íris Oncorhynchus mykiss e a traíra Hoplias
malabaricus, quando a presa está próxima da boca levantam o crânio e abaixam a
mandíbula e dilatam o opérculo aumentando a cavidade bucal e opercular que provoca
um aumento do fluxo para dentro da boca de água sugando a presa.

Classificação dos dentes devido à localização: mandibulares presentes no maxilar; e


pré-maximilar, os bucais presentes no palatino ectopterigoide e assoalho da boca, os
faringeais encontram-se no 3°, 4° e 5° arcos branquiais superiores e inferiores.
26
Podem ser ainda classificados de acordo com sua forma como: cardiformes, são curtos,
numerosos e pontiagudos; viliformes, são alongados e espessos; caninos pontiagudos,
servindo para perfurar e segurar as presas e incisivos que possuem extremidades
cortantes e molariformes apresentam a superfície achatada, servindo para triturar e
moer.

Esôfago

Porção que liga a cavidade opercular com o estômago, geralmente curto, de paredes
espessas, de difícil identificação. Sua identificação é baseada nas pregas da mucosa,
observadas em análise histológica. Esta porção possui células mucosas que produzem
muco para lubrificação.

Estômago

O estômago pode ser dividido em três regiões, que são a cárdica na porção de entrada,
fúndica tipo saco e pilórica na saída. A cárdia e o piloro possuem esfíncteres que
controlam a passagem dos alimentos pelo estômago, porém, em alguns peixes, o
esfíncter cárdico pode estar ausente. A superfície interna, a mucosa, contém uma
variedade de células glandulares endócrinas e secretoras exócrinas. Estas últimas
produzem o muco e o suco gástrico. As características das glândulas gástricas variam
conforme o hábito alimentar do peixe, sendo mais ramificadas e desenvolvidas nos
peixes carnívoros.

O estômago armazena temporariamente o alimento e desempenha funções mecânicas


que auxiliam na trituração e início da digestão dos alimentos. O tamanho do estômago
pode ser usualmente relacionado com o intervalo entre as refeições e o tamanho das
partículas do alimento ingerido.

Os peixes que consomem grandes presas em intervalos esparsos possuem grandes


estômagos e aqueles que se alimentam de pequenas partículas e de animais micrófagos
possuem frequentemente pequenos estômagos ou não os possuem, como exemplo a
Carpa comum (Cyprinius carpio).

Peixes dentritivos como as tainhas e os curimbatás (Prochilodu ssp.) e Acarás


27
(Geophagus brasiliensis), que se alimentam de zooplâncton, apresentam o estômago
com baixa capacidade de armazenamento, mas bem musculoso e com fortes contrações
para fragmentar os alimentos.

Intestino

Um longo tubo com pregas que tem como funções completar a digestão no estômago e
absorver nutrientes, água e íons. Algumas espécies apresentam os cecos pilóricos, que
são projeções digitiformes da região proximal; estes cecos são adaptações para
aumentar a área do intestino e são mais desenvolvidos em peixes carnívoros,
detritívoros e onívoros e reduzidos ou mesmo ausentes em peixes herbívoros.

O intestino é responsável por grande parte da digestão de lipídeos e proteínas e recebe


as secreções pancreáticas e biliar, tendo um pH neutro 7,0-7,5; participa da absorção de
aminoácidos, carboidratos, lipídios, água e íons. Peixes como a traíra na fase inicial são
insetívoros e apresentam intestino mais longo que os adultos.

Nos carnívoros, o intestino é curto tendo menor capacidade de aproveitamento do


alimento e de nutrientes aproveitáveis; nos herbívoros a qualidade do alimento requer
uma passagem mais lenta para as enzimas agirem e aumentar a eficácia da alimentação.

Os peixes onívoros e herbívoros apresentam a capacidade de alterar a estrutura e as


propriedade absortivas do seu sistema digestório em resposta à mudança na dieta. Por
exemplo, um aumento de carboidratos na alimentação pode provocar um aumento do
comprimento do intestino e da absorção de glicose em alguns teleósteos. Peixes
carnívoros como a truta não possuem esta capacidade de alterar a estrutura do trato
digestório nem aumentar a absorção de carboidratos, quando administrados em dietas
ricas em carboidratos.

Fígado

Glândula derivada embrionariamente do intestino situa-se dentro da cavidade abdominal


e é separada da cavidade pericárdica por um septo transversal; possui formas diversas
com lobos pares e impares de coloração escura tendo como anexo a vesícula biliar.

28
Pâncreas e vesícula biliar

O pâncreas aparece difuso e se estende ao longo de todo intestino, desde a vesícula


biliar e baço, até próximo ao ânus. Possui dois tipos de secreções que são liberadas no
intestino ou cecos pilóricos que ajudam a neutralizar o quimo ácido do estômago. A
vesícula biliar localizada junto ao fígado e intestino contem sais biliares que auxiliam na
digestão de lipídios. Até o momento não se encontrou nenhuma relação entre o volume,
tamanho e conteúdo iônico da vesícula biliar e o hábito alimentar do peixe.

1.3.2 Sistema sensorial

Os órgãos do sentido nos peixes consistem em:

1. Células receptoras periféricas especializadas que captam as variações do meio e,


através de neurônios integradores no Sistema Nervoso Central. Estes receptores
respondem adequadamente aos estímulos captados, variam de células isoladas
como os corpúsculos tácteis a estruturas complexas como os olhos. Os peixes
possuem quimiorreceptores altamente desenvolvidos para detectar sabores e
odores devido ao meio que vivem.

2. Cutâneo que são terminações nervosas na epiderme que detectam variações da


água percebem diferenças mínimas de até 0,03°C.

3. Órgão gustativo que são células quimiorreceptoras existentes nos botões


gustativos do barbilhões e cabeça para identificar o gosto. Estes corpúsculos
gustativos são estimulados por produtos químicos em solução na água e a
localização destes órgãos estão distribuídas mais frequentemente nas regiões da
cabeça e na boca, mas podem estar espalhados por outras partes da superfície do
corpo incluindo as nadadeiras.

4. A Linha lateral apresenta um sistema sensorial altamente desenvolvido, formado


por células sensoriais receptoras denominadas de neuromastos, que estão
interligados por canais fechados e situados abaixo das escamas ao longo da

29
lateral do corpo dos peixes, abrindo-se para o meio exterior através de pequenos
poros que detectam movimentos da pressão hidrostática e suas variações.

Os neuromastos são formados por um feixe de células alongadas e ciliadas na


extremidade. O processo ciliar inclui uma massa de material gelatinoso
denominado de cúpula que é secretado pelas células sensoriais.

5. A visão importante para alguns peixes e menos para outros, em geral os peixes
encontrados em águas paradas escuras com sedimentos suspensos e
florescimento de algas dependem menos da visão, apresenta o cristalino esférico
e transparente conferindo aos peixes alto poder de resolução a curta distância. A
córnea é transparente sem pigmentação podendo existir membranas amarelas ou
verdes, a íris forma a pupila e controla a quantidade de luz que atinge a retina.

6. A audição: os peixes não possuem ouvido externo, como a maioria dos


vertebrados superiores utilizam receptores de som como a bexiga natatória e
outros receptores no corpo, como a linha lateral. Os ouvidos internos
responsáveis pela função auditiva nos peixes estão localizados no crânio, atrás
dos olhos da maioria dos peixes.

Os peixes produzem sons de diversas maneiras dependendo da espécie podendo


mover as nadadeiras contra as partes do corpo, atritar os dentes faríngeos, liberar
gás pelo ducto da bexiga natatória ou vibrar suas paredes com músculos
especiais. Os sons podem servir par reunir indivíduos para a reprodução ou para
a alimentação. Em algumas espécies eles são emitidos durante o comportamento
agressivo ou defensivo e eles podem ser importantes no comportamento
territorial. Em muitas espécies os sons são transmitidos através do corpo para o
ouvido interno. Em alguns teleósteos, entretanto o ouvido interno está ligado à
bexiga natatória, cujas paredes vibram com os sons subaquáticos como um
hidrofone. A ligação pode ser direta através de uma conexão semelhante a um
estetoscópio até a cápsula auditiva ou indireta através de diversos ossos
pequenos, os ossículos de Weber.

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7. Os órgãos olfativos, constituídos por um par de fossas nasais na região dorso
anterior da cabeça, não possuem conexão direta com o aparelho respiratório.
Elas são revestidas por pregas ou cristas do epitélio sensitivo que comunicam
com o cérebro através de nervos olfatórios. A função básica do sistema olfativo
nos peixes é procurar alimentos, orientar e alarme, em algumas espécies são
muitos acurados.

1.3.3 Sistema Circulatório

Os peixes são heterotérmicos, animais de sangue frio. Possuem sangue vermelho


adaptando a temperatura do seu corpo a do meio ambiente. O volume sanguíneo
representa 2% do peso do corpo sem incluir a linfa.

Dos ciclóstomos aos teleósteos, com exceção dos dipnoicos (além de guelras, têm um
ou dois pulmões funcionais), o sistema circulatório é simples, pois somente o sangue
oxigenado passa pelo coração caracterizando um fluxo sanguíneo único.

O coração está localizado logo atrás das guelras e estruturalmente é constituído pelo
seio venoso, átrio, ventrículo e cone arterial, de onde se prolonga a artéria aorta ventral.
A parede do seio venoso é fina e está separada do átrio através das duas válvulas, o átrio
tem parede um pouco mais espessa e comunica-se com o ventrículo pelo orifício
atrioventricular.

1.3.4 Sistema Respiratório

As necessidades respiratórias dos peixes são variáveis e dependem de sua fase de


desenvolvimento, da idade, da altitude, da temperatura ambiente e da natureza do meio
que vivem nos lagos, rios ou viveiros de criação. Os peixes continentais são mais
exigentes de oxigênio do que os peixes marinhos respiram por meio de brânquias
(guelras), local onde ocorrem as trocas gasosas e o sangue se arterializa. As brânquias
são quatro estruturas lisas lamelares e pares, localizadas dentro da cavidade branquial ao
lado da faringe. Nelas ramificam uma extensa rede capilar sanguínea protegida por uma
delgada membrana de coloração vermelha.

31
As brânquias estão constituídas de filamentos que se apoiam em arcos cartilaginosos ou
arcos branquiais e que apoiam os rastros branquiais que são estruturas especializadas na
retenção e seleção de alimentos encontrados na água e comunicam diretamente com a
faringe. Os rastros branquiais variam conforme os hábitos alimentares dos peixes;
características anatômicas que facilitam a retenção e orientação para o esôfago.

O trânsito da água para oxigenação do sangue ocorre quando a água entra pela boca,
percorre a faringe, passa através dos arcos branquiais e sai pela abertura do opérculo. À
medida que passa pelos filamentos branquiais, o oxigênio (O2) dissolvido penetra nos
capilares que irrigam o filamento ao mesmo tempo em que o gás carbônico (CO2) passa
do sangue para água.

A bexiga natatória ou vesícula gasosa é o apêndice hidrostático dos peixes. Ela ajuda a
manter a posição na coluna de água, alterando a densidade corporal. É um órgão
alongado cheio de gases apresentando-se em diferentes formatos. Possui além da função
hidrostática as funções sensoriais, acústica, e as vezes respiratórias, como no caso do
pirarucu Arapaima gigas.

Figura 1.3: A= Brânquias de um peixe ósseo: brânquias na câmara branquial com


o opérculo cortado; B= parte de um filamento, ampliado; cada lamela contém
capilares onde o sangue é arterializado e a direção das correntes de água e do
sangue são mostradas, por setas.

A B
Fonte: www.sobiologia.com.br/conteudos/FisiologiaAnimal/respiracao2.php.
Acesso em: 06 abr. 2018.

32
Os peixes que possuem vesícula gasosa ligada ao esôfago através de um ducto
pneumático são denominados de fisóstomos e aqueles que não possuem tal estrutura são
chamados de fisósclitos.

Espécies de água corrente são desprovidas de bexiga natatória e é bem desenvolvida nas
espécies mesopelágicas que necessitam subida e descida ao nível da coluna de água para
alimentação.

1.3.5 Sistema reprodutivo

Os peixes apresentam um aparelho reprodutivo simples formado de ovários para fêmeas


e testículos nos machos. Os ovários são estruturas pares, com formas e dimensões
diversas, e estão localizados longitudinalmente no corpo sob a bexiga natatória,
suspensos pelo mesentério paralelamente aos rins.

Depois do ovário encontramos o oviduto, que pode ter um alargamento para estoque,
deposição de óvulos e termina no poro urogenital que comunica com o exterior. Os
óvulos variam conforme a espécie em número de 2.000 a 2.000.000, de tamanho de 0,8
a 21 mm, com forma esférica, cilíndrica, fusiforme ou elíptico. Apresentam membrana
coriônica e vitelínica com um espaço perivitelínico entre estas; na face externa
apresenta a micrópila por onde penetra o espermatozoide.

Os testículos são estruturas pares longitudinais em relação ao corpo, compactos e


regulares variando a forma e o peso conforme o estágio de maturação. Os
espermatozoides possuem a cabeça alongada ou curta, uma porção intermediária e
cauda com tamanho de 2 a 130 µm. Bastante numerosos, podem ter sobrevivência no
meio externo de 20 segundos até 5 min.

Sexagem e Fecundação

A sexagem é a separação dos machos e das fêmeas para fazer a reprodução. É realizada
no período que antecede a reprodução, através de uma pressão ventral no sentido céfalo-
caudal nas fêmeas e nos machos a pressão ventral flui o esperma de cor leitosa e
viscosa.

33
O dimorfismo sexual aparece em algumas espécies no período reprodutivo.

As características sexuais podem ser classificadas em primárias, como os ovários, os


testículos e os ductos; secundárias como papila urogenital, modificações das nadadeiras
pélvicas, proporção do corpo, secreções, aspereza frontal, dicromatismo sexual e
modificações comportamentais.

As características sexuais secundárias podem ser transitórias ou permanentes


dependendo dos hormônios sexuais gonadais e da integridade do eixo hipotálamo-
hipófise.

No dimorfismo sexual transitório nos Figura 1.4: Dimorfismo sexual transitório nos
machos - protuberância na cabeça no tucunaré.
machos, forma de atração, temos no
Tucunaré Cicla sp. o aparecimento de
protuberância como um cupim entre a
cabeça e a nadadeira dorsal. No
pirarucu Arapaima gigas a borda das
Fonte:http://www.pousadanova.com.br/peixes
escamas ficam avermelhadas. daregiao.htm. Acesso em: 25 abr. 2018.

Dimorfismo sexual permanente, como na Tilápia do Nilo, Oreochromis niloticus, existe


uma diferença entre macho e fêmea no formato e número de orifícios na papila genital.
No macho é afilada e na fêmea menos afilada e com dois orifícios.

Quanto à fecundação, os peixes podem ser:

✓ ovulíparos, quando a fecundação e o desenvolvimento são externos;

✓ ovíparos, quando a fecundação é interna e o desenvolvimento externo (ex: as


raias);

✓ ovovivíparos, com fecundação interna e desenvolvimento interno (ex: os


lebistes) e

✓ vivíparos, fecundação e desenvolvimento internos, como nos seláquios (arraias).

34
Figura 1.5: Dimorfismo sexual permanente. A = orifício urogenital no macho de
tilápia; B= orifício urogenital na fêmea de tilápia.

A B

Fonte: http://alejandrajaime.blogspot.com/2011/06/cultivo-de-tilapia.html. Acesso


em: 12 de abr. 2018.

Incubação dos ovos

O processo de incubação dos ovos depois da fecundação depende da espécie de peixe e


está sujeito a diversos fatores, como temperatura, luz, salinidade, gases e processos
endócrinos. Para os peixes de clima tropical. o desenvolvimento incubatório é rápido
comparado aos peixes de clima frio, como trutas Oncorhynchus mykiss, que produzem
ovos com mais vitelo, maiores e menos numerosos.

O curimbatá (Prochilodus scrofa) e o piauçu Leporinus obstusidens apresentam os ovos


pelágicos quando ficam livres na coluna d’agua, outros peixes como o tucunaré Cicla
sp. apresentam os ovos demersais e aderentes quando ficam aderidos no fundo em uma
superfície dura.

A tilápia do Nilo Oreochromis niloticus deposita os ovos em ninhos escavados pelos


machos no fundo do viveiro e as Carpas Cyprinius carpio aderem em substratos
flutuantes com raízes de plantas aquáticas.

35
Figura 1.6: A = Desova de tilápia em ninhos; B=desova de carpa em plantas submer.

Fonte: Woynarovich (1985)

Algumas simulações de incubação são através de incubadoras de fluxo ascendente para


pacu, tambaqui e incubadoras de gavetas para trutas e do tipo cocho para os bagres.

Figura 1.7: A= Tipos de incubadoras para desova de peixes; B= vertical tipo cocho.

A B

Fonte: A= Amaral Júnior (2007) B=:http://www.icmbio.gov.br/cepta/pesquisa.html


Acesso em: 08 abr.2018.

Maturidade sexual

A maturidade sexual em peixes pode ocorrer em fase precoce ou tardia dependendo da


espécie e do seu ciclo de vida. Os peixes tornam-se sexualmente maduros quando as
gônadas, nas fêmeas ovário e nos machos testículos, passam a produzir gametas viáveis.
A maturidade depende da idade, do tamanho, da fisiologia, da alimentação, do
fotoperíodo, da temperatura, da correnteza e presença do sexo oposto.

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A idade da maturidade depende da espécie, algumas podem ser alguns meses, outras,
anos. O controle da reprodução em peixes é um fator muito importante economicamente
na exploração comercial. Os conhecimentos adequados dos ciclos reprodutivos
determinam o sucesso de explorações de algumas espécies.

Ciclo reprodutivo

Os ciclos reprodutivos dos peixes são regulados pelos estímulos ambientais captados
por receptores sensoriais apropriados, que captam estímulos ambientais e os levam para
o cérebro na forma de sinais neurais. Estes sinais alcançam o hipotálamo e causam a
liberação de peptídeos hipotalâmicos que são os hormônios liberadores que chegam à
glândula hipófise e aí induzem a liberação dos hormônios gonadotróficos que irão atuar
nas gônadas.

As gônadas produzem os hormônios esteroides sexuais, os estrógenos e andrógenos, que


são responsáveis pela formação e pelo desenvolvimento dos gametas pela regulação das
características sexuais secundárias, como a coloração nupcial, e pelo comportamento
reprodutivo.

A indução reprodutiva de peixes reofílicos, peixes que realizam migração para desovar,
a piracema, quando em cativeiro, deixa de receber certos estímulos externos, fazendo
com que não haja uma resposta endócrina apropriada para a indução da maturação
gonadal final e dessa forma os ovários se desenvolvem apenas parcialmente, um estágio
de vitelogênese completa.

A reprodução pode ser obtida fazendo-se uma simulação da resposta endócrina natural,
através da manipulação ambiental ou aplicação de substâncias análogas aos estímulos
hormonais intrínsecos. As formas de indução hormonal podem atuar através da
aplicação de substâncias que irão desencadear estímulos na hipófise desses animais,
como é o caso de análogos de GnRH, inibidores de dopamina, domperidona, pimozida e
metoclopramida. A indução pode ainda atuar em nível gonadal, como é o caso de
gonadotropinas de peixes, macerado de hipófises desidratadas e gonadotropina
coriônica humana.

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Nesses peixes, cuja resposta fisiológica aos estímulos ambientais reprodutivos não está
baseada na piracema, a manipulação da reprodução em cativeiro se faz principalmente
por alterações no manejo, buscando reproduzir as condições naturais para a desova
destes peixes. Em algumas espécies a reprodução pode ser estimulada pela presença de
abrigos e ninhos, como por exemplo no caso do trairão e do catfish, e estruturas de
fixação de ovos que são utilizadas na desova da carpa comum. Para os lambaris, é
comum se adotar estratégias de manejo estressantes que induzem a desova.

Atualmente, para a reprodução induzida de peixes em cativeiro, a maioria dos


piscicultores utiliza a hipófise desidratada de carpa, pela facilidade de obtenção do
produto, bem como pela simplicidade desta metodologia, apesar do seu custo ser
elevado, aproximadamente 400 dólares o grama.

Apesar dos custos fixos na produção de alevinos por indução serem elevados, o custo
final por unidade produzida é baixo devido à alta fecundidade das espécies utilizadas
(uma fêmea de 1 Kg pode produzir mais de cem mil ovócitos) e o controle do processo
produtivo que permite um maior aproveitamento dos ovos, tornando esta atividade uma
das mais rentáveis na aquicultura. Nos últimos anos, a piscicultura nacional tem
demonstrado interesse por espécies nativas de silurídeos e algumas outras espécies
carnívoras como os piraíbas (filhotes), jundiás, pintados, surubins, dourados e pirarucus.

Desova dos peixes

A desova em espécies de águas lênticas (águas paradas) das espécies exóticas


encontradas na piscicultura nacional, as carpas-comuns Cyprinu scarpio, é bastante
difundida, pela simplicidade de seu cultivo e tradição de seu consumo entre populações
de origem asiática e nos estados do sul de nosso país. Dela se obtém a hipófise utilizada
na maioria das reproduções induzidas. A reprodução das carpas comuns é influenciada
pela temperatura e sua desova ocorre em plantas submersas ou nas raízes de macrófitas
aquáticas flutuantes (aguapés), ou em substratos como os kakabans, onde os ovos
aderem-se a estas estruturas.

Após ocorrer a desova, estas estruturas com os ovos são encaminhadas para um tanque
isolado para que ocorra a eclosão, evitando a predação dos ovos por parte das matrizes.
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Reprodução semelhante ocorre com lambaris Astyanax sp. Os ovos podem eclodir no
tanque de reprodução, e quando atingem o estágio de alevinos os peixes são coletados e
passam para tanques de engorda.

Outras espécies que desovam naturalmente são a traíra Hoplias malabaricus e o trairão
Hoplias lacerdae, que desovam em ninhos escavados em pedras, em manilhas nas
partes mais rasas dos tanques e ficam até eclodirem. Ficam oxigenando e protegendo os
ovos contra eventuais predadores, chegando a atacar animais de maior porte.

O manejo da reprodução destas espécies inclui a coleta da desova e seu transporte, ao


abrigo da luz solar, para o laboratório, onde são incubados em caixas com temperatura
constante de 26 a 28°C e aeração. A larvicultura geralmente é realizada em tanques
escavados.

A desova artificial ou induzida das espécies reofílicas possui várias alternativas para a
indução reprodutiva. A técnica baseia-se em aplicações intramusculares e ou
intrabdominal, principalmente na base das nadadeiras peitorais e pélvicas.

Na maioria das criações comerciais, a indução à desova é feita mediante o uso de


hipófise desidratada de carpa, que é aplicada na forma de extrato bruto, diluída em
solução fisiológica. Esta técnica pode ser considerada padrão na indução reprodutiva,
pela facilidade em se obter informações pertinentes na literatura e pela facilidade de
execução, tornando-se uma prática bastante difundida.

Figura 1.8: Aplicação


Figura de hormônio
8. Aplicação hipofisário
de hormônio paraindução
hipofisário para indução à desova.
a desova.

A B

Fonte: A= Woynarovich (1985) B= Disponível em:


https://wwwradardoanthero.blogspot.com/2011/09/pai-da-piscicultura-brasileira.html.
Acesso em: 12 abr. 2018

39
O extrato hipofisário é aplicado em fêmeas, cujas gônadas apresentem ovócitos em
vitelogênese completa. O momento de aplicação é um dos principais aspectos na
reprodução induzida, visto que tanto uma aplicação precipitada quanto tardia tende a
comprometer o processo de maturação das gônadas, e para estimar esse momento ideal
de aplicação cabe ao produtor fazer observações como a época de reprodução verificada
na região, comportamento, abaulamento e consistência da região abdominal e aspectos
da papila genital entumecida.

Figura 1.9: A= Coleta da glândula pituitária ou hipófise na carpa:


corte da cabeça; B= levantamento da placa óssea; C= retirada do
cérebro; D= retirada da hipófise na base do cérebro.

Fonte: https://wwwradardoanthero.blogspot.com/2011/09/pai-da-
piscicultura-brasileira.html. Acesso em: 12 abr. 2018.

1.4 Tipos de dietas para peixes

Os criadores de peixe devem estar conscientes e informados de todos os aspectos da


qualidade das dietas, porque ela tem grande influência nos custos de produção do
pescado. Uma dieta peletizada produz 50% mais catfish do que uma dieta farelada.

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1. Dieta suplementar = constitui-se nos alimentos fornecidos aos peixes como
suplemento do alimento natural, que se desenvolve na água dos tanques e
viveiros. Constitui-se, quase sempre, em grãos (milho, trigo, sorgo, cevada e
outros) e subprodutos deles (farelos, xerém, quirera, cuim e outros); tortas de
oleaginosas (soja, mamona, babaçu, algodão, tucum, amendoim e outras);
diversos frutos, que não se prestam para o consumo humano; vegetais e farinhas
(peixe, carne, sangue e outras).

Estes alimentos podem ser ofertados isoladamente ou em misturas. As dietas


suplementares apresentam elevado teor proteico, em alguns casos mais de 50%
da matéria seca, o que está acima do requerido pelos peixes cultivados.

2. Dieta completa= constitui-se em peixe fresco, resíduo doméstico, minhoca


(oligoqueta), crustáceo e outros animais, que são fornecidos aos peixes
cultivados, sob as mais diversas formas (cru, congelado, cortado em pedaços,
moído, inteiro ou prensado).

As primeiras dietas fornecidas aos peixes se constituíram de resíduos domésticos e


peixes crus. O peixe fresco é fornecido inteiro, cortado em pedaços ou moído. Suas
vantagens são a grande aceitabilidade (palatabilidade) e o baixo custo. Isto porque
geralmente é usado peixe de baixo ou nenhum valor comercial para alimentar espécie
nobre.

Nas estações de piscicultura do DNOCS utilizam-se, nas criações de apaiari,


(Astronotus ocellatus), tucunarés (Cichla sp.) e pescada do Piauí, Plagioscion
squamosissimus, dietas constituídas de peixes frescos, cortados em pedaços ou moídos,
e camarões (inteiros ou cortados).

3. Dieta farelada úmida= formada pela mistura de alimentos úmidos (carne de


peixe fresca, farinha de carne ou de peixe, resíduos do processamento animal e
produtos similares) com farelos secos, em iguais proporções. Geralmente são
mais econômicas do que as dietas completas e boas para salmonídeos e outras
espécies, que não aceitam facilmente alimentos secos.

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Podem-se aproveitar resíduos industriais do processamento do pescado, bem
como peixes não usados diretamente no consumo humano, para o preparo de
dietas fareladas úmidas. Contudo, os alimentos de origem animal (perecíveis)
deverão ser armazenados em freezer ou câmara frigorífica, pois estão sujeitos à
rancificação ou deterioração.

4. Ração peletizada= dieta das mais usadas comumente na piscicultura, nos dias
de hoje. Isto devido à facilidade de preparação, transporte, armazenamento e
fornecimento aos peixes, pois ela não precisa de estrutura de frio para estocagem
e transporte. O fornecimento aos peixes pode ser feito em comedouros
automáticos (tipos diversos), em caçambas puxadas por tratores, em barcos e em
outros dispositivos.

As indústrias formulam e fazem dietas balanceadas e peletizadas para inúmeras


espécies de peixes de água doce, de tal modo a atender-lhes as exigências
nutritivas específicas. O tamanho dos grãos ou peletes varia de acordo com o do
peixe que se vai alimentar. As rações peletizadas devem apresentar grânulos
(peletes) suficientemente duros, a fim de permanecerem intactos na água por, no
mínimo, 10 minutos. O desejável vai de 15 a 20 minutos. Isto para que os peixes
possam captá-los antes que se desintegrem na água.

5. Ração extrusada= dieta em que os peletes apresentam, em sua parte interna,


bolhas de ar, que lhes permitem flutuar na água. Elas são largamente usadas na
piscicultura moderna, inclusive no Brasil, onde seu emprego é crescente. Os
peletes flutuantes são obtidos em equipamentos especiais (extrusoras) e seu
custo de produção é 8 a 15% mais caro do que os peletes comuns. Contudo, sua
principal vantagem compensa plenamente, pois consiste em permitir que os
piscicultores controlem a quantidade de alimento consumido, de acordo com o
apetite dos peixes.

6. Alimentos pastosos= consistem basicamente em farinha de peixe, finamente


pulverizada, e amido de batata seco e gelatinizado. A mistura de ambos é
suplementada com a adição de minerais e vitaminas. Antes de ser fornecido às

42
enguias, a dieta deve receber igual peso em água, 5 a 10% de óleo de peixe,
sendo tudo vigorosamente agitado, durante 30 segundos. A pasta assim obtida é
fornecida às enguias em cestos de metal, suspensos na superfície da água.

O conceito e o uso de rações ambientalmente corretas

A preservação ambiental é uma atitude correta, saudável e perseguida pelos produtores


conscientes. Um alimento, ração ou dieta ambientalmente correto, ou favorável ao meio
ambiente, não é necessariamente um alimento ração ou dieta orgânico. Produtos
orgânicos são aqueles originados ou manufaturados com grãos, farinhas, ou quaisquer
outros produtos e ou subprodutos agrícolas cultivados sem a adição de insumos
químicos, fertilizantes ou pesticidas.

Rações formuladas e processadas à base de produtos orgânicos podem ser classificadas


como rações orgânicas, mas não necessariamente significa que sejam rações
ambientalmente corretas para peixes, uma vez que seus componentes podem ter (e
geralmente têm) baixa digestibilidade e o uso destas rações pode então resultar na
emissão de quantidades bastante altas de material fecal.

Em suma, existe um reduzido, mas crescente, nicho de mercado para o pescado


originado da piscicultura orgânica. Os consumidores dos produtos orgânicos baseiam
sua escolha não em critérios científicos, mas sim em valores éticos. Recusam-se a
consumir quaisquer alimentos que tenham sido produzidos à custa do sacrifício de
outros animais, que tenham sido alimentados com rações produzidas à base de
ingredientes de origem animal.

Existe um nicho de mercado definido para o comércio de alimentos orgânicos para


peixe. A adoção da prática estrita da piscicultura orgânica ainda é uma realidade muito
distante ou, de fato, um cenário impraticável na atualidade.

A produção de alimentos para peixes sob os padrões de produção orgânica existentes é


tecnicamente inviável. Os limites impostos para o uso conjunto de Farinha de Peixe
mais óleo de peixe em 5%, e o banimento estrito de produtos e subprodutos da indústria
da produção animal das rações, restringem os departamentos de formulação de

43
alimentos das fábricas às opções de uso de fontes de proteína vegetal ou proteína
microbiana.

1.4.1 Energia resultado de quebra de nutrientes

A quantidade de energia da ração é diferente da proteína. Ela não é um nutriente, mas o


produto da quebra de nutrientes como a gordura, o carboidrato e da própria proteína tem
tanta importância quanto o teor de proteína para peixes. Os peixes utilizam energia da
ração para manutenção do metabolismo, locomoção, reprodução e transformação da
proteína oferecida na ração em carne.

Figura 1.10: A= ração úmida; B= ração em pó; C=ração farelada; D= ração extrusada
1,0mm; E= ração extrusada 2,5mm; F= ração extrusada5mm; G=ração extrusada 10mm;
H= ração floculada; I= peletes de ração, larvas e insetos; J= arraçoamento de ração
farelada; K= arraçoamento mecanizado com trator; L= carrinho de mão com
equipamento para lançamento de ração em viveiro.

Fonte: Moisés Anthero da Silva

44
Figura 1.11: Representação esquemática do crescimento deposição de gordura
corporal e excreção de nitrogênio dos peixes quando alimentados com rações de
diferentes proporções de energia (E) e proteína. (P).

Fonte: Meyer; Fracalossi; de Borba (s/d)

A energia na ração regula o consumo da ração, podendo ocorrer rações ricas em energia
que produzem saciedade no peixe sem suprir as necessidades em proteínas e outros
nutrientes levando ao acúmulo de gordura na carcaça. O excesso de proteína é
armazenado na carcaça como energia, aumenta o custo da ração, aumenta o nitrogênio
excretado e aumenta a poluição da água do viveiro.

A energia bruta da ração (análise da ração em laboratório) que vem expressa no rótulo
das rações indica a concentração energética do alimento. Este laudo não revela o quanto
desta energia será aproveitado pelos peixes. A quantidade desta energia que será
digerida e absorvida pelo peixe é chamada de energia digestível.

A digestibilidade da energia varia de ração para ração e de espécie para espécie. Para as
espécies nativas, os dados de digestibilidade dos ingredientes são escassos comparados
aos peixes exóticos como a truta, o catfish. Ainda temos dificuldade de formulação de
45
ração para espécies nativas pela ausência de informações consistentes e também para os
ingredientes alternativos, dos quais ainda não são conhecidos os valores de
digestibilidade.

O interesse dos criadores de peixe é que o balanceamento energético adequado garanta


bom ganho de peso, boa conversão alimentar, pouca gordura corporal e pouca excreção
de amônia na água.

1.4.2. Determinação da Energia digestível

É possível que a energia digestível dos ingredientes de uma ração para uma determinada
espécie seja estimada de modo a facilitar o balanceamento energético de uma dieta.
Levamos em conta os valores médios de digestibilidade de uma espécie.

Tabela 1.1: Média dos coeficientes de digestibilidade da proteína, carboidrato, lipídio


de espécies onívoras e carnívoras

Fonte: Jobling (1983)

Vamos exemplificar com uma ração para truta que apresenta indício de desbalanço
energético, devido aos resultados de baixo ganho de peso, atraso no período de abate,
muitas fezes na água.

1. Como estimar a energia digestível de uma ração para truta sabendo que o
resultado do laboratório para conferência, foi de:

46
FRAÇÃO QUANTIDADE (%)

Teor de umidade 10

Proteína Bruta 40

Gordura 9

Cinzas 7

Fibra Bruta 5

Estrato não nitrogenado(CHO) 29

Fonte: Meyer; Fracalossi; de Borba (s/d)

2. Os valores médios de energia bruta dos nutrientes (conforme tabelas de nutrição)

1 kg de proteína gera em média 5.640 kcal

1 kg de carboidrato gera em média 4.110 kcal

1 kg de gordura gera em média 9.440 kcal

3. Os valores de digestibilidade dos nutrientes (tabela 1.1)

Proteína 88% ou 0,88

Gordura 90% ou 0,90

Carboidrato 50% ou 0,50

4. Cálculo da energia digestível da ração comercial analisada em laboratório.

a. ENERGIA DIGESTÍVEL PROVENIENTE DO CARBOIDRATO


(CHO)

• CHO= (quantidade de CHO na ração x energia produzida pelo


CHO x digestibilidade do CHO)

47
• 0,29 x 4.110 kcal/kg x 0,50 = 596 kcal/kg

b. ENERGIA DIGESTÍVEL PROVENIENTE DA PROTEÍNA

• 0,40 x 5.650 kcal/kg x 0,88 = 1.989 kcal/kg

c. ENERGIA DIGESTÍVEL PROVENIENTE DA GORDURA

• 0,09 x 9.440 kcal/kg x 0,90 = 765 kcal/kg

d. ENERGIA TOTAL

• 596 + 1.989 + 765 = 3.350 kcal/kg

Podemos verificar pelos cálculos feitos que a concentração energética da ração para
truta foi de aproximadamente de 3.350 kcal/kg de energia digestível, comparada com a
tabela de recomendação (abaixo) para truta deve ser de 3.700 kcal/kg, portanto a energia
digestível da ração analisada está abaixo do recomendado.

Tabela 1.2: Concentração proteica e energética ideal na ração de algumas espécies


criadas em aquicultura.

Fonte: Meyer; Fracalossi; de Borba (s/d)

Como a perda energética via brânquias e urina é pequena, torna-se mais prático
determinar o valor de energia digestível em relação ao valor de energia metabolizável
de um alimento ou ração.

As tilápias utilizam eficientemente os carboidratos como fonte de energia, ao contrário


do que ocorre com os peixes carnívoros como a truta, que utilizam os lipídios mais

48
eficientemente que os carboidratos como fonte de energia. No entanto, existe elevada
correlação entre o nível de lipídios na ração com a deposição de lipídios na carcaça dos
peixes. O equilíbrio entre o conteúdo em energia e os nutrientes em uma ração é
importante para as atividades de manutenção, crescimento e reprodução dos peixes de
forma geral.

1.4.3 Proteínas e Lipídeos

As proteínas são moléculas complexas constituídas de aminoácidos, sendo que 20 deles


compõem a maioria das proteínas. Estas são os mais importantes nutrientes para vida,
crescimento e produção dos peixes. São compostos essenciais que exercem papel central
na estrutura e no funcionamento de todos os organismos vivos, perfazendo em torno de
65 a 75% da matéria seca.

Os peixes formam suas gorduras a partir de outras gorduras, de carboidratos ou de


proteínas ocorrentes nos alimentos. Ao contrário, as proteínas só podem ser formadas a
partir de aminoácidos, obtidas pela quebra de proteínas ingeridas por aqueles animais.
Por isto, eles devem consumir estes nutrientes para o suprimento contínuo de
aminoácidos.

Após a ingestão, as proteínas são digeridas ou hidrolisadas para liberarem aminoácidos


livres, que são absorvidos através da parede do tubo digestivo e distribuídos pelo sangue
para vários órgãos, onde são usados para sintetizar novas proteínas, destinadas a
crescimento, reprodução e reparação de tecidos.

Se o peixe não estiver ingerindo quantidade suficiente de proteína, ocorrerão rápida


redução e paralisação do crescimento ou perda de peso, porque o animal a retirará do
próprio corpo para manter as funções vitais. Os peixes, principalmente carnívoros,
parecem viver e crescer melhor quando consomem dietas com altos teores proteicos, até
35% da matéria seca.

Espécies herbívoras prosperam com baixos níveis relativos deste nutriente, até 20% ou
menos da matéria seca. Os peixes formam alguns aminoácidos pela modificação e
reestruturação de outros. Entretanto, existem alguns que não são capazes de sintetizar
49
por este processo.

Os aminoácidos mais complexos, ditos essenciais, devem estar presentes nas dietas.
Vários estudos indicam 10 aminoácidos essenciais para truta, catfish e, provavelmente,
para a maioria dos peixes, que são: arginina, histidina, isoleucina, leucina, lisina,
metionina, fenilalanina, treonina, triptofano e valina.

Os não essenciais são: alanina, ácido aspártico, ácido glutâmico, cistina, glicina,
hidroxiprolina, prolina, serina e tirosina. Pode-se formular uma dieta com as
quantidades recomendadas de cada aminoácido, mediante a combinação de vários
ingredientes (alimentos) nela usados. No entanto, frequentemente é necessária a adição
de pequenas quantidades de aminoácidos puros, alguns dos quais são adquiridos a
preços razoáveis. Várias dietas para o catfish, truta e outros peixes incluem
suplementos de metionina e lisina, que são os que mais frequentemente aparecem em
baixas quantidades nos ingredientes comuns nas rações.

Os lipídios são importantes fontes de energia e os ácidos graxos são essenciais ao


crescimento normal e à sobrevivência dos peixes. Eles fornecem o veículo para a
absorção de vitaminas lipossolúveis e outros compostos, como os esteróis. Os
fosfolipídios e ésteres de esterol exercem papel importante na estrutura das membranas
celulares e estão também envolvidos em muitos outros aspectos do metabolismo, como
nos de muitos hormônios e esteroides.

As longas cadeias de ácidos graxos poli-insaturados são precursoras de prostaglandinas


em peixes. Os ácidos graxos presentes no corpo dos peixes caracterizam-se por
conterem numerosas ligações duplas, não saturadas, em sua estrutura. As quantidades
mínimas e os tipos de gorduras necessários ao crescimento mais eficiente dos peixes
ainda não são bem conhecidos.

As recomendações de vários pesquisadores em nutrição destes animais variam de 4 a


10% da dieta. Os lipídios são fontes de energia de aproveitamento imediato pelos
peixes. Estudos indicam que estes animais podem utilizar 20 a 30% dos ingredientes da
dieta na forma de gorduras, desde que provida de teores adequados de colina, metionina
e tocoferol.
50
No organismo dos peixes, as gorduras podem ser formadas a partir de proteínas e de
hidratos de carbono, mas são mais eficientemente obtidas a partir de outros lipídios. Isto
sugere que os peixes sejam capazes de fazer melhor uso de óleo de peixe do que do óleo
vegetal, presentes nas dietas.

Alguns experimentos com o catfish mostraram que isto é verdadeiro. Como dito antes,
os lipídios são boas fontes de energia para os peixes, pois têm 2,25 vezes mais energia
do que os hidratos de carbono. Isto foi demonstrado em estudos feitos para truta, salmão
e catfish.

Na natureza a quantidade de gordura na alimentação dos peixes varia de 2 a 20%. Os


ácidos graxos da família linolênica são essenciais para a truta arco-íris (Oncorhinchus
mykiss), o que não acontece com a séria linoleica.

1.4.4. Vitaminas

São compostos orgânicos requeridos em quantidades bem pequenas, atuando como


enzimas ou co-enzimas nos processos metabólicos, na maioria das formas de vida.
Alguns organismos são incapazes de sintetizar as vitaminas. Em cultivos extensivos e
semi-intensivos, com baixas densidades de estocagem, o alimento natural está sempre
em abundância e assim suficiente para suprir as vitaminas essenciais. Em cultivos com
altas densidades de estocagem, como gaiolas e race-way, e criações em viveiros no
sistema intensivo, o alimento natural está limitado e as vitaminas devem ser
suplementadas na dieta, para proporcionarem crescimento normal.

Diversas vitaminas são necessárias à saúde, vida e ao crescimento dos peixes. Algumas
são essenciais para determinadas espécies, mas não para outras. Níveis ótimos de
vitaminas para os peixes são conhecidos apenas aproximadamente e, nutricionistas às
vezes recomendam mais do que podem ser realmente exigidos.

Os requerimentos deste nutriente pelos peixes são afetados pelo tamanho, idade,
velocidade de crescimento, estádio de maturação gonadal, fatores ambientais e inter-
relacionamento entre nutrientes. Os efeitos destas variáveis não têm sido
adequadamente avaliados.
51
Os tipos de vitaminas e suas quantidades requeridas pelos peixes de água quente têm
sido determinados em laboratório, através do fornecimento de dietas purificadas,
deficientes em uma vitamina específica. Este é o método de tentativas, graças ao qual
foram determinadas as exigências de vitaminas, em termos de mg/kg da dieta seca, para
diversas espécies.

A tiamina pode ser particularmente importante para certos peixes que se alimentam de
dietas ricas em carboidratos, como a carpa capim (Ctenopharingodon idella), tainhas,
(Mugil sp.) e outros, que se nutrem de fitoplâncton e vegetais. A piridoxina está
relacionada ao nível proteico da dieta e, por isto, esta é a vitamina mais limitante nos
alimentos de espécies carnívoras. A maioria das vitaminas requeridas pelos peixes
ocorre em quantidade suficiente nos ingredientes usados na formulação de dietas
balanceadas. Contudo, algumas matérias primas são deficientes em determinadas
vitaminas essenciais, principalmente a vitamina A, a riboflavina (B2), a niacina (ácido
nicotínico) e o ácido pantotênico.

As vitaminas A e D contribuem para a formação do corpo, pois a primeira é necessária à


síntese das proteínas e a segunda, ao desenvolvimento dos ossos. A vitamina A assegura
o crescimento normal, assim como a saúde e integridade do tecido epitelial.

A vitamina D desempenha importante papel no metabolismo do cálcio e do fósforo. O


caroteno e a vitamina A podem ser armazenados no fígado dos animais. Na formulação
de dietas balanceadas para peixes devem-se incluir quantidades adequadas de cada uma
das vitaminas que se sabe serem úteis para estes animais. Na indústria e comércio de
rações utilizam-se diversos concentrados vitamínicos, tais como Premix, Pintail e
Vionate L.

1.4.5. Minerais

Minerais são utilizados pelos peixes para formação de tecidos e vários processos
metabólicos. Os elementos inorgânicos são utilizados para manter o balanço osmótico
entre os fluidos do corpo e a água. Excetuando cálcio e fósforo, as necessidades de
minerais pelos peixes não são bem conhecidas, embora se saiba que, como noutros

52
animais, eles necessitam pelo menos de traços de vários elementos. Aqueles devem
estar presentes em quantidades suficientes para formação dos ossos.

Alguns minerais são ativadores de enzimas e componentes de sistemas metabólicos


estruturais. Exigências deles têm sido estudadas para algumas espécies de peixes, em
condições cuidadosamente controladas. O cálcio pode ser retirado do meio aquático
pelo tecido branquial em salmonídeos. Pode também ser absorvido através do intestino,
quando teores adequados de vitamina D3 estão presentes na dieta. O fósforo é absorvido
pelos tecidos intestinais. Estudos sobre o balanço cálcio/fósforo demonstraram que
muitas dietas não contêm teores suficientes de fosfatos, em virtude da indisponibilidade
deles em vários subprodutos da agricultura, usados nas rações.

O balanço sódio/potássio é especialmente importante para peixes marinhos ou para


aqueles que estão passando por alterações fisiológicas na migração dos rios para os
mares. A variação aceitável é de 1:2 a 2:1. Estes minerais precisam também ser
balanceados nas dietas para peixes de água doce. Os teores devem variar de 1 a 3g de
sódio e 1 a 3g de potássio por kg da dieta. Níveis mais elevados de qualquer um destes
elementos provocam desorganização metabólica e baixo índice de crescimento.

Em relação ao balanço cálcio/fósforo, as dietas devem conter 3 a 5g de cada um destes


minerais por kg. O magnésio é essencial para o metabolismo, sendo importante para o
catabolismo dos carboidratos. As exigências oscilam entre 300 a 500mg/kg da dieta.
Deficiência de elementos traços foi verificada em trutas alimentadas com dietas
deficientes em iodo. Verificou-se proliferação aguda de tecido tireoideano, reação de
compensação e os peixes desenvolveram o típico bócio. Estágios intermediários de
proliferação de hipertireoidismo podem ser reduzidos administrando-se quantidades
adequadas de iodo no alimento. As exigências variam de 100 a 300 microgramas por kg
da dieta. O cobalto parece estar presente na forma de compostos orgânicos ligados à
vitamina B12 e, consequentemente, pequenas quantidades deste elemento devem ser
incluídas na dieta de peixes. Ferro, zinco, cobre, manganês e outros minerais-traços são
também requeridos para ativar diversos sistemas enzimáticos em peixes em crescimento
acentuado. Tais elementos são suplementados normalmente na maioria das dietas,
embora as quantidades requeridas deles ainda não tenham sido catalogadas. Estudos
53
indicam que os minerais essenciais ao crescimento da maioria dos animais e
provavelmente dos peixes são os seguintes, com respectivas funções orgânicas:

1. Cálcio - Formação dos ossos, coagulação do sangue, contração muscular e


sistema enzimático.

2. Fósforo - Formação dos ossos, participação no ATP, nos fluidos tampões do


corpo e no ácido nucleico.

3. Enxofre - Presente nos aminoácidos.

4. Potássio - Balanço iônico nos fluidos do corpo e presença nas paredes internas
das células.

5. Sódio - Balanço iônico nos fluidos do corpo e presença nas paredes externas das
células.

6. Cloro - Balanço iônico nos fluidos do corpo e presença nas paredes internas e
externas das células.

7. Magnésio - Formação dos ossos e sistema enzimático.

8. Ferro - Constituição da hemoglobina.

9. Manganês - Sistema enzimático e arginase (enzima que decompõe a arginina,


encontrada no fígado).

10. Cobre - Sistema enzimático e presença em pigmentos que transportam o


oxigênio nos hell fish.

11. Flúor - Presente nos dentes e ossos.

12. Iodo - Presente na tiroxina.

13. Zinco - Presente na insulina.

14. Selênio - Ação no metabolismo antioxidante.

54
15. Cobalto - Presente na vitamina B12.

16. Molibdênio - Enzima na formação da hemoglobina.

1.4.6 Consumo de Ração e Conversão Alimentar

O consumo pode ser medido por meio de registro da quantidade de quilos de ração
utilizados para alimentar cada viveiro através de fornecimento de uma quantidade
conhecida da ração. Usando uma medida de caneca diária, na medida sugerida, na
porcentagem requerida para a fase, conforme a tabela do fabricante de ração. Esta
quantidade de ração oferecida diária é de fundamental importância, pois o excesso pode
ser tão prejudicial quanto a falta.

A ingestão pode ser calculada com base na porcentagem de biomassa dos viveiros que
pode variar de 1,2 a 12%, conforme o tamanho dos peixes, temperatura, espécie, fase de
criação. A frequência de alimentação oferecida no dia deve ser distribuída em no
mínimo duas alimentações, podendo chegar até 6 vezes ao dia para um melhor
aproveitamento.

A fórmula para determinação da quantidade diária de ração pode ser o ganho de peso
diário dos peixes e a conversão alimentar em número (quando o controle é feito por
número de peixes mortos) e a conversão alimentar em biológica (quando o controle é
feito pela biomassa do lote em quilos).

Quantidade diária ração (kg) = Biomassa do viveiro (kg) x Peso Corporal (%)

Ganho de peso diário (GPD) = Peso Médio (kg) Final – Peso Médio (kg) Inicial

dias de Cultivos

55
Conversão alimentar econômico (CAe) = quantidade de ração fornecida (kg)

biomassa final (kg)-biomassa inicial (kg)

Conversão alimentar biológico (CAb)= Quantidade de ração fornecida (kg)

biom final (kg)- biom inicial (kg)+mortal.

1.4.7 Controle de mortalidade do viveiro e taxa de sobrevivência

Mortalidade número (%)= N° peixes Inicial – N° peixes final (%)

N° peixes inicial

Mortalidade biomassa (% ) = Biomassa Mortalidade (kg)

Biomassa final (kg)

Taxa de sobrevivência (%)= N° peixes final X 100

N° peixes inicial

56
Figura 1.12: A= Ração no tambor de ração; B= caneca de uso diário de ração; C=
pesagem e medição da quantidade de ração diária do caneco; D= lançamento de
ração com caneco; E= pesagem dos peixes do viveiro para biometria; F= medição
dos peixes do viveiro para biometria G= coleta de peixes no viveiro para biometria.

A B C D

E F G
Fonte: Moises Anthero da Silva

1.4.8 Cálculo da mortalidade do lote e conversão alimentar

Exemplo de como determinar os índices de mortalidade numérico e biomassa, o ganho


de peso, um comparativo da conversão alimentar numérica e biológica e taxa de
sobrevivência do lote. A espécie será tilápia, o tipo de criação será em viveiros no
sistema semi-intensivo.

Tabela 1.3: A mortalidade do lote do viveiro (1) controlada por unidade de peixes.
Tabela 3. A mortalidade do lote do viveiro (1) controlada por unidade de peixes.
Controle de mortalidade por número de peixes
Item índices viveiro 1 viveiro 2 viveiro 3 viveiro 4 viveiro 5 viveiro 6 viveiro 7

1 número peixes inícial 50.000 50.000 50.000 50.000 50.000 50.000 50.000

2 número peixes final 45.000 46.000 46.500 47.500 48.500 50.000 50.000

3 número peixes mortos 5.000 4.000 3.500 2.500 1.500 0 0

4 mortalidade (%) 10 8 7 5 3 0 0

Fonte:
Fonte:Moises AntherodadaSilva
Moises Anthero Silva

57
Mortalidade número (%)= N° peixes Inicial – N° peixes final (%)

N° peixes inicial

Mortalidade (%) = 50.000 – 45.000= 10%

50.000

Tabela 1.4: A mortalidade do lote do viveiro (1) controlada pela biomassa dos peixes.
Tabela 4. A mortalidade do lote do viveiro (1) controlada pela biomassa dos peixes.
Controle de mortalidade pela biomassa dos peixes
Item índices viveiro 1 viveiro 2 viveiro 3 viveiro 4 viveiro 5 viveiro 6 viveiro 7
1 biomassa final (kg) 38.250 39.100 39.525 40.375 41.225 22.500 42.500
2 Peso (kg) Mortalidade 300 300 300 300 300 300 300
3 biomassa Mortalidade (kg) 1.500 1.200 1.050 750 450 0 0

4 Mortalidade biomassa (%) 3,92% 3,07% 2,66% 1,86% 1,09% 0,00% 0,00%

Fonte:
Fonte:Moises
MoisesAnthero
Anthero da Silva
Silva

Mortalidade biomassa (%)= Biomassa Mortalidade (kg)

Biomassa final (kg)

Mortalidade (%) = 1.500 = 3,92%

38.25

A mortalidade medida por biomassa (pesagem dos peixes mortos) apresenta um índice
mais baixo do que a mortalidade por unidade (contagem dos peixes mortos) para o lote
do viveiro (1), o que demonstra uma diferença significativa para análise de manejo
realizado, ração fornecida, qualidade dos alevinos, etc.

A taxa de sobrevivência para o viveiro (1) será de:

58
Taxa de sobrevivência (%)= N° peixes final X 100

N° peixes inicial

Taxa de sobrevivência (%)= 45.000x 100 = 90%

50.000

O cálculo do ganho de peso do período é determinado controlando periodicamente a


pesagem, anotando em planilhas específicas, onde temos:

Tabela 1.5: Controle da quantidade de ração consumida durante o período de


criação
Tabela 5. Controle da quantidade de ração consumida durante o período de criação
Controle da quantidade de ração consumida durante o período de criação
índices viveiro 1 viveiro 2 viveiro 3 viveiro 4 viveiro 5 viveiro 6 viveiro 7
peso médio inicial (g) 50 30 10 25 40 200 200
dias de cultivo 200 265 200 180 150 200 200
peso médio final (g) 1.000 950 800 920 650 1.300 1.300

Fonte: Moises Anthero da Silva


Fonte: Moises Anthero da Silva
Ganho de peso diário (GPD) = Peso Médio (kg) Final – Peso Médio (kg) Inicial

dias de Cultivo

Ganho de peso diário (GPD) = 1000 – 50 = 4,75 g/ dia

200

Quantidade diária ração (Kg) = Biomassa do viveiro (kg) x Peso Corporal (%)

59
Tabela 1.6: Trato diário (% do PV) a ser oferecido conforme
fabricante de ração. PV = peso vivo; Trato diário = 1,2 % do
peso vivo; Peso médio = 1,00 kg (obtido por biometria do
viveiro); Número de peixes ao final no viveiro (1) = 45.000

Fonte: Trato diário (% do PV) a ser oferecido conforme


fabricante de ração. PV = peso

Quantidade diária ração (Kg)= (45.000 x 1,00 kg) x 0,012

Quantidade diária ração (Kg)= 540 kg / dia

Dividido em 3 tratos teremos 180 kg/ trato ou 7,2 sacos / trato


60
Cálculo da conversão alimentar econômica é determinada

Conversão alimentar econômico (cae) = Quantidade total de ração fornecida (kg)

biomassa final (kg)-biomassa inicial (kg)

Tabela 1.7: Conversão alimentar econômico (CAe)

Fonte: Moises Anthero da Silva

Conversão alimentar econômico (CAe)= 63.500------ =1,69

38.250-750

São gastos 1,69 kg de ração para produzir 1 kg de pescado.

Para determinação da conversão alimentar biológica (CAb), consideramos a quantidade


de kg de peixes mortos acrescidos na biomassa inicial, o que determina o quanto a
mortalidade impacta no valor do índice de conversão alimentar.

Conversão alimentar biológico (CAb)= Quantidade de ração fornecida (kg)

biom final (kg)-(biom inicial (kg)+mortal.)

61
Tabela 1.8: Conversão alimentar biológico (CAb)

Fonte: Moises Anthero da Silva

Conversão alimentar biológico (CAb)= 63.500 =1,49

38.250 – (750 + 5000)

✓ IMPACTO da mortalidade (5.000kg) no fator de conversão alimentar.

✓ Qual seria a conversão da propriedade se não houve mortalidade? (1,49)

✓ Bem menor !!!

Quanto mais próximo de (zero) melhor.

Quanto menor for o número entre a Conversão Alimentar econômica da Conversão


Alimentar biológica, mais eficiente está a criação.

CAe-Cab = 1,69-1,49 = 0,2 (>1)

1.5 Piscicultura orgânica

1.5.1 Introdução

A Lei que retrata sobre agricultura orgânica considera um sistema orgânico de produção

62
agropecuária todo aquele em que se adotam técnicas específicas mediante a otimização
do uso dos recursos naturais e socioeconômicos disponíveis e o respeito à integridade
cultural das comunidades rurais.

O objetivo da produção piscícola visa à sustentabilidade econômica e ecológica, a


maximização dos benefícios sociais, a minimização da dependência de energia não
renovável, empregando, sempre que possível, métodos culturais, biológicos e
mecânicos, em contraposição ao uso de materiais sintéticos, a eliminação do uso de
organismos geneticamente modificados e radiações ionizantes, em qualquer fase do
processo de produção, processamento, armazenamento, distribuição e comercialização e
finalmente a proteção do meio ambiente.

A produção de peixe nestas condições está longe de ser atingida em escala


comercialmente viável, pois temos na cadeia aquícola gargalos nos elos como a
produção de rações 100% orgânicas, medicamentos fitoterápicos eficazes e efetivos,
certificado de origem dos alevinos, todos os insumos rastreados, número mínimo de
fornecedores de matéria-prima para fabricação em pequena e média escala de rações nas
propriedades rurais, estudos e recomendações de uso de plantas para tratamento
preventivo de doenças dos peixes.

A finalidade de um sistema de produção de peixe orgânico é ter uma oferta de produtos


saudáveis isentos de contaminantes, e principalmente a preservação da diversidade
biológica dos ecossistemas naturais onde forem produzidos; também a recomposição ou
incremento da diversidade biológica dos ecossistemas modificados, em que se insere o
sistema de produção do pescado.

Os fatores a serem observados neste frágil sistema deve ser primeiro a atividade
biológica do solo, promovendo um uso saudável do solo, da água, observando a redução
ao mínimo de todas as formas de contaminação desses elementos que possam resultar
das práticas de manejo dos viveiros escavados na terra, e projetos em águas públicas de
tanques redes.

O uso racional de recursos hídricos, que apesar de serem abundantes no Brasil têm um
valor inestimável neste século 21, e a atividade aquícola, baseiam-se em sistemas
63
aquícolas organizados por procedimentos empregados nas fazendas aquícolas.

A intenção dos gestores da atividade aquícola é incentivar a integração entre os


diferentes segmentos da cadeia produtiva e de consumo de produtos orgânicos e a
regionalização da produção e comercialização desses produtos. A correta manipulação
dos produtos coletados com base no uso de métodos de elaboração cuidadosos, com o
propósito de manter a integridade orgânica e as qualidades vitais do produto em todas as
etapas da criação do peixe.

Na produção orgânica e natural de pescado tem-se um conceito de produção específico,


de gestão da produção e da sua industrialização. Abrange os conceitos ecológicos,
biodinâmicos, natural, regenerativo, biológicos, agroecológicos e outros que atendam os
princípios estabelecidos na Lei de orgânicos. Para projetos novos a serem implantados,
estes cuidados devem ser ressaltados, pois a produtividade preconizada, as metas de
produção, a escala, as fontes fornecedoras de insumos e medicamentos serão diferentes
dos empreendimentos existentes. Considera-se peixe orgânico in natura ou processado
aquele obtido em sistema orgânico de produção piscícola ou oriundo de processo
extrativista sustentável e não prejudicial ao ecossistema local. Para sua comercialização,
os produtos orgânicos deverão ser certificados por organismo reconhecido oficialmente,
segundo critérios estabelecidos em regulamento.

No caso da comercialização direta aos consumidores, por parte dos piscicultores


familiares, inseridos em processos próprios de organização e controle social,
previamente cadastrado junto ao órgão fiscalizador, a certificação será facultativa, uma
vez assegurada aos consumidores e ao órgão fiscalizador a rastreabilidade do produto e
o livre acesso aos locais de produção ou processamento.

A normatização da atividade é recente e a escala de produtos disponíveis para venda em


supermercados, feiras e peixarias não tem uma organização estabelecida e fortalecida
como na avicultura brasileira. Esta é uma grande oportunidade para os novos
empreendedores, pois o consumo brasileiro de pescado está abaixo do estabelecido pela
ONU, que é de 10 kg de peixe por ano - não atingimos 4kg por ano por habitante.

Segundo a Instrução Normativa de 2011, oo Governo Federal determina que para os


64
sistemas orgânicos de produção aquícola deverão adotar tecnologias de produção em
todas as fases de produção do peixe orgânico, desde a levinagem até a despesca.
Definindo cada fase, temos primeiramente as formas jovens, que são os estágios iniciais
da vida dos organismos aquáticos, tais como: ovos, larvas, pós-larvas, alevinos, girinos,
imagos, náuplios, sementes de moluscos e mudas de algas marinhas, normalmente
destinadas à transferência para sistemas de crescimento, recria ou engorda.

Na fase de recria e engorda dos organismos aquáticos, temos tecnologias produtivas que
necessitam do uso de rações comerciais orgânicas, uso de fitoterápicos antiestresse,
densidades de estocagem baixas e ambientes aquáticos livres de matéria orgânica em
excesso, amônia, nitrito, nitrato, e com pH e dureza adequados a criação.

Na fase final, o abate deverá ser humanitário, usando um conjunto de medidas que
visem à minimização do sofrimento dos organismos aquáticos por ocasião do seu abate.
Uso de choque térmico para os peixes tropicais, o transporte em caminhão pipa até a
sala de abate evitando a sangria antes do abate, logo após a coleta nos tanques de
criação.

Para criações em policultivo, que é o cultivo de duas ou mais espécies de organismos


aquáticos compatíveis entre si, numa mesma instalação ou estrutura de recria ou
engorda, visando ao aumento da produtividade pelo melhor aproveitamento dos
diversos tipos de alimentos disponíveis, deverão ser tomadas medidas específicas de
controle e produção dos mesmos para o cultivo integrado, que é a associação entre os
cultivos aquáticos e a criação de animais ou cultivos de plantas terrestres, de maneira a
promover o aproveitamento de resíduos e produtos secundários da pecuária e agricultura
no sistema de produção aquícola.

Quanto ao empreendimento, o projeto deverá levar em conta os aspectos ambientais, os


sistemas orgânicos de produção, as áreas de preservação permanente visando atenuar a
pressão antrópica sobre os ecossistemas naturais e modificados.

A proteção, a conservação e o uso racional dos recursos naturais e hídricos, os quais são
muito exauridos pelos projetos aquícolas, devem ser cada vez mais fiscalizados por
parte dos órgãos fiscalizadores e cada vez mais promoverem consciência dos próprios
65
piscicultores na elaboração dos seus projetos.

Uma das formas de regeneração de áreas degradadas é o uso das antigas cavas de
extração de areia para uso de produção de pescado em gaiolas, ainda uso de antigas
olarias abandonadas que deixam buracos no terreno que podem ser utilizados para
produção de peixes ornamentais.

As atividades econômicas dos sistemas orgânicos de produção devem buscar o


melhoramento genético, visando à adaptabilidade às condições ambientais locais e
rusticidade dos animais, como no caso do pirarucu, que é o maior peixe de água doce
cultivado em tanques de lonas na Amazônia. Este animal ainda não se tornou o peixe
mais produzido no Brasil porque o fornecimento de alevinos não supre a demanda. A
reprodução do pirarucu necessita de formação de casais a partir do terceiro ano de vida,
iniciativas privadas investem no desenvolvimento de tecnologias de produção de
alevinos, elaboração de um banco genético desses peixes, e o controle e rastreabilidade
deles.

A piscicultura orgânica visa à manutenção e à recuperação de variedades locais de


peixes, tradicionais, ameaçadas pela erosão genética e a promoção e a manutenção do
equilíbrio do sistema de produção como estratégia de promover e manter a sanidade dos
organismos aquáticos.

Muitas espécies de peixes foram cruzados indiscriminadamente pelos piscicultores


visando maior produtividade e rusticidade aproveitando o vigor dos híbridos,
produzindo animais bizarros. O pacu (Piaractus mesopotamicus) foi cruzado com o
tambaqui (Colossoma macropomu) gerando comercialmente o tambacu, que é um
animal viável geneticamente, ficando comprometido quando por descuido é lançado no
curso de um rio piscívoro.

A produção aquícola orgânica visa à valorização dos aspectos culturais e a


regionalização da produção local, promover a saúde dos organismos aquáticos por meio
de estratégias prioritariamente preventivas. Um exemplo foi um trabalho com a
comunidade de pescadores atendidos pelos extensionistas da Prefeitura de
Paranapamena, no rio Paranapamena, que vendiam os seus peixes na Rodovia Marechal
66
Rondon, de forma primitiva. Por meio de ações educativas, os pescadores passaram a
vender o peixe em gelo em escama, em local coberto, e produzirem seu pescado em
gaiolas no rio coletivamente.

Todas as pisciculturas de produção orgânica devem dispor de plano de manejo orgânico,


que é específico para a propriedade, contemplando os regulamentos técnicos e todos os
procedimentos relevantes do processo de produção. Deverão contemplar histórico de
utilização da área produtiva e os entornos, as estradas, os locais de entrada e saída de
água, controle, proteção e manutenção da biodiversidade local; geralmente são
ecossistemas muito frágeis.

Prover de manejo os resíduos da piscicultura, como peixes mortos que deverão ser
enterrados em valas longe dos cursos d’águas e cobertos com cal virgem, destino de
sacos plásticos, metais e papeis coletados e retirados da propriedade. A conservação do
solo e da água para criações em terrenos escavados e nas águas públicas.

Os manejos da produção aquícola orgânica devem visar ao bem-estar dos organismos


aquáticos; à elaboração de um plano para a promoção da saúde dos organismos
aquáticos; ao manejo sanitário; à nutrição e um plano anual de alimentação por fases,
periodicidade e quantidade; à reprodução e material de multiplicação; à evolução do
plantel e por fim às instalações adequadas à criação visando ao bem-estar dos animais.

1.5.2. Tecnologia aplicada em agroecossistemas

A agricultura orgânica está crescendo 20% ao ano em todo o mundo, inclusive no


Brasil. A maior dificuldade consiste em obter a chamada "ração orgânica". A
aquicultura orgânica compreende a criação de organismos aquáticos comestíveis, tais
como peixes, camarões, rãs ou outros, efetuada em água isenta de contaminações ou
poluição, alimentados com organismos planctônicos, nectônicos, bentônicos ou vegetais
ou ração "orgânica", utilizando preferencialmente alevinos, pós-larvas ou girinos de
cultivos "orgânicos".

A água de cultivo deve ser isenta de agrotóxicos, resíduos de adubação química,


contaminantes ou poluentes, preferencialmente originária de nascentes da propriedade
67
ou de microbacias cobertas por vegetação nativa ou onde se pratique a agricultura
orgânica. A adubação da água necessária ao desenvolvimento do plâncton, alimento
básico de alevinos, pós-larvas ou girinos, deve ser efetuada com adubos orgânicos
curtidos, tais como cama de galinhas poedeiras ou de frangos de corte, alimentados com
ração isenta de antibióticos, resíduos de suínos ou bovinos, criados segundo critérios
determinados pela agricultura orgânica.

A ração orgânica deve ser isenta de antibióticos e possuir todos os seus componentes,
tais como farelo de soja, farelo de milho, farelo de trigo, de agricultura orgânica, sem
agrotóxicos, carrapaticidas, inseticidas ou outros, sendo os produtos vegetais adubados
com adubação verde ou orgânica. Alevinos, pós-larvas ou girinos, preferencialmente
devem ser produzidos na propriedade, ou adquiridos de produtores que utilizem a
aquicultura orgânica. Assim como a convencional, a piscicultura orgânica tem
importância econômica na medida em que gera renda para o meio rural, fixa o homem
no campo, produz proteína animal de alta qualidade e com baixo custo, gera divisas
através da exportação e auxilia no manejo ambiental de outras culturas.

O Brasil é hoje o sexto produtor mundial neste segmento, ficando atrás de países como
Austrália, China, Argentina, Itália e Estados Unidos. Devido à maior conscientização
do consumidor sobre a importância da utilização de técnicas de produção agrícola
ambientalmente sustentável, vem aumentando a demanda por peixes criados com
critérios de aquicultura orgânica. Entretanto, a maior dificuldade para a expansão do
setor traduz-se na obtenção de uma ração orgânica, em escala comercial. Segundo o
segmento industrial produtor de dietas animais, se hoje já é difícil assegurar um
suprimento adequado de matéria-prima comprovadamente isenta de produtos
geneticamente modificados, essa dificuldade é ainda maior quando se fala no
fornecimento de ingredientes produzidos dentro dos critérios estabelecidos para a
agricultura orgânica.

É importante lembrar também que a matéria-prima orgânica tem um custo maior que a
convencional, elevando o valor final das dietas comerciais e dos organismos
produzidos. A piscicultura orgânica é a criação de peixes com alimentos naturais, por
exemplo plâncton, nécton, bentos ou vegetais, ou com ração "orgânica", utilizando
68
preferencialmente alevinos ou pós-larvas de cultivos "orgânicos".

As pisciculturas não podem afetar o ambiente, sendo proibida a utilização de áreas de


repouso de aves, migração e desova de peixes, manguezais etc., e devem estar a uma
distância segura de fontes poluidoras e de outras unidades de produção convencional. O
cultivo deve ser baseado nas condições naturais dos recursos hídricos, não se permitindo
o uso de aeradores ou injeção de oxigênio na água com a finalidade de aumentar a
capacidade de suporte do ambiente.

A água que abastece o sistema deve ser originária de nascentes da propriedade ou de


microbacias cobertas por vegetação nativa ou onde se pratique a agricultura orgânica. A
produtividade natural pode ser aumentada com o emprego de fertilizantes orgânicos
previamente aprovados; na sua ausência, é permitida a utilização de fertilizantes
alternativos (por exemplo: compostos, húmus de minhoca, etc.), preferencialmente de
operações de cultivo extensivo, ou ainda adubos orgânicos curtidos (cama de frango
alimentado com ração isenta de antibióticos ou resíduos de suínos ou bovinos criados
em sistema orgânico).

A integração da piscicultura orgânica com outras culturas, como a de suínos, cujo


aproveitamento de resíduos se configura como uma alternativa para a fertilização de
viveiros de piscicultura orgânica, para ser viável, é essencial que esse consórcio ocorra
em regiões de concentração suinícola.

Os principais fatores limitantes são a não aceitação pelo consumidor, a inexistência de


tratamentos adaptados para os efluentes e a ausência de um sistema de “Boas Práticas de
Manejo (BPMs)” que garanta sustentabilidade ao sistema, bem como de informações
sobre os impactos dessa atividade.

O consórcio será viável a partir da realização de análises físicas, químicas e


microbiológicas da água de cultivo e dos peixes produzidos, garantindo-se seus
enquadramentos nos padrões estabelecidos pela “Divisão Nacional de Vigilância
Sanitária de Alimentos (DINAL)” e pela Resolução CONAMA n° 357, de 2005, que
classifica os sistemas hídricos de acordo com seus usos.

69
Deve-se priorizar o bem-estar das espécies criadas em todas as fases de produção e
abate. Em caso de necessidade de tratamento, devem-se empregar, inicialmente,
métodos naturais como: secagem, frio, uso de compostos inorgânicos atóxicos, sal, cal
virgem, compostos orgânicos naturais atóxicos, ácido cítrico, substâncias naturais
vegetais, alho, cravo, e homeopatia de pó-de-pedra. O estoque deve ser originário de
empreendimentos orgânicos. Na ausência de comprovação da origem, permite-se a
introdução de sementes convencionais, desde que elas adquiram pelo menos 90% de sua
biomassa em regime orgânico

O policultivo promove a ciclagem de nutrientes possibilitando a ocupação de diversos


nichos no ambiente aquático. Um exemplo deste sistema é a criação da carpa-comum
(Cyprinus carpio), das carpas chinesas, da carpa prateada (Hypophthalmichthys
molitrix), da carpa capim (Ctenopharyngodon idella) e da carpa cabeça-grande
(Aristichthys nobilis).

Ojundiá (Rhamdia quelen) em consórcio com a rizicultura é muito interessante, na


medida em que suprime/reduz a dependência da utilização de agroquímicos na produção
do arroz irrigado. A piscicultura entra como atividade paralela, elevando a rentabilidade
da rizicultura, pois os peixes substituem as máquinas no preparo do solo, reduzindo em
40%a 50% os custos de produção; otimizando o uso do solo e da água, inclusive na
entressafra do cereal, com uma produtividade em torno de 400 kg peixe/ha e finalmente
agregando valor de 10% a 15% ao arroz, que é vendido como orgânico.

Como fator limitante, cita-se a falta de informação para a adoção do sistema,


principalmente no que diz respeito à densidade e época de estocagem dos animais, e de
padronização dos tabuleiros de arroz, o que muitas vezes impede sua drenagem
completa e, deste modo, a despesca total dos peixes.

Os principais desafios econômicos para compensar a redução da produtividade do


sistema, as despesas físicas e de pesquisa e desenvolvimento para introdução de novas
espécies e a alteração dos sistemas de cultivo são compensados pelo preço diferenciado
agregado ao produto orgânico.

A piscicultura orgânica se caracteriza como importante nicho de mercado, com grandes


70
chances de expansão, uma vez que cresce continuamente o interesse mundial pelo
pescado produzido sem compostos sintéticos ou dietas fabricadas a partir de matéria-
prima geneticamente modificada.

1.5.3 Alimentos orgânicos

A produção e comercialização de produtos orgânicos tomaram corpo na Europa no final


da década de 80 e ganharam força com a instituição de normas e padrões de produção,
processamento, comercialização e importação de produtos orgânicos de origem vegetal
e animal por meio da Lei 2092/91 da CCE, de 24 de junho de 1991 e pelo Decreto
6.323, de 27 de dezembro de 2007.

A certificação do pescado como orgânico é bastante discutível e trabalhosa,


principalmente do pescado proveniente da pesca extrativa, na qual o produtor não tem o
controle total do processo na criação de peixes onívoros. O sistema demonstra ser
proveitoso, a rastreabilidade de toda cadeia produtiva é facilitada e pode ser comparada
a outras culturas orgânicas que visam ao baixo custo energético e à produção de
alimentos limpos.

Para receber um selo de certificação de produto de origem orgânica, necessita ser


produzido como regra básica, sem a utilização de agrotóxicos ou adubação química, e
ainda, a relação da indústria com os trabalhadores envolvidos no processo deve ser
baseada nos conceitos do comércio justo.

Os movimentos de certificação para diferenciar produtos e produtores agrícolas são


originários de países ricos, principalmente da Europa, e são capitaneadas pela Federação
Internacional de Movimentos da Agricultura Orgânica (IFOAM), que elaborou as
normas seguidas mundialmente pelas associações filiadas. Dentre as certificadoras mais
conhecidas mundialmente é possível destacar a Bioland e a Naturland na Alemanha, a
Agriculture Biologique na França, a Bio-Suisse na Suíça, a NOP nos Estados Unidos, e
o IBD (Instituto Bio Dinâmico) no Brasil.

No Brasil, em 2009, foi publicada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e


Abastecimento, através da Secretaria de Desenvolvimento Agropecuário e
71
Cooperativismo, a legislação para os sistemas orgânicos de produção e, posteriormente,
em 2011, através do MAPA e MPA, a normatização para produtos provenientes da
aquicultura.

No Paraná, em 2005, houve um projeto pioneiro na produção da tilapicultura sob bases


agroecológicas, que buscava atuar, em parceria com produtores familiares interessados
na verticalização da produção agropecuária, na exploração das propriedades rurais e
agregar valor à sua produção, desde as matérias-primas até às animais, de forma
integrada, conforme os princípios agroecológicos. Estes produtores visavam produzir
alimentos com qualidade de origem, e certificados para atender a consumidores
exigentes, tanto no mercado nacional como internacional, dentro de normas
internacionais de certificação de produção orgânica aquícolas.

A maior parte da produção de alimentos orgânicos brasileiros se concentra na região Sul


e Sudeste e, no Paraná. As regiões oeste e sudoeste do estado apresentam grande
potencial para produção de grãos e criação de animais. O sudoeste é responsável por
43% da produção de soja orgânica do Paraná, que é comercializada por empresas
processadoras da região ou de fora, que geralmente exportam seus produtos. Além da
soja, a região participa com 20% da produção estadual de mandioca e milho orgânico.

1.5.4 Transporte, abate e processamento

O transporte e o abate devem ser realizados de maneira cuidadosa e rápida, de forma a


evitar o sofrimento dos animais. O sacrifício dos peixes deve ser realizado com incisões
nas brânquias ou evisceração imediata. Previamente, os peixes deverão ser anestesiados
mediante concussão (sacudidela violenta, choque, pancada), descarga elétrica, dióxido
de carbono e se necessário anestésicos vegetais como o eugenol, já testado para diversas
espécies de peixes de água doce, como para o tambaqui e para a tilápia-do-Nilo.

O uso de processos físicos e mecânicos, de limpeza das áreas de produção e abate, bem
como utensílios e equipamentos devem ser preferidos, se comparados a métodos
químicos, e o efluente gerado deve ser submetido a um sistema de tratamento eficiente.
As substâncias permitidas para uso na sanitização de instalações e equipamentos

72
destinados à produção animal orgânica são hipoclorito de sódio, peróxido de
hidrogênio, ácido peracético, sabões e detergentes neutros, entre outros produtos para
correta limpeza e desinfecção, para garantir a segurança e a qualidade dos produtos.

Quanto ao rendimento e composição química dos peixes criados em sistema orgânico,


tanto em viveiros escavados, quanto em tanques-rede, os estudos realizados até o
momento comprovam que os rendimentos de carcaça, tronco limpo e filé dos peixes
alimentados com rações orgânicas são excelentes e equivalentes aos animais criados em
sistema convencional quanto a sua qualidade na carne em termos de composição
centesimal.

Ao considerar que atualmente existe limitação na variedade de ingredientes com


certificação de origem orgânica disponível no mercado e, por isso, as rações não ficam
perfeitamente equilibradas, os resultados de rendimento e composição centesimal dos
peixes alimentados com rações orgânicas encontrados na literatura apresentam
condições satisfatórias.

O mercado de produtos orgânicos cresce constantemente; pesquisas com alimentos


orgânicos são pertinentes, pois além da contribuição para a estabilização do setor,
sobretudo, da piscicultura, são importantes para informar os consumidores finais a
respeito das características dos alimentos.

Com o desenvolvimento do setor agroindustrial de processamento de alimentos


orgânicos e normatizações mais adequadas, é previsível que se aumente a oferta de
ingredientes. Este fato pode contribuir para formulação de rações que atendam melhor
as exigências dos animais, de forma a maximizar o desempenho, rendimento de carcaça
e que também contribuam para redução do custo das fórmulas.

A produção de peixes no sistema orgânico é uma importante ferramenta para agregação


de valor aos grãos e subprodutos certificados de origem orgânica, produzidos. Várias
espécies se adaptam bem ao sistema de criação orgânico, como é o caso do pacu, jundiá
e tilápia-do-Nilo.

73
1.5.5. Alimentação dos peixes em sistema orgânico

Os gastos com rações na piscicultura podem variar entre 60 e 70% do custo total da
produção, podendo atingir até 85% em sistemas intensivos. Dados da Organização das
Nações Unidas para Agricultura e Alimentação afirmam que para a agroindústria
pesqueira a produção de rações para organismos aquáticos é a de mais rápida expansão
no mundo, com taxas de crescimento superiores a 30% ao ano. A otimização na
formulação de rações depende da determinação precisa das exigências nutricionais para
as diferentes fases de desenvolvimento, aliada ao conhecimento sobre a utilização dos
nutrientes no alimento.

Em ambientes confinados, os peixes não dispõem de alimento em quantidade e


qualidade que atendam às exigências nutricionais para desempenho produtivo e
reprodutivo economicamente aceitável, sendo necessário o uso de rações comerciais que
atendam as exigências em energia e nutrientes para garantir adequado desempenho
produtivo e econômico.

Para peixes mantidos em sistema de produção intensivo, o acesso ao alimento natural


torna-se restrito, dependendo totalmente de ração balanceada para que consiga atender
as suas exigências nutricionais. Os peixes apresentam exigências energéticas inferiores
em relação a outros animais cultivados, uma vez que apresentam menores gastos
energéticos para manter sua temperatura corporal, para realizar atividade muscular
como nadar, formar novos tecidos, manter o equilíbrio osmótico e outras reações
necessárias para manutenção de sua vida e produção.

Alta disponibilidade de energia em rações resulta uma baixa ingestão de proteína, um


aumento da deposição de gordura visceral e corporal e diminuição da qualidade da
carne, devido à maior oxidação dos ácidos graxos. Dietas com deficiência energética
favorecem a síntese de energia a partir das proteínas, o que piora a conversão alimentar,
aumenta o custo de produção e produz um aumento de excreção de amônia no ambiente.
O uso de ingredientes alternativos pode ser visto como uma das soluções para reduzir os
custos na produção de peixes, já que a substituição dos alimentos convencionais pelos
alternativos permite diminuir consideravelmente os custos de produção da ração.
74
Alguns novos alimentos estão sendo testados pelas instituições de pesquisa e pelas
indústrias, para se conhecer a possibilidade de inclusão nas rações, como hemoglobina,
plasma sanguíneo, farelos de girassol, de amendoim e de canola, polpa cítrica e raspa de
mandioca, e outros.

Muitos fatores podem influenciar na qualidade da ração, pois cada alimento incluído na
formulação tem sua característica específica. As diferentes espécies apresentam
diferentes exigências nutricionais, as quais nem sempre são atendidas pelas formulações
existentes no mercado. Este mercado é suprido basicamente por rações para carnívoros,
peixes tropicais e trutas para águas frias. Na formulação de uma ração, além dos níveis
adequados de nutrientes, são também importantes a granulometria dos ingredientes da
ração, a fonte lipídica, a flutuabilidade, e a digestibilidade deste alimento.

A melhor maneira para se aferir a qualidade da ração é através do desempenho dos


peixes. O crescimento rápido do peixe nem sempre é sinal de uma boa ração. Deve-se
verificar os órgãos internos, principalmente o fígado, que pode se apresentar friável e
com coloração anormal de cor esbranquiçada à parda. A qualidade da carcaça que é
avaliada pelo teor de gordura visceral é outro indicador do bom estado nutricional dos
peixes. Dentre os nutrientes, a proteína deve merecer maior atenção por ser formadora
do músculo e principal determinante do ganho de peso. Sua eficiência na assimilação
proteica dependerá da qualidade da proteína da ração, a qual depende do balanço dos
aminoácidos, a unidade que a compõe. Infelizmente, até o momento apenas carpa,
tilápia e o bagre-de-canal são as espécies tropicais que já têm definidas suas exigências
de aminoácidos.

A determinação das exigências nutricionais das espécies nativas, como os peixes


tambaqui, pacu, pirapitinga e seus híbridos, os bryconíneos matrinchã, piraputanga e
piracanjuba, os anastomídeos piauçu e piapara e também os siluriformes pintado,
surubim e cachara, permitirá a formulação de rações mais adequadas nesses grupos.

Estas espécies nativas têm diferentes exigências nutricionais, mas as fábricas de ração
apenas consideram como sendo dois grupos: o dos carnívoros, cujas formulações
apresentam maior teor de proteína da dieta, e todos os demais onívoros, considerados

75
como as espécies tropicais. As formulações específicas destas espécies nativas
permitiriam fornecer a quantidade ideal de nutrientes para cada espécie, diminuindo
assim as perdas com a excreção do excesso dos nutrientes.

A maioria dos estudos realizados sobre nutrição de peixes é geralmente com alevinos e
juvenis, sendo necessários estudos em outras fases de criação. O suprimento das
exigências nutricionais das várias espécies, se por um lado aumenta o custo de produção
devido à falta de escala, pelo outro proporciona melhor conversão alimentar e deve
causar menores danos ao meio ambiente. O conceito de proteína ideal, que é a
formulação da ração com base na composição em aminoácidos do próprio peixe, pode
ser um grande avanço na formulação da ração, ajustando corretamente o balanceamento
dos aminoácidos.

As rações fabricadas na propriedade utilizando produtos regionais possuem um custo


mais baixo de alimentação e podem tornar-se alternativas para produções extensivas,
embora sendo menos remuneradoras pela baixa produtividade, com perda da qualidade
da água e redução do índice de crescimento dos peixes, sendo mais viável em locais
distantes das fábricas de ração, em que se aproveitam alguns ingredientes como
mandioca, abóbora e farinhas produzidas na propriedade disponíveis na região, com o
uso do núcleo (fonte proteica e suplemento vitamínico e mineral). Com o
balanceamento desses ingredientes na propriedade, é possível a formulação de rações
que podem proporcionar um bom desempenho aos peixes. A comercialização da ração a
granel (sem as sacarias), como é praticado nos Estados Unidos, pode ser também uma
alternativa para redução de custos. Os produtores, no entanto, precisariam instalar silos
em suas propriedades para armazenamento da ração, o que acarretaria novos
investimentos, além da necessidade de utilização de um manejo diferenciado para o
fornecimento da ração.

76
1.6 Síntese da Unidade

Nesta Unidade discutimos a forma de identificação dos peixes de água doce, destacando
as características mais importantes, como a anatomia e fisiologia, as características
produtivas das espécies, suas necessidades nutricionais, bem como uma visão geral da
piscicultura orgânica no Brasil.

1.7 Para saber mais

Filmes e telenovelas

• https://www.youtube.com/watch?v=xKQcYrRD8a8

Zoologia - Peixes cartilaginosos e ósseos

• https://www.youtube.com/watch?v=s6a4aLKW7V4

Criação de peixes com ração orgânica.

Livros

• BALDISSEROTTO, B.; GOMES, L.C. Espécies nativas para a piscicultura


no Brasil. 2 ed. Santa Maria, RS: UFSM, 2013

• MENEZES, A. Aquicultura na prática. 4. ed. São Paulo: Nobel, 2010.

77
1.8 Atividades

Realize uma pesquisa sobre a anatomia de peixes ósseos e compare com a anatomia de
peixes cartilaginosos.

78
Unidade 2

Peixes Produzidos no Brasil

O objetivo desta Unidade é apresentar as espécies de peixes nativos e exóticos que mais
são produzidas no Brasil e sua importância econômica. Estão descritas de forma a
ressaltar as qualidades produtivas e comercializáveis.

2.1 Espécies nativas e exóticas produzidas no Brasil

A atividade aquícola no Brasil tem alavancado sua participação no mercado interno nas
últimas décadas, passando de quase zero nos anos 80 para mais de meio milhão de
toneladas em 2014. A introdução de espécies internacionais, como o camarão, a tilápia e
a carpa tiveram sua dose de contribuição, mas mudou quando espécies nativas passaram
a ser o foco da produção.

O impulso inicial se deu quando o país começou a produzir peixes de água doce e
marinhos utilizando técnicas de hipofisação, registrando-se desde então muitos
progressos, especialmente na aquicultura de água doce com a tilápia e a carpa, duas
espécies de grande importância no desenvolvimento da aquicultura no Brasil.

Até a metade da década de 90, o foco da aquicultura nacional se concentrava em


espécies não nativas, como o blackbass (Micropterus salmoides), a tilápia do Nilo
(Oreochromis niloticus) e várias espécies de camarão marinho (Litopenaeus spp.) e de
água doce (Macrobrachium rosenbergii). No entanto, o foco da aquicultura mudou de lá
para cá.

Espécies nativas passaram a contribuir com mais de 40% na produção total de pescado
em território nacional. O grande problema ainda está na falta de conhecimento sobre a
79
biologia, reprodução, nutrição e domesticação, que ainda caminha em passos lentos.

A produção no Brasil deverá aumentar 68% até 2021, devido a investimentos


econômicos significativos. A mudança de produção de espécies não endêmicas para
espécies nativas certamente aumentará a acessibilidade da população e o consumo de
pescado. Vale destacar que a crescente importação do salmão do Chile e pangasius do
Vietnã pode representar entraves dentro do território nacional, como uma opção de
concorrência que, por vezes, acaba tendo um preço mais acessível para o mercado
consumidor.

No entanto, o uso de espécies nativas é o caminho para o desenvolvimento da atividade


aquícola, sendo uma excelente oportunidade de desenvolvimento sustentável para a
aquicultura local e mercados regionais.

Segundo o Ministério da Pesca e Aquicultura, as principais espécies nativas da


aquicultura brasileira para criação comercial são 13 espécies nativas já consolidadas e 5
espécies exóticas, tendo ainda participação de crustáceos e anfíbios, mas a grande
participação é do grupo dos peixes.

Segundo o Boletim Estatístico da Pesca e Aquicultura do Ministério da Pesca, a


aquicultura brasileira cresceu 34,4 % em 2008, e as espécies nativas pacu, tambacu,
Prochilodus e Matrinchã participaram significativamente para este crescimento.

2.1.1. Espécies Nativas

Dos 34,4% da produção de peixes nativos da piscicultura no Brasil, os peixes redondos,


espécies e híbridos do gênero Colossoma e Piaractus, respondem por 82% da
quantidade de peixes nativos cultivados. No entanto, diante do grande número de
espécies e híbridos de peixes nativos que estão sendo cultivadas em diversos estados
brasileiros, a participação dos peixes nativos na piscicultura nacional ainda é pequena.

No final da década de 80, peixes como o pacu, o tambaqui e a curimatã eram cultivados
nas estações de pisciculturas das hidrelétricas e, naturalmente, junto aos pioneiros
produtores de alevinos de peixes nativos. Nos anos 90, a tecnologia de produção de

80
alevinos dos peixes redondos estava praticamente consolidada e outras espécies foram
desenvolvidas, como piauçu, pintado, piraputanga, matrinxã e dourado.

As espécies do gênero Brycon (piraputanga e matrinxã) e o dourado têm em comum um


intenso canibalismo na fase inicial de vida. O pintado e o cachara, espécies
reconhecidas pelo valor de mercado, também tiveram a produção de alevinos
consolidada, apesar de sua larvicultura bastante complexa e da necessidade de se
realizar um dedicado trabalho para que os alevinos sejam condicionados a aceitar rações
secas.

A intensa difusão da tecnologia de produção, a assimilação e implantação dos cultivos


em tanques-rede, a produção de rações de alta qualidade especialmente avaliadas em
cultivos de peixes nativos e cultivos intensivos com a tilápia, a introdução de material
genético de qualidade, a contínua oferta de produto no mercado, a qualidade de sua
carne com filés desprovidos de espinhas, foram os principais fatores que contribuíram
para promover e popularizar a tilápia em nosso país.

Esses pontos, muitos deles já resolvidos, promoveram uma significativa expansão do


cultivo de peixes nativos no Brasil. Os peixes nativos saíram em vantagem em relação
às tilápias no quesito disponibilidade de tecnologia. Já no final da década de 80, a
tecnologia de produção de alevinos de pacu e do tambaqui já era dominada.

Em tradicionais centros de consumo de pescado de rio, como Cuiabá e Manaus, e


muitas cidades da região Centro-Oeste e Norte, acostumados com o consumo de peixes
com espinhas, diversos restaurantes agora já servem peixes redondos, piraputanga e
matrinxã sem espinhas. A técnica de remoção dos espinhos já é dominada por diversos
produtores e frigoríficos.

No entanto, na maioria dos mercados, a escala de produção ainda está muito aquém da
demanda por estes produtos de alto valor agregado. Outras espécies de peixes nativos,
como o pirarucu e o pintado, possuem carne desprovida de espinhas e não trarão este
problema aos processadores. No entanto, por algumas limitações que serão discutidas
oportunamente, a escala de criação destas espécies ainda é pouco significativa.

81
Resultados de crescimento e conversão alimentar cada vez melhores têm sido colhidos,
combinando nutrição e material genético de alta qualidade. Apesar da grande
oportunidade da expansão do cultivo de peixes nativos com o uso de tanques-rede, a
adaptação e aplicação desta tecnologia para a produção de espécies nativas têm recebido
pouca atenção por parte dos pesquisadores, produtores e técnicos em nosso país.

No entanto, o mercado das grandes capitais, em particular no Sudeste, ainda é limitado


pela falta de conhecimento dos consumidores em relação às espécies e pela
apresentação pouco atrativa dos produtos, geralmente na forma de pescado inteiro ou
eviscerado. No caso dos peixes redondos, a grande limitação à expansão no consumo se
deve à presença de espinhas intramusculares. Isso é praticamente um consenso entre os
grandes produtores destas espécies.

Atualmente apenas uma pequena parcela da produção nacional de peixes nativos


redondos é processada por frigoríficos. A maior parte ainda é comercializada pelos
produtores diretamente aos pesque-pague, atacadistas, varejistas, restaurantes e, até
mesmo, ao consumidor final.

Da parcela que passa pelos frigoríficos, grande parte recebe processamento mínimo,
sendo distribuída na forma de peixe inteiro ou peixe eviscerado resfriado. Isto não
ocorre devido ao desconhecimento ou desinteresse dos frigoríficos em produzir cortes e
produtos mais elaborados, mas principalmente devido ao alto custo de abertura de
mercados para novos produtos, como empanados, marinados, defumados, dentre
muitos, que passam a ter que concorrer com as grandes empresas do setor de carnes nas
gôndolas dos supermercados.

A seleção de material genético das espécies nativas para fins de ganho zootécnico ainda
está em fase inicial e até hoje praticamente criamos peixes nativos selvagens. Foi
iniciado um trabalho sistemático de melhoramento das nossas espécies, pela Embrapa
Pantanal Aquabrasil.

Os peixes redondos, como o tambaqui, a pirapitinga, o pacu e diversos híbridos entre


estas espécies, até o momento, são os únicos peixes nativos com expressiva importância
econômica na piscicultura brasileira. A tecnologia de produção de alevinos e de cultivo
82
em tanques de terra está bem definida, apenas precisa ser melhor divulgada. Há uma
grande oportunidade nos mercados regionais, que está sendo bem aproveitada por
produtores do Mato Grosso.

O pintado, o cachara e os híbridos entre estas espécies são conhecidos como "surubim"
em boa parte do país, sendo este termo aplicado para designar todos os representantes.
Este peixe é um dos mais valorizados pescados de água doce no Brasil. A qualidade de
sua carne é reconhecida em praticamente todo o país e os estoques naturais estão cada
vez mais escassos, o que abre boas perspectivas para a expansão no cultivo deste peixe.

Resultados obtidos em experimentos realizados com o pirarucu em tanque-rede no


Amazonas, onde foram testadas oito dietas extrusadas experimentais, demonstram o
quanto pode ser melhorado o desempenho desta espécie. Rações experimentais
formuladas para atender de maneira equilibrada as exigências nutricionais deste peixe
resultaram em índices de conversão alimentar de 1,2 a 1,6 para peixes com média de 6 a
10 kg.

O pirarucu dentre as espécies nativas hoje produzidas é a de melhor desempenho em


termos de crescimento, pois atinge cerca de 10 kg no primeiro ano de cultivo. Devido a
sua respiração aérea, pode suportar águas com zero de oxigênio; sua carne apresenta
textura firme e coloração levemente rosada, sendo desprovida de espinhas. O
rendimento em filé é um dos mais elevados, entre 52 e 57%; existe uma grande
demanda de mercado para este peixe e, sendo um dos principais símbolos da Amazônia,
o seu apelo de marketing, no Brasil e no mundo, é de grande dimensão.

Isso tudo torna o pirarucu a espécie nativa de maior potencial para a nossa piscicultura.
Apesar de todos estes atributos e do grande interesse por parte dos empresários em
produzi-lo, ainda há um número muito reduzido de produtores de alevinos.

Atualmente, temos 40% da produção total proveniente de espécies nativas como


tambaqui (Colossoma macropomum), tambacu (híbrido de C. macropomum e macho
Piaractus mesopotamicus). Outras espécies como pirarucu (Arapaima gigas) ou
surubim (Pseudoplatystoma spp.) são consideradas como de alto potencial para
produção.
83
Os produtos da aquicultura são principalmente para mercados locais. E é preciso
resolver os problemas técnicos e financeiros relacionados como futuro desenvolvimento
da aquicultura, como a seleção de espécies para atender a demanda nacional. Assim, há
uma grande chance de que o desenvolvimento da piscicultura de nativos brasileira se
torne uma história de sucesso.

2.1.1.1 Apaiari (Astronotus ocellatus)

O apaiari, peixe nativo originário da bacia Amazônica, vem sendo disseminado desde
1938 em açudes e rios do Nordeste brasileiro. A espécie que era inédita nas bacias dos
rios Paraná passou a ocorrer na planície de inundação recentemente. Por ser apreciada
por aquariofilistas pode ter sido introduzida por soltura de exemplares de aquário.

Atinge cerca de 200 a 300g em um ano, e pode chegar a 30 cm com 1,5kg em dois anos;
apresenta carne saborosa e firme, livre de espinhas intramusculares; também apreciado
como peixe ornamental. Sua reprodução pode ser feita em espaços reduzidos, possui
precocidade, prolificidade; seus pais têm um grande cuidado com os ovos e os alevinos
são resistentes ao manuseio.

Animais que na natureza alimentam-se de pequenos peixes, crustáceos e insetos, quando


em cativeiro aceitam bem ração comercial. O apaiari não é recomendado para cultivo
intensivo devido ao tempo longo de criação, sendo uma boa alternativa para produção
para aquariofilia.

2.1.1.2 Curimatã, Curimatã-pacu, Curimbatá (Prochilodus spp)

Peixes nativos de nadadeiras raiadas, cujos representantes podem ser facilmente


reconhecidos pelos lábios carnosos e duas séries de dentes. Os peixes do gênero
Prochilodus constituem um dos mais importantes recursos pesqueiros da América do
Sul, possuindo representantes em toda a América Latina, contabilizando 13 espécies
válidas. Sua criação no Brasil restringe-se a oito estados, sendo Sergipe o principal
produtor, com 680 toneladas em 2007. Peixes de hábitos alimentares dentritivos, o que
confere a esta espécie grande importância devido à sua participação na estruturação
dinâmica de comunidades dulcícolas tropicais através do processamento de sedimentos.
84
Figura 2.1: Curimbatá - Prochilodus scrofa São peixes rústicos, que
movimentam o fundo do viveiro de
criação, liberando gases tóxicos e
colocando a matéria orgânica em
suspensão, auxiliando na
fertilização.
Fonte:www.pousadanova.com.br/peixes/curimbata
.htm. Acesso em: 23 abr. 2018. Espécie ovulípara típica de
piracema, sendo muito utilizado
para alimentação de peixes carnívoros na fase inicial de criação. Durante a piracema, os
¨prochilodus¨ são influenciados diretamente pelo aumento do nível das águas, período
em que os machos produzem sons característicos. Animais muito prolíficos. Uma fêmea
de 60 cm pode produzir cerca de 1 milhão de óvulos, os casais não defendem território
nem despendem de cuidados parentais.

Usado nas criações comerciais em baixa densidade nos policultivos, como espécie
secundária, atingindo de 0,8 a 2,0 kg em dois anos; quando em monocultivo, podem ser
criados numa densidade de 1 peixe por metro quadrado; aceitam bem rações comerciais.

2.1.1.3 Piracanjuba (Brycon orbignyanus) e Matrinchã (Brycon


amazonicus)

Neste gênero, podem-se encontrar duas espécies nativas de interesse para piscicultura,
que são popularmente conhecidas como Piracanjuba (Brycon orbignyanus)e Matrinchã
(Brycon amazonicus) – a primeira da bacia Paraná-Uruguai e a outra da bacia
Amazônica. É a segunda espécie mais criada na região amazônica por apresentar rápido
crescimento em viveiros, rústico, reproduz artificialmente, aceita bem rações
comerciais, tem uma carne saborosa. Existem restrições no consumo de sua carne por
apresentar considerável presença de ossículos forquilhados.

Estudos mostram que aceitam bem alimentos de origem vegetal em cativeiros, o que
favorece a criação destas espécies, pois são animais herbívoros e frugívoros na natureza,
com a capacidade de se transformarem em onívoros no cativeiro. Em monocultivo de

85
Matrinchã e em policultivos alcançam cerca de 0,7 a 1 kg no segundo ano de vida.

A criação tem sido feita em duas etapas –recria e engorda, pois entre animais de
tamanhos e idades diferentes pode haver canibalismo.

Para criação em gaiolas na fase juvenil de 2,5cm até 14 a 16 cm na densidade de 500


peixes/m³ e para engorda uma densidade de estocagem de 90 peixes /m³, com
arraçoamento duas vezes ao dia.

O sistema de criação mais adotado é o


Figura 2.2: Matrinchã – Brycon amazonicus
semi-intensivo com 1 a 2 peixes/m²,
aceitam bem rações peletizadas e
extrusadas, aceitam bem alimentos
naturais na primeira fase de vida. E as
dietas podem variar de 32, 36 e 42% de
Fonte:www.pousadanova.com.br/peixesdareg PB, com uma conversão alimentar de
iao.htm. Acesso em: 25 abr. 2018.
1,5:1 e 2,0:1.

2.1.1.4 Pirarucu (Arapaima gigas)

O pirarucu (Arapaima gigas) é um dos maiores peixes nativos da ictiofauna de água


doce do mundo. Possui hábito alimentar carnívoro, respiração aérea obrigatória e chama
atenção pelo seu rápido crescimento. Essa espécie há muito tempo tem sido uma
importante fonte de alimento para os habitantes da Amazônia.

O pirarucu apresenta uma série de características positivas para a criação intensiva,


dentre as principais, o rápido crescimento, cerca de 10 kg em um ano; a boa tolerância
ao adensamento e às condições de cultivo intensivo em ambientes tropicais; a
capacidade de realizar a respiração aérea nas fases mais avançadas do seu
desenvolvimento, aproveitando o ar diretamente da atmosfera, não dependendo do
oxigênio dissolvido na água. A fácil adaptação ao consumo de alimentos balanceados e
rações comerciais favorece ao uso de rações elaboradas na propriedade e rações
comerciais.

86
Uma carne clara, magra, tenra, de alta qualidade e livre de espinhas intramusculares e
um alto rendimento de filé acima de 50%, superando o rendimento alcançado pela
maioria dos peixes atualmente cultivados no país, como a tilápia. Possui uma elevada
demanda e valor de mercado, com excelentes perspectivas para o mercado
internacional.

Peixe de coloração vermelha quando adulto, seu nome origina de “pira” (peixe) e
“urucu” (vermelho). A criação do pirarucu é uma atividade dentro da piscicultura
tropical que vem crescendo sensivelmente no Brasil, atraindo ainda a atenção de vários
empreendedores internacionais que veem na produção desta espécie um negócio de
grande potencial. Este interesse vem da rápida taxa de crescimento demonstrada pela
espécie, boa adaptação às condições de criação e sua carne de alta qualidade, o que traz
boas perspectivas de ganho quando o peixe é produzido de forma adequada.

Apesar da criação do pirarucu aparentar ser uma atividade relativamente simples, esta
requer um conjunto bastante diversificado de conhecimentos e técnicas para que possa
atingir os resultados esperados, por meio de um conjunto de ações, que abrange desde
estudos básicos sobre a situação da criação desta espécie, o aprimoramento e
multiplicação dos conhecimentos técnicos nas áreas de reprodução, alevinagem e
engorda e, estudos nas áreas de mercado e comercialização.

Hábito alimentar do Pirarucu

O pirarucu apresenta hábito alimentar carnívoro, alimentando-se predominantemente de


itens de origem animal. Nas fases mais jovens, até 50 cm de comprimento, sua dieta
natural é composta basicamente por invertebrados aquáticos, como insetos, moluscos e
crustáceos. A partir desse tamanho, passa a se alimentar principalmente de peixes.
Como estratégia de captura da presa, o pirarucu realiza um forte movimento de sucção
com a boca, mediante pressão negativa obtida com a oclusão das membranas do
opérculo e apesar do comportamento carnívoro da espécie faltam rações com
granulometria adequada ao tamanho da boca do pirarucu, em fase de reprodução ou em
fases mais avançadas da engorda. Essa informação pode auxiliar futuros estudos,
avaliando essa questão.

87
Ele possui dentes cônicos diminutos nos maxilares, sendo a apreensão da presa ou do
alimento auxiliada pela presença de placas dentígeras na região do palato em conjunto
com a língua óssea. Os rastros branquiais são relativamente numerosos e alongados para
um peixe carnívoro, podendo auxiliar na filtragem de pequenos crustáceos na fase
jovem do pirarucu. Seu estômago é bastante musculoso e distensível, sendo capaz de
armazenar grandes volumes de alimento.

São distinguidas duas porções: uma porção bastante pregueada e de coloração rósea =
estômago enzimático, e uma porção mais musculosa e lisa, de coloração ligeiramente
amarelada= estômago mecânico. O intestino é relativamente curto, característica
comum às espécies carnívoras, tendo sua área de absorção de nutrientes complementada
pela presença de dois cecos pilóricos logo na porção inicial do intestino, subsequente ao
esfíncter pilórico.

Conforme o hábito alimentar e características anatômicas e morfológicas do trato


digestório, é recomendado alimentar o pirarucu adulto apenas uma vez ao dia, seis dias
da semana, a uma taxa entre 0,5% e 1,0% do peso vivo do peixe. Essa frequência
também é importante para que o produtor ou funcionário observe o plantel quase que
diariamente, podendo verificar comportamentos relacionados à reprodução, como
alteração na coloração dos peixes, formação de casais, acasalamento, brigas e disputa
por território.

O comportamento alimentar dos reprodutores também sofre alteração, aumentando o


consumo no período que antecede à reprodução e cessando durante o acasalamento, fase
de incubação dos ovos e nos primeiros dias do cuidado parental.

Alevinagem do Pirarucu

Durante os dez primeiros dias de larvicultura do pirarucu, é preconizada uma densidade


inicial em torno de 6.500 peixes/m³. Após esses dez dias, os peixes já podem ser
considerados alevinos e a densidade reduzida para cerca de 3.000 peixes/m³. Na
sequência, quando os alevinos atingem em torno de 5 cm e 8 cm, as densidades de
estocagem recomendadas são de 2.000 peixes/m³ e 1.000 peixes/m³, respectivamente.

88
No início da fase de larvicultura e alevinagem, os pirarucus consomem apenas alimento
natural, de preferência vivo. Em laboratório, esse alimento pode ser fornecido na forma
de concentrado de zooplâncton, capturado com uma rede de coleta apropriada, em
viveiro previamente preparado. O fornecimento desse concentrado deve ser feito,
preferencialmente logo após a captura do zooplâncton ou, em casos específicos,
congelado em pequenas porções, que serão oferecidas ao longo do dia, alternativa que
pode auxiliar na eliminação de organismos patogênicos.

Outra opção é fornecer náuplios de artêmia salina, que podem ser eclodidos no próprio
laboratório, facilitando o manejo e a periodicidade de oferta do alimento. Entretanto,
estudos avaliando a viabilidade de náuplios de artêmia como alimento inicial para
alevinos de pirarucu ainda são necessários, considerando seu alto custo e tamanho
inferior quando comparados com o zooplâncton.

A frequência de alimentação na fase inicial de larvicultura e alevinagem é de, no


mínimo, oito refeições ao dia, divididas entre os períodos diurno e noturno, fornecendo
uma concentração de aproximadamente 150.000 indivíduos de zooplâncton ou náuplios
de artêmia/l por alimentação. Como ainda não existe uma definição da quantidade de
alimento exata a ser fornecida às larvas de pirarucu, recomenda-se verificar se estão
com o estômago cheio, por meio da observação de um leve abaulamento em sua região
abdominal.

Vale ressaltar que o consumo excessivo de alimento nesta fase pode levar os peixes à
morte, devido ao grande abaulamento da região abdominal, que os impede de manter o
equilíbrio na coluna d’água e, consequentemente, de respirar.

O treinamento alimentar dos peixes com ração deve ser iniciado quando os alevinos
atingem um tamanho médio entre 7 cm e 8cm, fase em que começam a procurar presas
individuais de maior tamanho, parando para olhar e apreender organismos na água.

Antes disso, os alevinos nadam instintivamente em cardume, abrindo e fechando a boca


e capturando o plâncton de forma aleatória e pouco seletiva. Este período de
treinamento geralmente tem duração de duas semanas e, ao final, os peixes treinados e
medindo de 10 cm a 15 cm estão prontos para serem vendidos para fazendas de recria
89
ou engorda.

Esse ponto é um dos mais críticos na produção de alevinos de pirarucu. Nesta fase
existe uma grande possibilidade de alguns animais não aceitarem a ração, o que reduz a
taxa de sobrevivência e aumenta a suscetibilidade a doenças. No treinamento
recomenda-se fornecer seis vezes ao dia uma mistura de alimento vivo de zooplâncton
ou artêmia com ração, que deverá ser acrescida à mistura de forma gradativa ao longo
do treinamento.

O alimento fornecido deve ter concomitante ao alimento vivo e na proporção de 1% da


biomassa do tanque no primeiro dia, 2% no segundo e 3% a partir do terceiro dia até o
final do período de treinamento, tem se mostrado eficiente para o pirarucu. Essa ração
deve ser farelada ou de granulometria em torno de 1 mm a 1,5 mm, e apresentar
concentração mínima de 45% em proteína bruta.

Recria e engorda do Pirarucu

A fase de recria é iniciada com alevinos entre 10 cm e 15 cm, quando o pirarucu


normalmente já se encontra treinado a consumir rações secas e quando o preço do
alevino, tarifado em reais por centímetro, é relativamente acessível ao produtor de
engorda, que não quer correr o risco de adquirir peixes muito pequenos e ainda em fase
de treinamento, ou peixes muito grandes, com preços acima de R$ 15,00 a unidade.

Em viveiros ou açudes, o manejo mínimo deve ser de duas fases de cultivo para melhor
produtividade e utilização da estrutura produtiva. No cultivo bifásico, o alevino de 15 g
é conduzido até 500 g em uma densidade de 1 peixe/m² durante dois meses. Na segunda
fase, os peixes podem ser levados até 12 kg a uma densidade de 0,1 peixe/m² em um
ano.

As recomendações quanto ao tamanho do pélete são de acordo com o peso do peixe e as


granulometrias praticadas atualmente pelas indústrias de ração (até 10-14 mm, no
máximo). Comparando-se o tamanho do pélete recomendado verifica-se grande
proximidade entre os valores até o peso de 1,5 kg. Para peixes próximos à fase final de
engorda, o ideal é que as indústrias comercializassem rações com tamanho próximo a
90
20mm.

Com base no acompanhamento de diversas pisciculturas de engorda de pirarucu da


região Norte, a melhor eficiência alimentar foi observada nos sistemas em que o
pirarucu teve acesso a peixes invasores e camarões, em complemento à ração, revelando
deficiência das rações comerciais em atender as exigências nutricionais da espécie de
forma semelhante ao já exposto para reprodutores. A exigência proteica do pirarucu foi
determinada somente para juvenis entre 70 g e 120 g, sendo superior a 40% de proteína
bruta.

Existe uma grande lacuna no que diz respeito aos conhecimentos básicos sobre nutrição
e alimentação do pirarucu, especialmente nas fases de engorda e reprodução. Quando
comparada com outras cadeias aquícolas, a cadeia produtiva do pirarucu ainda possui
pouca expressividade e isso se deve principalmente a uma série de entraves na
tecnologia de produção da espécie que dificultam seu desenvolvimento e estruturação.

Considerando as peculiaridades fisiológicas de cada espécie e a importância da nutrição


e alimentação na eficiência produtiva de uma piscicultura, a formulação de rações que
atendam às exigências nutricionais do pirarucu, em várias fases de cultivo, é
fundamental para viabilizar sua produção em cativeiro.

Conforme observado, para que isso se torne realidade, são necessários estudos
avaliando a exigência da espécie em macro e micronutrientes; as melhores relações
entre proteína e energia e carboidrato e lipídio; o aproveitamento nutricional de
ingredientes pelo pirarucu; bem como os níveis de inclusão de ingredientes visando ao
custo mínimo das rações e à produção máxima de carne.

Paralelamente, protocolos alimentares devem ser definidos para as diversas fases de


cultivo e sistemas de produção, principalmente durante a alevinagem, visando melhorar
os índices de sobrevivência e desempenho.

2.1.1.5 Tambaqui (Colossoma macropomum)

O tambaqui (Colossoma macropomum), peixe nativo originário da bacia amazônica,

91
considerado o segundo maior peixe de escama da América do Sul, atinge cerca de 90
cm e 30 kg, espécie de desova total e hábito alimentar semelhante ao pacu. É uma das
criações mais presentes em todo o Brasil, já que está presente em 24 dos 27 Estados,
sendo o Amazonas o maior produtor.

Possui a capacidade de filtrar zooplâncton devido à presença de rastros branquiais.


Animal pouco resistente às variações bruscas de temperatura, devendo ser manejado
somente nos meses quentes, quando em cativeiro.

O tambaqui é um peixe de escama, corpo romboidal, nadadeira adiposa curta com raios
na extremidade; dentes molariformes e rastros branquiais longos e numerosos. A
coloração geralmente é parda na metade superior e preta na metade inferior do corpo
pode variar para mais clara ou mais escura, dependendo da cor da água. Os alevinos de
40 dias de idade apresentam uma mancha preta, uma espécie de “olho” no meio do lado,
acima da linha lateral, que com o tempo vai desaparecendo lentamente.

É uma espécie reofílica (não desova em cativeiro); a tecnologia de sua propagação


artificial já está dominada, não ocorrendo limitações na oferta de seus alevinos. A
alimentação principal do tambaqui é constituída por microcrustáceos planctônicos e
frutas. Come também algas filamentosas, plantas aquáticas frescas e em decomposição,
insetos aquáticos e terrestres que caem na água, caracóis, caramujos, frutas secas e
carnosas e sementes duras e moles.

O tambaqui alimenta-se rápido e agressivamente, não dando tempo para outros peixes
comerem; no entanto, em sistema de policultivo, pode ser cultivado junto com o
curimatã, a carpa comum, a carpa prateada, a carpa cabeça grande e a carpa capim.
Atinge peso médio de 1,5 Kg em um ano de cultivo, podendo chegar até 3 Kg de peso
vivo, em criações comerciais.

Sistema de criação do Tambaqui

Para criação comercial do tambaqui, temos o sistema extensivo, que tem como
principais características a alimentação natural, a densidade de estocagem menor que
2.000 peixes/ha, sem monitoramento da qualidade de água e viveiros sem planejamento
92
de biometrias e controle de mortalidade.

No sistema semi-intensivo usam-se alimentação natural e suplementar, densidade de


estocagem de 5.000 a 20.000 peixes/ha, monitoramento parcial da qualidade de água e
viveiros construídos com planejamento prévio. No Brasil, cerca de 95% da produção de
peixes é proveniente deste sistema.

O sistema intensivo tem trazido excelentes resultados com a recuperação de capital em


2,8 anos. Com alimentação completa de rações comerciais, densidade de estocagem de
10.000 a 100.000 peixes/ha, monitoramento total da qualidade da água e os tanques
construídos com planejamento nas densidades de estocagem, biometrias e controle de
água do viveiro, aeração suplementar ou constante, normalmente associado ao
monocultivo.

No sistema superintensivo ocorre alta renovação de água, uso de aeração nos tanques; a
densidade de estocagem já é expressa em biomassa por m³; a ração deve ser
nutricionalmente completa e ter estabilidade na água, pois é a principal fonte de
alimento, como exemplo o raceway e tanques-rede.

O tambaqui é uma espécie que pode ser uma alternativa viável para a criação em
tanques-rede em propriedades rurais que possuem pequenos lagos e açudes
comunitários, que não podem ser drenados para a despesca devido à sua rusticidade e
desempenho. É a espécie que está sendo recomendada para o cultivo em tanques-rede
nos lagos da região amazônica.

Os trabalhos existentes sobre o cultivo de tambaqui neste sistema ainda estão em fase
inicial, existindo poucos que suportem sua produção. A densidade de estocagem deve
ser 100 a150 peixes/m³, sendo que no cultivo de tambaqui em tanques-rede há um
melhor desempenho de produção para a densidade de 150 peixes/m³, em pequenos
reservatórios nas propriedades rurais.

O tambaqui aceita rações balanceadas com 28% e 32% de proteína bruta na dieta;
apresenta nadadeira adiposa óssea com raios, dorso pardo-escuro e ventre
esbranquiçado.

93
2.1.1.6 Tambacu (híbrido)

O tambacu é um híbrido oriundo do cruzamento entre o macho de pacu (Piaractus


mesopotamicus) e a fêmea do tambaqui (Colossoma macropomum), criado objetivando
o potencial de crescimento, a resistência para seu cultivo em regiões mais frias e a
resistência a impactos ambientais.

Hoje é um peixe de grande importância econômica na piscicultura brasileira já que


apresenta um rápido crescimento e ganho de peso, além de ser muito apreciado na pesca
esportiva e amadora. O Estado do Mato Grosso é o maior produtor com cerca de 6.000
toneladas.

Existe uma grande produção e aceitação desse peixe pelas pisciculturas e peixarias deste
Estado, por ser precoce, rústico e com boas características zootécnicas, colocando-o
acima do pacu e tambaqui.

2.1.1.7 Pacu (Piaractus mesopotamicus)

O pacu, Piaractus mesopotamicus, é peixe nativo encontrado na América do Sul restrito


à bacia da Prata, mais especificamente dos Rios Paraná e Paraguai, com principal
ocorrência no Pantanal do Mato Grosso, na Bacia do Alto Paraguai. Espécie tropical
encontrada em água doce de áreas que se estendem do nordeste da Argentina até o
centro-oeste brasileiro.

Os rios do pantanal mato-grossense são um dos seus principais habitats. Ambientes


onde a temperatura média é de 28° C são ideais para o seu desenvolvimento. Porém, se
adaptado a regiões mais frias, tem capacidade para suportar até 16° C. Coberto de
escamas, o pacu tem coloração cinza com nuances de lilás ou com manchas em tons
alaranjados.

O formato prensado do corpo, comprimido nas laterais, deu a ele o apelido de "peixe
redondo". O dorso e a barriga formam uma curva alongada ampliando espaço para
acomodar uma carne farta, que é bastante apreciada pela sua textura e sabor. Apesar de
atingir até 18 kg na natureza, em viveiros pode ultrapassar 1,1 kg com 50 centímetros
94
em um ano de cultivo. Em geral, o peso ideal para a comercialização é de 1,5 kg.

Peixe de hábito alimentar onívoro-frugívoro com tendências a herbívoro, quando


mantido em confinamento aceita rações formuladas. É um peixe de piracema de desova
total, com reprodução ocorrendo uma vez ao ano, entre novembro e janeiro. Fecundação
obtida através de injeção de hormônio natural e ou sintético, desova total externa em
ambientes naturais nos meses de novembro e dezembro, período de maturação das
gônadas. Uma fêmea produz cerca de 1200 ovócitos/100g de desova. A maturidade
sexual é atingida a partir dos 4 anos de idade.

Nas fases de larvas e alevinos, alimentam-se principalmente de zooplâncton, passando a


ingerir posteriormente frutas, sementes, pequenos moluscos, crustáceos e insetos.

A criação no sistema semi-intensivo tem apresentado resultados satisfatórios para esta


espécie, usando 1 peixe/m² obtém-se um peso final de 1,5 kg em 15 meses. Para regiões
de baixa oxigenação, a densidade de estocagem mais viável deve ser de 0,6 peixes/m².
As rações comerciais com 28% de proteína bruta são aceitáveis para esta espécie.

2.1.1.8 Cachara (Pseudoplatystoma faciatum)

O cachara, também chamado de surubim, Pseudoplatystoma fasciatum, é um peixe de


couro pertencente à ordem dos Siluriformes, família Pimelodidae, sendo bastante
procurado para consumo por apresentar alta aceitabilidade de carne com elevada
proporção de filé com ausência de espinhas. Grande parte desses peixes é capturada
através da pesca tradicional em rios e lagos; com o aumento na atividade de pesca
profissional e amadora, a dificuldade de captura desses exemplares aumenta e por isso
eleva-se o seu custo.

É a espécie mais distribuída nas bacias dos rios Amazonas e Paraná-Paraguai. Muito
parecido com seu primo, o pintado, Pseudoplatysto macorrucans, sendo diferenciados
pelas listras na cachara e pintas no pintado. Pode atingir 80cm; não existe dimorfismo
entre os sexos para relação peso comprimento e para índices morfométricos, onde as
fêmeas tem um crescimento mais acelerado que os machos.

95
Apresenta uma carne nobre de alto valor comercial, saborosa e tenra, com baixo teor de
gordura e ausência de espinhos intramusculares; pode ser apresentado de diferentes
formas ao consumidor final.

O período reprodutivo é curto; uma espécie migradora que reproduz nos leitos dos rios
na estação chuvosa podendo ir de novembro até março, tem a desova total com elevada
fecundidade. Não protege a prole e libera os ovos que ficam livres na superfície da
coluna d’agua de coloração amarela; a embriogênese ocorre rapidamente, cerca de 16
horas a uma temperatura próxima de 23° C. Atingem a maturação sexual com 2 anos
para os machos e 3 anos para as fêmeas. Peixe carnívoro, predador, alimenta-se durante
a noite e não possui dentes cortantes, engole suas presas inteiras.

Sistema de criação do Cachara

Apesar de não se ter um pacote tecnológico completo para a produção do cachara


surubim, seu grande potencial produtivo e a qualidade da sua carne despertam interesse
de diversos pesquisadores e órgãos de fomento há muitos anos, sendo prioridade em
projetos de pesquisa e desenvolvimento nacional e estadual.

O cachara pode ser criado em sistemas intensivos em viveiros escavados como também
em tanques-redes. Nos viveiros escavados, distribuídos em três fases. Primeira fase:
alevinagem, de 20 a 200 g durante 90 dias, com uma sobrevivência de 90% dos peixes;
segunda fase: juvenil, de 200g a 1,2 kg durante 135 dias, com uma sobrevivência de
96% dos peixes; terceira fase: de engorda 1,2 a 2,0 kg durante 135 dias, com uma
sobrevivência de 94% dos peixes. Na terceira fase de criação no sistema semi-intensivo,
a densidade de estocagem pode ser de 0,5kg de peixe/m² e a produção esperada pode ser
de 4.800kg/ha.

A criação de alevinos e juvenis em sistemas de fluxo contínuo de água (“raceway”) e


em viveiros, respectivamente em sistema com renovação contínua de água, obteve
sobrevivência média das larvas de 65,6% após oito dias de cultivo.

A avaliação de diferentes densidades de estocagem em tanques-rede foi analisada onde


alevinos de surubim de 50 gramas (P. coruscans) foram estocados nas densidades de 35,
96
70, e 105 peixes/m³. O peso médio alcançado pelos animais foi de 197,4g, 171,15g e
161,45g, respectivamente. O maior peso final foi atribuído à menor densidade de
estocagem inicial, sendo que as sobrevivências foram de 95,97%, 97,80% e 96,73%, e
conversão alimentar de 1,49; 1,60 e 1,56 para cada tratamento.

2.1.1.9 Pintado (Pseudoplatystoma corruscans)

O pintado, Pseudoplatystoma corruscans, peixe de couro muito apreciado pela sua


carne sem “espinhas”, comercializada inteira ou em postas. Peixe da ordem dos
siluriformes, que engloba mais de 2.200 espécies de bagres.

Existe uma grande demanda destes bagres, contudo a fonte proveniente da pesca em
ambiente natural não atende o mercado e esforços para o cultivo são cada vez mais
incentivados pelos órgãos de fomento.

Este gênero apresenta três


Figura 2.3: Pintado surubim (Pseudoplatystoma
corruscans) espécies: Pseudoplatysto
macorruscans, das bacias do
Paraná e do São Francisco;
Pseudoplatystoma fasciatum,
presente nas bacias do Paraná e
Amazônica; e Pseudoplatystoma
Fonte:http://www.pousadanova.com.br/peixes/pint
ado.htm. Acesso em: 23 abr. 2018. tigrinus, nativa somente da bacia
Amazônica onde é conhecida como
caparari.

Para a fase inicial de criação dos siluriformes, na larvicultura, em função da pouca


aceitabilidade das rações comerciais, tem-se usado artêmia, o que encarece o custo
unitário e a oferta de alevinos. Durante a fase adulta, o pintado alimenta-se de peixes,
crustáceos e insetos. Para cultivo intensivo, tem-se usado rações comerciais com alto
teor de proteínas em viveiros específicos de engorda. Usado para controle de peixes
prolíferos como a tilápia, em baixas densidades, 1 peixe/10 m² de viveiro.

O uso de sistemas de criação intensiva é recomendado, pois esta espécie é exigente na


97
qualidade de água e os sistemas de raceway e tanque rede podem ser uma alternativa na
criação.

2.1.1.10 Bagre Jundiá (Rhandia quelen)

O jundiá, Rhamdia quelen, é uma espécie nativa da região sul que se destaca como
muito promissora. É um peixe de rápido crescimento, com fácil adaptação à criação
intensiva, rústico, facilmente induzido à reprodução, com alta taxa de fecundação,
possuindo ainda carne saborosa com baixo teor de gordura e com poucas espinhas.

Sobre esse peixe há uma série de informações que o produtor desconhece, tais como sua
exigência em proteína, energia metabolizável, balanço de aminoácidos, portanto o
modelo e perfil de partida para a pesquisa é o bagre-norte-americano, catfish ou peixe
gato Ictalurus punctatus e suas exigências para adequação de uma dieta ótima para os
sistemas de produção que se deseja a curto prazo.

Uma espécie distribuída na América do Sul, incluindo a região Sul do Rio Grande do
Sul, o Jundiá é um peixe que habita rios com fundo arenoso e remansos de rios,
próximos à boca do canal, onde procura seu alimento.

É um peixe onívoro, com tendência a piscívoro, e bentônico, especulador do substrato,


também se alimenta de insetos terrestres e aquáticos, crustáceos e restos vegetais, além
de peixes como os lambaris e os guarus.

Figura 2.4: Bagre Randia (Rhandia quelen) O Jundiá desova em locais com água
limpa, calma e de fundo pedregoso; não
apresenta cuidado parental, e apresenta
desova múltipla, com dois picos
reprodutivos por ano, um no verão e

Fonte: www.cpt.com.br/artigos/peixes-de- outro na primavera.


agua-doce-do-brasil-jundia-rhamdia-quelen.
Acesso em: 28 abr. 2018 É um peixe de couro, possui coloração
acinzentada-escura e ventre branco. É um
animal de carne saborosa, com baixo teor de gordura e poucas espinhas e pode atingir

98
50 cm de comprimento e 3kg de peso.

Sistema de criação do Jundiá

O Jundiá pode ser criado em policultivo associado às carpas, na proporção de 1 bagre: 5


carpas ou em monocultivo intensivo em tanques redes na densidade de 40kg/m³ na fase
final de engorda.

Em sistema de monocultivo em viveiros escavados, a fase inicial com densidade de 3 a


4 peixes/m², passando para fase de cria e engorda com 1 a 2 peixes/m² com uma
sobrevivência de 97%. A ração inicial com 40% de proteína bruta e na fase de engorda
com rações de 32% de proteína bruta.

2.1.1.11 Piau, Piavuçu, Piapara, Piava (Leporinusssp)

Este gênero encontra-se distribuído amplamente na América do Sul e Central. Apresenta


quatro espécies de grande valor econômico e cultural: o Piau (Leporinus friderici), o
Piauçu (Leporinus macrocephalus), a Piapara (Leporinus elongatus) e a Piava
(Leporinus obtusidens). São muito conhecidas pelos pescadores comerciais, esportivos e
colecionadores de peixes ornamentais (fases juvenis). Possuem os lábios finos, corpo
escuro no dorso meio acinzentado e ventre claro.

Figura 2.5: A=Piau três pintas (Leporinus friderici); B= Piavuçu (Leporinus


macrocephalus).

A B

Fonte: A, B Disponível em: http://www.pousadanova.com.br/peixesdaregiao.htm. Acesso


em: 28 abr. 2018.

A piapara e o piavuçu são espécies que vêm sendo amplamente utilizadas para
piscicultura comercial, principalmente nos Estados de São Paulo e Paraná. Estas
espécies em cativeiro apresentam boa conversão alimentar, e são muito valorizadas para
99
pesque-pague.

São espécies ovulíparas quando a fecundação ocorre em meio externo, são peixes de
piracema, em cativeiro a reprodução é induzida. Possuem hábitos alimentares onívoros
e aceitam bem rações comerciais.

O sistema de criação em viveiros escavados pode ser de 1peixe/m², as rações comerciais


de 22 a 28% na fase final e 32 a 40% de proteína bruta na fase inicial da criação. Os
peixes atingem 1kg/ano. É muito procurado para pesca esportiva; o Estado do Mato
Grosso é o principal produtor

2.1.1.12 Lambari (Astyanax sp.)

Entre as espécies nativas, o lambari do rabo amarelo (Astyanax sp.) é uma espécie com
bom potencial para a piscicultura. Possui um mercado específico no uso para isca de
pesca esportiva e com boas possibilidades de expansão de mercado, pois é bem aceito
como petisco.

Existem diversas espécies de lambaris: lambari do rabo amarelo, do rabo vermelho,


lambarizinho, lambari prata, entre outros, esta nomenclatura podendo ser alterada entre
as diferentes regiões. Comercializada atualmente nas proximidades dos grandes rios do
estado de São Paulo, rios Tietê, Paraná, Paranapanema e Rio Grande.

Para se estabelecer um sistema de produção é necessário saber qual a espécie mais


adaptada ao ambiente de cultivo, sabendo que muda entre as diferentes regiões do
Brasil.

O lambari é uma espécie rústica, de pequeno porte, com ciclo de vida rápido e que
apresenta elevada produtividade em cultivo intensivo. Podemos produzir 100 t/ha por
ano e o início de cultivo pode ser em qualquer época.

Em cultivo comercial aceita bem rações artificiais e o sistema preconizado deve ser
aquele em que manejo alimentar tenha êxito, independentemente da fase decrescimento,
uma vez que está diretamente relacionada ao fornecimento da ração e à utilização de
tecnologia para os peixes.
100
O mercado do lambari é estimado hoje em aproximadamente 30 milhões de
unidades/ano, e se mostra ainda mais promissor, pois o produto já é bem aceito como
petisco e pode ser industrializado na forma de conservas e ser opção às sardinhas
enlatadas. Porém, é como isca viva para a pesca esportiva que se destaca e impulsiona
sua produção.

O conhecimento das técnicas de manejo adotadas pelos produtores, repassadas pelos


órgãos de fomento, aliado aos fluxos de informações produzidas pelos agentes
econômicos pertencentes a esta cadeia produtiva, tem-se viabilizado e ajustado à
lambaricultura nestes últimos anos.

Sistema de criação do Lambari

O lambari do rabo amarelo (Astyanax fasciatus) e do rabo vermelho (A. altiparanae)


são espécies usadas para criação de lambaris. Elas possuem algumas características que
as tornam interessantes, pois apresentam alta fecundidade, facilidade para obtenção de
alevinos, adaptação a variações de temperatura da água e crescimento precoce,
atingindo peso comercial de 10-15g em aproximadamente três meses.

Os índices de produção variam de uma densidade de estocagem de 40 indivíduos por m²


em tanques escavados a 600 indivíduos por m³ em tanques redes, com tempo de cultivo
de 90 dias e com uma conversão alimentar de 1,4 ou 9 kg de ração por milheiro.

A criação geralmente usa viveiros escavados como principal sistema de produção com
cerca de 1.000 m²/viveiro. A criação pode ser viabilizada em tanques redes com
densidade de 600 peixes/m³ em grandes reservatórios, em hapas (pequenas gaiolas feitas
com telas de mosquiteiro) em viveiros escavados, em caixas de fibra e em sistema de
recirculação fechado.

A qualidade da água durante a alevinagem nos tanques de berçários ou hapas requer


manter a proteção solar, com um mínimo de 10% de sombreamento. A transparência da
água de 30 a 50 cm, manter pouca renovação da água para produção de plâncton e fazer
o treinamento com ração farelada de 45% de proteína bruta nas primeiras semanas;
densidade de estocagem de 200-300 alevinos /m².

101
Para engorda, 50 a 80 peixes/m² em viveiros escavados com boa renovação de água
(10% ao dia), ração comercial extrusada com 32% de proteína bruta, calagem e
adubação periódica. Para cultivos em tanques de recirculação, densidade de 2kg/m³ na
fase de alevinagem e 12kg/m³ na fase de engorda.

2.1.1.13 Traira (Hoplias malabaricus) e Trairão (Hoplias lacerdae)

Estes peixes pertencem à família Erythrinidae, são encontrados nos mananciais de águas
lênticas. A traíra, Hoplias malabaricus, é disseminada através das estações de
pisciculturas e por piscicultores particulares, e também o trairão, Hoplias lacerdae, que
originalmente ocupava a região do rio Ribeira e Iguape no Estado de São Paulo.

A principal característica para identificação das duas espécies está na região gular
(quando de cabeça para baixo, parte inferior da cabeça): no trairão as bordas dos
dentários são paralelas e na traíra estas se unem próximo à região da boca em um ¨V¨.

Figura 2.6: Vista ventral mostrando a diferenciação das duas espécies. Lado esquerdo
vista ventral do trairão e no lado direito vista ventral da traíra.

Fonte: http://www.museudezoologia.ufv.br/bichodavez/edicao15.htm. Acesso em: 28


abr. 2018.

São peixes carnívoros vorazes, apesar de movimentos lentos, ressalvando-se que o


trairão possui porte bastante avantajado chegando até 20kg. A traíra vive em grandes
rios, enquanto o trairão vive em lagos e pequenos mananciais. Sua pesca é realizada
principalmente com iscas vivas no período noturno.

102
Figura 2.7: A= Traíra (Hoplias malabaricus); B= Trairão (Hoplias lacerdae)

A B
Fonte: http://www.pousadanova.com.br/peixes/trairao.htm Acesso em 28 abr. 2018

Esses peixes se reproduzem em águas paradas, em tocas de pedras, em aguapés, com


profundidade do viveiro de 30 cm, produzindo na desova cerca de 15.000 a 20.000
peixes. Para reprodução são utilizados pequenos viveiros de até 400 m² com densidade
de 1 peixe /5 m², pois são bastante agressivos; o acasalamento ocorre nos meses quentes
do ano, e as desovas são parceladas com três a quatro desovas no período reprodutivo.

O sistema de cultivo pode ser criado em consórcio com peixes forrageiros, para controle
das desovas. Um peixe/10 a 15m² na proporção de 1 peixe carnívoro: 5 peixes
forrageiros. Alimentação suplementar com ração.

2.1.2 Espécies exóticas

Espécie exótica é toda espécie que se encontra fora de sua área de distribuição natural;
já espécie exótica invasora é definida como aquela que ameaça um ecossistema, hábitat
ou outras espécies. Estas espécies, por suas vantagens competitivas e favorecidas pela
ausência de inimigos naturais, têm capacidade de se proliferar e invadir, adaptando-se
aos ecossistemas.

As espécies exóticas invasoras são beneficiadas pela degradação ambiental, e são bem-
sucedidas em ambientes e paisagens alteradas. O seu potencial invasor e a severidade
dos impactos causados pelas invasões podem ser intensificados em razão das mudanças
climáticas. Com a crescente globalização e o consequente aumento do comércio
internacional, espécies exóticas de peixes são introduzidas, intencionalmente ou não,
para locais onde não encontram inimigos naturais, tornando-se mais eficientes que as
espécies nativas no uso dos recursos.

103
Se considerarmos apenas os habitats de água doce, que correspondem a 0,01% de toda a
água da Terra, sendo que 0,003% se encontra na região Neotropical, aproximadamente
24% de todas as espécies de peixes do mundo e 1/8 de toda a biodiversidade de
vertebrados encontra-se em menos de 0,003% da água do planeta.

Dessa maneira, o Brasil, por suas dimensões e por manter, integral ou parcialmente, as
maiores bacias de água doce da região Neotropical, concentra grande parte da
biodiversidade aquática existente.

As espécies exóticas invasoras são aquelas que, uma vez introduzidas a partir de outros
ambientes, adaptam-se e passam a se reproduzir e proliferar exageradamente (invasões
biológicas), podendo ocasionar alterações nos processos ecológicos naturais,
prejudicando as espécies nativas.

Os corpos d’água continentais têm uma importância incalculável para a humanidade,


particularmente no desenvolvimento das civilizações, por meio de fornecimento de água
para consumo, cultivo, pesca, transporte, recepção de rejeitos, entre outros usos
múltiplos de grande importância.

Mudanças sobre os bens e sobre os serviços prestados pela água doce podem causar um
grande impacto sobre o bem-estar humano. A construção de barramentos, a deterioração
da qualidade das águas, a degradação dos habitats, a superexploração de recursos e a
invasão de espécies exóticas são fatores reconhecidamente causadores de perda de
biodiversidade nas águas continentais do Brasil e do Planeta.

As águas doces são ambientes particularmente vulneráveis às invasões biológicas, pelo


fato de o fluxo d’água ser capaz de transportar boa parte dos organismos a grandes
distâncias, representando o segundo mecanismo mais importante para a dispersão de
organismos depois do vento.

Entre as razões para o sucesso das espécies exóticas em águas continentais, é possível
destacar a capacidade intrínseca de dispersão dos organismos aquáticos, o elevado
isolamento geográfico nestes sistemas, levando à evolução de muitas adaptações locais
e endemismos e, algumas vezes, baixa diversidade de espécies.
104
2.1.2.1 Tilápia (Oreochromis niloticus)

As tilápias, espécie de origem africana (são identificadas aproximadamente 70


espécies), estão entre os peixes mais indicados para a criação em regiões tropicais. Foi
introduzida no Brasil a partir de 1953, com a importação da tilápia rendalli, proveniente
do Congo Belga. Em 1971, foram importadas as espécies tilápia do Nilo (Oreochromis
niloticus) e a tilápia Zanzibar (Oreochromis hornorum), que apresentam características
essenciais para a piscicultura, como rusticidade, precocidade, hábito alimentar onívoro,
boa aceitação pelo consumidor e alto valor de mercado.

A tilápia do Nilo, da linhagem Chitralada,


Figura 2.8: Tilápia - Oreochromis
niloticus teve sua introdução oficial no Brasil no
ano de 1996, com exemplares importados
do Agricultural and Aquatic Systems, do
Asian Institute of Technology (AIT), com
sede na Tailândia. A sua importação foi
realizada pela Associação de Produtores de
Alevinos do Estado do Paraná e pela
Fonte:http://www.icefreshq.com/product/ti
lapia/. Acesso em: 28 abr. 2018. Secretariada Agricultura e Abastecimento
do Paraná.

As tilápias constituem a ordem dos Perciformes, família Ciclidae, divididas em várias


centenas de espécies; a espécie Oreochromis niloticus é nativa da África, do Vale
Jordan e da costa do rio Palestina. É a espécie de tilápia mais cultivada no mundo e se
destaca das demais pelo crescimento mais rápido, reprodução mais tardia, permitindo
alcançar maior tamanho antes da primeira reprodução e alta prolificidade,
possibilitando produção de grandes quantidades de ovos e alevinos.

A tilápia do Nilo apresenta grande habilidade em se alimentar do plâncton. Assim,


quando cultivada em viveiros de águas verdes, supera em crescimento e conversão
alimentar as demais espécies de tilápias. A coloração deste gênero geralmente é cinza
escuro, com nadadeiras caudais apresentando listras pretas delgadas e verticais. Os
machos, durante o período reprodutivo, apresentam a superfície ventral do corpo e as
105
nadadeiras anais, dorsais e pélvicas pretas, a cabeça e o corpo com manchas vermelhas.

A tilápia do Nilo é considerada uma das espécies mais promissoras para piscicultura por
exibir características de interesse zootécnico, como rápido crescimento em sistema
intensivo e rusticidade.

Carne com boas características organolépticas, filé firme sem espinhos intramusculares
com baixo teor de gordura (0,9 g/100 g de carne), cerca de 2,1% de gordura por filé de
120g. Baixas calorias, cerca de172 kcal/100 g de carne, ausência de espinhas em forma
de “Y” (mioceptos) e rendimento de filé de aproximadamente 33% a 37%, em
exemplares com peso médio de 800g o que a potencializa como peixe para
industrialização. Boa aceitação de mercado, boa conversão alimentar e facilidade de
encontrar alevinos constantes e baratos.

A produção de tilápia no Brasil, segundo Boletim Estatístico da Pesca e Aquicultura em


2011, foi de 133 toneladas, cerca de mais de 50% de toda produção de peixes. Ela está
presente na maioria dos Estados brasileiros.

Vários fatores concorreram para o destaque da tilápia na piscicultura brasileira; além da


fácil adaptação às variadas condições de cultivo das diferentes regiões do país, temos
que se alimentam dos itens básicos da cadeia trófica e têm curto ciclo de engorda, cerca
de seis meses. Aceitam uma grande variedade de alimentos, respondem com eficiência à
ingestão de proteínas de origem vegetal e animal e são bastante resistentes às doenças.
Aceitam superpovoamentos e baixos teores de oxigênio dissolvido; desovam durante
todo o ano nas regiões mais quentes do país.

Sistemas de criação da Tilápia

No método convencional, é utilizado para aproveitamento de açudes existentes nas


propriedades rurais. Povoa-se o açude com alevinos de 5cm (10g), na densidade de 1
peixe por m². Inicia-se a despesca dos maiores após 6 meses de cultivo. A despesca
deverá ser periódica com rede de arrasto, com malha de 10cm entre nós, retirando os
peixes acima de 0,5kg. Os açudes podem ser fertilizados com estercos de ave, suíno,
bovino, e com subprodutos agrícolas existentes na propriedade. Com esse arraçoamento
106
pode-se conseguir uma produção de 0,800 a 1,5 ton/ha/ano.

O método consórcio com predador consiste em colocar no viveiro uma espécie


carnívora que controle larvas e alevinos de tilápia. A escolha deste predador depende da
região em que se faz o cultivo, como o uso do Tucunaré (Cicla ocellaris) para regiões
quentes e que tenham estes carnívoros na bacia, o Black-bass, Micropterus salmoides,
para regiões mais frias e serranas, como nos Estados do Sul e Sudeste. Ainda o Trairão,
Hoplias lacerdae, o Pintado, Pseudoplastistoma corrucans, e o Dourado, Salminus
maxillosus, para regiões onde se tenham estes carnívoros na região.

A proporção utilizada deve ser de 85% de tilápias para 15% de peixe predador; os
alevinos dos predadores devem ser menores ou iguais aos da tilápia e anualmente deve-
se fazer o esvaziamento do viveiro. Densidade 1peixe para cada 5m².

O método monosexo consiste em produzir somente machos, pois crescem de 2 a 4 vezes


mais rápidos do que as fêmeas. Evita-se a superpopulação nos viveiros, através da
reversão sexual a partir das larvas de tilápias com 10 dias de vida, fornecendo ração
contendo hormônio masculinizante durante 60 dias. A densidade de estocagem para
engorda no cultivo de tilápia macho varia conforme a tecnologia empregada, variando
conforme o sistema de criação.

Primeiro Sistema de cultivo: a Criação em sistema “Raceway” consiste na criação


superintensiva de tilápias em tanques pequenos (100 a 400m²) de concreto, retangulares
ou circulares e com dreno central dispostos em séries. Os peixes são estocados a 70 a
120peixes/m² e a renovação da água do tanque, de 1 a 4 vezes por hora com uma
produção esperada de 70 a 200kg/m³/safra.

Segundo Sistema cultivo intensivo: com aeração de emergência, o fluxo de água pode
ser aumentado ou reduzido conforme a necessidade. A densidade de 1a 3 peixe/m² em
viveiros escavados. Arraçoamento de 2 a 4% da biomassa (80 a 120kg/ha/dia).
Acionamento de aeradores quando atinge valores mínimos 2,5mg/l de O2.
Produtividade de 10ton/ha/safra.

Outra variação seria com aeração constante, e com troca d’água, alimentação artificial,

107
dieta completa 5 a 10 peixes/m², com produtividade 15 a 20 ton/ha/safra e dependendo
da vazão 20 a 30 ton/ha/safra.

Terceiro Sistema: de tanque rede ou gaiolas de 4 a 1000m³, em média de 70m³(5x7x2m)


com alto fluxo de água, peso inicial na gaiola de 40 a 50g, densidade final de 80 kg/m³.
Alimentação com ração extrusada 26 a 30%PB, alimentação 5% da biomassa,
conversão alimentar 1:1,7. O segundo tipo com baixo fluxo de água, densidade para
engorda de 25 kg/m³.

As tilápias são basicamente fitoplantófagas, utilizando os organismos plantônicos


presentes no meio aquático. Aceitam bem alimentos artificiais nas diferentes formas,
farelada, peletizada e extrusada. Este hábito alimentar confere às tilápias utilizar
proteínas de alta qualidade através do uso de fontes alternativas de proteína de menor
custo.

Para alimentação, frequência, tipo, quantidade e qualidade da dieta a ser fornecida


devem ser adaptados de acordo com a espécie em cultivo, geralmente nilóticas, idade,
sistema de manejo empregado, entre outros fatores. O fornecimento das rações pode ser
manual (podendo observar diariamente o movimento dos peixes) ou por comedouros
que detectam a perda ou não do alimento.

Para fase inicial da criação o aproveitamento do plâncton deve ser considerado e


fornecido juntamente com a ração com peso de 0,5g a 10g, adubação de 200 kg esterco
de aves distribuído em 15 dias, ou 300 kg de esterco suíno distribuído em 15 dias, ou
500kg de esterco bovino distribuído em 15 dias.

2.1.2.2. Carpas

C. Comum (Cyprinus carpio), C. Prateada (Hypophthalmichthys molitrix), C.


Capim (Ctenopharyngodon idella) e C. Cabeça-grande (Aristichthys nobilis)

A Carpa Comum (Cyprinus carpio)é originária da China; espécie rústica, possui alta
resistência a variações de temperatura, tolera viver em ambientes de 15 até 35°C, cresce
rapidamente e pode chegar de 0,8 a 2 kg em um ano em viveiros, com manejo e

108
alimentação adequadas. No Brasil, são cultivadas carpa comum, carpa espelho, carpa
Húngara e a carpa colorida (Nishikigoi), cujo padrão foi desenvolvido no Japão,
cultivada como peixe ornamental. Segundo o Boletim Estatístico da Pesca e Aquicultura
de 2011, a produção de carpa no Brasil está em torno de 81 toneladas representando
cerca de 25% da produção nacional de cultivo com maior presença na região Sul.

Figura 2.9: A= Carpa comum (Cyprinus carpio); B= Carpa colorida Nishikigoi


(Cyprinus carpio)

A B

Fonte: A= https://pt.dreamstime.com/foto-de-stock-carpa-comum-image46127958
Acesso em: 28 abr. 2018.

B= http://cearatilapia.blogspot.com/2018/04/carpa-hungara-carpa-colorida-carpa.html
Acesso em: 28 abr. 2018.

Sua comercialização é limitada devido ao sabor pouco apreciado, devendo passar por
um período de depuração antes do abate. Podem ser criadas em sistemas de
monocultivo ou policultivo, visando obter uma quantidade ótima, com peso comercial,
com o mínimo custo.

A primeira sugestão é o sistema de criação extensiva com estoque de animais de


tamanhos variados, pós-larvas, alevinos e juvenis em um mesmo tanque, procurando
aproveitar os recursos mais eficientemente; a coleta é feita periodicamente quando
atingem peso comercial.

A segunda sugestão é o estoque dos alevinos em viveiro com alta densidade


transferindo continuamente para outros viveiros conforme desenvolvimento. As
densidades de estocagem para essa tecnologia seria de 4.000 a 5.000 peixes/ha retirando
alevinos de 2,5 cm de comprimento seletivamente com rede de arrasto e 2.000 a 3.000
peixes/ha com peixes de 5 a 10 cm de comprimento.

109
A Carpa prateada (Hypophthalmichthys molitrix) é uma das carpas nativas da Ásia,
todas foram introduzidas na América do Norte. Os peixes foram trazidos pela primeira
vez da Ásia e mantidos em lagos e plantas de esgoto para comer plâncton e vegetação
indesejadas.

Na década de 1980, os peixes escaparam durante as inundações e seguiram para o norte


até o rio Mississippi e seus afluentes; atualmente são encontrados em 18 estados
americanos. A carpa prateada, Hypophthalmichthys molitrix, e a carpa cabeça grande,
Aristichthys nobilis, compõem mais de 90% da biomassa em alguns riachos americanos.
Alimentam-se de plâncton, material vegetal e animal, ingerem cerca de 5 a 20% do peso
corporal por dia.

Alimentam-se principalmente de fitoplâncton, filtrando-o da água através de estruturas


especiais existentes nas brânquias. Um exemplar jovem pode ter no primeiro arco
branquial ao redor de 1.700 espinhas branquiais (estruturas filtradoras).

Assim um peixe de 250 gramas pode filtrar 32 litros de água por dia. O alimento chega
à boca com a água, as algas passam pelas estruturas filtradoras e ficam retidas nas
malhas da rede. É muito comum um exemplar de 500 gramas crescer 10 gramas por dia,
ou mais.

Adulta chega a um metro e peso de dez quilos, possui uma característica de manejo
interessante, que é de assustar-se facilmente saltando sobre redes de arrasto e muitas
vezes atingindo os pescadores. Seus alevinos possuem um índice de mortalidade
superior às demais carpas-chinesas.

O ciclo de vida das carpas asiáticas começa com a migração pré-desova de adultos na
primavera ou no verão, geralmente provocada por um aumento na temperatura da água e
um aumento no fluxo de água. Quando adultos, os reprodutores após a desova não
morrem, mas migram para jusante no final do verão. Os ovos eclodem no rio que flui e
as larvas se movem para áreas de berçário, como lagos de várzea ou áreas remanso.

A idade de maturação sexual nas carpas asiáticas é dependente do clima; os machos


geralmente se tornam sexualmente maduros antes das fêmeas. Elas tornam-se
110
sexualmente maduras aos 4 a 6 anos, e as carpas capim, aos 4 a 7 anos em regiões
temperadas.

A carpa cabeça grande, Aristichthys nobilis, é uma espécie de crescimento rápido.


Mostra-se bastante relacionada com a carpa prateada em seus hábitos alimentares.
Filtradora do alimento através das brânquias, sendo os organismos filtrados de maior
tamanho principalmente zooplâncton e algas grandes. A temperatura ideal para o seu
crescimento é de 24°C e o seu crescimento é superior à prateada, atingindo na fase
adulta em torno de 20kg.

A Carpa Capim (Ctenopharyngodon


Figura 2.10: Carpa cabeça grande (Aristichthys idella), animal herbívoro, na sua fase
nobilis)
larval alimenta-se de fitoplâncton na
razão de 40% de seu peso vivo por dia,
muito usada em policultivo com outras
carpas. Nos viveiros controla
macrófitas e algas filamentosas,
Fonte:www.fao.org/fishery/culturedspecies/Hy consome capins e vegetais verdes e
pophthalmichthys_nobilis/es#tcNA002B.
aceita rações comerciais, juntamente
Acesso em 28 abr. 2018
com alimento vegetal.

A carpa adulta pode chegar a um


Figura 2.11: Carpa capim (Ctenopharyngodon
idella). metro de comprimento e 32 quilos.
Seu conforto térmico ótimo para
alimentação é ao redor de 24ºC. O
crescimento da carpa capim aumenta
de 2 a 3kg/ano em regiões temperadas
Fonte: https://de.dreamstime.com/stockfoto-
gro%C3%9Fer-karpfen-image80115568. e 4 a 4,5kg/ano em regiões tropicais.
Acesso em: 28 abr. 2018. Experiências demonstram que
consome à razão de 25% de seu peso
em pastagem diariamente.

O tubo digestivo é curto com apenas duas a três vezes o comprimento do corpo; cerca

111
de 65% do material verde ingerido é absorvido, o restante é excretado sob a forma de
pelete denso, o que contribui sobremaneira na adubação da água. Uma vez adulta, sua
dieta consiste de plantas superiores (azevém, milheto, sorgo, capim-elefante, alface) que
mastiga facilmente com seus dentes faringianos.

As rações fornecidas na primeira fase são de 30% de Proteína Bruta e para terminação
rações com 25% de Proteína Bruta. Oferecidos 3% da biomassa, três vezes ao dia. Para
monocultivo deve-se estocar 1 peixe/m² com boa renovação de água. Para policultivo
depende do sistema de criação.

Tabela 2.1: Sugestão de povoamento para carpa capim:

Peso(g) Kg/ha n°indivíduos /ha


300 200-300 500-800
200 180-250 1000
100 120-150 1500
010 050-060 6000____
Fonte: Galli (1981)

O policultivo, criação de várias espécies no mesmo viveiro, é uma alternativa viável


para carpas. A característica da carpa prateada é ser fitoplanctófaga; a carpa comum de
ser onívora e explorar nicho do ambiente de fundo; a carpa-capim é herbívora e a carpa
cabeça-grande zooplanctófaga. As proporções destas quatro espécies de peixes são
variáveis de acordo com o tamanho do viveiro e características de manejo, sabendo que
tem sido testado e aprovado em vários piscicultores profissionais. Os viveiros grandes,
acima de um hectare, que favorecem o deslocamento dos peixes em grandes distâncias
têm melhores resultados com as espécies filtradoras. Os viveiros pequenos, até um
hectare, devido ao manejo mais intenso do proprietário e à maior facilidade do
fornecimento de alimento suplementar (a ração e forragem), obtêm melhores resultados
com a carpa-capim e a húngara.

112
Tabela 2.2: Espécies apropriadas ao policultivo e seus percentuais.

Fonte: Galli (1981)

Como exemplo, o cálculo de um viveiro de meio hectare (5.000m²), temos:

Área do viveiro 5.000m²/ 4 espécies = 1.250 carpas

A divisão das espécies terá acréscimo de 50% para a mortalidade durante


o cultivo.

C. Cabeça Grande 187 + 93,5 = 280,5

C. Prateada 187 + 93,5 = 280,5

C. Capim 438 + 219 = 657

C. Comum ou Húngara 438 + 219 = 657

Total do povoamento 1.875 peixes

A retirada das carpas normalmente é feita com o esvaziamento total do viveiro baixando
o nível e passando redes de arrasto. Este processo é o mais aconselhável, pois evita o
estresse excessivo dos animais, o aspecto final da carne fica melhor e o tempo de
preservação após a despesca é ampliado.

Quando o viveiro estiver com pouca água, capturam-se as carpas no porte de 1,5 a 5kg
com um puçá de cabo, munido de uma rede de pesca imobiliza-se o peixe sem a
necessidade de agarrá-lo com a mão. Quando o piscicultor pressiona um peixe na
despesca provoca manchas de sangue no corpo e arranca escamas, depreciando o
produto para o mercado. O processamento do pescado deve ser imediato, pois a
degradação da carne da carpa é muito rápida. Para o peixe despescado é recomendável
eviscerar rapidamente e congelar com escamas, pois aumenta a vida de prateleira do
113
pescado.

2.1.2.3 Bagre africano (Clarias gariepinus)

Conhecido também como Clarias, pertence à ordem dos siluriformes, da família


Clariidae, o bagre, Clarias gariepinus, animal de origem africana, distribui-se
amplamente em países como Israel, Líbano, Egito e Turquia. Animal largamente
difundido na aquicultura mundial, sendo introduzido no Brasil em 1986, encontrado em
vários Estados brasileiros, como Rio de Janeiro, Espirito Santo e em Santa Catarina, que
é o maior produtor com cerca de 58,9% de toda produção.

O interesse em seu cultivo é cada vez maior. Comumente habita brejos, lagos, rios,
ambientes bem variados; é animal carnívoro que pode ser consorciado com tilápias. É
um peixe sem escamas, com pigmentação marrom na face dorsal e marfim na face
ventral; sua boca possui 8 barbilhões longos; as nadadeiras são escuras, sendo que a
dorsal, caudal e anal contornam a parte posterior do corpo.

Os clarídeos são peixes vigorosos, predadores agressivos que sobrevivem em cativeiro e


podem sair do viveiro no período noturno em busca de alimentos, pois possuem
habilidade de utilizar o oxigênio atmosférico respirando por adaptações na bexiga
natatória. Mas são peixes que possuem brânquias e utilizam o oxigênio dissolvido na
água. Machos e fêmeas atingem a maturação sexual com tamanhos similares ao redor de
33cm e o período reprodutivo está associado ao verão e períodos das chuvas. São
animais de alta fecundidade e a reprodução induzida em cativeiro é obtida por indução
hormonal. Os ovos são colocados em cochos durante a incubação e transferidos para
viveiros escavados na larvicultura.

Nos viveiros de alevinagem são estocados numa densidade de 10.000 a 20.000


larvas/ha, com altas concentrações de oxigênio dissolvido, depois repartidos em
viveiros para recria e engorda. Criados em monocultivo, em altas densidades 3 a 5
peixes/m² de viveiro. Comercializado a partir de 0,650kg, mas o melhor rendimento de
filé deve ser de peixes com 1,5 a 2,0kg com 12 meses de cultivo.

114
2.1.2.4.Bagre de canal (Ictaluru spunctatus)

O catfish americano ou bagre-de-canal pertence à família Ictaluridae, da ordem dos


Siluriformes, nativa do Golfo do México e do Vale do Mississipi nos EUA. Ictaluru
spunctatus é uma espécie norte americana, cultivada nos Estados do Centro Sul daquele
país, região que tem temperaturas amenas. Também conhecido como bagre americano,
eles são cultivados em pisciculturas, onde se aplicam tecnologias apropriadas com
reprodução específica para a espécie e incubação de ovos em bandejas.

No Brasil é cultivado nos Estados do Sul, no Paraná e Santa Catarina, devido ao clima
temperado. As características condicionantes que fizeram estabelecer a criação foram
facilidade de desova, aceitação por rações comerciais e adaptação a temperaturas
extremas. A reprodução ocorre na primavera, fazendo-se a sexagem visual dos animais,
onde os machos maiores pelo dimorfismo sexual permanente possuem a cabeça mais
larga e o poro urogenital de menor tamanho e um pouco atrás do ânus.

Peixe de corpo alongado, com cabeça deprimida e coloração variada, apresenta as


nadadeiras com raios moles com exceção das peitorais e da dorsal que possuem
espinhos duros. A nadadeira caudal é bifurcada e a anal é arredondada e apresenta a
nadadeira adiposa. Apresenta barbilhões arranjados em um padrão definido ao longo da
região subterminal da boca, típicos da espécie.

Os peixes atingem a maturidade sexual


Figura 2.12: Bagre do canal (Ictalurus
punctatus) aos 2 anos de idade, com peso médio de
0,350 kg, mas o pico de reprodução é ao
terceiro ano de vida com peso médio de
1,30kg. Os casais são acasalados em
tanques de reprodução numa proporção
Fonte:http://www.fao.org/fishery/affris/speci
de 2 machos para 3 fêmeas, na
es-profiles/channel-catfish/channel-catfish-
home/en/. Acesso em: 29 abr. 2018. densidade de 1kg/5m². As fêmeas
depositam os ovos em manilhas de 6 a 8
polegadas, próximo à margem do tanque, com 40 a 50 cm de profundidade. A produção
estimada nestas condições pode ser de 2,0 a 2,5 mil alevinos/kg da fêmea.
115
Adaptam-se a sistemas em gaiolas com densidade na engorda de 30kg/m³, em sistema
de raceway numa densidade de 10kg/m³ iniciando com alevinos de 100g. No cultivo
semi-intensivo estocados com 3.700 a 5.000 peixes/ha, os alevinos podem ser estocados
com 5 peixes/m² em viveiros escavados com áreas de 2.000 a 5.000m², que disponham
o sistema de escoamento de fundo e permitam drenagem total do viveiro.

Apesar de ser uma espécie que apresenta hábito alimentar carnívoro, adapta-se bem a
rações comerciais. As taxas de alimentação variam de acordo com o tamanho dos peixes
e com a temperatura da água e sua dieta pode ser de 28% de proteína bruta.

2.1.2.5 Truta arco-íris (Oncorhynchus mykiss)

No Brasil a primeira introdução dos salmonídeos foi em 1949, quando foram trazidas
algumas trutas da Dinamarca, da Argentina e dos Estados Unidos para povoamento de
áreas frias do Rio de Janeiro em Friburgo e Teresópolis e no Estado de São Paulo em
Campos do Jordão e no Estado de Santa Catarina nas regiões serranas. Em 1967 foi
implantada a primeira truticultura no Brasil, em Campos do Jordão, e posteriormente
em 1974 tivemos iniciativas de truticultura comercial.

Uma segunda fase teve início em 1987, com a criação da Associação Brasileira de
Truticultura (ABRAT), com objetivo de aprimorar o cultivo, reunir os produtores e
melhorar as tecnologias aplicadas. As tecnologias atuais de criação estão defasadas com
os outros países e a produção brasileira está em torno de 2.000 toneladas/ano deste
pescado, no ano de 1998.

Segundo o Boletim Estatístico da Pesca e


Figura 2.13: Truta arco-íris (Oncorhynchus
mykiss) Aquicultura do Ministério da Pesca e
Aquicultura, a produção de truta está em
torno de 4 mil toneladas no Brasil.

Na Truta Arco-íris, os adultos


Fonte: http://diego- apresentam coloração escura que
dicasdepesca.blogspot.com/2013/04/truta-
arco-iris.html Acesso em: 29 abr. 2018. refletem a coloração de um arco-íris

116
quando incide a luz solar e uma menor parte de exemplares têm a coloração amarela
(albina).

A truta apresenta o corpo fusiforme que facilita a sua locomoção, uma vez que diminui
a resistência da água, possui simetria bilateral e se movimenta por movimentos
longitudinais. A pele tem a função de proteção contra doenças e lesões causadas por
microrganismos e é coberta por pequenas escamas circulares que crescem a medida que
o peixe aumenta de tamanho.

A reprodução da truta arco-íris concentra-se no inverno, nos meses de maio a agosto,


quando os dias são mais curtos e a temperatura da água em média de 10°C. Na natureza,
as trutas sobem os rios em direção às nascentes para o acasalamento. Em cativeiro
chegam à maturidade sexual no segundo ano. Sem os estímulos que teriam na natureza
de subir as correntezas, construir ninhos entre as pedras, presença do parceiro, elas não
conseguem expelir seus produtos sexuais, necessitando intervir no processo da
reprodução extrusando artificialmente.

Reprodução artificial em trutas arco-íris

Para obtenção de um bom plantel de reprodutores recomenda-se iniciar a seleção por


volta do primeiro ano de vida, considerando-se principalmente o ganho de peso. São
descartados os animais fracos, mal desenvolvidos, doentes e que apresentam mal
formações.

Alguns machos podem estar maduros no primeiro ano de vida, mas não é favorável. O
aconselhável são machos de 2 anos de vida pesando uma média de 800g, apresentam
melhores características para serem selecionados.

Aproximando-se o período da reprodução próximo de abril, as características sexuais


secundárias são notadas, tais como, no macho as laterais são mais brilhantes e a
mandíbula é pronunciada, nas fêmeas o corpo fica arredondado, com a cabeça mais
delicada.

Uma nova triagem deve ser feita para facilitar o manejo e evitar brigas entre os
reprodutores. Os machos devem ser separados das fêmeas e a densidade de estocagem
117
dos reprodutores deve ser de 10kg/m³. O arraçoamento é fixado em 1% do peso
vivo/dia, a alimentação deve ser suspensa 24 horas antes da manipulação dos
reprodutores. A extrusão dos óvulos das fêmeas maduras se inicia com as triagens em
intervalos regulares através de leve compressão abdominal; quando maduras, elas
liberam os óvulos na cavidade abdominal, apresentam o ventre abaulado e o orifício
genital entumecido e avermelhado.

Os óvulos apresentam um tempo de vida útil na cavidade abdominal; quanto mais alta a
temperatura, menor seu tempo de vida útil, para isso usam-se intervalos regulares entre
as triagens. Com a temperatura ao redor de 10°C, a triagem deve ser feita a cada 7 dias.
Quanto mais alta a temperatura, menor deve ser o intervalo entre as triagens. No
processo de fecundação, os óvulos viáveis devem apresentar aspecto homogêneo e
coloração amarela.

A extrusão deve ser feita em bacia de plástico limpa e seca. Colocam-se os óvulos e
sobre eles o líquido seminal. Mexer com muito cuidado sem movimentos bruscos com
uma pena ou colher de plástico, homogeneizando todo o produto. Adicionar água de
forma a cobrir todos os óvulos, para ativar a movimentação espermática, e
imediatamente inicia-se a fertilização e hidratação dos ovos, processo que dura cerca de
20 minutos.

O processo de incubação leva em torno de 300 UTA (Unidade Térmica Acumulada),


valor obtido pela somatória das temperaturas médias diárias e a incubação; divide-se em
duas fases desde a fecundação até a aparição dos ovos do embrião (ovo embrionado),
cerca de 180° graus dia (durante a incubação) e pode ser comercializado desta etapa até
a eclosão.

Os tipos de Incubadoras podem ser as verticais e horizontais, onde o fluxo de água


incide de baixo para cima, e a vazão é calculada em função da disponibilidade de
oxigênio dissolvido na água, aproximadamente 0,5 a 1,0 litro/min/1.000 ovos. Deve ser
a máxima desde que não provoque o revolvimento dos ovos.

A incubadora horizontal pode ser de madeira, calha de cimento amianto ou concreto e


todas possuem bandejas para deposição dos ovos. Essas incubadoras podem ter (50x50
118
e 20x50); as bandejas dispostas nas calhas cobertas 5 cm de água. Para determinar as
dimensões das bandejas são recomendados cerca de 10.000 ovos/1.500 cm², ou no
máximo duas camadas de ovos/bandeja para incubação e uma camada de ovos para
eclosão.

A incubadora horizontal pode ser usada também para 1° alevinagem, desde que se faça
desinfecção delas antes da utilização. A incubadora vertical de bandejas sobreposta é
utilizada exclusivamente para tal fim. O fluxo deve ser de baixo para cima a uma
temperatura constante de 10°C.

O período larvário compreende entre o nascimento até a primeira alimentação externa.


As larvas nascem com comprimento médio de 15 mm e a absorção do vitelo (saco
vitelínico) dura em torno de 180 UTA, quando a larva atinge 20mm. Com este
comprimento as larvas possuem 100 mg de peso e podem ser transferidas para os
tanques de alevinagem de 0,40 a 0,60 m de profundidade.

A primeira alimentação deve ser oferecida quando os alevinos estiverem nadando após
terem absorvido o saco vitelínico, com ração de alto teor proteico 46% PB, farelada
(bem fina), várias vezes ao dia. A alimentação deve ser 10% ao dia e o manejo sanitário
é importante nas calhas ou caixas de alevinagem. As caixas devem estar em locais
isento de luz direta. Fazer limpeza diária dos restos de ração e larvas mortas. Após 180
UTA os alevinos começam adquirir pigmentação e podem ser transferidos para tanques
de alevinagem externos. Com 200 mg e a temperatura abaixo de 14°C, podem ser
estocados 10.000 alevinos/m³, durante os primeiros 15 dias de cultivo. Os alevinos
devem ser remanejados a cada 15 dias para menores densidades, e os tanques cobertos
com telas plásticas para diminuir a incidência de luz solar direta.

O ajuste da ração deve ser a cada 15 dias e a partir do quarto mês de cultivo o ajuste da
ração decresce gradativamente; a quantidade diária é calculada em função da
temperatura da água e do tamanho dos peixes. Perdas de 0,8% são estimadas durante o
cultivo, supondo-se que as variáveis envolvidas (temperatura, oxigênio, pH, vazão)
estejam dentro dos valores normais para o cultivo da truta arco-íris.

O número de reprodutores é definido em função da produção que se deseja obter:


119
1tonelada/trutas/mês, ou 1 tonelada truta /ano. Para exemplo usaremos 12
toneladas/trutas/ano cerca de 40.000 peixes (300g).

Considerando perda de 50% do ovo até o abate, seriam necessários cerca de 80.000
ovos. E uma fêmea produz 2.000 óvulos, portanto para 80.000 ovos teremos que ter
40kg de fêmeas (40 fêmeas com peso médio de 1kg). Para repor as mortes acrescer 20%
do plantel.

Alimentação e arraçoamento

A truta arco-íris em estado selvagem alimenta-se predominantemente de larvas e formas


adultas de insetos, moluscos e pequenos peixes e eventualmente pequenos animais
aquáticos. A alimentação baseada em ração e o oferecimento duas vezes ao dia
proporcionam bons resultados. O tamanho da partícula de alimento também varia em
função do tamanho do peixe; através do uso de rações comerciais a conversão alimentar
fica em torno de 1,5:1 a 1,8:1 dependendo da qualidade da dieta.

Sistema de criação da Truta arco-íris

O conjunto de obras deve ser dimensionado a fim de se configurar o mais econômico e


definitivo possível, uma vez que obras de ampliação ou reformas tornam-se muito
difíceis e onerosas. Os componentes iniciais da criação são a barragem, que consiste no
barramento para desvio de parte da vazão do curso d’água para o canal aberto ou
tubulação fechada de adução (condução da entrada de água), através do qual será
conduzida aos tanques.

Deve ser dimensionada de forma a resistir a enchentes comuns no período chuvoso, as


comportas devem ser dimensionadas a fim de evitar assoreamento na piscicultura e
permitir a remoção de sedimentos como argila e areia que causam danos aos peixes. Os
canais de adução devem ser abertos para melhor inspeção e facilidade de limpeza.

A declividade deve propiciar um regime de escoamento da água uniforme e livre de


turbulência, para evitar erosão e facilitar a distribuição da água para os tanques. O
sistema de entrada de água deve ter grades de proteção, comportas ou válvulas de

120
regulagem da condução da água.

O formato deve ser de preferência circular, que proporciona várias vantagens como a
facilidade de limpeza e manejo, esvaziamento central, controle de vazão e controle do
nível d’água. Os tanques circulares devem ser de 5 a 12 m de diâmetro e 1 m de
profundidade, ter circulação de 80 a 100% do volume /hora. O material para construção
pode ser de alvenaria, como tijolos, concreto, blocos, pedras de fibra de vidro,
Polietileno de Alta Densidade (PAD) e filme plástico, fibrocimento, chapas metálicas e
tanque rede.

E ao final, lagoas de estabilização que são estruturas com a função de evitar a poluição
do curso d’água. Elas recebem a descarga dos tanques, os sedimentos de ração, fezes e
outras partículas para serem depositadas no fundo da lagoa.

Tanques de concreto ou lona de polietileno de alta densidade (PAD), com uma boa
circulação de água e uma renovação de 100%/hora, suportam 25 a 45 kg de peixe/m³.
Tanques de reprodutores, alevinos e peixes na fase de crescimento e terminação, devem
ser abastecidos por uma vazão coerente com a demanda de oxigênio da população ali
mantida.

Figura 2.14: Truticultura em tanque de PAD

Fonte: Moisés Anthero da Silva

121
2.2 Síntese da Unidade

Discutimos nessa Unidade as espécies de peixes nativos e exóticos que mais são
produzidas no Brasil e sua importância econômica, descritas de forma a ressaltar as
qualidades produtivas e o manejo dessas espécies.

2.3 Para saber mais

Filmes e telenovelas

• https://www.youtube.com/watch?v=y4KalbYHF0c

Catálogo on-line reúne informações de 2,3 mil espécies de peixes de água doce.

• https://www.youtube.com/watch?v=M2AaJgcZqQg

Peixes de água doce.

Livros

• REBELO NETO, P.X. Piscicultura no Brasil Tropical. São Paulo: Leopardo


Editora, 2013

2.4 Atividades

Para aprofundar seu conhecimento sobre o conteúdo desta Unidade, procure um


pesqueiro ou criatório próximo de sua residência e realize uma pesquisa sobre as
espécies de peixes nele criadas.
122
Unidade 3

Viveiros de Criação

Nesta Unidade estudaremos os viveiros de criação para a piscicultura e os aspectos


operacionais envolvidos para sua implantação.

3.1 Construção de viveiros para piscicultura

Para que a piscicultura seja uma atividade viável e rentável, é preciso fazer uma
programação da produção. É preciso que a criação tenha renda periódica, escolha-se
uma espécie de peixe que tenha capacidade de ser produzida o ano todo e nas condições
do local determinado.

O clima deve ser compatível com as exigências das espécies que serão produzidas
evitando os riscos de perdas de peixes durante o inverno. Algumas espécies, como o
bagre-do-canal, Ictalurus punctatus, necessitam passar por um período de inverno bem
definido, para que atinjam condição adequada para a reprodução. Outros parâmetros
climáticos, como o fotoperíodo e o regime das chuvas, também são decisivos na
reprodução de muitos peixes.

As áreas eleitas devem dispor de fontes de água de boa qualidade, sem contaminação
por poluentes e em quantidade mínima para abastecer a demanda da piscicultura. A
quantidade de água necessária depende da área dos viveiros, das taxas de infiltração e
evaporação, da renovação de água exigida no manejo da produção e do uso de
estratégias de reaproveitamento da água, dentre muitos outros fatores.

O empreendimento deve ter um número de viveiros ou tanques que permita


periodicidade na produção, utilize rações comerciais economicamente viáveis. Tenha
123
em mãos índices reais confiáveis dos parâmetros de desempenho do sistema de
produção, pois estes fatores interferem no desempenho dos peixes. Dominar noções
básicas de planejamento, implantação e controle para auxiliar nas tomadas de decisões e
avaliações técnicas-econômicas do empreendimento. Restrições ambientais devem ser
observadas quanto ao desmatamento e à preservação das áreas de proteção ambiental e
das matas ciliares; também devem ser observadas as restrições no uso dos recursos
hídricos, principalmente quanto ao volume de água que pode ser captado e ao
lançamento da água de drenagem dos viveiros nos corpos d’água naturais. Conhecer as
regulamentações federais, estaduais e municipais quanto ao uso dos recursos naturais e
os procedimentos para a obtenção das licenças ambientais do empreendimento. A
infraestrutura básica, como as condições das estradas, a disponibilidade de energia, a
proximidade dos aeroportos e portos, dentre outras facilidades em infraestrutura, são
fatores decisivos na seleção dos locais. Também são decisivos a disponibilidade de mão
de obra, de insumos e serviços, a facilidade de recrutamento de mão de obra temporária,
a conveniência na aquisição dos insumos básicos (ração, alevinos, corretivos e
fertilizantes, entre outros) e a oferta de serviços de apoio (terraplenagem, manutenção
de veículos e outros equipamentos). A instalação e manutenção de redes elétricas,
galpões e outras estruturas, e também transporte de cargas, confecção de embalagens,
dentre outros.

O acesso ao mercado consumidor: a proximidade e o acesso a vários mercados são


fatores decisivos na seleção dos locais. Um adequado posicionamento logístico permite
reduzir o custo de transporte dos produtos, diversificar os mercados e reduzir os riscos
de comercialização, melhorando a competitividade do empreendimento.

3.1.1 Topografia do terreno

O terreno deve possuir declividade suficiente para que os viveiros possam ser
abastecidos por gravidade. O ideal é que tenha uma declividade suave na faixa de 2 a
5%. O comprimento do viveiro deve acompanhar a declividade do terreno. A construção
dos viveiros deve ser feita aproveitando as condições do terreno de forma que a terra
deslocada seja para complementação dos aterros.

124
Os vales constituem o perfil topográfico mais indicado, pois dispensam ou reduzem o
trabalho de escavações; ainda é preciso considerar os aspectos de profundidade e largura
do vale. Os vales estreitos e profundos não são indicados, pois o perfil exige que as
barragens sejam muito elevadas, dando origem a tanques pequenos e profundos com
pouca penetração de luz na coluna de água. Os vales medianamente largos e os vales
amplos e rasos proporcionam boa área inundada.

Figura 3.1: Figura 27. A= Vale ¨V¨ do tipo truncado estreitos e pouco
profundos; B= Vale com uma lateral em ¨V¨ e a outra plana e rasa,
C=Terreno totalmente plano e raso.

Fonte: Moises Anthero da Silva

3.1.2 Estrutura física do solo

Solos para a construção dos viveiros devem ter a estrutura física ou textura na proporção
de areia/argila com 15 a 35% de argila. Assim, apresentam boas propriedades coesivas
impedindo a infiltração, aumentando a durabilidade dos taludes e retendo mais
nutrientes. Os solos argilosos e de baixa permeabilidade permitem a construção de
diques mais estáveis, sendo, portanto, os mais favoráveis à construção dos viveiros.
Solos arenosos ou com grande quantidade de cascalho geralmente apresentam alta
125
infiltração demandando um maior uso de água, são pouco estáveis e mais susceptíveis à
erosão.

A seleção dos locais para a construção de viveiros deve ser baseada na compatibilidade
dos solos que servirão como fundação e como material para a construção dos diques. Os
solos usados na fundação dos viveiros e diques devem dispor de lençol freático
profundo, para não comprometer e/ou encarecer os trabalhos de construção; serem
pouco susceptíveis às rachaduras, à erosão interna e à percolação de água; serem
estáveis para que não ocorram acomodações ou expansões no solo que causem danos
estruturais à fundação.

Nas áreas selecionadas devem ser feitas trincheiras ou realizar “tradagens”, que é a
coleta de amostras do solo em diversas profundidades com a ajuda de um trado ao longo
de toda a área, de forma a conhecer tanto as características do material, como a
predominância de pedras para a construção das fundações e dos diques.

Quanto à constituição química, os solos devem ser ricos em fósforo e evitar terras com
alumínio e ferro e terrenos turfosos. Deve-se escolher preferencialmente terrenos
alcalinos. Quanto à textura e ao gradiente de partículas, os solos de textura fina são mais
adequados à construção dos viveiros. A distribuição do tamanho das partículas de um
solo pode ser bastante variável. Os solos são “gradiente suave” quando apresentam uma
distribuição mais homogênea no tamanho de suas partículas. Solos de “gradiente
abrupto” são aqueles em que predominam um determinado tamanho de partículas.

Um solo de diâmetro de 2 a 0,05 mm está classificado como areia e, quando


friccionado, as partículas entre os dedos parecem pedregulhos. Não apresentam
plasticidade e nem são grudentas quando úmidas. Os solos de diâmetro 0,05 a 0,002mm
são classificados como silte e suas características são que, quando friccionados entre os
dedos, são lisos e purulentos. Os solos de diâmetro menor que 0,002mm são
considerados argila e são lisos ao tato e na água podem permanecer suspensos por longo
período de tempo.

Uma forma de identificar gradiente do solo coletado para saber a proporção de areia,
silte e argila é colocando em uma garrafa pet transparente cerca de 300ml de solo.
126
Depois “soque” o material com uma haste para eliminar o volume de ar no interior do
solo e registre o volume do solo no recipiente. Meça com uma régua a altura do solo no
recipiente, adicione 500ml de água sobre o material e misture bem com uma haste de
forma a desagregar as partículas do solo. Depois tampe a boca do recipiente e
repetidamente vire o recipiente de cabeça para baixo, misturando ainda mais o material.
Após uma boa mistura deixe o recipiente descansar por 25 segundos e anote o volume
de material decantado. Se mais de 50% do volume inicial decantou em 25 segundos, o
solo pode ser considerado de textura grosseira. Se menos de 50% decantou, o solo pode
ser considerado de textura fina e o material deve ser novamente agitado e virado de
cabeça para baixo durante cerca de 2 minutos. Em seguida o material é deixado
decantar por 24 horas. Após este descanso, é possível observar diferentes camadas de
partículas dentro do recipiente. As de maior tamanho e as mais pesadas ficam no fundo
do recipiente. As alturas das camadas devem ser anotadas e expressas em percentual da
altura total do solo decantado no recipiente.

Os solos mais adequados para a construção dos diques devem apresentar uma
composição ao redor de 60 a 40% de areia, 30 a 15% de argila e o restante de silte, de
forma a garantir um suave gradiente entre as partículas. Solos com menos de 12% de
finos (argila e silte) não são apropriados para a construção dos diques, a não ser quando
misturados com outros solos mais finos.

Outro fator a ser observado é a plasticidade de um solo (é o quanto é capaz de ser


modelado); ele pode ser plástico ou moldável ou não plástico. A proporção de argila no
solo determina o quanto este é plástico e possibilita a modelagem e compactação dos
diques dos viveiros. Solos em que predominam cascalho e areia, e com pouca argila,
geralmente são inadequados para a construção de viveiros, pois, além de apresentarem
alta infiltração, não permitem a construção de diques estáveis, havendo grande risco de
erosão.

Os solos plásticos apresentam maior resistência à erosão, à percolação de água e às


rachaduras por acomodação do material. Também apresentam maior coesão entre as
partículas, conferindo grande estabilidade aos diques desde que tenha sido realizado um
adequado trabalho de compactação.
127
Um teste prático segundo a FAO é teste do rolinho (macarrões com cerca de 3 a 4mm
de diâmetro) feitos com o solo úmido para a avaliação da capacidade de modelagem
(plasticidade) do solo. E a um macarrão de maior diâmetro (ao redor de 13mm), usado
no teste de resistência do solo, uma forma indireta de medir a plasticidade do mesmo.

A densidade é influenciada pelo volume dos espaços (poros) presentes no solo. Solos
com baixa densidade geralmente são grosseiros, predominando cascalho e areia. A
densidade do solo pode ser alterada pela compactação proporcionada pelo rodado dos
pneus dos tratores, caminhões por rolos compactadores e, com uma menor eficiência,
pela esteira de alguns maquinários. Sob o ponto de vista da construção dos diques, a
umidade ótima de um solo é aquela que possibilita atingir a máxima densidade e a
máxima compactação sob um determinado esforço de compactação.

3.1.3 Quantidade e qualidade de água necessária

Devem ser avaliadas durante o planejamento da implantação de uma piscicultura as


variações da vazão ao longo do ano, particularmente nos períodos de estiagem, e
variações na temperatura da água e sua relação com a temperatura do ar ao longo do
ano; a presença de vida na água de peixes, crustáceos, plantas aquáticas e outros
organismos; a concentração de gases como o oxigênio e o gás carbônico presentes
durante 24 horas.

Verificar o pH, a alcalinidade total e a dureza total, e outros indicadores importantes da


estabilidade química da água e que determinam a necessidade de adoção de algumas
práticas de manejo.

Determinar a salinidade e as suas flutuações sazonais, particularmente quando o


objetivo é o cultivo de espécies marinhas ou estuarinos, ou mesmo o cultivo de espécies
de água doce em águas de salinidade mais elevada. Verificar o risco de contaminação
da fonte de água com produtos químicos ou esgoto (resíduos) de origem agropecuária,
urbana ou industrial; verificar o risco de contaminação por patógenos e outros
organismos indesejáveis provenientes da água de drenagem de outras pisciculturas ou
pesque-pague, que despejam seus efluentes à montante de onde se planeja fazer a

128
captação de água do projeto.

Para o abastecimento da piscicultura para águas ácidas e/ou águas com baixa
alcalinidade e dureza total, fazer a calagem com o uso de calcário agrícola em doses que
podem variar de 1 a 4 toneladas por hectare.

Para controlar peixes indesejáveis, instalar filtros no abastecimento ou fazer a colocação


de telas nos tubos de abastecimento de água dos viveiros para controle periódico da
população natural de peixes nos reservatórios que abastecem a piscicultura. Para o
controle das águas turvas com argila em suspensão que entram na piscicultura, adotar
práticas de controle de erosão do solo terraceamento e implantação de cobertura vegetal
nas áreas vizinhas à piscicultura e nas estradas da propriedade, de forma a impedir a
entrada de água de enxurrada nos reservatórios e nos canais que abastecem a
piscicultura.

As águas de poços e minas são pobres em oxigênio e ricas em gás carbônico e devem
receber aeração antes de serem usadas na incubação dos ovos, nos tanques de
depuração, nos tanques de estocagem de reprodutores, nas embalagens e caixas de
transporte, entre outras situações. Não há necessidade de aeração prévia destas águas se
elas forem usadas no abastecimento de viveiros de baixa renovação de água.

A quantidade de água necessária para suprir uma piscicultura varia com as perdas de
água por infiltração e evaporação, depende do número de vezes em que os viveiros são
drenados no ano, da renovação de água durante o cultivo e das estratégias de
reaproveitamento da água como uso das águas da chuva, do aproveitamento da água de
drenagem para o abastecimento de outros viveiros e da implementação do cultivo com
despescas e estocagem múltiplas.

A taxa de infiltração da água depende das características do solo dos viveiros, da


eficiência do trabalho de compactação, do uso de estratégias para amenizar a infiltração,
do tempo de uso dos viveiros, dentre outras variáveis.

Viveiros construídos em solos com alto teor de argila podem apresentar infiltração
próxima de zero. A evaporação da água dos viveiros varia de acordo com os meses do

129
ano, sendo acentuada pelas altas temperaturas, pela baixa umidade do ar e pela ação
contínua dos ventos. A quantidade mínima de água que se deve dispor a piscicultura é
de 10 a 15 litros/ha/segundo e uma renovação média de 10% ao dia do viveiro de
criação para sistemas semi-intensivos.

Como exemplo, um viveiro escavado de 20mx50mx1m= 1.000 m³ de água. Se tivermos


8% de renovação de água ao dia, quanto é a vazão em litros /segundo?

Temos o volume 1000m³x0,08 (renovação ao dia) = 80m³ / dia ou 80.000 litros/dia.


Vazão será 80.000 litros/86.400 segundos = 0,92litros / segundo de renovação diária.

Para determinação da vazão podemos fazer pelo método direto, que é colocar um balde
de volume conhecido na entrada de água e calcular o tempo de duração para encher o
balde.

Figura 3.2: Materiais necessários para determinação da vazão.

Ex: Tempo de 5 segundos para encher o balde.

Portanto temos que Vazão = 10 litros / 5 segundos temos uma vazão de 2 litros /
segundo.

130
Nas propriedades rurais o método de cálculo de vazão é pelo método do flutuador, ou
método indireto, no canal conforme desenho abaixo:

Figura 3.3: Espaço flutuador vence a inércia; espaço de contagem do tempo pelo
cronômetro final

(M¹) 2 a 3m flutuador (M²) espaço de 6 a 10 m


Fonte: Moises Anthero da Silva

Figura 3.4: Medidas de profundidade e largura do canal de abastecimento; devem


ser tomadas em cinco pontos diferentes (a).

Fonte: Moises Anthero da Silva

1. Velocidade média (Vm) = Vm = Espaço/tempo

Vm = 8m/ 31s (tempo médio coletado)

Vm = 0,2581 m/s aproximadamente 0,26 m/s

131
Para correções dos canais conforme as paredes temos:

a) Canais com paredes lisas (cimento) = 0,85 a 0,95

b) Canais com paredes pouco lisas (terra) = 0,75 a 0,85

c) Canais com paredes irregulares (vegetação) = 0,65 a 0,75

Vm corrigida = 0,26 x 0,85 = 0,23 m/s (Vmc)

2. Cálculo da Área (A¹) = altura média (h) x largura (a)

A¹ = 0,27m x 0,30 m = 0, 081m²

Sabendo as medidas da Área (A¹), se tem a média dos 5 pontos de alturas, da largura (a)
e vazão é determinada pela :

3. Determinação da Vazão (V)= Área (A¹) x velocidade média corrigida (Vmc)

Vazão = 0,081m² x 0,23 m = 0,01863m³

Vazão = 18,6 litros/segundo

4. Determinação da área a ser inundada

Portanto para um canal com estas especificações podemos calcular qual a área
que pode ser inundada para o estabelecimento de uma piscicultura. Sabendo que
uma vazão recomendada deve ser de 10 litros /hectare/ segundo.

Temos que 10 l/s......................10.000m²

18l/s......................x

X = 18,6 x 10.000 / 10 = 18.600 m² ou 1,86 ha

A piscicultura poderá ter aproximadamente 2 ha de área a ser inundada. Mais adiante


estaremos usando como exemplo estes resultados para fazer o planejamento da
piscicultura.

132
3.1.4 Tipos de viveiros e tanques

Existe diversidade de tanques e viveiros de piscicultura, conforme suas finalidades,


como para manutenção de reprodutores, preparo de reprodutores, acasalamento, criação
de pós-larvas e de alevinos, engorda.

O viveiro de piscicultura é um reservatório escavado em terreno natural, dotado de


sistemas de abastecimento e de escoamento de água de tal modo que permita enchê-lo
ou secá-lo no menor espaço de tempo possível. Ele pode ser parcial ou totalmente
elevado acima do terreno natural, mediante o erguimento de diques ou barragens.

O tanque tem estrutura semelhante ao viveiro, sendo, contudo, revestido com alvenaria
de pedra ou tijolo ou em concreto; é uma estrutura menor que o viveiro, sendo sempre
de derivação. E os tanques de polietileno de alta densidade instalados acima do piso são
muito utilizados em sistemas de recirculação de água.

Figura 3.5: A= Tanque circular de concreto; B= tanque de PAD, ambos acima do solo

Fonte: Moises Anthero da Silva

Os viveiros e os tanques podem ser classificados segundo o sistema de alimentação


levando em consideração a topografia do terreno. Para viveiros abastecidos por cursos
de água temos viveiros de barragens e viveiros escavados de derivação do curso de
água.

Os viveiros de barragem de terra apresentam menor custo de implantação; com um


pequeno e único aterro, pode-se ter dependendo do relevo local grandes áreas alagadas.
Quando os barramentos dos viveiros de barragens são de alvenaria ou pedras de mão e
argamassa, requerem o emprego de materiais como cimento, areia, pedras e/ou tijolo e
mão de obra capacitada no serviço na construção. Nos viveiros de barragem quando se

133
tem outros à jusante, a qualidade da água fica comprometida e o esvaziamento tem que
ser sincronizado.

Os viveiros de derivação são um tipo


Figura 3.6: Viveiros de barragem em
patamares. de construção que proporciona uma
série de vantagens, como o controle do
volume de entrada de água, a
possibilidade de abastecimento e
escoamento individuais, não
apresentam perigo de transbordamento
nem ruptura da barragem, permitem
melhor manejo podendo-se esgotar

Fonte: Moises Anthero da Silva. qualquer viveiro sem interferir nos


demais.

Figura 3.7: Viveiros de derivação.

Fonte: Moises Anthero da Silva

3.1.5. Sistemas de abastecimento

O abastecimento de água nas pisciculturas e a sua distribuição podem ser feitos por
gravidade, por bombeamento, ou combinando essas duas possibilidades. Abastecimento
por gravidade ocorre em locais onde a fonte de água de uma represa, uma nascente ou
um canal fica numa cota ou nível acima da cota da água dos viveiros. A distribuição da
água aos viveiros é feita através de canais abertos ou por tubulação.

134
Figura3.10:
Figura 3.8: A= Canalem
Desenho de corte
escoamento de alvenaria;
do viveiro derivado B= Canal de escoamento de terra;
C= Canal de canaleta meia cana aberta; D= tubulação PVC fechada.

Fonte: Moises Anthero da Silva

Fonte: Moises Anthero da Silva

O ideal é contar com abastecimento e distribuição de água por gravidade, reduzindo o


custo operacional, pois não demanda energia elétrica ou combustível e o risco de falhas
no sistema com a quebra de bombas ou falta de energia. A canaleta de abastecimento
desemboca em uma caixa de derivação que leva através de tubo de PVC de 100mm
instalado de 30 a 50 cm acima da lâmina de água para dentro do viveiro.

Figura 3.9: Viveiro com detalhe do tubo PVC 100mm de abastecimento de água

Fonte: Moises Anthero da Silva

O abastecimento por bombeamento é empregado quando a fonte de água está numa cota
ou nível abaixo da cota ou nível da água dos viveiros. Esse sistema de abastecimento é
muito comum quando se utiliza água de poços, de rios ou de represas com nível abaixo
do nível da água nos viveiros. A distribuição da água é feita por tubulação pressurizada

135
3.1.6 Sistemas de escoamento

O esvaziamento total e a limpeza de viveiros de piscicultura são importantes para


receberem novos alevinos; limpar sua bacia; retirar paus, pedras e lama orgânica e
nivelar o fundo o quanto puder. Esse manejo serve para diminuir a ocorrência de
doenças e predadores e facilitar a colheita, bem como as operações de monitoramento
da produção utilizando redes de arrasto.

Este manejo garante uma boa qualidade de água ao longo do próximo ciclo de criação,
já que a lama orgânica acumulada, às vezes durante anos, originária de restos de
comidas, folhas mortas ou dos próprios dejetos dos peixes, pode polui-la. Os viveiros de
piscicultura devem ser preparados, despescados e novamente preparados pela calagem e
limpeza de lodo para o próximo peixamento seja com pós-larvas ou alevinos.

O sistema de escoamento pode ser do tipo cachimbo, ou seja, composto por tubulação
de PVC e joelho articulado com diâmetro proporcionalmente maior que a vazão local,
para que o viveiro possa ser devidamente esvaziado quando necessário em qualquer
tempo.

Entre o cachimbo e o tubo de drenagem pode ser feita uma curva com joelho de rosca
para tubos de grande diâmetro, essa curva pode ser feita a um menor custo usando um
pedaço de mangote flexível como joelho
Figura 3.11: Sistema de escoamento acoplado ao dreno com abraçadeiras.
cachimbo à montante.
A posição do tubo deve ficar rente ao
fundo da caixa de coleta de peixes em
algumas situações, por limitação da cota
dos drenos ou por economia na
terraplanagem, o tubo de drenagem é
posicionado acima do fundo da caixa de
manejo o que dificulta a retirada da sobra
de água na caixa após a colheita.
Fonte: Moises Anthero da Silva

136
Figura 3.12: A = Monge de manilhas; B= Os monges são geralmente feitos em
monge de concreto incrustado no talude.
concreto, com o uso de formas, ou
podem ser feitos de alvenaria de tijolos.
Manilhas de cimento também podem ser
utilizadas para construir o monge.
Monges dos mais variados tamanhos e
tipos, e com distintos mecanismos de
operação podem ser vistos nas
Fonte: Moises Anthero da Silva pisciculturas.

Monge interno fica dentro do viveiro e


monge externo fica parcialmente embutido no talude, facilitando o acesso à comporta e
dando melhor apoio às suas paredes. O controle da drenagem é feito através de tábuas
posicionadas bem na frente do monge.

As guias na parede do monge orientam as tabuas na posição para que esta possa ser
levantada (aberta) ou abaixada (fechada).

137
Figura 3.13: A= desenho de Monge; B=detalhe de corte de encaixe nas tábuas; C=
detalhe de tela no fundo de escoamento.

A B C
Fonte: Moises Anthero da Silva

3.1.7.Caixa de coleta de peixes


Alguns peixes são de difícil pesca e grande parte do estoque somente é capturado no
lodo após a drenagem total dos viveiros. A despesca no fundo do viveiro é trabalhosa
tanto para os funcionários como para os peixes e se repetem em todos os viveiros
diversas vezes no ano e durante toda a vida do empreendimento.

A construção de caixas de coleta próximas ao dreno dos viveiros funciona como um


tanque de alto fluxo, possibilitando classificar e depurar os peixes, bem como mantê-los
em boas condições até o carregamento e venda. A caixa de coleta deve ser
dimensionada para sustentar entre 50 a 150kg de peixe/m³, em função do tamanho do
peixe, da vazão de água disponível e do uso de aeradores.

No abastecimento a água cai dentro da caixa de coleta, evitando erosão no viveiro os


peixes podem ser estocados na caixa de coleta, mesmo com o viveiro no início do
enchimento a caixa de coleta auxilia na captura, possibilita a realização de
classificações e também pode ser usada para depurar os peixes.

138
3.1.8 Passos para construção da barragem

A construção da barragem para piscicultura deve ser realizada de acordo com as


seguintes etapas:

1. Fazer a limpeza da área e a marcação do terreno com estacas e linhas, de acordo


com as proporções da futura barragem;

2. Determinar a profundidade de água. Esta tem a função de guiar a movimentação


de terra de drenagem e limpeza da área, principalmente aquela que for ocupada
pelo dique, retirando o máximo possível de pedras, troncos, raízes e partes
orgânicas, como restos de folhas e madeiras mortas que cobrem a camada
superficial do solo, sobre os quais a argila não colaria, proporcionando
infiltrações.

3. Fazer a canalização da água do curso da água para secar o máximo possível a


área de construção, retirando a camada superficial do solo que contém maior
teor de areia e matéria orgânica.

4. Fazer o preenchimento da trincheira com solo argiloso bem compactado para


constituir o núcleo, o cut-offf, a estrutura de segurança da barragem. Fazer o
soterramento do núcleo compactando bem um solo de boa qualidade.

Figura 3.14: A= Viveiros de derivação aberto para instalação da


tubulação de fundo; B=detalhe de tubulação manilha de concreto
30cm diâmetro

Fonte: Moises Anthero da Silva

139
5. Fazer a construção de vertedouros laterais a céu aberto que são canais de tubos
de concretos nos cantos contornando por fora do aterro. Fazer a adaptação do
joelho articulado e da tubulação cachimbo na tubulação de drenagem e encher
por 20 a 30 dias e tornar a esvaziar.

6. Recompactar o aterro e completar o volume de terra na altura planejada,


Reencher e povoar com peixes larvas ou alevinos.

A largura do talude jusante poderá ter uma proporção de 1:1 altura e saia do
viveiro e para inclinação interna do talude (montante) a proporção pode ser de
1:2 a 1:3 para cada metro de altura temos dois a três metros de base.

A borda Livre (BL) é uma altura de segurança acrescida à altura do talude e


corresponde à diferença de nível entre a crista do talude e o nível máximo de
água do viveiro. Para viveiros de até 3.000m² a borda livre deve ser de 0,5m e
para viveiros maiores de 2 a três metros e deve ser feito o plantio de grama do
lado de fora à jusante para evitar erosão

Figura 3.15: Corte de talude, detalhe da trincheira do núcleo de solo homogêneo.

Fonte: Moises Anthero da Silva

A inclinação dos taludes, a montante e jusante é muito importante para evitar


desmoronamentos e reforçar a estrutura. A largura da base deve ser bem maior que a
largura da Crista do aterro. Em terrenos argilosos a relação da altura da crista e o
comprimento da saia interna e externa deve ser de 1:1, para solos menos argilosos a

140
relação é de 1: 2 e para terrenos arenosos com alta percolação e porosidade a relação do
talude deve ser de 1:3

Figura 3.16: Taludes de açudes e largura de saia


conforme o tipo de solo, BL=borda livre.

Fonte: Moises Anthero da Silva

Figura 3.17: Medição topográfica da saia


3.1.9.Planejamento de uma
interna do viveiro
criação

Para o planejamento de uma criação de


peixes são levantados alguns pontos
básicos anteriormente à concepção do
projeto como: tamanho e formato da
área disponível para a implantação do

Fonte: Moises Anthero da Silva projeto, topografia da área, tipo de solo,


presença de rochas, terrenos
encharcados, aproveitamento de infraestrutura existente na propriedade como canais,
barragens, drenos, depósitos, estradas, linhas de energia.

O sistema de cultivo e o grau de mecanização das principais operações de rotina, como


alimentação, despesca e transferências de peixes, facilidade de captura, a tolerância ao

141
frio ou calor, o número de fases de cultivo, clima local que pode exigir o uso de viveiros
mais profundos de forma a impedir que a temperatura da água oscile bruscamente.

A disponibilidade de água, o plano de produção e as metas de comercialização do


projeto são fatores muito importantes na definição do tamanho e do número de viveiros,
assim como a disponibilidade de recursos para a implantação do projeto, ciclo de venda
e período de limpeza dos viveiros, densidade de estocagem e intervalo de safra por
viveiro.

As restrições ambientais podem exigir o controle ou o tratamento dos efluentes e adoção


de medidas para evitar o escape de peixes, a presença de predadores e os riscos de roubo
e vandalismo.

O melhor aproveitamento da área e a redução nos custos de implantação do projeto,


com o adequado planejamento da construção dos viveiros, de modo a otimizar os cortes
e aterros durante a movimentação de terra, o dimensionamento mais adequado e uma
melhor locação das estruturas hidráulicas de abastecimento e escoamento, bem como
das redes elétricas necessárias para o acoplamento de aeradores devem ser previstas.

Precaver e planejar uma maior facilidade operacional, através da padronização nas


dimensões dos viveiros, o que possibilita o uso mais eficiente dos equipamentos como
redes de arrasto, a padronização da estocagem, o manejo alimentar e dos equipamentos
e procedimentos para as transferências internas dos peixes, reduzindo os erros e
facilitando a vida do gerente.

Dimensionar de forma que se tenha uma maior durabilidade da estrutura, estabelecendo,


desde as inclinações adequadas para os taludes e larguras mínimas para os diques, de
modo que estes suportem a ação erosiva durante o uso e possibilitem um tráfego seguro
de veículos.

Após o cálculo da vazão de água disponível e sabendo a disponibilidade de área inicia-


se o planejamento da criação, vamos usar como exemplo o cálculo de vazão feito no
item (4.3.) onde temos uma vazão de 18,6 l/s e uma área a ser utilizada de 18.600 m².

142
Usaremos como exemplo uma criação de tilápias com um ciclo de produção para recria
e engorda de 6 meses, o peso de abate de 0,800 kg e o período de comercialização de 30
dias de cada lote.

Para obter o número de viveiros escavados para que se tenha otimização da piscicultura
temos que calcular pela fórmula:

Número de viveiros = ciclo de produção (dias ) + ciclo de vendas (dias)

ciclo de vendas (dias)

Número de viveiros = 180 + 30=7 viveiros

30

A área de cada grupo de viveiros é dependente da área e da vazão disponíveis

Área de viveiros = área disponível= 18.600 m²= 2.657,14 aproximadamente 2.700 m²

número de viveiros 7

O número de peixe a ser povoado em cada viveiro de 2.700 m² depende da densidade de


estocagem e para viveiros escavados vamos usar a recomendação de 2 peixes/m² sem
aeração e 6 peixes/m² com aeração.

Para o cálculo temos:

Número de tilápias por viveiro = (área do viveiro x densidade de estocagem) + 10%


mortalidade

Número de tilápias por viveiro = (2.700 x 2) + 10% = 5.400 + 540 = 5.940 peixes (sem
aerador)

Número de tilápias por viveiro = (2.700 x 6) + 10% = 16.200+ 1.620 = 17.820 peixes
(com aerador)

A produção esperada por viveiro é calculada por safra, sabendo que temos ciclo de 180

143
dias teremos dois ciclos de produção / ano.

Produção esperada = (número de peixes – 10% mortalidade) x peso médio (sem


aerador)

Produção esperada = (5.940 – 594) x 0,8 = 5346 x 0,8 = 5.464,80 kg de tilápia (sem
aerador)

Produção esperada = (número de peixes – 10% mortalidade) x peso médio (com


aerador)

Produção esperada = (17.820 – 1.782) x 0,8 = 16.038 x 0,8 = 16.394,40 kg de tilápia


(com aerador)

Consumindo rações comerciais com um eficiente programa alimentar, uma conversão


alimentar de 1,25 :1 teremos um volume de ração estimado de:

3. Quantidade ração = Produção de tilápia x conversão alimentar (sem aeração)

4. Quantidade de ração estimada = 5.464,80 x 1,25 = 6.831 kg de ração (sem


aeração)

5. Quantidade ração = Produção de tilápia x conversão alimentar (com aeração)

6. Quantidade de ração estimada = 16.394,40 x 1,25 = 20.493 kg de ração (com


aeração

3.1.10 Cronograma de produção e utilização de viveiros

Para elaborar um cronograma de produção temos ciclo de produção de seis meses e


ciclo de venda de 30 dias, com 7 viveiros temos:

144
Tabela 3.1: Cronograma de entrada e saída de tilápias

Fonte: Moises Anthero da Silva

3.1.11 Instalações para a piscicultura

As dimensões dos viveiros são estabelecidas de acordo com o planejamento dos ciclos
de produção; o tamanho e o formato dos viveiros são ajustados de forma a otimizar o
aproveitamento da área disponível para a construção. A distribuição dos viveiros será
em áreas de formato regular onde teremos acesso de tratores e caminhões de ração.

Ao longo do canal de abastecimento está a rede principal de abastecimento da qual


derivam nas canaletas as redes secundárias de PVC 100mm que abastecem os viveiros
deformato retangular. As dimensões já foram calculados sendo todos iguais e
padronizados.

Para o empreendimento serão 7 viveiros de 2.700m² (125m x 21,6 m x 1,0 m) povoados


com tilápias na densidade de 2 peixes/m² sem uso de aeradores e 6 peixes/m² com uso
de aeradores. As áreas mais profundas dos viveiros devem ter entre 1,0 a 1,5m e
profundidades acima de 3,0m devem ser evitadas, pois favorecem a estratificação
térmica da água, que pode promover a formação de zonas anaeróbicas no fundo dos

145
viveiros, especialmente em sistemas de cultivo que trabalham sem renovação, ou
mesmo com limitadas trocas de água.

Figura 3.18: Esquema de viveiros com canal de abastecimento

Fonte: Moises Anthero da Silva

As bordas livres devem ser de 0,50m com plantio de grama, de forma a reduzir a erosão
devido à ação de ondas e de chuvas sobre a mesma. A inclinação do fundo do viveiro
deve ser orientada no sentido do tubo de drenagem e deve ser suficiente e regular para
evitar a formação de poças durante o esvaziamento.

O posicionamento do tubo de drenagem cerca de 10 cm abaixo da cota do fundo do


viveiro também favorece a completa drenagem dos viveiros. A declividade de 1 a 3%
no sentido longitudinal do viveiro, a inclinação dos taludes na parte interna e externa
dos viveiros depende da durabilidade que se espera dos diques. Quanto mais suave for a
inclinação do talude interno (talude exposto à água), menor será o efeito erosivo das
ondas sobre o dique e maior será a durabilidade do viveiro.

Os diques ou taludes externos dos viveiros geralmente são protegidos com cobertura
vegetal de grama que deve ser roçada periodicamente. Se a roçada for mecanizada, a
inclinação do talude deve ser de pelo menos 1:3,5. No caso da roçada manual, os taludes
externos podem ser mais íngremes.

146
Prover taludes internos com facilidade de despesca porque em viveiros muito íngremes
tanto as despescas manuais como mecanizadas são dificultadas. Durante a despesca a
tração da rede faz a linha de chumbo levantar na região de encontro do talude com o
fundo do viveiro, principalmente quando as redes são puxadas por tratores nas colheitas
mecanizadas.

O arraste manual também é prejudicado com a dificuldade dos trabalhadores em andar


sobre os taludes íngremes. Os diques ou crista dos viveiros devem permitir o tráfego de
veículos o ano todo e sob quaisquer condições de tempo, de forma a evitar atraso nas
rotinas diárias de alimentação, despescas e transferências de peixes.

A largura mínima do topo dos diques deve ser de 4m, de forma a possibilitar o tráfego
de tratores com implementos acoplados para as atividades rotineiras, como roçada da
área, alimentação dos peixes, transferências de peixes. Nas esquinas entre os viveiros, a
largura dos diques deve ser aumentada, deixando espaço suficiente para que os veículos
consigam executar as curvas ou as manobras de retorno.

3.1.12 Produção e Retorno da piscicultura

A produção deve estar nas mãos do administrador; os planos devem ser implementados
de acordo com o sistema de produção utilizado e conforme a espécie e etapa da
produção. Decisões sobre compra de insumos e equipamentos sobre venda de peixes
fazem parte da rotina do empreendimento.

A lucratividade deve ser calculada através de análises combinando dados físicos, preços
e custos, disponibilidade de recursos existentes como terra, mão de obra, informações
de campo e mercado, para tomada de decisão.

O estabelecimento das metas iniciais de produção e comercialização é fundamental na


decisão sobre a implantação ou continuidade do empreendimento, também dá subsídios
essenciais para planejamento, implementação e controle do processo produtivo. Serão
considerados para efeito de planejamento na engorda de tilápia:

1. Dados operacionais, técnicos e econômicos

147
Área do módulo 18.600m²

Área de cada viveiro 2.700m²

Número de viveiros 7

Vazão para piscicultura 10 litros / segundo

Vazão total aproximada 18,6 litros / segundo

Vazão por tanque 2,66 l/s ou 9.566 l/h ou 9,57 m³/h

Renovação de água 10% /dia

Profundidade média 1,0m

Espécie criada tilápia do Nilo

Número de peixe/viveiro 5.940 alevinos (sem aerador)

Número de peixe/viveiro 17.820 alevinos (com aerador)

Período de engorda 180 dias

Produção esperada/mês 5.464,40 kg de tilápia (sem aerador)

Produção esperada/mês 16,394,40 kg de tilápia (com aerador)

Conversão esperada 1,55:1 esperada

Consumo de ração/ciclo 7.366 kg de ração (sem aerador)

Consumo de ração/ciclo 22.097 kg de ração (com aerador)

Densidade kg/m² 2,0 peixes/m² (sem aerador)

Densidade kg/m² 6,1 peixes/m² (com aerador)

Peso médio inicial 0,050 kg

148
Peso médio final 0,800kg

Intervalo de vendas 30 dias

Preço de venda peixe R$ 6,50/kg

Preço do alevino/milheiro R$ 200,00/milheiro ou R$0,20/unidade

Mão de obra fixa R$ 1.000,00/mês

Mão de obra avulsa R$ 80,00/ dia

Assistência técnica R$ 250,00/dia

Rendimento do filé 33%

Material de limpeza R$ 100,00 /mês

Material de reposição RS 200,00 /mês

Contador R$ 300,00/mês

Medicamentos R$ 500,00/mês

Combustíveis R$ 600,00/mês

Telefones e outros gastos R$ 300,00/mês

2. Dados de povoamentos dos viveiros.

Descrição do povoamento nos viveiros com densidade de 2kg/m² e 6kg/m² com


incremento de oxigenação. A quantidade de alevinos será acrescida 10% de
mortalidade.

149
Tabela 3.2: Planejamento da Produção do projeto piscicultura tilápias

Fonte: Moises Anthero da Silva

Tabela 3.3: Número de alevinos para povoamento nos viveiros


acrescidos da mortalidade.

Fonte: Moises Anthero da Silva

150
3. Dados técnicos construtivos.

3.1 Estimativa para implantação quanto ao uso de máquinas em condições


normais dependendo do operador e das condições da área

▪ Retroescavadeira = 40 horas

▪ Pá-carregadeira = 200 horas

▪ Trator de esteira = 150 horas

3.2 Estimativa dos materiais a serem utilizados na construção dos viveiros de


engorda.

▪ Tijolos para o monge = 900 unidades

▪ Areia lavada = 52 latas

▪ Pedra britada = 15 latas

▪ Cal hidratada = 17 sacas

▪ Cimento = 20 sacas

▪ Horas de pedreiro = 80 horas

▪ Cano de concreto (200mm) = 200 metros

▪ Cano PVC = 7 barras

▪ Terminais de PVC = 35 unidades

3.3 Estimativa de materiais para construção de canal de abastecimento e


escoamento.

▪ Tijolos = 3.400 unidades

▪ Areia lavada = 80 latas

151
▪ Pedra britada = 40 latas

▪ Cal hidratada = 60 sacas

▪ Cimento = 60 sacas

▪ Horas de pedreiro = 40 dias

4. Estimativa de fertilizantes e calcário para manejo nos viveiros

Superfosfato simples = 200 kg

Calcário dolomítico = 1200kg

5. Estimativa de consumo de mão de obra fixa

4 horas /dia /ha = 120 horas/mês

6. Estimativa de número de aeradores tipo cogumelo

Aerador = 7 unidades

7. Estimativa de consumo de ração total

Sacos (25kg) s/ aerador = 295

Sacos (25kg) c/ aerador = 884

8. Custo de produção para ciclo de seis meses

8.1 Custo de produção para ciclo de seis meses sem aerador.

152
Tabela 3.4: Custos de produção e retorno do capital, sem aerador

Fonte: Moises Anthero da Silva

153
8.2 Custo de produção para ciclo de seis meses com aerador.

Tabela 3.5: Custos de produção e retorno de capital,


com aerador

Fonte: Moises Anthero da Silva

154
8.3 Comparativo de custos e receitas com uso de aeradores nos viveiros.

Tabela 3.5: Comparativo de custos e receitas de produção com aerador e sem


aerador

Fonte: Moises Anthero da Silva

O preço de investimento com aeradores está em R$ 21.000,00 (7 aeradores), que podem


ser pagos com a primeira receita na criação, portanto vale o investimento, pois a
diferença entre o uso e o não uso de aeradores está em R$ 179.026,85 de Margem Bruta.

3.1.13 Fichas de controle da Produção

1. Ficha de controle diário do consumo de ração e mortalidade dos peixes

155
Figura 3.19: Ficha de controle diário do consumo de ração e
mortalidade dos peixes.

Fonte: Moises Anthero da Silva

2. Ficha de controle dos lotes entrada e saída dos viveiros

Figura 3.20: Ficha de controle dos lotes entrada e saída dos viveiros

Fonte: Moises Anthero da Silva

156
3. Ficha de controle de gastos diários.

Figura 3.21: Ficha de controle de gastos diários.

Fonte: Moises Anthero da Silva.

4. Ficha de controle de serviço semanal

Figura 3.22: Ficha de controle de serviço semanal

Fonte: Moises Anthero da Silva

5. Ficha de controle da temperatura diária dos viveiros

Figura 3.23: Ficha de controle da temperatura diária dos viveiros.

Fonte: Moises Anthero da Silva

157
3.2 Síntese da Unidade

Chegamos ao fim desta Unidade, em que estudamos os viveiros de criação para a


piscicultura e os aspectos operacionais envolvidos para sua implantação.

3.3 Para saber mais

Filmes e telenovelas

• https://www.youtube.com/watch?v=gXs666XmuxE

Embrapa - Construção de Viveiros Escavados

• https://www.youtube.com/watch?v=4m98RHHdQFM

Como fazer tanques para criação de peixes?

3.4 Atividades

Baseado na escolha da espécie de maior aceitação para a sua região, planeje a


construção de um viveiro com canais de abastecimento dimensionando-os de acordo
com a sua disponibilidade de área.

158
Unidade 4

Água, Calagem e Adubação nos


Viveiros

O objetivo desta Unidade é descrever os parâmetros físicos e químicos da água, sua


importância na piscicultura e mostrar como interpretá-los. Também apresentar as
características mais importantes do solo para criação de peixe, as implicações da correta
calagem e adubação para utilização em viveiros de criação e suas consequências no
meio ambiente aquático.

4.1 Água e piscicultura

Nas proximidades dos grandes centros urbanos são frequentes os racionamentos e as


campanhas de estímulo à economia de água. Instituições municipais, estaduais e
federais discutem a necessidade da cobrança pelo uso da água e do estabelecimento de
restrições quanto ao volume possível de ser utilizado, quer seja para fins industriais ou
agropecuários. Cresce a preocupação das agências de proteção ambiental e da sociedade
civil com a quantidade e a qualidade dos efluentes urbanos, industriais e agrícolas.

Nas criações devemos ter estratégias voltadas à conservação de água e à redução na


emissão e na concentração dos efluentes das pisciculturas; também estabelecer práticas
de manejo do solo do fundo do viveiro que podem contribuir com uma decomposição
mais eficiente dos resíduos orgânicos gerados no cultivo e auxiliar na manutenção de
condições adequadas de qualidade da água ao longo dos ciclos de produção.

Muitas pisciculturas enfrentam hoje problemas crônicos ou sazonais de abastecimento


de água oriundos da inadequada previsão da demanda hídrica do projeto; das perdas
159
excessivas de água por infiltração; da falta de planejamento no uso da água; da
intensificação do cultivo; do aumento na área de produção (expansão do
empreendimento); da redução do volume de água nos mananciais; ou, mesmo, da
imposição de restrições legais quanto ao volume de água que pode ser utilizado pelo
empreendimento. Diante das restrições hídricas, muitos empreendimentos foram
obrigados a rever suas estratégias e metas de produção e investir na adaptação da
infraestrutura, visando, sobretudo, ao uso mais racional da água.

O reaproveitamento da água de drenagem traz redução na emissão de efluentes e na


descarga de sólidos, uma economia com a redução no uso de corretivos e fertilizantes
para alguns peixes que exploram bem os alimentos naturais disponíveis nos viveiros. A
presença imediata de plâncton e de diversos outros alimentos naturais favorece o
desenvolvimento dos alevinos e juvenis recém-estocados, reduzindo as despesas com
calagem, fertilização e fornecimento de ração no início do ciclo de cultivo. Essa prática
traz redução do risco de entrada de patógenos, que poderiam ter acesso à piscicultura
através da água de abastecimento servida com os efluentes de outros empreendimentos
aquícolas com sintonia à tendência global de atenção ao meio ambiente facilitando a
obtenção de certificações ambientais para o empreendimento e seus produtos. Uma
maior aceitação e valorização dos produtos oriundos de cultivos aquícolas provenientes
de sistemas de produção perfeitamente integrados com a conservação do ambiente.

O reaproveitamento da água, no entanto, exige investimentos adicionais na construção


de viveiros ou canais para a recepção e armazenamento da água de drenagem, instalação
de bombas, tubulações e filtros maiores gastos com energia para o bombeamento de
retorno da água de drenagem, emprego de taxas de alimentação mais moderadas, de
forma a compatibilizar os níveis de produtividade com a capacidade de sustentação do
sistema, o que geralmente implica em uma redução na produtividade por área.

A infiltração de água nos viveiros é uma das principais vias de perdas de água em uma
piscicultura: cada aumento de 0,5mm/h na velocidade básica de infiltração de água no
solo representa uma demanda hídrica adicional de 120m³/ha/dia ou 43.800m³/ha/ano. Os
piscicultores enfrentam problemas com viveiros instalados em solo de alta
permeabilidade, nos quais a infiltração excessiva de água pode inviabilizar o cultivo.
160
Diversas estratégias podem ser usadas na tentativa de reduzir a infiltração de água no
fundo dos viveiros.

4.1.1 Fontes de Água para piscicultura

O adequado suprimento de água de boa qualidade é fundamental para o sucesso das


explorações piscícolas. Águas superficiais como dos rios, lagos naturais, açudes e
córregos são exemplos de fontes superficiais de água usadas em piscicultura e
apresentam concentrações de oxigênio e gás carbônico próximas à saturação. A
contaminação dessas águas pode ocorrer através de resíduos agrícolas, pesticidas,
herbicidas e contaminação por argila e silte em suspensão devido aos processos
erosivos, industriais e urbanos, domésticos e hospitalares.

Águas superficiais podem trazer peixes e outros organismos indesejáveis ao ambiente


de cultivo, sendo necessária a proteção das entradas de abastecimento com filtros e
telas. As águas provenientes de minas e poços originárias de lençóis freáticos têm sido
usadas no abastecimento de sistemas de criação de peixes. Geralmente estas águas
apresentam baixa concentração de oxigênio dissolvido e altos níveis de gás carbônico,
necessitando de aeração ou exposição ao ar através de represamento ou percorrendo
canais abertos antes de abastecer os sistemas de criação.

Águas subterrâneas apresentam temperatura praticamente constante durante o ano.


Águas de poços e minas podem conter elevados teores de íons reduzidos de ferro que
rapidamente se oxidam quando em contato com o ar formando precipitados de
hidróxido de ferro. Tais precipitados são prejudiciais em pisciculturas de reprodução de
peixes. Podem recobrir a superfície dos ovos impedindo as trocas de gases e metabólitos
causando a morte do embrião em desenvolvimento.

4.1.1 Fontes de Água para piscicultura

A água apresenta calor específico que corresponde a uma caloria (1 cal); este valor é
considerado alto e o calor de vaporização da água a 10°C é de 540 cal/g. A viscosidade
da água é o quanto oferece resistência ao movimento, e a 30°C ela oferece a metade da
viscosidade que a 5°C, o que confere uma diminuição da viscosidade à medida que
161
aumenta a temperatura.

A densidade da água varia com as condições do meio, ela atinge a maior densidade a
4°C e a menor densidade a 0°C, daí porque a pedra de gelo flutua na água. Essas
particularidades de viscosidade e densidade da água tornam os ambientes estratificáveis,
o que influencia a dinâmica química e biológica dos corpos da água.

• Temperatura

A exigência em temperatura depende da espécie de peixe e da fase de desenvolvimento


em que este se encontra (ovo, larva, pós-larva ou juvenil). As espécies tropicais
normalmente apresentam ótimo crescimento a temperaturas de 26 a 32°C. Temperaturas
mínimas e máximas da água devem ser conhecidas de modo a determinar a viabilidade
do cultivo de uma espécie em particular.

Através da condução, a radiação


Figura 4.1: Curva de atenuação e
incidente na água é transformada em estratificação térmica de um corpo de água
pouco profundo.
energia calorífica e nela se propaga, de
molécula para molécula. Este processo
de energia térmica é mais intenso
quanto mais se aproxima da superfície
da água, até 1 metro (na ausência de
fatores que provoquem a movimentação
ou turbulência da água como o vento, o
funcionamento de aeradores, infusores
de ar e motores) ocorre a estratificação
Fonte: Russel-Hunter\(1970); Arrignon
da coluna da água. (1979); Boyd & Lichtkoppler (1979).

Essas diferenças térmicas observadas


fazem que haja diferentes valores de densidade em cada camada impedindo a mistura na
coluna, não havendo distribuição uniforme de calor.

Em ambientes aquáticos estratificados, a concentração de gases e sais como o O2, CO2


e PO4 apresentam comportamento diferenciado em cada camada. O estrato superior é

162
rico em O2 favorecendo a permanência de peixes, mas a produtividade primária fica
comprometida devido a baixas concentrações de CO2 e PO4, trazendo consequências na
produção de zooplâncton na coluna de água.

Figura 4.2: Esquema exemplificando a distribuição dos gases e sais


no ambiente aquático.

Fonte: Moises Anthero da Silva

De maneira geral, a distribuição e disponibilidade de gases e sais na coluna de água


afetam diretamente a distribuição e sobrevivência dos organismos aquáticos. A
estratificação térmica em viveiros de piscicultura não é desejável porque suas
implicações biológicas podem limitar a sobrevivência dos peixes. Para tanto, o uso de
aeradores colabora na desestratificação dos ambientes aquáticos.

• Transparência da água

A transparência é a capacidade de penetração da luz na água; pode ser usada como um


indicativo da densidade planctônica e da possibilidade de ocorrência de níveis críticos
de oxigênio dissolvido durante o período noturno. De toda a luz que incide sobre um
corpo aquático, uma parte é refletida e a outra absorvida. A parte do corpo de água que
recebe a luz pode variar em termos de profundidade de alguns centímetros até alguns
metros; dependendo do grau de turbidez (tipo de partículas na água) pode ser
influenciado tanto por fatores abióticos, como as partículas sólidas em suspensão,
quanto por fatores bióticos, como o plâncton.

163
Sob condições de transparência maiores que 40 cm, medida com o disco de Secchi ou
com a imersão de qualquer objeto na coluna d’água, é muito rara a ocorrência de níveis
de OD abaixo de 2 mg/l em viveiros estáticos com biomassa de peixes ao redor de 4.500
kg/ha.

Figura 4.3: Leitura do disco de Secchi em viveiro e detalhes do equipamento.

Figura 4.3: Moises Anthero da Silva

Águas com transparência maior que 60 cm permitem a penetração de grande quantidade


de luz em profundidade, favorecendo o crescimento de plantas aquáticas submersas e
algas filamentosas. Portanto, na ausência de um Oxímetro e de um sistema de aeração
de emergência, recomenda-se manter a transparência da água entre 40 e 60 cm.

Se os valores de transparência forem próximos ou menores que 40 cm, deve-se


interromper ou reduzir os níveis de arraçoamento diário ou as dosagens de fertilizantes e
estercos aplicados, bem como aumentar o intervalo entre aplicações. Promover a
renovação da água, quando possível, auxilia no ajuste dos volumes de transparência.

A coloração apresentada pela água é o reflexo do tipo de partícula que nela


encontramos. O excesso de material inorgânico em suspensão confere uma cor
avermelhada e verde sopa de ervilha que pode ser algas em excesso. O conhecimento
desses fatores deve ser observado para corretas conclusões após a determinação dos
valores obtidos. O disco de Secchi tem 20 cm de diâmetro com duas cores de contraste é
graduado de 10 em 10 cm, e sua leitura deve ser feita em local sombreado.

• Oxigênio Dissolvido

O oxigênio dissolvido é o gás do meio mais limitante num sistema intensivo de


164
produção de peixes. Embora exista em abundância na atmosfera, o oxigênio é muito
pouco solúvel na água. A solubilidade do oxigênio na água é reduzida com o aumento
da temperatura, com o decréscimo da pressão atmosférica e com o aumento da
salinidade da água. Em ecossistemas aquáticos, este gás é consumido de diversas
formas na decomposição da matéria orgânica pela reação de oxidação, pelas perdas para
atmosfera na respiração de organismos aquáticos e oxidação de íons metálicos como
ferro e manganês. A concentração de Oxigênio dissolvido na água varia continuamente
durante o dia, devido a processos físicos, químicos e biológicos.

Figura 4.4: Concentração média de OD em viveiros com diferentes densidades


de plâncton.

Fonte:http://www.panoramadaaquicultura.com.br/paginas/Revistas/109/Manejo
Kub109.asp Acesso em: 01 jun.2018

A taxa de difusão do oxigênio na água é muito lenta. Isto faz com que a liberação de
oxigênio pelas algas fotossintetizantes seja a principal fonte de OD nos ecossistemas
aquáticos. Os principais consumidores de OD na água são os peixes, o plâncton,
incluindo o fitoplâncton no período da noite e os organismos do benthos.

Em piscicultura é necessário ocorrer um saldo positivo entre produção e consumo de


oxigênio na água. Se a água tiver nutrientes em abundância, fator limitante à
fotossíntese, e consequentemente à produção de oxigênio no meio, passa a ser a
incidência de luz. A luz é atenuada na sua passagem pela água, logo a taxa de produção
165
de oxigênio pelo fitoplâncton é reduzida com a profundidade. Como o oxigênio somente
é produzido durante o dia, mas é continuamente utilizado, vai existir certa profundidade
em que o balanço entre Oxigênio Dissolvido consumido e produzido na água é zero
(ponto de compensação).

Esta estratificação do Oxigênio Dissolvido na água correlaciona-se com a estratificação


de temperatura e com a abundância de plâncton, e pode ocorrer mesmo em tanques
rasos. A variação diária nos níveis de Oxigênio Dissolvido de um viveiro é tão menor
quanto menor for a quantidade de plâncton. Em tanques com uma grande proliferação
de plâncton, a concentração de Oxigênio Dissolvido pode variar de 2mg/L na
madrugada até 20 mg/L no período da tarde. Isto é prejudicial aos peixes.

Os problemas de falta de Oxigênio Dissolvido nos tanques durante a noite são mais
acentuados em dias nublados, quando a taxa de produção diária de oxigênio não é
suficientemente grande para suportar a respiração de todos os organismos durante a
noite. Como consequência pode ocorrer uma mortalidade de peixes e da comunidade
planctônica.

Também quando a estratificação térmica de um tanque é quebrada pela ação dos ventos,
da chuva, ou pelo resfriamento súbito da atmosfera, acontece uma mistura completa das
águas superficiais com as águas profundas. Se o volume de águas profundas for muito
grande, vai acontecer uma depleção da concentração de OD no tanque, causando a
morte dos peixes.

Em geral, concentrações de OD acima de 5 mg/L são adequadas à produção de peixes


tropicais. Os níveis abaixo de 5 mg/L podem levar à redução no consumo de alimento e
no crescimento dos peixes. Exposição contínua a níveis menores que 3 mg/L podem
resultar em estresse, reduzindo o consumo de alimento e a resistência, aumentando a
incidência de doenças e, consequentemente, a taxa de mortalidade.

Se baixos níveis de OD na água reduzem a produtividade de um sistema produtivo, a


supersaturação da água com oxigênio não causa aumento da produção ou melhora a
eficiência alimentar dos peixes. A supersaturação da água com OD pode causar
problemas como embolia gasosa no sangue dos peixes, causando aparecimento de
166
bolhas de gás nas paredes da boca, exoftalmia, podendo levar a altas taxas de
mortalidade na população.

Outros fatores que atuam na solubilidade do oxigênio são a turbidez, a presença de


amoníaco, nitrito e ácido carbônico (HCO2), que de forma geral também atuam no
ambiente fazendo com que haja um aumento na demanda de OD.

Viveiros de piscicultura de forma geral são ambientes rasos e a concentração de O2


apresenta seus menores valores no período da madrugada ou no início da manhã, o que
torna a coluna de água anaeróbica neste horário, ocorrendo alta taxa de mortalidade.
Outro fator é a formação de gases nocivos como gás sulfídrico e metano formado em
condições anaeróbicas. Quando a piscicultura não apresenta condições de vazão de 10 a
15litros/segundo o uso de aeradores, oxigenadores, filtros biológicos, bem como os
geradores a diesel para suprir a falta de eletricidade deve ser previamente planejado. A
medição do O2 é feita por aparelhos eletrônicos, o Oxímetro, que devidamente
calibrado deve ser usado constantemente nos manejos, e durante as análises periódicas
de outros parâmetros.

• Potencial Hidrogeniônico (pH)

O pH é definido como o logaritmo negativo da concentração (em mols/L) dos íons H+


na água. Quando a quantidade de íons de H+ é igual a de íons de OH- em uma solução,
ela é dita como neutra, e quando existe ¨vantagem¨ para OH- em uma solução, ela é dita
como ácida e quando o contrário é dita como alcalina.

Os valores de pH da água variam de 1,0 a 14, sendo abaixo de 5,0 fatal para a maioria
dos peixes e os valores de pH de 6,5 a 9,0 são mais adequados à produção de peixes.
Valores abaixo ou acima desta faixa podem prejudicar o crescimento e a reprodução e,
em condições extremas, causar a morte dos peixes.

Os valores de pH podem variar durante o dia em função da atividade fotossintética e


respiratória das comunidades aquáticas, diminuindo em função do aumento na
concentração de gás carbônico (CO2) na água. No entanto, o CO2, mesmo em altas
concentrações, não é capaz de abaixar o pH da água para valores menores que 4,5.

167
Condições de pH abaixo de 4,5 resultam da presença de ácidos minerais como os ácidos
sulfúrico (H 2 SO4), clorídrico (HCl) e nítrico (HNO3).

O comportamento do pH no período de 24 horas é diretamente proporcional ao do O2 e


inversamente o do CO2, quando aparecem algas em viveiros com baixa renovação de
água dependendo da densidade de estocagem de peixes podem aparecer altas taxas de
mortalidade, principalmente à noite, devido às altas concentrações de CO2 no meio
oriundo do processo da respiração.

Este gás quando livre no meio aquático


Figura 4.5: Variação do pH e CO2 da água
ao longo do dia reage com a água promovendo a liberação
de H+, baixando o pH, fazendo que no
conjunto deste processo a concentração
de O2 chegue a zero.

Método de determinação do pH: pode ser


medido por papéis indicadores de pH, kits
colorimétricos com uso de indicadores
em gotas ou, de forma mais precisa, com
aparelhos eletrônicos de maior precisão,
Fonte: SIPAÚBA-TAVARES (1994)
os “pH meters”.

• Gás Carbônico

Apresenta grande importância no meio aquático; pode causar asfixia nos peixes.
Geralmente os peixes suportam viver vários dias em condições de mais de 60mg/litro de
CO2. Quando ocorre alta mortalidade de fitoplâncton após desestratificação térmica ou
quando o tempo está nublado, pode ocorrer aumento deste gás no viveiro.

Este gás é de difícil constatação, ele se transforma em carbonatos e bicarbonatos, mas se


sabe que é capaz de acidificar a água quando apresenta baixa alcalinidade.

• Alcalinidade

Este parâmetro refere-se à concentração total de bases tituláveis da água. É a capacidade

168
de neutralizar ácidos, expressa em mg/l de carbonato de cálcio CaCO3. Embora a
amônia, os fosfatos, os silicatos e a hidroxila (OH -) se comportem como bases
contribuindo para a alcalinidade total, os íons bicarbonatos (HCO3 -)e carbonatos
(CO3=) são os mais abundantes e responsáveis por praticamente toda a alcalinidade nas
águas dos viveiros de criação.

A alcalinidade total é expressa em equivalentes de CaCO3(mg de CaCO3 / L). O ácido


carbônico (H2CO3) é um produto da reação ácida do CO2 na água. A ionização do
ácido carbônico é o processo desencadeador da formação do íon bicarbonato. O íon
bicarbonato age como base formando CO2 e H2O, ou como ácido, dissociando-se para
formar o íon carbonato.

Menos de 1% de todo o CO2 dissolvido na água forma ácido carbônico. As águas


naturais contêm muito mais íons bicarbonatos do que seria possível apenas com a
ionização do ácido carbônico presente no sistema. A alcalinidade total está diretamente
ligada à capacidade da água em manter seu equilíbrio ácido-básico (poder tampão da
água).

• Dureza da água

A dureza total representa a concentração de íons metálicos, principalmente os íons de


cálcio (Ca2+) e magnésio (Mg 2+) presentes na água. A dureza total da água é expressa
em equivalentes de CaCO3 (mg CaCO3/L). Em águas naturais, os valores de dureza
total geralmente se equiparam à alcalinidade total, ou seja, Ca2+ e Mg 2+ praticamente
se encontram associados aos íons bicarbonatos e carbonatos. Existem águas de alta
alcalinidade e baixa dureza, nas quais parte dos íons bicarbonatos e carbonatos estão
associados aos íons Na+ e K+ ao invés de Ca2+ e Mg 2+.

Em águas em que a dureza supera a alcalinidade, parte dos íons Ca2+ e Mg 2+ se


encontram associados a sulfatos, nitratos, cloretos e silicatos. A dureza total da água é
determinada através de método titulométrico, mesmo princípio utilizado pelos kits de
análise de água.

169
• Condutividade Elétrica

É a medida direta da quantidade de íons na água, teores de sais na água; quanto maior a
concentração iônica maior será a capacidade da água em conduzir eletricidade. Os
valores de condutividade desejáveis em piscicultura encontram-se entre 20 a 100
µS/cm. Em um ambiente estratificado, o epilíminio apresenta geralmente baixa
condutividade enquanto que o hipolíminio apresenta altos valores de condutividade. A
condutividade elétrica fornece informações sobre a disponibilidade de nutrientes no
meio aquático e ajuda a detectar a incidência de poluição na água.

• Fósforo

É um nutriente com baixa concentração na água; a maior porcentagem encontra-se na


matéria orgânica (90%); é o fator de maior concentração no fitoplâncton, seguido do
nitrogênio e do carbono. Seus compostos constituem-se em importante componente da
célula viva, especialmente as nucleoproteínas, essenciais à reprodução celular, estando
também associados ao metabolismo respiratório e fotossintético.

Ocorrem principalmente como fosfatos solúveis ou de fósforo, a partir da erosão das


rochas. É de grande importância ao ambiente aquático, pois armazena energia (ATP), e
faz parte da estrutura da membrana celular, sendo um fator limitante na produtividade
primária. É responsável pela eutrofização artificial dos viveiros e sua fonte são despejos
orgânicos, especialmente os esgotos domésticos, que contribuem para o enriquecimento
das águas com este elemento.

• Nitrogênio, Nitrato e Nitrito

No ambiente aquático, o nitrogênio pode ser encontrado sob diferentes formas de


nitrito, nitrato, amônia, óxido nitroso e amoníaco, na forma de compostos particulados,
plâncton e detritos e como constituintes de compostos orgânicos dissolvidos (proteínas).

A concentração de nitrato (NO3-) está diretamente relacionada com a quantidade de


fitoplâncton, sendo que o fitoplâncton é o maior responsável pela produção de matéria
orgânica nos viveiros e lagos de pesca.

A abundância de fitoplâncton pode ser considerada como um indicador da quantidade


170
de nitrato disponível em ambientes aquáticos, sendo que as taxas de produtividade
primária indicam a quantidade de fitoplâncton existente nesses ambientes, o que em
outros termos é uma estimativa da abundância da quantidade de matéria orgânica fixada
pela fotossíntese, a qual geralmente é expressa em gramas de carbono fixadas por
m2/dia.

A visibilidade do disco de Secchi, por ser um método mais simples para avaliar a
abundância do fitoplâncton, é mais utilizada para medir a transparência da água e fazer
uma estimativa da concentração de fitoplâncton nos viveiros.

O Nitrito (NO2-) está relacionado à atividade biológica na decomposição de proteínas


contidas na matéria orgânica e provém da oxidação do amônio NH4+ pelas bactérias
Nitrosomonas e redução anaeróbica da amônia não ionizada (NH3). A toxidez do nitrito
depende do pH e da concentração de cálcio e de cloretos na água dos viveiros de
piscicultura. Nos viveiros onde a concentração de oxigênio dissolvido é baixa, a
concentração de nitrito normalmente é alta.

O nitrito após absorvido pelos peixes reage com a hemoglobina para formar a
metaglobina; esta não é efetiva no transporte de O2, uma elevada absorção de nitrito
pode levar os peixes à morte por hipóxia e cianose.

Um fator que aumenta a importância do nitrito como agente de diminuição da


produtividade na piscicultura é o teor de O2 nas águas de cultivo, pois em ambientes
pobres em oxigênio as bactérias do gênero Nitrobacter são desfavorecidas diminuindo a
volatilização do nitrogênio na forma de N2 ou N2O, o que resulta em acúmulo de
compostos nitrogenados na água.

Sistemas de produção superintensivos que apresentam recirculação da água também são


mais suscetíveis a apresentar problemas com nitrato. De uma maneira geral, a dose letal
para mortalidade de 50% é 1.000 a 3.000 mg/l de NO3. O acúmulo de nitrogênio nos
viveiros de criação está diretamente relacionado com o manejo alimentar e com o
percentual de nitrogênio contido na ração. As rações utilizadas contêm entre 4,5 a7,0%
de nitrogênio.

171
Os limites estabelecidos para a concentração de nitrogênio nos viveiros de criação são
os seguintes: nitrogênio total= 5,0 a 6,0 mg/l, nitrogênio amoniacal total = 2,0 a 3,0
mg/l e nitrato = 0,3a 0,5 mg/l.

No Brasil existem problemas de contaminação da água destinada ao consumo humano


com doses crescentes de nitritos e nitratos. Dificilmente ocorrem problemas com
nitratos em humanos adultos, porém deve-se ter muita atenção com crianças menores de
seis meses de idade, visto que o sistema gastrointestinal ainda não está plenamente
desenvolvido e funcional, por isso a presença de algumas bactérias redutoras podem
resultar na chamada “síndrome do bebê azul”.

A criança apresenta-se azulada devido ao quadro de anaerobiose provocado pela


ineficiência no transporte de O2. Dados do INCA (Instituto Nacional de Câncer),
apontam que o consumo elevado de alimentos contendo nitrato ou ingestão de água com
alta concentração deste íon está relacionado com a incidência de câncer de estômago.
No Brasil, a concentração de nitrato para consumo humano não deve exceder os10 mg/l
de acordo com o Conselho Nacional de Meio Ambiente e do Ministério da Saúde.

Figura 4.6: Representação esquemática do ciclo de


nitrogênio em um viveiro de criação.

Fonte: Adaptado de Boyd & Tucker, 1998, por Queiroz &


Boeiras (2007).

172
• Amônia

O ciclo de nitrogênio nos viveiros de criação é regulado principalmente pela atividade


biológica, e a amônia que é liberada na água dos viveiros pela decomposição da matéria
orgânica pode ser usada novamente pelas plantas, ou pode ser nitrificada para nitrato
pelas bactérias quimioautotróficas. A oxidação da amônia a nitrito pelas bactérias do
gênero Nitrosomonas é o primeiro passo da nitrificação, em seguida o nitrito é oxidado
a nitrato pelas bactérias do gênero Nitrobacter.

Essas bactérias usam amônia e nitrito como fontes de energia e dióxido de carbono
(CO2) como fonte de carbono orgânico, ou seja, essas bactérias podem utilizar a energia
liberada no processo de oxidação dos compostos que contêm nitrogênio orgânico para
reduzir o carbono orgânico em dióxido de carbono.

A nitrificação é um processo muito importante para reduzir a concentração de amônia


da água dos viveiros de criação, porque a amônia é potencialmente tóxica. O nitrogênio
é considerado um dos elementos mais importantes no metabolismo de ecossistemas
aquáticos, em razão de sua participação na formação de proteínas, podendo atuar como
fator limitante da produção primária desses ecossistemas e em determinadas condições
ser muito tóxica.

Dentre os compostos nitrogenados dissolvidos na água, encontra-se uma forma


ionizada, NH4+, denominada íon amônio, ou simplesmente amônio, e outra não
ionizada, NH3, amplamente conhecida como amônia. As duas formas juntas constituem
a amônia total, ou nitrogênio amoniacal total.

Quanto mais elevado for o pH, maior será a porcentagem da amônia total presente na
forma NH3, não ionizada (forma tóxica). Os compostos nitrogenados incorporados à
água, na piscicultura intensiva, provêm, principalmente, da alimentação. A amônia é um
composto resultante do catabolismo de proteínas, sendo encontrada em baixos níveis no
início das criações, quando a biomassa é ainda pequena. Com o aumento da biomassa, o
nível de amônia aumenta proporcionalmente ao aumento da quantidade de alimento
fornecido.

173
O controle da quantidade e da qualidade do alimento, bem como o controle adequado do
fluxo da água, são de fundamental importância para a manutenção da qualidade da água
de um sistema artificial de criação. As reações de nitrificação da amônia nos viveiros de
criação (degradação da matéria orgânica) são mais rápidas com pH entre 7,0 a 8,0 e
temperaturas de 25°C a 35°C segundo o pesquisador Boyd.

A porcentagem de amônia não ionizada (NH3) aumenta com a elevação do pH e da


temperatura, e isto significa que durante a tarde, quando a temperatura da água nos
viveiros está mais elevada e a fotossíntese mais intensa, ocorre um aumento
significativo do pH. E cerca de 89% do nitrogênio amoniacal é encontrado na forma não
ionizada (NH3), que é tóxica em concentrações que variam de 0,6 a 2,0 mg/L, por
curtos períodos de exposição, para a maioria das espécies cultivadas.

O principal fator responsável pela presença de amônia nos sistemas de criação de peixes
é a entrada de grandes quantidades de compostos orgânicos e inorgânicos, através de
adubos, fertilizantes e rações, os quais contêm níveis elevados de nitrogênio e fósforo,
entrada essa favorecida pela velocidade do fluxo da água. Esses elementos contribuem
com o incremento dos níveis de nitrogênio e fósforo na água, os quais, em situação de
temperatura e pH elevados, promovem a formação de amônia não ionizada (NH3),
tóxica para os organismos aquáticos.

A entrada de quantidades excessivas de fósforo e nitrogênio promove o crescimento de


algas que, indiretamente, irão ocasionar elevação do pH, o qual, novamente associado a
altas temperaturas, fará com que ocorra aumento da concentração de amônia na água.

A decomposição e reciclagem do material orgânico fecal nos tanques e viveiros é feita


principalmente por ação microbiológica, às custas de um significativo consumo de
oxigênio, resultando no acúmulo paralelo de metabólitos tóxicos aos peixes, como a
amônia, o nitrito e o próprio gás carbônico. A produção de amônia não é fruto exclusivo
da decomposição e reciclagem de resíduos orgânicos. O próprio metabolismo proteico
dos peixes tem como resíduo final a amônia. A amônia e o nitrito, que é um produto
intermediário do processo bacteriano de oxidação da amônia até nitrato, são as
principais substâncias tóxicas aos peixes nas criações em viveiros.

174
Pesquisadores constataram asfixia e perda de peso de alguns peixes pela floração da
alga Euglena sangiinea em viveiro adubado na Estação de Piscicultura do Instituto de
Pesca em Pindamonhangaba no Estado de São Paulo. O excesso de adubo e a intensa
respiração das algas contribuíram para a redução dos valores de oxigênio no viveiro;
uma concentração de 0,30 mg/l de nitrogênio é suficiente para promover floração de
algas. As principais fontes de amônia em viveiros de criação são os fertilizantes, os
excrementos e os produtos resultantes da decomposição microbiana de compostos
nitrogenados, como as rações e peixes mortos.

Práticas para reduzir o acúmulo de amônia nos viveiros

As rações que são adicionadas nos viveiros de criação visam permitir uma produção de
peixes maior do que seria possível obter somente baseada na alimentação com
organismos naturais. A ração que não é consumida, as fezes e os resíduos metabólicos
contribuem para aumentar a concentração de nutrientes na água dos viveiros de criação.

Um bom gerenciamento do arraçoamento reduz a quantidade de nutrientes na água dos


viveiros e é um aspecto importante no manejo da qualidade da água e dos efluentes dos
viveiros. As boas práticas de manejo (BPMs) têm como objetivo reduzir o acúmulo de
amônia nos viveiros e também otimizar os índices zootécnicos de produção e de
qualidade de água.

1. Selecionar rações de alta qualidade que contenham nitrogênio e fósforo, em


quantidades adequadas, mas não excessivas;

2. Usar ração extrusada de boa qualidade e com estabilidade na água, de modo a


atender às exigências nutricionais da espécie cultivada, e não utilizar alimento
natural fresco;

3. Armazenar as rações em silos bem arejados, ou, se ensacadas, em local bem


ventilado;

4. As rações devem ser usadas segundo a data de validade fornecida pelo


fabricante, e por ordem de entrada e saída;

175
5. Distribuir a ração de forma adequada e, se possível, uniformemente, com o
auxílio de alimentador mecânico, observando constantemente o consumo pelos
peixes e a concentração de oxigênio dissolvido nos viveiros;

6. Remover naturalmente os restos de ração acumulados nos viveiros;

7. Fazer o arraçoamento de acordo com consumo de ração considerando uma oferta


ideal entre 80% a 100% da saciedade dos peixes;

8. As taxas ideais de alimentação para sistemas intensivos devem ser próximas a


100% da saciedade (ideal 90%), para isso deve-se estimar a biomassa de peixes
e o consumo diário de ração;

9. Observar que a viabilidade econômica do cultivo depende do balanço da entrada


de nutrientes (ração) para atingir a produtividade ideal, de modo a garantir que
100% da ração aplicada diariamente nos viveiros sejam consumidos;

10. Manter concentrações adequadas de oxigênio dissolvido nos viveiros para


impedir o estresse dos peixes, e aumentar a capacidade do viveiro para
assimilação dos resíduos metabólicos;

11. O limite seguro para determinar as taxas de alimentação deve ser baseado na
concentração de oxigênio dissolvido que não deve ser inferior a 2,0 mg/l ao
amanhecer;

12. Ligar os aeradores ou trocar água durante a tarde quando o pH e a concentração


de amônia não ionizada são mais elevados facilitando a volatilização da amônia;

13. Renovar a água quando a concentração de amônia total for maior que 2,0 mg/l,
e a concentração de amônia não ionizada for maior que 0,4 mg/l;

14. Monitorar as concentrações de nitrito, e quando estas estiverem acima de 1,0


mg/l, e a concentração deNaCl estiver entre 15 a 20 mg/l, adicionar NaCl na
proporção de 10:1;

15. Manter o pH em torno de 7,0 e manter a concentração de cálcio e cloretos


176
elevada para prevenir a toxidez de nitrito.

16. Se necessário, efetuar a adição de NaCl na água para reduzir a proporção de


NO2:Cl para 0,25 de acordo com a seguinte fórmula: x ppm Cl = 3 [NO2] - [Cl].

4.2 Calagem

As práticas de calagem e adubação dos viveiros destinados à criação de peixes são de


vital importância, pois viveiros bem adubados fornecem um ambiente propício à
reprodução, engorda, principalmente na produção de larvas e alevinos, pois são
dependentes da produtividade primária nestas fases.

A calagem é uma prática tão necessária para piscicultura como para agricultura e o
calcário aplicado tem finalidade semelhante a sua utilização no solo: correção do pH,
aumento da dureza da água, melhoria das condições físicas do fundo do viveiro e
aproveitamento mais eficiente dos nutrientes solúveis em água. Águas alcalinas são
ricas em organismos aquáticos, garantem a disponibilidade de CO2 para síntese
orgânica pelo fitoplâncton e favorecem a rápida liberação dos nutrientes do sedimento
do fundo.

Em tanques e viveiros de baixo fluxo de água, a calagem pode ser usada para correção
do pH e melhoria do sistema tampão. Normalmente, águas com pH < 6,5 e baixa
alcalinidade e dureza total devem receber calagem. A calagem corrige os valores de pH,
reforça o sistema tampão formado por bicarbonatos, carbonatos e íons Ca2+ e Mg2+ e
neutraliza a acidez de troca do solo do fundo dos viveiros. Águas com dureza e/ou
alcalinidade total menores que 20 mg CaCO3/l devem receber calagem.

A quantidade de calcário a ser aplicada depende do tipo de material, da sua pureza e


grau de moagem (textura) e da acidez a ser neutralizada. As recomendações para as
doses iniciais de calcário agrícola são calculadas em função dos valores de pH de uma
mistura solo.
177
A dose inicial deve ser aplicada a lanço sobre o fundo do viveiro ainda seco. Uma a
duas semanas após os tanques e viveiros terem sido enchidos confere-se a alcalinidade
total da água. Se este valor ainda for menor que 30 mg CaCO3/l, aplica-se uma nova
dose de calcário agrícola, ao redor de 50 a 100 kg/1.000m², uniformemente sobre a
superfície do viveiro.

A calagem provoca o depósito de matéria orgânica que se encontra em suspensão,


fornece o cálcio e o magnésio necessários para a estrutura dos organismos aquáticos e
para o esqueleto dos próprios peixes, auxilia na reprodução dos peixes, pois os ovos e
larvas são sensíveis a ambientes ácidos.

Os produtos utilizados são calcário calcítico, o calcário dolomítico e a cal virgem ou


hidratada; cal virgem e da cal hidratada devem ser utilizadas em viveiros vazios. No uso
da cal hidratada e cal virgem é prudente aguardar 1a 2 semanas após o enchimento dos
tanques para a estocagem dos peixes. Em tanques e viveiros já estocados, as doses de
cal hidratada e cal virgem a serem aplicadas não devem exceder 10 kg/1.000 m²/dia.

O Método de Boyd para cálculo de corretivo para calagem de viveiros de criação está
descrito abaixo e o critério usado para decisão a respeito de se fazer ou não a calagem
de um tanque é:

1. Quando a dureza e/ou


Figura 4.7: Prática da calagem feita em
viveiro de criação. alcalinidade da água forem menores que
20 mg eq. CaCO3/l, ou o pH da água de
um tanque for menor que 6,0, deve-se
fazer a calagem do tanque.

2. É importante notar que em solos


com valores de % maior que 80, a
dureza da água armazenada ou nascente
Fonte: Moises Anthero da Silva
neste solo é, em geral, maior que 20 mg
eq. CaCO3/l.

3. O cálculo da dose de corretivo a ser aplicado é feito em função do pH do solo do


178
fundo do tanque.

Amostragem do solo para análise do pH.

1. Tanques com área menor ou igual a 1,0 há: colhem-se 12 subamostras para fazer
uma amostra composta;

2. Tanques com área entre 2,0 e 10,0 há: colhem-se 25 subamostras para fazer uma
amostra composta;

3. Tanque cheio, usar preferencialmente a draga de Heckman; com tanque drenado


usar pás; em qualquer caso colher a amostra dos primeiros 15 cm de solo (lodo)
do fundo do tanque.

Procedimento para o cálculo do corretivo:

1. Procede-se à amostragem do solo do fundo do tanque;

2. Toma-se uma subamostra e faz-se a homogeneização com água destilada na


proporção 1:1 (100g de solo em 100g de água destilada);

3. Lê-se o pH da mistura solo:água;

4. Calcula-se a dose inicial de calcário a ser aplicada.

Figura 4.8: Cálculo da dose inicial de calcário.

Fonte: Moises Anthero da Silva

179
4.3 Adubação dos viveiros de criação

As adubações dos viveiros podem ser de três tipos: orgânica, química ou inorgânica e
mista. A orgânica, mais barata e rica, usa como fonte esterco de aves, suínos e bovinos,
em quantidades adequadas.

Na produção intensiva de criação de peixes é inevitável o acúmulo de resíduos


orgânicos e metabólitos nos viveiros (fezes e peixes mortos), tanto em sistemas de água
parada como também em sistemas com renovação de água intermitente. Nas condições
de cultivo intensivo com alta densidade de estocagem e alto nível de arraçoamento, o
volume de fezes excretado diariamente pelos peixes é uma das principais fontes de
resíduos orgânicos, para tanto não é necessário fazer a adubação.

A digestibilidade da matéria seca de rações para peixes gira em torno de 70 a 75%. Isto
significa que 25% a 30% do alimento fornecido entra nos viveiros como material fecal.
O aumento de ingredientes de baixa digestibilidade nas rações para peixes pode elevar
ainda mais o montante de fezes excretadas.

A quantidade de estrume e adubo químico a ser empregado em viveiros de 1ha, podem


ser:

1. Adubo orgânico 2.000 kg primeira semana

2. Adubo orgânico 2.000kg segunda semana antes do povoam alevinos

3. Adubo orgânico 1.000kg após povoamento usar toda semana

4. SFS químico 150kg inicialmente

5. SFS químico 100kg manutenção em viveiros de alevinos

6. SFT químico 60kg inicialmente

7. SFT químico 40kg manutenção

180
Obs.: SFS = superfosfato simples e SFT = superfosfato triplo.

4.4 Síntese da Unidade

Chegamos ao fim do nosso estudo e nesta última Unidade o objetivo foi descrever os
parâmetros físicos e químicos da água, sua importância na piscicultura e mostrar como
interpretá-los. Também apresentar as características mais importantes do solo para
criação de peixe, as implicações da correta calagem e adubação para utilização em
viveiros de criação e suas consequências no meio ambiente aquático.

4.5 Para saber mais

Filmes e telenovelas

• https://www.youtube.com/watch?v=5z-Icpl51G U

Alcalinidade

• https://www.youtube.com/watch?v=GTr4H3eI2Io

Piscicultura de Tambaquis.

4.6 Atividades

Baseado no planejamento da construção de um viveiro com canais de abastecimento,


realize a análise da água e escalone a adubação do viveiro baseado no ítem 4.3 deste
livro-texto
181
Referências

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