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Um ensaio de Suely Rolnik* | Imagem: George Grosz, Eclipse, 1926 (detalhe)

[Título original: A nova modalidade de golpe de Estado: um seriado em três temporadas]

Uma paisagem sinistra instaurou-se no planeta com a tomada de poder mundial pelo regime
capitalista em sua nova dobra – financeirizada e neoliberal –, poder que leva seu projeto
colonial às últimas consequências, sua realização globalitária. Junto com este fenômeno,
um outro, simultâneo, também contribui para o ar tóxico da presente paisagem: a ascensão
ao poder de forças conservadoras por toda parte, cujo teor de violência e barbárie nos
lembra, para ficarmos apenas no século XX, os anos 1930 que antecederam a segunda
guerra mundial e os anos mais recentes de regimes ditatoriais, os quais foram se
dissolvendo ao longo dos anos 1980 (é o caso, por exemplo, dos regimes militares da
América do Sul e o governo totalitário da União Soviética). Como se tais forças jamais
tivessem desparecido de fato, mas apenas feito um recuo estratégico temporário à espreita
de condições favoráveis para sua volta triunfal.

Neoliberais e “neo”(?)conservadores unidos! Como assim?

À primeira vista, a simultaneidade entre estes dois fenômenos nos parece paradoxal: são
sintomas de forças reativas radicalmente distintos, assim como são distintos seus tempos
históricos. Além das diferenças mais óbvias que consistem no transnacionalismo de umas e
no nacionalismo das outras, o alto grau de complexidade, flexibilidade, sofisticação e
refinamento perverso, próprio do modo de existência neoliberal e suas estratégias de poder
está a anos luz do arcaísmo tacanho e da rigidez das forças abrutalhadas deste
neoconservadorismo – cujo prefixo “neo” só faz sentido porque articula-se com condições
históricas distintas das anteriores. Se o convívio entre estes dois regimes de poder turva
nossa compreensão, passada a perplexidade inicial, vai se tornando evidente que o
capitalismo financeirizado precisa destas subjetividades rudes temporariamente no poder.
São como seus capangas que se incumbirão do trabalho sujo imprescindível para a
instalação de um Estado neoliberal: destruir todas as conquistas democráticas e
republicanas, dissolver seu imaginário e erradicar da cena seus protagonistas – entre os
quais, prioritariamente, as esquerdas em todos os seus matizes.

Uma coincidência de interesses de neoconservadores e neoliberais em relação a este


objetivo específico permite sua aliança temporária. A torpe subjetividade destes
(neo)conservadores é arraigadamente classista e racista, para não dizer colonial e
escravocrata, o que os leva a querer cumprir este papel, sem qualquer barreira ética e numa
velocidade vertiginosa. Quando nem bem nos damos conta de uma de suas tacadas, uma
outra já está em vias de acontecer, geralmente decidida pelo congresso na calada da noite.
Além disso, colabora para seu interesse nesta tarefa o fato desta ser muito bem remunerada
pelo poder executivo. Este lhes oferece em troca avultosas somas de dinheiro para realizar
projetos absurdos em suas regiões de origem e, com isso, ampliar seu apoio local. Instaura-
se um campo de negociação entre Congresso e Executivo, no qual os deputados, em
posição vantajosa, podem chantagear à vontade, exigindo mais e mais dinheiro para
cumprir sua função de capangas. O exercício desta missão lhes proporciona um gozo
narcísico perverso, a tal ponto inescrupuloso, que chega a ser obsceno. A esse gozo
acrescenta-se a patética exposição de sua vaidade por terem de volta o poder em suas mãos,
o que alimenta sua autoimagem de machos valentões que eles exibem como se trouxessem
na lapela arcaicos e ridículos brasões. Mal sabem eles que com seu trabalho sujo, prepara-
se o terreno para o livre fluxo do capital transnacional, cujos líderes, globais e locais, são os
verdadeiros senhores do poder e que os eliminarão de cena tão logo se tornem
desnecessários. É neste cenário que se dá o novo tipo de golpe, criado pela atual versão do
capitalismo: um seriado que se desenrola em três temporadas.

Embora o roteiro do seriado que será aqui apresentado se baseie em sua versão brasileira,
este é muito semelhante em suas versões na maioria dos países da América Latina (tendo
sido a primeira no Paraguai em 2012). Ele traz igualmente elementos para abordá-lo em
suas demais versões no resto do planeta, como na Espanha, na Polônia, na Hungria, na
Áustria e na Rússia. Com variações de nuances para adaptar-se aos diferentes contextos, a
estratégia do novo tipo de golpe de Estado tende a ser a mesma.

Roteiro do seriado

Na primeira temporada (que no Brasil tem início em 2005 com o “Mensalão”), se


estabelece uma aliança entre, de um lado, os poderes Legislativo, Judiciário e Policial e, de
outro, o empresariado nacional – mais direta a ativamente os grupos que detém o poder da
mídia. A política e o direito encontram-se plenamente integrados (o que, aliás, não é novo
no Brasil). Os juízes envolvidos na operação do golpe manipulam despudoradamente as
regras constitucionais existentes – ou até as mudam se necessário –, em favor dos interesses
políticos no poder, os quais eles não só compartilham, mas tem em sua defesa um papel
central. São condenados à prisão acusados sem prova concreta (como é o caso de Lula),
enquanto são considerados inocentes ou punidos com penas bem mais leves, acusados com
base em provas escandalosas. Não há possibilidade alguma de prever as sentenças segundo
as regras da justiça democrática, próprias de um Estado de direito; apenas consegue-se
identificar os interesses políticos que as conduzem, e mesmo assim sem saber ao certo
quais serão suas estratégias para justificá-las.

Sustentados por esta aliança e ocupando a maioria no Congresso Nacional, os capangas do


capitalismo financeirizado dão o golpe que expulsa do governo seus líderes mais à
esquerda. Usa-se para demonizá-los não só denúncias de corrupção não comprovada (é o
caso de Lula), mas também sua suposta responsabilidade pela crise econômica do país, que
na verdade é apenas um sintoma local da crise mundial (é o caso de Dilma). Mas o seriado
do golpe não se encerra com a condenação de vários líderes do PT e do processo de
destruição do imaginário democrático, culminando no episódio do impeachment de Dilma
(agosto de 2106). Uma vez concluído este primeiro trabalho sujo e já parcialmente
destruído este imaginário, tem início sua segunda temporada. Embora outros elementos
venham a ter o papel de réus ao longo do seriado do golpe, o personagem demonizado
continuará paralelamente a ser protagonizado pelos líderes de esquerda – principalmente os
do Partido dos Trabalhadores, tendo sempre Lula como foco privilegiado. Sua demonização
atravessará todos os episódios até o final da segunda temporada do seriado, quando se
consumará a farsa da condenação de Lula e sua consequente exclusão do processo eleitoral
para presidência da República.

Segunda Temporada
Na segunda temporada do seriado do golpe, o foco será o indispensável desmonte da
Constituição. Para prepará-lo micropoliticamente o script se concentrará em tornar bem
mais aterrorizador o fantasma da crise econômica, assim como intensificar a
desqualificação do imaginário progressista, já parcialmente conquistada na primeira
temporada. O desmonte da constituição se dará por meio de um novo conjunto de trabalhos
sujos a serem realizados pelos capangas. O primeiro será o bloqueio de gastos públicos: a
Proposta de Emenda à Constituição, assim chamada a “PEC do fim do mundo”,
promulgada em dezembro de 2016, congela os gastos públicos por vinte anos sob o
argumento da crise econômica. Tal bloqueio incide nos subsídios para o desenvolvimento e
nas verbas destinadas aos programas sociais, sobretudo à educação e à saúde. Além de
desmontar leis promulgadas durante os governos petistas que ampliaram o acesso à
educação e à saúde de qualidade para a maioria da população, o golpe desmontará
igualmente a universidade pública, por meio de cortes de verbas de educação e pesquisa. O
segundo trabalho sujo consistirá na indecente reforma laboral, que inclusive incidirá na
educação ao atingir as universidades privadas (imediatamente após a promulgação da
mudança de tais leis, várias destas universidades demitiram em massa seus professores, os
substituindo por professores com salários miseráveis e sem direitos trabalhistas). O terceiro
consistirá nas indecentes reformas do seguro social e da previdência e o quarto, na
privatização dos bens e empresas estatais mais rentáveis, ou que serão tornadas rentáveis
por meio de arranjos espúrios, de modo a ampliar a lista das privatizáveis cult. E quando os
tais capatazes não conseguirem a maioria do Congresso para votar alguma ementa ou lei
necessária a tal desmonte, condição para que o poder executivo possa efetivá-lo, entrarão
rapidamente em cena as agências que detém as maiores bases mundiais de indicadores
financeiros, as quais lideram a avaliação do mercado global de capitais e, portanto, a
classificação de risco para os investimentos (como Standard & Poor’s e Moody’s
Corporation). Sua operação consiste em rebaixar as notas da economia brasileira ou
ameaçar fazê-lo, o que oferece poderosa munição para que as mudanças de políticas
públicas que ainda sofrem alguma resistência no próprio Congresso sejam enfim votadas,
sob ameaça de falência do país (é o que está em curso no Brasil em relação à previdência e
que já ocorreu na Europa, com Portugal, Grécia, Irlanda e Espanha, que receberam o
eloquente acrônimo: “PIGS”). E o Estado de direito irá tendo assim rapidamente destruídos
os elementos de “res pública” ou de democracia social que o caracterizaram em sua
arquitetura moderna (a qual, no Brasil, assim como em vários países do continente sul
americano, começava apenas a instalar-se com os governos progressistas pós-ditaduras,
justamente os alvos do novo golpe). O intuito é transformá-lo, no final do seriado, em
Estado neoliberal, cuja função é estritamente focada naquilo que interessa ao capitalismo
transnacional e seus cúmplices das elites locais: facilitar ao máximo a circulação de seus
investimentos de modo a criar condições ideais para a multiplicação do capital investido e o
mais velozmente possível.

Enquanto se desenrolam estas novas operações, os próprios capangas do capitalismo


globalitário serão os próximos alvos das denúncias de corrupção, preparando-se o terreno
para sua ejeção tão logo sua tarefa esteja concluída. Na última temporada do seriado do
golpe, o novo regime jogará estes conservadores no lixo da história, sem o menor
constrangimento. Esta é uma primeira diferença em relação aos golpes de Estado que se
utilizaram do exército: embora estes tenham sido igualmente executados pelos
conservadores (no caso, militares) e sob o comando dos poderes hegemônicos do
capitalismo em sua dobra anterior (na época, principalmente em mãos dos Estados Unidos),
naquele contexto o regime precisava de um Estado totalitário e, para isso, tinha que manter
os conservadores no poder após o golpe e por um longo período.

Paralelamente, ainda nesta segunda temporada, enquanto se introduz na narrativa oficial as


denúncias de corrupção contra os políticos capangas, o mesmo se faz com o empresariado
nacional, incluindo os altos executivos. Poupa-se nesta operação os bancos, parcela do
empresariado ligada ao capital financeirizado e que inclusive, neste mesmo momento, tem
perdoada parcela significativa de suas dívidas com o governo. Visa-se sobretudo as grandes
empreiteiras que, organizadas em cartéis, monopolizam a construção de obras públicas, não
só no Brasil, mas também em países aliados dos recém depostos governos progressistas,
sobretudo nos continentes latinoamericano e africano que constituem mercados
promissores. A permanência em cena desta parcela do empresariado apenas interessa aos
líderes do capitalismo globalitário enquanto precisem de sua cumplicidade não só para a
destruição do imaginário de esquerda – e da defesa das leis democráticas que este sustenta
–, mas também para trazer dados que, selecionados, respaldem e reforcem a ideia de que
estamos diante de um eminente colapso econômico. Com este apoio, criam-se condições
favoráveis para as privatizações e o extermínio de tais leis, principalmente as que
concernem o trabalho. No que concerne o trabalho, no Brasil, isto não se limitará à sua
precarização, mas chegará ao cúmulo de legalizar condições aviltantes até então
consideradas pela Constituição como definidoras do trabalho escravo e passíveis de
punição. Que se diga de passagem: a decisão de legalizá-lo confirma que tais condições
persistem até hoje e não só nas zonas rurais; basta mencionar o tratamento dado aos
imigrantes ilegais na indústria da moda. O objetivo de apressar-se a introduzir empresários
e altos executivos como novos personagens vilões do seriado é preparar o terreno para tirá-
los do comando, principalmente das obras públicas, assim que o direito às privatizações
estiver instituído.

Com esta dupla ejeção – de políticos e empresários – e já tendo se instaurado no país uma
grave crise institucional e econômica, acentuada pela paralisia das obras públicas resultante
das prisões das figuras chaves do empresariado nacional que as comandavam, o terreno
estará totalmente pronto para a chegada dos investimentos sem entraves do capital
transnacional. Nesta segunda temporada do seriado, entre os dispositivos do golpe são
particularmente importantes as cenas do ringue entre distintas máfias de políticos sórdidos,
assim como entre eles e as máfias do elegante empresariado. “Premiados” por suas
delações, eles se destroem mutuamente diante da sociedade que, noite após noite, assiste
perplexa ao espetáculo grotesco da derrocada de ambos nas telas da TV. A esse espetáculo
se tem acesso igualmente pelas redes sociais que se pode consultar a qualquer hora, assim
como pelos jornais, que parte das classes médias e altas leem ao despertar. Com esta ampla
e ininterrupta divulgação, a atenção de toda a sociedade passa a concentrar-se nas
espantosas imagens e mensagens, escritas ou faladas, de negociações de falcatruas
econômicas e políticas, clandestinamente captadas em telefonemas, e-mails e gravações,
bem como em documentos entregues pelos delatores ou encontrados pela polícia nas
devassas de seus escritórios e residências. É um verdadeiro show de psicopatia que chega a
ser divertido pois nos lembra os mais hilários filmes B e seus canastrões. A triste diferença
é que, neste caso, a narrativa ficcional baseia-se em dados da realidade. Se estes, por si só,
provocariam uma total indignação, ao serem devidamente editados na construção da
narrativa, cuja função é preparar o terreno para o golpe, eles tem o poder de gerar graves
efeitos micropolíticos nas subjetividades: a propagação da insegurança e do medo de
colapso.

Há realmente algo de novo no uso de narrativas ficcionais pelo poder?

É verdade que não constitui novidade o uso pelo capitalismo da manipulação pelo discurso,
seja ele verbal ou imagético, por meio da construção de narrativas que demonizam o
inimigo da hora, como estratégia micropolítica de poder para viabilizar e justificar seus
projetos macropolíticos. Tal estratégia foi amplamente usada pelo regime desde sua
fundação (basta citar a catequese, uma versão de narrativa ficcional, no modo palavras-de-
Deus, único e universal), tendo se aprimorado com a advento dos meios de informação e
comunicação de massa, no final do século XIX, que acompanhou a segunda revolução
industrial. Neste contexto, além de ter sido um dispositivo central das estratégias de
produção de subjetividade no século XX, foi amplamente usado pelo poder nos regimes
totalitários, assim como na preparação dos golpes de Estado dos anos 1960 e 70. Porém o
modo como atualiza-se este dispositivo de poder não é idêntico: aqui reside uma segunda
diferença entre as duas versões do regime, industrial e financeirizada.

O avanço exponencial das tecnologias de informação e comunicação à distância a partir do


final dos anos 1970, não só tornou seu uso micro e macropolítico mais sutil e poderoso,
mas foi o que, em parte, viabilizou a própria conquista do poder globalitário pelo
capitalismo, em sua nova dobra. As narrativas de propaganda realizadas pelo capitalismo
industrial (igualmente arquitetadas e financiadas por uma aliança entre empresários e
políticos) eram toscas, acessadas pelo rádio e pela televisão (cujo uso aumentou depois da
segunda guerra mundial), assim como nos cinemas antes dos filmes. Já as novas
tecnologias de comunicação permitiram um aprimoramento significativo deste dispositivo
do poder: a sofisticação das linguagens e das técnicas de manipulação e publicidade (o que
inclui uma profunda mudança da televisão), a multiplicação das mídias e o alcance mundial
da divulgação das mensagens em tempo real. Se divulgar falsas informações tampouco é
novidade e faz parte da composição das narrativas ficcionais impostas às subjetividades, no
capitalismo financeirizado tal dispositivo se aprimora. Viabilizadas pelo desenvolvimento
tecnológico de robôs que passam a agir na Internet, as chamadas fake-news não só
viralizam, mas simulam sua legitimidade com infinitos likes instantaneamente produzidos
por tais robôs, o que as faz parecer massivamente aceitas, intensificando e propagando sua
ilusória credibilidade.

Tampouco são os mesmos nos dois contextos os focos privilegiados para produzir temor e
insegurança e mobilizar a fúria conservadora. Nos anos 1950 e 60 do capitalismo industrial,
o foco era o fantasma do comunismo propagado pela guerra fria: uma ameaça que
encontrava respaldo na recente divulgação dos horrores totalitários do stalinismo, a qual
trazia de volta à memória das massas os traumas provocados pelo nazismo e o fascismo,
cujos efeitos ainda infectavam sua subjetividade. Projetava-se esse fantasma nos governos
com tendências democratizantes (foi o caso de Jango, no Brasil), projeção cujos efeitos nas
massas preparou o terreno para os golpes de Estado nos anos 1960 e 70. Entretanto, nos
anos 1990, as experiências de governos com tendência à esquerda após o fim das ditaduras,
mobilizaram ampla identificação nas camadas mais desfavorecidas da sociedade – sua
grande maioria –, não sendo mais possível associá-los ao comunismo como um fantasma
ameaçador, e menos ainda à sua versão totalitária, ao que se acrescenta o fim da URSS e a
queda do muro de Berlim. É então esta identificação que a dobra financeirizada do
capitalismo necessitará destruir. Para lográ-lo, elege-se a corrupção como foco para a
demonização das esquerdas na narrativa a ser construída e midiatizada. Se a acusação de
corrupção já foi e continua sendo amplamente usada pelo poder para eliminar seus
inimigos, usá-la contra líderes de esquerda tem um adicional de eficácia: a destruição de
sua imagem de honestidade e de uma sincera cumplicidade com a agenda social, uma das
principais virtudes que lhes são atribuídas no imaginário dos que com eles se identificam, a
qual os diferenciava dos demais políticos, que no país são tradicionalmente associados à
corrupção. No caso específico de Lula, associá-lo à corrupção visa destruir igualmente a
imagem de que sua origem de classe garantiria sua cumplicidade com as causas sociais. A
ideia de que são todos “farinha do mesmo saco” faz com que à insegurança e ao medo,
acrescente-se a decepção, gerando uma espécie de apatia por exaustão.

Mas o uso pelo regime colonial-capitalístico de estratégias micropolíticas para sustentar


suas estratégias macropolíticas não se reduz à propaganda. Este é apenas um dos
dispositivos de seu modus operandi micropolítico, o qual é muito mais amplo e complexo
e, com desdobramentos e variações, é por ele praticado desde sua fundação no século XV.
E tem mais: este é um dos elementos fundamentais de sua modalidade de poder.

Matriz micropolítica do poder colonial-capitalístico: o abuso da vida

A estratégia micropolítica do poder colonial-capitalístico consiste em investir na produção


de um certa política de subjetivação, matriz do regime nesta esfera. Tal política tem como
elemento fundamental o abuso da vida enquanto força de criação e transmutação, força na
qual reside seu destino ético e a condição para sua continuidade. Isto inclui a potência vital
em todas suas manifestações e não só nos humanos – sendo que nos humanos o abuso não
se restringe à sua manifestação como força de trabalho, como se pensava no marxismo. O
intuito do abuso é separar a subjetividade de sua potência vital, obstruindo seu acesso a tal
potência e a destituindo assim de seu poder de escolha para conduzí-la, o que a torna dócil e
submissa aos modos de existência necessários ao regime e à sua exploração.

No entanto, na nova dobra do regime, a intervenção nesta esfera refina-se e se intensifica. O


abuso da força vital vai mais fundo: seu intuito não é mais simplesmente o de torná-la dócil
e submissa, como o era no capitalismo industrial em suas primeira e segunda revoluções.
Ao contrário, o intuito agora é estimular esta potência e acelerar e intensificar sua
produtividade, mas a desviando de seu destino ético, para converter sua natureza de força
de “criação” de novos modos de existência em resposta às demandas da vida, em força de
“criatividade”, a ser investida na composição de novos cenários para a acumulação de
capital (econômico, politico, cultural e narcísico). No lugar da criação do novo, o que se
produz (criativamente e cada vez mais velozmente) são “novidades”, as quais multiplicam
as oportunidades para os investimentos de capital e excitam a vontade de consumo. Embora
tal vontade venha sendo mobilizada desde a dobra anterior do regime, ela encontra agora a
seu dispor uma contínua explosão de novos produtos, cujas imagens – que lhe chegam
como bombas por todos os lados, lançadas pelos meios de comunicação e informação –,
alimentam sem cessar sua compulsiva voracidade. Ou seja, a potência vital passa a ser
usada para a reprodução do status quo; apenas muda-se, criativamente, suas peças de lugar
ou se faz variações sobre as mesmas.

Se o novo tipo de golpe de Estado não faz uso da força militar, não é apenas porque
governos rígidos, totalitários e nacionalistas não lhe convêm. Além destas razões
macropolíticas, há razões micropolíticas que funcionam segundo a mesma perspectiva:
tampouco lhe convém a subjetividade rígida identitária própria de regimes autoritários que
convinha ao capitalismo industrial. O regime capitalista anterior precisava de corpos dóceis
que se mantivessem sedentários, cada um fixo em seu lugar, disciplinarmente organizados
(como os operários na fábrica). Diferentemente disso, o capitalismo financeirizado
necessita destas subjetividades flexíveis e “criativas” que se amoldem, tanto na produção
quanto no consumo, aos novos cenários que o mercado não para de introduzir. Em outras
palavras, o novo regime necessita produzir subjetividades que tenham a maleabilidade de
circular por vários lugares e funções, acompanhando a velocidade dos deslocamentos
contínuos e infinitesimais de capital e informação.

Esta é mais uma das razões pelas quais não interessa à nova dobra do capitalismo o uso da
força militar em seus golpes de Estado; é com a força do desejo que os realiza
micropoliticamente. Isto se faz por meio da corrupção do desejo, enquanto seus capatazes
fazem o serviço bruto na esfera macropolítica. É por esta mesma razão que é também
micropoliticamente que não interessa ao novo regime manter conservadores no poder após
os golpes de Estado, e muito menos regimes ditatoriais e nacionalistas.

O surto conservador

Voltemos ao seriado do golpe. Mais para o final da segunda temporada, à manipulação das
subjetividades acima descritas se acrescentará mais um dispositivo micropolítico de poder
que incidirá mais direta e veementemente nesta esfera e em seu uso instrumental na esfera
macropolítica. Para o cumprimento de tal tarefa, serão mais do que perfeitos os grosseiros
capangas do neoliberalismo com sua mentalidade infame e sua ânsia de massacrar todos
aqueles que não são seu espelho. É quando irrompe mais violentamente o surto
conservador.

Apela-se mais fanaticamente ainda à moral igrejista, familialista e identitária que, embora
presente desde o início no script do seriado, beira agora o delírio. Toma-se como alvo a
cultura em seu sentido amplo: das práticas artísticas, educacionais, terapêuticas e religiosas
(não cristãs) aos modos de existência que não se encaixam nas categorias machistas,
heteronormativas, homofóbicas, transfóbicas, racistas, classistas e xenofóbicas. Com ampla
divulgação pela mídia, certos tipos de práticas passam a ser associadas ao demônio, como o
eram nos séculos da Inquisição as práticas de mulheres que foram pejorativamente
chamadas de “bruxas”, qualificação que autorizava sua prisão, tortura e morte. (Isto, aliás,
continuou acontecendo após a Inquisição – são mais de um milhão de mulheres
assassinadas como bruxas desde então –, e continua se reproduzindo ainda hoje. Basta
lembrar que é à figura da bruxa que se associou Judith Butler para atacá-la em sua recente
visita ao Brasil. Chegou-se a queimar publicamente um boneco que a reproduzia em frente
ao SESC, uma das instituições culturais mais respeitadas do país na qual se realizava o
simpósio internacional que Butler ajudara a organizar). Tal dispositivo de manipulação das
subjetividades preparará o terreno para efetuar mudanças nas leis vigentes nestes campos.
Fiquemos em três exemplos, todos ocorridos no mesmo período (de meados ao final do
segundo semestre de 2017).

O primeiro é a arte: certas práticas artísticas – as que trazem à tona questões de gênero, de
sexualidade e de religião –, passam a ser desqualificadas e criminalizadas. Nesta operação
mata-se dois coelhos de uma cajadada só: demoniza-se as práticas ligadas a estas questões
que não se enquadram em suas formas dominantes e, com isso, demoniza-se igualmente a
dignidade ética da arte em seu exercício ativo da pulsão criadora, neutralizando assim sua
potência micropolítica. Tal potência consiste em tornar sensíveis as demandas da vida ao
ver-se sufocada nas formas vigentes de existência individual e coletiva, quando estas
perderam seu sentido pelos efeitos que os encontros com a alteridade mutante do entorno
produziram nos corpos. Materializadas em obras, estas demandas vitais teriam o poder de
contágio dos públicos que a elas têm acesso, o que tenderia a mobilizar a força coletiva de
transfiguração das formas da realidade e de transvaloração de seus valores. Atacar a arte é
atacar a possiblidade de irrupção social de tal força, dificultando ainda mais seu acesso
pelas subjetividades.

O segundo exemplo são os movimentos que performatizam mutações das subjetividades,


especialmente nos âmbitos da sexualidade e das relações de gênero (movimentos
feministas, LGBTQI, etc). A operação neste caso consiste em mobilizar a volta aos valores
da heterossexualidade monogâmica da família nuclear patriarcal como forma absoluta de
laço social e de erotismo (se é que faz sentido manter esta palavra neste caso). O objetivo é
interromper a propagação do processo pulsional de criação de novos modos de existir
nestes terrenos. Um processo que se desencadearia pela urgência da vida de recuperar sua
potência em tais terrenos, em cujas formas dominantes encontra-se debilitada.

O terceiro exemplo diz respeito aos negros e indígenas que, em diferentes proporções em
função dos circuitos do tráfico de escravos africanos, formam a maioria nas sociedades das
ex-colônias. Se o comportamento dominante em relação a estas camadas da população
sempre consistiu em sua humilhação e estigmatização – o que inclui suas tradições culturais
e, principalmente, a perspectiva que as conduz, segundo a qual estas atualizam-se em novas
formas em função do contexto –, agora tal comportamento se exibe publicamente com
orgulho, sem o menor pudor. No Brasil, isto se manifesta do lado dos negros na destruição
em série de terreiros de Candomblé: a associação ao demônio desta prática religiosa de
origem afro legitima os agentes de seu messacre, os quais o divulgam ampla e abertamente,
exibindo-se orgulhosamente nas redes de comunicação e informação. Do lado dos
indígenas, o alvo são suas terras, às quais estão indissociável e visceralmente vinculadas
suas tradições culturais (além do fato óbvio de promoverem seu sustento). Se a tomada das
terras que desde sempre lhes pertenceram nunca parou de existir desde o início da
colonização, a operação atual consiste na abolição das leis que haviam demarcado terras a
eles destinadas, seja das que lhes pertencem desde sempre, ou daquelas para onde foram
levados após as demarcações – leis cuja promulgação pela Constituição Cidadã, de 1988,
havia sido fruto de uma árdua luta das décadas anteriores. Agora é com o apoio da lei que
os empresários rurais expulsam os indígenas de suas terras. Na maioria dos casos, como
sempre, mata-se primeiro seus líderes, preparando assim o momento da expulsão da
comunidade inteira, momento em que, se necessário, apela-se para o genocídio.
Se no terceiro exemplo, o das tradições culturais africanas e indígenas, o objetivo destas
operações que compõem o golpe é mais obviamente macropolítico (a expropriação dos
terrenos do Candomblé e das terras indígenas, assim como o ataque aos movimentos negros
e indígenas que vêm se fortalecendo), basta colocá-lo lado a lado com os outros dois
exemplos de operações, simultaneamente em curso, para nos darmos conta de que há
igualmente neste dispositivo um objetivo mais sutil, micropolítico, indispensável para a
preparação da mudança de leis nos campos da educação, da saúde, do direito à posse de
terras e da preservação ambiental.

No campo da saúde é neste mesmo momento que deputados federais desenterram um


projeto de lei que visa incluir a homossexualidade entre as doenças a serem tratadas. Com o
hilário lema da “cura gay” se pretende legalizar terapias (psicológicas ou religiosas) cuja
função é transformar a orientação sexual de todos aqueles cujas práticas escapem das
categorias dominantes de gênero e sexualidade. Lembrando que já na década de 1990, a
Organização Mundial da Saúde (OMS) descartou qualquer projeto que associe a orientação
sexual a doença, e que no Brasil o Conselho Federal de Psicologia proibiu esta associação
em 1999 e o Conselho Federal de Medicina, há mais de 30 anos – é no mínimo
surpreendente, para não dizer estarrecedor, que a questão tenha voltado à baila no Brasil em
pleno ano de 2017, provocando uma acalorada polêmica. Mas é menos surpreendente o
retorno deste fantasma se o situarmos no universo de operações micropolíticas do roteiro do
golpe: desta perspectiva, o fato de que tal projeto de lei tenha sido descartado não impede
seu impacto como dispositivo micropolítico de poder que incide na produção de
subjetividade.

No campo da educação, durante as discussões no congresso em torno da nova Base


Nacional Comum Curricular (BNCC) demoniza-se nos currículos escolares qualquer
abordagem de temas como a política (o famoso lema: “Escola sem partido”), a identidade
de gênero, a orientação sexual e as culturas africanas e indígenas. Aprovada em dezembro
de 2017, na nova BNCC foram eliminados trechos que afirmavam a necessidade de um
ensino sem preconceitos. Mais especificamente, foram excluídos mais de dez trechos que
mencionavam as questões de gênero e sexualidade e eliminados da bibliografia textos que
abordassem a mitologia dos orixás, com o argumento de que seu conteúdo seria demoníaco.
Tais cortes do currículo escolar têm seu lastro nas operações micropolíticas mencionadas
nos dois exemplos anteriores (LGBTQI e negros e indígenas) e participam da construção da
mesma narrativa que agora tem nestas camadas da sociedade seu novo personagem vilão.

A mesma dimensão micropolítica das operações do poder neste campo está presente nos
cortes de verbas de educação e pesquisa nas universidades públicas, acima mencionados. Se
é fato que, historicamente, o acesso às universidades públicas no Brasil sempre foi
privilégio das classes mais abastadas – o que só começou a mudar nos governos petistas –,
o desmonte da própria universidade elitista denota que o golpe na educação não incide
apenas na esfera macropolítica, na qual seu objetivo óbvio é eliminar o recém-conquistado
acesso da grande maioria à educação. Seu objetivo micropolítico é enfraquecer o acesso à
informação e à formação intelectual na sociedade brasileira como um todo, o que tem por
efeito debilitar a potência do pensamento, essencial para decifrar as asfixias da vida em
suas formas presentes e combatê-las, criando novos cenários. Faz igualmente parte da
dimensão micropolítica do golpe na educação, os efeitos da nova lei trabalhista nas
universidades privadas. Se é óbvia a meta macropolítica da demissão em massa dos
professores – aumentar exponencialmente o lucro das empresas de educação, pagando
menos aos professores e baixando o valor pago pelos alunos de modo a aumentar sua
clientela –, sua meta é também micropolítica. Durante os governos petistas, com a melhora
de qualidade de vida das camadas sociais mais desfavorecidas, estas passaram a frequentar
universidades privadas. O objetivo micropolítico da demissão em massa dos professores
não foi apenas o de baixar a ainda mais a qualidade de educação que lhes era oferecida por
estas universidades, a coisa é mais perversa: tais universidades usaram a diminuição do
custo do estudo como foco de suas campanhas publicitárias, amplamente veiculadas quase
concomitantemente à tal demissão. De cunho incontestavelmente populista, a narrativa de
tais campanhas tem por efeito levar esta camada da sociedade a acreditar que o acesso à
educação teria sido ampliado. O mesmo discurso populista foi utilizado pelo governo
federal para legitimar sua Base Nacional Comum Curricular, em farta campanha
publicitária veiculada, várias vezes ao dia durante meses, por todos os meios de
comunicação.

No campo do direito à terra, que inclui as leis ambientais e as que concernem os indígenas,
no mesmo ano de 2017, o presidente Temer promulgou um decreto extinguindo a Reserva
Nacional do Cobre e Associados (Renca). Trata-se de uma área localizada entre o Pará e o
Amapá que abrange 4,2 milhões de hectares, criada no final da ditadura militar para evitar
que os minérios fossem explorados por empresas estrangeiras. Nesta reserva, vivem
algumas comunidades indígenas, além do fato de que o Renca se localiza no “Escudo das
Guianas”, área que envolve parte da Amazônia brasileira, a Venezuela e as Guianas. Neste
escudo se encontra a maior extensão de áreas protegidas do mundo, com menos de 1% de
desmatamento, além de aí viverem espécies que não existem em outros lugares do mundo.
Do ponto de vista macropolítico, tal decreto que visava contemplar os interesses da bancada
ruralista e abrir novas oportunidades de investimento para o capital internacional, foi um
fracasso. Temer foi levado a recuar pela pressão de sua enorme repercussão negativa
nacional e internacionalmente (principalmente por parte dos ambientalistas); tentou ainda
editar um novo Decreto com texto similar, mas este foi questionado pela Justiça e enfim
suspenso. Apesar do fracasso da operação na esfera macropolítica, fica nítido aqui que a
operação micropolítica da desqualificação das culturas indígenas visava, entre outros
objetivos, contribuir para seu sucesso. Mais amplamente, em tal decreto fica nítida a matriz
micropolítica do regime colonial-capitalístico: o abuso da vida – não só da vida humana,
nem da vida de uma região, mas do planeta como um todo.

O conservadorismo é imprescindível para o capitalismo financeiro globalitário

Agora, podemos esmiuçar mais precisamente a operação micropolítica da nova modalidade


de golpe própria do capitalismo financeiro globalitário e a razão pela qual para realizá-la
lhe é necessário insuflar o conservadorismo como um dispositivo essencial de poder. Na
primeira temporada a fragilidade das subjetividades, decorrente da desapropriação de sua
força de criação pelo abuso, é aguçada pela insegurança que lhes provoca a demonização
das esquerdas no governo e o fantasma da crise. Na segunda temporada a insegurança se
intensifica com a demonização das classes política e empresarial como um todo e o tom
mais veementemente apocalíptico em torno da crise econômica, à qual se acrescenta a crise
institucional que vem desagregando o Estado a olhos vistos. Isto faz com que as
subjetividades tendam a agarrar-se a qualquer promessa de estabilidade e segurança e
passem, por isso, a projetar seu mal-estar nas figuras de bode expiatório que desempenham
o papel de vilão no roteiro do golpe, das quais os mocinhos irão salvá-las. Porém, nos
episódios finais da segunda temporada, um passo a mais é dado na estratégia micropolítica.
Até então o papel de vilão era desempenhado pelos políticos acusados de corrupção para
que as subjetividades pudessem projetar seu mal-estar no Estado, assim como pelo
empresariado sobre o qual podiam projetar seu ódio de classe. Agora, a estigmatização de
modos de existência destoantes permite que se projete o mal-estar em segmentos da
sociedade, que já não podem ser simplesmente encaixados nas categorias de classe.

É a própria alteridade que passa então a ser demonizada, o que leva a reforçar mais
gravemente a já existente blindagem das subjetividades em relação à sua experiência vital.
É que sendo esta composta pelos efeitos do outro no corpo, tais efeitos, agora demonizados,
tornam-se perigosíssimos no imaginário e devem ser denegados a qualquer custo, para que
não se corra o risco de absorvê-los. Isso tem o poder de desmobilizar ainda mais a potência
de transfiguração da realidade coletiva, da qual a experiência de habitar a trama relacional
tecida entre distintos modos de existência seria portadora, se as rédeas do destino da pulsão
estivessem em nossas mãos. As condições estão dadas para que o desejo se entregue mais
plena e gozosamente ao abuso colonial-capitalístico da pulsão vital.

Em suma, nos episódios finais da segunda temporada do seriado do golpe, enquanto


intensifica-se a operação macropolítica de desmonte da constituição e da economia
nacional, intensifica-se igualmente a operação micropolítica de produção de subjetividades
entregues à cafetinagem do desejo. Com esta dupla operação indissociável, prepara-se a
sociedade para a terceira e última temporada: a tomada do poder político e econômico pelo
capitalismo globalitário. Ela estará enfim pronta para recebê-lo de braços abertos como o
salvador “civilizado” que saneará a economia de sua falência e reestabelecerá a dignidade
da vida pública, devolvendo ao país seu prestígio perdido e a serenidade a seus cidadãos.
Fim do seriado. Golpe concluído.

A máscara da legalidade democrática

Para chegar a este programado gran finale do seriado, é preciso eliminar todo e qualquer
tipo de estorvo que interrompa ou diminua a velocidade da circulação de capitais, de
informação e de subjetividades por vários lugares e funções. Os obstáculos podem ser
encontrados em qualquer rota do capital e são de ordens variadas e variáveis – pessoas,
grupos, instituições, serviços, postos de trabalho, fronteiras, países, leis, imaginários,
hábitos, modos de existência, etc. Sendo assim, eles não se encaixam em figuras fixas
organizadas em pares binários por oposição, o que torna obsoleta a figura do “inimigo”, tal
como ela se configura na tradição ocidental. Mas em seu jogo midiático perverso, o regime
usa esta figura, vestindo seus obstáculos com a máscara do vilão do seriado, para torná-los
alvo da vontade de destruição pelas massas. Isso dura um breve período, o tempo
necessário para tirá-los da frente; e, rapidamente, novos obstáculos ocuparão o lugar de
vilão.

O Estado de direito e o regime democrático estão entre os principais obstáculos


macropolíticos ao capitalismo financeirizado globalitário. Para eliminá-los usa-se a mesma
operação micropolítica que apela para a figura do inimigo; contudo, embora a operação
tenha a mesma lógica, neste caso invertem-se os papéis. Aqui os obstáculos ao regime (o
Estado de direito e a democracia) é que serão mascarados com o personagem do mocinho,
enquanto o papel de inimigo caberá a seus detratores, verdadeiros ou ficcionais; um papel
que no final da segunda temporada terá sido desempenhado por todos os protagonistas do
poder nacional, político e econômico (não financeirizado). É então que o capitalismo
transnacional apresenta-se como o único mocinho do planeta capaz de recuperar a
legalidade democrática – personagem com o qual o regime se mascara no seriado do golpe
de Estado, ocultando assim o fato de ser ele seu verdadeiro agente e que é precisamente
este tipo de Estado que ele visa destruir.

A composição da máscara de legalidade democrática é sutil e astuta. A segunda temporada


do seriado do golpe começa a ser veiculada pela mídia imediatamente após o final da
primeira. Os scripts são idênticos, só mudam os personagens que desempenham o papel de
vilões acusados de corrupção. Se, na primeira temporada, parte da sociedade brasileira
ainda conseguia ver que se tratava de um golpe cujo objetivo era aniquilar a imagem dos
políticos progressistas para tirá-los do poder, com a substituição dos protagonistas do papel
de vilão na segunda temporada, vence na maioria a ideia de que a expulsão dos governantes
progressistas havia sido uma ação imparcial e digna, visando a necessária moralização da
vida pública. Tal ideia consegue inclusive contaminar aqueles que têm menos acesso aos
direitos, parcela majoritária da população que havia sido favorecida pelos governos
progressistas e os sentia como seus aliados. Neste final da segunda temporada do seriado,
quando todos os políticos se tornam vilões, o inimigo passa a ser a própria política como
um todo e, portanto, o Estado de direito. Esta operação teria, em princípio, uma tripla
vantagem. A primeira é desacreditar o Estado em sua atual estrutura, democrática, para que
seja mais facilmente reestruturado segundo a agenda neoliberal. A segunda vantagem é a
despolitização da sociedade para que esta deixe de depositar em sua participação na
democracia o mediador da defesa de seus direitos civis, já que esta passou a ser vista como
intrinsecamente ligada à corrupção, onde todos são ladrões. O mais grave é que a
despolitização na esfera do estado de direito leva de roldão a pulsão social de uma luta
autônoma em relação ao Estado, seja ela macro ou micropolítica. A terceira vantagem é
tornar as subjetividades ainda mais frágeis para facilitar seu abuso.

Em síntese

O novo tipo de golpe, próprio do capitalismo neoliberal globalitário, consiste num


complexo conjunto de operações micro e macropolíticas, no qual pretende-se matar vários
coelhos numa cajadada só – todos os coelhos que atravessam as vias, concretas ou virtuais,
visíveis ou invisíveis, por onde circula o capital transnacional a cada momento. São eles: os
políticos de esquerda e o imaginário progressista a eles associado (pelas dificuldades que
impõem ao desmantelamento da constituição, às privatizações e à entrega do país ao capital
financeirizado transnacional e seus comparsas locais), os políticos de alma pré-republicana
e escravocrata (por seu arcaísmo nacionalista e identitário, sua ignorância e incompetência,
e seu péssimo hábito de precisar de um Estado inchado para mamar em suas tetas), os
líderes do empresariado industrial local (por manter investimentos na produção,
desperdiçando assim oportunidades de aplicá-los na especulação), os líderes do
empresariado nacional da construção das obras públicas (por impedir que o capital
transnacional se aproprie plenamente dos grandes negócios locais neste setor) e, por fim, o
próprio Estado em sua versão democrática e/ou nacionalista – tudo isso acompanhado
micropoliticamente do desvio da potência coletiva de ação pensante criadora que se
mobilizaria diante deste quadro intolerável.

Em síntese, a nova modalidade de golpe de Estado é, na verdade, não só um golpe contra a


democracia e, portanto, contra a sociedade (em sua esfera macropolítica), mas, mais
radicalmente ainda, é um golpe contra a própria vida – não só a vida humana, individual e
coletiva, mas a vida do planeta como um todo (esfera micropolítica). E o capitalismo
transnacional sai vitorioso e de mãos aparentemente limpas. Esta é, provavelmente, a
apoteótica cena prevista para o final do seriado do golpe.

Entretanto, dois possíveis efeitos do seriado não estavam previstos em seu script. Ambos
começam a manifestar-se no final da segunda temporada, em consequência da quebra do
feitiço que as acusações contra Lula haviam gerado na primeira temporada e, sobretudo, do
grau traumático a que chegou o desamparo em que se veem lançadas as subjetividades. São
distintas as estratégias do desejo que se mobilizam diante do trauma. Fiquemos apenas nos
dois polos extremos do amplo leque de tais estratégias, embora estas possam oscilar entre
várias posições, além do fato de que os processos de elaboração têm o poder de deslocar
posições iniciais. Num dos extremos, apelamos para estratégias defensivas que nos levam a
agarrar-nos de unhas e dentes ao status quo: uma resposta patológica por termos sucumbido
ao trauma, e que tem por efeito nos despotencializar. No outro extremo, amplia-se o
alcance de nossa mirada, o que nos permite ser mais capazes de acessar os efeitos
subjetivos da violência em nossos corpos, de sermos mais precisos em sua decifração e
expressão e mais aptos a inventar maneiras de combatê-la. Mobiliza-se então a força
criadora para transformar o status quo de modo que a pulsão vital cumpra seu destino ético:
esta é uma resposta saudável que ao nos proteger de sucumbir ao trauma, mantém nossa
potência e tende até a intensificá-la.

A primeira resposta, fruto de uma estratégia de desejo reativa, tende a gerar uma
identificação das subjetividades com os conservadores, o que as leva a apoiá-los com
euforia e fervor. Com o prolongamento da permanência dos conservadores nos governos na
segunda temporada e seu crescente apoio pelas massas, apoio insuflado pelas estratégias do
golpe, estes acabam sendo eleitos aos cargos legislativos, conseguindo assim estabelecer-se
efetivamente no poder. Mais grave ainda é quando se elegem ao cargo de presidente da
república, o que vem acontecendo em vários países. O exemplo mais significativo é o da
vitória do brutamontes Trump para a presidência dos Estados Unidos, bufão psicopata e
nacionalista ao extremo. É bom lembrar que o nacionalismo foi um dos elementos do
discurso populista dos capangas do capitalismo financeiro, usado por ele para a construção
da figura do “inimigo comum” que deve ser eliminado de cena, o que justifica e legitima o
golpe (as políticas europeias anti-migratórias e o virulento anti-europeísmo, fenômenos que
vem se manifestando atualmente, entram nesta mesma chave). Mas os capangas
conservadores nacionalistas deveriam ser descartados assim que o golpe estivesse
consumado: sua instalação no poder é o primeiro efeito colateral do seriado que não estava
previsto no roteiro.
Já a segunda resposta, fruto de uma estratégia de desejo ativa, gera a ascensão de uma nova
modalidade de resistência, que se cria coletivamente face à nova modalidade de poder. Este
é o segundo efeito colateral do seriado do golpe que tampouco estava previsto no roteiro.
Por ser portador de oxigênio para o ar mortífero que respiramos no presente, finalizemos
com alguns comentários acerca deste segundo fenômeno.

A nova modalidade de resistência

Passados os primeiros capítulos da segunda temporada, na qual se conseguira instaurar a


ilusão de que não se tratou de golpe, seus capítulos seguintes – onde se vê a destruição das
conquistas democráticas, a penalização da criação cultural e a desqualificação da política
como um todo – não terão o mesmo êxito. Cada vez mais gente, em mais setores sociais e
regiões do país, passa a se dar conta do sério risco que o poder globalitário do capitalismo
traz não só para a continuidade da vida da espécie humana, mas do planeta como um todo.
O sinal de alerta faz com que tenda a cair o véu de sua ilusão, tecido pelo abuso. Instaura-se
nas subjetividades um estado de urgência que as faz batalhar para abrir o acesso à
experiência subjetiva de nossa condição de viventes e retomar em suas mãos as rédeas da
pulsão. Isto leva o desejo a deslocar-se de sua entrega ao abuso e a agir no sentido de
transfigurar o presente, impedindo que a carnificina prossiga.

O fato de que, em sua nova dobra, fique mais escancarado que o capitalismo incide na
esfera micropolítica dá origem a uma nova modalidade de resistência: surge a consciência
de que a resistência tem que incidir igualmente nesta esfera. Isto aparece nos novos tipos de
movimento social que vêm desestabilizando aqui e acolá o poder mundial do capitalismo
financeirizado na determinação dos modos de existência que lhe são necessários. A
propagação deste tipo de resistência, que se intensificou após o tsunami dos ditos golpes de
Estado provocados pelo novo regime por toda parte, tem surgido principalmente entre as
gerações mais jovens e, mais contundentemente, nas periferias dos grandes centros urbanos.
Nestes contextos, destacam-se especialmente os citados movimentos das mulheres (numa
nova dobra do feminismo), dos LGBTQI (numa nova dobra das lutas no campo da
homossexualidade, transexualidade, etc, na qual estas se juntam em torno de alguns
objetivos e refinam suas estratégias) e, também, dos negros (numa nova dobra de suas lutas
anti-raciais). A estes movimentos somam-se as lutas por moradia e o combate dos
indígenas, cada vez mais amplo e articulado – em ambos, uma forte atuação na esfera
micropolítica agrega-se à sua tradicional atuação na macropolítica. Neste novo campo de
batalha, cada um destes movimentos ganha novas forças.

A irrupção destas novas estratégias de combate nos ajuda a ver que o horizonte do modo
tradicional de resistência das esquerdas tende a reduzir-se à esfera macropolítica e que esta
redução seria uma das causas de sua desorientação e impotência frente ao atual estado de
coisas. Tal entendimento tem o poder não só de nos tirar da paralisia melancólica fatalista à
qual nos faria sucumbir a sombria paisagem que nos rodeia, bem como de nosso
ressentimento com as esquerdas, mas também de nos permitir uma reaproximação das
mesmas. Isto pode ter por efeito um aprimoramento dos instrumentos de resistência em
ambas as esferas, micro e macropolítica.
O seriado do capitalismo financeirizado começa bem antes das três temporadas focadas em
seus golpes de Estado e, certamente, será bem longa sua terceira temporada, em cujo roteiro
parece estar prevista a instalação plena do poder globalitário do regime colonial-capitalista.
Seus efeitos serão delineados coletivamente nos embates entre diferentes forças das mais
reativas às mais ativas. Forças reativas que, em diferentes graus e escalas e com diferentes
tipos de expressão, promovem o abuso da vida em sua potência pulsional de criação – seja
atuando no personagem do vilão que abusa ou no da vítima que se deixa abusar. E forças
ativas que, em diferentes graus e escalas e com diferentes tipos de expressão, promovem
sua afirmação transfiguradora, dissolvendo tais personagens e, com eles, a cena em que
atuam. Ninguém é permanentemente ativo ou reativo, tais posições oscilam e se mesclam
ao longo da existência individual e coletiva. O que importa do lado das forças ativas é o
trabalho incansável que consiste em combater as forças reativas em nós mesmos e em nosso
entorno, cujo sucesso jamais estará garantido e tampouco será definitivo.

Impossível prever o desfecho (sempre provisório) deste embate em que estamos envolvidos
e que prosseguirá na terceira e última temporada do seriado. Mas há um alento no ar que
nos vem da experiência de liberação da pulsão das sequelas de seu abuso colonial-
capitalista. Apesar desta experiência ser relativamente recente, ela nos permite imaginar
outros cenários e agirmos em sua direção. Isso nos faz acreditar que é possível despoluir o
ar ambiente de sua poeira tóxica, pelo menos o suficiente para que a vida volte a fluir. O
tratamento de tal poluição é micropolítico: um trabalho coletivo de descolonização do
inconsciente, cujo foco são as políticas de produção de subjetividade que orientam o desejo
e as consequentes formações do inconsciente no campo social. Esta é a tarefa que nos
desafia no presente. Depois é depois: novas formas de existência se instalarão, com novas
tensões entre diferentes qualidades e intensidades de forças ativas e reativas e seus
confrontos, os quais convocarão novas estratégias de resistência, num combate sem fim
pela vida.

São Paulo, 2017/2018

P.S: Em 24 de janeiro de 2018, poucos dias após a finalização da escrita deste texto, Lula
foi praticamente excluído da vida pública, condenado à prisão por doze anos, quando
então terá 84 anos. “Praticamente”, porque embora ainda falte o recurso de seus
advogados a duas instâncias da Justiça, podemos prever que estas manterão as decisões de
condená-lo e legitimarão sua imediata prisão. Com isso, já podemos dizer que o golpe de
Estado “propriamente dito” foi bem sucedido. Mas o maldito seriado do golpe não termina
aqui: apesar do Estado propriamente dito ser um de seus objetos privilegiados, ele não é o
único. Terá sido a eliminação de Lula o último episódio de sua segunda temporada? Neste
caso, a partir de agora assistiríamos a sua terceira temporada: será seu roteiro próximo
ao que foi aqui anunciado? Haverá outras temporadas mais? Jogos de adivinhação não
são bem-vindos neste tipo de contexto. Além de não podermos prever exatamente seu
script, efeitos não previstos podem surpreender seus autores e a nós trazer alento, como já
vem acontecendo. Apesar do seriado ser ininterruptamente campeão de audiência, e o
golpe propriamente dito ter sido vitorioso, o tiro pode sair pela culatra. Isso fica mais uma
vez notório na reação da maioria da sociedade brasileira à condenação de Lula. Se sua
vitória foi celebrada pelas elites internacionais do capitalismo financeirizado, assim como
por suas elites locais, do lado de suas camadas expoliadas (a grande maioria), assim como
das camadas politizadas das classes médias, no Brasil e no exterior, a reação foi oposta.
Por ser claramente injusta e fruto de uma cruel armação, a condenação indignou tais
camadas e gerou um efeito bumerangue: reativou-se poderosamente a força da presença
de Lula em seu imaginário – no qual ele já vinha resgatando seu lugar de liderança digna,
mesmo entre aqueles que tem críticas a seu governo. Basta lembrar que se o seriado do
golpe, no início de sua primeira temporada, havia conseguido fazer com que os 80% de
aprovação de seu governo, baixassem para 12% de intenções de voto, na segunda
temporada seu número já passara a ser suficiente para que ele vencesse as eleições para a
presidência da república em 2018, provavelmente já no primeiro turno.

Mas, como sugere o texto em sua frase final, a história humana (como a do cosmos) nunca
chega ao fim. A ideia de fim, seja ele um gran finale ou o anúncio do apocalipse, é herdeira
da ideia nefasta de paraíso e de seu corolário, o inferno. São estes os dispositivos mais
antigos em nossa civilização para a instrumentalização da pulsão e a consequente
manipulação das subjetividades. Tais figuras encobrem a pulsão com um duplo véu de
equívocos costurados um ao outro. O primeiro véu-equívoco é o de que um dia a vida se
estabilizará definitivamente (seja – e não por acaso – após a morte ou seja nesta
existência, com os substitutos do par paraíso-inferno propostos na modernidade). Um véu
que encobre suas inevitáveis turbulências face à quais atuaria sua (em nós) vontade de
perseveração. O segundo véu-equívoco é de que só terão o privilégio deste suposto destino
da vida aqueles que entregarem as rédeas da pulsão a Deus (ou seus substitutos na
modernidade), os quais para merecê-lo terão que submeter-se às ordens da Igreja (ou de
seus substitutos na modernidade). Não há mais tempo a perder com nossa nefasta
submissão a tais ideias, próprias da redução do pensamento à esfera macropolítica.
Impõe-se a nós a exigência de nos livrarmos deste reducionismo na condução de nossas
estratégias de resistência, expandindo-as de modo a englobarem a esfera micropolítica.
Esta é a condição para ativarmos a imaginação criadora a fim de que oriente o desejo na
direção de ações efetivamente transfiguradoras.


* Com agradecimentos a Josy Panão, Paul Preciado, Pedro Taam, Maria Alves de Lima,
Rolf Abderhalden e Tício Escobar pelos ricos aportes trazidos em sua cuidadosa leitura
deste texto e a todos aqueles que tem se dedicado a decifrar a nova modalidade de golpe e
de poder do capitalismo contemporâneo.
[Título original: Un nuevo tipo de golpe: un espectáculo en tres temporadas]

Un paisaje siniestro se instauró en el planeta con la toma de poder mundial por el régimen
capitalista en su nuevo doblez financiero y neoliberal-, poder que lleva su proyecto colonial
a las últimas consecuencias, su realización globalitaria. En este contexto, el otro,
simultáneamente, también contribuye al aire tóxico del presente paisaje: el ascenso al poder
de fuerzas conservadoras por todas partes, cuyo contenido de violencia y barbarie nos
recuerda, para quedarnos sólo en el siglo XX, los años 1930 que precedieron a la segunda
guerra mundial y los años más recientes de regímenes dictatoriales, que se disolvieron a lo
largo de los años 1980 (es el caso, por ejemplo, de los regímenes militares de América del
Sur y el gobierno totalitario de la Unión Soviética). Como si tales fuerzas jamás hubieran
desparecido de hecho, pero sólo un retroceso estratégico temporal al acecho de condiciones
favorables para su vuelta triunfal.

Neoliberales y "neo" (?) Conservadores unidos! ¿Como asi?

A primera vista, la simultaneidad entre estos dos fenómenos nos parece paradójal: son
síntomas de fuerzas reactivas radicalmente distintas, así como son distintas sus tiempos
históricos. Además de las diferencias más obvias que consisten en el transnacionalismo de
unas y en el nacionalismo de las otras, el alto grado de complejidad, flexibilidad,
sofisticación y refinamiento perverso, propio del modo de existencia neoliberal y sus
estrategias de poder está a años luz del arcaísmo tacón y de la la rigidez de las fuerzas
abrumadas de este neoconservadurismo -cuyo prefijo "neo" sólo tiene sentido porque se
articula con condiciones históricas distintas de las anteriores. Si la convivencia entre estos
dos regímenes de poder turba nuestra comprensión, pasada la perplejidad inicial, va siendo
evidente que el capitalismo financieramente precisa de estas subjetividades rudes
temporalmente en el poder. Son como sus capangas que se incumben del trabajo sucio
imprescindible para la instalación de un Estado neoliberal: destruir todas las conquistas
democráticas y republicanas, disolver su imaginario y erradicar de la escena a sus
protagonistas -entre los cuales, prioritariamente, las izquierdas en todos sus matices .

Una coincidencia de intereses de neoconservadores y neoliberales en relación a este


objetivo específico permite su alianza temporal. La torpe subjetividad de estos (neo)
conservadores es arraigadamente clasista y racista, por no decir colonial y esclavista, lo que
los lleva a querer cumplir este papel, sin ninguna barrera ética y en una velocidad
vertiginosa. Cuando ni siquiera nos damos cuenta de una de sus golpes, otra ya está en vías
de suceder, generalmente decidida por el congreso en la calada de la noche. Además,
colabora para su interés en esta tarea el hecho de que ésta sea muy bien remunerada por el
poder ejecutivo. Este les ofrece en cambio abultos sumas de dinero para realizar proyectos
absurdos en sus regiones de origen y, con ello, ampliar su apoyo local. Se instaura un
campo de negociación entre el Congreso y el Ejecutivo, en el que los diputados, en posición
ventajosa, pueden chantajear a voluntad, exigiendo más y más dinero para cumplir su
función de capangas. El ejercicio de esta misión les proporciona un goce narcisista
perverso, a tal punto inescrupuloso, que llega a ser obsceno. A ese goce se añade la patética
exposición de su vanidad por tener de vuelta el poder en sus manos, lo que alimenta su
autoimagen de machos matones que ellos exhiben como si trajeran en la solapa arcaicos y
ridículos blasones. Mal saben que con su trabajo sucio, se prepara el terreno para el libre
flujo del capital transnacional, cuyos líderes, globales y locales, son los verdaderos señores
del poder y que los eliminarán de escena tan pronto se vuelven innecesarios. Es en este
escenario que se da el nuevo tipo de golpe, creado por la actual versión del capitalismo: una
serie que se desarrolla en tres temporadas.

Aunque el guión de la serie que se presentará se basará en su versión brasileña, este es muy
similar en sus versiones en la mayoría de los países de América Latina (habiendo sido la
primera en Paraguay en 2012). También trae elementos para abordarlo en sus demás
versiones en el resto del planeta, como en España, Polonia, Hungría, Austria y Rusia. Con
variaciones de matices para adaptarse a los diferentes contextos, la estrategia del nuevo tipo
de golpe de Estado tiende a ser la misma.

Ruta de la serie

En la primera temporada (que en Brasil comienza en 2005 con el "Mensalão"), se establece


una alianza entre, por un lado, los poderes Legislativo, Judicial y Policial y, por otro, el
empresariado nacional - más directa a activamente los grupos que tiene el poder de los
medios. La política y el derecho se encuentran plenamente integrados (lo que, por lo demás,
no es nuevo en Brasil). Los jueces involucrados en la operación del golpe manipulan
deprisa las reglas constitucionales existentes -o incluso las cambian si es necesario-, en
favor de los intereses políticos en el poder, los cuales no sólo comparten, pero tiene en su
defensa un papel central. Se condenan a prisión acusados sin prueba concreta (como es el
caso de Lula), mientras que son considerados inocentes o castigados con penas mucho más
leves, acusados sobre la base de pruebas escandalosas. No hay posibilidad alguna de prever
las sentencias según las reglas de la justicia democrática, propias de un Estado de derecho;
sólo se logra identificar los intereses políticos que las conducen, e incluso sin saber con
certeza cuáles serán sus estrategias para justificarlas.

Sostenidos por esta alianza y ocupando la mayoría en el Congreso Nacional, los capangas
del capitalismo financieramente dan el golpe que expulsa del gobierno a sus líderes más a
la izquierda. Se utiliza para demonizarlos no sólo denuncias de corrupción no comprobada
(es el caso de Lula), sino también su supuesta responsabilidad por la crisis económica del
país, que en realidad es sólo un síntoma local de la crisis mundial (es el caso de Rousseff ).
Pero el éxito de la serie no termina con la condena de varios dirigentes del PT y el proceso
de destrucción imaginaria democrática, que culminaron en el episodio destitución Dilma
(agosto de 2106). Una vez concluido este primer trabajo sucio y ya parcialmente destruido
este imaginario, comienza su segunda temporada. Aunque otros elementos tengan el papel
de reos a lo largo de la serie del golpe, el personaje demonizado continuará paralelamente a
ser protagonizado por los líderes de izquierda, principalmente los del Partido de los
Trabajadores, teniendo siempre a Lula como foco privilegiado. Su demonización atravesará
todos los episodios hasta el final de la segunda temporada de la serie, cuando se consumará
la farsa de la condena de Lula y su consiguiente exclusión del proceso electoral para
presidencia de la República.

Segunda temporada
En la segunda temporada de la serie del golpe, el foco será el indispensable desmonte de la
Constitución. Para prepararlo micropoliticamente el guión se centrará en hacer mucho más
aterrador fantasma de la crisis económica, así como intensificar la descalificación de la
imaginación progresiva, ya logrado parcialmente en la primera temporada. El desmonte de
la constitución se dará por medio de un nuevo conjunto de trabajos sucios a ser realizados
por los capangas. El primero será el bloqueo de gastos públicos: la Propuesta de Enmienda
a la Constitución, así llamada la "PEC del fin del mundo", promulgada en diciembre de
2016, congela los gastos públicos por veinte años bajo el argumento de la crisis económica.
Este bloqueo se centra en los subsidios para el desarrollo y en los fondos destinados a los
programas sociales, sobre todo a la educación y la salud. Además de desmontar leyes
promulgadas durante los gobiernos petistas que ampliaron el acceso a la educación ya la
salud de calidad para la mayoría de la población, el golpe desmontará igualmente la
universidad pública, a través de recortes de fondos de educación e investigación. El
segundo trabajo sucio consistirá en la indecente reforma laboral, que incluso incidirá en la
educación al alcanzar las universidades privadas (inmediatamente después de la
promulgación del cambio de tales leyes, varias de estas universidades dimitieron en masa a
sus profesores, sustituyendo por profesores con salarios miserables y sin derechos la mano
de obra). El tercero consistirá en las indecentes reformas del seguro social y de la previsión
y el cuarto, en la privatización de los bienes y empresas estatales más rentables, o que se
harán rentables por medio de arreglos espurios, para ampliar la lista de las privatizables
cultos. Y cuando esos capataces no consiguen la mayoría del Congreso para votar alguna
carta o ley necesaria para tal desmonte, condición para que el poder ejecutivo pueda
hacerlo, entrarán rápidamente en escena las agencias que tienen las mayores bases
mundiales de indicadores financieros, que lideran la evaluación del mercado global de
capitales y, por lo tanto, la clasificación de riesgo para las inversiones (como Standard &
Poor's y Moody's Corporation). Su operación consiste en rebajar las notas de la economía
brasileña o amenazar con hacerlo, lo que ofrece poderosa munición para que los cambios de
políticas públicas que aún sufren alguna resistencia en el propio Congreso sean finalmente
votados, bajo amenaza de quiebra del país (es lo que se está llevando a cabo en Brasil en
relación con la seguridad y que ya se ha producido en Europa, con Portugal, Grecia, Irlanda
y España, que recibió el acrónimo elocuentes "cerdos"). Y el estado de derecho tendrá tan
rápidamente destruido los elementos de la "res pública" o la democracia social que se
caracteriza por su arquitectura moderna (que, en Brasil, como en muchos países del
continente sudamericano, empezando a instalar- con los gobiernos progresistas post-
dictaduras, justamente los blancos del nuevo golpe). La intención es transformarlo, al final
de la serie, en Estado neoliberal, cuya función está estrictamente enfocada en lo que
interesa al capitalismo transnacional y sus cómplices de las élites locales: facilitar al
máximo la circulación de sus inversiones para crear condiciones ideales para la
multiplicación del capital invertido y lo más velozmente posible.

Mientras se desarrollan estas nuevas operaciones, los propios capangas del capitalismo
globalitario serán los próximos blancos de las denuncias de corrupción, preparándose el
terreno para su eyección tan pronto su tarea esté concluida. En la última temporada de la
serie del golpe, el nuevo régimen jugará a estos conservadores en la basura de la historia,
sin la menor constreñimiento. Esta es una primera diferencia en relación con los golpes de
Estado que se utilizaron del ejército: aunque éstos también fueron ejecutados por los
conservadores (en el caso, militares) y bajo el mando de los poderes hegemónicos del
capitalismo en su doblado anterior (en la época, principalmente en en ese contexto el
régimen necesitaba un Estado totalitario y, para ello, tenía que mantener a los
conservadores en el poder tras el golpe y por un largo período.

Paralelamente, aún en esta segunda temporada, mientras se introduce en la narrativa oficial


las denuncias de corrupción contra los políticos capangas, lo mismo se hace con el
empresariado nacional, incluyendo a los altos ejecutivos. Se ahorra en esta operación los
bancos, parte del empresariado ligada al capital financieramente y que incluso, en el mismo
momento, ha perdonado una parte significativa de sus deudas con el gobierno. Se trata
principalmente de las grandes empresas que, organizadas en carteles, monopolizan la
construcción de obras públicas, no sólo en Brasil, sino también en países aliados de los
recién depuestos gobiernos progresistas, sobre todo en los continentes latinoamericano y
africano que constituyen mercados prometedores. La permanencia en escena de esta parcela
del empresariado sólo interesa a los líderes del capitalismo globalitario mientras necesiten
su complicidad no sólo para la destrucción del imaginario de izquierda -y de la defensa de
las leyes democráticas que éste sostiene-, sino también para traer datos que, respaldan y
refuerzan la idea de que estamos ante un eminente colapso económico. Con este apoyo, se
crean condiciones favorables para las privatizaciones y el exterminio de tales leyes,
principalmente las que conciernen al trabajo. En lo que concierne al trabajo, en Brasil, esto
no se limitará a su precarización, pero llegará al cúmulo de legalizar condiciones avilantes
hasta entonces consideradas por la Constitución como definidoras del trabajo esclavo y
pasibles de castigo. Que se diga de paso: la decisión de legalizarlo confirma que tales
condiciones persisten hasta hoy y no sólo en las zonas rurales; basta con mencionar el trato
dado a los inmigrantes ilegales en la industria de la moda. El objetivo de apresurarse a
introducir a empresarios y altos ejecutivos como nuevos personajes villanos de la serie es
preparar el terreno para sacarlos del mando, principalmente de las obras públicas, tan
pronto como el derecho a las privatizaciones esté instituido.

Con esta doble expulsión -de políticos y empresarios- y ya habiendo instaurado en el país
una grave crisis institucional y económica, acentuada por la parálisis de las obras públicas
resultante de las prisiones de las figuras claves del empresariado nacional que las
comandaban, el terreno estará totalmente listo para la la llegada de las inversiones sin
trabas del capital transnacional. En esta segunda temporada de la serie, entre los
dispositivos del golpe son particularmente importantes las escenas del ring entre distintas
mafias de políticos sórdidos, así como entre ellos y las mafias del elegante empresariado.
"Premiados" por sus delaciones, se destruyen mutuamente ante la sociedad que, noche tras
noche, asiste perpleja al espectáculo grotesco del derrocamiento de ambos en las pantallas
de la televisión. A ese espectáculo se tiene acceso igualmente por las redes sociales que se
puede consultar en cualquier momento, así como por los periódicos, que parte de las clases
medias y altas leen al despertar. Con esta amplia e ininterrumpida divulgación, la atención
de toda la sociedad pasa a concentrarse en las espantosas imágenes y mensajes, escritas o
habladas, de negociaciones de fallas económicas y políticas, clandestinamente captadas en
llamadas telefónicas, correos electrónicos y grabaciones, así como en documentos
entregados por los delatores o encontrados por la policía en las devasas de sus oficinas y
residencias. Es un verdadero show de psicopatía que llega a ser divertido pues nos recuerda
a las más hilarantes películas B y sus cañones. La triste diferencia es que, en este caso, la
narrativa ficcional se basa en datos de la realidad. Si estos, por sí solos, provocarían una
total indignación, al ser debidamente editados en la construcción de la narrativa, cuya
función es preparar el terreno para el golpe, ellos tienen el poder de generar graves efectos
micropolíticos en las subjetividades: la propagación de la inseguridad y el miedo de
colapso.

¿Hay realmente algo nuevo en el uso de narraciones ficcionales por el poder?

Es verdad que no constituye novedad el uso por el capitalismo de la manipulación por el


discurso, sea verbal o imagético, por medio de la construcción de narrativas que demonizan
al enemigo de la hora, como estrategia micropolítica de poder para viabilizar y justificar sus
proyectos macropolíticos. Esta estrategia fue ampliamente usada por el régimen desde su
fundación (basta citar la catequesis, una versión de narrativa ficcional, en el modo palabras
de Dios, único y universal), habiendo mejorado con la llegada de los medios de
información y comunicación de masas, a finales del siglo XIX, que acompañó a la segunda
revolución industrial. En este contexto, además de haber sido un dispositivo central de las
estrategias de producción de subjetividad en el siglo XX, fue ampliamente usado por el
poder en los regímenes totalitarios, así como en la preparación de los golpes de Estado de
los años 1960 y 70. Pero el modo como se actualiza este dispositivo de poder no es
idéntico: aquí reside una segunda diferencia entre las dos versiones del régimen, industrial
y financiera.

El avance exponencial de las tecnologías de información y comunicación a distancia desde


finales de los años 1970, no sólo hizo su uso micro y macropolítico más sutil y poderoso,
pero fue lo que, en parte, viabilizó la propia conquista del poder globalitario por el
capitalismo, en su nuevo doblez. Las narrativas de propaganda realizadas por el capitalismo
industrial (igualmente diseñadas y financiadas por una alianza entre empresarios y
políticos) eran toscas, accesadas por la radio y la televisión (cuyo uso aumentó después de
la segunda guerra mundial), así como en los cines antes de las películas. Las nuevas
tecnologías de comunicación permitieron una mejora significativa de este dispositivo del
poder: la sofisticación de los lenguajes y de las técnicas de manipulación y publicidad (lo
que incluye un profundo cambio de la televisión), la multiplicación de los medios y el
alcance mundial de la divulgación de los mensajes en tiempo real. Si divulgar falsas
informaciones tampoco es novedad y forma parte de la composición de las narrativas
ficticias impuestas a las subjetividades, en el capitalismo financieramente dicho dispositivo
se perfecciona. Esto ha sido posible por el desarrollo tecnológico de los robots que
comienzan a actuar en Internet, la falsa noticia no sólo llamadas viralizam pero simular su
legitimidad con gustos infinitos producidos al instante por tales robots, lo que los hace
parecer masivamente aceptados, intensificando y extendiendo su credibilidad ilusoria.

Tampoco son los mismos en los dos contextos los focos privilegiados para producir temor e
inseguridad y movilizar la furia conservadora. En los años 1950 y 60 del capitalismo
industrial, el foco era el fantasma del comunismo propagado por la guerra fría: una
amenaza que encontraba respaldo en la reciente divulgación de los horrores totalitarios del
estalinismo, la cual traía de vuelta a la memoria de las masas los traumas provocados por el
nazismo y, el fascismo, cuyos efectos aún infectaban su subjetividad. Se proyecta ese
fantasma en los gobiernos con tendencias democratizantes (fue el caso de Jango, en Brasil),
proyección cuyos efectos en las masas preparó el terreno para los golpes de Estado en los
años 1960 y 70. Sin embargo, en los años 1990, las experiencias de gobiernos con
tendencia a la izquierda tras el fin de las dictaduras, movilizaron amplia identificación en
las capas más desfavorecidas de la sociedad -la gran mayoría-, ya no siendo posible
asociarlos al comunismo como un fantasma amenazador, y menos aún a su versión
totalitaria, añade el fin de la URSS y la caída del muro de Berlín. Es entonces esta
identificación que la dobla financiera del capitalismo necesitará destruir. Para lograrlo, se
elige la corrupción como foco para la demonización de las izquierdas en la narrativa a ser
construida y mediatizada. Si la acusación de corrupción ya ha sido y sigue siendo
ampliamente usada por el poder para eliminar a sus enemigos, usarla contra líderes de
izquierda tiene un adicional de eficacia: la destrucción de su imagen de honestidad y de una
sincera complicidad con la agenda social, de las principales virtudes que les son atribuidas
en el imaginario de los que con ellos se identifican, la cual los diferenciaba de los demás
políticos, que en el país son tradicionalmente asociados a la corrupción. En el caso
específico de Lula, asociarlo a la corrupción pretende destruir igualmente la imagen de que
su origen de clase garantizaría su complicidad con las causas sociales. La idea de que son
todos "harina del mismo saco" hace que a la inseguridad y al miedo, se añada la decepción,
generando una especie de apatía por agotamiento.

Pero el uso por el régimen colonial-capitalístico de estrategias micropolíticas para sostener


sus estrategias macropolíticas no se reduce a la propaganda. Esta es sólo una de sus
dispositivos micropolíticos modus operandi, que es mucho más amplio y complejo, con
desarrollos y cambios, es que practicaba desde su fundación en el siglo XV. Y tiene más:
éste es uno de los elementos fundamentales de su modalidad de poder.

Matriz micropolítica del poder colonial-capitalista: el abuso de la vida

La estrategia micropolítica del poder colonial-capitalista consiste en invertir en la


producción de una cierta política de subjetivación, matriz del régimen en esta esfera. Tal
política tiene como elemento fundamental el abuso de la vida como fuerza de creación y
transmutación, fuerza en la que reside su destino ético y la condición para su continuidad.
Esto incluye la potencia vital en todas sus manifestaciones y no sólo en los humanos,
siendo que en los humanos el abuso no se restringe a su manifestación como fuerza de
trabajo, como se pensaba en el marxismo. La intención del abuso es separar la subjetividad
de su potencia vital, obstruyendo su acceso a tal potencia y destituyendo así de su poder de
elección para conducirla, lo que la hace dócil y sumisa a los modos de existencia necesarios
al régimen ya su propia la exploración.

Sin embargo, en el nuevo doblez del régimen, la intervención en esta esfera se refina y se
intensifica. El abuso de la fuerza vital va más profundo: su propósito no es más
simplemente el de hacerla dócil y sumisa, como lo era en el capitalismo industrial en sus
primeras y segunda revoluciones. Por el contrario, la intención ahora es estimular esta
potencia y acelerar e intensificar su productividad, pero desviándose de su destino ético,
para convertir su naturaleza de fuerza de "creación" de nuevos modos de existencia en
respuesta a las demandas de la vida, en fuerza de "Creatividad", a ser invertida en la
composición de nuevos escenarios para la acumulación de capital (económico, político,
cultural y narcísico). En el lugar de la creación de lo nuevo, lo que se produce
(creativamente y cada vez más velozmente) son "novedades", las cuales multiplican las
oportunidades para las inversiones de capital y excitan la voluntad de consumo. Aunque
esta voluntad se ha movilizado desde el doble del régimen anterior, ahora encuentra a su
disposición una continua explosión de nuevos productos, cuyas imágenes -que le llegan
como bombas por todos lados, lanzadas por los medios de comunicación e información-,
alimentan sin cesar su compulsiva voracidad. Es decir, el poder vital comienza a ser
utilizado para la reproducción del statu quo; sólo se cambia, creativamente, sus piezas de
lugar o se hace variaciones sobre las mismas.

Si el nuevo tipo de golpe de Estado no hace uso de la fuerza militar, no es sólo porque
gobiernos rígidos, totalitarios y nacionalistas no le convienen. Además de estas razones
macropolíticas, hay razones micropolíticas que funcionan según la misma perspectiva:
tampoco le conviene la subjetividad rígida identitaria propia de regímenes autoritarios que
convenía al capitalismo industrial. El régimen capitalista anterior necesitaba cuerpos
dóciles que se mantuvieran sedentarios, cada uno fijo en su lugar, disciplinariamente
organizados (como los obreros en la fábrica). A diferencia de eso, el capitalismo
financieramente necesita de estas subjetividades flexibles y "creativas" que se amolden,
tanto en la producción y en el consumo, a los nuevos escenarios que el mercado no para
introducir. En otras palabras, el nuevo régimen necesita producir subjetividades que tengan
la maleabilidad de circular por varios lugares y funciones, acompañando la velocidad de los
desplazamientos continuos e infinitesimales de capital e información.

Esta es otra de las razones por las que no interesa al nuevo doblez del capitalismo el uso de
la fuerza militar en sus golpes de Estado; es con la fuerza del deseo que los realiza
micropoliticamente. Esto se hace por medio de la corrupción del deseo, mientras que sus
capataces hacen el servicio bruto en la esfera macropolítica. Es por esta misma razón que es
también micropoliticamente que no interesa al nuevo régimen mantener conservadores en
el poder tras los golpes de Estado, y mucho menos regímenes dictatoriales y nacionalistas.

El brote conservador

Volvamos a la serie del golpe. Más para el final de la segunda temporada, a la


manipulación de las subjetividades arriba descritas se añadirá otro dispositivo micropolítico
de poder que incidirá más directa y vehemente en esta esfera y en su uso instrumental en la
esfera macropolítica. Para el cumplimiento de tal tarea, serán más que perfectos los
groseros capangas del neoliberalismo con su mentalidad infame y su aflicción de masacrar
a todos aquellos que no son su espejo. Es cuando irrumpe más violentamente el brote
conservador.

Las llamadas son más fanáticamente incluso igrejista moral, familiar e identidad que,
aunque está presente desde el principio en el guión de la serie, ahora raya en delirio. Se
toma como objetivo la cultura en su sentido amplio: de las prácticas artísticas, educativas,
terapéuticas y religiosas (no cristianas) a los modos de existencia que no encajan en las
categorías machistas, heteronormaticas, homofóbicas, transfóbicas, racistas, clasistas y
xenofóbicas. Con amplia divulgación por los medios, ciertos tipos de prácticas pasan a ser
asociadas al demonio, como lo eran en los siglos de la Inquisición las prácticas de mujeres
que fueron peyorativamente llamadas "brujas", calificación que autorizaba su prisión,
tortura y muerte. (Esto, por lo demás, continuó sucediendo después de la Inquisición - son
más de un millón de mujeres asesinadas como brujas desde entonces -, y continúa
reproduciéndose aún hoy. Basta recordar que es a la figura de la bruja que se asoció a
Judith Butler para atacarla en que se ha convertido en una de las instituciones culturales
más respetadas del país en la que se realizaba el simposio internacional que Butler había
ayudado a organizar). Tal dispositivo de manipulación de las subjetividades preparará el
terreno para efectuar cambios en las leyes vigentes en estos campos. En tres ejemplos,
todos ocurrieron en el mismo período (de mediados al final del segundo semestre de 2017).

El primero es el arte: ciertas prácticas artísticas -las que traen a la luz cuestiones de género,
de sexualidad y de religión-, pasan a ser descalificadas y criminalizadas. En esta operación
se mata dos conejos de una cajadada sola: se demoniza las prácticas ligadas a estas
cuestiones que no se encuadran en sus formas dominantes y, con ello, se demoniza
igualmente la dignidad ética del arte en su ejercicio activo de la pulsión creadora ,
neutralizando así su potencia micropolítica. Tal potencia consiste en hacer sensibles las
demandas de la vida al verse sofocada en las formas vigentes de existencia individual y
colectiva, cuando éstas perdieron su sentido por los efectos que los encuentros con la
alteridad mutante del entorno produjeron en los cuerpos. Materializadas en obras, estas
demandas vitales tendrían el poder de contagio de los públicos que a ellas tienen acceso, lo
que tendería a movilizar la fuerza colectiva de transfiguración de las formas de la realidad y
de la transvaloración de sus valores. Atacar el arte es atacar la posibilidad de irrupción
social de tal fuerza, dificultando aún más su acceso por las subjetividades.

El segundo ejemplo son los movimientos que performatizan mutaciones de las


subjetividades, especialmente en los ámbitos de la sexualidad y de las relaciones de género
(movimientos feministas, LGBTQI, etc.). La operación en este caso consiste en movilizar la
vuelta a los valores de la heterosexualidad monogámica de la familia nuclear patriarcal
como forma absoluta de lazo social y de erotismo (si es que tiene sentido mantener esta
palabra en este caso). El objetivo es interrumpir la propagación del proceso pulsional de
crear nuevos modos de existir en estos terrenos. Un proceso que se desencadenaría por la
urgencia de la vida de recuperar su potencia en tales terrenos, en cuyas formas dominantes
se encuentra debilitada.

El tercer ejemplo se refiere a los negros e indígenas que, en diferentes proporciones en


función de los circuitos del tráfico de esclavos africanos, forman la mayoría en las
sociedades de las ex colonias. Si el comportamiento dominante en relación a estas capas de
la población siempre consistió en su humillación y estigmatización -lo que incluye sus
tradiciones culturales y, principalmente, la perspectiva que las conduce, según la cual éstas
se actualizan en nuevas formas en función del contexto - , ahora tal comportamiento se
exhibe públicamente con orgullo, sin el menor pudor. En Brasil, esto se manifiesta del lado
de los negros en la destrucción en serie de terreros de Candomblé: la asociación al demonio
de esta práctica religiosa de origen afro legitima a los agentes de su mito, los cuales lo
divulgan amplia y abiertamente, exhibiéndose orgullosamente en las redes de comunicación
e información. En el lado de los indígenas, el blanco son sus tierras, a las cuales están
indisociables y visceralmente vinculadas sus tradiciones culturales (además del hecho obvio
de promover su sustento). Si la toma de las tierras que desde siempre les pertenecen nunca
ha dejado de existir desde el inicio de la colonización, la operación actual consiste en la
abolición de las leyes que habían demarcado tierras a ellos destinadas, sea de las que les
pertenecen desde siempre, o de aquellas a donde fueron llevados después de las
demarcaciones - leyes cuya promulgación por la Constitución Ciudadana, de 1988, había
sido fruto de una ardua lucha de las décadas anteriores. Ahora es con el apoyo de la ley que
los empresarios rurales expulsan a los indígenas de sus tierras. En la mayoría de los casos,
como siempre, se mata primero a sus líderes, preparando así el momento de la expulsión de
la comunidad entera, momento en que, si es necesario, se apela al genocidio.

Si en el tercer ejemplo, el de las tradiciones culturales africanas e indígenas, el objetivo de


estas operaciones que componen el golpe es más obviamente macropolítico (la
expropiación de los terrenos del Candomblé y de las tierras indígenas, así como el ataque a
los movimientos negros e indígenas que se vienen fortaleciendo , basta colocarlo junto con
los otros dos ejemplos de operaciones, simultáneamente en curso, para darnos cuenta de
que hay también en este dispositivo un objetivo más sutil, micropolítico, indispensable para
la preparación del cambio de leyes en los campos de la educación de la salud, del derecho a
la tenencia de tierras y de la preservación ambiental.

En el campo de la salud es en este mismo momento que diputados federales desenterrar un


proyecto de ley que pretende incluir la homosexualidad entre las enfermedades a ser
tratadas. Con el hilario lema de la "curación gay" se pretende legalizar terapias
(psicológicas o religiosas) cuya función es transformar la orientación sexual de todos
aquellos cuyas prácticas escapan de las categorías dominantes de género y sexualidad. En la
década de 1990, la Organización Mundial de la Salud (OMS) descartó cualquier proyecto
que asocie la orientación sexual a la enfermedad, y que en Brasil el Consejo Federal de
Psicología prohibió esta asociación en 1999 y el Consejo Federal de Medicina, de 30 años -
es por lo menos sorprendente, por no decir estresante, que la cuestión haya vuelto a baila en
Brasil en pleno año de 2017, provocando una acalorada polémica. Pero es menos
sorprendente el retorno de este fantasma si lo situamos en el universo de operaciones
micropolíticas del guión del golpe: de esta perspectiva, el hecho de que tal proyecto de ley
haya sido descartado no impide su impacto como dispositivo micropolítico de poder que
incide en la producción de subjetividad .

En el campo de la educación, durante las discusiones en el congreso en torno a la nueva


Base Nacional Común Curricular (BNCC) se demuestra en los currículos escolares
cualquier abordaje de temas como la política (el famoso lema: "Escuela sin partido"), la
identidad de género , la orientación sexual y las culturas africanas e indígenas. Aprobada en
diciembre de 2017, en la nueva BNCC se eliminaron trechos que afirmaban la necesidad de
una enseñanza sin prejuicios. Más específicamente, fueron excluidos más de diez
fragmentos que mencionaban las cuestiones de género y sexualidad y eliminados de la
bibliografía textos que abordasen la mitología de los orixás, con el argumento de que su
contenido sería demoníaco. Tales cortes del currículo escolar tienen su lastre en las
operaciones micropolíticas mencionadas en los dos ejemplos anteriores (LGBTQI y negros
e indígenas) y participan en la construcción de la misma narrativa que ahora tiene en estas
capas de la sociedad su nuevo personaje villano.

La misma dimensión micropolítica de las operaciones del poder en este campo está
presente en los recortes de fondos de educación e investigación en las universidades
públicas, arriba mencionados. Si el hecho de que, históricamente, el acceso a las
universidades públicas en Brasil siempre fue privilegio de las clases más acomodadas -lo
que sólo empezó a cambiar en los gobiernos petistas-, el desmonte de la propia universidad
elitista denota que el golpe en la educación no incide sólo en la esfera macropolítica, en la
cual su objetivo obvio es eliminar el recién conquistado acceso de la gran mayoría a la
educación. Su objetivo micropolítico es debilitar el acceso a la información ya la formación
intelectual en la sociedad brasileña como un todo, lo que tiene por efecto debilitar la
potencia del pensamiento, esencial para descifrar las asfixias de la vida en sus formas
presentes y combatirlas, creando nuevos escenarios . También forma parte de la dimensión
micropolítica del golpe en la educación, los efectos de la nueva ley laboral en las
universidades privadas. Si es obvio la meta macropolítica de la dimisión masiva de los
profesores - aumentar exponencialmente el lucro de las empresas de educación, pagando
menos a los profesores y bajando el valor pagado por los alumnos para aumentar su
clientela, su meta es también micropolítica. Durante los gobiernos petistas, con la mejora de
calidad de vida de las capas sociales más desfavorecidas, éstas pasaron a frecuentar
universidades privadas. El objetivo micropolítico de la dimisión masiva de los profesores
no fue sólo el de bajar aún más la calidad de educación que les ofrecía estas universidades,
la cosa es más perversa: tales universidades usaron la disminución del costo del estudio
como foco de sus campañas publicitarias, ampliamente difundidas casi concomitantemente
a dicha dimisión. De cuño indiscutiblemente populista, la narrativa de tales campañas tiene
por efecto llevar esta capa de la sociedad a creer que el acceso a la educación habría sido
ampliado. El mismo discurso populista fue utilizado por el gobierno federal para legitimar
su Base Nacional Común Curricular, en una gran campaña publicitaria, varias veces al día
durante meses, por todos los medios de comunicación.

En el campo del derecho a la tierra, que incluye las leyes ambientales y las que conciernen
a los indígenas, en el mismo año de 2017, el presidente Temer promulgó un decreto
extinguiendo la Reserva Nacional del Cobre y Asociados (Renca). Se trata de un área
ubicada entre Pará y Amapá que cubre 4,2 millones de hectáreas, creada al final de la
dictadura militar para evitar que los minerales fueran explotados por empresas extranjeras.
En esta reserva, viven algunas comunidades indígenas, además del hecho de que el Renca
se ubica en el "Escudo de las Guianas", área que envuelve parte de la Amazonia brasileña,
Venezuela y las Guyanas. En este escudo se encuentra la mayor extensión de áreas
protegidas del mundo, con menos del 1% de deforestación, además de allí vivir especies
que no existen en otros lugares del mundo. Desde el punto de vista macropolítico, tal
decreto que pretendía contemplar los intereses de la bancada ruralista y abrir nuevas
oportunidades de inversión para el capital internacional, fue un fracaso. Temer fue llevado
a retroceder por la presión de su enorme repercusión negativa nacional e
internacionalmente (principalmente por parte de los ambientalistas); y que se ha convertido
en una de las más antiguas del mundo. A pesar del fracaso de la operación en la esfera
macropolítica, queda nítido aquí que la operación micropolítica de la descalificación de las
culturas indígenas pretendía, entre otros objetivos, contribuir a su éxito. Más ampliamente,
en tal decreto queda nítida la matriz micropolítica del régimen colonial-capitalista: el abuso
de la vida - no sólo de la vida humana, ni de la vida de una región, sino del planeta como un
todo.

El conservadurismo es imprescindible para el capitalismo financiero globalitario


Ahora podemos escurrir más precisamente la operación micropolítica de la nueva
modalidad de golpe propio del capitalismo financiero globalitario y la razón por la cual
para realizarla le es necesario insuflar el conservadurismo como un dispositivo esencial de
poder. En la primera temporada la fragilidad de las subjetividades, derivada de la
expropiación de su fuerza de creación por el abuso, es acentuada por la inseguridad que les
provoca la demonización de las izquierdas en el gobierno y el fantasma de la crisis. En la
segunda temporada la inseguridad se intensifica con la demonización de las clases política
y empresarial como un todo y el tono más vehemente apocalíptico en torno a la crisis
económica, a la que se añade la crisis institucional que viene a desgarrar el Estado a ojos
vistos. Esto hace que las subjetividades tiendan a aferrarse a cualquier promesa de
estabilidad y seguridad y pasar, por eso, a proyectar su malestar en las figuras de chivo
expiatorio que desempeñan el papel de villano en el itinerario del golpe, de las cuales los
muchachos las salvará. Pero en los episodios finales de la segunda temporada, un paso más
se da en la estrategia micropolítica. Hasta entonces el papel de villano era desempeñado por
los políticos acusados de corrupción para que las subjetividades pudieran proyectar su
malestar en el Estado, así como por el empresariado sobre el que podían proyectar su odio
de clase. Ahora, la estigmatización de modos de existencia destoantes permite que se
proyecte el malestar en segmentos de la sociedad, que ya no pueden ser simplemente
encajados en las categorías de clase.

Es la propia alteridad que pasa entonces a ser demonizada, lo que lleva a reforzar más
gravemente el ya existente blindaje de las subjetividades en relación a su experiencia vital.
Es que siendo ésta compuesta por los efectos del otro en el cuerpo, tales efectos, ahora
demonizados, se vuelven peligrosísimos en el imaginario y deben ser denegados a cualquier
costo, para que no se corra el riesgo de absorberlos. Esto tiene el poder de desmovilizar aún
más la potencia de transfiguración de la realidad colectiva, de la cual la experiencia de
habitar la trama relacional tejida entre distintos modos de existencia sería portadora, si las
riendas del destino de la pulsión estuvieran en nuestras manos. Las condiciones están dadas
para que el deseo se entregue más plena y gozosamente al abuso colonial-capitalístico de la
pulsión vital.

En suma, en los episodios finales de la segunda temporada de la serie del golpe, mientras se
intensifica la operación macropolítica de desmonte de la constitución y de la economía
nacional, se intensifica igualmente la operación micropolítica de producción de
subjetividades entregadas a la cafetería del deseo. Con esta doble operación indisociable, se
prepara la sociedad para la tercera y última temporada: la toma del poder político y
económico por el capitalismo globalitario. Ella estará finalmente lista para recibirlo de
brazos abiertos como el salvador "civilizado" que saneará la economía de su quiebra y
reestablecer la dignidad de la vida pública, devolviendo al país su prestigio perdido y la
serenidad a sus ciudadanos. Fin de la serie. Golpe concluido.

La máscara de la legalidad democrática

Para llegar a esta gran final programada del programa, usted tiene que eliminar cualquier
tipo de obstáculo para detener o ralentizar la circulación de capitales, la información y las
subjetividades de varios lugares y funciones. Los obstáculos se pueden encontrar en
cualquier ruta del capital y son de órdenes variadas y variables - personas, grupos,
instituciones, servicios, puestos de trabajo, fronteras, países, leyes, imaginarios, hábitos,
modos de existencia, etc. Siendo así, ellos no encajan en figuras fijas organizadas en pares
binarios por oposición, lo que hace obsoleta la figura del "enemigo", tal como se configura
en la tradición occidental. Pero en su juego mediático perverso, el régimen usa esta figura,
vistiendo sus obstáculos con la máscara del villano de la serie, para hacerlos blanco de la
voluntad de destrucción por las masas. Esto dura un breve período, el tiempo necesario para
sacarlos del frente; y, rápidamente, nuevos obstáculos ocuparán el lugar de villano.

El Estado de derecho y el régimen democrático están entre los principales obstáculos


macropolíticos al capitalismo financieramente globalitario. Para eliminarlos se usa la
misma operación micropolítica que apela a la figura del enemigo; sin embargo, aunque la
operación tiene la misma lógica, en este caso se invierten los papeles. Aquí los obstáculos
al régimen (el Estado de derecho y la democracia) es que serán enmascarados con el
personaje del chico, mientras que el papel de enemigo corresponderá a sus detractores,
verdaderos o ficcionales; un papel que al final de la segunda temporada habrá sido
desempeñado por todos los protagonistas del poder nacional, político y económico (no
financieramente). Es entonces que el capitalismo transnacional se presenta como el único
mocinho del planeta capaz de recuperar la legalidad democrática - personaje con el que el
régimen se enmascara en la serie del golpe de Estado, ocultando así el hecho de ser él su
verdadero agente y que es precisamente este tipo de Estado que pretende destruir.

La composición de la máscara de legalidad democrática es sutil y astuta. La segunda


temporada de la serie del golpe comienza a ser transmitida por los medios inmediatamente
después del final de la primera. Los guiones son idénticos, sólo cambian los personajes que
juegan el papel de villanos acusados de corrupción. Si, en la primera temporada, parte de la
sociedad brasileña aún conseguía ver que se trataba de un golpe cuyo objetivo era aniquilar
la imagen de los políticos progresistas para sacarlos del poder, con la sustitución de los
protagonistas del papel de villano en la segunda temporada, vence en la segunda, la
mayoría la idea de que la expulsión de los gobernantes progresistas había sido una acción
imparcial y digna, buscando la necesaria moralización de la vida pública. Tal idea logra
incluso contaminar a aquellos que tienen menos acceso a los derechos, parte mayoritaria de
la población que había sido favorecida por los gobiernos progresistas y los sentía como sus
aliados. En este final de la segunda temporada de la serie, cuando todos los políticos se
convierten en villanos, el enemigo pasa a ser la propia política como un todo y, por lo tanto,
el Estado de derecho. Esta operación tendría, en principio, una triple ventaja. La primera es
desacreditar al Estado en su actual estructura, democrática, para que sea más fácilmente
reestructurado según la agenda neoliberal. La segunda ventaja es la despolitización de la
sociedad para que ésta deje de depositar en su participación en la democracia al mediador
de la defensa de sus derechos civiles, ya que ésta pasó a ser vista como intrínsecamente
ligada a la corrupción, donde todos son ladrones. Lo más grave es que la despolitización en
la esfera del estado de derecho lleva de roldón a la pulsión social de una lucha autónoma en
relación al Estado, sea macro o micropolítica. La tercera ventaja es hacer las subjetividades
aún más frágiles para facilitar su abuso.

En síntesis
El nuevo tipo de golpe, propio del capitalismo neoliberal globalitario, consiste en un
complejo conjunto de operaciones micro y macropolíticas, en el que se pretende matar
varios conejos en una cajada única - todos los conejos que atraviesan las vías, concretas o
virtuales, visibles o invisibles, por donde circula el capital transnacional en cada momento.
Los políticos de izquierda y el imaginario progresista a ellos asociado (por las dificultades
que imponen al desmantelamiento de la constitución, a las privatizaciones ya la entrega del
país al capital financiero transnacional y sus comparsas locales), los políticos de alma pre-
republicana y esclavista (por su arcaísmo nacionalista e identitario, su ignorancia e
incompetencia, y su pésimo hábito de precisar un Estado hinchado para mamar en sus
tetas), los líderes del empresariado industrial local (por mantener inversiones en la
producción, desperdiciando así oportunidades de aplicarlos en la especulación), los líderes
del empresariado nacional de la construcción de las obras públicas (por impedir que el
capital transnacional se apropie plenamente de los grandes negocios locales en este sector)
y, finalmente, el propio Estado en su versión democrática y / o nacionalista - todo eso
acompañado micropoliticamente del desvío de la potencia colectiva de acción pensante
creadora que s y movilizará ante este cuadro intolerable.

En síntesis, la nueva modalidad de golpe de Estado es, en realidad, no sólo un golpe contra
la democracia y, por tanto, contra la sociedad (en su esfera macropolítica), pero, más
radicalmente, es un golpe contra la propia vida - no sólo la vida humana, individual y
colectiva, sino la vida del planeta como un todo (esfera micropolítica). Y el capitalismo
transnacional sale victorioso y de manos aparentemente limpias. Esta es probablemente la
apoteótica escena prevista para el final de la serie del golpe.

Sin embargo, dos efectos posibles de la serie no se proporcionaron en el script. Ambos


comienzan a manifestarse al final de la segunda temporada, como consecuencia de la
quiebra del hechizo que las acusaciones contra Lula habían generado en la primera
temporada y sobre todo del grado traumático al que llegó el desamparo en que se ven
lanzadas las subjetividades. Son distintas las estrategias del deseo que se movilizan ante el
trauma. En los dos extremos extremos del amplio abanico de estas estrategias, aunque éstas
pueden oscilar entre varias posiciones, además del hecho de que los procesos de
elaboración tienen el poder de desplazar posiciones iniciales. En un extremo, hacemos un
llamado a las estrategias defensivas que nos llevan a aferrarse con uñas y dientes a la
situación actual: una respuesta patológica a haber sucumbido al trauma, y cuyo efecto
sobre despotencializar. En el otro extremo, se amplía el alcance de nuestra mirada, lo que
nos permite ser más capaces de acceder a los efectos subjetivos de la violencia en nuestros
cuerpos, de ser más precisos en su desciframiento y expresión y más aptos para inventar
maneras de combatirla . Moviliza entonces el poder creativo para transformar el status quo
para que el impulso vital cumplir su destino ética: se trata de una respuesta saludable para
protegernos de sucumbir a un traumatismo, mantiene nuestro poder y tiende a
intensificarlo.

La primera respuesta, fruto de una estrategia de deseo reactivo, tiende a generar una
identificación de las subjetividades con los conservadores, lo que las lleva a apoyarlos con
euforia y fervor. Con la prolongación de la permanencia de los conservadores en los
gobiernos en la segunda temporada y su creciente apoyo por las masas, apoyo insuflado por
las estrategias del golpe, éstos acaban siendo elegidos a los cargos legislativos, logrando así
establecerse efectivamente en el poder. Más grave aún es cuando se elige al cargo de
presidente de la república, lo que viene sucediendo en varios países. El ejemplo más
significativo es el de la victoria del brutales Trump para la presidencia de Estados Unidos,
bufón psicópata y nacionalista al extremo. Es bueno recordar que el nacionalismo fue uno
de los elementos del discurso populista de los capangas del capitalismo financiero, usado
por él para la construcción de la figura del "enemigo común" que debe ser eliminado de
escena, lo que justifica y legitima el golpe (las políticas europeas anti-migratorias y el
virulento anti-europeísmo, fenómenos que se vienen manifestando actualmente, entran en
esta misma clave). Pero los capitanes conservadores nacionalistas deberían ser descartados
tan pronto como el golpe estuviese consumado: su instalación en el poder es el primer
efecto colateral de la serie que no estaba previsto en el guión.

La segunda respuesta, fruto de una estrategia de deseo activo, genera el ascenso de una
nueva modalidad de resistencia, que se crea colectivamente frente a la nueva modalidad de
poder. Este es el segundo efecto colateral de la serie del golpe que tampoco estaba previsto
en el guión. Por ser portador de oxígeno para el aire mortífero que respiramos en el
presente, finalizamos con algunos comentarios acerca de este segundo fenómeno.

La nueva modalidad de resistencia

Pasados los primeros capítulos de la segunda temporada, en la que se logró instaurar la


ilusión de que no se trató de golpe, sus capítulos siguientes - donde se ve la destrucción de
las conquistas democráticas, la penalización de la creación cultural y la descalificación de
la política como un todo - no tendrán el mismo éxito. Cada vez más gente, en más sectores
sociales y regiones del país, pasa a darse cuenta del serio riesgo que el poder globalitario
del capitalismo trae no sólo para la continuidad de la vida de la especie humana, sino del
planeta como un todo. La señal de alerta hace que tiende a caer el velo de su ilusión, tejido
por el abuso. Se instaura en las subjetividades un estado de urgencia que las hace batallar
para abrir el acceso a la experiencia subjetiva de nuestra condición de vivientes y retomar
en sus manos las riendas de la pulsión. Esto lleva el deseo de desplazarse de su entrega al
abuso ya actuar en el sentido de transfigurar el presente, impidiendo que la carnicería
prosiga.

El hecho de que, en su nuevo doblez, quede más abierto que el capitalismo incide en la
esfera micropolítica da origen a una nueva modalidad de resistencia: surge la conciencia de
que la resistencia tiene que incidir igualmente en esta esfera. Esto aparece en los nuevos
tipos de movimiento social que vienen desestabilizando aquí y acoña el poder mundial del
capitalismo financieramente en la determinación de los modos de existencia que le son
necesarios. La propagación de este tipo de resistencia, que se intensificó tras el tsunami de
los llamados golpes de Estado provocados por el nuevo régimen por todas partes, ha
surgido principalmente entre las generaciones más jóvenes y, más contundentemente, en las
periferias de los grandes centros urbanos. En estos contextos, destacan especialmente los
citados movimientos de las mujeres (en un nuevo doblez del feminismo), de los LGBTQI
(en un nuevo doblez de las luchas en el campo de la homosexualidad, transexualidad, etc.,
en la que éstas se juntan en torno a algunos objetivos y refuerzan sus objetivos estrategias)
y, también, de los negros (en un nuevo doblez de sus luchas anti-raciales). A estos
movimientos se suman las luchas por vivienda y el combate de los indígenas, cada vez más
amplio y articulado - en ambos, una fuerte actuación en la esfera micropolítica se agrega a
su tradicional actuación en la macropolítica. En este nuevo campo de batalla, cada uno de
estos movimientos gana nuevas fuerzas.

La irrupción de estas nuevas estrategias de combate nos ayuda a ver que el horizonte del
modo tradicional de resistencia de las izquierdas tiende a reducirse a la esfera macropolítica
y que esta reducción sería una de las causas de su desorientación e impotencia frente al
actual estado de cosas. Tal entendimiento tiene el poder no sólo de sacarnos de la parálisis
melancólica fatalista a la que nos haría sucumbir el sombrío paisaje que nos rodea, así
como de nuestro resentimiento con las izquierdas, pero también de permitirnos una
reaproximación de las mismas. Esto puede tener por efecto un perfeccionamiento de los
instrumentos de resistencia en ambas esferas, micro y macropolítica.

La serie del capitalismo financiado comienza bien antes de las tres temporadas enfocadas
en sus golpes de Estado y seguramente será muy larga su tercera temporada, en cuyo guión
parece estar prevista la instalación plena del poder globalitario del régimen colonial-
capitalista. Sus efectos serán delineados colectivamente en los embates entre diferentes
fuerzas de las más reactivas a las más activas. Fuerzas reactivas que, en diferentes grados y
escalas y con diferentes tipos de expresión, promueven el abuso de la vida en su potencia
pulsional de creación - sea actuando en el personaje del villano que abusa o en el de la
víctima que se deja abusar. Y fuerzas activas que, en diferentes grados y escalas y con
diferentes tipos de expresión, promueven su afirmación transfiguradora, disolviendo tales
personajes y, con ellos, la escena en que actúan. Nadie es permanentemente activo o
reactivo, tales posiciones oscilan y se mezclan a lo largo de la existencia individual y
colectiva. Lo que importa del lado de las fuerzas activas es el trabajo incansable que
consiste en combatir las fuerzas reactivas en nosotros mismos y en nuestro entorno, cuyo
éxito jamás estará garantizado y tampoco será definitivo.

No es posible predecir el resultado (siempre provisional) de este embate en el que estamos


involucrados y que proseguirá en la tercera y última temporada de la serie. Pero hay un
aliento en el aire que nos viene de la experiencia de liberación de la pulsión de las secuelas
de su abuso colonial-capitalista. A pesar de que esta experiencia es relativamente reciente,
nos permite imaginar otros escenarios y actuar en su dirección. Esto nos hace creer que es
posible despejar el aire ambiente de su polvo tóxico, al menos lo suficiente para que la vida
vuelva a fluir. El tratamiento de tal contaminación es micropolítico: un trabajo colectivo de
descolonización del inconsciente, cuyo foco son las políticas de producción de subjetividad
que orientan el deseo y las consecuentes formaciones del inconsciente en el campo social.
Esta es la tarea que nos desafía en el presente. Después es después: nuevas formas de
existencia se instalarán, con nuevas tensiones entre diferentes calidades e intensidades de
fuerzas activas y reactivas y sus enfrentamientos, los cuales convocarán nuevas estrategias
de resistencia, en un combate sin fin por la vida.

San Pablo, 2017/2018

PD: El 24 de enero, 2018, pocos días después de la finalización de la redacción de este


texto, Lula fue prácticamente excluida de la vida pública, condenado a prisión por doce
años, cuando tendrá 84 años. "Prácticamente", porque aunque aún falte el recurso de sus
abogados a dos instancias de la Justicia, podemos prever que éstas mantendrán las
decisiones de condenarlo y legitimar su inmediata prisión. Con eso, ya podemos decir que
el golpe de Estado "propiamente dicho" fue exitoso. Pero el maldito seriado del golpe no
termina aquí: a pesar de que el Estado propiamente dicho es uno de sus objetos
privilegiados, no es el único. ¿Ha sido la eliminación de Lula el último episodio de su
segunda temporada? En este caso, a partir de ahora veríamos su tercera temporada: ¿será
su guión cercano al que se anunció aquí? ¿Habrá otras temporadas más? Los juegos de
adivinación no son bienvenidos en este tipo de contexto. Además no podemos predecir con
exactitud la secuencia de comandos, efectos imprevistos pueden sorprender a los autores y
traer aliento para nosotros, como ya está sucediendo. A pesar de que el serio es
ininterrumpidamente campeón de audiencia, y el golpe propiamente dicho ha sido
victorioso, el tiro puede salir por la culata. Esto se vuelve una vez notorio en la reacción
de la mayoría de la sociedad brasileña a la condena de Lula. Si su victoria fue celebrada
por las élites internacionales del capitalismo financieramente, así como por sus elites
locales, del lado de sus capas expoliadas (la gran mayoría), así como de las capas
politizadas de las clases medias, en Brasil y en el exterior, la reacción fue opuesta . Por ser
claramente injusta y fruto de un cruel armazón, la condena indignó tales capas y generó un
efecto boomerang: se reactivó poderosamente la fuerza de la presencia de Lula en su
imaginario - en el cual él venía rescatando su lugar de liderazgo digno, incluso entre los
que tienen críticas a su gobierno. Basta recordar que si la serie del golpe, al inicio de su
primera temporada, había logrado hacer que el 80% de aprobación de su gobierno,
bajaran al 12% de intenciones de voto, en la segunda temporada su número ya era
suficiente para que vencer las elecciones a la presidencia de la república en 2018,
probablemente ya en la primera vuelta.

Pero, como sugiere el texto en su frase final, la historia humana (como la del cosmos)
nunca llega a su fin. En mi opinión, ya sea un final de gran o el anuncio Apocalipsis es
heredera de la idea nefasta del paraíso y su corolario, el infierno. Son estos los
dispositivos más antiguos en nuestra civilización para la instrumentalización de la pulsión
y la consiguiente manipulación de las subjetividades. Tales figuras encubren la pulsión con
un doble velo de equívocos cosidos uno al otro. El primer velo-equívoco es el de que un día
la vida se estabilizará definitivamente (sea -y no por casualidad-después de la muerte o sea
en esta existencia, con los substitutos del par paraíso-infierno propuestos en la
modernidad). Un velo que encubre sus inevitables turbulencias frente a las cuales actuaría
su (en nosotros) voluntad de perseveración. El segundo velo-equívoco es que sólo tendrán
el privilegio de este supuesto destino de la vida aquellos que entreguen las riendas de la
pulsión a Dios (o sus substitutos en la modernidad), los cuales para merecerlo tendrán que
someterse a las órdenes de la Iglesia (o, o de sus substitutos en la modernidad). No hay
más tiempo que perder con nuestra nefasta sumisión a tales ideas, propias de la reducción
del pensamiento a la esfera macropolítica. Se impone a nosotros la exigencia de librarnos
de este reduccionismo en la conducción de nuestras estrategias de resistencia,
expandiéndolas para englobar la esfera micropolítica. Esta es la condición para activar la
imaginación creadora a fin de que oriente el deseo en la dirección de acciones
efectivamente transfiguradoras.

-
* Con agradecimientos a Josy Panão, Paul Preciado, Pedro Taam, María Alves de Lima,
Rolf Abderhalden y Ticio Escobar por los ricos aportes traídos en su cuidadosa lectura de
este texto ya todos aquellos que se han dedicado a descifrar la nueva modalidad de golpe y
de poder del capitalismo contemporáneo.