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ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

EMAP



















Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

SUMÁRIO

SUMÁRIO .............................................................................................. 2
1. RAIO-X DOS EXAMINADORES ......................................................... 7
1.1. Desembargador Lauri Caetano Da Silva (Presidente), ................... 7
1.2. Desembargador Vicente del Prete Misurelli, ................................. 8
1.3. Desembargador Luís Carlos Xavier ................................................ 8
1.4. Doutora Elizabeth Maria de França Rocha e ................................ 10
1.5. Desembargador Luiz Cezar Nicolau (suplente), ........................... 10
1.6. (OAB) Doutor Alexandre Hellender de Quadros (titular) ............. 11
1.7. (OAB) Doutora Estefânia Maria de Queiroz Barboza (suplente) .. 12
2. JULGADOS DOS EXAMINADORES................................................. 14
2.1. Lauri Caetano Da Silva ................................................................. 14
2.1.1. REVISIONAL DE COMPROMISSO DE COMPRA E VENDA ...................... 14
2.1.2. EMBARGOS MONITÓRIOS – CAUSA MADURA ...................................... 27
2.1.3. CDC – COMPRA E VENDA DE VEÍCULO ZERO – VÍCIO DE QUALIDADE
............................................................................................................................. 30
2.1.4. CONTRATO DE CORRETAGEM ............................................................... 39
2.1.5. COMPROMISSO DE COMPRA E VENDA – RESCISÃO CONTRATUAL E
REINTEGRAÇÃO DE POSSE ............................................................................... 53
2.1.6. AÇÃO DEMARCATÓRIA E EXCEÇÃO DE USUCAPIÃO .......................... 64
2.1.7. COMISSÃO DE CORRETAGEM – DÚVIDA SOBRE O CREDOR ............... 73
2.1.8. DECLARATÓRIA DE ADIMPLEMENTO C/C IMISSÃO NA POSSE ........... 80
2.1.9. REVISIONAL DE CÉDULA DE CRÉDITO BANCÁRIO – JUROS
COMPOSTOS ...................................................................................................... 93
2.1.10. LEASING – AUSÊNCIA DO CONTRATO REVISANDO ........................... 99
2.1.11. RESCISÃO DE CONTRATO DE COMPRA E VENDA DE
ESTABELECIMENTO COMERCIAL ................................................................... 104
2.1.12. USO INDEVIDO DE MARCA - DUDALINA ............................................ 109
2.1.13. CÉDULA DE CRÉDITO BANCÁRIO – COMISSÃO DE PERMANÊNCIA
........................................................................................................................... 120
2.1.14. EXIBIÇÃO DE DOCUMENTOS E PRODUÇÃO ANTECIPADA DE
PROVAS ............................................................................................................. 130
2.1.15. REVISIONAL BANCÁRIA – TARIFAS DE CONTRATAÇÃO ................... 134
2.1.16. DESCABIMENTO DE CONDENAÇÃO EM HONORÁRIOS – CAUSÍDICO
QUE NÃO PROVOCOU O RESULTADO........................................................... 139
2.1.17. AÇÃO PETITÓRIA APÓS AÇÃO POSSESÓRIA IMPROCEDENTE ........ 141
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2.1.18. CDC – COMPRA E VENDA DE VEÍCULO USADO ................................ 145


2.1.19. REVISIONAL BANCÁRIA – INEXISTÊNCIA DE ABSUIVIDADE DURANTE
O PERÍODO DE EXECUÇÃO DO CONTRATO - MORA DO DEVEDOR .......... 153
2.1.20. BUSCA E APREENSÃO EM ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA –
CONSOLIDAÇÃO DA PROPRIEDADE NAS MÃOS DO CREDOR.................... 157
2.1.21. DEVOLUÇÃO DO VRG ......................................................................... 160
2.1.22. DECLARATÓRIA DE QUITAÇÃO – NOVAÇÃO CONTRATUAL ........... 166
2.1.23. ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA – IMPUTAÇÃO AO PAGAMENTO .............. 170
2.1.24. CHEQUE – AÇÃO DE ENRIQUECIMENTO ILÍCITO ............................. 175
2.1.25. PROCESSO ADMINISTRATIVO MOVIDO PELA UNIMED CONTRA
MÉDICO COOPERADO – DANO MORAL ........................................................ 180
2.1.26. RECUPERAÇÃO JUDICIAL E ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA....................... 186
2.2. Vicente del Prete Misurelli ......................................................... 190
2.2.1. DANOS MORAIS – INSCRIÇÃO DEVIDA – DANO NÃO CONFIGURADO
........................................................................................................................... 190
2.2.2. RESPONSABILIDADE CIVIL DO LOCADOR – AUSÊNCIA DE PROVAS . 193
2.2.3. ACIDENTE AUTOMOBILÍSTICO – CAUSA PRIMÁRIA E DETERMINANTE
........................................................................................................................... 196
2.2.4. ACIDENTE AUTOMOBILÍSTICO – VÍTIMA FATAL – “CHAPA”
CONTRATADO PELO MOTORISTA ................................................................. 203
2.2.5. RESPONSABILIDADE SECURITÁRIA HABITACIONAL ........................... 206
2.2.6. ACIDENTE EM RODOVIA SOB CONCESSÃO – DANOS MORAIS ........ 212
2.2.7. DPVAT – PAGAMENTO PARCIAL ........................................................... 217
2.2.8. ACIDENTE – QUEDA EM ESTABELECIMENTO EMPRESARIAL –
CAUSALIDADE ADEQUADA............................................................................. 219
2.2.9. ACIDENTE – ATROPELAMENTO DE ANIMAL POR MOTOCICLETA –
RESPONSABILIDADE DO DONO DO ANIMAL................................................ 222
2.2.10. ACIDENTE AUTOMOBILÍSTICO – DISCUSSÃO ENTRE OS
ENVOLVIDOS – APEDREJAMENTO DO CARO DE UM DELES – MERO
DISSABOR ......................................................................................................... 225
2.2.11. SEGURO FINANCIAMENTO AGRÍCOLA – FRUSTRAÇÃO DE SAFRA –
DEBATE SOBRE A PRODUTIVIDADE ............................................................... 227
2.2.12. INVALIDEZ PERMANENTE – LER-DORT ............................................... 230
2.2.13. ESPERA EM FILA DE BANCO – INEXISTÊNCIA DE DANO MORAL .... 234
2.2.14. OSCILAÇÃO DE ENERGIA E DANOS A EQUIPAMENTO ELETRÔNICO
........................................................................................................................... 236
2.2.15. RESPONSABILIDADE CIVIL DA EMPRESA E DO EMPREGADO –
PENSIONAMENTO ........................................................................................... 239
2.2.16. SEGURO PRESTAMISTA ....................................................................... 243
2.2.17. TAXAS CONDOMINIAIS E O DEVER DE PAGAMENTO ...................... 246
2.2.18. ACIDENTE AUTOMOBILÍSTICO E CULPA CONCORRENTE ............... 250
2.2.19. DANOS CAUSADOS POR ADVOGADO EM DEMANDA – PERDA DE
UMA CHANCE .................................................................................................. 254

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2.2.20. PLANO DE SAÚDE – TERAPIA OCUPACIONAL ................................... 258


2.2.21. RESPONSABILIDADE ODONTOLÓGICA – TRATAMENTO
INTERROMPIDO PELO PACIENTE ................................................................... 261
2.2.22. CONTRATAÇÃO DE FINANCIAMENTO POR ESTELIONATÁRIO –
TEORIA DO RISCO............................................................................................ 264
2.2.23. QUEDA NO INTERIOR DO ÔNIBUS – RESPONSABILIDADE DO
TRANSPORTADOR............................................................................................ 268
2.2.24. RESPONSABILIDADE CIVIL DA IMPRENSA – IMPUTAÇÃO DE
ADOLESCENTE COMO LADRÃO..................................................................... 274
2.2.25. RESPONSABILIDADE CIVIL AEROVIÁRIO – FORÇA MAIOR................ 277
2.2.26. PLANO DE SAÚDE – FORNECIMENTO DE MEDICAMENTO ............. 279
2.2.27. OBESIDADE MÓRBIDA – NEGATIVA DE COBERTURA ....................... 282
2.3. Luís Carlos Xavier ....................................................................... 286
2.3.1. REVISÃO CRIMINAL – ALTERAÇÃO DA PENA DE OFÍCIO ................... 286
2.3.2. REINCIDÊNCIA E FIXAÇÃO DE REGIME DE PENA MAIS GRAVOSO ... 296
2.3.3. CRIME AMBIENTAL – SUPRESSÃO DE ARAUCÁRIAS............................ 298
2.3.4. EMBRIAGUEZ AO VOLANTE E DIREÇÃO SEM HABILITAÇÃO ............. 303
2.3.6. POSSE DE ARMA DE FOGO – INEXISTÊNCIA DE ESTADO DE
NECESSIDADE – CRIME POSTERIOR QUE NÃO PODE SER UTILIZADO PARA
CONFIGURAR MAUS ANTECEDENTES ........................................................... 316
2.3.7. HC – PRISÃO PREVENTIVA – EXISTÊNCIA DE FILHOS MENORES –
PEDIDO DE PRISÃO DOMICILIAR .................................................................... 320
2.3.8. ABSOLVIÇÃO SUMÁRIA ......................................................................... 325
2.3.9. SONEGAÇÃO DE AUTOS....................................................................... 344
2.3.10. ATO INFRACIONAL – ROUBO CIRCUNSTANCIADO E SEQUESTRO
QUALIFICADO .................................................................................................. 349
2.3.11. EXECUÇÃO PENAL ANTECIPADA – ABSOLVIÇÃO EM PRIMEIRO GRAU
E CONDENAÇÃO EM SEGUNDO GRAU – IMPOSSIBILIDADE ....................... 355
2.3.12. PECULATO-DESVIO – ABSOLVIÇÃO – ATIPICIDADE .......................... 358
2.3.13. RECEPTAÇÃO, ADULTERAÇÃO DE SINAL IDENTIFICADOR,
CORRUPÇÃO ATIVA ......................................................................................... 382
2.3.14. ATO INFRACIONAL – UTILIZAÇÃO DE PROVA EMPRESTADA ........... 390
2.3.15. CALÚNIA – ANIMUS JOCANDI – ABSOLVIÇÃO .................................. 400
2.3.16. FIXAÇÃO INDENIZAÇÃO MÍNIMA – PEDIDO MINISTERIAL NAS
ALEGAÇÕES FINAIS ......................................................................................... 405
2.3.17. INDENIZAÇÃO MÍNIMA – NECESSIDADE DE CONTRADITÓRIO SOBRE
O VALOR (JULGADO DE 2015) ........................................................................ 415
2.3.18. PECULATO – CRIME CONTINUADO – CRITÉRIO PARA EXASPERAÇÃO
........................................................................................................................... 421
2.3.19. RECEPTAÇÃO E USO DE DOCUMENTO FALSO – DESIGNIOS
AUTÔNOMOS – CONCURSO MATERIAL ........................................................ 439
2.3.20. MAUS ANTECEDENTES – CRIME ANTERIOR COM TRÂNSITO EM
JULGADO POSTERIOR ..................................................................................... 448

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2.3.21. REINCIDÊNCIA – EXASPERAÇÃO ACIMA DE 1/6 – AUSÊNCIA DE


FUNDAMENTAÇÃO ......................................................................................... 463
2.3.22. CIRCUNSTÂNCIAS JUDICIAIS – CRITÉRIO DE 1/6 DE EXASPERAÇÃO
POR CIRCUNSTÂNCIA – PEDIDO DA DEFESA ................................................ 473
2.3.23. EMBRAGUEZ AO VOLANTE – VERIFICAÇÃO POR OUTROS MEIOS .. 500
2.4. Elizabeth Maria de França Rocha ............................................... 506
2.4.1. CONTRATO DE ABERTURA DE CRÉDITO EM CONTA CORRENTE ..... 506
2.4.2. AÇÃO DE PRESTAÇÃO DE CONTAS E REVISÃO DE CLÁUSULAS
CONTRATUAIS.................................................................................................. 510
2.4.3. CONTRATO DE EMPRÉSTIMO – FIADOR – MORA – TAXA DE JUROS
PACTUADA ....................................................................................................... 517
2.4.4. CONTRATO DE ABERTURA DE CRÉDITO EM CONTA CORRENTE –
CAPITALIZAÇÃO DE JUROS NÃO PACTUADA ............................................... 529
2.4.5. EMBARGOS À EXECUÇÃO – ESPÓLIO – LEGITIMIDADE ..................... 539
2.4.6. DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA DE DÉBITO – ERRO NO VALOR
APONTADO – HÁ DÍVIDA EM VALOR DISTINTO ............................................ 543
2.4.7. DECLARATÓRIA INEXISTÊNCIA DE DÉBITO – CDC –
RESPONSABILIDADE OBJETIVA AFASTADA – CULPA EXCLUSIVA DA VÍTIMA
........................................................................................................................... 546
2.4.8. PRINCÍPIO DA DIALETICIDADE.............................................................. 552
2.4.9. CUMPRIMENTO DE SENTENÇA TÍTULO EXECUTIVO JUDICIAL DE
OUTRO ESTADO – ILEGITIMIDADE ATIVA ...................................................... 555
2.4.10. PRESCRIÇÃO INTERCORRENTE........................................................... 560
2.4.11. BUSCA E APREENSÃO – FALECIMENTO RÉU ANTES DE AJUIZADA A
AÇÃO ................................................................................................................ 566
2.4.12. CONSIGNAÇÃO EM PAGAMENTO ..................................................... 569
2.4.13. DECLARATÓRIA DE QUITAÇÃO DE DÉBITO E INDENIZAÇÃO POR
DANOS MORAIS ............................................................................................... 572
2.4.14. CUMPRIMENTO DE SENTENÇA – AÇÃO CIVIL PÚBLICA – PRESCRIÇÃO
........................................................................................................................... 577
2.4.15. HONORÁRIOS PERICIAIS – ACORDO NOS AUTOS – ASSISTÊNCIA
JUDICIÁRIA GRATUITA ..................................................................................... 580
2.4.16. EMBARGOS À ARREMATAÇÃO ........................................................... 583
2.4.17. CAUTELAR DE EXIBIÇÃO DE DOCUMENTOS – AUSÊNCIA DE
REQUERIMENTO ADMINISTRATIVO ............................................................... 589
2.4.18. IMPENHORABILIDADE DO BEM DE FAMÍLIA – BEM DADO EM
HIPOTECA ......................................................................................................... 592
2.4.19. DANOS MORAIS – INDENIZAÇÃO – RESPONSABILIDADE OBJETIVA
AFASTADA – INEXISTÊNCIA DE DEFEITO NA PRESTAÇÃO DE SERVIÇO .... 597
2.4.20. CONTRATO DE MÚTUO ...................................................................... 601
2.5. Luiz Cezar Nicolau (suplente) ..................................................... 607
2.5.1. IRDR – FALHA NA PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS DE FORNECIMENTO DE
ÁGUA – ADMISSÃO .......................................................................................... 607

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2.5.2. ACIDENTE – ENGAVETAMENTO ........................................................... 612


2.5.3. ACIDENTE – DANO MORAL PELA INDISPONIBILIDADE DO VEÍCULO –
CRITÉRIOS PARA FIXAÇÃO DE CORREÇÃO MONETÁRIA E JUROS
MORATÓRIOS................................................................................................... 615
2.5.4. AGRAVO DE INSTRUMENTO – CPC/15 – ROL TAXATIVO.................... 618
2.5.5. DANO MORAL DECORRENTE DE OFENSAS VERBAIS – PARÂMETRO
INDENIZATÓRIO ............................................................................................... 620
2.5.6. DIREITOS AUTORAIS .............................................................................. 628
2.5.7. EMBARGOS DE TERCEIRO ..................................................................... 632
2.5.8. JUROS E CORREÇÃO POR DANO MORAL POR INSCRIÇÃO INDEVIDA
........................................................................................................................... 635
2.5.9. RESPONSABILIDADE CIVIL DISSUASÓRIA............................................. 639
2.5.10. AÇÃO DE CONSIGNAÇÃO – CONVENÇÃO ARBITRAGEM ............... 643
2.5.11. VÍCIO REDIBITÓRIO – DANO MORAL (INEXISTÊNCIA) ...................... 644
2.5.12. COMPROMISSO DE COMPRA E VENDA – DIREITO DE RETENÇÃO . 648
2.5.13. REPRESENTAÇÃO COMERCIAL – EXCLUSIVIDADE DE DISTRIBUIÇÃO
DE BEBIDAS ...................................................................................................... 653
2.5.14. ANULAÇÃO DE COMPRA E VENDA - ERRO ....................................... 661
2.5.15. CONTRATO DE RECOMPRA DE TÍTULOS ........................................... 666
2.5.16. MONITÓRIA – CHEQUE PRESCRITO ................................................... 670
2.5.19. RECONHECIMENTO E DISSOLUÇÃO DE UNIÃO ESTÁVEL ............... 673
2.5.20. CESSÃO DE DIREITOS ECONÔMICOS DE ATLETA ............................ 676

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1. RAIO-X DOS EXAMINADORES

1.1. DESEMBARGADOR LAURI CAETANO DA SILVA (PRESIDENTE),


Biografia: Lauri Caetano da Silva, filho de Elias Caetano da Silva e de Odete

Marchioratto da Silva, nasceu no dia 25 de novembro de 1950, em Curitiba (PR).

Bacharel em direito pela Universidade Católica do Paraná, turma 1975.

Ingressou na carreira do Ministério Público, em 1977, como promotor de justiça

substituto. Exerceu as funções nas comarcas de Maringá, Iporã, Ubiratã, Formosa do

Oeste, Paraíso do Norte, Mandaguari, Guaíra e Apucarana. Promovido para a comarca

de Curitiba, em 1986, chegou a procurador de justiça e procurador geral do estado

junto ao Tribunal de Contas.

Em 15 de abril de 2002, através da vaga do quinto constitucional destinada ao

Ministério Público, foi nomeado juiz do Tribunal de Alçada e, no dia 31 de dezembro

de 2004, foi promovido ao cargo de desembargador do Tribunal de Justiça.

Câmara Julgadora – Presidente da 17ª Câmara Cível Isolada e em Composição

Integral

Competência Material: a) ações relativas ao domínio e à posse pura, excetuadas

quanto a estas as decorrentes de resolução e nulidade de negócios jurídicos;

b) ações relativas ao Direito Falimentar, exceto a matéria penal;

c) ações decorrentes de dissolução e liquidação de sociedade;

d) ações relativas a arrendamento mercantil;

e) ações relativas a contratos de consórcio de bem móvel ou imóvel;

f) ações e recursos alheios às áreas de especialização. (competência residual)




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1.2. DESEMBARGADOR VICENTE DEL PRETE MISURELLI,

Vicente Del Prete Misurelli, filho de Carlos Del Prete Misurelli e de Leone Caldeira

Misurelli, nasceu em Curitiba (PR), em 19 de abril de 1954. Bacharel pela Faculdade de

Direito de Curitiba, turma 1979.

Ingressou na magistratura após concurso para juiz substituto, sendo nomeado em 4 de

abril de 1989 e exercendo as funções nas comarcas de Ibaití e Tomazina. No dia 6 de

junho de 1990 foi nomeado juiz de direito, atuando nas comarcas de Andirá,

Tomazina, Guaíra, Pitanga, Cascavel e Curitiba.

Foi promovido ao cargo de desembargador do Tribunal de Justiça do Paraná em 10

de abril de 2006.

Especialista em Filosofia do Direito, em Teoria Sociológica e em Estudos de Problemas

Brasileiros. Curso de mestrado em Teoria Crítica do Direito, pela Universidade Íbero-

Americana de Andaluzia (Espanha).

Câmara Julgadora – 8ª Câmara Cível Isolada e em Composição Integral

Competência Material: a) ações relativas a responsabilidade civil, inclusive as

decorrentes de acidente de veículo e de acidente de trabalho, excetuada a

competência prevista na alínea b do inciso I deste artigo (inciso I, b) ações relativas a

responsabilidade civil em que for parte pessoa jurídica de direito público ou

respectivas autarquias, fundações de direito público e entidades paraestatais; );

b) ações relativas a condomínio em edifício;

c) ações relativas a contrato de seguro de qualquer natureza, inclusive as execuções

dele derivadas e as ações decorrentes de plano de saúde;

1.3. DESEMBARGADOR LUIS CARLOS XAVIER


Luís Carlos Xavier, filho de Ernesto Rodrigues Xavier e Stapunha Xavier, nasceu no dia

12 de janeiro de 1953, em Curitiba (PR). Bacharel em Direito pela Universidade

Católica do Paraná, turma 1979.

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Ingressou na magistratura como juiz substituto, após concurso, sendo nomeado em 13

de maio de 1987 para a comarca de Cianorte. Aprovado em concurso para juiz de

direito, a partir de 15 de junho de 1989 judicou nas comarcas de Terra Roxa, Palotina,

Pato Branco, Cascavel e Curitiba.

Em 17 de setembro de 2009 foi promovido ao cargo de desembargador do Tribunal

de Justiça do Paraná.

Mestre em Direito Processual Civil pela PUC-SP, lecionou na Universidade Estadual de

Maringá, no Centro Universitário Campos de Andrade - Uniandrade, na Faculdade

Cenecista de Campo Largo e na Faculdade de Ciências Jurídicas da Universidade

Tuiuti do Paraná.

Dissertação de mestrado https://sapientia.pucsp.br/handle/handle/7285

Câmara Julgadora – Presidente da 2ª Câmara Criminal Isolada e em Composição

Integral

Competência Material:

a) infrações penais atribuídas a Prefeitos Municipais;

b) crimes contra a administração pública;

c) crimes contra a fé pública;

d) crimes contra a honra;

e) crimes contra a incolumidade pública, incluídos os definidos no Estatuto do

Desarmamento;

f) crimes contra a ordem tributária e econômica, contra as relações de consumo e

falimentares;

g) crimes ambientais;

h) demais infrações penais, na proporção de metade do que delas for distribuído,

isoladamente, à Terceira, à Quarta e à Quinta Câmara Criminal (III - à Terceira, à

Quarta e à Quinta Câmara Criminal: a) crimes contra o patrimônio; b) crimes contra a

dignidade sexual; c) crimes contra a paz pública; d) infrações penais relativas a tóxicos

e entorpecentes; e) demais infrações penais que não seja: a) crimes contra a pessoa,

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exceto os contra a honra; b) crimes militares definidos em lei; c) processos oriundos do

Conselho de Justificação da Polícia Militar);

i) atos infracionais previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente, por estes

praticados.

1.4. DOUTORA ELIZABETH MARIA DE FRANÇA ROCHA E


Juíza de Direito Substituta em 2º Grau – atualmente fixa na 15ª Câmara Cível Isolada e

em Composição Integral

Câmara Julgadora – 15ª Câmara Cível Isolada e em Composição Integral

Competência material:

a) execuções fundadas em título extrajudicial e as ações a ele relativas, inclusive

quando cumuladas com pedido de indenização;

b) ações relativas a negócios jurídicos bancários e cartões de crédito, inclusive quando

cumuladas com pedido de indenização, excetuada a competência prevista na alínea d

do inciso VII deste artigo;

1.5. DESEMBARGADOR LUIZ CEZAR NICOLAU (SUPLENTE),


Luiz Cezar Nicolau, nasceu em 18 de novembro de 1962 na cidade de Piraí do Sul/Pr.

Formou-se em Direito pela Universidade Estadual de Ponta Grossa em 1988. É

especialista em Direito Processual Civil pelo Instituto de Ciências Sociais do Paraná

(ICSP) e Instituto Brasileiro de Cursos Jurídicos (IBEJ) – 2001 e em Direito Público pela

Escola da Magistratura do Paraná (EMAP) – 2009. Atuou nos cartórios: 4ª Vara Cível e

2ª Vara Cível da Comarca de Ponta Grossa (1979 a 1987) e exerceu a advocacia entre

1987 e 1991. Ingressou na Magistratura em 1990 e atuou como juiz na 60ª Seção

Judiciária e nas Comarcas de Catanduvas, Santa Mariana, Cornélio Procópio, Pitanga,

Londrina e Ponta Grossa. Foi juiz substituto de 2º Grau no Tribunal de Alçada, Turma

Recursal Única, 6ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça e 4ª Câmara Criminal do

Tribunal de Justiça. Foi juiz auxiliar da Corregedoria Geral de Justiça (2005/2006) e juiz

auxiliar da 1ª Vice-Presidência (2011 a 2013). Coordenador da Escola da Magistratura

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do Paraná – Núcleo de Ponta Grossa (1999 a 2002). Professor orientador de Prática

Processual Civil da Escola da Magistratura do Paraná – Núcleo Ponta Grossa (1998 a

2001), professor de Direito Comercial da Escola da Magistratura – Núcleo Ponta

Grossa (1999 a 2000), supervisor pedagógico da Escola da Magistratura do Paraná

(2004 a 2007), professor orientador de Prática Processual Civil da Escola da

Magistratura do Paraná – Núcleo Curitiba (2007 – 2013).

Em 15 de março de 2013 assumiu o cargo de desembargador do Tribunal de Justiça.

Câmara Julgadora – Presidente da 8ª Câmara Cível Isolada e em Composição Integral

Competência Material: a) ações relativas a responsabilidade civil, inclusive as

decorrentes de acidente de veículo e de acidente de trabalho, excetuada a

competência prevista na alínea b do inciso I deste artigo (inciso I, b) ações relativas a

responsabilidade civil em que for parte pessoa jurídica de direito público ou

respectivas autarquias, fundações de direito público e entidades paraestatais; );

b) ações relativas a condomínio em edifício;

c) ações relativas a contrato de seguro de qualquer natureza, inclusive as execuções

dele derivadas e as ações decorrentes de plano de saúde;

Atualmente integrante da Seção Cível

1.6. (OAB) DOUTOR ALEXANDRE HELLENDER DE QUADROS (TITULAR)


Mestre em Direito Empresarial pela Faculdade de Direito de Curitiba. Possui pós-

graduação lato sensu em Direito Administrativo e em Direito do Trabalho. Graduado

em Direito pela Universidade Federal do Paraná. Atualmente é advogado sócio de

Pereira dos Santos, Quadros & Advogados (PSQA), conselheiro da Ordem dos

Advogados do Brasil - Seção do Paraná, professor do Curso de Direito da

Universidade Positivo, professor convidado da Escola Superior de Advocacia de São

Paulo, da Escola Superior de Advocacia do Paraná e do Instituto Brasileiro de Direito

Desportivo. Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Direito Desportivo,

Constitucional e Administrativo. Membro da Ordem dos Advogados do Brasil - Seção

Paraná, do STJD do Judô (auditor). Presidente da Comissão de Direito Desportivo da


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OAB/PR e Diretor Regional do IBDD. Ex-auditor do STJD do Futebol (auditor indicado

pelo Conselho Federal da OAB), do STJD do Ciclismo (presidente).

Mestrado em DIREITO EMPRESARIAL E CIDADANIA.

FACULDADES INTEGRADAS CURITIBA.

Título: Análise crítica dos fundamentos jurídico-constitucionais e reflexos quanto à

efetividade normativa e social do clube-empresa,Ano de Obtenção: 2007.

specialização em DIREITO ADMINISTRATIVO CONTEMPORÂNEO. (Carga Horária:

440h).

FACULDADES INTEGRADAS CURITIBA.

Título: Metropolização e instrumento urbanísticos: o solo criado e a lei de zoneamento

de Curitiba.

1.7. (OAB) DOUTORA ESTEFÂNIA MARIA DE QUEIROZ BARBOZA (SUPLENTE)


Professora Doutora na UFPR e no programa de Mestrado em Direito da UNINTER.

Menção Honrosa no Prêmio Capes de Tese de 2012 pela tese "Stare Decisis,

Integridade e Segurança Jurídica: reflexões críticas a partir da aproximação dos

sistemas de common law e civil law" Sua tese de doutorado foi escolhida como a

melhor de 2011 do PPGD da PUCPR. Doutora e Mestre em Direito pela PUCPR, com

estágio doutoral (doutorado sanduíche) e bolsa CAPES na Osgoode Hall Law School

(York University). Professora Adjunta do Departamento de Direito Público da

Universidade Federal do Paraná e do Mestrado em Direito do Centro Universitário

Internacional - UNINTER.Vice-Presidente da Associação Ítalo-brasileira de Professores

de Direito Administrativo e de Direito Constitucional. Parecerista da Revista DireitoGV.

Foi professora de direito constitucional do curso mestrado na UniBrasil de março de

2011 a julho de 2015.Foi Coordenadora Geral do Curso de Direito da UniBrasil no

período de fevereiro de 2009 à fevereiro de 2012. Foi professora convidada da

Università degli Studi di Palermo nos anos de 2012, 2013 e 2014. É Vice-Presidente da

Comissão de Estudos Constitucionais da da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção

Paraná. Foi Professora visitante na Faculdade de Direito de Toronto em julho de 2016.

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Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Direito Público, atuando

principalmente nos seguintes temas: constitucional, previdência, direitos fundamentais,

direitos humanos, democracia, jurisdição constitucional, judicialização da política,

precedentes e common law.

Doutorado em Direito (Conceito CAPES 5).

Pontifícia Universidade Católica do Paraná, PUC/PR, Brasil.

com período sanduíche em York University (Orientador: Bruce Ryder).

Título: Stare decisis, Integridade e Segurança Jurídica: Reflexões Críticas a Partir da

Aproximação dos Sistemas de Common law e Civil law na Sociedade Contemporânea,

Ano de obtenção: 2011.

Mestrado em Direito (Conceito CAPES 5).

Pontifícia Universidade Católica do Paraná, PUC/PR, Brasil.

Título: A Legitimidade Democrática da Jurisdição Constitucional na Realização dos

Direitos Fundamentais Sociais,Ano de Obtenção: 2005.

Orientador: Katya Kozicki.

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2. JULGADOS DOS EXAMINADORES

2.1. LAURI CAETANO DA SILVA

2.1.1. REVISIONAL DE COMPROMISSO DE COMPRA E VENDA

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO REVISIONAL. PEDIDO JULGADO IMPROCEDENTE.

RECONVENÇÃO JULGADA PROCEDENTE. RECURSO DA AUTORA: COMPROMISSO

PARTICULAR DE COMPRA E VENDA DE IMÓVEL A PRAZO. INADIMPLEMENTO

CONTRATUAL. REVISÃO DO PREÇO AJUSTADO PELO IMÓVEL. IMPOSSIBILIDADE.

ELEMENTO ESSENCIAL DO AJUSTE. ONEROSIDADE EXCESSIVA NÃO

COMPROVADA. REVISÃO QUE SÓ SE JUSTIFICA EM CASOS EXCEPCIONAIS.

NECESSIDADE DE DEMONSTRAÇÃO DE PREMENTE NECESSIDADE OU

INEXPERIÊNCIA E INTENÇÃO DE LOCUPLETAMENTO DA OUTRA PARTE.

CIRCUNSTÂNCIAS NÃO ALEGADAS PELA PARTE AUTORA. LIBERDADE DE

CONTRATAÇÃO QUE DEVE SER RESPEITADA. LAUDO PERICIAL. CORRETA

HOMOLOGAÇÃO. FIXAÇÃO DE ALUGUÉIS PELA UTILIZAÇÃO DO IMÓVEL.

POSSIBILIDADE. COMISSÃO DE CORRETAGEM. INEXISTÊNCIA DE PREVISÃO

CONTRATUAL. RESTITUIÇÃO DEVIDA. RESP. Nº 1.599.511/SP, SOB O REGIME DO

ART. 1.036 E SEGUINTES DO NCPC. ADIMPLEMENTO SUBSTANCIAL DO

CONTRATO. TEORIA QUE NÃO SE APLICA AO CASO CONCRETO. DISTRIBUIÇÃO

DO ÔNUS DA SUCUMBÊNCIA MANTIDA. RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO. 1.

No contrato de compra e venda as partes livremente negociam o preço e forma de

pagamento. 2. Não há como se avaliar a abusividade ou não do preço ajustado do

imóvel, pois na sua composição integram, além do valor de mercado, a sua flutuação,

gastos com infraestrutura, investimentos, etc. 3. É possível a condenação em perdas e

danos consubstanciada em pagamento de aluguéis, mesmo em contrato de compra e

venda. Embora não haja contrato de locação entre as partes, a indenização deve se

dar pelo uso do imóvel, evitando, por seu lado, o enriquecimento sem causa; para que
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se dê indenização justa, criou-se, para tanto, a forma de aluguel. Assim, tendo os

apelantes se utilizado do imóvel durante a vigência do contrato e tendo dado causa à

sua rescisão pelo não pagamento das prestações, são devidos os aluguéis desde o

inadimplemento. 4. "Validade da cláusula contratual que transfere ao promitente-

comprador a obrigação de pagar a comissão de corretagem nos contratos de

promessa de compra e venda de unidade autônoma em regime de incorporação

imobiliária, desde que previamente informado o preço total da aquisição da unidade

autônoma, com o destaque do valor da comissão de corretagem" (REsp 1599511/SP,

Rel. Ministro PAULO DE TARSO SANSEVERINO, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em

24/08/2016, DJe 06/09/2016). 5. Não é razoável adotar a teoria do adimplemento

substancial do contrato tendo em conta simplesmente um critério numérico, já que

isso afastaria a perquirição acerca da ocorrência de justo impedimento para o

pagamento das prestações vencidas e da própria boa-fé do devedor; além da

utilidade para o credor do exercício de outra fórmula processual para o recebimento

do crédito. 6. Hipótese, ademais, em que o inadimplemento alcança o equivalente a

mais de 60%% do valor do contrato, não se afigurando razoável a adoção da teoria

debatida, sob pena inclusive de se projetar, no campo da realidade social, condutas

de inadimplemento substancial.

(TJPR - 17ª C.Cível - AC - 1637165-6 - Região Metropolitana de Londrina - Foro

Central de Londrina - Rel.: Lauri Caetano da Silva - Unânime - J. 14.06.2017)

Inteiro teor

I- RELATÓRIO
1. No dia 10 de abril de 2015 Idelzina de Oliveira ajuizou ação de revisão de contrato
de compra e venda de imóvel em face de HD Empreendimentos S/S Limitada,
aduzindo que (a) a construtora HD firmou, em 30.10.1999, contrato particular de
compromisso de venda e compra com José Carlos Ivalea e Cleusa Pinheiro Ivalea, pelo
valor de R$22.500,00 a serem pagos em 124 prestações de R$180,00. Constou do
contrato que as prestações seriam corrigidas e capitalizadas mensalmente pelo índice
do IGP-M; (b) no dia 01.09.2008, com anuência da construtora, os compromissários
compradores cederam os direitos relativos ao contrato em seu favor; (c) o contrato
encontra-se eivado de abusividades que o tornam nulo de pleno direito; (d) efetuou o
pagamento de 85 prestações das 138 contratadas; (e) encontra-se inadimplente, já
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tendo a requerida lhe encaminhado notificação extrajudicial para o pagamento do


débito no prazo de 07 dias; (f) no ato da assinatura do termo de cessão e transferência
de direitos, não foi informada acerca da taxa de juros incidente no contrato e estaria
assumindo a dívida do compromissário comprador originário; (g) as prestações foram
calculadas com o acréscimo de juros capitalizados e de correção monetária pelo índice
IGP-M; (h) não efetuou nenhuma renegociação da dívida; (i) como desejava
permanecer na posse do imóvel, requereu a concessão de tutela antecipada, para
autorizar o depósito em juízo do valor incontroverso.
2. A ré, HD Empreendimentos S/S Limitada, apresentou defesa em sede de
contestação (mov. 23.1 - f.115/146), refutando os termos da inicial, sustentando, em
especial, a validade de todas as cláusulas contratuais e a mora da autora. Assim, pediu
a improcedência dos pedidos e a aplicação das penalidades por litigância de má-fé.
3. A HD Empreendimentos S/S Limitada ofereceu reconvenção (mov. 23.2 - f.
147/165) denunciando o inadimplemento do compromisso de compra e venda do lote
descrito na inicial. Dessa forma, pediu (i) a resolução do contrato; (ii) a reintegração de
posse do terreno; (iii) o reconhecimento da obrigação da autora/reconvinda de arcar
com o pagamento dos débitos relativos ao IPTU, comissão de corretagem, água
e luz; (iv) a condenação da autora/reconvinda ao pagamento de indenização pelo uso
do bem (aluguel).
4. No despacho saneador (mov. 72.1 - f. 401/402), o magistrado de 1º grau
reconheceu a aplicabilidade do Código de Defesa do Consumidor, com a
consequente inversão do ônus da prova e deferiu a produção da prova pericial. O
laudo pericial foi juntado aos autos (mov. 103.1 e 115.1 ­ f. 492/505 e f. 534/535).
5. O MM. Juiz a quo proferiu sentença (mov. 145.1 - f.598/606), pela qual (i) julgou
improcedentes os pedidos revisionais; (ii) julgou procedentes os pedidos
reconvencionais para (a) decretar a rescisão do contrato firmado entre as partes; (b) em
razão da rescisão do pacto: (b.1) determinar a reintegração da ré/reconvinte na posse
do imóvel, condicionando à restituição dos valores pagos e indenização por eventuais
benfeitorias; (b.2) condenar a ré/reconvinte à restituição dos valores pagos pela
autora/reconvinda, devidamente corrigidos pelos índices da contadoria judicial a partir
dos desembolsos e acrescidos de juros de mora de 1% ao mês, a partir da citação,
descontadas as quantias referentes à comissão de corretagem e aos IPTU’s pendentes;
(b.3) condenar a autora/reconvinda ao pagamento de aluguéis mensais a serem
arbitrados em liquidação de sentença, desde a inadimplência até a efetiva
desocupação, devidamente corrigidos pelos índices da contadoria judicial e acrescidos
de juros de mora de 1% ao mês, ambos a partir dos respectivos vencimentos,
autorizada a compensação de valores com os previstos no item anterior (CC, art. 368);
(b.4) reconhecer o direito da autora/reconvinda de indenização pelas benfeitorias úteis
e necessárias implementadas no imóvel objeto do contrato, cujo valor será apurado
em liquidação de sentença por arbitramento e devidamente compensado com os
valores reciprocamente devidos entre as partes; (c) condenar a autora/reconvinda ao
pagamento das custas processuais e dos honorários advocatícios, arbitrados em 20%
sobre o valor da reconvenção (NCPC, art. 85, § 2º), observada a gratuidade judicial
(NCPC, art. 98, § 3º).
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Contra esta decisão, ambas as partes opuseram embargos de declaração (mov. 150.1
e 156.1 ­ f. 612/620 e f. 628/634), sendo acolhido, apenas com efeito integrativo, os
embargos de declaração
opostos pela ré/reconvinte, para suprir a omissão referente à análise do pedido de
concessão de tutela antecipada de reintegração de posse (mov. 152.1 e 158.1 - f. 623
e 637).
6. A autora, Idelzina de Oliveira, interpôs recurso de apelação (mov. 165.1 -
f.645/664), postulando a reforma da sentença, aduzindo que: (a) ao caso se aplicam as
disposições do Código de Defesa do Consumidor; (b) houve ofensa ao princípios
basilares da boa-fé objetiva, proteção, informação, transparência, dentre outros; (c) em
nenhum momento afirmou ter renegociado a dívida, apenas confessou que efetuou o
pagamento em atraso de algumas prestações; (d) não sabia que estava assinando um
contrato antigo e que lhe seria cobrado as prestações vencidas há muito tempo; (e) as
prestações foram calculadas com o acréscimo abusivo de juros, os quais devem ser
expurgados; (f) o laudo pericial deixou de considerar valores que foram pagos, bem
como foi produzido com base em um contrato que apresentava inúmeras
irregularidades; (g) o laudo pericial deve ser interpretado de modo mais favorável ao
consumidor; (h) também não é cabível indenização por perdas e danos, uma vez que
não deu causa à resolução do contrato; (i) é abusiva a cobrança da comissão de
corretagem; (j) houve adimplemento substancial do contrato, sendo improcedente o
pedido da ré/reconvinte de resolução do contrato. Ao final, pediu a redistribuição do
ônus da sucumbência.
Contrarrazões de apelação (mov. 174.1 ­ f. 681/698).
É o relatório.
II- VOTO
Presentes os pressupostos recursais de admissibilidade, intrínsecos e extrínsecos,
merece o recurso ser conhecido.
7. Do cotejo dos autos, observa-se que (i) no dia 30.10.1999, José Carlos Ivalea e
Cleusa Pinheiro Ivalea celebraram com HD Empreendimentos S/S Limitada contrato
particular de compromisso de venda e compra, com objetivo de adquirir o lote nº 22,
da quadra nº 07, com área de
255 m2, da planta do Jardim Atlanta, na cidade de Londrina/PR, pelo valor de
R$22.500,00. Na oportunidade, realizaram o pagamento à vista de R$180,00 e
assumiram a obrigação de pagar 124 prestações mensais de R$180,00, vencendo- se a
primeira em 30.12.1999 e a última 30.03.2010 (mov. 23.6 ­ f. 179/183).
Em virtude de problemas econômicos, no dia 17.09.2001, os compromissários
compradores renegociaram a dívida, comprometendo-se a saldar o débito em 150
parcelas mensais de R$150,00, vencendo-se a primeira em 17.09.2001; (ii)
posteriormente, com anuência da construtora, José Carlos Ivalea e Cleusa Pinheiro
Ivalea cederam os direitos do contrato em favor de Antônio Honório (mov. 23.8 ­ f.
185), que cedeu seus direitos para Pedro Pereira de Araújo Sobrinho (mov. 23.9 ­ f.
186) que, por sua vez, cedeu para Idelzina de Oliveira (mov. 23.10 ­ f. 187); (iii) no
instrumento de cessão do contrato constou que ainda restavam 138 prestações em
aberto, as quais deveriam ser pagas conforme “as normas e condições estabelecidas
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no contrato”; (iv) o último pagamento efetuado pela autora foi em 15.01.2015, da


prestação vencida em 17.01.2008; (v) por considerar o contrato omisso acerca do
modo de correção das prestações, ajuizou a presente demanda revisional.
Entretanto os pedidos foram julgados improcedentes, dando ensejo a interposição do
recurso de apelação.
8. Em primeiro lugar, não restam dúvidas, assim como reconhecido na sentença
atacada, que, no presente caso, têm inteira aplicação as disposições do Código de
Defesa do Consumidor, já que a relação negocial efetivada entre as partes
demandantes é uma relação de consumo, cujo objeto envolve compra e venda de
bem imóvel, ofertado à venda por empresa do ramo de loteamentos, em que é praxe
a fixação de cláusulas predeterminadas e sem possibilidade de discussão.
“A revisão do contrato torna-se ainda mais relevante, quando o vertente desequilíbrio
técnico e/ou econômico de uma das partes fica demonstrado, de modo que as
cláusulas que importem em prejuízo concreto ao consumidor devem, sem sombra de
dúvida, ser objeto de apreciação pelo Poder Judiciário, em homenagem aos princípios
norteadores do Direito encartados na Constituição Federal e, mais especificamente, no
Código de Defesa do Consumidor” (TJPR - 7ª C.Cível - AC - 701587-0 - Fazenda Rio
Grande - Rel.: Dilmari Helena Kessler - Unânime - - J. 08.05.2012).
Sobre o tema, válidos são os ensinamentos de Nelson Nery Junior e Rosa Maria de
Andrade Nery:
“(...) O magistrado irá integrar o contrato, criando as novas circunstâncias contratuais.
Para tanto deverá pesquisar e observar a vontade das partes quando da celebração do
contrato de consumo, qual a dimensão da desproporção da prestação ou da
onerosidade excessiva, de forma a recolocar as partes na situação de igualdade
contratual em que se devem encontrar, desde a formação até a execução completa do
contrato (...)” (NERY JUNIOR, Nelson; ANDRADE NERY, Rosa Maria de. Código civil
comentado e legislação extravagante. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005. p. 955).
No entanto, não pode a parte autora confundir onerosidade excessiva com o preço
livremente ajustado pelo imóvel, ainda mais quando estamos diante de compra e
venda de imóvel a prazo, cujo preço sofre alterações decorrentes do custo do dinheiro
tomado. Por conta disso, o preço a prazo ajustado entre as partes não se iguala ao
preço do bem, quando comprado à vista, não havendo desequilíbrio entre prestação e
contraprestação, a justificar a invalidade do negócio jurídico firmado pelas partes.
Aqui é preciso esclarecer que na promessa de compra e venda foram estabelecidas as
cláusulas contratuais relativas ao preço, sua atualização, forma de pagamento, prazo,
incidência de encargos moratórios, previsão de remuneração pelo uso do imóvel na
hipótese de rescisão contratual (cláusula penal - previsão de pagamento de aluguel
mensal). No Termo de Cessão e Transferência de Direitos constou expressamente que,
a partir daquele momento, todas os direitos e responsabilidades oriundas do contrato
nº 96 estavam sendo transferidos à autora. No referido termo também constou o
número de prestações em aberto, bem como que o pagamento das mesmas deveria
ser feito de acordo com as disposições contratuais.
Assim, não vejo fundamento para a alegação da apelante, no sentido de que foi
enganada pela construtora, visto que não teria sido informada do real saldo devedor
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do contrato. Isto porque, na formalização do citado ajuste contratual, com a devida


vênia, não se vislumbra qualquer abusividade em razão da completa
ausência de inexperiência do comprador e da alegada desproporcionalidade das
prestações.
Nesse contexto, deve ser aplicado o princípio do pacta sunt servanda, segundo o qual
as disposições contratuais, livremente pactuadas, fazem lei entre as partes
contratantes. Note-se que o preço não é uma cláusula embutida (adesiva) no contrato,
em que a autora/apelante simplesmente teve que aderir. Ao contrário, para a
formalização do contrato, certamente as partes discutiram o preço do imóvel e o
modo como ele seria pago. Ademais, a apelante deve, ao menos, ter pesquisado, no
mercado, valores de outros imóveis em condições similares, ou, então, aceitou as
parcelas pactuadas, de forma livre e deliberada.
Com efeito, o preço firmado pelas partes é elemento essencial do contrato, devendo
sempre ser hígido, quando aderido de forma livre e espontânea.
É importante frisar que o fato de a apelante não cumprir com suas obrigações
(pagamento), não invalida o contrato e nem o torna abusivo. Ora, tanto o valor como a
forma de pagamento estavam expressamente previstos no contrato de compra e
venda, possibilitando a exata compreensão e livre análise acerca do negócio.
Não pode esquecer a apelante que, nos termos ajustados no contrato, as prestações
deveriam ser corrigidas mensalmente (cláusula 2ª ­ item “C” ­ mov. 1.7 ­ f. 180).
Contudo, nos termos esclarecidos pelo perito judicial, a ré aplicou correção monetária
anual1, o que é plenamente aceitável, uma vez que, tratando-se de contratos de longo
prazo, a correção das parcelas é necessária para
se evitar a perda decorrente da variação inflacionária. Tal correção não torna o
contrato mais oneroso.
A adequada atualização monetária é direito de todo aquele que tem a receber dívida
de valor vencida. Como alega a apelante, realmente no contrato não há previsão de
taxa de juros, mas isso se deu por uma razão muito simples, tal encargo não foi
incorporado ao valor das prestações.
A apelante não foi obrigada a aceitar o preço estabelecido pela apelada, muito
menos, assinar o contrato. Tal conduta foi realizada de livre e espontânea vontade,
não podendo ser alegada, neste caso, ignorância a respeito do fato. Se o preço
exigido não estava condizente com a estrutura oferecida pela unidade residencial
(local, infraestrutura, regularização municipal, etc), ou, ainda, com as condições
financeiras da apelante, cabia a esta se abster de firmar o contrato em questão.
Dessa forma, não tendo a apelante comprovado a existência de defeito no negócio
jurídico, como por exemplo: erro, dolo ou coação, presume-se que houve consenso,
logo, o negócio é plenamente válido e eficaz, não sendo possível a revisão do preço
ajustado.
A respeito do tema, este Tribunal assim decidiu:
APELAÇÃO CÍVEL. REVISÃO DE CONTRATO DE COMPROMISSO DE COMPRA E
VENDA DE IMÓVEL. DILAÇÃO PROBATÓRIA. CERCEAMENTO DE DEFESA.
DISCUSSÃO PRECLUSA.

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IMPOSSIBILIDADE DE SE ALTERAR O VALOR DO OBJETO CONTRATUAL. LIVRE


NEGOCIAÇÃO DAS PARTES. CAPITALIZAÇÃO DE JUROS NÃO DEMONSTRADA.
ADMISSIBILIDADE DO IGP-M COMO FATOR DE ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA.
SENTENÇA DEVIDAMENTE FUNDAMENTADA. RECURSO NÃO-PROVIDO. 1. Tendo
o juízo entendido que as provas presentes nos autos seriam suficientes para o
julgamento do feito no estado em que encontra-se, sem qualquer insurgência das
partes, resta preclusa a alegação de cerceamento de defesa por não permitir-se a
produção de provas. 2. Ante ao princípio da intangibilidade do conteúdo dos
contratos, é vedado ao Poder Judiciário alterar o preço da coisa livremente pactuada
entre as partes, em compromisso de compra e venda, sem que haja demonstração de
algum vício de vontade. 3. Não demonstrada a prática de capitalização de juros,
residindo a questão em meras especulações da parte, não há como reconhecer-se
qualquer vício na pactuação ou mesmo na execução do contrato. 4. O IGP-M,
adotado livremente pelas partes consiste em indexador oficial, que não pode ser
alterado unilateralmente, para substituição por outro (INPC), mais benéfico ao
consumidor, por não se visualizar nenhuma ilegalidade na estipulação. 5. Apelação
cível à que se nega provimento. (TJPR - 17ª C.Cível - AC 0509212-6 - Foro Regional de
São José dos Pinhais da Região Metropolitana de Curitiba - Rel.: Juiz Subst. 2º G.
Francisco Jorge - Unanime - J. 08.10.2008)
APELAÇÃO CÍVEL - REVISÃO DE CONTRATO - COMPRA E VENDA DE BEM IMÓVEL
- PREÇO INICIAL - REVISÃO INADMISSÍVEL - LIVRE INICIATIVA - CLÁUSULAS QUE
OBEDECEM OS DITAMES LEGAIS - NULIDADES NÃO CONFIGURADAS - SENTENÇA
DE IMPROCEDÊNCIA MANTIDA - RECURSO DESPROVIDO. 1. O preço, nos contratos
de compra e venda, são resultado de convenção entre as partes e não podem ser
objeto de intervenção do Judiciário. Precedentes. 2. Não demonstrada ilicitude no
estabelecimento de cláusulas contratuais, a revisão, mesmo à luz do CDC, deve ser
improcedente. (TJPR - 6ª C.Cível - AC 473654-9 - Foro Regional de Fazenda Rio
Grande da Comarca da Região Metropolitana de Curitiba - Rel.: Prestes Mattar -
Unânime - J. 10.06.2008)
Além do mais, no momento do negócio as partes eram capazes, o objeto era lícito e a
forma utilizada não era defesa em lei. A relação jurídica entabulada entre as partes
envolvia tão- somente direitos patrimoniais (disponíveis). Assim, mesmo com a
mitigação do princípio do pacta sunt servanda, não podemos desconsiderar que o
contrato possui força de lei entre os contratantes. Acolher a pretensão da apelante
seria um risco para as relações jurídicas contratuais, já que não existiria mais segurança
para a consecução dos negócios.
Portanto, não cabe ao Poder Judiciário intervir e autorizar a modificação do preço
livremente ajustado pelos interessados.
9. No que tange a prova pericial, não vejo motivos para a sua desconsideração. A
parte não pode querer, sob o argumento da aplicabilidade do Código de Defesa do
Consumidor, modificar os fatos, a fim de torná-los adequado a sua situação. Como
visto acima, no contrato entabulado entre as partes, não existe nenhuma abusividade
apta a justificar a readequação do preço do imóvel.

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Pelo que se viu da prova pericial, a construtora deixou de aplicar alguns encargos a
fim de “ajudar” a autora, de modo a possibilitar o adimplemento da obrigação.
Vejamos a explicação do Perito Judicial:
Ocorre que, conforme, explicitado no decorrer do processo, os Requeridos realizaram
a atualização monetária anualmente, sendo que o contrato prevê tal atualização de
forma mensal.
Sendo assim, a perícia aplicou tal correção da mesma forma praticada pela Requerida,
ou seja, de forma anual.
Após a apuração dos valores das parcelas devidas, conforme contrato, a perícia
apurou a diferença entre os valores devidos apurados pela perícia e os valores pagos
pela requerente discriminados no mov. 29.15 de 01/06/15, totalizando o montante
pago a menor (devido pela Requerente) de R$ 40.670,14 (quarenta mil seiscentos e
setenta reais e quatorze centavos).
Tal diferença (R$ 40.670,14) atualizada desde a data de sua apuração pelo IGP-
M/FGV, resultou no montante devido pela Requerente atualizado até março/2016
(data do presente laudo) no valor de R$ 58.895,60 (cinquenta e oito mil oitocentos e
noventa e cinco reais e sessenta centavos).
Frisa-se que não houve aplicação de encargos moratórios (multa e juros moratórios)
considerando que a Requerida não aplicou tais encargos (mov. 103.2 ­ f. 496).
Ao contrário do que alega a apelante não houve a desconsideração de nenhum valor
por ela pago. As parcelas de número 135, 148 e 154, apesar dos valores não
constarem da planilha, foram listadas como pagas pelo perito, inclusive com o
apontamento da data do pagamento.
Acerca da renegociação da dívida, esta foi perpetrada pelo compromissário-
comprador originário, razão pela qual, no momento da celebração do termo de
cessão, a dívida já se encontrava renegociada, encontrando-se em aberto 138
prestações, conforme consta do termo de cessão.
Portanto, nos termos postos pelo magistrado de 1º grau, “não há se cogitar no
excesso apontado pela parte autora e, na hipótese, uma vez que a perícia realizada
observou estritamente a determinação judicial no sentido de serem observados os
termos de todos os pactos firmados entre as partes, entendo que sua conclusão não
merece considerações ou reparos”.
10. Com efeito, ao contrário do que alega a apelante, é possível a condenação em
perdas e danos consubstanciada em pagamento de aluguéis, mesmo em contrato de
compra e venda. Embora não haja contrato de locação entre as partes, a indenização
deve se dar pelo uso do imóvel, evitando o enriquecimento sem causa. Para que se dê
indenização justa, criou-se, para tanto, a forma de aluguel. Assim, tendo os recorrentes
utilizado o imóvel durante a vigência do contrato e tendo dado causa à sua rescisão
pelo não pagamento das prestações, são devidos os aluguéis pelo período de uso do
bem.
Nesse sentido, é o entendimento jurisprudencial:
AGRAVO REGIMENTAL. DIREITO DO CONSUMIDOR. PROCESSUAL CIVIL.

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CONTRATO DE PROMESSA DE COMPRA E VENDA DE IMÓVEL. RESCISÃO POR


CULPA DO COMPRADOR. ARBITRAMENTO DE ALUGUÉIS EM RAZÃO DO USO DO
IMÓVEL. POSSIBILIDADE. AUSÊNCIA DE BIS IN IDEM COM CLÁUSULA PENAL.
1. Não há se falar em bis in idem na condenação ao pagamento dos aluguéis
cumulada com cláusula penal. O pagamento de aluguéis é devido não porque se
enquadram estes na categoria de perdas e danos decorrentes do ilícito, mas por
imperativo legal segundo o qual a ninguém é dado enriquecer-se sem causa à custa
de outrem.
2. Agravo regimental não provido.
(AgRg no AREsp 394.466/PR, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA,
julgado em 03/12/2013, DJe 10/12/2013)
APELAÇÃO CÍVEL. PROMESSA DE COMPRA E VENDA. AÇÃO DE RESCISÃO DE
CONTRATO COM PEDIDO DE REINTEGRAÇÃO NA POSSE. ADIMPLEMENTO
SUBSTANCIAL. NÃO OCORRÊNCIA. ALUGUEL PELA UTILIZAÇÃO DO BEM.
CABIMENTO. SENTENÇA MANTIDA. I. Possível reconhecer, com base nos princípios
da boa-fé e da função social do contrato, o adimplemento substancial, com o fim de
preservar o vínculo contratual, nos casos em que haja cumprimento de parte essencial
da obrigação.
Não demonstrado o adimplemento de parte essencial do contrato, é de ser mantida a
sentença que rescindiu o ajuste. II. Em contrato de promessa de compra e venda de
imóvel, verificado o inadimplemento contratual pelo promitente-comprador no tocante
ao pagamento das parcelas ajustadas, impõe-se a rescisão do pacto, com retorno das
partes ao status quo ante. É cabível fixação de alugueis desde a data da posse até
efetiva desocupação do bem. APELO DESPROVIDO. UNÂNIME. (Apelação Cível Nº
70063891428, Décima Sétima Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Liege
Puricelli Pires, Julgado em 13/08/2015).
Sendo assim, mantenho a condenação da apelante ao pagamento de aluguel pelo
tempo que estiveram na posse do bem, conforme fixado na sentença. A base de
cálculo é o valor do aluguel do terreno, sem as benfeitorias edificadas.
11. Em relação ao pedido de exclusão da cobrança da taxa de corretagem é
importante trazer à reflexão o conceito do contrato de corretagem que pode ser
abstraído da simples análise do conteúdo do artigo 722 do Código Civil: “Pelo
contrato de corretagem, uma pessoa, não ligada a outra em virtude de mandato, de
prestação de serviços ou por qualquer relação de dependência, obriga-se a obter para
a segunda um ou mais negócios, conforme as instruções recebidas”.
Maria Helena Diniz enumera as características do contrato de corretagem: “1ª)
bilateralidade, por gerar obrigações ao corretor e ao comitente. O corretor deverá
executar certo encargo, e o comitente, remunerá-lo; 2ª) acessoriedade, pois sua
existência está ligada a um outro contrato, que deverá ser concluído; 3ª) onerosidade,
porque há ônus, vantagens e benefícios patrimoniais recíprocos; 4ª) aleatoriedade, já
que o direito do corretor e a obrigação do comitente dependerão da conclusão do
negócio principal, isto é, de um evento futuro e incerto (...); 5ª) consensualidade, por
completar-se pelo simples consenso das partes, manifestado por qualquer forma, pois

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não há forma especial prevista em lei para a sua celebração ou validade, podendo ser
provado por todos os meios admissíveis em direito, inclusive por testemunhas (...)”2.
Feitos estes esclarecimentos preliminares, passamos a análise do caso concreto.
As apelantes sustentam que a comissão de corretagem não foi paga em seu favor, o
que torna totalmente impossível que recaia sobre elas a devolução do referido
importe.
É cediço que a comissão de corretagem, corresponde à remuneração de serviços de
intermediação prestados por terceiro, com vistas à aproximação das partes para a
realização do negócio.
Nada obsta a cobrança de taxa de corretagem em negócios envolvendo a compra e
venda de imóvel. As partes podem livremente pactuar quem ficará obrigado pelo
pagamento destas verbas (art. 724, Código Civil3). No entanto, em observância ao
princípio da informação, tal encargo deve ser devidamente informado ao adquirente
do imóvel. Ou seja, o consumidor deve ser informado que ele arcará com as comissões
daqueles que intermediaram a venda.
Nesse sentindo, foi o entendimento manifestado pelo Superior Tribunal de Justiça, no
julgamento do REsp nº 1.599.511/SP, sob o regime do artigo 1.036 e seguintes do
Código de Processo Civil, com efeito vinculante:
RECURSO ESPECIAL REPETITIVO. DIREITO CIVIL E DO CONSUMIDOR.
INCORPORAÇÃO IMOBILIÁRIA. VENDA DE UNIDADES AUTÔNOMAS EM ESTANDE
DE VENDAS. CORRETAGEM. CLÁUSULA DE TRANSFERÊNCIA DA OBRIGAÇÃO AO
CONSUMIDOR. VALIDADE. PREÇO TOTAL. DEVER DE INFORMAÇÃO. SERVIÇO DE
ASSESSORIA TÉCNICO-IMOBILIÁRIA (SATI). ABUSIVIDADE DA COBRANÇA.
I - TESE PARA OS FINS DO ART. 1.040 DO CPC/2015: 1.1. Validade da cláusula
contratual que transfere ao promitente-comprador a obrigação de pagar a comissão
de corretagem nos contratos de promessa de compra e venda de unidade autônoma
em regime de incorporação imobiliária, desde que previamente informado o preço
total da aquisição da unidade autônoma, com o destaque do valor da comissão de
corretagem.
1.2. Abusividade da cobrança pelo promitente-vendedor do serviço de assessoria
técnico- imobiliária (SATI), ou atividade congênere, vinculado à celebração de
promessa de compra e venda de imóvel.
II - CASO CONCRETO: 2.1. Improcedência do pedido de restituição da comissão de
corretagem, tendo em vista a validade da cláusula prevista no contrato acerca da
transferência desse encargo ao consumidor.
Aplicação da tese 1.1.
2.2. Abusividade da cobrança por serviço de assessoria imobiliária, mantendo-se a
procedência do pedido de restituição. Aplicação da tese 1.2.
III - RECURSO ESPECIAL PARCIALMENTE PROVIDO.
(REsp 1599511/SP, Rel. Ministro PAULO DE TARSO SANSEVERINO, SEGUNDA
SEÇÃO, julgado em 24/08/2016, DJe 06/09/2016)
No caso em exame, porém, não houve previsão contratual acerca da cobrança da taxa
de corretagem, não podendo, portanto, tal encargo ser repassado ao consumidor,
tendo em vista a flagrante violação dos preceitos do Código de Defesa do
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Consumidor, que exigem informação clara, suficiente e precisa acerca das condições
do negócio, principalmente, de forma discriminada, de todos os encargos a incidir
sobre a transação que seriam de responsabilidade do comprador (artigos 46 e 47 do
CDC4). Ora, se o contrato foi objeto de cessão de direitos interpretada pelo
promitente comprador originário, não é possível imputar ao cessionário o pagamento
da comissão de corretagem, sem expressa previsão contratual.
Assim, indevida a retenção dos valores pagos pela construtora a título de comissão de
corretagem.
12. A pretensão da apelante com relação ao reconhecimento do adimplemento
substancial não merece prosperar.
Não nos parece razoável adotar simplesmente um critério numérico, quantificando o
número de prestações adimplidas e inadimplidas. A adoção pura e simples desse
critério matemático afasta a perquirição se ocorreu um justo impedimento para o
pagamento das prestações vencidas e da própria boa-fé do devedor, além da
utilidade para o credor do exercício de outra fórmula processual para o recebimento
do crédito.
Para exemplificar podemos citar a hipótese do devedor que não dispõe de outros
meios materiais e financeiros para pagar a dívida vencida, senão pelo único bem
objeto do contrato. Se o credor deve proceder de forma menos onerosa para receber
o seu crédito, também não se pode obstar que o mesmo postule pela única forma
capaz de alcançar esse objetivo. No campo da realidade social, adotar esse critério
matemático sem qualquer outro tipo de investigação, projetará condutas de
inadimplemento substancial, pois com o pagamento de 70% ou 80% das prestações
ajustadas, o devedor pode se sentir imune a qualquer pedido de resolução do
contrato, praticando ação negativa de pagamento, ficando no aguardo da iniciativa do
credor.
No caso concreto, mesmo se fosse possível utilizar isoladamente o critério
matemático, vislumbro que a apelante não cumpriu o pressuposto básico para
aplicação da aludida teoria, qual seja, o adimplemento substancial do contrato. Não
podemos concordar com a ideia de que o pagamento de 39,38% do contrato
(conforme reconhecido pelo perito judicial ­ mov. 103.2 ­ f. 504) autorize a aplicação
da teoria do adimplemento substancial.
Com relação ao tema, o entendimento é unânime na 17ª Câmara Cível deste Tribunal
de Justiça:
AGRAVO EM AGRAVO DE INSTRUMENTO. RECURSO INTERPOSTO CONTRA
DECISÃO DO RELATOR QUE NEGOU SEGUIMENTO AO AGRAVO DE
INSTRUMENTO. AÇÃO COM PEDIDO DE REVISÃO DE CLÁUSULAS FINANCEIRAS
INSERIDAS EM CONTRATO DE ARRENDAMENTO MERCANTIL. PEDIDO DE
DEPÓSITO JUDICIAL DAS PRESTAÇÕES EM SEU VALOR INTEGRAL VALOR
AJUSTADO NO CONTRATO. AGRAVANTE QUE ALEGA O ADIMPLEMENTO
SUBSTANCIAL DO CONTRATO. TEORIA QUE NÃO SE APLICA AO CASO
CONCRETO. PAGAMENTO DE 44 PRESTAÇÕES DAS 60 CONTRATADAS.
AUSÊNCIA DE MOTIVOS OU FUNDAMENTOS QUE AUTORIZEM A REFORMA DE
DECISÃO MONOCRÁTICA. RECURSO DESPROVIDO. 1. É direito do devedor
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fiduciante ajuizar ação com pedido de revisão das cláusulas financeiras do contrato de
arrendamento mercantil visando afastar eventuais cláusulas abusivas. 2. Todavia, sem
justa causa, não é razoável o deferimento de liminar incidental para o depósito do
valor integral da prestação, visando afastar a mora e, consequentemente, impedir a
inscrição de seu nome nos cadastros de inadimplentes e eventual ajuizamento de ação
por parte do credor arrendante. 3. Se o devedor pretende afastar a mora basta
promover o pagamento da prestação através do boleto bancário, na data do
vencimento. 4.
Não nos parece razoável adotar a teoria do adimplemento substancial do contrato
tendo em conta simplesmente um critério numérico, já que isso afastaria a perquirição
acerca da ocorrência de justo impedimento para o pagamento das prestações
vencidas e da própria boa-fé do devedor; além da utilidade para o credor do exercício
de outra fórmula processual para recebimento do crédito.
(TJPR - 17ª C.Cível - AR - 1093383-4/01 - Foro Regional de Campo Largo da Comarca
da Região Metropolitana de Curitiba - Rel.: Lauri Caetano da Silva - Unânime - - J.
17.07.2013)
AGRAVO EM AGRAVO DE INSTRUMENTO. AÇÃO DE BUSCA E APREENSÃO.
LIMINAR DEFERIDA. RECURSO INTERPOSTO SOB A ÓTICA DO ADIMPLEMENTO
SUBSTANCIAL DO CONTRATO, PLEITEANDO A REVOGAÇÃO DA LIMINAR.
DECISÃO DO RELATOR QUE NEGOU SEGUIMENTO AO AGRAVO DE
INSTRUMENTO. PAGAMENTO DE 38 DAS 48 PRESTAÇÕES CONTRATADAS.
TEORIA DO ADIMPLEMENTO SUBSTANCIAL DO CONTRATO. INAPLICABILIDADE
NO CASO CONCRETO. RECURSO DESPROVIDO.
(TJPR/Agravo n. 0697439-8/01, 17ª CCível, Rel.Desembargador Lauri Caetano da
Silva, unânime, j. 15.09.2010)
AGRAVO DE INSTRUMENTO. AÇÃO DE BUSCA E APREENSÃO. DECISÃO QUE
INDEFERIU A LIMINAR PRETENDIDA COM FUNDAMENTO NA TEORIA DO
ADIMPLEMENTO SUBSTANCIAL DO CONTRATO. RECONHECIMENTO DE OFÍCIO.
IMPOSSIBILIDADE.
CERCEAMENTO DO DIREITO DE AÇÃO, SEM JUSTA CAUSA COMPROVADA NOS
AUTOS.
INADIMPLEMENTO, ADEMAIS, QUE ALCANÇA O EQUIVALENTE A 25% DO
CONTRATO.
RECURSO PROVIDO PARA CASSAR A DECISÃO AGRAVADA.
1. Não nos parece razoável adotar a teoria do adimplemento substancial do contrato
tendo em conta simplesmente um critério numérico, já que isso afastaria a perquirição
acerca da ocorrência de justo impedimento para o pagamento das prestações
vencidas e da própria boa-fé do devedor; além da utilidade para o credor do exercício
de outra fórmula processual para recebimento do crédito. 2. Hipótese, ademais, em
que o inadimplemento alcança o equivalente a 25% do valor do contrato, não se
afigurando razoável a adoção da teoria debatida, sob pena inclusive de se projetar, no
campo da realidade social, condutas de inadimplemento substancial.
3. Além do critério matemático adotado na decisão agravada, para a aplicação da
tese do adimplemento substancial é necessário perquirir se havia justo motivo para o
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não pagamento e se o ajuizamento da ação de busca e apreensão não era o único


meio para a satisfação do crédito. Assim, nos parece impossível o magistrado
reconhecer tal abuso de ofício, caracterizando verdadeiro cerceamento do direito de
ação, sem justa causa comprovada nos autos. 4. Na ação de busca e apreensão
regulada pelo Decreto-lei 911/69, o indeferimento da liminar provoca
automaticamente a extinção do processo sem resolução de mérito. Nessa vereda,
equivocada se apresenta a decisão agravada também na sua parte final, pois que o
magistrado, apesar de indeferir a liminar de busca e apreensão, determinou a citação
do réu para contestar, como se fosse possível ao final examinar qualquer questão de
mérito que não esteja diretamente vinculada com a consolidação da propriedade e
posse do bem anteriormente apreendido. (TJPR - 17ª C.Cível - AI 858161-1 - Foro
Central da Comarca da Região Metropolitana de Curitiba - Rel.: Lauri Caetano da Silva
- Unânime - J. 14.03.2012)
AGRAVO DE INSTRUMENTO - AÇÃO DE REINTEGRAÇÃO DE POSSE - LIMINAR
INDEFERIDA - TEORIA DO ADIMPLEMENTO SUBSTANCIAL DO CONTRATO -
INAPLICABILIDADE - PARTE IMPAGA EQUIVALENTE A 25% (VINTE E CINCO POR
CENTO)
DO DÉBITO - PAGAMENTO DE 36 DAS 48 PRESTAÇÕES CONTRATADAS -
DECISÃO REFORMADA - RECURSO CONHECIDO E PROVIDO. (TJPR - 17ª C.Cível -
AI 819034-1 - Rolândia - Rel.: Fabian Schweitzer - Unânime - J. 07.03.2012)
13. Em face da inexistência de alteração substancial da sentença, mantenho o
disciplinamento da distribuição da sucumbência nela fixada.
14. Diante do exposto, voto no sentido de dar parcial provimento ao recurso de
apelação, para afastar a autorização de retenção dos valores pagos à título de
comissão de corretagem.
III- DECISÃO
ACORDAM os Desembargadores integrantes da 17ª Câmara Cível do Tribunal de
Justiça do Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao
recurso.
O julgamento foi presidido pelo Desembargador LAURI CAETANO DA SILVA, relator,
e dele participaram os Desembargadores TITO CAMPOS DE PAULA e RUI BACELLAR
FILHO.
Curitiba, 14 de junho de 2017.
DES. LAURI CAETANO DA SILVA Relator
--
1 De acordo com a perita, “os Requeridos realizaram a atualização monetária
anualmente, sendo que o contrato prevê tal atualização de forma mensal. Sendo
assim, a perícia aplicou tal correção da mesma forma praticada pela Requerida, ou
seja, de forma anual” (mov. 103.2 ­ f. 496).
2 Maria Helena Diniz - Tratado Teórico e Prático dos Contratos, editora Saraiva, 3º
volume, págs. 423, 427 e 428.
3 Art. 724. A remuneração do corretor, se não estiver fixada em lei, nem ajustada
entre as partes, será arbitrada segundo a natureza do negócio e os usos locais.

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4 Art. 46. Os contratos que regulam as relações de consumo não obrigarão os


consumidores, se não lhes for dada a oportunidade de tomar conhecimento prévio de
seu conteúdo, ou se os respectivos instrumentos forem redigidos de modo a dificultar
a compreensão de seu sentido e alcance.
Art. 47. As cláusulas contratuais serão interpretadas de maneira mais favorável ao
consumidor.

2.1.2. EMBARGOS MONITÓRIOS – CAUSA MADURA

AÇÃO MONITÓRIA. TRANSPORTE RODOVIÁRIO DE CARGAS. FATURAS NÃO

PAGAS. EMBARGOS MONITÓRIOS JULGADOS IMPROCEDENTES. TÍTULO

EXECUTIVO JUDICIAL CONSTITUÍDO. ART. 1.102-C, §3º DO CPC/1973. RECURSO

DE APELAÇÃO DA RÉ: CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. PROVA

TESTEMUNHAL DESNECESSÁRIA. CAUSA MADURA PARA JULGAMENTO. RECURSO

DESPROVIDO. Não há cerceamento do direito de defesa quando a questão sub judice

prescinde de realização de outras provas, além da documental já oferecida, cabendo

ao juiz o julgamento antecipado da lide, nos termos do art. 330 do CPC/73, sem que,

com isso, ocorra a violação aos princípios do contraditório e da ampla defesa.

(TJPR - 17ª C.Cível - AC - 1635249-9 - Curitiba - Rel.: Lauri Caetano da Silva - Unânime

- J. 14.06.2017)

Inteiro teor

I- RELATÓRIO
1. Cuida-se de recurso de apelação interposto em virtude da sentença proferida pelo
MM. Dr. Juiz de Direito da 25ª Vara Cível do Foro Central da Comarca da Região
Metropolitana de Curitiba, nos autos nº 0003304-46.2014.8.16.0179 de ação
monitória,
proposta por Braspress Transportes Urgentes Ltda em face de Rinno Motores &
Máquinas Ltda EPP, que julgou improcedentes os embargos monitórios, constituindo
em favor da autora o título executivo judicial no valor de R$11.047,14, corrigidos
monetariamente a partir da data dos vencimentos das faturas pela média entre o INPC
e o IGP- DI até a data do efetivo pagamento, e acrescidos de juros moratórios de 1%
ao mês a partir da citação. Ante a sucumbência, condenou a ré ao pagamento das
custas processuais e dos honorários advocatícios, fixados em R$1.500,001 (mov.76.1 ­
f. 277/283).

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Contra esta decisão, a ré opôs embargos de declaração (mov. 81.1 ­ f. 289/291), os


quais foram rejeitados (mov. 92.1 ­ f.
306/307).
2. A ré Rinno Motores & Máquinas Ltda EPP interpôs recurso de apelação (mov. 97.1 -
f. 313/318), sustentando a nulidade da sentença por cerceamento de seu direito de
defesa em razão do julgamento antecipado da lide.
Contrarrazões de apelação (mov. 103.1 ­ f. 313/318).
É o relatório.
II- VOTO
Presentes os pressupostos recursais de admissibilidade (intrínsecos e extrínsecos)
merece o recurso ser conhecido.
3. A apelante pleiteia a nulidade da sentença, em razão do cerceamento do direito de
defesa provocado pelo julgamento antecipado da lide. Afirma ser necessária a
produção da prova testemunhal requerida.
Pois bem!
3.1. Do cotejo dos autos, observa-se que a Braspress Transportes Urgentes Ltda
ajuizou ação monitória em face de Rinno Motores & Máquinas Ltda EPP, relatando que
a ré usufruiu do serviço de transporte rodoviário de cargas por ela prestado sem,
porém, efetuar o pagamento das quantias devidas à título de retribuição. A dívida já
perfaz a quantia de R$11.047,14, representada pelas faturas de número 1212003248,
1211121800, 1211016008, 1210175903 e 1210064083, nos valores de R$2.773,61,
R$1.750,19, R$2.465,61, R$1.337,07 e R$2.720,66, com vencimento em 21.12.2012,
07.12.2012, 23.11.2012, 09.11.2012 e 26.10.2012. Apesar de sua tentativa de
recebimento do crédito, a requerida se nega a pagá-lo, razão pela qual ajuizou ação
monitória, com fundamento nos artigos 1.102-A e seguintes do Código de Processo
Civil. Dessa forma, diante da comprovação da existência do débito, requereu a
expedição de mandado de pagamento.
A requerida apresentou embargos monitórios (mov. 23.1 ­ f. 189/194), sustentado a
inexistência de documentos essenciais para constituição do crédito. Destacou que a
apresentação dos boletos bancários acompanhados do conhecimento de transporte
rodoviário, sem a emissão de duplicatas, não seria suficiente para comprovar a
existência da transação comercial.
Na fase de especificação de provas, a requerida postulou a produção da prova oral,
“consubstanciada no depoimento pessoal da representante legal da autora, bem
como em oitiva de testemunhas a serem arroladas oportunamente” (mov. 35.1 ­ f.
218). O julgador monocrático posicionou-se pelo julgamento antecipado da lide (mov.
54.1 ­ f. 244).
O magistrado de 1º grau proferiu sentença (mov. 97.1 ­ f. 313/318), pela qual julgou
improcedentes os embargos monitórios, constituindo em favor da autora o título
executivo judicial no valor de R$11.047,14, corrigidos monetariamente a partir da data
dos vencimentos das faturas pela média entre o INPC e o IGP-DI até a
data do efetivo pagamento, e acrescidos de juros moratórios de 1% ao mês a partir
da citação.

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Em que pese os argumentos da apelante, não vejo razão para acolher a insurgência.
Isto porque a questão sub judice prescinde de realização de outras provas, além da
documental já oferecida, cabendo ao juiz o julgamento antecipado da lide, nos termos
do art. 330 do Código Civil de 1973, sem que, com isso, ocorra a violação aos
princípios do contraditório e da ampla defesa.
É perfeitamente possível que sejam dispensados alguns atos instrutórios,
especialmente quando as demais provas autorizam o julgador a entregar a prestação
jurisdicional de forma mais célere e quando a discussão travada nos autos se revela
inadequada.
No caso, em seus embargos monitórios, a requerida limitou-se a alegar a ausência
dos documentos essenciais à propositura da ação monitória, matéria unicamente de
direito, mostrando-se desnecessária a dilação probatória.
Desse modo, diante da prova documental produzida e da sua suficiência para
entender a relação jurídica ultimada pelas partes, podemos afirmar que neste caso não
era necessária a produção de prova testemunhal. Se os documentos apresentados são
suficientes para o magistrado firmar o seu convencimento à luz do princípio da
persuasão racional (art. 131, CPC/1973) pode desprezar a realização de outras provas
por conta da sua inutilidade para a composição do litígio.
A corroborar:
PROCESSUAL CIVIL. OFENSA AO ART. 535 DO CPC NÃO CONFIGURADA.
ALEGAÇÃO DE CERCEAMENTO DE DEFESA. INEXISTÊNCIA. JULGAMENTO
ANTECIPADO DA LIDE.
PRODUÇÃO DE PROVAS. PRINCÍPIO DO LIVRE CONVENCIMENTO MOTIVADO.
REEXAME PROBATÓRIO. INVIABILIDADE. SÚMULA 7/STJ. 1. A solução integral da
controvérsia, suficientemente fundamentada, não caracteriza ofensa ao art. 535 do
CPC. 2. Ao julgador é dado apreciar o pedido formulado com base em provas que
entender suficientes para a formação de seu convencimento, não havendo, portanto,
indícios de nulidade processual na espécie 3.
Segundo a jurisprudência do STJ, “cumpre ao magistrado, destinatário da prova,
valorar sua
necessidade, conforme o princípio do livre convencimento motivado, previsto no art.
131 do CPC.
(...) 5. Agravo Regimental não provido. (STJ, AgRg no AREsp 414.534/DF, Rel.
Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 26/11/2013, DJe
05/12/2013)
“É cediço que não configura cerceamento de defesa o julgamento da causa, sem a
produção de prova, quando o tribunal local entender substancialmente instruído o
feito, declarando a existência de provas suficientes para seu convencimento. (STJ,
AgRg no REsp 1067586/SP, Rel.
Ministro RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA, TERCEIRA TURMA, julgado em 22/10/2013,
DJe 28/10/2013)
“O julgamento antecipado da lide, por si só, não caracteriza cerceamento de defesa,
já que cabe ao magistrado apreciar livremente as provas dos autos, indeferindo
aquelas que considere inúteis ou meramente protelatórias.” (STJ, AgRg no AREsp
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420.011/DF, Rel. Ministro SIDNEI BENETI, TERCEIRA TURMA, julgado em 26/11/2013,


DJe 10/12/2013)
“Cerceamento de defesa. Inocorre cerceamento de defesa se a matéria é
eminentemente de direito e as provas contidas nos autos são suficientes para formar o
convencimento do Magistrado, sendo seu dever proceder ao julgamento antecipado
da lide, afastando pretensão de prova desnecessária ou inadmissível na espécie.”
(TJPR - 2ª C.Cível - AC - 1092584-7 - Região Metropolitana de Londrina - Foro Central
de Londrina - Rel.: Jurandyr Souza Junior - Unânime - - J. 05.11.2013)
Logo, não se fazia necessária a produção das outras provas pretendidas, e, como bem
salientou o Ministro Luiz Fux, no Recurso Especial 474.475/SP, “O art. 131, do CPC
consagra o princípio da persuasão racional, habilitando-se o magistrado a valer-se do
seu convencimento, à luz dos fatos, provas, jurisprudência, aspectos pertinentes ao
tema e da legislação que entender aplicável ao caso concreto constantes dos autos,
rejeitando diligências que delongam desnecessariamente o julgamento, atuando em
consonância com o princípio da celeridade processual.” (STJ, 1ª T., REsp 474.475/SP,
DJ 25.02.2004).
Portanto, presentes nos autos elementos suficientes para o convencimento do
julgador, visto que a matéria fática restou incontroversa, desnecessária a realização de
prova testemunhal ou qualquer outro ato instrutório.
6. Diante do exposto, voto no sentido de negar provimento ao recurso de apelação.
III- DECISÃO
ACORDAM os Desembargadores integrantes da 17ª Câmara Cível do Tribunal de
Justiça do Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em negar provimento ao
recurso de apelação.
O julgamento foi presidido pelo Desembargador LAURI CAETANO DA SILVA, relator,
e dele participaram os Desembargadores TITO CAMPOS DE PAULA e RUI BACELLAR
FILHO.
Curitiba, 14 de junho de 2017.
DES. LAURI CAETANO DA SILVA Relator
--
1 Sentença proferida em 10.11.2015 e publicada em 11.11.2015.

2.1.3. CDC – COMPRA E VENDA DE VEÍCULO ZERO – VÍCIO DE QUALIDADE

AÇÃO DE INDENIZAÇÃO. COMPRA E VENDA DE VEÍCULO "ZERO QUILÔMETRO.

VÍCIO DE QUALIDADE. PEDIDOS JULGADOS PARCIALMENTE PROCEDENTES.

RECURSO DE APELAÇÃO DA REQUERIDA: AQUISIÇÃO DE VEÍCULO "ZERO

QUILÔMETRO". PROBLEMA DE EXCESSIVA EMISSÃO DE FUMAÇA AO ACELERAR.

VÍCIO DE QUALIDADE. ART. 18, §1º DO CDC. DEVOLUÇÃO INTEGRAL DO VALOR

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PAGO PELO BEM. ABATIMENTO DA QUANTIA A SER DEVOLVIDA. DEPRECIAÇÃO

DO BEM APÓS A RETIRADA DA CONCESSIONÁRIA. VEDAÇÃO. RISCO

PROVOCADO PELO FORNECEDOR. DISTRIBUIÇÃO DO ÔNUS DA SUCUMBÊNCIA

MANTIDA. RECURSO DESPROVIDO. 1. Verificando-se ser a coisa imprestável ou

inadequada à sua normal e segura utilização (vício de qualidade), com a eliminação da

expectativa depositada no consumidor de que estaria adquirindo automóvel novo

isento de qualquer avaria, adulteração ou outra alteração, e não sendo o vício sanado

no prazo máximo de 30 (trinta) dias, exsurge para esse a faculdade de exigir,

alternativamente, a substituição do produto, a restituição da quantia paga ou o

abatimento proporcional do preço, não sendo tolerada a ingerência do fornecedor

nessa escolha, na melhor exegese do artigo 18, §1º, do Código de Defesa do

Consumidor (Acórdão n.703634, 20100111786196APC, Relator: FLAVIO ROSTIROLA,

Revisor: SIMONE LUCINDO, 1ª Turma Cível, Data de Julgamento: 14/08/2013,

Publicado no DJE: 19/08/2013. Pág.: 58). 2. Não pode o consumidor ser penalizado

com os efeitos da depreciação do bem, quando não deu causa à resolução do

contrato e não contribuiu para a demora na solução da lide, devendo a concessionária

garantir o retorno ao status quo ante.

(TJPR - 17ª C.Cível - AC - 1640814-9 - Região Metropolitana de Maringá - Foro Central

de Maringá - Rel.: Lauri Caetano da Silva - Unânime - J. 14.06.2017)

Inteiro Teor

I- RELATÓRIO
1. Cuida-se de ação de obrigação de fazer cumulada com pedido de indenização por
danos morais (autos nº 0024480- 82.2014.8.16.0017) ajuizada por Aldo Pereira Teixeira
em face de Concessionária Sul Import Veículos e Serviços Limitada, alegando que (a)
No dia 28.03.2013, adquiriu junto a concessionária requerida um veículo I/LR Range
Rover SDV8 VOGUE, 2012/2013, chassi SALGA2HF0DA103976, pelo preço de
R$535.000,00; (b) sempre despendeu ao bem as devidas precauções e os
recomendados cuidados previstos no respectivo Manual de Instruções e Utilização do
veículo, zelando pela sua manutenção, conservação, durabilidade e eficiência; (c) no
dia 09.12.2013, levou o veículo até a concessionária para fazer a primeira revisão e a
correção de defeitos apontados pela fábrica em recall. Contudo, os serviços não foram
finalizados em virtude da falta de peças; (d) no dia 31.03.2014, retornou à

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concessionária para que fosse finalizada a revisão e os reparos necessários referente ao


mencionado recall. Nessa oportunidade, informou a requerida acerca da necessidade
de se proceder a reparos e correções no motor do veículo, o qual expelia forte fumaça
branca quando aumentada a sua rotação, problema este que persistia desde a retirada
do automóvel da revisão iniciada em dezembro de 2013; (e) contudo, o veículo só fora
entregue em 21.05.2014 sem que o problema no motor fosse corrigido; (f) os defeitos
apontados somente foram solucionados no dia 04.06.2014; (g) no dia 09.09.2014,
retornou a concessionária para a realização da segunda revisão, bem como para novos
reparos no motor/ignição do automóvel, haja vista que frequente e repentinamente
desligava durante o trafego nas ruas e rodovias; (h) o veículo foi entregue somente em
26.09.2014 sem que os problemas de desligamento abrupto do motor fossem
reparados, o que o levou a registrar
reclamação junto assistência técnica da fabricante Land Rover, que o orientou a levar
novamente o veículo a concessionária; (i) o veículo permaneceu para reparos durante
todo o mês de outubro de 2014, sendo que, desde 28.10.2014, não recebe nenhuma
informação da requerida acerca do veículo, não restando outra alternativa a não ser
ingressar com a presente ação; (j) ao caso são aplicáveis as normas do Código de
Defesa do Consumidor; (k) nos termos do artigo 18 do CDC o fornecedor responde
pelo vício de qualidade. Nesses termos, pleiteou a restituição do valor pago pelo
automóvel e a condenação da ré ao pagamento de indenização por dano moral.
2. A ré, Concessionária Sul Import Veículos e Serviços Limitada, apresentou resposta
em sede de contestação (mov. 23.6 - f.
124/135), afirmando que (a) os problemas apontados pelo autor foram devidamente
sanados, encontrando-se o veículo apto ao seu regular uso; (b) o defeito foi
plenamente reparado sem ter perdido suas qualidades ou características, tampouco,
sofrera depreciação de valor; (c) eventual determinação no sentido de substituição do
produto ou a restituição imediata da quantia paga infringiria veementemente a norma
consumerista, promovendo o enriquecimento sem causa do requerente; (d) não houve
prejuízo moral causado ao autor. Assim, postulou a improcedência dos pedidos.
3. Em sede de saneador, foi deferida a inversão do ônus da prova e a produção da
prova pericial (mov. 44.1 ­ f. 204/205).
O Laudo pericial foi carreado aos autos (mov. 84.1 ­ f. 277-312).
4. O MM. Dr. Juiz a quo proferiu sentença (mov. 113.1 - f. 423/429), pela qual julgou
parcialmente procedente o pedido formulado na inicial, para condenar a ré a restituir
ao autor o valor por ele pago pelo automóvel, devidamente corrigido monetariamente
pela média do INPC/IGP-DI desde a data do desembolso e acrescido de juros de mora
de 1% ao mês, desde a citação, mediante a devolução, à ré, do bem no estado em
que se encontra, o que deverá ser feito no prazo de 05 dias a contar do trânsito em
julgado, juntamente com a documentação correspondente. Ante a sucumbência
mínima do autor, condenou a ré ao pagamento das custas processuais e
dos honorários advocatícios, fixados em 10% sobre o valor atualizado da condenação.
5. A ré, Concessionária Sul Import Veículos e Serviços Limitada, interpôs recurso de
apelação (mov. 121. - f. 438/445), alegando que (a) o vício pode ser sanado, razão pela
qual não se justifica a sua condenação à restituição do montante pago; (b) se os
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problemas são passíveis de reparo, não há que se falar em imprestabilidade do


veículo, o que afasta a possibilidade das medidas constantes no art. 18 do CDC; (c) na
hipótese de não ser reformada a sentença, para fins de restituição, deve ser tomado
como base o atual valor de mercado do veículo, ou ao menos, o valor de mercado na
data em que o autor/apelado deixou o veículo na concessionária, considerando-se,
assim, o período de utilização do veículo e seu desgaste natural; (d) o ônus da
sucumbência deve ser redistribuído de forma proporcional, nos termos do art. 86 do
CPC, haja vista ter restado vencido o apelado quanto ao pleito de danos morais.
Contrarrazões de apelação (mov. 129.1 ­ f. 456/477).
É o relatório.
II- VOTO
Presentes os pressupostos recursais de admissibilidade, intrínsecos e extrínsecos,
merece o recurso ser conhecido.
6. Extrai-se dos autos que (i) no dia 28.03.2013, o autor adquiriu junto a
concessionária requerida um veículo I/LR Range Rover SDV8 VOGUE, 2012/2013,
chassi SALGA2HF0DA103976, pelo preço de R$535.000,00; (ii) a requerida, desde que
o requerente deixou o veículo para primeira revisão em 09.12.2013, foi informada
acerca dos problemas apresentados pelo mesmo, tais como, barulho no motor e a
excessiva fumaça branca ao arrancar; (iii) o veículo foi deixado na concessionária, por 6
vezes, sem que houvesse a devida reparação dos problemas; (vi) o veículo encontra-se
na concessionária desde o dia 26.02.2015, após uma pane geral elétrica.
Tais fatos foram devidamente demonstrados pelo autor, através das ordens de serviço
anexadas no curso do processo (mov.
1.12, 23.1, 23.4 e 29.3 ­ f. 47, 116, 121 e 181).
A prova pericial produzida nos autos confirmou as queixas do autor. Vejamos as
respostas fornecidas pelo Perito Judicial (84.1 a 84.3 - f. 377/312):
“Ao arrancar com o veículo em um determinado momento, quando o veículo se
encontrava com temperatura normal de funcionamento, observou-se excesso de
fumaça emitida pelo sistema de exaustão do motor” (mov. 84.2 - f. 295).
“h) Se, pelo diagnóstico apontado nas respectivas ordens de serviços, é possível
apontar se, de fato, o veículo achava-se impossibilitado de dirigibilidade.
Resposta: Considerando principalmente o sintoma “veículo morrendo em baixa
rotação”, deve-se considerar que a dirigibilidade do veículo se encontrava
prejudicada” (quesito h ­ autor ­ mov. 84.2).
i) Se, em relação às ordens de serviços objeto das seguidas entradas do veículo junto
à Requerida, quais foram os períodos nos quais o veículo acabou por permanecer em
poder da concessionária demandada, bem como qual o período total em que o Autor
teve privado seu uso do veículo face aos problemas apresentados;
Resposta: O veículo permaneceu em poder da Concessionária para reparos por
aproximadamente 119 (cento e dezenove) dias sem considerar a última entrada em
01/06/2015 (O.S. 11.863) em que o veículo foi encaminhado para Concessionária e
não foi retirado até o momento pelo Requerente” (quesito i ­ autor ­ mov. 84.2).
“o) Se o veículo ainda apresenta o defeito constatado a partir de dezembro de 2.013,
expelindo forte fumaça branca quando aumentada a rotação de seu motor;
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Resposta: Sim, conforme constatado em teste de rodagem no momento da perícia”


(quesito o ­ autor ­ mov. 84.2).
“s) Se, dado o histórico do veículo junto à própria demandada, e considerando ainda
os reiterados problemas apresentados conforme verifica-se pelas respectivas ordens
de serviços, é possível tê-lo absolutamente com segurança e tranquilidade dentro do
que recomenda o fabricante;
Resposta: Não. O sintoma de excesso de fumaça ao acelerar o veículo não foi
devidamente reparado” (quesito s ­ autor ­ mov. 84.2).
“c) Queira o Sr. Perito informar se os serviços prestados pela concessionária sanaram
os defeitos;
Resposta: Em teste de rodagem, observou-se que o sintoma de excesso de fumaça
saindo pelo escapamento não foi solucionado” (quesito c ­ ré ­ mov. 84.2).
“g) Queira o Sr. Perito informar se houve falha de prestação de serviço pela
concessionária;
Resposta: No caso em tela verificou-se uma grande espera por peças que não se
encontravam disponíveis no estoque da Concessionária e a falta de solução referente
ao sintoma de excesso de fumaça saindo pelo escapamento ao acelerar” (quesito g ­
ré ­ mov. 84.2).
“h) Queira o Sr. Perito informar se o veículo encontra-se impróprio ao consumo ou se
está em perfeitas condições de uso e rodagem.
Resposta: Para que o veículo se encontre em plena condição de uso, é necessária a
solução do sintoma referente ao excesso de fumaça pelo escapamento ao acelerar”
(quesito h ­ ré ­ mov. 84.2).
Da análise da prova pericial, observa-se que, ao contrário do alegado pela apelante, o
defeito no veículo, qual seja, “excesso de fumaça pelo escapamento ao acelerar”, não
foi solucionado pela concessionária, mesmo depois do veículo permanecer em suas
instalações desde o dia 26.02.2015 até a presente data.
Apesar da requerida apontar que o vício é sanável, não conseguiu fazê-lo, em que
pese as diversas ordens de serviço a que o veículo foi submetido.
Dessa maneira, apresentando o veículo zero quilômetro adquirido pelo autor vício de
fabricação não solucionado pela demandada, tampouco se mostrando as tentativas de
conserto aptas a solucionar o problema, a devolução do valor pago pelo bem é um
direito do consumidor.
Ora, é nítido o vício de qualidade do produto (vício oculto - art. 181) apresentado
desde seu primeiro ano de uso. Embora dado a ré a oportunidade de sanar os vícios,
esta não logrou êxito em fazê-lo. Vale destacar que o veículo no estado apresentado
não se encontra adequado ao uso e compromete a segurança do consumidor.
Assim, verificado o vício, abre-se para o consumidor a opção legal de exigir,
alternativamente, e à sua escolha, a substituição do produto por outro, a restituição
imediata da quantia paga ou o abatimento proporcional do preço (art. 18, §§ 1º e 3º,
CDC).
Nessa toada, diante das regras do Código de Defesa do Consumidor, mormente
quanto à escolha do consumidor, entendo adequada a sentença na parte em que

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determinou à restituição da quantia paga. Como já destacado, o autor deve devolver o


veículo.
A corroborar:
“RECURSO ESPECIAL. DIREITO DO CONSUMIDOR. VEÍCULO ZERO. VÍCIO DE
QUALIDADE.
JULGAMENTO ULTRA PETITA. INEXISTÊNCIA. INTELIGÊNCIA DO ART. 18 DO
CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR - CDC. OPÇÕES ASSEGURADAS AO
CONSUMIDOR.
SUBSTITUIÇÃO DO PRODUTO POR OUTRO DA MESMA ESPÉCIE EM PERFEITAS
CONDIÇÕES DE USO. ESCOLHA QUE CABE AO CONSUMIDOR. INEXISTÊNCIA DE
PRODUTO SEMELHANTE EM ESTOQUE DADA A PASSAGEM DO TEMPO.
INCIDÊNCIA DO DISPOSTO NO ART. 18, § 4º, DO CDC. DANO MORAL. (...) 2. Nos
termos do § 1º do art. 18 do Código de Defesa do Consumidor - CDC, caso o vício de
qualidade do produto não seja sanado no prazo de 30 dias, o consumidor poderá,
sem apresentar nenhuma justificativa, optar entre as alternativas ali contidas, ou seja: (I)
a substituição do produto por outro da
mesma espécie, em perfeitas condições de uso; (II) a restituição imediata da quantia
paga; ou (III) o abatimento proporcional do preço. 3. Assim, a faculdade assegurada no
§ 1º do art.
18 do Estatuto Consumerista permite que o consumidor opte pela substituição do
produto no caso de um dos vícios de qualidade previstos no caput do mesmo
dispositivo, entre eles o que diminui o valor do bem, não exigindo que o vício
apresentado impeça o uso do produto. 4. No presente caso, a substituição do veículo
por outro em perfeitas condições de uso foi a alternativa escolhida pelo consumidor.
Então, não poderia o Juízo de piso alterar essa escolha, ainda que a pretexto de
desonerar o consumidor, sob pena de maltrato ao art. 18, § 1º, do CDC. Precedente.
5. Não havendo outro veículo nas mesmas condições do adquirido pelo autor nos
estoques das recorridas, é de se aplicar o disposto no § 4º do art. 18 do CDC, que
permite a substituição por outro produto de espécie, marca ou modelo diversos,
mediante complementação ou restituição da diferença de preço, permanecendo
abertas as alternativas dos incisos II e III daquele § 1º. (...) (REsp 1016519/PR, Rel.
Ministro RAUL ARAÚJO, QUARTA TURMA, julgado em 11/10/2011, DJe 25/05/2012)
DIREITO DO CONSUMIDOR. VEÍCULO NOVO. VÍCIO REDIBITÓRIO. LEGITIMIDADE
PASSIVA DA REVENDEDORA. INTELIGÊNCIA DO ART. 18 DO CDC. DECADÊNCIA
NÃO CONFIGURADA. AGRAVO RETIDO IMPROVIMENTO. RESCISÃO DOS
CONTRATOS DE COMPRA E VENDA E DE FINANCIAMENTO. INTERDEPENDÊNCIA.
DEVOLUÇÃO DOS VALORES PAGOS SEM ABATIMENTO DO VALOR REFERENTE À
DEPRECIAÇÃO E USO DO BEM. DANO MORAL. INOCORRÊNCIA. SENTENÇA
PARCIALMENTE REFORMADA.
1. Nas hipóteses em que se discute vício do produto, aplica-se o disposto no art. 18
do CDC, que prevê responsabilidade solidária entre o fabricante e o comerciante.
Preliminar de ilegitimidade passiva rejeitada.

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2. Registrada a reclamação sobre o vício do produto, o prazo decadencial previsto no


artigo 26 do Código de Defesa do Consumidor só flui após a resposta formal e
inequívoca quanto à reclamação do consumidor. Decadência afastada.
3. Uma vez rescindido o contrato de compra e venda de veículo financiado, por vício
redibitório, o contrato de financiamento do mesmo bem não pode subsistir, ante a
inequívoca interdependência entre as duas avenças.
4. Constatada a existência de defeito no veículo, reclamado no prazo de garantia
contratual, vício não reparado pela concessionária ré no prazo previsto no art. 18, §1.º,
do Código de Defesa do Consumidor, procedente é o pedido de rescisão contratual.
5. Não pode o consumidor ser penalizado com os efeitos da depreciação do bem,
quando não deu causa à resolução do contrato e não contribuiu para a demora na
solução da lide.
6. Meros aborrecimentos decorrentes do descumprimento contratual não configuram
dano moral, sobretudo quando não se efetiva qualquer apontamento desabonador.
7. Recurso da segunda ré não provido. Recurso da primeira ré parcialmente provido.
Unânime.
(TJ/DF, Acórdão n.732364, 20100610052800APC, Relator: FÁTIMA RAFAEL, Revisor:
CARMELITA BRASIL, 2ª Turma Cível, Data de Julgamento: 23/10/2013, Publicado no
DJE: 11/11/2013. Pág.: 192)
7. O pedido de amortização decorrente da depreciação do bem também não
prospera.
Sustenta a apelante que o veículo vem sendo utilizado pelo autor (apelado), desde
2013, e contava com 23.029Km rodados por ocasião da perícia realizada em
26.10.2015 (mov. 84.2 - f. 305), motivo pelo qual a restituição do valor integral pago
pelo veículo consubstanciar-se-ia em enriquecimento ilícito do autor.
No caso, é preciso esclarecer que o veículo, no momento em que apresentou os
problemas (09.12.2013), encontrava-se na garantia, e contava com menos de 1 ano de
uso. O autor tentou solucionar o problema de forma amigável, por mais de 2 anos.
Entretanto, nenhuma atitude apta a solucionar o imbróglio foi tomada pela apelante.
O veículo permanece em suas instalações desde o dia 26.02.2015. Constata-se que,
nos quase 2 anos em que o autor teve a posse do bem, o mesmo ficou na
concessionária por 119 dias (laudo pericial ­ mov. 84.2 ­ f. 300).
Desse modo, não pode o consumidor ser penalizado pelos efeitos da depreciação do
bem, já que não deu causa à resolução do contrato e não contribuiu para a demora na
solução prometida.
Nesse sentido, é o entendimento jurisprudencial:
“PROCESSO CIVIL, CIVIL E CONSUMIDOR. AUSÊNCIA DE SUCUMBÊNCIA DO
BANCO.
RECURSO ADESIVO NÃO CONHECIDO. MÉRITO. RESCISÃO DO CONTRATO DE
COMPRA E VENDA DE AUTOMÓVEL E PEDIDO DE DEVOLUÇÃO DA QUANTIA
PAGA. VÍCIO DE QUALIDADE. PRAZO DE 30 (TRINTA) DIAS PARA O FORNECEDOR
SANAR OS DEFEITOS APRESENTADOS. ART. 18, § 1º, DO CDC. PRAZO
DECADENCIAL. CONTAGEM A PARTIR DA SUA CIÊNCIA. VEDADA A SUA
REABERTURA OU CONTAGEM INTERCALADA.
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PRINCÍPIO DA PROTEÇÃO INTEGRAL DO CONSUMIDOR. ABATIMENTO DA


QUANTIA A SER DEVOLVIDA. DEPRECIAÇÃO DO BEM APÓS A RETIRADA DA
CONCESSIONÁRIA.
VEDAÇÃO. RISCO PROVOCADO PELO FORNECEDOR. DESPESAS TRIBUTÁRIAS.
RESSARCIMENTO. AUSÊNCIA DE NEXO. OBRIGAÇÃO TRIBUTÁRIA DO POSSUIDOR
QUE EFETIVAMENTE USUFRUIU DO BEM DANIFICADO. DANOS MORAIS
CONFIGURADOS.
(...) 2. Verificando-se ser a coisa imprestável ou inadequada à sua normal e segura
utilização (vício de qualidade), com a eliminação da expectativa depositada no
consumidor de que estaria adquirindo automóvel novo isento de qualquer avaria,
adulteração ou outra alteração, e não sendo o vício sanado no prazo máximo de 30
(trinta) dias, exsurge para esse a faculdade de exigir, alternativamente, a substituição
do produto, a restituição da quantia paga ou o abatimento
proporcional do preço, não sendo tolerada a ingerência do fornecedor nessa escolha,
na melhor exegese do artigo 18, § 1º, do Código de Defesa do Consumidor.
3. O prazo decadencial de 30 (trinta) dias para o fornecedor sanar o vício conta-se de
forma corrida - e não intercalada -, iniciando-se com a ciência do fornecedor acerca da
irregularidade, prazo esse não passível de automática prorrogação ou reabertura por
ocasião da ausência de solução do problema, sob pena de afronta ao princípio de
proteção integral do consumidor (art. 6º, inciso VI, do CDC).
4. Operada a rescisão do contrato por vício do produto, o consumidor possui direito à
devolução da quantia paga sem o decote do valor referente à depreciação e uso do
automóvel após a retirada da concessionária, sendo o deságio risco inerente à própria
atividade do fornecedor que deu causa à resolução do acordo ao não cumprir com a
sua obrigação nas condições originalmente ajustadas, em flagrante violação ao
Diploma Consumerista.
(...)” (TJ/DF, Acórdão n.703634, 20100111786196APC, Relator: FLAVIO ROSTIROLA,
Revisor: SIMONE LUCINDO, 1ª Turma Cível, Data de Julgamento: 14/08/2013,
Publicado no DJE: 19/08/2013. Pág.: 58 )
DIREITO DO CONSUMIDOR. VEÍCULO NOVO. VÍCIO REDIBITÓRIO. RESCISÃO DO
CONTRATO DE COMPRA E VENDA DEVOLUÇÃO DOS VALORES PAGOS. DANO
MORAL.
INOCORRÊNCIA. SENTENÇA PARCIALMENTE REFORMADA.
1.Constatada a existência de defeito no veículo, reclamado no prazo de garantia
contratual, vício não reparado pela concessionária ré no prazo previsto no art. 18, §1.º,
do Código de Defesa do Consumidor, procedente é o pedido de rescisão contratual.
2. Não pode o consumidor ser penalizado com os efeitos da depreciação do bem,
quando não deu causa à resolução do contrato e não contribuiu para a demora na
solução da lide, devendo a concessionária garantir o retorno ao status quo ante.
3. Meros aborrecimentos decorrentes do descumprimento contratual não configuram
dano moral, sobretudo quando não se efetiva qualquer apontamento desabonador.
4. Recurso da primeira ré parcialmente provido.

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(Acórdão n.914101, 20100610052800APC, Relator: LEILA ARLANCH, Revisor:


GISLENE PINHEIRO, 2ª Turma Cível, Data de Julgamento: 16/12/2015, Publicado no
DJE: 22/01/2016.
Pág.: 266)
8. Não vejo razões para a alteração na distribuição do ônus da sucumbência. Isto
porque, operada a sucumbência mínima do autor (improcedência do pedido relativo a
indenização por dano moral), nos termos do artigo 86, parágrafo único do Código de
Processo Civil2, deve a requerida arcar com o pagamento integral das
custas processuais e dos honorários advocatícios devidos ao procurador do autor.
9. Diante do exposto, voto no sentido de negar provimento ao recurso de apelação.
III- DECISÃO
ACORDAM os Desembargadores integrantes da 17ª Câmara Cível do Tribunal de
Justiça do Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em negar provimento ao
recurso de apelação.
O julgamento foi presidido pelo Desembargador LAURI CAETANO DA SILVA, relator,
e dele participaram os Desembargadores TITO CAMPOS DE PAULA e RUI BACELLAR
FILHO.
Curitiba, 14 de junho de 2017.
DES. LAURI CAETANO DA SILVA Relator
--
1 Art. 18. Os fornecedores de produtos de consumo duráveis ou não duráveis
respondem
solidariamente pelos vícios de qualidade ou quantidade que os tornem impróprios ou
inadequados ao consumo a que se destinam ou lhes diminuam o valor, assim como
por aqueles decorrentes da disparidade, com a indicações constantes do recipiente,
da embalagem, rotulagem ou mensagem publicitária, respeitadas as variações
decorrentes de sua natureza, podendo o consumidor exigir a substituição das partes
viciadas.
§ 1° Não sendo o vício sanado no prazo máximo de trinta dias, pode o consumidor
exigir, alternativamente e à sua escolha: I - a substituição do produto por outro da
mesma espécie, em perfeitas condições de uso; II - a restituição imediata da quantia
paga, monetariamente atualizada, sem prejuízo de eventuais perdas e danos; III - o
abatimento proporcional do preço.
(...) § 3° O consumidor poderá fazer uso imediato das alternativas do § 1° deste artigo
sempre que, em razão da extensão do vício, a substituição das partes viciadas puder
comprometer a qualidade ou características do produto, diminuir-lhe o valor ou se
tratar de produto essencial.
(...)
2 Art. 86. Se cada litigante for, em parte, vencedor e vencido, serão
proporcionalmente distribuídas entre eles as despesas.
Parágrafo único. Se um litigante sucumbir em parte mínima do pedido, o outro
responderá, por inteiro, pelas despesas e pelos honorários.

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2.1.4. CONTRATO DE CORRETAGEM

AÇÃO DE COBRANÇA. CONTRATO DE REPRESENTAÇÃO COMERCIAL. PEDIDOS

JULGADOS IMPROCEDENTES. RECURSO DE APELAÇÃO DO AUTOR: PRESCRIÇÃO

CARACTERIZADA. RESCISÃO UNILATERAL. JUSTA CAUSA DEMONSTRADA. VERBAS

INDENIZATÓRIAS INDEVIDAS. DIFERENÇAS DE COMISSÕES. ACEITAÇÃO TÁCITA.

REDUÇÃO DA ÁREA DE ABRANGÊNCIA. ACORDO REALIZADO ENTRE AS PARTES.

VENIRE CONTRA FACTUM PROPRIUM. CLÁUSULA DEL CREDERE. VEDAÇÃO.

BRINDES. INEXISTÊNCIA DE COBRANÇA INDEVIDA. REDISTRIBUIÇÃO DO ÔNUS

DA SUCUMBÊNCIA. PEDIDO DE MINORAÇÃO DA VERBA HONORÁRIA

ADVOCATÍCIA PREJUDICADO. RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO. RECURSO

ADESIVO DO RÉU: INEXISTÊNCIA DE SUCUMBÊNCIA RECÍPROCA. ART. 997, §1º

CPC. RECURSO NÃO CONHECIDO. 1. A representação comercial é contrato formal,

regulado pela Lei n° 4.886/65 e sucessivas alterações, com objetivo de mediar a

realização de negócios mercantis, agenciando propostas ou pedidos, para transmiti-los

aos representados, sem relação hierárquica ou de subordinação. 2. Dispõe o artigo 44,

parágrafo único, da Lei 4886/65, alterada pela Lei n° 8.240/92, que regula as

atividades dos representantes comerciais autônomos, que "prescreve em cinco anos a

ação do representante comercial para pleitear a retribuição que lhe é devido e os

demais direitos que lhe são garantidos por esta Lei". 3. O prazo prescricional deve ser

contado a partir do momento em que é exigível a obrigação, e não da rescisão

contratual. 4. Comprovado o descumprimento das obrigações contratuais pelo autor,

mostra-se legítima a rescisão do contrato de representação comercial, não sendo

devidas as verbas indenizatórias pleiteadas. 5. "O fato de a representada ter reduzido

as comissões não a obriga ao pagamento das diferenças porque houve aceitação

tácita, por parte do representante, que manteve a contratação por mais de quinze

anos sem qualquer manifestação contrária" (Apelação Cível Nº 70036771509, Décima

Sexta Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Ana Maria Nedel Scalzilli,

Julgado em 27/03/2014). 6. A cláusula del credere é prática vedada pelo art. 43 da Lei

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nº 4.886/65, razão pela qual, comprovada a ocorrência da abusividade, deverá a

demandada proceder na devolução dos valores retidos indevidamente.

(TJPR - 17ª C.Cível - AC - 1626004-1 - Cascavel - Rel.: Lauri Caetano da Silva -

Unânime - J. 14.06.2017)

Inteiro Teor

I- RELATÓRIO
1. Cuida-se de recurso de apelação e recurso adesivo interpostos em virtude da
sentença proferida pelo MM. Dr. Juiz de Direito da 1ª Vara Cível da Comarca de
Cascavel, nos autos nº 0001381-71.2014.8.16.0021 de ação de cobrança cumulada
com pedido de indenização por danos materiais e morais, proposta por Roman &
Caldas Limitada em face de Garthen Industria e Comércio de Máquinas Limitada, que
julgou improcedentes os pedidos formulados na inicial . Ante a sucumbência,
condenou o autor ao pagamento das custas processuais e dos honorários advocatícios,
fixados em
R$10.000,00 1 (mov. 113.1 - f. 1618/1629).
2. A autora Roman & Caldas Limitada interpôs recurso de apelação (mov. 121.1 - f.
1638/1665), postulando a reforma integral da sentença, alegando que (i) sua pretensão
não se encontra prescrita; (ii) não deu causa à rescisão do contrato, fazendo jus ao
recebimento das verbas rescisórias; (iii) após a notificação extrajudicial o contrato
continuou vigente por mais 4 meses, não tendo àquela o condão de desfazer o vínculo
contratual; (iv) faz jus ao recebimento das diferenças de comissão; (v) faz jus ao
recebimento das comissões devidas e não quitadas pela ré, referentes aos meses de
outubro de 2010 e novembro de 2010; (vi) qualquer alteração da área de atuação
deveria ser precedida de acordo escrito e assinado pelas partes; (vii) é ilegal a fixação
de cláusula del credere; (viii) foi irregular a cobrança de brindes, amostras, peças de
reposição, garantias e catálogos. Por fim, requer a inversão do ônus da sucumbência
ou a minoração dos honorários advocatícios.
Contrarrazões ao recurso de apelação (mov. 126.1 ­ f.
1675/1684).
3. A ré Garthen Industria e Comércio de Máquinas Limitada interpôs recurso adesivo
(mov. 127.2 - f. 1689/1692), pleiteando a reforma da sentença, para obter declaração
de que nada deve ao recorrido.
Contrarrazões ao recurso adesivo (mov. 134.1 ­ f.
1701/1707).
É o relatório.
II- VOTO
Em primeiro lugar, anoto que o recurso adesivo não merece ser conhecido. Isto
porque o recurso adesivo só é cabível quando há sucumbência recíproca das partes,
nos termos do artigo 997, §1º do Código de Processo Civil.

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No caso, entretanto, os pedidos foram julgados improcedentes e consequentemente,


já houve o reconhecimento de que a requerida nada deve ao autor, mormente quando
estamos diante de uma ação de cobrança.
Com efeito, somente quando houver sucumbência recíproca é possível ao recorrido
que não se conformara com a decisão interpor recurso adesivo. Ausente a
sucumbência recíproca, falta ao recurso adesivo um de seus pressupostos de
admissibilidade.
Sobre a questão, válida é a lição de Nelson Nery Júnior e Rosa Maria de Andrade
Nery:
“Para que seja admissível o recurso adesivo é preciso que: a) tenha havido
sucumbência recíproca (vencidos parcialmente autor e réu); b) o recorrido não tenha
interposto recurso principal, conformando-se com a decisão que lhe fora parcialmente
adversa; c) o recurso principal seja de apelação, embargos infringentes, RE ou
Resp.”(In, Código de Processo Civil Comentado e Legislação Extravagante, pág. 863).
O recurso adesivo, assim como todos os outros recursos previstos no ordenamento
jurídico pátrio, necessário a presença de seus pressupostos de admissibilidade, sob
pena de não conhecimento.
Não há que se cogitar também pela aplicação do princípio da fungibilidade tendo em
vista a data da interposição do recurso adesivo.
Com a ressalva supra, presentes os pressupostos processuais de admissibilidade,
intrínsecos e extrínsecos, conheço do recurso de apelação.
4. Do cotejo dos autos, depreende-se que:
4.1. a Roman & Caldas Limitada ajuizou ação de cobrança cumulada com pedido de
indenização por danos materiais e morais (nº 0001381- 71.2014.8.16.0021) em face de
Garthen Industria e Comércio de Máquinas Limitada, alegando que (i) celebrou com a
requerida, em 11.07.1994, contrato de Representação Comercial; (ii) o valor das
comissões foi ajustado em 5% do valor líquido das vendas; (iii) a ré enviou-lhe uma
notificação datada de 29.10.2010, rescindindo o contrato de representação comercial,
por justa causa, sob a alegação (falsa) de infração contratual, consistente no
agenciamento de produtos de uma de suas concorrente; (iv) não obstante a referida
notificação, o contrato permaneceu vigente até 30.01.2011, pois continuou, com
autorização da ré, a efetuar a intermediação de vendas, enviando novos pedidos; (v)
diante da continuidade da relação negocial, acreditou que a notificação extrajudicial
tinha perdido sua validade; (vi) em 04.05.2011, a ré depositou em sua conta bancária o
valor líquido de R$66.760,37, identificado sob o título de “RESCISÃO”, sem a
formalização de nenhum instrumento contratual. Destacou que o valor depositado está
muito aquém do valor efetivamente devido, restando diferenças a serem pagas, tanto
a título de verbas rescisórias, como decorrentes de diferenças de comissões, estornos
indevidos e despesas cobradas ilegalmente; (vii) durante o contrato, sua área de
abrangência foi indevidamente reduzida, o que lhe causou diversos prejuízos
financeiros. Assim, postulou a procedência da ação e a condenação da ré ao
pagamento de (a) diferenças devidas em razão das reduções ilegais dos percentuais
de comissão; (b) comissões devidas e não pagas ao longo de todo contrato; (c)
devolução dos valores dos títulos de clientes inadimplentes, que foram cobrados
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ilegalmente (cláusula del credere); (d) indenização pela redução ilegal da área de
abrangência de atuação; (e) indenização dos valores que foram cobrados ilegalmente a
título de brindes, amostras, peças de reposição, garantias, catálogos, etc; (f) despesas
realizadas e não reembolsadas pela ré quando da convocação para reuniões; (g)
indenização compensatória pela formação da clientela e abertura de áreas (perdas e
danos); (h) indenização por danos morais; (i) indenização das verbas rescisórias, tais
como aviso prévio e indenização de 1/12.
4.2. A ré Garthen Industria e Comércio de Máquinas Limitada apresentou resposta em
sede de contestação (mov. 25.1 - f. 1358/1372), alegando, preliminarmente, a
prescrição da pretensão com base no artigo 44 da Lei nº 4.886/95 e a incompetência
absoluta do Juízo, pois deve ser processado e julgado perante a Justiça do Trabalho.
No mérito, discorreu que foi a autora quem deu causa à rescisão do pacto, na medida
em que passou a vender produtos similares de empresas concorrentes. Salientou que,
desde o início da contratação, foi pactuada a alteração das áreas de abrangência.
Também estava previsto contratualmente a possibilidade de redução do percentual
da comissão. Ressaltou que a parte autora avalizava seus clientes para não perder
vendas. Esclareceu que inexistem valores a serem pagos a título de verba rescisória.
Dessa forma, pugnou pela improcedência dos pedidos formulados na inicial.
4.3. No despacho saneador (mov. 51.1 - f. 1487/1490), o magistrado de 1º grau
afastou a preliminar de incompetência do Juízo, fixou os pontos controvertidos e
deferiu a produção da prova testemunhal.
4.4. Em sede de audiência de instrução e julgamento, foi tomado o depoimento
pessoal das partes e inquiridas 06 testemunhas (mov.
74.1 e 105.1 ­ mov. 1538/1544 e 1597/1601).
4.5. O MM. Dr. Juiz a quo julgou improcedentes os pedidos formulados na inicial
(mov. 113.1 - f. 1618/1629). É contra esta decisão que se insurge o autor.
Pois bem!
5. A apelante afirma que não operou a prescrição da sua pretensão, sustentando que
o prazo previsto no artigo 44, parágrafo único, da Lei n° 4.886/65, diz respeito ao
ajuizamento da ação pelo representante comercial para pleitear a retribuição que lhe é
devida. Sustenta que, embora o julgador monocrático tenha reconhecido a prescrição
quinquenal das parcelas anteriores a 16.01.2009, o que prescreve em cinco anos é o
direito de ação, e não o direito à indenização das parcelas.
Contudo, não vejo razão para a modificação da sentença neste aspecto.
Em primeiro lugar, é necessário ressaltar que as relações jurídicas decorrentes do
contrato de representação comercial são regidas pela Lei nº 4.886/65 alterada pela Lei
nº 8420/92. Assim, o prazo prescricional para o exercício de direitos oriundos das
relações de representação comercial deverá obedecer às regras contidas na referida
lei.
Sob esse prisma, é forçoso reconhecer que o prazo prescricional para a cobrança de
direitos decorrentes desse tipo de contrato é de cinco anos.
A Lei 4.886/65, ao regular as atividades dos representantes comerciais autônomos,
assim dispõe no §único do artigo 44:

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“Art. 44. (...) Parágrafo único. Prescreve em cinco anos a ação do representante
comercial para pleitear a retribuição que lhe é devida e os demais direitos que lhe são
garantidos por esta lei.”
Por sua vez, a prescrição para cobrar comissões pagas a menor e obter indenização
por quebra de exclusividade tem termo inicial diverso, pois “o representante comercial
adquire o direito às comissões quando do pagamento dos pedidos ou propostas” (art.
32 da Lei 4.886/65) e “o pagamento das comissões deverá ser efetuado até o dia 15
do mês subsequente ao da liquidação da fatura, acompanhada das respectivas cópias
das notas fiscais” (art. 32, §1º, da Lei 4.886/65).
Ou seja, a pretensão para cobrar as comissões pagas a menor, nasce com o seu não
pagamento no prazo legal.
Assim, a cada mês em que houve comissões pagas a menor e a cada venda feita por
terceiro em sua área de exclusividade, faz surgir para o representante comercial o
direito de obter a devida reparação.
Considerando que a ação foi ajuizada em 16.01.2014 e aplicando-se à hipótese dos
autos a prescrição quinquenal prevista na Lei 4.886/65, deve-se concluir que há a
incidência da prescrição sobre parcelas referentes a comissões não pagas ou pagas a
menor devidas anteriormente a 16.01.2009.
Nesse sentido, é o entendimento jurisprudencial:
Empresarial, civil e processual civil. Recurso especial. Juízo de admissibilidade.
Deficiência na fundamentação. Necessidade de revisão do contexto fático-probatório.
Reexame de cláusulas contratuais. Representação comercial autônoma. Lei de
regência. Prescrição.
Prazo, termo inicial e retroatividade. Correção monetária pelo INPC.
(...) - A pretensão do representante comercial autônomo para cobrar comissões nasce
mês a mês com o seu não pagamento no prazo legal, pois, nos termos do art. 32, §1o,
da Lei 4.886/65, “o pagamento das comissões deverá ser efetuado até o dia 15 do
mês subsequente ao da liquidação da fatura, acompanhada das respectivas cópias das
notas fiscais”. De modo análogo, a pretensão para cobrar indenização nasce com a
efetiva quebra da exclusividade. Assim, a cada mês em que houve comissões pagas a
menor e a cada venda feita por terceiro em sua área de exclusividade, nascia para o
representante comercial o direito de vir a juízo obter a prestação jurisdicional que lhe
assegurasse a devida reparação.
- É quinquenal a prescrição para cobrar comissões, verbas rescisórias e indenizações
por quebra de exclusividade contratual, conforme dispõe o parágrafo único do art. 44
da Lei 4.886/65.
- A prescrição em curso não origina direito adquirido, podendo seu prazo ser
aumentado ou reduzido por norma posterior. No entanto, em prol da segurança
jurídica, não se pode fazer com que o termo inicial do prazo prescricional reduzido
retroaja para uma data anterior à vigência da nova lei. O quinquênio prescricional deve
computar-se desde a vigência da Lei 8.240/92.
- A correção monetária de dívida que, por força de lei, estava atrelada à variação do
BTN passa, com a extinção desse índice, a ter por base o INPC desde o advento da
Lei 8.177/91 (março/91).
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Precedentes.
Recurso especial parcialmente provido.
(REsp 1085903/RS, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em
20/08/2009, DJe 30/11/2009)
PROCESSUAL CIVIL E COMERCIAL. RESCISÃO DE CONTRATO. REPRESENTAÇÃO
COMERCIAL. ZONA DE ATUAÇÃO. EXCLUSIVIDADE. OMISSÃO CONTRATUAL.
POSSIBILIDADE DE COMPROVAÇÃO. PAGAMENTO DE COMISSÕES. RESOLUÇÃO
CONTRATUAL. EFEITO EX TUNC. PRESCRIÇÃO QUINQUENAL. APLICABILIDADE.
1. Ação ajuizada em 10/08/2001. Recurso especial interposto em 05/03/2014 e
atribuído a este gabinete em 25/08/2016.
2. É possível presumir a existência de exclusividade em zona de atuação de
representante comercial quando: (i) não for expressa em sentido contrário; e (ii) houver
demonstração por outros meios da existência da exclusividade.
3. A resolução contratual é cabível nos casos de inexecução do contrato, que pode
ocorrer de modo voluntário ou involuntário, gerando efeitos retroativamente (ex tunc).
4. A pretensão do representante comercial autônomo para cobrar comissões nasce
mês a mês com o seu não pagamento no prazo legal, pois, nos termos do art. 32, §1º,
da Lei 4.886/65. Assim, a cada mês em que houve comissões pagas a menor e a cada
venda feita por terceiro em sua área de exclusividade, nasce para o representante
comercial o direito de obter a devida reparação.
5. É quinquenal a prescrição para cobrar comissões, verbas rescisórias e indenizações
por quebra de exclusividade contratual, conforme dispõe o parágrafo único do art. 44
da Lei 4.886/65.
6. Recurso especial parcialmente provido.
(REsp 1634077/SC, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em
09/03/2017, DJe 21/03/2017) “PROCESSO CIVIL. REPRESENTAÇÃO COMERCIAL.
PRESCRIÇÃO DA PRETENSÃO DE LIQUIDAÇÃO DO TÍTULO JUDICIAL. LEI 4.886/65,
ALTERADA PELA LEI 8.240/92.
PRAZO QUINQUENAL. SENTENÇA CASSADA.
1. Dispõe o art. 44, parágrafo único, da Lei 4886/65, alterada pela Lei 8240/92, que
regula as atividades dos representantes comerciais autônomos, que “prescreve em
cinco anos a ação do representante comercial para pleitear a retribuição que lhe é
devido e os demais direitos que lhe são garantidos por esta Lei”.
2. “É de cinco anos a prescrição do direito para o representante comercial postular a
retribuição pelos serviços prestados ao representado. (Inteligência do parágrafo único
da Lei 4.886/65). (...).” (Acórdão n.667844, 20090310107865APC, Relator: Gislene
Pinheiro, 3ª Turma Civel, DJE: 25/06/2012. Pág.: 166).
3. Tendo o acórdão transitado em julgado em 22/04/2008, não se verifica a prescrição
da pretensão de liquidação do título judicial, na medida em que a autora requereu a
continuidade processual do feito em 17/02/2012, antes, portanto, do fim do prazo
quinquenal.
4. Recurso provido.” (TJ/DF, Acórdão n.667844, 20120111886134APC, Relator:
JOÃO EGMONT, Revisor: LUCIANO MOREIRA VASCONCELLOS, 5ª Turma Cível, Data
de Julgamento: 20/03/2013, Publicado no DJE: 12/04/2013. Pág.: 142).
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“CIVIL. PROCESSO CIVIL. REPRESENTAÇÃO COMERCIAL. PRESCRIÇÃO. No


contrato de representação comercial a prescrição é quinquenal (art. 44 da Lei
4.886/65) e o termo a quo é o momento em que a obrigação se tornou exigível.
Recurso conhecido e desprovido.” (TJ/DF, Acórdão n.499469, 20070110346526APC,
Relator: Ana Maria Duarte Amarante Brito, 6ª Turma Civel, Publicado no DJE:
05/05/2011. Pág.: 317)
“DIREITO CIVIL. REPRESENTAÇÃO COMERCIAL. AÇÃO DE COBRANÇA DE
COMISSÕES e AVISO PRÉVIO, CUMULADA COM INDENIZAÇÃO POR DANOS
MORAIS. LEI N. 4.886/85. 1. O art. 1º da Lei 4.886/65 conceitua o representante
comercial como “... a pessoa jurídica ou a pessoa física, sem relação de emprego, que
desempenha, em caráter não eventual por conta de uma ou mais pessoas, a mediação
para a realização de negócios mercantis, agenciando propostas ou pedidos, para,
transmiti-los aos representados, praticando ou não atos relacionados com a execução
dos negócios”. 2. O parágrafo único do art. 44 da Lei 4.886/65, incluído pela Lei
8.420/92, reza que “prescreve em cinco anos a ação do representante comercial para
pleitear a retribuição que lhe é devida e os demais direitos que lhe são garantidos por
esta lei”. A ação foi ajuizada em 01/08/03; logo, estão prescritos eventuais créditos
anteriores a 01/08/98. (...)” (TJ/DF, Acórdão n.237948, 20030110616962APC, Relator
Designado: Waldir Leôncio Lopes Junior, 2ª Turma Civel, Publicado no DJU Secao 3:
09/03/2006. Pág.: 72).
6. Segundo consta dos autos, a resilição contratual (art. 476, Código Civil) se deu por
justa causa, na medida em que a parte autora passou a, indevidamente, agenciar
produtos análogos aos fabricados pela parte ré para empresas concorrentes.
A Lei nº 4.886/65 entende como justos para a rescisão contratual, os seguintes
motivos:
Art. 27. Do contrato de representação comercial, além dos elementos comuns e
outros a juízo dos interessados, constarão obrigatoriamente: i) exercício exclusivo ou
não da representação a favor do representado;
Art. 35. Constituem motivos justos para rescisão do contrato de representação
comercial, pelo representado: a) a desídia do representante no cumprimento das
obrigações decorrentes do contrato; b) a prática de atos que importem em descrédito
comercial do representado; c) a falta de cumprimento de quaisquer obrigações
inerentes ao contrato de representação comercial; d) a condenação definitiva por
crime considerado infamante; e) força maior.
Nos termos do contrato ­ cláusula segunda ­ “o representante poderá exercer
atividade de representação comercial para outras empresas: desde que não concorram
direta ou indiretamente no ramo de negócio da Representada” (mov. 1.5 ­ f.
28).
Nestes termos, necessário averiguar se houve o apontado descumprimento desse
dever.
O representante da empresa autora esclareceu que:
(...) Que trabalhava na empresa ré desde o ano de 1994; que no ano de 2007 eles
começaram a “podar” a sua área de atuação passando-a para o seu preposto; (...) que
começou a vender betoneiras, produzidas por outra empresa, em 2005; que o fez
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porque a parte ré não fabricava tal produto; que a partir do momento em que a parte
ré passou a fabricar betoneiras, em 2009, poderia começar a haver conflito; (...) que
ingressou com a ação depois que foi mandado embora; que não tinha como discutir as
cláusulas do contrato antes de sua rescisão; (...) que recebeu alguns e-mails da
requerida comunicando a proibição de venda de produtos de empresas concorrentes
similares aos seus; que discutiu a questão por telefone, alertando a empresa de que
não poderia deixar de vender o produto da concorrente enquanto eles não tivessem
uma produção andando; (...) que eles não tinham o produto ainda em escala para ser
vendido; que propôs a eles que ficaria com a Garthen e entregaria a outra empresa
para seu filho; que a proposta não foi aceita; (...) que ao longo do contrato, foi
sofrendo gradualmente uma supressão de sua área de abrangência, sendo que aceitou
receber R$ 10.000,00 como indenização; que entende que merece receber cerca de
R$ 200.000,00 a R$ 250.000,00 (mov.
74.1 ­ f. 1539).
Observa-se, portanto, que o próprio autor confessa que descumpriu os termos do
contrato, ao violar a cláusula de exclusividade. Isto porque, quando a requerida
começou a efetuar a fabricação das betoneiras encaminhou e-mail ao autor, a fim de
adverti-lo da proibição de venda de produtos similares de outras empresas
concorrentes. Entretanto, o requerente insistiu em manter a relação negocial com
estas empresas. Tanto é verdade que mantém a representação comercial das
empresas concorrentes.
As demais testemunhas ouvidas em Juízo também confirmaram que o autor
descumpriu a cláusula de exclusividade prevista no contrato de representação
comercial:
Que a rescisão se deu em razão da parte autora vender produtos similares de outros
concorrentes. A parte ré vende betoneiras desde 2007 e, logo que descobriu a
infração, notificou a parte autora acerca do descumprimento contratual. Quando da
rescisão de contrato, as partes entabularam um acordo como forma de auxiliar e
recompensar a parte ré pelo tempo de trabalho na empresa. Desconhece outros
representantes da parte autora que vendam betoneiras de concorrentes. (Maria Luiza
Infeld Cruz - mov. 74.1 ­ f. 1544)
“Que conhece o contrato havido entre as partes; que sabe que a rescisão ocorreu por
justa causa; que a ré vende betoneiras na região há cerca de 06 ou 07 anos; que a
partir do momento em que passaram a produzir a betoneira, o autor tinha a opção de
ficar com a Garthen ou com o concorrente; que o autor foi notificado de que deveria
fazer a opção; que após a notificação, a parte autora respondeu, via e-mail, que não
venderia betoneiras de empresas concorrentes; que a própria testemunha constatou a
infração pessoalmente depois que o autor falou que não iria vender mais as betoneiras
das concorrentes; que após a intenção de rescindir o contrato, a parte autora
compareceu na sede da empresa ré “choramingando”, ocasião em que entabularam
um acordo e a empresa pagou o valor para ele”.
(Lori Biazus ­ mídia digital - mov. 74.1 ­ f. 1543)
Que é representante comercial, trabalhando para a Metalúrgica Rocha; que venda
dobradiças e ferragens; que nunca vendeu betoneiras; que, no entanto, conhece um
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pouco do mercado das betoneiras, que sabe as marcas que vendem; que a Garthen
tem betoneiras no mercado há pouco tempo; que acredita que a Garthe começou a
comercializar o produto a partir de 2005; que, pelo menos não via nas lojas, inclusive
de Cascavel; que sabe que a rescisão ocorreu, porque dispensaram a parte autora da
região sudoeste, que dê uns tempos pra cá “tiraram dele”; que, no caso, como o autor
já vendia as betoneiras, depois que a Garthen passou a vendê- las deveria ter
notificado o autor que já tinha o produto, entrando as partes em um acordo” (Gilmar
Lázaro Vicente ­ mídia digital - mov. 74.1 ­ f. 1543)
Desse modo, conclui-se pelas provas coligidas aos autos que o autor efetivamente
“descumpriu as obrigações inerentes ao contrato de representação comercial”, já que
passou a realizar vendas de produtos similares de outras empresas, malgrado a
existência de cláusula de exclusividade, o que justifica a rescisão unilateral do contrato
pela ré, por justo motivo, nos termos do artigo 35, alíneas “a” e “c” da Lei nº
4.886/1965.
Ressalta-se que a indenização e o aviso prévio são devidos quando ficar demonstrada
a rescisão contratual imotivada, como bem esclarece Fabio Ulhoa Coelho:
Se o contrato de representação comercial é rescindido por culpa do representante -
como nas hipóteses de desídia no cumprimento das obrigações, prática que leva o
representado a descrédito ou condenação definitiva por crime infamante (art. 35, “a a
d”) -, não estabelece a lei da representação comercial nenhuma indenização. O
ressarcimento dos prejuízos do representado, nesse caso, será demandado com base
nas regras gerais de obrigação fixadas pelo Código Civil (Curso de direito comercial.
São Paulo: Saraiva. 2007.
v. 3, p. 119).
Portanto, justa e motivada a rescisão contratual, não merece prosperar as pretensões
indenizatórias fundamentadas no artigo 27, alínea “j”2, e no artigo 34 da Lei
4.886/19653, as quais tratam de 1/12 de toda a remuneração recebida ao longo do
contrato; de aviso prévio; e do adicional de aviso prévio de 1/3 das comissões
recebidas nos três meses anteriores4.
Por fim, conforme destacou o magistrado de 1º grau, embora tenha havido um acordo
indenizatório entre as partes ­ o que restou sobejamente confirmado por todos os que
foram ouvidos, inclusive a parte autora -, ele não teve o condão de alterar a natureza
do fim da relação jurídica, qual seja, a de resilição contratual unilateral operada pela
parte ré fundada em justa causa.
7. É necessário frisar que não há empecilho legal que impossibilite a alteração do
percentual das comissões a serem percebidas pelo representante comercial no curso
da relação estabelecida com a empresa representada, ainda que tal alteração se dê
tacitamente. Sobre a questão, segue entendimento jurisprudencial:
REPRESENTAÇÃO COMERCIAL. PRESCRIÇÃO. RESCISÃO IMOTIVADA DO
CONTRATO.
COMISSÕES. DIFERENÇA. ALTERAÇÃO TÁCITA. POSSIBILIDADE. VERBAS
INDENIZATÓRIAS. INDEVIDAS. O prazo prescricional de que trata o art. 44, parágrafo
único, da Lei n. 4.886/1965 se refere apenas ao direito de ação, não limitando,
portanto, o período a ser considerado para fins de apreciação do pleito indenizatório.
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Não tendo a representante comercial comprovado justo motivo para a rescisão


contratual, ou seja, configura quaisquer das hipóteses previstas no art. 36 da Lei n.
4.886/65, não há falar em direito às verbas indenizatórias previstas nos arts. 27, j, e 34,
ambos da Lei n. 4.886/65. Considerando-se que a representante anuiu com a redução
do percentual pactuado a título de comissão, bem como com a mudança de sua zona
de atuação, não há falar em indenização por eventual diferença entre os percentuais
de comissão pagos ou diminuição da remuneração auferida pela representante
comercial.
PROVERAM O APELO DA PARTE RÉ. DESPROVERAM O APELO DA AUTORA.
(Apelação Cível Nº 70043359140, Décima Sexta Câmara Cível, Tribunal de Justiça do
RS, Relator: Paulo Sérgio Scarparo, Julgado em 30/06/2011).
AÇÃO DE COBRANÇA. REPRESENTAÇÃO COMERCIAL. ESCRITURA PÚBLICA
RESCINDINDO CONTRATO VERBAL ENTRE AS PARTES. CELEBRAÇÃO DE
CONTRATO ESCRITO. O valor certo pleiteado na exordial já recebido pela autora,
conforme prova anexada aos autos. De outro lado, quando à diferença de comissão
em face do novo percentual estabelecido no contrato escrito, não procede a
pretensão da autora, na medida em que as partes firmaram escritura pública de
rescisão do contrato verbal, dando-se plena e geral quitação dos valores, sem que
tenha sido demonstrado qualquer vício de vontade. Portanto, em que pese o
percentual da comissão tenha sido minimamente reduzido quando celebrado o
contrato escrito, tal foi com a concordância da partes e dos demais representantes da
ré atendendo mudanças na política comercial desta para operar no mercado sem
prejuízo. Portanto, nenhuma ilegalidade, sendo incabível, também, ressarcimento com
gastos em viagens para participação de feiras, pois não era obrigatoriedade da
empresa demandada. APELAÇÃO DESPROVIDA. (Apelação Cível Nº 70022352033,
Décima Sexta Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Paulo Augusto Monte
Lopes, Julgado em 30/01/2008).
Dessa forma, cumpria ao represente comercial comprovar que não anuiu, seja de
forma expressa seja de forma tácita, com a alteração da comissão inicialmente
pactuada entre as partes, nos termos do artigo 373, I do Código de Processo Civil5.
No caso concreto, conforme estabelecido no contrato (item 2, anexo II ­ mov. 1.5 ­ f.
32), o representante receberia, a título de comissão, o percentual 5% “do valor líquido
da nota fiscal-fatura”.
O contrato também previu, expressamente, a possibilidade de diminuição da
comissão devida à representante, nos casos em que concedidos descontos aos
clientes. Vejamos:
“Item 2.7 do anexo II - Para o fechamento de negócios especiais, geralmente de
valores elevados, transacionados entre Representante e cliente,
representante/representada e cliente, de comum acordo entre as partes, poderão
negociar a redução de comissão” (mov. 1.5 ­ f. 32).
Nesse passo, estabelecida entre as partes, expressamente a possibilidade de haver
diminuição da comissão a ser creditada em favor do representante, em caso de
descontos concedidos aos clientes, e não havendo nenhuma prova nos autos que
demonstre a discordância do autor com relação aos valores creditados, não verifico
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Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

qualquer ilegalidade que possa ensejar a existência de diferenças a serem adimplidas


em favor da representante.
Portanto, inexistem razões para a modificação da sentença neste aspecto.
8. O apelante ainda sustenta não ter recebido as comissões referentes aos meses de
outubro e novembro de 2010.
Contudo, consta da planilha denominada “diferenças de comissões devidas,
atualizadas até fevereiro de 2013”, elaborada pelo próprio autor, diversos valores
pagos a título de comissão nos meses de outubro e novembro de 2010 (mov. 1.7 ­ f.
44/54).
O autor também afirmou que, no dia 04.05.2011, a requerida efetuou um depósito
em sua conta com a denominação “verbas rescisórias”. Entretanto, não especificou ao
que se referia esses valores. Não há nos autos, nenhuma prova que o requerente
tenha cobrado da requeridas estas supostas comissões não pagas, antes do
ajuizamento da presente ação.
Desse modo, carece os autos de elementos probatórios, aptos a embasar a
procedência do referido pedido.
9. Acerca da área de abrangência, é preciso salientar que a própria lei que regula as
atividades dos representantes comerciais autoriza a sua modificação (art. 27, alínea
“g”6).
A ocorrência da redução da área de atuação do autor é fato inconteste nos autos.
Entretanto, nos termos destacados pelo magistrado de 1º grau, “em audiência, restou
esclarecido que a parte autora, além de ter concordado com a redução de sua área,
recebeu indenização no importe de R$10.000,00, dando a devida quitação tácita.
Logo, não pode agora pretender a complementação da quantia, não sem malferir a
boa-fé contratual (art. 422, Código Civil), incorrendo em venire contra factum
proprium.
10. O representante comercial possui atribuições específicas e limitadas, estando
atrelado às disposições contratuais estipuladas com a representada.
A respeito do tema, leciona Rubens Requião:
O representante comercial apenas representa quem o tenha contratado para agenciar
negócios.
Com isso, se resume ele a entabular as negociações, encaminhando, através de
“pedidos”, os contratos cujas conversões inicia. Não tem ele poderes de mandato,
para agir em nome do mandante na conclusão dos negócios que promove7.
Nessa linha, não está inserta, dentre as obrigações decorrentes do contrato de
representação comercial, a obrigatoriedade de que o representante proceda a
cobrança de valores eventualmente inadimplidos, após o faturamento do pedido.
Outrossim, por força da proibição legal, contida no artigo 43, da Lei nº 4.886/658, é
vedada a inclusão de cláusula del credere, nos contratos dessa natureza.
No caso dos autos, embora não tenha havido pactuação expressa, no que se refere à
indigitada cláusula, a prova documental colacionada aos autos demonstra claramente
o desconto efetivado nas comissões do apelante, no que se refere a títulos
inadimplidos pelos clientes (mov. 1.17 ­ f. 481/1063).

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Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

Não obstante, a documentação colacionada comprova o desconto indevido de


valores, a amparar a tese apresentada pela demandante, no que se refere à retenção
de comissões.
A prova testemunhal produzida, também confirmou a existência de descontos das
comissões em caso de não pagamento dos clientes:
“(...) Que a negociação nas negociação dos produtos a empresa tem um limite de
desconto para dar, chegando no limite o representante fica com a faculdade de
diminuir a sua comissão ou perder o negócio; que livre arbítrio dele; que quando
chega no limite do custa não tem como a empresa dar mais descontos; que, para a
redução da comissão, os representantes informam a empresa que vão reduzir a sua
comissão para não perder o negócio; que isso é feito no pedido ou por e-mail, as
vezes é por telefone, depois mandam o documento; que o pedido é por sistema; que
limite máximo que o representante pode abrir mão é de 2%; que antigamente, tinha
pedido por escrito; que o pedido eletrônico desde de 2005 ou 2006; que a empresa
não pode mexer no percentual de comissão sem a autorização do representante; que
quando a empresa nega o crédito, mas o representante acredita no cliente, ele pede
para o pedido ser liberado sob aval, daí a empresa libera o pedido sob o aval do
representante; que se o cliente não pagar, o valor é descontado do representante e o
título de crédito é enviado para o representante tentar cobrar; (...) que a empresa faz
convenções anuais para os representantes sendo a presença facultativa; que sempre
que eles comparecem a empresa paga as despesas; que não é cobrado os brindes;
que se o representante pede um número maior de brinde do que tem direito, o custo
é repassado; que houve casos em que o autor avalizou clientes que não efetuaram o
pagamento; que, após esgotados todos os meios de recebimento do crédito, se o
comprador não efetuar o pagamento, há o estorno da comissão do representante
somente nos casos em que ele deu o aval; que nos casos em que a empresa avalizou a
venda,
não é cobrado nada do representante; que quando havia a devolução do produto a
comissão também era estornada; (...)” ­ Lori Biazus, mídia digital ­ mov. 105.1.
“Que é representante comercial da Garthen; que já trabalhou na Roman; que
trabalhou na Roman em meados do ano 2000; que nesta época os pedidos eram
emitidos por escrito; que havia a possibilidade do representante negociar a sua
própria comissão; que a redução de comissão só acontecia com o aval do
representante; que era o representante quem fazia a análise de vantagem de reduzir a
sua própria comissão; que essa redução era feito mediante uma observação no próprio
pedido ou mediante o envio de e-mail para a empresa; que a Garthen possui alguns
requisitos para a liberação das venda; que se, por exemplo, o comprador tiver o nome
inscrito no SERASA, ela não libera a venda e consulta o representante, assim, se o
representante quiser ele pode dar seu aval e assumir a reponsabilidade pelo cliente;
que, caso esse cliente não pague é debitado da comissão e enviada a duplicada para
o representante negociar com seu cliente; que a comissão é paga depois que o cliente
efetua o pagamento; (...)” ­ Cláudio Valentini - mídia digital ­ mov. 105.1.
Destarte, comprovada satisfatoriamente a aplicação da cláusula del credere no
contrato entabulado entre as partes, há de ser declarada nula a prática da indigitada
50

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

sistemática, condenando- se a demandada/apelada, ao ressarcimento dos valores


descontados indevidamente. Frise-se que só são devidos os valores cobrados
indevidamente a partir de 16.01.2009, já que reconhecida a prescrição da pretensão
de cobrança das verbas anteriores.
A respeito do tema, segue entendimento jurisprudencial:
APELAÇÃO CÍVEL. REPRESENTAÇÃO COMERCIAL.CLÁUSULA “DEL CREDERE”.
DESCONTOS REALIZADOS NAS COMISSÕES DO REPRESENTANTE DECORRENTES
DA INADIMPLÊNCIA DOS CLIENTES. VEDAÇÃO.CONTRATO FIRMADO APÓS AS
ALTERAÇÕES INSERIDAS PELA LEI 8.420/1992. EXEGESE DO DISPOSTO NO
ARTIGO 43 DA LEI Nº 4.886/1965.RECURSO NÃO PROVIDO. (TJPR - 18ª C.Cível - AC
- 1337329-4 - Região Metropolitana de Londrina - Foro Central de Londrina - Rel.:
Luciane Bortoleto - Unânime - - J.
29.06.2016)
APELAÇÃO CÍVEL. REPRESENTAÇÃO COMERCIAL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO. [...].
V.
Cláusula Del Credere. Comprovação de que os valores correspondentes às
mercadorias devolvidas pelos clientes eram cobrados da representante. Prática vedada
pelo art. 43 da Lei nº 8.420/92, que determina a restituição das importâncias pagas
sob tal rubrica. [...] NEGARAM PROVIMENTO AOS RECURSOS. UNÂNIME. (Apelação
Cível Nº 70040665465, Décima Sexta Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator:
Ergio Roque Menine, Julgado em 09/08/2012)
11. No que tange à cobrança de brindes, amostras, peças de reposição, garantias e
catálogos ao que tudo indica os valores eram pagos por mera liberalidade do
representante. A prova testemunhal esclareceu que a representada fornecia aos seus
representantes um determinado número de brindes para o incremento de suas
vendas. Entretanto, os representantes tinham a faculdade de solicitar um número
maior de brindes, mediante o pagamento da diferença. Vejamos:
“(...) que não é cobrado os brindes; que se o representante pede um número maior
de brinde do que tem direito, o custo é repassado; (...)” - Lori Biazus, mídia digital ­
mov.
105.1.
(...) que a empresa distribuiu os brindes, gratuitamente; que, por exemplo, se o
representante quer colocar o seu nome nos brindes, daí ele arca com alguma despesa;
que se tiver mais clientes do que brinde, pode requerer o fornecimento de mais
brindes; (...) ­ Cláudio Valentini - mídia digital ­ mov. 105.1.
Da análise dos documentos anexados aos autos, verifica-se que a parte autora
solicitou alguns brindes (mov. 1.27 ­ f. 1064). Noutras, a natureza da operação
constante da nota fiscal é de “distribuição de brindes” (mov. 1.27 ­ f. 1067), “outras
saídas” (mov. 1.27 ­ f. 1068), “venda e mercadorias adquirida” (mov. 1.27 ­ f.
1070) ou “remessa e garantia” (mov. 1.28 ­ f. 1073).
Não há nos autos nenhuma prova indicando que a requerida tenha compelido a
autora a efetuar o pagamento das citadas verbas. Assim, imperioso se mostra a
manutenção da sentença neste particular.

51

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12. A sucumbência deve ser distribuída na medida da vitória e da derrota dos


litigantes no processo. Analisando os termos da pretensão e o resultado final
proporcionado pelo presente acórdão, verifico a necessidade de redistribuir os ônus
da sucumbência. Assim, condeno as partes, na proporção de 80% para o autor e 20%
para o réu, ao pagamento das custas processuais e dos honorários advocatícios.
Diante da redistribuição do ônus da sucumbência, fixo os honorários advocatícios em
10% sobre o valor da condenação, nos termos do artigo 85, §2º do Código de
Processo Civil. Prejudicado o pedido de minoração do valor dos honorários
advocatícios.
13. Diante do exposto, voto no sentido de:
a) dar parcial provimento ao recurso de apelação, para (i) reconhecer a ilegalidade da
estipulação da cláusula del credere e condenar a requerida a restituir ao autor o valor
das comissões estornadas e não alcançadas pela prescrição, corrigidos
monetariamente pelo INPC desde cada estorno, até o efetivo pagamento e com juros
moratórios de 1% ao mês desde a citação; (ii) redistribuir o ônus da sucumbência.
b) não conhecer do recurso adesivo.
III- DECISÃO
ACORDAM os Desembargadores integrantes da 17ª Câmara Cível do Tribunal de
Justiça do Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao
recurso de apelação; e, não conhecer do recurso adesivo.
O julgamento foi presidido pelo Desembargador LAURI CAETANO DA SILVA, relator,
e dele participaram os Desembargadores TITO CAMPOS DE PAULA e RUI BACELLAR
FILHO.
Curitiba, 14 de junho de 2017.
DES. LAURI CAETANO DA SILVA Relator
--
1 Sentença proferida no dia 31.05.2016 e publicada no dia 16.06.2016.
2 Art. 27. Do contrato de representação comercial, além dos elementos comuns e
outros
a juízo dos interessados, constarão obrigatoriamente: (...) j) indenização devida ao
representante pela rescisão do contrato fora dos casos previstos no art. 35, cujo
montante não poderá ser inferior a 1/12 (um doze avos) do total da retribuição
auferida durante o tempo em que exerceu a representação.
(...).
3 Art . 34. A denúncia, por qualquer das partes, sem causa justificada, do contrato de
representação, ajustado por tempo indeterminado e que haja vigorado por mais de
seis meses, obriga o denunciante, salvo outra garantia prevista no contrato, à
concessão de pré-aviso, com antecedência mínima de trinta dias, ou ao pagamento de
importância igual a um têrço (1/3) das comissões auferidas pelo representante, nos três
meses anteriores.
4 AÇÃO REVISIONAL DE CONTRATO CUMULADA COM COBRANÇA.
RECONVENÇÃO. CONTRATO VERBAL DE
REPRESENTAÇÃO COMERCIAL. PRELIMINAR REJEITADA. CASO CONCRETO.
MATÉRIA DE FATO.
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OCORRÊNCIA DE RESCISÃO COM JUSTA CAUSA PELA REPRESENTADA.


DESCABIMENTO DE INDENIZAÇÃO POR FALTA DE AVISO PRÉVIO. DIREITO AO
RESSARCIMENTO DO DÉBITO DA CONTA DE REPRESENTAÇÃO. DANOS MORAIS
NÃO COMPROVADOS. APELO PROVIDO EM PARTE.
(Apelação Cível Nº 70056213663, Décima Quinta Câmara Cível, Tribunal de Justiça
do RS, Relator: Vicente Barrôco de Vasconcellos, Julgado em 30/10/2013)
5 Art. 373. O ônus da prova incumbe: I - ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu
direito; (...)
6 Art. 27. Do contrato de representação comercial, além dos elementos comuns e
outros
a juízo dos interessados, constarão obrigatoriamente: (...) g) os casos em que se
justifique a restrição de zona concedida com exclusividade; (...) --
7 REQUIÃO, Rubens. Do representante comercial: Comentários à Lei nº 4.886 de 9 de
dezembro de 1965 e à Lei nº 8.420, de 8 de maio de 1992. Rio de Janeiro: Forense,
2002, p. 19.
8 Art. 43. É vedada no contrato de representação comercial a inclusão de cláusulas
del credere.

2.1.5. COMPROMISSO DE COMPRA E VENDA – RESCISÃO CONTRATUAL E

REINTEGRAÇÃO DE POSSE

AÇÃO COM PEDIDO DE RESCISÃO CONTRATUAL E REINTEGRAÇÃO DE POSSE.

CONTRATO DE COMPRA E VENDA DE IMÓVEL. INADIMPLEMENTO DO

PROMITENTE-COMPRADOR. PEDIDO JULGADO PARCIALMENTE PROCEDENTE.

RECURSO DE APELAÇÃO DA AUTORA: 1. HONORÁRIOS CONTRATUAIS.

RESSARCIMENTO. IMPOSSIBILIDADE. 2. BENFEITORIAS E ACESSÕES.

INDENIZAÇÃO DEVIDA. FALTA DE COMPROVAÇÃO DA REGULARIDADE DAS

OBRAS. QUANTUM DEBEATUR QUE DEVE SER APURADO EM FASE DE

LIQUIDAÇÃO DE SENTENÇA. 3. TAXAS E TRIBUTOS QUE DEVEM SER

SUPORTADOS PELO PROMITENTE COMPRADOR ATÉ A DATA DA DESOCUPAÇÃO

DO IMÓVEL. 4. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. MAJORAÇÃO. ÔNUS DA

SUCUMBÊNCIA. REDISTRIBUIÇÃO. RECURSO PARCIALMENTE CONHECIDO E

PARCIALMENTE PROVIDO. 1. O fato de o postulante optar pela contratação de

advogado, mediante remuneração, para a defesa de seus interesses em juízo, não

induz responsabilidade do réu pelo seu pagamento (TJMG - Apelação Cível

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1.0686.12.002760-8/001, Relator (a): Des. Valdez Leite Machado, 14ª CÂMARA CÍVEL,

julgamento em 31/01/2013, publicação da sumula em 08/02/2013). 2. Em caso de

rescisão contratual, cabe indenização por benfeitorias úteis e necessárias, além da

retenção do imóvel até o seu pagamento, sendo tais direitos decorrência lógica do

desfazimento da avença. 3. A aferição do valor a ser indenizado a título de benfeitorias

deve ser efetuada em sede de liquidação de sentença.

(TJPR - 17ª C.Cível - AC - 1637815-1 - Curitiba - Rel.: Lauri Caetano da Silva - Unânime

- J. 14.06.2017)

Inteiro Teor

I - RELATÓRIO
1. Cuida-se de recurso de apelação interposto em virtude da sentença proferida pelo
MM. Dr. Juiz de Direito 1ª Vara Cível do Foro Central da Comarca da Região
Metropolitana de Curitiba, dos autos nº 0013522-22.2013.8.16.0001 de ação de
rescisão de contrato cumulada com pedido de reintegração de posse, proposta por
BMC Construtora de Obras Limitada em face de Márcia Ribeiro de Lima, que julgou
parcialmente procedentes os pedidos formulados na inicial, para (i) declarar a
resolução do contrato celebrado entre as partes; (ii) determinar à parte autora o
pagamento de indenização à ré pelas benfeitorias úteis e necessárias realizadas no
bem objeto da lide, sendo que os valores deverão ser apurados em fase de liquidação
de sentença; (iii) determinar à parte autora a restituição das parcelas pagas pela parte
ré, as quais deverão ser corrigidas monetariamente a partir de cada desembolso pelo
índice do INPC/IBGE, bem como acrescidas de juros moratórios de 1% ao mês,
incidentes a partir do trânsito em julgado da presente decisão; (iv) determinar a
compensação dos débitos existentes entre as partes, nos termos do art. 368 do
Código Civil. Em razão da sucumbência recíproca, condenou a parte autora ao
pagamento de 40% das custas processuais e dos honorários advocatícios de
sucumbência devidos ao procurador da parte ré, arbitrados em R$ 2.400,00; e
condenou a parte ré ao pagamento de 60% das custas processuais e dos honorários
advocatícios de sucumbência devidos ao procurador da parte autora, fixados em R$
3.600,00. Ressaltou que fica vedada a compensação de honorários, nos termos do art.
85, §14 do CPC/2015 (mov. 116.1 ­ f.
283/298).
2. A autora BMC Construtora de Obras Limitada interpôs recurso de apelação (mov.
122.1 - f.305/335), pleiteando a reforma parcial da sentença, para (i) condenar a ré ao
pagamento dos honorários advocatícios contratuais, nos termos da cláusula 15ª do
contrato; (ii) condenar a requerida ao pagamento das despesas que teve com o envio
da notificação extrajudicial, no valor de R$169,54; (iii) afastar o dever de indenizar as
benfeitorias, já que estas foram erigidas em desconformidade com a lei e com o
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contrato; (iv) autorizar a retenção de 17% dos valores pagos; (v) condenar a requerida
ao pagamento de eventuais débitos de condomínio, IPTU e taxas de coleta de lixo e
iluminação pública; (vi) aplicar a ré as penalidades por litigância de má-fé; (vii)
redistribuir o ônus da sucumbência e majorar o valor arbitrado a título de honorários
advocatícios.
Não houve a apresentação de contrarrazões.
É o relatório.
II - VOTO
Não conheço do recurso na parte que trata do pedido de retenção de 17% dos
valores pagos pela promitente compradora, pois tal questão não foi objeto do pedido
inicial. Sendo assim, houve inovação recursal por parte da apelante.
Com a ressalva supra, presentes os pressupostos processuais de admissibilidade,
intrínsecos e extrínsecos, conheço em parte o recurso de apelação.
3. Do cotejo dos autos, depreende-se que (i) a construtora BMC firmou, em
07.03.2009, contrato particular de promessa de compra e venda com Leandro Belizario
Moro (mov. 1.4 ­ f. 19/24); (ii) posteriormente, com anuência da construtora, Leandro
cedeu o contrato a Alessandro Villas Boas que, por sua vez, cedeu para Márcia Ribeiro
de Lima; (iii) a cessão do contrato a Marcia Ribeiro de Lima (mov. 1.4 ­ f. 27/28) foi
firmada por Nivaldo Ribeiro de Lima, que possuía poderes para representa-la no ato,
conforme procuração anexada aos autos (mov. 1.4 ­ f.
29/30); (iv) não tendo acusado o pagamento de nenhuma das contraprestações
ajustadas, a construtora BMC ajuizou ação com pedido de rescisão de contrato c/c
reintegração de posse em face de Márcia Ribeiro de Lima, requerendo a antecipação
dos efeitos da tutela, para ser reintegrada na posse do imóvel; (v) trouxe com a inicial a
notificação extrajudicial (mov. 1.5 ­ f. 31/33), realizada por intermédio do 2º Cartório
de Registro de Títulos e Documentos de Curitiba; (vi) a liminar de reintegração de
posse foi deferida e determinada a citação da ré (mov. 11.1 ­ f. 60/61); (vii) a ré Marcia
Ribeiro de Lima compareceu espontaneamente aos autos, apresentando contestação
(mov. 31.1 - f.92/95), aduzindo, preliminarmente, que não foi notificada para fins de
constituição em mora, na medida em que a notificação extrajudicial foi recebida por
Nivaldo, seu irmão, sem poderes para tanto; pugnou ainda pelo direito de retenção
por benfeitorias; no mérito, requereu a improcedência dos pedidos; (viii) o mandado
de reintegração de posse foi devidamente cumprido (mov. 36.1 - f. 104); (ix) o MM.
Juiz a quo proferiu sentença (mov. 58.1 ­ f. 142/147), pela qual extinguiu o processo,
sem resolução de mérito, nos termos do art. 267, VI do CPC/1973, haja vista a irregular
constituição em mora da devedora; (x) contra essa decisão, a autora BMC Construtora
de Obras Limitada interpôs recurso de apelação (mov.
71.1 ­ f. 168/176), ao qual foi dado provimento para anular a sentença (mov.
106.1 - f.256/264); (xi) após o retorno dos autos ao juízo de origem, o julgador
monocrático proferiu nova sentença, pela qual julgou parcialmente procedentes os
pedidos formulados na inicial, para (i) declarar a resolução do contrato celebrado entre
as partes; (ii) determinar à parte autora o pagamento de indenização à ré pelas
benfeitorias úteis e necessárias realizadas no bem objeto da lide, sendo que os valores
deverão ser apurados em fase de liquidação de sentença; (iii) determinar à parte
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autora a restituição das parcelas pagas pela parte ré, as quais deverão ser corrigidas
monetariamente a partir de cada desembolso pelo índice do INPC/IBGE, bem como
acrescidas de juros moratórios de 1% ao mês, incidentes a partir do trânsito em
julgado da presente decisão; (iv) determinar a compensação dos débitos existentes
entre as partes, nos termos do art. 368 do Código Civil (mov. 116.1 - f.283/298). É
contra esta decisão que se insurge a apelante.
4. A apelante pretende a reforma da sentença, para condenar a ré ao pagamento de
honorários advocatícios, no importe de 20% do valor da compra e venda, nos termos
previstos na cláusula décima quinta do contrato celebrado entre as partes.
A seguir, transcrevo o inteiro teor da aludida cláusula:
“CLAUSULA DÉCIMA QUINTA Fica eleito o foro da Comarca de Curitiba/PR, para
serem dirimidas dúvidas e/ou discutir toda e qualquer ação oriunda deste contrato,
com prévia renúncia a qualquer outro, por mais privilegiado que seja; obrigando-se,
ainda, a parte vencida a pagar, em caso de demanda judicial, as custas e honorários
advocatícios da parte vencedora, na base de 20% (vinte por cento) sobre o total do
presente contrato”.
Com efeito, tendo a autora/apelante optado pela contratação de advogado particular,
incumbe a ela o ônus de arcar com o valor decorrente dessa decisão, não sendo
plausível condenar a parte adversa a indenizá-la pelo valor relativo aos honorários
contratados com o causídico, máxime porque tal relação não pode criar obrigações
para terceiros.
Nos dizeres de Yussef Said Cahali, “não são reembolsáveis a título de honorários de
advogado, as despesas que a parte enfrenta em razão do ajuste com o profissional a
título de honorários, para o patrocínio de sua causa in misura superiore a quella poi
ritenuta côngrua dal giudice”. (Honorários Advocatícios, Editora Revista dos Tribunais,
p. 393)
Não é outro o entendimento do Superior Tribunal de Justiça:
AGRAVO REGIMENTAL. RECURSO ESPECIAL. CONTRATAÇÃO DE ADVOGADO.
DANO MATERIAL NÃO CONFIGURADO. QUANTUM INDENIZATÓRIO. REVISÃO.
INVIABILIDADE. VALOR RAZOÁVEL. - A contratação de advogado, por si só, não
enseja danos materiais, sob pena de atribuir ilicitude a qualquer pretensão
questionada judicialmente. (...) (AgRg no REsp 1229482/SP, 3ª Turma, Ministro Paulo
de Tarso Sanseverino, DJe de 23/11/2012).
E de outros Tribunais de Justiça:
EMENTA: APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DE INDENIZAÇÃO - CONTRATAÇÃO DE
ADVOGADO PARA AJUIZAMENTO DE DEMANDA - OPÇÃO DA PARTE -
INEXISTÊNCIA DO DEVER DE INDENIZAR.
- O fato de o postulante optar pela contratação de advogado, mediante remuneração,
para a defesa de seus interesses em juízo, não induz responsabilidade do réu pelo seu
pagamento. (TJMG - Apelação Cível 1.0686.12.002760-8/001, Relator (a): Des.(a)
Valdez
Leite Machado , 14ª CÂMARA CÍVEL, julgamento em 31/01/2013, publicação da
sumula em 08/02/2013)
RESPONSABILIDADE CIVIL. DANO MATERIAL. HONORÁRIOS CONTRATUAIS.
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RESSARCIMENTO. IMPOSSIBILIDADE. A contratação de profissional para a defesa do


autor decorreu de liberalidade sua, não podendo ser imputada à ré. Ademais, não há
respaldo legal para a cobrança de honorários contratuais da parte adversa.
Precedentes jurisprudenciais. APELAÇÃO DESPROVIDA. (Apelação Cível Nº
70051295525, Décima Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Túlio de
Oliveira Martins, Julgado em 28/03/2013)
O apelante ainda sustenta que os honorários contratuais compõem a indenização por
perdas e danos, baseando sua pretensão nos artigos 389, 395 e 404 do Código Civil1.
Acerca do tema, válidos são os esclarecimentos prestados pelo Des. J. S.
Fagundes Cunha, no julgamento da Apelação Cível nº 1.194.800-6:
De plano, os honorários convencionais pactuados entre a parte e o advogado sem
que a parte adversa dela tenha participado, de modo que não pode ser compelida a
arcar com a referida verba.
Assim, os honorários advocatícios pelos quais a parte vencida na demanda deve
responder são, exclusivamente, os decorrentes da sucumbência, não alcançando os
particularmente pactuados entre a parte vencedora e seu procurador. O fato de o
autor ter despendido valores para o pagamento de profissional apto a ingressar com
demanda em juízo não pode ser inserido como dano patrimonial imputável à ré.
Note-se que o autor escolheu livremente um profissional de sua confiança, que
estabeleceu um valor pela prestação de um serviço. Não há qualquer participação da
ré no referido contrato.
Afere-se que, ao aceitar a tese do demandante, estar-se-ia criando elemento surpresa,
alheio a qualquer violação de cunho obrigacional.
(...)
Os supracitados artigos referem-se às relações obrigacionais. A relação obrigacional
possui características específicas e que a diferencia, por exemplo, dos direitos reais. As
obrigações produzem efeitos entre as partes contratantes, não sendo crível estender
para terceiros, obrigação ou responsabilidade oriunda de contrato celebrado entre as
partes contratantes. Não é possível submeter terceiros à cláusula de valor que
depende única e exclusivamente da vontade dos contratantes, exigindo posterior
ressarcimento de valores pagos.
Não se inserem nas perdas e danos os honorários advocatícios desembolsados pelo
constituinte aos advogados que livremente contratou para patrocinar reclamatória
trabalhista.
Como cediço, são pilares do dever de reparação a ocorrência de ato ilícito, nexo
causal e dano ­ requisitos da responsabilidade civil -, nos termos em que estatuídos
nos arts. 927, 186 e 187 do CC.
O acesso ao Judiciário é garantia constitucional assegurada a todo aquele que se
sente ameaçado em seu direito, segundo determina o art. 5º, XXXV, da Constituição
da República, ao dispor que: “a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário
lesão ou ameaça a direito”.
Com efeito, é lícito a qualquer um que pretenda ver resolvida uma controvérsia,
recorrer ao juízo na busca da tutela jurisdicional; por outro lado, não se pode
considerar ato ilícito a resistência da parte demandada judicialmente.
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Dito isso, não vislumbro a possibilidade de acolher a pretensão formulada na petição


inicial, pois o pedido de ressarcimento formulado decorre de relação obrigacional
entre o autor e seu advogado, possuindo efeito somente entre estas partes.
De se dizer, não se trata de direito real, capaz de originar uma espécie de efeito erga
omnes. O direito obrigacional, não se pode olvidar, é relativo, em comparação com o
direito real que é absoluto, isto é, o seu objeto somente pode ser exigido do devedor.
Tal característica existe porque, a princípio, deve-se respeitar o acordo de vontades,
mas celebrado entre as partes contratantes.
Além do mais, o acolhimento do pedido de indenização formulado, implicaria na
inviabilização do direito postulatório, na medida em que a parte vencida na demanda
teria de arcar tanto com os honorários advocatícios fixados judicialmente, quanto com
aqueles despendidos pela parte adversa para o ajuizamento e patrocínio da ação.
Não bastasse a ausência de ilicitude no caso em tela, há que se registrar que a
postulação perante o Poder Judiciário por intermédio da Defensoria Pública, sendo
rescindível a contratação de advogado particular.
Assim, se a autora apelante preferiu contratar advogado na busca dos seus direitos,
certo é que a ré apelada não pode ser compelida a arcar com tais despesas.
Cabe consignar que a relação negocial em que estipulados os honorários contratuais
devidos ao patrono da ré naquela ação constituiu ato jurídico do qual não participou a
parte autora, sendo inadmissível, nessa demanda impor-lhe os consectários de tal
contratação, cabendo-lhe suportar, tão-somente, os encargos decorrentes da
sucumbência.
(...)
Dessa forma, não há dever de indenizar, razão pela qual estou por manter a sentença
de improcedência, na íntegra (TJPR 8ª C.Cível - AC - 1194800-6 - Guarapuava - Rel.:
José Sebastião Fagundes Cunha - Unânime - - J. 31.07.2014).
Ademais, não se mostra válida a cláusula contratual que estabelece a
responsabilidade do devedor pelas despesas referentes a obrigação de pagamento de
honorários advocatícios em caso de cobrança extrajudicial ou judicial. A construtora
não pode querer transferir à ré/consumidora a obrigação de arcar com os custos
administrativos de seu empreendimento, haja vista expressa proibição no artigo 51 do
Código de Defesa do Consumidor2.
Pelo mesmo motivo, não pode a BMC Construtora de obras Limitada obter o
ressarcimento dos valores que despendeu para o envio da notificação extrajudicial
encaminha à requerida.
5. A autora pretende a modificação da sentença, na parte em que reconheceu devida
a indenização pelas benfeitorias realizadas no imóvel.
A benfeitoria não é sinônimo de acessão. Conforme disserta Washington de Barros
Monteiro, “construções e plantações não se enquadram entre as benfeitorias
propriamente ditas. São acessões, que obedecem a regras especiais, previstas nos
artigos 545 a 549, do Código Civil” e “benfeitorias, como ensina o professor Clóvis
Paulo da Rocha, são despesas feitas com a coisa, ou obras feitas na coisa, com o fito
de conservá-la, melhorá-la ou embelezá-la. Acessões são obras que criam coisas

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novas, diferentes, que vêm aderir à coisa anteriormente existente. Distinguem-se assim
umas das outras”3.
Não obstante, as consequências quase sempre se assemelham, na medida em que
ambas podem dar azo à indenização, sendo comumente equiparadas pela doutrina e
jurisprudência 4. A indenização pelas benfeitorias e acessões tem por fundamento a
vedação do ordenamento jurídico ao enriquecimento sem causa, ou seja, “A
indenização por benfeitoria baseia-se no objetivo de impedir o locupletamento ou o
enriquecimento imotivado” (TJRS, AC nº 588070698). Assim, edificado pelo possuidor,
não seria justo que o proprietário passasse a usufruir destas e tivesse proveito sem a
correspondente reparação. Portanto, para justificar a indenização pelas benfeitorias e
acessões é necessário mensurar um acréscimo de valor ao bem em proveito do
legitimo proprietário.
Nesta toada, pelo conjunto probatório constante dos autos e pelos termos da defesa
apresentada pela ré, é incontroverso que a ré edificou benfeitorias/acessões no
imóvel.
A teor do art. 1.219 do Código Civil, “o possuidor de boa- fé tem direito à
indenização das benfeitorias necessárias e úteis, bem como, quanto às voluptuárias, se
não lhe forem pagas, a levantá-las, quando o puder sem detrimento da coisa, e
poderá exercer o direito de retenção pelo valor das benfeitorias necessárias e úteis”.
Nesse contexto, considerando que as benfeitorias foram implementadas, fato esse
confirmado pela autora, está correta a sentença na parte em que a condenou a
indenizá-las, postergando o cálculo do quantum debeatur para a fase de liquidação de
sentença.
6. A apelante sustenta que a compradora não demonstrou a regularidade
administrativa das benfeitorias (Lei nº 6.766/79, art.
34, parágrafo único5), motivo pelo qual não faz jus ao direito de indenização.
Todavia, tratando-se de rescisão de contrato de compra e venda, como visto
anteriormente, as partes devem retornar ao status quo ante, evitando-se, assim, o
enriquecimento indevido de qualquer um dos contratantes.
No caso em mesa, nem mesmo a autora contesta a existência das
benfeitorias/acessões. Assim, uma vez comprovada a existência da benfeitoria, é firme
o posicionamento desta Corte de que a ausência de provas quanto a regularidade
administrativa das obras, nos termos do disposto no art. 34, parágrafo único, da Lei
6.766/79, não impede o reconhecimento do direito à indenização, sob pena de
privilegiar-se o enriquecimento sem causa do promitente- vendedor.
Neste sentido:
APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DE RESCISÃO CONTRATUAL C/C REINTEGRAÇÃO DE
POSSE E PERDAS E DANOS - ARGUIÇÃO DE CERCEAMENTO DE DEFESA PELO
JULGAMENTO ANTECIPADO DA LIDE - INOCORRÊNCIA - PRINCÍPIO DO LIVRE
CONVENCIMENTO MOTIVADO - INTELIGÊNCIA DOS ARTS. 130 E 330, I, DO CPC -
INADIMPLEMENTO DA OBRIGAÇÃO PELO COMPROMISSÁRIO-COMPRADOR E
EXISTÊNCIA DE CLÁUSULA EXPRESSA LEVAM À RESCISÃO - MORA COMPROVADA
- CONDENAÇÃO EM ALUGUÉIS - POSSIBILIDADE DESDE A IMISSÃO DA POSSE ATÉ
A DATA DA SENTENÇA - PLEITO DE RETENÇÃO DAS BENFEITORIAS ATÉ QUE LHE
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SEJAM INDENIZADAS - REQUERIMENTO EM CONTESTAÇÃO - POSSIBILIDADE -


INOCORRÊNCIA DE LITIGÂNCIA DE MÁ-FÉ - RECURSO CONHECIDO E
PARCIALMENTE PROVIDO (...) 7. A irregularidade da edificação, representada pela
ausência de alvará por parte da Prefeitura Municipal, bem como, pelo não implemento
de eventuais medidas administrativas, não são suficientes para obstaculizar o direito
maior do compromissário- comprador de se ver ressarcido pelas benfeitorias realizadas
no imóvel
adquirido, sob pena de privilegiar-se o enriquecimento sem causa do promitente-
vendedor.
(TJPR, 7ª CC, AC 692.054-5, Rel. Denise Kruger Pereira, J. 30.11.2010)
APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DE RESCISÃO DE CONTRATO DE COMPROMISSO DE
COMPRA E VENDA - RESCISÃO DO NEGÓCIO JURÍDICO COM RESTITUIÇÃO DOS
VALORES PAGOS - BENFEITORIAS - AUSÊNCIA DE REGULARIZAÇÃO JUNTO AOS
ÓRGÃOS PÚBLICOS - IRRELEVÂNCIA - CONSTRUÇÕES QUE PODEM SER
REGULARIZADAS POSTERIORMENTE - AUSÊNCIA DE ESPECIFICAÇÃO DAS
MESMAS - POSSIBILIDADE DE TAL PROVIDÊNCIA SER EFETUADA EM FASE DE
LIQUIDAÇÃO DE SENTENÇA. 1. Não há óbice em que a especificação e quantificação
das benfeitorias se proceda na fase de liquidação de sentença. 2.
O fato das benfeitorias não estarem regularizadas perante os órgãos públicos não
impede a sua indenização posto que tal providência pode ser efetuada
posteriormente, porém, as respectivas despesas devem correr por conta da recorrida.
3. Apelação provida parcialmente. (TJPR, 7ª CC, AC 563.952-9, Rel. Guilherme Luiz
Gomes, J. 24.11.2009)
APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE RESCISÃO DE COMPROMISSO DE COMPRA E VENDA
DE IMÓVEL, C/C REINTEGRAÇÃO DE POSSE E PERDAS E DANOS. SENTENÇA QUE
CONDENOU OS RÉUS AO PAGAMENTO DE INDENIZAÇÃO PELO TEMPO DE
UTILIZAÇÃO DO BEM, DEVENDO SER DEDUZIDO O VALOR DO SINAL E DAS
PARCELAS PAGAS, BEM COMO O IMPORTE DAS BENFEITORIAS ÚTEIS E
NECESSÁRIAS REALIZADAS. APELO DOS AUTORES. IRRESIGNAÇÃO CONTRA A
INDENIZAÇÃO PELAS ACESSÕES. IRRELEVÂNCIA, NO CASO, POSTO A
VERIFICAÇÃO DE QUE O PROMITENTE COMPRADOR ATUOU DE BOA-FÉ AO
CONSTRUIR NO TERRENO. EDIFICAÇÃO ERGUIDA SEM AUTORIZAÇÃO DA
PREFEITURA. IRREGULARIDADE QUE PODE SER SANADA JUNTO À
ADMINISTRAÇÃO MUNICIPAL. BENFEITORIAS ÚTEIS E NECESSÁRIAS QUE DEVEM
SER INDENIZADAS.
DECISÃO CONFIRMADA. RECURSO NÃO PROVIDO. (TJPR, 6ª CC, AC 603.372-5,
Rel. Sérgio Arenhart, J. 13.10.2009)
Aqui é preciso ressaltar que a autora não trouxe aos autos nenhuma prova da
irregularidade das benfeitorias edificadas sobre o imóvel. Contudo, é evidente que a
regularidade - ou não - da construção repercutirá sobre o valor de eventual crédito a
ser restituído a requerida.
Desse modo, para sanar a celeuma de forma isonômica, necessário se mostra que a
regularidade da obra venha a ser averiguada em sede de liquidação de sentença, bem

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como a possibilidade e, ainda, os custos de eventual regularização, circunstância que


influenciará no valor da construção e devolução de eventual crédito à requerida.
A corroborar:
APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE RESCISÃO DE CONTRATO DE COMPROMISSO DE
COMPRA E VENDA C/C REINTEGRAÇÃO DE POSSE. (...). BENFEITORIA. SUPOSTA
INEXISTÊNCIA DE PEDIDO DE INDENIZAÇÃO. INOCORRÊNCIA. MATÉRIA DE
DEFESA ARGUIDA EM CONTESTAÇÃO. PLEITO DE INDENIZAÇÃO EX-
PRESSAMENTE FORMULADO. ALEGADA AUSÊNCIA DE PROVA ACERCA DA
EXISTÊNCIA, ESPECIFICAÇÃO E VALOR DA BENFEITORIA. ACESSÃO ARTIFICIAL.
CONSTRUÇÃO DE MORADIA. EXISTÊNCIA COMPROVADA POR MEIO DE
IMAGENS QUE INSTRUEM A CONTESTAÇÃO. VALOR A SER APURADO EM FASE DE
LIQUIDAÇÃO. SUPOSTA IRREGULARIDADE DA OBRA E CONSEQUENTE
IMPOSSIBILIDADE DE INDENIZAÇÃO. ART. 34, PARÁGRAFO ÚNICO, DA LEI Nº
6.766/79. VÍCIO CUJA EXISTÊNCIA É CONTROVERSA E QUE PODE SER OU NÃO
SANADO. PRECEDENTE DO STJ. CIRCUNSTÂNCIA A SER APURADA POR OCASIÃO
DA LI- QUIDAÇÃO. No caso de rescisão de contrato de compromisso de compra e
venda, o comprador tem direito à indenização por acessão, sendo que eventual
irregularidade na construção deverá ser apurada por ocasião da liquidação de
sentença, notadamente a possibilidade de que o vício venha a ser sanado, sendo que
as despesas daí decorrentes deverão ser deduzidas de eventual crédito que venha a
ser apurado em favor do comprador. (...). Apelação: parcialmente provida Recurso
adesivo: conhecido em parte e parcialmente provido. (TJPR-18ª Câmara Cível, AC
1.449.567-7, rel. Des. Péricles Bellusci de Batista Pereira, j. 27/06/2016)
7. Com relação ao pagamento dos tributos (IPTU), das taxas condominiais, de coleta
de lixo e de iluminação pública é de se fixar a responsabilidade da requerida diante do
disposto na cláusula sexta do contrato (mov. 1.4 - f. 22), segundo a qual a mesma ficou
obrigada a arcar com todos os tributos e taxas que passaram a incidir sobre o imóvel a
partir da realização do contrato. Neste tópico, deve-se também ressaltar o contido no
artigo 31, do CTN, que define “contribuinte do imposto é o proprietário do imóvel, o
titular do seu domínio útil, ou seu possuidor a qualquer título”. Ora, se o proprietário é
responsável perante o Poder Público pelo imposto e despesas de conservação do
imóvel, é justo que o promitente comprador venha a reembolsar tais despesas pelo
período em que deteve a posse.
8. Por fim, pretende a apelante a condenação da requerida ao pagamento de multa
por litigância de má-fé, baseando seu pedido na demora da requerida em devolver os
autos ao Cartório após tê-los pego em carga e no fato de ter questionado a
regularidade da notificação extrajudicial.
Entende o Superior Tribunal de Justiça que “O art. 17 do Código de Processo Civil,
ao definir os contornos dos atos que justificam a aplicação da multa por litigância de
má-fé, pressupõe o dolo da parte no entravamento do trâmite processual, manifestado
por conduta intencionalmente maliciosa e temerária” (STJ, 1ª T., AgRg no Ag
1021049/SP, Rel. Min. Denise Arruda, DJe 05.11.2008).
No caso em apreço, a simples demora na devolução dos autos ao Cartório não pode
ser vista como resistência injustificada, nem conduta desleal e atentatória ao normal
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andamento do processo, capaz de ensejar a imposição de multa por litigância de má-


fé.
Além disso, ao alegar a irregularidade da notificação extrajudicial, a requerida estava
exercendo seu direito de defesa. O direito de defesa não deve ser considerado abuso
de direito ou tentativa de tumulto processual, atendendo aos princípios do
contraditório e a ampla defesa. Neste sentido já se posicionou o Superior Tribunal de
Justiça: “A litigância de má-fé deve ser distinguida da estratégia processual adotada
pela parte que, não estando obrigada a produzir prova contra si, opta, conforme o
caso, por não apresentar em juízo determinados documentos, contrários à suas teses,
assumindo, em contrapartida, os riscos dessa postura. O dever das partes de
colaborarem com a Justiça, previsto no art. 339 do CPC, deve ser confrontado com o
direito do réu à ampla defesa, o qual inclui, também, a escolha da melhor tática de
resistência à pretensão veiculada na inicial. Por isso, o comportamento da parte deve
sempre ser analisado à luz das peculiaridades de cada caso.” (REsp 1286704/SP, Rel.
Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em 22/10/2013, DJe
28/10/2013)
Portanto, não está configurada a apontada litigância de má-fé.
9. Na fixação dos honorários advocatícios deve ser observado um critério objetivo, de
modo que o profissional advogado seja remunerado no limite do trabalho.
Paulo Luiz Neto Lobo, tratando dos limites que deve ser arbitrada a verba honorária,
leciona:
“Não há critérios definitivos que possam delimitar a fixação dos honorários
advocatícios, porque flutuam em função de vários fatores, alguns de forte densidade
subjetiva. (...) Impõe-se sempre a moderação, no entanto, já que o direito não é
ilimitado. Há limites postos pela ética e pela razoabilidade que não podem ser
ultrapassados.” (Comentários ao Novo Estatuto da Advocacia e da OAB, ed. 1994, p.
93).
Assim, à luz do dispositivo processual aplicável a espécie deve a verba honorária ser
arbitrada seguindo os parâmetros relativos ao grau de zelo na atuação do profissional,
o lugar da prestação de serviço, a natureza e importância da causa, o trabalho
realizado, bem assim o tempo exigido para prestação do serviço, devendo ser
suficientes para remunerar condignamente o advogado, sem implicar em valor
excessivamente elevado, ou tão ínfimo que não seja capaz de compensar o trabalho
desempenhado pelo profissional.
Neste particular, embora não se trate de ação que verse sobre matéria complexa, a
representação técnica da autora se deu de modo adequado, dentro do que lhe exigia
o processo. Assim, entendo que a importância fixada pelo juízo a quo não obedece
aos parâmetros exigidos para a espécie.
Desse modo, elevo o valor fixado a título de verba honorária advocatícia para 10% do
valor da condenação, adequando-a aos parâmetros estabelecidos no artigo 85, §2º do
CPC/2015.
10. A sucumbência deve ser distribuída na medida da vitória e da derrota dos
litigantes no processo. Analisando os termos da pretensão e o resultado final

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proporcionado pelo presente acórdão, verifico a necessidade de redistribuir os ônus


da sucumbência. Assim, condeno as partes, na proporção de 80%
para a ré e 20% para a autora, ao pagamento das custas processuais e dos honorários
advocatícios.
11. Diante do exposto, voto no sentido de conhecer em parte do recurso e, na parte
conhecida, dar parcial provimento para (i) condenar a ré (promitente compradora) ao
pagamento dos tributos (IPTU), das taxas condominiais, de coleta de lixo e de
iluminação pública até a data da desocupação da unidade residencial; (ii) determinar
que, em sede de liquidação de sentença, seja calculado o valor necessário para a
regularização das benfeitorias. Após proceda-se o desconto desses valores do
montante a ser restituído; (iii) majorar o valor fixado a título de honorários advocatícios;
(iv) redistribuir o ônus da sucumbência.
III- DECISÃO
ACORDAM os Desembargadores integrantes da 17ª Câmara Cível do Tribunal de
Justiça do Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em conhecer em parte do
recurso, e na parte conhecida, dar parcial provimento.
O julgamento foi presidido pelo Desembargador LAURI CAETANO DA SILVA, relator,
e dele participaram os Desembargadores TITO CAMPOS DE PAULA e RUI BACELLAR
FILHO.
Curitiba, 14 de junho de 2017.
DES. LAURI CAETANO DA SILVA Relator
--
1 Art. 389. Não cumprida a obrigação, responde o devedor por perdas e danos, mais
juros e atualização monetária segundo índices oficiais regularmente estabelecidos, e
honorários de advogado.
Art. 395. Responde o devedor pelos prejuízos a que sua mora der causa, mais juros,
atualização dos valores monetários segundo índices oficiais regularmente
estabelecidos, e honorários de advogado.
Parágrafo único. Se a prestação, devido à mora, se tornar inútil ao credor, este poderá
enjeitá-la, e exigir a satisfação das perdas e danos.
Art. 404. As perdas e danos, nas obrigações de pagamento em dinheiro, serão pagas
com atualização monetária segundo índices oficiais regularmente estabelecidos,
abrangendo juros, custas e honorários de advogado, sem prejuízo da pena
convencional.
2 Art. 51. São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais relativas ao
fornecimento de produtos e serviços que: (...) XII - obriguem o consumidor a ressarcir
os custos de cobrança de sua obrigação, sem que igual direito lhe seja conferido
contra o fornecedor.
3 Curso de Direito Civil, Direito das Coisas. 3o. volume. Saraiva, pg. 120/121
4 STJ ­ 4ª T. ­ REsp 430810/MS ­ Min. Ruy Rosado de Aguiar ­ j. em 0/20/2002, DJ de
18/11/2002, p. 226; STJ ­ 3ª T - REsp 565483/SP ­ Rel. Min. Carlos Alberto Menezes
Direito ­ DJ 20.03.2006, p. 264; STJ ­ 3ª T. ­ REsp 98191/SP ­ Rel. Min. Waldemar
Zveiter ­ j. em 04/12/1997, DJ de 09/03/1998, p. 88; TJPR ­ 19ª CC ­ 27620-6 ­ Rel.
Macedo Pacheco ­ j. em 17/02/2005.
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5 Art. 34. Em qualquer caso de rescisão por inadimplemento do adquirente, as


benfeitorias necessárias ou úteis por ele levadas a efeito no imóvel deverão ser
indenizadas, sendo de nenhum efeito qualquer disposição contratual em contrário.
Parágrafo único - Não serão indenizadas as benfeitorias feitas em desconformidade
com o contrato ou com a lei.

2.1.6. AÇÃO DEMARCATÓRIA E EXCEÇÃO DE USUCAPIÃO

ão da instrução processual. Recurso de apelação prejudicado. EMENTA: APELAÇÃO

CÍVEL. AÇÃO DEMARCATÓRIA C/C PEDIDO DE RESTITUIÇÃO DE ÁREA. EXCEÇÃO

DE USUCAPIÃO ACOLHIDA. PEDIDO JULGADO IMPROCEDENTE. AUTOR QUE

RECORRE DO DECISUM. PERDA DE PARTE DA ÁREA EM RAZÃO DA AQUISIÇÃO

ORIGINÁRIA DO DOMÍNIO POR UM DOS CONFRONTANTES QUE NÃO AFASTA O

DIREITO DE DEMARCAÇÃO DOS IMÓVEIS. DEMARCAÇÃO QUE, ENTÃO, DEVE

RESPEITAR A ÁREA DE POSSE. PROCESSO, TODAVIA, QUE NÃO SE ENCONTRA

MADURO PARA JULGAMENTO. LAUDO PERICIAL INCOMPLETO E INADEQUADO.

SOBREPOSIÇÃO DE ÁREAS. NECESSIDADE DE PRODUÇÃO DE PROVA

ABRANGENTE. SENTENÇA ANULADA. RECURSO PREJUDICADO. Ao julgador é lícito

a determinação de produção de provas ex officio sempre que o conjunto probatório se

mostrar contraditório, confuso ou incompleto e puder a prova a ser produzida influir na

formação de sua convicção.

(TJPR - 17ª C.Cível - AC - 1656490-6 - Terra Rica - Rel.: Lauri Caetano da Silva -

Unânime - J. 14.06.2017)

Inteiro Teor

I- RELATÓRIO
1. Adair Elpidio Pedro ajuizou (25.04.2011) Ação Demarcatória (autos nº 810-
55.2011.8.16.0167) em face de Devanir Pereira dos Santos e Neuzinha Serafina dos
Santos, aduzindo que a) é proprietário dos lotes nº 03 e nº 4-B, da quadra nº 103, com
áreas de 600,00m2 e 300,00m2, situados na cidade de Guairaçá, objeto das matrículas
nº 21.106 do Registro de Imóveis da Comarca de Paranavaí e nº 5.920 do Registro de
Imóveis da Comarca de Terra Rica; b) os imóveis confrontam com terreno dos réus,
cujos limites não estão perfeitamente assinalados; c) pretende construir um muro
divisório entre os terrenos; d) conforme parecer técnico, os réus invadiram uma área

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de 220,00m2 dos terrenos do autor; e) a ação demarcatória é o instrumento cabível


para a demarcação entre os imóveis, bem como à restituição da área invadida.
2. Devanir Pereira dos Santos e Neuzinha Serafina dos Santos ofereceram defesa em
sede de contestação (mov. 1.5 - f. 21/25) alegando que a) não houve invasão do
terreno dos autores; b) a medição realizada pelos autores é equivocada, pois por ela a
casa dos réus deveria ser demolida e não considera a possibilidade da invasão ter sido
perpetrada por outros vizinhos; c) exerce, por si e seus antecessores, a posse mansa,
pacífica, ininterrupta, sem oposição e com animus domini sobre a área há mais de 40
anos, fazendo jus a aquisição do domínio pela usucapião.
3. O magistrado singular deferiu a produção de prova oral (mov. 1.7 ­ f.45) e foi
realizada audiência de instrução e julgamento (mov. 1.10 ­ f. 51). Na sequência o
magistrado nomeou arbitradores na forma do disposto no art. 959 do CPC/73 (mov.
1.10 ­ f. 54). O Laudo Pericial foi apresentado no mov. 1.14 (f. 68/74). O MM. Juiz a
quo anulou o Laudo, determinando nova elaboração da prova (mov. 1.17 ­ f. 101/102).
O novo laudo foi apresentado no mov. 1.24 (f.
122/125). O magistrado saneou o processo designando nova audiência de instrução e
julgamento em razão da falha de gravação da primeira audiência (mov. 1.27 ­
133/136). Na audiência de instrução e julgamento foi constatada a ausência da ré,
motivo pelo qual os autores dispensaram a oitiva das testemunhas que haviam
arrolado (mov. 11.1 ­ f. 154).
4. O magistrado singular converteu o feito em diligência, intimando os réus para que
se manifestassem sobre a prova a ser produzida a fim de demonstrar eventual
usucapião (mov.
27.1 - 183). Os réus manifestaram-se no mov. 32.1 (f. 189) informando que não
possuíam outras provas a produzir, pois as fotografias e documentos comprovariam os
fatos alegados.
5. O MM. Juiz a quo proferiu sentença (mov. 34.1 ­ mov.
192/199) acolhendo a exceção de usucapião e julgou improcedente o pedido inicial.
Pelo princípio da sucumbência, condenou os autores ao pagamento das custas
processuais e honorários advocatícios, fixados em R$800,00.
6. Inconformado, o autor Adair Elpidio Pedro interpôs recurso de apelação (mov. 43.1
­ f. 209/220), em cujas razões pleiteia a reforma da sentença, aduzindo que a) o MM.
Juiz a quo reconheceu que o imóvel dos apelados invade o imóvel do autor, nos
termos da prova pericial produzida; b) não existe direito dos réus à aquisição originária
do domínio; c) todos os lotes da quadra pertenciam à José Amadeu, pai de José
Carlos Amadeu; d) não há muros divisórios, razão pela qual não se pode falar em
exercício de posse; e) os réus não comprovaram fatos impeditivos ou extintivos do
direito; f) o não comparecimento da ré em audiência importou em confissão.
Contrarrazões de apelação no mov. 43.1 (f. 234/237).
É o relatório.
II- VOTO
Presentes os pressupostos processuais de admissibilidade, intrínsecos e extrínsecos,
merece o recurso de apelação ser conhecido.

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7. No caso concreto, Adair Elpidio Pedro ajuizou a presente Ação Demarcatória em


face de Devanir Pereira dos Santos e Neuzinha Serafina dos Santos, pleiteando a
demarcação dos lotes nº 03 e nº 04-B, da quadra nº 103, com áreas de 600,00m2 e
300,00m2, respectivamente, situados na cidade de Guairaçá, objeto das matrículas nº
21.106 do Cartório do Registro de Imóveis da Comarca de Paranavaí e nº 5.920 do
Registro de Imóveis da Comarca de Terra Rica (mov. 1.2 ­ f. 11 e f. 12,
respectivamente), bem como a reintegração na posse da área invadida pelos réus.
O MM. Juiz a quo proferiu sentença, pela qual acolheu a exceção de usucapião
arguida pelos réus, julgado improcedente o pedido inicial de demarcação e
reintegração de posse, condenando a parte autora ao pagamento das custas
processuais e dos honorários advocatícios fixados em R$800,00. Consignou o
magistrado que a prova documental comprovou a aquisição do imóvel pela ré
Neuzinha no dia 10.03.2004, e por seu antecessor no dia 28.01.2002, sendo que antes
disso a posse era exercida por José Carlos Amadeu, desde mais ou menos o ano de
1986.
8. Não obstante o posicionamento adotado pelo magistrado singular, entendo que a
controvérsia apresentada pelas partes se revela bastante complexa, e a solução
abraçada pela sentença objurgada não se revela adequada para solucionar não só o
conflito inter partes, como também para solucionar em definitivo a inadequação
registral dos imóveis em debate. Explico.
9. Dispõe o artigo 946 do CPC/73:
“Art. 946. Cabe: I - a ação de demarcação ao proprietário para obrigar o seu
confinante a estremar os respectivos prédios, fixando-se novos limites entre eles ou
aviventando-se os já apagados; II - a ação de divisão, ao condômino para obrigar os
demais consortes, a partilhar a coisa comum.”
A demarcação objetiva evitar esbulhos e contestações que a falta de sinais visíveis dos
limites da propriedade imobiliária possam acarretar aos proprietários de imóveis
limítrofes. Em síntese, o objetivo especial da demarcatória é o de estabelecer os sinais
materiais capazes de discriminar a propriedade privada e, secundariamente, o de
recuperar toda e qualquer parcela do imóvel que, indo além da divisa assinalada,
esteja na posse indevida do confinante (exceto quando já operado a prescrição
aquisitiva).
Assim, a ação demarcatória poderá ser admitida: 1º) nas hipóteses em que, entre os
prédios confinantes, não há e nem nunca houve a fixação da linha demarcatória; 2º)
nas hipóteses em que, os marcos foram destruídos em virtude da ação do tempo ou
tenham desaparecido ou tenham se tornado confusos, impossibilitando- se, com isso,
a sua perfeita identificação; 3º) nas hipóteses em que, quando constarem descrições
divergentes a respeito da linha demarcatória, nos documentos dos prédios
confinantes, de modo que surja a necessidade de estabelecer, por sentença, qual
delas corresponde à verdadeira linha de limite entre os imóveis1.
Orlando Gomes2 ensina que:
“O direito de demarcar é privativo do proprietário. Não se estende ao possuidor
direto.

66

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

Pode ser exercido a qualquer tempo. É, com efeito, imprescritível, e, também,


irrenunciável.
A simples demarcação consiste apenas na sinalização de limites incontroversos, como
acontece quando a linha divisória passa ser assinalada com marcos. No caso de
controvérsia ou confusão, torna-se necessário determinar os limites, o que se faz de
conformidade com a posse. Visa, pois, a ação de demarcação fixar ou restabelecer os
marcos da linha divisória de dois prédios confinantes. Seu objetivo é a fixação de
rumos novos ou aviventados dos existentes.
O proprietário que quer demarcar exerce seu direito por meio dessa ação, na qual
obriga o dono do prédio contíguo a proceder com ele a demarcação. As despesas são
repartidas proporcionalmente à linha de testada dos prédios confinantes. A
demarcação
não se confunde com a divisão. O fim da demarcatória é obrigar o confinante a
estremar, com o autor, os respectivos prédios, fixando novos limites ou aviventando os
apagados. O fim da ação de divisão é obrigar os condôminos a partilhar a coisa
comum.
Pode ser total ou parcial, conforme se proceda em todo o perímetro do prédio, ou em
parte.
Faz-se também com o simples propósito de fixação ou aviventação de rumos e ainda
o de obter a restituição de terrenos ocupados pelo proprietário do prédio lindeiro.
Quando a demarcatória não se limita ao seu fim específico de levantamento da linha
divisória dos prédios, chama-se demarcatória qualificada. Apresenta esse feitio quando
o pedido é cumulado com a queixa de esbulho ou com a de reivindicação.
Admite-se, pois, que a ação demarcatória não tem o fim exclusivo de fixar a linha de
separação entre dois prédios, mas, ainda, o de obter a restituição da porção de terras
que esteja na posse indevida do dono do prédio confinante, se o interessado não
preferir, antes de propor a ação, recorrer diretamente aos interditos possessórios.
Embora controvertida, a cumulação da demarcatória com a reivindicatória é admitida,
possível, como é, a comprovação de que parte do terreno, sem área determinada,
esteja integrando indevidamente a propriedade do vizinho. Essa porção não
delimitada de terreno pode ser reivindicada por aquele que se julga seu proprietário
ao mesmo tempo em que pede a demarcação mediante a qual obterá igualmente a
delimitação. Não é certo, assim, como pensam alguns, que exista incompatibilidade
entre a demarcação e a reivindicação.
A demarcatória qualificada, que se cumula com a reivindicatória, é julgada por
sentença que faz coisa julgada em relação ao domínio quando a questão relativa a
este houver sido resolvida contenciosamente.
Na demarcação simples, a sentença que a homologa tem efeito meramente
declaratório.”
10. Como visto, a ação demarcatória visa não só aviventar marcos já existentes, como
traçar novos rumos a imóveis contíguos. Ainda, como no presente caso, pode ser
acumulada com pretensão reivindicatória.
O autor narrou em sua exordial que seus terrenos possuem áreas de 600,00m2 e
300,00m2, os quais foram invadidos pelos réus em 220,00m2. Afirmou que as áreas
67

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

nunca tiveram qualquer muro ou cerca entre elas, razão pela qual requereu a
demarcação dos imóveis e a restituição da área invadida. Em sua defesa, os réus
alegaram exceção de usucapião, afirmando que as benfeitorias foram edificadas há
mais de 40 anos.
10.1. Especificamente quanto à ação demarcatória e a exceção de usucapião,
Benedito Silvério Ribeiro ensina que:
“A ação demarcatória compte ao proprietário, que pode obrigar o seu confinante a
proceder com ele à demarcação entre os dois prédios, a aviventar rumos apagados e a
renovar marcos destruídos ou arruinados, repartindo-se proporcionalmente entre os
interessados as respectivas despesas (CC, art. 1.297).
Enquanto perdurar o título de proprietário é possível proceder à demarcação do
imóvel. Uma vez perdido o domínio, não mais será cabível à demarcatória.
A ação em foco é imprescritível, no sentido de permanecer a confusão de limites. O
direito somente se perde quando o dominus sofre os efeitos da prescrição aquisitiva.
A ação de demarcação dos limites (actio finium regundorum) pode ser cumulada com
a reivindicatória e a possessória, sendo exigência que os limites correspondam aos
títulos.
É cabível a alegação de usucapião como defesa na ação de demarcação.
Todavia, tal como na divisória, é na primeira fase do processo, considerado de
conhecimento, que deve ser oposta a defesa fundada em usucapião, já que na fase
executiva apenas se complementará o feito com as operações demarcatórias.”3
10.2. Desta forma, mesmo que se reconheça eventual direito à usucapião do réu, tal
fato não retira do autor da demarcatória a legitimidade para a propositura da ação ou
conduz à improcedência do pedido inicial. O interesse processual e a legitimidade
ativa persistem, eis que a área a ser demarcada observará as divisas apuradas in loco,
ou seja, observará a efetiva área de posse dos autores e dos réus, com posterior
retificação do título de domínio.
11. Todavia, no caso em análise, independentemente da exceção de usucapião,
entendo que a prova produzida nos autos não foi suficiente para que se possa dar
solução definitiva ao conflito.
11.1. No que se refere aos lotes de terreno do autor, conforme matrícula nº 21.106 do
Registro de Imóveis da Comarca de Paranavaí4 (mov. 1.2 ­ aberta no dia 30.09.1986),
o lote nº 03, da quadra nº 103, situado na cidade de Guairaçá, contendo uma casa de
madeira com área de 42,00m2, pertencia à José Amadeu e Abélia
Crapista Amadeu. O imóvel foi transmitido a Adair Elpidio Pedro e sua mulher Maria
Arseno Pedro no dia 20.11.1986 (R-1-21.106).
Ainda, conforme a matrícula nº 5.920 do Registro de Imóveis da Comarca de Terra
Rica (mov. 1.2) aberta no dia 19.05.2010, Adair Elpidio Pedro e sua mulher Maria
Arseno Pedro são proprietários do lote nº 04-B, subdivisão dos lotes nº 04 e 05,
oriundo da unificação dos lotes nº 04 e 05, da quadra nº 103, com área de 300,00m2.
Segundo consta na matrícula, o imóvel anteriormente era objeto da matrícula nº
21.107 do 1º Ofício do Registro de Imóveis da Comarca de Paranavaí e nº 9.918 do
Registro de Imóveis da Comarca de Terra Rica.

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Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

Com relação ao lote de terreno pertencente à parte ré, verifica-se pela matrícula nº
12.869 do Registro de Imóveis da Comarca de Paranavaí (mov. 1.14 ­ f. 88/89 ­ aberta
no dia 06.04.1981), o lote nº 06, da quadra nº 103, com área de 600,00m 2 pertencia à
Sociedade Imobiliária e Colonizadora Guairaçá Ltda, e foi vendido à José Carlos
Amadeu e sua mulher Delma Parra Amadeu no dia 12.03.1981 (R-1-12.869). No dia
06.02.2002 foi averbada anotação (AV-2-12.869), apontando que o lote nº 14, que
fazia divisa de fundos com o lote nº 06, foi incorporado à BR-376, passando esta a
fazer fundos com o terreno. No dia 06.02.2002 foi averbado o desmembramento do
terreno em duas unidades autônomas, cada uma com área de 300,00m2,
denominadas lote nº 06-A e lote nº 06-B (AV-3.12.869).
Conforme matrícula nº 31.396 do 1º Ofício do Registro de Imóveis da Comarca de
Paranavaí, aberta no dia 06.02.2002, o lote nº 06-A, com área de 300,00m2, de
propriedade de José Carlos Amadeu e Delma Parra Amadeu foi vendido (no dia
28.01.2002) à José Macedo dos Santos (R-1-31.936). Por sua vez, conforme matrícula
nº 31.937 do 1º Ofício do Registro de Imóveis da Comarca de Paranavaí, no dia
28.01.2002, o lote nº 06-B foi transmitido por José Carlos Amadeu e Delma Parra
Amadeu para Donizete Borges da Silva e sua mulher Maria de Lourdes da Silva (R-1-
31.937).
Para demonstrar seu direito sobre o terreno, os réus colacionaram recibo de
pagamento emitido por Donizete Borges da Silva no dia 10.03.2004, referente ao
“pagamento integral pela venda que lhe fiz do lote nº 06-B, da subdivisão do lote nº
06, da quadra nº 103, com área de 300,00m2, contendo uma casa de madeira coberta
com telhas, com 6 cômodos, localizado em Guairaçá”.
11.2. Ocorre que, durante a instrução do processo, a prova pericial concluiu que o
lote 6-B, de propriedade dos réus Devanir e Neuzinha, sobrepõe-se aos lotes nº 03
(96,29m2) e nº 4-B (68,20m2), de propriedade do autor Adair Elpídio Pedro. Ainda,
afirmou que o Lote 6-B é sobreposto pelo Lote vizinho nº 07, existindo um
deslocamento de lotes.
Outrossim, concluiu que o Lote nº 03, de propriedade do autor Adair Elpídio Pedro,
deve ser objeto de retificação, pois em razão do novo traçado da Estrada Oficial que
margeava o Loteamento, o terreno passou a ter área total de 434,95m2 (e não os
600,00m2 descritos no título dominial, havendo uma perda de área correspondente a
165,05m2).
Isto porque, conforme item 3 e respectivos subitens do Laudo apresentado no mov.
1.14 (posteriormente ratificado), o lote nº 03 era descrito com área de 600,00m2
(20,00m x 30,00m). A transcrição primitiva do imóvel é anterior a 1954, e foi registrada
sob nº 06, do Livro nº 08, de Registros Especiais do Cartório de Registro de Imóveis da
Comarca de Mandaguari. Todavia, no dia 05.01.1961, em virtude de sentença exarada
no dia 26.12.1960, nos autos nº 978/60, de Pedido de Alteração de Loteamento, a
modificação do Loteamento “Cidade de Guairaçá”, foi registrado sob nº 45, do Livro
nº 08 de Registros Especiais de Paranavaí, certificando que o novo traçado da Estrada
Oficial que margeia o Loteamento, incluído na Planta Oficial arquivada em cartório no
dia 03.11.1966, alterou as quadras L, 23, 43, 63, 83, 103, 123, 143, 163 e 183.

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Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

11.3. Não obstante, a prova pericial não indicou de que forma a alteração da quadra
nº 103 pelo novo traçado da Estrada Oficial afetou os lotes que a compunham. A
perícia é incompleta na medida em não aponta por qual razão somente o lote nº 03
teve sua área alterada, e como chegou à conclusão de que a área perdida foi de
165,05m2, eis que tal informação não consta de qualquer documento juntado aos
autos.
A conclusão de que o lote 6-B sobrepõe os lotes nº 03 (96,29m2) e nº 4-B (68,20m2),
e é sobreposto pelo Lote vizinho nº 07, demonstra que a celeuma a ser resolvida não
pode ser solucionada apenas com a medição pontual dos terrenos das partes,
devendo envolver, globalmente, toda a quadra nº 103 e as frações que a compõem.
Nas circunstâncias demonstradas pelos títulos dominiais de cada uma das partes, não
há como demarcar apenas a fração de terra pretendida pelos autores, pois ambas as
partes possuem títulos equivalentes.
Desta maneira, diante da complexa situação de fato e direito posta em mesa,
somente será possível a solução definitiva da controvérsia por meio de um estudo
amplo da área que compõe a quadra nº 103, comparando as descrições imobiliárias
com a realidade fática das edificações. Vale apontar que diferentemente do que
sustenta o apelante, a ausência de um muro ou uma cerca não significa ausência do
exercício de posse exclusiva. Uma área indivisa, pode, materialmente, estar dividida
pelo exercício da posse limitada. É evidente que, mesmo sem a existência de um muro
(que os autores pretendem construir), as partes respeitavam uma determinada área
como limite de suas respectivas propriedades.
Por enquanto não é possível afirmar a existência de esbulho praticado pela ré, que
tem posse desde a aquisição do lote nº 06-B de Donizate Borges da Silva. Outrossim,
é preciso relevar que o autor é proprietário do lote nº 03 desde 1986. Todavia, como
anteriormente apontado, desde o ano de 1960 o lote nº 03 já não dispunha da área
de 600,00m2. Desta forma, evidentemente não poderia reivindicar qualquer área que
excedesse 434,95m2.
Frise-se, por fim, que o Código Civil, em seu art.
1.298 dispõe que:
“Sendo confusos, os limites, em falta de outro meio, se determinarão de
conformidade com a posse justa; e não se achando ela provada, o terreno contestado
se dividirá por partes iguais entre os prédios, ou, não sendo possível a divisão
cômoda, se adjudicará a um deles, mediante indenização ao outro”.
Nesta toada, não pode o magistrado abster-se da demarcação dos imóveis, pois a lei
civil prevê a partilha ou a adjudicação da área confusa como último critério para
encerrar a “actio finium regundorum”.
12. O magistrado moderno deve exercer a prerrogativa de gestor do processo e da
prova. O processo é instrumento de busca da verdade real e das informações
necessárias para solucionar a controvérsia de forma justa e sem causar “danos”
desnecessários ou evitáveis às partes.
A iniciativa do julgador para a produção das provas necessárias ao julgamento está
perfeitamente delineada pelo direito moderno, senão vejamos:

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Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

“Vislumbrando o julgador a necessidade da produção da prova, não deve quedar-se


silente, contentando-se com uma verdade formal, a qual, no mais das vezes, pode
levar a injustiças.
Acerca do chamado princípio dispositivo, o autor Cândido Dinamarco e demais
processualistas de renome nacional, teceram as seguintes lições, de lapidar
importância: Tem dito a doutrina que o mais sólido fundamento do princípio
dispositivo parece ser a necessidade de salvaguardar a imparcialidade do juiz. O
princípio é de inegável sentido liberal, porque a cada um dos sujeitos envolvidos no
conflito sub judice é que deve caber o primeiro e mais relevante juízo sobre a
conveniência ou inconveniência de demonstrar a verdade dos fatos alegados. Acrescer
excessivamente os poderes do juiz significaria, em última análise, atenuar a distinção
entre processo dispositivo e processo inquisitivo. Todavia, diante da colocação
publicista do processo, não é mais possível manter o juiz como mero expectador da
batalha judicial. Afirmada a autonomia do direito processual e enquadrado como ramo
do direito
público, e verificada sua finalidade preponderantemente sócio-política, a função
jurisdicional evidencia-se como um poder-dever do Estado, em torno do qual e
reúnem os interesses dos particulares e os do próprio Estado. Assim, a partir do último
quartel do século XX, os poderes do juiz foram paulatinamente aumentados: passando
de expectador inerte à posição ativa, coube-lhe não só impulsionar o andamento da
causa, mas também determinar provas, conhecer ex officio das circunstâncias que até
então dependiam de alegação das partes, dialogar com elas, reprimir-lhes eventuais
condutas irregulares, etc.
(Antonio Carlos de Araújo Cintra, 15ª ed., Malheiros, 1999, p. 64)” (TAPR, Ap.Civ.
268022-0,Ac.
nº 6232, 10ª C.Civ., j. 28.10.04)
Além do aspecto formal que deve ser obedecido por meio do conjunto das garantias
processuais fundamentais, necessário o apego ao aspecto substancial que destaca
uma outra faceta do princípio do devido processo legal, que perquire o controle do
conteúdo das decisões. Vale dizer, não se busca apenas o processo formalmente
devido, mas, sobretudo, o substancialmente devido, onde as decisões não podem
denotar abusividade, carência de razoabilidade, arbitrariedade, etc.
Desta forma, entendo que o processo não está maduro para atingir seu desfecho,
sendo imprescindível a continuidade da fase instrutória. Os laudos da presente ação
demarcatória não são suficientemente claros para a regularização do direito das
partes.
Somente após a adequada instrução do processo, poderá ser proferido novo
julgamento.
A prova pericial deve ser realizada abrangendo toda a quadra nº 103, de forma a
esclarecer qual foi a alteração gerada pelo novo traçado da Estrada Oficial que
margeia o loteamento (autos nº 978/60) e qual o impacto em cada um de seus lotes.
Ainda, é preciso que a perícia informe a idade aproximada das construções edificadas
nos imóveis e realize a coleta de informações junto aos antigos moradores sobre a

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Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

divisão dos terrenos e a existência de muros, cercas ou outros meios de delimitação


dos lotes (CPC/73, arts. 956 e seguintes ­ CPC/2015, arts.
580 e seguintes).
Neste sentido:
APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DEMARCATÓRIA. CERCEAMENTO DE DEFESA.
OCORRÊNCIA.
GLEBA DE TERRAS COM MAPEAMENTO DO COMEÇO DO SÉCULO XX. A
OPERAÇÃO DE DEMARCAÇÃO DEVE INDIVIDUAR E PRECISAR O OBJETO DA
PROPRIEDADE. ALEGAÇÃO DE SOBREPOSIÇÃO DE ÁREAS, TRAZIDA PELA DEFESA,
AINDA NÃO ESCLARECIDA DEVIDAMENTE. NECESSIDADE DE REALIZAÇÃO DE
NOVA PROVA PERICIAL. DADOS TÉCNICOS E PERICIAIS EXISTENTES
INCONCLUSIVOS. SENTENÇA CASSADA.RECURSO PROVIDO. (TJPR - 18ª C.Cível -
AC - 1537187-0 - Rel.: Denise Antunes - Unânime - - J.
23.11.2016)
A existência de sobreposição de matrículas pressupõe a produção de prova cabal e
irrefutável de que a situação jurídica exposta no Registro de Imóveis apresentado pelo
reivindicante se encontra incorreta. A ausência de tais provas, principalmente a
pericial, não pode produzir o efeito de se reconhecer que ambos os registros
pertencem à mesma área. (TJ-PR - AC 490.110- 6, 18ª Câmara Cível, Relator: Ruy
Muggiati, Data de Julgamento: 24/09/2008, DJ: 7723)
13. Diante do exposto, voto no sentido de anular a sentença de mov. 34.1,
determinando a complementação da instrução processual. Recurso prejudicado.
III- DECISÃO
ACORDAM os Desembargadores integrantes da 17ª Câmara Cível do Tribunal de
Justiça do Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em anular a sentença de mov.
34.1, determinando a complementação da instrução processual. Recurso de apelação
prejudicado.
O julgamento foi presidido pelo Desembargador LAURI CAETANO DA SILVA, relator,
e dele participaram os Desembargadores TITO CAMPOS DE PAULA e RUI BACELLAR
FILHO.
Curitiba, 14 de junho de 2017.
DES. LAURI CAETANO DA SILVA Relator
--
1 Silva, Ovídio A B. da., Curso de Processo Civil. v.2. p. 397
2 Direitos Reais, 21ª ed. rev. e atual. / por Luiz Edson Fachin - Rio de Janeiro: Forense,
2012, pág. 214/215.
3 Tratado de Usucapião, volume 2, 8ª ed. rev. e atual. com a usucapião familiar ­ São
Paulo: Saraiva, 2012, pág. 1.597.
4 Anteriormente objeto da Transcrição nº 27.247, do Livro 3-AB de Transcrição das
Transmissões do Registro de Imóveis da Comarca de Paranavaí.

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2.1.7. COMISSÃO DE CORRETAGEM – DÚVIDA SOBRE O CREDOR

AÇÃO DE CONSIGNAÇÃO EM PAGAMENTO. COMISSÃO DE CORRETAGEM.

DÚVIDA ACERCA DE SEU BENEFICIÁRIO. PEDIDO JULGADO PROCEDENTE.

AGRAVO RETIDO DE F. 210/213: NÃO CONHECIDO. FALTA DE INTERESSE

RECURSAL. RECURSO DE APELAÇÃO Nº 1: AUSÊNCIA DE PROVA EFETIVA DA

INTERMEDIAÇÃO DA COMPRA E VENDA. CONTRATO DE EXCLUSIVIDADE

INEXISTENTE. VENDA PERPETRADA POR CORRETOR PERTENCENTE A OUTRA

IMOBILIÁRIA. COMISSÃO DE CORRETAGEM INDEVIDA. RECURSO DESPROVIDO.

RECURSOS ADESIVOS NºS 1 E 2: HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. MAJORAÇÃO.

RECURSOS PROVIDOS. 1. O contrato de corretagem, tem por objetivo a

intermediação de partes interessadas na efetivação de determinado negócio, cuja

comissão, a título de pagamento, somente será devida no caso de concretização útil

do acordo. 2. Inexistente nos autos prova suficiente de que a requerida Bidese Imóveis

tenha promovido a intermediação da venda do imóvel de propriedade dos autores, a

improcedência do pedido de pagamento de comissão é medida que se impõe.

(TJPR - 17ª C.Cível - AC - 1640841-6 - Curitiba - Rel.: Lauri Caetano da Silva - Unânime

- J. 14.06.2017)

Inteiro Teor

I- RELATÓRIO
1. Cuida-se de ação de consignação em pagamento (autos nº 0006250-
40.2014.8.16.0001) proposta por Fernando José Strobel e Giselle Schinzel de Souza
Strobel em face de Bidese Imóveis ­ Incorporação, Locação, Compra e Venda Limitada
ME e Sevilha Imóveis Limitada alegando que (a) eram proprietários do imóvel
localizado na Rua Geraldo Lipka, nº 65, no município de Curitiba; (b) em 06.06.2013,
firmaram com a requerida Bidese Imóveis ­ Incorporação, Locação, Compra e Venda
Limitada ME “autorização para venda de imóvel”, com exclusividade, pelo prazo de 90
dias; (c) decorrido o prazo sem a concretização de qualquer negócio, mantiveram a
intenção de vender o imóvel, sem dar, entretanto, exclusividade de venda a nenhum
corretor; (d) os representantes de ambas as requeridas compareceram no imóvel, no
dia 18.12.2013, acompanhados de um cliente apresentado pela Sevilha Imóveis
Limitada; (e) no dia seguinte, o corretor de imóveis da requerida Sevilha Imóveis
Limitada retornou ao apartamento com seu cliente, Walber Pydd, e, em 24.12.2013, foi
apresentada proposta de compra com recibo de sinal de negócio; (e) aceita a proposta

73

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

e firmada a escritura pública de compra e venda, foram surpreendidos com o


recebimento de notificação extrajudicial encaminhada pela requerida Bidese Imóveis ­
Incorporação, Locação, Compra e Venda Limitada ME, reivindicando o pagamento da
comissão de corretagem. Nesse contexto, diante da dúvida sobre o beneficiário
legítimo da comissão de corretagem, propôs a presente demanda.
2. Através da decisão de movimento 8.1 (f. 44) foi autorizado o depósito da quantia.
Os autores efetuaram o depósito da integralidade do valor da comissão de
corretagem (mov. 9.1 ­ f.
46/47).
3. A ré, Sevilha Imóveis Limitada, apresentou defesa em sede de contestação (mov.
30.1 ­ f. 83/94), alegando fazer jus ao recebimento da comissão de corretagem, por ter
apresentado o cliente que concretizou a compra e ter formalizado o negócio. Defende,
ainda, que a requerida Bidese Imóveis não contribuiu para a celebração do negócio,
inexistindo exclusividade de venda. Assim, pediu a improcedência dos pedidos
formulados na inicial.
4. A ré, Bidese Imóveis ­ Incorporação, Locação, Compra e Venda Limitada ME,
ofereceu contestação (mov. 34.1 - f.
122/128), alegando que (a) em 06.06.2013, celebrou com os autores “Autorização
para Venda de Imóvel”, com exclusividade e pelo prazo de 90 dias úteis, para a venda
do apartamento nº 1.401, da Rua Geraldo Lipka, nº 65, do Edifício Terrasse Ecoville,
bem como suas respectivas vagas de garagem, matriculados sob os nº 113.934 e
113.935, junto ao Cartório do Registro de Imóveis da 8ª Circunscrição Imobiliária de
Curitiba/PR; (b) nos termos acordados, a referida autorização dispunha de prazo de 90
dias úteis com exclusividade. No dia 18.12.2013, o corretor de imóveis Ederson
Geraldo Camargo, proprietário da Sevilha Imóveis, a contatou propondo parceria para
a venda daquele imóvel, uma vez que dispunha de interessados na sua aquisição; (c)
em 19.12.2013, os corretores de ambas as requeridas compareceram no imóvel para
uma visita; (d) contudo, tomou ciência de que, no dia seguinte, os compradores
retornaram ao apartamento para nova visita e, posteriormente, formalizaram o
negócio; (e) por conta disso encaminharam Notificação Extrajudicial aos requerentes,
bem como à Sevilha Imóveis pleiteando o pagamento da devida comissão de
corretagem; (f) diante da alegada dúvida sobre a quem pagar a dita comissão, os
requerentes ingressaram com a presente demanda. Desse modo, considerando que foi
igualmente responsável pela intermediação da venda, e tendo em vista que não houve
distrato da autorização de venda com exclusividade firmada pelos autores, pugna pelo
levantamento dos valores depositados a título de comissão de corretagem.
5. Em sede de despacho saneador, foram fixados os pontos controvertidos e deferida
a produção de prova oral (mov. 59.1 ­ f. 186/187). Contra esta decisão, os autores
interpuseram recurso de agravo retido (mov. 80.1 ­ f. 210/213), postulando a reforma
da
decisão, a fim de serem desonerados da obrigação, em face do pagamento,
prosseguindo o feito exclusivamente entre os requeridos.
6. Na audiência de instrução e julgamento (mov. 130.1 ­ f. 290/295), foi tomado o
depoimento pessoal da parte autora e ouvidas 3 testemunhas e 1 informante.
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Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

7. O MM. Juiz a quo proferiu sentença (mov. 141.1 ­ f.


327/333), pela qual julgou procedente o pedido inicial, para (a) declarar extinta a
obrigação dos consignantes Fernando José Strobel e Giselle Schinzel de Souza Strobel
quanto à comissão de corretagem devida pela venda do imóvel localizado na Rua
Geraldo Lipka, nº 65, na cidade de Curitiba; (b) declarar a requerida, Sevilha Imóveis
Limitada, como beneficiária exclusiva e única legitimada ao recebimento da comissão
de corretagem; (c) condenar a ré Bidese Imóveis Limitada ao pagamento das custas
processuais e dos honorários advocatícios, arbitrados em R$500,001.
8. A requerida, Bidese Imóveis ­ Incorporação, Locação, Compra e Venda Limitada
ME, interpôs recurso de apelação (mov. 153.1 - f.346/352), postulando a reforma da
sentença, para reconhecer seu direito ao recebimento da comissão de corretagem
pela intermediação de venda do imóvel dos autores.
Contrarrazões de apelação (mov. 164.1 e mov. 171.1 ­ f.
365/372 e f. 385/394).
9. Os autores Fernando José Strobel e Giselle Schinzel de Souza Strobel interpuseram
recurso de apelação (mov. 166.1 ­ f.
375/378), sustentando, preliminarmente, a necessidade de análise do agravo retido.
No mérito, pleiteou a reforma da sentença para majorar o valor arbitrado a título de
honorários advocatícios.
Não houve a apresentação de contrarrazões.
10. A ré Sevilha Imóveis Limitada interpôs recurso adesivo (mov. 172.1 ­ f. 396/405),
pleiteando a reforma da sentença para majorar o valor fixado a título de honorários
advocatícios.
Não houve a apresentação de contrarrazões.
É o relatório.
II- VOTO
Em primeiro lugar, deixo de conhecer o agravo retido interposto pela parte autora
(mov. 80.1 ­ f. 210/213), pois o magistrado de 1º grau julgou procedente o seu
pedido, para reconhecer a extinção da obrigação. Desse modo, os autores carecem de
interesse recursal.
Com a ressalva supra, presentes os pressupostos recursais, intrínsecos e extrínsecos,
conheço dos recursos.
Do recurso de apelação interposto pela ré Bidese Imóveis ­ Incorporação, Locação,
Compra e Venda Limitada ME.
11. Do cotejo dos autos, observa-se que: (i) em 06.06.2013, os autores celebraram
com a Bidese Imóveis “autorização para venda de imóvel”, com exclusividade, pelo
prazo de 90 dias; (ii) decorrido o prazo sem a venda do imóvel, os autores mantiveram
a intenção de vender o bem, sem dar, entretanto, exclusividade de venda a qualquer
corretor; (iii) no dia 18.12.2013, os representantes de ambas as requeridas
compareceram no imóvel, para demonstrar o imóvel para um cliente apresentado pela
Sevilha Imóveis Limitada; (iv) em 24.12.2013, o cliente da Sevilha Imóveis, formalizou a
proposta para a compra do apartamento, tendo assinado a escritura pública em
14.02.2014; (v) após o recebimento de notificação extrajudicial encaminhada pela

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Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

Bidese Imóveis reivindicando o pagamento da comissão de corretagem e diante da


dúvida acerca de seu legítimo beneficiário, a autora propôs a presente demanda.
A Sevilha Imóveis apresentou contestação afirmando ser a legítima beneficiária da
comissão de corretagem, uma vez que apresentou o cliente que concretizou o
negócio.
Por outro lado, a Bidese Imóveis defende a necessidade de distrato para a revogação
da cláusula de exclusividade firmada com a parte autora e, considerando que não há
qualquer registro formal de distrato, a autorização de venda com exclusividade teria
sido prorrogada automaticamente por prazo indeterminado, sendo devida a
remuneração ao seu corretor.
O magistrado de 1º grau julgou procedente o pedido inicial, para declarar extinta a
obrigação dos autores, reconhecendo como beneficiária exclusiva da comissão de
corretagem a Sevilha Imóveis.
Pois bem!
12. Efetivamente, ajustada a exclusividade, o corretor tem direito à remuneração
integral, ainda que o negócio tenha sido iniciado e concluído sem a mediação, salvo
comprovada sua inércia ou ociosidade.
Assim reza o artigo 726, do Código Civil vigente:
“Art. 726. Iniciado e concluído o negócio diretamente entre as partes, nenhuma
remuneração será devida ao corretor; mas se, por escrito, for ajustada a corretagem
com exclusividade, terá o corretor direito à remuneração integral, ainda que realizado
o negócio sem a sua mediação, salvo se comprovada sua inércia ou ociosidade”.
Sobre o tema, válidos os ensinamentos de Arnaldo Rizzardo, quando refere:
“Mesmo havendo contrato, se as partes diretamente iniciam e concluem o negócio
não repercute em indenização a favor do corretor, o que se revela normal.
Entrementes, se acertada e reservada a exclusividade em favor do corretor, assiste-lhe
a integral remuneração, a menos que se prove a sua inércia ou ociosidade (...).
Normalmente, a
exclusividade está condicionada a prazo determinado, além de se exigirem a
atividade plena e o esforço eficaz do corretor, sob pena de falecer qualquer direito
remuneratório”2.
Neste particular, é preciso salientar que a cláusula de exclusividade é excepcional no
contrato de corretagem, devendo a mesma ser fixada por escrito e por prazo
determinado, sob pena de violação abusiva do direito de propriedade.
Do cotejo dos autos, observa-se que os autores concederam à Bidese Imóveis, em
06.06.2013, autorização de venda (mov. 1.5 ­ f. 14) com exclusividade pelo prazo de
90 dias, com a possibilidade de renovação automática, desde que consistisse na
vontade das partes. Dessa forma, entendo que a prorrogação da cláusula de
exclusividade somente seria possível através de manifestação expressa da parte
autora, com a realização de nova disposição contratual garantidora da exclusividade na
intermediação, o que não foi demonstrado nos autos.
Ao contrário, em seu depoimento pessoal, a parte autora afirmou que, expirado o
prazo de exclusividade de 90 dias, concedeu opção de venda sem exclusividade à

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diversas imobiliárias, inclusive para as duas requeridas, alegação esta que é


corroborada pelos anúncios de venda de diversas imobiliárias, juntados no mov.
1.6 (f. 15/22).
Nesse contexto, conclui-se que, na data da celebração da compra e venda do imóvel,
24.12.2013, a cláusula de exclusividade concedida à Bidese Imóveis não se encontrava
vigente. Sendo assim, não houve a violação da cláusula de exclusividade denunciada
pela apelante.
Diante desse cenário, necessário se mostra perquirir qual das requeridas faz jus ao
recebimento da comissão de corretagem.
13. O contrato de corretagem, ainda que informal, tem por objetivo a intermediação
de partes interessadas na efetivação de determinado negócio, cuja comissão, a título
de pagamento, somente será devida no caso de concretização útil do acordo, nos
termos dos artigos 725 e 726 do Código Civil:
“Art. 725. A remuneração é devida ao corretor uma vez que tenha conseguido o
resultado previsto no contrato de mediação, ou ainda que este não se efetive em
virtude de arrependimento das partes”.
“Art. 726. Iniciado e concluído o negócio diretamente entre as partes, nenhuma
remuneração será devida ao corretor; mas se, por escrito, for ajustada a corretagem
com exclusividade, terá o corretor direito à remuneração integral, ainda que realizado
o negócio sem a sua mediação, salvo se comprovada sua inércia ou ociosidade”.
A ilustre Professora Maria Helena Diniz é clara ao registrar que o corretor é
considerado como um conciliador, que conduz os interessados a efetivarem um
contrato, “garantindo ao cliente o resultado do serviço de mediação: a obtenção do
acordo volitivo para a conclusão do negócio”.
E continua:
“Trata-se de obrigação de fazer, que se desenvolve mediante esforços empregados
para a convergência de interesses opostos ou mesmo coincidentes de outras pessoas.
Não terá culpa se o acordo obtido malograr, posteriormente à mediação, fazendo jus à
remuneração que lhe é devida. O Supremo Tribunal Federal decidiu a respeito que: `É
inconfundível o contrato de mediação com aquele que visa proporcionar. Destarte,
ainda que rescindido ou desfeito o último, razão inexiste para a devolução da
percentagem recebida (2ª Turma, RE 83.974-RJ)’’3.
Nesse contexto, depreende-se que, resultado útil, nos contratos de corretagem,
consiste na obtenção do acordo de vontades entre vendedor e comprador. Alcançado
esse acordo, faz jus o
corretor à comissão, mesmo que o negócio tenha se concretizado sem a sua
participação.
Da narrativa das partes, verifica-se que ambas as imobiliárias rés estiveram presentes
na primeira visita do comprador Walber Pydd ao imóvel, ocorrida em 18.12.2013.
Entretanto, apesar do promitente comprador ter sido acompanhado por ambas as
requeridas nessa primeira visita, quem efetivamente intermediou a compra e venda foi
o corretor da requerida Sevilha Imóveis, conforme relatado pelo próprio adquirente do
imóvel. Observe:

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“Que conhece o Sr. Eder da Sevilha Imóveis; que foi o comprador do imóvel; que o
Sr. Eder já havia vendido o apartamento que morava; que como estava interessado na
região do Ecoville, o Sr. Eder agendou algumas visitas, inclusive, no Condomínio
Terrasse; que no dia compareceu o Sr. Eder, e o pessoal de uma outra imobiliária; que,
em pesquisa na internet, verificou que haviam outros apartamentos à venda no mesmo
edifício; que também haviam anúncios, do mesmo apartamento, em pelo menos 3
outras imobiliárias; que no outro dia fez uma outra visita; que olhou outros
apartamentos da região; após tudo isso, entrou em contato com o Sr. Eder e disse que
podia fechar negócio; que não se recorda se foi na primeiro ou na segunda visita, mas
viu um apartamento no mesmo prédio; que só teve contato com o Sr. Eder e com o
pessoal da Sevilha; que junto com o Sr. Eder visitou outro apartamento (...) ­ Walber
pydd ­ mídia digital ­ mov. 130.1.
O próprio autor confirma que a celebração do pacto só possível diante do trabalho
desenvolvido pela Sevilha Imóveis, pois o promitente comprador já era cliente antigo
da referida imobiliária. Vejamos:
“Que colocou esse imóvel à venda em setembro de 2012 com outra empresa
estranha à lide, com contrato de 60 dias; que, depois disso, foi procurado pela Bidese
Imóveis, através de sua funcionária Rosana, assim, em 06.06.13, firmou com a Bidese
Imóveis, uma autorização de venda, que se findava em 06.10.13; que a Bidese não
obteve êxito na venda; que após, esse período, autorizou outras imobiliárias, inclusive,
a Bidese, a continuar a proceder a venda do imóvel, contudo, sem exclusividade; (...)
em 18.12.2013, a Bidese solicitou uma visita no imóvel; que quem acompanhou a
visita, foi sua empregada; que, na oportunidade, estavam o Sr. Walber e os corretores
da Bidese e da Sevilha Imóveis; que, no dia 20.12.2013, foi contatado pela Sevilha,
que lhe perguntou se o imóvel estava à venda e se havia exclusividade de alguma
imobiliária; que respondeu que não e a visita efetivou-se na parte da tarde do mesmo
dia; que o atual proprietário visitou o imóvel acompanhado do Eder, da Sevilha
Imóveis; que neste dia estava presente; que, no outro
dia, o corretor da Sevilha Imóveis lhe contatou lhe fazendo uma proposta; que ficou
de pensar; que, dia 23.12.13, fez um contraproposta; que o promitente comprador
aceitou; que, no dia 24.12.13, assinaram a proposta de compra e venda; que entre
natal e ano novo, a Bidese entrou em contato para agendar uma visita; que lhe
informaram acerca da venda do imóvel; que, no dia 07.01.14, a Bidese Imóveis entrou
em contato, dizendo que havia apresentado o comprador para o imóvel; (...) que, em
seu entendimento, a Sevilha tinha um comprador que já havia sido seu cliente em
outras oportunidades; que verificando que o outra imobiliária estava vendendo o
imóvel entrou em contato para agendar uma visita; que a Sevilha não tinha
conhecimento acerca da cláusula de exclusividade, tanto que, na segunda visita,
perguntou acerca da sua existência, e disse que não existia; (...) que as imobiliárias não
entraram em acordo acerca de quem era devido a comissão de corretagem; que,
diante da dúvida, ingressou com a presente ação ­ Fernando José Strobel ­ mídia
digital ­ mov. 130.1.
Ademais, o “recibo de sinal de negócio” (mov. 1.9 ­ f.

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25) fora emitido, exclusivamente, pela Sevilha Imóveis, inexistindo nos autos,
nenhuma prova de que o corretor da apelante tenha contribuído para celebração do
pacto, razão pela que entendo correto do posicionamento do julgador monocrático,
ao considerar a requerida Sevilha Imóveis única e exclusiva beneficiária da comissão
de corretagem.
A corroborar:
“APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE COBRANÇA DE COMISSÃO DE CORRETAGEM.
ÔNUS DA PROVA. CASO CONCRETO. AUSÊNCIA DE PROVA EFETIVA DA
INTERMEDIAÇÃO DA COMPRA E VENDA. CONTRATO DE EXCLUSIVIDADE
INEXISTENTE. POSTERIOR ALIENAÇÃO DO IMÓVEL ATRAVÉS DE OUTRO
CORRETOR. A comissão de corretagem é devida quando demonstrada, pelo
profissional, a efetiva intermediação imobiliária, com atos concretos de intermediação
das partes de forma que as negociações tendentes à realização do ato alcancem o seu
objetivo, ou seja, que as negociações produzam o resultado útil desejado. NEGADO
PROVIMENTO AO RECURSO. UNÂNIME (Apelação Cível Nº 70041925249, Décima
Quinta Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Otávio Augusto de Freitas
Barcellos, Julgado em 20/07/2011)”.
Dos recursos adesivos nº 1 e nº 2 interpostos pelos autores Fernando José Strobel e
Giselle Schinzel de Souza Strobel e pela requerida Sevilha Imóveis Limitada.
14. Os recorrentes pretendem a majoração do valor arbitrado a título de honorários
advocatícios.
Na fixação dos honorários advocatícios deve ser observado um critério objetivo, de
modo que o profissional advogado seja remunerado no limite do trabalho.
Paulo Luiz Neto Lobo, tratando dos limites que deve ser arbitrada a verba honorária,
leciona:
“Não há critérios definitivos que possam delimitar a fixação dos honorários
advocatícios, porque flutuam em função de vários fatores, alguns de forte densidade
subjetiva. (...) Impõe-se sempre a moderação, no entanto, já que o direito não é
ilimitado. Há limites postos pela ética e pela razoabilidade que não podem ser
ultrapassados.” (Comentários ao Novo Estatuto da Advocacia e da OAB, ed. 1994, p.
93).
Assim, à luz do dispositivo processual aplicável a espécie deve a verba honorária ser
arbitrada seguindo os parâmetros relativos ao grau de zelo na atuação do profissional,
o lugar da prestação de serviço, a natureza e importância da causa, o trabalho
realizado, bem assim o tempo exigido para prestação do serviço, devendo ser
suficientes para remunerar condignamente o advogado, sem implicar em valor
excessivamente elevado, ou tão ínfimo que não seja capaz de compensar o trabalho
desempenhado pelo profissional.
Neste particular, embora não se trate de ação que verse sobre matéria complexa, a
representação técnica dos autores e da requerida Sevilha Imóveis se deu de modo
adequado, dentro do que lhe exigia o processo. Além do mais, é preciso levar em
conta o tempo de tramitação do processo, ou seja, mais de 3 anos. Assim, entendo
que a importância fixada pelo juízo a quo não obedece aos parâmetros exigidos para a
espécie.
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Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

Desse modo, elevo o valor fixado a título de verba honorária advocatícia para 20% do
valor atualizado da causa, nos termos do artigo 85, §2º e §11 do Código de Processo
Civil, os quais devem ser divididos entres os procuradores dos autores e da ré Sevilha
Imóveis.
15. Diante do exposto, voto no sentido de:
a) não conhecer o agravo retido (mov. 80.1 ­ f.
210/213); b) negar provimento ao recurso de apelação nº1 interposto por Bidese
Imóveis ­ Incorporação, Locação, Compra e Venda Limitada ME.
c) dar provimento ao recurso adesivo nº 1 interposto pelos autores Fernando José
Strobel e Giselle Schinzel de Souza Strobel, para majorar a verba honorária
advocatícia.
d) dar provimento ao recurso adesivo nº 2 interposto pela requerida Sevilha Imóveis
Limitada, para majorar a verba honorária advocatícia.
III- DECISÃO
ACORDAM os Desembargadores integrantes da 17ª Câmara Cível do Tribunal de
Justiça do Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em não conhecer o agravo
retido de f. 210/213; negar provimento ao recurso de apelação e dar provimento aos
recursos adesivos nºs 1 e 2.
O julgamento foi presidido pelo Desembargador LAURI CAETANO DA SILVA, relator,
e dele participaram os Desembargadores TITO CAMPOS DE PAULA e RUI BACELLAR
FILHO.
Curitiba, 14 de junho de 2017.
DES. LAURI CAETANO DA SILVA Relator
--
1 Sentença proferida no dia 10.03.2016 e publicada no dia 22.03.2016.
--
2 RIZZARDO, Arnaldo. Contratos. 6ª ed.. Editora Forense, 2006, p. 784.
--
3 Tratado Teórico e Prático dos Contratas, Saraiva, 6ª ed., 2006, v. 3, p. 42.

2.1.8. DECLARATÓRIA DE ADIMPLEMENTO C/C IMISSÃO NA POSSE

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO COM PEDIDO DE IMISSÃO DE POSSE (LEIA-SE AÇÃO

DECLARATÓRIA DE ADIMPLEMENTO DE CONTRATO COM PEDIDO DE IMISSÃO

NA POSSE). CONTRATO DE COMPRA E VENDA DE IMÓVEL. RECONVENÇÃO.

COBRANÇA DOS VALORES EM ABERTO DECORRENTES DA INCIDÊNCIA DA

CORREÇÃO MONETÁRIA PELO INCC E DOS JUROS DE OBRA. PEDIDO JULGADO

PROCEDENTE. PEDIDO RECONVENCIONAL JULGADO IMPROCEDENTE. RECURSO

DE APELAÇÃO DA RÉ: INCC. PREVISÃO CONTRATUAL. POSSIBILIDADE. VALORES


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Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

EM ABERTO. PERÍODO ENTRE A CELEBRAÇÃO DO CONTRATO DE COMPRA E

VENDA E A ASSINATURA DO CONTRATO DE FINANCIAMENTO. VALIDADE DA

COBRANÇA. TAXA DE JUROS DA OBRA. COBRANÇA PERPETRADA PELA CAIXA

ECONÔMICA FEDERAL. CONSTRUTORA QUE EFETUOU O PAGAMENTO NA

QUALIDADE DE FIADORA DA PROMITENTE-COMPRADORA. RESTITUIÇÃO DEVIDA.

IMISSÃO DE POSSE MANTIDA. ADIMPLEMENTO SUBSTANCIAL. TAXAS

CONDOMINIAIS. PAGAMENTO. RESPONSABILIDADE DA CONSTRUTORA ATÉ A

EFETIVA ENTREGA DAS CHAVES. REDISTRIBUIÇÃO DO ÔNUS DA SUCUMBÊNCIA.

RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO. 1. É permitida a aplicação do INCC aos

contratos de promessa de compra e venda de imóvel em construção como índice de

atualização do valor devido pelo promissário-comprador até a data prevista para a

entrega da obra. (TJ-MG, Relator: Evandro Lopes da Costa Teixeira, Data de

Julgamento: 11/06/2014, Câmaras Cíveis / 17ª CÂMARA CÍVEL) 2. "A teoria do

adimplemento substancial consiste na impossibilidade da resolução do contrato nas

ocasiões em que o pacto já esteja com uma considerável quantidade de parcelas

quitadas, estando tal teoria consubstanciada nos princípios da boa-fé objetiva, da

função social dos contratos, bem como da vedação ao enriquecimento sem causa".

(Apelação Cível Nº 70057449951, Vigésima Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS,

Relator: Walda Maria Melo Pierro, Julgado em 09/04/2014) 3. Como as taxas

condominiais têm natureza propter rem, ou seja, aderem à coisa e não à pessoa, e não

havendo averbação do Habite-se ou entrega das chaves do imóvel, tais despesas

devem ser de responsabilidade da promitente vendedora. (TJ-DF - APC:

20130710225168 DF 0021829-93.2013.8.07.0007, Relator: SANDOVAL OLIVEIRA,

Data de Julgamento: 11/03/2015, 5ª Turma Cível, Data de Publicação: Publicado no

DJE : 19/03/2015 . Pág.: 209)

(TJPR - 17ª C.Cível - AC - 1640115-1 - Região Metropolitana de Londrina - Foro

Central de Londrina - Rel.: Lauri Caetano da Silva - Unânime - J. 14.06.2017)

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Inteiro Teor

I- RELATÓRIO
1. Gisele Aparecida da Silva ajuizou ação de imissão de posse c/c perdas e danos
(autos nº 16252-93.2015.8.16.0014 - PROJUDI) em face de Terra Nova Rodobens
Incorporadora Imobiliária Londrina II SPE Limitada aduzindo, em síntese, que a) por
meio do programa Minha Casa Minha Vida adquiriu da empresa ré a unidade nº 37-U,
da quadra nº 110, do Condomínio Moradas Londrina, pelo valor de R$86.813,76; b)
após a assinatura do contrato de financiamento junto à Caixa Econômica Federal, a ré
era obrigada a lhe entregar a posse do imóvel; c) a ré negou-se a entregar o imóvel,
justificando que existem débitos pendentes, sem prestar qualquer outro
esclarecimento; d) foi obrigada a alugar um imóvel para residir (danos materiais); e)
mesmo não tendo recebido o imóvel, estão sendo cobrados os valores relativos à
contribuição condominial da unidade residencial, o que é indevido; f) não há
inadimplência, razão pela qual faz jus à imissão na posse do imóvel; g) a ré age de má-
fé e retém injustamente a posse do imóvel; h) a ré deve ser condenada ao pagamento
de indenização
por danos materiais e morais; i) tratando-se de relação de consumo, é permitida a
inversão do ônus da prova (CDC, art. 6º, VIII). Como consequência dos fatos alegados
requereu, liminarmente, a expedição do mandado de imissão de posse, e ao final a
procedência dos pedidos.
2. A antecipação dos efeitos da tutela foi deferida (mov. 7.1 - f. 132). O mandado de
imissão de posse foi cumprido no dia 08.04.2015 (mov. 15.2 ­ f. 146).
3. A ré Terra Nova Rodobens Marajó Incorporadora Imobiliária Londrina II ­ SPE
Limitada ofereceu defesa em sede de contestação (mov. 18.1 ­ f. 151/184) alegando,
em síntese, que a) o negócio firmado entre as partes reveste-se de condições
especiais, mediante o sistema denominado “TERRA NOVA”; b) a autora obrigou-se a
efetuar o pagamento do preço do imóvel (R$86.813,76), divido em duas partes: PARTE
A no valor de R$4.813,76; e a PARTE B no valor de R$82.000,00, a ser paga à vista,
com recursos próprios ou mediante obtenção de financiamento no âmbito do Sistema
Brasileiro de Poupança e Empréstimo ou do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço,
conforme item 4.1 e 4.2 do “Quadro Resumo” e cláusula 2ª do contrato; c) a autora
possui débito no valor de R$12.230,44, referente à correção do saldo devedor pelo
INCC e juros da obra; d) a posse do imóvel está condicionada ao pagamento integral
dos valores avençados no contrato (cláusula 7ª); e) não houve descumprimento
contratual no que concerne à entrega da posse do imóvel; f) a autora tinha
conhecimento de que seu saldo devedor sofreria correção monetária; g) a pretensão
da autora implicaria na redução do preço do imóvel, o que não pode se admitir; h) a
responsabilidade pelo pagamento referente a correção monetária pelo INCC está
especificada na cláusula 2.5.5. do contrato; i) não tem qualquer ingerência quanto à
concessão ou não do financiamento para pagamento do preço previsto no contrato,
eis que o financiamento é realizado pela Caixa Econômica Federal; j) a correção
monetária e a taxa de juros foram expressamente pactuadas e sua cobrança durante a
fase de construção é autorizada pela Lei nº 9.514/1997; k) a cobrança dos chamados

82

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

“Juros de Obra” é feita pela Caixa Econômica Federal, tendo em vista que decorre do
contrato de financiamento imobiliário firmado entre ela e a compradora (autora); l)
figurou como fiadora da autora, e em razão de sua inadimplência perante a CEF, foi
obrigada a realizar o pagamento; m) a confissão de dívida assinada pela autora é
válida e eficaz; n) não existem danos materiais ou morais a serem
indenizados; o) a autora é responsável pelo pagamento das taxas de condomínio da
unidade adquirida desde sua disponibilização, o que ocorreu no mês de novembro de
2012; p) inaplicável no caso concreto a inversão do ônus da prova prevista no Código
de Defesa do Consumidor.
4. A sociedade Terra Nova Rodobens Marajó Incorporadora Imobiliária Londrina II ­
SPE Limitada ajuizou reconvenção (mov. 19.1 ­ f. 256/264), pleiteando a condenação
da autora ao pagamento de (i) R$9.232,72, referente a correção do saldo devedor pelo
INCC; e, (ii) R$2.997,72, referente aos juros da obra dos meses de junho/2012 a
maio/2013, que quitou junto à Caixa Econômica Federal na condição de fiadora.
5. Gisele Aparecida da Silva apresentou contestação à reconvenção (mov. 41.1 ­ f.
370/380), refutando integralmente a pretensão da ré/reconvinte.
6. O MM. Juiz a quo julgou parcialmente procedentes os pedidos formulados na
inicial da ação de imissão de posse, para (i) confirmar a liminar anteriormente
concedida e determinar a imissão definitiva da autora na posse do imóvel; (ii) condenar
a ré ao pagamento de indenização por danos morais, no valor de R$10.000,00, a
serem corrigidos pelo INPC a partir da data em que o imóvel deveria ter sido
entregue; (ii) declarar inexigível o valor cobrado a título de contribuição condominial
do imóvel; (iii) declarar inexigível o valor da dívida cobrada pela ré a título de juros de
obra e diferença de correção monetária pelo INCC; (iv) afastar a pretensão de
pagamento de indenização por danos materiais. Diante da sucumbência recíproca,
condenou as partes, na proporção de 80% para autora e 20% para a ré, ao pagamento
das custas processuais. Ainda, na proporção inversa, condenou as partes ao
pagamento de honorários advocatícios, fixados em 10% sobre o valor da condenação
e dos débitos considerados indevidos, observando-se que a autora é beneficiária da
assistência judiciária gratuita. Por fim, julgou improcedentes os pedidos formulados
em sede de reconvenção, condenando a parte reconvinte ao pagamento das custas
processuais e honorários advocatícios, fixados em R$800,00 (mov. 75.1 ­ f. 435/444).
7. A autora Gisele Aparecida da Silva opôs Embargos de Declaração (mov. 80.1 ­ f.
450/451), os quais foram acolhidos para modificar o dispositivo da sentença e
“condenar a ré/embargada, também a indenizar a título de danos materiais os
prejuízos suportados pela parte autora a título de pagamento de cotas condominiais”
(mov. 94.1 ­ f. 504/505).
8. Inconformada, a ré Terra Nova Rodobens Marajó Incorporadora Imobiliária
Londrina II ­ SPE Limitada interpôs recurso de apelação (mov. 85.1 ­ f. 457/484),
pugnando pela reforma da sentença. Argumentou que a entrega da posse do imóvel,
de acordo com a cláusula 7ª do contrato, estava condicionada ao pagamento integral
do preço do imóvel, o que não ocorreu, tendo em vista que a autora/reconvinda
deixou de pagar a importância de R$12.230,44, relativa ao saldo devedor corrigido
pelo INCC e aos juros de obra.
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Sustentou a legalidade da cobrança de correção monetária durante o período de


construção do imóvel (Leis nº 4.864/65 e nº 9.514/97) e dos juros estipulados em
contrato. Por fim, afirmou que a autora/reconvinda é responsável pelo pagamento da
taxa condominial e pediu a redistribuição do ônus da sucumbência.
Não foram apresentadas contrarrazões de apelação.
É o relatório.
II- VOTO
Presentes os pressupostos processuais de admissibilidade, intrínsecos e extrínsecos,
conheço do recurso.
9. No caso dos autos, em 25.06.2010, a autora celebrou com a ré, aderindo ao
programa Minha Casa Minha Vida, Instrumento Particular de Compromisso de Venda e
Compra, por meio do qual adquiriu a unidade nº 37-U, da quadra nº 110, do
Condomínio Moradas Londrina, pelo preço de R$86.813,76. Restou acordado que o
preço ajustado seria pago da seguinte forma: (1) R$4.813,76 pagos diretamente
a construtora (parte A); (2) R$12.000,00 de subsídio pelo programa “Minha Casa
Minha Vida”; e, (3) R$70.588,24 mediante financiamento obtido perante a Caixa
Econômica Federal (parte B). É preciso destacar que os apontados valores já foram
adimplidos pela promitente compradora.
Nos termos do contrato ­ cláusula 06 -, a entrega do imóvel deveria ocorrer “em, no
mínimo, 12 meses contados da data de assinatura do Contrato de Financiamento à
Produção de Imóveis ­ Pessoa Jurídica, entre a VENDEDORA e o AGENTE
FINANCEIRO (Gestor do “Programa Minha Casa Minha Vida”), cuja contratação é
destinada à execução do Empreendimento (...)”. “O comprador será comunicado por
escrito do início do prazo aqui fixado” (mov. 1.4 ­ f. 24).
A ré/reconvinte encaminhou à autora/reconvinda aviso, informando que a data
prevista para entrega do imóvel era 14.06.2012.
Entretanto, a parte autora somente foi imitida na posse do imóvel em 08.04.2015, em
razão de cumprimento de liminar de antecipação de tutela proferida nos presentes
autos (mov. 15.2 ­ f.
146). O atraso na entrega do bem decorre do fato da requerida apontar que existem
valores não pagos, decorrentes da incidência do INCC e do não pagamento da taxa
de juros da obra, devida a Caixa Econômica Federal. Salienta que, conforme se verifica
no contrato acostado aos autos, a posse do imóvel está condicionada ao pagamento
integral dos valores avençados no contrato firmado conforme se verifica na cláusula 7ª,
com o seguinte teor: “a VENDEDORA apenas transmitirá ao COMPRADOR a posse
sobre a Unidade, nos termos pactuados neste contrato, após o COMPRADOR ter
cumprido todas as suas obrigações decorrentes deste Contrato, exigíveis para a
transmissão da posse. Desta forma, o COMPRADOR se não tiver cumprido todas as
referidas obrigações não poderá exigir da VENDEDORA qualquer tipo de
contraprestação, compensação ou indenização a qualquer título, por força da não
transmissão da posse da Unidade”.
Nesses termos, mostra-se prudente analisar se efetivamente existem valores
pendentes de pagamento.

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10. No que se refere a correção monetária, é preciso esclarecer que a mesma possui a
finalidade de manutenção do poder de compra da moeda diante da inflação. Desse
modo, por força dos princípios da boa-fé e do não enriquecimento sem causa, a
correção monetária deve ser aplicada nas prestações mensais devidas pelo comprador
desde a data da celebração do contrato até a entrega das “chaves”.
A correção foi prevista pelo índice INCC (Índice Nacional de Construção Civil ­
contrato ­ cláusula 2.3.1 ­ f. 29 ­ mov.
1.4), que é uma das três variações que compõe o Índice Geral de Preços (IGP) e
reflete o aquecimento do setor de construção civil, não havendo qualquer ilegalidade
da sua cobrança até a conclusão da obra, conforme entendimento do STJ:
“CIVIL E PROCESSUAL. AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO DE INSTRUMENTO.
PROMESSA DE COMPRA E VENDA. IMÓVEL. EXEQUIBILIDADE DO TÍTULO.
QUESTÃO DEPENDENTE E REEXAME REFLEXO DE MATÉRIA CONTRATUAL E
FÁTICA (SÚMULAS 5 E 7 DO STJ). INCC. INEXISTÊNCIA DE CLÁUSULA
POTESTATIVA. PRECEDENTES.
SISTEMÁTICA DE APLICAÇÃO DOS JUROS. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO.
MULTA. REDUÇÃO DO PERCENTUAL. IMPOSSIBILIDADE. CONTRATO ANTERIOR À
LEI 9.298/96.
1. A reforma da vinculação das notas promissórias executadas ao contrato afirmado
expressamente no acórdão recorrido depende de reexame de matéria contratual e
fática da lide, o que encontra óbice nas Súmulas 5 e 7 do STJ.
2. Não é potestativa a cláusula que prevê a aplicação do INCC aos contratos de
promessa de compra e venda de imóvel em construção. Precedentes. (...). (STJ. AgRg
no REsp 591798 / DF.
Relator (a) Ministra Maria Isabel Gallotti. Órgão Julgador Quarta Turma. DJe
31/08/2011).
Destaquei.
“Embora seja válida a correção do saldo devedor durante a construção, quando
ocorrer o seu atraso por culpa da construtora-vendedora, deverá sua incidência ser
afastada, tendo em vista que a mora em entregar os imóveis não pode gerar maiores
custos e prejuízos aos compradores, o que abrange a incidência do INCC após o prazo
que deveria ter sido entregue o imóvel, ante a possibilidade de dificultar o pagamento
do bem” (TJPR - 6ª C.Cível - AC - 1363721-1 - Curitiba - Rel.: Roberto Portugal
Bacellar - Unânime - - J. 06.10.2015).
No caso, é preciso ter-se em mente que, entre a data da formalização do Contrato de
Compra e Venda (25.06.2010) e a data da assinatura do Contrato de Financiamento
com a Caixa Econômica Federal (12.07.2011), existe o lapso temporal de mais de um
ano, no qual, segundo consta expressamente do contrato, “o valor da PARTE A e da
PARTE B, será acrescido de atualização monetária mensal acumulada, calculada pelo
INCC-DI/FGV a partir da data base até a data do efetivo pagamento”.
E ainda, “caso o valor financiado pelo AGENTE FINANCEIRO não seja suficiente para
satisfazer o valor referente a PARTE B do Quadro Resumo ou o saldo devedor total
deste contrato, acrescido das atualizações monetárias contratadas e mesmo dos
encargos moratórios contratualmente estipulados, deverá o COMPRADOR efetuar o
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pagamento à vista da diferença verificada no ato da disponibilidade da unidade


autônoma, sob pena de não o fazendo receber a posse dessa unidade autônoma”
(Cláusula 2.5.5 ­ mov. 1.4 ­ f. 31).
Desse modo, a requerida estava autorizada pelo contrato a efetuar a cobrança do
INCC até a efetiva assinatura do contrato de financiamento. Contudo, o valor
financiado, serviu apenas para cobrir o pagamento do valor ajustado pelo imóvel
(R$86.813,76), sem o cômputo das devidas correções. Note-se que a própria parte
autora admitiu ser devedora da quantia referente a correção monetária pelo INCC,
tanto que celebrou com a ré Contrato de Confissão de Dívida. Além disso, a Confissão
de Dívida foi celebrada em 08.08.2012, próximo da data prevista para a entrega das
chaves (habite-se concedido no dia 06.11.2012), o que corrobora com o fato de que
só houve a incidência do INCC até a data da assinatura do contrato de financiamento,
conforme relatado pela apelante.
Ademais, a requerida, em relação ao INCC, só postula a cobrança dos valores
declaradamente confessados pela autora, conforme Confissão de Dívida (mov. 19.5 ­ f.
307/313). Após a conclusão do empreendimento, ao contrário do que entendeu o
magistrado de 1º grau, não houve a incidência do INCC.
Sendo assim, imperiosa se mostra a reforma da sentença, a fim de reconhecer que a
autora deve os valores correspondentes à correção monetária pelo INCC, no período
decorrente entre a data da assinatura do Contrato de Compra (25.06.2010) e a data da
assinatura do Contrato de financiamento com a Caixa Econômica Federal (12.07.2011).
11. Em relação à taxa de juros da obra, é preciso esclarecer que a cobrança é
perpetrada pela Caixa Econômica Federal, já que é encargo previsto no Contrato de
Financiamento celebrado com a referida instituição financeira. Vejamos:
Na fase de execução do empreendimento, até a efetiva entrega da unidade
habitacional, a construtora/requerida figurou no contrato de financiamento como
fiadora da promitente-compradora.
Observe:
Nestes termos, sobrevindo eventual inadimplemento pelo adquirente do imóvel em
relação à remuneração pactuada, admissível sua cobrança diretamente do fiador,
consoante regra determinada pelo artigo 818 do Código Civil1. E, uma vez executada
a garantia, concretizando-se o adimplemento da dívida pelo fiador, surge a este, à luz
do artigo 831 do Código Civil2, o direito de sub-rogar-se nos direitos do credor.
Daí que, tendo a construtora efetuado o pagamento de R$2.997,72 a título de “Taxa
de Evolução de Obra”, originalmente assumidas pela adquirente do imóvel, justifica-se
as cobranças extrajudiciais realizadas.
Não se alegue ausência de demonstração de aludido pagamento, pois, a própria
Caixa Econômica confirmou os pagamentos realizados pela construtora, conforme
Ofício encaminhado ao Juízo de Origem (mov. 59.1 - f. 411/412).
Aqui é preciso mencionar que, a abusividade dos valores cobrados a título de juros de
obra, deve ser suscitada em ação própria ajuizada em face da Caixa Econômica
Federal. Na presente ação, discute-se, apenas, se a requerida faz jus ao reembolso dos
valores que pagou na qualidade de fiadora da autora.

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Sendo assim, considerando que o pagamento da integralidade do preço ajustado


pelo bem era condição para a entrega do imóvel (cláusula 7ª), e considerando que a
autora não cumpriu adequadamente tal encargo, dando ensejo ao atraso na entrega
do bem, faz jus à construtora ao ressarcimento do montante que pagou a título de
juros da obra.
12. Aqui é preciso ressaltar que a ação proposta, apesar da denominação dada pela
autora, possui características de ação declaratória de adimplemento contratual com
consequente pedido de imissão na posse.
Como se viu, o inadimplemento da autora era inquestionável. No entanto, diante das
peculiaridades do caso, principalmente, pelo fato de ter havido o adimplemento
substancial do contrato e da autora se encontrar na posse do imóvel desde 09.04.2015
(mov. 15.2 ­ f. 146), não merece reforma a sentença na parte em que autorizou a
autora a imitir-se na posse do imóvel.
O novo Código Civil inovou em diversos aspectos, incorporando alguns avanços que
já estavam consagrados pela doutrina e pela jurisprudência. No tocante ao direito
contratual, a mais significativa inovação se encontra no campo da boa-fé objetiva. O
código vigente prevê cláusula geral de boa-fé objetiva, pela qual estabeleceu um
padrão objetivo de conduta a ser seguido pelos contratantes, realçando a necessidade
do comportamento probo, leal e verdadeiro, repelindo posições e estratégias que
culminam em regras desproporcionais.
Como qualquer princípio, a boa-fé objetiva encerra grande abstração, necessitando
diálogo com outras regras jurídicas e até com o sistema do ordenamento para lhe dar
concretude. A respeito do tema leciona Cristiano Chaves de Farias e Nelson Rosenvald
3 que a boa-fé é afirmativa e abusivo o exercício de um direito que excede a sua
função social e econômica. Como a ordem econômica constitucional é submetida aos
princípios da justiça e solidariedade é possível intervir na liberdade contratual se o
contratante agir de forma lesiva ao bem comum. O exercício de um direito de modo
contrário ao interesse geral é antijurídico, caracterizando o abuso do direito.
Embora os institutos ­ boa-fé e abuso de direito ­ sejam distintos e perfeitamente
individualizados, os dois se relacionam quando analisamos se a conduta dos
contratantes é jurídica ou antijurídica. Nessa linha de raciocínio é que a doutrina e a
jurisprudência têm reconhecido a possibilidade de limitar o exercício de direitos
subjetivos contratualmente ajustados para equilibrar a relação jurídica negocial.
Nesse contexto, nasceu a teoria do adimplemento substancial do contrato, que em
análise sumária se traduz em considerar antijurídica a pretensão do contratado que
postula a resolução de um contrato quando o seu inadimplemento é mínimo,
obrigando o credor a se valer de outros meios processuais para obter a tutela jurídica
almejada.
Adimplemento substancial, na visão de Clóvis do Couto e Silva é “um adimplemento
tão próximo do resultado final, que, tendo-se em vista a conduta das partes, exclui-se
o direito de resolução, permitindo tão somente o pedido de indenização” 4.
Sob este prisma o credor sofre uma limitação no seu direito subjetivo obrigando-se a
ajuizar a ação adequada para o recebimento do crédito (execução, monitória ou de
cobrança).
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A propósito da temática, os magistérios de Nelson Nery Junior e Rosa Maria Andrade


Nery ao comentarem o artigo 421 do Código Civil:
“Adimplemento substancial. Jornada IV DirCiv STJ 361: “O adimplemento substancial
decorre dos princípios gerais contratuais, de modo a fazer preponderar a função social
do contrato e o princípio da boa-fé objetiva, balizando a aplicação do CC 475”
(Código Civil Comentado, p. 797, item 21, ed. Revista dos Tribunais, 11ª edição).
No mesmo diapasão doutrinário é o ensinamento de Lucas Gaspar de Oliveira
Martins, in verbis:
“Diante do exposto, cumpre asseverar que a teoria do adimplemento substancial
opera como um limite ao direito formativo extintivo de resolver os contratos, obstando
que um irrelevante descumprimento causado por uma das partes seja considerado
causa suficiente para o desfazimento do vínculo. Por conta dessa teoria, não se
extingue o vínculo contratual, mantendo- se todos os direitos e obrigações
estabelecidas, oferecendo-se ao credor a via do ressarcimento das perdas e danos,
uma vez que o descumprimento de escassa importância autoriza tão somente a
permanência do vínculo, mas não admite o afastamento da responsabilidade da parte
inadimplente” (Martins, Lucas Gaspar de Oliveira; Mora, inadimplemento absoluto e
adimplemento substancial das obrigações, São Paulo: Saraiva 2011, Coleção
Agostinho Alvim, p.
88).
No caso, restou ajustado que a autora pagaria pelo imóvel a quantia de R$86.813,76.
É inconteste que a referida quantia já foi paga, restando em aberto somente os valores
referentes à correção monetária pelo INCC e aos juros de obra, que totalizam o
montante de R$12.230,44.
Nessa toada, considerando que o valor em aberto representa apenas 14,22% do valor
do contrato, mostra-se prudente a aplicação da teoria do adimplemento substancial,
com a consequente manutenção da autora na posse do bem.
Nesse sentido, é o posicionamento do Superior Tribunal de Justiça:
AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL - AÇÃO DE
RESCISÃO PARCIAL - CONTRATO DE COMPRA E VENDA - SALDO DEVEDOR
DIMINUTO - ENTENDIMENTO OBTIDO DA ANÁLISE DO CONJUNTO FÁTICO-
PROBATÓRIO - IMPOSSIBILIDADE DE REEXAME - INCIDÊNCIA DAS SÚMULAS 5 E 7
DESTA CORTE - TEORIA DO ADIMPLEMENTO SUBSTANCIAL - APLICAÇÃO -
POSSIBILIDADE - PRECEDENTES - AGRAVO IMPROVIDO.
(AgRg no AREsp 155.885/MS, Rel. Ministro MASSAMI UYEDA, TERCEIRA TURMA,
julgado em 16/08/2012, DJe 24/08/2012)”.
“DIREITO CIVIL. CONTRATO DE ARRENDAMENTO MERCANTIL PARA AQUISIÇÃO
DE VEÍCULO (LEASING). PAGAMENTO DE TRINTA E UMA DAS TRINTA E SEIS
PARCELAS DEVIDAS. RESOLUÇÃO DO CONTRATO. AÇÃO DE REINTEGRAÇÃO DE
POSSE. DESCABIMENTO. MEDIDAS DESPROPORCIONAIS DIANTE DO DÉBITO
REMANESCENTE. APLICAÇÃO DA TEORIA DO ADIMPLEMENTO SUBSTANCIAL.
1. É pela lente das cláusulas gerais previstas no Código Civil de 2002, sobretudo a da
boa- fé objetiva e da função social, que deve ser lido o art. 475, segundo o qual “[a]
parte lesada pelo inadimplemento pode pedir a resolução do contrato, se não preferir
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exigir-lhe o cumprimento, cabendo, em qualquer dos casos, indenização por perdas e


danos”.
2. Nessa linha de entendimento, a teoria do substancial adimplemento visa a impedir
o uso desequilibrado do direito de resolução por parte do credor, preterindo
desfazimentos desnecessários em prol da preservação da avença, com vistas à
realização dos princípios da boa-fé e da função social do contrato.
3. No caso em apreço, é de se aplicar a da teoria do adimplemento substancial dos
contratos, porquanto o réu pagou: “31 das 36 prestações contratadas, 86% da
obrigação total (contraprestação e VRG parcelado) e mais R$ 10.500,44 de valor
residual garantido”.
O mencionado descumprimento contratual é inapto a ensejar a reintegração de posse
pretendida e, consequentemente, a resolução do contrato de arrendamento mercantil,
medidas desproporcionais diante do substancial adimplemento da avença.
4. Não se está a afirmar que a dívida não paga desaparece, o que seria um convite a
toda sorte de fraudes. Apenas se afirma que o meio de realização do crédito por que
optou a instituição financeira não se mostra consentâneo com a extensão do
inadimplemento e, de resto, com os ventos do Código Civil de 2002. Pode,
certamente, o credor valer-se de meios menos gravosos e proporcionalmente mais
adequados à persecução do crédito remanescente, como, por exemplo, a execução
do título.
5. Recurso especial não conhecido.
(REsp 1051270/RS, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA, julgado
em 04/08/2011, DJe 05/09/2011)”
Ademais, vale frisar que, o reconhecimento do adimplemento substancial, não afasta
o dever da requerida de efetuar o pagamento do saldo devedor remanescente do
contrato, nos termos reconhecidos por essa decisão.
A corroborar:
AGRAVO DE INSTRUMENTO. PROMESSA DE COMPRA E VENDA. OUTORGA DE
ESCRITURA PÚBLICA. IMISSÃO DE POSSE. ADIMPLEMENTO SUBSTANCIAL DO
CONTRATO. No caso concreto, tendo o agravante cumprido praticamente a
totalidade das obrigações contratadas, impõe-se a reforma da decisão para permitir a
posse do imóvel.
Outrossim, ao que se constata dos autos, a escritura pública não foi lavrada devido a
falta de apresentação de documentos pelos vendedores, ora agravados. AGRAVO DE
INSTRUMENTO PROVIDO. (Agravo de Instrumento Nº 70055812945, Décima Sétima
Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Gelson Rolim Stocker, Julgado em
31/10/2013).
APELAÇÃO. AÇÃO INDENIZATÓRIA. CONTRATO DE PROMESSA DE COMPRA E
VENDA DE IMÓVEL. ATRASO DA AUTORA NO PAGAMENTO DE SALDO DEVEDOR.
IMISSÃO NA POSSE DA UNIDADE IMOBILIÁRIA. ADIMPLEMENTO SUBSTANCIAL.
APLICABILIDADE. FUNÇÃO SOCIAL DO CONTRATO. APELO NÃO PROVIDO.
(Classe: Apelação, Número do Processo: 0529064-92.2014.8.05.0001, Relator (a):
Emílio Salomão Pinto Resedá, Quarta Câmara Cível, Publicado em: 24/11/2016).

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AGRAVO DE INSTRUMENTO - AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER C/C


INDENIZAÇÃO - COMPROMISSO DE COMPRA E VENDA DE IMÓVEL -
ANTECIPAÇÃO DE TUTELA INDEFERIDA - ART. 273, CAPUT E INCISO I, DO CPC -
REQUISITOS PRESENTES - ENTREGA DAS CHAVES E IMISSÃO NA POSSE -
CONDIÇÃO DE PRÉVIA QUITAÇÃO DO CONTRATO - ADIMPLEMENTO
SUBSTANCIAL - DÉBITOS CONDOMINIAIS IMPUTADOS À COMPRADORA - FALTA
DE RAZOABILIDADE - RECURSO PROVIDO.
Presentes as condições necessárias para a concessão da antecipação de tutela,
mostra-se razoável a entrega das chaves e imissão na posse do imóvel, máxime se
verificado o adimplemento substancial do contrato, em quase sua totalidade, bem
como se a compradora já responde por dívidas oriundas de deveres condominiais. (AI
125029/2015, DES. GUIOMAR TEODORO BORGES, SEXTA CÂMARA CÍVEL, Julgado
em 11/11/2015, Publicado no DJE 18/11/2015).
13. A taxa condominial é obrigação de natureza propter rem, pois decorre do direito
real de propriedade, respondendo por ela o proprietário ou quem estiver na sua
posse.
Todavia, nos casos de compromisso de compra e venda de unidade imobiliária na
planta, a jurisprudência consolidada do Superior Tribunal de Justiça e dos Tribunais
Pátrios têm possibilitado a modulação dos efeitos da natureza propter rem da
obrigação condominial, no sentido de impor a responsabilidade ao adquirente pelo
pagamento dos encargos condominiais apenas a partir da efetiva posse direta do
imóvel, ou seja, da entrega das chaves.
Com efeito, as obrigações relativas aos encargos condominiais são transferidas ao
promitente comprador de unidade autônoma somente quando este passa a ter a
disponibilidade da posse, do uso e do gozo do imóvel.
Na esteira desse raciocínio, confiram-se os seguintes precedentes do Superior
Tribunal de Justiça e dos Tribunais Pátrios:
“EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA EM RECURSO ESPECIAL. LEGITIMIDADE PASSIVA.
AÇÃO DE COBRANÇA DE COTAS CONDOMINIAIS. POSSE EFETIVA. EMBARGOS
DE DIVERGÊNCIA ACOLHIDOS. 1. A efetiva posse do imóvel, com a entrega das
chaves, define o momento a partir do qual surge para o condômino a obrigação de
efetuar o pagamento das despesas condominiais. 2. No caso vertente, é incontroverso
que o embargante está sofrendo cobrança de duas cotas condominiais referentes a
período anterior à entrega das chaves. 3. Embargos de divergência providos. (EREsp
489.647/RJ, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em
25/11/2009, DJe 15/12/2009)”
PROCESSUAL CIVIL E CIVIL. APELAÇÃO. PRELIMINAR DE NULIDADE DA SENTENÇA
POR CERCEAMENTO DE DEFESA. REJEITADA. COMPRA E VENDA DE IMÓVEL.
INADIMPLEMENTO. RESCISÃO CONTRATUAL. DANO MORAL NÃO
CONFIGURADO.
RESPONSABILIDADE PELAS TAXAS CONDOMINIAIS ANTES DA ENTREGA DAS
CHAVES DE IMÓVEL EM CONSTRUÇÃO. ÔNUS SUCUMBENCIAIS. ARTIGO 21 DO
CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL. 1. É pacífico o entendimento jurisprudencial de que o
julgamento antecipado da lide não implica cerceamento de defesa no caso em que as
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provas requeridas são prescindíveis para o julgamento da lide, estando os autos


devidamente aparelhados com todos os elementos de convicção necessários para o
julgamento do feito. 2. A consequência natural do inadimplemento contratual e a
rescisão do contrato. Como os contratantes não realizaram os pagamentos previstos
nos contratos por aproximadamente dois anos antes da rescisão do contrato levada a
efeito pela construtora, não podem agora pleitear indenização por perdas e danos ou
multas contratuais. 3. Eventuais inconvenientes oriundos do contrato firmado entre as
partes não
ensejam danos aos direitos da personalidade, tais como violação à honra, à imagem,
à intimidade dos Requerentes, como esses querem fazer crer. Conquanto gerem
aborrecimentos, dissabores, contratempos, inerentes à vida em sociedade, não
consubstanciam danos morais. 4. Nos casos em que há promessa de compra e venda
de unidade imobiliária nova, a jurisprudência consolidada do c. Superior Tribunal de
Justiça e deste Egrégio admitem a possibilidade de modulação dos efeitos da
natureza propter rem da obrigação condominial, devendo o adquirente ser
responsabilizado pelo pagamento dos encargos condominiais apenas a partir da
efetiva posse direta do imóvel, com a entrega das chaves. 5. Não havendo prova nos
autos da entrega das chaves ao promitente comprador, deve a empresa responsável
pela execução, gestão, e exploração do empreendimento arcar com a obrigação de
pagar as cotas condominiais. 6. Segundo o Código de Processo Civil, mediante as
disposições insertas em seu artigo 20, ao vencido caberá o ônus do pagamento das
verbas de sucumbência. 7. Nos termos do artigo 21 do Código de Processo Civil, se
cada litigante for em parte vencedor e vencido, serão recíproca e proporcionalmente
distribuídos e compensados entre eles os honorários e as despesas 8. Preliminar
rejeitada. Negou-se provimento aos recursos.
(TJ-DF - APC: 20140110989639, Relator: FLAVIO ROSTIROLA, Data de Julgamento:
16/12/2015, 3ª Turma Cível, Data de Publicação: Publicado no DJE : 29/01/2016 .
Pág.: 184)
CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO DE COBRANÇA. CONDOMÍNIO. DESPESAS
CONDOMINIAIS. OBRIGAÇÃO PROPTER REM. PROMESSA DE COMPRA E VENDA
DO IMÓVEL A TERCEIRO. RESPONSABILIZAÇÃO ADQUIRENTE ANTES DA EFETIVA
ENTREGA DAS CHAVES. IMPOSSIBILIDADE. RESPONSABILIDADE DA
CONSTRUTORA/INCORPORADORA. HNORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. SENTENÇA
MANTIDA.
1. As taxas e despesas condominiais possuem natureza de obrigações propter rem,
podendo ser exigidas do proprietário, do promissário comprador ou do cessionário.
2. Embora reconhecida a natureza propter rem da obrigação condominial, tratando-se
de imóvel adquirido na planta, o Superior Tribunal de Justiça, por ocasião do
julgamento do EREsp 489.647, já consolidou o entendimento segundo o qual a efetiva
posse do imóvel, com a entrega das chaves, define o momento a partir do qual surge
para o condômino a obrigação de efetuar o pagamento das despesas condominiais.
3. É de responsabilidade da construtora/incorporadora suportar as taxas condominiais
geradas pelo imóvel, mormente porque o promitente comprador sequer entrou na

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posse do imóvel, haja vista a rescisão do contrato de promessa de compra e venda de


imóvel.
4. Nas causas em que não houver condenação, a verba honorária deve guardar justa
proporção com os parâmetros previstos nas alíneas a, b e c, do § 3º, art. 20, Código
de Processo Civil. Nestes termos, em caso de improcedência do pedido, aplica-se,
quanto aos honorários, o critério estabelecido no art. 20, § 4º, do Código de Processo
Civil, razão pela qual o seu valor é fixado consoante apreciação equitativa do juiz, que
levará em conta o grau de zelo profissional, o lugar da prestação do serviço, a natureza
da causa, o trabalho realizado pelo advogado e o tempo exigido para o seu serviço.
Apelação cível desprovida.
(TJ/DF, Acórdão n.938096, 20150111033822APC, Relator: HECTOR VALVERDE
SANTANNA, 6ª TURMA CÍVEL, Data de Julgamento: 27/04/2016, Publicado no DJE:
10/05/2016. Pág.: 350/399)
AGRAVO DE INSTRUMENTO ­ COMPRA E VENDA ­ RESCISÃO CONTRATUAL -
RETARDAMENTO DA ENTREGA DO IMÓVEL - TAXAS CONDOMINIAIS DEVIDAS
APENASMENTE EMPÓS ENTREGA DAS CHAVES ­ CLÁUSULA EM CONTRÁRIO
HAVIDA POR ABUSIVA ­ DECISÃO MANTIDA ­ RECURSO NÃO PROVIDO.
(TJ-SP - AI: 21983533020158260000 SP 2198353-30.2015.8.26.0000, Relator: Giffoni
Ferreira, Data de Julgamento: 06/10/2015, 2ª Câmara de Direito Privado, Data de
Publicação: 08/10/2015)
Desse modo, correta a sentença na parte em que declarou a inexigibilidade das taxas
condominiais.
14. A sucumbência deve ser distribuída na medida da vitória e da derrota dos
litigantes no processo. Analisando os termos da pretensão e o resultado final
proporcionado pelo presente acórdão, verifico a necessidade de redistribuir os ônus
da sucumbência. Assim, condeno as partes, na proporção de 40% para a ré e 60%
para a autora, ao pagamento das custas processuais e dos honorários advocatícios.
Diante da redistribuição da sucumbência, fixo os honorários advocatícios em 15%
sobre o valor da condenação, nos termos do artigo 85, §2º do Código de Processo
Civil.
15. Diante do exposto, voto no sentido de dar parcial provimento ao recurso de
apelação, para (i) julgar procedente os pedidos reconvencionais, a fim de condenar a
autora a pagar à os valores em aberto, referente a correção do saldo devedor pelo
INCC - R$9.232,72 -, e aos juros de obra - R$ 2.997,72 -, acrescidos de correção
monetária pelo INPC desde o momento em que os valores tornaram-se exigíveis e
acrescidos de juros de mora de 1% ao mês desde a citação; (ii) redistribuir o ônus da
sucumbência.
III- DECISÃO
ACORDAM os Desembargadores integrantes da 17ª Câmara Cível do Tribunal de
Justiça do Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao
recurso.
O julgamento foi presidido pelo Desembargador LAURI CAETANO DA SILVA, relator,
e dele participaram os Desembargadores TITO CAMPOS DE PAULA e RUI BACELLAR
FILHO.
92

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

Curitiba, 14 de junho de 2017.


DES. LAURI CAETANO DA SILVA Relator
--
1 Art. 818. Pelo contrato de fiança, uma pessoa garante satisfazer ao credor uma
obrigação assumida pelo devedor, caso este não a cumpra.
2 Art. 831. O fiador que pagar integralmente a dívida fica sub-rogado nos direitos do
credor; mas só poderá demandar a cada um dos outros fiadores pela respectiva quota.
--
3 Direito Civil, Teoria Geral. Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 8º Ed. 2º Tiragem. p. 599.
4 SILVA, C. V. do C. e. Apud: BECKER, A. A doutrina do adimplemento substancial no
direito brasileiro e em perspectiva comparativista. Revista da Faculdade de Direito da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Livraria dos Advogados, n.
1, v. 9, nov. 1993, p.60.

2.1.9. REVISIONAL DE CÉDULA DE CRÉDITO BANCÁRIO – JUROS COMPOSTOS

AÇÃO REVISIONAL. CÉDULA DE CRÉDITO BANCÁRIO COM GARANTIA

FIDUCIÁRIA. PEDIDOS JULGADOS PARCIALMENTE PROCEDENTES. RECURSO DO

AUTOR: 1. COMPENSAÇÃO DOS HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. AUSÊNCIA DE

INTERESSE RECURSAL. 2. CAPITALIZAÇÃO DE JUROS. SÚMULAS 539 E 541 DO STJ.

CONTRATO DE FINANCIAMENTO COM PRESTAÇÕES PREFIXADAS. VALOR

APURADO NO MOMENTO DA CONTRATAÇÃO. MÉTODO DE CÁLCULO VÁLIDO.

VALORES DAS PRESTAÇÕES QUE NÃO ADICIONAM JUROS SOBRE JUROS

VENCIDOS. 3. TAXA DE JUROS REMUNERATÓRIOS. AUSÊNCIA DE ABUSIVIDADE.

4. REPETIÇÃO DO INDÉBITO SEM A DOBRA DO ART. 42 DO CDC. 5. ÔNUS DA

SUCUMBÊNCIA MANTIDO. RECURSO PARCIALMENTE CONHECIDO E

DESPROVIDO. 1. É permitida a capitalização de juros com periodicidade inferior a um

ano em contratos celebrados após 31/3/2000, data da publicação da Medida

Provisória nº 1.96317/2000, em vigor como MP nº 2.170-01, desde que expressamente

pactuada; 2. A capitalização dos juros em periodicidade inferior à anual deve vir

pactuada de forma expressa e clara. A previsão no contrato bancário de taxa de juros

anual superior ao duodécuplo da mensal é suficiente para permitir a cobrança da taxa

efetiva anual contratada. 3. Quando o contrato de financiamento estabelece o

93

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

pagamento de parcelas prefixadas não há juro vencido a ser pago, de modo que a

taxa efetiva anual divergente da taxa mensal, na verdade, evidencia que, no processo

de formação da taxa efetiva de juros do contrato, o banco utilizou-se de método

matemático que não é vedado pela legislação. O método de cálculo da prestação

pelo sistema de juros compostos não pode ser confundido com anatocismo. O valor

de cada prestação a ser paga é composto pela fração do capital mais o juro

remuneratório. 4. A taxa de juros pode ser livremente pactuada, admitindo- se sua

revisão somente em situações excepcionais quando ficar demonstrado que são

evidentemente abusivas.

(TJPR - 17ª C.Cível - AC - 1656602-6 - Curitiba - Rel.: Lauri Caetano da Silva - Unânime

- J. 24.05.2017)

Inteiro Teor

I- RELATÓRIO
1. Cuida-se de recurso de apelação interposto em virtude da sentença1 proferida pelo
MM. Dr. Juiz da 15ª Vara Cível do Foro Central da Comarca da Região Metropolitana
de Curitiba, às f. 231/238 (mov. 20.1) dos autos nº 9167-76.2007.8.16.0001 de ação
com pedido de revisão das cláusulas financeiras de cédula de crédito bancário com
garantia fiduciária (f. 123/124 ­ mov. 1.22), proposta por Alex Krik Silvestre em face de
Omni S/A Crédito, Financiamento e Investimento, pela qual julgou parcialmente
procedentes os pedidos formulados na inicial para determinar a incidência exclusiva da
comissão de permanência para o período de inadimplemento. Por fim, condenou as
partes, na proporção de 70% para o autor e 30% para o réu, ao pagamento das custas
processuais e dos honorários advocatícios, fixados em R$1.000,00.
2. O autor interpôs recurso de apelação (f. 245/264 ­ mov. 25.1), pleiteando a reforma
da sentença para (i) expurgar a capitalização de juros do cálculo das prestações; (ii)
limitar a taxa de juros remuneratórios; e, (iii) determinar a repetição em dobro dos
valores cobrados indevidamente. Ao final, pediu a redistribuição do ônus da
sucumbência e o afastamento da compensação dos honorários advocatícios.
Contrarrazões às f. 271/280 (mov. 30.1).
É o relatório.
II- VOTO
Não conheço do recurso na parte que trata da compensação dos honorários
advocatícios, pois a sentença não a determinou. Portanto, o apelante carece de
interesse recursal.
Com a ressalva supra, presentes os pressupostos processuais de admissibilidade,
intrínsecos e extrínsecos, conheço em parte do recurso.

94

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

3. A respeito da capitalização de juros e da respectiva taxa, o Superior Tribunal de


Justiça autorizou a incidência de juros compostos em todos os contratos firmados após
a edição da Medida Provisória nº 1.963-17/2000 (em vigor como MP nº
2.170/36/2001), quando expressamente pactuada, bem como admitiu como válida a
taxa de juros anual contratada, fixando as seguintes súmulas:
“Súmula 539: É permitida a capitalização de juros com periodicidade inferior à anual
em contratos celebrados com instituições integrantes do Sistema Financeira Nacional a
partir de 31/3/200 (MP n. 1.963-17/2000, reeditada como MP n. 2.170- 36/2001),
desde que expressamente pactuada”.
“Súmula 541: A previsão no contrato bancário de taxa de juros anual superior ao
duodécuplo da mensal é suficiente para permitir a cobrança da taxa efetiva anual
contratada”.
No contrato de financiamento com prestações prefixadas é possível calcular o seu
valor pelo método matemático empregado pelo contratado. O direito brasileiro,
desde a edição do Decreto 22.626, de 1933, proíbe a incidência de juros
remuneratórios sobre juros vencidos. Tal prática passou a ser conhecida como
“capitalização”, “juros compostos” ou “anatocismo”. A orientação é no sentido de
impedir que o credor, após o vencimento do crédito, possa adicionar novos juros
sobre os juros já vencidos em decorrência do inadimplemento da obrigação. Esse é o
fenômeno do anatocismo proibido pela legislação brasileira. Por outro lado, a
legislação nunca proibiu a utilização de método de cálculo composto para determinar,
no momento da contratação, o valor prefixado da prestação. Quando a taxa de juros é
integrada no valor prefixado da prestação antes de iniciar o cumprimento da
obrigação, não é possível falar em incidência de juros sobre juros vencidos. A
utilização do método de juros compostos não se confunde com anatocismo, pois o
valor de cada prestação é composto pela fração do capital (divisão do valor inicial da
operação de crédito pelo número de meses) mais o juro remuneratório e eventual
outro encargo contratado (imposto). O valor agregado ao capital integra a composição
do débito assumido, ou seja, o valor da operação de crédito contratada. Assim, o
devedor assume a obrigação de pagar, na data do vencimento, o valor prefixado de
uma prestação. Segundo o entendimento esposado, não encontra lógica reconhecer
que, quando da prefixação do valor das prestações foram incluídos juros sobre juros
vencidos ou juros computados de forma exponencial.
A Medida provisória nº 2.170-36/2001 já foi declarada constitucional, conforme o
julgamento proferido no Recurso Extraordinário nº 5923772.
Também não é razoável questionar a capitalização com base na súmula nº 121 do
Supremo Tribunal Federal. A orientação ditada pelo Superior Tribunal de Justiça no
julgamento do REsp nº 973.827-RS, sob o regime do artigo 543-C do Código de
Processo Civil, para os contratos bancários, suplantou a mencionada súmula.
No caso em concreto, ao contrário do que afirma o apelante, não houve ofensa ao
dever de informação ou ainda a nenhum outro preceito do Código de Defesa do
Consumidor. O contrato foi redigido em termos claros e com caracteres legíveis,
consoante estabelece o artigo 54, parágrafo terceiro do Código de Defesa do
Consumidor.
95

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4. Sobre os juros remuneratórios, o Superior Tribunal de Justiça firmou a seguinte


orientação (REsp 1.061.530-RS):
ORIENTAÇÃO 1 - JUROS REMUNERATÓRIOS a) As instituições financeiras não se
sujeitam à limitação dos juros remuneratórios estipulada na Lei de Usura (Decreto
22.626/33), Súmula 596/STF; b) A estipulação de juros remuneratórios superiores a
12% ao ano, por si só, não indica abusividade; c) São inaplicáveis aos juros
remuneratórios dos contratos de mútuo bancário as disposições do art. 591 c/c o art.
406 do CC/02; d) É admitida a revisão das taxas de juros remuneratórios em situações
excepcionais, desde que caracterizada a relação de consumo e que a abusividade
(capaz de colocar o consumidor em desvantagem exagerada ­ art. 51, §1º, do CDC)
fique cabalmente demonstrada, ante às peculiaridades do julgamento em concreto.
Como parâmetro para aferir a existência de abusividade foi estabelecido no voto
condutor o seguinte: “Todavia, esta perquirição acerca da abusividade não é
estanque, o que impossibilita a adoção de critérios genéricos e universais. A taxa
média de mercado, divulgada pelo Banco Central, constitui um valioso referencial, mas
cabe somente ao juiz, no exame das peculiaridades do caso concreto, avaliar se os
juros contratados foram ou não abusivos.”
Dessa forma, infere-se que a taxa de juros pode ser livremente pactuada (inclusive em
patamar superior a 12% ao ano), admitindo-se sua revisão somente em situações
excepcionais quando ficar demonstrado que são evidentemente abusivas.
No presente caso, observa-se que a taxa de juros remuneratórios foi fixada em 3,68%
ao mês (f. 123 ­ mov. 1.22), portanto, dentro dos limites da taxa média de mercado
(2,54% a.m.)3.
Assim, não há razão para sua modificação, mantendo-se o percentual fixado no
contrato.
Além do mais, conforme dicção da Súmula 382 do STJ 4, não se pode considerar
presumidamente abusiva taxa acima de 12% ano, sem que tal fato esteja cabalmente
comprovado nos autos. O entendimento jurisprudencial é de que para ser considerada
abusiva a taxa de juros remuneratórios contratada deve representar uma vez e meia,
ao dobro ou ao triplo da taxa média de mercado.
APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DE REVISÃO DE CONTRATO - CONTRATO DE
FINANCIAMENTO CELEBRADO EM 16.09.2011 - CARÊNCIA DE AÇÃO - AUSÊNCIA
DE INTERESSE DE AGIR - COMISSÃO DE PERMANÊNCIA NÃO CONTRATADA -
MATÉRIA DE ORDEM PÚBLICA - CONHECIMENTO DE OFÍCIO - ARTIGO 267,
INCISO VI E § 3º, DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL - INVERSÃO DO ÔNUS DA
PROVA - DESNECESSIDADE, IN CASU - PROVAS DOCUMENTAIS CONSTANTES
NOS AUTOS - JUROS CAPITALIZADOS - EXPRESSA PREVISÃO NO CONTRATO -
POSSIBILIDADE - PARCELAS PREFIXADAS - AUSÊNCIA DE ANATOCISMO -
MÉTODO COMPOSTO DE JUROS PARA A FORMAÇÃO DO CÁLCULO - TAXA DE
JUROS REMUNERATÓRIOS - ABUSIVIDADE NÃO CONFIGURADA - AVALIAÇÃO
CONFORME A TAXA MÉDIA DE JUROS DIVULGADA PELO BACEN - LIMITAÇÃO À
TAXA SELIC - INADMISSIBILIDADE - PRECEDENTES STJ - TARIFA DE CADASTRO -
RECURSOS ESPECIAIS REPRESENTATIVOS DA CONTROVÉRSIA Nº 1.251.331/RS E
1.255.573/RS - MANUTENÇÃO DOS HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS.1. As matérias
96

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

de ordem pública referidas no art. 267, §3º, do Código de Processo Civil, podem ser
reconhecidas de ofício pelo Juiz em qualquer grau de Jurisdição.2. Considerando que
as questões debatidas estão devidamente provadas pelos documentos constantes dos
autos, especificamente o contrato celebrado, bem como, há decisões acerca do mérito
da discussão, é desnecessária a inversão do ônus da prova.3. Sob a égide dos
Recursos Repetitivos, o Superior Tribunal de Justiça firmou entendimento segundo o
qual “A capitalização dos juros em periodicidade inferior à anual deve vir
pactuada de forma expressa e clara. A previsão no contrato bancário de taxa de juros
anual superior ao duodécuplo da mensal é suficiente para permitir a cobrança da taxa
efetiva anual contratada” (REsp 973827/RS, Rel. Ministra Maria Isabel Gallotti, 2ª
Seção, DJe 24/09/2012).4. A previsão contratual de parcelas prefixadas demonstra a
utilização de método composto de formação dos juros, situação admitida em nosso
ordenamento jurídico, que difere do anatocismo.5. No tocante à taxa de juros, é
preciso ter em vista, em primeiro lugar, a orientação da Súmula nº 382, do Superior
Tribunal de Justiça, segundo a qual “a estipulação de juros remuneratórios superiores
a 12% ao ano, por si só, não indica abusividade”.6. Somente se configuram abusivos
os juros remuneratórios quando fixados em dissonância com a média praticada pelo
mercado em cada período e que exceda a uma vez e meia, ao dobro ou ao triplo da
taxa referencial estimada pelo Banco Central do Brasil. Precedentes do STJ.
7. É inviável a adoção da Taxa Selic como parâmetro de limitação dos juros
remuneratórios, pois não representa a taxa média praticada pelo mercado.
Precedentes STJ.8. A cobrança de tarifa de cadastro já teve sua legalidade declarada
pelo Superior Tribunal de Justiça em Recursos Especiais Representativos da
Controvérsia (REsp nº 1.251.331/RS e 1.255.573/RS) e por esta Corte no Enunciado nº
02, das 17ª e 18ª Câmaras Cíveis.9. Os honorários sucumbenciais fixados devem ser
mantidos por atenderem os parâmetros dispostos no art. 20 do Código de Processo
Civil. EXTINÇÃO PARCIAL DO FEITO, EX OFFICIO, POR AUSÊNCIA DE INTERESSE
DE AGIR.RECURSO CONHECIDO E NÃO PROVIDO. (TJPR - 17ª C. Cível - AC -
1226143-5 - Curitiba - Rel.: Rosana Amara Girardi Fachin - Unânime - - J. 08.07.2015)
5. A repetição de eventuais valores pagos e reconhecidos como abusivos é
consequência lógica da sentença.
Todavia, a repetição não deve comportar a dobra prevista no artigo 42 do CDC, na
medida em que decorre de cláusula de contrato livremente pactuada. Se a cobrança
está amparada em cláusula contratual não podemos reconhecer empiricamente que
houve má-fé.
Este é o posicionamento majoritário no Superior Tribunal de Justiça:
PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO REGIMENTAL. AGRAVO DE INSTRUMENTO.
CONTRATO BANCÁRIO. REPETIÇÃO DO INDÉBITO EM DOBRO. MESMAS TAXAS.
INADMISSIBILIDADE.
CORREÇÃO MONETÁRIA. JUROS DE MORA. ARTIGOS 1.062 DO CC/16 E 406 DO
CC/02.
PROVIMENTO. I. A repetição do indébito de valores cobrados por instituição
financeira, quando concernente a taxas e índices objeto de controvérsia mesmo no
âmbito do Poder Judiciário, há ser feita na forma simples, salvo inequívoca prova da
97

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

má-fé, aqui inocorrente. (...) Precedentes do STJ. III. Agravo regimental provido. (AgRg
no Ag 390688/MG, Min. ALDIR PASSARINHO JUNIOR, Quarta Turma, DJ 2011)
AGRAVO REGIMENTAL. AGRAVO DE INSTRUMENTO. CIVIL E PROCESSUAL CIVIL.
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. NEGATIVA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL.
INOCORRÊNCIA. CONTRATO BANCÁRIO. AÇÃO REVISIONAL. COBRANÇA DE
ENCARGOS ABUSIVOS. REPETIÇÃO DE INDÉBITO NA FORMA SIMPLES. (...) 3. “O
pagamento
resultante de cláusula contratual mais tarde declarada nula em sede judicial deve ser
devolvido de modo simples, e não em dobro; age no exercício regular de direito
quem recebe a prestação prevista em contrato” (EREsp 328.338/MG, Rel. Min. ARI
PARGENDLER, DJ, 01.02.2006). 4. Agravo regimental a que se nega provimento.
(AgRg no Ag 1136936/PR, Min.
VASCO DELLA GIUSTINA, Terceira Turma, DJ 14.09.2010)
PROCESSUAL CIVIL E DIREITO BANCÁRIO. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO
RECEBIDOS COMO AGRAVO REGIMENTAL. POSSIBILIDADE. SUCUMBÊNCIA
RECÍPROCA. REPETIÇÃO DE INDÉBITO EM DOBRO. MÁ-FÉ. CIRCUNSTÂNCIA NÃO
RECONHECIDA NAS INSTÂNCIAS ORDINÁRIAS. DESCABIMENTO. COMISSÃO DE
PERMANÊNCIA. CÉDULA DE CRÉDITO INDUSTRIAL. IMPOSSIBILIDADE.
SUBSTITUIÇÃO. MULTA CONTRATUAL. REDUÇÃO ADMITIDA SOMENTE PARA
CONTRATOS CELEBRADOS ANTES DA VIGÊNCIA DA LEI 9.286/96. (...) 3. A
repetição em dobro do indébito pressupõe o pagamento indevido e a má- fé do
credor. Não comprovada essa conduta nas instâncias ordinárias, a repetição deve ser
simples. (...) Agravo regimental desprovido. (EDcl no REsp 1093802/SP, Min. JOÃO
OTÁVIO DE NORONHA, Quarta Turma, DJ 05.05.2011)
CIVIL E PROCESSUAL. AGRAVO REGIMENTAL. CONTRATOS DE FINANCIAMENTO.
COMPENSAÇÃO/RESTITUIÇÃO SIMPLES DO INDÉBITO. IMPROVIMENTO. I. A
repetição do indébito de valores cobrados por instituição financeira, quando
concernente a taxas e índices objeto de controvérsia mesmo no âmbito do Poder
Judiciário, há ser feita na forma simples, salvo inequívoca prova da má-fé, aqui
inocorrente. II. Agravo regimental improvido.
(AgRg no RECURSO ESPECIAL Nº 1.226.286/MS, Min. ALDIR PASSARINHO JUNIOR,
2010)
No particular, a sentença determinou a incidência exclusiva da comissão de
permanência para o período de anormalidade contratual. Assim, se comprovada a
cobrança da comissão de permanência cumulada com outros encargos de mora, o
excedente deve ser devolvido na forma simples, com o acréscimo de juros de mora de
1% ao mês desde a citação e correção monetária pela média dos índices INPC/IGP-DI
a partir do desembolso. Fica permitida a compensação com eventual débito nos
termos do artigo 368 do Código Civil. O quantum deve ser apurado em sede de
liquidação de sentença.
No cálculo deve ser expurgado para fins de repetição somente o valor que exceder
ao índice da comissão de permanência cobrado sobre o valor das prestações pagas
após a data do respectivo vencimento. Observo que a comissão de permanência é
encargo moratório e como tal não foi computado no valor prefixado da prestação.
98

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

Assim, na hipótese de o devedor ter efetuado o pagamento de prestação após a data


do vencimento e ter sido cobrado como
acréscimo moratório índice que supere os juros moratórios de 1% + multa de 2% +
juros remuneratórios no limite da taxa contratada, o excedente deve ser repetido. O
acréscimo acima referido deve ser discriminado na fase de liquidação pelo autor.
6. O ônus da sucumbência deve ser mantido conforme disciplinado na sentença.
7. Diante do exposto, voto no sentido de conhecer em parte do recurso e, na parte
conhecida, negar provimento.
III- DECISÃO
ACORDAM os Desembargadores integrantes da 17ª Câmara Cível do Tribunal de
Justiça do Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em conhecer em parte do
recurso e, na parte conhecida, negar provimento.
O julgamento foi presidido pelo Desembargador RUI BACELLAR FILHO, com voto, e
dele participaram os Desembargadores LAURI CAETANO DA SILVA e TITO CAMPOS
DE PAULA.
Curitiba, 24 de maio de 2017.
DES. LAURI CAETANO DA SILVA Relator
--
1 Sentença proferida no dia 10.08.2016 e publicada no dia 06.09.2016.
2 Julgamento em 04.02.2015.
3 Referência obtida no site do Banco Central:
www.bcb.gov.br/ftp/depec/NITJ200812.xls --
4 “A estipulação de juros remuneratórios superiores a 12% ao ano, por si só, não
indica abusividade”.

2.1.10. LEASING – AUSÊNCIA DO CONTRATO REVISANDO

AÇÃO REVISIONAL. CONTRATO DE ARRENDAMENTO MERCANTIL. PEDIDOS

JULGADOS PARCIALMENTE PROCEDENTES. RECURSO DO RÉU: 1. TAXA DE JUROS

REMUNERATÓRIOS. AUSÊNCIA DE INTERESSE RECURSAL. 2. FALTA DO

CONTRATO REVISANDO. IMPOSSIBILIDADE DA APRESENTAÇÃO DO CONTRATO

RECONHECIDO PELAS PARTES. DOCUMENTO QUE FOI EXTRAVIADO.

JULGAMENTO COM OS ELEMENTOS DE PROVA ENCONTRADOS NOS AUTOS. 3.

CAPITALIZAÇÃO DE JUROS. SÚMULAS 539 E 541 DO SUPERIOR TRIBUNAL DE

JUSTIÇA. CONTRATO DE LEASING COM CONTRAPRESTAÇÕES PREFIXADAS.

VALOR APURADO NO MOMENTO DA CONTRATAÇÃO. MÉTODO DE CÁLCULO

VÁLIDO. VALORES DAS CONTRAPRESTAÇÕES QUE NÃO ADICIONAM JUROS

SOBRE JUROS VENCIDOS. 4. REPETIÇÃO DO INDÉBITO PREJUDICADA.


99

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

INEXISTÊNCIA DE CLÁUSULAS CONTRATUAIS ILEGAIS OU ABUSIVAS. 5. MORA

DEBENDI CONFIGURADA. INEXISTÊNCIA DE COBRANÇA DE ENCARGOS

ABUSIVOS NO PERÍODO DA NORMALIDADE CONTRATUAL. RECURSO

CONHECIDO EM PARTE E, NA PARTE CONHECIDA, PROVIDO. 1. É permitida a

capitalização de juros com periodicidade inferior a um ano em contratos celebrados

após 31/3/2000, data da publicação da Medida Provisória nº 1.96317/2000, em vigor

como MP nº 2.170-01, desde que expressamente pactuada. 2. A capitalização dos

juros em periodicidade inferior à anual deve vir pactuada de forma expressa e clara. A

previsão no contrato bancário de taxa de juros anual superior ao duodécuplo da

mensal é suficiente para permitir a cobrança da taxa efetiva anual contratada. 3.

Quando o contrato de arrendamento mercantil estabelece o pagamento de parcelas

prefixadas não há juro vencido a ser pago ou capitalizado, de modo que a taxa efetiva

anual divergente da taxa mensal, na verdade, evidencia que, no processo de formação

da taxa efetiva de juros do contrato, o banco utilizou-se de método matemático que

não é vedado pela legislação. O método de cálculo da prestação pelo sistema de juros

compostos não pode ser confundido com anatocismo. O valor de cada

contraprestação a ser paga é composto pela fração do capital mais o juro

remuneratório.

(TJPR - 17ª C.Cível - AC - 1644751-3 - Curitiba - Rel.: Lauri Caetano da Silva - Unânime

- J. 24.05.2017)

Inteiro Teor

I- RELATÓRIO
1. Cuida-se de recurso de apelação interposto em virtude da sentença1 proferida pelo
MM. Dr. Juiz de Direito da 17ª Vara Cível do Foro Central da Comarca da Região
Metropolitana de Curitiba, às f. 205/213 dos autos nº 29420-17.2009.8.16.0001 de
ação com pedido de revisão das cláusulas financeira de contrato de arrendamento
mercantil, proposta por Cesar Soares Alves em face de Santander Leasing S/A
Arrendamento Mercantil, que julgou parcialmente procedente os pedidos formulados
na inicial para afastar a capitalização de juros do cálculo das contraprestações e
condenar o réu a repetir os valores cobrados a maior na forma simples,
consequentemente, descaracterizou os efeitos da mora, impedindo a incidência de

100

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

encargos moratórios em caso de inadimplemento. O pedido referente à taxa de juros


remuneratórios foi julgado improcedente. Por fim, condenou cada uma das partes ao
pagamento de 50% das custas processuais e dos honorários advocatícios, fixados em
R$500,00.
2. O réu interpôs recurso de apelação (f. 217/224-v), pleiteando a reforma da
sentença na parte que expurgou a capitalização de juros, limitou a taxa de juros
remuneratórios e afastou a incidência dos encargos moratórios, em razão da
descaracterização da mora. Alegou a licitude do contrato e ausência de cláusulas
contratuais abusivas.
Nas contrarrazões de f. 230/235, o autor apenas refuta os argumentos do recurso.
É o relatório.
II- VOTO
Não conheço do recurso na parte que trata da taxa de juros remuneratórios, pois tal
questão foi julgada improcedente.
Portanto, o apelante carece de interesse recursal.
Com a ressalva supra, presentes os pressupostos processuais de admissibilidade,
intrínsecos e extrínsecos, conheço em parte do recurso.
3. É perfeitamente possível promover a revisão dos contratos, através da intervenção
do Estado, sem ofensa dos princípios que orientam a liberdade de contratar. Diz a
doutrina que “(...) A vontade das partes não é mais a única fonte de interpretação que
possuem os juízes para interpretar um instrumento contratual. A evolução doutrinária
do direito dos contratos já pleiteava uma interpretação teleológica do contrato, um
respeito maior pelos interesses sociais envolvidos, pelas expectativas legítimas das
partes, especialmente das partes que só tiveram a liberdade de aderir ou não aos
termos pré-elaborados”. (Cláudia Lima Marques em “Contratos no Código de Defesa
do Consumidor”, 4ª ed., Ed. RT, p. 227).
No caso, a relação jurídica é regulada pela legislação consumerista2. Assim,
comprovada a onerosidade excessiva e a hipossuficiência do consumidor, fica
autorizada a revisão das cláusulas contratuais, independentemente do contrato ser
“pré” ou “pós” fixado. A vulnerabilidade fática ou socioeconômica do contratante
diante da instituição financeira se presume, uma vez que essa por sua posição impõe
sua superioridade a todos que com ela contratam.
Com efeito, o princípio da força obrigatória dos contratos - pacta sunt servanda - foi
mitigado para se coadunar com a sistemática do Código de Defesa do Consumidor, e
também para atender a função social dos contratos, agora expressamente prevista no
artigo 421 do Código Civil, “a liberdade de contratar será exercida em razão e nos
limites da função social do contrato”.
4. Inicialmente, é importante esclarecer que o entendimento deste Órgão Julgador é
no sentido de que a apresentação de cópia integral do contrato é indispensável para
definir a pretensão de direito material (STJ, 4ª Turma, AgRg no Ag 979.541/DF, Rel.
Min. Adir Passarinho Junior, DJe 25.08.2008), sem a qual a inicial não pode ser
recebida.

101

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

Isso porque, sem ele, não é possível definir a natureza da relação jurídica firmada, o
valor do negócio e a ilegalidade ou abusividade dos encargos financeiros
computados.
Portanto, a apresentação do contrato revisando é imprescindível para o
processamento do pedido. A sua falta conduz para a inépcia da inicial, por ausência de
causa de pedir3.
Todavia, no presente caso estamos diante de situação que reclama solução diversa.
Anoto que o instrumento contratual alvo da revisão se perdeu, conforme afirmado pela
parte ré (f. 196), o que inviabiliza qualquer tentativa prévia da parte autora em obter a
respectiva cópia para fins de ajuizamento da ação revisional.
Considerando que não é possível exigir do autor a apresentação de cópia do contrato
que se perdeu, não é razoável impor à instituição financeira multa pelo
descumprimento da mesma ordem. Em verdade, na impossibilidade da apresentação
do documento, o pedido formulado pelo autor deve ser processado e julgado com os
elementos disponíveis, em especial a planilha de f. 197, cópia do Certificado de
Registro e Licenciamento de Veículo (f. 35) e cópia dos boletos de pagamento
juntados aos autos (f. 38/50).
5. A respeito da capitalização de juros e da respectiva taxa, o Superior Tribunal de
Justiça autorizou a incidência de juros compostos em todos os contratos firmados após
a edição da Medida Provisória nº 1.963-17/2000 (em vigor como MP nº
2.170/36/2001), quando expressamente pactuada, bem como admitiu como válida a
taxa de juros anual contratada, fixando as seguintes súmulas:
“Súmula 539: É permitida a capitalização de juros com periodicidade inferior à anual
em contratos celebrados com instituições integrantes do Sistema Financeira Nacional a
partir de 31/3/200 (MP n. 1.963-17/2000, reeditada como MP n. 2.170- 36/2001),
desde que expressamente pactuada”.
“Súmula 541: A previsão no contrato bancário de taxa de juros anual superior ao
duodécuplo da mensal é suficiente para permitir a cobrança da taxa efetiva anual
contratada”.
No contrato de leasing com contraprestações prefixadas é possível calcular o seu
valor pelo método matemático empregado pelo contratado. O direito brasileiro,
desde a edição do Decreto 22.626, de 1933, proíbe a incidência de juros
remuneratórios sobre juros vencidos. Tal prática passou a ser conhecida como
“capitalização”, “juros compostos” ou “anatocismo”. A orientação é no sentido de
impedir que o credor, após o vencimento do crédito, possa adicionar novos juros
sobre os juros já vencidos em decorrência do inadimplemento da obrigação. Esse é o
fenômeno do anatocismo proibido pela legislação brasileira. Por outro lado, a
legislação nunca proibiu a utilização de método de cálculo composto para determinar,
no momento da contratação, o valor prefixado da contraprestação. Quando a taxa de
juros é integrada no valor prefixado da contraprestação antes de iniciar o cumprimento
da obrigação, não é possível falar em incidência de juros sobre juros vencidos. A
utilização do método de juros compostos não se confunde com anatocismo, pois o
valor de cada prestação é composto pela fração do capital (divisão do valor inicial da
operação de crédito pelo número de meses) mais o juro remuneratório e eventual
102

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

outro encargo contratado (imposto). O valor agregado ao capital integra a composição


do débito assumido, ou seja, o valor da operação de crédito contratada. Assim, o
devedor assume a obrigação de pagar, na data do vencimento, o valor prefixado de
uma contraprestação.
Segundo o entendimento esposado, não encontra lógica reconhecer que, quando da
prefixação do valor das contraprestações foram incluídos juros sobre juros vencidos ou
juros computados de forma exponencial.
6. Apenas a cobrança de encargos abusivos no período da normalidade contratual,
leia-se juros remuneratórios e capitalização, afasta a mora, segundo orientação do
Superior Tribunal de Justiça4. Assim, subsistente a mora debendi, não é possível
impedir a incidência dos encargos moratórios.
7. No particular, como houve a reforma da sentença, resultando na improcedência
dos pedidos, não há que se falar em repetição do indébito ou compensação de
valores.
8. Ante o reexame da divergência apresentada, e sopesando o alcance dos efeitos do
presente julgamento, verifico que o autor sucumbiu totalmente na sua pretensão,
razão pela qual deve arcar com o pagamento das custas processuais e dos honorários
advocatícios pelo valor fixado na sentença (R$500,00). O autor é beneficiário da
assistência judiciária gratuita (f. 65).
9. Diante do exposto, voto no sentido de dar provimento ao recurso de apelação para
manter o valor da contraprestação na forma prefixada no contrato, declarar a
inexistência de valores a serem repetidos e manter os efeitos da mora debendi.
III- DECISÃO
ACORDAM os Desembargadores integrantes da 17ª Câmara Cível do Tribunal de
Justiça do Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em dar provimento ao
recurso de apelação.
O julgamento foi presidido pelo Desembargador RUI BACELLAR FILHO, com voto, e
dele participaram os Desembargadores LAURI CAETANO DA SILVA e TITO CAMPOS
DE PAULA.
Curitiba, 24 de maio de 2017.
DES. LAURI CAETANO DA SILVA Relator
--
1 Sentença proferida 09.08.2016 e publicada no dia 02.09.2016.
2 “O Código de Defesa do Consumidor é aplicável às instituições financeiras” (Súmula
nº 297).
--
3 Nesse sentido: “PROCESSO CIVIL. AÇÃO DE REVISÃO DE CONTRATO
BANCÁRIO. PEDIDO DE DECLARAÇÃO DE NULIDADE DE CLÁUSULAS APONTADAS
COMO ABUSIVAS. INSTRUMENTO CONTRATUAL QUE NÃO FOI JUNTADO AOS
AUTOS. PROCESSO EXTINTO, SEM RESOLUÇÃO DE MÉRITO (CPC, ART. 267, I).
DECISÃO ESCORREITA. CONTRATO REVISANDO É DOCUMENTO INDISPENSÁVEL
PARA DEFINIR A PRETENSÃO DE DIREITO MATERIAL. FACULTADA A EMENDA DA
INICIAL. DETERMINAÇÃO NÃO ATENDIDA. RECURSO DESPROVIDO. É inepta a

103

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

petição inicial de ação revisional de contrato bancário que não vem acompanhada de
cópia do contrato revisando”.
(TJPR - 17ª C.Cível - AC - 1424250-1 - Ponta Grossa - Rel.: Lauri Caetano da Silva -
Unânime - - J. 03.02.2016)
4 Orientação 2, consolidada pelo Superior Tribunal de Justiça no julgamento do REsp
1.061.530-RS.

2.1.11. RESCISÃO DE CONTRATO DE COMPRA E VENDA DE ESTABELECIMENTO

COMERCIAL

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE RESCISÃO DE CONTRATO DE COMPRA E VENDA DE

ESTABELECIMENTO COMERCIAL. INADIMPLEMENTO CONTRATUAL.

RECONVENÇÃO. PEDIDO DE COMPENSAÇÃO DE CRÉDITOS, COBRANÇA E

INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. PEDIDO PRINCIPAL JULGADO

IMPROCEDENTE E PEDIDO RECONVENCIONAL JULGADO PARCIALMENTE

PROCEDENTE. AUTORES/RECONVINDOS QUE APELAM DO DECISUM.

COMPENSAÇÃO. ART. 368 DO CÓDIGO CIVIL. POSSIBILIDADE NO CASO

CONCRETO. RESPONSABILIDADE DOS VENDEDORES POR DÍVIDAS ANTERIORES À

DATA DA ASSINATURA DO CONTRATO. CÁLCULO QUE DEVE SER APURADO EM

SEDE DE LIQUIDAÇÃO DE SENTENÇA. ÔNUS DA SUCUMBÊNCIA.

REDISTRIBUIÇÃO. RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO.

(TJPR - 17ª C.Cível - AC - 1634381-8 - Campo Mourão - Rel.: Lauri Caetano da Silva -

Unânime - J. 24.05.2017)

Inteiro Teor

I- RELATÓRIO
1. Cuida-se de ação com pedido de rescisão de contrato de compra e venda
cumulada com pedido de indenização (autos nº 2391- 83.2007.8.16.0058) ajuizada por
Delmar José de Lima e Maria José Covalski em face de João Batista de Mendonça e
Irenice Viana Lage
aduzindo, em síntese, que (a) no dia 01.06.2006 celebraram com os réus o contrato de
compra e venda do estabelecimento comercial denominado “Centro de Condutores
de Veículos Kamilla Ltda ME”, pelo valor de R$122.000,00; (b) restou ajustado que o
preço acordado seria pago da seguinte forma: (i) entrega da data nº 8-A, subdivisão da
data nº 8, da quadra nº 2, da Planta do Parque São João, pelo valor de R$35.000,00;
104

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

(ii) entrega do veículo camionete/c.aberta dupla, VMMCL200 4x4, ano 1996, modelo
1997, placa AHD- 6259, pelo valor de R$28.000,00; (iii) R$59.000,00 em moeda
nacional, sendo R$20.000,00 entregue no ato da assinatura do contrato, R$7.000,00 a
serem pagos no dia 01.08.2006 e R$32.000,00 a serem pagos através de um saldo de
FGTS dos compradores, que seria transferido para a compra de um imóvel, a ser
indicado pelos vendedores; (c) mesmo tendo indicado o imóvel a ser adquirido, os
compradores não cumpriram o pagamento previsto na alínea “d” da cláusula 4º do
contrato (transferência de FGTS); (d) no dia 02.05.2007 os compradores enviaram
notificação extrajudicial requerendo o reembolso de valores supostamente pagos em
favor da pessoa jurídica, que encontravam-se em aberto anteriormente à assinatura do
contrato de compra e venda; (e) encaminharam contranotificação extrajudicial
concordando com parte das dívidas apontadas pelos compradores e exigindo a
quitação do contrato, eis que o pagamento previsto na alínea d, da cláusula 3 não
ficou condicionado ao cumprimento de qualquer obrigação; (f) considerando o
inadimplemento contratual, faz-se necessária a rescisão do contrato; (g) os réus devem
ser condenados ao pagamento de indenização por perdas e danos, a serem apurados
em liquidação de sentença. Ao final, requereram a procedência dos pedidos, com a
rescisão do contrato e o retornO das partes ao status quo ante, além da indenização
por perdas e danos.
2. Os réus João Batista de Mendonça e Irenice Viana Lage apresentaram resposta em
sede de contestação (mov. 1.7 - f. 52/70), sustentando, preliminarmente, a falta de
interesse processual dos autores e a exceptio non adimpleti contractus. No mérito,
alegaram que (a) a cláusula 6ª do contrato de compra e venda previa que todos os
impostos, taxas, encargos trabalhistas, ações trabalhistas, rescisões, contribuições
fiscais, financiamentos e empréstimos, anteriores à data da assinatura do contrato,
deveriam ser pagos pelos vendedores; (b) logo após a celebração do contrato, os
vendedores indicaram um imóvel para ser adquirido com o saldo do FGTS dos
compradores, mas não houve liberação do FGTS pela Caixa Econômica Federal
porque o imóvel não foi aprovado na vistoria; (c) entrementes, tiveram conhecimento
de diversos débitos da
sociedade, contraídos anteriormente à aquisição, e que deveriam ser quitados pelos
vendedores; (d) um levantamento das dívidas apontou que os débitos ultrapassavam a
importância de R$32.000,00, quitando o contrato por compensação dos créditos; (e)
conforme previsão do art. 476 do CC, nenhum dos contratantes, antes de cumprir sua
obrigação, pode exigir o implemento da do outro; (f) é aplicável o instituto da
compensação, previsto no art.
368 do CC; (g) não há qualquer dano a ser reparado; (h) os autores utilizaram-se de
expressão injuriosa (CPC/73, art. 15); (i) os autores litigam de má-fé.
3. Os réus João Batista de Mendonça e Irenice Viana Lage apresentaram reconvenção
(mov. 1.11 ­ f. 136/150), pleiteando (i) a compensação dos débitos, na forma do
disposto no art. 368 do Código Civil; (ii) a condenação dos autores/reconvindos ao
reembolso dos valores pagos relativamente à obrigações de sua responsabilidade,
alcançando a importância de R$32.000,00, a ser compensada; (iii) a condenação dos
autores/reconvindos ao pagamento de indenização por danos morais.
105

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

4. Na audiência de conciliação o MM. Juiz a quo saneou o processo, fixando os


pontos controvertidos e deferindo a produção de prova oral e pericial (mov. 1.26 ­ f.
293). O Laudo Pericial foi apresentado no mov. 1.34 (f. 314/362) e foram respondidos
questionamentos nos mov. 1.42, mov. 1.47 e mov. 1.72. Na audiência de instrução e
julgamento, foi colhido o depoimento pessoal das partes e da testemunha Darci
Casarin (mov. 40.1 ­ f. 288/292).
5. O MM. Dr. Juiz a quo proferiu a sentença1 de mov.
59.1 (f. 575/582) pela qual julgou improcedente o pedido inicial, e condenou os
autores/reconvindos ao pagamento das custas processuais e honorários advocatícios,
fixados em R$3.000,00. Ainda, julgou procedente em parte a reconvenção, para o fim
de: a) declarar a compensação de dívidas, extinguindo-se a obrigação das partes até
onde se compensarem, observado os parâmetros fixados pelo laudo pericial acostado
nos autos; b) condenar os autores/reconvindos a restituírem eventual saldo
remanescente de todas as dívidas suportadas pelos réus/reconvintes que foram
contraídas antes da celebração do contrato de compra e venda (01/06/2006),
desde a data do desembolso até a data do efetivo pagamento e acrescido de juros
de mora a partir do recebimento da notificação extrajudicial, à razão de 1% ao mês, a
ser apurado em sede de liquidação de sentença. Por fim, julgou improcedente o
pedido de indenização por danos morais formulado na reconvenção. Considerando
que os réus/reconvintes decaíram minimamente do pedido, condenou os
autores/reconvintes ao pagamento das custas processuais e honorários advocatícios,
fixados em R$3.000,00, observando que são beneficiários da assistência judiciária
gratuita.
6. Inconformados, os autores/reconvindos Delmar José de Lima e Maria José Covalski,
interpuseram recurso de apelação (mov. 59.1 ­ f. 575/582), afirmando que os valores a
serem compensados foram incorretamente calculados pelos apelados. Apontaram que
os valores das verbas trabalhistas incluem período posterior à assinatura do contrato
de compra e venda, cujo pagamento não é de sua responsabilidade. Assim, afirmaram
ainda serem credores dos réus/reconvintes, postulando que a compensação de valores
se restrinja ao período anterior à data da assinatura do contrato de compra e venda.
7. Os réus/reconvintes apresentaram contrarrazões de apelação no mov. 85.1 (f.
624/638), pugnando pelo não conhecimento do apelo por ofensa ao disposto no art.
1.010 do CPC/2015.
É o relatório.
II- VOTO
Preliminarmente assinalo que, no caso em mesa, não há que se falar em ofensa ao
princípio da dialeticidade.
O princípio da dialeticidade recursal deve ser compreendido como o ônus atribuído
ao recorrente de evidenciar os motivos de fato e de direito para a reforma da decisão
recorrida, segundo interpretação conferida ao art. 1.010, incisos II e III, do
Código de Processo Civil (regra anteriormente prevista no art. 514 do CPC/73).
Da leitura das razões de recurso de apelação interposto por Delmar José de Lima e
Maria José Covalski extrai-se perfeitamente a contraposição aos fundamentos da
sentença quanto à compensação de valores.
106

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

Neste diapasão, já se posicionou o Superior Tribunal de Justiça no sentido de que “se


os motivos de irresignação do apelante acham-se suficientemente fundamentados,
viola o art. 514, III, do CPC o acórdão que não conhece da apelação a pretexto de não
achar-se preenchida a referida exigência legal” (STJ, 1ª T., REsp 179.822/ES, Rel. Min.
Antônio de Pádua Ribeiro, DJ de 11.03.02).
Desta forma, presentes os pressupostos recursais de admissibilidade, intrínsecos e
extrínsecos, o recurso merece ser conhecido.
8. Os apelantes pleiteiam a reforma da sentença na parte em que julgou procedente
o pedido de compensação de créditos e débitos formulado pelos réus em sede de
reconvenção. Aduzem que os valores foram erroneamente calculados pelos apelados,
especialmente em relação aos débitos trabalhistas, devendo eventual compensação
limitar-se aos débitos anteriores à assinatura do contrato de compra e venda
(01.06.2006).
8.1. Assim dispõe o artigo 368 do Código Civil:
“Art. 368. Se duas pessoas forem ao mesmo tempo credor e devedor uma da outra,
as duas obrigações extinguem-se, até onde se compensarem.”
Desta forma, a compensação consiste em forma especial de extinção da obrigação, a
qual ocorre quando as partes de uma relação obrigacional são ao mesmo tempo
credoras e devedoras uma da outra.
8.2. No caso dos autos, as partes firmaram contrato de compra e venda tendo como
objeto a sociedade empresária denominada “Centro de Condutores de Veículos
Kamilla Ltda ME”.
Conforme disposto na cláusula 6ª do contrato (mov. 1.3 ­ f. 20/23), os vendedores
Delmar José de Lima e Maria José Covalski assumiram a obrigação de arcar com o
pagamento de “todos os impostos, taxas, encargos trabalhistas, ações trabalhistas,
rescisões, contribuições fiscais, financiamentos, empréstimos ou troca de duplicatas
em bancos ou instituições financeiras, de qualquer natureza incidentes sobre a
empresa citada na cláusula primeira”, anteriores à data da assinatura do contrato
(01.06.2011).
Por outro lado, caberiam aos compradores João Batista de Mendonça e Irenice Viana
Lage o pagamento do preço ajustado, conforme cláusula 3ª do contrato. Do preço
combinado, não houve o pagamento da importância de R$32.000,00 prevista na alínea
“d” da cláusula terceira, que seria liquidado através de um saldo de FGTS que seria
transferido aos vendedores para a compra de um imóvel.
8.3. Segundo restou comprovado nos autos, o não pagamento do valor de
R$32.000,00 se deu por circunstancias alheias à vontade dos compradores João
Batista de Mendonça e Irenice Viana Lage. Isto porque, iniciado o procedimento de
aquisição do imóvel indicado pelos vendedores para a utilização do saldo de FGTS,
não houve aprovação por parte da Caixa Econômica Federal (mov. 1.8 ­ f.
73/75).
Ainda, restou comprovado e admitido pelos próprios apelantes Delmar José de Lima
e Maria José Covalski, que haviam diversos débitos contraídos pela sociedade
empresária anteriormente ao contrato de compra e venda, cujo pagamento seria de
sua responsabilidade.
107

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

A prova pericial apurou que até o dia 01.06.2006 (data do contrato), haviam débitos
da pessoa jurídica vencidos e não pagos, que englobavam tributos, contribuições
previdenciárias e débitos trabalhistas. Em resposta ao quesito nº 2, formulado pelos
autores, ora apelantes, o Sr. Perito calculou as dívidas pendentes (conforme anexos nº
1, nº 2 e nº 3):
Natureza Valor Tributárias e Previdenciárias R$10.429,34 Trabalhistas R$25.283,78
Outros Passivos R$1.318,23 Total: R$35.031,35
Os apelantes discordam dos valores relativos às verbas de natureza trabalhista,
sustentando que a responsabilidade pelo pagamento de tais débitos somente pode
lhes ser imputada até o dia 01.06.2006 (data da assinatura do contrato). Afirmam que
houve continuidade nos contratos de trabalho, e que as verbas trabalhistas posteriores
à 01.06.2006 são de responsabilidade dos réus/reconvintes.
Conforme petição inicial indexada no mov. 1.9 e 1.10, a reclamatória trabalhista
ajuizada por Gislaine Aparecida Francisco abrangia o período de 06.12.2004 (data da
contratação) até 30.09.2006 (data da demissão sem justa causa). Assim, assiste razão
aos apelantes quando afirmam que parte das verbas trabalhistas não era de sua
responsabilidade. Gislaine Aparecida Francisco e a sociedade empresária Centro de
Formação de Condutores de Veículo Kamila Ltda firmaram acordo no montante de
R$10.000,00 (mov. 1.10), o qual foi considerado pelo Sr. Perito como sendo
integralmente devido pelos autores/reconvindos, o que, como visto, mostra-se
inadequado, devendo o cálculo ser realizado proporcionalmente ao período de
responsabilidade de cada uma das partes.
Ainda, com relação à reclamatória trabalhista ajuizada por Sueli Marques, observa-se
que o Sr. Perito lançou como devido o valor de R$4.993,78, observando que o
processo se encontrava em fase recursal. Todavia, conforme se verifica do acórdão de
mov. 1.40, o recurso ordinário interposto pela sociedade empresária Centro de
Formação de Condutores de Veículos Kamilla Ltda ­ ME foi parcialmente provido. O
Sr. Perito, ao manifestar-se acerca do julgamento do recurso (mov. 1.42 ­ f. 385/386),
asseverou que o cálculo do débito deveria ser elaborado por calculista nomeado pelo
Juízo Trabalhista, devendo aguardar sua elaboração. Ora, tratando-se de dívida
ilíquida, nos parece evidente que não poderia ter sido considerada para fins de
compensação imediata.
8.4. Todavia, as discrepâncias apontadas no cálculo realizado pelo Sr. Perito não têm
o condão de modificar o julgamento do pedido dos réus/reconvintes. Isto porque,
considerando a existência de créditos e débitos entre as partes, é plenamente possível
a compensação, na forma disposta no art. 368 do CC.
Frise-se que o dispositivo da sentença julgou procedentes os pedidos dos
réus/reconvintes para “a) declarar a compensação de dívidas, extinguindo-se a
obrigação das partes até onde se compensarem, observado os parâmetros fixados
pelo laudo pericial acostado nos autos; b) condenar os Reconvindos/Autores a
restituírem eventual saldo remanescente a ser apurado em sede de liquidação de
sentença, de todas as dívidas arcadas pelos Reconvintes/Réus, e que foram contraídas
antes da celebração do contrato de compra e venda (01/06/2006), desde a data do
desembolso até a data do efetivo pagamento e com juros de mora a partir do
108

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recebimento da notificação extrajudicial, à razão de 1% (um por cento) ao mês, nos


termos do art. 406 do Có- digo Civil, conjugado com o art. 161 do CTN”
Assim, considerando que a sentença objurgada remeteu às partes à fase de
liquidação de sentença, o cálculo a ser elaborado deve considerar, para fins de
compensação, tão somente os débitos da pessoa jurídica até o dia da assinatura do
contrato (01.06.2006).
9. A sucumbência deve ser distribuída na medida da vitória e da derrota dos litigantes
no processo. Analisando os termos da pretensão e o resultado final proporcionado
pelo presente acórdão, verifico a necessidade de redistribuir os ônus da sucumbência
da reconvenção. Assim, condeno as partes, na proporção de 50% para cada uma, ao
pagamento das custas processuais e dos honorários advocatícios fixados da sentença
para a reconvenção. Observe-se que os autores/reconvindos são beneficiários da
assistência judiciária gratuita.
10. Diante do exposto, voto no sentido de dar parcial provimento ao recurso de
apelação, para que os cálculos relativos à compensação de valores sejam realizados
em sede de liquidação de sentença, observado a data da assinatura do contrato
(01.06.2006).
III- DECISÃO
ACORDAM os Desembargadores integrantes da 17ª Câmara Cível do Tribunal de
Justiça do Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao
recurso de apelação.
O julgamento foi presidido pelo Desembargador RUI BACELLAR FILHO, com voto, e
dele participaram os Desembargadores LAURI CAETANO DA SILVA e TITO CAMPOS
DE PAULA.
Curitiba, 24 de maio de 2017.
DES. LAURI CAETANO DA SILVA Relator
--
1 Sentença proferida no dia 01.06.2016 e publicada no dia 05.06.2016.

2.1.12. USO INDEVIDO DE MARCA - DUDALINA

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER CUMULADA COM PEDIDO DE

PERDAS E DANOS. PEDIDOS JULGADOS PROCEDENTES. RECURSO DE APELAÇÃO

DA RÉ. USO INDEVIDO DE MARCA. CONCORRÊNCIA DESLEAL. VENDA DE

PRODUTOS FALSIFICADOS. DANO MATERIAL PRESUMIDO. DANOS MORAIS

CARACTERIZADOS. VALOR ARBITRADO A TÍTULO DE DANOS MORAIS. FIXAÇÃO

QUE DEVE OBSERVAR OS PRINCÍPIOS DA RAZOABILIDADE E DA

PROPORCIONALIDADE. VALOR QUE DEVE SER CORRESPONDENTE AO

CONSTRANGIMENTO SOFRIDO E DANO EXPERIMENTADO. MINORAÇÃO DO

109

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

QUANTUM INDENIZATÓRIO. RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO. 1. A reparação

não está condicionada à prova efetiva do dano, pois os atos de concorrência desleal e

o consequente desvio de clientela provocam, por si sós, perda patrimonial à vítima

(REsp 978.200/PR, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em

19/11/2009, DJe 02/12/2009). 2. O dano sofrido em decorrência de concorrência

desleal alcança ainda outra dimensão. É que se coloca a marca e o produto em

ambiente não adequado ao padrão de consumo desejado e praticado pelo seu titular,

desvalorizando o signo em face dos seus consumidores. É o que ocorre no caso,

quando há indicativo de que o público-alvo da autora se volta às classes econômicas

mais abastadas, enquanto que a ré busca direcionar seus produtos às camadas mais

jovens da sociedade e, por isso, sem alto poder aquisitivo (TJ/SP Relator(a): Carlos

Alberto Garbi; Comarca: São Paulo; Órgão julgador: 2ª Câmara Reservada de Direito

Empresarial; Data do julgamento: 13/02/2017; Data de registro: 15/02/2017). 3. O

valor da indenização por danos morais deve atender ao princípio da razoabilidade,

limitando-se a amenizar o prejuízo causado, tendo um cunho pedagógico e servindo

de desestímulo à repetição do ato ilícito.

(TJPR - 17ª C.Cível - AC - 1632952-9 - Dois Vizinhos - Rel.: Lauri Caetano da Silva -

Unânime - J. 24.05.2017)

Inteiro Teor

I- RELATÓRIO
1. Cuida-se de ação de obrigação de não fazer cumulada com pedido de perdas e
danos (autos nº 0001052-79.2014.8.16.0079) ajuizada por Dudalina S/A em face de
Terezinha Marchi - ME, aduzindo, em síntese, que: (a) é empresa idônea e
conceituada, e tem como função precípua fabricação e comercialização de artigos do
vestuário em geral; (b) ao longo de sua história, investiu fortemente no
desenvolvimento de sua marca, seja através da propaganda ou na elaboração de
produtos de extrema qualidade e refinamento, tornando-se uma peça de status social
e objeto de desejo de um consumidor muito distinto e de alto poder aquisitivo.
A partir do ano de 2010, notadamente, o sucesso alcançado refletiu no mercado
informal, o qual passou a “piratear” seus produtos; (c) aproveitando-se do alto valor
agregado à sua marca, a empresa ré vem comercializando camisas de péssima
qualidade, identificando-as como se originais fossem. Porém, por meio de simples
comparação, logo se vê diferenças na cor e nos detalhes de tecido, forro, acabamento,
110

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botões, dentre outros; (d) a prova trazida aos autos, consistente em uma camisa
adquirida no estabelecimento comercial da requerida, cupom de compra e laudo
elaborado por responsável técnico, demonstram que a ré utiliza a logomarca, a
etiqueta interna e a etiqueta removível de modo a identificar um produto falsificado
como se fosse um de seus produtos. Todavia, não possui os padrões mínimos de
qualidade, não atendendo nem aos requisitos do INMETRO, causando severos danos
à imagem de sua marca, construída e mantida a elevado custo; (e) deve ser indenizada
pelos danos materiais e morais sofridos em virtude da prática da concorrência desleal.
Assim, requereu a antecipação dos efeitos da tutela, para determinar a busca e
apreensão de todas as mercadorias, produtos, objetos, embalagens, etiquetas da
empresa ré que utilizam a sua LOGOMARCA.
2. A tutela antecipada almejada foi deferida (mov. 15.1 ­ f. 65/66), para determinar à
requerida que se abstenha de comercializar e distribuir peças de vestuário com as
mesmas características dos modelos em litígio, bem como anunciar e expor a venda,
através de qualquer meio, sob pena de multa diária a ser fixada oportunamente.
Também autorizou a apreensão de todos os exemplares com marcas análogas às
expostas na inicial, de titularidade da parte autora, bem como dos contrafeitos nos
estabelecimentos das demandadas situados na Comarca de Dois Vizinhos.
3. A ré Terezinha Marchi - ME apresentou resposta em sede de contestação (mov.
28.1 - f. 100/116), sustentando, preliminarmente, a inépcia da petição inicial. No
mérito, afirma que (a) não é responsável pela fabricação dos produtos, apenas revende
aqueles adquiridos de vendedores; (b) inexistem provas dos apontados danos sofridos;
(c) não estão presentes os pressupostos necessários à responsabilização.
4. O MM. Dr. Juiz a quo proferiu a sentença1 (mov. 71.1 ­ f. 186/192) pela qual julgou
procedentes os pedidos formulados na inicial para condenar a ré Terezinha Marchi ­
Me a (i) abster-se de fabricar, adquirir ou comercializar produtos ou objetos que
contenham a marca de propriedade da autora, sem sua autorização expressa; (ii) pagar
à autora indenização a título de danos morais fixada em R$ 10.000,00; (iii) pagar à
autora indenização pelos danos materiais, consistente no valor médio de cada uma das
peças apreendidas em poder da ré, que deve ser apurado em fase de liquidação de
sentença. Destacou que sobre o valor da condenação pecuniária incidirá correção
monetária, pela média do INPC/IGP-DI a partir da data do arbitramento (Súmula nº
362 do STJ) e serão acrescidos de juros de mora de um por cento ao mês a contar da
data do evento danoso (Súmula nº 54 do STJ). Ante a sucumbência, condenou a ré ao
pagamento das custas processuais e dos honorários advocatícios, fixados em 10%
sobre o valor da condenação.
Contra esta decisão, a autora opôs embargos de declaração (mov. 75.1 ­ f. 197/198),
os quais foram rejeitados (mov.
90.1 ­ f. 221/222).
5. A ré Terezinha Marchi - ME interpôs recurso de apelação (mov. 96.1 ­ f. 229/249),
postulando a reforma da sentença para afastar a sua condenação ao pagamento de
indenização a título de danos materiais e morais, afirmando, em síntese, que a autora
não comprovou a efetiva existência dos danos. Alternativamente, pediu a minoração

111

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do valor arbitrado a título de danos morais. Por fim, postulou a inversão do ônus da
sucumbência.
Contrarrazões de apelação (mov. 134.1 ­ f. 401/410).
É o relatório.
II- VOTO
Presentes os pressupostos processuais de admissibilidade, intrínsecos e extrínsecos,
conheço do recurso.
6. Em primeiro lugar, cumpre destacar que a Constituição Federal ao dispor sobre a
proteção à criação industrial, estabeleceu em seu artigo 5º, XXIX que: “a lei assegurará
aos autores de inventos industriais privilégio temporário para sua utilização, bem como
proteção às criações industriais, à propriedade das marcas, aos nomes de empresas e
a outros signos distintivos, tendo em vista o interesse social e o desenvolvimento
tecnológico e econômico do País”.
Nessa seara a propriedade industrial tem proteção constitucional, visando estimular o
progresso técnico e científico, considerando o interesse social e econômico do país.
Assim, para uma maior proteção ao autor da criação industrial, bem como a
especificação e desenvolvimento da matéria, foi editada a Lei nº9.279/96, conhecida
como Lei de Propriedade Industrial, na qual é
delimitado o âmbito de atuação da proteção aos direitos relativos à propriedade
industrial, nos seus artigos 2º e 3º2.
No que tange ao uso da marca, a Lei de Propriedade Industrial determina que a
propriedade da marca se adquire pelo registro validamente expedido, o qual garante
ao titular o seu uso exclusivo em todo o território nacional. O mesmo diploma legal
estabelece a proteção conferida pelo registro, assegurando ao titular a possibilidade
de zelar pela sua integridade material ou reputação3:
Art. 129. A propriedade da marca adquire-se pelo registro validamente expedido,
conforme as disposições desta Lei, sendo assegurado ao titular seu uso exclusivo em
todo o território nacional, observado quanto às marcas coletivas e de certificação o
disposto nos arts. 147 e 148.
(...)
Art. 130. Ao titular da marca ou ao depositante é ainda assegurado o direito de: I -
ceder seu registro ou pedido de registro; II - licenciar seu uso; III - zelar pela sua
integridade material ou reputação.
Acerca da proteção conferida ao titular da marca, ensina Carla Eugênia Barros4:
“Os atos contrafeitos poderão ser apurados e declarados em ação judicial de natureza
tanto penal como civil. A proteção ao titular, ao cessionário ou ao licenciado exclusivo
da marca é oponível já quando efetuado o depósito do registro, uma vez que é a partir
desse instante que marca se torna sujeita a ataques como reprodução e imitação, além
de outras violações não explicitadas pela lei, mas caracterizáveis como tal de modo
bem específico.
São esses ataques que geram oportunidade para defesa de direitos. Por conseguinte,
é a partir da publicação do pedido do registro que o depositante pode acionar o
contrafator.
Isso pode ser por ação de natureza penal, quanto civil.
112

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Na esfera civil, o fórum competente é o da justiça comum ou, no caso de o INPI ser
parte interessada, o da Justiça Federal. Como a ação de contrafação, no caso, se
circunstancia na reparação de perdas e danos, são aplicáveis as regras do Código Civil,
sendo irrelevantes as questões sobre a ignorância, a boa ou má-fé do contrafator,
diferentemente da penal. As provas da contrafação são por todos os meios admitidos
em direito e um só elemento da marca, desde que distintivo, já pode ser suficiente
para caracterizar a contrafação.
Na ação civil, enfim, o que importa é a apuração dos prejuízos materiais e, inclusive,
imateriais causados aos proprietários da marca e, mesmo, aos consumidores
alcançados pelo ato vicioso.
No caso, conforme auto de busca e apreensão (mov. 27.1 e 27.2 ­ f. 91/98), restou
demonstrado que a requerida colocava à venda em seu estabelecimento comercial,
camisas identificadas com a logomarca da autora, as quais eram provenientes de
falsificação, nos termos atestado pelo laudo técnico anexado aos autos (mov. 1.8 ­
f.42/44).
A requerida em nenhum momento nega que os produtos colocados à venda eram
“falsificados”, limitando-se a argumentar que os adquiria de “vendedores viajantes”.
Entretanto, não trouxe aos autos nenhuma prova da culpa exclusiva de terceiros, apta
a afastar a sua responsabilidade (art. 333, II do CPC/1973). Nos termos destacados
pelo magistrado de 1º grau, “o fato de terceiro depende da produção de prova
idônea, indicando concretamente que o terceiro foi responsável por si mesmo pelo
evento danoso, o que não fez a interessada”. Além do mais, não se mostra plausível o
argumento da requerida de que vendia os produtos recebidos em consignação de
terceiros sem saber a sua procedência.
Não se pode ignorar que a venda de produtos falsificados gera prejuízos ao detentor
da marca, seja por causar confusão no consumidor, seja por desvio de clientela ou,
ainda, por denegri-la. Tal conduta configura claramente a prática de concorrência
desleal, prevista no artigo 195 da Lei nº 9.279/965, decorrendo o dano diretamente da
conduta praticada pela parte ­ de violação de direitos de propriedade industrial da
requerente ­, razão pela qual o dano é presumível, sendo desnecessária a produção de
outras provas.
Nesse sentido é o entendimento manifestado pelo Superior Tribunal de Justiça:
“Direito comercial e processual civil. Recurso especial. Concorrência desleal e desvio
de clientela. Embargos declaratórios. Omissão. Ausência. Reexame de provas.
Inadmissibilidade.
Inépcia da inicial. Inocorrência. Danos materiais. Comprovação. Presunção - Ausentes
os vícios do art. 535 do CPC, rejeitam-se os embargos de declaração.
- É inadmissível o reexame de fatos e provas em recurso especial.
- Verificada a existência de causa de pedir, não há reconhecer-se a inépcia da inicial
na presente hipótese.
- O art. 209 da Lei 9.279/96 autoriza a reparação por danos materiais advindos de
atos de concorrência desleal que importem desvio de clientela pela confusão causada
aos consumidores.

113

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- A reparação não está condicionada à prova efetiva do dano, pois os atos de


concorrência desleal e o consequente desvio de clientela provocam, por si sós, perda
patrimonial à vítima.
Recurso especial não provido.” (REsp 978.200/PR, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI,
TERCEIRA TURMA, julgado em 19/11/2009, DJe 02/12/2009).
AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. PROPRIEDADE INDUSTRIAL. USO
INDEVIDO DE MARCA. COLIDÊNCIA RECONHECIDA. SETEX E SEDEX.
SEMELHANÇA GRÁFICA E FONÉTICA. SERVIÇOS. MESMO SEGMENTO
MERCADOLÓGICO.
IMPOSSIBILIDADE DE COEXISTÊNCIA ENTRE AS MARCAS. CONFUSÃO AO
CONSUMIDOR.
INDENIZAÇÃO POR DANOS MATERIAIS. COMPROVAÇÃO. APURAÇÃO EM
LIQUIDAÇÃO DE SENTENÇA. REEXAME DE PROVAS. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA
Nº 7/STJ. SÚMULA 83/STJ.
1. Consoante a jurisprudência desta Corte, em se tratando de direito de marcas, o
dano material pode ser presumido, pois a violação desse direito é inequivocamente
capaz de gerar severas lesões à atividade empresarial do legítimo titular da marca, tais
como, por exemplo, o desvio de clientela e a confusão entre as empresas.
2. As conclusões da Corte de origem - no sentido de (i) ser indevida a utilização pela
demandada da marca SETEX, (ii) ser impossível a coexistência da referida marca com a
marca SEDEX (de titularidade da autora, a ECT) e (iii) ser necessária a apuração do
montante indenizatório devido em liquidação de sentença - resultaram do exame do
acervo fático-probatório carreado nos autos e, por isso, inviável se torna modificá-las,
nesta via especial, dada a inafastável incidência da Súmula nº 7/STJ.
3. Estando o acórdão recorrido em consonância com a jurisprudência pacífica desta
Corte, tem incidência a Súmula nº 83/STJ.
4. Agravo regimental não provido.
(AgRg no REsp 1536128/CE, Rel. Ministro RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA, TERCEIRA
TURMA, julgado em 17/03/2016, DJe 31/03/2016)
O referido entendimento encontra respaldo no artigo 209 da Lei nº 9.279/96, o qual
preceitua que são passíveis de reparação os danos materiais advindos de prejuízos
causados pela prática de violação de direitos de propriedade industrial e atos de
concorrência desleal. Vejamos:
“Art. 209. Fica ressalvado ao prejudicado o direito de haver perdas e danos em
ressarcimento de prejuízos causados por atos de violação de direitos de propriedade
industrial e atos de concorrência desleal não previstos nesta Lei, tendentes a
prejudicar a reputação ou os negócios alheios, a criar confusão entre estabelecimentos
comerciais, industriais ou prestadores de serviço, ou entre os produtos e serviços
postos no comércio”.
A esse respeito, o artigo 2086 do mencionado diploma legal prevê que a indenização
será determinada pelos benefícios que o prejudicado teria auferido se a violação não
tivesse ocorrido. Em face da dificuldade na aferição dos prejuízos, o próprio legislador
estabeleceu critérios objetivos para apuração dos lucros cessantes, conforme disciplina
o artigo 210 da Lei de Propriedade Industrial (Lei nº 9.279/96):
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“Art. 210. Os lucros cessantes serão determinados pelo critério mais favorável ao
prejudicado, dentre os seguintes: I - os benefícios que o prejudicado teria auferido se
a violação não tivesse ocorrido; ou II - os benefícios que foram auferidos pelo autor da
violação do direito; ou III - a remuneração que o autor da violação teria pago ao titular
do direito violado pela concessão de uma licença que lhe permitisse legalmente
explorar o bem.”
Neste viés, a indenização por danos materiais deverá ser calculada segundo os
critérios previstos nos dispositivos legais acima mencionados, em sede de liquidação
de sentença, conforme entendimento manifestado pelo Julgador Monocrático.
A corroborar:
CONCORRÊNCIA DESLEAL. CONFIGURAÇÃO. DANO MATERIAL PRESUMIDO.
QUANTUM DEBEATUR. CRITÉRIOS DO ART. 210 DA LEI N° 9279/96. ESCOLHA NA
FASE DE LIQUIDAÇÃO. SENTENÇA MANTIDA.
1 - A questão suscitada pela Apelante como preliminar de cerceamento de defesa
confunde-se com o mérito, razão pela qual deverá ser com ele analisado.
2 - É fato incontroverso, nos presentes autos, por ter sido decretado a revelia da Ré,
que esta vendeu e distribuiu produtos falsificados, destacando-se que os originais são
produzidos e comercializadas pela Autora, tendo praticado, portanto concorrência
desleal e atos de violação de direitos de propriedade industrial. Tal conduta é definida
como crime, nos termos da Lei nº 9.279/96, a qual regula direitos e obrigações
relativos à propriedade industrial.
3 - Configurada a violação ao Art. 209, da Lei nº 9.279/96, patente é a obrigação de
indenizar, pois o dano material (lucros cessantes) decorrente de concorrência desleal é
presumido.
4 - O valor a ser reparado a título de lucros cessantes deve ser aferido em
procedimento de liquidação de sentença para que sejam evitados danos fictícios.
5 ­ A Autora, na petição inicial da fase de liquidação de sentença, deve escolher um
dos critérios para aferição dos lucros cessantes previstos no art. 210 da Lei nº
9.279/96, sob pena de indeferimento da mesma.
Preliminar rejeitada.
Apelação Cível provida.
(Acórdão n.980402, 20130910304703APC, Relator: ANGELO PASSARELI 5ª TURMA
CÍVEL, Data de Julgamento: 09/11/2016, Publicado no DJE: 01/12/2016. Pág.:
229/237).
RECURSO DE APELAÇÃO. DIREITO COMERCIAL E PROCESSO CIVIL. AÇÃO
ORDINÁRIA DE ABSTENÇÃO DE ATO CUMULADA COM PEDIDO DE INDENIZAÇÃO
POR DANOS MATERIAIS. APELADA QUE UTILIZOU DE CONJUNTO-IMAGEM DO
PRODUTO “ROLHITAS” MUITO SEMELHANTE AO UTILIZADO PELA APELANTE EM
RELAÇÃO AO PRODUTO “PAÇOQUITAS”. LAUDO PERICIAL.CONCORRÊNCIA
DESLEAL CONFIGURADA. DESVIO DE CLIENTELA PRESUMIDO. INTELIGÊNCIA DA
LEI DA PROPRIEDADE INDUSTRIAL (ART. 208, 209 E 210 DA LEI 9.279/96). DANOS
MATERIAIS PRESUMIDOS. PERDA DE CLIENTELA. QUANTUM DEBEATUR QUE DEVE
SER APURADO EM LIQUIDAÇÃO DE SENTENÇA POR ARBITRAMENTO. MULTA
DIÁRIA COMINATÓRIA DE R$ 1.500,00. MAJORAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. VALOR
115

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QUE SE ADEQUA À RAZOABILIDADE E À PROPORCIONALIDADE.RECURSO A QUE


SE DÁ PARCIAL PROVIMENTO PARA O FIM DE CONDENAR A REQUERIDA AO
PAGAMENTO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MATERIAIS E INVERTER O ÔNUS DA
SUCUMBÊNCIA, QUE DEVERÁ SER INTEGRALMENTE SUPORTADO PELA
REQUERIDA. APELAÇÃO PARCIALMENTE PROVIDA. (TJPR - 7ª C.Cível - AC -
1461963-3 - Região Metropolitana de Maringá - Foro Central de Maringá - Rel.:
Anderson Ricardo Fogaça - Unânime - - J.
24.05.2016).
7. A situação narrada, além de causar prejuízos materiais decorrentes do desvio de
clientela, acarreta consequentemente desconfiança no mercado em relação à marca,
afetando sua confiabilidade, tendo em vista a disseminação de produtos similares ­
dos quais não se sabe a qualidade ­ com sua utilização, caracterizando-se desse modo
abalo à honra objetiva da empresa.
Nesse sentido:
“Direito empresarial. Contrafação de marca. Produto falsificado cuja qualidade, em
comparação com o original, não pôde ser aferida pelo Tribunal de Justiça. Violação da
marca que atinge a identidade do fornecedor. Direito de personalidade das pessoas
jurídicas. Danos morais reconhecidos.
- O dano moral corresponde, em nosso sistema legal, à lesão a direito de
personalidade, ou seja, a bem não suscetível de avaliação em dinheiro.
- Na contrafação, o consumidor é enganado e vê subtraída, de forma ardil, sua
faculdade de escolha. O consumidor não consegue perceber quem lhe fornece o
produto e, como consequência, também o fabricante não pode ser identificado por
boa parte de seu público alvo. Assim, a contrafação é verdadeira usurpação de parte
da identidade do fabricante. O contrafator cria confusão de produtos e, nesse passo,
se faz passar pelo legítimo fabricante de bens que circulam no mercado.
- Certos direitos de personalidade são extensíveis às pessoas jurídicas, nos termos do
art.
52 do CC/02 e, entre eles, se encontra a identidade.
- Compensam-se os danos morais do fabricante que teve seu direito de identidade
lesado pela contrafação de seus produtos.
Recurso especial provido.” (STJ, REsp 1032014/RS, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI,
TERCEIRA TURMA, julgado em 26/05/2009, DJe 04/06/2009).
8. A apelante se insurge quanto ao valor da indenização por danos morais fixada pelo
magistrado a quo.
Quanto ao arbitramento do dano moral, ensina Sergio Cavalieri Filho7:
“Uma das objeções que se fazia à reparabilidade do dano moral era a dificuldade
para se apurar o valor desse dano, ou seja, para quantificá-lo. A dificuldade, na
verdade, era menor do que se dizia, porquanto em inúmeros casos a lei manda que se
recorra ao arbitramento (Código Civil de 1916, art. 1.536, §1º; arts.950, parágrafo
único, e 953, parágrafo único, do novo Código). E tal é o caso do dano moral. Não há,
realmente, outro meio mais eficiente para se fixar o dano moral a não ser pelo
arbitramento judicial. Cabe ao juiz, de acordo com o seu prudente arbítrio, atentando

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para a repercussão do dano e a possibilidade econômica do ofensor, estimar uma


quantia a título de reparação pelo dano moral.
(...) Mas estou igualmente convencido de que, se o juiz não fixar com prudência e
bom sendo o dano moral, vamos torná-lo injusto e insuportável, o que, de resto, já
vem ocorrendo em alguns países, comprometendo a imagem da Justiça.
(...) Creio que na fixação do quantum debeatur da indenização, mormente tratando-se
de lucro cessante e dano moral, deve o juiz ter em mente o princípio de que o dano
não pode ser fonte de lucro. A indenização, não há dúvida, deve ser suficiente para
reparar o dano, o mais completamente possível, nada mais. Qualquer quantia maior
importará enriquecimento sem causa, ensejador de novo dano.
Creio, também, que este é outro ponto onde o princípio da lógica do razoável deve
ser a bússola norteadora do julgador. Razoável é aquilo que é sensato, comedido,
moderado; que guarda uma certa proporcionalidade. A razoabilidade é o critério que
permite cotejar meios e fins, causas e consequências, de modo a aferir a lógica da
decisão. Para que a decisão seja razoável é necessário que a conclusão nela
estabelecida seja adequada aos motivos que a determinaram; que os meios escolhidos
sejam compatíveis com os fins visados; que a sanção seja proporcional ao dano.
Importa dizer que o juiz, ao valorar o dano mora, deve arbitrar uma quantia que, de
acordo com o seu prudente arbítrio, seja compatível com a reprovabilidade da
conduta ilícita, a intensidade e duração do sofrimento experimentado pela vítima,
capacidade econômica do causador do dano, as condições sociais do ofendido, e
outras circunstâncias mais que se fizerem presentes.”
O julgador singular condenou a requerida ao pagamento de indenização pelos danos
morais no montante total de R$10.000,00.
Assim, conforme lição acima exposta, em se tratando de dano moral, o magistrado,
ao fixar a indenização, deve estipular um valor que não seja insignificante, a ponto de
não se compor o prejuízo sofrido, e que não seja tão elevado, a ponto de provocar o
enriquecimento sem causa da vítima.
Deve, pois, o valor da indenização, atender ao princípio de razoabilidade, limitando-
se a amenizar o prejuízo causado, tendo um cunho pedagógico e servindo de
desestímulo à repetição do ato ilícito, mas jamais como um prêmio ao ofendido.
Neste diapasão, tenho que o julgador monocrático procedeu com desacerto ao fixar
o valor de R$10.000,00 a título indenizatório, eis que desproporcional a ofensa
suportada. Avaliando o caso concreto e as agruras sofridas pela autora, vejo que o
valor da verba indenizatória deve ser minorada, de forma que a reduzo para
R$5.000,00, valor que entendo suficiente a amenizar o prejuízo causado, tendo um
cunho pedagógico e servindo de desestímulo à repetição do ato ilícito. Não se pode
ignorar que a requerida é empresa de pequeno porte, não sendo adequada a fixação
de indenização correspondente à metade de seu capital social nominal (R$20.000,00 -
mov.28.2 ­ f. 117).
É a jurisprudência desta Corte:
PROPRIEDADE INDUSTRIAL. CONCORRÊNCIA DESLEAL. USO DE IMAGEM DE
PRODUTO LICENCIADO PELA AUTORA EM CONCURSO PROMOVIDO PELA RÉ.

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INSERÇÕES INDEVIDAS DE PROPAGANDA EM ANÚNCIOS PUBLICITÁRIOS DA


AUTORA. INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS E MATERIAIS.
Houve concorrência desleal e, por isso, não se acolhe a alegação de litigância de má-
fé da autora. Contudo, a deslealdade está restrita ao uso indevido de fotografia
pertencente à autora da “Cadeira Paulistano” e promoção de concurso cultural pela ré
nos mesmos moldes de certame antes realizado pela autora, com inserções
publicitárias indevidas pela ré. Assim, as reparações concedidas por concorrência
desleal devem se limitar a estes fatos reconhecidos, e não na extensão pretendida
pela autora.
Danos materiais. Diante da evidente concorrência desleal, justifica-se a concessão de
reparação por danos materiais, que deve ser objeto de liquidação de sentença, nos
termos do art. 210, da Lei nº 9.279/96. Caberá à autora a escolha do critério de
liquidação do dano, considerando-se a obrigação alternativa estabelecida no referido
dispositivo legal (REsp nº 1.316.149/SP, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, dj
03.06.14).
Danos morais. O dano sofrido em decorrência de concorrência desleal alcança ainda
outra dimensão. É que se coloca a marca e o produto em ambiente não adequado ao
padrão de consumo desejado e praticado pelo seu titular, desvalorizando o signo em
face dos seus consumidores. É o que ocorre no caso, quando há indicativo de que o
público-alvo da autora se volta às classes econômicas mais abastadas, enquanto que a
ré busca direcionar seus produtos às camadas mais jovens da sociedade e, por isso,
sem alto poder aquisitivo.
Recurso da ré parcialmente provido para determinar a liquidação da sentença no que
tange à indenização por danos materiais, bem como para reduzir o valor da
indenização por danos morais e afastar a retratação pública determinada pela
sentença.
(Relator(a): Carlos Alberto Garbi; Comarca: São Paulo; Órgão julgador: 2ª Câmara
Reservada de Direito Empresarial; Data do julgamento: 13/02/2017; Data de registro:
15/02/2017)
APELAÇÃO CÍVEL. INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS E MATERIAIS. EMPRESAS
QUE ATUAM NO RAMO DE TURISMO. FUNCIONÁRIOS DA AUTORA QUE SE
UTILIZARAM DA ESTRUTURA E INFORMAÇÕES DESTA PARA CRIAR UMA FILIAL DA
DEMANDADA, CONCORRENTES NO RAMO EM QUE ATUAVAM.CONCORRÊNCIA
DESLEAL CARACTERIZADA. PROVAS QUE SÃO HÁBEIS A DEMONSTRAR O ILÍCITO.
DANOS MATERIAIS. VALOR FIXADO QUE JÁ CONSIDEROU APENAS O
FATURAMENTO LÍQUIDO DA EMPRESA. QUANTUM DOS DANOS MORAIS.
RAZOABILIDADE. RECURSO DESPROVIDO. (TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1101673-0 -
Curitiba - Rel.: Sérgio Roberto N Rolanski - Unânime - - J. 06.08.2015)
9. Diante do exposto, voto no sentido de dar parcial provimento ao recurso de
apelação, para minorar o valor fixado a título de indenização por danos morais,
fixando-o em R$5.000,00.
III- DECISÃO

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ACORDAM os Desembargadores integrantes da 17ª Câmara Cível do Tribunal de


Justiça do Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao
recurso de apelação.
O julgamento foi presidido pelo Desembargador RUI BACELLAR FILHO, com voto, e
dele participaram os Desembargadores LAURI CAETANO DA SILVA e TITO CAMPOS
DE PAULA.
Curitiba, 24 de maio de 2017.
DES. LAURI CAETANO DA SILVA Relator
--
1 Sentença proferida no dia 05.05.2015 e publicada no dia 05.05.2015.
2 Art. 2º A proteção dos direitos relativos à propriedade industrial, considerado o seu
interesse social e o desenvolvimento tecnológico e econômico do País, efetua-se
mediante: I - concessão de patentes de invenção e de modelo de utilidade; II -
concessão de registro de desenho industrial; III - concessão de registro de marca; IV -
repressão às falsas indicações geográficas; e V - repressão à concorrência desleal.
Art. 3º Aplica-se também o disposto nesta Lei: I - ao pedido de patente ou de registro
proveniente do exterior e depositado no País por quem tenha proteção assegurada
por tratado ou convenção em vigor no Brasil; e II - aos nacionais ou pessoas
domiciliadas em país que assegure aos brasileiros ou pessoas domiciliadas no Brasil a
reciprocidade de direitos iguais ou equivalentes.
3 Apelação Cível Nº 70061997730, Quinta Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS,
Relator: Jorge Luiz Lopes do Canto, Julgado em 25/03/2015.
4 BARROS, Carla Eugênia Caldas. Manual de Direito da Propriedade Intelectual.
Aracalu, Evocati, 2007.
5 Art. 195. Comete crime de concorrência desleal quem: I - publica, por qualquer
meio, falsa afirmação, em detrimento de concorrente, com o fim de obter vantagem; II
- presta ou divulga, acerca de concorrente, falsa informação, com o fim de obter
vantagem; III - emprega meio fraudulento, para desviar, em proveito próprio ou alheio,
clientela de outrem; IV - usa expressão ou sinal de propaganda alheios, ou os imita, de
modo a criar confusão entre os produtos ou estabelecimentos; V - usa, indevidamente,
nome comercial, título de estabelecimento ou insígni a alheios ou vende, expõe ou
oferece à venda ou tem em estoque produto com essas referências; VI - substitui, pelo
seu próprio nome ou razão social, em produto de outrem, o nome ou razão social
deste, sem o seu consentimento; VII - atribui-se, como meio de propaganda,
recompensa ou distinção que não obteve; VIII - vende ou expõe ou oferece à venda,
em recipiente ou invólucro de outrem, produto adulterado ou falsificado, ou dele se
utiliza para negociar com produto da mesma espécie, embora não adulterado ou
falsificado, se o fato não constitui crime mais grave; IX - dá ou promete dinheiro ou
outra utilidade a empregado de concorrente, para que o empregado, faltando ao
dever do emprego, lhe proporcione vantagem; X - recebe dinheiro ou outra utilidade,
ou aceita promessa de paga ou recompensa, para, faltando ao dever de empregado,
proporcionar vantagem a concorrente do empregador; XI - divulga, explora ou utiliza-
se, sem autorização, de conhecimentos, informações ou dados confidenciais, utilizáveis
na indústria, comércio ou prestação de serviços, excluídos aqueles que sejam de
119

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

conhecimento público ou que sejam evidentes para um técnico no assunto, a que teve
acesso mediante relação contratual ou empregatícia, mesmo após o término do
contrato; XII - divulga, explora ou utiliza-se, sem autorização, de conhecimentos ou
informações a que se refere o inciso anterior, obtidos por meios ilícitos ou a que teve
acesso mediante fraude; ou XIII - vende, expõe ou oferece à venda produto,
declarando ser objeto de patente depos itada, ou concedida, ou de desenho industrial
registrado, que não o seja, ou menciona-o, em anúncio ou papel comercial, como
depositado ou patenteado, ou registrado, sem o ser; XIV - divulga, explora ou utiliza-
se, sem autorização, de resultados de testes ou outros dados não divulgados, cuja
elaboração envolva esforço considerável e que tenham sido apresentados a entidades
governamentais como condição para aprovar a comercialização de produtos.
6 Art. 208. A indenização será determinada pelos benefícios que o prejudicado teria
auferido se a violação não tivesse ocorrido.
7 Programa de Responsabilidade Civil, 5ª ed., São Paulo: Malheiros, 2004, item 19.5,
pág.106/110.

2.1.13. CÉDULA DE CRÉDITO BANCÁRIO – COMISSÃO DE PERMANÊNCIA

AÇÃO REVISIONAL. CÉDULA DE CRÉDITO BANCÁRIO COM GARANTIA

FIDUCIÁRIA. PEDIDOS JULGADOS PARCIALMENTE PROCEDENTES. RECURSO DE

APELAÇÃO - DA RÉ: 1. COMISSÃO DE PERMANÊNCIA. EXIGIBILIDADE. SÚMULA

472 DO STJ. IMPOSSIBILIDADE DE CUMULAÇÃO COM OUTROS ENCARGOS DE

MORA. 2. REPETIÇÃO SIMPLES DOS VALORES EFETIVAMENTES PAGOS A MAIOR.

RECURSO PROVIDO. RECURSO ADESIVO ­ DO AUTOR: 3. JUROS

REMUNERATÓRIOS INCIDENTES SOBRE O IMPOSTO SOBRE OPERAÇÕES

FINANCEIRAS. AUSÊNCIA DE INTERESSE RECURSAL. 4. CAPITALIZAÇÃO DE JUROS

EXPRESSAMENTE CONTRATADA. 5. TAXA DE JUROS REMUNERATÓRIOS.

AUSÊNCIA DE ABUSIVIDADE. 6. MORA DEBENDI CONFIGURADA. INEXISTÊNCIA

DE COBRANÇA DE ENCARGOS ABUSIVOS NO PERÍODO DA NORMALIDADE

CONTRATUAL. 7. LITIGÂNCIA DE MÁ-FÉ CARACTERIZADA. QUESTÕES DECIDIDAS

EM AÇÃO ANTERIORMENTE AJUIZADA NO JUIZADO ESPECIAL CÍVEL. ARTIGO 80,

V DO CPC. DESNECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DE DANO OU PREJUÍZO. 8.

ÔNUS DA SUCUMBÊNCIA MANTIDO. RECURSO PARCIALMENTE CONHECIDO E,

NA PARTE CONHECIDA, DESPROVIDO. 1. De acordo com a súmula 472 do STJ, para

o período de anormalidade contratual, deve ser mantida a cláusula contratual na parte


120

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

em que estabelece a cobrança de comissão de permanência, afastando a incidência

de outros encargos moratórios, sob pena de caracterizar bis in idem. O cálculo da

comissão de permanência tem como limite a somatória dos juros remuneratórios, dos

juros moratórios e da multa. 2. É possível computar no cálculo da prestação do

contrato juros capitalizados mensalmente, desde que as partes tenham expressamente

pactuado cláusula nesse sentido, a teor do artigo 28, §1º, inciso I da Lei nº

10.931/2004, aplicável para a cédula de crédito bancário. 3. A taxa de juros pode ser

livremente pactuada, admitindo- se sua revisão somente em situações excepcionais

quando ficar demonstrado que são evidentemente abusivas.

(TJPR - 17ª C.Cível - AC - 1631642-4 - Região Metropolitana de Maringá - Foro Central

de Maringá - Rel.: Lauri Caetano da Silva - Unânime - J. 24.05.2017)

Inteiro Teor

I- RELATÓRIO
1. Cuida-se de recurso de apelação e recurso adesivo interpostos em virtude da
sentença1 proferida pelo MM. Dr. Juiz da 3ª Vara Cível do Foro Central da Comarca da
Região Metropolitana de Maringá, às f. 299/307 (mov. 57.1) dos autos nº 14913-
27.2014.8.16.0017 de ação com pedido de revisão das cláusulas financeiras de cédula
de crédito bancário com garantia fiduciária (f. 62/65 ­ mov. 1.7), proposta por João
Mayk de Araujo Pereira em face de Omni S/A Crédito, Financiamento e Investimento,
pela qual julgou parcialmente procedentes os pedidos formulados na inicial para
afastar a cobrança da comissão de permanência. Julgou improcedentes os pedidos
referentes à capitalização de juros e à taxa de juros remuneratórios. Julgou extinto,
sem resolução de mérito, os pedidos referentes às tarifas de registro e de outros e aos
juros remuneratórios incidentes sobre o Imposto sobre Operações Financeiras, ante a
existência da coisa julgada. Ainda, condenou o
autor ao pagamento de multa por litigância de má-fé, no valor de R$1.000,00, nos
termos do artigo 81, §1º do Código de Processo Civil/2015, considerando a potencial
intensão do autor em duplicar a possibilidade de um resultado financeiro, por decisões
distintas (fundamentos de f. 300/301 ­ mov. 57.1). Por fim, condenou o autor ao
pagamento das custas processuais e dos honorários advocatícios, fixados em
R$2.000,00.
2. A ré interpôs recurso de apelação (f. 313/316 ­ mov.
62.1), pleiteando a reforma da sentença na parte que afastou a comissão de
permanência. Alegou que devem prevalecer os princípios da autonomia da vontade e
da força obrigatória dos contratos.
Contrarrazões às f. 364/370 (mov. 68.1).

121

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

3. O autor interpôs recurso adesivo (f. 330/362 ­ mov.


67.1), pleiteando a reforma da sentença para (i) afastar os juros remuneratórios
incidentes sobre o Imposto sobre Operações Financeiras; (ii) limitar a taxa de juros
remuneratórios; (iii) expurgar a capitalização de juros do cálculo das prestações; (iv)
descaracterizar a mora; (v) afastar a multa por litigância de má-fé.
Ao final, pediu a redistribuição do ônus da sucumbência.
Contrarrazões às f. 376/381 (mov. 72.1).
É o relatório.
II- VOTO
Do recurso de apelação interposto pela ré.
Presentes os pressupostos recursais de admissibilidade, intrínsecos e extrínsecos,
conheço do recurso de apelação.
3 4. É perfeitamente possível promover a revisão dos contratos, através da
intervenção do Estado, sem ofensa dos princípios que orientam a liberdade de
contratar. Diz a doutrina que “(...) A vontade das partes não é mais a única fonte de
interpretação que possuem os juízes para interpretar um instrumento contratual. A
evolução doutrinária do direito dos contratos já pleiteava uma interpretação
teleológica do contrato, um respeito maior pelos interesses sociais envolvidos, pelas
expectativas legítimas das partes, especialmente das partes que só tiveram a liberdade
de aderir ou não aos termos pré-elaborados”. (Cláudia Lima Marques em “Contratos
no Código de Defesa do Consumidor”, 4ª ed., Ed. RT, p. 227).
No caso, a relação jurídica é regulada pela legislação consumerista2; assim,
comprovada a onerosidade excessiva e a hipossuficiência do consumidor, fica
autorizada a revisão das cláusulas contratuais, independentemente do contrato ser
“pré” ou “pós” fixado. A vulnerabilidade fática ou socioeconômica do contratante
diante da instituição financeira se presume, uma vez que essa por sua posição impõe
sua superioridade a todos que com ela contratam.
Com efeito, o princípio da força obrigatória dos contratos - pacta sunt servanda - foi
mitigado para se coadunar com a sistemática do Código de Defesa do Consumidor, e
também para atender a função social dos contratos, agora expressamente prevista no
artigo 421 do Código Civil, “a liberdade de contratar será exercida em razão e nos
limites da função social do contrato”.
5. Para o período de anormalidade contratual as partes ajustaram a cláusula nº 5 com
o seguinte teor: “05. Em caso de mora no pagamento de quaisquer valores devidos
nos termos desta Cédula, inclusive principal ou juros, sem prejuízo do disposto nas
demais cláusulas da presente, incidirão sobre o saldo devedor devidamente atualizado
os seguintes encargos: i) juros de mora de 1% (um por cento) ao mês ou fração de
mês; ii) comissão de permanência à taxa de mercado, nunca inferior aos encargos
pactuados nesta Cédula; iii) multa não compensatória de 2% (dois por cento) sobre o
montante do débito e encargos; e iv) na hipótese do Credor vir a ser compelido a
recorrer a meios administrativos ou judiciais para receber o
seu crédito, honorários advocatícios fixados em 10% do valor do saldo devedor, além
de tarifas e despesas de cobrança, inclusive custas.”

122

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

Analisando tal cláusula verificamos que foi prevista para o período da anormalidade
contratual a incidência da comissão de permanência cumulada com juros moratórios e
multa contratual de 2%, ferindo a orientação do Superior Tribunal de Justiça fixada no
REsp 1.058.114-RS, sob o rito do artigo 543-C do Código de Processo Civil, com a
seguinte ementa:
DIREITO COMERCIAL E BANCÁRIO. CONTRATOS BANCÁRIOS SUJEITOS AO
CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR. PRINCÍPIO DA BOA-FÉ OBJETIVA.
COMISSÃO DE PERMANÊNCIA. VALIDADE DA CLÁUSULA. VERBAS INTEGRANTES.
DECOTE DOS EXCESSOS. PRINCÍPIO DA CONSERVAÇÃO DOS NEGÓCIOS
JURÍDICOS. ARTIGOS 139 E 140 DO CÓDIGO CIVIL ALEMÃO. ARTIGO 170 DO
CÓDIGO CIVIL BRASILEIRO. 1. O princípio da boa-fé objetiva se aplica a todos os
participes da relação obrigacional, inclusive daquela originada de relação de consumo.
No que diz respeito ao devedor, a expectativa é a de que cumpra, no vencimento, a
sua prestação. 2. Nos contratos bancários sujeitos ao Código de Defesa do
Consumidor, é válida a cláusula que institui comissão de permanência para viger após
o vencimento da divida. 3. A importância cobrada a título de comissão de
permanência não poderá ultrapassar a soma dos encargos remuneratórios e
moratórios previstos no contrato, ou seja: a) juros remuneratórios à taxa média de
mercado, não podendo ultrapassar o percentual contratado para o período de
normalidade da operação; b) juros moratórios até o limite de 12% ao ano; e c) multa
contratual limitada a 2% do valor da prestação, nos termos do art. 52, § 1º do CDC. 4.
Constatada abusividade dos encargos pactuados na cláusula de comissão de
permanência, deverá o juiz decotá- los, preservando, tanto quanto possível, a vontade
das partes manifestada na celebração do contrato, em homenagem ao princípio da
conservação dos negócios jurídicos consagrado no arts. 139 e 140 do Código Civil
alemão e reproduzido no art.. 170 do Código Civil brasileiro. 5. A decretação de
nulidade de cláusula contratual é medida excepcional, somente adotada se impossível
o seu aproveitamento. 6. Recurso especial conhecido e parcialmente provido.
Frise-se que tal entendimento foi consolidado com a edição da Súmula 472 do
Superior Tribunal de Justiça: “A cobrança de comissão de permanência - cujo valor
não pode ultrapassar a soma dos encargos remuneratórios e moratórios previstos no
contrato ­ exclui a exigibilidade dos juros remuneratórios, moratórios e da multa
contratual”.
5 Esse posicionamento corrobora o que havia sido assentado no voto da lavra do
eminente Ministro Ari Pargendler, no julgamento do REsp 834968/RS, de 14.03.2007:
a comissão de permanência abarca, ao mesmo tempo, as características de correção
monetária, vez que atualiza monetariamente os valores inadimplidos; juros
remuneratórios, já que configura remuneração pelo capital disponibilizado; juros
moratórios, pois compensa o lapso de tempo de inadimplente; e de multa contratual,
visto que representa também uma sanção pelo inadimplemento.
Portanto, quando analisamos a cláusula contratual que estabelece as penalidades para
a hipótese de inadimplemento da obrigação na data do vencimento, devemos
aproveitar a cláusula estabelecida pelas partes contratantes, mantendo-a quanto à
possibilidade de cobrança da comissão de permanência, declarando-a inválida na
123

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

parte em que, além desta, estabelece a possibilidade de cobrança de outros encargos


de natureza moratória, sob pena de bis in idem.
É importante frisar que o percentual exigível a título de comissão de permanência não
pode ultrapassar a somatória de: juros moratórios de 12% ao ano + multa de 2% do
valor da prestação + juros remuneratórios limitados ao percentual contratado.
6. Quando a sentença declara ilegal ou abusiva uma determinada cláusula financeira
de contrato de mútuo, a repetição dos valores pagos a maior é consequência lógica
da parte declaratória do provimento jurisdicional. Dessa forma, a devolução dos
valores cobrados a maior deve ser na forma simples e independe da prova do erro.
AGRAVO REGIMENTAL. CONTRATO BANCÁRIO. AÇÃO REVISIONAL.
POSSIBILIDADE.
CAPITALIZAÇÃO MENSAL DE JUROS. PACTUAÇÃO EXPRESSA. NECESSIDADE.
SÚMULAS N. 5 E 7/STJ. COMISSÃO DE PERMANÊNCIA. LICITUDE DA COBRANÇA.
JUROS MORATÓRIOS. MULTA CONTRATUAL. AUSÊNCIA DE
PREQUESTIONAMENTO. REPETIÇÃO DO INDÉBITO E COMPENSAÇÃO.
POSSIBILIDADE. COMPENSAÇÃO DE HONORÁRIOS.
FUNDAMENTAÇÃO DEFICIENTE. SÚMULA N. 284/STF. (...) 4. Segundo a
jurisprudência do STJ, é permitida a compensação de valores e a repetição do
indébito sempre que constatada a
6 cobrança indevida do encargo exigido, sem que, para tanto, haja necessidade de
ser comprovado erro no pagamento. 5. Agravo regimental desprovido. (AgRg no Ag
1345010 / SC, Min. JOÃO OTÁVIO DE NORONHA, Quarta Turma, DJ 07.04.2011)
AGRAVO REGIMENTAL. CONTRATO BANCÁRIO. AÇÃO REVISIONAL.
MANUTENÇÃO DO BEM NA POSSE DO DEVEDOR. DESCARACTERIZAÇÃO DA
MORA. SÚMULA N. 182/STJ.
COMISSÃO DE PERMANÊNCIA. LICITUDE. REPETIÇÃO E COMPENSAÇÃO DE
VALORES.
POSSIBILIDADE. (...) 3. A jurisprudência do STJ está consolidada no sentido de
permitir a compensação de valores e a repetição do indébito sempre que constatada a
cobrança indevida do encargo exigido, sem que, para tanto, haja necessidade de se
comprovar erro no pagamento. 4. Agravo regimental parcialmente provido. (STJ -
AgRg no REsp 942883 / RS - QUARTA TURMA - Ministro JOÃO OTÁVIO DE
NORONHA ­ J. 0402.2010)
PROCESSUAL CIVIL E BANCÁRIO. AGRAVO NO RECURSO ESPECIAL. AÇÃO
REVISIONAL.
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OMISSÃO, CONTRADIÇÃO OU OBSCURIDADE.
NÃO OCORRÊNCIA. TAXA DE JUROS REMUNERATÓRIOS. CAPITALIZAÇÃO
MENSAL DE JUROS. COMPENSAÇÃO DE VALORES. POSSIBILIDADE. HARMONIA
ENTRE O ACÓRDÃO RECORRIDO E A JURISPRUDÊNCIA DO STJ. REEXAME DE
FATOS. INTERPRETAÇÃO DE CLÁUSULAS CONTRATUAIS. INADMISSIBILIDADE.
MORA. CARACTERIZAÇÃO. (...) - Admite-se a repetição do indébito,
independentemente da prova de que o pagamento tenha sido realizado por erro, com
o objetivo de vedar o enriquecimento ilícito do banco em detrimento do devedor. (...)

124

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

(AgRg no REsp 844405 / RS, Min. NANCY ANDRIGHI, Terceira Turma, DJe
28/09/2010)
No particular, o extrato de pagamento de f. 182 (mov.
25.6) demonstra que algumas prestações foram pagas em atraso. Assim, caso
comprovada a cobrança da comissão de permanência cumulada com outros encargos
de mora, o excedente deve ser devolvido na forma simples, com o acréscimo de juros
de mora de 1% ao mês desde a citação e correção monetária pela média dos índices
INPC/IGP-DI a partir do desembolso. Fica permitida a compensação com eventual
débito nos termos do artigo 368 do Código Civil. O quantum deve ser apurado em
sede de liquidação de sentença.
No cálculo deve ser expurgado para fins de repetição somente o valor que exceder
ao índice da comissão de permanência cobrado sobre o valor das prestações pagas
após a data do respectivo vencimento. Observo que a comissão de permanência é
encargo moratório e como tal não foi computado no valor prefixado da prestação.
Assim, na hipótese do devedor ter efetuado o pagamento de prestação após a data
do vencimento e ter sido cobrado como
7 acréscimo moratório índice que supere os juros moratórios de 1% + multa de 2% +
juros remuneratórios no limite da taxa contratada, o excedente deve ser repetido. O
acréscimo acima referido deve ser discriminado na fase de liquidação pelo autor.
Do recurso adesivo interposto pelo autor.
Não conheço do recurso na parte que trata da incidência dos juros remuneratórios
sobre o Imposto sobre Operações Financeiras, pois tal questão foi julgada extinta, sem
resolução de mérito, ante a existência da coisa julgada. Portanto, o apelante carece de
interesse recursal.
Com a ressalva supra, presentes os pressupostos processuais de admissibilidade,
intrínsecos e extrínsecos, conheço em parte do recurso.
7. Analisando o contrato que serve de supedâneo à demanda revisional, observa-se
que se trata de cédula de crédito bancário (f. 62/65 ­ mov. 1.7), regulada pela Lei nº
10.931/2004.
Assim, no que tange à modalidade contratual em questão, anoto que o artigo 28, §1º,
inciso I3 prevê a possibilidade de capitalização dos juros, desde que expressamente
pactuada. Nesse sentido, já se manifestou o STJ no REsp 979.224/RS4. A questão foi
regulada por lei específica, não havendo espaço para a aplicação da súmula 121 do
STF. Inclusive, pelo mesmo motivo, não há que se falar em declaração incidental de
institucionalidade da Medida Provisória nº 2170-36/01.
No caso em tela, pela leitura do contrato (f. 63 ­ mov.
1.7), depreende-se que a aludida capitalização de juros foi expressamente pactuada5
na cláusula nº 1, razão pela qual sua cobrança deve ser mantida.
Ainda, ao contrário do que afirma o recorrente, não houve ofensa ao dever de
informação ou ainda a nenhum outro preceito do Código de Defesa do Consumidor.
O contrato foi redigido em termos claros e com caracteres legíveis, consoante
estabelece o artigo 54, parágrafo terceiro do Código de Defesa do Consumidor.
8. Sobre os juros remuneratórios, o Superior Tribunal de Justiça firmou a seguinte
orientação (REsp 1.061.530-RS):
125

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

ORIENTAÇÃO 1 - JUROS REMUNERATÓRIOS a) As instituições financeiras não se


sujeitam à limitação dos juros remuneratórios estipulada na Lei de Usura (Decreto
22.626/33), Súmula 596/STF; b) A estipulação de juros remuneratórios superiores a
12% ao ano, por si só, não indica abusividade; c) São inaplicáveis aos juros
remuneratórios dos contratos de mútuo bancário as disposições do art. 591 c/c o art.
406 do CC/02; d) É admitida a revisão das taxas de juros remuneratórios em situações
excepcionais, desde que caracterizada a relação de consumo e que a abusividade
(capaz de colocar o consumidor em desvantagem exagerada ­ art. 51, §1º, do CDC)
fique cabalmente demonstrada, ante às peculiaridades do julgamento em concreto.
Como parâmetro para aferir a existência de abusividade foi estabelecido no voto
condutor o seguinte: “Todavia, esta perquirição acerca da abusividade não é
estanque, o que impossibilita a adoção de critérios genéricos e universais. A taxa
média de mercado, divulgada pelo Banco Central, constitui um valioso referencial, mas
cabe somente ao juiz, no exame das peculiaridades do caso concreto, avaliar se os
juros contratados foram ou não abusivos.”
Dessa forma, infere-se que a taxa de juros pode ser livremente pactuada (inclusive em
patamar superior a 12% ao ano), admitindo-se sua revisão somente em situações
excepcionais quando ficar demonstrado que são evidentemente abusivas.
No presente caso, observa-se que a taxa de juros remuneratórios foi fixada em 48,5%
ao ano (f. 62 ­ mov. 1.7), portanto, dentro dos limites da taxa média de mercado
(19,7% a.a.)6, assim, não há razão para sua modificação, mantendo-se o percentual
fixado no contrato.
Além do mais, conforme dicção da Súmula 382 do Superior Tribunal de Justiça7, não
se pode considerar presumidamente abusiva taxa acima de 12% ano, sem que tal fato
esteja cabalmente comprovado nos autos. O entendimento jurisprudencial é de que
para ser considerada abusiva a taxa de juros remuneratórios contratada deve
representar uma vez e meia, ao dobro ou ao triplo da taxa média de mercado.
APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DE REVISÃO DE CONTRATO - CONTRATO DE
FINANCIAMENTO CELEBRADO EM 16.09.2011 - CARÊNCIA DE AÇÃO - AUSÊNCIA
DE INTERESSE DE AGIR - COMISSÃO DE PERMANÊNCIA NÃO CONTRATADA -
MATÉRIA DE ORDEM PÚBLICA - CONHECIMENTO DE OFÍCIO - ARTIGO 267,
INCISO VI E § 3º, DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL - INVERSÃO DO ÔNUS DA
PROVA - DESNECESSIDADE, IN CASU - PROVAS DOCUMENTAIS CONSTANTES
NOS AUTOS - JUROS CAPITALIZADOS - EXPRESSA PREVISÃO NO CONTRATO -
POSSIBILIDADE - PARCELAS PREFIXADAS - AUSÊNCIA DE ANATOCISMO -
MÉTODO COMPOSTO DE JUROS PARA A FORMAÇÃO DO CÁLCULO - TAXA DE
JUROS REMUNERATÓRIOS - ABUSIVIDADE NÃO CONFIGURADA - AVALIAÇÃO
CONFORME A TAXA MÉDIA DE JUROS DIVULGADA PELO BACEN - LIMITAÇÃO À
TAXA SELIC - INADMISSIBILIDADE - PRECEDENTES STJ - TARIFA DE CADASTRO -
RECURSOS ESPECIAIS REPRESENTATIVOS DA CONTROVÉRSIA Nº 1.251.331/RS E
1.255.573/RS - MANUTENÇÃO DOS HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS.1. As matérias
de ordem pública referidas no art. 267, §3º, do Código de Processo Civil, podem ser
reconhecidas de ofício pelo Juiz em qualquer grau de Jurisdição.2. Considerando que
as questões debatidas estão devidamente provadas pelos documentos constantes dos
126

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

autos, especificamente o contrato celebrado, bem como, há decisões acerca do mérito


da discussão, é desnecessária a inversão do ônus da
prova.3. Sob a égide dos Recursos Repetitivos, o Superior Tribunal de Justiça firmou
entendimento segundo o qual “A capitalização dos juros em periodicidade inferior à
anual deve vir pactuada de forma expressa e clara. A previsão no contrato bancário de
taxa de juros anual superior ao duodécuplo da mensal é suficiente para permitir a
cobrança da taxa efetiva anual contratada” (REsp 973827/RS, Rel. Ministra Maria Isabel
Gallotti, 2ª Seção, DJe 24/09/2012).4. A previsão contratual de parcelas prefixadas
demonstra a utilização de método composto de formação dos juros, situação admitida
em nosso ordenamento jurídico, que difere do anatocismo.5. No tocante à taxa de
juros, é preciso ter em vista, em primeiro lugar, a orientação da Súmula nº 382, do
Superior Tribunal de Justiça, segundo a qual “a estipulação de juros remuneratórios
superiores a 12% ao ano, por si só, não indica abusividade”.6. Somente se configuram
abusivos os juros remuneratórios quando fixados em dissonância com a média
praticada pelo mercado em cada período e que exceda a uma vez e meia, ao dobro
ou ao triplo da taxa referencial estimada pelo Banco Central do Brasil. Precedentes do
STJ.
7. É inviável a adoção da Taxa Selic como parâmetro de limitação dos juros
remuneratórios, pois não representa a taxa média praticada pelo mercado.Precedentes
STJ.8. A cobrança de tarifa de cadastro já teve sua legalidade declarada pelo Superior
Tribunal de Justiça em Recursos Especiais Representativos da Controvérsia (REsp nº
1.251.331/RS e 1.255.573/RS) e por esta Corte no Enunciado nº 02, das 17ª e 18ª
Câmaras Cíveis.9. Os honorários sucumbenciais fixados devem ser mantido por
atenderem os parâmetros dispostos no art. 20 do Código de Processo
Civil.EXTINÇÃO PARCIAL DO FEITO, EX OFFICIO, POR AUSÊNCIA DE INTERESSE DE
AGIR.RECURSO CONHECIDO E NÃO PROVIDO. (TJPR - 17ª C.Cível - AC - 1226143-5
- Curitiba - Rel.: Rosana Amara Girardi Fachin - Unânime - - J. 08.07.2015)
9. Apenas a cobrança de encargos abusivos no período da normalidade contratual,
leia-se juros remuneratórios e capitalização, afasta a mora, segundo orientação do
Superior Tribunal de Justiça8. Assim, restou prejudicado o pedido de
descaracterização da mora.
10. O autor pede para que seja afastada a multa por litigância de má-fé, alegando a
inexistência de fatos distorcidos.
Nos termos do artigo 80 do Código de Processo Civil/2015, reputa-se litigante de má-
fé aquele que:
“I - deduzir pretensão ou defesa contra texto expresso de lei ou fato incontroverso; II -
alterar a verdade dos fatos; III - usar do processo para conseguir objetivo ilegal; IV -
opuser resistência injustificada ao andamento do processo;
V - proceder de modo temerário em qualquer incidente ou ato do processo; VI -
provocar incidente manifestamente infundado; VII - interpuser recurso com intuito
manifestamente protelatório. “
Não há dúvidas de que é dever das partes proceder com lealdade e boa-fé, na defesa
de seus interesses.

127

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

No caso concreto restou assente a litigância de má-fé praticada pelo autor ao formular
pedido referente às tarifas de registro e de “outros” e aos juros remuneratórios
incidentes sobre o Imposto sobre Operações Financeiras, quando tais pedidos já
foram julgados no âmbito do Juizado Especial Cível (autos nº 9894-
37.2014.8.16.0018). Esclareço que os pedidos foram julgados parcialmente
procedentes para reconhecer a abusividade/ilegalidade das tarifas. O autor não logrou
êxito em relação aos juros remuneratórios incidentes sobre o Imposto sobre
Operações Financeiras, que inclusive foi objeto do presente recurso.
Entende o Superior Tribunal de Justiça que “O art. 17 do Código de Processo Civil
(art. 80, CPC/2015), ao definir os contornos dos atos que justificam a aplicação da
multa por litigância de má-fé, pressupõe o dolo da parte no entravamento do trâmite
processual, manifestado por conduta intencionalmente maliciosa e temerária” (STJ,
1ªT., AgRg no Ag 1021049/SP, Rel. Min. Denise Arruda, DJe 05.11.2008). Quanto a
isso, é de se destacar que nem o dispositivo em comento, e nem os demais que
tratam da matéria, exigem a ocorrência de “dano” à parte adversa para que se possa
aplicar a multa punitiva. Aliás, pela própria redação do artigo 81, caput do Código de
Processo Civil/20159 (art.
18 do CPC/1973), pode-se verificar que a multa não se confunde com eventual
indenização por prejuízos causados ao outro litigante. De mais a mais, é de se
considerar que a litigância de má-fé, muito embora nem sempre ocasione perdas
patrimoniais, representa sempre um
“dano” à atividade jurisdicional, afetando inevitavelmente a lealdade e boa-fé
processual. E foi exatamente este tipo de conduta que o legislador quis coibir.
Acerca do tema, valho-me dos precedentes a seguir:
JUIZADOS ESPECIAIS CÍVEIS. RECURSO INOMINADO. PROCESSO CIVIL. NULIDADE
DE TAXAS ILEGAIS. REEMBOLSO DE DESPESAS EFETIVADAS. QUESTÃO DECIDIDA
E JULGADA NA AÇÃO ANTERIORMENTE AJUIZADA. CONTINÊNCIA DE AÇÕES.
LITISPENDÊNCIA. EXTINÇÃO. LITIGÂNCIA DE MÁ-FÉ. RECURSO CONHECIDO E
IMPROVIDO. SENTENÇA MANTIDA. 1. Trata-se de ação de nulidade de cobrança de
taxas contratuais com pedido de repetição de indébito, cujos pedidos foram julgados
improcedentes em razão da litispendência, originada pela ação nº 2013.01.1.163851-
2, que tramitou na 4ª Vara Cível de Brasília. A autora recorreu pedindo a reforma da
sentença para afastar a sua condenação por litigância de má-fé e pelas despesas
processuais, ao argumento de que não estaria configurada sua má-fé, haja vista que
não ajuizou ação idêntica à que tramitou na 4ª Vara Cível. Aduziu que aqui a discussão
se referia às tarifas bancárias e não ao contrato como um todo. 2. Cada ação tem uma
individualidade que a identifica, que se infere dos elementos que a compõem. Nos
termos do art. 301, § 3º, do CPC, há litispendência quando se repete ação que está
em curso que, na hipótese, restou configurada. 3. Os pedidos feitos neste processo
estão entre aqueles feitos na ação nº 2013.01.1.163851-2, que tramitou na 4ª Vara
Cível de Brasília, que além do pedido de revisão de outras cláusulas, abarcava a
exclusão das cláusulas que lhe impunham o pagamento de taxa de serviços de
terceiro, tarifa de cadastro e registro do contrato, sendo que na sentença julgou-se
ilegal apenas a tarifa denominada TAC, e, em 2º grau reconheceu-se, também, a
128

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

ilegalidade da tarifa de registro de contrato (Acórdão n.787421, 20130111638512APC,


Relator: GISLENE PINHEIRO, Revisor: ANGELO CANDUCCI PASSARELI, 5ª Turma
Cível, Data de Julgamento: 07/05/2014, Publicado no DJE: 14/05/2014.
Pág.: 168). 4. Não socorre a recorrente sua tese de que não teria havido má-fé na
propositura de outra ação, uma vez que, quando interpôs esta ação, em 09/12/2014,
já havia idêntica ação no juízo comum, com sentença proferida em 05/02/2014,
negando parte dos seus pedidos, aqui repetidos. Não há que se falar em direito
subjetivo de ação, uma vez que a autora-recorrente já o havia exercido e, inclusive a
jurisdição já lhe havia sido entregue. 5. A busca de manifestação judicial sobre a
mesma pretensão em vários juízos, no caso concreto na Vara Cível e nos Juizados
Especiais, usando o Judiciário para obter dois provimentos e naturalmente escolher o
que mais lhe conviesse, configura deslealdade processual da autora-recorrente.
6. Recurso conhecido e improvido. Sentença mantida pelos próprios fundamentos,
com súmula de julgamento servindo de acórdão, na forma do artigo 46 da Lei nº
9.099/95. 7. Condenada a parte recorrente vencida ao pagamento das custas
processuais adicionais, se houver, e honorários advocatícios fixados em R$ 500,00
(quinhentos reais) (art. 20 § 4.º do CPC c/c art. 55 da Lei n.º 9.099/95). (TJ-DF - ACJ:
20140020319279, Relator: ANA MARIA FERREIRA DA SILVA, Data de Julgamento:
02/06/2015, 2ª Turma Recursal dos Juizados Especiais do Distrito Federal, Data de
Publicação: Publicado no DJE : 08/06/2015 . Pág.: 288)
13 11. A sucumbência deve ser distribuída na medida da vitória e da derrota dos
litigantes no processo. Analisando os termos da pretensão e o resultado final
proporcionado pelo presente acórdão, verificamos que a parte ré sucumbiu
minimamente na sua pretensão (art. 86, parágrafo único do CPC), razão pela qual o
autor deve arcar com a integralidade do pagamento das custas processuais e dos
honorários advocatícios pelo valor fixado na sentença.
12. Diante do exposto, voto no sentido de:
a) dar provimento ao recurso de apelação para determinar a incidência exclusiva da
comissão de permanência para o período de anormalidade contratual.
b) conhecer em parte do recurso adesivo e, na parte conhecida, negar provimento.
III- DECISÃO
ACORDAM os Desembargadores integrantes da 17ª Câmara Cível do Tribunal de
Justiça do Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em dar provimento ao
recurso de apelação e conhecer em parte do recurso adesivo e, na parte conhecida,
negar provimento.
O julgamento foi presidido pelo Desembargador RUI BACELLAR FILHO, com voto, e
dele participaram os Desembargadores LAURI CAETANO DA SILVA e TITO CAMPOS
DE PAULA.
Curitiba, 24 de maio de 2017.
DES. LAURI CAETANO DA SILVA Relator
--
1 Sentença proferida no dia 05.07.2016 e publicada no dia 13.07.2016.
2 “O Código de Defesa do Consumidor é aplicável às instituições financeiras” (Súmula
nº 297).
129

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

3”Art. 28: A Cédula de Crédito Bancário é título executivo extrajudicial e representa


dívida em dinheiro, certa, líquida e exigível, seja pela soma nela indicada, seja pelo
saldo devedor demonstrado em planilha de cálculo, ou nos extratos da conta corrente,
elaborados conforme previsto no § 2o.
§ 1º Na Cédula de Crédito Bancário poderão ser pactuados: I - os juros sobre a dívida,
capitalizados ou não, os critérios de sua incidência e, se for o caso, a periodicidade de
sua capitalização, bem como as despesas e os demais encargos decorrentes da
obrigação;” --
4 “A capitalização dos juros é admissível quando pactuada e desde que haja
legislação específica que a autorize”.
5 “1. O Emitente pagará por Cédula de Crédito Bancário à Omni ou à sua ordem, na(s)
data(s) de vencimento indicada(s) no Quadro IV do preâmbulo, em moeda corrente,
nacional, a quantia nele indicada, acrescida dos juros capitalizados mensalmente dos
“Pagamentos Autorizados” e demais encargos ajustados nesta Cédula, nos termos da
Lei nº 10.931/04 e das cláusulas e condições enuncias a seguir.”
6 Referência obtida no site do Banco Central:
www.bcb.gov.br/ftp/depec/NITJ200812.xls --
7 “A estipulação de juros remuneratórios superiores a 12% ao ano, por si só, não
indica abusividade”.
8 Orientação 2, consolidada pelo Superior Tribunal de Justiça no julgamento do REsp
1.061.530-RS.
9 CPC/1973. “Art. 18. O juiz ou tribunal, de ofício ou a requerimento, condenará o
litigante de má-fé a pagar multa não excedente a um por cento sobre o valor da causa
e a indenizar a parte contrária dos prejuízos que esta sofreu, mais os honorários
advocatícios e todas as despesas que efetuou”.
CPC/2016. “Art. 81. De ofício ou a requerimento, o juiz condenará o litigante de má-
fé a pagar multa, que deverá ser superior a um por cento e inferior a dez por cento do
valor corrigido da causa, a indenizar a parte contrária pelos prejuízos que esta sofreu e
a arcar com os honorários advocatícios e com todas as despesas que efetuou”.

2.1.14. EXIBIÇÃO DE DOCUMENTOS E PRODUÇÃO ANTECIPADA DE PROVAS

AÇÃO CAUTELAR. EXIBIÇÃO DE DOCUMENTO. NATUREZA PREPARATÓRIA.

PRODUÇÃO ANTECIPADA DE PROVA. DOCUMENTO EXIBIDO. PEDIDO NÃO

RESISTIDO. AUSÊNCIA DE LITIGIOSIDADE. CONDENAÇÃO DO RÉU AO

PAGAMENTO DOS HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. IMPOSSIBILIDADE. RECURSO

PROVIDO. 1. Na medida cautelar de exibição de documentos, de natureza

preparatória, quando a parte ré promove a juntada do documento solicitado, não deve

assumir qualquer responsabilidade pelos ônus da sucumbência. As despesas realizadas

130

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

pelo autor podem ser recuperadas na ação principal. 2. A exibição de documentos

assemelha-se a cautelar de produção antecipada de provas. Quando o documento é

exibido sem resistência é dispensável a sentença por ausência de litigiosidade

(ausência de mérito) e os autos devem ser disponibilizados para as partes interessadas

solicitarem cópia ou certidão visando instruir a ação desejada. Inteligência do art. 383

do NCPC.

(TJPR - 17ª C.Cível - AC - 1668906-0 - Centenário do Sul - Rel.: Lauri Caetano da Silva

- Unânime - J. 24.05.2017)

Inteiro Teor

I- RELATÓRIO
1. Trata-se de recurso de apelação interposto por BV Financeira S/A Crédito,
Financiamento e Investimento contra sentença1 (f.57/63) dos autos da ação de
exibição de documentos nº 1155-33.2011.8.16.0066, pela qual o Juiz a quo julgou
procedente o pedido inicial, extinguindo o processo nos termos do artigo 269, II do
CPC/73. Consignou que o documento pleiteado foi exibido. Por fim, condenou a parte
ré ao pagamento das custas processuais e dos honorários advocatícios fixados em
R$100,00.
2. O réu interpôs recurso de apelação (f.69/75), pleiteando o afastamento da
condenação ao pagamento de honorários advocatícios.
Contrarrazões não apresentadas.
É o relatório.
II- VOTO
Presentes os pressupostos processuais de admissibilidade, intrínsecos e extrínsecos,
conheço do recurso.
3. A ação cautelar de exibição de documentos é de natureza preparatória e equivale,
no caso concreto, ao pedido de produção antecipada de prova.
A doutrina e a jurisprudência reconhecem que a parte vencida deve arcar com as
despesas e os honorários advocatícios nas ações cautelares de natureza satisfativa e de
natureza preparatória.
Para justificar tal posicionamento realçam a autonomia e a contenciosidade da ação
cautelar de modo a sujeitá-la aos princípios comuns da sucumbência. Assim, temos
como regra geral que a ação
cautelar tem natureza de ação, sujeitando-se o sucumbente aos honorários
advocatícios da parte contrária.
A jurisprudência, contudo, não é pacífica quando a ação cautelar é de natureza
preparatória e dependente da ação principal, posicionando-se alguns julgados que
nestes casos não cabe condenação em honorários advocatícios. Quando a ação
cautelar ou simples medida cautelar não recebe contestação ou a pretensão direta não
131

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

é resistida, parcela significativa dos operadores do direito reconhece que não cabe a
condenação em honorários advocatícios. A respeito do tema adverte Humberto
Theodoro Junior in Processo Cautelar, p. 132/133, que a ação cautelar pressupõe
litigiosidade enquanto a medida cautelar visa cumprir uma tarefa preventiva sem
contestação ou oposição, como ocorre com a produção antecipada de prova. Se não
existe lide cautelar não podemos falar em ação cautelar, mas simples medida,
projetando pela falta de contestação a impossibilidade de reconhecimento da
sucumbência.
No tocante a medida cautelar de exibição de documento, o Prof. Yussef Said Cahali,
in Honorários Advocatícios, 3ª edição, p. 343/344, assevera que o vencido somente
responde por honorários de advogado na hipótese de existência de litígio, ou seja, a
pretensão for resistida.
Esta questão já foi enfrentada nesta Câmara através do acórdão proferido no agravo
em agravo de instrumento nº 730.278- 1/01, em que foi Relator o Desembargador
Mário Helton Jorge, assinalando que quando a pretensão não é resistida e o
documento é apresentado no prazo da defesa, não devemos imputar ao réu a
obrigação de pagar honorários advocatícios. Para sedimentar esse posicionamento
citou julgado do Superior Tribunal de Justiça que diz:
“RECURSO ESPECIAL. PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO CAUTELAR DE EXIBIÇÃO DE
DOCUMENTOS. NÃO CONFIGURAÇÃO DE PRETENSÃO RESISTIDA. INCABÍVEL
FIXAÇÃO DE HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS SUCUMBENCIAIS. PROVIMENTO
NEGADO. 1. Pela aplicação dos princípios da sucumbência e da causalidade em ações
cautelares administrativas,
para haver condenação a honorários advocatícios pela sucumbência do feito, deve
estar caracterizada nos autos a resistência à exibição dos documentos pleiteados. 2.
Impossível conhecimento do recurso pela alínea “c” tendo em vista a ausência de
similitude fática dos acórdãos paradigmas e o aresto vergastado. 3. Recurso especial
improvido” (REsp 1077000/PR, Rel. Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA,
SEXTA TURMA, julgado em 20.08.2009, DJe 08.09.2009)
Pois bem! No caso em exame, pelos fatos já narrados, o réu exibiu a cópia dos
documentos solicitados (f.49/53). Portanto, podemos afirmar que a cautelar não
ultrapassa os limites de uma medida sem litigiosidade. Se o pedido foi prontamente
atendido pela parte requerida, que sequer ofereceu contestação, o processo deveria
ter sido extinto sem resolução de mérito. Na ausência de lide em razão do
atendimento da pretensão deduzida também não há que se falar em condenação do
réu em honorários advocatícios.
A respeito do tema, o Superior Tribunal de Justiça no AgRg no REsp 934.260-RS, Rel.
Min. Luis Felipe Salomão, 4ª Turma, em julgamento de 10.04.2012, publicado no DJe
13.04.2012 assentou o seguinte:
“AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. EXTRATO DE CADERNETA
POUPANÇA.
EXIBIÇÃO DE DOCUMENTO. AUSÊNCIA PRETENSÃO RESISTIDA. INCABÍVEL
FIXAÇÃO DE HONORÁRIOS SUCUMBENCIAIS. JUSTIÇA GRATUITA. FALTA DE
ELEMENTOS COMPROVANDO A IMPOSSIBILIDADE DO RECORRENTE ARCAR COM
132

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

AS DESPESAS PROCESSUAIS. AGRAVO NÃO PROVIDO. 1. Pela aplicação dos


princípios da sucumbência e da causalidade em ações cautelares de exibição de
documentos, para haver condenação a honorários advocatícios deve estar
caracterizada nos autos a resistência à exibição dos documentos pleiteados. 2. O
Tribunal de origem consignou a ausência de pretensão resistida, diante da falta de
pedido administrativo, bem como pelo fornecimento dos extratos bancários em juízo,
após o fornecimento dos dados necessários. 3. (...). 4. (...)”.
Nesse passo é importante realçar que a resistência ao pedido deve ser analisada no
aspecto endoprocessual, ou seja, pela análise dos atos praticados pela parte no
processo. A jurisprudência reconhece de forma uniforme que o contratante tem
interesse de agir na exibição do documento, através de medida autônoma. O direito
brasileiro não obriga o interessado a esgotar procedimentos administrativos para
promover as ações que entende cabíveis para a
proteção de eventual direito material ou para viabilizar o ajuizamento da ação que
entende cabível.
“Recurso Especial. Processual Civil. Instituição bancária. Exibição de documentos.
Custo de localização e reprodução dos documentos. Ônus do pagamento. - O dever
de informação e, por conseguinte, o de exibir a documentação que a contenha é
obrigação decorrente de lei, de integração contratual compulsória. Não pode ser
objeto de recusa nem de condicionantes, face ao princípio da boa-fé objetiva. - Se
pode o cliente a qualquer tempo requerer da instituição financeira prestação de
contas, pode postular a exibição dos extratos de suas contas correntes, bem como as
contas gráficas dos empréstimos efetuados, sem ter que adiantar para tanto os custos
dessa operação. (REsp 330.261/SC, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA
TURMA, julgado em 06.12.2001, DJ 08.04.2002 p. 212)”
A corroborar:
“(...) A ação de exibição de documentos não exige o esgotamento da via
administrativa como condição da ação (art. 267, VI, do CPC), sob pena de
comprometer o direito fundamental à inafastabilidade da apreciação pelo Poder
Judiciário (art. 5º, XXXV, CF) de alegada lesão de direito subjetivo. A independência
entre as instâncias jurisdicional e administrativa, consagrada na doutrina e na
jurisprudência, permite à parte que se sentir lesada invocar diretamente a tutela
jurisdicional do Estado, no caso, pretendendo a exibição de documentos na forma do
art. 844 e seguintes, do Código de Processo Civil, mesmo que ausente requerimento
administrativo neste sentido.(...)” (TJPR - 6ª C.Cível - AC 0436658-7 - Foro Central da
Região Metropolitana de Curitiba - Rel.: Juiz Conv. Luiz Cezar Nicolau - Unanime - J.
06.05.2008)
Quando o contratante ajuíza ação autônoma de natureza cautelar preparatória
postulando a exibição de documento, o réu pode se posicionar em dois sentidos:
exibir o documento comum ou apresentar resistência ao pedido formulado.
Se o réu oferece resistência à pretensão, o processo apresenta contornos de
litigiosidade, exigindo uma sentença de mérito com as consequências dela
decorrentes, ou seja, condenação da parte vencida em custas e honorários.

133

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

Por outro lado, se o réu não oferece resistência e desde logo exibe o documento
comum, fica afastada a litigiosidade, razão pela qual diante da natureza de produção
antecipada de prova fica dispensado o julgamento do mérito e os autos devem ser
disponibilizados para a parte obter cópia ou certidão de inteiro
teor visando atender ao propósito de ajuizar a ação principal.
Nestes casos, o réu não deve ser condenado em custas e honorários advocatícios. As
despesas realizadas pelo autor podem ser recuperadas na ação principal, caso a
pretensão lá deduzida seja julgada procedente.
A orientação foi mantida pelo NCPC, conjugando as regras dos artigos 383 e 396, 397
e 398. O procedimento deve ser encerrado, mediante sentença homologatória, caso o
requerido, sem resistência, apresente o documento ou coisa (Primeiros Comentários
ao Novo Código de Processo Civil, Tereza Arruda Alvim Wambier e outros, Revista dos
Tribunais, p.663).
4. Diante do exposto, voto pelo provimento do recurso, para afastar da r. sentença a
condenação do réu ao pagamento das custas processuais e dos honorários
advocatícios. O autor é beneficiário da assistência judiciária gratuita (f.35).
III- DECISÃO
ACORDAM os Desembargadores integrantes da 17ª Câmara Cível do Tribunal Justiça
do Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso.
O julgamento foi presidido pelo Desembargador RUI BACELLAR FILHO, com voto, e
dele participaram os Desembargadores LAURI CAETANO DA SILVA e TITO CAMPOS
DE PAULA.
Curitiba, 24 de maio de 2017.
DES. LAURI CAETANO DA SILVA Relator
--
1 Sentença proferida em 12.11.2015 e publicada em 21.07.2016.

2.1.15. REVISIONAL BANCÁRIA – TARIFAS DE CONTRATAÇÃO

AÇÃO REVISIONAL. CONTRATO DE MÚTUO COM GARANTIA FIDUCIÁRIA.

PEDIDOS JULGADOS IMPROCEDENTES. 1. CAPITALIZAÇÃO DE JUROS. SÚMULAS

539 E 541 DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. CONTRATO DE FINANCIAMENTO

COM PRESTAÇÕES PREFIXADAS. VALOR APURADO NO MOMENTO DA

CONTRATAÇÃO. MÉTODO DE CÁLCULO VÁLIDO. VALORES DAS PRESTAÇÕES

QUE NÃO ADICIONAM JUROS SOBRE JUROS VENCIDOS. 2. TARIFAS DE

CADASTRO E DE COBRANÇA. PACTUAÇÃO VÁLIDA. CONTRATO FIRMADO ANTES

DA VIGÊNCIA DA RESOLUÇÃO DO CMN 3518/2007. VALOR NÃO ABUSIVO.

SÚMULA 565 DO STJ. 4. TARIFAS DE SERVIÇOS DE TERCEIROS, DE REGISTRO E DE

134

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

AVALIAÇÃO. ENCARGOS NÃO CONTRATADOS. AUSÊNCIA DE PROVA DE

PAGAMENTO. DECLARAÇÃO DE ABUSIVIDADE EM TESE. FALTA DE INTERESSE

PROCESSUAL. 5. ÔNUS DA SUCUMBÊNCIA MANTIDO. RECURSO DESPROVIDO. 1.

É permitida a capitalização de juros com periodicidade inferior a um ano em contratos

celebrados após 31/3/2000, data da publicação da Medida Provisória nº

1.96317/2000, em vigor como MP nº 2.170-01, desde que expressamente pactuada; 2.

A capitalização dos juros em periodicidade inferior à anual deve vir pactuada de forma

expressa e clara. A previsão no contrato bancário de taxa de juros anual superior ao

duodécuplo da mensal é suficiente para permitir a cobrança da taxa efetiva anual

contratada. 3. Quando o contrato de financiamento estabelece o pagamento de

parcelas prefixadas não há juro vencido a ser pago, de modo que a taxa efetiva anual

divergente da taxa mensal, na verdade, evidencia que, no processo de formação da

taxa efetiva de juros do contrato, o banco utilizou-se de método matemático que não

é vedado pela legislação. O método de cálculo da prestação pelo sistema de juros

compostos não pode ser confundido com anatocismo. O valor de cada prestação a ser

paga é composto pela fração do capital mais o juro remuneratório. 4. A cobrança das

tarifas de cadastro e de cobrança, também denominadas pelas financeiras como tarifas

de abertura de crédito e de emissão de boleto, é legítima quando prevista no contrato

firmado antes da vigência da Resolução nº 3.518/2007 do Conselho Monetário

Nacional.

(TJPR - 17ª C.Cível - AC - 1625463-6 - Região Metropolitana de Londrina - Foro

Regional de Cambé - Rel.: Lauri Caetano da Silva - Unânime - J. 24.05.2017)

Inteiro Teor

I- RELATÓRIO
1. Cuida-se de recurso de apelação interposto em virtude da sentença1 proferida pelo
MM. Dr. Juiz de Direito da 1ª Vara Cível do Foro Regional de Cambé da Comarca da
Região Metropolitana de Londrina, às f. 382/405 (mov. 111.1) dos autos nº 4126-
84.2012.8.16.0056 de ação com pedido de revisão de contrato de mútuo com garantia
fiduciária (f. 355/356 ­ mov. 91.1), proposta por Ronaldo Adriano Toneto em face de
Aymoré Crédito, Financiamento e Investimento S/A, que julgou improcedentes os

135

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

pedidos formulados na inicial. Consequentemente, condenou o autor ao pagamento


das custas processuais e dos honorários advocatícios, fixado em R$3.000,00.
2. O autor interpôs recurso de apelação (f. 413/422 - mov. 117.1), pleiteando a
reforma da sentença para expurgar a capitalização de juros do cálculo das prestações
e afastar a cobrança da das tarifas de cadastro, de cobrança e de serviços de terceiros,
de registro e de avaliação.
Nas contrarrazões (f. 430/475 ­ mov. 123.1), a ré alega ofensa ao disposto no artigo
514, II do Código de Processo Civil/1973 e refuta os argumentos do recurso.
É o relatório.
II- VOTO
Presentes os pressupostos processuais de admissibilidade, intrínsecos e extrínsecos,
conheço do recurso.
3. Ao contrário do que aduz a instituição financeira ré em sede de contrarrazões (f.
430/475 ­ mov. 123.1), nas razões de apelação de f. 413/422 (mov. 117.1) estão
presentes de forma clara e precisa os motivos de fato e direito que embasam o pedido
de reforma da sentença. O apelante defende que foi computada a capitalização de
juros no cálculo das prestações do financiamento, sem constar no contrato cláusula
expressa autorizando a cobrança de juros compostos, o que é vedado pela legislação
e a abusividade da cobrança das tarifas administrativas. Portanto, não houve ofensa ao
artigo 514, II do Código de Processo Civil/1973.
4. É perfeitamente possível promover a revisão dos contratos, através da intervenção
do Estado, sem ofensa dos princípios que orientam a liberdade de contratar. Diz a
doutrina que “(...) A vontade das partes não é mais a única fonte de interpretação que
possuem os juízes para interpretar um instrumento contratual. A evolução doutrinária
do direito dos contratos já pleiteava uma interpretação teleológica do contrato, um
respeito maior pelos interesses sociais envolvidos, pelas expectativas legítimas das
partes, especialmente das partes que só tiveram a liberdade de
aderir ou não aos termos pré-elaborados”. (Cláudia Lima Marques em “Contratos no
Código de Defesa do Consumidor”, 4ª ed., Ed. RT, p. 227).
No caso, a relação jurídica é regulada pela legislação consumerista2; assim,
comprovada a onerosidade excessiva e a hipossuficiência do consumidor, fica
autorizada a revisão das cláusulas contratuais, independentemente do contrato ser
“pré” ou “pós” fixado. A vulnerabilidade fática ou socioeconômica do contratante
diante da instituição financeira se presume, uma vez que essa por sua posição impõe
sua superioridade a todos que com ela contratam.
Com efeito, o princípio da força obrigatória dos contratos - pacta sunt servanda - foi
mitigado para se coadunar com a sistemática do Código de Defesa do Consumidor, e
também para atender a função social dos contratos, agora expressamente prevista no
artigo 421 do Código Civil, “a liberdade de contratar será exercida em razão e nos
limites da função social do contrato”.
5. A respeito da capitalização de juros e da respectiva taxa, o Superior Tribunal de
Justiça autorizou a incidência de juros compostos em todos os contratos firmados após
a edição da Medida Provisória nº 1.963-17/2000 (em vigor como MP nº

136

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

2.170/36/2001), quando expressamente pactuado, bem como admitiu como válida a


taxa de juros anual contratada, fixando as seguintes súmulas:
“Súmula 539: É permitida a capitalização de juros com periodicidade inferior à anual
em contratos celebrados com instituições integrantes do Sistema Financeira Nacional a
partir de 31/3/2000 (MP n. 1.963-17/2000, reeditada como MP n. 2.170- 36/2001),
desde que expressamente pactuada”.
“Súmula 541: A previsão no contrato bancário de taxa de juros anual superior ao
duodécuplo da mensal é suficiente para permitir a cobrança da taxa efetiva anual
contratada”.
No contrato de financiamento com prestações prefixadas é possível calcular o seu
valor pelo método matemático empregado pelo contratado. O direito brasileiro,
desde a edição do Decreto 22.626, de 1933, proíbe a incidência de juros
remuneratórios sobre juros vencidos. Tal prática passou a ser conhecida como
“capitalização”, “juros compostos” ou “anatocismo”. A orientação é no sentido de
impedir que o credor, após o vencimento do crédito, possa adicionar novos juros
sobre os juros já vencidos em decorrência do inadimplemento da obrigação. Esse é o
fenômeno do anatocismo proibido pela legislação brasileira. Por outro lado, a
legislação nunca proibiu a utilização de método de cálculo composto para determinar,
no momento da contratação, o valor prefixado da prestação. Quando a taxa de juros é
integrada no valor prefixado da prestação antes de iniciar o cumprimento da
obrigação, não é possível falar em incidência de juros sobre juros vencidos. A
utilização do método de juros compostos não se confunde com anatocismo, pois o
valor de cada prestação é composto pela fração do capital (divisão do valor inicial da
operação de crédito pelo número de meses) mais o juro remuneratório e eventual
outro encargo contratado (imposto). O valor agregado ao capital integra a composição
do débito assumido, ou seja, o valor da operação de crédito contratada. Assim, o
devedor assume a obrigação de pagar, na data do vencimento, o valor prefixado de
uma prestação. Segundo o entendimento esposado, não encontra lógica reconhecer
que, quando da prefixação do valor das prestações foram incluídos juros sobre juros
vencidos ou juros computados de forma exponencial.
Portanto, restou prejudicado o pedido de declaração incidental de
inconstitucionalidade da Medida Provisória nº 1.963- 17/2000, em vigor como MP nº
2.170-36/2001.
Também não é razoável questionar a capitalização com base na súmula nº 121 do
Supremo Tribunal Federal. A orientação ditada pelo Superior Tribunal de Justiça no
julgamento do REsp nº 973.827-RS, sob o regime do artigo 543-C do Código de
Processo Civil, para os contratos bancários, suplantou a mencionada súmula.
6. A cobrança de tarifas administrativas é fiscalizada pelo Banco Central conforme
estabelece os comandos editados por ordem do Conselho Monetário Nacional.
O Conselho Monetário Nacional ­ CMN, fazendo uso das atribuições outorgadas pela
Lei 4.959/1964 regulamentou a cobrança das tarifas bancárias. A primeira delas
(Resolução 2.303/1996) proibiu a cobrança pelos seguintes serviços: fornecimento de
cartão e talonário de cheques, substituição de cartão magnético, devolução de

137

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cheques salvo por insuficiência de fundos, manutenção de conta poupança e


depósitos à ordem do Poder Judiciário e extrato mensal.
Todos os demais serviços prestados e contratados pelo correntista ou cliente estavam
autorizados. Tanto é verdade que o Banco Central tarifou o preço de todos esses
serviços. Esta resolução foi revogada pela Resolução nº 3.518/2007, que por sua vez
condicionou a cobrança das tarifas, desde que prevista no contrato ou tenha sido o
respectivo serviço previamente solicitado e autorizado.
Posteriormente, em 25.11.2010, a Resolução nº 3.518/2007 foi revogada pela
Resolução 3.919/2010, porém foi mantida a cobrança das tarifas quando houver a
previsão contratual.
Diante dessa regulamentação o Superior Tribunal de Justiça editou a súmula 565:
“A pactuação das tarifas de abertura de crédito (TAC) e de emissão de carnê (TEC),
ou outra denominação para o mesmo fato gerador, é válida apenas nos contratos
bancários anteriores ao início da vigência da Resolução-CMN n. 3.518/2007, em
30/4/2008”.
6.1. No caso em comento, o contrato foi celebrado no dia 28 de maio de 2007,
portanto, sob a égide da Resolução nº 2.303/96 do Conselho Monetário Nacional3. A
tarifa de abertura de crédito ou cadastro foi pactuada no valor de R$350,00 e a tarifa
de emissão de boleto ou cobrança foi contratada no valor de R$4,00 por boleto
bancário (f. 355 ­ mov. 91.1), de modo que o consumidor consentiu com tais
cobranças. Os valores estão na média do mercado,
razão pela qual não visualizamos qualquer abusividade. Ademais, o autor da revisional
sequer apontou no que consistia a abusividade para pedir a exclusão da cobrança e
consequente repetição do que foi pago. Somente é possível afastar a cobrança dessas
tarifas quando o autor pedir e comprovar a sua abusividade. Não é o caso dos
presentes autos.
6.2. Por outro lado, verifico que não houve a contratação das tarifas de serviços de
terceiros, de registro e de avaliação e não foi apresentada qualquer prova no sentido
de demonstrar que foram computados valores a tais títulos na operação de crédito. Se
as tarifas não foram contratadas, carece o autor de interesse processual.
7. No particular, como houve a manutenção da sentença, com a improcedência dos
pedidos, não há que se falar em repetição do indébito ou compensação de valores.
8. O ônus da sucumbência deve ser mantido conforme disciplinado na sentença.
9. Diante do exposto, voto no sentido de negar provimento ao recurso de apelação.
III- DECISÃO
ACORDAM os Desembargadores integrantes da 17ª Câmara Cível do Tribunal de
Justiça do Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em negar provimento ao
recurso de apelação.
O julgamento foi presidido pelo Desembargador RUI BACELLAR FILHO, com voto, e
dele participaram os Desembargadores LAURI CAETANO DA SILVA e TITO CAMPOS
DE PAULA.
Curitiba, 24 de maio de 2017.
DES. LAURI CAETANO DA SILVA Relator
--
138

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1 Sentença proferida e publicada no dia 23.05.2016.


2 “O Código de Defesa do Consumidor é aplicável às instituições financeiras” (Súmula
nº 297).
3 Sessão realizada 25/07/1996.

2.1.16. DESCABIMENTO DE CONDENAÇÃO EM HONORÁRIOS – CAUSÍDICO

QUE NÃO PROVOCOU O RESULTADO

AÇÃO DE REINTEGRAÇÃO DE POSSE. PROCESSO EXTINTO, SEM RESOLUÇÃO DE

MÉRITO. ART. 485, III DO CPC/15. RÉU NÃO CITADO. COMPARECIMENTO

ESPONTÂNEO. TRABALHO DO CAUSÍDICO QUE NÃO INFLUENCIOU NO DECISUM.

CONDENAÇÃO EM HONORÁRIOS. DESCABIMENTO. SENTENÇA MANTIDA.

RECURSO DESPROVIDO. "O comparecimento espontâneo do réu aos autos, sem que

seu advogado tenha efetivamente laborado no processo, não garante ao causídico

direito a honorários na hipótese de extinção do feito sem julgamento do mérito" (TJ-

DF - AC: 20120610100209, Rel.: Sebastião Coelho, 5ª T.Cív., DJE: 13/04/2015).

(TJPR - 17ª C.Cível - AC - 1649091-2 - Curitiba - Rel.: Lauri Caetano da Silva - Unânime

- J. 24.05.2017)

Inteiro Teor

I- RELATÓRIO
1. Cuida-se de recurso de apelação interposto por Marcia Regina Pereira, em virtude
da sentença de f. 82, dos autos nº 36919-81.2011.8.16.0001, de ação de reintegração
de posse, pela qual o MM. Juiz a quo julgou extinto o processo, sem resolução de
mérito, com fundamento no art. 485, III do Código de Processo Civil/15,
reconhecendo o abandono da causa. Condenou o autor ao pagamento das custas
processuais.
2. Inconformada, a ré interpôs recurso de apelação (f.85/90), pleiteando a condenação
da autora ao pagamento de honorários sucumbenciais.
Contrarrazões não apresentadas.
É o relatório.
II- VOTO
Presentes os pressupostos recursais, objetivos e subjetivos, merece o recurso ser
conhecido.

139

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3. Como é cediço, nas ações de reintegração de posse decorrentes de


inadimplemento de contrato de arrendamento mercantil, a citação ocorre apenas após
o cumprimento do mandado.
No caso em tela, o mandado de reintegração de posse não foi cumprido e,
logicamente, não foi promovida a citação. A ré compareceu espontaneamente ao
processo às f. 29/31, informando que havia ajuizado ação revisional e celebrado
acordo com o autor naqueles autos.
Pois bem. A jurisprudência vem entendendo que é possível a condenação do autor ao
pagamento de honorários ao patrono da parte ré quando esta comparece
espontaneamente ao processo. Para tanto, contudo, é necessário que o trabalho do
advogado tenha conduzido ao resultado final, seja com a resolução de mérito ou sem.
Confira-se:
PROCESSO CIVIL. ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA EM GARANTIA. BUSCA E APREENSÃO.
AUSÊNCIA DE CITAÇÃO. EXTINÇÃO DO FEITO SEM JULGAMENTO DE MÉRITO.
APELAÇÕES. AUSÊNCIA DE VÍCIOS. DESPROVIMENTO. 1. A extinção do feito por
ausência de pressuposto de constituição e desenvolvimento válido e regular do
processo (CPC, art. 267, IV) não exige a prévia intimação pessoal da parte. 2. Apenas
nas hipóteses de abandono da causa (CPC, art. 267, II e III), é imprescindível a prévia
intimação pessoal da parte, conforme prescreve o Código de Processo Civil, artigo
267, § 1º. 3. O comparecimento espontâneo do réu aos autos, sem que seu advogado
tenha efetivamente laborado no processo, não
garante ao causídico direito a honorários na hipótese de extinção do feito sem
julgamento do mérito. 4. Apelações conhecidas e desprovidas. (TJ-DF - AC:
20120610100209, Rel.: Sebastião Coelho, 5ª T.Cív., DJE : 13/04/2015)
AÇÃO REINTEGRAÇÃO DE POSSE. PROCESSO EXTINTO, SEM RESOLUÇÃO DE
MÉRITO.
PEDIDO DE DESISTÊNCIA. EXTINÇÃO COM BASE NO ART. 267, III, DO CPC.
CONDENAÇÃO DO AUTOR EM HONORÁRIOS DE SUUMBÊNCIA.
IMPOSSIBILIDADE.
AUSÊNCIA DE CITAÇÃO. RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO. “É descabida a
condenação alusiva ao pagamento da verba honorária, considerando que não ocorreu
a citação da parte executada, assim como despesas com a contratação de advogado
para patrocinar a sua defesa.” (TRF-5 - AC: 301070 PE, Rel.: Luiz Alberto Gurgel de
Faria, 4ªT, J.: 20/05/2003). (TJPR ­ AC nº 1.262.379-1, Rel.: Des. Lauri Caetano da Silva,
17ª CC, J.: 28.01.2015).
AÇÃO DE BUSCA E APREENSÃO. ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA. PROCESSO EXTINTO,
SEM RESOLUÇÃO DE MÉRITO. ART. 267, III DO CPC. RÉU NÃO CITADO.
COMPARECIMENTO ESPONTÂNEO. TRABALHO DO CAUSÍDICO QUE NÃO
INFLUENCIOU NO DECISUM.
CONDENAÇÃO EM HONORÁRIOS. DESCABIMENTO. SENTENÇA MANTIDA.
RECURSO DESPROVIDO. “O comparecimento espontâneo do réu aos autos, sem que
seu advogado tenha efetivamente laborado no processo, não garante ao causídico
direito a honorários na hipótese de extinção do feito sem julgamento do mérito” (TJ-

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DF - AC: 20120610100209, Rel.: Sebastião Coelho, 5ª T.Cív., DJE: 13/04/2015). (TJPR ­


AC nº 1.364.110-2, Rel.: Des. Lauri Caetano da Silva, 17ª CC, J.: 04.11.2015)
No caso concreto, verifica-se que o processo foi extinto por abandono do autor, ou
seja, em virtude de sua própria inércia. Note-se que sequer houve requerimento ou
consulta à ré para a extinção do processo. Ademais, sequer foi apresentada defesa,
tendo a ré juntado apenas manifestações e documentos. Assim, à luz da
jurisprudência, não é possível afirmar que o trabalho do advogado tenha influenciado
o magistrado quando da prolação da sentença não se podendo, portanto, falar em
condenação do autor ao pagamento de honorários advocatícios.
4. Ante o exposto, voto no sentido de negar provimento ao recurso.
III- DECISÃO
ACORDAM os Desembargadores integrantes da 17ª Câmara Cível do Tribunal de
Justiça do Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em negar provimento ao
recurso.
O julgamento foi presidido pelo Desembargador RUI BACELLAR FILHO, com voto, e
dele participaram os Desembargadores LAURI CAETANO DA SILVA e TITO CAMPOS
DE PAULA.
Curitiba, 24 de maio de 2017.
DES. LAURI CAETANO DA SILVA Relator

2.1.17. AÇÃO PETITÓRIA APÓS AÇÃO POSSESÓRIA IMPROCEDENTE

CIVIL E PROCESSO CIVIL. AÇÃO REIVINDICATÓRIA. PEDIDO JULGADO

PROCEDENTE. RÉ QUE RECORRE DO DECISUM. AÇÃO PETITÓRIA

FUNDAMENTADA NO JUS POSSIDENDI. INEXISTÊNCIA DE COISA JULGADA COM

AÇÃO DE REINTEGRAÇÃO DE POSSE ANTERIORMENTE AJUIZADA E JULGADA

IMPROCEDENTE. CAUSA DE PEDIR DIVERSA. AUTOR QUE COMPROVA O DOMÍNIO

SOBRE O IMÓVEL. IMPOSSIBILIDADE DE ANÁLISE ACERCA DA NULIDADE DO

TÍTULO DE DOMÍNIO. POSSE INJUSTA EVIDENCIADA. SENTENÇA ESCORREITA.

RECURSO DESPROVIDO.

(TJPR - 17ª C.Cível - AC - 1629860-1 - Foz do Iguaçu - Rel.: Lauri Caetano da Silva -

Unânime - J. 24.05.2017)

141

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Inteiro Teor

I - RELATÓRIO
1. Lourenço Martinez ajuizou ação reivindicatória (autos nº 2444-36.2016.8.16.0030 ­
PROJUDI) em face de Leila Aparecida Bencke aduzindo, em síntese, que a) é o
legítimo proprietário do imóvel objeto da matrícula nº 32.182, situado no quadrante
10, quadrícula 01, setor 32, quadra 32, lote nº 119, no Loteamento denominado
Jardim Manaus, com a área de 402,00m²; b) adquiriu o imóvel de Sonia Beckmann
Haacke, mediante Escritura Pública de Compra e Venda, lavrada no dia 09 de julho de
2013; c) permitiu que sua tia, Sonia Beckmann Haacke, residisse no imóvel, até a data
de seu
falecimento; d) a ré está indevidamente ocupando o imóvel. Diante de tais fatos,
pleiteou a concessão liminar de ordem de desocupação e, ao final, a procedência do
pedido, com a condenação da ré ao pagamento de indenização pelo uso indevido do
imóvel.
2. Leila Aparecida Bencke apresentou resposta em sede de contestação (mov. 12.1 - f.
83/86) alegando, preliminarmente a litispendência com a Ação de Reintegração de
Posse nº 00017828- 44.2013.8.16.0030, em trâmite perante a 2ª Vara Cível da
Comarca de Foz do Iguaçu, a qual foi julgada improcedente, tendo a sentença sido
confirmada no julgamento da Apelação Cível nº 1.287.978-0. No mérito, pugnou pela
improcedência do pedido e a condenação do autor ao pagamento de multa por
litigância de má-fé.
3. O MM. Juiz a quo saneou o processo, afastando as preliminares suscitadas e
fixando os pontos controvertidos (mov. 17.1 ­ f. 131/133).
4. Na audiência de instrução e julgamento (mov. 45.1 ­ f. 336/343), foi tomado o
depoimento pessoal do autor Lourenço Martinez e ouvidas as testemunhas Sonia
Beckmann Haacke, Daiane Aparecida Maas, Ildo Ivo Sommerfelt, Felipe Guimarães
Peixoto, Luis Pasini e Simone Passini.
5. O MM. Juiz a quo proferiu sentença (mov. 51.1 - f.
385/391), julgando procedentes os pedidos formulados na petição inicial, para imitir o
autor na posse do imóvel, concedendo à ré o prazo de 30 dias para a desocupação
voluntária. Pelo princípio da sucumbência, condenou a ré ao pagamento das custas
processuais e honorários advocatícios, fixados em 10% sobre o valor atualizado da
causa, nos termos do §2º, do art. 85 do NCPC.
6. Inconformada, a ré Leila Aparecida Bencke interpôs recurso de apelação (mov. 56.1
- f. 397/428) pleiteando a reforma da sentença, alegando que houve ofensa à coisa
julgada, pois foi reconhecido nos autos de Ação de Reintegração de Posse nº
00017828-
44.2013.8.16.0030 que a sua posse era justa. Afirma, ainda, que adquiriu o imóvel por
meio de Contrato Particular de Compra e Venda (mov. 33.16) e a prova oral
comprovou a irregularidade da Escritura Pública de Compra e Venda que lhe transferiu
o domínio, a qual deve ser declarada nula.
Contrarrazões de apelação no mov. 63.1 (f. 437/461).
É o relatório.

142

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II- VOTO
7. Anoto que o benefício da assistência judiciária gratuita já foi deferido pelo
magistrado a quo na sentença. Assim, não há necessidade de nova confirmação no 2º
grau, pois as custas processuais e os honorários advocatícios só se tornam exigíveis se
for comprovada a modificação da condição econômico-financeira do beneficiário.
8. Conforme a regra inserta no artigo 1.228 do Código Civil, o proprietário tem a
faculdade de reaver a coisa do poder de quem quer que injustamente a possua ou
detenha.
A faculdade de reivindicar é, portanto, a prerrogativa do proprietário de excluir a
ingerência alheia injusta sobre coisa sua. A ação reivindicatória, espécie de ação
petitória, com fundamento no jus possidendi, é ajuizada pelo proprietário sem posse,
contra o possuidor sem propriedade. Irrelevante, pois, a prova da posse anterior do
proprietário, pois a ação se funda no ius possidendi e não no ius possessionis.
Esse é o ensinamento de Silvio de Salvo Venosa:
“A ação reivindicatória é a ação petitória por excelência. É direito elementar e
fundamental do proprietário a sequela; ir buscar a coisa onde se encontra e em poder
de quem se encontra. Deflui daí a faculdade de o proprietário recuperar a coisa.
Escuda-se no direito de
propriedade para reivindicar a coisa do possuidor não proprietário, que a detém
indevidamente”. (Direito Civil, v. 5. 3ª ed. São Paulo: Atlas, 2003, p. 265).
Sobre o mesmo tema J. M. Carvalho Santos assevera que:
“A ação reivindicatória pode ser intentada contra qualquer possuidor, não só o de
má- fé, mas também o de boa-fé, e contra qualquer detentor, qualquer que seja a
causa pela qual possua a coisa, pouco importando que a possua ou detenha por conta
própria ou por conta de outrem. Porque o proprietário é autorizado a reivindicar a
coisa que lhe pertence de qualquer pessoa que a tenha em seu poder, não sendo
justo que se exigisse dele, para exercitar esse seu direito, fosse pesquisar por qual
título o objeto se encontra nas mãos do detentor ou possuidor. Tanto mais quanto o
domínio é um direito real, vale dizer - exequível contra qualquer em poder de quem
esteja a coisa, seja a que título for” (Código Civil interpretado, vol. VII, p. 287).
Também Orlando Gomes explica essa espécie de ação:
“Um dos direitos elementares do domínio é a faculdade do seu titular de reaver a
coisa do poder de quem quer que injustamente a detenha, ou possua. Essa pretensão
se exerce mediante a ação de reinvindicação, que, segundo conhecida fórmula,
compete ao proprietário não-possuidor contra o possuidor não-proprietário. O
fundamento da ação reivindicatória é o direito de sequela, esse poder de seguir a
coisa onde quer que esteja, que é um dos atributos dos direitos reais (Direito reais,
16.ed., Rio de Janeiro: Forense, p.
256/257).
8.1. Nesta toada, como bem apontou o magistrado singular, a improcedência da
Ação de Reintegração de Posse nº 00017828-44.2013.8.16.003, anteriormente
ajuizada por Lourenço Martinez em face de Leila Aparecida Bencke, não influencia no
julgamento da presente ação reivindicatória, fundada no domínio.

143

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Portanto, não se pode falar em ofensa à coisa julgada, eis que a causa de pedir e o
pedido são diversos.
Como leciona Marcus Vinícius Rios Gonçalves1, a garantia da coisa julgada “decorre
da necessidade de que as decisões judiciais não possam mais ser alteradas, a partir de
um determinando ponto. Do contrário, a segurança jurídica sofreria grave ameaça.
É função do Poder Judiciário solucionar conflitos de interesse, buscando a pacificação
social. Ora, se a
solução pudesse ser eternamente questionada e revisada, a paz ficaria definitivamente
prejudicada. A função da coisa julgada é assegurar que os efeitos decorrentes das
sentenças judiciais não possam mais ser modificados, se torne definitivos. É fenômeno
diretamente associado à segurança jurídica, quando o conflito ou a controvérsia é
definitivamente solucionada.”
As ações possessórias estão fundadas exclusivamente no direito de posse, não
importando se a parte autora é ou não proprietário do bem, mas se a sua posse está
sendo violada injustamente, havendo para tanto que demonstrar a presença dos
requisitos elencados no artigo 927 do CPC/ 1973, quais sejam: I ­ sua posse; II ­ a
ocorrência de esbulho; III ­ a data desse esbulho; IV ­ a consequente perda da posse.
Por outro lado, as ações petitórias buscam a defesa da posse, com fundamento no
direito de propriedade.
Na Ação de Reintegração de Posse nº 00017828- 44.2013.8.16.003 a causa de pedir
era diversa e a improcedência do pedido deu-se pelo fato de o autor Lourenço
Martinez não ter comprovado o exercício de posse anterior sobre o imóvel. Tal
requisito é despiciendo tratando-se, agora, de pedido fundado no domínio.
8.2. E o domínio do autor sobre o imóvel está devidamente comprovado pelo registro
na matrícula nº 32.182 da 2ª Circunscrição do Cartório do Registro de Imóveis da
Comarca de Foz do Iguaçu (R-4-32.182 ­ f. 14).
É preciso frisar que, muito embora a apelante alegue na fase recursal que o título de
domínio apresentado pelo autor é nulo, tal questão não foi por ela suscitada seja em
contestação, seja com o oferecimento de reconvenção.
Ora, o artigo 1.245, §2º do Código Civil prevê que, “enquanto não se promover, por
meio de ação própria, a declaração de invalidade do registro, e o respectivo
cancelamento, o adquirente continua a ser havido como dono do imóvel”.
Não é possível, portanto, nessa fase processual, a análise da eventual nulidade do
título dominial, pois se trata de matéria estranha e que não foi objeto de análise pelo
magistrado a quo, tratando-se de verdadeira inovação recursal.
8.3. Frise-se que em se tratando de ação reivindicatório, o conceito de posse injusta,
prescinde dos quesitos de violência, precariedade ou clandestinidade, configurando-
se, tão somente, na demonstração de que a parte ré não possui título de domínio ou
qualquer outro que justifique juridicamente sua ocupação. A detenção injusta se há de
entender, então, como sem título de propriedade, ou sem o caráter de posse direta
através das vias adequadas, o que se verifica nos autos2.
9. Diante do exposto, voto no sentido de negar provimento ao recurso.
III- DECISÃO

144

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ACORDAM os Desembargadores integrantes da 17ª Câmara Cível do Tribunal de


Justiça do Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em negar provimento ao
recurso.
O julgamento foi presidido pelo Desembargador RUI BACELLAR FILHO, com voto, e
dele participaram os Desembargadores LAURI CAETANO DA SILVA e TITO CAMPOS
DE PAULA.
Curitiba, 24 de maio de 2017.
DES. LAURI CAETANO DA SILVA Relator
--
1 Direito Processual Civil Esquematizado, 2ª ed., São Paulo: Saraiva, 2012, pág. 435.
2 “A justidade da posse (Código Civil de 2002, artigo 1.200, verbo: “É justa a posse
que não for violenta, clandestina ou precária”), ou sua injustidade, tem pertinência se a
ação de direito material de que se trata é a ação executiva de reivindicação, mas não
tem relevância jurídica se a pretensão do legitimado ativo foi deduzida em ação
executiva de imissão de posse.” ALVES, Vilson Rodrigues. Ação de imissão na posse
de bem imóvel. 2. ed. Leme: Distribuidora, 2005. p. 83/84.

2.1.18. CDC – COMPRA E VENDA DE VEÍCULO USADO

AÇÃO OBRIGAÇÃO DE FAZER CUMULADA COM PEDIDO DE INDENIZAÇÃO POR

DANOS MORAIS. COMPRA E VENDA DE VEÍCULO. PEDIDO JULGADO

PARCIALMENTE PROCEDENTE. RECURSO ADESIVO DA RÉ. CONTRATO DE

COMPRA E VENDA. VEÍCULO USADO. ALEGAÇÃO DE VÍCIO DO PRODUTO. ART.

18 DO CDC. INEXISTÊNCIA. NEGLIGÊNCIA DA ADQUIRENTE QUANTO À VISTORIA

DO VEÍCULO NO MOMENTO DE SUA AQUISIÇÃO. RISCO ASSUMIDO. DIREITO À

REPARAÇÃO INEXISTENTE. SENTENÇA REFORMADA. PEDIDO JULGADO

IMPROCEDENTE. DISTRIBUIÇÃO DA SUCUMBÊNCIA. RECURSO PROVIDO.

RECURSO DE APELAÇÃO DA AUTORA. ANÁLISE PREJUDICADA. 1. A prova dos

autos não evidencia a existência de vícios ocultos, mas sim defeito natural decorrente

do uso da coisa. Há que se considerar, também, que a questão dos vícios da coisa

usada não se coloca da mesma forma como quando se trata de produto novo (TJ-RS,

Quinta Câmara Cível, Rel. Jorge Luiz Lopes do Canto, j. 28.09.2011). 2. Quem adquire

veículo usado deve ter a cautela de bem examiná-lo, inclusive por mecânico de sua

confiança, pois é natural que o automóvel apresente desgaste em seus diversos

componentes.

145

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

(TJPR - 17ª C.Cível - AC - 1630843-7 - Curitiba - Rel.: Lauri Caetano da Silva - Unânime

- J. 26.04.2017)

Inteiro Teor

I- RELATÓRIO
1. Cuida-se de recursos de apelação e adesivo interpostos em virtude da sentença
proferida pelo MM. Dr. Juiz da 23ª Vara Cível do Foro Central da Comarca da Região
Metropolitana de Curitiba, nos autos nº 0022621-16.2013.8.16.0001 de ação de
obrigação de fazer cumulada com pedido de indenização por danos morais, ajuizada
por Adriana Jucelia Gonçalves dos Santos em face de Etoile Distribuidora de Veículos
Limitada ­ Citroen Granville, que julgou parcialmente procedentes os pedidos
formulados na inicial, para condenar a ré a restituir à autora o valor pago pelo produto
(sinal do negócio, mais as parcelas quitadas do financiamento) atualizado pela média
do INPC/IGP-DI a partir do desembolso e acrescidos de juros de mora, a taxa de 1%
ao mês (art. 161 do CTN e 406 do CC), a partir da citação, bem como a promover o
pagamento do saldo remanescente do contrato de financiamento bancário do veículo.
Julgou improcedente o pedido relativo a condenação da ré ao pagamento de
indenização a título de dano moral. Ante a sucumbência recíproca, condenou as
partes, na proporção 30% para a autora e 70% para a ré, ao pagamento das custas
processuais e dos honorários advocatícios, fixados em 15% sobre o valor total e
atualizado da condenação (mov. 239.1 - f.509/516).
2. A autora Adriana Jucelia Gonçalves dos Santos, interpôs recurso de apelação (mov.
244.1 - f.522/528), pleiteando a reforma parcial da sentença, para que a ré seja
condenada ao pagamento de indenização a título de dano moral.
Contrarrazões ao recurso de apelação (mov. 254.1 - f.
557/564).
3. A ré Etoile Distribuidora de Veículos Limitada ­ Citroen Granville interpôs recurso
adesivo (mov. 255.1 - f. 566/573), alegando que (i) a autora tinha plena ciência das
condições do veículo no momento de sua entrega; (ii) embora a perícia realizada tenha
indicado que o veículo havia sido recuperado, é certo que, os defeitos constatados
não justificam a rescisão contratual, pois o mesmo foi adquirido com alguns anos de
uso; (iii) apesar de conter algumas peças recuperadas/repintadas, tais questões não
impedem o seu uso e são absolutamente naturais em se tratando de usado; (iv)
alternativamente, caso a sentença não seja reformada para afastar a ordem de
restituição dos valores pagos, pede que seja descontado do valor a ser restituído,
montante proporcional ao tempo em que a autora usufruiu do veículo.
Contrarrazões ao recurso adesivo (mov. 259.1 - f.
582/588).
É o relatório.
II- VOTO
Presentes os pressupostos recursais de admissibilidade, intrínsecos e extrínsecos,
merecem os recursos serem conhecidos.
146

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4. Antes de apreciar o mérito dos recursos, é necessário contextualizar os fatos. No


dia 04.01.2013, a autora Adriana Jucelia Gonçalves dos Santos celebrou com a ré
Etoile Distribuidora de Veículos Limitada ­ Citroen Granville contrato de compra e
venda do veículo marca Citroen, modelo Xsara Picasso/2.0, 16 V, ano de fabricação
2009, modelo 2010, Chassi AB524616, placas BEL-8687, pelo valor de R$34.900,00
(mov. 28.4 ­ f. 122). Efetuou o pagamento à vista de R$15.000,00 e para pagamento
do restante do preço ajustado (R$24.035,55) celebrou com a BV Financeira S/A
contrato de mútuo, assumindo a obrigação de liquidá-lo em 60 prestações mensais de
R$648,84.
Em fevereiro de 2013, um mês após a compra, a autora precisou realizar a troca dos
pneus. Como o referido serviço não era coberto pela garantia, procurou um serviço
terceirizado, momento em que foi advertida acerca das avarias e/ou reparações que o
veículo havia sofrido. Diante do seu desconhecimento técnico, em 18.02.2013,
contratou um perito, de quem recebeu um laudo de vistoria cautelar, reprovando a
qualidade do produto, haja vista a existência de reparos de funilaria e pintura no
painel frontal superior e inferior sem substituição de peça, reparo nos para-lamas
direito e esquerdo e reparo de funilaria e pintura no painel traseiro inferior e
substituição de folha lateral lado esquerdo com caixa de ar.
Assim, requereu, na via extrajudicial, a substituição do veículo por outro de mesma
marca, modelo e ano, não obtendo êxito, razão pela qual ajuizou a presente ação.
A requerida apresentou resposta em sede de contestação (mov. 28.1 ­ f. 85/96),
afirmando que, no momento da celebração do pacto, a autora não fez qualquer tipo
de observação quanto à existência de avarias; pelo contrário, afirmou que o bem
estaria em perfeitas condições de uso, externando sua satisfação com seu estado de
conservação. Sustenta que não possui responsabilidade por eventuais danos causados
ao veículo após a entrega à autora. Diz, ainda, que o veículo já possuía anos de uso e
a existência de eventuais peças recuperadas/repintadas não impediriam sua utilização.
Dessa forma, postulou a improcedência dos pedidos.
Do recurso adesivo interposto pela ré Etoile Distribuidora de Veículos Limitada ­
Citroen Granville.
5. Observa-se da análise dos autos que a controvérsia se cinge em apurar se o veículo
objeto do contrato de compra e venda firmado entre as partes continha vício de
qualidade, apto a ensejar
a responsabilização da revendedora, nos termos do artigo 18 do Código de Defesa
do Consumidor1.
5.1. A autora afirmou que, após a análise do veículo por um perito especializado,
constatou os seguintes vícios no veículo:
“O Veículo examinado apresentava avaria e/ou reparo na região dianteira da
carroceria.
O veículo examinado possui irregularidade passível de não aceitação em
COMPANHIA DE SEGURO.
Sendo necessária a Inspeção de Segurança Veicular pelo INMETRO.
(...) O veículo encontrava-se com reparos na funilaria e pintura no painel frontal
superior e inferior sem substituição de peça e reparo nos paralamas direito e
147

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esquerdo. Reparo de funilaria e pintura no painel traseiro inferior e substituição de


folha lateral lado esquerdo com caixa de ar” (mov. 1.10 - f. 25/28).
No decorrer do processo anexou outro “Laudo de Vistoria Cautelar”, no qual apontou
que o veículo apresentava as seguintes avarias (mov. 81.2 - f. 225/227):
“Painel e travessa dianteira recuperada, folha lateral traseira esquerda trocada junto
com parte da caixa de ar lado direito, painel traseiro e assoalho do porta-malas
recuperada”.
Todavia, nenhum dos “vícios” discriminados é capaz de justificar a rescisão do
contrato, considerando-se que se trata de veículo usado, fabricado no ano de 2009, o
qual já sofrera o desgaste natural do uso.
Outrossim, os defeitos apontados quanto à pintura, assoalho do veículo, para-lamas,
entre outros, são facilmente identificáveis e não comprometem o regular uso do bem.
Ademais, vale apontar que em consulta a Tabela Fipe no mês de janeiro de 2013
(aquisição do veículo pela autora), o veículo estava avaliado em R$40.265,00. Confira-
se:
Ora, se a autora pagou pelo veículo a importância de R$34.900,00, ou seja, abaixo do
preço médio indicado pela Tabela Fipe, certamente tinha conhecimento do estado do
veículo, razão pela qual teve um abatimento no preço.
5.2. De outro lado, na perícia realizada em 11 de novembro de 2014 (Laudo Pericial ­
mov. 151.1 - f.346/373), o Sr. Perito concluiu que:
“1 ­ as evidencias que existem defeitos no veículo Citroën Xsara Picasso 2.0 16V BVA
de placa BEL 8687 e: A) indica que a parte dianteira sofreu um abalroamento frontal
de frente para trás e não sendo possível definir, quando ocorreu o sinistro e por que
foi realizada a recuperação.
B) indica que a parte traseira sofreu uma abalroamento traseiro obliquo de trás para a
frente do lado direito para a esquerda, e pelo estado geral da pintura da porta traseira
aspecto de que foi pintada a muito tempos atrás), é possível afirmar que a pintura foi
realizada anteriormente a negociação do antigo proprietário com a Requerida”.
Em respostas aos quesitos elaborados pela parte, afirmou que:
1. Pergunta-se ao Sr. Perito qual o estado geral de conservação do automóvel.
Resposta: O estado geral é regular, existe a necessidade de realização de uma
manutenção, no motor que tem vazamento de óleo lubrificante, estado geral da
pintura que não foi aplicado verniz, e algumas peças que necessitam ser substituídas.
2. Pergunta-se ao Sr. Perito se o veículo tem algum defeito na pintura. É possível
afirmar se e quando o carro foi repintado e reparado, bem como quem fez esse
serviço? Resposta: a) Sim b) O veículo sofreu reparações na parte dianteira e traseira
do veículo Citroën Xsara Picasso 2.0 16V BVA de placa BEL 8687.
A evidencia indica que a parte dianteira sofreu um abalroamento frontal central e não
foi possível identificar quando os reparos foram realizados, pode ter sido realizadas
anterior ou posterior a compra do veículo Citroën Xsara Picasso 2.0 16V BVA de placa
BEL 8687 pela Requerente.
As evidencias indicam que a parte traseira sofreu um abalroamento traseiro obliquo,
pelo aspecto da tinta aplicada que tem características de pintura velha, é possível
afirmar que a recuperação realizada na parte traseira é anterior a entrada do veículo
148

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Citroën Xsara Picasso 2.0 16V BVA de placa BEL 8687 na negociação de troca do
cliente com a Requerida.
3. Caso o carro tenha sido repintado, pergunta-se ao Sr. perito se isso impede o uso
do automóvel. Do mesmo modo, pergunta-se se é comum que carros vendidos como
usados apresentem um ou outro retoque em sua pintura ou ainda mesmo desgaste na
pintura.
Resposta: a) Não b) Sim.
Como visto, é possível que veículos usados apresentem retoque ou desgaste na
pintura, sendo importante que tais vícios não comprometam o regular uso do bem e
nem coloquem em risco a segurança do consumidor, o que não se verificou no
presente caso.
Além disso, alguns dos “defeitos” apontados poderiam ter sido constados pela autora
no momento da aquisição do veículo, conforme destacado pelo perito judicial:
1. A repintura do veículo e as avarias no carro verificadas poderiam ser constatas no
momento da compra do veículo pela Sra. Adriana, ou seja, a olho nu? Resposta: As
evidencias indicam que, mesmo a Autora tivesse realizando uma vistoria no veículo
Citroën Xsara Picasso 2.0 16V BVA de placa BEL 8687 antes da compra, para uma
pessoa leiga ao observar a olho nu poderia perceber que: Pintura ­ somente
sobreposição de tinta entre a aplicação plástica e lataria da porta traseira do veículo
Citroën Xsara Picasso 2.0 16V BVA de placa BEL 8687 poderia ser observado; - no
restante da pintura do veículo Citroën Xsara Picasso 2.0 16V BVA de placa BEL 8687, a
Autora não poderia perceber a repintura e a falta de verniz, porque na perícia foi
constatado que a Autora não tem conhecimentos sobre pintura automotiva; Avarias ­
as avarias na parte frontal e traseira do veículo Citroën Xsara Picasso 2.0 16V BVA de
placa BEL 8687, a Autora não teria condições de percebes as avarias; - o
desalinhamento do capo em relação aos pára-lamas/faróis dianteiro esquerdo e direito
do veículo Citroën Xsara Picasso 2.0 16V BVA de placa BEL 8687, é perceptível para
qualquer pessoa.
Dessa forma, não há que se falar em vício de qualidade ou vício oculto. A percepção
do defeito aparente, por si só, conduz o “homem médio” a procurar pessoa
especializada na área para avaliar o defeito. O vício oculto (qualidade) não requer que
o contratante tenha conhecimento exato do defeito, mas sim que ele seja perceptível
a ponto de gerar dúvida. No dizer de Nelson Nery Junior,
“consideram-se aqueles que não impressionam diretamente os sentidos”2. Não é o
que ocorre nos autos.
Vale lembrar que, quem adquire veículo usado (Xsara Picasso/2.0 ano 09/10), em face
do natural desgaste das peças, deve ter a cautela de, no momento da compra, realizar
prévia avaliação com mecânico/perito de sua confiança, para ter ciência das reais
condições e dos riscos e prejuízos que a aquisição pode oferecer.
No caso em tela, conforme se depreende do “termo de Garantia de Veículo Usado
(mov. 28.3 ­ f. 117), a autora atestou que estava satisfeita com o estado de
conservação e desempenho do veículo”. Embora alegue na petição inicial que não
detinha o conhecimento técnico necessário para a avaliação do real estado de

149

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conservação do bem, não tomou o cuidado de chamar um mecânico/perito de sua


confiança para realizar uma prévia vistoria.
Ora, se a autora decidiu realizar o negócio, mesmo sabendo que se tratava de um
veículo usado e com alguns anos de uso, deixando de realizar o exame por alguém
com conhecimento técnico, não pode agora, alegar vício de qualidade do produto,
pretendendo o reembolso dos valores pagos e a rescisão do contrato de compra e
venda.
Além disso, não se deve confundir o tratamento dado aos veículos usados com aquele
dado aos novos. Não se pode ignorar o desgaste natural do veículo, além do fato
deste continuar na posse da autora desde sua aquisição. O Sr. Perito informou que a
autora utiliza regularmente o veículo.
A corroborar:
APELAÇÃO CÍVEL INTERPOSIÇÃO CONTRA SENTENÇA QUE JULGOU
IMPROCEDENTE AÇÃO DE RESCISÃO CONTRATUAL C/C REPARAÇÃO DE DANOS.
AQUISIÇÃO DE VEÍCULO (MOTOCICLETA) USADO. ALEGAÇÃO DE EXISTÊNCIA DE
VÍCIO REDIBITÓRIO OU OCULTO. INEXISTÊNCIA. VEÍCULO ADQUIRIDO NO
ESTADO EM QUE SE ENCONTRA.
RISCO ASSUMIDO PELO ADQUIRENTE. SENTENÇA MANTIDA. (TJPR, 7ª C. Cível,
AC 1093357-4, Rel.: Victor Martim Batschke, j. 10.12.2013)
RECURSO INOMINADO. COMPRA E VENDA DE VEÍCULO USADO ENTRE
PARTICULARES.
VÍCIO REDIBITÓRIO. RESPONSABILIDADE DO VENDEDOR INEXISTENTE.
NEGLIGÊNCIA DA COMPRADORA AO NÃO SOLICITAR PREVIAMENTE, O EXAME
DO BEM POR MECÂNICO DE SUA CONFIANÇA. ABATIMENTO NO VALOR DA
COMPRA. SENTENÇA MANTIDA POR SEUS PRÓPRIOS FUNDAMENTOS. RECURSO
DESPROVIDO. (Recurso Cível Nº 71005563572, Terceira Turma Recursal Cível, Turmas
Recursais, Relator: Glaucia Dipp Dreher, Julgado em 22/10/2015).
RECURSO INOMINADO. COMPRA E VENDA DE VEÍCULO USADO. CONSUMIDOR.
VÍCIO OCULTO NÃO COMPROVADO. DANO MATERIAL INOCORRENTE. DANO
MORAL NÃO CONFIGURADO. (...) TRATANDO-SE DE VEÍCULO COM LARGO
TEMPO DE FABRICAÇÃO E USO, DEVERIA TER O AUTOR SE CERTIFICADO DAS
EXATAS CONDIÇÕES DO CAMINHÃO, INCLUSIVE COM VISTORIA MAIS
MINUCIOSA. AO CONTRÁRIO, MESMO COM OS APONTAMENTOS DE SEU
MECÂNICO DE CONFIANÇA, OPTOU POR REALIZAR O NEGÓCIO COM VALOR
ABAIXO DO MERCADO E, AINDA, COM DESCONTO. DESSA FORMA, ASSUMIU O
RISCO POR EVENTUAIS DEFEITOS FUTUROS.
DANO MORAL INOCORRENTE. NÃO CONFIGURADA SITUAÇÃO DE AFRONTA
AOS ATRIBUTOS DE PERSONALIDADE DA PARTE AUTORA. MEROS DISSABORES
DECORRENTES DO ENTENDIMENTO DIVERSO DAS PARTES SOBRE O FATO.
NEGADO PROVIMENTO AO RECURSO SENTENÇA MANTIDA (TJRS, RECURSO
CÍVEL Nº 71004940755, SEGUNDA TURMA RECURSAL CÍVEL, TURMAS RECURSAIS,
RELATOR: ANA CLÁUDIA CACHAPUZ SILVA RAABE, JULGADO EM 17/12/2014)
BEM MÓVEL. COMPRA E VENDA DE VEÍCULO USADO. AÇÃO REDIBITÓRIA C.C.

150

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INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS E MATERIAIS. CRITÉRIO DA VIDA ÚTIL DO


BEM DURÁVEL. DESGASTES NORMAIS E APARENTES DO VEÍCULO DEVIDO AO
TEMPO DE USO. NEGLIGÊNCIA DA ADQUIRENTE QUANTO À VISTORIA DO
VEÍCULO. VÍCIO NÃO CONSTATADO. DIREITO À REPARAÇÃO INEXISTENTE. OS
PROBLEMAS MECÂNICOS DE VEÍCULO COM VÁRIOS ANOS DE USO E
QUILOMETRAGEM ELEVADA NÃO CONSTITUEM VÍCIOS OCULTOS, MAS, SIM,
DESGASTES NORMAIS E APARENTES DO VEÍCULO DEVIDO AO TEMPO DE USO.
AUSÊNCIA DE VÍCIO OCULTO QUE AFASTA A APLICAÇÃO DO ART. 18 DO CDC.
IMPROCEDÊNCIA DA PRETENSÃO INICIAL. RECURSO PROVIDO.
(TJ/SP, REL.: GILBERTO LEME; COMARCA: SOROCABA; ÓRGÃO JULGADOR: 27ª
CÂMARA DE DIREITO PRIVADO; DATA DO JULGAMENTO: 16/04/2013; DATA DE
REGISTRO: 18/04/2013)
APELAÇÃO CÍVEL. RESPONSABILIDADE CIVIL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR
DANOS MATERIAIS E MORAIS. VEÍCULO USADO. ALEGAÇÃO DE VÍCIO OCULTO.
SENTENÇA DE IMPROCEDÊNCIA MANTIDA. 1. A prova dos autos não evidencia a
existência de vícios ocultos, mas sim defeito natural decorrente do uso da coisa. Há
que se considerar, também, que a
questão dos vícios da coisa usada não se coloca da mesma forma como quando se
trata de produto novo. 2. Trata-se de veículo usado, com cerca de vinte e cinco anos
de fabricação, sendo presumível o desgaste natural quando da compra daquele
caminhão, pois há a assunção de certos riscos em razão do tempo de uso do veículo.
3. Cumpre ao adquirente, portanto, se certificar, previamente à aquisição das
condições gerais do veículo, bem como da extensão e da forma de obtenção de
eventual garantia adicional a ser concedida pelo vendedor do automóvel. 4. Desta
forma, não houve por parte da demandada conduta ilícita, nem ao menos nexo causal
entre esta e os supostos danos suportados pela parte autora, de sorte que não há o
dever de reparar no caso em tela. Inteligência do art. 186 do CC. Negado provimento
ao recurso. (TJ-RS, Quinta Câmara Cível, Rel. Jorge Luiz Lopes do Canto, j.
28.09.2011).
Desse modo, entendo que não ficou configurada a culpa da ré pelos defeitos do
produto e, por conseguinte, inaplicável o disposto no artigo 18 do Código de Defesa
do Consumidor.
Do recurso de apelação interposto pela autora Adriana Jucelia Gonçalves dos Santos.
6. Diante da reforma da sentença, afastando-se a responsabilidade da concessionária
pelos defeitos do produto, ficou prejudicada a análise do recurso de apelação
interposto pela autora, visando a reforma da sentença na parte em que reconheceu o
da moral.
7. Em face do reexame da divergência apresentada, e sopesando o alcance dos
efeitos do presente julgamento (improcedência dos pedidos formulados pela autora),
condeno a autora ao pagamento das custas processuais e dos honorários advocatícios.
Com fundamento no artigo 85, §2º do Código de Processo Civil arbitro os honorários
em 15% sobre o valor da causa.
8. Ante o exposto, voto no sentido de:
a) declarar prejudicada a análise do recurso de apelação;
151

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b) dar provimento ao recurso adesivo interposto pela ré, para julgar improcedentes os
pedidos formulados na inicial.
Redistribuição do ônus da sucumbência, nos termos do item 7.
III- DECISÃO
ACORDAM os Desembargadores integrantes da 17ª Câmara Cível do Tribunal de
Justiça do Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em declarar prejudicada a
análise do recurso de apelação; e, dar provimento ao recurso adesivo.
O julgamento foi presidido pelo Desembargador LAURI CAETANO DA SILVA, relator,
e dele participaram os Desembargadores TITO CAMPOS DE PAULA e RUI BACELLAR
FILHO.
Curitiba, 26 de abril de 2017.
DES. LAURI CAETANO DA SILVA Relator
--
1 Art. 18. Os fornecedores de produtos de consumo duráveis ou não duráveis
respondem
solidariamente pelos vícios de qualidade ou quantidade que os tornem impróprios ou
inadequados ao consumo a que se destinam ou lhes diminuam o valor, assim como
por aqueles decorrentes da disparidade, com a indicações constantes do recipiente,
da embalagem, rotulagem ou mensagem publicitária, respeitadas as variações
decorrentes de sua natureza, podendo o consumidor exigir a substituição das partes
viciadas.
§ 1° Não sendo o vício sanado no prazo máximo de trinta dias, pode o consumidor
exigir, alternativamente e à sua escolha: I - a substituição do produto por outro da
mesma espécie, em perfeitas condições de uso; II - a restituição imediata da quantia
paga, monetariamente atualizada, sem prejuízo de eventuais perdas e danos; III - o
abatimento proporcional do preço.
§ 2° Poderão as partes convencionar a redução ou ampliação do prazo previsto no
parágrafo anterior, não podendo ser inferior a sete nem superior a cento e oitenta
dias. Nos contratos de adesão, a cláusula de prazo deverá ser convencionada em
separado, por meio de manifestação expressa do consumidor.
§ 3º O consumidor poderá fazer uso imediato das alternativas do § 1º deste artigo
sempre que, em razão da extensão do vício, a substituição das partes viciadas puder
comprometer a qualidade ou características do produto, diminuir-lhe o valor ou se
tratar de produto essencial.
§ 4° Tendo o consumidor optado pela alternativa do inciso I do § 1° deste artigo, e
não sendo possível a substituição do bem, poderá haver substituição por outro de
espécie, marca ou modelo diversos, mediante complementação ou restituição de
eventual diferença de preço, sem prejuízo do disposto nos incisos II e III do § 1° deste
artigo.
§ 5° No caso de fornecimento de produtos in natura, será responsável perante o
consumidor o fornecedor imediato, exceto quando identificado claramente seu
produtor.
§ 6° São impróprios ao uso e consumo: I - os produtos cujos prazos de validade
estejam vencidos; II - os produtos deteriorados, alterados, adulterados, avariados,
152

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

falsificados, corrompidos, fraudados, nocivos à vida ou à saúde, perigosos ou, ainda,


aqueles em desacordo com as normas regulamentares de fabricação, distribuição ou
apresentação; III - os produtos que, por qualquer motivo, se revelem inadequados ao
fim a que se destinam.
2 Nelson Nery Junior e Rosa Maria de Andrade Nery, 10ª ed., São Paulo: Editora
Revista dos Tribunais, 2013, pág. 667.

2.1.19. REVISIONAL BANCÁRIA – INEXISTÊNCIA DE ABSUIVIDADE DURANTE O

PERÍODO DE EXECUÇÃO DO CONTRATO - MORA DO DEVEDOR

AÇÃO REVISIONAL. CONTRATO DE FINANCIAMENTO COM GARANTIA

FIDUCIÁRIA. IMÓVEL. PEDIDOS JULGADOS PARCIALMENTE PROCEDENTES.

RECURSO DO RÉU: 1. CAPITALIZAÇÃO DE JUROS EXPRESSAMENTE CONTRATADA.

POSSIBILIDADE. FINANCIAMENTO PARA AQUISIÇÃO DE IMÓVEL. CONTRATO

REGULADO PELA LEI Nº 4.380/1964 DO SISTEMA FINANCEIRO DA HABITAÇÃO

FIRMADO APÓS A ALTERAÇÃO TRAZIDA PELA 11.977/2009 QUE ACRESCENTOU O

ART. 15-A. 2. MORA DEBENDI CONFIGURADA. INEXISTÊNCIA DE COBRANÇA DE

ENCARGOS ABUSIVOS NO PERÍODO DA NORMALIDADE CONTRATUAL. 3.

REPETIÇÃO DO INDÉBITO PREJUDICADA. AUSÊNCIA DE CLAUSULAS

CONTRATUAIS ABUSIVAS. 4. ÔNUS DA SUCUMBÊNCIA. DISTRIBUIÇÃO. RECURSO

PROVIDO. "É permitida a pactuação de capitalização de juros com periodicidade

mensal nas operações realizadas pelas entidades integrantes do Sistema Financeiro da

Habitação - SFH somente após a publicação da Lei n. 11.977, de 7 de julho de 2009, a

qual acrescentou o art. 15-A à Lei n. 4.380/64. "

(TJPR - 17ª C.Cível - AC - 1623137-3 - Nova Londrina - Rel.: Lauri Caetano da Silva -

Unânime - J. 26.04.2017)

Inteiro Teor

I- RELATÓRIO
1. Cuida-se de recurso de apelação interposto em virtude da sentença1 proferida pelo
MM. Dr. Juiz da Vara Cível da Comarca de Nova Londrina, às f. 259/268 (mov. 58.1)
dos autos nº 625- 24.2012.8.16.0121 de ação com pedido de revisão das cláusulas
financeiras de contrato de financiamento com garantia fiduciária (f.

153

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

22/53 ­ mov. 1.3), proposta por Adilson Faganello em face de Banco Bradesco S/A,
pela qual julgou parcialmente procedentes os pedidos formulados na inicial para
afastar a capitalização de juros do cálculo das prestações, determinar a repetição em
dobro dos valores cobrados a maior e descaracterizar a mora. Julgou improcedente o
pedido referente à venda casada do seguro. Por fim, condenou o réu ao pagamento
de custas processuais e dos honorários advocatícios, fixados em R$1.000,00.
Contra essa decisão o autor opôs embargos de declaração (f. 274/276 ­ mov. 63.1), os
quais foram rejeitados (decisão de f. 300 ­ mov. 70.1).
2. O réu interpôs recurso de apelação (f. 279/288 ­ mov.
65.1), pleiteando a reforma da sentença na parte que afastou a capitalização de juros
do cálculo das prestações, determinou a repetição do indébito em dobro e
descaracterizou a mora. Por fim, pediu a redistribuição do ônus da sucumbência.
O autor não apresentou contrarrazões.
É o relatório.
II- VOTO
Presentes os pressupostos processuais de admissibilidade, intrínsecos e extrínsecos,
conheço do recurso.
3. Analisando o contrato que serve de supedâneo à demanda revisional, observa-se
que se trata de “instrumento particular de financiamento para aquisição de imóvel” (f.
22/53­ mov.
1.3), regulado pela Lei nº 4.380/1964 do Sistema Financeiro da Habitação.
Assim, no que tange à modalidade contratual em questão, anoto que o artigo 15-A,
com redação dada pela lei nº 11.977/20092 prevê a possibilidade de capitalização dos
juros nas operações realizadas pelas entidades integrantes do Sistema Financeiro da
Habitação - SFH. Nesse sentido, já se manifestou o STJ no REsp nº 1.070.297/PR3, sob
o rito do artigo 543-C. Frise-se que o contrato em questão foi firmado no dia 15 de
julho de 2011. A questão foi regulada por lei específica, não havendo espaço para a
aplicação da súmula 121 do STF. Inclusive, pelo mesmo motivo, não há que se falar
em declaração incidental de institucionalidade da Medida Provisória nº 2170-36/01.
No caso em tela, pela leitura do contrato (f. 47 ­ mov.
1.3), depreende-se que a aludida capitalização de juros foi expressamente pactuada4
no item nº 23 do “quadro resumo”, razão pela qual sua cobrança deve ser mantida e,
consequentemente reformada a sentença.
Nesse sentido é o entendimento jurisprudencial:
APELAÇÃO CÍVEL. PROMESSA DE COMPRA E VENDA. SISTEMA FINANCEIRO DE
HABITAÇÃO. CAPITALIZAÇÃO DE JUROS. É permitida a pactuação de capitalização
de juros com periodicidade mensal nas operações realizadas pelas entidades
integrantes do Sistema Financeiro da Habitação - SFH somente após a publicação da
Lei n. 11.977, de 7 de julho de 2009, a qual acrescentou o art. 15-A à Lei n. 4.380/64.
No caso concreto, vedada a capitalização de juros em qualquer periodicidade, pois o
contrato foi firmado antes da vigência da referida lei, incidindo os exatos termos do
recurso repetitivo REsp 1070297/PR. TABELA PRICE.
Inexistindo prova da capitalização de juros, a amortização do débito pela Tabela Price
não implica abusividade. DESCARACTERIZAÇÃO DA MORA. O reconhecimento da
154

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

abusividade contratual implica descaracterização da mora. PLANO DE


COMPROMETIMENTO DE RENDA - PCR. Legítima a adoção do Plano de
Comprometimento de Renda - PCR nos contratos regidos pelo Sistema Financeiro de
Habitação - SFH firmados após a vigência da Lei n. 8.692/93.
Ademais, inexistindo efetiva comprovação de qualquer ilegalidade ou abusividade no
plano de reajustamento contratado, ônus processual que lhe incumbia a teor do inciso
I do artigo 333 do CPC, impõe-se a manutenção do percentual máximo definido no
contrato (30%). HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. COMPENSAÇÃO. ASSISTÊNCIA
JUDICIÁRIA GRATUITA. A sucumbência recíproca determina a compensação dos
honorários advocatícios, ainda que uma das partes seja beneficiária da... AJG.
APELAÇÕES PARCIALMENTE PROVIDAS. (Apelação Cível Nº 70062204490, Décima
Nona Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Marco Antonio Angelo,
Julgado em 11/06/2015). (TJ-RS - AC: 70062204490 RS, Relator: Marco Antonio
Angelo, Data de Julgamento: 11/06/2015, Décima Nona Câmara Cível, Data de
Publicação: Diário da Justiça do dia 15/06/2015)
DIREITO CIVIL, BANCÁRIO E PROCESSUAL CIVIL.EMBARGOS À EXECUÇÃO.
CONTRATO DE FINANCIAMENTO HABITACIONAL. 1. ENTIDADE DE PREVIDÊNCIA
PRIVADA. CDC.
APLICABILIDADE. 2.CORREÇÃO MONETÁRIA. ILEGALIDADE DOS PERCENTUAIS
PRATICADOS NÃO EVIDENCIADA.SUBSTITUIÇÃO. DESCABIMENTO. 3.
CAPITALIZAÇÃO DE JUROS. MÚTUO VINCULADO AO SFH FIRMADO
ANTERIORMENTE À VIGÊNCIA DA LEI 11.977/2009. VEDAÇÃO EM QUALQUER
PERIODICIDADE. OCORRÊNCIA COMPROVADA.
EXPURGO. MANUTENÇÃO. 1. “O Código de Defesa do Consumidor é aplicável à
relação jurídica entre a entidade de previdência privada e seus participantes” (STJ,
Súmula 321, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 23/11/2005, DJ 05/12/2005, p. 410).2.
Não evidenciado pelo mutuário que os percentuais aplicados pelo mutuante a título
de correção monetária desobedeceram ao contrato, derivaram de índices ilegais ou
denotaram-se abusivos perante as perdas inflacionárias nos períodos discutidos,
afigura-se despropositado o provimento de recálculo da atualização, devendo ser
mantidos aqueles percentuais. 3. “Nos contratos celebrados no âmbito do Sistema
Financeiro da Habitação, antes da Lei n. 11.977/2009, que acrescentou o art. 15-A à
Lei n. 4.380/1964, é vedada a capitalização de juros em qualquer periodicidade (...)”
(EDcl no REsp 1238506/RS, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA,
julgado em 18/08/2015, DJe 25/08/2015). APELAÇÃO PROVIDA EM PARTE (TJPR -
15ª C.Cível - AC - 1482887-8 - União da Vitória - Rel.: Hayton Lee Swain Filho -
Unânime - - J. 02.03.2016) (TJ-PR - APL: 14828878 PR 1482887-8 (Acórdão), Relator:
Hayton Lee Swain Filho, Data de Julgamento: 02/03/2016, 15ª Câmara Cível, Data de
Publicação: DJ: 1758 11/03/2016)
4. Consequentemente, os efeitos da mora do devedor fiduciante devem ser mantidos,
pois apenas a cobrança de encargos abusivos no período da normalidade contratual,
leia-se juros remuneratórios e capitalização, afasta a mora, segundo orientação do
Superior Tribunal de Justiça5.

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5. No particular, como houve a reforma da sentença, resultando na improcedência


dos pedidos, não há que se falar em repetição do indébito ou compensação de
valores.
6. Ante o reexame da divergência apresentada, e sopesando o alcance dos efeitos do
presente julgamento, verifico que o autor sucumbiu totalmente na sua pretensão,
razão pela qual deve arcar com o pagamento das custas processuais e dos honorários
advocatícios pelo valor fixado na sentença (R$1.000,00).
7. Diante do exposto, voto no sentido de dar provimento ao recurso para (i) admitir a
cobrança taxa mensal capitalizada conforme foi expressamente contratado; (ii) declarar
a inexistência de valores a serem repetidos; (iii) manter os efeitos da mora debendi; e,
(iv) redisciplinar a distribuição do ônus da sucumbência.
III- DECISÃO
ACORDAM os Desembargadores integrantes da 17ª Câmara Cível do Tribunal de
Justiça do Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em dar provimento ao
recurso.
O julgamento foi presidido pelo Desembargador LAURI CAETANO DA SILVA, relator,
e dele participaram os Desembargadores TITO CAMPOS DE PAULA e RUI BACELLAR
FILHO.
Curitiba, 26 de abril de 2017.
DES. LAURI CAETANO DA SILVA Relator
--
1 Sentença proferida no dia 09.03.2016 e publicada no dia 11.03.2016.
--
2 Art. 15-A. É permitida a pactuação de capitalização de juros com periodicidade
mensal nas operações realizadas pelas entidades integrantes do Sistema Financeiro da
Habitação - SFH.
--
3 “(...)
Os contratos celebrados para aquisição da casa própria, no âmbito do Sistema
Financeiro da Habitação, são regidos por leis próprias, notadamente a Lei nº 4.380/64,
a qual, somente em recente alteração legislativa (Lei nº 11.977 de 7 de julho de 2009),
previu o cômputo capitalizado de juros em periodicidade mensal.
(...)”.
--
4 “23. Sistema de amortização: Tabela Price”.
--
5 Orientação 2, consolidada pelo Superior Tribunal de Justiça no julgamento do REsp
1.061.530-RS.

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2.1.20. BUSCA E APREENSÃO EM ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA – CONSOLIDAÇÃO

DA PROPRIEDADE NAS MÃOS DO CREDOR

AÇÃO DE BUSCA E APREENSÃO. CONTRATO DE MÚTUO COM GARANTIA

FIDUCIÁRIA. PROCESSO EXTINTO. ART. 267, VI DO CPC/73 (ART. 485, VI DO

CPC/15). DEPÓSITO DAS PARCELAS VENCIDAS E VINCENDAS REALIZADO DEPOIS

DO TRANSCURSO DO PRAZO DE 5 DIAS APÓS O CUMPRIMENTO DA LIMINAR.

POSSE DO BEM CONSOLIDADA NAS MÃOS DO CREDOR. ART. 3º, §1º DO DEC. LEI

Nº 911/69. RESP 1.418.539/MS. SENTENÇA CASSADA. RECURSO PROVIDO.

PROCESSO APTO AO JULGAMENTO DE MÉRITO. ART. 515, §3º DO CPC/73. ART.

1.013, §3º DO CPC/15. EQUAÇÃO FINANCEIRA DO CONTRATO PARA APURAÇÃO

DE SALDO DEVEDOR OU CREDOR E EVENTUAL DEVOLUÇÃO DE VALORES.

PEDIDO JULGADO PROCEDENTE. 1. "No caso de inadimplemento ou mora nas

obrigações contratuais garantidas mediante alienação fiduciária, o proprietário

fiduciário ou credor poderá vender a coisa a terceiros, independentemente de leilão,

hasta pública, avaliação prévia ou qualquer outra medida judicial ou extrajudicial, salvo

disposição expressa em contrário prevista no contrato, devendo aplicar o preço da

venda no pagamento de seu crédito e das despesas decorrentes e entregar ao

devedor o saldo apurado, se houver" (Decreto-Lei 911/69). 2. "Para fins do art. 543-C

do Código de Processo Civil: `Nos contratos firmados na vigência da Lei n.

10.931/2004, compete ao devedor, no prazo de 5 (cinco) dias após a execução da

liminar na ação de busca e apreensão, pagar a integralidade da dívida - entendida esta

como os valores apresentados e comprovados pelo credor na inicial -, sob pena de

consolidação da propriedade do bem móvel objeto de alienação fiduciária' (STJ ­ REsp

nº 1.418.593/MS, Rel.: Min. Luis Felipe Salomão, 2ª Seção, J.: 14.05.2014).

(TJPR - 17ª C.Cível - AC - 1626135-1 - Região Metropolitana de Maringá - Foro Central

de Maringá - Rel.: Lauri Caetano da Silva - Unânime - J. 19.04.2017)

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Inteiro Teor

I- RELATÓRIO
1. Cuida-se de ação de busca e apreensão ajuizada por Aymoré C.F.I. S/A em face de
Ideuza Aparecida Frameschi Honório, denunciando o inadimplemento de contrato de
mútuo com garantia fiduciária. Afirma que o inadimplemento se deu a partir da
contraprestação nº 31 das 36 contratadas, vencida no dia 30.05.2015.
A liminar de busca e apreensão foi deferida (f.41/42) e o bem foi apreendido no dia
22.10.2015 (f.69).
2. A ré compareceu ao processo (f.63) requerendo a remessa dos autos à contadoria
judicial para apuração dos valores devidos. O magistrado deferiu tal pedido (f.66).
O réu comunicou o depósito da importância de R$8.277,62, realizado em 03.11.2015
(f.92/95), tomando como referência os valores apresentados pelo Contador do juízo
em 27.10.2015 (f.84/85).
3. O MM. Dr. Juiz a quo proferiu a r. sentença de f.
133/137, julgando extinto o processo, sem resolução de mérito, nos termos do artigo
267, VI do Código De Processo Civil, diante do pagamento integral do contrato.
Revogou a liminar anteriormente concedida e determinou a restituição do bem, no
prazo de 5 dias,
fixando multa no valor de R$500,00 por dia de atraso, limitada ao valor de 45 dias
multa.
4. O autor interpôs recurso de apelação (f.143/152) pleiteando a reforma da sentença.
Contrarrazões às f. 167/179.
É o relatório.
II- VOTO
Presentes os pressupostos recursais de admissibilidade, extrínsecos e intrínsecos,
conheço do recurso.
5. Cinge-se a controvérsia recursal em definir se deve o autor restituir o automóvel ao
devedor em virtude do depósito de f. 95.
5.1. O Decreto Lei nº 911/69, no seu artigo 3º, § 1º, prevê expressamente que cinco
dias após a execução da liminar, a propriedade do bem fica consolidada com o credor
fiduciário, obrigando o devedor, neste ínterim, a pagar a integralidade do débito
remanescente para que o bem lhe seja restituído livre do ônus. Consta ainda que “No
caso de inadimplemento ou mora nas obrigações contratuais garantidas mediante
alienação fiduciária, o proprietário fiduciário ou credor poderá vender a coisa a
terceiros, independentemente de leilão, hasta pública, avaliação prévia ou qualquer
outra medida judicial ou extrajudicial, salvo disposição expressa em contrário prevista
no contrato, devendo aplicar o preço da venda no pagamento de seu crédito e das
despesas decorrentes e entregar ao devedor o saldo apurado, se houver”.
Nesse mesmo sentido apontou o Superior Tribunal de Justiça, no julgamento do REsp
nº 1.418.593/MS, sob o rito do artigo 543-C do Código de Processo Civil/73 (1.036
CPC/15) ­ e, portanto, com efeito vinculante:

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ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA EM GARANTIA. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO


DE CONTROVÉRSIA. ART. 543-C DO CPC. AÇÃO DE BUSCA E APREENSÃO.
DECRETO-LEI N.
911/1969. ALTERAÇÃO INTRODUZIDA PELA LEI N. 10.931/2004. PURGAÇÃO DA
MORA.
IMPOSSIBILIDADE. NECESSIDADE DE PAGAMENTO DA INTEGRALIDADE DA
DÍVIDA NO PRAZO DE 5 DIAS APÓS A EXECUÇÃO DA LIMINAR.
1. Para fins do art. 543-C do Código de Processo Civil: “Nos contratos firmados na
vigência da Lei n. 10.931/2004, compete ao devedor, no prazo de 5 (cinco) dias após a
execução da liminar na ação de busca e apreensão, pagar a integralidade da dívida -
entendida esta como os valores apresentados e comprovados pelo credor na inicial -,
sob pena de consolidação da propriedade do bem móvel objeto de alienação
fiduciária”.
2. Recurso especial provido.
(STJ ­ REsp nº 1.418.593/MS, Rel.: Min. Luis Felipe Salomão, 2ª Seção, J.: 14.05.2014)
Assim, por imperativo legal, corroborado por precedente obrigatório do STJ, após o
cumprimento da liminar, o devedor tem cinco dias para efetuar o depósito integral da
dívida, compreendendo as prestações vencidas, encargos moratórios, além das
vincendas e atualizações, sob pena de consolidação da posse e propriedade do bem
apreendido nas mãos do credor. A atualização deve ser feita pelo próprio devedor,
com base nos valores indicados na inicial. A lei e o precedente não trazem qualquer
hipótese de prorrogação desse prazo.
Pois bem. No caso em tela, o veículo foi apreendido em 22.10.2015, conforme auto
de f. 69. O depósito do valor tido como devido foi realizado somente em 03.11.2015,
fora, portanto, do prazo estabelecido pelo Decreto Lei nº 911/69 e pelo REsp. nº
1.418.593/MS.
A decisão de f. 66 sequer mencionou a prorrogação do prazo para o depósito. E nem
poderia, vez que estaria contrariando disposição expressa de texto legal e de
precedente vinculante. O pedido de envio dos autos à contadoria judicial (f.63) foi
realizado por conta e risco da própria devedora, na medida em que os valores
para depósito já estão descritos no cálculo trazido com a inicial (f.24), dependendo
somente das devidas atualizações.
Assim, não é possível reconhecer a quitação da dívida e determinar a restituição do
veículo apreendido, na medida em que o depósito de f. 95 foi realizado após o prazo
de cinco dias contados a partir da data do cumprimento da liminar, e a posse e
propriedade do bem apreendido já se encontravam consolidados nas mãos do autor.
6. Portanto, a sentença que julgou extinto o processo sem resolução de mérito, nos
termos do artigo 267, VI do Código de Processo Civil (art. 485, VI do CPC/15), deve
ser revogada.
Uma vez comprovado o inadimplemento e a regular constituição em mora do
devedor, e diante da ausência de contestação, com fundamento no artigo 515, §3º do
Código de Processo Civil (art. 1.013, §3º do CPC/15), julgo procedente o pedido,
confirmando os termos da liminar de f. 41/42, para consolidar nas mãos do credor a
posse definitiva do bem arrendado.
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Fica o réu responsável pelo pagamento das custas processuais e dos honorários
advocatícios, conforme fixado na sentença, e já pagos conforme depósito de f. 95.
Para eventual devolução de valores à ré, deverá ser realizada a equação financeira do
contrato, apurando-se o montante devido, o depósito realizado e o valor de venda do
bem em leilão.
7. Diante do exposto, voto no sentido de dar provimento ao recurso, para revogar a
sentença de f. 133/137 e, com fundamento no art. 515, § 3º do CPC (art. 1.013, § 3º
do CPC/15), julgar procedente o pedido formulado na inicial, para confirmar a liminar
de f. 41/42 e consolidar o credor na posse e propriedade definitiva do bem
apreendido.
III- DECISÃO
ACORDAM os Desembargadores integrantes da 17ª Câmara Cível do Tribunal de
Justiça do Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em dar provimento ao
recurso e, com fundamento no artigo 515, §3º do Código de Processo Civil (art. 1.013,
§3º do CPC/15), julgar procedente o pedido formulado na inicial.
O julgamento foi presidido pelo Desembargador LAURI CAETANO DA SILVA, relator,
e dele participaram os Desembargadores TITO CAMPOS DE PAULA e RUI BACELLAR
FILHO.
Curitiba, 19 de abril de 2017.
DES. LAURI CAETANO DA SILVA Relator

2.1.21. DEVOLUÇÃO DO VRG

CONTRATO DE ARRENDAMENTO MERCANTIL. AÇÃO COM PEDIDO DE

DEVOLUÇÃO DOS VALORES PAGOS A TÍTULO DE VRG. PEDIDO JULGADO

PROCEDENTE. AÇÃO DE REINTEGRAÇÃO DE POSSE AUTÔNOMA (AUTOS Nº

282/98). LIMINAR DEFERIDA. MANDADO CUMPRIDO. VRG. RELAÇÃO DE DÉBITOS

E CRÉDITOS DA OPERAÇÃO FINANCEIRA. PRECEDENTE DO STJ NO RESP

1.099.212-RJ, SOB O RITO DO ART. 543-C DO CPC. APURAÇÃO DE SALDO

CREDOR OU DEVEDOR NA FASE DE LIQUIDAÇÃO. ÔNUS DA SUCUMBÊNCIA.

REDISTRIBUIÇÃO. RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO. Quando o credor

arrendante retoma a posse do bem arrendado, operando a rescisão do contrato, o

direito do arrendatário obter a devolução dos valores antecipados a título de VRG,

depende da apuração do saldo credor ou devedor do contrato, nos termos da

orientação preconizada pelo STJ no julgamento do REsp nº 1.099.212-RJ, sob o rito

do art. 543-C do CPC. A apuração do saldo devedor ou credor do contrato pode ser

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realizada em sede de liquidação de sentença, constituindo em favor do autor ou do

réu um título executivo, consoante precedente do STJ no REsp nº 1.300.213-RS.

(TJPR - 17ª C.Cível - AC - 1630926-1 - Curitiba - Rel.: Lauri Caetano da Silva - Unânime

- J. 19.04.2017)

Inteiro Teor

I- RELATÓRIO
1. Cuida-se de ação com pedido de devolução dos valores pagos a título de VRG
(autuada sob nº 21609-35.2011.8.16.0001) ajuizada por Passoni e Passoni Limitada em
face de HSBC Bank Brasil S/A ­ Banco Múltiplo (f. 03/11 ­ mov. 1.1).
2. O réu apresentou resposta em sede de contestação (f. 131/141 ­ mov. 36.1),
refutando integralmente o pedido do autor.
3. Foi proferida sentença de extinção do processo, sem resolução do mérito (f.
264/268 ­ mov. 104.1), a qual foi anulada no julgamento da apelação cível nº
1.062.687-4 (f. 587/591 ­ mov. 120.9).
Nova sentença foi proferida e declarou a ocorrência da prescrição (f. 606/608 ­ mov.
129-1). No entanto, no julgamento da apelação cível nº 1.363.514-6 a prescrição foi
afastada (f. 661/664 ­ mov. 149.2).
4. O MM. Dr. Juiz a quo proferiu sentença1 (f. 727/730 ­ mov. 178.1), pela qual julgou
procedente o pedido formulado na inicial para condenar o réu à devolução dos valores
pagos a título de VRG, no importe de R$10.262,00, acrescidos de juros de mora de 1%
ao mês desde a citação e correção monetária pelo índice INPC/IGP a partir do
desembolso. Ante a sucumbência, condenou o réu ao pagamento das custas
processuais e dos honorários advocatícios, fixados em 10% sobre o valor atualizado da
causa.
5. O réu interpôs recurso de apelação (f. 737/750 ­ mov.
184.1), pleiteando a reforma da sentença, alegando (i) a inexistência de valores a
serem restituídos a título de VRG; (ii) a possibilidade de compensação dos valores
pagos a título de VRG com o saldo devedor do contrato inadimplido; (iii) deve ser
apurado o saldo devedor ou credor do contrato nos termos do REsp nº 1.099.212-RJ.
Alega ainda que o termo inicial para incidência da correção monetária deve ser a
data do ajuizamento da ação, conforme disposto no artigo 1º da Lei 6.899/81. Por fim,
pediu a redistribuição do ônus da sucumbência.
Nas contrarrazões de f. 755/766 (mov. 186.1), a autora apenas refuta os argumentos
do recurso.
É o relatório.
II- VOTO
Presentes os pressupostos processuais de admissibilidade, intrínsecos e extrínsecos,
conheço do recurso.

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6. A pretensão da autora se traduz na possibilidade de devolução dos valores


adiantados a título de VRG, uma vez que houve a rescisão do contrato e a reintegração
do réu na posse do veículo arrendando.
Convém esclarecer que, anteriormente a presente ação, o credor arrendante ajuizou
ação de reintegração de posse (autos nº 282/1998), denunciando o inadimplemento
do contrato. A liminar foi deferida e o respectivo mandado foi cumprido no dia
07.10.1998 (f.
40/44 ­ mov. 1.3). O MM. Dr. Juiz a quo julgou procedente o pedido para reintegrar o
autor na posse definitiva do veículo arrendado (f.
47/49 ­ mov. 1.3).
7. O Superior Tribunal de Justiça já pacificou entendimento a respeito da
possibilidade da cobrança antecipada ou diluída nas contraprestações do valor
residual e sobre os seus efeitos em relação ao contrato de arrendamento, quando
editou a Súmula 293, com o seguinte enunciado: “A cobrança antecipada do valor
residual garantido (VRG) não descaracteriza o contrato de arrendamento mercantil”.
As companhias de leasing para concretizar o negócio sob o enfoque estritamente
financeiro utilizam o capital para adquirir o bem ou pagar ao vendedor conforme o
pedido formulado pelo
proponente do arrendamento. O valor pago pela aquisição do bem corresponde ao
valor inicial da operação de crédito. Sobre o valor inicial é adicionado os encargos
financeiros, cujo resultado final tem como variáveis o prazo ajustado, a taxa de juros e
as despesas realizadas para a finalização do negócio. Quando examinamos o contrato
de arrendamento mercantil verificamos que o valor inicial do negócio ­ valor de
compra do bem ­ está equacionado no pagamento do chamado valor residual de
garantia - VRG. Em outras palavras: o valor do bem é igual ao valor inicial da operação,
que por sua vez corresponde ao valor total do VRG. Quando o arrendatário antecipa
valores a título de VRG, está saldando o valor inicial da operação de crédito sem os
encargos financeiros incidentes sobre o capital empregado pela instituição de crédito.
A teoria consequencialista orienta que ao aplicar determinado instituto jurídico é
necessário entender a realidade financeira do negócio, bem como os efeitos
econômicos decorrentes, sob pena de impor prejuízos e inviabilizar futuros negócios
da mesma natureza. É o que ocorre com o chamado leasing financeiro, cuja primeira
causa das divergências reside na falta de uma legislação específica para dar adequado
tratamento a este importante instrumento no mundo dos negócios.
O exame da realidade econômica frente à doutrina proporciona ensinamentos como
de Arnaldo Rizzardo quando diz:
“A opção de compra é estabelecida em favor do arrendatário, não ocorrendo o
mesmo quanto ao valor residual garantido, que é uma quantia mínima que deve
receber o arrendador. A definição do valor residual garantido é dada por Jorge G.
Cardoso: `O VRG (valor residual garantido) é, portanto, uma obrigação assumida pelo
arrendatário, quando da contratação do arrendamento mercantil, no sentido de
garantir que o arrendador receba, ao final do contrato, a quantia mínima final de
liquidação do negócio, em caso de o arrendatário optar por não exercer seu direito de

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compra e, também, não desejar que o contrato seja prorrogado”. (Leasing


Arrendamento Mercantil no Direito Brasileiro, 3ª edição, f. 80)
Seguindo essa linha de raciocínio, uma vez rescindido o contrato antes do prazo é
preciso compor créditos e débitos, para promover a sua equação financeira. Para a
apuração da existência de saldo devedor ou credor devemos promover um cálculo
simples de adição e subtração dos seguintes componentes: (A) valor de compra do
bem arrendado que equivale ao valor total do VRG inicialmente contratado - (B) valor
efetivamente pago a título de VRG até a data da rescisão do contrato (retomada do
bem) + (C) valor obtido com a venda do bem = (D) valor do saldo positivo ou negativo
da operação de crédito . É evidente que para tal operação é indispensável que o
arrendante apresente a nota de venda do veículo. Na sua falta podemos utilizar o
preço de venda do bem no mercado geral à época da retomada da posse.
A equação pode ser formulada da seguinte forma: A ­ (B + C) = X (valor do saldo
positivo ou negativo do contrato). A companhia de leasing pode adicionar as
contraprestações inadimplidas até a data da rescisão do contrato e os acréscimos
decorrentes da mora, além das tarifas e outros encargos financeiros contratados.
Tal orientação foi consagrada pelo Superior Tribunal de Justiça no julgamento do
REsp nº 1.099.212-RJ2 consolidando tese para os efeitos do artigo 543-C do Código
de Processo Civil, com a seguinte dicção: “nas ações de reintegração de posse
motivadas por inadimplemento de arrendamento mercantil financeiro, quando o
produto soma do VRG quitado com o valor da venda do bem for maior que o total
pactuado como VRG na contratação, será direito do arrendatário receber a diferença,
cabendo, porém, se estipulado no contrato, o prévio desconto de outras despesas ou
encargos contratuais.”
É o que leciona o professor Arnold Wald, quando diz:
“(...) diante da ocorrência de inadimplemento por parte do arrendatário, a retomada
do bem tem como único objetivo o ressarcimento, pois, não sendo a arrendante um
empresário do ramo de comércio dos bens, este não lhe oferece qualquer utilidade,
tendo sido comprado especificamente para o leasing pactuado. Assim, o destino do
bem é a venda para terceiros, e o preço obtido deve destinar-se a assegurar o
equilíbrio contratual. Se houver saldo devedor do arrendatário, caber-lhe-á fazer o
respectivo pagamento. Se o saldo for credor, haverá restituição do valor
correspondente.
Não fosse assim, o arrendatário estaria se beneficiando da situação. Afinal de contas,
na equação econômica do contrato, as prestações dele cobradas foram menores em
razão de ter assumido a obrigação de garantir um valor mínimo de revenda do bem,
caso não viesse a adquiri-lo. Estando inadimplente quanto à obrigação de pagar as
parcelas, se não subsistisse a obrigação por ele assumida no momento da contratação
quanto ao VRG, estaria fraudada a boa- fé objetiva”. (Inexistência de Direito Líquido e
Certo à Restituição do Valor Residual Garantido no Contrato de Arrendamento
Mercantil ­ Princípio da boa-fé objetiva, in Revista de Direito Bancário e do Mercado
de Capitais, volume 31, Editora Revista dos Tribunais)

163

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Portanto, a simples devolução dos valores pagos a título de VRG, sem equacionar o
saldo devedor ou credor do contrato, pode proporcionar enriquecimento sem causa
para qualquer das partes.
No presente caso concreto, segundo o contrato de f.
22/35 (mov. 1.2), a instituição financeira disponibilizou a importância de R$45.000,00.
O arrendatário assumiu a obrigação de pagar 36 contraprestações de R$450,00 a título
de valor residual garantido (fundamento de f. 5), com vencimento da 1ª parcela em
05.10.1994. O autor pagou somente 12 contraprestações e renegociou a dívida,
conforme aditivo de renegociação de operação de f. 36/37 (mov. 1.3), assumindo a
obrigação de pagar 48 contraprestações de R$243,10 a título de valor residual
garantido e de R$1.820,03 de encargos financeiros incidentes sobre o valor
disponibilizado. O autor pagou 20 contraprestações (até a vencida em 05.01.1998 ­
fundamentos de f. 5). O bem foi apreendido no dia 07.10.1998 (f. 44 ­ mov. 1.3). A
diferença entre o valor inicial contratado e os valores efetivamente pagos a título de
VRG somado ao valor de venda do bem, indica a existência de saldo credor ou
devedor. Nessa operação devem ser computados os encargos moratórios de
prestações inadimplidas até a data da retomada da posse do bem.
Assim, o caso exige a prova do preço de venda do veículo e se o produto da venda
foi suficiente para a recuperação do capital inicial mais os encargos financeiros devidos
até a data da entrega do bem. Não é razoável apresentar soluções jurídicas aos
conflitos sem questionar os efeitos econômicos que vai proporcionar para qualquer
das partes envolvidas na relação jurídica negocial. O saldo credor ou devedor do
contrato deve ser apurado na fase de
liquidação, oportunidade em que se fará a prova do preço de venda do veículo ou de
negócio no mês da apreensão do bem pelo credor arrendante, segundo o valor da
Tabela Fipe.
O valor da condenação prefixado na sentença em R$10.262,00 não tem respaldo na
equação financeira do contrato, razão pela qual fica revogada. O magistrado não pode
pré-fixar o valor da condenação quando o cálculo depende de variáveis a serem
identificadas na fase de liquidação.
8. Uma vez apurado em sede de liquidação de sentença o saldo positivo ou negativo
da equação financeira do contrato é perfeitamente possível constituir título executivo
para pagar quantia certa remanescente em favor do autor ou do réu. Tal entendimento
tem como precedente o voto condutor do julgamento do REsp 1.300.213-RS, de 12
de abril de 2012, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, com a seguinte ementa:
“PROCESSUAL CIVIL. EXECUTIVIDADE DE SENTENÇA. IMPROCEDÊNCIA DE AÇÃO
DECLARATÓRIA NEGATIVA. RECONHECIMENTO, EM FAVOR DO DEMANDADO,
DA EXISTÊNCIA DE OBRIGAÇÃO DE PAGAR. INCIDÊNCIA DO ART. 475-N, I, DO
CPC.
MATÉRIA DECIDIDA PELA 1ª SEÇÃO, SOB O REGIME DO ART. 543-C DO CPC.
ESPECIAL EFICÁCIA VINCULATIVA. (CPC, ART. 543-C, § 7º). 1. Nos termos do art.
475- N, I do CPC, é título executivo judicial “a sentença proferida no processo civil que
reconheça a existência da obrigação de fazer, não fazer, entregar coisa ou pagar
quantia”.
164

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

Antes mesmo do advento desse preceito normativo, a uníssona jurisprudência do STJ,


inclusive em julgamento de recurso representativo de controvérsia (Resp 1.114.404, 1ª
Seção, Min. Mauro Campbell Marques, DJ de 01.03.10), já atestara a eficácia executiva
da sentença que traz definição integral da norma jurídica individualizada. Não há razão
alguma, lógica ou jurídica, para submeter tal sentença, antes da sua execução, a um
segundo juízo de certificação, cujo resultado seria necessariamente o mesmo, sob
pena de ofensa à coisa julgada. 2. Nessa linha de entendimento, o art. 475-N, I do
CPC se aplica também à sentença que, julgando improcedente (parcial ou totalmente)
o pedido de declaração de inexistência de relação jurídica obrigacional, reconhece a
existência de obrigação do demandante para com o demandado. Essa sentença, como
toda a sentença de mérito, tem eficácia de lei entre as partes (CPC, art. 468) e,
transitada em julgado, torna-se imutável e indiscutível (CPC, art. 471), salvo em ação
rescisória, se for o caso. Precedente da 1ª Seção, julgado sob o regime do art. 543-C
do CPC: REsp 1.261.888-RS, Min. Mauro Campbell Marques, DJe de 18/11/2011. 3.
Recurso especial provido.”
A 17ª Câmara Cível adotou esse posicionamento no julgamento do agravo de
instrumento nº 918.802-7, relatado pelo Juiz Substituto em 2º grau Francisco Jorge.
9. Diante do reexame da divergência apresentada, e sopesando o alcance dos efeitos
do presente julgamento, verifico a necessidade de redistribuir os ônus da
sucumbência. Assim, condeno cada uma das partes ao pagamento de 50% das custas
processuais e dos honorários advocatícios pelo valor fixado na sentença (10% sobre o
valor atualizado da causa). A autora é beneficiária da assistência judiciária gratuita (f.
101/104 ­ mov. 24.2).
10. Diante do exposto, voto no sentido de dar parcial provimento ao recurso de
apelação para (i) determinar a apuração do saldo credor ou devedor do contrato,
conforme exposto no item 7 do presente acórdão e a orientação ditada pelo STJ no
julgamento do REsp nº 1.099.212-RJ sob o rito do art. 543-C do CPC, na fase de
liquidação, constituindo-se em favor do arrendante ou do arrendatário título executivo;
(ii) redisciplinar a distribuição do ônus da sucumbência. Consequentemente fica sem
efeito o valor pré-fixado pelo juiz na sentença.
III- DECISÃO
ACORDAM os Desembargadores integrantes da 17ª Câmara Cível do Tribunal de
Justiça do Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao
recurso de apelação.
O julgamento foi presidido pelo Desembargador LAURI CAETANO DA SILVA, relator,
e dele participaram os Desembargadores TITO CAMPOS DE PAULA e RUI BACELLAR
FILHO.
Curitiba, 19 de abril de 2017.
DES. LAURI CAETANO DA SILVA Relator
--
1 Sentença proferida e publicada no dia 22.08.2016.
2 REsp 1099212/RJ, Rel. Min. Massami Uyeda, Rel. p/ Acórdão Ministro Ricardo Villas
Bôas Cueva, 2ª SEÇÃO, julgado em 27.02.2013, DJe 04.04.2013.

165

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

2.1.22. DECLARATÓRIA DE QUITAÇÃO – NOVAÇÃO CONTRATUAL

COHAPAR. REVISIONAL E DECLARATÓRIA DE QUITAÇÃO DO DÉBITO. PEDIDO

JULGADO PARCIALMENTE PROCEDENTE. DECLARAÇÃO DE QUITAÇÃO. PERÍCIA

QUE DETECTA VALORES PAGOS A MAIOR EM VIRTUDE DE DESCONTO

CONCEDIDO AO AUTOR EM 05.01.2001. PERITO QUE, NO ENTANTO,

DESCONSIDERA A NOVAÇÃO. ANTIGO CONTRATO EXTINTO, INAUGURANDO

NOVA RELAÇÃO NEGOCIAL. VALORES PAGOS REFERENTES AO NOVO

CONTRATO E QUE, PORTANTO, NÃO CONFIGURAM PAGAMENTO INDEVIDO.

AUSÊNCIA DE VALORES A SEREM RESTITUÍDOS. CONTRATO ORIGINAL QUE NÃO

CONTÉM ILEGALIDADES. SENTENÇA REFORMADA. IMPROCEDÊNCIA DOS

PEDIDOS. ÔNUS DA SUCUMBÊNCIA REDISTRIBUÍDO. RECURSO PROVIDO.

"Novação significa modificação ou substituição de uma obrigação por outra. Como tal

não se entende a tolerância ou prorrogação de prazo para o recebimento de dívida. É

a transformação de uma obrigação por outra [...] Novação é o negócio jurídico por

meio do qual se cria uma nova obrigação, com o objetivo precípuo de extinguir-se

obrigação anterior" (NERY, 2013).

(TJPR - 17ª C.Cível - AC - 1539639-7 - Cornélio Procópio - Rel.: Lauri Caetano da Silva

- Unânime - J. 19.04.2017)

Inteiro Teor

I- RELATÓRIO
1. Arthur Martins ajuizou, perante a Justiça Federal, “ação para quitação total de
contrato de financiamento habitacional c/c revisão contratual e repetição de indébito
com pedido liminar” em face de Cohapar Companhia de Habitação do Paraná e da
Caixa Econômica Federal, alegando, em síntese, que: a) é mutuário de um imóvel
adquirido junto à Cohapar, com recursos financiados pela Caixa Econômica Federal; b)
o contrato de compromisso de compra e venda teve como plano de financiamento o
de equivalência salarial (PES), que obedece ao limite de 30% da renda familiar do
mutuário, com quitação, ao final do contrato, do saldo devedor residual coberto pelo
FCVS (Fundo Compensado de Variações Salariais); c) os agentes do sistema financeirO
de habitação se encontravam em débito com diversos fundos, entre eles o FCVS; d)
com a edição da Lei nº 10.150/00, os agentes financeiros e companhias de habitação
obtiveram uma novação da dívida; e) a COHAPAR aderiu ao plano e anunciou que
perdoaria a dívida de cerca de 35.000 mutuários, bastando que este estivesse em dia
166

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

com as prestações e ter o contrato em seu nome, para, em 31.12.2000, solicitar a


quitação; f) na data combinada, entretanto, foi informado sobre a necessidade de
depuração do contrato ou termo de novação da dívida, em razão de saldo paralelo; g)
a publicidade veiculada deve prevalecer, de acordo com o CDC; h) deve ser
reconhecida a quitação do contrato, sem a cobrança de quaisquer diferenças de
prestações ou que seja demonstrado o saldo devedor remanescente para
compensação e devolução dos valores pagos a maior; i) alternativamente, deve ser
determinado o recálculo das prestações devidas, utilizando-se os índices e reajustes
aplicados ao salário base da categoria profissional do autor; j) a correção, quando da
implementação do plano real, deve ser revista; l) deve ser afastada a incidência do
Coeficiente de Equiparação Salarial ­ CES; m) o valor de percentual de seguros sobre a
prestação deve ser constante e igual ao inicialmente pactuado; n) os valores cobrados
a maior a título de Fundo de Compensação de Variações Salariais ­ FCVS ­ deve ser
restituído.
2. Os réus apresentaram defesa em sede de contestação (f.247/271 e f.303/326). Às f.
385/386, foi determinada a produção de prova pericial para maior elucidação dos
fatos controvertidos.
Formulados os quesitos pelas partes e pelo próprio magistrado e
indicado assistente técnico pela Cohapar, foi apresentado o laudo de f. 410/431.
3. O MM. Dr. Juiz da 3ª Vara Federal de Londrina proferiu a sentença de f. 495/504,
pela qual julgou parcialmente procedentes os pedidos formulados na inicial, para
declarar quitado o contrato em 05.01.2001 e condenar a Cohapar a restituir aos
autores o saldo credor de R$2.801,32. Por fim, condenou as rés ao pagamento, pro
rata, das custas processuais e dos honorários advocatícios fixados em 10% sobre o
valor a ser restituído.
4. A ré Cohab interpôs recurso de apelação às f.
507/517. Da mesma forma, a Caixa Econômica Federal interpôs recurso de apelação
às f. 523/534. O autor interpôs recurso adesivo (f.562/565).
5. Os desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4ª Região decidiram, por
maioria de votos, anular a sentença, reconhecendo a ilegitimidade passiva da Caixa
Econômica Federal, extinguindo o processo em relação a ela, nos termos do artigo
267, VI do Código de Processo Civil, e determinaram a remessa dos autos à Justiça
Estadual (f.581/587).
6. Remetidos os autos à Justiça Estadual, o MM. Juiz da Vara Cível da Comarca de
Cornélio Procópio concedeu a gratuidade judiciária, bem como a tutela antecipada
pleiteada e determinou a citação da ré Cohapar para apresentar defesa.
Citada, a ré Cohapar apresentou contestação às f.
619/635. O autor requereu a utilização da prova pericial produzida perante a Justiça
Federal, por razões de economia e celeridade processual.
7. Em sede de saneador (f.668/670), foi afastada a preliminar de falta de interesse
processual e admitida a utilização de prova emprestada, qual seja, a perícia realizada
perante o juízo federal. Contra essa decisão foi interposto o agravo retido de f.
677/678.

167

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8. Foi proferida sentença (f. 706/715), pela qual o magistrado de primeiro grau julgou
parcialmente procedentes os pedidos contidos na inicial para declarar quitado o
contrato na data de 05.01.2001 e condenar a ré a restituir ao autor o saldo de
R$2.801,32, apurado na perícia. Por fim, condenou a ré ao pagamento das custas
processuais e honorários advocatícios fixados em 20% sobre o valor da condenação.
9. A ré interpôs recurso de apelação às f. 746/750, postulando preliminarmente o
conhecimento do agravo retido interposto contra a decisão saneadora. No mérito,
alegou a impossibilidade da utilização da perícia realizada na Justiça Federal, pois o
perito não possuía conhecimentos técnicos na área do sistema financeiro habitacional.
Contrarrazões às f. 763/774.
É o relatório.
II­ VOTO
Presentes os pressupostos processuais de admissibilidade, merece o recurso de
apelação ser conhecido. Da mesma forma, conheço do agravo retido de f. 677/678.
10. Da leitura dos termos do processo, podem ser extraídas as seguintes informações:
(i) Arthur Martins e seu filho Lucas Martins firmaram, em 1º de janeiro de 1984,
compromisso de compra e venda com a Companhia de Habitação do Paraná
(f.286/287), para a aquisição de um imóvel situado na cidade de Cornélio Procópio,
transcrição nº 3.086/87. O ajuste previa que o preço do imóvel seria pago em 300
prestações, no valor de Cr$63.305,72, com reajuste nos meses de julho e o primeiro
vencimento agendado para 28.01.84.
O rejustamento seria feito conforme o Plano de Equivalência Salarial.
(ii) no dia 20.11.2000 foi firmada a “transferência de promessa de compra e venda” de
f. 291/293, na qual não houve alteração das partes do contrato, mas somente a
modificação de algumas cláusulas e o reconhecimento da dívida de R$32.405,87. O
contrato seria quitado pelo pagamento de 97 prestações de R$50,15, com reajuste da
prestação previsto para os meses de maio.
(iii) posteriormente, no dia 05.01.2001, foi firmado o “Termo de Renegociação com
Aditamento e Rerratificação de Dívida Originária de Contrato de Financiamento
Habitacional” de f. 183/186, pelo qual houve a redução da dívida para R$2.009,12 e
da taxa de juros efetiva para 1,0046. A dívida seria quitada em 35 prestações de
R$63,75.
11. Pois bem. O pedido autoral foi julgado parcialmente procedente vez que a perícia
considerou que o saldo devedor teria sido quitado em 05.01.2001 em virtude do
desconto concedido às f. 226, sendo indevidas, portanto, as cobranças a partir dessa
data.
No entanto, de uma leitura mais atenta do documento de f. 226, é facilmente
verificável o equívoco do perito. No referido documento, com mesma data do
contrato de f. 297/300, foi informado um saldo devedor de R$30.761,99, além de
Juros Contratuais, no valor de R$48,29, Seguro, no montante de R$9,25 e “Diferenças
de Prestações”, no valor de R$2.089,82. Ainda foi previsto um desconto de 100% com
relação ao campo “Saldo devedor” (R$30.761,99). Restou expressamente consignado
que a obrigação seria quitada em virtude da novação, substituindo-se antigo contrato
substituído pelo instrumento de f. 297/300.
168

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

Assim sendo, é evidente que o contrato anterior foi quitado, não configurando os
valores pagos após 05.01.2001 pagamentos a maior, pois se referem ao novo contrato
(f.297/300), que surgiu com a novação.
A respeito da novação, o Código Civil dispõe em seu artigo 360:
Art. 360. Dá-se novação: I ­ quando o devedor contrai com o credor nova dívida para
extinguir e substituir a anterior.
Sobre o tema, ensina Carlos Roberto Gonçalves1:
Novação é a criação de obrigação nova, para extinguir uma anterior. É a substituição
de uma dívida por outra, extinguindo-se a primeira. [...] a novação não extingue uma
obrigação preexistente para criar outra nova, mas cria apenas uma nova relação
obrigacional, para extinguir a anterior (Direito Civil Brasileiro. 6. ed. São Paulo: Saraiva,
2009. p. 315).
No mesmo sentido, Nelson Nery Junior2 conceitua:
Novação significa modificação ou substituição de uma obrigação por outra. Como tal
não se entende a tolerância ou prorrogação de prazo para o recebimento de dívida. É
a transformação de uma obrigação por outra [...] Novação é o negócio jurídico por
meio do qual se cria uma nova obrigação, com o objetivo precípuo de extinguir-se
obrigação anterior.
Neste viés, depreende-se que para a concretização de tal instituto é essencial a
presença de alguns requisitos: existência de uma obrigação anterior (obrigação
antiga), existência de uma nova obrigação e intenção de novar (animus novandi)3.
Assim, presentes os requisitos, restou inequívoca a novação perpetrada entre as
partes, extinguindo-se o contrato antigo, que foi substituído pelo instrumento de f.
297/300.
É oportuno salientar que, com a novação, afasta-se a discussão de qualquer
ilegalidade com relação ao contrato anterior, vez que a Súmula 297 do STJ é aplicável
somente aos contratos bancários. Ainda assim, a perícia não detectou nenhuma
ilegalidade ou prejuízo ao autor no contrato original.
Se o contrato anterior não continha qualquer ilegalidade e foi extinto em virtude da
novação, sendo substituído pelo instrumento de f. 297/300, se referindo os valores
pagos após 05.01.2001 a este último contrato, é evidente a inexistência de valores
pagos a maior, pelo que deve ser reformada a sentença, julgando-se improcedentes
os pedidos formulados na inicial.
12. Diante da reforma da sentença, resultando na improcedência dos pedidos, deve
também ser reformada a sentença no que diz respeito à distribuição do ônus
sucumbencial. Assim, fica o autor responsável pelo pagamento das custas processuais
e honorários advocatícios. Como a sentença fixou o valor dos honorários com base na
condenação, promovo sua condenação, e fixo o montante a ser pago a esse título em
R$2.500,00, com base no art. 85, §1º e §8º do NCPC, considerando que o advogado
do réu exerceu seu trabalho dentro do que se exigia para a espécie, com interposição
de diversos recursos, em processo que tramita há mais de dez anos. O autor é
beneficiário da gratuidade judiciária.

169

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

13. Ante o exposto, voto no sentido de dar provimento ao recurso, para reformar a
sentença, julgando improcedentes os pedidos contidos na inicial e redistribuindo o
ônus da sucumbência.
III ­ DECISÃO
ACORDAM os Desembargadores integrantes da 17ª Câmara Cível do Tribunal de
Justiça do Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em dar provimento ao
recurso.
O julgamento foi presidido pelo Desembargador LAURI CAETANO DA SILVA, com
voto, e dele participaram os Desembargadores TITO CAMPOS DE PAULA e RUI
BACELLAR FILHO.
Curitiba, 19 de abril de 2017.
DES. LAURI CAETANO DA SILVA Relator
--
1 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro. 6ª Ed. São Paulo: Saraiva,
2009. p. 315.
2 NERY JUNIOR, Nelson. Código Civil Comentado. 10ª. ed. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2013. p. 575.
3 TARTUCE, Flavio. Manual de direito civil, volume único. 4ª Ed. rev., atual. e ampl. Rio
de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2014. p. 396/397.

2.1.23. ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA – IMPUTAÇÃO AO PAGAMENTO

AÇÃO DE BUSCA E APREENSÃO. LIMINAR DEFERIDA. BEM APREENDIDO. PEDIDO

JULGADO IMPROCEDENTE. RECURSO DA AUTORA: PAGAMENTO DAS

PRESTAÇÕES NÚMEROS 4, 5, 6, 7, 8, 12, 14, 16 E 17 NÃO COMPROVADO. RÉU

QUE EFETUOU O PAGAMENTO DE PRESTAÇÕES COM DATAS ADIANTADAS.

INSTITUIÇÃO FINANCEIRAS QUE UTILIZOU DESSES VALORES PARA DAR

QUITAÇÃO NAS PRESTAÇÕES MAIS ATRASADAS. MORA COMPROVADA. PEDIDO

DE BUSCA E APREENSÃO JULGADO PROCEDENTE. CREDOR CONSOLIDADO NA

POSSE E PROPRIEDADE DEFINITIVA DO BEM. ÔNUS DA SUCUMBÊNCIA.

REDISTRIBUIÇÃO. RECURSO PROVIDO. A mora e o inadimplemento de obrigações

contratuais garantidas por alienação fiduciária faculta ao credor considerar vencidas

todas as obrigações contratuais, independentemente de aviso ou notificação judicial

ou extrajudicial nos termos do §3º do artigo 2º do Decreto-Lei nº 911/69.

(TJPR - 17ª C.Cível - AC - 1620978-2 - Campina Grande do Sul - Rel.: Lauri Caetano da

Silva - Unânime - J. 05.04.2017)

170

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

Inteiro Teor

I- RELATÓRIO
1. Cuida-se de ação de busca e apreensão ajuizada por BV Financeira S/A ­ Crédito,
Financiamento e Investimento em face de Osvaldo Generoso da Silva (autos nº 2703-
49.2012.8.16.0037), denunciando o inadimplemento da cédula de crédito bancário
com garantia fiduciária a partir da prestação de número 15, vencida no dia 19.02.2012,
totalizando um saldo devedor de R$17.617,54, conforme se infere às f. 32 (mov. 1.8).
2. Comprovada a constituição em mora do devedor fiduciante (f. 25/27 ­ mov. 1.5), o
juiz singular deferiu a liminar de busca e apreensão e determinou a citação do réu para
apresentar defesa ou adimplir a dívida pendente no prazo de 5 dias (f. 46 ­ mov.
6.1).
A autora pediu a suspensão do processo pelo prazo de 60 dias em razão de estar em
tratativa de acordo com o réu (f. 59 ­ mov. 11.1). O pedido foi deferido (f. 63 ­ mov.
14.1). Transcorrido o prazo a autora requereu a suspensão por mais 60 dias (f. 68 ­
mov.
18.1) e o processo foi suspenso (f. 70 ­ mov. 19.1).
Transcorrido o prazo de suspensão a autora deu prosseguimento ao feito, recolhendo
as despesas processuais do Oficial de Justiça (f. 84/85 ­ mov. 30.1/30.2). O bem não
foi apreendido ante a resistência do réu, conforme informou o Oficial de Justiça
através da certidão de f. 89 (mov. 32.1).
3. A autora informou que durante o tramite do processo transacionou com o réu e
restaram quitadas as prestações de nº 15 a nº 25, nº 29 a nº 43. No entanto, o réu
permanece em mora, pois as parcelas números 26, 27 e 28 estão em atraso há
aproximadamente 537 dias. Pediu a readequação do saldo devedor para R$11.329,00
e a expedição de novo mandado de busca e apreensão (f. 97 ­ mov. 38.1).
Juntou nova notificação extrajudicial (98/101 ­ mov. 38.2/38.3).
O juiz singular acolheu a emenda da inicial e determinou a expedição de novo
mandado de busca e apreensão. O bem foi apreendido no dia 07.08.2014.
4. O réu apresentou resposta em sede contestação (f.
116/131 ­ 47.1), refutando integralmente a pretensão inicial, informando que a
prestação nº 15 fora paga antes do ajuizamento da ação1 e as prestações de números
26, 27 e 28 foram pagas antes do vencimento, conforme os comprovantes juntados
(135/181 ­ mov. 47.7).
Na impugnação à contestação (f. 245/261 ­ mov. 78.1), a autora sustentou que não
houve a efetiva comprovação de pagamento de todas as prestações, pois o réu juntou
apenas as folhas do carnê das prestações números 4, 5, 6, 7, 8, 12, 13, 16 e 17 sem os
comprovantes de pagamento. Afirma que conforme foram sendo pagas as prestações
com data adiantada, deu quitação nas prestações mais atrasadas, no intuito de evitar
que a dívida ficasse ainda maior em virtude da incidência dos encargos moratórios.
5. O MM. Dr. Juiz a quo proferiu a sentença2 de f.
284/290 (mov. 83.1), pela qual julgou improcedente o pedido inicial, reconhecendo a
inexistência de mora, ante os comprovantes de pagamentos apresentados. Condenou
171

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

a autora ao pagamento da multa prevista no §6º do artigo 3º do Decreto-Lei nº 911/69


e da multa por litigância de má-fé de 1% sobre o valor da causa. Revogou a liminar e
determinou a restituição do veículo apreendido. Por fim, condenou a autora
pagamento das custas processuais e dos honorários advocatícios, fixados em
R$5.000,00.
6. A autora interpôs recurso de apelação (f. 297/302 ­ mov. 89.1) alegando que não
houve a comprovação do pagamento das parcelas de números 4, 5, 6, 7, 8, 12, 13, 16
e 17, pois o réu se limitou em juntar apenas o boleto, sem o comprovante de
pagamento.
Na medida em que foram sendo pagas prestações mais adiantadas, deu quitação nas
prestações mais atrasadas, visando evitar que a dívida ficasse ainda maior. Pediu o
afastamento da multa por litigância de má-fé e a redistribuição do ônus da
sucumbência.
O réu afirma que não é preciso juntar os comprovantes de pagamentos das parcelas
números 4, 5, 6, 7, 8, 12, 13, 16 e 17 pois constavam como pagas nas planilhas de
débito juntadas pela autora (f. 310/319 - mov. 94.1).
É o relatório.
II- VOTO
Presentes os pressupostos recursais de admissibilidade, intrínsecos e extrínsecos,
conheço do recurso.
7. A autora pede a reforma da sentença que julgou improcedente o pedido de busca
e apreensão, alegando que não houve o pagamento das prestações números 4, 5, 6,
7, 8, 12, 13, 16 e 17.
No presente caso, é necessário analisar os comprovantes de pagamento juntados
pelo réu:
VALOR DA DATA DO VALOR PARCELA Nº DATA DO PAGAMENTO FLS.
PARCELA VENCIMENTO PAGO 01 R$460,21 19.12.2010 19.12.2010 R$460,21 166 02
R$460,21 19.01.2011 31.01.2011 R$491,49 167 03 R$460,21 19.02.2011 04.03.2011
R$493,33 168 04 R$460,21 19.03.2011 Sem comprovante -- 169 05 R$460,21
19.04.2011 Sem comprovante -- 170 06 R$460,21 19.05.2011 Sem comprovante -- 171
07 R$460,21 19.06.2011 Sem comprovante -- 172 08 R$460,21 19.07.2011 Sem
comprovante -- 173
09 R$460,21 19.08.2011 Ilegível Ilegível 174 10 R$460,21 19.09.2011 30.09.2011
R$489,65 175 11 R$460,21 19.10.2011 01.12.2011 R$535,39 176 12 R$460,21
19.11.2011 Sem comprovante -- 177 13 R$460,21 19.12.2011 07.02.2012 R$528,00
178/179 14 R$460,21 19.01.2012 Sem comprovante -- 179 15 R$460,21 19.02.2012
05.04.2012 R$506,23 180 16 R$460,21 19.03.2012 Sem comprovante -- 181 17
R$460,21 19.04.2012 Sem comprovante -- 138 18 R$460,21 19.05.2012 04.06.2012
R$498,85 139 19 R$460,21 19.06.2012 06.07.2012 R$500,60 140 20 R$460,21
19.07.2012 Ilegível Ilegível 141 21 R$460,21 19.08.2012 19.08.2012 R$460,21 142 22
R$460,21 19.09.2012 19.09.2012 R$460,21 143 23 R$460,21 19.10.2012 19.10.2012
R$460,21 144 24 R$460,21 19.11.2012 19.11.2012 R$460,21 145 25 R$460,21
19.12.2012 17.12.2012 R$460,21 146 26 R$460,21 19.01.2013 19.01.2013 R$460,21
147 27 R$460,21 19.02.2013 15.02.2013 R$460,21 148 28 R$460,21 19.03.2013
172

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

15.03.2013 R$460,21 149 29 R$460,21 19.04.2013 01.04.2013 R$460,21 150 30


R$460,21 19.05.2013 16.05.2013 R$460,21 151 31 R$460,21 19.06.2013 17.06.2013
R$460,21 152 32 R$460,21 19.07.2013 Ilegível Ilegível 153 33 R$460,21 19.08.2013
16.08.2013 R$460,21 154 34 R$460,21 19.09.2013 16.09.2013 R$460,21 155 35
R$460,21 19.10.2013 01.10.2013 R$460,21 156 36 R$460,21 19.11.2013 10.11.2013
R$460,21 157 37 R$460,21 19.12.2013 16.12.2013 R$460,21 158 38 R$460,21
19.01.2014 15.01.2014 R$460,21 159 39 R$460,21 19.02.2014 17.02.2014 R$460,21
160 40 R$460,21 19.03.2014 17.03.2014 R$460,21 161 41 R$460,21 19.04.2014
16.04.2014 R$460,21 162 42 R$460,21 19.05.2014 16.05.2014 R$460,21 163 43
R$460,21 19.06.2014 16.06.2014 R$460,21 164 44 R$460,21 19.07.2014 15.07.2014
R$460,21 165 45 R$460,21 19.08.2014 Ilegível Ilegível 225 46 R$460,21 19.09.2014
15.09.2014 R$460,21 226 47 R$460,21 19.10.2014 13.10.2014 R$460,21 227 48
R$460,21 19.11.2014 10.11.2014 R$460,21 228 49 R$460,21 19.12.2014 16.12.2014
R$460,21 229 50 R$460,21 19.01.2015 16.01.2015 R$460,21 230 51 R$460,21
19.02.2015 Ilegível Ilegível 231 52 R$460,21 19.03.2015 17.03.2015 R$460,21 269 53
R$460,21 19.04.2015 17.04.2015 R$460,21 270
54 R$460,21 19.05.2015 15.05.2015 R$460,21 271 55 R$460,21 19.06.2015
19.06.2015 R$460,21 272 56 R$460,21 19.07.2015 10.07.2015 R$460,21 273 57
R$460,21 19.08.2015 14.08.2015 R$460,21 274 58 R$460,21 19.09.2015 03.09.2015
R$460,21 281 59 R$460,21 19.10.2015 03.09.2015 R$460,21 281 60 R$460,21
19.11.2015 03.09.2015 R$460,21 282
Pois bem!
8. No presente caso, assiste razão ao apelante, pois embora a ação de busca e
apreensão tenha sido proposta em razão do inadimplemento da prestação nº 15, é
possível constatar que o réu não comprovou o pagamento das prestações números 4,
5, 6, 7, 8, 12, 14, 16 e 17 e houve o pagamento em atraso das prestações números 2,
3, 10, 11, 13, 15, 18 e 19.
É perfeitamente plausível a alegação da instituição financeira de que o réu foi
efetuando o pagamento das prestações com datas adiantadas, utilizou-se desses
valores para quitação das prestações que se encontravam vencidas e por esse motivo
constam como pagas na planilha de pagamento. Ademais, o réu alega em sede
contrarrazões a desnecessidade de juntada dos respectivos comprovantes de
pagamento. Ora, se o réu realmente tivesse efetuado o pagamento de todas as
prestações, não haveria motivos para não apresenta-los.
Além disso, é importante esclarecer que segundo disposição do §3º do artigo 2º do
Decreto-Lei nº 911/69, “a mora e o inadimplemento de obrigações contratuais
garantidas por alienação fiduciária, ou a ocorrência legal ou convencional de algum
dos casos de antecipação de vencimento da dívida, facultarão ao credor considerar,
de pleno direito, vencidas todas as obrigações contratuais, independentemente de
aviso ou notificação judicial ou extrajudicial”.
Assim, apesar do autor da ação de busca e apreensão ter denunciado o
inadimplemento da prestação nº 15, as demais prestações (vincendas) também devem
ser consideradas vencidas, assim como todas as obrigações contratuais. Em corolário,
a única hipótese na qual o bem haveria de ser devolvido ao devedor fiduciante seria
173

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

por força do pagamento da integralidade do débito remanescente 3, dentro dos cinco


dias imediatamente seguintes à apreensão do veículo, na forma do §1º do artigo 3º do
mencionado Decreto-Lei4.
Aliás, vale lembrar que a legislação prevê expressamente que verificado o
inadimplemento ou mora nas obrigações contratuais garantidas por alienação
fiduciária, “o proprietário fiduciário ou credor poderá vender a coisa a terceiros,
independentemente de leilão, hasta pública, avaliação prévia, ou qualquer outra
medida judicial ou extrajudicial, salvo disposição expressa em contrário prevista no
contrato, devendo aplicar o preço da venda no pagamento de seu crédito e das
despesas decorrentes e entregar ao devedor o saldo apurado, se houver, com a
devida prestação de contas5”.
Ademais, é preciso entender a relação jurídica obrigacional e as fórmulas processuais
disponibilizadas para a resolução de eventual conflito no cumprimento do contrato de
financiamento. Quando o mutuário busca o financiamento para aquisição de bem
durável firma dois contratos. O primeiro é o contrato de mútuo pelo qual recebe uma
determinada quantia em dinheiro, assumindo a obrigação de liquidá-lo através do
pagamento de certo número de prestações prefixadas. Para a garantia do
cumprimento da obrigação assumida no contrato de mútuo, firma o contrato acessório
de natureza fiduciária, transferindo a
propriedade do bem adquirido até a implementação da cláusula resolutiva. Quando o
devedor não cumpre a obrigação assumida no contrato de mútuo, o credor pode
promover a cobrança de diversas formas: execução de título extrajudicial voltada para
o contrato de mútuo, ajuizar ação de cobrança ou ajuizar ação de execução da
garantia por meio da busca e apreensão regulada pelo decreto-lei 911/69. Quando
promove a execução no sentido lato da garantia através da ação de busca e
apreensão, o credor fica obrigado a vender o bem e utilizar o produto da venda para
quitar totalmente ou parcialmente o contrato de mútuo. Se o produto da venda for
superior ao saldo devedor do contrato deve devolver ao contratante o excedente.
Portanto, a execução da garantia através da ação de busca e apreensão visa resolver a
questão do inadimplemento do devedor e no seu benefício, pois o produto da venda
do bem após a sua apreensão deve ser obrigatoriamente utilizado para compensar o
saldo devedor. Assim, todo o sistema está voltado para a liquidação do contrato de
financiamento. Tanto é verdade que o devedor tem o prazo de cinco dias contados da
apreensão do bem para promover o pagamento do saldo devedor do contrato e obter
a sua devolução livre de qualquer ônus, ou seja, com a quitação do contrato aplica a
cláusula resolutiva e a propriedade fica consolidada em favor do contratante.
Convém constar que a liminar de busca e apreensão foi cumprida e o veículo
apreendido no dia 07.08.2014 (f. 188 ­ mov.
49.1).
8. Diante do exposto, voto no sentido de dar provimento ao recurso de apelação para
julgar procedente o pedido de busca e apreensão, consolidando a posse e
propriedade do bem nas mãos da instituição financeira credora. Consequentemente,
afasto a condenação da autora na multa do §6º, do artigo 3º do Decreto-Lei 911/69 e

174

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

na multa por litigância de má-fé. Por conseguinte, condeno o réu ao pagamento das
custas processuais e dos honorários advocatícios pelo valor fixado na sentença.
III- DECISÃO
ACORDAM os Desembargadores integrantes da 17ª Câmara Cível do Tribunal de
Justiça do Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em dar provimento ao
recurso de apelação para julgar procedente o pedido de busca e apreensão.
O julgamento foi presidido pelo Desembargador LAURI CAETANO DA SILVA, relator,
e dele participaram os Desembargadores TITO CAMPOS DE PAULA e RUI BACELLAR
FILHO.
Curitiba, 05 de abril de 2017.
DES. LAURI CAETANO DA SILVA Relator
--

1 Data do vencimento da prestação nº 15: 19.02.2012; Data do pagamento:

05.04.2012;

Data da distribuição: 25.06.2012.

2 Sentença proferida e publicada no dia 24.11.2015.

3 Neste sentido: STJ, AgRg no REsp 1183477/DF, Rel. Ministro VASCO DELLA

GIUSTINA, julgado em 03/05/2011, DJe 10/05/2011.

4 Art. 3º, §1º, Decreto Lei nº 911/69. Cinco dias após executada a liminar mencionada

no caput, consolidar-se-ão a propriedade e a posse plena e exclusiva do bem no

patrimônio do credor fiduciário, cabendo às repartições competentes, quanto for o

caso, expedir novo certificado de registro de propriedade em nome do credor, ou de

terceiro por ele indicado, livre do ônus da propriedade fiduciária.

5 Artigo 2º do Decreto Lei nº 911/69.

2.1.24. CHEQUE – AÇÃO DE ENRIQUECIMENTO ILÍCITO

AÇÃO DE LOCUPLETAMENTO ILÍCITO. PEDIDO JULGADO PROCEDENTE.

RECURSO DE APELAÇÃO DO RÉU: PRESCRIÇÃO. INCIDÊNCIA DO PRAZO DE 2

ANOS ESTABELECIDO NO ARTIGO 61 DA LEI Nº 7.357/85, CONTADOS A PARTIR

DO DIA EM QUE SE CONSUMAR O PRAZO PREVISTO NO ART. 59 DA LEI Nº

7.357/85 (6 MESES). INTERRUPÇÃO DO PRAZO PRESCRICIONAL EM VIRTUDE DO

ENCAMINHAMENTO DE NOTIFICAÇÃO EXTRAJUDICIAL. IMPOSSIBILIDADE.

175

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

INAPLICABILIDADE DO DISPOSTO NO ART. 202, INCISO V DO CÓDIGO CIVIL.

DÍVIDA LÍQUIDA E COM TERMO CERTO. MORA EX RE. PRETENSÃO PRESCRITA.

RECURSO PROVIDO. 1. A ação de locupletamento ilícito tem prazo prescricional de 2

anos, cuja contagem somente se inicia depois da perda da força executiva do cheque,

nos exatos termos do art. 61 da Lei nº 7.357/85: "A ação de enriquecimento contra o

emitente ou outros obrigados, que se locupletaram injustamente com o não-

pagamento do cheque, prescreve em 2 (dois) anos, contados do dia em que se

consumar a prescrição prevista no art. 59 e seu parágrafo desta Lei". 2. A notificação

extrajudicial não interrompe a prescrição porque não possui o condão de constituir o

devedor em mora, levando à inaplicabilidade do artigo 202, inciso V do Código Civil.

(TJPR - 17ª C.Cível - AC - 1617217-9 - Curitiba - Rel.: Lauri Caetano da Silva - Unânime

- J. 05.04.2017)

Inteiro Teor

I- RELATÓRIO
1. Cuida-se de recurso de apelação interposto em virtude da sentença proferida pelo
MM. Dr. Juiz da 20ª Vara Cível do Foro Central da Comarca da Região Metropolitana
de Curitiba, nos autos nº 0007976-83.2013.8.16.0001 de ação de locupletamento
ilícito, ajuizada por Mauro Cesar Rodrigues da Silva em face de Vagner Rojo da Rosa ­
ME, que julgou procedente o pedido inicial, para condenar o requerido ao pagamento
dos títulos apresentados com a exordial, acrescidos de correção monetária pela
variação do INPC/IGPDI desde a data da emissão e de juros de mora de 1%, ao mês,
nos termos do artigo 406 do CC, combinado com o artigo 161, do CTN, a partir do dia
da apresentação (artigo 52, II, da Lei 7.357/1985).
Ante a sucumbência, condenou o réu ao pagamento das custas processuais e dos
honorários advocatícios, fixados em 15% sobre valor da condenação (mov. 77.1 - f.
156/160).
2. O réu, Vagner Rojo Da Rosa ­ ME, interpôs recurso de apelação (mov. 84.1 -
f.168/172), alegando que (i) a prescrição da pretensão de cobrança da dívida; (ii)
restou comprovada a má-fé do requerido ao receber os títulos de terceiro, na medida
em que tinha conhecimento da sustação dos mesmos.
Contrarrazões de apelação (mov. 89.1 ­ f. 179/186).
II- VOTO
Presentes os pressupostos recursais de admissibilidade, intrínsecos e extrínsecos, o
recurso merece ser conhecido.
3. Do cotejo dos autos observa-se que:

176

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

(a) Mauro Cesar Rodrigues da Silva ajuizou ação de locupletamento ilícito em face de
Vagner Rojo da Rosa ­ ME aduzindo, em síntese, que (i) é credor do requerido na
importância de R$ 1.980,00, representada pelos cheques por ele emitidos; (ii) os títulos
de crédito foram apresentados para pagamento em 15.09.2009 e 13.10.2009.
Entretanto, foram devolvidos pelo banco sacado pelo “motivo 21” - sustado; (iii)
mesmo após notificado extrajudicialmente, em 05.04.2012, o réu se recusa a efetuar o
pagamento do débito, não lhe restando outra opção a não ser ingressar com a
presente ação. Assim, requereu a condenação do requerido ao pagamento do débito
atualizado (R$3.719,04).
(b) O réu Vagner Rojo da Rosa ­ ME apresentou resposta em sede de contestação
(mov. 51.3 ­ f. 113/119), sustentando, preliminarmente, a prescrição da pretensão do
autor e a impossibilidade jurídica do pedido. No mérito, aduziu que (i) são necessários
alguns esclarecimentos acerca da operação comercial que deu ensejo a emissão dos
cheques; (ii) no ano de 2009, foi procurada por Valdemir Rodrigues Waltrick, que
efetuava a intermediação de contratação de veiculação de propagandas de seus
produtos junto à Radio Gospel Limitada.
Após negociação e fechamento do contrato, emitiu diversos cheques pré- datados
para pagamento da obrigação pactuada com a Rádio Gospel Limitada.
Destacou que os cheques foram entregues para Valdemir Rodrigues Waltrick; (iii)
entretanto, a Rádio Gospel Limitada cobrou-lhe o preço ajustado pelos serviços
prestados de veiculação de propagandas; foi quando veio a saber que os cheques não
haviam sido entregues à rádio, o que o levou a proceder a sustação dos títulos; (iv) o
autor é sujeito estranho a relação negocial; (v) nunca realizou qualquer negócio jurídico
com o requerente; (vi) não reconhece o débito descrito na inicial. Nestes termos,
postulou a improcedência dos pedidos.
(c) No despacho saneador foram afastadas as preliminares de prescrição e
impossibilidade jurídica do pedido, bem como fixados os pontos controvertidos (mov.
56.1 - f. 129/130).
(d) O magistrado de 1º grau proferiu sentença (mov.
77.1 ­ f. 156/160), pela qual julgou procedente o pedido inicial, para condenar o
requerido ao pagamento dos títulos apresentados com a exordial, acrescidos de
correção monetária pela variação do INPC/IGPDI desde a data da emissão e de juros
de mora de 1% ao mês, nos termos do artigo 406 do CC, combinado com o artigo
161, do CTN, a partir do dia da apresentação (artigo 52, II, da Lei 7.357/1985). É
contra esta decisão que se insurge o apelante.
4. A ação de locupletamento ilícito tem prazo prescricional de 2 anos, cuja contagem
somente se inicia depois da perda da força executiva do cheque, nos exatos termos
do artigo 61 da Lei nº 7.357/85: “A ação de enriquecimento contra o emitente ou
outros obrigados, que se locupletaram injustamente com o não-pagamento do
cheque, prescreve em 2 (dois) anos, contados do dia em que se consumar a prescrição
prevista no art. 59 e seu parágrafo desta Lei”.
No caso, os cheques que embasam a presente ação foram emitidos em 30.09.2009 e
25.10.2009, em praça diversa de pagamento (mov. 1.6 e 1.7 ­ f. 14/17), de modo que
o prazo de apresentação era de 60 dias, nos termos do artigo 34 da Lei nº 7.357/851.
177

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

Após o encerramento do prazo de apresentação (30.11.2009 e 25.12.2009), começou


a fluir o prazo para execução de 6 meses (art. 59 Lei nº 7.357/852), que encerrou-se
em 30.05.2010 e 25.06.2010. Somente a partir destas datas é que se iniciou a
contagem do prazo para ingresso da ação de locupletamento ilícito, nos termos do
artigo 61 da Lei nº 7.357/85. Nestes termos, considerando que a prescrição se
implementaria em 30.05.2012 e 25.06.2012, respectivamente, e que a ação somente
foi proposta em 25.02.2013, inequívoca é a prescrição da pretensão do autor.
Ademais, não se pode considerar que a notificação extrajudicial encaminhada ao
devedor, com data de recebimento em 05.04.2012 (mov. 1.8 e 1.9 ­ f. 18/20), teria o
condão de interromper o prazo prescricional, nos termos previsto no artigo 202, inciso
V do Código Civil3. Isto porque o artigo 397 do Código Civil estabelece que: “O
inadimplemento da obrigação, positiva e líquida, no seu termo, constitui de pleno
direito em mora o devedor”. Portanto, haverá inadimplemento de obrigação líquida e
positiva no momento (termo certo) em que se deixou de cumpri-la, ou seja, a partir do
dia do vencimento a mora do devedor se constituiu de forma automática (mora ex re),
sem que fosse necessário qualquer ato por parte do credor: dies interpellat por
homine (o dia do vencimento interpela a pessoa).
Nestes termos, por se tratar de cheque, com natureza de ordem de pagamento à vista
(emissão), com termo certo, deve-se aplicar a regra do caput do artigo 397 do Código
Civil, ou seja, cuida-se de mora ex re, sem a necessidade de qualquer ato por parte do
credor para constituir o devedor em mora. No momento da emissão o crédito se
tornou exigível e nasceu ao credor a pretensão de cobrança. A consequência disso
(mora ex re), é que a notificação extrajudicial não possui o condão de constituir o
devedor em mora, levando à inaplicabilidade do artigo 202, inciso V do Código Civil4.
Desse modo, equivocado o posicionamento do magistrado de 1º grau ao considerar
que a notificação extrajudicial interrompeu o prazo prescricional de 2 anos, previsto no
artigo 61 da Lei nº 7.357/85, sendo necessária a reforma da sentença, para reconhecer
a prescrição da pretensão do autor.
Não é outro o entendimento jurisprudencial:
APELAÇÃO CÍVEL. PROCESSO CIVIL. CIVIL.AÇÃO MONITÓRIA. CHEQUES SEM
EFICÁCIA EXECUTIVA. SENTENÇA QUE ACOLHEU PREJUDICIAL ALEGADA NOS
EMBARGOS MONITÓRIOS, JULGANDO EXTINTO O PROCESSO COM RESOLUÇÃO
DE MÉRITO, NOS TERMOS DO ART. 269, INCISO IV, DO CÓDIGO DE PROCESSO
CIVIL DE 1973.
PRESCRIÇÃO - INCIDÊNCIA DO PRAZO DE 05 (CINCO) ANOS ESTABELECIDO NO
ART.
206, § 5º, INCISO I, DO CÓDIGO CIVIL DE 2002, CONTADO A PARTIR DA SUA
ENTRADA EM VIGOR, EM CONFORMIDADE COM O ART. 2.028 - ALEGAÇÃO DO
APELANTE DE INTERRUPÇÃO DO PRAZO PRESCRICIONAL EM VIRTUDE DA
NOTIFICAÇÃO JUDICIAL DOS APELADOS EM 07/01/2008, CONFORME O PREVISTO
NO ART. 202, INCISO V, DO CÓDIGO CIVIL DE 2002 - IMPOSSIBILIDADE - DÍVIDA
Apelação Cível nº 1.572.506-7 fl.
2LÍQUIDA E COM TERMO CERTO - MORA EX RE - DECURSO DE PRAZO SUPERIOR
A 05 (CINCO) ANOS ENTRE 11/01/2003, DATA DA ENTRADA EM VIGOR DO
178

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

CÓDIGO CIVIL DE 2002, E O AJUIZAMENTO DA AÇÃO EM 18/02/2012 -


PRETENSÃO PRESCRITA. SENTENÇA MANTIDA.RECURSO DESPROVIDO.
(TJPR - 6ª C.Cível - AC - 1572506-7 - Ivaiporã - Rel.: Roberto Portugal Bacellar -
Unânime - - J.
07.02.2017)
AÇÃO DE COBRANÇA. CHEQUE SEM FORÇA DE TÍTULO EXECUTIVO.
PRESCRIÇÃO.
OCORRÊNCIA.PRAZO QUINQUENAL. REGRAS DE TRANSIÇÃO DO NOVO CÓDIGO
CIVIL.
NOTIFICAÇÃO EXTRAJUDICIAL.INTERRUPÇÃO DA PRESCRIÇÃO.
IMPOSSIBILIDADE.APELAÇÃO DESPROVIDA. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS.
VALOR ADEQUADO. MAJORAÇÃO.DESNECESSIDADE. RECURSO ADESIVO
DESPROVIDO.RECURSO VOLUNTÁRIO DESPROVIDO.AGRAVO RETIDO DO
APELANTE PREJUDICADO AGRAVO RETIDO DO APELADO NÃO CONHECIDO -
AUSÊNCIA DE REITERAÇÃO.
(TJPR - 6ª C.Cível - AC - 884987-8 - Paranaguá - Rel.: Alexandre Barbosa Fabiani -
Unânime - - J. 25.09.2012)
5. Diante do exposto, voto no sentido de dar provimento ao recurso de apelação,
para reformar a sentença, a fim de reconhecer a prescrição da pretensão do autor e
julgar extinto o processo, com resolução do mérito, nos termos do artigo 487, inciso II
do CPC/2015.
Ante a sucumbência, condeno o autor ao pagamento das custas processuais e dos
honorários advocatícios, estes fixados em 15% sobre o valor atualizado da causa, nos
termos do artigo 85, §2º do CPC/2015. O autor é beneficiário da assistência judiciária
gratuita (mov. 12.1 ­ f. 41).
III- DECISÃO
ACORDAM os Desembargadores integrantes da 17ª Câmara Cível do Tribunal de
Justiça do Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em dar provimento ao
recurso de apelação.
O julgamento foi presidido pelo Desembargador LAURI CAETANO DA SILVA, relator,
e dele participaram os Desembargadores TITO CAMPOS DE PAULA e RUI BACELLAR
FILHO.
Curitiba, 05 de abril de 2017.
DES. LAURI CAETANO DA SILVA Relator
--
1 Art. 33 O cheque deve ser apresentado para pagamento, a contar do dia da
emissão,
no prazo de 30 (trinta) dias, quando emitido no lugar onde houver de ser pago; e de
60 (sessenta) dias, quando emitido em outro lugar do País ou no exterior.
2 Art. 59 Prescrevem em 6 (seis) meses, contados da expiração do prazo de
apresentação, a ação que o art. 47 desta Lei assegura ao portador.
Parágrafo único - A ação de regresso de um obrigado ao pagamento do cheque
contra outro prescreve em 6 (seis) meses, contados do dia em que o obrigado pagou
o cheque ou do dia em que foi demandado.
179

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

3 Art. 202. A interrupção da prescrição, que somente poderá ocorrer uma vez, dar-se-
á: (...) V - por qualquer ato judicial que constitua em mora o devedor; (...).
4 TJPR - 6ª C.Cível - AC - 1572506-7 - Ivaiporã - Rel.: Roberto Portugal Bacellar -
Unânime - - J. 07.02.2017

2.1.25. PROCESSO ADMINISTRATIVO MOVIDO PELA UNIMED CONTRA MÉDICO

COOPERADO – DANO MORAL

AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE NÃO FAZER CUMULADA COM PEDIDO DE

INDENIZAÇÃO POR DANO MORAL. PEDIDOS JULGADOS IMPROCEDENTES.

RECURSO DE APELAÇÃO DOS AUTORES: PROCESSO ADMINISTRATIVO

INSTAURADO PELA UNIMED EM FACE DOS MÉDICOS CONVENIADOS. APURAÇÃO

DE PRODUÇÃO SUPERIOR À MEDIA DA ESPECIALIDADE. PROCEDIMENTO

REGULAR AMPARADO POR SEU REGIMENTO INTERNO. QUESTIONAMENTOS

FEITOS AOS CLIENTES QUE NÃO FORAM APTOS A ENSEJAR DÚVIDA ACERCA DO

PROFISSIONALISMO DOS AUTORES. DANO MORAL. INEXISTÊNCIA. RECURSO

DESPROVIDO. 1. A instauração de procedimento administrativo não configura ato

ilícito capaz de ensejar a reparação por danos morais, quando ausente a intenção de

ofender e havendo motivos determinantes suficientes para a investigação. 2. "Para que

haja a obrigação de indenizar é preciso que se trate de ato injusto com a finalidade de

macular a honra do associado, o que não se verificou no presente caso" (TJ/PR - AC nº

90517-7 - 3ª Câm. Cív. - Rel. Des. Jesus Sarrão - J. em 13/02/2001).

(TJPR - 17ª C.Cível - AC - 1617336-9 - Curitiba - Rel.: Lauri Caetano da Silva - Unânime

- J. 29.03.2017)

Inteiro Teor

I- RELATÓRIO
1. Leda Maria Rabelo e Paulo César Pereira Thomaz ajuizaram ação com pedido de
não fazer cumulada com indenização a título de danos morais e materiais (autos nº
0027385-11.2014.8.16.0001) em face de Unimed Curitiba ­ Sociedade Cooperativa de
Médicos, afirmando que (a) são médicos formados pela UFPR ­ Universidade Federal
do Paraná, sendo que, em meados de 1997 e final do ano de 1998, filiaram-se à ré
com o intuito de atenderem os beneficiários dos planos de saúde que a mesma

180

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

comercializa; (b) a relação transcorreu normalmente até meados de 2013, quando


foram surpreendidos pela requerida com a assertiva de que haviam apresentado
produção acima da média de suas especialidades, motivo pelo qual suas atividades
seriam analisadas pelos órgãos estatutários; (c) não deram maior importância ao
comunicado. Foram informados algum tempo depois que o mencionado processo
administrativo tinha sido arquivado; (d) todavia, tomaram conhecimento de que,
durante o processo investigatório e sem sua participação, a ré agiu de forma
totalmente ilícita e discricionária, violando os seus direitos constitucionais e
interferindo diretamente na sua liberdade profissional, assim como na relação médico-
paciente, porquanto, no intuito de averiguar a sua produção , telefonou para os seus
pacientes e os questionou acerca das consultas/procedimentos realizados, o que se
deu mediante perguntas insidiosas que findaram por gerar dúvidas nos pacientes
acerca da idoneidade profissional e moral de ambos; (e) dentre os questionamentos,
destacaram perguntas acerca das características dos consultórios, quem efetivamente
teria realizado o atendimento, o tempo de duração da consulta, se o paciente era
efetivamente examinado durante a consulta, entre outras; (f) em virtude dessa postura
da ré, vários pacientes lhes indagaram acerca das razões da investigação e outros
acabaram por abandonar o tratamento, o que culminou por denegrir a imagem e
reputação; (g) defenderam que as perguntas formuladas pela ré acabaram por violar a
autonomia e a liberdade profissional, ferindo o Código de Ética Médica, em especial
os itens VII e VIII do capítulo I. Diante desses fatos, pediram a condenação da ré ao
pagamento de indenização por danos morais e materiais, assim como a se abster de
praticar quaisquer atos que interfiram, prejudiquem ou comprometam a relação
médico paciente.
2. A ré Unimed Curitiba ­ Sociedade Cooperativa de Médicos apresentou contestação
(mov. 23.1 - f. 199/214) discorrendo acerca da regularidade dos procedimentos
administrativos instaurados em face dos autores, os quais estariam embasados em
disposições do seu estatuto social e do regimento interno. Assegurou que as
perguntas feitas aos pacientes são formuladas por assistentes sociais devidamente
treinadas e que, em nenhum momento, colocaram em dúvida a capacidade
profissional dos médicos, mas somente se limitaram a apurar se o paciente está
satisfeito com o atendimento médico que recebeu. Afirmou que os autores foram
cientificados do início dos procedimentos administrativos, os quais foram arquivados
diante da conclusão da ausência de ilegalidades. Finalizou dizendo que inexiste dano
material ou moral a ser reparado.
3. Na audiência de instrução e julgamento (mov. 61.1 ­ f. 646/649) foi tomado o
depoimento pessoal do autor Paulo César Pereira Thomaz e foi inquirida uma
testemunha arrolada pela ré.
4. O MM Dr. Juiz proferiu sentença1 (mov. 78.1 ­ f.
693/698) julgando improcedentes os pedidos formulados na inicial.
Destacou que não restou comprovado a prática de ato ilícito pela ré, uma vez que o
processo administrativo instaurado observou todas as regras previstas em seu
Regimento Interno. Ante a sucumbência, condenou os autores ao pagamento das

181

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

custas processuais e dos honorários advocatícios, fixados em 10% sobre o valor


atualizado da causa.
5. Os autores Leda Maria Rabelo e Paulo César Pereira Thomaz interpuseram recurso
de apelação (mov. 86.1 ­ f. 707/717) alegando que (i) inexiste qualquer previsão legal
que autorize a ré a contatar/entrevistar os pacientes de seus cooperados, tratando-se
de uma tentativa “maquiada”, sob a forma de uma pesquisa de satisfação, visando
obter informações que pudessem incriminá-los; (ii) é falsa a afirmativa de que, durante
a pesquisa, o médico não é identificado; (iii) não é válido o processo administrativo
instaurado, tendo em vista a falta do contraditório e da ampla defesa. Também
destacou que o procedimento adotado não encontra previsão no Estatuto Social e no
Regimento Interno da requerida. Assim, postularam a reforma da sentença, a fim de
determinar que a requerida se abstenha de reincidir na prática ilícita noticiada e
condená-la ao pagamento de indenização pelos danos materiais e morais.
Contrarrazões de apelação (mov. 96.1 ­ f. 731/732).
É o relatório.
II- VOTO
Presentes os pressupostos recursais de admissibilidade, intrínsecos e extrínsecos,
conheço do recurso.
6. Os apelantes sustentam que teriam sofrido danos à sua imagem como médicos, em
virtude de processo administrativo contra eles instaurado pela requerida, para
apuração de eventual ilegalidade, visto que apresentaram produção acima da média
de suas especialidades. Sustentam que os atos praticados pela requerida
comprometeram a relação médico-paciente, uma vez que telefonou para os seus
pacientes e os questionou acerca das consultas/procedimentos realizados, o que se
deu mediante perguntas insidiosas que findaram por gerar dúvidas nos pacientes
acerca da idoneidade profissional e moral de ambos.
A Unimed, por sua vez, sustentou a regularidade do procedimento administrativo,
cujo desenvolvimento observou as regras contidas em seu estatuto social e regimento
interno.
Pois bem!
Dá análise dos autos, não vejo razões para a modificação da sentença. Isto porque a
simples instauração de procedimento administrativo não pode ser tida como ato hábil
a gerar prejuízos indenizáveis, sobretudo quando revestido das formalidades legais.
O Regimento Interno da requerida prevê a possibilidade de abertura de
procedimento administrativo em face dos cooperados visando apurar a suposta prática
de infração administrativa, como a descrita na inicial (arts. 135/156 ­ mov. 1.17). Não
há nos autos qualquer indicativo de irregularidade nos atos administrativos praticados.
Apesar de alegarem que houve ofensa aos princípios do contraditório e da ampla
defesa, os próprios autores afirmaram que foram cientificados da abertura do
procedimento administrativo, entretanto, “não deram maior importância ao
comunicado”. Do cotejo dos autos (mov. 59 ­ f. 266/642), observa-se que os
requerentes foram cientificados de todos os atos desde de sua abertura até seu
encerramento.

182

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

Também consta dos autos os questionamentos feitos aos pacientes dos autores, que
se resumiram na qualidade do consultório, na qualidade do atendimento, na facilidade
do agendamento da consulta e na frequência das consultas (mov. 59.3 ­ f. 280/383; e
mov.
59.24 ­ f. 472/605). Não se vislumbra nenhuma atitude da ré que comprometesse a
integridade profissional dos requerentes, pois as perguntas não induziam os pacientes
à conclusão de que os mesmos não
seriam médicos qualificados e éticos, posto que englobavam o grau de satisfação dos
pacientes com os serviços prestados.
Tal assertiva é corroborada pelo relato da testemunha arrolada pela requerida:
“Que trabalha na Unimed desde 1992; que exerce a função de supervisora do serviço
social; que na época dos fatos já exercia essa função; que a assistente social que
efetuou o trabalho no processo administrativo em questão não trabalha mais na
Unimed, mas a depoente é responsável pela supervisão dos serviços; que o processo
chega no setor; que é efetuada uma conferência dos documentos; que o serviço social
não inicia o processo se não tiver a carta anexa com o AR assinado pelo médico,
dando-lhe ciência que o serviço social vai manter contato com os seus pacientes por
um certo período de tempo; nessa carta é explicitado o modo de atuação do serviço
social; que o processo já vem pronto para o serviço social; que quem faz o envio da
carta é a Comissão de Ato Cooperativista; (...) que ao efetuar uma ligação para um
beneficiário, é perguntado, primeiramente, se ele possui a disponibilidade de
responder algumas questões, depois é dito que estão fazendo uma pesquisa de
satisfação em determinada especialidade, que não pode entrar diretamente com o
nome específico do médico, até mesmo porque tem que preservar o nome dele, daí,
durante a abordagem é perguntado se o beneficiário confirma as consultas realizadas
com “fulano de tal”, porque ela tem que confirmar as consultas, checar se ela foram
executadas, depois perguntar como foi o atendimento, daí, como a pesquisa é aberta,
quem faz o relato é o próprio beneficiário; que nesta conversa, o nome do médico é
inserido, “em nossos registros, consta que efetuou consultas, nessa especialidade,
com o médico tal”, daí a pessoa vai detalhando, se efetuou consultas com outros
médicos nessa especialidade, ou não; que a pergunta é feita como se fosse feita nessa
especialidade, não é focada no médico; (...) que também são efetuadas
questionamentos acerta da própria Unimed; que não é de rotina fazer perguntas cerca
da qualidade de estrutura do consultório; que é perguntado como foi o atendimento;
que não é perguntado como foi o atendimento médico; (...) que não são feitos
questionamentos acerca das características físicas do médico, até porque não são
relevantes; que só existe a confirmação da consulta naquela data; (...) que no curso do
processo administrativo não teve contato com os autores; que não conhecia os
autores; que não sabe dizer o número de beneficiários contatados; que não há um
número prefixado; (...) que no material que recebe, já vem uma planilha de pacientes
para que seja efetuada as ligações, se ligam para, por exemplo, 30 pacientes, e eles já
confirmam as consultas, já encerram o processo; (...) que no início do processo é
encaminhada uma carta aos médicos, dando-lhes o direito de resposta; que não há
uma entrevista com eles diretamente; que pelo que conhece do fluxo da comissão, os
183

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

autores participaram do processo; que tem absoluta certeza que a comunicação acerca
da abertura do processo foi encaminhada aos médicos, porque recebe cópia do AR;
que as entrevistas não são iniciadas sem a prova de comunicação ao médico; (...) que
não vão ao consultório verificar as instalações e a forma como é dado o atendimento
médico; (Jaqueline Costa Krebsbach ­ mídia digital ­ mov. 61.1 - f. 649)
A instauração do procedimento circunscreve-se no exercício de um direito da
administradora do plano de saúde e, portanto, não é capaz de macular a honra do
médico. Ao contrário, demonstra a conduta diligente em apurar fatos que possam
causar descontentamento aos usuários do plano de saúde por ela ofertado.
Além disso, não vejo como a instauração do procedimento administrativo possa ter
comprometido a imagem profissional dos médicos, visto que é confidencial e sigiloso,
impossibilitando qualquer repercussão dos fatos na forma como apresentada. Frise-se
que o procedimento administrativo foi arquivado sem aplicação de qualquer
penalidade.
Os fatos narrados não chegam a configurar violação ou ofensa aos direitos da
personalidade, afastando o pretendido dano moral.
A jurisprudência consagra que o mero dissabor ou aborrecimento não é suficiente
para ensejar indenização por dano moral, senão vejamos:
Indenização. Danos materiais e morais. Defeito do veículo. Precedentes da Corte. 1.
Já assentou a Corte em diversas oportunidades que em casos como o presente existe
solidariedade entre fabricante e fornecedor. 2. Não há dano moral quando os fatos
narrados estão no contexto de meros dissabores, sem abalo à honra do autor. 3. Os
juros legais devem ser calculados em 0,5% ao mês até a entrada do novo Código Civil
e a partir daí de acordo com o respectivo art. 406. 4.
Recursos especiais conhecidos e providos, em parte. (STJ - REsp 664.115/AM, Rel.
Min. Carlos Alberto Menezes Direito, 3ªT, J.: 02/05/2006).
APELAÇÃO CÍVEL. CONTRATOS DE CARTÃO DE CRÉDITO. AÇÃO DECLARATÓRIA.
INEXIGIBILIDADE DE DÉBITO E REPARAÇÃO POR DANOS MORAIS. VENDA
CASADA.
SEGURO. ABUSIVIDADE. A denominada venda casada é prática abusiva vedada nas
relações de consumo conforme dispõe o inciso I do artigo 39 do CDC. Presume-se
venda casada o contrato de seguro realizado na mesma data do contrato de cartão de
crédito. REPETIÇÃO EM DOBRO. Demonstrado o prejuízo advindo da falha na
prestação dos serviços, a instituição financeira deve restituir, de forma simples, a
quantia indevidamente paga. DANOS MORAIS.
Simples transtornos e dissabores nas relações econômicas e sociais não têm
relevância suficiente para caracterizar o dano moral. APELAÇÃO PARCIALMENTE
PROVIDA. (TJ-RS - AC Nº 70051788503, Rel.: Marco Antonio Angelo, 4ªCC, J.:
30/01/2013).
As provas produzidas não demonstram o efetivo abalo psíquico, comportamental ou
repercussão, capaz de gerar constrangimento e humilhação no meio social.
Nesse sentido, seguem julgados deste Tribunal:

184

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

“COOPERATVA DE TRABALHO MÉDICO. ADVERTÊNCIA AO COOPERADO.


PENALIDADE IMPOSTA SEM QUE PREVIAMENTE FOSSE ASSEGURADA DEFESA.
NULIDADE DO ATO.
INDENIZAÇÃO DE DANOS MORAIS PEDIDOS PELO ASSOCIADO. AUSÊNCIA DE
POTENCIAL OFENSIVO À HONRA E BOA FAMA. APELAÇÃO DA RÉ PARCIALMENTE
PROVIDA. 1. Se não foi dada oportunidade de defesa ao associado, é nulo o ato de
advertência formal que lhe fez o Conselho de Administração, decorrente de artigo
publicado em revista e jornal dirigido à classe, pondo em dúvida o cumprimento das
finalidades da cooperativa. Tal ato, entretanto, materializado em expediente interno
dirigido ao associado e sua anotação nos registros deste, não constitui ofensa à sua
honra. Para que haja a obrigação de indenizar é preciso que se trate de ato injusto
com a finalidade de macular a honra do associado, o que não se verificou no presente
caso.”(TJ/PR - Ap nº 90517-7 - 3ª Câm. Cív. - Rel. Des. Jesus Sarrão - J.
em 13/02/2001).
AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS JULGADA PROCEDENTE -
PROCESSO ADMINISTRATIVO INSTAURADO PELA UNIMED EM FACE DE MÉDICO
CONVENIADO - AGRAVO RETIDO - CERCEAMENTO DE DEFESA INOCORRENTE -
APELAÇÃO CÍVEL PROCEDENTE, EIS QUE A CONDUTA LEVADA A EFEITO PELA
REQUERIDA NÃO TEVE A INTENÇÃO DE OFENDER E, POR CONSEGUINTE, NÃO
ENSEJOU OS DANOS MORAIS - AGRAVO RETIDO DESPROVIDO E APELAÇÃO
CÍVEL PROVIDA, POR MAIORIA. 1. Acertado o julgamento antecipado da lide quando,
além de atendidos os requisitos do artigo 330, do CPC, a prova requerida pela parte
não influenciaria no julgamento da demanda. Ademais, não há que se falar em ofensa
ao princípio do contraditório se todos os documentos juntados pela parte Autora já
constavam dos autos quando da oportunidade de apresentação da contestação; 2. A
simples instauração de processo administrativo não configura ato ilícito capaz de
ensejar a reparação por danos morais, eis que ausente a intenção de ofender. “Para
que haja a obrigação de indenizar é preciso que se trate de ato injusto com a
finalidade de macular a honra do associado, o que não se verificou no presente caso.”
(TJ/PR - Ap nº 90517-7 - 3ª Câm. Cív. - Rel. Des. Jesus Sarrão - J. em 13/02/2001).
A instauração de procedimento investigativo não configura ato ilícito quando
observada as regras procedimentais regulamentadas pela entidade processante. Se o
ato não é ilegal nos aspectos formal ou material, não é capaz de proporcionar dano
indenizável a qualquer título. No tocante ao apontado dano material, sequer subsiste
indício de qualquer nexo de causalidade entre a instauração do procedimento e o
resultado financeiro decorrente do atendimento dos médicos reclamantes. A
obrigação de indenizar depende da culpa, da conduta ilícita e do nexo de causalidade.
7. Diante do exposto, voto no sentido de negar provimento ao recurso de apelação.
III- DECISÃO
ACORDAM os Desembargadores integrantes da 17ª Câmara Cível do Tribunal de
Justiça do Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em negar provimento ao
recurso de apelação.

185

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

O julgamento foi presidido pelo Desembargador LAURI CAETANO DA SILVA, com


voto, e dele participaram os Desembargadores e TITO CAMPOS DE PAULA e
FERNANDO PAULINO DA SILVA WOLFF FILHO.
Curitiba, 29 de março de 2017.
DES. LAURI CAETANO DA SILVA Relator
--

1 Sentença proferida no dia 14.07.2016 e publicada no dia 15.07.2016.

2.1.26. RECUPERAÇÃO JUDICIAL E ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA

AGRAVO DE INSTRUMENTO. AÇÃO DE BUSCA E APREENSÃO. DECRETO-LEI Nº

911/69. SUSPENSÃO DO PROCESSO EM RAZÃO DO PROCESSAMENTO DE

RECUPERAÇÃO JUDICIAL DA DEVEDORA. PEDIDO INDEFERIDO. ART. 6º, §4º, LEI

Nº 11.101/2005. IMPOSSIBILIDADE. BEM APREENDIDO. AÇÃO JULGADA

PROCEDENTE. SENTENÇA COM TRÂNSITO EM JULGADO. TRANSCURSO,

ADEMAIS, DO PRAZO DE 180 DIAS. RECURSO DESPROVIDO. A recuperação judicial

não suspende o processo e os efeitos da sentença transitada em julgado, proferida

nos autos da ação de busca e apreensão fundada no Decreto-Lei 911/69.

(TJPR - 17ª C.Cível - AI - 1619818-4 - Telêmaco Borba - Rel.: Lauri Caetano da Silva -

Unânime - J. 29.03.2017)

Inteiro Teor

I ­ RELATÓRIO
1. Cuida-se de Agravo de Instrumento ­ com pedido de efeito suspensivo - interposto
por Transproença Transportes Rodoviários Ltda, em virtude da decisão de sequência
59.1 (f. 266- TJ), proferida nos autos nº 840-23.2016.8.16.0165 (PROJUDI), de ação de
busca e apreensão, fundada no Decreto-Lei nº 911/69, ajuizada por
Banco Itaú S/A, que indeferiu o pedido de suspensão do processo, tendo em vista o
processamento de recuperação judicial da autora/agravante.
Consta assim na decisão agravada:
1. Da análise detida dos autos, verifica-se que a presente ação foi julgada procedente
conforme sentença prolatada (mov. 32.1), consolidando o bem apreendido nas mãos
do requerente.
A requerida foi declarada revel, por não apresentar defesa, tampouco, purgar a mora
no prazo estabelecido.

186

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

Por meio de sua petição (mov. 34.1), a requerida requereu a suspensão do presente
processo, tendo em vista que foi deferido processo de recuperação judicial da
empresa requerida.
Não há o que se falar em suspensão da presente execução, pois já foi prolatada
sentença nos autos, inclusive antes de ser deferido o processo de recuperação judicial
da empresa requerida, não havendo motivos para suspensão nessa fase processual.
Diante do exposto, indefiro o pedido de suspensão.
2. Em suas razões, a agravante sustenta que, conforme disposição do artigo 6º, §4º da
Lei nº 11.101/2005, as ações e execuções em que a recuperanda for ré e que versarem
sobre quantias ilíquidas, devem ser suspensas pelo período de 180 dias. Afirma, ainda,
que em se tratando de empresa que atua no ramo de transportes, é evidente a
essencialidade do bem objeto da busca e apreensão. Destarte, pugna pela atribuição
de efeito suspensivo ao recurso e, posteriormente, o seu provimento para reformar a
decisão agravada, determinando a suspensão do processo da ação de busca e
apreensão.
3. Pela decisão de f. 323/327-TJ foi indeferido o almejado efeito suspensivo.
4. O agravado apresentou contrarrazões às f. 329/333- TJ alegando, preliminarmente,
o não cabimento do recurso de agravo de instrumento.
É o relatório.
II ­ VOTO
5. Do exame dos documentos trasladados aos autos, depreende-se que:
5.1 Transproença Transportes Rodoviários Ltda firmou com o Banco Itaú S/A cédula
de crédito bancário ­ FINAME para aquisição de um caminhão trator Scania, modelo
R440 A 6x2 NA 3E REB. D2B, ano 2013/2013, placa AWO 2524, pelo valor total de
R$340.000,00, que seria quitado mediante o pagamento de 56 prestações mensais e
consecutivas, sendo a primeira com vencimento em 15.05.2013 (sequência 1.6, f.
58/61-TJ).
5.2 Ante o inadimplemento do contrato a partir da prestação 29/56, com vencimento
em 16.11.2015, a instituição financeira credora ajuizou a competente ação de busca e
apreensão (sequência 1.1, f. 28/30-TJ).
Juntou aos autos cópia da notificação extrajudicial encaminhada à ré para fins de
constituição em mora (sequência 1.7, f. 62/63-TJ).
5.3 A liminar de busca e apreensão foi deferida (sequência 21.1, f. 100/102-TJ) e
devidamente cumprida em 08.03.2016 (sequência 24.1, f.
110-TJ).
5.4 A ré não apresentou contestação, tampouco efetuou o pagamento da dívida, de
modo que, no dia 06.05.2016, o MM. Dr. Juiz a quo proferiu sentença julgando
procedente o pedido consolidando a posse e propriedade plena em favor do credor
(sequência 32.1, f. 122/123-TJ).
5.5 Na sequência, a ré peticionou nos autos informando o processamento de
recuperação judicial a seu favor (sequência 34.2, f. 128/132- TJ). Disse, ainda, que o
MM. Dr. Juiz determinou a suspensão das ações e execuções pelo prazo de 180 dias,
inclusive aquelas relativas a créditos executados na forma do artigo 49, §3º e §4º da
Lei nº 11.101/2005 (sequência 34.1, f. 126/127). Sendo assim, pugnou pela suspensão
187

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

do processo. O pedido foi indeferido (sequência 59.1, f. 266-TJ) e é dessa decisão que
se insurge a agravante.
3 6. Inicialmente, no que diz respeito ao cabimento do recurso de agravo de
instrumento, entendo que a hipótese dos autos se enquadra no parágrafo único do
artigo 1.015 do Código de Processo Civil, segundo o qual cabe agravo de instrumento
contra decisões interlocutórias proferidas na fase de liquidação de sentença ou
cumprimento de sentença, no processo de execução ou no processo de inventário.
Lembro que a ação de busca e apreensão, fundada no Decreto-Lei nº 911/69, se
caracteriza como execução no sentido lato do contrato acessório de alienação
fiduciária.
7. No mais, a controvérsia diz respeito à necessidade de suspensão da ação de busca
e apreensão, em razão do processamento da recuperação judicial da devedora
Transproença Transportes Rodoviários Ltda, deferido em 12.05.2016 (art. 6º, §4º, Lei
nº 11.101/2005). Sustenta a agravante que o bem objeto da busca e apreensão é
essencial às suas atividades, razão pela qual deve permanecer sob a sua posse até o
transcurso do prazo, na forma do artigo 49, §3º da Lei nº 11.101/2005.
Nesse contexto, cumpre esclarecer que a Lei nº 11.101/2005, em seu artigo 49, §3º,
prevê expressamente que o credor titular da posição de proprietário fiduciário de bem
móvel ou imóvel ou de arrendador mercantil não está sujeito aos efeitos da
recuperação judicial.
Em comentário ao mencionado dispositivo, Fabio Ulhoa Coelho registra que “esses
credores excluídos da recuperação judicial não são minimamente atingidos pela
medida, e podem continuar exercendo seus direitos reais e contratuais nos termos da
lei própria”, e continua, “os titulares de determinadas garantias reais ou posições
financeiras (fiduciário, leasing, etc.) e os bancos que anteciparem recursos ao
exportador em função de contrato de câmbio excluem-se dos efeitos da recuperação
judicial para que possam praticar juros menores (com spreads não impactados pelo
risco associado à recuperação judicial), contribuindo a lei, desse modo, com
4 a criação do ambiente propício à retomada do desenvolvimento econômico1”.
Mesmo assim, visando viabilizar a recuperação com a manutenção da atividade do
empresário2, a legislação falimentar impossibilita a retirada, do estabelecimento do
devedor, dos bens essenciais a sua atividade empresarial, pelo prazo de 180 dias que
alude o artigo 6º, §4º da lei de regência, in verbis:
Art. 49, §3º. Tratando-se de credor titular da posição de proprietário fiduciário de
bens móveis ou imóveis, de arrendador mercantil, de proprietário ou promitente
vendedor de imóvel cujos respectivos contratos contenham cláusula de
irrevogabilidade ou irretratabilidade, inclusive em incorporações imobiliárias, ou de
proprietário em contrato de venda com reserva de domínio, seu crédito não se
submeterá aos efeitos da recuperação judicial e prevalecerão os direitos de
propriedade sobre a coisa e as condições contratuais, observada a legislação
respectiva, não se permitindo, contudo, durante o prazo de suspensão a que se refere
o §4º do art. 6º desta Lei, a venda ou a retirada do estabelecimento do devedor dos
bens de capital essenciais a sua atividade empresarial.
Ainda a respeito do tema:
188

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

AGRAVO REGIMENTAL EM CONFLITO DE COMPETÊNCIA. RECUPERAÇÃO


JUDICIAL.
BUSCA E APREENSÃO. BENS OFERECIDOS EM GARANTIA MEDIANTE ALIENAÇÃO
FIDUCIÁRIA. NÃO SUBMISSÃO AOS EFEITOS DA RECUPERAÇÃO JUDICIAL.
CONTINUIDADE DA EXECUÇÃO. POSSIBILIDADE. 1. O credor titular da posição de
proprietário fiduciário de bens móveis ou imóveis não se sujeita aos efeitos da
recuperação judicial (art. 49, § 3º, da Lei 11.101/2005). 2. Não ocorrência, na hipótese,
de peculiaridade apta a recomendar o afastamento circunstancial da regra, porquanto
não demonstrado que o objeto da busca e apreensão envolva bens de capital
essenciais à atividade empresarial, de maneira a atrair a exceção contida no § 3º do
art. 49 da Lei 11.101/2005. 3. Agravo regimental desprovido. (STJ, AgRg no CC
128.658/MG, Rel. Ministro RAUL ARAÚJO, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em
27/08/2014, DJe 06/10/2014)
8. No entanto, a tese não é aplicável ao caso concreto.
Isto porque o bem objeto da busca e apreensão não se encontra sob a posse da
agravante, não se justificando a suspensão do cumprimento da liminar, tampouco do
processo, conforme requerido pela devedora. Note-se que a liminar foi deferida e o
bem apreendido no dia 08.03.2016, conforme mandado de sequência 24.1 (f. 110-TJ).
A ausência de contestação pelo réu, bem como a inexistência de depósito do valor da
dívida com a finalidade de retomada do bem, ensejaram a consolidação da
propriedade em favor da instituição financeira (art. 3º, §1º, Decreto-Lei nº 911/69),
sendo que a sentença de procedência do pedido inicial, irrecorrida e transitada em
julgado, confirmou tal situação. A recuperação judicial não é meio para suspender o
processo e os efeitos da sentença de mérito com transito em julgado. Ademais, o
prazo de 180 dias já se esgotou.
9. Diante do exposto, voto no sentido de negar provimento ao recurso.
III ­ DECISÃO
ACORDAM os Desembargadores integrantes da 17ª Câmara Cível do Tribunal de
Justiça do Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em negar provimento ao
recurso.
O julgamento foi presidido pelo Desembargador LAURI CAETANO DA SILVA, relator,
e dele participaram os Desembargadores TITO CAMPOS DE PAULA e RUI BACELLAR
FILHO.
Curitiba, 29 de março de 2017.
DES. LAURI CAETANO DA SILVA Relator
--
1 COELHO, Fabio Ulhoa. Comentários à Nova Lei de Falências e de Recuperação de
Empresas. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 132.
2 ANDREY, Marcos. In Comentários à Nova Lei de Recuperação de Empresas e de
Falências. Coord. LUCCA, Newton de; SIMÃO FILHO, Adalberto. São Paulo: Quartier
Latin do Brasil, 2005. p. 236.

189

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

2.2. VICENTE DEL PRETE MISURELLI

2.2.1. DANOS MORAIS – INSCRIÇÃO DEVIDA – DANO NÃO CONFIGURADO

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO INDENIZATÓRIA. INSCRIÇÃO.CADASTRO DE

INADIMPLENTES. PRELIMINAR. COISA JULGADA. INEXISTÊNCIA. PEDIDO E CAUSA

DE PEDIR.DISTINTOS. NULIDADE DA SENTENÇA. AUSÊNCIA DE

FUNDAMENTAÇÃO. INOCORRÊNCIA. REQUISITOS DO ART.458, CPC/73.

PREENCHIDOS. APLICAÇÃO DO CÓDIGO CONSUMERISTA. AFASTADO. RELAÇÃO

DE CONSUMO.INEXISTÊNCIA. TEORIA FINALISTA. HIPOSSUFICIÊNCIA.NÃO

DEMONSTRADA. INVERSÃO DO ÔNUS PROBATÓRIO.INVIÁVEL. INSCRIÇÃO EM

CADASTRO DE INADIMPLENTES.EXERCÍCIO REGULAR DO DIREITO. PAGAMENTO

DO DÉBITO. NÃO COMPROVADO. DANO MORAL. NÃO CONFIGURADO. ATO

ILÍCITO. INEXISTENTE. INVERSÃO SUCUMBENCIAL. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS.

FIXAÇÃO.ART. 85, §8º, CPC/15. SENTENÇA REFORMADA. APELO PROVIDO

(TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1599968-1 - Barracão - Rel.: Vicente Del Prete Misurelli -

Unânime - J. 23.03.2017)

Inteiro Teor

Trata-se de apelação cível, nos autos da Ação Indenizatória, nº 168-05.2012.8.16.0052,


contra sentença que julgou procedente o pedido inicial e condenou a ré ao
pagamento de indenização por danos morais em R$ 15.000,00, corrigido
monetariamente e acrescido de juros de mora em 1% ao mês, a contar da intimação
da fixação. Ao final, condenou a ré ao pagamento das custas processuais e honorários
advocatícios, fixadas em 20% sobre o valor da condenação (fls. 235/240).
Dessa sentença, recorre VOLVO ADMINISTRADORA DE CONSÓRCIOS LTDA (fls.
245/279), alegando, preliminarmente, que o pedido da autora já foi objeto de
julgamento, havendo, portanto, coisa julgada.
Ademais, sustenta que há ausência de fundamentação na sentença, requerendo sua
anulação. Pugna, ainda, pela inaplicabilidade do CDC, ante a ausência de relação de
consumo entre as partes. No mérito, aduz que a inscrição da autora no cadastro de
inadimplentes é legítima, inexistindo, portanto, danos morais a serem indenizados.
Não sendo este o entendimento, requer a minoração do valor fixado, inclusive em
relação aos honorários. Assim, requer a reforma da sentença.
Contrarrazões (fls. 304/313).
190

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

É o relatório.
Voto.
Presentes os pressupostos de admissibilidade, conhece- se do apelo.
Inicialmente, não há falar-se em coisa julgada, uma vez que, embora os autos nº
0001276-06.2011.8.16.0052 (AC 1.258.383-6), tenham os mesmos litigantes desta
ação, não guardam relação quanto ao pedido/causa de pedir, vez que nos citados
autos, a lide versava a respeito da demora para liberação da carta de crédito, não
havendo, portanto, naqueles autos, discussão quanto à inscrição no cadastro de
inadimplentes (fls. 283/302).
Ainda em sede preliminar, aduz o recorrente, que há ausência de fundamentação na
sentença, pugnando, assim, por sua anulação. Todavia, sem razão.
Em análise aos autos, verifica-se que a sentença atacada preenche todos os requisitos
do art. 458 do CPC/73, vigente à época. Caso assim não fosse, caberia ao insurgente,
recorrer mediante o recurso cabível, previsto no art. 535 do CPC/73, o que não fez.
Assim sendo, não há falar-se em nulidade da sentença por ausência de
fundamentação.
Prosseguindo, pugna o recorrente pela inaplicabilidade da inversão do ônus da prova
à luz do código de defesa do consumidor, por não haver relação de consumo entre as
partes, bem como, por não ser a apelada, hipossuficiente perante a parte ré. Razão lhe
assiste.
Tem-se, efetivamente, que não há relação de consumo entre as partes nos termos da
teoria finalista, eis que a parte autora, não é a consumidora final do produto adquirido.
Ademais, não restou demonstrada hipossuficiência da apelada perante à apelante,
razão pela qual, não se pode falar em aplicação do código de defesa do consumidor,
no presente caso.
Sobre o tema:
AÇÃO REVISIONAL DE CONTRATO. CERCEAMENTO DE DEFESA. INEXISTÊNCIA.
AUSÊNCIA DE JUSTIFICATIVA PARA A PRODUÇÃO DE PROVA TESTEMUNHAL.
QUESTÃO DE MÉRITO UNICAMENTE DE DIREITO. APLICAÇÃO DO CÓDIGO DE
DEFESA DO CONSUMIDOR. IMPOSSIBILIDADE. AUTORA QUE NÃO É
CONSUMIDORA. SERVIÇO PRESTADO QUE SE COLOCA COMO INSUMO EM SUA
CADEIA DE PRODUÇÃO. AUTORA QUE TAMPOUCO DEMONSTROU
VULNERABILIDADE OU HIPOSSUFICIÊNCIA TÉCNICA EM FACE DA RÉ. NEGÓCIO
REALIZADO ENTRE EMPRESAS. LEGISLAÇÃO CONSUMERISTA INAPLICÁVEL.
(...).(TJPR - 17ª C.Cível - AC - 1548158-6 - Curitiba - Rel.: Fernando Paulino da Silva
Wolff Filho - Unânime - - J. 14.12.2016).
No mérito, alega o recorrente, que a inscrição da apelada no cadastro de
inadimplentes, se deu mediante exercício regular de seu direito, uma vez que a parte
ré não demonstrou ter adimplido o contrato realizado entre as partes. Ademais,
sustenta que não houve dano moral indenizável, por ter, a inscrição, se tratado de
mero dissabor.
Pois bem.
Em análise aos autos, tem-se que, a parte autora firmou um contrato de consórcio
com a apelante, para a aquisição de um “cavalo mecânico” se comprometendo ao
191

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

pagamento de 100 parcelas de valor não fixos (fls.14/24). As parcelas iniciaram-se no


valor de R$ 1.500,10, sendo que a partir da 71ª parcela, o apelado se insurgiu quanto
ao aumento do pagamento, que passou de R$ 3.730,23 na 70ª, para R$6.729,46 na
parcela seguinte, fatos estes, corroborados pelo depoimento da testemunha Jairo
Scherback, ouvida em audiência (fls. 14/15-TJ). Ademais, verifica-se que o autor pagou
as demais parcelas desde a 71ª à 89ª, vindo os boletos de nº 90, 91 e 92, com o valor
de R$ 0,00, sendo o valor total adimplido pelo apelado, de R$ 251.939,07 (fls.23).
Ocorre, contudo, que posteriormente aos boletos no valor de R$ 0,00, vieram os
boletos referentes às parcelas 93,94 e 95, que não foram pagos pela apelada, não
havendo nos autos, qualquer comprovativo hábil a afastar a obrigação ao pagamento
destas prestações.
Desse modo, posteriormente ao inadimplemento destes boletos, o nome da apelada
fora inscrito no cadastro de inadimplentes (fls. 36), mediante o exercício regular do
direito da parte ré.
Cumpre ressaltar, que, como o cerne que ensejou a presente demanda, diz respeito à
comprovação pagamento, a produção da prova depende somente da parte autora,
não se podendo exigir da apelada, que comprove a ausência de pagamento, mais um
motivo pelo qual, é inviável a inversão do ônus da prova, senão vejamos:
APELAÇÃO CÍVEL. DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA DE DÉBITO C/C
INDENIZATÓRIA POR DANOS MORAIS.
1.CONTRATO DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS DE TELEFONIA MÓVEL. INVERSÃO
DO ÔNUS DA PROVA. INCABÍVEL.PAGAMENTO. PROVA DE FATO NEGATIVO.
INSCRIÇÃO EM CADASTRO RESTRITIVO DE CRÉDITO. INADIMPLEMENTO DA
FATURA DE UM MÊS. FATO CONSTITUTIVO DO DIREITO DO AUTOR NÃO
COMPROVADO.
2. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. PLEITO DE REDUÇÃO. NÃO ACOLHIMENTO.
(...). (TJPR - 9ª C.Cível - AC - 1494320-9 - Curitiba - Rel.: Coimbra de Moura - Unânime
- - J. 23.06.2016).
Assim sendo, não há nos autos qualquer comprovativo do pagamento referente aos
débitos que originou a inscrição da autora no cadastro de inadimplentes, qual seja, R$
7.292,06 e 7.289,77 (fls. 36).
Desse modo, considerando que a autora não se desincumbiu do seu ônus
comprobatório, conforme prevê o art. 333, I, do CPC/73 (vigente à época), tem-se que
a apelada agiu no seu exercício regular do direito, art. 188, I, do Código Civil, ao
inscrever a recorrida no cadastro de inadimplentes.
A propósito:
APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA DE DÉBITO
CUMULADA COM INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS - INSCRIÇÃO EM
CADASTROS DE INADIMPLENTES - ALEGAÇÃO DE REALIZAÇÃO DE ACORDO -
INOVAÇÃO RECURSAL - NÃO CONHECIMENTO - ATO ILÍCITO NÃO
CONFIGURADO - EXISTÊNCIA DE DÍVIDA - EXERCÍCIO REGULAR DO DIREITO -
AUSÊNCIA DO DEVER DE INDENIZAR - RECURSO PARCIALMENTE CONHECIDO E
DESPROVIDO.

192

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

(TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1469052-7 - Terra Rica - Rel.: Marcos S. Galliano Daros -


Unânime - - J. 16.06.2016).
Dessa forma, a sentença deve ser reformada, para que se afaste o dever indenizatório
fixado, não havendo falar-se em danos morais, uma vez que não houve comprovação
da quitação do débito que ensejou a inscrição da apelada, no cadastro de
inadimplentes.
Por fim, tendo em vista a procedência do recurso, bem como que o apelante se
sagrou vencedor em seu pedido principal, condeno a recorrida na totalidade dos ônus
da sucumbência. Quanto aos honorários advocatícios, considerando a ausência de
condenação, bem como o ínfimo valor dado à causa, fixo-os em R$ 1.500,00, nos
termos do art. 85, §8º do CPC/15.
Diante do exposto, dou provimento ao apelo, para o fim de afastar a fixação de
indenização por danos morais, bem como, inverter os ônus de sucumbência e, por fim,
fixar os honorários advocatícios.
ACORDAM os Desembargadores da 8ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do
Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em dar provimento ao apelo, nos
termos do voto do relator.
Participou da sessão presidida pelo Desembargador Luis Sérgio Swiech e
acompanhou o voto do Relator o Excelentíssimo Senhor Desembargador Luiz Cezar
Nicolau.
Curitiba, 23 de março de 2017.
Des. VICENTE DEL PRETE MISURELLI

2.2.2. RESPONSABILIDADE CIVIL DO LOCADOR – AUSÊNCIA DE PROVAS

APELAÇÃO CÍVEL. INDENIZATÓRIA. LOCADOR.PRODUÇÃO DE NOVAS PROVAS.

PRECLUSÃO.DESCUMPRIMENTO DE DEVER LEGAL E CONTRATUAL DO LOCADOR.

INOBSERVÂNCIA. DANOS MATERIAIS.NEXO DE CAUSALIDADE ENTRE CONDUTA E

DANO. INEXISTÊNCIA. DANO MORAL E LUCROS CESSANTES.NÃO

COMPROVADOS. RESPONSABILIDADE CIVIL DO LOCADOR. NÃO CONFIGURADA.

HONORÁRIOS.MANUTENÇÃO. SENTENÇA MANTIDA INTEGRALMENTE.APELO

NÃO PROVIDO.

(TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1619546-3 - Curitiba - Rel.: Vicente Del Prete Misurelli -

Unânime - J. 23.03.2017)

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Inteiro Teor

Em ação indenizatória, autos nº 11003- 74.2013.8.16.0001, a MMª Juíza de Direito da


10ª Vara Cível de Curitiba julgou improcedente a pretensão inicial, condenando os
autores nos ônus da sucumbência, fixando honorários em R$ 2.100,00 (fls. 275/280).
Inconformados, apelam Edison Luis de Almeida e outros (fls. 294/305), defendendo a
necessidade de condenação da apelada em danos morais, materiais e lucros
cessantes. Para tanto, afirmam que o apelado descumpriu suas obrigações legais de
locador, bem como que as provas nos autos são insuficientes para comprovar a sua
ciência de existência de litigio sobre o imóvel, requerendo a produção de novas
provas.
Contrarrazões (fls. 224/229).
É o relatório.
Voto.
Presentes os pressupostos, conheço do recurso.
Em primeiro lugar, a alegação de insuficiência de provas é extemporânea, visto que se
desejasse a produção de prova pericial ou de nova prova documental, deveria o
recorrente tê-lo feito em momento oportuno, durante a instrução processual. Assim, a
alegação encontra-se preclusa.
No mais, afirma o apelante, que o apelado descumpriu sua obrigação legal de
entregar o imóvel em condições de uso, assim como que não garantiu o uso pacífico
durante o período de locação. Não tem razão.
Isto porque, a testemunha Débora Gonzales, atestou que o recorrente já havia
alugado o imóvel em questão, e que, portanto, tinha consciência das pendências
judiciais existentes sobre o mesmo.
Nesta perspectiva, do que ficou comprovado nos autos, é que o locador não omitiu o
fato da existência das pendências e de que havia uma terceira pessoa ocupando
parcela do imóvel, sendo que o locatário anuiu com tais condições.
Desse modo, tem-se que o apelante assumiu o risco de sofrer eventuais prejuízos,
tendo sido alertado pelo apelado, locador do imóvel, conforme também confirmam as
testemunhas.
Além disso, a própria petição inicial (fls. 06) e as provas testemunhais comprovam que
o locador, quando solicitado pelo locatário, realizou diligencias visando a resolução
dos problemas, o que comprova a sua boa-fé.
Assim, não se vislumbra o descumprimento do dever legal e contratual, de entrega do
imóvel em estado a servir para o uso a que se destina, bem como de garantir o uso
pacífico do imóvel.
Prosseguindo, vale consignar que a indenização por responsabilidade civil, tanto
objetiva, quanto subjetiva, é condicionada à existência de dano, assim como ao nexo
de causalidade entre a conduta praticada e o dano sofrido.
Veja-se:
“[...] à luz do nosso sistema normativo da responsabilidade civil, é requisito básico e
essencial observar a presença do nexo de causalidade. Ou seja, ‘a imputação de
responsabilidade civil, objetiva ou subjetiva, supõe a presença de dois elementos de

194

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

fato (a conduta do agente e o resultado danoso) e um elemento lógico- normativo, o


nexo causal (que é lógico, porque consiste num elo referencial, numa relação de
pertencialidade, entre os elementos de fato; e é normativo, porque tem contornos e
limites impostos pelo sistema de direito)’ [...]”. (AgInt no REsp 1554466/RJ, Rel.
Ministra ASSUSETE MAGALHÃES, SEGUNDA TURMA, julgado em 09/08/2016, DJe
22/08/2016).
Dessa forma, em que pese a discussão sobre a objetividade ou subjetividade da
responsabilidade civil do locador, certo é que ausente o nexo de causalidade, não há
o que se falar em responsabilização civil do locador.
Ademais, observa-se que de fato os pertences do recorrente foram danificados, por
terem sido expostos ao tempo e chuva.
Todavia, conforme exposto, não há qualquer prova nos autos, que ateste a culpa do
recorrido pelos danos gerados. Sendo assim, não há nexo de causalidade entre
conduta e dano, que possa ensejar a indenização por danos tanto morais, quanto
materiais e lucros cessantes.
Além disso, especificamente quanto aos danos morais, sabe-se que esta, é
condicionada à existência de dano capaz de gerar abalo psicológico na vítima, assim
como à mesma existência de nexo de causalidade entre a conduta praticada e o dano
causado.
Contudo, inexistem provas nos autos de qualquer ato praticado pelo recorrido, que
tenha sido capaz de gerar abalo de cunho moral aos recorrentes.
Cabe frisar que as testemunhas confirmaram a ocorrência de discussão, que
eventualmente poderia configurar causa de dano moral. Porém, as discussões
relatadas ocorreram entre uma das partes apelantes e uma terceira pessoa, que não o
recorrido.
Dessa forma, conclui-se que o apelante não se prestou a comprovar a existência de
danos morais e tampouco, comprovou nexo de causalidade entre os danos materiais,
os eventuais lucros cessantes e a conduta do apelado. A propósito:
“APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS -
RESPONSABILIDADE CIVIL - AGRESSÃO VERBAL - OFENSA À HONRA E À IMAGEM -
SENTENÇA DE IMPROCEDÊNCIA - RECURSO DO AUTOR - AUTOR QUE NÃO
COMPROVOU OS FATOS ALEGADOS - ÔNUS QUE LHE INCUMBIA - EXEGESE DO
ART. 333, INCISO I, DO CPC - IMPOSSIBILIDADE DE JUÍZO SEGURO PARA A
CONDENAÇÃO - ATO ILÍCITO E DANOS NÃO CARACTERIZADOS - INDENIZAÇÃO
INDEVIDA - SENTENÇA MANTIDA - PRECEDENTES JURISPRUDENCIAIS -
APELAÇÃO DESPROVIDA”. (TJPR APC 1415575-4 9ª C. Cível Rel.: Luiz Osorio Moraes
Panza D.J. 08.10.2015)
Tendo em vista a manutenção integral da sentença, os ônus da sucumbência também
devem ser mantidos na forma fixada, para que o apelante arque com a totalidade de
seus ônus.
Mantenho o valor fixado a título de honorários, uma vez que a sentença é anterior à
vigência do novo CPC, bem como que o valor fixado bem atende aos requisitos
elencados no art. 20 do CPC/73.
Diante do exposto, nego provimento ao apelo, nos termos da fundamentação supra.
195

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ACORDAM os Desembargadores da 3ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do


Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em negar provimento ao apelo, nos
termos do voto do relator.
Participou da sessão presidida pelo Desembargador Luis Sérgio Swiech e
acompanhou o voto do Relator o Excelentíssimo Senhor Desembargador Luiz Cezar
Nicolau.
Curitiba, 23 de março de 2017.
Des. VICENTE DEL PRETE MISURELLI

2.2.3. ACIDENTE AUTOMOBILÍSTICO – CAUSA PRIMÁRIA E DETERMINANTE

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO. ACIDENTE DE TRÂNSITO. TRAVESSIA

DE VIA PRINCIPAL. COLISÃO COM MOTOCICLETA QUE VINHA PELA

PREFERENCIAL. CAUSA PRIMÁRIA. DEVER DE CAUTELA INOBSERVADO. ART. 44

DO CTB. CULPA EXCLUSIVA DO MOTORISTA. ALEGAÇÃO DE EXCESSO DE

VELOCIDADE E DE DIREÇÃO PRÓXIMA AO CANTEIRO. NÃO COMPROVAÇÃO.

LESÕES GRAVES.INTERNAÇÃO HOSPITALAR. AMPUTAÇÃO DE MEMBRO

INFERIOR. DANO MORAL. CABIMENTO. FILHAS MENORES.DANO MORAL

REFLEXO. ARBITRAMENTO RAZOÁVEL E PROPORCIONAL. MANUTENÇÃO. DANOS

ESTÉTICOS.REDUÇÃO PARA ATENDER À PROPORCIONALIDADE E À

JURISPRUDÊNCIA ANÁLOGA. PENSÃO MENSAL TEMPORÁRIA. LAUDO MÉDICO

QUE ATESTA REDUÇÃO DE CAPACIDADE PARA O TRABALHO. CUMULAÇÃO COM

BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO. POSSIBILIDADE.PRECEDENTES DO STJ.

ABATIMENTO DPVAT. RECURSO PROVIDO EM PARTE.

(TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1614865-3 - Paranavaí - Rel.: Vicente Del Prete Misurelli -

Unânime - J. 01.06.2017)

Inteiro Teor

Certificado digitalmente por: VICENTE DEL PRETE MISURELLI


Trata-se de Apelação Cível nos autos de Ação de Indenização nº 0004965-
18.2011.8.16.0130, contra sentença que julgou parcialmente procedentes os pedidos
iniciais para o fim de condenar o apelante e a seguradora HDI, esta até o limite do
contrato de seguro, ao pagamento de danos materiais no valor de R$ 3.825,76,
pensão mensal em 1 salário mínimo vigente desde o evento danoso até 5 anos após a

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data da sentença, danos morais de R$ 30.000,00 para o apelado Vanderlei e de R$


5.000,00 para as apeladas Camila e Carolaine, e danos estéticos no valor de R$
100.000,00. De consequência, condenou o apelante em custas e honorários, estes
fixados em 20% do valor da condenação (fls. 686/698 e 719/720).
Dessa sentença recorre ROBERTO YUJI UEDA (fls. 723/755), alegando que deve haver
desconto na indenização dos valores recebidos a título de DPVAT (súmula 246/STJ).
Aduz que não houve comprovação de sua culpa pelo evento danoso e que houve
culpa exclusiva da vítima ou, ao mesmo, culpa concorrente. Menciona a testemunha
Vagner Cavazin, alega que o boletim de ocorrência não é prova idônea para a
descrição do acidente, diz que foi a moto que bateu na caminhonete do apelante, que
não houve qualquer equívoco e que não adentrou na pista, que o apelado vinha em
alta velocidade e estava perto do canteiro central e reafirma a culpa concorrente.
Defende o afastamento da pensão mensal, porque não houve prejuízo para o
apelado, que já houve o pagamento de auxílio doença e que o apelado trabalhava à
época dos fatos como vigia, recebendo salário mínimo. Alega que as filhas do autor
são partes ilegítimas e pede a redução do dano moral e do dano estético, para evitar
enriquecimento ilícito. Pede a redução dos honorários advocatícios.
O apelado apresentou contrarrazões (fls. 773/786) e também recorreu adesivamente
(fls. 784/796) pedindo a majoração dos danos morais.
A Procuradoria Geral de Justiça, intervindo em razão de interesse de menor,
manifestou-se pelo não provimento do recurso.
É o relatório.
Voto.
Presentes os pressupostos de admissibilidade, conhece- se dos recursos.
Trata-se de pretensão indenizatória fundada em acidente automobilístico ocorrido em
05/01/2011 e envolvendo a motocicleta Honda Titan pilotada por Vanderlei Fernandes
de Souza e a caminhonete Ford F250 dirigida por Roberto Yuji Ueda (fls. 11/15).
Do acidente resultou para o apelado a amputação de sua perna esquerda (fls. 16/18 e
19/80) e o pedido abrange também a pretensão indenizatória deduzida por suas duas
filhas menores.
Deixo de conhecer a parte das razões recursais do apelante que versam sobre a
ilegitimidade das filhas da vítima, porque essa questão já foi julgada nos autos por
ocasião do saneamento do feito (fls. 274/275) sem que as partes tenham apresentado
recurso.
Ora, tendo havido coisa julgada sobre a questão não é mais possível à parte
ressuscitar o debate, em virtude da preclusão ocorrida (nesse sentido: STJ - AgRg
1260497/MG ­ 5ª Turma ­ Rel. Min. Jorge Mussi ­ DJ 17/03/2011).
Lembrando que a coisa julgada importa em preclusão consumativa inclusive para
matéria de ordem pública:
“Consoante jurisprudência desta Corte, ainda que a questão seja de ordem pública,
há preclusão consumativa se a matéria tiver sido objeto de decisão anterior
definitivamente julgada.” (STJ - AgRg no AREsp 630587/SP ­ 4ª Turma ­ Rel. Min.
Antônio Carlos Ferreira ­ DJ 01/07/2016)
Pois bem.
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A prova constante nos autos atesta inequivocamente a responsabilidade exclusiva do


apelante Roberto Yuji Ueda, condutor da caminhonete Ford, pelo evento danoso.
O Boletim de Ocorrência, efetuado segundo as declarações prestadas no local pelo
próprio apelante, aponta que (fls. 13): “O veículo 1 (caminhonete) transitava na
Avenida Presidente Tancredo Neves, sentido rua Manoel Ribas, ao fazer conversão à
esquerda para adentrar na rua Pernambuco envolveu-se em abalroamento transversal
com o veículo 2 (moto) que transitava na Avenida Presidente Tancredo Neves sentido
Av. Heitor Alencar Furtado.”
Ou seja, a motocicleta pilotada por Vanderlei Fernandes de Souza trafegava
normalmente pela pista da Av. Tancredo Neves sentido Av. Heitor Alencar Furtado
quando, ao se aproximar do cruzamento com a rua Pernambuco, teve sua via
preferencial obstruída pela caminhonete Ford, conduzida por Roberto Yuji Ueda, a
qual pretendia efetuar o cruzamento da pista principal da Tancredo Neves e entrar na
rua Pernambuco (fls. 13/14).
O croqui realizado pela polícia militar e anexado no boletim de ocorrência mostra
claramente a dinâmica do evento, com o apelante Roberto Yuji Ueda fazendo
conversão à esquerda e, ao realizar a manobra, obstruiu a via preferencial em que
vinha a motocicleta, abalroando-a (fls. 14).
Consigne-se, a propósito, que o Boletim de Ocorrência goza de presunção relativa de
veracidade (STJ - AgRg no AREsp 209262/SC), presunção esta que não foi ilidida nos
autos por qualquer outra prova. Além do mais, o policial militar que atendeu a
ocorrência reafirmou em Juízo o conteúdo e a exatidão do croqui (fls. 649).
A declaração do apelante à autoridade policial no boletim de ocorrência também
comprova que a batida se deu quando convergiu à esquerda, invadindo a pista em
que transitava o autor, dando causa ao sinistro (fls. 15).
A prova testemunhal produzida pelo autor corrobora integralmente a documentação
dos autos, com destaque para o depoimento de Vergílio Albino Peters, que estava no
canteiro no exato momento do acidente, tendo sido, portanto, testemunha presencial
(fls. 626):
“(...) eu atravessei a rua, a primeira pista, eu estava em cima daquele canteiro, aí
desceu a caminhonete, e o Vanderlei vinha subindo com a moto, e a caminhonete
desceu de vez e virou de uma vez assim, que não deu tempo do Vanderlei parar (...),
do jeito que bateu ali jogo a moto longe, porque não foi a moto que entrou na
caminhonete, foi a caminhonete que entrou na moto. (...) o motorista da caminhonete
falou: `eu não vi a moto’, mas ali dava pra ver, (...), a moto vinha mais ou menos no
meio da pista (...).”
Essa testemunha presencial disse que a caminhonete fez a conversão de forma
abrupta e em alta velocidade e disse que motocicleta trafegava a uns 50 Km/h.
O depoimento de Wagner Cassio Cavazin (fls. 633), única testemunha do apelante, é
contrário às demais testemunhas e contrário também à prova documental dos autos,
pelo que, isolado, não pode servir como prova segura e idônea.
Ele diz que a moto veio e bateu na caminhonete, que estava parada para fazer a
conversão. Ora, a colisão se deu já dentro da pista da Avenida Tancredo Neves, no
sentido Heitor Alencar Furtado, como deixa evidente o croqui e o boletim de
198

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ocorrência (fls. 13/14), logo, era impossível que a caminhonete estivesse parada no
canteiro no momento da batida, como afirma essa testemunha.
Note-se que o próprio croqui feito pela polícia militar (fls. 14) foi feito apenas com
base nas declarações do apelante (fls. 13) e mostra dinâmica totalmente diversa. Nem
em sua declaração no dia dos fatos o apelante afirmou estar parado (fls. 15).
Além de confrontar com a prova documental, esse depoimento confronta com as
demais provas testemunhais, especialmente a da outra testemunha presencial, senhor
Vergílio Albino Peters.
Consigne-se que mesmo nessa versão isolada de Wagner Cassio Cavazin, e
contraditória aos demais elementos dos autos, conclui-se pela ação culposa exclusiva
do apelante Roberto Yuji Ueda, eis que a caminhonete teria invadido parte da pista
preferencial com a sua frente, tendo com isso causado a batida na lateral esquerda (fls.
633):
“Eu vi que a caminhonete entrou e teve a colisão (...); a caminhonete não estava pra
dentro da pista, ela pode ter invadido alguma coisinha, porque pegou no parachoque
da caminhonete”.
A alegação de que o apelado conduzia sua moto muito próxima do canteiro, além de
não ter sido provada pelo apelante nos autos (art. 373, II do CPC), também é contrária
à prova documental, eis que o boletim de ocorrência atesta que a moto estava
trafegando pela direita a meio metro da borda da pista, fato que foi corroborado pelo
depoimento de Vergílio Albino Peters.
Nesse ponto, as alegações da testemunha Wagner Cassio Cavazin novamente
restaram isoladas e sem nenhum apoio nas provas documentais.
A alegação de que a motocicleta trafegava em alta velocidade igualmente não
encontra suporte probatório nos autos, tendo sido desmentida pela testemunhal
presencial Vergílio Albino Peters.
Ademais, em caso de responsabilidade civil por acidente de trânsito, vigora a teoria
da causalidade adequada, na qual se perquire a causa primária do acidente. E a causa
primária deste caso, como bem evidenciado pelas provas, foi a invasão da pista
preferencial sem adotar as cautelas mínimas necessárias para efetuar a travessia, sem
que a vítima tenha contribuído em nada para a realização desta causa primária e,
portanto, sem se falar em culpa concorrente: “A teoria da causalidade adequada, que
prevalece hoje em tema de responsabilidade civil, impõe que perquira qual das culpas
foi a causa primária e eficiente para a ocorrência.” (TJPR ­ ApCiv 1039060-2 ­ 9ª
CâmCív. ­ Rel. Dartagnan Serpa Sá ­ DJ 24/04/2014)
E sobre a invasão de preferencial ser causa primária que torna irrelevante a discussão
sobre eventual excesso de velocidade de quem transita na preferencial:
APELAÇÃO CÍVEL - ACIDENTE DE TRÂNSITO - INVASÃO DE VIA PREFERENCIAL -
CAUSA PRIMÁRIA DA COLISÃO - DILAÇÃO PROBATÓRIA DESNECESSÁRIA ANTE A
IRRELEVÂNCIA DE EVENTUAL EXCESSO DE VELOCIDADE DO VEÍCULO
INTERCEPTADO (...) - CULPA EXCLUSIVA DO REQUERIDO CONFIGURADA - DEVER
DE INDENIZAR ­ (...). “A invasão de via preferencial constitui causa primária do
acidente, que não é afastada por eventual excesso de velocidade, e fluência do

199

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trânsito nas outras pistas da via preferencial.” (TJPR ­ ApCiv 501404-2 ­ 10ª CâmCiv ­
Rel. Des. Astrid Maranhão de Carvalho Ruthes ­ DJ 22/08/2008).
Portanto, além de não haver qualquer prova de excesso de velocidade, essa discussão
é irrelevante para o estabelecimento da culpa exclusiva pelo acidente neste caso.
A preferência de tráfego era toda do motociclista, que estava na pista preferencial e
em sentido reto, cabendo ao apelante motorista respeitar essa preferencial e adotar as
cautelas necessárias para efetuar a travessia, de forma que possa deter o veículo com
segurança em face dos demais que transitam na preferencial (art. 44 do CTB), o que
evidentemente não foi feito. Sobre o tema:
APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MATERIAIS E MORAIS -
ACIDENTE DE TRÂNSITO - (...) - CRUZAMENTO DA PISTA QUE DEVE DAR
PREFERÊNCIA AOS VEÍCULOS QUE TRANSITAM NO SENTIDO DA VIA - CAUSA
PRIMÁRIA PARA A OCORRÊNCIA DO ACIDENTE ORIGINADA INDUBITAVELMENTE
PELO APELANTE (...). (TJPR ­ ApCiv 1318668-4 ­ 9ª CâmCív ­ Rel. Des. José Augusto
Gomes Aniceto ­ DJ 06/09/2016)
Resta, enfim, provada nos autos a responsabilidade extracontratual subjetiva exclusiva
de Roberto Yuji Ueda (art. 186 e 927 do CCB), eis que sua conduta culposa na
travessia da preferencial deu causa ao evento danoso.
Em razão do acidente causado pelo motorista, o motociclista sofreu graves lesões e
foi encaminhado ao Hospital Santa Casa de Paranavaí, tendo havido amputação da
perna esquerda, como comprovam a documentação encartada e o laudo médico
pericial (fls. 16/80 e 562/573).
Diante de tais provas, resta evidenciado o abalo psicológico sofrido pelo autor em
razão do acidente, tendo de permanecer dias internada e de se submeter a cirurgia de
amputação, com afastamento de suas atividades laborais, restando, por fim,
acometido de incapacidade permanente (fls. 518). Sobre a existência de dano moral
em tais situações:
AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANO MATERIAL, MORAL E ESTÉTICO. ACIDENTE
DE TRÂNSITO. (...). DANO MORAL.
SUBMISSÃO A CIRURGIA, SESSÕES DE FISIOTERAPIA E AFASTAMENTO DO
TRABALHO POR DELONGADO PERÍODO EM DECORRÊNCIA DO EVENTO
DANOSO. (...). (TJPR ­ ApCiv 1588149-9 ­ 8ª CãmCív ­ Rel. Des. Luiz Cezar Nicolau ­
DJ 14/03/2017)
O valor para dano moral arbitrado na sentença (R$ 30.000,00) deve ser mantido,
porque razoável e proporcional à reparação da grave extensão dos danos causados, à
dissuasão da conduta culposa no trânsito, à conduta dos envolvidos, à capacidade
econômica das partes e, principalmente, à jurisprudência estadual para casos análogos
(ApCiv 1445117-1 ­ 10ª Câm.Cív ­ DJ 10/03/2016 e ApCiv 1161250-5 ­ 8ª CâmCív ­ DJ
24/04/2014).
Esse valor bem cumpre a função reparatória e pedagógica do dano moral e não
representa de forma alguma o enriquecimento ilícito da vítima.
Além do autor, a sentença fixou danos morais de R$ 5.000,00 (cinco mil reais) para
suas 2 filhas menores, que tinham 6 e 2 anos à época dos fatos (fls. 08/09) e moravam
com o autor e sua esposa, tendo, portanto, vivenciado de perto as consequências
200

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psicológicas do acidente, como o trauma familiar e a redução de ganhos pelo


afastamento laboral.
Esse valor é razoável e proporcional ao evidente abalo psíquico reflexo (indireto ou
por ricochete) sofrido pelas filhas menores e, além de guardar consonância com a
jurisprudência análoga (TJPR ­ ApCiv 1398156-3 ­ 8ª CâmCív ­ Rel. Des. Themis
Furquim Cortes ­ DJ 07/04/2016), não implica em enriquecimento ilícito:
“Trata-se de hipótese de danos morais reflexos, ou seja, embora o ato tenha sido
praticado diretamente contra determinada pessoa, seus efeitos acabam por atingir,
indiretamente, a integridade moral de terceiros. É o chamado dano moral por
ricochete, cuja reparação constitui direito personalíssimo e autônomo dos referidos
autores.” (STJ - AgRg no REsp 1212322/SP ­ 1ª Turma ­ Rel. Min. Napoleão Nunes
Maia Filho ­ DJ 10/06/2014)
A pensão mensal de 1 salário mínimo vigente à época dos fatos pelo tempo de 5 anos
merece ser mantida.
O laudo médico pericial constatou efetivamente que as lesões implicaram em
diminuição da capacidade de trabalho, condição necessária para a fixação de pensão
mensal (art. 950 do CCB).
Embora não esteja registrado em sua carteira de trabalho, a prova testemunhal
comprovou satisfatoriamente que o autor trabalhava na construção civil como mestre
de obras percebendo renda mensal aproximada de R$ 2.000,00.
Neste sentido são os depoimentos de Everton Ozeas da Silva, de Hélio Carlos Ferreira
Costa, Francisco Carneiro dos Santos Soares, Claudecir Bernardo Sanchez e João
Batista Alves de Sá, além do depoimento do Fábio Porto dos Santos.
Também a prova documental trazida pelo INSS informa como profissão do autor o
ofício de mestre de obras (fls. 347/349).
E o laudo médico apontou inequivocamente a perda de capacidade de trabalho para
atividade de mestre de obras até que haja a obtenção de próteses (fls. 567/569),
sendo que a outra função laboral também desempenhada pelo autor, a de vigilante,
“não poderá mais ser exercida” (fls. 567).
O laudo também atestou que atualmente o autor é incapaz para qualquer trabalho
(fls. 571) e que eventual retorno à atividade de mestre de obras está condicionado às
próteses (fls. 570).
Tendo em vista essa possibilidade futura de reinserção no mercado de trabalho, a
sentença afastou a pensão vitalícia e determinou pensão por 5 anos, no que está
correta, porque atende proporcionalmente ao dano havido e a prova médica dos
autos.
Conforme o entendimento dominante das Câmaras indenizatórias desta Corte, o
recebimento de benefício previdenciário não impede a fixação de pensão mensal a
favor da vítima, eis que são verbas de natureza jurídica distinta, uma securitária e outra
indenizatória, não havendo, portanto, bis in idem: AÇÃO DE REPARAÇÃO DE DANOS
E DENUNCIAÇÃO DA LIDE - ACIDENTE DE TRÂNSITO ­ (...) - CUMULAÇÃO DE
PENSÃO MENSAL POR ILÍCITO CIVIL E BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO DO INSS -
POSSIBILIDADE ­ (...). “ O benefício pago pelo INSS

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tem caráter previdenciário, ou seja, possui natureza securitária, enquanto que a


pensão mensal ostenta natureza indenizatória decorrente da responsabilidade civil,
sendo possível, para a jurisprudência do STJ, a cumulação das verbas, porquanto têm
origens distintas.” (TJPR ­ ApCiv 1411226-0 ­ 8ª CâmCív ­ Rel. Des. Gilberto Ferreira ­
DJ 26/01/2017).
É neste sentido o entendimento do STJ: ADMINISTRATIVO. PROCESSUAL CIVIL.
RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO. (...). POSSIBILIDADE DE CUMULAÇÃO
COM PENSÃO PREVIDENCIÁRIA. (...). “A jurisprudência desta Corte é disposta no
sentido de que o benefício previdenciário é diverso e independente da indenização
por danos materiais ou morais, porquanto têm origens distintas. O primeiro
assegurado pela Previdência; e a segunda, pelo direito comum. A indenização por ato
ilícito é autônoma em relação a qualquer benefício previdenciário que a vítima receba.
Precedentes. (STJ - AgRg no REsp 1388266/SC ­ 2ª Turma ­ Rel. Min. Humberto
Martins ­ DJ 16/05/2016)
Para a fixação do valor da pensão mensal, o Juízo considerou os valores recebidos
pelo autor pelo INSS e os que sua esposa aufere (fls. 693), cálculo que deve ser
mantido, porque evita o enriquecimento ilícito.
O pleito de redução dos danos estéticos, todavia, merece provimento.
É que o valor arbitrado de R$ 100.00,00 (cem mil reais) mostra-se excessivo em
relação ao entendimento desta Corte para
casos análogos, devendo portanto ser reduzido para R$ 65.000,00 (sessenta e cinco
mil reais), valor que se afigura mais razoável e proporcional à jurisprudência e ao
desagravo ao dano permanente sofrido (neste sentido: TJPR ­ ApCiv 773117-7 ­ 10ª
CâmCív ­ Rel. Des. Albino Jacomel Guerios ­ DJ 02/06/2011).
Tal valor não implica em enriquecimento ilícito e está num patamar razoável de
indenização estética (conforme: STJ - AgRg no AREsp 510181/RJ ­ 4ª Turma ­ Rel. Min.
Raul Araújo ­ DJ 01/06/2015).
Por fim, deve ser aplicada a súmula 246/STJ, que determina a dedução do valor
indenizatório da quantia paga a título de DPVAT.
Assim, dos valores indenizatórios aqui fixados para o autor Vanderlei Fernandes de
Souza deve ser abatido a quantia de R$ 9.450,00 paga em 15/08/2011 (fls. 359).
A redução do dano estético, cuja pleito é meramente estimativo, e o abatimento do
DPVAT não alteram a constatação de sucumbência mínima dos autores.
Em relação aos honorários advocatícios, o ganho obtido neste recurso já está
contemplado pela aplicação de percentual sobre o valor da condenação.
A fixação do percentual de 20% sobre o valor da condenação deve ser mantida,
porque razoável e proporcional ao trabalho exigido pela demanda, ao tempo de
tramitação da ação, à natureza e complexidade da causa, bem como os demais
critérios do art. 85, § 2º do CPC.
Diante do exposto, dou parcial provimento ao recurso
para o fim de reduzir o dano estético para R$ 65.000,00 (sessenta e cinco mil reais) e
determinar o abatimento do DPVAT dos valores indenizatório, mantida no mais a
sentença recorrida.

202

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ACORDAM os Desembargadores da 8º Câmara Cível do Tribunal de Justiça do


Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao recurso,
nos termos do voto relator.
Participou da sessão presidida pelo Desembargador Luiz Cezar Nicolau (com voto) e
acompanhou o voto do Relator o Excelentíssimo Senhor Desembargador Luis Sérgio
Swiech.
Curitiba, 01 de junho de 2017.
Des. VICENTE DEL PRETE MISURELLI

2.2.4. ACIDENTE AUTOMOBILÍSTICO – VÍTIMA FATAL – “CHAPA” CONTRATADO

PELO MOTORISTA

APELAÇÕES CÍVEIS. INDENIZATÓRIA. ACIDENTE DE TRANSITO. VITIMA FATAL.

CAMINHÃO QUE AGUARDAVA EM FRENTE À EMPRESA PARA

DESCARREGAR.CONTRATAÇÃO DO SERVIÇO DE "CHAPA" PELO CONDUTOR.

CONTRATADO QUE ESPERA EMBAIXO DO VEÍCULO. CULPA EXCLUSIVA DA

VÍTIMA. CONFIGURADA.EXISTÊNCIA DE SALA DE ESPERA NO LOCAL. CONDUTOR

QUE NÃO TERIA SIDO AVISADO PREVIAMENTE. AÇÃO IMPRUDENTE. SENTENÇA

MANTIDA. HONORÁRIOS.MAJORADOS. APELO NÃO PROVIDO.

(TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1656703-8 - Curitiba - Rel.: Vicente Del Prete Misurelli -

Unânime - J. 08.06.2017)

Inteiro Teor

Trata-se de Apelação Cível, em face de sentença que reconheceu a culpa exclusiva da


vítima e julgou improcedente os pedidos iniciais, condenando os autores ao
pagamento das custas processuais e honorários advocatícios, fixados em R$ 1.000,00
para os patronos de cada réu (fls. 639/642).
Inconformados, os autores sustentam que a conduta do motorista foi culposa, pois
amplamente conhecedor do fato de que os “chapas”, contratados para auxiliar na
descarga do caminhão, permanecem embaixo do veículo enquanto aguardam ordens
para entrar no pátio da empresa, demonstrando evidente imprudência ao avançar o
caminhão sem se ater a tal fato, devendo ser considerada as provas documentais e os
depoimentos colhidos nos autos que comprovam a habitualidade de tal prática,
devendo ser reconhecida a culpa exclusiva do apelado (fls. 656/660).
Contrarrazões (fls., 683/691 e 693/699)
É o relatório.
Voto.

203

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Presentes os pressupostos de admissibilidade, conhece- se do recurso.


Extrai-se dos autos que no dia 10/01/2012, o requerido João Hélio Patussi,
conduzindo caminhão de propriedade da requerida Ademar Cestonaro ­ ME,
contratou os serviços de “chapa” do sr. Newton Dias Batista para auxiliá-lo na
descarga do veículo junto a empresa Alltech do Brasil Agroindustrial.
Ocorre que, antes de adentrar ao pátio da empresa, o motorista passou por cima do
corpo de Newton, que aguardava embaixo do caminhão, resultando em sua morte.
Em face disto, sua companheira e seus filhos ingressaram com a presente medida
visando serem reparados pelos danos materiais e morais decorrentes do acidente.
Entretanto, o magistrado julgou improcedente a lide, considerando ter havido culpa
exclusiva da vítima.
Por sua vez, os autores sustentam que a conduta do motorista foi culposa, pois
amplamente conhecedor do fato de que os “chapas”, contratados para auxiliar na
descarga do caminhão, permanecem embaixo do veículo enquanto aguardam ordens
para entrar no pátio da empresa, demonstrando evidente imprudência ao avançar o
caminhão sem se ater a tal fato, devendo ser considera as provas documentais e os
depoimentos colhidos nos autos que comprovam a habitualidade de tal prática.
Cumpre extrair a prova oral colhida nos autos:
A testemunha Paulo Roberto de Cristo, que trabalha como “chapa” há 38 anos e que
conhecia a vítima há 14, afirmou que apesar de ter feito poucas vezes, é de costume
que os chapas descansem embaixo do veículo para descansar na sombra e que não
avisava o motorista antes de realizar tal prática. Afirmou que já esteve na empresa em
que ocorreu os fatos e que lá há uma sala de espera, não sabendo dizer se tal ato era
habitual do sr. Newton, mas que considera um ato imprudente.
Já a testemunha Cleiton, que também é “chapa,” afirmou que é comum a prática de
dormir embaixo do caminhão já que muitas vezes são proibidos de ficar na cabine ou
dentro do estabelecimento e que avisam o motorista antes de deitar e que mesmo
não sendo seguro, não possuem outra alternativa.
Na oitiva de Claudio Cesar que também desempenha a função de “chapa”, este
afirmou que é costume descansar embaixo do veículo, mas que depois do que
aconteceu não fez mais, e, que isso ocorre, pois, às vezes são obrigados a esperar por
longo período de tempo embaixo de sol e que a única sombra disponível fica embaixo
do veículo e, que geralmente o motorista é avisado previamente, mas não soube
precisar se a vítima avisou ou não, e, que na frente do local do fato não existe lugar
para descanso, mas que nunca prestou nenhum serviço lá, não sabendo afirmar se
existe sala de espera.
Por outro lado, o requerido João Hélio Patussi, condutor do caminhão, afirmou que já
havia trabalhado com a vítima anteriormente e que estacionou o veículo as 10h na
frente da empresa aguardando para que pudesse entrar e descarregar, após parar o
veículo os dois voltaram para dentro da cabine do caminhão descansar, em seguida,
após cochilar por um instante foi informado pelo funcionário da empresa, por volta das
13h30m, que “poderia entrar que os rapazes tão te esperando”, nisso, percebeu que a
porta do passageiro estava aberta e pediu para que o funcionário da empresa a

204

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fechasse. Após dar a partida e aguardar por cerca de dois minutos, engatou o
caminhão e acabou passando por cima da vítima.
Afirmou que nenhum funcionário viu que o “chapa” tinha deitado embaixo do veículo
e que ao ser informado que os rapazes estavam esperando ele lá dentro achou que o
sr. Newton também estivesse, pois nunca imaginou que ele pudesse estar sob o
veículo, já que tal prática não é comum, afirmando que a vítima nunca tinha feito isso
nas vezes anteriores em que trabalhavam juntos.
Por sua vez, a testemunha Carlos Rogério que é técnico de segurança da empresa
Alltech, local onde ocorreram os fatos, disse que viu o condutor e o chapa antes do
acontecido quando estavam parados em frente a portaria fazendo a identificação.
Também afirmou que é conduta da empresa orientar que tanto os motoristas quanto
os chapas, ou até mesmo os familiares que estão acompanhando, aguardem na sala
de espera, mas que a maioria prefere voltar aos seu veículos, reforçando o fato da
existência de sala de espera no local à época dos fatos.
Afirmou que após o acontecimento passaram a bloquear o trabalho do chapa e que
nunca presenciou ninguém deitado embaixo do caminhão e que se tivesse visto, a
primeira coisa que faria seria solicitar para que saísse, contou que o sr. João Hélio
entrou em pânico no momento e que precisou acalmá-lo, dando a perceber que não
tinha a menor noção de que o chapa estava embaixo do veículo, não sendo de
costume que os motoristas olhem antes de dar a partida.
Pois bem, nota-se que as testemunhas arroladas pelos autores, companheiros de
profissão da vítima, apesar de reconhecerem como habitual tal prática não afastaram
seu risco.
Ainda, deve-se levar em consideração que de acordo com os testemunhos, tal prática
era necessária somente nos locais onde inexistia local de espera adequado, sendo sob
o veículo, o único local de sombra que dispunham.
Ocorre que tal necessidade não se verifica no presente caso vez que restou
comprovada existência de sala de espera adequada no interior da empresa, tendo
sido inclusive aconselhado por seu funcionário a utilizar, todavia, não o fez.
Também merece destaque o depoimento do requerido e condutor do veículo, sr.
João Hélio Patussi, que afirmou ter cochilado no momento em que esperava a
liberação para entrar na empresa e que ao acordar foi informado pelo funcionário da
empresa que “poderia entrar que os rapazes tão te esperando”, fazendo crer que o
chapa também estava no interior da empresa, vindo a testemunha Carlos Rogério,
confirmar o estado de pavor em que o motorista ficou ao perceber os fatos.
Portanto, a imprudência restou verificada na conduta da vítima, que se deitou sob
veículo extremamente pesado, sem ao menos informar o condutor, sendo que possuía
local adequado para a espera.
Por fim, necessário se faz majorar os honorários advocatícios pelo trabalho
desempenhado em grau recursal, os quais fixo em R$ 1.200,00, nos termos do art. 85,
§11, CPC.
Diante do exposto, nego provimento ao apelo.

205

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ACORDAM os Desembargadores da 8º Câmara Cível do Tribunal de Justiça do


Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em negar provimento ao apelo, nos
termos do voto relator.
Participou da sessão presidida pelo Desembargador Luiz Cezar Nicolau (com voto) e
acompanhou o voto do Relator o Excelentíssimo Senhor Desembargador Luis Sérgio
Swiech.
Curitiba, 08 de junho de 2017.
Des. VICENTE DEL PRETE MISURELLI

2.2.5. RESPONSABILIDADE SECURITÁRIA HABITACIONAL

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE RESPONSABILIDADE SECURITÁRIA HABITACIONAL.

VÍCIOS CONSTRUTIVOS.INTERVENÇÃO DA CAIXA ECONÔMICA FEDERAL,

COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA FEDERAL, APLICAÇÃO DO CÓDIGO DE DEFESA DO

CONSUMIDOR E INVERSÃO DO ÕNUS DA PROVA. QUESTÕES JÁ DECIDIDAS EM

RECURSOS ANTERIORES. PRECLUSÃO. INÉPCIA DA INICIAL E FALTA DE INTERESSE

DE AGIR.INOCORRÊNCIA. CONTRATOS QUE SE TORNARAM INATIVOS APÓS A

PROPOSITURA DA AÇÃO.IRRELEVÂNCIA. DANOS OCORRIDOS NA VIGÊNCIA DO

CONTRATO. PRESCRIÇÃO ÂNUA. INEXISTÊNCIA. LAUDO PERICIAL. DANOS

PROGRESSIVOS E PRESENÇA DE RISCO DE DESMORONAMENTO. COBERTURA

SECURITÁRIA DEVIDA. PAGAMENTO EM PECÚNIA.POSSIBILIDADE.

RESSARCIMENTO PELOS REPAROS.VIABILIDADE. MULTA DECENDIAL.

INCIDÊNCIA.HONORÁRIOS RECURSAIS. SENTENÇA MANTIDA.RECURSO NÃO

PROVIDO.

(TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1679914-9 - Cianorte - Rel.: Vicente Del Prete Misurelli -

Unânime - J. 08.06.2017)

Inteiro Teor

Trata-se de Apelação Cível nos autos de Ação de Indenização Securitária nº 0005064-


45.2009.8.16.0069, contra sentença que julgou parcialmente procedentes os pedidos
iniciais e condenou a apelante ao pagamento de indenização referente aos vícios de
construção declinados no laudo pericial. De consequência, condenou a apelante em

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70% das custas e honorários advocatícios, estes fixados em 10% do valor da


condenação (fls. 680/688).
Dessa sentença recorre COMPANHIA EXCELSIOR DE SEGUROS S/A (fls. 682/771)
pedindo o conhecimento e julgamento do agravo retido interposto. Alega que
migração posterior para o ramo privado não afasta a utilização pretérita dos recursos
do FCVS, defende a inépcia da inicial por falta de documentos indispensáveis à
propositura da ação e não comprovação do aviso de sinistro. Aduz que há falta de
interesse de agir porque os contratos estão inativos. Argui a prescrição ânua e a
impossibilidade de aplicação do CDC e da inversão do ônus da prova.
Defende a incompetência da justiça estadual e a necessidade de intervenção da CEF.
Afirma que não há cobertura contratual para vícios de construção e que a COHAPAR
deve integrar a lide como litisconsórcio necessário. Assevera que a perícia afastou o
risco de desmoronamento, pede afastamento da multa decendial e que seu termo
inicial deve ser o prazo para cumprimento espontâneo da sentença condenatória.
Aduz que deve ser afastada a condenação ao ressarcimento e que não houve prova
dos gastos.
Contrarrazões (fls. 913/957).
É o relatório.
Voto.
Presentes os pressupostos conheço do recurso.
Trata-se de pretensão de cobrança de seguro habitacional em decorrência de vícios
construtivos havidos em imóvel construído pela COHAPAR e financiado no âmbito do
Sistema Financeira de Habitação.
As questões sobre a aplicação do Código de Defesa do Consumidor e a inversão do
ônus da prova já foram analisadas e julgadas por esta 8ª Câmara Cível no Agravo de
Instrumento nº 597.657-4 (fls. 366/379), cuja decisão pela aplicação do CDC com
inversão do ônus probatório já transitou em julgado (fls. 380). Assim, tais temas estão
preclusos e não podem ser mais ressuscitados na apelação.
De igual, as questões sobre a intervenção da Caixa Econômica Federal e da
competência da Justiça Federal também já foram resolvidas pela Câmara no Agravo
de Instrumento nº 672.653-2, que fixou a competência da Justiça Estadual e afastou a
necessidade de intervenção da CEF em decisão já transitada em julgado, pelo que
todas as alegações da apelante sobre o tema não têm mais qualquer pertinência em
razão da preclusão consumativa.
O agravo retido (fls. 327/342), interposto contra decisão saneadora, pede a
declaração de competência da Justiça Federal, a inépcia da inicial, a carência de ação,
a prescrição e o afastamento da inversão do ônus da prova.
Como já visto, a competência e a inversão já foram julgados e são temas preclusos
nos autos.
A inicial não é inepta. Todos os documentos necessários à propositura da ação e
compreensão da lide pela seguradora acompanharam a petição inicial, bem como a
descrição dos danos e a apresentação da apólice (fls. 33/66), dando, portanto,
cumprimento integral aos requisitos da inicial (art. 320 e 330, I do CPC).

207

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

A falta de indicação precisa da data de início dos danos não é requisito legalmente
previsto para constar na petição inicial e nem prejudica o entendimento dos fatos e
fundamentos jurídicos ou do pedido (neste sentido: TJPR ­ ApCiv 1632477-1 ­ 8ª
CâmCív ­ Rel. Des. Clayton de Albuquerque Maranhão ­ DJ 18/04/2017).
Além disso, a perícia atestou serem os danos progressivos no tempo, sem
possibilidade de precisar a data de início (item 6, fls. 609; e item 25, fls. 611)), motivo
pelo qual não haveria como os autores indicarem na inicial data que não pode ser
determinada, o que também é fundamento para afastar a alegação de inépcia (Neste
sentido: TJPR ­ ApCiv 1601619-6 ­ 8ª CâmCív ­ Rel. Alexandre Barbosa Fabiani ­ DJ
03/04/2017).
O sinistro foi devidamente comunicado pelos autores (fls. 29/32) e, ainda que não
tivesse sido, tal fato não representa inépcia da inicial em razão da inafastabilidade da
jurisdição (veja-se: TJPR ­ ApCiv 1490106-3 ­ 8ª CâmCív ­ Rel. Des. Luiz Cezar Nicolau ­
DJ 25/10/2016).
Não há carência de ação por falta de interesse de agir, eis que a apelante resistiu e
vem resistindo judicialmente à pretensão, fato que comprova o interesse de agir
(confira-se: STF - RE 631240/MG - Tribunal Pleno ­ Rel. Min. Roberto Barroso ­ DJ
10/11/2014).
Não prospera, ainda, a alegação de falta de interesse de agir em razão de contrato
inativo a partir de 2011, porque os contratos estavam vigendo e ativos no momento da
propositura da ação (fevereiro/2009).
Ademais, os danos constatados na perícia ocorreram na vigência do contrato de
financiamento, e não depois da inatividade, motivo pelo qual persiste o dever
acessório da indenização securitária:
APELAÇÕES CÍVEIS - RESPONSABILIDADE OBRIGACIONAL - SEGURO
HABITACIONAL ­ (...) - CONTRATO INATIVO QUE NÃO AFASTA O DEVER DE
INDENIZAR ­ (...). “Sem razão a alegação de carência de ação pela inatividade dos
contratos, pois os vícios dos quais reclamam os autores surgiram no decorrer da
vigência das apólices securitárias atinentes aos contratos de financiamento em
questão. Desse modo, o fato dos contratos estarem liquidados ou quitados não afasta
o dever de indenizar, porquanto o término do financiamento não acarreta a extinção
automática da cobertura securitária, justamente porque, em regra, os vícios se iniciam
no período da vigência contratual” (TJPR ­ ApCiv 1557740-3 ­ 8ª CãmCív ­ Rel. Des.
Gilberto Ferreira ­ DJ 13/02/2017)
Inexiste ofensa, portanto, aos art. 17, 332, 337, 485, 757 do CPC, art. 771 e 1457 do
CCB, tampouco aos itens 15.2 e 10.2 do contrato.
A alegação de prescrição também deve ser afastada.
Os contratos tornaram-se inativos em outubro/2011 (fls.
696), quando a ação já havia sido proposta, em fevereiro/2009 (fls. 01), logo, não
havia transcorrido 1 ano da data de quitação ou inatividade, conforme art. 206, § 1º, II,
“b” do Código Civil:
APELAÇÃO CÍVEL. INDENIZAÇÃO SECURITÁRIA. SEGURO HABITACIONAL. VÍCIOS
DE CONSTRUÇÃO. PRESCRIÇÃO.
CONTRATO DE FINANCIAMENTO. QUITAÇÃO. PRAZO ÂNUO.
208

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

DECURSO. Aplica-se o prazo prescricional ânuo à pretensão de recebimento de


indenização do seguro habitacional, cujo termo inicial, por se tratar de contrato
quitado, deve ser a data em que se findou o pacto securitário adjeto. (TJPR - 9ª
C.Cível - AC - 1541171-1 Rel.: Coimbra de Moura - Unânime - - J. 13.10.2016).
Além disso, a perícia constatou que os danos foram surgindo ao longo dos anos e não
têm data específica inicial (item 6; fls. 609), portanto, são danos contínuos que
renovam seguidamente o fato segurador da pretensão do beneficiário (Neste sentido:
STJ ­ Resp 1143962/SP), logo, não há que se falar em decurso do prazo ânuo:
“No tocante à alegação de prescrição da pretensão autoral, é importante esclarecer
que, na linha dos julgados desta Corte, os danos decorrentes de vício da construção
se protraem no tempo e, por isso, não permitem a fixação de marco temporal certo, a
partir do qual se possa contar, com segurança, o termo inicial do prazo prescricional
para a ação indenizatória correspondente a ser intentada contra a seguradora. Logo,
deve ser afastada a prejudicial de prescrição.” (STJ - AgRg no REsp 1297557/SP ­ 4ª
Turma ­ Rel. Min. Raul Araújo ­ DJ 02/03/2016)
Inexiste, assim, ofensa às cláusulas 15, 16 e 35 do contrato ou ao capítulo XIII da
Circular Susep 111/99.
Afasto também a denunciação da lide ao construtor e ao agente financeiro por
eventual responsabilidade pelos danos.
A pretensão é securitária e o construtor não tem responsabilidade securitária, logo,
não há liame objetivo que albergue a pretensão de denunciar parte que não tem
obrigação securitária.
Em relação ao agente financeiro, não há qualquer discussão envolvendo os termos do
contrato de financiamento, a liberação do empréstimo, prazos ou a cobrança de
encargos, atos que atrairiam a responsabilidade do agente financeiro.
Como a lide versa apenas sobre a relação securitária, a responsabilidade para
responder a demanda é exclusiva da seguradora:
“Nas hipóteses em que atua na condição de agente financeiro em sentido estrito, não
ostenta a CEF legitimidade para responder por pedido decorrente de vícios de
construção na obra financiada. Sua responsabilidade contratual diz respeito apenas ao
cumprimento do contrato de financiamento, ou seja, à liberação do empréstimo, nas
épocas acordadas, e à cobrança dos encargos estipulados no contrato. A previsão
contratual e regulamentar da fiscalização da obra pelo agente financeiro justifica-se em
função de seu interesse em que o empréstimo seja utilizado para os fins descritos no
contrato de mútuo, sendo de se ressaltar que o imóvel lhe é dado em garantia
hipotecária.” (STJ - REsp 1163228/AM ­ 4ª Turma ­ rel. Min. Maria Isabel Gallotti ­ DJ
31/10/2012)
Ainda:
“A responsabilidade securitária in casu é exclusiva das seguradoras e, por tal razão,
desnecessária a presença da COHAPAR e do construtor no polo passivo da
demanda.” (TJPR ­ AgInst 1468355-9 ­ 10ª CâmCív ­ Rel. Des. Luiz
Lopes ­ DJ 22/06/2016)

209

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No mérito, a perícia foi categórica ao afirmar reiteradamente que há sim risco de


desmoronamento por decorrência dos vícios constatados (item 32, fls. 602; item 47,
fls. 604; item 08; fls. 607; item 14, fls. 610; e “considerações finais”, fls. 613):
“(...) [os] danos irão evoluir para ameaça de desmoronamento se não forem
executadas as devidas correções e substituição dos materiais afetados.”
Não se trata, portanto, de risco futuro e incerto, mas de risco progressivamente
iminente.
Ora, nos termos da apólice para danos físicos, a cobertura exige comprovação do
risco de desmoronamento (cláusula 3, 3.1 “e”; fls. 804), vale dizer, comprovado o risco
de desmoronamento por perícia judicial, a indenização securitária é consequência
contratual.
Assim, restam afastadas as afirmações da apelante de que os vícios decorrem de
modificações feitas pelos apelados ou qualquer comprometimento que possa levar a
edificação ao desabamento e de que os vícios são decorrentes de falta de
conservação, porque o laudo pericial negou expressamente todas essas afirmações,
afirmando que as modificações não causaram nenhum dano e não são as responsáveis
pelo perigo de desmoronamento constatado (item 46, fls. 604; item 15, fls. 610) e que
a conservação foi normal (item 3, fls. 607; item 8, fls. 609), motivo pelo qual não há
incidência das cláusulas 13 e 16 do contrato.
A afirmação de que a apólice não cobre vícios construtivos não prospera, porque,
dado o caráter social do seguro obrigatório habitacional no âmbito do SFH, a
exigência de proteção à moradia e à pessoa do consumidor e a necessidade de
interpretação mais benéfica, os vícios construtivos devem ser entendidos como
inseridos na cobertura para danos físicos, sem que isso afronte os art. 757, 760 e 784
do CCB. Essa é a jurisprudência do STJ:
AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. SEGURO HABITACIONAL. VÍCIOS
CONSTRUTIVOS.
RESPONSABILIDADE DA SEGURADORA. QUALIFICAÇÃO JURÍDICA DOS FATOS.
IMPOSSIBILIDADE DE EXCLUSÃO DO CONCEITO DE DANOS FÍSICOS AO IMÓVEL
EM RELAÇÃO AOS PREJUÍZOS ADVINDOS DE VÍCIOS CONSTRUTIVOS. (...). “Esta
Corte Superior, quando se colocou a interpretar a cobertura de tais danos ao imóvel
em sede de contrato de seguro habitacional, respondeu positivamente, no sentido da
existência de responsabilidade contratual da seguradora em cobrir os vícios
construtivos.” (STJ - AgRg no REsp 1540894/SP ­ 3ª Turma _ Rel. Min Paulo de Tarso
Sanseverino ­ DJ 12/04/2016)
Ainda:
“É orientação pacífica nesta Corte que a seguradora é responsável quando presentes
vícios decorrentes da construção, (...).” (STJ - REsp 186571/SC ­ 4ª Turma ­ Rel. Min.
Luis Felipe Salomão ­ DJ 01/12/2008)
A cláusula 3.2 que declara que a cobertura somente abrange danos decorrentes de
forças externas contradiz a cláusula 3.1, “e”, que prevê cobertura para ameaça de
desmoronamento sem qualquer ressalva de causa externa, frisando novamente que o
laudo pericial constatou a ameaça de desmoronamento.

210

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

Desse modo, a referida cláusula 3.2 deve ser declarada abusiva, porque contradiz
cláusula expressa anterior e restringe direitos e obrigações fundamentais inerentes à
natureza do contrato de seguro de imóvel que visa a resguardar a garantia última do
financiamento concedido, o próprio imóvel:
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. (...). COBRANÇA DE SEGURO HABITACIONAL.
VICIOS CONSTRUTIVOS. APÓLICE QUE EXCLUI A POSSIBILIDADE DE
INDENIZAÇÃO/COBERTURA PARA OS CASOS DE DANOS NOS IMÓVEIS.
CONTRADIÇÃO.
INVOCAÇÃO DO CDC. RESTABELECIMENTO DO EQUILIBRIO CONTRATUAL. (...).
“tais normas contratuais (3ª e 3.1) são inquestionavelmente contraditórias, situação
que impõe o restabelecimento da relação contratual pelo julgador, em observâncias as
normas legais aplicáveis à espécie. (...).
Logicamente, não pode o mesmo contrato, em determinado momento excluir a
cobertura e, e em outra oportunidade, reconhecer a cobertura anteriormente excluída,
sob pena de afrontar diretamente o direito dos consumidores.” (TJPR ­ ApCiv 975875-
6/01 ­ 8ª CâmCív ­ Rel. Des. José Sebastião Fagundes Cunha ­ DJ 17/03/2014)
Não há nenhuma inviabilidade de que a reparação securitária se realize em pecúnia,
porque é a melhor forma de restabelecer o direito do consumidor (nesse sentido: TJPR
­ ApCiv 1266596-8 ­ 8ª CâmCív ­ Rel. Des. José Laurindo de Souza Netto ­ DJ
28/05/2015).
É devido também o ressarcimento pelos reparos realizados pelos mutuários, já
devidamente individualizados pela perícia (fls. 612/624), não sendo razoável exigir que
esperem por anos até realizar reparos urgentes e necessários, nem que tenham
guardado notas fiscais, haja vista que a perícia foi capaz de apontar os valores (nesse
sentido: TJPR ­
ApCiv 1413963-6 ­ 8ª CâmCív ­ Rel. Des. Gilberto Ferreira ­ DJ 02/03/2016).
De igual modo, é devida a multa decendial aos mutuários, limitada ao valor da
obrigação principal, como bem determinou a sentença, porque há previsão expressa
na cláusula 17.3 da apólice (fls. 39) de incidência dessa multa (nesse sentido: STJ -
AgRg no REsp 1433439/PR ­ 4ª Turma ­Rel. Min. Raul Araújo ­ DJ 18/12/2015).
Não prospera a alegação de que a multa é limitada apenas em casos de morte e
invalidez, porque a cláusula 16.2 não traz expressa essa limitação, ao contrário, refere-
se genericamente a todos os sinistros cobertos, portanto, englobando os decorrentes
de vícios construtivos.
A multa é devida pela seguradora, conforme expressa previsão contratual (cláusula
17.3) e a mora está comprovada pelo aviso de sinistro realizado por intermédio do
financiador (fls. 29/32), nos exatos termos da exigência contratual (cláusula 11; fls. 38).
Não prospera o pleito de fixação do termo inicial da mora a partir do cumprimento
espontâneo da sentença, porque o inadimplemento é de natureza contratual,
subsumindo-se à regra do art. 394 do CCB.
Em razão do não provimento do recurso, aplico o art. 85, § 11º do CPC e majoro os
honorários advocatícios devidos pela apelante para 12% do valor da condenação,
mantida a proporção fixada na sentença.

211

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Diante do exposto, nego provimento ao recurso e mantenho íntegra a sentença


recorrida.
ACORDAM os Desembargadores da 8ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do
Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos
termos do voto do relator.
Participou da sessão presidida pelo Desembargador Luiz Cezar Nicolau (com voto) e
acompanhou o voto do Relator o Excelentíssimo Senhor Desembargador Luis Sérgio
Swiech.
Curitiba, 08 de junho de 2017.
Des. VICENTE DEL PRETE MISURELLI

2.2.6. ACIDENTE EM RODOVIA SOB CONCESSÃO – DANOS MORAIS

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO INDENIZATÓRIA. ACIDENTE DE TRÂNSITO EM RODOVIA.

AGRAVO RETIDO. PRESCRIÇÃO TRIENAL. INOCORRÊNCIA. CITAÇÃO VÁLIDA.

RETROAÇÃO A DATA DE PROPOSITURA DA DEMANDA. RECURSO NÃO PROVIDO.

APELAÇÃO. FALECIMENTO DA MÃE DOS AUTORES. DANOS MORAIS.

CONFIGURADOS.INDENIZAÇÃO. MANUTENÇÃO. CRITÉRIOS DE RAZOABILIDADE

E PROPORCIONALIDADE. OBSERVADOS.CULPA EXCLUSIVA DA VÍTIMA. NÃO

COMPROVADO.SINALIZAÇÃO DA MOTOCICLETA. FUNCIONAMENTO ATESTADO

POR LAUDO PERICIAL. BAIXA VELOCIDADE.NÃO COMPROVADO. ACIDENTE

OCORRIDO POR CULPA DO MOTORISTA. VIOLAÇÃO DO DEVER DE

CUIDADO.RESPONSABILIDADE CIVIL CONFIGURADA. DENUNCIAÇÃO DA LIDE.

OBRIGAÇÃO SECURITÁRIA. CONTRATAÇÃO DE COBERTURA PARA DANOS

MATERIAIS E CORPORAIS.RISCOS EXCLUÍDOS. INDENIZAÇÃO POR DANOS

MORAIS.VERIFICADO. GARANTIA ADICIONAL POR DANOS MORAIS NÃO

CONTRATADA. CLÁUSULA INDEPENDENTE.IMPOSSIBILIDADE DE INCLUSÃO NA

COBERTURA POR DANOS CORPORAIS. SENTENÇA MANTIDA. APELO NÃO

PROVIDO.

(TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1661913-7 - Cambará - Rel.: Vicente Del Prete Misurelli -

Unânime - J. 08.06.2017)

212

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Inteiro Teor

Nos autos da Ação Indenizatória nº 0000773- 73.2011.8.16.0055, o MM. Juiz da Vara


Cível de Cambará julgou procedente a lide principal, condenando o réu ao
pagamento de indenização por danos morais, no valor de R$ 16.500,00 (dezesseis mil
e quinhentos reais), em razão de sua culpa no acidente de trânsito que resultou no
falecimento da mãe dos autores. A quantia deve ser acrescida de correção monetária e
juros moratórios de 1% ao mês, contados desde o evento danoso. Condenou o
sucumbente ao pagamento das custas processuais e honorários advocatícios, estes
fixados em R$ 1.5000,00 (mil e quinhentos reais).
A denunciação da lide formulada pelo réu foi julgada improcedente e foram fixados
honorários advocatícios em favor do patrono da denunciada, no montante de R$
1.500,00 (mil e quinhentos reais) (fls. 803/810 ­ 824/825).
Da sentença recorre o réu ANDRÉ TOLEDO DE CAMPOS (fls. 834/854).
Preliminarmente, requer a apreciação do agravo retido interposto às fls. 505/508. No
mérito, sustenta a excludente de responsabilidade civil por culpa exclusiva da vítima,
vez que trafegava em meio a rodovia, com velocidade reduzida, sem sinalização
traseira. Assim, pleiteia pelo afastamento da indenização fixada ou a sua minoração.
Além disto, na lide secundária sustenta ser devida a inclusão da indenização por
danos morais no capital segurado por danos corporais, vez que não há distinção entre
as espécies na apólice do seguro contratado.
Contrarrazões (fls. 865/877 ­ 887/890).
É o relatório.
Voto.
AGRAVO RETIDO
Inicialmente, conheço do agravo retido interposto às fls. 505/508, vez que é
tempestivo e há pedido para a sua apreciação no recurso de apelação interposto,
conforme art. 523 do CPC/73, vigente à época dos fatos.
Sustenta o agravante a ocorrência de prescrição da pretensão autoral, em vista do
decurso do prazo trienal entre a data do falecimento da genitora, 10.04.2008 (fls. 432),
e a data que foi determinada a citação do réu, 11.04.2011 (fls. 86).
Não prosperam as alegações do agravante.
Prevê o art. 219, § 1º do CPC/73, vigente à época dos fatos, que a citação válida
interrompe a prescrição, retroagindo-se à data da propositura da ação, a qual, por sua
vez, ocorreu em 08.04.2011 (fls. 05).
Confira-se o REsp Repetitivo nº 1120295/SP: (REsp 1120295/SP, Rel. Ministro LUIZ
FUX, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 12/05/2010, DJe 21/05/2010).
Desta forma, a presente demanda foi ajuizada dois dias antes da ocorrência da
prescrição da pretensão autoral, conforme decidido pelo juízo originário às fls.
262/266.
Quanto ao sobrestamento do feito até o julgamento da ação criminal que versa sobre
o mesmo fato, a questão se encontra prejudicada, vez que aquela demanda foi julgada
(fls. 760/784).

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De igual forma, não é possível à nomeação a autora do coparticipe do acidente, vez


que se encontra encerrada a instrução processual. (TJPR - 8ª C.Cível - AI - 1415696-8 -
Paranaguá - Rel.: Marco Antônio Massaneiro - Unânime - - J. 03.12.2015).
Por fim, a juntada em destempo da certidão de óbito da genitora dos autos não
configura prejuízo à instrução processual, visto que, não obstante a sua apresentação
posterior, há nos autos outras provas que evidenciam o seu falecimento e suas
circunstâncias.
Desta forma, deve ser negado provimento ao agravo retido interposto.
RECURSO DE APELAÇÃO
Presentes os pressupostos de admissibilidade, conhece- se do apelo.
Sustenta o apelante que o acidente ocorreu por culpa exclusiva da vítima, vez que
trafegava de moto em baixa velocidade, sem a sinalização adequada, considerando
que o abalroamento ocorreu a noite sob chuva, com visibilidade prejudicada.
Em que pese as alegações do apelante, por certo que a sua autoria acerca do
acidente já foi reconhecida na esfera criminal, através dos autos nº 688-
92.2008.16.0055 (fls. 760/784), em que o apelante foi condenando por homicídio
culposo na direção de veículo automotor.
Em que pese o art. 935 do Código Civil prever que a responsabilidade civil é
independente da criminal, não se pode questionar quem seja o seu autor, quando
estas questões se acharem discutidas no juízo criminal:
Art. 935. A responsabilidade civil é independente da criminal, não se podendo
questionar mais sobre a existência do fato, ou sobre quem seja o seu autor, quando
estas questões se acharem decididas no juízo criminal.
Sobre o tema:
[...] 1. “A responsabilidade civil é independente da criminal, não se podendo
questionar mais sobre a existência do fato, ou sobre quem seja o autor, quando estas
questões se acharem decididas no juízo criminal” (art. 935 do Código Civil).
2. A sentença penal condenatória decorrente da mesma situação fática geradora da
responsabilidade civil provoca incontornável dever de indenizar, não podendo o aresto
impugnado reexaminar os fundamentos do julgado criminal, sob pena de afronta
direta ao art. 91, I, do CP.
3. Apesar da impossibilidade de discussão sobre os fatos e sua autoria, nada obsta
que o juízo cível, após o exame dos autos e das circunstâncias que envolveram as
condutas do autor e da vítima, conclua pela existência de concorrência de culpa em
relação ao evento danoso. [...] (REsp 1354346/PR, Rel. Ministro LUIS FELIPE
SALOMÃO, QUARTA TURMA, julgado em 17/09/2015, DJe 26/10/2015).
Desta forma, a apreciação da questão irá se limitar se houve concorrência da vítima no
acidente de trânsito.
Conforme relatado pelo próprio apelante no momento do acidente, este não
visualizou a motocicleta que trafegava a sua frente, vindo a colidir com ela. Afirma que
a moto estava com os faróis traseiros apagados e em baixa velocidade.
Pelo que consta do “LAUDO DE EXAME DE DANOS EM VEÍCULO”, elaborado pelo
Instituto de Criminalística da Polícia Científica do Estado do Paraná, “o sistema de
iluminação e frenagem e direção [da motocicleta] encontravam-se em funcionamento”.
214

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Tal informação prevalece sobre as fotos juntadas às fls. 681/685, vez que foram tiradas
posteriormente ao acidente, momento em que a parte traseira da moto já havia sido
abalroada.
Eventual discordância quanto a conclusão do laudo pericial deveria ter sido aduzida
na fase instrutória, requerendo a realização de uma nova perícia. Tendo em vista que
isto não ocorreu, não há como desconstituir a prova pericial apresentada pelo autor.
Cumpre ressaltar que o juiz é o destinatário das provas, devendo pautar-se nos
elementos constantes nos autos na formação de seu juízo cognitivo:
EMBARGOS À EXECUÇÃO ­ [...]- AGRAVO RETIDO - JUIZ DESTINATÁRIO DAS
PROVAS QUE POSSUI AMPLO PODER PARA INDEFERIR PRODUÇÃO PROBATÓRIA
INÓCUA ­ [...] (TJPR - 16ª C.Cível - AC - 1482469-0 - Curitiba - Rel.: Maria Mercis
Gomes Aniceto - Unânime - - J. 29.03.2017).
Além disto, não há qualquer comprovação nos autos da velocidade em que a
motocicleta se encontrava no momento do acidente. A alegação de fatos
desacompanhada de provas não possui o condão de atribuir veracidade à defesa:
[...] ALLEGATIO ET NON PROBATIO QUASI NON ALLEGATIO [...] (TJPR - 14ª C.Cível
- AI - 1553347-6 - Curitiba - Rel.: Themis Furquim Cortes - Unânime - - J. 21.09.2016).
Em verdade, o que se observa nos autos é a ausência de cuidado e cautela do
apelante, ao não observar a moto que trafegava a sua frente, violando o art. 28 do
Código de Trânsito Brasileiro.
A colisão traseira presume a culpa de quem conduz à retaguarda, vez que deve
manter distância e velocidade segura, possibilitando a frenagem e desvio de eventuais
obstáculos que possam surgir repentinamente em seu caminho. Confira-se:
APELAÇÃO CÍVEL - INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS E MATERIAIS - ACIDENTE
DE TRÂNSITO - COLISÕES MÚLTIPLAS - BATIDA TRASEIRA - PRESUNÇÃO RELATIVA
DE CULPA ­ [...] - VIOLAÇÃO DAS NORMAS DO CÓDIGO DE TRÂNSITO BRASILEIRO
- RECURSO DESPROVIDO. (TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1301270-3 - Curitiba - Rel.: Marcos
S. Galliano Daros - Unânime - - J. 14.05.2015)
Assim, correta a sentença ao reconhecer a responsabilidade civil do apelante no
acidente ocorrido e consequente dever de indenizar.
Em relação ao valor da indenização por danos morais fixada em sentença (R$
30.000,00), pleiteia o apelante pela sua redução.
Ante a ausência específica de parâmetros, a doutrina e a jurisprudência vem
considerando as circunstâncias do caso concreto, o alcance da ofensa e a capacidade
econômica do ofensor e do ofendido.
Além disso, a quantia não pode configurar enriquecimento indevido, devendo servir
precipuamente para compensar a vítima pelo dano sofrido e sancionar o causador do
prejuízo, de modo a evitar futuros desvios. Sobre o tema ensina Sergio Cavalieri Filho
que:
(...) a partir do momento em que alguém, mediante conduta culposa, viola direito de
outrem e causa-lhe dano, está-se diante de um ato ilícito, e deste ato deflui o
inexorável dever de indenizar, consoante o art. 927 do Código Civil. Por violação de
direito deve-se entender todo e qualquer direito subjetivo, (...), nestes incluídos o
direito à vida, à saúde, à liberdade, à honra, à intimidade, ao nome e à imagem”.
215

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

(Programa de Responsabilidade Civil. 10 ed. São Paulo: Atlas S.A, 2012. pg.19).
Por certo que a dor de perder um ente familiar é irreparável, contudo a indenização
busca compensar de certa forma os danos sofridos, observada a sua finalidade punitiva
e educativa. A fixação da indenização em quantia excessiva transpassa tais desígnios.
Nessa linha, atendendo os princípios da razoabilidade e proporcionalidade,
cumprindo, ainda, o caráter reparatório e pedagógico da condenação, entende-se que
o valor de R$ 30.000,00 (trinta mil reais), não comporta minoração frente ao caso
concreto, estando, inclusive, de acordo com o entendimento deste Tribunal. (TJPR - 8ª
C.Cível - AC - 1553789-4 - Faxinal - Rel.: Luis Sérgio Swiech - Unânime - - J.
08.12.2016); (TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1564943-5 - Palotina - Rel.: Gilberto Ferreira -
Unânime - - J. 01.12.2016).
Cumpre ressaltar que desta quantia será abatida a indenização pelo seguro DPVAT,
no valor de R$ 13.500,00, conforme consta da sentença.
Na lide secundária, o apelante sustenta que os danos morais estão abrangidos pela
cobertura por danos corporais, vez que não há exclusão contratual expressa.
A questão se encontra pacificada pelo STJ através da Súmula 402:
Súmula 402/STJ: O contrato de seguro por danos pessoais compreende os danos
morais, salvo cláusula expressa de exclusão.
Ainda:
[...] 2. A previsão contratual de cobertura dos danos pessoais (corporais) abrange os
danos morais apenas se estes não forem objeto de expressa exclusão ou não
figurarem no contrato como cláusula contratual independente (Súmula nº 402/STJ).[...]
(AgInt no AREsp 148.474/SP, Rel. Ministro RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA, TERCEIRA
TURMA, julgado em 04/08/2016, DJe 12/08/2016).
No caso em tela, a apólice contratada pelo apelante possui cobertura básica de
“RESP CIVIL FACULTATIVO DANOS MATERIAIS” e “RESP CIVIL FACULTATIVO
DANOS CORPORAIS”, ambas no valor de R$ 50.000,00 (fls. 156/157).
Nas condições gerais do seguro apresentadas pela seguradora às fls. 310/404, consta
expressamente na pág. 41 (fls. 386), que estão excluídas da cobertura básica as
condenações judiciais por danos morais e estéticos, salvo quando houver contratação
desta garantia.
Além disto, a cobertura por danos morais é módulo de contratação adicional,
figurando nas condições gerais do seguro como cláusula independente (2.2.2, fls. 384).
A referida exclusão de cobertura contratual está redigida de forma clara e destacada.
Ademais, a cobertura por danos morais está evidenciada como uma garantia adicional
da cobertura básica. Diante de tais elementos, não prospera a alegação de que há
abusividade na limitação do seguro contratado pelo apelante.
Além disto, a apólice de seguro juntada pelo próprio autor (fls. 156/157) faz
referências por diversas vezes às condições gerais.
Inclusive, disponibiliza canal de comunicação direto com o corretor de seguro e com a
própria seguradora LIBERTY, através de e-mail corporativo, para sanar eventuais
dúvidas, não podendo o segurado se eximir de sua responsabilidade de tomar ciência
acerca das especificidades do serviço contratado.
Sobre o tema, segue a jurisprudência:
216

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE COBRANÇA DE SEGURO DE VIDA.


ACIDENTE DE TRÂNSITO. [...] 2. CLÁUSULA CONTRATUAL LIMITADORA DE
COBERTURA. VALIDADE. SEGURADO QUE TINHA CIÊNCIA DA EXISTÊNCIA DE
CONDIÇÕES GERAIS DA APÓLICE. POSSIBILIDADE DE CONSULTA NO SITE DA
SEGURADORA. AUSÊNCIA DE VIOLAÇÃO AO DIREITO DO CONSUMIDOR À
INFORMAÇÃO. [...] (TJPR 8ª C.Cível AC 1517327-8 Rel.: Luis Sérgio Swiech Unânime J.
09.06.2016).
Assim, não se verifica ilegalidade ou abusividade na recusa da cobertura da
condenação do apelante ao pagamento de indenização por danos morais.
Em vista do contido no art. 85, § 11º do CPC, majoro os honorários devidos ao
patrono da seguradora para R$ 1.700,00, em razão do trabalho recursal realizado.
Deixo de majorar os honorários do advogado do autor, vez que deixou de apresentar
contrarrazões.
Diante do exposto, nego provimento ao agravo retido e ao recurso de apelação, nos
termos da fundamentação supra.
ACORDAM os Desembargadores da 8ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do
Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em negar provimento ao agravo retido e
ao recurso de apelação, nos termos do voto do relator.
Participou da sessão presidida pelo Desembargador Luiz Cezar Nicolau (com voto) e
acompanhou o voto do Relator o Excelentíssimo Senhor Desembargador Luis Sérgio
Swiech.
Curitiba, 08 de junho de 2017.
Des. VICENTE DEL PRETE MISURELLI

2.2.7. DPVAT – PAGAMENTO PARCIAL

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE COBRANÇA. DPVAT.COMPLEMENTAÇÃO.

PAGAMENTO ADMINISTRATIVO.QUITAÇÃO. INOCORRÊNCIA. CORREÇÃO

MONETÁRIA.TERMO INICIAL. EVENTO DANOSO. RESP REPETITIVO nº

1.483.620/SC. SENTENÇA MANTIDA. RECURSO NÃO PROVIDO.

(TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1674302-9 - Pinhais - Rel.: Vicente Del Prete Misurelli -

Unânime - J. 08.06.2017)

Inteiro Teor

Trata-se de Apelação Cível nos autos de Ação de Cobrança nº 0002877-


36.2013.8.16.0033, contra sentença julgou parcialmente procedente o pedido inicial,
determinando a correção monetária sobre a verba securitária, pelo índice INPC/IBGE,
desde a data do evento danoso até o efetivo cumprimento da obrigação, acrescido de
217

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

juros de mora em 1% ao mês. Ante a sucumbência mínima da ré, condenou a


requerente ao pagamento das custas processuais e honorários, fixados em 15% sobre
o valor atualizado da causa. (fls. 179/188).
CONSÓRCIOS DO SEGURO DPVAT S/A (fls. 199/203), alegando que a verba
pleiteada foi integralmente quitada, sendo o pagamento administrativo feito a apelada
causa extintiva do direito. Em seguida, pleiteia que a correção incida apenas a partir
data do ajuizamento da ação.
Contrarrazões (fls. 216/220).
É o relatório.
Voto.
Presentes os pressupostos conheço do apelo, que serão julgados nos termos do
CPC/15.
Trata-se de pretensão de complementação de valores recebidos a título de seguro
DPVAT, julgada parcialmente procedente, apenas para o fim de determinar a correção
monetária do valor pago na via administrativa.
Inicialmente, ao contrário da sustentação do apelante, a quitação se refere e é causa
extinta daquilo que foi recebido na via administrativa, e não do que efetivamente é
devido pela obrigação, sendo perfeitamente possível o ajuizamento de ação para
recebimento de eventuais diferenças devidas.
Sobre o tema:
“O recibo de quitação outorgado pelo beneficiário restringe- se ao valor recebido
administrativamente e não à integralidade do valor indenizatório. Não se está,
portanto, diante de renúncia do quantum indenizatório legalmente assegurado. É
pacífico o entendimento nos Tribunais Superiores de que `o recibo de quitação
outorgado de forma plena e geral, mas relativo à satisfação parcial do quantum
legalmente assegurado pelo art. 3º da Lei n. 6194/74, não se traduz em renúncia a
este, sendo admissível postular em juízo a sua complementação. Precedentes (STJ
Resp 363604 3ª Turma Min. Nancy Andrigui DJ. 17.06.2002).’”
Galliano Daros ­ DJ 03/12/2015
Quanto a alegação de que a correção monetária deveria incidir a partir do mês de
ajuizamento da ação, também não merece prosperar, face entendimento pacificado
pelo STJ no recurso repetitivo nº 1483620/SC que fixou o termo inicial como sendo a
data do evento danoso. Conforme:
RECURSO ESPECIAL REPETITIVO. CIVIL. SEGURO DPVAT.
INDENIZAÇÃO. ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA. TERMO ‘A QUO’.
DATA DO EVENTO DANOSO. ART. 543-C DO CPC. “Para os fins do art. 543-C do
CPC: A incidência de atualização monetária nas indenizações por morte ou invalidez
do seguro DPVAT, prevista no § 7º do art. 5º da Lei n. 6194/74, redação dada pela Lei
n. 11.482/2007, opera-se desde a data do evento danoso.” (STJ ­ RESP 1483620/SC ­
2ª Seção ­ Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino ­ DJ 02/06/2015)
Deixo de fixar os honorários recursais previstos no §11, do art. 85, CPC, tendo em
vista que os honorários em primeiro grau foram fixados em favor da apelante, que
sucumbiu em grau recursal. Caso contrário se estaria afrontado a finalidade de tal

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instituto, qual seja, coibir recursos meramente protelatórios, já que seria possível sua
interposição visando apenas a majoração dos honorários.
Diante do exposto, nego provimento ao apelo.
ACORDAM os Desembargadores da 8ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do
Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos
termos do voto do relator.
Luiz Cezar Nicolau (com voto) e acompanhou o voto do Relator o Excelentíssimo
Senhor Desembargador Luis Sérgio Swiech.
Curitiba, 08 de junho de 2017.
Des. VICENTE DEL PRETE MISURELLI

2.2.8. ACIDENTE – QUEDA EM ESTABELECIMENTO EMPRESARIAL –

CAUSALIDADE ADEQUADA

APELAÇÃO CIVEL. AÇÃO INDENIZATÓRIA.RESPONSABILIDADE CIVIL. QUEDA EM

ESTABELECIMENTO COMERCIAL. TRÂNSITO EM LOCAL INADEQUADO. CULPA

EXCLUSIVA DA VÍTIMA.CONSTATAÇÃO. NEXO DE CAUSALIDADE QUE DEVE SER

DIRETO E IMEDIATO. TEORIA DA CAUSALIDADE ADEQUADA. APLICABILIDADE.

NEXO AFASTADO.RESPONSABILIDADE DA EMPRESA. INOBSERVÂNCIA.SENTENÇA

MANTIDA. APELO NÃO PROVIDO.

(TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1660245-0 - Foz do Iguaçu - Rel.: Vicente Del Prete Misurelli -

Unânime - J. 08.06.2017)

Inteiro Teor

Trata-se de apelação cível, nos autos da Ação Indenizatória nº 1360-


68.2014.8.16.0030, contra sentença que julgou improcedente a pretensão inicial, por
entender que o acidente se deu por culpa exclusiva da vítima. Por fim, condenou a
autora nos ônus da sucumbência, fixando honorários em 10% sobre o valor da causa
(fls. 397/401).
Inconformada, apela a autora (fls. 408/415), defendendo preliminarmente, a
ocorrência de cerceamento de defesa, em vista do indeferimento da realização de
prova pericial. Aduz que inexistiu culpa exclusiva, asseverando que apenas transitou
pelo local do acidente, em razão de prestação de socorro a uma criança, que havia se
acidentado por falha do estabelecimento. Ainda, sustenta que está devidamente
comprovado nos autos, o nexo de causalidade entre os dois eventos. Segue,
afirmando que o trânsito de pessoas no local do ocorrido não é proibido e que a

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responsabilidade do apelado é objetiva. Por fim, diz que a empresa apelada omitiu-se
em prestar socorro à vítima acidentada.
Contrarrazões (fls. 425/437).
É o relatório.
Voto.
Presentes os pressupostos, conheço do recurso.
Trata-se de apelo em ação indenizatória, em que a recorrente requer a condenação
da recorrida em danos morais, estéticos e materiais.
De início, afasto alegação de cerceamento de defesa, visto que inexiste qualquer
necessidade de produção de prova pericial no feito. Não há qualquer questão técnica
que dependa de avaliação de especialista, sendo que as provas testemunhais e
documentais produzidas nos autos são suficientes para o julgamento da causa:
(...) Com efeito, cabe destacar que o juiz tem certa margem de liberdade para aferir
acerca da colheita de provas, em homenagem ao princípio da persuasão racional
adotado pelo Código de Processo Civil, de forma que, somente a ele compete avaliar
sob a necessidade, ou não, da sua realização para a formação de seu convencimento
em torno dos fatos trazidos ao Poder Judiciário, sem, contudo, desatender aos
reclamos do processo. (...) (TJPR - 4ª C.Cível - AC - 1577493-5 - Telêmaco Borba - Rel.:
Hamilton Rafael Marins Schwartz - Unânime - J. 21.03.2017).
Aduz a apelante que o acidente ocorreu, no momento em que tentava prestar socorro
a uma criança, afirmando que no caso do acidente envolvendo o menor, houve
negligência da recorrida.
Por este motivo, sustenta que a suposta conduta omissiva da empresa no primeiro
evento, configura nexo de causalidade com o dano experimentado em sua queda.
Não tem razão.
Isto porque, conforme assente entendimento doutrinário e jurisprudencial, o nexo de
causalidade deve ser averiguado pelo fato imediato que deu causa ao dano. É dizer, a
análise é restrita à relação entre as partes, sendo que o nexo não se configura de
forma indireta e mediata, transplantando-se de evento danoso causado a terceiro:
(...) II. Consoante a jurisprudência desta Corte, “na aferição do nexo de causalidade, a
doutrina majoritária de Direito Civil adota a teoria da causalidade adequada ou do
dano direto e imediato, de maneira que somente se considera existente o nexo causal
quando o dano é efeito necessário e adequado de uma causa (ação ou omissão). (...)
(AgInt no AREsp 754.859/GO, Rel. Ministra ASSUSETE MAGALHÃES, SEGUNDA
TURMA, julgado em 02/06/2016, DJe 13/06/2016).
Portanto, conforme bem posto em sentença, aplica-se ao caso a teoria da causalidade
adequada.
A propósito:
(...) 4. À aferição do nexo de causalidade, à luz do ordenamento jurídico brasileiro
(artigo 1.060 do Código Civil de 1916 e artigo 403 do Código Civil de 2002),
destacam-se os desenvolvimentos doutrinários atinentes à teoria da causalidade
adequada e àquela do dano direto e imediato.
Considera-se, assim, existente o nexo causal quando o dano é efeito necessário e/ou
adequado de determinada causa.
220

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(REsp 1067332/RJ, Rel. Ministro MARCO BUZZI, QUARTA TURMA, julgado em


05/11/2013, DJe 05/05/2014)
Ainda, aduz a recorrente que houve omissão de socorro por parte da apelada. Porém,
dos depoimentos testemunhais não se observa tal omissão.
De acordo com a testemunha Isabel, que acompanhava recorrente, esta optou por
esperar para que seu esposo chegasse ao local e a levasse ao pronto socorro,
afirmando, inclusive, que o recorrido transportou a testemunha ao seu local de
trabalho.
Além do mais, os depoimentos comprovam que a apelante tinha condições físicas de
permanecer no local e aguardar atendimento, sem que isso lhe gerasse danos
irreparáveis, de maneira que não existiu omissão de socorro por parte da apelada.
A alegação de que o trânsito no local não é proibido, também não tem o condão de
gerar responsabilidade do estabelecimento, uma vez que a recorrente transitou de
maneira imprudente em local não destinado à circulação de pessoas, configurando-se
sua culpa exclusiva pelo acidente.
Portanto, não se observa o nexo de causalidade entre a alegada conduta omissiva da
apelada e o dano experimentado.
Sendo assim, não havendo nexo de causalidade, torna- se irrelevante discutir se a
responsabilidade é objetiva ou subjetiva, visto que para que se configure a
responsabilidade nos dois casos, é imprescindível a presença do nexo causal. Nesse
sentido:
“[...] à luz do nosso sistema normativo da responsabilidade civil, é requisito básico e
essencial observar a presença do nexo de causalidade. Ou seja, ‘a imputação de
responsabilidade civil, objetiva ou subjetiva, supõe a presença de dois elementos de
fato (a conduta do agente e o resultado danoso) e um elemento lógico- normativo, o
nexo causal (que é lógico, porque consiste num elo referencial, numa relação de
pertencialidade, entre os elementos de fato; e é normativo, porque tem contornos e
limites impostos pelo sistema de direito)’ [...]”. (AgInt no REsp 1554466/RJ, Rel.
Ministra ASSUSETE MAGALHÃES, SEGUNDA TURMA, julgado em 09/08/2016, DJe
22/08/2016)
Por fim, a sentença deve ser mantida integralmente, inclusive no que se refere aos
ônus da sucumbência. Fixo honorários advocatícios em 12% sobre o valor da causa, já
incluídos os honorários recursais.
Diante do exposto, nego provimento ao apelo, nos termos da fundamentação supra.
ACORDAM os Desembargadores da 8ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do
Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em negar provimento ao apelo, nos
termos do voto do relator.
Participou da sessão presidida pelo Desembargador Luiz Cezar Nicolau (com voto) e
acompanhou o voto do Relator o Excelentíssimo Senhor Desembargador Luis Sérgio
Swiech.
Curitiba, 08 de junho de 2017.
Des. VICENTE DEL PRETE MISURELLI

221

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2.2.9. ACIDENTE – ATROPELAMENTO DE ANIMAL POR MOTOCICLETA –

RESPONSABILIDADE DO DONO DO ANIMAL

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO INDENIZATÓRIA. ACIDENTE DE TRÂNSITO. COLISÃO DE

MOTOCICLETA COM ANIMAL ATROPELADO EM MEIO À VIA PÚBLICA. QUEDA DO

MOTOCICLISTA. TRAUMATISMO CRANIANO, ESCORIAÇÕES E FRATURAS.

RESPONSABILIDADE CIVIL DO DONO DO ANIMAL. NÃO

CONFIGURADA.PROPRIEDADE NÃO COMPROVADA. DEVER DE INDENIZAR.

AFASTADO. ÔNUS SUCUMBENCIAIS.REDISTRIBUÍDOS. SENTENÇA REFORMADA.

APELO PROVIDO. RECURSO ADESIVO. NÃO CONHECIDO.

(TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1673549-8 - Barracão - Rel.: Vicente Del Prete Misurelli -

Unânime - J. 08.06.2017)

Inteiro Teor

Nos autos da Ação Indenizatória nº 0001438- 25.2016.8.16.0052, a MM. Juíza da Vara


da Comarca de Barracão julgou parcialmente procedentes os pedidos iniciais,
condenando o réu ao pagamento de indenização por danos materiais, no valor de R$
578,00 (quinhentos e setenta e oito reais), e por danos morais, na quantia de R$
3.000,00 (três mil reais), além das custas processuais e honorários
advocatícios, estes fixados em 10% sobre o valor da condenação, observado o
benefício da justiça gratuita concedido ao réu (fls. 154/160.
Da sentença recorre o réu ALTAMIRO DE BRITO (fls.
168/172), sustentando a ausência de responsabilidade civil na ocorrência do evento.
Afirma que o cachorro atropelado, que ocasionou a queda do autor de sua
motocicleta, não era de sua propriedade, devendo ser afastada a condenação fixada
em sentença.
Contrarrazões (fls. 189/201).
De igual forma, recorre adesivamente o autor EMERSON LUIZ DRESCH (fls. 178/187),
pleiteando pela majoração da indenização por danos morais fixada em sentença, para
patamar não inferior a dez mil reais, além da fixação de pensão em favor do autor, em
razão da perda da capacidade laboral.
Contrarrazões (fls. 207/214).
É o relatório.
Voto.
Presentes os pressupostos de admissibilidade, conheço do apelo do réu.
Em breve síntese, o apelado trafegava com sua motocicleta pela linha São Roque, na
cidade de Barracão/PR, quando veio a colidir com um cachorro, que se encontrava

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atropelado em meio a pista. O choque com o animal levou à queda do motociclista,


sofrendo escoriações, traumatismo craniano e a fratura de ossos.
O autor alega que o animal é de propriedade do réu,
ora apelante, motivo pelo qual este deve se responsabilizar pelos danos causados.
Diante de tais fatos, a questão deve ser analisada sob a ótica do art. 936 do Código
Civil, assim enunciado:
Art. 936. O dono, ou detentor, do animal ressarcirá o dano por este causado, se não
provar culpa da vítima ou força maior.
Trata-se de hipótese de responsabilização por fato ou ato de outrem, em que o dono
do animal se responsabiliza pelos danos causados, em vista do dever de guarda e
cuidado. É requisito essencial para a configuração da responsabilidade civil do dono
do animal, a comprovação da propriedade deste. Confira-se: (TJPR - 8ª C.Cível - AC -
1564324-0 - Paranavaí - Rel.: Gilberto Ferreira - Unânime - - J. 01.12.2016).
Depreende-se dos depoimentos prestados pelas testemunhas arroladas aos autos,
conforme transcrito na sentença (fls.
156/157), não é possível aferir com exatidão que o cachorro atropelado era de
propriedade do réu.
A testemunha DIRCEU GODOI SILVEIRA afirmou que, apesar do ALTAMIRO
[apelante] afirmar no momento do acidente que o cachorro não era dele, o viu sair de
sua casa por várias vezes.
A testemunha RENI SALINI CIVA, afirmou que o cachorro sempre lhe acompanhava
todas as noites e que viu o cachorro na entrada da propriedade do apelante,
“andando no asfalto”.
ANTONIO LIUFRITZEN afirmou que sempre que passava na frente da propriedade do
apelante, um cachorro parecido com o que foi atropelado o atacava.
De outro lado, a testemunha DOUGLAS TOMAZI disse que faz dois anos que realiza
“inseminação na propriedade deles [ALTAMIRO, apelante]” e nunca viu este cachorro
por lá.
Por fim, HILARIO DALAVEGUI disse que o apelante possui cinco cachorros, porém
não sabe afirmar se o animal é de sua propriedade.
Nenhuma das testemunhas arroladas aos autos afirmou categoricamente que o animal
é de propriedade do apelante. Pelo contrário, foram diversas as afirmações que o
animal sempre estava na rua, andando pelo asfalto e até atacando as pessoas que ali
transitavam.
A partir dos depoimentos prestados, não há qualquer elemento probatório de que o
animal atropelado é de propriedade do apelante. O simples fato de ele estar na frente
de sua residência não significa que o apelante é seu dono, sendo frágil o argumento
aduzido pelo apelado neste sentido.
Verifica-se que o apelado não se desincumbiu de seu ônus probatório acerca dos
fatos constitutivos de seu direito, nos termos do art. 373, I do CPC. Exigir que o réu
comprove a inexistência de propriedade do animal atropelado em meio a via pública
representa prova negativa, que é prática vedada pelo nosso ordenamento jurídico.
Em casos semelhantes, segue a jurisprudência desta Corte:
CÍVEL. APELAÇÃO. AÇÃO DE REPARAÇÃO DE DANOS.
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ATROPELAMENTO DE ANIMAL NA PISTA DE ROLAMENTO DE RODOVIA.


SENTENÇA DE IMPROCEDÊNCIA. AUSÊNCIA DE PROVA ACERCA DA
PROPRIEDADE DO ANIMAL E, CONSEQUENTEMENTE, DA RESPONSABILIDADE DO
REQUERIDO PELO OCASIONAMENTO DO ACIDENTE. [...].
CONJUNTO PROBATÓRIO FRÁGIL QUANTO À PROPRIEDADE DO ANIMAL
CAUSADOR DO ACIDENTE. SENTENÇA CONFIRMADA. RECURSO NÃO PROVIDO.
(TJPR 10ª C.Cível AC - 1373875-7 - Região Metropolitana de Maringá Foro Central de
Maringá - Rel.: Lilian Romero - Unânime - - J. 08.10.2015).
APELAÇÃO. INDENIZAÇÃO. ACIDENTE. ANIMAL NA PISTA.
AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO SOBRE A PROPRIEDADE DO ANIMAL. AUTOR QUE
NÃO LOGROU COMPROVAR OS FATOS CONSTITUTIVOS DE SEU DIREITO.
INEXISTÊNCIA DO DEVER DE INDENIZAR. RECURSO NÃO PROVIDO. (TJPR 10ª
C.Cível AC - 1435142-1 Rel.: Ângela Khury - Unânime J. 10.03.2016).
Portanto, não se configurou a responsabilidade civil do apelante em seus elementos,
devendo ser afastada a obrigação de indenizar fixada em sentença e julgada
improcedente a pretensão inicial, na forma do art. 487, I do CPC.
Condeno o apelado [autor] ao pagamento das custas processuais e honorários
advocatícios, os quais fixo em R$ 800,00 (oitocentos reais), observado o trabalho
realizado pelo patrono do apelante, o tempo exigido para o serviço, a complexidade
da matéria e as provas produzidas nos autos. A fixação dos honorários deve se dar de
forma equitativa, em vista do valor da causa ser de pequena monta, conforme art.
85, § 8º do CPC.
A exigibilidade de tais valores fica suspensa, em razão da concessão do benefício da
justiça gratuita, nos termos do art. 98 do CPC.
Em vista da ausência da responsabilidade civil do réu, resta prejudicado o pleito
recursal do autor, para a majoração da indenização por danos morais e a fixação de
pensionamento, motivo pelo qual deixo de conhecer do recurso.
Diante do exposto, não conheço do recurso adesivo do autor e dou provimento ao
apelo do réu, para afastar a condenação imposta em sentença e julgar improcedente o
pedido inicial, nos termos do art. 487, I do CPC. Condeno o autor ao pagamento das
custas processuais e honorários advocatícios, estes fixados em R$ 800,00 (oitocentos
reais), observado o benefício da justiça gratuita concedido, nos termos da
fundamentação supra.
ACORDAM os Desembargadores da 8ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do
Paraná, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso adesivo do autor e
dar provimento ao apelo do réu, nos termos do voto relator.
Participou da sessão presidida pelo Desembargador Luiz Cezar Nicolau (com voto) e
acompanhou o voto do Relator o Excelentíssimo Senhor Desembargador Luis Sérgio
Swiech.
Curitiba, 08 de junho de 2017.
Des. VICENTE DEL PRETE MISURELLI

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2.2.10. ACIDENTE AUTOMOBILÍSTICO – DISCUSSÃO ENTRE OS ENVOLVIDOS –

APEDREJAMENTO DO CARO DE UM DELES – MERO DISSABOR

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO INDENIZATÓRIA.DESENTENDIMENTO ENTRE AS PARTES.

AGRESSÕES FÍSICAS E VERBAIS. APEDREJAMENTO DO CARRO DO AUTOR.

DANOS MORAIS. NÃO DEMONSTRADOS.AUSÊNCIA DE ABALO PSICOLÓGICO.

SITUAÇÃO QUE NÃO EXTRAPOLA A ESFERA DO ABORRECIMENTO E DISSABOR.

REVELIA DO RÉU QUE NÃO INDUZ A PRESUNÇÃO DE OCORRÊNCIA DE DANOS

MORAIS.NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO. SENTENÇA MANTIDA.APELO NÃO

PROVIDO.

(TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1674333-4 - Pinhais - Rel.: Vicente Del Prete Misurelli -

Unânime - J. 08.06.2017)

Inteiro Teor

Nos autos da Ação Indenizatória nº 0009170- 51.2015.8.16.0033, o MM. Juiz da Vara


Cível do Foro Regional de Pinhais julgou parcialmente procedentes os pedidos iniciais,
condenando o réu ao pagamento de indenização por danos materiais, no valor de R$
3.170,00, atualizado monetariamente, além das custas processuais e honorários
advocatícios, estes fixados em 10% sobre o valor da condenação (fls. 87/92).
Da sentença recorre o autor MURILO NERIS VELOZO (fls. 97/105), pleiteando pela
condenação do réu ao pagamento de indenização por danos morais, em razão de ter
sido ofendido, agredido e ameaçado de morte, além de ter seu carro apedrejado.
Afirma que tais fatos devem ser presumidos como verdadeiros, em razão da revelia do
réu.
Sem contrarrazões.
É o relatório.
Voto.
Presentes os pressupostos de admissibilidade, conheço do apelo.
Cinge-se a controvérsia acerca da ocorrência de danos morais, em razão do
enfretamento ocorrido entre as partes, no qual o apelante alega ter sofrido agressões,
ofensas e ameaça de morte, além de ter seu carro apedrejado.
Os danos morais devem ser indenizados quando extrapolarem a esfera do dissabor e
aborrecimento, abalando de forma contundente a moral do ofendido, causando-lhe
prejuízo a sua imagem e abalo psicológico, cujos sentimentos devem ser
compensados, nos termos do art. 5º, V da Constituição Federal.
Sobre o tema, leciona Sergio Cavalieri Filho que:
225

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

“(...) a partir do momento em que alguém, mediante conduta


culposa, viola direito de outrem e causa-lhe dano, está-se diante de um ato ilícito, e
deste ato deflui o inexorável dever de indenizar, consoante o art. 927 do Código Civil.
Por violação de direito deve-se entender todo e qualquer direito subjetivo, (...)
principalmente os absolutos, reais e personalíssimos, nestes incluídos o direito à vida,
à saúde, à liberdade, à honra, à intimidade, ao nome e à imagem”.
(Programa de Responsabilidade Civil. 10 ed. São Paulo: Atlas S.A, 2012. pg.19).
No caso em tela, em que pese ser reprovável a conduta praticada pelo apelado, não
se vislumbra a ocorrência de danos de ordem psicológica que tenham se prolongado
pelo tempo. Os danos decorrentes do conflito são de ordem material, os quais estão
devidamente resguardados pela sentença proferida. Os danos extrapatrimoniais
alegados não foram comprovados, motivo pelo qual é indevido o pagamento da
indenização.
Sobre o tema:
[...] A tutela ao dano moral é um direito constitucional que deve ser analisado caso a
caso, não sendo devido incondicionalmente, caracterizando-se por uma agressão
exacerbada à honra e moral do indivíduo, capaz de causar aflição e angústia
desproporcionadas ao espírito, de tal sorte que o mero incômodo, inconveniente ou
contratempo, a que estão sujeitas as pessoas, em sua vida em sociedade, não são
causas para a reparação extrapatrimonial. (TJPR - 10ª C.Cível - AC - 512027-2 - Toledo
- Rel.: Luiz Lopes - Unânime - - J. 11.09.2008).
APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS
MATERIAIS E MORAIS - ACIDENTE OCORRIDO NAS DEPENDÊNCIAS DE POUSADA
- LESÃO CORPORAL - DANO MORAL NÃO CONFIGURADO - MERO DISSABOR -
RECURSO DESPROVIDO (TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1477517-8 - Curitiba - Rel.: Marcos
S. Galliano Daros - Unânime - - J. 29.04.2016)
APELAÇÃO CÍVEL. RESPONSABILIDADE CIVIL. INDENIZAÇÃO POR DANO MORAL.
RESPONSABILIDADE CIVIL. BRIGA NO TRÂNSITO. OFENSAS RECÍPROCAS. MERO
DISSABOR. DANO MORAL. NÃO CONFIGURADO. RECURSO CONHECIDO E NÃO
PROVIDO. (TJPR - 10ª C.Cível - AC - 1249231-8 - Região Metropolitana de Londrina -
Foro Central de Londrina - Rel.: Ângela Khury - Unânime - - J. 02.07.2015).
O fato do réu ter sido revel na demanda não acarreta a presunção de veracidade
absoluta dos fatos narrados pelo autor. A revelia induz presunção relativa dos fatos
alegados na exordial, admitindo a produção de provas em contrário, com o fito do réu
comprovar fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor. Confira-se o
teor do art. 349 do CPC:
Art. 349. Ao réu revel será lícita a produção de provas, contrapostas às alegações do
autor, desde que se faça representar nos autos a tempo de praticar os atos processuais
indispensáveis a essa produção.
Pelo que consta dos autos, o apelante não produziu qualquer prova quanto a
ocorrência dos danos morais, não se desincumbindo de seu ônus probatório, previsto
no art. 373, I do CPC.
Sobre o tema:
AGRAVO INTERNO. [...] REVELIA. PRESUNÇÃO RELATIVA.
226

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

ENTENDIMENTO ADOTADO NESTA CORTE. [...] 2. A revelia enseja a presunção


relativa da veracidade dos fatos narrados pelo autor da ação, podendo ser infirmada
pelas demais provas dos autos, motivo pelo qual não determina a imediata
procedência do pedido. [...] 4. Como destinatário final da prova, cabe ao magistrado,
respeitando os limites adotados pelo Código de Processo Civil, a interpretação da
produção probatória, necessária à formação do seu convencimento.
[...] (AgRg no Ag 1237848/SP, Rel. Ministra MARIA ISABEL GALLOTTI, 4º T, julgado
em 11/10/2016, DJe 21/10/2016).
As ofensas dirigidas ao apelante, bem como o apedrejamento de seu carro não
representam, por si só, a ocorrência de danos morais, os quais demandam
comprovação.
Deste modo, em razão da não comprovação do dano moral sofrido, não restou
caracterizada a responsabilidade civil do réu, devendo a sentença ser mantida em seus
termos.
Quanto aos ônus sucumbenciais, se verifica que a sentença condenou o réu ao
pagamento da integralidade das custas processuais e honorários advocatícios.
Entretanto, o autor, ora apelante, não obteve êxito na totalidade de seus pedidos,
devendo ser redistribuídos os encargos processuais, conforme art. 86 do CPC.
Assim, visto que o autor obteve êxito quanto aos danos materiais, porém sucumbiu
quanto aos materiais, as custas e honorários devem ser pagos na mesma proporção
entre as partes, sendo que a verba honorária deve ser majorada para 20% sobre o
valor da condenação, considerando o trabalho realizado pelas partes, a ausência de
complexidade da matéria e de provas e o labor recursal realizado, conforme art. 85 do
CPC.
Diante do exposto, nego provimento ao apelo e redistribuo os ônus sucumbenciais,
nos termos da fundamentação supra.
ACORDAM os Desembargadores da 8º Câmara Cível do Tribunal de Justiça do
Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em negar provimento ao apelo, nos
termos do voto relator.
Participou da sessão presidida pelo Desembargador Luiz Cezar Nicolau (com voto) e
acompanhou o voto do Relator o Excelentíssimo Senhor Desembargador Luis Sérgio
Swiech.
Curitiba, 08 de junho de 2017.
Des. VICENTE DEL PRETE MISURELLI

2.2.11. SEGURO FINANCIAMENTO AGRÍCOLA – FRUSTRAÇÃO DE SAFRA –

DEBATE SOBRE A PRODUTIVIDADE

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE COBRANÇA. SEGURO DE FINANCIAMENTO

AGRÍCOLA. LAVOURA DE MILHO.ASSOLAÇÃO POR CONDIÇÕES CLIMÁTICAS

227

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

ADVERSAS.DISCORDÂNCIA DO SEGURADO QUANTO O VALOR DA

PRODUTIVIDADE ESPERADA INDICADA NA APÓLICE.INSURGÊNCIA QUE DEVERIA

TER SIDO ADUZIDA NO MOMENTO DA CONTRATAÇÃO DO

SEGURO.IMPOSSIBILIDADE DE REVISÃO APÓS A OCORRÊNCIA DO SINISTRO.

AUSÊNCIA DE IRREGULARIDADE OU ABUSIVIDADE. PRODUTIVIDADE DO PERÍODO

SUPERIOR À PRODUTIVIDADE SEGURADA. INDENIZAÇÃO INDEVIDA.SENTENÇA

MANTIDA. APELO NÃO PROVIDO.

(TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1358393-4 - Francisco Beltrão - Rel.: Vicente Del Prete

Misurelli - Unânime - J. 08.06.2017)

Inteiro Teor

Nos autos da Ação de Cobrança nº 0003286- 61.2010.8.16.0083, a MM. Juíza da 1ª


Vara Cível de Francisco Beltrão julgou improcedentes os pedidos iniciais, condenando
o autor ao pagamento das custas processuais e honorários advocatícios, estes fixados
em R$ 3.000,00 (fls. 236/248).
Da sentença recorre o autor MAURO ADRIANO COELHO (fls. 251/255), sustentando a
obrigatoriedade de cobertura securitária da lavoura perdida, em razão de condições
climáticas adversas. Afirma que a produtividade da plantação de milho esperada para
o período era superior à que constou na apólice de seguro. Afirma que o valor
segurado não é suficiente para cobrir os prejuízos sofridos, devendo ser pago o valor
do capital segurado em sua integralidade.
Contrarrazões (fls. 262/267 ­ 268/272).
É o relatório.
Voto.
Presentes os pressupostos de admissibilidade, conhece- se do apelo.
Trata-se de ação de cobrança, em que se pretende o pagamento da cobertura
securitária agrícola, pela perda de lavoura de milho, assolada por condições climáticas
adversas.
Pelo que consta dos autos, o apelante firmou contrato de financiamento para o
custeio do plantio de milho, ocasião em que contratou as apólices de seguro nº 71.174
(fls. 32) e 71.175 (fls. 46).
A primeira se refere à cultura de milho no Município de Salgado Filho, na qual consta
produtividade esperada para o período de 3.474 Kg/Ha, sendo segurado 65% desta
quantia. A segunda trata do plantio no Município de Dionísio Cerqueira, em que a
produtividade esperada era de 2.909 Kg/Há, sendo segurada a quantia de 50%.
As referidas plantações foram assoladas pela seca do período e a produtividade das
referidas lavouras foi de 2.400 kg/ha na plantação do Município Salgado Filho (fls. 40)

228

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

e de 3.050 kg/ha na plantação do Município de Dionísio Cerqueira (fls. 58), conforme


laudo pericial realizado pelo perito da seguradora.
Em face disto, alega o apelante que as apólices de seguro não representam a
produtividade esperada para o período. Afirma que para a apólice 71.174 (Salgado
Filho), a produtividade esperada era de 8.000 kg/ha ao invés de 3.474 kg/ha e, para a
apólice 71.175 (Dionísio Cerqueira), a produtividade esperada era de 9.000 kg/ha ao
invés de 2.909 kg/ha. Assim, os percentuais acima referidos deveriam incidir sobre os
valores indicados pelo apelante e não sobre aqueles previstos na apólice.
Inicialmente, cumpre esclarecer tais termos, partir das condições gerais do seguro,
apresentada juntamente com a inicial pelo autor (fls. 33 e 47 ­ fls. 15/16 do manual):
“PRODUTIVIDADE ESPERADA: A produtividade da cultura expressa em quilogramas,
sacas ou arrobas por hectare, determinada pela Seguradora e indicada na proposta de
seguro.”
“PRODUTIVIDADE SEGURADA: É a produtividade indicada na Proposta e na
Apólice/Certificado de seguro, sendo igual ao produto da multiplicação da
Produtividade Esperada pelo nível de Cobertura, sendo obrigatoriamente expressa da
mesma forma que a Produtividade Esperada.”
Ainda, consta na cláusula 2.1.2 das condições especiais (fls. 45 do manual:
“Quando a “Produtividade Obtida”, determinada pelo perito da Seguradora em
laudo de Inspeção de Danos, for inferior à “Produtividade Segurada” [...] será devida
ao Segurado indenização a ser paga pela Seguradora”.
As condições pactuadas no contrato de seguro firmado entre as partes (fls. 32 ­ 46)
foram redigidas de forma clara e compreensível, não pairando dúvidas acerca da
produtividade esperada para a lavoura do período e a produtividade segurada.
No contrato de seguro, o valor do prêmio está vinculado diretamente com os riscos
pré-determinados, nos termos do art. 757 do Código Civil, mostrando-se inviável
alargar a quantia segurada, sem que isto tenha sido previamente consentido pela
seguradora. À propósito:
Art. 765. O segurado e o segurador são obrigados a guardar na conclusão e na
execução do contrato, a mais estrita boa- fé e veracidade, tanto a respeito do objeto
como das circunstâncias e declarações a ele concernentes.
Diante da ausência de qualquer suporte fático probatório nos autos, que demonstre a
contratação do seguro com base na produtividade alegada pelo apelante, se deve
considerar os valores constantes na apólice juntada aos autos.
Para a plantação no Município de Salgado Filho, a cobertura securitária seria devida
somente se a produtividade fosse abaixo de 2.258,10 kg/ha (65% de 3.474 kg/ha) (fls.
32). Visto que a produtividade do período foi de 2.400 kg/ha (fls. 40), não deve ser
pago o capital segurado.
Para a cultura no Município de Dionísio Cerqueira, a cobertura securitária seria devida
somente se a produtividade fosse abaixo de 1.454,50 kg/ha (50% de 2.909 Kg/ha) (fls.
46). Visto que a produtividade do período foi de 3.050 kg/ha (fls. 58), não deve ser
pago o capital segurado.
Assim, no caso em tela, a seguradora está desobrigada do pagamento da cobertura
securitária, vez que a produtividade do período foi superior à produtividade segurada.
229

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

Eventual discordância com tais valores deveria ter sido dirimida na ocasião da
contratação do seguro, perante a seguradora, não sendo possível alterar as condições
contratadas posteriormente à ocorrência do sinistro.
Além disso, se verifica que o apelante tinha plena ciência das informações constantes
na apólice, bem como das condições gerais do seguro, vez que juntou tais
documentos à inicial.
Caso idêntico já foi julgado por esta Corte, confira-se:
APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DE COBRANÇA - SEGURO AGRÍCOLA FIRMADO POR
OCASIÃO DO FINANCIAMENTO DA LAVOURA DE MILHO - FORTES GEADAS NA
REGIÃO DE PLANTAÇÃO - RESPONSABILIDADE DA SEGURADORA EM RESSARCIR
ATÉ O LIMITE PREVISTO NA APÓLICE - INDENIZAÇÃO A SER PAGA COM BASE NA
PRODUTIVIDADE SEGURADA E NÃO A ESPERADA PELO AGRICULTOR - AUSÊNCIA
DE ABUSIVIDADE - SENTENÇA MANTIDA. RECURSO DESPROVIDO. (TJPR - 10ª
C.Cível - AC - 1424384-2 - Campo Mourão - Rel.: Luiz Lopes - Unânime - - J.
03.12.2015).
Ainda: (TJPR - 10ª C.Cível - AC - 1023071-8 - Jandaia do Sul - Rel.: Carlos Henrique
Licheski Klein - Unânime - - J. 23.07.2015); (TJPR - 10ª C. Cível - AC - 553967-7 -
Maringá - Rel.: Arquelau Araújo Ribas - Unânime - J. 19.11.2009).
Desta forma, por inexistir qualquer elemento que revele irregularidade na contratação
do seguro, bem como por não se verificar abusividade em seus termos, mostra-se
indevido o pagamento da cobertura securitária, visto que a produtividade do período
se mostrou superior a produtividade segurada.
Deixo de aplicar o art. 85, § 11º do CPC, vez que a sentença foi publicada na vigência
do CPC/73, conforme enunciado administrativo n. 07 do STJ.
Diante do exposto, nego provimento ao apelo, nos termos da fundamentação supra.
ACORDAM os Desembargadores da 8º Câmara Cível do Tribunal de Justiça do
Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em negar provimento ao apelo, nos
termos do voto relator.
Participou da sessão presidida pelo Desembargador Luiz Cezar Nicolau (com voto) e
acompanhou o voto do Relator o Excelentíssimo Senhor Desembargador Luis Sérgio
Swiech.
Curitiba, 08 de junho de 2017.
Des. VICENTE DEL PRETE MISURELLI

2.2.12. INVALIDEZ PERMANENTE – LER-DORT

APELAÇÕES CÍVEIS. COBRANÇA SECURITÁRIA.INVALIDEZ PERMANENTE. DOENÇA

DE TRABALHO. LER- DORT. EQUIPARAÇÃO A ACIDENTE PESSOAL. DEVIDA.ART.

2º, §1º, I DA LEI 6.367/76. ARTS 19 E 20, DA LEI 8.213/91. PRECEDENTES DO STJ.

DEVER DE INFORMAÇÃO. NÃO CUMPRIDO. ART. 6º, III, 36 E 54, § 3º DO CDC.

230

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

LIMITAÇÃO. AFASTADA. COBERTURA. DEVIDA.AUTOS (:1) PARCIAL. CIENCIA DAS

CONDIÇÕES GERAIS.AUTOS (:2). INTEGRAL. ÔNUS SUCUMBENCIAIS.INVERTIDOS.

HONORÁRIOS. MAJORADOS. SENTENÇA REFORMADA. APELOS PROVIDOS.

(TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1644187-3 - Ponta Grossa - Rel.: Vicente Del Prete Misurelli -

Unânime - J. 01.06.2017)

Inteiro Teor

Trata-se de Apelações Cíveis em face de sentença que julgou improcedente os


pedidos iniciais formulados nos autos nº 25927- 65.2015.8.16.0019, apensados aos
autos nº 25820-21.2015.8.16.0019, nos termos do art. 487, I, CPC, condenando a
autora ao pagamento das custas processuais e honorários, fixados em 10% sobre o
valor da causa, em Cível nº 1.656.239-3-e 1.644.187-3 fl. 2 ambas as ações
(fls.192/206(:1) e 299/313 (:2)).
Inconformada, a autora defende, em síntese, que não teve ciência das condições
gerais do seguro contratado e que tal contrato deve ser analisado sob a ótica do CDC,
sendo nula a clausula que afasta as doenças profissionais do conceito de acidente
pessoal, por não estar em conformidade com o art. 54, CDC, não merecendo
prosperar a fundamentação exarada na sentença de que existem dois conceitos de
acidente do trabalho, um aplicável às relações previdenciárias e outro em relação ao
direito securitário, sendo devida sua equiparação, nos termos do art. 20, I, da Lei
8.213/91 (fls. 213/221 (:1) e 319/327(:2)).
Contrarrazões (fls. 230/247 (:1) e 337/348(:2).
É o relatório.
Voto.
Presentes os pressupostos de admissibilidade conhece-se do recurso.
Considerando que todos os fatos que integram as causas de pedir são incontroversos,
as questões a serem resolvidas nestes incidentes recursais são exclusivamente de
direito, bastando verificar se a doença que a autora adquiriu, devido à sua atividade
laboral pode ou não ser equiparada à categoria de acidente pessoal, e, a validade da
cláusula contratual que exclui a cobertura de tal patologia.
A Lei n. 6.367/76, por meio de seu art. 2º, § 1º, I, estabelece que:
Art. 2º. Acidente do trabalho é aquele que ocorrer pelo
Cível nº 1.656.239-3-e 1.644.187-3 fl. 3 exercício do trabalho a serviço da empresa
provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte, ou perda, ou
redução, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho.
§ 1º Equiparam-se ao acidente de trabalho, para os fins desta lei: I - a doença
profissional ou do trabalho, assim entendida a inerente ou peculiar a determinado
ramo de atividade e constante de relação organizada pelo Ministério da Previdência e
Assistência Social (MPAS).

231

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

Já a Lei que disciplina os Planos de Benefícios da Previdência (Lei n. 8.213/91) reforça


o fato de que “doença” é equiparável a “acidente”:
Art. 19. Acidente de trabalho é o que ocorre pelo exercício do trabalho a serviço da
empresa ou pelo exercício do trabalho dos segurados referidos no inciso VII do art. 11
desta Lei, provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte ou a
perda ou redução, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho.
Art. 20. Consideram-se acidente de trabalho, nos termos do artigo anterior, as
seguintes entidades mórbidas: I - Doença profissional, assim entendida a produzida ou
desencadeada pelo exercício do trabalho peculiar a determinada atividade e constante
da respectiva relação elaborada pelo Ministério do Trabalho e da Previdência Social;
Cível nº 1.656.239-3-e 1.644.187-3 fl. 4 II - Doença do trabalho, assim entendida a
adquirida ou desencadeada em função de condições especiais em que o trabalho é
realizado e com ele se relacione diretamente, constante da relação mencionada no
inciso I; (...).
Pela simples leitura dos dispositivos em comento, conclui-se que as doenças de
trabalho (como aquelas de que padece a apelada) são, sim, equiparáveis a “acidente
de trabalho”, cuja consequência, no caso, foi a perda permanente da capacidade
laboral.
Ora, sendo tais institutos equiparados para fins previdenciários, por certo que
também deverão ser para fins securitários, conforme já restou decidido pelo STJ:
SEGURO DE VIDA EM GRUPO E ACIDENTES PESSOAIS.
MICROTRAUMAS. LESÕES POR ESFORÇOS REPETITIVOS E HÉRNIA DISTAL.
INCAPACITAÇÃO PARCIAL E PERMANENTE DE 50%. Os microtraumas sofridos pelo
operário, quando exposto a esforços repetitivos no ambiente de trabalho, incluem-se
no conceito de acidente pessoal definido no contrato de seguro.
Precedentes. Recurso especial conhecido e provido.
(REsp 324.197/SP, Rel. Min. Barros Monteiro, 4ª Turma, julgado em 23/11/2004, DJ
14/03/2005, p. 340).
O argumento de que as duas categorias não são equiparáveis devido às cláusulas
contratuais, não merece prosperar, visto que estas não têm o potencial de desnaturar
a realidade das coisas, tampouco, contrariar expressa disposição legal, face princípio
da hierarquia
Cível nº 1.656.239-3-e 1.644.187-3 fl. 5 das normas e a função social do contrato de
seguro, que é garantir o interesse legítimo do segurado, nos termos do art. 757, CC.
Deve se ter em mente também que o CDC é perfeitamente aplicável ao presente
caso, ante a nítida relação de consumo entre as partes (art. 3º, §2º, CDC), devendo as
cláusulas contratuais serem interpretadas de maneira mais favorável ao consumidor
(art. 47, CDC). Conforme: (TJPR ­ ApCiv 1405583-3 ­ 9ª CâmCív ­ Rel. Des. José
Augusto Gomes Aniceto ­ DJ 08/10/2015).
Assim, tais cláusulas deveriam conter informação ostensiva, clara e adequada,
permitindo ao aderente a fácil compreensão do que está sendo contratado, conforme
os art. 6º, III, 36 e 54, § 3º do CDC, sendo que as seguradoras sequer comprovaram
ter enviado as condições gerais da apólice, em que constam as cláusulas restritivas e

232

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

limitativas, no momento da contratação, descumprindo seu dever de informação


exigido pelo Código consumerista.
Em caso análogo este Tribunal Já decidiu:
APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO CONDENATÓRIA. - CONTRATO DE SEGURO. INVALIDEZ
PARCIAL PERMANENTE.
DOENÇA PROFISSIONAL.LER/DORT. EQUIPARAÇÃO A ACIDENTE PESSOAL.
COBERTURA SECURITÁRIA.PAGAMENTO DEVIDO. CÁLCULO DA INDENIZAÇÃO
MANTIDO. - RECURSO CONHECIDO E NÃO PROVIDO.- A invalidez permanente
decorrente de doença profissional é equiparada a acidente de trabalho, incluindo-se
nas coberturas securitárias.- Cláusula excludente de responsabilidade ou limitativa
Cível nº 1.656.239-3-e 1.644.187-3 fl. 6 de direito deve ser redigida em destaque no
contrato, dando-se inequívoca ciência de seu conteúdo ao consumidor, sob pena de
sua exclusão por considerar- se abusiva.- A tendinopatia não pode ser equiparada à
anquilose de ombro para fins de cálculo do valor da indenização devida. O percentual
da incapacidade apurado pela perícia deve incidir sobre o percentual segurado para
perda de um dos membros. TRIBUNAL DE JUSTIÇAESTADO DO PARANÁ (TJPR - 9ª
C.Cível - AC - 1364616-9 - Cascavel - Rel.: Rafael Vieira de Vasconcellos Pedroso -
Unânime - - J. 11.06.2015)
Desse modo, tendo em vista os dispositivos legais e a orientação jurisprudencial, no
sentido de que doença profissional se equipara a acidente pessoal para fins de
pagamento de indenização securitária, além do fato que os contratos de seguro
devem ser interpretados à luz da legislação consumerista, se entende como devida a
indenização securitária negada pelas seguradoras.
No que se refere ao quantum a ser indenizado, as ações merecem soluções distintas.
Nota-se que a apólice firmada com a ré Liberty Seguros (fls. 10/13 (:2)), consta a
informação de que a Invalidez Permanente Total ou Parcial por Acidente terá Capital
segurado de R$90.000,00, sem qualquer menção à proporcionalidade ou restrição ao
grau da perda funcional.
A redação e a forma das coberturas apresentada pelo certificado dá a entender que
todas as coberturas teriam indenização no Cível nº 1.656.239-3-e 1.644.187-3 fl. 7
valor de forma integral, sendo ela total, ou parcial, sem qualquer proporção ao grau
de perda funcional ou à aplicação da Tabela Susep.
Em lugar algum desse instrumento se vê menção à proporção, Tabela Susep ou à
Circular nº 029/91 ou 17/92, tampouco, existe comprovação de que o apelante teve
conhecimento prévio e inequívoco sobre as condições gerais do seguro (ônus que era
da seguradora), descumprindo, mais uma vez, com seu dever de informação, sendo
devida a indenização no valor integral contratado. Nesse sentido: (TJPR - 9ª C.Cível -
AC - 1449609-0 - Região Metropolitana de Londrina - Foro Central de Londrina - Rel.:
Juiz de Direito Subst. em 2º Grau Sérgio Luiz Patitucci - Unânime - - J. 31.03.2016).
Portanto, no apelo nº 1.656.239-3, a segurada deverá ser indenizada pela Liberty
Seguros pelo valor integral contratado (R$ 90.000,00 (:2)), corrigidos pela média do
índice INPC/IGP-DI desde a data do efetivo prejuízo, ou seja, a data em que houve a
negativa por parte da seguradora (13.07.2015 (:2)), acrescidos de juros de mora de 1%
ao mês a partir da citação.
233

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

Com relação a apólice firmada com a ré Caixa Seguradora S/A (fls. 23 (:1), nota-se que
há declaração assinada pela segurada de que “TOMOU CONHECIMENTO DO TEOR
DAS CONDIÇÕES GERAIS E ESPECIAIS DO CONTRATO, que fazem parte integrante
desta Proposta, não tendo dúvidas sobre as mesmas”.
Portanto, como a segurada exarou que detinha pleno conhecimento das condições
gerais que acompanham a apólice, perfeitamente aplicável a Tabela Para Cálculo de
Indenização (fls.116/117(:1)) que prevê percentual de 20% para “Anquilose total de um
Cível nº 1.656.239-3-e 1.644.187-3 fl. 8 dos punhos”. Veja-se: (TJPR - 8ª C.Cível - AC -
1583768-4 - Umuarama - Rel.: Ademir Ribeiro Richter - Unânime - - J. 09.03.2017).
Como a autora não teve perda total dos movimentos, mas sim parcial, conforme se
extrai do Aviso de Sinistro, preenchido pelo seu Médico Assistente (fls. 204 (:2)), deve
ser aplicado o percentual máximo indicado de 50%, sobre os 20% do teto.
Assim, no apelo nº 1.644.187-3, a segurada deverá ser indenizada pela Caixa
Seguradora S/A, no valor R$ 2.000,00, corrigidos pela média do índice INPC/IGP-DI
desde a data do efetivo prejuízo, ou seja, a data em que houve a negativa por parte
da seguradora 03/06/2015, acrescidos de juros de mora de 1% ao mês a partir da
citação.
Tendo em vista o resultado dos presentes recursos, necessário se faz inverter os ônus
sucumbenciais de ambas as ações, devendo as requeridas arcarem com a
integralidade das custas processuais e honorários advocatícios, os quais majoro para
15% sobre o valor da condenação, nos termos do art. 85, §11, CPC.
Diante do exposto, dou provimento aos recursos para reformar a sentença e julgar
procedente as lides, condenando as requeridas ao pagamento dos prêmios conforme
expostos na fundamentação, devidamente corrigido e acrescidos de juros de mora,
além das custas processuais e honorários advocatícios, fixados em 15% sobre o valor
de cada condenação.
ACORDAM os Desembargadores da 8ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do
Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em dar provimento aos recursos, nos
termos do voto do relator.
Cível nº 1.656.239-3-e 1.644.187-3 fl. 9
Participou da sessão presidida pelo Desembargador Luiz Cezar Nicolau (com voto) e
acompanhou o voto do Relator o Excelentíssimo Senhor Desembargador Luis Sérgio
Swiech.
Curitiba, 01 de junho de 2017.
Des. VICENTE DEL PRETE MISURELLI

2.2.13. ESPERA EM FILA DE BANCO – INEXISTÊNCIA DE DANO MORAL

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO. ESPERA EM FILA DE BANCO. DANO

MORAL. NÃO COMPROVADO.NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DE EFETIVO

ABALO PSICOLÓGICO OU MORAL. LEI ESTADUAL Nº 13.400/2001. NATUREZA

ADMINISTRATIVA. SENTENÇA MANTIDA. APELO NÃO PROVIDO.


234

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

(TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1649245-0 - Região Metropolitana de Londrina - Foro Central

de Londrina - Rel.: Vicente Del Prete Misurelli - Unânime - J. 01.06.2017)

Inteiro Teor

Trata-se de Apelação Cível nos autos de Ação Indenizatória nº 0073403-


17.2015.8.16.0014, contra sentença que julgou improcedente a pretensão inicial.
Condenou o autor ao pagamento das custas processuais e honorários advocatícios,
estes fixados em 10% sob o valor da pretensão econômica buscada nos autos,
observado o benefício da justiça gratuita (fls. 107).
Sustenta o apelante que os danos morais são presumidos, quando a espera da fila de
atendimento do banco torna-se excessiva. Assim, afirma que o banco deve ser
condenando, de forma a
coibir tal prática abusiva (fls. 115/127).
Sem contrarrazões.
É o relatório.
Voto.
Trata-se de pretensão de indenização, em razão de espera prolongada em fila
bancária (01h12min). Cinge-se controvérsia acerca da possibilidade de configurar dano
moral indenizável a espera em fila de banco, por tempo superior ao limite de 20
minutos, previsto na Lei Municipal nº 3110/2005, de Foz do Iguaçu.
Ocorre que, a espera prolongada acima do previsto em lei, por si só, não tem o
condão de configurar dano moral indenizável, sendo necessária a comprovação do
dano passível de reparação. Nesse sentindo é o atual entendimento Superior Tribunal
de Justiça:
1. Apenas a invocação de legislação municipal ou estadual que estabelece tempo
máximo de espera em fila de banco não é suficiente para fundamentar o direito a
indenização, devendo ser demonstrada a situação fática provocadora do dano” (STJ,
AResp nº 393798/SE, Rel. Min. João Otávio de Noronha, publicado em 17.05.2016).
E ainda, desta Câmara: (TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1444606-9 - Região Metropolitana de
Londrina - Foro Central de Londrina - Rel.: Gilberto Ferreira - Unânime - - J.
19.05.2016).
Partindo dessa premissa, no caso em questão, o abalo moral não foi comprovado,
pois o apelante se limitou a juntar, apenas, o extrato de atendimento bancário (fls.
09/10), deixando de demonstrar que, da espera na fila do banco, resultou-lhe algum
dano ou que, eventualmente, sofreu algum tipo de constrangimento, angústia ou
humilhação.
Alinhando-me a recente jurisprudência do STF (AO 2063 AgR/CE) e levando em
consideração o trabalho recursal do apelado, os honorários advocatícios devem ser
majorados para 12% sobre o valor do proveito econômico obtido, conforme artigo 85
§ 11º do CPC.
Diante do exposto, nego provimento ao apelo.

235

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

ACORDAM os Desembargadores da 8ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do


Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em negar provimento ao apelo, nos
termos do voto do relator.
Participou da sessão presidida pelo Desembargador Luiz Cezar Nicolau (com voto) e
acompanhou o voto do Relator o Excelentíssimo Senhor Desembargador Luis Sérgio
Swiech.
Curitiba, 01 de junho de 2017.
Des. VICENTE DEL PRETE MISURELLI

2.2.14. OSCILAÇÃO DE ENERGIA E DANOS A EQUIPAMENTO ELETRÔNICO

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE RESSARCIMENTO.SEGURADORA QUE PLEITEIA

DEVOLUÇÃO DE VALORES PAGOS EM RAZÃO DE DANOS EM EQUIPAMENTOS

ELETRÔNICOS. OSCILAÇÃO NA ENERGIA ELÉTRICA.CÓDIGO DE DEFESA DO

CONSUMIDOR.APLICABILIDADE. SUBROGAÇÃO LEGAL.

PRECEDENTES.RESPONSABILIDADE OBJETIVA DA CONCESSIONÁRIA DE SERVIÇO

PÚBLICO. AUSÊNCIA DE PROVA DE CONDUTA DANOSA E DE NEXO CAUSAL.

RELATÓRIOS DE CONTROLE QUE APONTAM PELA INOCORRÊNCIA DE

OSCILAÇÃO NA REDE ELÉTRICA. FATO CONSTITUTIVO DO DIREITO NÃO

COMPROVADO. HONORÁRIOS RECURSAIS. RECURSO NÃO PROVIDO.

(TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1647181-3 - Curitiba - Rel.: Vicente Del Prete Misurelli -

Unânime - J. 25.05.2017)

Inteiro Teor

Trata-se de Apelação Cível nos autos de Ação de Ressarcimento nº 0003010-


63.2016.8.16.0004, contra sentença que julgou
improcedentes os pedidos de ressarcimento, por falta de comprovação do nexo
causal, e condenou a seguradora ao pagamento das custas e honorários advocatícios
de 10% sobre o valor da causa (fls. 337/341).
Dessa sentença recorre ZURICH MINAS BRASIL SEGUROS S/A (fls. 349/365) alegando
que, por falha na prestação de serviços da apelada, houve descarga elétrica na rede
que abastecia a residência de alguns de seus segurados, de modo que teve de arcar
com a cobertura securitária de equipamentos eletrônicos e, agora, pretende ver- se
ressarcida dos prejuízos em face da Copel, alegada causadora dos danos. Aduz que há
laudo nos autos comprovando que a queima dos equipamentos se deu

236

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

exclusivamente pela variação de energia na rede elétrica, mencionando a


responsabilidade objetiva da apelada. Reitera que a apelada é a única distribuidora de
energia na região e que fez prova do nexo de causalidade. Pede pela aplicação do
CDC ao caso, eis que está sub-rogada nos direitos de seus segurados consumidores.
Contrarrazões (fls. 394/406).
É o relatório.
Voto.
Presentes os pressupostos conheço do recurso.
Trata-se de pretensão de ressarcimento de valores securitários pagos pela apelante
aos consumidores Leandro Peregrino, Vanderlei Cavichon, Everton Everaldo de Vargas
e MMA Materiais de Construção Ltda por supostas descargas elétricas ocorridas,
respectivamente, em 15/11/2013, 12/06/2014, 31/08/2014 e 29/09/2014 nas cidades
de Cascavel e Cafelândia (fls. 80/136).
O seguro pelos danos havidos nos equipamentos eletrônicos foi devidamente pago
pela seguradora (fls. 147/150), que agora busca ressarcimento em regresso contra o
suposto causador do evento danoso (súmula 188/STF), na condição de sub-rogada
legal do direito (art. 786, caput do CCB).
Ao operar-se a sub-rogação legal, a seguradora incorpora direitos, ações, privilégios e
garantias dos segurados consumidores (art. 349 do CCB), pelo que aplica-se em seu
favor, aqui, as disposições do CDC. Sobre o tema:
CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. RESPONSABILIDADE CIVIL. (...).
APLICAÇÃO DO CDC. AÇÃO REGRESSIVA. SUB-ROGAÇÃO DA SEGURADORA NOS
DIREITOS DO CONSUMIDOR. “Havendo pago a indenização securitária, a seguradora
subroga-se nos direitos e ações que competiriam ao segurado contra o autor do dano,
fabricante do produto defeituoso, nos limites do contrato de seguro, cabendo, no
caso, a aplicação de todos os institutos previstos no CDC.” (STJ - REsp 802442/SP ­ 4ª
Turma ­ Rel. Min. Luis Felipe Salomão ­ DJ 22/02/2010)
No mesmo sentido, dentre outros: STJ - REsp 1085178/RS ­ Rel. Min. Marco Buzzi ­ DJ
30/09/2015.
Em se tratando de concessionária de serviço público, a responsabilidade civil da
apelada Copel Distribuição S/A é objetiva, nos termos do art. 25, da Lei 8.987/95 e art.
37, § 6º da CF, de modo que subordina-se à comprovação de ato/fato administrativo
danoso, nexo causal e dano.
Pois bem.
Houve o julgamento antecipado do feito em razão da
apelante ter dispensado a produção de outras provas além das já encartadas nos
autos (fls. 330).
Nos avisos de sinistros enviados à seguradora, Leandro Peregrino informa que a
oscilação na rede ocorreu por “descarga de raios” (fls. 72), Vanderlei Cavichon alega
que houve “curto circuito” (fls. 74), Everton Everaldo de Vargas avisa que houve
“queda de raios” (fls. 76) e a MMA Materiais de Construção alega que o dano
decorreu de “fortes chuvas” (fls. 78).
A vistoria técnica não constatou nenhum vestígio de queda de raios (fls. 82, 88, 108 e
132), apenas que houve forte chuva no dia 31/08/2014 (fls. 107).
237

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

Na sindicância feita na residência de Everton Everaldo de Vargas constou que “diante


das divergências, (...), é praticamente certo que esteja ocorrendo uma tentativa de
fraude” (fls. 109), ainda assim a indenização foi paga.
Embora a apelante afirme que há laudo técnico abalizado nos autos, não é isso que se
constata.
A regulação dos sinistros, em todos os casos analisados, ampara-se em meros
pareceres descritos por lojas de conserto, como a “SOS do Lar” (fls. 81), “Eletrônica
Cobra” (fls. 88 e 95/100), “Eletrônica Video Line” (fls. 107 e 117), “World Tec” e
“Infoelétrica Consolata” (fls. 131 e 137/139).
Nestas avaliações, a conclusão é de que os danos decorreram de “pico de tensão”,
“alteração de energia na rede de alimentação”, “descarga elétrica” e “oscilação
elétrica”, sem nenhuma prova que possa ser aferida por terceiros ou indício técnico
que ligue isso à prestação de serviço da Copel.
Ora, esses documentos não servem para atestar que tais oscilações e descargas
decorreram de falha na prestação de serviço, inclusive porque descargas elétricas
podem advir de problemas na instalação interna ou de evento da natureza, como foi
alegado nos avisos de sinistro, os quais configuram excludentes de responsabilidade
objetiva:
“O princípio da responsabilidade objetiva não se reveste de caráter absoluto, eis que
admite o abrandamento e, até mesmo, a exclusão da própria responsabilidade civil do
Estado, nas hipóteses excepcionais configuradoras de situações liberatórias - como o
caso fortuito e a força maior - ou evidenciadoras de ocorrência de culpa atribuível à
própria vítima” (STF - RE 109615/RJ ­ 1ª Turma ­ Rel. Min. Celso de Mello ­ Dj
02/08/1996)
No mesmo sentido: STF - AI 855343 AgR/MG e STJ - REsp 1327778/SP.
Em contrapartida, a apelada Copel trouxe aos autos os relatórios de controle de
interrupções, nos quais se observa que não houve nenhuma oscilação ou sobrecarga
de energia elétrica nas unidades consumidoras em análise para as datas afirmadas na
inicial (fls. 217, 219, 221 e 223/224).
Como se nota, não foi provado nem o ato danoso praticado pela Copel e nem o nexo
de causalidade entre ato e dano, inviabilizando qualquer imputação de
responsabilidade civil à apelada.
Sobre o tema:
APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DE RESSARCIMENTO - SEGURADORA QUE PLEITEIA A
DEVOLUÇÃO DOS VALORES
PAGOS À SEGURADA EM RAZÃO DE DANOS NOS EQUIPAMENTOS EM VIRTUDE
DE OSCILAÇÃO NA ENERGIA ELÉTRICA - RESPONSABILIDADE OBJETIVA DA
CONCESSIONÁRIA DE SERVIÇO PÚBLICO - EXEGESE DO ART.
37, §6º, DA CF/88 - AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DO NEXO DE CAUSALIDADE -
INEXISTÊNCIA DO DEVER DE INDENIZAR ­ (...). (TJPR ­ ApCiv 1118200-8 ­ 9ª CâmCív
­ Rel. Des. Luiz Osorio Moraes Panza ­ Julg.: 05/12/2013)
Em razão do não provimento do recurso, aplico o art. 85, § 11º do CPC e majoro os
honorários advocatícios devidos pela apelante para 12% do valor da causa.
Diante do exposto, nego provimento ao recurso.
238

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

ACORDAM os Desembargadores da 8ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do


Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos
termos do voto do relator.
Participaram da sessão presidida pelo Desembargador Vicente Del Prete Misurelli
(com voto) e acompanharam o voto do Relator o Excelentíssimo Senhor Juiz Subst.
2ºG. Alexandre Barbosa Fabiani e o Excelentíssimo Senhor Desembargador Luis Sérgio
Swiech.
Curitiba, 25 de maio de 2017.
Des. VICENTE DEL PRETE MISURELLI

2.2.15. RESPONSABILIDADE CIVIL DA EMPRESA E DO EMPREGADO –

PENSIONAMENTO

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS, MATERIAIS E

ESTÉTICOS. AGRAVO RETIDO.AUSÊNCIA DE INTIMAÇAO PARA A AUDIÊNCIA DE

INSTRUÇÃO E JULGAMENTO. NÃO VERIFICADA.INTIMAÇÃO REALIZADA.

CERCEAMENTO DE DEFESA.AFASTADO. AGRAVO NÃO PROVIDO. MÉRITO.

ACIDENTE DE TRÂNSITO. VEÍCULO DO DONO DA EMPRESA CEDIDO AO

EMPREGADO PARA A PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS EM NOME DA PESSOA

JURÍDICA. RESPONSABILIDADE MANTIDA EM RELAÇÃO A TODOS. PENSÃO

ALIMENTÍCIA.RENDA COMPROVADA. CRITÉRIO DE CÁLCULO.MANTIDO.TERMO

FINAL. EXPECTATIVA DE VIDA DA VÍTIMA. FILHO MENOR. PRESUNÇÃO DE

DEPENDÊNCIA ECONÔMICA ATÉ OS 25 ANOS IDADE. SENTENÇA

INTEGRALMENTE MANTIDA. PRECEDENTES DO STJ E DESTA CORTE. APELO NÃO

PROVIDO.

(TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1638813-1 - Umuarama - Rel.: Vicente Del Prete Misurelli -

Unânime - J. 25.05.2017)

Inteiro Teor

Trata-se de Apelação Cível contra a sentença que, nos autos de Ação Indenizatória nº
0006104-41.2009.8.16.0173, julgou procedente o pedido inicial, condenando os
requeridos ao pagamento de indenização por danos materiais no valor de R$ 417,96,
danos morais no valor de R$ 70.000,00 para a esposa do falecido e R$ 100.000,00

239

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

para a filha, danos estéticos no valor de R$ 20.000,00 em favor da filha, além de


pensão alimentícia às autoras. Pela sucumbência, condenou os réus ao pagamento das
custas processuais e honorários advocatícios, estes fixados em 20% da condenação
(fls. 1647/1685).
Em suas razões, pedem os recorrentes, inicialmente, o provimento do agravo retido,
para que a audiência de instrução e julgamento seja declarada nula em razão da falta
de intimação dos apelantes para comparecerem ao ato, o que teria lhes acarretado
prejuízo.
Pedem a realização de nova audiência, com oitiva das partes e testemunhas, agora
com a sua participação. Além disso, argumentam que, ou o veículo era da empresa ou
da pessoa física, e, pelo raciocínio apresentado na sentença, apenas o proprietário
poderia ser responsabilizado, e não ambos. Pedem a declaração de ilegitimidade de
um dos dois. Sucessivamente, defendem que ficou comprovado que o proprietário do
veículo era o réu Maurilio Piveta, pelo que são partes ilegítimas para responderem a
ação. No mais, insurgem-se em relação ao valor da pensão alimentícia fixada em favor
das autoras, pedindo a redução para 1,48 salários mínimos mensais, bem como contra
a data limite de recebimento da pensão, dizendo que deve ser de 65 anos para a viúva
e 18 para a filha (fls. 1695/1701).
Contrarrazões (fls. 1713/1716).
É o relatório.
Voto.
Presentes os pressupostos de admissibilidade, conheço do agravo retido interposto às
fls. 1302/1305.
No entanto, no mérito, nego-lhe provimento.
Alegam os réus Antonio Olivio Fernandes Borsato e A. F. Borsato & Cia Ltda que
tiveram seu direito de defesa cerceado, uma vez que não foram intimados para a
audiência de instrução e julgamento realizada nos autos.
Sem razão. Observa-se dos autos que, além das intimações para a constituição de
novo advogado (fls. 1017 e 1073), houve a expedição de carta de intimação em nome
de Antonio Olivio Fernandes Borsato (fl. 1090) e mandado de intimação em nome da
pessoa jurídica (fl. 1088) dando conta data da audiência designada para 02/07/2014 (fl.
1065).
Embora a carta de intimação da pessoa física tenha voltado negativa (fl. 1107), a
empresa fora devidamente intimada, por meio do próprio Sr. Antonio O. F. Borsato,
representante legal da pessoa jurídica, ficando cientificado, portanto, da realização do
ato (fls. 1122/1123).
Desse modo, uma vez que a intimação cumpriu sua finalidade, não há que se falar em
nulidade, devendo ser negado provimento ao agravo retido, para afastar a alegação
de cerceamento de defesa.
Passando-se ao apelo, infere-se que Cleuza Francisco da Silva Souza e Neylla Thalita
da Silva Souza ajuizaram ação indenizatória em face de Maurilio Piveta, Antonio Olivio
Fernandes Borsato e da empresa A. F. Borsato & Cia Ltda, por conta de acidente de
trânsito que vitimou Cilas de Souza, marido da primeira e pai da segunda autora.
Pois bem.
240

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

Em primeiro lugar, ante a prejudicialidade da questão,


deve ser analisada a alegação dos apelantes de que ficou comprovado que o réu
Maurilio Piveta era o proprietário do veículo causador do acidente.
Sem razão os recorrentes.
Como se observa dos autos, o veículo causador do acidente estava registrado em
nome de Antonio Olivio Fernandes Borsato, sendo que a prova testemunhal produzida
nos autos não é forte o suficiente para afastar os indícios documentais de que o
contrato de compra e venda do carro não possui validade, por ter sido fruto de
coação, tal como afirma o réu Maurilio Piveta.
Veja-se que réu Antonio O. F. Borsato reside em Umuarama-PR (fl. 466), enquanto
que o réu Maurilio Piveta, condutor do veículo, reside em Assis Chateaubriand-PR (fls.
456), sendo que a firma deste foi reconhecida por semelhança no cartório de Bom
Progresso, Comarca de Arapongas, ou seja, em localidade estranha a ambos e sem a
presença de Maurilio.
Além disso, o selo de fiscalização utilizado pelo cartório no reconhecimento da firma
também apresenta inconsistências, fato reconhecido pelos próprios recorrentes nas
razões recursais (fl. 1699).
Por outro lado, as testemunhas Ronaldo Biló e Dorival Fernandes Camara, também
funcionários de Antonio O. F. Borsato, não são assertivos naquilo que trouxeram de
contribuição. O primeiro sequer sabe informar de quem era o carro, ao passo que
Dorival Fernandes Camara faz apenas suposições sobre a propriedade do veículo.
Sendo assim, ante a não comprovação de que o veículo era, de fato, de propriedade
de Maurilio Piveta antes do acidente, a sentença deve ser mantida.
No que toca à responsabilização tanto de Antonio Olivio Fernandes Borsato, em
nome de quem o veículo causador do acidente estava registrado, quanto da empresa
A. F. Borsato & Cia Ltda, também não há o que se alterar na sentença.
Como a parte autora afirma em contrarrazões, a empresa foi incluída no feito e
condenada “(...) como sendo a pessoa jurídica que contratou para seus serviços o
condutor do veículo que causou o acidente noticiado nos autos e Antonio Olivio
Fernandes Borsato, na condição de proprietário do veículo que causou o acidente.” (fl.
1715).
Assim, embora o veículo estivesse registrado em nome do réu Antonio Olivio
Fernandes Borsato (fl. 88), já que a suposta compra e venda noticiada nos autos não
foi tida como válida, foi cedido ao empregado pelo patrão, na qualidade de
representante da pessoa jurídica, para o exercício das atividades da empresa.
Portanto, mesmo que se possa falar que o acidente tenha ocorrido enquanto o
motorista não desempenhava seu trabalho, deu- se em razão do emprego, o que atrai
a responsabilidade também da pessoa jurídica, nos termos do art. 932, III, do CC.
Nesse sentido:
1. A responsabilidade do empregador depende da apreciação quanto à
responsabilidade antecedente do preposto no dano causado - que é subjetiva - e a
responsabilidade consequente do preponente, que independe de culpa, observada a
exigência de o preposto estar no exercício do trabalho ou o fato ter ocorrido em razão
dele.
241

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

2. Tanto em casos regidos pelo Código Civil de 1916 quanto nos regidos pelo Código
Civil de 2002, responde o empregador pelo ato ilícito do preposto se este, embora
não estando efetivamente no exercício do labor que lhe foi confiado ou mesmo fora
do horário de trabalho, vale-se das circunstâncias propiciadas pelo trabalho para agir,
se de tais circunstâncias resultou facilitação ou auxílio, ainda que de forma incidental,
local ou cronológica, à ação do empregado (REsp 1072577/PR, Rel. Ministro LUIS
FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA, julgado em 12/04/2012, DJe 26/04/2012).
Note-se que o próprio réu Antonio Olivio Fernandes Borsato confirma em sua
contestação que o veículo foi repassado ao réu para a prestação de serviços da
empresa (fl. 467).
Desse modo, mostra-se correta a responsabilização do proprietário do veículo, assim
como pessoa jurídica empregadora do motorista, ficando mantida a sentença também
nesse ponto.
Quanto ao valor da pensão alimentícia fixada em favor das recorridas, o fato de não
existir comprovante de pagamento de todos os meses trabalhados como pintor, a
prova testemunhal, aliada aos comprovantes existentes, aponta no sentido de que o
falecido recebia em média nesse ofício o valor de R$ 700,00 por mês, como bem
entendeu a sentença, não havendo, portanto, o que se alterar.
Por fim, no que toca ao termo final do pensionamento, afigura-se correta a sentença
ao utilizar a expectativa de vida da vítima, inclusive em razão do pedido inicial nesse
sentido.
Sobre o tema:
Quanto ao termo final do pensionamento mensal, ao contrário do que defende a
parte agravante, o Superior Tribunal de Justiça, em recentes julgamentos concluiu que
deve ser levado em conta os dados atuais sobre a expectativa de vida do brasileiro
com base nos dados estatísticos do IBGE. (AgInt no AREsp 909.204/GO, Rel.
Ministro SÉRGIO KUKINA, PRIMEIRA TURMA, julgado em 23/08/2016, DJe
02/09/2016)
De igual modo, a pensão é devida à filha até que ela complete 25 anos, idade em que
se presume que deixaria de ser dependente do pai (AgInt no REsp 1554466/RJ, Rel.
Ministra ASSUSETE MAGALHÃES, SEGUNDA TURMA, julgado em 09/08/2016, DJe
22/08/2016).
Nesse sentido, já julgou esta Câmara:
APELAÇÃO CÍVEL. RESPONSABILIDADE CIVIL.ACIDENTE DE TRÂNSITO. MORTE
DO MOTORISTA. ALEGAÇÃO DE CULPA EXCLUSIVA DE TERCEIRO. ESTADO DE
NECESSIDADE.NEXO CAUSAL CONFIGURADO. CONDUTA DO OFENSOR QUE
CONTRIBUIU PARA O EVENTO DANOSO. PERSISTÊNCIA DO DEVER DE INDENIZAR.
DIREITO DE REGRESSO CONTRA O TERCEIRO. PENSIONAMENTO. PRESUNÇÃO DE
DEPENDÊNCIA ECONÔMICA DO FILHO ATÉ OS 25 ANOS DE IDADE. RATEIO
ENTRE OS DEMAIS DEPENDENTES. NATUREZA ALIMENTAR DA PENSÃO. PARCELA
ÚNICA INDEVIDA.PAGAMENTO DE PRESTAÇÕES MENSAIS. ART.948, II, CC/02.
DANOS MORAIS.
MANUTENÇÃO DO QUANTUM INDENIZATÓRIO. RECURSO PARCIALMENTE
PROVIDO. PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇAAPELAÇÃO CÍVEL Nº
242

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

1.507.616-7 (TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1507616-7 - Guarapuava - Rel.: Clayton de


Albuquerque Maranhão - Unânime - - J. 22.09.2016)
Portanto, diante de todas estas considerações a sentença deve ser integralmente
mantida, sem, contudo, a majoração da verba honorária de sucumbência em favor dos
patronos da parte recorrida, diante do limite estabelecido pelo §11, do art. 85, do
NCPC.
Diante do exposto, nego provimento ao recurso, nos termos da fundamentação supra.
ACORDAM os Desembargadores da 8º Câmara Cível do Tribunal de Justiça do
Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em negar provimento ao apelo, nos
termos do voto do relator.
Participaram da sessão presidida pelo Desembargador Vicente Del Prete Misurelli
(com voto) e acompanharam o voto do Relator o Excelentíssimo Senhor Juiz Subst.
2ºG. Alexandre Barbosa Fabiani e o Excelentíssimo Senhor Desembargador Luis Sérgio
Swiech.
Curitiba, 25 de maio de 2017.
Des. VICENTE DEL PRETE MISURELLI

2.2.16. SEGURO PRESTAMISTA

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DECLARATÓRIA. SEGURO PRESTAMISTA. CÉDULA DE

CRÉDITO BANCÁRIO. CONTRATAÇÃO EVIDENCIADA. CONTRATO

ASSINADO.MANIFESTAÇÃO DE VONTADE. CLÁUSULA REDIGIDA DE FORMA

CLARA E DESTACADA. OBJETO E PREÇO DISCRIMINADOS EM QUADRO DO

CONTRATO. ART. 758.NORMA NÃO EXAUSTIVA. ADMISSÃO DE PROVA DO

CONTRATO DE SEGURO POR OUTROS MEIOS IDÔNEOS.PRECEDENTES DO STJ E

DESTE TRIBUNAL. COBRANÇA LEGÍTIMA. DEVOLUIÇÃO DE PRÊMIOS

INDEVIDA.SENTENÇA REFORMADA. AÇÃO IMPROCEDENTE.RECURSO PROVIDO.

(TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1644317-1 - Barracão - Rel.: Vicente Del Prete Misurelli -

Unânime - J. 25.05.2017)

Inteiro Teor

Trata-se de Apelação Cível nos autos de Ação Declaratória nº 0006206-


96.2013.8.16.0052, contra sentença que julgou procedentes os pedidos para o fim de
declarar inexistente a relação contratual de seguro e determinar a devolução em
dobro dos valores cobrados, condenando o apelante em custas e honorários
advocatícios, estes fixados em 20% do valor da condenação (fls. 119/123).
243

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

Dessa sentença recorre BANCO BRADESCO S/A (fls. 133/142), alegando que o
apelado contratou Cédula de Crédito Bancário para financiamento de bens, conforme
demonstra a documentação dos autos, e que houve pacto expresso de contrato de
seguro nesta Cédula.
Aduz que a cláusula é clara e destacada e que, portanto, a cobrança realizada foi
legítima. Defende que não deve haver repetição de indébito e pede o afastamento da
devolução em dobro. Pede que a correção monetária flua a partir da sentença e os
juros a partir da citação.
Contrarrazões (fls. 153/157).
É o relatório.
Voto.
Trata-se de pretensão declaratória de inexistência de contratação de seguro
prestamista no bojo de Cédula de Crédito Bancário para financiamento de bens.
Embora o apelado tenha afirmado que não contratou o seguro nem assinou nada (fls.
03), consta nos autos a Cédula de Crédito Bancário por ele devidamente assinada (fls.
56/63).
E nesta Cédula, há a cláusula 4ª, redigida de forma clara, inequívoca e destacada em
negrito, na qual as partes acordam pela contratação do seguro prestamista (fls. 25).
E tanto o seguro foi contratado na forma da citada cláusula, que tal ato constou
claramente no quadro II. 17, além de ter sido novamente mencionado, com o
respectivo valor, no quadro de pagamentos autorizados (quando III, item 1.2). Tudo
devidamente assinado pelo apelado (fls. 57).
Ora, resta evidente que o seguro prestamista foi contratado pelo apelado, do
contrário, não deveria ter aposto sua assinatura no contrato demonstrando anuência
com essa manifestação de vontade (art. 110 do CCB), inclusive em razão da boa-fé
que deve permear a interpretação dos negócios jurídicos (art. 113 do CCB).
Consigne-se, ainda, que o contrato foi pactuado em 07/2011 (fls. 57), mas apenas em
03/2013 (fls. 28) o apelado insurgiu-se contra a cobrança, vale dizer, após quase 2
anos depois da contratação.
A alegação de que apenas a apólice ou o bilhete seriam capazes de provar a
contratação (art. 758, do CCD) não prospera.
É que “embora o art. 758 do Código Civil faça alusão à apólice, bilhete ou
pagamento do prêmio como meios de prova do contrato de seguro, é certo também
que não exclui outras formas aptas à comprovação da relação securitária” (STJ - REsp
1130704/MG ­ 4ª Turma ­ Rel. Min. Luis Felipe Salomão ­ DJ 17/04/2013).
Logo, em se tratando o seguro de negócio jurídico consensual, aperfeiçoa-se tão logo
as partes acordem quanto ao objeto e preço, não havendo, assim, alguma “prova
tarifária” exclusivamente apta para atestar a existência do negócio, que pode então
ser comprovada por qualquer meio idôneo, como a anuência aqui dada e assinada na
Cédula de Crédito. Sobre o tema:
DIREITO CIVIL. DIREITO DOS CONTRATOS. SEGURO.
CONTRATO CONSENSUAL. MOMENTO EM QUE É CONSIDERADO PERFEITO E
ACABADO. MANIFESTAÇÃO DE VONTADE, AINDA QUE TÁCITA. (...). 1. O seguro é
contrato consensual e aperfeiçoa-se tão logo haja manifestação de vontade,
244

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

independentemente de emissão da apólice - ato unilateral da seguradora -, de sorte


que a existência da avença não pode ficar a mercê exclusivamente da vontade de um
dos contratantes, sob pena de ter-se uma conduta puramente potestativa, o que é, às
expressas, vedado pelo art. 122 do Código Civil. 2. O art. 758 do Código Civil não
confere à emissão da apólice a condição de requisito de existência do contrato de
seguro, tampouco eleva tal documento ao degrau de prova tarifada ou única capaz de
atestar a celebração da avença. (...). (STJ - REsp 1306367/SP ­ 4ª Turma ­ Rel. Min. Luis
Felipe Salomão ­ DJ 05/05/2014)
E no mesmo sentido, julgado desta Corte:
APELAÇÃO. (...). CÉDULA DE CRÉDITO BANCÁRIO. INCLUSÃO NO DÉBITO DE
PRÊMIO DE SEGURO ALEGADAMENTE NÃO CONTRATADO. 1. CONTRATO DE
SEGURO.
CONSENSUAL.APERFEIÇOAMENTO SIMULTÂNEO AO ACORDO DE VONTADES.
DESNECESSIDADE DE OUTRO ATO OU FORMALIDADE. 2. ART. 758 DO CC. ROL
EXEMPLIFICATIVO.
POSSIBILIDADE DE COMPROVAÇÃO DA RELAÇÃO SECURITÁRIA POR OUTROS
MEIOS ESCRITOS. 3. FATO NOTÓRIO. PRAXE DE AUSÊNCIA DE MANIFESTAÇÃO
EXPRESSA DAS SEGURADORAS ACERCA DA CONCORDÂNCIA COM A PROPOSTA
FORMULADA PELO CLIENTE. INÉRCIA POR PERÍODO RAZOÁVEL. CONCORDÂNCIA
TÁCITA. ARTS. 111 E 432 DO CC. APERFEIÇOAMENTO DA AVENÇA. 4.
CONTRATAÇÃO DO SEGURO. COMPROVAÇÃO. INCIDÊNCIA DA COBERTURA
SECURITÁRIA. COBRANÇA DO PRÊMIO.
LEGALIDADE. RESTITUIÇÃO. DESCABIMENTO. 1. O contrato de seguro é
consensual, aperfeiçoando-se, desse modo, tão logo acordem as partes quanto ao
objeto e, se houver, ao preço, não se exigindo, para tal perfectibilização, a prática de
nenhum outro ato ou formalidade pelos contratantes.2. O rol do artigo 758 do CC é
exemplificativo, podendo a existência do contrato de seguro ser comprovada por
outros meios, exigindo-se unicamente, pela importância do negócio, que se trate de
prova escrita.3. É notório que ordinariamente a celebração do contrato de seguro
ocorre entre o corretor e o segurado, não sendo de praxe a formalização de
concordância expressa pela seguradora, a qual se limita a comunicar a recusa ou
diretamente emitir a apólice, encaminhando-a posteriormente ao executado,
conjuntamente com o instrumento contentor das intituladas “condições gerais”. Com
base nessa realidade e na regra dos artigos 111 e 432 do CC, há de, no caso de a
seguradora manter-se silente por período razoável acerca da proposta formulada pelo
cliente, reputar- se que esta foi tacitamente aceita, estando, consequentemente,
aperfeiçoada a avença.4. Evidenciada a contratação do seguro, a cobrança do prêmio
afigura-se legítima, mesmo porque o mutuário, ao adimplir as parcelas do
financiamento, nas quais aquele prêmio se encontrava diluído, fez jus,
independentemente de não emissão da apólice, à respectiva cobertura
securitária.RECURSO PROVIDO. (TJPR ­ ApCiv 1602149-3 ­ 15ª CâmCív ­ Rel. Des.
Hayton Lee Swain Filho ­ DJ 08/12/2016)

245

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

Assim, restou provada a contratação do seguro prestamista, pelo que as cobranças


efetuadas são legítimas, não havendo qualquer inexistência de relação a ser declarada
no ponto, tampouco devolução dos prêmios cobrados.
Como consequência do provimento deste recurso, a ação é improcedente e o
apelado deve arcar com as custas e honorários advocatícios, estes fixados em R$
1.000,00 (mil reais), na forma do art. 85, § 8º do CPC, eis que a aplicação do § 2º
implicaria em remuneração irrisória ao causídico do apelante.
Diante do exposto, dou provimento ao recurso para o fim de reconhecer a
contratação do seguro prestamista e julgar improcedente a pretensão declaratória de
inexistência de relação jurídica e a pretensão de devolução dos prêmios.
ACORDAM os Desembargadores da 8º Câmara Cível do Tribunal de Justiça do
Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso, nos
termos do voto relator.
Participaram da sessão presidida pelo Desembargador Vicente Del Prete Misurelli
(com voto) e acompanharam o voto do Relator o Excelentíssimo Senhor Juiz Subst.
2ºG. Alexandre Barbosa Fabiani e o Excelentíssimo Senhor Desembargador Luis Sérgio
Swiech.
Curitiba, 25 de maio de 2017.
Des. VICENTE DEL PRETE MISURELLI

2.2.17. TAXAS CONDOMINIAIS E O DEVER DE PAGAMENTO

APELAÇÃO CÍVEL. DECLARATÓRIA DE INEXIGIBILIDADE C/C DANOS E CAUTELAR.

TAXAS CONDOMINIAIS.EMPRESA QUE PRESTA COBRANÇA. LEGITIMIDADE

PASSIVA. CONFIGURADA. CONTRATO NÃO JUNTADO.CONDOMINIO DE FATO

INSTITUIDO EM 03/07/1999.AUTOR QUE RECEBE 8 APARTAMENTOS INACABADOS

EM 25/04/2005. FINALIZAÇÃO DA OBRA EM 2009.INDIFERENÇA. PROPRIETÁRIO

DE FRAÇÃO IDEAL QUE DEVE CONTRIBUIR COM DESPESAS DE MANUTENÇÃO E

CONSERVAÇÃO INDEPENDENTEMENTE DE HABITAR O IMÓVEL. COBRANÇAS.

DEVIDAS. ÔNUS SUCUMBENCIAIS. INVERTIDOS. HONORÁRIOS.

FIXADOS.SENTENÇA REFORMADA. APELO PROVIDO.

(TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1656681-7 - Curitiba - Rel.: Vicente Del Prete Misurelli -

Unânime - J. 18.05.2017)

246

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Inteiro Teor

Trata-se de Apelação Cível em face de sentença que, no tocante a ação principal


(0021652-40.2009.8.16.0001), julgou extinto o processo nos termos do art. 485, VI,
CPC, declarando a ilegitimidade passiva da ré Jane Beatriz Binda, condenando o autor
ao pagamento de 1/3 das custas processuais e dos honorários sucumbenciais, fixados
em 12% sobre o valor da causa e julgou parcialmente procedente, declarando a
inexigibilidade da participação das unidades do Bloco 08, dos rateios condominiais
anteriores a 05/11/2008. Ante a sucumbência recíproca, distribuiu os ônus
sucumbenciais em 35% ao autor e 65% aos réus, fixando os honorários em 15% sobre
o proveito econômico obtido. Quanto à ação cautelar (0019638-83.2009.8.16.0001),
também declarou a ilegitimidade passiva da ré Jane Beatriz Binda, condenando o
autor ao pagamento de 1/3 das custas processuais e dos honorários sucumbenciais,
fixados em 12% sobre o valor da causa e a julgou parcialmente procedente,
declarando a inexigibilidade de qualquer prestação condominial anterior a
05/11/2008, devendo os réus emitirem declaração de quitação dos débitos posteriores
a essa data e efetivamente pagos. Ante a sucumbência mínima do autor, condenou os
réus em custas processuais e honorários, fixados em 15% sobre o valor da causa (fls.
363/370-v).
Inconformado, o réu CONDOMÍNIO CONJUNTO RESIDENCIAL JARDIM DAS
PALMEIRAS II, sustenta que há convenção condominial datada de 03/07/1999, o que
constitui de fato um condomínio de direito, sendo legitima as cobranças efetuadas, já
que teve despesas com a manutenção, conservação e segurança do bloco 08, que se
encontra dentro da sua propriedade, não podendo ser afastado seu dever de
contribuição, sendo que suas unidades eram vendidas pelo autor como parte
integrante do condomínio.
Em sede preliminar, defende a ilegitimidade passiva da empresa Assiscon, que
apenas auxilia na cobrança de taxas condominiais, não sendo responsável por
qualquer consequência sofrida no interior do mesmo.
No mérito, afirma que deve ser reconhecido como condomínio de fato a situação
vivificada, já que necessitou de auto- organização própria, face a iminência de falência
da Construtora Cidadela, constituindo-se de forma não convencional, não podendo
ser aceita a convenção condominial própria firmada pelo Bloco 08, principalmente no
tocante a extirpar débitos pretéritos devidos.
Assim, ao aceitar o bloco 08 inteiro, como parte do seu pagamento, o autor aceitou
recebe-lo nas condições pré-existentes, isto é, já integrado ao condomínio, sendo
devido os custeios das despesas comuns, mesmo em caso de obra inacabada,
conforme art. 9º da Lei 4.591/64 (fls. 373/391).
Não foram apresentadas contrarrazões (fls. 411-v).
É o relatório.
Voto.
Presentes os pressupostos de admissibilidade conhece-se do recurso.
Extrai-se dos autos que o autor recebeu da empresa Cidadela S/A, como dação em
pagamento, na data de 25/04/2005, 08 apartamentos que compunham o bloco 08,

247

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

ainda inacabado e pertencente ao condomínio Conjunto Residencial Jardim das


Palmeiras II.
Nota-se que o conjunto residencial já tinha sido instituído em 03/07/1999, conforme
Convenção Condominial e Regimento Interno (fls.43/57), mesmo sem o término das
obras do referido bloco, que se encerraram apenas em 03/07/2009.
Assim ,em apertada síntese, a divergência consiste em verificar a existência, ou não,
de direitos e deveres condominiais do bloco 08, referentes ao período entre o
recebimento das unidades pelo autor (25/04/2005) e o término das obras
(03/07/2009), já que o magistrado em primeira instância declarou como indevidas as
cobranças anteriores a 05/11/2008.
A apelante, em sede preliminar, defende a ilegitimidade passiva da empresa Assiscon
Serviços de Digitação S/S Ltda ­ ME, já que foi contratada pelo requerido apenas para
auxiliar o síndico em sua gestão administrativa, sendo este o responsável pelo
condomínio, conforme art. 22,§ 1º, “a”, §2º, da Lei 4.591/64.
Ora, a presente lide versa sobre a legalidade ou não das cobranças de taxas
condominiais, assim, sendo a referida empresa legitima para figurar no polo ativo da
demanda de cobrança, por certo, que será legitima para figurar no polo passivo das
ações que questionem sua legalidade.
Além disso, não foi juntado os autos o contrato firmado entre as partes, de modo que
não há como presumir seus limites, devendo ser mantida no polo passivo.
No mérito, afirma que deve ser reconhecido como condomínio de fato a situação
vivificada, já que necessitou de auto- organização própria, face a iminência de falência
da Construtora Cidadela, constituindo-se de forma não convencional, não podendo
ser aceita a convenção condominial própria firmada pelo Bloco 08, principalmente no
tocante a extirpar débitos pretéritos devidos.
Com razão.
Primeiramente, deve-se ter em mente que as despesas condominiais não decorrem da
efetiva utilização por parte do condômino, mas sim, da propriedade de fração ideal no
solo da qual cada condômino tem direito, conforme artigos 1315 e 1316, CC.
O fato do bloco, ao qual pertencem as unidades do autor, não estar finalizado, não
pode ser imputado ao condomínio, mas tão somente à construtora, sendo certo que o
autor ao receber os imóveis em questão tinha plena ciência de seu estágio de
construção.
Por mais que os apartamentos não estivessem em condições de moradia, fato é que
já integravam o condomínio Conjunto Residencial Jardim das Palmeiras II e possuíam
obrigações no rateio de despesas comuns com sua manutenção e conservação.
Nesse sentido:
AÇÃO DE COBRANÇA DE TAXA DE CONDOMÍNIO (...) FATO DE NÃO RESIDIR NO
IMÓVEL OU DE ESTAR ELE INACABADO QUE NÃO AFASTA O DEVER DE ARCAR
NO RATEIO DAS DESPESAS COM A SUA MANUTENÇÃO E CONSERVAÇÃO.
PAGAMENTO DE SOMENTE 20% DO TOTAL DOS GASTOS COMPROVADOS DO
CONDOMÍNIO.

248

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

PEDIDO DESCABIDO. AUSÊNCIA DE PREVISÃO LEGAL OU CONTRATUAL.


RECURSO NÃO PROVIDO. (TJPR - 10ª C.Cível - AC - 645989-0 - Foz do Iguaçu - Rel.:
Valter Ressel - Unânime - - J. 06.05.2010)
Ainda:
AÇÃO DE COBRANÇA. TAXAS DE CONDOMÍNIO.
PRESCRIÇÃO. AUSÊNCIA. INCIDÊNCIA DO PRAZO GERAL. UNIDADES
INACABADAS. IRRELEVÂNCIA.
FORÇA DA CONVENÇÃO. DEVER DO CONDÔMINO DE PARTICIPAR DO RATEIO
DAS DESPESAS COMUNS. (...) (TJPR - 10ª C.Cível - AC - 590653-8 - Guaratuba - Rel.:
Vitor Roberto Silva - Unânime - - J. 03.12.2009)
Entendimento análogo é extraído dos casos onde a construtora é quem atrasa a
entrega da obra, sendo ela responsável pelas taxas condominiais no período até a
entrega do imóvel. Conforme: (TJPR - 7ª C.Cível - AC - 1472418-0 - Rio Branco do Sul -
Rel.: Victor Martim Batschke - Unânime - - J. 10.05.2016)
Portanto, como o apelado aceitou receber da construtora os imóveis ainda
inacabados, aceitou também a obrigação de adimplir com as taxas condominiais.
O fato da constituição do condomínio ter sido feita antes de finalizadas todas as
obras, não afasta sua existência, tampouco as despesas que teve, sendo devido o
pagamento por parte do apelado, sob pena de configurar enriquecimento sem causa.
Conforme:
“APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DE COBRANÇA - TAXAS DE MANUTENÇÃO -
CONDOMÍNIO DE FATO - POSSIBILIDADE. Aquele que adquire um terreno que é
parte integrante de um condomínio, regular ou irregular, tem a obrigação de contribuir
com sua quota para as despesas com serviços realizados em benefício e proveito de
todos, sob pena de ensejar o enriquecimento sem causa” (TJMG. Apelação Cível nº
1.0090.12.002514-4/001. Relator: Des.(a) Edison Feital Leite. DJ: 27/11/2015).
Aliás, não é defeso pelo ordenamento jurídico a obrigação de custear as despesas
comuns do condomínio no caso de obra inacabada, o que se depreende claramente
do teor do artigo 9º da Lei 4.591/64.
Além disso, a respectiva convenção do condomínio foi feita observando os ditames
legais, sendo perfeitamente válida, obrigando todos os condôminos, sem distinção, a
contribuir para o custeio das despesas comuns de todo o empreendimento.
Posto isso, ambas as ações, cautelar e principal, devem ser julgadas improcedentes,
devendo ser invertido os ônus sucumbenciais para que o autor arque com sua
integralidade, além dos honorários advocatícios, os quais fixo e 10% sobre o valor da
causa de ambos os processos, nos termos do art. 85, §2º, CPC, devendo ser mantida a
sucumbência do apelante fixada em favor da ré Jane Beatriz Binda.
Diante do exposto, dou provimento ao recurso, para reformar a sentença,
reconhecendo como devidos os débitos condominiais e julgando improcedente as
demandas, invertendo os ônus sucumbenciais.
ACORDAM os Desembargadores da 8ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do
Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso, nos
termos do voto do relator.

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Participou da sessão presidida pelo Desembargador Luiz Cezar Nicolau (com voto) e
acompanhou o voto do Relator o Excelentíssimo Senhor Desembargador Luis Sérgio
Swiech.
Curitiba, 18 de maio de 2017.
Des. VICENTE DEL PRETE MISURELLI

2.2.18. ACIDENTE AUTOMOBILÍSTICO E CULPA CONCORRENTE

APELAÇÕES CÍVEIS. INDENIZATÓRIA. ACIDENTE DE TRANSITO. CRUZAMENTO.

CAMINHÃO DO REQUERIDO TRAFEGAVA NA VIA PRINCIPAL EM ALTA

VELOCIDADE.AUTORA QUE NÃO TOMOU A DEVIDA CAUTELA NA MANOBRA DE

TRANPOSIÇÃO DA PISTA. CULPA CONCORRENTE. CONFIGURADA.

REDSITRIBUIDA. 70% À AUTORA E 30% AO REQUERIDO. DANOS

MORAIS.AFASTADOS. LESÕES INEXPRESSIVAS. ASSISTÊNCIA JUDICIÁRIA

GRATUITA. MANTIDA. ÔNUS SUCUMBENCIAIS.REDISTRIBUIDOS. HONORÁRIOS.

MAJORADOS.SENTENÇA REFORMADA. APELO DOS REQUERIDOS.PARCIALMENTE

PROVIDO. APELO DAS AUTORAS. NÃO PROVIDO.

(TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1656298-2 - Francisco Beltrão - Rel.: Vicente Del Prete

Misurelli - Unânime - J. 18.05.2017)

Inteiro Teor

Trata-se de Apelações Cíveis em face de sentença que julgou parcialmente


procedente os pedidos dos autores, condenando os requeridos, solidariamente ao
pagamento de R$ 27.520,00 à primeira autora a título de danos materiais,
devidamente corrigidos pela SELIC, desde o evento danoso, e, R$ 10.000,00, para
cada uma das autoras a título de danos morais, devidamente corrigidos e acrescidos
de juros de reconhecimento da culpa concorrente.
Outrossim, julgou parcialmente procedente o pedido contraposto, condenando a
primeira requerida ao pagamento de R$ 9.650,21 a título de danos materiais,
corrigidos pela SELIC desde o evento danoso e reduzida à metade ante a culpa
concorrente. Ao final, ante a sucumbência recíproca, distribuiu equitativamente os
ônus sucumbenciais, fixando os honorários em 10% sobre a condenação (fls. 383/393).
Inconformados, os requeridos sustentam que houve culpa exclusiva da autora que
invadiu a via preferencial em trecho de trevo, sendo que não restou comprovado, de
forma segura, seu excesso de velocidade, já que de acordo com os arts. 34 e 44, CTB,

250

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

a responsabilidade de tal manobra é de quem ingressa na via preferencial, ainda mais


em tal ponto, onde se tinha grande visibilidade, superior a 500 metros.
Sucessivamente, pleiteia o redimensionamento da culpa concorrente para a
proporção de 70/30, e o afastamento, ou redução dos danos morais, pleiteando a
revisão do benefício de assistência judiciária, com relação a autora Juliana Biasin (fls.
401/417).
Por sua vez, as autoras também defendem a ocorrência de culpa exclusiva do
recorrido, que desrespeitou as sinalizações do local, empregando velocidade
incompatível com a via, e que colidiu com o veículo da autora já na contramão após
uma marca de frenagem de 40,20metros, violando os artigos 43 e 44, CTB, (fls.
425/434)
Contrarrazões (fls. 446/455 e 457/468).
É o relatório.
Voto.
Presentes os pressupostos de admissibilidade, conhece- se dos recursos, os quais
serão analisados conjuntamente.
A divergência consiste em verificar de quem foi a culpa, ou se houve culpa
concorrente pelo acidente descrito nos autos.
De acordo com o do Boletim de Ocorrência (fls. 54/60), o requerido, condutor do
Caminhão, trafegava no sentido Dois Vizinhos ao Entroncamento da PR-493 e ao
atingir o KM 533+850m da rodovia estadual de prefixo PR-281, abalroou-se
transversalmente com o veículo da autora que cruzava a pista no trevo (fls. 56).
A sinalização no local indicava ao veículo dos requeridos “Placa de devagar trevo a
300m, devagar trevo a 100m e marcação viária” e ao veículo das autoras “devagar
trevo a 200m, devagar trevo a 100m, pare, e marcação viária” (fls. 56).
Em que pese a existência de sinalização para ambos os sentidos, no sentido de ter
cuidado com o trevo que se aproximava, por certo que a obrigação de parar o veículo
totalmente e aguardar o melhor momento para atravessar a via era exclusivamente das
autoras, vez que os requeridos se encontravam na pista preferencial, conforme art. 44,
CTB:
Art. 44 ­ Ao aproximar-se de qualquer tipo de cruzamento, o condutor do veículo
deve demonstrar prudência especial, transitando em velocidade moderada, de forma
que possa deter seu veículo com segurança para dar passagem a pedestre e a veículos
que tenham o direito de preferência.
Na descrição do fato o requerido informou que “transitava com o caminhão pela
rodovia PR-281, no sentido Dois Vizinhos a São Jorge do Oeste, quando passava pelo
trevo, um veículo que vinha do VERE, atravessou a rodovia no trevo, sem parar,
segurei o caminhão no freio, mas acabei batendo no lado esquerdo desse veículo “
(fls. 60).
Ao analisarmos o local exato do acidente através do site google maps:
(https://www.google.com.br/maps/@-25.7907188,-
53.0345118,3a,75y,249.95h,81.25t/data=!3m6!1e1!3m4!1sHdjD7yOIA5ZEt
S4GNWNEgQ!2e0!7i13312!8i6656), em conjunto com as informações obtidas pelas
testemunhas e pelo boletim de ocorrência, constata-se que as autoras possuíam amplo
251

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

campo de visão, além do fato que o veículo do requerido estava em uma subida, o
que comprova ainda mais sua desatenção ao efetuar a manobra.
O fato das testemunhas terem afirmado que a colisão ocorreu na contramão, não
imputa maior culpa ao requerido, já que isto ocorreu ao tentar desviar do veículo da
autora que já ingressara na via, todavia, deve ser levado em consideração sua conduta
culposa ao trafegar em velocidade acima do permitido e sem a atenção devida nos
trechos onde há cruzamento de veículos.
Tal situação restou suficientemente comprovada pelo boletim de ocorrência que
atestou que o veículo deixou uma marca de frenagem de 40,20 metros até o ponto de
impacto, mais 17,65 metros após a colisão, sendo que a velocidade máxima da via era
de 60 km/h e estava em um trecho de subida, não sendo crível que não conseguiria
parar o veículo pesado e na subida se estivesse na velocidade permitida.
Além disso, o depoimento do policial rodoviário militar Isacar Floriano de Freitas,
afirmou que na época do acidente não existiam quebra-molas no local, e, a
testemunha Noeli Maffessoni, também afirmou que foi ultrapassada pelo caminhão em
questão quando estava a 80km/h há uns 2km do acidente, concluindo-se assim que o
caminhão vinha embalado da descida que antecede a subida onde o acidente ocorreu,
não conseguindo parar o veículo a tempo.
Posto isso, é possível afirmar que as autoras tiveram culpa no acidente ao promover a
manobra sem a atenção devida, bem como, os requeridos ao não empregar a direção
defensiva recomendada nos trechos onde há cruzamento, bastando fixar a
porcentagem de cada um.
Não há como negar que a conduta principal para ocorrência do sinistro partiu da
desatenção das autoras, já que senão tivessem ingressado a via naquele momento,
nada teria acontecido, e, o caminhão, mesmo em alta velocidade, seguiria sua viagem
normalmente.
Nesses casos, esta colenda câmara de justiça vem entendendo que o veículo que
ingressa a preferencial sem o devido cuidado, responde por 70% da culpa, enquanto
que o veículo que trafega pela via preferencial acima do limite de velocidade contribui
com os 30% restantes. Nesse sentido:
APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO COM PEDIDO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS
MATERIAIS E MORAIS. ACIDENTE DE TRÂNSITO.TREVO RODOVIÁRIO. SENTENÇA
DE IMPROCEDÊNCIA. TESE DE CULPA EXCLUSIVA DA VÍTIMA. IRRESIGNAÇÃO DOS
AUTORES.
(I) PROVAS QUE DEMONSTRAM A OCORRÊNCIA DE CULPA CONCORRENTE.
MOTORISTA DO CAMINHÃO QUE CONFESSOU À POLÍCIA QUE TRAFEGAVA A 80
KM/H, O DOBRO DA VELOCIDADE MÁXIMA PERMITIDA. VÍTIMA QUE NÃO TOMOU
A DEVIDA CAUTELA E ATENÇÃO NA EXECUÇÃO DA MANOBRA DE
TRANSPOSIÇÃO DE PISTA. CULPA PREPONDERANTE DESTA, NA PROPORÇÃO DE
70% (...) (TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1459809-3 - Marmeleiro - Rel.: Osvaldo Nallim Duarte
Unânime - - J. 04.08.2016).
Assim, a culpa concorrente deve ser redistribuída para 70% a cargo das autoras e 30%
aos requeridos.

252

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

No que se refere a indenização a título de danos morais, importante se ter em mente


que esta não é inerente ao acidente automobilístico, sendo devida somente nos casos
em que restar comprovado que o evento danoso gerou sequelas ou complicações
para a vida da vítima, capazes de afetar seu foro íntimo.
Extrai-se dos autos que a autora Juliana Biasin apresentou trauma torácico, trauma de
ombro direito e ferimentos diversos, sendo submetida somente a exames radiológicos,
não sendo necessária qualquer intervenção cirúrgica ou internamento (fls. 28/29)
Assim como, a autora Juliana Regina de Carli, que apresentou trauma e hematoma de
quadril e ferimentos diversos, sendo submetida somente a exames radiológicos, não
sendo necessária qualquer intervenção cirúrgica ou internamento (fls. 34/35).
O fato de terem sido socorridas e enviadas ao hospital com lesões leves, por si só não
enseja a condenação por danos morais, vez que são procedimentos inerentes ao
acidente automobilístico.
Nota-se que as autoras sequer permaneceram um dia no hospital em questão,
tampouco, comprovaram terem ficado afastadas de suas atividades por certo período
de tempo, sendo liberadas para seus afazeres no mesmo dia.
Portanto, as autoras não tiveram nenhuma sequela que pudesse diminuir sua
autoestima ou que pudesse abalar sua moral, sendo indevida qualquer condenação a
título de danos morais.
Por fim, os requeridos pleiteiam o afastamento da assistência judiciária gratuita
deferida à autora Juliana Biasin, afirmando que esta adquiriu veículo zero quilometro a
vista e é proprietária de uma clínica estética, chamada Revitá Fotodepilação e Estética,
que aluga equipamentos de última geração nesta área.
Ora, o simples fato de ser proprietária de uma clínica de estética e ter adquirido o
veículo a vista, não enseja o afastamento do benefício concedido anteriormente, vez
que em nada comprova sua situação econômica atual.
Tendo em vista o resultado do presente recurso, necessário se faz redistribuir os ônus
sucumbenciais, vez que a autora decaiu em grande parte dos pedidos iniciais, de
modo que deverá arcar com 70% das custas processuais e honorários, os quais fixo em
15% sobre o valor da condenação, nos termos do art. 85, § 11, CPC, ficando os 30%
restantes a cargo dos requeridos.
Diante do exposto, dou parcial provimento ao apelo dos requeridos, para reformar a
sentença e reconhecer a culpa concorrente pelo acidente na proporção de 70% as
autoras e 30% aos requeridos, afastando os danos morais, redistribuindo os ônus
sucumbenciais e majorando os honorários e nego provimento ao apelo das autoras.
ACORDAM os Desembargadores da 8º Câmara Cível do Tribunal de Justiça do
Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao recurso
dos requeridos e negar provimento ao recurso das autoras, nos termos do voto relator.
Participou da sessão presidida pelo Desembargador Luiz Cezar Nicolau (com voto) e
acompanhou o voto do Relator o Excelentíssimo Senhor Desembargador Luis Sérgio
Swiech.
Curitiba, 18 de maio de 2017.
Des. VICENTE DEL PRETE MISURELLI

253

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

2.2.19. DANOS CAUSADOS POR ADVOGADO EM DEMANDA – PERDA DE UMA

CHANCE

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO INDENIZATÓRIA. PERDA DE UMA CHANCE. DANOS

CAUSADOS POR ATUAÇÃO DE ADVOGADO EM DEMANDA TRABALHISTA.

AGRAVO RETIDO. DESNECESSIDADE DE PROVA ORAL. AGRAVO NÃO PROVIDO.

MÉRITO. RESPONSABILIDADE CIVIL DE ADVOGADO. SUBJETIVA. RECLAMANTE

QUE NÃO FOI À AUDIÊNCIA INAUGURAL GERANDO O ARQUIVAMENTO DO

PROCESSO E POSTERIOR PRESCRIÇÃO DA PRETENSÃO. ALEGADA AUSÊNCIA DE

NOTIFICAÇÃO DO CLIENTE ACERCA DA DATA DO ATO E DO ARQUIVAMENTO,

BEM COMO DE MEDIDAS TENDENTES A IMPEDIR A PRESCRIÇÃO. NEGLIGÊNCIA

NÃO VERIFICADA. SENTENÇA MANTIDA. RECURSO NÃO PROVIDO.

(TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1656667-7 - Curitiba - Rel.: Vicente Del Prete Misurelli -

Unânime - J. 18.05.2017)

Inteiro Teor

Trata-se de Apelação Cível interposta contra a sentença que, nos autos da Ação
Indenizatória nº 0002105- 63.1999.8.16.0001, julgou improcedente o pedido inicial,
condenando o apelante ao pagamento das custas processuais e honorários
advocatícios, estes fixados em 10% sobre o valor da causa.
Em suas razões, pede o recorrente, preliminarmente, o provimento do agravo retido
de fls. 1633/1635, sob o fundamento de que a produção de provas em audiência é de
extrema importância, uma vez que o dano alegado na inicial não pode ser presumido.
Em segundo lugar, diz que, ante a impossibilidade de provar que não foi notificado da
data da audiência no seu processo trabalhista, por se tratar de prova negativa, o ônus
da prova cabia aos apelados, nos termos do art. 333, II, do CPC, do qual não se
desincumbiram. Afirma que é dever do patrono constituído cientificar o cliente acerca
dos atos processuais, pelo que deveriam os apelados ter provado nos autos que
notificaram o apelante para comparecimento na Justiça Federal. No mérito, defende
que a sua ausência em três audiências não pode ser tida como fruto de negligência,
pois foram todas justificadas e acolhidas pelo Juízo Trabalhista. Alega que se tivesse
sido notificado da quarta audiência certamente compareceria ou comprovaria a
impossibilidade. Argumenta que não existem provas de que não arcava com as
despesas de viagem dos advogados responsáveis pelo processo trabalhista. Defende

254

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

que os apelados foram negligentes ao não informar a data da quarta audiência,


restando caracterizado o ato ilícito.
Assevera que a sua irmã era mera estudante de direito e não trabalhava no escritório
contratado, pelo que o julgador de primeiro grau não poderia supor que ela tinha
ciência da data do ato se sequer existiam indícios nesse sentido. Ainda, defende que
nem mesmo os apelados comparecem à audiência para ao menos informar o Juiz do
Trabalho que não tinham mais contato com o cliente e que renunciavam ao mandato.
Ressalta, também, que não foi informado do arquivamento do feito trabalhista em
razão da ausência na audiência, nem da possibilidade de retomada da demanda.
Afirma que os recorridos foram notificados do retorno do processo trabalhista para o
arquivo em 23/07/1996, mas não tomaram qualquer medida para evitar a prescrição
do direito do recorrente, configurando-se o dever de indenizar por negligência.
Sustenta que contratou novos advogados para ingressar com outra demanda, sem
qualquer relação com o processo trabalhista, até porque na época não tinha ciência do
arquivamento do feito na Justiça do Trabalho. Ressalta que os apelados nunca
renunciaram ao mandato, sendo os responsáveis pelo processo trabalhista, motivo
pelo qual não podem se escusar pelo fato de o apelante ter contratado outros
patronos. Assevera existir nexo de causalidade entre a conduta culposa dos recorridos
(ausência de informação) e o dano sofrido (perda do direito trabalhista).
Contrarrazões (fls. 1688/1702 e 1711/1713).
É o relatório.
Voto.
Presentes os pressupostos de admissibilidade, conheço tanto do apelo quanto do
agravo retido interposto pelo autor ainda sob a égide do CPC/73.
Depreende-se das razões do retido que o autor pretendia a designação de audiência
de instrução para que os requeridos prestassem depoimento pessoal, bem como para
que fossem ouvidas testemunhas (fls. 1633/1635 e 1580).
Ocorre que a realização de prova oral em nada acrescentaria para a solução do caso,
apenas atrasando ainda mais o trâmite do processo, que se arrasta por quase 18 anos.
Veja-se que a fundamentação acerca da necessidade das provas pleiteadas é
genérica, sendo que sequer foram indicadas as testemunhas e aquilo que poderiam
efetivamente comprovar.
Não bastasse isso, todos os requeridos que foram mantidos no polo passivo do
processo apresentaram suas razões de defesa, tornando-se desnecessária a colheita
oral destes argumentos.
Vale ressaltar, além do mais, que anteriormente ao pedido de provas, o próprio autor,
em duas oportunidades, pediu o julgamento antecipado da lide, afirmando estar
satisfeito com as provas existentes nos autos (fls. 1407 e 1433).
Dessa forma, e considerando que as provas constantes nos autos são suficientes para
a solução adequada da demanda, nego provimento ao agravo retido.
Quanto ao mérito, observa-se dos autos que o apelante Marcos Roberto Gomes
ajuizou a presente ação indenizatória em 14/05/1999, em face do espólio de João
Régis Fassbender Teixeira, pedindo a condenação da parte ré ao pagamento de
indenização por perdas e danos decorrentes de serviços de advocacia.
255

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

Narra o recorrente na inicial que contratou os serviços do escritório do Dr. João Régis
Fassbender Teixeira para o ajuizamento de reclamatória trabalhista contra a empresa
General Eletric do Brasil S.A no ano de 1992.
Contudo, por negligência da banca de advogados, não foi notificado para
comparecer em audiência designada no processo trabalhista, tampouco informado
sobre o arquivamento do feito, o que acarretou a prescrição da ação e, por
consequência, a perda da chance de ter sua pretensão analisada, devendo ser
indenizado.
Pois bem.
Como se sabe, nos termos dos arts. 32, do Estatuto da Ordem dos Advogados do
Brasil, e 14, §4º, do CDC, a responsabilidade civil do advogado é subjetiva,
dependendo da comprovação do dolo ou da culpa do profissional nos atos praticados
durante o exercício da profissão.
Sobre o tema: TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1461219-0 - Curitiba - Rel.: Osvaldo Nallim
Duarte - Unânime - - J. 14.04.2016.
Nesse caminho, confrontando as teses e provas produzidas pelas partes, entende-se
que não ficou caracterizada a alegada negligência dos advogados na condução do
processo trabalhista, que teria acarretado a suposta prescrição da pretensão na justiça
especializada.
Pelo contrário, os fatos narrados pelo apelante demonstram que os causídicos foram
diligentes e até mesmo eficientes no acompanhamento do processo, devendo se dizer
que as circunstâncias criadas pelo próprio recorrente tiveram papel determinante para
o arquivamento do feito e perda da pretensão.
Na justiça do trabalho, o comparecimento de autor e réu na audiência inaugural é
fundamental para a continuidade da demanda.
É o que dispõe o art. 844, da CLT: O não comparecimento do reclamante à audiência
importa o arquivamento da reclamação, e o não comparecimento do reclamado
importa revelia, além de confissão quanto à matéria de fato.
No caso dos autos, ajuizada a ação trabalhista em 10/08/1992 (fls. 17/21), foi
designada audiência inaugural para 18/11/1992.
No dia marcado, o apelante não pode comparecer porque estava em Portugal, tendo
a advogada do escritório por ele contratado, Dra. Gisele Mattner, pedido o adiamento
da audiência, o que foi deferido pelo Juiz do Trabalho, sob a condição de que o
motivo da ausência fosse justificado.
Ressalte-se que o processo só não foi arquivado naquele momento porque, além da
advogada, fez-se presente o tesoureiro do sindicato da categoria do apelante o
representando (fls. 78/79).
Justificada a ausência, a audiência foi redesignada para 03/05/1993, porém, mais uma
vez, não ocorreu, em razão da ausência do apelante.
Então, outro advogado do escritório, Dr. Carlos Eduardo Bley, em acordo com a
empresa reclamada, pediu a remessa dos autos à uma das Varas do Trabalho do
Estado de São Paulo, o que foi deferido pelo Juiz do Trabalho (fl. 87).

256

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

Já em São Paulo, a audiência inaugural foi designada para 27/08/1993, todavia, teve
de ser adiada pela 3ª vez consecutiva, uma vez que novamente o recorrente estava
fora do país estudando, impossibilitando o prosseguimento da ação.
Veja-se que no pedido de adiamento, o advogado do apelante, Dr. João Régis
Fassbender Teixeira, solicitou que a nova audiência fosse marcada para depois de 13
meses, contados de setembro de 1993 (fl. 89/90), período supostamente ligado ao
término do curso do recorrente no exterior.
Tal pedido foi acolhido pelo Juiz do Trabalho e a audiência marcada para 04/11/1994,
tendo sido dirigida carta de intimação ao escritório, aos cuidados do advogado Dr.
Marcelo Alessi, em data de 02/09/1993 (fl. 91).
No dia da audiência (04/11/1994), ante o não comparecimento do apelante, foi
arquivada a reclamatória trabalhista (fl. 92).
Pois bem. De acordo com a narrativa acima, não é crível a tese de que os advogados
contratados pelo apelante atuaram de forma negligente, permitindo que a ação fosse
arquivada e declarada prescrita por falha na prestação dos serviços de advocacia.
A todo momento os causídicos foram diligentes, conseguindo o adiamento da
audiência inaugural por 03 vezes, tudo em razão de situações criadas pelo próprio
apelante, o qual, durante o tramitar inicial do processo (aproximadamente 02 anos),
encontrava-se fora do país, dificultando, por óbvio, a atuação dos patronos.
Outra circunstância que deve ser levada em consideração, e que foi omitida pelo
recorrente na inicial, é a de que o patrocínio da causa foi intermediado pela sua irmã
Adriana Regina Upitis Gomes.
Muito embora Adriana alegue que não trabalhava no escritório contratado pelo
apelante, tendo captado a ação na condição de aluna de direito do advogado Dr.
João Régis Fassbender Teixeira (fls. 1290/1293), toda a prova documental produzida
nos autos aponta que ela era a responsável direta por receber informações do trâmite
do processo e repassa-las ao irmão.
Veja-se que na procuração outorgada pelo recorrente para a propositura da
reclamatória trabalhista consta o nome de Adriana (fls. 14 e 96). A petição inicial da
reclamatória, assim como a ficha para cadastro do processo na Justiça do Trabalho,
foram assinadas por ela, inclusive como se fosse advogada, pois indicou números de
inscrições na OAB/PR (fls. 20 e 99).
Adriana também recebeu e assinou a notificação da audiência inaugural datada para
18/11/1992 como se advogada fosse (fl. 94). Além de tudo isso, há prova de que as
comunicações feitas pelo escritório eram dirigidas tanto para o autor quanto para sua
irmã (fl. 80/82).
Logo, tudo indica que o recorrente sempre foi assistido por sua irmã, sabendo de
todo o desenrolar do processo ajuizado na Justiça Trabalhista.
Estranha-se, ainda, o fato de que nas três primeiras audiências, os pedidos de
adiamento tinham como justificativa a ausência do recorrente no país. Ou seja, de
alguma forma o cliente informava aos advogados que não poderia comparecer aos
atos, pedindo que fossem adiados.
Acontece que o apelante não trouxe qualquer documento capaz de mostrar que, em
relação a essas audiências, foi notificado pelo escritório, fator que que faz perder força
257

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

a alegação de que não foi cientificado para a audiência em que houve o arquivamento
do processo ou, ainda, acerca do retorno dos autos ao arquivo geral.
Não bastasse isso, em nenhum momento ficou comprovada a data da prescrição da
pretensão trabalhista nos autos, inexistindo qualquer declaração formal nesse sentido
por parte da Justiça do Trabalho.
Mesmo assim, note-se que antes mesmo de encerrado o prazo prescricional de 02
anos, hipoteticamente contado da data do arquivamento do processo em 04/11/1994
(art. 7º, XXIX, da CF, e súmula 268, do TST), o recorrente havia constituído novos
patronos (22/03/1996 ­ fl. 39), com poderes para atuação inclusive em juntas de
conciliação.
Ou seja, como bem pontou o magistrado de primeiro grau, se houve a prescrição da
pretensão, a desídia do apelante contribuiu para tanto, vez que, da data do
arquivamento, tinha um longo período para evitar o perecimento do seu direito, não
podendo, assim, beneficiar-se da própria inércia.
Enfim, todas essas circunstâncias afastam a tese de que a suposta prescrição da ação
trabalhista decorreu de conduta negligente dos advogados trabalhista. Assim sendo,
tendo os réus se desincumbido a contento do ônus que lhe impunha o inciso II, do art.
333, do CPC/73, a manutenção da improcedência da ação é medida que se impõe.
Diante do exposto, nego provimento ao apelo, mantendo a sentença como lançada,
nos termos da fundamentação supra.
ACORDAM os Desembargadores da 8ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do
Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em negar provimento ao apelo, nos
termos do voto do relator.
Participou da sessão presidida pelo Desembargador Luiz Cezar Nicolau (com voto) e
acompanhou o voto do Relator o Excelentíssimo Senhor Desembargador Luis Sérgio
Swiech.
Curitiba, 18 de maio de 2017.
Des. VICENTE DEL PRETE MISURELLI

2.2.20. PLANO DE SAÚDE – TERAPIA OCUPACIONAL

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER.PLANO DE SAÚDE. CUSTEIO E

REEMBOLSO DE TERAPIAS.EQUOTERAPIA E MUSICOTERAPIA. PRESCRIÇÃO

MÉDICA.EXCLUSÃO CONTRATUAL. NÃO VERIFICADA. ROL ANS MERAMENTE

EXEMPLIFICATIVO. NEGATIVA. ABUSIVA.OBRIGATORIEDADE DE COBERTURA.

TERAPIA OCUPACIONAL. TRATAMENTO DE PROFISSIONAL DO PLANO DE SÁUDE

QUE NÃO SURTIA EFEITO. NÃO COMPROVAÇÃO. APELANTE QUE PREFERIU

258

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

MÉDICO PARTICULAR. REEMBOLSO DESNECESSÁRIO. SENTENÇA MODIFICADA

EM PARTE. RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO.

(TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1571507-0 - Cascavel - Rel.: Vicente Del Prete Misurelli -

Unânime - J. 18.05.2017)

Inteiro Teor

Trata-se de apelação cível nos autos de Ação de Obrigação de Fazer nº 0014938-


28.2014.8.16.0021, contra a sentença que julgou improcedentes os pedidos iniciais,
condenando o autor ao pagamento das custas processuais e honorários advocatícios,
fixados em R$2.000,00 (fls. 533/537).
Dessa sentença recorre RICARDO ROMANO JUNIOR, (representado) (fls. 544/564),
pleiteando, inicialmente, a aplicação do Código de Defesa do Consumidor e a
cobertura da Terapia Ocupacional, Musicoterapia e Equoterapia, além dó reembolso
dos valores gastos com estes tratamentos. Requer ainda, ser indenizado no montante
de R$30.000,00 a título de danos morais, em razão da negativa de cobertura.
Por fim, busca a redução dos honorários advocatícios fixados, caso não seja dado
provimento ao presente recurso.
A requerida apresentou contrarrazões de apelação (572/591), e a Procuradoria Geral
de Justiça se manifestou pelo conhecimento e parcial provimento do recurso (fls.
33/44-TJ).
É o relatório.
Voto.
Presentes os pressupostos de admissibilidade o recurso deve ser conhecido.
Cuida-se de pretensão de cobertura e ressarcimento das terapias prescritas pelo
médico do apelante diagnosticado com Síndrome de Down, que visam a melhora da
qualidade de vida (fl. 51-TJ), são elas, terapia ocupacional, musicoterapia e
equoterapia.
Inicialmente, cabe salientar, que os contratos de plano de saúde devem ser analisados
sob à luz do Condigo de Defesa do Consumidor, conforme determina a Súmula 469
do STJ.
Alega o apelante que, embora não tenha havido a negativa da cobertura da terapia
ocupacional, o tratamento disponibilizado pelo plano de saúde não estava surtindo os
mesmos efeitos que os obtidos pelo profissional particular.
Em que pese tal alegação, não há nos autos qualquer prova de que os métodos
empregados pelo profissional disponibilizado pelo plano de saúde, não estivesse
surtindo efeitos ou causando a piora do quadro do apelante, ônus que cabia ao
recorrente do qual não se desincumbiu, conforme disposto no art. 373, I do CPC.
No tocante a cobertura da musicoterapia e equoterapia, o contrato pactuado não
possue exclusão expressa destes tratamentos (fls. 35/37), o que é óbice para a
negativa de cobertura, levando em conta que o rol da ANS é apenas exemplificativo,
garantido apenas a cobertura mínima aos beneficiários.
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Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

Em casos análogos:
APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER. PLANO DE SAÚDE. CUSTEIO
DE TRATAMENTOS MULTIDISCIPLINARES.
[...]. TERAPIA OCUPACIONAL, FISIOTERAPIA, PSICOMOTRICIDADE,
MUSICOTERAPIA, EQUOTERAPIA E HIDROTERAPIA. NECESSIDADE EVIDENCIADA.
AUSÊNCIA DE PREVISÃO NO ROL DA ANS. ELENCO DE PROCEDIMENTOS
ESPECÍFICOS MERAMENTE EXEMPLIFICATIVO. EXCLUSÃO CONTRATUAL.
DOENÇA ABRANGIDA PELO PLANO CONTRATADO. OBRIGATORIEDADE DE
COBERTURA.
INTERPRETAÇÃO MAIS FAVORÁVEL AO CONSUMIDOR.
LIMITAÇÕES DE DIREITOS QUE DEVEM SER EXPRESSAS.
MÉTODOS NÃO EXCLUÍDOS EXPLICITAMENTE. MELHOR
TRATAMENTO QUE NÃO PODE SER DEFINIDO PELA RÉ.
ATRIBUIÇÃO DO MÉDICO. NEGATIVA ABUSIVA.
JURISPRUDÊNCIA DO STJ E DESTE TRIBUNAL. SENTENÇA MANTIDA.RECURSO A
QUE SE NEGA PROVIMENTO. (TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1585810-1 - Rel.: Clayton de
Albuquerque Maranhão - J. 02.02.2017).
E ainda: (TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1531006-6-Rel.: Gilberto Ferreira - J. 01.09.2016).
Portanto, a operadora é responsável pela cobertura e o ressarcimento dos valores
gastos com estas terapias (fls. 05), que serão corrigidos monetariamente pelo
INPC/IGP-DI, desde o desembolso até o efetivo pagamento, e juros de mora a contar
da citação (art. 405 do CC).
Com relação ao dano moral, configurar-se-ia caso houvesse a interrupção das terapias
em razão da negativa de cobertura e reembolso. Contudo, as terapias tiveram
continuidade, conforme demonstrado pelo apelante (fl. 05), não havendo, portanto,
dano passível de reparação.
Tendo em vista o êxito do apelante, redistribuo a sucumbência na proporção de 60%
para a apelada e 40% ao apelante. Fixo os honorários advocatícios em 15% sobre o
valor da condenação, a serem rateados conforme supra definido.
Diante do exposto, dou parcial provimento ao apelo, para determinar que a apelada
arque com as terapias necessárias e o reembolso a elas referente.
ACORDAM os Desembargadores da 8º Câmara Cível do Tribunal de Justiça do
Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao recurso,
nos termos do voto relator.
Participou da sessão presidida pelo Desembargador Luiz Cezar Nicolau (com voto) e
acompanhou o voto do Relator o Excelentíssimo Senhor Desembargador Luis Sérgio
Swiech.
Curitiba, 18 de maio de 2017.
Des. VICENTE DEL PRETE MISURELLI

260

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

2.2.21. RESPONSABILIDADE ODONTOLÓGICA – TRATAMENTO INTERROMPIDO

PELO PACIENTE

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO INDENIZATÓRIA.PROCEDIMENTO ODONTOLÓGICO.

IMPLANTE DE PRÓTESES DENTÁRIAS. OBRIGAÇÃO DE RESULTADO.INTERRUPÇÃO

DO TRATAMENTO PELA PACIENTE.INCONTROVERSO. FALHA NA PRESTAÇÃO

DOS SERVIÇOS. NÃO COMPROVADO. LAUDO PERICIAL QUE APONTA A

UTILIZAÇÃO DE MATERIAIS ADEQUADOS.TEMPO DE CONCLUSÃO DO

PROCEDIMENTO. REGULAR.LESÃO DE NERVO NÃO VERIFICADA. QUANTIA PAGA

EQUIVALENTE AO TRABALHO REALIZADO.IMPOSSIBILIDADE DE DEVOLUÇÃO.

DANOS MORAIS. NÃO COMPROVADO. RESPONSABILIDADE CIVIL SUBJETIVA.NÃO

CARACTERIZADA. DEVER DE INDENIZAR.AFASTADO. JUSTIÇA GRATUITA.

MANTIDA. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DE ALTERAÇÃO DA SITUAÇÃO

ECONÔMICA DA PARTE. SENTENÇA REFORMADA. APELO PROVIDO.

(TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1623297-4 - Curitiba - Rel.: Vicente Del Prete Misurelli -

Unânime - J. 18.05.2017)

Inteiro Teor

Nos autos da Ação Indenizatória nº 0028866- 77.2012.8.16.0001, a MM. Juíza da 2ª


Vara Cível do Foro central da Comarca da Curitiba julgou parcialmente procedentes os
pedidos iniciais, condenando o réu ao pagamento de indenização por danos materiais
no valor de R$ 13.690,00 (treze mil seiscentos e noventa reais) e danos morais no valor
de R$ 8.000,00 (oito mil reais), em razão da falha na prestação de serviços
odontológicos, além das custas processuais e honorários advocatícios, estes fixados
em 10% sobre o valor da condenação (fls. 296/304 ­ 333/334).
Da sentença recorre o réu CARLOS ROBERTO RABELLO (fls. 340/357), sustentando
que o procedimento de implante dentário não foi concluído em razão do abandono
do tratamento pela autora, sem que apresentasse qualquer justificativa. Afirma que
não foram comprovados os valores pagos, sendo indevida a devolução da quantia de
R$ 13.690,00 (treze mil seiscentos e noventa reais). Alega a nulidade da prova
testemunhal produzida nos autos, pois as testemunhas não presenciaram os fatos. Por
fim, impugna a concessão do benefício da justiça gratuita a autora.
Contrarrazões (fls. 367/378).
É o relatório.
Voto.
Presentes os pressupostos de admissibilidade, conheço do apelo.

261

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Trata-se de pretensão indenizatória movida em face do apelante, em que se busca o


reembolso dos valores pagos pelo tratamento de implante dentário de oito próteses e
a reparação dos danos morais sofridos, pela falha na prestação do serviço.
É incontroverso nos autos a contratação verbal dos serviços odontológicos e que o
tratamento foi interrompido antes de sua conclusão, em razão do abandono deste
pela autora. Entretanto, reside a polêmica na regularidade do procedimento realizado,
bem como os termos do contrato, especialmente o valor acordado e o prazo para
execução.
Por meio da sentença, o magistrado de origem entendeu que o réu não atingiu o
resultado pretendido pela autora no tratamento dentário e não comprovou a ausência
de culpa por isto. Assim, determinou a devolução dos pagamentos comprovados nos
autos, no montante de R$ 13.690,00 (treze mil seiscentos e noventa reais).
Em que pese o posicionamento adotado em sentença, pelos fatos narrados e
documentos juntados aos autos, tem-se que foi devidamente comprovado que a falha
na prestação dos serviços odontológicos decorreu do abandono do tratamento pela
apelada.
Na petição inicial, a autora alega que acordou o valor de R$ 18.000,00 (dezoito mil
reais) para o implante de 8 (oito) próteses dentárias.
A perícia odontológica realizada nos autos (fls. 201/205) constatou, com base na
radiografia panorâmica realizada em 2010, época do abandono do tratamento, que
“[...] a paciente apresentava (06 (seis) implantes osseointegrados nas regiões dos
dentes 14, 15, 25, 26 36, 37, 46, 47” (fls. 204).
Ainda, conforme afirmado na exordial, a apelada havia pago a quantia de R$
13.690,00 (treze mil seiscentos e noventa reais) quando decidiu por interromper o
tratamento odontológico.
Diante deste panorama, é possível aferir com clareza que: se de um lado o
ortodontista não concluiu o tratamento, realizando o implante de somente 6 (seis) das
8 (oito) próteses, de outro lado a paciente também não realizou o pagamento da
integralidade do valor acordado.
Não há como imputar a falha na conclusão dos implantes dentários ao apelante,
quando sequer lhe foi oportunizada a sua conclusão. O fato do tratamento ter
demorado mais que o esperado não representa, por si só, o erro procedimental, vez
que a recuperação da intervenção cirúrgica depende da reação biológica da paciente,
na integração óssea e cicatrização.
O laudo pericial afirmou expressamente que o “[...] modelo de implante pode ser
indicado no caso desta paciente” (fls. 201), que “a paciente já está com as próteses
instaladas sobre os implantes” (fls. 202), que “no exame clínico a paciente apresentou-
se com sensibilidade normal á à palpação” e “o exame tomográfico realizado em
16.06.2015 não revela nenhuma lesão no nervo alveolar inferior” (fls. 203), que “a
instalação de implantes pode trazer um desconforto temporário imediato para o
paciente pois é um ato cirúrgico” (fls. 204/205).
De outro lado, não foi constatada qualquer irregularidade no procedimento
odontológico. De igual forma, as testemunhas arroladas na audiência de instrução e

262

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julgamento não presenciaram os fatos, não servindo para embasar as alegações


iniciais.
Nos termos do art. 373, I do CPC: “o ônus de prova incumbe ao autor, quanto ao fato
constitutivo de seu direito” e no inciso II: “ao réu, quanto à existência de fato
impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor”.
Em que pese a incidência do Código de Defesa do Consumidor no presente caso,
entende-se que o apelante comprovou que agiu em conformidade com o
procedimento padrão de implante dentário, sendo esta a conclusão extraída pela
leitura do laudo pericial.
Não havendo qualquer prova que agiu de forma irregular, imprudente, negligente ou
imperita (art. 14, § 4º do CDC), não restou configurada a sua responsabilidade civil
acerca dos fatos. Confira-se a jurisprudência acerca do tema:
APELAÇÃO CÍVEL. RESPONSABILIDADE CIVIL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR
DANOS MORAIS E MATERIAIS. [...] TRATAMENTO ODONTOLÓGICO. EXODONTIA
E COLOCAÇÃO DE PRÓTESE. OBRIGAÇÃO DE RESULTADO. TRATAMENTO QUE
NÃO FOI CONCLUÍDO POR ABANDONO DA PACIENTE.
OPÇÃO POR OUTRO PROFISSIONAL. CULPA DO PROFISSIONAL NÃO
DEMONSTRADA [...] (TJPR 8ª C.C. AC 1491768-7 Região Metropolitana de Londrina
Foro Central de Londrina Rel.: Clayton de Albuquerque Maranhão Unânime J.
05.05.2016).
Quanto aos valores despendidos, não é devido o reembolso. A quantia paga
corresponde ao serviço realizado. Inicialmente, foi acordado o valor de R$ 18.000,00
para a realização dos serviços, desta quantia foi pago R$ 13.690,00, porém realizou-se
o implante de 6 das 8 próteses, bem como não foi realizada a etapa final do
tratamento.
Portanto, a devolução dos valores pagos corresponderia em enriquecimento ilícito da
apelada, pois não há como desconsiderar que foi realizado parcialmente o serviço
contratado.
Em relação ao excedente de R$ 18.000,00 que a apelada alegou ter sido cobrada
para a continuidade do tratamento, não há qualquer prova nos autos neste sentido,
motivo pelo qual deve ser considerado inexistente tal episódio, não possuindo o
condão de influir da solução da controvérsia. Confira-se: “ALLEGATIO ET NON
PROBATIO QUASI NON ALLEGATIO” (TJPR - 14ª C.Cível - AI - 1553347-6 - Curitiba -
Rel.: Themis Furquim Cortes - Unânime - - J. 21.09.2016).
Quanto aos danos morais alegados, estes não prosperam, visto que não foi
comprovada qualquer ofensa a honra da apelada, nem demonstrou ter passado por
situação desabonadora de sua conduta. Não se vislumbra atraso excessivo no
tratamento, vez que desde o primeiro pagamento, data em que o tratamento foi
iniciado, até o último decorreram 12 (doze) meses (fls. 07/08).
Tal prazo não é excessivo frente ao período normal indicado pela perita: no mínimo
de 8 (oito) meses (fls. 202), principalmente em se considerado que se trata de
intervenção cirúrgica, que a recuperação varia conforme cada paciente.

263

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Deste modo, em razão da ausência de responsabilidade civil do apelante acerca dos


fatos alegados na petição inicial, deve ser afastada a indenização por danos materiais e
morais fixada em sentença, devendo ser julgada improcedente a pretensão inicial.
Condeno a apelada (autora) ao pagamento das custas processuais e honorários
advocatícios, os quais fixo em 10% sobre o valor da causa, nos termos do art. 85, § 2º
do CPC.
Mantenho o benefício da justiça gratuita inicialmente concedido, vez que o apelante
não comprovou que a apelada possui condições que arcar com os ônus
sucumbenciais, bem como não observou o procedimento previsto no art. 100 do CPC.
Sobre o tema: (TJPR - 17ª C.Cível - AC - 1598284-6 - Curitiba - Rel.: Luciane Bortoleto -
Unânime - - J. 15.03.2017).
Diante do exposto, dou provimento ao recurso, para afastar a indenização por danos
materiais e morais fixada em sentença e julgar improcedente a pretensão inicial, nos
termos do art. 487, I do CPC.
Condeno a autora ao pagamento das custas processuais e honorários advocatícios,
estes fixados em 10% sobre o valor da causa, observado o benefício da justiça gratuita
concedido, nos termos da fundamentação supra.
ACORDAM os Desembargadores da 8º Câmara Cível do Tribunal de Justiça do
Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso, nos
termos do voto relator.
Participou da sessão presidida pelo Desembargador Luiz Cezar Nicolau (com voto) e
acompanhou o voto do Relator o Excelentíssimo Senhor Desembargador Luis Sérgio
Swiech.
Curitiba, 18 de maio de 2017.
Des. VICENTE DEL PRETE MISURELLI

2.2.22. CONTRATAÇÃO DE FINANCIAMENTO POR ESTELIONATÁRIO – TEORIA

DO RISCO

APELAÇÃO CÍVEL. OBRIGAÇÃO DE FAZER C/C DANOS MORAIS. FINANCIAMENTO

CONTRATADO POR ESTELIONATÁRIO. FALHA NA PRESTAÇÃO DE

SERVIÇO.TEORIA DO RISCO. RESPONSABILIDADE OBJETIVA.DEVER DE

INDENIZAR. CONFIGURADO. OFICIO A SER EXPEDIDO AO DETRAN. INCLUSÃO DA

ORDEM DE RESTRIÇÃO E BLOQUEIO. CULPA CONCORRENTE PELA DEMORA NA

REGULARIZAÇÃO. DANOS MORAIS.MINORADOS. HONORÁRIOS. MAJORADOS.

SENTENÇA REFORMADA. APELO PARCIALMENTE PROVIDO

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(TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1650315-4 - Curitiba - Rel.: Vicente Del Prete Misurelli -

Unânime - J. 18.05.2017)

Inteiro Teor

Trata-se de Apelação Cível em face de sentença que julgou procedente os pedidos


iniciais, reconhecendo a inexistência de propriedade do autor para com o veículo,
objeto da ação, determinando expedição de ofício ao DETRAN/SP e condenando o
requerido ao pagamento de R$ 15.000,00 a título de danos morais, devidamente
corrigidos e acrescidos de juros de mora, além das custas processuais e honorários
advocatícios, fixados em 10% sobre o valor da condenação (fls. 245/250).
Inconformado, o réu afirma que não foi observada a
Cível nº 1.650.315-4 fl. 2 atual condição do veículo, já que este foi objeto de fraude e
não se encontra em sua posse, não podendo ser responsabilizada pelos débitos
originados por terceira pessoa, devendo ser acrescentado no oficio a ordem de
restrição a circulação e bloqueio, adiante, afirma que não agiu com culpa, inexistindo o
dever de indenizar, já que também foi vítima da fraude.
Sucessivamente, pleiteia sua minoração (fls. 287/299).
Contrarrazões (fls. 311/318).
É o relatório.
Voto.
Presentes os pressupostos de admissibilidade conhece-se do recurso.
Extrai-se dos autos que o autor teve seus documentos pessoais roubados na data de
08/04/2003, conforme Boletim de Ocorrência (fls.17/19) e, posteriormente, em
outubro do mesmo ano ao tentar realizar uma compra a crédito foi informado que seu
nome estava negativado em decorrência do não pagamento de um financiamento,
referente a um veículo Ford KA de placa CSW-4111, junto a instituição ré (fls.22), que
não havia contratado, registrando a ocorrência de estelionato (fls.19).
Após entrar em contato com a requerida e explicar a situação, esta desvinculou o
autor do financiamento e retirou seu nome dos órgãos de proteção ao crédito (fls.33),
entretanto, não promoveu a regularização junto ao órgão de trânsito, vindo o autor a
ser surpreendido com cobranças de IPVA e multas (fls. 34/42) e inscrito em dívida ativa
(fls.217/219).
Cível nº 1.650.315-4 fl. 3 Ao julgar a lide procedente, o magistrado em primeira
instância considerou que a inscrição indevida do nome do autor gerou danos morais,
fixando a quantia em R$ 15.000,00, determinando a expedição de ofício ao
DETRAN/SP para que transfira a propriedade do veículo ao requerido desde a data de
08/08/2003, bem como, todos os débitos que o acompanham.
Por sua vez, o apelante defende que a sentença não observou a atual condição do
veículo, que se encontra em posse de terceiro em local incerto, devendo ser
acrescentado, no ofício a ser expedido ao DETRAN/SP a ordem de restrição a
circulação do veículo e ordem de bloqueio por estelionato, devendo ser excluído os

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débitos, multas e o gravame em nome do financiado, já que é impossibilitado de


proceder tal medida, conforme art. 123, CTB.
Parcial razão lhe assiste.
Conforme bem expôs, o veículo continua em local incerto sob a posse de terceiro,
devendo ser incluído no ofício a ser expedido ao DETRAN/SP, as ordens de restrição a
circulação do veículo e bloqueio por estelionato.
Entretanto, não há o que se alterar no ofício com relação a transferência de sua
propriedade ao apelante desde a data de 08/08/2003, bem como, todos os gravames
fiscais, já que quem deu causa ao evento danoso, ao falhar com seu dever de
vigilância, permitindo a contratação por estelionatário foi a própria apelante, devendo
arcar com todas as despesas originadas. Conforme: (TJPR - 9ª C.Cível - AI - 1574588-7
- Região Metropolitana de Londrina - Foro Central de Londrina - Rel.: Vilma Régia
Ramos de Rezende - Unânime - - J. 24.11.2016).
Cível nº 1.650.315-4 fl. 4 Prosseguindo, o apelante defende a inocorrência de danos
morais já que não houve culpa por sua parte, já que também foi vítima da ação
perpetrada por falsificadores.
Ocorre que o CDC nos moldes do §único do art. 927 do Código Civil, adotou a teoria
do risco do empreendimento, não sendo necessária a comprovação da culpa da
instituição bancária na configuração do evento danoso, uma vez que a
responsabilidade decorre justamente do risco da sua atividade econômica. Conforme
(TJPR - 14ª C.Cível - AC - 1556044-2 - Altônia - Rel.: Fernando Antonio Prazeres -
Unânime - - J. 03.08.2016).
Também não há como afastar a falha na prestação do serviço e a culpa in vigilando ao
não conferir adequadamente os documentos, com fotografia e assinatura,
apresentados no momento da contratação, permitindo que pessoa estranha
contratasse o financiamento em nome do autor e sua inscrição indevida nos órgãos de
proteção ao crédito.
Com relação ao quantum fixado a título de danos morais, por certo que não existem
parâmetros objetivos para fixação do quantum indenizatório, sendo necessário levar
em consideração alguns aspectos, como capacidade econômica do ofensor e da
vítima, as particularidades do caso concreto, como a extensão do dano, observados
sob a ótica do princípio da razoabilidade e proporcionalidade, dentro da finalidade à
qual se destina, punir o ofensor, compensar a vítima e dissuadir nova prática, sem que
isso cause enriquecimento ilícito da parte.
Conforme abaixo:
Cível nº 1.650.315-4 fl. 5 “(...) A fixação do valor da compensação pelos danos morais
deve balizar-se entre a justa composição e a vedação do enriquecimento ilícito,
levando-se em consideração o critério da proporcionalidade, bem como as
peculiaridades de cada espécie”. (STJ - REsp 1034302 / RS Terceira Turma Rel.
Ministra NANCY ANDRIGHI - DJe 27/04/2011).
Pois bem, não há nos autos elementos que comprovem a capacidade econômica do
autor, simplesmente o fato de que não litigou pelo manto da justiça gratuita, por sua
vez, o requerido é instituição financeira de grande porte e elevada capacidade
econômica.
266

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Quanto as particularidades, nota-se que por mais que a apelante tenha negativado o
nome do autor em função do financiamento contratado por estelionatário,
prontamente reparou seu equivoco ao ser informado pelo apelado sobre a ocorrência
de fraude, promovendo o fim do financiamento e baixa da inscrição indevida, ainda
em sede administrativa, o que certamente fez diminuir a extensão do dano.
Ocorre que após a regularização do financiamento, nenhuma das partes promoveu a
transferência de propriedade junto ao órgão de trânsito, originando dividas
decorrentes dos IPVAs não pagos em nome do autor, e sua inscrição em dívida ativa.
Cumpre observar que nenhuma das partes poderia promover a transferência de
propriedade do veículo, vez que não detinham sua posse, tampouco os documentos
exigidos, mas deve-se considerar que o interesse, da transferência e a regularização da
propriedade junto ao DETRAN/SP, era inteiramente do autor, que deveria ter
ingressado com demanda judicial requerendo a expedição de ofício para regularização
cadastral.
Cível nº 1.650.315-4 fl. 6 Assim, ao não diligenciar em tempo oportuno, deixando
transcorrer longo período para o ajuizamento da ação, o autor agiu em culpa
concorrente para o longo período que o veículo originou dividas em seu nome e a
futura inscrição em dívida ativa pelo não pagamento dos IPVAs.
Assim, observadas tais particularidades, em conjunto com os parâmetros utilizados
por esta Câmara de Justiça, entende-se que a indenização deve ser minorada para R$
5.000,00, assegurando ao autor, de forma suficiente, a justa reparação pelo dano
sofrido sem lhe causar enriquecimento ilícito, nem mesmo provocar ínfimo decréscimo
do patrimônio da lesante, sendo adequado ainda a reprimir que tais condutas se
repitam.
Por fim, quanto aos honorários advocatícios, não há o que se falar em sua minoração,
conforme pretende a apelante, vez que aplicados no menor patamar possível, sendo
inclusive, o caso de majoração, conforme o exposto no art. 85, § 11, CPC, de modo
que fixo em 12% sobre o valor da condenação.
Diante do exposto, dou parcial provimento ao recurso para incluir no oficio a ser
expedido ao DETRAN/SP as ordens de restrição a circulação do veículo e de bloqueio
por estelionato, majorando os honorários.
ACORDAM os Desembargadores da 8ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do
Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao recurso,
nos termos do voto do relator.
Cível nº 1.650.315-4 fl. 7 Participou da sessão presidida pelo Desembargador Luiz
Cezar Nicolau (com voto) e acompanhou o voto do Relator o Excelentíssimo Senhor
Desembargador Luis Sérgio Swiech.
Curitiba, 18 de maio de 2017.
Des. VICENTE DEL PRETE MISURELLI

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2.2.23. QUEDA NO INTERIOR DO ÔNIBUS – RESPONSABILIDADE DO

TRANSPORTADOR

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO INDENIZATÓRIA. DANOS MATERIAIS, MORAIS E

ESTÉTICOS. QUEDA NO INTERIOR DE ÔNIBUS. PESSOA JURÍDICA DE DIREITO

PRIVADO PRESTADORA DE SERVIÇO PÚBLICO. RESPONSABILIDADE OBJETIVA.

FORTUITO INTERNO. CARACTERIZADO. FATO DE TERCEIRO CONEXO A

ATIVIDADE DE TRANSPORTE E LIGADO AOS RISCOS DO PRÓPRIO NEGÓCIO.

CULPA EXCLUSIVA DA VÍTIMA NÃO CONFIGURADA. CLÁUSULA DE

INCOLUMIDADE. VIOLADA. DEVER DE INDENIZAR.MANTIDO. CONDENAÇÃO

SOLIDÁRIA. SEGURADORA E SEGURADO. POSSIBILIDADE. PRECEDENTES DO

STJ.DANOS MORAIS. REDUZIDOS. JUROS DE MORA. TERMO INICIAL. CITAÇÃO.

SENTENÇA ALTERADA DE OFÍCIO. LUCROS CESSANTES. NÃO

COMPROVADOS.RESPONSABILIDADE AFASTADA. CLÁUSULA ESPECIAL DE

FREADA BRUSCA. CONTRATADA. APLICAÇÃO DEVIDA.SUCUMBÊNCIA.

REDISTRIBUÍDA. APELOS PARCIALMENTE PROVIDOS.

(TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1654529-4 - Cascavel - Rel.: Vicente Del Prete Misurelli -

Unânime - J. 18.05.2017)

Inteiro Teor

Trata-se de Apelações Cíveis interpostas contra a sentença que, nos autos de Ação
Indenizatória n. 0030405- 81.2013.8.16.0021, julgou procedente em parte o pedido
inicial, condenando os apelantes solidariamente ao pagamento de indenização por
danos morais no valor de R$ 30.000,00 e lucros cessantes no valor de R$ 3.600,00,
abatido o valor do DPVAT recebido pela apelada. Pela sucumbência, condenou as
recorrentes ao pagamento das custas processuais e honorários advocatícios, estes
fixados em 10% sobre a condenação (fls. 441/449).
Em suas razões, CIA MUTUAL DE SEGUROS pede, em primeiro lugar, a concessão
dos benefícios da gratuidade da justiça, por estar em processo de liquidação
extrajudicial. No mérito, defende a inexistência de nexo de causalidade entre a
conduta do motorista e os danos sofridos pela apelada em razão da queda.
Sucessivamente, diz que houve culpa exclusiva da vítima. Ainda, diz ser incabível
indenização por danos morais, pedindo, caso contrário, a redução do valor. Afirma que
os lucros cessantes devem ser comprovados, ônus do qual não se desincumbiu a
apelada. Sucessivamente, assevera que não há no contrato de seguro cláusula

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Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

expressa de cobertura para lucros cessantes, não podendo ser responsabilizada.


Defende que a apólice prevê cláusula especial de cobertura para quedas decorrentes
de frenagem brusca, devendo ser aplicada mediante o pagamento/desconto da
franquia contratada. Aduz inexistir solidariedade entre denunciante e denunciada, mas
apenas obrigação contratual da denunciada de reembolso de eventual condenação,
nos limites da apólice. No mais, diz que a decretação de liquidação extrajudicial da
seguradora impõe a suspensão da ação após o trânsito em julgado e da fluência dos
juros e correção monetária. Por fim, alega que o termo inicial dos juros de mora deve
ser a data da sentença e que o seguro DPVAT recebido pela apelada deve ser
integralmente abatido da condenação (fls. 472/498).
Por sua vez, a apelante VIAÇÃO CAPITAL DO OESTE LTDA defende que o acidente
ocorreu por culpa exclusiva de terceiro e da própria vítima. No mais, diz que o fato da
recorrida ter sido internada por alguns dias e ter se afastado do trabalho não geral
dano moral, tratando-se de mero aborrecimento. Sucessivamente, pede a redução da
indenização.
Quanto aos lucros cessantes, alega que ficou comprovado que o afastamento do
trabalho se deu por 30 dias e não 6 meses, pedindo a redução da indenização para R$
600,00. Defende que a cláusula especial de frenagem brusca não pode ser aplicada
porque não foi contratada, devendo ser declarada a responsabilidade de indenizar da
seguradora até os limites fixados na apólice para danos morais, corporais e materiais.
Por fim, aduz que houve sucumbência recíproca, devendo a apelada arcar com 50%
das custas processuais e honorários advocatícios (fls. 577/589).
Contrarrazões (fls. 603/613 e 619/628).
É o relatório.
Voto.
1. Gratuidade da Justiça.
Inicialmente, concedo à apelante COMPANHIA MUTUAL DE SEGUROS os benefícios
da gratuidade da justiça, vez que, além de se encontrar em processo de liquidação
extrajudicial, comprovou insuficiência de recursos por meio de relatórios técnicos de
2015 e 2016 que apontam patrimônio líquido negativo de mais de 39 milhões (fls.
510/523 e 537/564).
Desse modo, presentes os pressupostos de admissibilidade, conhece-se dos recursos.
2. Responsabilidade da empresa ré.
Trata-se de ação indenizatória movida por ROSELI FACENDA PADILHA, em face da
empresa VIAÇÃO CAPITAL DO OESTE LTDA, por conta de queda ocorrida dentro de
ônibus de propriedade da ré, que presta serviços em nome do Município de Cascavel.
Pelo que consta dos autos, enquanto a autora se preparava para pagar a passagem
logo após embarcar, foi arremessada contra o painel dianteiro do veículo em razão de
frenagem brusca do motorista do ônibus, sofrendo lesões que a levaram a
internamento de 8 dias e afastamento do trabalho por 6 meses.
Na contestação, houve denunciação da lide à seguradora, sobrevindo sentença de
parcial procedência.
Ambas as rés recorrem a esta Corte.
Pois bem.
269

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O Superior Tribunal de Justiça possui jurisprudência consolidada no sentido de que a


responsabilidade no transporte de pessoas é objetiva, somente podendo ser afastada
caso o transportador demonstre a quebra do nexo de causal entre o serviço prestado
e os danos sofridos pela vítima.
Nesse sentido:
Conforme concordam doutrina e jurisprudência, a responsabilidade decorrente do
contrato de transporte de pessoas é objetiva, sendo obrigação do transportador a
reparação do dano causado ao passageiro quando demonstrado o nexo causal entre a
lesão e a prestação do serviço, pois o contrato de transporte acarreta para o
transportador a assunção de obrigação de resultado, impondo ao concessionário ou
permissionário do serviço público o ônus de levar o passageiro incólume ao seu
destino. É a chamada cláusula de incolumidade, que garante que o transportador irá
empregar todos os expedientes que são próprios da atividade para preservar a
integridade física do passageiro, contra os riscos inerentes ao negócio, durante todo o
trajeto, até o destino final da viagem (EREsp 1318095/MG, Rel. Ministro RAUL
ARAÚJO, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 22/02/2017, DJe 14/03/2017).
No caso dos autos, como bem entendeu a sentença, a contribuição do terceiro para o
acidente é incapaz de autorizar o afastamento da responsabilidade civil da empresa de
transporte, vez que caracteriza fortuito interno.
Ou seja, a invasão e parada repentina de outro veículo na pista em que o ônibus
trafegava, gerando a necessidade de freada brusca, é situação conexa com a atividade
desenvolvida pelo transportador e relacionada com os riscos do negócio, não
possuindo o condão de elidir o liame de causalidade entre a prestação do serviço e as
lesões sofridas pela vítima.
Sobre o tema, confira-se:
O fato de um terceiro ser o causador do dano, por si só, não configura motivo
suficiente para elidir a responsabilidade do transportador, sendo imprescindível aferir
se a conduta danosa pode ser considerada independente (equiparando-se a caso
fortuito externo) ou se é conexa à própria atividade econômica e aos riscos inerentes à
sua exploração (REsp 1136885/SP, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA
TURMA, julgado em 28/02/2012, DJe 07/03/2012)
Na linha dos precedentes desta Corte, acidentes ocorridos em auto-estradas, mesmo
por culpa exclusiva de terceiros, são considerados fortuitos internos, incapazes, por
isso, de afastar a responsabilidade Civil do transportador (AgRg nos EDcl no REsp
1318095/MG, Rel. Ministro SIDNEI BENETI, TERCEIRA TURMA, julgado em
19/06/2012, DJe 27/06/2012)
De igual modo, da forma como narrada a situação por ambas as partes, e
complementada pela prova oral, não há como atribuir culpa exclusiva à vítima (fls.
03/05, 122, 425).
Não havia como a recorrida se apoiar com segurança e, ao mesmo tempo, efetuar o
pagamento da passagem ao cobrador, vez que necessitava retirar o dinheiro/vale-
transporte de sua bolsa para poder passar a roleta, sendo que o motorista arrancou o
veículo sem se certificar que a vítima estava devidamente segura, descumprindo a
cláusula de incolumidade inerente ao contrato de transporte.
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A respeito da questão, ensina Sérgio Cavalieri Filho1:


Sem dúvida, a característica mais importante do contrato de transporte é a cláusula de
incolumidade que nele está implícita. A obrigação do transportador não é apenas de
meio, e não só de resultado, mas também de segurança (...) Em suma, entende-se por
cláusula de incolumidade a obrigação que tem o transportador de conduzir o
passageiro são e salvo ao lugar de destino.
Assim, diante destas circunstâncias, inexistindo culpa exclusiva de terceiro ou da
vítima, não há como afastar a responsabilidade da empresa de transporte, devendo a
apelada ser indenizada pelos danos sofridos.
3. Danos morais.
Com relação aos danos morais, entende-se que a situação vivenciada pela apelada
transborda os limites do mero aborrecimento, demandando reparação.
Note-se que em razão do acidente ocorrido em 13/10/2011 a recorrida foi levada ao
pronto socorro de uma Unidade de Pronto Atendimento Municipal e, posteriormente,
a hospital credenciado pelo SUS, onde ficou internada até o dia 20/10/2011, ou seja,
por 7 dias, submetendo-se a inúmeros atendimentos e exames.
Sofreu lesões na coluna e na mão, tendo de utilizar colar cervical por 90 dias e se
afastar do trabalho por, no mínimo, 30 dias (fls. 17/61 e 134/135). Além do mais,
necessitou do cuidado de terceiros, inclusive para as necessidades básicas, e não teve
qualquer auxílio por parte da empresa de ônibus, tudo colhido da prova oral.
Desse modo, inquestionável o sofrimento psicológico da vítima com toda essa
situação vivenciada, impondo-se a manutenção da responsabilidade de indenizar das
apelantes.
Quanto ao valor da indenização, ambas as recorrentes pedem redução, alegando ser
excessivo. Ante a ausência específica de parâmetros, a doutrina e a jurisprudência vem
considerando as circunstâncias do caso concreto, o alcance da ofensa e a capacidade
econômica do ofensor e do ofendido, para fins do arbitramento.
Além disso, desataca-se que a quantia não pode configurar enriquecimento indevido,
devendo servir precipuamente para compensar a vítima pelo dano sofrido e sancionar
o causador do prejuízo de modo a evitar futuros desvios.
Nessa linha, atendendo aos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade,
cumprindo, ainda, o caráter reparatório e pedagógico da condenação, entende-se que
o valor de R$ 30.000,00 é excessivo, devendo ser reduzido para R$ 20.000,00, valor
capaz de reparar o sofrimento da vítima e que se amolda a caso semelhante julgado
por esta Câmara.
Confira-se:
APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS E MATERIAIS.
CONTRATO DE TRANSPORTE. QUEDA DE PASSAGEIRO AO INGRESSAR NO
ÔNIBUS COLETIVO.1.
DANO MORAL. IN RE IPSA. VALOR. MAJORAÇÃO.
POSSIBILIDADE. ANÁLISE DO CASO CONCRETO.
OBSERVÂNCIA DOS PARÂMETROS DE PROPORCIONALIDADE E RAZOABILIDADE.
QUANTIA QUE MELHOR ATENDE À TRÍPLICE FUNÇÃO. INDENIZAÇÃO MAJORADA
PARA R$20.000,00 (VINTE MIL REAIS).2. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS
271

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

SUCUMBENCIAIS MANTIDOS.RECURSO CONHECIDO E PARCIALMENTE PROVIDO


(TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1402604-5 - Curitiba - Rel.: Luis Sérgio Swiech - Unânime - - J.
01.10.2015)
Portanto, dá-se provimento a ambos os recursos interpostos, para o fim de reduzir a
indenização por danos morais.
4. Lucros cessantes.
Quanto aos lucros cessantes, embora a recorrida tenha demonstrado que exercia a
atividade de diarista na época do acidente, não comprovou nos autos aquilo que
efetivamente deixou de lucrar durante o período de recuperação do acidente,
sugerindo o valor da condenação.
Sem prova daquilo que objetiva e concretamente
deixou de ganhar, não há que se falar em lucros cessantes, que não compreende
lucro imaginário, hipotético ou dano remoto (Nesse sentido: STJ - REsp 1129538/PA ­
4ª Turma ­ Rel. Min. Honildo Amaral de Mello Castro ­ DJ 14/12/2009).
Logo, há que se dar provimento ao recurso da seguradora neste ponto, a fim de se
afastar a indenização por lucros cessantes, restando prejudicados os demais
argumentos relacionados a este tópico.
5. Responsabilidade da seguradora denunciada à lide.
Defende a seguradora que não existe solidariedade entre denunciante e denunciada,
mas apenas a obrigação desta de reembolsar eventual indenização a que venha a ser
condenada aquela, nos limites da apólice.
Sem razão.
De acordo com entendimento firmado pelo STJ, é perfeitamente possível a
condenação solidária da seguradora em casos como o dos autos, veja-se:
“É possível a condenação da seguradora, direta e solidariamente com o segurado, a
pagar indenização devida à vítima de acidente de trânsito, nos limites contratados na
apólice, na hipótese em que a seguradora comparece em juízo aceitando a
denunciação da lide feita pelo segurado” (AgInt no AREsp 890.215/SP, Rel. Ministra
MARIA ISABEL GALLOTTI, QUARTA TURMA, julgado em 16/03/2017, DJe
21/03/2017)
Outro não é o entendimento desta Câmara: TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1547324-6 - Foz
do Iguaçu - Rel.: Gilberto Ferreira - Unânime - - J. 29.09.2016. Assim, fica mantida a
sentença neste ponto.
6. Denunciação da lide ­ Da Cláusula especial de frenagem brusca.
Defende a apelante COMPANHIA MUTUAL DE SEGUROS que a apólice prevê
cláusula especial de cobertura para quedas decorrentes de frenagem brusca, que deve
ser aplicada mediante o pagamento/desconto da franquia contratada.
Por outro lado, a recorrente VIAÇÃO CAPITAL DO OESTE LTDA sustenta que essa
cláusula não pode ser aplicada porque não foi contratada, devendo ser declarada a
responsabilidade de indenizar da seguradora até os limites fixados na apólice para
danos morais, corporais e materiais.
Como se observa das condições gerais do seguro aderido pela empresa de transporte
(fls. 170/191), referida cláusula somente pode ser aplicada se tiver sido expressamente
contratada e os danos não tenham sido decorrentes de acidente de trânsito (fl. 191).
272

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

No presente caso, entende-se que houve essa contratação, tal como se pode ver da
especificação de seguro trazida pela própria VIAÇÃO CAPITAL DO OESTE LTDA (fls.
120 e 167). E, muito embora se trate de relação de consumo, não se verifica qualquer
nulidade ou abusividade nessa diferenciação de eventos cobertos, estando a cláusula
redigida de forma clara e destacada das demais.
Aliás, veja-se que nas condições gerais a franquia estipulada para essa cobertura
adicional é de R$ 2.000,00, sendo que a franquia estipulada para a empresa segurada
é de R$ 1.000,00, o que faz presumir ter havido a negociação dessa cobertura e, por
consequência, a ciência inequívoca da segurada acerca dessa especificidade do
seguro.
Assim, por não se tratar de acidente de trânsito, mas de incidente de decorrente de
freada brusca, perfeitamente possível a aplicação da cláusula específica, mediante o
desconto da franquia contratada, devendo ser observado o limite definido para danos
decorrentes de fatos desta natureza, como bem entendeu a sentença.
7. Do termo inicial dos juros de mora.
Relativamente ao termo inicial dos juros de mora dos danos morais, não merece
acolhida a argumentação da seguradora. No entanto, por se tratar de matéria de
ordem pública, registra-se que deve ser considerada a data da citação, nos termos do
art. 405, do CC, e não o evento danoso, já se trata de responsabilidade contratual,
restando a sentença alterada de ofício (TJPR - 8ª C.Cível - AC - 1276279-5 - Curitiba -
Rel.: José Laurindo de Souza Netto - Unânime - - J. 17.03.2016).
8. Demais questões.
Deixa-se de conhecer do pedido de desconto do seguro DPVAT, por ausência de
interesse recursal.
Note-se que os embargos de declaração opostos pela empresa VIAÇÃO CAPITAL DO
OESTE LTDA foram acolhidos pelo julgador de primeiro grau para determinar o
desconto do valor integral recebido pela vítima a título de DPVAT, restando
prejudicada a pretensão da apelante (fls.
458/460 e 531/532).
Com relação às implicações do deferimento do pedido de recuperação judicial, não
merecem acolhida os argumentos da seguradora. Por estar o processo ainda em fase
de conhecimento, inexiste
risco de constrição do patrimônio da massa liquidanda, motivo pelo qual não se faz
necessário suspender a demanda neste momento. Sobre o tema:
“RECURSO ESPECIAL. PROCESSUAL CIVIL. LIQUIDAÇÃO EXTRAJUDICIAL. AÇÃO
INDENIZATÓRIA. AJUIZAMENTO APÓS O DECRETO DE LIQUIDAÇÃO.
POSSIBILIDADE. EXEGESE DO ART.18, “A”, DA LEI N. 6.024/1974. 1. A exegese do
art. 18, “a”, da Lei n. 6.024/1974 induz a que a suspensão de ações ajuizadas em
desfavor de entidades sob regime de liquidação extrajudicial e o veto à propositura de
novas demandas após o decreto de liquidação não alcançam as ações de
conhecimento voltadas à obtenção de provimento judicial relativo à certeza e liquidez
do crédito. Isso porque, em tais hipóteses, inexiste risco de qualquer ato de constrição
judicial de bens da massa. 2. Recurso especial conhecido e provido.” (STJ - REsp

273

Análise de Banca – Magistratura TJPR 2017 - 2ª Fase • ESCOLA DA MAGISTRATURA DO PARANÁ

1298237/DF, Rel. Ministro JOÃO OTÁVIO DE NORONHA, TERCEIRA TURMA, julgado


em 19/05/2015, DJe 25/05/2015).
Quanto à incidência de juros de mora e correção monetária, deve ser mantida, tendo
em vista se tratar de consequência legal da condenação, ressalvada a possibilidade de
discussão acerca da exigibilidade dessas verbas na fase de execução (TJPR - 8ª C.Cível
- AC - 1550218-8 - Cambará - Rel.: Gilberto Ferreira - Unânime - - J. 24.11.2016).
Por fim, relativamente à sucumbência da lide principal, assiste razão à VIAÇÃO
CAPITAL DO OESTE LTDA, tendo em vista que de todos os pedidos feitos pela
recorrida (dano moral, estético, lucros cessantes e pensionamento mensal), apenas a
reparação por danos morais foi acolhida.
Logo, as custas processuais e honorários advocatícios, os quais majoro para 12%
sobre a condenação (art. 85, §11, NCPC), devem ser distribuídos de forma
proporcional, passando a apelada a arcar com 75%
deste montante, ao passo que a empresa de transporte arcará com os 25% restantes.
No que se refere à lide secundária, ante a aceitação da denunciação e aplicação da
apólice conforme interpretação da seguradora, deixo de fixar honorários advocatícios
em desfavor da denunciada.
Diante do exposto, dou parcial provimento aos apelos, alterando a sentença, de
ofício, quanto ao termo inicial dos juros de mora, nos termos da fundamentação supra.
ACORDAM os Desembargadores da 8º Câmara Cível do Tribunal de Justiça do
Estado do Paraná, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento aos apelos,
alterando a sentença, de ofício, quanto ao termo inicial dos juros de mora, nos termos
do voto relator.
Participou da sessão presidida pelo Desembargador Luiz Cezar Nicolau (com voto) e
acompanhou o voto do Relator o Excelentíssimo Senhor Desembargador Luis Sérgio
Swiech.
Curitiba, 18 de maio de 2017.
Des. VICENTE DEL PRETE MISURELLI
--
1 CAVALIERI FILHO, Sérgio. Programa de Responsabilidade Civil ­ 11ª ed. ­ São
Paulo: Atlas, 2014, p. 357

2.2.24. RESPONSABILIDADE CIVIL DA IMPRENSA – IMPUTAÇÃO DE

ADOLESCENTE COMO LADRÃO

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO. DIVULGAÇÃO DE NOTÍCIA POLICIAL

EM SITE. NOME COMPLETO E FOTOGRAFIA DE ADOLESCENTE ENVOLVIDO EM

SUPOSTO ATO INFRACIONAL, DESCREVENDO-LHE COMO "LADRÃO". OFENSA À

PROTEÇÃO INTEGRAL. VIOLAÇÃO AO ART. 143 DO ECA. ATO

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CULPOSO.RESPONSABILIDADE CIVIL CARACTERIZADA. DANOS MORAIS.

MANUTENÇÃO. ARBITRAMENTO RAZO