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BERTÉ, Rodrigo. Gestão socioambiental no Brasil. Curitiba: InterSaberes, 2013.

Capitulo 2 A gestão ambiental e a responsabilidade social

Por meio de uma visão holística e sistêmica do processo ambiental, o autor investiga
os aspectos da relação sociedade-natureza e a interação entre meio social e físico-natural,
bem como, correlaciona a gestão ambiental e a responsabilidade social. Além disso, os atores
sociais devem estar engajados nesse processo, para proteger o meio ambiente, e assim
promover a responsabilidade social. O autor explica o significado de visão holística e sistêmica,
a primeira estuda os fenômenos ambientais integralmente, e não por partes isoladas; e a
segunda, partindo do pressuposto de que o meio ambiente é um grupo cujos componentes se
inter-relacionam e, portanto, um sistema dinâmico e interligado.

Tendo em vista essa concepção holística e Meio Ambiente


sistêmica, ao inserir a variável ambiental na
Macroambiente
gestão de uma empresa, ela se interligará a outras
Variáveis
variáveis que compõe o sistema complexo, o meio sociais
Variáveis
Microambiente ecológicas
ambiente, no qual a organização atua e
desenvolve suas atividades juntamente com os Variáveis Cliente Agências
Variáveis
demográficas Reguladoras
stakeholders (as partes interessadas no Organização tecnológicas

empreendimento). Sendo assim, a variável


Variáveis
socioambiental se estenderá a todo o processo Concorrentes Fornecedores
legais Variáveis
gerencial do negócio, gerando sustentabilidade políticas
Variáveis
não só na dimensão ambiental, como também Variáveis
econômicas
culturais
social, econômica, politico-institucional, de
informação, e de conhecimento. Essas dimensões Fonte: CHIAVENATO. Idalberto. Administração nos novos tempos. 2 ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005, p 582.

da gestão podem ser especificadas em ações


concretas baseado na Agenda 21.

Dimensão Social Dimensão Econômica Dimensão Político- Dimensão da Informação e do


institucional da conhecimento
organização
 Reduzir as desigualdades  Transformar padrões  Tomar decisões que  Promover oportunidades de
entre as pessoas situadas de produção e permitam a integração capacitação e conscientização para
nos diferentes níveis de consumo; entre meio ambiente e desenvolver a sustentabilidade na
renda;  Inserir a organização desenvolvimento; organização e em seu entorno;
 Combate a pobreza; no espaço competitivo;  Estabelecer instrumentos  Disponibilizar a difusão e a
 Promover a seguridade  Promover a geração de reguladores e de transparência de tecnologia na
social; empregos e renda; descentralização da organização, participando do
 Criar e prestigiar  Gerar condições de gestão; desenvolvimento tecnológico de
atividades educacionais e acesso à habitação.  Estimular a cooperação, modo cooperativo;
culturais de estímulo a os trabalhos em parceria,  Promover o acesso á informação
sustentabilidade; as atitudes que visem ao adequada para as tomadas de
 Promover ações que desenvolvimento decisão;
visam o bem-estar da sustentável e á  Desenvolver ações que propiciem
comunidade. democratização das a geração, a absorção, a adaptação
decisões. e inovação do conhecimento.

Esse documento, a agenda 21, estabeleceu quatro objetivos ou metas propagadoras


de ações sustentáveis ficando a cargo do governo, da empresa e de todo os países alcança-las.
No Brasil, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) é o órgão responsável por criar politicas
públicas que visem à prática de ações ambientais como as da Agenda Global 21.
O autor propõe um exercício sobre o cumprimento da terceira meta da Agenda 21-
reduzir a perda da biodiversidade até 2010- da seguinte maneira: “...podemos dizer que
atingimos essa meta? Quais são os reais indicadores da biodiversidade? Você está informada a
respeito?”

R: De acordo com o Panorama da Biodiversidade Global, a meta acordada pelos governos do


mundo em 2002, “atingir até 2010 uma redução significativa da taxa atual de perda de
biodiversidade em níveis global, regional e nacional como uma contribuição para a diminuição
da pobreza e para o benefício de toda a vida na Terra” não foi alcançada (Secretariado da
Convenção sobre Diversidade Biologica, 2010a, P. 8.)

Em 2006, 51 metas nacionais de biodiversidade para 2010 foram definidas como metas globais
da Conferência sobre Diversidade Biológica (CDB) que foram aprovadas pela Comissão
Nacional de Biodiversidade (Conabio). Apesar de ter havido avanços muito significativos, como
o aumento da área sob proteção de unidades de conservação e a queda do desmatamento.
Das 51 metas nacionais para 2010, pelo menos 34 (67%) tiveram 25% ou menos de êxito
(BRASIL/MMA, 2010). Tivemos duas metas totalmente alcançadas: redução de 25% dos focos
de calor e disponibilização de listas de espécies em bancos de dados permanentes. (Fonte:
http://www.inbioveritas.net/pt-br/biodiv/CBD_metas)

Embora no campo teórico tenhamos avançado nas politicas ambientais e em


documentos oficiais com ideias promissoras; constantemente chegam aos órgãos públicos e as
entidades da sociedade civil, todos atuantes na área ambiental, ocorrências de agressões e
ameaça ao meio ambiente como desmatamentos ilegais, destruição das nascentes, lixões, caça
predatória, tráfico de animais silvestre, entre outras.

Diante desses problemas, os técnicos ambientais, tanto na área pública quanto na área
privada, têm encontrado varias dificuldades para cumprir as determinações legais de ordem
ambiental. Os técnicos do setor público encontram barreiras como à falta de recursos
(matérias, de pessoal, financeiros) que agravam as condições de trabalho, como também, o
descaso por parte dos governantes que inviabilizam a atuação de todo órgão. De maneira
generalizada, tais servidores são taxados negativamente por não progredirem na causa
ambiental apesar das dificuldades enfrentadas e de seus esforços. E na área privada, esses
técnicos enfrentam problemas como a incapacidade dos órgãos públicos e a não participação
da população.

Nas relações de trabalho dos órgãos públicos entre si, segundo o autor, Rodrigo Berté,
existe o jogo de empurra em que um órgão fica passando a responsabilidade do problema de
uma para outro, sem que nada seja resolvido. E só piora em situações que envolvem ações
conjuntas de mais de um órgão para solucionar problemas ambientais (O autor exemplifica
essa situação). Entretanto, o autor acredita ser possível que parcerias do poder público-
sociedade civil aconteça, e é até mesmo preferível, tendo em vista que trabalhem em ações
compartilhadas e com objetivos comuns.

Para descrever a questão ambiental, o autor cita Quintas(1992) que define a como
“diferentes modos pelos quais a sociedade se relaciona como meio físico-natural ao longo dos
tempos” tendo em vista que a relação do homem com o espaço físico-natural está
intrinsecamente ligada a sua sobrevivência desde os primórdios da Terra. Embora o meio
ambiente sofra transformações tanto naturais quanto humanas, o foco da questão ambiental
são as mudanças de modelos ambientais ao longo da história da humanidade como o
antropocentrismo, que eleva o homem acima dos outros seres vivos da terra, e o
biocentrismo, que põe o homem e a natureza em patamar de igualdade dada à relação
dinâmica entre eles.

Na visão do biocentrismo, vertente na qual essa obra se fundamenta, o homem é parte


integrante do meio natural e um ser social, e estes são indissociáveis. O que distingue o
homem das duas dimensões indissociáveis é o conhecimento, fator que dinamiza essa relação
sociedade-natureza, pois à medida que a ação humana modifica o meio ambiente, também
são modificadas as formas de relacionamento do homem com a natureza e com a sociedade,
formando o patrimônio cultural da humanidade. Para compreender melhor a complexidade
desse panorama da questão ambiental, o autor pressupõe três requisitos: o primeiro “a
construção do conhecimento é realizada sob a ótica dos processos ocorridos na sociedade, e
não no meio físico-natural”; o segundo sob a ótica da sociedade “a chave do entendimento da
problemática ambiental encontra-se no mundo da cultura” e o terceiro “o conhecimento do
meio físico-natural é extremamente importante”, pois ações neste meio estão interligadas
com o meio social.

Percebe-se que práticas no meio social provocam mudanças no meio ambiente, então
ao entendermos os aspectos que constituem o meio social compreenderemos a raiz dos
problemas ambientais, como também, a necessidade de aplicação da gestão socioambiental.
Uma das características do meio social, segundo Berté, é a sua heterogeneidade evidenciada
pela sociodiversidade que “compreende aspectos de adaptação do se humano à paisagem
física e de como esta interfere nas organizações sociais, bem como aspectos referentes às
distintas manifestações culturais forjadas pela ação humana em diferentes ecossistemas.” O
termo sociodiversidade significa diversidade das culturas sociais.

Os atores sociais das esferas sociedade civil e Estado, sob a ótica da organização, são
exemplos de sociodiversidade no meio social. E em relação a esses elementos socioambientais
o autor afirma “a importância de se pensar o desenvolvimento econômico sem se perder de
vista os aspectos socioambientais” e ao comparar o índice de crescimento econômico de 2,3%
em 2005 do Brasil com o esperado de 7%, idealizado pela afirmação anterior, ele questiona
sobre as intervenções necessárias no meio social para que o Brasil atingisse um índice melhor;
e se volta para os atores sociais.

O autor depois de descrever os atores sociais tanto da sociedade civil quanto do


Estado, volta sua atenção para a estrutura do Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama)
que foi estabelecido pelo Programa Nacional do Meio Ambiente e é formado “pelos órgãos e
entidades da União dos estados, do Distrito Federal e dos municípios responsáveis pela
proteção e pela melhoria da qualidade ambiental” e que conta como dois órgão executores o
Ibama e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (uma autarquia do
Ministério do Meio Ambiente, “responsável pela administração da unidades federais de
conservação, pela execução de pesquisas e pela proteção da biodiversidade brasileira”).
Outra característica decorrente da heterogeneidade do meio social são os conflitos
sociais e políticos. Berté cita outros autores para definir conflito como “formas de interação
entre indivíduos, grupos, organização e coletividade, que implicam choques para o acesso e
para a distribuição de recursos escassos”. Trazendo essa ideia de conflito para a área
ambiental, os recursos ambientais são escassos e o seu uso indiscriminado compromete a
qualidade do meio ambiente, dai a importância de evitar o desperdício. Além disso, os
conflitos fazem parte do meio social, não há sociedade sem conflito. No que diz respeito aos
conflitos socioambientais, eles não podem ser resolvidos completamente devido a vários
fatores que os provocaram, porém tais conflitos podem ser mediados, por regulamento e leis
impondo limites a fim de que sejam menos destrutivos para as partes envolvidas, e não a sua
extinção. Quando as regras de conflitos forem institucionalizadas, ou seja, aceitas por todos os
participantes, eles – os conflitos – ocorreram dentro das determinações legais.

Além do conflito como forma de interação na sociedade, existe também a cooperação.


A Carta Magna assegura que o meio ambiente é um bem de todos e fundamental para a
qualidade de vida, e de responsabilidade não só do poder público, como também da
coletividade, protege-lo e preserva-lo. Contudo, nessa mesma coletividade há interesses
conflitantes quanto à alocação e o uso dos recursos ambientais para satisfazer suas
necessidades básicas, podendo resultar em um processo de degradação ambiental e interferir
na qualidade de vida da sociedade. Quando isso acontece o principal responsável pela
proteção ambiental no Brasil – o Poder Público- intervém na situação como mediador de
conflitos e de interesses e como gestor da qualidade de vida restabelecendo o meio ambiente
degradado.

O Poder Público no exercício de seu poder na gestão ambiental em garantir o direito à


sociedade de um ambiente ecologicamente equilibrado deve ter como estratégia e
planejamento ações de preservar sempre mais as áreas protegidas, e de condicionar a
imediata reparação do dano causado pelo infrator. O autor põe em voga a questão de
governar em benefício próprio de alguns atores sociais que por possuírem algum tipo de poder
e influencia podem tomar ou influenciar decisões no processo de transformar, tanto positiva
quanto negativamente, a qualidade ambiental a seu favor desprezando as necessidades das
diferentes camadas sociais que podem ser afetadas. Dessa forma, na pratica empresarial a
gestão ambiental deve estar ligada a gestão social para evitar que a suas ações gere lucros
para alguns e prejuízo para outros, como também a sociedade civil deve participar tendo
acesso às informações sobre o empreendimento e a possíveis consequências da atividade
produtiva, isso só é possível com uma gestão participativa.