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PLÁGIO EM TRABALHOS ACADÊMICOS: reflexões sobre alternativas de

caminhos de ordem administrativa e jurídicas.

Artur Stanford da Silva


(UFPE)
artur.silva@ufpe.br

Plágio é crime.
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RESUMO: O plágio em trabalhos acadêmicos é uma realidade em toda e qualquer instituição de


ensino e pesquisa. Constatar o plágio não é suficiente. Inclusive, dependendo da forma como a
instituição tratar o caso, o plagiador adquire direitos contra seu orientador, contra a comissão
julgadora, contra a instituição. Com o objetivo de alertar orientadores e as instituições quanto à
possibilidade de o plagiador poder vir a inverter a situação, pesquisamos a legislação, normas
institucionais, bem como casos jurídicos. A conclusão atual dessa nossa pesquisa é que as
conseqüências administrativas e jurídicas do plágio dependem de pequenos cuidados que devem ser
observados pelos orientadores e pelas instituições.

PALAVRAS-CHAVE: plágio, trabalho acadêmico, decisão jurídica.

ABSTRACT: In academic live we have many cases of plagium. To verify the plagium is not enough.
Besides, depending on the form as the institution to treat the case, the plagiarist acquires rights
against her advisor, against the commission, against the institution. With the objective of alerting
advisors and the institutions as for the plagiarist's possibility to come to invert the situation, we
researched the legislation, institutional norms and lawsuits. The conclusion of our research is that the
administrative and juridical consequences of the plagiarism depend on small cares that should be
observed by the advisors and for the institutions.

KEY WORDS: plagium; academic work; legal decision.

Introdução

Uma das maiores dificuldades para se entender o mundo jurídico, é


compreender porque raramente criminosos são punidos. Um jurista imediatamente
afirmaria: como assim criminoso? E pronuncia o adágio da presunção de inocência:
“todos são inocentes até se prove o contrário”.
Certo que corrupto não dá recibo! No caso da identificação de plágio, há sim
análise de documentos escritos. Não por isso tal identificação se dá
“automaticamente”. O estabelecimento de critérios classificadores do que pode ser
ou não plágio é uma polêmica sem fim. Em música há uma tentativa de quantificar a
semelhança de um trecho musical (salvo engano dezesseis notas e/ou quatro
compassos) para caracterizar algo como plágio. Em trabalhos acadêmicos a
realidade é outra, principalmente quando o “artista” (o autor do plágio) cuida de
alterar palavras, mudar aqui e ali adjetivos, ou seja, usa artifícios visando ocultar o
plágio. O fatal é: não fazer citação, não se referir ao autor original. Isso, de toda
forma, é muito pouco para uma decisão “segura”. Ou seja, para que o acusador (o
identificador) do plágio não venha a ser réu em ação judicial por danos morais pelo
plagiador.
Com o objetivo de chamar atenção para o cuidado em acusar ou julgar
(administrativamente ou um orientador que seja) algum trabalho acadêmico de
plágio, escrevemos este artigo, agora revisado ampliando e alterando reflexões de
antes, para o que procedemos pesquisa bibliográfica e documental (leitura de textos
de legislação e de decisões judiciais).
A oportunidade desta publicação permitiu, por exemplo, incluir um caso da
USP. Trata-se da demissão de um docente e da perda de título de doutorado de uma
pesquisadora por uso, sem citação, de imagens de trabalhos de um grupo da UFRJ,
o autor da denúncia do plágio. É o que lemos na reportagem “USP demite professor
por plágio em pesquisa”, publicada na Folha de São Paulo, 20/02/2011, reportagem
de Fábio Takahashi, a qual começa informando: “chefe de trabalho que usou
imagens sem creditá-las, ele diz não ter havido má-fé. É a 1ª exoneração do tipo em
15 anos; comissão conclui que ex-reitora, coautora, não teve relação com
problema”. Temo os caminhos desse debate quando, também na Folha de São
Paulo, 20/02/2011, leio o título da outra reportagem “Para reitor da USP, pena terá
“efeito pedagógico”.
Este texto não é um método de caminhos para a identificação do plágio, nem
mesmo nos ocupamos com quais as características um trabalho acadêmico deve
conter para ser classificado como plágio. Assim como em diversos casos, também
nesse da USP acima relatado, o chavão de resposta do plagiador é o mesmo, “trata-
se de um engano lamentável”, “tudo não passa de um engano cometido por minha
xxx”. Normalmente esses “x” é a secretária, mas pode também ser orientandos,
parentes, qualquer pessoa que não o autor que assina o trabalho acadêmico.
O critério da quantidade de reprodução de idéias alheias sem identificação do
autor não é um fator simples, contudo é raro um trabalho acadêmico considerado
plágio conter apenas um ou dois plágios, normalmente há a presença de diversas
passagens plagiadas. Há também o critério qualidade.
Chegar à decisão de que a forma como um conteúdo está disposto no
trabalho acadêmico é plágio, não é um procedimento dedutivo, não se trata de partir
de uma definição do conceito plágio para identificar que há plágios no trabalho.
Quem atua na área de letras sabe mais que eu ao que estou me referindo.
Há também o surgimento da desconfiança do plágio. Ainda não temos dados
para trabalhar essa questão, mas pode ter sido “azar” do plagiador, pois alguém viu
o trabalho e desconfiou. Normalmente, escrevemos para leitores de nossa área de
conhecimento, aqui vale lembrar a expressão “comunidade de intérpretes” bem
como “comunidade científica”. Assim, partimos da hipótese que a desconfiança já se
tornou decisão que houve plágio.
Mesmo com esses cortes, o tema se mantém complexo, pois a passagem da
identificação para a atribuição de consequências jurídicas não é simples. Em
qualquer que seja a instância é fundamental os elementos probatórios,
principalmente porque, regra geral, o dever de prova é de quem acusa e não do
acusado (AGUIAR DIAS, 2007: 99-116), é o que consta no Código de Processo Civil
(CPC), art. 333. Seja no âmbito administrativo, cível ou penal, é relevante a
diferença entre o que se está dizendo que ocorreu (a história contada, relatos,
provas ‘fracas’ ou insuficientes) e o que surtirá efeitos no livre convencimento do juiz.
Importante não esquecer que a ação do orientador ou da Coordenação do
Curso pode vir a impedir que juridicamente o plagiador venha a viver consequências
do plágio, sem esquecer a possibilidade de vir a ser réu em ação de danos morais
movida pelo plagiador.
Nem sempre uma ação ilícita chega ao judiciário em condições de produzir os
efeitos jurídicos necessários à aplicação de penalidade. É crucial ter provas
“robustas”. Não esquecer que essa robustez tem forte semelhança com leitura,
portanto, como processo de comunicação, quero dizer, assim como os
conhecimentos que o leitor terá por ler este texto não tem nenhuma relação com “eu,
autor”, muito menos com minhas intenções ao escrever, uma prova pode ser
negada, ignorada ou considerada pelo magistrado. No caso de plágio, não é nada
simples e fácil obter provas conviventes aos demais de uma comissão
administrativa, imaginem para convencer um magistrado?
No caso de plágio, não basta a constatação do plágio e a existência de
provas, é necessário que o juiz se convença que houve plágio e que o plagiador teve
a intenção de plagiar. É o que lemos na Lei 5.925/73 (CPC), redação dada pela Lei
5.925/73, em seu art. 131. “O juiz apreciará livremente a prova, atendendo aos fatos
e circunstâncias constantes dos autos, ainda que não alegados pelas partes; mas
deverá indicar, na sentença, os motivos que Ihe formaram o convencimento”.
Trabalharemos as seguintes questões: o plágio é um ato ilícito para o direito?
Que procedimento deve seguir um processo voltado à apuração do plágio? Que
providências quem detecta o plágio deve tomar? Há penalidade para o plágio no
âmbito administrativo, no civil e no penal?
Para responder a essas perguntas, exploraremos os seguintes textos
legislativos como a Constituição Federal, o Código Civil (Lei nº 10.406, de 10 de
Janeiro de 2002); Lei dos direitos autorais (Lei nº 9.610/98); Código Penal (Decreto-
Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 e suas atualizações); Código de Processo
Civil (Lei nº 5.869, de 11 de Janeiro de 1973); Lei do Processo Administrativo (Lei
9.784/99).
A exposição está dividida em duas temáticas: o princípio da legalidade, com
as questões da tipicidade e da penalidade; o devido processo legal, com as
questões da competência e do procedimento adequado (cf. AGUIAR DIAS, 2007: 5-
20).

1. Princípio da legalidade: tipicidade e a pena

Como anunciado na introdução, há uma diferença entre o social e o jurídico.


Essa diferenciação pode ser explicada pelas peculiaridades técnicas do mundo
jurídico, principalmente quando se reduzir o direito ao sistema de normas emitidas
pelo Estado e instituições, por mais que vivamos cotidianamente direitos informais.
Um argumento é considerado jurídico apenas quando contenha por referência textos
de normas jurídicas, ou seja, fundamentados em textos legislativos. A teoria da
responsabilidade jurídica é um dos casos peculiares do mundo jurídico, pois além de
nem toda ação reprovada socialmente ser por isso um ato ilícito. Mais, ainda que o
ato seja ilícito, é necessário que ele (o ato) chegue ao mundo jurídico com algumas
características para vir a ter decisão condenatória. Para isso, são exigidos a
concomitância de três elementos: ação ou omissão (conduta); dano (prejuízo a
alguém); que o dano tenha sido resultante da ação ou omissão (nexo de
causalidade) (AGUIAR DIAS, 2007: 5-14; BARBOSA, 2004; LEOCADIO, 2005: 115-
118).
Com isso, a qualificação jurídica do plágio dependerá da forma como ele
“ingressará” nesse mundo, uma vez que partimos da hipótese que houve o plágio, a
primeira questão é: e aí, fazer o quê? O plágio é um ato ilícito para o direito?
Trata-se do princípio da legalidade previsto no Art. 5º, da Constituição
Federal: “XXXIX - não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia
cominação legal” e reproduzido nas diversas leis ordinárias, como no código penal,
no código tributário nacional, na lei do processo administrativo e, mesmo, no artigo
37 da própria constituição, o qual destacamos por serem as universidades federais
as que detêm maior número de mestrados e doutorados:

Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do
Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade,
moralidade, publicidade e eficiência [...]. (Emenda Constitucional nº 19, de 1998).

Quanto à tipicidade, que tipo de crime é o plágio, há diversas questões


jurídicas resultantes das legislações envolvidas. Isso nos leva à seguinte pergunta:
que previsão legal há nas normas administrativas, civis e penais sobre plágio?
No caso de instituição federal de ensino superior (IFES), cabe considerar o
previsto na lei do processo administrativo (Lei no 9.784, de 29 de janeiro de 1999) e,
em se tratando da pós-graduação as normas da IFES. No caso da UFPE
exploraremos o texto da Resolução 10/08-CCEPE/UFPE, sem por isso ignorar a
importância de os regimentos internos dos programas de pós-graduação detalharem
a temática.
Em relação às normas do direito civil cabe verificar a questão de danos
morais, violação de direitos autorais na esfera cível e normas do direito do
consumidor.
Na esfera do direito civil tipificaríamos o plágio como uma obrigação de fazer
(NETTO LÔBO, 2005: 113-118), conforme as modalidades de obrigações previstas
no Livro I (Do direito das obrigações), Capítulo II (Das Obrigações de Fazer), no
Código Civil (Lei No 10.406, de 10 de Janeiro de 2002):

Art. 247. Incorre na obrigação de indenizar perdas e danos o devedor que recusar a prestação a ele
só imposta, ou só por ele exeqüível.

Sendo o trabalho acadêmico uma obrigação do discente, pois é competência


exclusiva do discente confeccionar a dissertação ou tese, uma vez contendo plágio,
trata-se de ato ilícito (cf. AGUIAR DIAS, 2007: 5-20; LOPEZ, 2006: 118-119;
TOLOMEI, 2007: 361-399), pois no Código Civil, os arts. 186 e 187 integrantes da
Parte Geral, Livro III (Dos Fatos Jurídicos), do Título III (Dos Atos Ilícitos), lemos:

Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e
causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito.
Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente
os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes.

Ainda no direito civil, o autor de ato ilícito responde com obrigação de


indenizar, é o que retiramos do Título IX (Da Responsabilidade Civil), Capítulo I (Da
Obrigação de Indenizar):

Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo.
Parágrafo único. Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos
especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar,
por sua natureza, risco para os direitos de outrem.
Art. 935. A responsabilidade civil é independente da criminal, não se podendo questionar mais sobre a
existência do fato, ou sobre quem seja o seu autor, quando estas questões se acharem decididas no
juízo criminal.

Desse texto legislativo chamamos atenção para que além da perda do direito
ao grau de mestre ou doutor, o plagiador também pode vir a arcar com danos morais
ou orientador ou a quem mais se sentir lesado com sua atitude, como os plagiados.
Sobre esse ponto chamamos atenção para a teoria da responsabilidade civil
objetiva (cf. AGUIAR DIAS, 2007: 90-98), quando não cabe se ocupar com a
intenção do autor, com sua culpa. Trata-se da teoria do risco (cf. AGUIAR DIAS,
2007: 55-89; LEOCADIO, 2005: 119-123; (LOPEZ, 2006: 122-132). Assim é porque
ilicitude não se confunde com culpa (LOPEZ, 2006: 115). Quem plagia se arisca às
conseqüências da ação de plagiar ao omitir as informações da autoria das idéias.
Assim, cabe danos morais a quem se sentir ofendido diante do plágio, como o
orientador, o autor plagiado etc., independente de o plagiador ter tido a intenção de
ofendê-lo, de ter-lhe causado o dano. Há ainda a possibilidade de se verificar a
hipótese de em relação ao plágio se poder falar em responsabilidade civil aquiliana,
que é aquela resultante da prática de delito (STOCO, 2007).
Quanto ao direito penal, cabe verificar se a hipótese é de incidência do Art.
185 (violação de direito autoral, do Art. 171, (estelionato), do Art. 298 (fraude), do Art.
299 (falsidade ideológica) ou outras alternativas por mim não localizadas.
Para que o plágio seja enquadrado com um desses crimes, é necessário
verificar algumas peculiaridades do direito penal. A primeira é que, conforme o texto
do Código Penal (Decreto-Lei N.º 2.848, de 7 de dezembro de 1940):
Art. 1º - Não há crime sem lei anterior que o defina. Não há pena sem prévia cominação legal.
Art. 4º - Considera-se praticado o crime no momento da ação ou omissão, ainda que outro seja o
momento do resultado.

Assim como na esfera civil, para que uma conduta seja considerada um ilícito
penal também deve haver legislação prevendo o ato (ação ou omissão) como ato
criminoso (tipicidade), além da causalidade (relação entre o ato e o resultado) e
previsão de pena. Sobre a causalidade sugerimos leitura do Art. 13, do Código
Penal.
Em relação ao plágio, lembramos que um crime pode ser consumado ou
tentado:

Art. 14 - Diz-se o crime:


I - consumado, quando nele se reúnem todos os elementos de sua definição legal;
II - tentado, quando, iniciada a execução, não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do
agente.
Parágrafo único - Salvo disposição em contrário, pune-se a tentativa com a pena correspondente ao
crime consumado, diminuída de um a dois terços.
Art. 15 - O agente que, voluntariamente, desiste de prosseguir na execução ou impede que o
resultado se produza, só responde pelos atos já praticados.
Art. 16 - Nos crimes cometidos sem violência ou grave ameaça à pessoa, reparado o dano ou
restituída a coisa, até o recebimento da denúncia ou da queixa, por ato voluntário do agente, a pena
será reduzida de um a dois terços.

Observemos que não cabe pensar em tentativa de plágio. O trabalho


acadêmico contém ou não plágio, inclusive, quanto a só se poder falar em plágio se
a obra for publicada, citamos o Art. 102, da Lei 9.610/98.

Art. 102. O titular cuja obra seja fraudulentamente reproduzida, divulgada ou de qualquer forma
utilizada, poderá requerer a apreensão dos exemplares reproduzidos ou a suspensão da divulgação,
sem prejuízo da indenização cabível.

Da seqüência “reproduzida, publicada ou de qualquer outra forma utilizada”


retiramos a hipótese de não se exigir a publicação, bastando o uso, a reprodução.
No caso do trabalho acadêmico, então, há que se falar em plágio independente de
sua publicação, principalmente porque como documento público que é, o trabalho
acadêmico já configura plágio, independente de publicação através de editora ou
outro meio de divulgação de livros.
Ainda no âmbito do direito penal, cabe também fazer referência ao ato ser
doloso ou culposo:

Art. 18 - Diz-se o crime:


I - doloso, quando o agente quis o resultado ou assumiu o risco de produzi-lo;
II - culposo, quando o agente deu causa ao resultado por imprudência, negligência ou imperícia.
Parágrafo único - Salvo os casos expressos em lei, ninguém pode ser punido por fato previsto como
crime, senão quando o pratica dolosamente.

Da leitura do texto legal acima, temos que o plágio é necessariamente


um crime doloso. Quanto à tipicidade, no direito penal localizamos as seguintes
hipóteses pra um plágio:

Estelionato
Art. 171 - Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo
alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento:
Pena - reclusão, de 1 (um) a 5 (cinco) anos, e multa.

CAPÍTULO I - DOS CRIMES CONTRA A PROPRIEDADE INTELECTUAL


Violação de direito autoral
Art. 184 - Violar direito autoral:
Pena - detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, ou multa.
§ 1º - Se a violação consistir em reprodução, por qualquer meio, com intuito de lucro, de obra
intelectual, no todo ou em parte, sem a autorização expressa do autor ou de quem o represente, ou
consistir na reprodução de fonograma ou videofonograma, sem autorização do produtor ou de quem o
represente:
Pena - reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa, de Cr$ 10.000,00 (dez mil cruzeiros) a Cr$
50.000,00 (cinqüenta mil cruzeiros).
§ 2º - Na mesma pena do parágrafo anterior incorre quem vende, expõe à venda, aluga, introduz no
País, adquire, oculta, empresta, troca ou tem em depósito, com intuito de lucro, original ou cópia de
obra intelectual, fonograma ou videofonograma, produzidos ou reproduzidos com violação de direito
autoral.
§ 3º - Em caso de condenação, ao prolatar a sentença, o juiz determinará a destruição da produção
ou reprodução criminosa.

Há ainda que se verificar se um trabalho acadêmico goza dos


requisitos jurídicos para ser considerado um documento. Pode parecer estranho,
mas juridicamente tem lugar o debate sobre se um trabalho acadêmico é um
documento (CARDOSO, 2007: 73-76). O debate vai desde leituras de obras de
intérpretes renomados do código penal, como Nelson Humgria, que em 1958
escreve que “não são documentos os papéis totalmente datilografados ou impressos
(sem firma manuscrita)”. Bom, a questão é que se um trabalho acadêmico for
reconhecido como documento, localizamos novos tipos penais (Art. 197, 298 e 299,
do Código Penal); se não, esses tipos não podem servir à classificação jurídica do
plágio.
Esse debate nos devolve ao problema de o plágio só poder ser considerado
crime após a publicação, pois um trabalho acadêmico depositado e ainda não
submetido à análise por Comissão de Qualificação ou Comissão Examinadora não
seria um documento público, portanto o plágio pode não ser juridicamente
qualificado como crime, seja crime contra a propriedade intelectual ou mesmo crime
de falsificação de documento ou falsidade ideológica.
Após discorrer sobre o conceito de documento, João Augusto Cardoso recorre
à definição de documento constante na NBR 14724, em sua regra 3.28, cita autores
como Vincenzo Manzini e Francesco Carnelutti e reproduz a seguinte frase de Sá
Pereira:

São documentos: 1, os escritos em que algum direito ou relação jurídica se afirma;


2, os que se
destinam a provar, ou são afetos a provar qualquer fato de alcance jurídico; 3, os
objetos que, por
convenção ou pelo costume social, se destinam a provar qualquer fato do “mesmo
alcance”.

Daí conclui que: “uma vez constatada que a autoria do referido trabalho
acadêmico é de outrem, ou seja, em se tratando de plágio, sem prejuízo das
sanções civis e penais previstas pela legislação, o trabalho poderá ser
desconsiderado, podendo, inclusive, ser a nota cancelada. Isso quer dizer que o
prejuízo sofrido pelo aluno poderá ser igualmente parcial ou total, ou seja, se o
trabalho acadêmico em questão for requisito fundamental para a obtenção de um
título de licenciado, bacharel, especialista, mestre ou doutor, por exemplo, sua
titulação poderá ser anulada. Se for parcial, poderá ser o aluno reprovado na série
ou disciplina em que a nota do trabalho cancelado for subtraída do cômputo total, e
este não obtiver nota suficiente para promoção ou aprovação" (CARDOSO, 2007:
76).

Nossa questão é que das citações não há como chegar a essa conclusão, por
mais que aceitemos a hipótese de o plágio dever ser um ilícito jurídico. Passemos ao
âmbito administrativo, inclusive porque, como
Na UFPE, por exemplo, há a Resolução 10/2008–CCEPE/UFPE, publicada
no B.O. UFPE, Recife, 43 (39 Especial), p. 01–20, de 17 de julho de 2008,
estabelecendo as normas de pós-graduação. Em relação à previsão da ilicitude que
é o plágio, localizamos o Art. 39, no qual consta previsão de a dissertação ou tese
dever ter “caráter individual e inédito”. Como não há texto adâmico (BAKHTIN, 2003:
274), mas intertextualidade (KRISTEVA, 2005: 71-72), o plágio está na omissão da
intertextualidade, ou seja, no ato de o discente não identificar os autores das idéias
constantes no trabalho acadêmico depositado, o que leva o leitor a atribuir ao
discente a autoria de idéias alheias. Aproveitamos para lembrar que é muito raro
haver um plágio, porém é comum num trabalho acadêmico estarem contidos vários
plágios. Caso esse um plágio não seja todo o texto, mas apenas uma única
passagem, tende-se a considerar que se trata de falha, engano. Não de plágio.
Com isso, a exigência legal do “caráter individual” indica que o trabalho
acadêmico deve ser obra de um único autor, o discente, espera-se. A exigência de
individualidade é suficiente para que, no âmbito da UFPE, todo trabalho acadêmico
de pós-graduação não possa conter plágios. Porém, será a individualidade suficiente
para que o plágio seja um ilícito e, portanto, passível de penalidade? Qual a pena no
caso de plágio?
Adiantamos que a pena é a reprovação ou perda do título, todavia, como a
pena dependerá do devido processo legal, uma vez demonstradas as exigências do
princípio da legalidade (haver lei anterior prevendo que o ato é crime e a pena),
passemos ao princípio do devido processo legal, quando verificaremos a questão da
competência para tomadas de decisões e qual o procedimento adequado.

2. Devido processo legal: autoridade competente e procedimento adequado

Insistimos que um dos maiores problemas não é identificar o plágio, mas


cuidar para que o plagiador não tenha direito ao grau acadêmico ou outros direitos,
como danos morais. Para isso cada envolvido deve cuidar cautelosamente do como
conduzir o caso.
Para que um ato seja qualificado como ato ilícito passível de ser penalizado é
necessário que haja previsão legal. Além da previsão legal, para um ato poder vir a
ser qualificado como ilícito jurídico e seu autor vir a viver as conseqüências
administrativas, civil e penal, é necessário que a decisão seja tomada por autoridade
competente e que ela (a decisão) resulte de devido processo legal.
Autoridade competente e devido processo legal são critérios fundamentais por
se tratar de direitos fundamentais garantidos num estado democrático de direito,
inclusive no Brasil. É o que lemos na Constituição Federal, Art. 5º:

LIII - ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade competente;
LIV - ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo
legal;
LV - aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral
são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela
inerentes.
Nosso raciocínio é que o plágio pode ser tomado como critério à reprovação
do trabalho acadêmico. Assim, independente das cominações legais, a autoridade
competente por decidir sobre a aprovação do trabalho acadêmico é quem detém a
competência para afastar do plagiador o direito de obtenção do grau acadêmico.
Havendo previsão legal para o orientador decidir sobre a aprovação do
trabalho acadêmico, essa competência é do orientador. Porém se apenas à
Comissão de Qualificação ou à Comissão Examinadora compete decidir pelas
menções “aprovado”, “reprovado” ou “em exigência”, não cabe ao orientador impedir
a realização das comissões de qualificação. Neste caso, o orientador, ou quem
identificou o plágio, deve apresentar aos demais integrantes da Comissão os
indícios para que se decida se é caso de reprovação do trabalho acadêmico.
No caso de IFES, cabe incluir no debate o texto da Lei 9.784/99 (Lei do
Processo Administrativo). Já no Art. 2º dessa lei lemos:

Art. 2º A Administração Pública obedecerá, dentre outros, aos princípios da legalidade, finalidade,
motivação, razoabilidade, proporcionalidade, moralidade, ampla defesa, contraditório, segurança
jurídica, interesse público e eficiência.

Não se trata de desenvolver cada um desses princípios de forma manualesca,


mas simplesmente lembrar a importância do processo, do como conduzir um caso
de plágio para evitar resultados negativos ao orientador, a docentes, ao
Coordenador do Curso etc..
Imaginemos que o plagiador pode ingressar com ação judicial alegando, por
exemplo, ser vítima de crimes contra a honra (calúnia, injúria, difamação), dos quais
pode resultar danos morais.
Inicialmente é importante manter a idéia de suspeita. Coletar todas as
informações e possibilidades de plágio no trabalho, por mais que a suspeita tenha
origem devido ao uso de programas de computador próprios para detectar plágios
ou que seja fruto de buscas coletadas na internet por quem quer que seja. É
indispensável que todo o material coletado seja oficializado aos interessados. Não
cabe pensar em esconder do plagiador os dados, é importante a publicidade. Não
publicidade aleatória, publicidade como divulgação ampla do caso, o que pode gerar
danos morais ao plagiador, mas publicidade no sentido de informar e dar ciência aos
interessados e envolvidos.
As providencias a serem tomadas devem considerar as peculiaridades do
caso, a saber: a situação; os dados que confirmam a hipótese de plágio; a qualidade
e a quantidade de passagens sem referência ao autor das idéias transcritas ipsis
litteris ou citação indireta; o momento em que foi identificado o plágio (antes da
qualificação, após a qualificação e antes da defesa, no dia da defesa, minutos antes
da defesa). Cada situação porta sua nuança.
As questões são: quando se pode falar em plágio? Será que se pode atribuir
plágio a trabalho acadêmico depositado para ser analisado por Comissão
Qualificação ou mesmo por Comissão Examinadora? Só é plágio obra publicada, no
caso, a dissertação ou tese depositada na biblioteca central? O que fazer se o
orientador identificou o plágio antes de ter havido qualquer depósito?
Essas perguntas nos conduzem ao Art. 5º, da Constituição Federal, por
constar em seu inciso XXVII que: “aos autores pertence o direito exclusivo de
utilização, publicação ou reprodução de suas obras, transmissível aos herdeiros pelo
tempo que a lei fixar”. Desse texto, reportamos à Lei 9.610/98 (Lei do Direito
Autoral), especificamente ao Título VII, no qual estão previstas as sanções às
violações dos direitos autorais. A primeira advertência que retiramos da Lei 9.610/98
é: “Art. 101. As sanções civis de que trata este Capítulo aplicam-se sem prejuízo das
penas cabíveis”. Significa, independente de o plagiador ter que responder
juridicamente no âmbito do direito civil, há também as sanções penais, as quais são
independentes da absolvição civil, ainda que no âmbito civil, se houver absolvição
penal, não se pode mais alegar a autoria, ainda que permaneça a possibilidade de
condenação por danos morais.
Uma das maiores polêmicas é quanto ao quando se pode falar que houve
plágio? Só há plágio de obra publicada? Um trabalho acadêmico só contém plágio
se publicado? Para uma resposta, indicamos reler o Art. 102, da Lei 9.610/98, acima
reproduzido. Sobre a importância do procedimento, bem como o reconhecimento da
autonomia da universidade para julgar trabalhos acadêmicos, reproduzimos partes
da decisão tomada na Apelação em Mandado de Segurança no 2007.72.02.000744-
0/SC, do Tribunal Regional Federal da 4ª Região:

1. As universidades gozam de autonomia didático-científica, não cabendo ao Poder


Judiciário dispor em sentido contrário às regras por elas estabelecidas, desde que, é
claro, os atos praticados pelos administradores no exercício dessa autonomia não
estiverem eivados de inconstitucionalidade ou de ilegalidade.
2. No caso, a impetrada demonstrou que na verdade todos os procedimentos
devidos para a avaliação dos acadêmicos impetrantes foram tomadas, tendo a
orientadora destes decidido pela reprovação dos alunos em face da constatação de
plágio nos trabalhos apresentados.

Mais adiante, nesta mesma decisão consta:


As cópias dos trabalhos juntadas pela Universidade são indícios fortes no sentido de
que realmente houve plágio parcial nos trabalhos entregues pelos impetrantes.
Estes alegaram, nos recursos administrativos, que não intencionavam plagiar,
apenas não tinham conhecimento de que lhes era vedado copiar páginas inteiras de
doutrina sem fazer referência à autoria. Entretanto, como bem mencionou o Douto
Representante do MPF, "é inconcebível que um aluno prestes a se graduar no curso
de Direito não tenha conhecimento de um norma dessa natureza".

Este mesmo Tribunal julga outro caso, também em Apelação em Mandado de


Segurança, agora sob o no 2007.71.16.001081-0/RS, no qual os alunos alegaram
cerceamento de defesa. Neste caso entendemos indispensável reproduzir a íntegra
de partes da decisão:

A sentença, da lavra do MM. Juiz Federal, Dr. PAULO MÁRIO CANABARRO TROIS NETO, apreciou
com precisão a lide, merecendo ser mantida pelos seus próprios fundamentos, que adoto como razão
de decidir. Verbis:

"Como a segurança pretendida pela parte impetrante, conforme a inicial, identifica-se com o pedido
de liminar, analiso os tópicos "a" a "d" articulados às fls. 13-4. Faço-o em ordem diversa da exposta
por razões didáticas.
Abertura de processo disciplinar (c2). O mandado de segurança é instrumento inapto a veicular
pretensão de determinação judicial para que a Universidade constitua comissão para investigar
conduta de professores. Primeiro, porque a representação não foi arquivada, mas apenas suspensa
até a apreciação de uma questão prévia: o próprio julgamento do recurso administrativo interposto
pelas alunas. Segundo, e mais importante, porque a ação mandamental não se presta a dar impulso
a procedimentos administrativos em face de pessoas estranhas à relação processual angularizada.
Por isso, não havendo interesse processual nem adequação da via eleita, indefiro a inicial quanto ao
item c2.
Direito à produção de prova testemunhal (d). Não é função do Poder Judiciário, ao analisar a
existência de ilegalidades em procedimento administrativo, dispor sobre os meios probatórios
admissíveis. No caso, o requerimento de produção de prova testemunhal sequer diz respeito ao fato
objeto da apuração contra a qual se insurge à demandante, e sim à redação da ata relativa à sessão
de julgamento. Caracterizaria demasiada interferência na esfera administrativa a definição de qual a
espécie probatória deve servir para a instrução de um incidente que, buscando transformar os
julgadores em réus, pouca ou nenhuma valia deverá ter na apuração do fato que verdadeiramente diz
respeito à situação acadêmica das impetrantes: se existiu ou inexistiu plágio no trabalho por elas
apresentado na disciplina Estágio Supervisionado II.
Esclarecimento de aspectos formais da documentação (c3). Quanto ao pedido para que a
Universidade informe quem imprimiu e fez anotações manuscritas nos impressos extraídos da
internet que foram anexados ao relatório, também o desacolho. As impetrantes não demonstraram a
relevância da diligência probatória para instrução do procedimento administrativo que tinha por objeto
a verificação da existência ou inexistência de plágio no trabalho apresentado pelas autoras na
disciplina Estágio Supervisionado II. Não há dúvida de que cabe à autoridade administrativa evitar
que a apuração se desvie da finalidade para a qual foi estabelecida. Para tanto, pode e deve indeferir
diligências inúteis.
Por tais razões, não se constata a existência de direito líquido e certo à admissibilidade da prova
requerida, devendo a segurança ser denegada também neste tópico.
Fornecimento do certificado de conclusão de curso (c1). A certificação da conclusão do curso
não pode ocorrer sem o cumprimento integral de todas as etapas do processo de titulação, sob pena
de possível inculcação de prejuízos a terceiros de boa-fé.
Deveras, ainda que superados os argumentos expostos em relação ao item "a", o reconhecimento da
conclusão do ensino universitário pode determinar a concessão, em favor das impetrantes, de uma
injustificada vantagem no mercado de trabalho. A habilitação das demandantes à inscrição no
Conselho Regional de Administração poderia acarretar a demissão de um profissional empregado ou
o prolongamento do desemprego de outro, por isso tal medida não pode ser feita de modo provisório.
Não se olvide, ainda, que a medida as tornaria aptas a se inscrever em concursos públicos e, se
aprovadas, a tomar posse em cargos de nível superior. Assim, na hipótese de serem empossadas, a
(alegada) reversibilidade da certificação da conclusão do curso poderia causar sérios transtornos à
continuidade do serviço público.
Asseguração de prerrogativa profissional (b). Em relação ao pedido para que o juízo assegure o
direito ao uso da palavra na próxima reunião do CONSEPE, merece transcrição a manifestação do
órgão ministerial (fl. 159-v):
Por derradeiro, quanto ao pedido (b), de assegurar o direito ao advogado das impetrantes de fazer o
uso da palavra na futura reunião do CONSEPE, também merece ser indeferido. Nesse ponto,
verifica-se que o Colegiado não deixou de assegurar ás impetrantes o exercício do contraditório e da
ampla defesa, princípios insculpidos como direitos fundamentais no inciso LV, do art. 5º da
Constituição Federal de 1988, e aplicáveis indistintamente aos processos judiciais e administrativos,
porquanto assegurou a defesa escrita nos limites de decisão judicial, possibilitando a mais ampla
discussão sobre os fato que deu causa à decisão que está impugnada por recurso ao Conselho.
Ademais, cumpre registrar que novamente o pedido de defesa oral por advogado não está alicerçado
em nenhum dispositivo legal específico do regimento interno da Universidade ou em qualquer outra
norma que disponha sobre o procedimento administrativo no seio da instituição de ensino. Em que
pese a possibilidade, em tese, de se pleitar tal garantia com suporte em princípios como os ora
invocados, o que se vê, na hipótese dos autos, é que o contraditório e a ampla defesa foram
oportunizados no limite da decisão judicial, de sorte que a defesa oral pretendida se mostra uma
faculdade e não direito líquido e certo das impetrantes.

De acordo com a decisão administrativa, o trabalho das impetrantes foi cotejado textos publicados na
internet, tendo sido constatada identidade plena de vários trechos, sem indicação da fonte. Se esta
fundamentação está correta ou incorreta, trata-se de questão a ser decidida no recurso pendente de
apreciação no CONSEPE. O que releva, para o desfecho do presente processo, é a inexistência de
causa que torne absolutamente imprestável a decisão administrativa."
(fl. 163/168)

Por fim, transcrevo excerto do parecer do ministério Público Federal, da lavra do Exmo. Procurador
Regional da República, Dr. Domingos Sávio Dresch da Silveira:

"Analisando-se os autos, verifica-se que o devido processo legal foi observado pela comissão da
Unicruz para a apuração de denúncia de plágio. Sabe-se que a aplicação de punição sem oportunizar
ao sancionado o direito ao devido processo legal, viola a garantia constitucional, a qual, diga-se de
passagem, deve ser assegurada de forma ampla e incondicionada. A esse respeito, comentando o
disposto constitucional, afirmou CELSO RIBEIRO BASTOS:
"É por isto que a defesa ganha um caráter necessariamente contraditório. Nada poderá ter valor
inquestionável ou irrebatível. A tudo terá de ser assegurado o direito do réu de contraditar, contradizer,
contraproduzir e até mesmo de contra-agir processualmente" (in: Comentários à Constituição do
Brasil , 2º volume, p. 266)."
A garantia constitucional não permite que se transforme o devido processo legal administrativo e a
ampla defesa nele garantido em qualquer defesa. Deve, como previsto na Lei Maior, ser a mais
ampla possível, em tudo semelhante à garantia assegurada no processo judicial.
Nunca é demais lembrar a lição de J.J. GOMES CANOTILHO:
"A intereconexão dinâmica entre direitos fundamentais e procedimento foi salientada quando se
analisou o problema da conformação de direitos. Resta acrescentar que o sentido garantístico do
procedimento pode ter outras dimensões relevantes para o particular, por exemplo, o direito de
participação no procedimento administrativo, o direito de ser ouvido (CRP, artigos 267, nº 4 e 268,
nº1)."
Desse modo, fica evidenciada que não houve violação ao princípio do devido processo legal no
procedimento administrativo que puniu as impetrantes com a reprovação na disciplina de Estágio
Supervisionado II. As apelantes foram, durante todo o curso do referido procedimento, assistidas por
advogado, oferecendo defesa e atuando ativamente em todas as fases. Além disso, ao procurador
não foi negado vista dos autos do processo administrativo, tendo acesso aos documentos nesse
acostados.
[...]
A alegação de existência de atos criminosos no curso do procedimento administrativo não cabe ser
apreciado em sede de mandado de segurança, por demandar dilação probatória. Essa maneira, não
merecem prosperar os pedidos de reconhecimento da existência de tais crimes."
(fls. 258/258-verso)

Exploramos apenas estas decisões por terem sido as únicas que


encontramos em Tribunais Regionais Federais, instância competente para julgar
casos envolvendo autarquias, como são as IFES.
Especificamente quanto à UFPE, não cabe falar em plágio apenas quando
houver publicação, inclusive porque a apresentação da dissertação ou tese, perante
comissão examinadora, tem caráter público e deverá ser amplamente divulgada (Art.
41, Res. 10/08-CCEPE/UFPE), o que se dá muito antes de a versão do trabalho vir a
ser disponibilizado nas bibliotecas da UFPE. A isso acrescemos a questão de as
IFES serem instituições públicas e, sendo o trabalho acadêmico um documento
oficial, portanto um documento público, desde seu depósito na Secretaria do
Programa, para qualquer finalidade, já se pode alegar a hipótese de incidência do
artigo 297 (falsificação documental) e do art. 299 (falsidade ideológica), ambos do
Código Penal Brasileiro.
Numa frase: no caso de reprodução fraudulenta, ainda não havendo
divulgação, basta a utilização para se poder falar em plágio com ato ilícito
juridicamente passível de haver punição. A questão, passa ser: o que fazer? Qual o
comportamento do orientador? O que cabe aos integrantes da Comissão? Como a
Coordenação do programa deve conduzir o caso? O Colegiado do Programa é
autoridade para decidir algo sobre o assunto?
Para responder a essas perguntas lemos os Arts. 40, 45 e 46, II, da
Resolução 10/08, CCEPE/UFPE. O Art. 45 dessa Resolução prevê que todos os
discentes terão um orientador.
Conforme o Art. 40, Res. 10/08, é de competência do orientador decidir se o
trabalho (e não o discente) tem condições de ser examinado por Comissão
Examinadora. Acontece que antes dessa Comissão, da leitura do Art. 46, II, temos a
previsão da exigência de aprovação por Comissão de Qualificação. Caso esta
comissão não aprove a versão a ela apresentada, o discente não terá direito ao grau
de mestre ou doutor. Também no Art. 46, agora no inciso III, há a exigência de o
discente deve ser aprovado perante comissão examinadora de dissertação ou tese
para ter direito à obtenção do grau de mestre ou doutor.
Da leitura simultânea desses artigos concluímos que há previsão de
penalidade administrativa ao plágio: a não obtenção do grau acadêmico de mestre
ou doutor através de reprovação pela autoridade competente para tal. Para tanto,
basta que o plágio seja considerado critério de avaliação, inclusive porque nem o
Poder Judiciário tem competência para alterar decisão de Comissão Examinadora
de concurso público.
No caso de a identificação ser anterior à qualificação, cabe considerar duas
situações: se há previsão legal para o orientador atribuir nota ou decidir por outro
mecanismo a reprovação do trabalho acadêmico; ou se apenas à Comissão de
Qualificação é quem pode decidir pela reprovação.
Havendo previsão legal de algum mecanismo que o orientador possa lançar
mão para tomar a decisão quanto à aprovação, é suficiente o orientador reprovar o
trabalho considerando o plágio como critério de avaliação.
Não sendo esse o caso, resta ao orientador ou quem identificou o plágio,
durante a Comissão de Qualificação, considerar o plágio como critério à reprovação
do trabalho acadêmico.
No caso de a identificação do plágio ocorrer após a qualificação e antes da
Comissão Examinadora, o orientador pode dar parecer desfavorável para que o
trabalho acadêmico seja analisado por Comissão Examinadora. Neste caso, caberá
ao Colegiado a decisão final, pois, o Art. 40 da Res. 10/08, prevê:

Art. 40 A Dissertação ou Tese será encaminhada ao Colegiado do Programa, após ser considerada
pelo orientador em condições de ser examinada, para designação de comissão examinadora.
§ 1º Havendo parecer contrário do orientador, o discente poderá requerer ao Colegiado o exame de
seu trabalho.
§ 2º O Colegiado designará relator ou comissão para opinar sobre problemas metodológicos ou éticos
da Dissertação ou Tese.

Chamamos atenção para a expressão “problemas éticos”. O relator ou a


comissão podem opinar sobre “problemas éticos”. Imagino que posso partir do
pressuposto que plágio é uma questão de ética, nem que seja de ética científica.
Sendo assim, concluo que, no âmbito da UFPE, há previsão legal e cominação legal
para o caso de plágio em dissertação e tese, bem como normas procedimentais e
identificação das autoridades competentes para decidir sobre o assunto.
Como o Art. 54 da Res. 10/08 prevê o prazo de 120 dias para que os
Programas de Pós-Graduação stricto sensu da UFPE adequem seus Regimentos
Internos à Resolução 10/08 do CCEPE-UFPE, aproveitamos para sugerir que cada
regimento detalhe a questão do plágio, criando artigos específicos sobre o assunto,
inclusive fazendo constar normas ao procedimento administrativo.

3. Conclusão
O plágio em trabalhos acadêmicos é crime. Não merece acolhida alegações
do plagiador como desconhecimento das normas jurídicas, nem mesmo
desconhecimento da obrigatoriedade de fazer citações diretas e indiretas em
trabalhos acadêmicos. Também não faz sentido acatar a idéia que só é plágio
quando o trabalho acadêmico for publicado. Não é assim que a legislação trata o
plágio. Não por isso, o plagiador não tem o direito de ser ouvido quando da
acusação de que seu trabalho contém plágios.
Quanto às exigências de previsão legal para a tipicidade e para a penalidade,
constatamos que: 1º) na esfera administrativa, a penalidade é a não obtenção do
grau acadêmico a que faz jus caso não tivesse praticado o plágio; 2º) na esfera
cível, cabe danos morais a quem se sentir prejudicado moralmente com o plágio; 3º)
na esfera penal, há que se verificar qual dos crimes podem concorrer o plagiador.
Quanto às questões processuais, é fundamental que, seja qual for a decisão,
monocrática ou colegiada, ela deve ser prolatada por autoridade competente, bem
como resultante de devido processo legal, ou seja, que tenham sido cumpridas
todas as etapas de um processo administrativo, civil e/ou penal.
O indispensável é cautela nas providências a serem tomadas. Quem sabe,
não é melhor constituir a Comissão de Qualificação ou mesmo a Comissão
Examinadora e reprovar o trabalho considerando o plágio como critério de
avaliação? Isso evitaria uma infinidade de problemas jurídicos, bem como ações
judiciais e processos administrativos duradouros e cansativos para todos.

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