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ESCULPIR O TEMPO: saúde mental, direitos e processos de

envelhecimento (Resumo expandido ligado ao projeto)

SAÚDE MENTAL, DIREITOS HUMANOS E A POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE


RUA (Minicurso)

MEU TEMPO É HOJE: os lugares culturais da velhice e a saúde mental dos


idosos
Bruno Vasconcelos de Almeida
O Estatuto do Idoso (Lei 10.741, de 01 de outubro de 2003) diz textualmente que pessoas com
sessenta anos ou mais gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana e
que lhes deve ser assegurada oportunidades e facilidades para preservação da saúde física e
mental, bem como aperfeiçoamento moral, intelectual, espiritual e social, em condições de
liberdade e dignidade. O lugar cultural da velhice sofreu significativas transformações ao longo
dos últimos cem anos. No caso brasileiro, convive-se com idosos relegados ao abandono, à
miséria e à exclusão social; ao mesmo tempo em que se tem uma velhice com boa qualidade de
vida e que usufrui de outros imaginários. De um lado a incapacidade e a debilidade, de outro o
idoso ‘performático’, a velhice ativa, o idoso consumidor. Em ambos os casos, lida-se muito
mal com a questão da fragilidade. Não conteria a fragilidade uma potência de existir? Por que
as culturas não conseguem reconhecer a fragilidade e atribuir-lhes sentidos? Um paradoxo
parece atravessar o problema: há o reconhecimento jurídico dos direitos do idoso em um mesmo
processo onde não se pode envelhecer, não se aceita a velhice, não se dão as condições do
envelhecimento.
A saúde do idoso brasileiro apresenta alguns pontos que demandam maior atenção: violência
contra a pessoa idosa, incidência de quedas, disfagia e doenças crônicas. No âmbito da saúde
mental, dois dos principais problemas são os quadros demenciais de natureza orgânica e as
depressões. Contudo, pode-se acrescentar a esse cenário, a patologização geral da velhice e a
infantilização perversa do velho. Qual clínica é possível nessas condições? A partir da saúde
coletiva, pode-se pensar que as estratégias de uma clínica do idoso, atenta às relações entre
cultura e saúde mental, promovam o cuidado, a dimensão grupal e coletiva, o âmbito dos
direitos, e o encontro ético com os processos do envelhecimento. Meu tempo é hoje, referência
a um documentário sobre o compositor Paulinho da Viola, chama a atenção para as experiências
de uma idade que condensa diferentes temporalidades, espacialidades e ritmos. Os resultados
desse trabalho apontam na direção contrária aos discursos, imagens e lugares da velhice
fartamente distribuídos na vida social, aquela de se pensar uma clínica do idoso a partir das
potências da fragilidade, capaz de inventar novos lugares e modos de vida, sem deixar de lado
a doença e a finitude.