Você está na página 1de 4

A ninfa do teatro

Amazonas

Ela parecia um vulto perdido nesse mundo


pela água. Ainda não sabemos seu nome, e suainvadido
moradiaé
incerta; uns dizem que a mulher se escondenum buraco,
lá na Colina; outros a viram perambular nos becosdo bair-
ro do Céu, e sabe Deus se é filha da cidadeou do mato.
Dizem também que tentou entrar na Santa Casa,masfoi
enxotada pelo porteiro do hospital. A chuva atingiu-aem
plena praça São Sebastião. A porta da igrejaestavafecha-
da, a praça deserta, os sobrados silenciosos.Ao errarnas
cercanias do nosso majestoso teatro, a mulher sentiu con-
trações no ventre. Os olhos talvez tenham procuradoal-
guém para acudi-la, mas não havia almavivana praça.
Preferiu então rastejar até alcançaro pórticodo teatro
Amazonas; empurrou com esforço a porta de madeira ma-
ciça e entrou.
lam-
O interior estava deserto; de vez em quando um do
pejo riscava o vidro das janelas e um estrondovinhaimer-
céu como uma ameaça. Ainda rastejando,a mulher
89
primeiro gesto era acen-
ao desp ertar, seu
igreja;
giu num espaço sombrio, onde nada — salvoseu
corpo perfilda que aclarava o rosto de Angiolina.
umedecido e seus cabelos molhados — lembrava a der0
candeeiro, Álvaro abriu os olhos, a janela
chuva. quando seu e o contorno do rosto
rada lá fora. ontem, de águas pardas
aquário apenas o costado do
Sem se aperceber, ela penetrara na sala de espetácu. pareciaum sumido da fotografia;
tinha aposento. Nessa
10s; uma passarela em declive conduziu-a para pertodo da cantora da atmosfera sombria do per-
palco. Deitada no veludo vermelho, entre duas filasdeca- navioemergia o som que o vigia escutava não mais
se era
deiras, ela esperou o instante propício para dar à luz. noite precoce, ou ao sono. Ele não sabia afirmar
sonho de um piano; parecia vir
Uma trovoada violou o silêncio da sala e fez vibraro tenciaao canto ou os acordes
lustre de cristal pendurado na cúpula. O abalo alcançou uma voz, um provavelmente do interior do teatro.
mas anos, a distân-
um pequeno aposento no último andar. Ali, estiradonu- de longe, homem que beira os noventa
Para um o térreo é quase
abissal. Isso não
ma rede, um homem que se diz vigia do teatro se distraía último andar e
cia entre o Winchester,
do mundo. Seu Álvaro Celestino de Matos — oitenta e se. Decidiu descer munido de sua
o desanimou. e abatera
te anos, olhar taciturno e sotaque de imigrante nortenho tempos intimidara tantos homens
que em outros arma servia de bengala
ao corpo
— acordou com um sobressalto e ouviu um som estranho; agora a
tantos animais;
pensou que estava sonhando com a voz de uma cantora
numa das noites de sua infância remota. Por algum tempo
encurvado.
lenta e penosa; mas não foi a fadiga que
A descida foi ele pisou no tapete do térreo.
ele continuou vagando num espaço movediço em quese corpo quando
lhe sacudiu o essa súbita convulsão
indepen-
misturam o sono e o sonho, sem saber se o rumor vinha percebeu que
Seu Álvaro algo fatídico aconteceria
na
da chuva de ontem ou de uma célebre quinta-feirade idade e intuiu que
dia de sua era um
1919. Nesse dia — ele recorda sem esforço — o menino chuvosa. A porta da entrada, entreaberta,
manhã bronze flutua-
havia encerado o assoalho do palco onde pisariamos pés de invasão? Lá fora, um dos barcos de
sinal pare-
preciosos da soprano Angiolina Zanuchi. no centro da praça e as asas de um anjo submerso
va
O vigia empurrou a por-
Desde então, pouca coisa tinha mudado na decoração ciamuma âncora solta no espaço.
notou no piso uma mancha
do seu modesto aposento: colada na parede, ao ladoda ta com o cano da arma; depois espetáculos. Evitou
janela, destacava-se a fotografia da cantora desembarcando vermelha que desaparecia na sala de
um dos corredores
do Queen Elizabeth. Ele admirava a foto e depois via através esse caminho contornando a sala por
que dão acesso às
da janela o campanário da torre solitária, o sino que soava laterais:uma sinuosa parede de portas
e já girava a
com a mesma pontualidade das chuvas até o anoitecer, frisas.Pensou em entrar no sétimo camarote
som, agora mais
quando o perfil da igreja se esvaía e no centro da janela maçaneta quando escutou novamente o
esperar alguns
surgia o círculo lunar. Havia mais de sessenta anos seu Ál- estranho, mais ameaçador. Então decidiu
dos seres
varo adormecia com a visão da imagem da soprano e a do segundos e essa espera hesitante — preocupação
91
90
mulher havia cruzadoas pernas
a
de boca: e os seios. A distância não lhe
talvez
idosos? — foi um sinal para que mudasse de orifício do rosto dela; os olhos
cuou e algo inusitado o conduziu ideia.Elc expressão
aos bastidores.
Alien. captar a pouco repuxa
controu um refúgio: o palco e o pano de boca urn
o separavam graúdos, abraçava o
da sala de espetáculo. fossem mãos uma criança. Ela
Cauteloso, mas não aterrorizado nas
o seu passado, segurando a
sua profissão ou talvez a arma o tranquilizassem a cadeira,
apenas um bocejo; em seguida
tateou a parede mais próxima e encontrou,
entreteiasde mas era criança e ele viu a língua e os
canção,
aranha, uma alavanca de madeira; com um rosto da sonho, a
gestobrusco lambeu o pelo lustre. Como num
empurrou-a para baixo. Um filete de luz brotou iluminados fechou os olhos e com
deum dela então o vigia
orifício na tela, o pano de boca se iluminou. O opaca; com 0 cabo da
vigiapôde
imaginar as cores e as formas da imensa pintura tornou-se várias vezes o assoalho
da corti- sala golpeou assustou; depois deu
na: garças e jaburus no meio de flores aquáticas impaciência eco das pancadas e se loucura.
e açuce-
nas-brancas, uma naia deitada numa conchaflutuando ouviu 0 escutou o eco de sua alegria ou
e quando per-
entre as águas do Negro e do Amazonas. Seu Álvaro umagargalhada só sentiu falta da arma
apro- gargalhando, ajoelhado. Na penumbra foi arras-
ximou o olho direito do orifício e percebeu que o
anelde Rindo, e caiu on-
luz coincidia com o umbigo da naia. Com o corpoapoiado deu o equilíbrio
de branco até o centro do palco,
homens um pequeno
na arma, seu olho esquadrinhou a sala de espetáculos, tadopor dois uma peça permanecia intacto:
de torre de
tentando encontrar a fonte do ruído que o despertara. deo cenário madeira com uma única janela, a
aposentode alumínio
Sentiu um desânimo ao notar a sala deserta,cadeiras
e campanário; num céu de papel de
camarotes vazios. Então o olho arregalado viu umasom- igrejae um
lua de papelão, solta no ar. Um dos enfer-
bra, a forma de um corpo sentado perto do palco.Pelapri- brilhavauma e impediu seu Álvaro de deitar no
a luz
meirosacendeu os olhos de
meira vez o vigia teve um pouco de medo. Pôs os óculosa
abandonado. Ele ofegava e não tirava chegaram
fim de enxergar com nitidez a sala; ali estavam seus velhos cenário Já era noite quando
palco.
conhecidos: o busto de Carlos Gomes, de Racinee Moliêre; umacadeiraperto do repórter encontrou-o deitado
de Flores. Nosso
aohospício
e, numa cadeira da primeira fila, o corpo molhado deuma
colchão de palha; as mãos dele tremiam e no rosto
mulher morena. num
enigmático. Com uma voz rou-
O vigia se afastou da cortina, imaginou maisumavez enrugadohavia um sorriso acontecido ontem de
a pintura da tela iluminada: a naia quase nua deitadana ca e grave ele contoÚ o que tinha
concha, o corpo branco e opulento contornadopelaluz. manhãno teatro Amazonas.
que o relato
Depois acariciou com a mão direita o ventre da naiae, ao O psiquiatra de plantão, dr. S. L., afirmou
tem-
sentir na pele a aspereza da tela, entendeu que se tratava dosr. Álvaro é a versão de um homem que há algum
Antes
realmente de uma pintura. Ele tornou a ajustara lenteno po vem sendo tragado pelo pântano da senilidade.
93
92
de ser internado, sua vida errante acompanhava o curso natureza ri da cultura
das estações: no verão amanhecia num dos barcos de bron-
ze do monumento da praça São Sebastião e ali passava Para Benedito Nunes
ras contemplando a estátua de uma mulher. Na épocadas
chuvas refugiava-se no cenário abandonado no palcodo
teatro, onde fora encontrado várias vezes, ora cantando
ora olhando para uma cadeira da sala de espetáculos.
Num dos bolsos desse ex-pescador e vigia, o médico
encontrou uma fotografia antiga em que se vê um menino
de mãos dadas com uma mulher. Um corpo robustomol-
dado por uma saia justa, dois braços roliços, a mão esquer-
da segurando um leque, tudo isso é visível na fotografia.
Mas a parte superior do papel, borrada e puída, tornarao
rosto da mulher irreconhecível. Seria ela Angiolina, a su- da voz de Emilie, a matriarca.Na
posta paixão do pescador quando adolescente? Os nossos Ainda me lembro rezar, não em ára-
eu a escutava cantar e
arquivos confirmam a passagem da cantora por Manaus, minha infância, sua língua adota-
sua língua materna, mas em francês,
cujo público caloroso, numa noite de dezembro de 1919, be, outra, mais incisiva:
voz era abafada por
aclamou a "divina soprano milanesa". da. Às vezes essa Lit)anocada
meu avô, que evocava episódios de um
Outra hipótese lembrada pelo dr. S. L. associaa mu- a do os sons mais que
mais distante. Mas a voz de Emilie —
lher da foto a uma pianista amazonense que deu vários vez órfã,
— era mais íntima. Nas noites da infância
recitais quando seu Álvaro ainda era vigia do teatro. A pia- o sentido uma palavra ou um pedaçode
nista — quem não se lembra — morreu afogada não muito eu repetia mentalmente a uma
encantada com a reza e o canto, entregue
frase, duas
longe do encontro das águas. Mas o seu último recital,So-
litúrgica, a um culto de que só nós
nata de um crepúsculoem lá menor, permanece na memória aprendizagem
de todos; talvez com mais intensidade na memória do me- participávamos. o pa-
de Emilie que contrariava
Não era apenas a voz avô
nino, hoje ancião.
Ela, Emilie, tinha uns amigos que meu
Ainda não podemos diagnosticar o estado psíquicodo triarca da casa. Quando esses amigos se
considerava esnobes e altivos.
sr. Álvaro. Será ele um mero mitômano? Um simples soní-„ gamão ou conversar e
fumar
reuniam em casa para jogar e
loquo? Teria sido vítima de uma crise de deliriumtremens?
parreira do pátio, meu avô ficavacalado,
O que ele viu, ou disse ter visto, seriam miragens de um narguilé sob a inconvenientes. Maso
que as visitas eram
seu olhar dizia fre-
lunático?
importava quando Emilie citava com
velho não se
95
94