Você está na página 1de 41

IVÂNIA FABIOLA DE SOUZA

SOB O VÉU LITERÁRIO:


O LUGAR DO FEMININO NA CORRESPONDÊNCIA DE ABELARDO
E HELOÍSA

FLORIANÓPOLIS - SC

2009
UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E DA EDUCAÇÃO
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

IVÂNIA FABIOLA DE SOUZA

SOB O VÉU LITERÁRIO:


O LUGAR DO FEMININO NA CORRESPONDÊNCIA DE ABELARDO
E HELOÍSA

Monografia apresentada como requisito


parcial para obtenção do grau de
Bacharel em História pela Universidade
do Estado de Santa Catarina, Centro de
Ciências Humanas e da Educação, na
disciplina de Trabalho de Conclusão de
Curso.

Orientadora: Dra. Marlene de Fáveri

FLORIANÓPOLIS – SC

2009
IVÂNIA FABIOLA DE SOUZA

SOB O VÉU LITERÁRIO:


O LIUGAR DO FEMININO NA CORRESPONDÊNCIA DE ABELARDO
E HELOÍSA

Monografia aprovada como requisito parcial para obtenção do grau de bacharel em


História pela Universidade do Estado de Santa Catarina, Centro de Ciências
Humanas e da Educação, na disciplina de Trabalho de Conclusão de Curso pela
comissão examinadora composta pelas seguintes professoras.

Banca Examinadora:

Orientadora: ______________________________________________________
Profa. Dra. Marlene de Fáveri
FAED/UDESC

Membro: ______________________________________________________
Profa. Dra. Silvia Maria Fávero Arend
FAED/UDESC

Membro: ______________________________________________________
Profa. Dra. Marlen Batista de Martino
FAED/UDESC

Florianópolis, 03 de julho de 2009.


RESUMO

De autoria incerta e de conteúdo peculiar a Correspondência de Abelardo e Heloísa


é uma obra estruturada no formato de epistolas que contam a história dos amantes e
seus infortúnios durante um longo período de suas vidas. Assim essa história que
perpetua no imaginário romântico ocidental como exemplo de devoção e de tragédia
amorosa foi também um modelo na época de sua composição. Deste modo, este
trabalho tem por objetivo fazer um pequeno estudo a respeito da literatura medieval,
sua heterogeneidade e o surgimento do romance na França do século XII.
Analisando assim a Correspondência de Abelardo e Heloísa pretende-se entender a
literatura medieval como fonte de pesquisa para compreensão da cultura na idade
média, sobre tudo a respeito das relações entre homens e mulheres e sobre a
conduta feminina no período.

PALAVRAS-CHAVE: Abelardo e Heloísa, Literatura medieval, Conduta


Feminina.
ABSTRACT

The Letters of Abelard and Heloise is a literary work of unknown authorship


consisting of epistles, which tell the story of two lovers and their misfortunes during a
long period of their lives. Thus, this story that perpetuates itself in the western
romantic imaginary as an example of devotion and a love tragedy was also a model
at the time it was written. Therefore, the aim of this paper is to contribute, in a modest
way, to the study of medieval literature, its heterogeneity, and the birth of the French
romance during the XII century. The analysis of The Letters of Abelard and Heloise is
used as a research source for the understanding of middle age culture and, above
all, the relationship between men and women, and feminine conduct in this time
period.

KEYWORDS: Abelard and Heloise, Medieval literature, Feminine conduct


SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ....................................................................................................................................... 6

CAPITULO UM

HISTÓRIA E LITERATURA, CAMINHOS POSSÍVEIS................................................................ 10

1.1 CONSIDERAÇÕES SOBRE HISTÓRIA E LITERATURA ........................................................................ 10


1.2 O ESPAÇO LITERÁRIO MEDIEVAL E O CASO DA CORRESPONDÊNCIA .............................................. 15

CAPITULO DOIS

MODELOS E CONDUTAS NA FRANÇA DO SÉCULO XII .......................................................... 20

2.1 AS CONDUTAS E OS SEXOS NO CENÁRIO FRANCÊS DO SÉCULO XII ................................................ 20


2.2 PAPÉIS E PERSONAGENS: O FEMININO NA CORRESPONDÊNCIA ....................................................... 25

CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................................................ 35

REFERÊNCIAS .................................................................................................................................... 37

FONTES................................................................................................................................................ 37
OBRAS DE REFERÊNCIA ....................................................................................................................... 37
INTRODUÇÃO

O historiador é também um contador de estórias, não diferentemente do


escritor ele faz suas escolhas, pelas vertentes que pretende seguir, pelas fontes que
seleciona e acima de tudo pelo assunto. Este contador de estórias acadêmico,
apesar de todos os critérios e normas que segue, também inevitavelmente faz uso
de suas paixões e interesses na pesquisa que realiza. Embora o historiador saiba
das suas limitações na escrita por uma verdade, ainda sim procura de forma velada
saber uma verdade sobre o passado, uma verdade que dê sentido ao presente.
Deste modo o conhecimento acadêmico funciona como um filtro que distingue o
comum do erudito, e apesar de todo o envolvimento com a temática é preciso estar
atento às limitações do discurso histórico e aquilo que a fonte permite afirmar. Assim
ao contrário do literato, o historiador segue as normas científicas e não estéticas,
sua preocupação está menos na arte de seu texto do que na verossimilhança de
acordo com as fontes e referências utilizadas.
Para o historiador existe algo que se deseja provar, apesar da consciência da
transitoriedade desta comprovação. Roger Chartier1 revela sua preferência pela
aprendizagem, segundo ele, ler e coletar informações é mais prazeroso do que dar
forma fixa a uma investigação, já que no processo de aprendizagem e acumulo de
leitura é comum que o autor julgue seu texto incompleto, tendo sempre algo mais a
acrescentar.
Assim a história não possui nem verdade nem texto imutável, tanto autores
diferentes como um mesmo autor pode modificar o escrito e as teorias anteriormente
expostas, de uma forma a torná-la produtora de sentido a adaptá-la ao presente.
Portanto tanto o texto histórico quanto o literário são produtos de um espaço e de
um tempo localizáveis que servem de documento para produção de novos escritos e
surgimento de novos horizontes em ambos os campos de estudo.

Ouvimos histórias (ou estórias) desde pequenos. As diversas


culturas legaram a seus descendentes, seus mitos, suas narrativas
arquetípicas, que moldam a forma dos indivíduos entenderem o
mundo que os cercam. A separação racionalista dos séculos das

1
CHARTIER, Roger. Cultura escrita, literatura e história: conversas de Roger Chartier com Carlos
Aguirre Anaya, Jesús Anaya Rosique, Daniel Goldin e Antonio Saborit. Porto Alegre: Artmed, 2001.p.
luzes entre o real e o imaginado não levou em conta que o mundo
interior humano é uma realidade vivida ainda que não materialmente
palpável. A literatura na forma física dos livros é o legado do mundo
interior, do imaginário do autor, mas não só dele, e sim da cultura em
que ele está imerso.2

Assim como a separação racionalista não serve como preceito para a


historiografia atual, o que parecia impossível a ela, ou seja, a utilização de textos
literários como fonte e documento a serviço da história torna-se imprescindível para
a compreensão da cultura e sociedade de uma época. É Justamente sobre a
indissociação do autor e seu imaginário coetâneo, que pretendo discorrer neste
trabalho.
A cultura e a sociedade medieval ainda sobrevivem por meio de seus escritos
são através deles que conhecemos e traçamos uma imagem a seu respeito. Esses
escritos englobam como não poderia deixar de ser um corpus artístico literário, um
conjunto de escritos estranhos a nós do século XXI, mas que exatamente pela sua
estranheza desperta nossa curiosidade e revela aquilo que através de outras fontes
não conseguimos atingir.
A Correspondência de Abelardo e Heloísa faz parte desta gama de
documentos, desse conjunto, que apesar da distância temporal, ainda é
constantemente revisitado a fim de conectar-nos com um passado quase esquecido,
mas ao mesmo tempo sempre presente através das expressões artísticas atuais.

Em linhas gerais, a história é conhecida de todos :os versos de


Villon, à falta de outro documento, estão em todas as memórias.[...]O
que nos é contado nos textos que aqui apresento ultrapassa, por sua
ambigüidade, qualquer classificação[...]poucos textos são menos
neutros do que a coletânea comumente denominada
Correspondência de Abelardo e Heloísa; e, quase inevitavelmente o
leitor nela investe sua própria ideologia3.

De fato a história é conhecida por muitos, e muitos também vestiram os


personagens com suas próprias ideologias, seja através da obra aqui referida, sejam

2
KRIEGER, Ana Luisa Pereira; Universidade do Estado de Santa Catarina. Entre piolhos e fadas:
amor, casamento e adultério nos romances as Brumas de Avalon e as crônicas de Artur. 2008. 68 p.
TCC (Graduação em História ) - Universidade do Estado de Santa Catarina, Centro de Ciências
Humanas e da Educação - FAED, Curso de História, Florianópolis, 2008.p.14.
3
Correspondência de Abelardo e Heloisa/ texto apresentado por Paul Zumthor; [tradução Lúcia
Santana Martins]. – 2ª ed. – São Paulo; Martins Fontes, 2000. – (Gandhara).p.01
através dos inúmeros romances publicados, ou através do cinema, com o filme Em
Nome de Deus produzido em 1988.4
Porém o que estas histórias modernas contam são visões romanceadas do
medievo, olhares contemporâneos trajados de uma idade média e que de forma
alguma remete a uma realidade possível. A Heloísa dos romances modernos e do
cinema é uma Heloísa de sonhos, uma campeã do amor livre como mencionada por
Duby,5 ela não leva em conta as dificuldades reais da moral e da conduta medieval.
Essa Heloísa que luta diretamente contra os códigos morais impostos e é totalmente
deslocada do século XII, surge para nós como heroína contra uma dominação
simbólica e ao mesmo tempo prática, que ainda persiste no imaginário ocidental,
mesmo que modificada e atrelada a novas formas de legitimação.
Portanto, a Correspondência de Abelardo e Heloísa vem nos mostrar
personagens menos heróicos e mais abafados pelas regras sociais vigentes no
século XII, especialmente no que diz respeito à mulher e seu lugar na sociedade
deste tempo. A resistência de Heloísa para nós soa silenciosa, mas ainda sim uma
forma de oposição dada às possibilidades existentes em seu meio.
Dessa forma propondo um estudo atentando para a naturalização das
diferenças entre os sexos através do pensamento medieval, especialmente no
século XII, tido por muitos como uma época de mudanças significativas da condição
feminina, e onde fazer parte de uma sociedade era, assim como hoje, carregar o
fardo normativo vigente.
Assim sendo, este trabalho procura de forma breve investigar as relações e
utilizações de fontes literárias e historiográficas, para a análise das representações
do feminino e daquilo que se esperava das mulheres do século XII, seja como
modelo de conduta para as outras mulheres, ou como instrumento de legitimação
daquilo que se caracterizava por um comportamento naturalmente feminino.
No primeiro capítulo deste trabalho buscamos investigar as relações entre
história e literatura, as raízes epistemológicas, e práticas de uma e de outra
disciplina, visando desta forma identificar relações e empregos possíveis,
respeitando as particularidades de cada área. Também analisamos a

4
EM NOME de Deus. Direção: Clive Donner. 1988. 1DVD(115 min.). Grupo Paris Filmes. DVD.
Color. Legendado. Port. NTSC
5
DUBY, Georges. Heloísa, Isolda e outras damas no século XII. São Paulo: Companhia das
Letras, 1995.p.58.
Correspondência como documento histórico e parte da produção literária no
medievo, destacando as suposições a respeito de sua autoria e objetivo como obra
escrita, analisando suas possibilidades como um romance epistolar de caráter
exemplar, e os aspectos que atentam para o exercício de uma escrita e para um
adestramento de si.
No segundo capítulo, procuramos delinear as mudanças ocorridas nos
discursos sobre as diferenças entre os sexos a partir do renascimento do século XII,
observando as mudanças ocorridas no pensamento do ocidente medieval e as
conseqüências percebidas através das fontes. Igualmente na segunda parte do
capítulo tentamos identificar os exemplos que confirmam ou que transgridem os
códigos de conduta feminino expostos na primeira parte. Revelando através dos
discursos tanto de Abelardo quanto de Heloísa os papéis e os personagens na
Correspondência e nas representações dos sexos na França do século XII.
CAPITULO UM

História e literatura, caminhos possíveis

1.1 Considerações sobre História e Literatura

As relações entre história e literatura remetem a antiguidade, embora o termo


literatura seja moderno, a discussão a respeito da arte escrita e da narrativa histórica
é presente na filosofia aristotélica, é por este motivo que Aristóteles no capitulo IX da
sua Arte Poética6 já destaca a diferença entre o historiador e o poeta, argumentando
que enquanto o historiador escreve aquilo que aconteceu, o poeta escreve aquilo
que poderia ter acontecido. Essa concepção de história formulada na antiguidade
perpetuou como base do conceito conferido à disciplina até o inicio do século XX,
estendendo-se pelo pensamento positivista7 do século XIX e calcada na narração do
real, daquilo que se atribuía como uma verdade cientifica e principalmente, no
desprezo de uma admirável parcela de documentos considerados como falsos, e
ignorando versões da história denominadas como não oficiais.
A idéia de cientificidade e realidade histórica persiste tanto no imaginário
popular quanto no ambiente escolar atual, assim como, a história delimitada por
datas específicas e esquematizada em uma linha definida e dividida em séculos e
acontecimentos clássicos na historiografia, essa linha que convencionamos chamar
linha do tempo, ainda persiste e está enraizada na memória dos estudantes como
uma alusão à disciplina de história e a dissolução desse conceito, bem como as
imagens referentes a alguns períodos, que ainda custarão a desvanecer.
O que define e cabe à literatura não parece possuir exatidão, principalmente
se pensarmos em relação a um conhecimento escolar, embora em se tratando do
termo literatura a imagem instintiva seja ficção, nos dicionários o que se vê é uma
descrição de qualquer uso artístico da língua ou simplesmente a arte de produzir
obras em prosa ou verso. Assim, o conceito geral de literatura nada envolve ficção

6
ARISTÓTELES. Arte Poética. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br>. Acesso em: 3
fev. 2009, p.14.
7
COMTE, Auguste. Discurso Preliminar sobre o Espírito Positivo. Disponível em:
<http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000028.pdf>. Acesso em: 8 mar. 2009.
ou ausência de fontes verificáveis. Segundo o glossário de termos literários,8 a
linguagem literária se distingue pela preocupação estética e a produção de uma
realidade própria e independente da realidade exterior à obra, isso não torna
impossível à utilização e os entrelaçamentos de componentes reais na produção do
enredo, porém anula as investidas a fim de considerarem a história como parte de
uma literatura, afinal a história depende diretamente da realidade exterior e é a partir
dela que se forma a narrativa histórica.
Conforme afirma Hayden White as narrativas históricas são “ficções verbais,
cujos conteúdos são tanto inventados quanto descobertos.” 9Essa afirmação exclui a
oposição radical entre literatura e história e também destaca os elementos literários
na narrativa histórica, como a própria imaginação construtiva fator que
10
necessariamente compõe o fazer historiográfico.
Dessa forma o texto surge, não como carimbo de uma verdade irrefutável ou
como uma verdadeira história, mas como aquilo que através de dados e de regras
literárias invariavelmente se supõe.
Duby também reforça essa limitação do historiador perante sua produção.
Segundo ele, é presente em seus trabalhos a preocupação e consciência da
incapacidade de atingir em um todo a realidade obrigando-se necessariamente a
preencher os espaços vazios de acordo com a sua imaginação.11 Porém, desta
afirmação é importante destacar, que a imaginação histórica não se dá sem provas
documentais, ou seja, a imaginação histórica ou construtiva é uma ferramenta de
ligação entre as fontes e as constatações do historiador.
Quanto à autoridade da história e ou da literatura, ainda encontramos no
pensamento aristotélico a elevação da poesia em relação à história quando ele
coloca que por seu estilo a poesia pertence a um caráter mais elevado que a
história, pois a poesia permanece no universal enquanto a história estuda apenas o
particular, sendo que, por universal Aristóteles define àquilo que tal categoria de
homens diz ou faz em determinadas circunstâncias, segundo o verossímil ou o

8
COSTA, Luísa; BORGES, Maria João; CORREIA, Rosa. Glossário de termos literários.
Disponível em: <http://faroldasletras.no.sapo.pt/glossario.html#imagem>. Acesso em: 14 abr. 2009.
9
WHITE, Hayden. Trópicos do discurso: ensaios sobre a crítica da cultura. São Paulo: editora da
Universidade de São Paulo, 2001. p.98.
10
Ibid., p. 100.
11
DUBY, 1977 apud VAINFAS, Ronaldo. História das Mentalidades e História Cultural. In:
CARDOSO, Ciro Flamarion S.; VAINFAS, Ronaldo; ESSUS, Ana Maria Mauad de Sousa Andrade.
Domínios da história: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997. p 146.
necessário. Deste modo, a Arte Poética coloca a poesia não somente como uma
oposição ao concreto, mas também como algo que vai além do personagem a que
se refere, como o produto de uma sociedade e cultura.
Na historiografia moderna, historiografia essa fruto dos Annales e da história
nova, interdisciplinar e que tem por objetivo não revelar uma verdade cientifica, mas
sim, uma aproximação verossímil dos acontecimentos e das manifestações
humanas, uma história que dialoga com as demais disciplinas, a fim de entender e
estudar não somente a vida de grandes personalidades, também estas, mas,
sobretudo a vida e cultura dos anônimos. Sobre esta história, constataremos que a
definição de Aristóteles do que cabe a história e à poesia, bem como, a
característica fundamental de ambas tornou-se profundamente obsoleta.
Discursando ainda sobre a definição de realidade e existência sob a
perspectiva da história, podemos citar a obra Artur da historiadora Adriana Zierer, na
qual ela define a existência sob o ponto de vista historiográfico como sendo a
“explicação e o entendimento dos motivos da propagação e preservação de um
mito,”12 no caso o mito arturiano. Se ponderarmos por esta linha, não só a história
narra o que poderia ter acontecido, como ela também perde seu caráter particular
como concebida por Aristóteles. Embora o livro escrito por Zierer seja voltado ao
público infanto-juvenil, e não ao acadêmico, ele define com clareza a mudança na
historiografia se comparada ao pensamento aristotélico e ao pensamento positivista
do século XIX, revelando-se herança da crise nas ciências sociais do inicio do século
XX.
No âmbito das relações entre narrativa literária e história, ainda encontramos
obras de ficção que pretendem abarcar propriedades de ambas, ou que de fato sem
pretender, absorvem características das duas áreas como os romances históricos de
Walter Scott e Alexandre Dumas, ou romances que utilizam elementos da
investigação histórica para adquirir um aspecto realista como o Morgado de
Ballantrae de Robert Louis Stevenson. Os exemplos levantados são simples e
envolvem mais o leitor do que o historiador, porém as relações e influências dos
elementos da investigação histórica neste modelo literário são inegáveis.
No caminho da relação narrativa histórica e elemento literário, ainda

12
ZIERER, Adriana; PAES FILHO, Orlando. Artur. 1. ed. São Paulo: Planeta do Brasil, 2004. -
(Universo Angus), p.2.
permanecem aquelas que a principio representam uma narrativa verídica, mas que
após um estudo cuidadoso prova-se o predomínio do fictício sobre o verídico. Este
caso pode ser exemplificado, novamente através da temática arturiana, e da análise
da historiografia do medievo, por meio da obra Historia Brittonum de Nennius,13
escrita aproximadamente no século VIII. Nesta obra Nennius descreve Artur como
sendo um dux bellorum, ou seja, um chefe guerreiro, personagem importante na luta
contra os saxões. Normalmente citada por ser a primeira obra em língua latina a
mencionar a existência do personagem Artur, notório como rei dos bretões, a
Historia Brittonum traz em sua narrativa o forte apelo ao real, baseada em
acontecimentos e personagens reais, porém remetendo a locais imaginários.
Paul Zumthor nos informa que os primeiros romances constituem-se nas
mais antigas ficções, que embora sejam admitidas como tal, possuem uma
indiscutível relação de pretensa historicidade, e de fato a literatura no medievo
principalmente no século XV, servirá inevitavelmente ao Estado e a uma
manutenção da ordem.14
Novamente aqui podemos perceber um usufruto da idéia aristotélica de
história como narração de acontecimentos verídicos, além da união ao fardo
historiográfico de uma nova e importante função, a responsabilidade pela busca de
origens, no desejo de pertencimento, e posteriormente pela fundação de uma
identidade nacional. Desta forma, em sua obra Nennius tenta criar uma história do
povo da Bretanha fundamentando-a nos valores cristãos.15
A contribuição da história e da literatura, na construção de uma identidade
nacional é discutida por Sandra Pesavento quando coloca que, embora a narrativa
literária não possua a intenção de provar que os fatos narrados são verídicos, a
narrativa comporta uma explicação do real, traduzindo assim uma sensibilidade
diante do mundo que é recuperada pelo autor.16 Pesavento sugere que embora seja
comum o uso da literatura como fonte alternativa no fazer historiográfico ou ainda,
na contextualização histórica no discurso literário, ela nos convida a analisar as

13
NENNIUS. História dos Bretões. Tradução de Adriana Zierer. Disponível em:
<http://www.ricardocosta.com/>. Acesso em: 8 mar. 2009.
14
ZUMTHOR, Paul. A letra e a voz : a “literatura” medieval. São Paulo: Cia das Letras, 1993. p.268-
284.
15
ZIERER, op cit.,p.5.
16
PESAVENTO, Sandra. Contribuição da história e da literatura para construção do cidadão: a
abordagem da identidade nacional. In: LEENHARDT, Jacques; PESAVENTO, Sandra (org). Discurso
histórico e narrativa literária. Campinas: Ed. da UNICAMP, 1998, p.22.
possibilidades de se pensar a história como uma forma de literatura e a literatura
como uma forma de história,17 sugeridos pela noção de representação nos moldes
da Nova História Cultural.
Essa História Cultural, definida por Chartier como uma história que tem por
objetivo, identificar as construções de uma realidade social em um determinado lugar
e momento,18 é uma história que trabalha com a idéia de uma representação em
oposição a uma verdade cientifica dos fatos, possibilitando a utilização da literatura
como documento, como registro de uma época assim como tantas outras fontes,
anteriormente descartadas pela historiografia tradicional.
Danielle Régnier-Bohler nos alerta para as limitações do uso da literatura
como fonte histórica. Segundo ela, a literatura é cercada por códigos lingüísticos que
modificam seu sentido, uma linguagem metafórica que muitas vezes pode ser
interpretada de forma equivocada por aqueles que interpretam um passado através
dessa linguagem.19
Dessa forma, a conexão direta entre história e literatura é sedutora, porém é
preciso ter cuidado no sentido de não gerar vulgarizações, e conflitos no que cabe a
esta ou aquela disciplina. Pesavento faz essa abordagem com muita cautela, no
sentido de não proporcionar uma transdisciplinaridade, mas sim à
interdisciplinaridade, e deixando claro que essa união só pode existir no âmbito das
representações e na construção de um imaginário.
Nesta discussão infinita de possibilidades, e do que cabe a história ou a
literatura, podemos afirmar que diferentemente do pensamento antigo, atualmente é
possível história e literatura manterem não somente uma relação harmônica como
também de cumplicidade, afinal há muito, a história perdeu suas limitações que
faziam-na, não somente uma disciplina que estudava o particular, no sentido
colocado por Aristóteles, como uma disciplina responsável por uma verdade
científica, assim também como a literatura, que sendo objeto fundamental na escrita
de uma história da cultura também possui sua parcela de verdade.

17
Ibid., p.19.
18
CHARTIER, Roger. A história cultural entre práticas e representações. Rio de Janeiro: Bertrand
Brasil; Lisboa[Portugal]: Difel, 1990. p.25.
19
RÉGNIER-BOHLER, Danielle. Ficções. In: DUBY, Georges; ARIES, Philippe. História da vida
privada, 2: da Europa feudal à Renascença. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
1.2 O Espaço literário medieval e o caso da Correspondência

Para compreendermos a correspondência de Abelardo e Heloísa de forma


sensível, é necessário compreender também seu espaço no cenário medieval,
enquanto produção literária. Dessa forma, é possível encontrar os caminhos que
envolvem as características de sua composição, sua função e sua autoria.
Organizar e classificar a literatura medieval, é uma tarefa difícil e extensa,
ainda mais, se pensarmos em termos daquilo que consideramos literatura hoje, de
fato essa literatura ainda não existe, especialmente no século XII. É neste período
que se começa a formar o romance, as literaturas vernáculas começam a entrar no
espaço erudito os estilos se cruzam e o texto em verso ainda predomina.
Observamos ainda no século XII, uma literatura em formação proporcionada
pelo renascimento intelectual, existem muitos estilos, muitas formas e temas, tudo
ainda está disperso no caldo primordial de uma literatura que virá a ser, já no século
XIII algo mais palpável, não é a toa que Paul Zumthor chama a literatura do século
XII de uma literatura em gestação.20 É neste período, que começam a surgir os
primeiros romances, e mesmo estes são destinados a uma leitura pública, embora
não mais acompanhado de melodia, o romance não consegue abafar a voz,
expressão que predomina no medievo. Dessa forma, toda a literatura do medievo
espera por sua vocalização, o oral é presente e constante tornando a linguagem
escrita serva da falada.
Essa literatura no medievo, em especial de inícios do século XII, se é que
podemos chamá-la de uma literatura, é composta de estilos diversos que se
misturam e a configuram. Essa mescla entre o sacro e o profano, o erudito e um
provável popular é encontrada inclusive dentro de um mesmo manuscrito, onde
textos religiosos e didáticos como a hagiografia dividem espaços com a linguagem
obscena dos fabliaux, ou a cortês das canções de gesta, como nos revela Nora
Scott.21 Essa ambigüidade e aparente confusão é reflexo da formação moral do

20
ZUMTHOR, op.cit.,p.282.
21
Pequenas Fábulas Medievais: Fabliaux dos séculos XIII e XIV / estabelecimento do texto,
tradução para o francês moderno e seleção Nora Scott; tradução Rosemary Costhek Abílio. – São
Paulo: Martins Fontes, 1995. – (Coleção Gandhara) p. 10.
período expressa através das diferenças estilísticas de uma pré-literatura, enquanto
na linguagem cortês observamos a destilação de um amor perfeito, o amor educado,
cercado por regras, nos fabliaux observamos a satisfação do desejo, o escárnio e a
obscenidade, porém, não sem um fim moral que visa também, a seu modo uma
didática nas cortês onde eram reproduzidos, ou seja, constituem-se basicamente de
uma literatura exemplar dedicada a formação do individuo.
Essa literatura de exemplos, como não poderia deixar de ser, também é
fortemente guiada pelo oral, seu destino final é sua vocalização e exposição, seja
nas cortês, ou nos conventos. No caso da poesia religiosa ou vida de santos, a
exposição destes textos objetiva principalmente a educação de nobres e
eclesiásticos, ou seja, é uma literatura exemplar de moralização dos indivíduos das
classes abastadas da sociedade.
Michel Zink, compara o escrito às notações musicais que funcionam como
um auxílio para memória, segundo ele esse auxílio à memória é quase a função
primeira da escrita, pois ela surge como o registro daquilo que se quer vocalizar.22
Assim, a literatura surgiria como pouco mais que uma nota, uma composição em
socorro da oralidade.
Ainda sobre o predomínio do oral sobre o escrito, percebemos na própria
correspondência traços desta prática. Heloísa diversas vezes refere-se a si, e às
irmãs, como um conjunto indissociável, fazendo-nos crer que houvera uma leitura
pública da carta. “Levaste às lágrimas daquelas mesmas que devias apaziguar. Qual
de nós poderia, com efeito, ler com olhos secos, no final de tua carta[...]”.23
Georges Duby de fato revela-nos, que existiam cartas destinadas a leituras
públicas e que funcionavam como romances epistolares de fins morais. Essas
correspondências, eram lidas e comentadas servindo à educação moral de jovens e
de senhoras recolhidas na vida monástica, elogiando-as, dando-lhes exemplos e
força para que continuassem seus caminhos na vida religiosa.24
Assim, os motivos que contribuem para a teoria de que a Correspondência de
Abelardo e Heloísa é uma espécie de romance epistolar, como os mostrados por

22
ZINK, Michel. Literatura. In: LE GOFF, Jacques,; SCHMITT, Jean-Claude. Dicionário temático do
ocidente medieval.vol 2. Baurú: EDUSC; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo,
2002.
23
Correspondência de Abelardo e Heloisa, op cit.,p.111.
24
DUBY, Georges. Eva e os padres: damas do século XII. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
p.75.
Duby, vão além dos textos, pois se seguem pelos exemplos de Nora Scott onde ela
revela o forte caráter exemplar e moral da literatura medieval como um todo25.
No entanto, conforme descreve-nos Paul Zumthor no prefácio da
Correspondência, há uma grande dificuldade tanto da classificação, quanto do
desígnio de uma autoria para esse conjunto de pretensas epistolas.26 A ambigüidade
dos textos contidos na Correspondência, embora característica da literatura
medieval, não nos traz resposta ou facilita a ocupação de um lugar literário, porém
sua indiscutível coerência interna, nos ajuda a refutar as possibilidades de uma
falsificação e uma coletânea simples de cartas.
No prefácio da Correspondência, Zumthor destaca ainda outras três teorias
acerca origem da obra. Duas destas teses remontam a uma coletânea de cartas
autênticas, corrigidas posteriormente, diferenciando-se somente pelo seu compilador
e corretor, que poderia, ou não ser Heloísa posteriormente à morte de Abelardo. A
outra teoria lança-se como sendo um dossiê construído, com bases em documentos
autênticos ou relatos, com o objetivo de justificar os costumes na ordem do
Paracleto fundado por Abelardo. De qualquer forma independentemente da autoria
e objetivo do texto, ele claramente funciona como documento legitimador da
fundação de Abelardo, possuindo ainda, um conteúdo moral e abrindo espaços para
um novo conceito na condição feminina.27
Dentre todas essas incertezas acerca da Correspondência, o que sabemos
dela enquanto obra na medida que foi organizada e estruturada para publicação, e
que chega até nós através desta, elas constituem-se de cópias de um mesmo texto
encontrado em vários manuscritos e cujo modelo principal remete ao manuscrito 802
da biblioteca de Troyes, copiado em fins do século XII. Estes manuscritos são
compostos de oito cartas, das quais apenas as primeiras cinco foram selecionadas
para a publicação da Correspondência.
Observamos nos textos da Correspondência uma forte característica de
retrospecção, que serve tanto para exposição dos acontecimentos, quanto reflexão e
formulação de um ideário moral. Ainda mais que Heloísa, Abelardo se descreve,
descreve os episódios, medita e conforma-se, afinal os eventos foram

25
Pequenas Fábulas Medievais...op cit..,p.12.
26
Correspondência de Abelardo e Heloisa, op.cit.,01.
27
Ibid.,p.04.
conseqüências de suas ações, “[...]o orgulho e o espírito da luxuria me haviam
invadido. Apesar de mim mesmo, a graça divina soube me curar de um e de outro:
primeiro da luxúria, depois do orgulho”.28
Abelardo promove um adestramento de si como colocado por Foucault.29 A
escrita neste caso promove a confissão, um exame de consciência, reprimenda e
resignação por parte de Abelardo. Neste momento, novamente somos convidados a
acreditar na autenticidade da obra pelo menos naquilo que diz respeito à
verossimilhança, Abelardo tinha conhecimento da filosofia antiga, bem como das
escrituras, e demonstra claramente os ensinamentos não só expostos na maneira
como é conduzida a escrita das cartas, de forma reflexiva, mas nas próprias
referências que serão expostas também por Heloísa mais adiante.

Numa passagem das Cartas a Lucilius, Sêneca analisa a alegria que


se experimenta ao receber uma carta de um amigo ausente. “Eu vos
agradeço”, diz ele, “por me escreverdes tão freqüentemente. Assim
se mostrais a mim da única forma que vos é possível.30

Estas mesmas cartas de Sêneca, tratadas por Heloísa como uma forma de
garantir a presença de um ente querido, também são utilizadas por Foucault em sua
obra como exemplos de uma escrita de si a serviço da meditação.31 Relacionando
as conclusões trazidas a nós por Foucault, e o conteúdo da Correspondência,
percebemos uma incrível semelhança no teor de uma e no objetivo da outra. Deste
modo, o texto das cartas também se equipara a hypomnemata, na medida em que
proporciona um modelo de conduta, e contribui para a constituição de si, assim
como é uma correspondência não apenas pela sua denominação, mas pelas
características de conselho, admoestação e consolo. Foucault ainda nos mostra que
à medida que o escritor vai alcançando o seu objetivo no texto, ele vai igualmente se
capacitando para situações futuras, tornando a correspondência uma ferramenta no
adestramento de si.32
Encontramos facilmente na Correspondência de Abelardo e Heloísa as
características de ambas as situações. No texto das cartas, é claro o modelo de

28
Ibid.,p.38.
29
FOUCAULT, Michel,. O que é um autor?. 4. ed. Alpiarça: Vega, 2000.p.132.
30
Correspondência de Abelardo e Heloisa. op.cit.,p.91.
31
FOUCAULT, op. cit.,p.133.
32
Ibid.,149.
conduta e a criação de uma espécie de escrito moral do período, que trabalha
diretamente para a constituição moral do individuo, bem como, as características de
consolo e de censura, que visam um adestramento de si, condizente com aquilo que
se esperava das mulheres que habitavam o Paracleto. Desta forma, a
correspondência habita nos dois modelos sem situar-se predominantemente sobre
nenhum. Ao mesmo tempo hypomnemata e correspondência, manual de conduta e
romance, contendo o sagrado e o profano esse é o caráter e o espaço ocupado
pelos textos reunidos sob o título de Correspondência de Abelardo e Heloísa.
CAPITULO DOIS

Modelos e condutas na França do século XII

2.1 As Condutas e os sexos no cenário francês do século XII

Georges Duby33 nos alerta para a tendência da compartimentação nos


campos disciplinares econômicos e culturais, pois segundo ele estes são
indissociáveis, as práticas culturais tiram seus moldes nas estruturas sociais, estas
por sua vez estão diretamente ligadas ao ambiente econômico. Deste modo, às
estruturas econômicas, sociais, e as relações de gênero no medievo, ocupam uma
disposição de reflexo dessa sociedade altamente hierarquizada, da qual depende
diretamente estes níveis de subordinação para a manutenção da ordem. Isso
esboça a imagem que permanece da mulher no medievo, como sendo àquela que é
dominada, se a hierarquia da sociedade medieval é formada por uma estrutura de
poder e dominação em todos os seus níveis, dentro dos ambientes privados isso irá
se manifestar no domínio do marido sobre sua esposa.
Desta forma, venho ao encontro com o que revela Maria Izilda Matos ao
comentar, que os estudos de gênero procuram mostrar que as referências culturais
são sexualmente construídas através de simbologias, relações de poder, relações
econômicas, políticas, e de parentesco.34 Para além de construções sociais e
culturais das diferenças entre os sexos, proponho o estudo das relações de gênero
na Correspondência de Abelardo e Heloísa, como construções sociais e culturais
das diferenças entre os sexos, mas que possuem conjuntamente, um fator
econômico enraizado, relacionando de forma superficial estes três campos
disciplinares como nos propõe Georges Duby.
Assim o século XII considerado um período altamente marcado pelo
crescimento econômico, social, e conseqüentemente cultural, também é um período
caracterizado por convenções sociais e estabelecimento de regras, que visam

33
DUBY, Georges. Idade Média, idade dos homens: do amor e outros ensaios. – São Paulo:
Companhia das letras, 1989. p.143
34
SAMARA, E.; SOIHET, R.; MATOS, M. I. (org). Gênero em debate: trajetórias e perspectivas na
historiografia contemporânea. São Paulo:EDUC, 1997.p. 97.
manter as práticas de dominação sobre o feminino, e de assimilação de um modelo
de masculino.
Neste contexto, o próprio amor cortês surge como um jogo, um canalizador de
tensões na adaptação de uma sociedade, onde o foco militar já demonstra ares de
decadência. Os chamados jovens, termo que nada tinha a ver com a idade destes,
mas sim com o fato de não haverem conquistado uma esposa, precisavam ser
controlados, desta forma a mulher nos moldes do amor cortês ocupa seu espaço
como mestre, ela domestica. O jogo do amor acalma estes jovens que deveriam ser
instintivamente selvagens e “naturalmente” violentos.35
A manipulação e controle de outros indivíduos de mesmo nível, faz parte das
novas formas de convivência. Essa imagem das cortes, onde o público invade o
privado, e no qual se completam, os impulsos masculinos devem ser controlados,
mas isso é a norma apenas para aqueles que não são dignos de uma dama. Já para
as mulheres casadas, ou não, o modelo é de austeridade, a obrigação está para
com àqueles que às mantêm, sejam eles maridos, pais, ou irmãos, e o que
permanece do feminino, ou seja, seu espírito, ainda deve pertencer à Deus, este
indiscutivelmente do sexo masculino.
Essas relações de dominação, e aparente submissão, são registradas
exaustivamente na literatura medieval, através do discurso masculino da época,
dessa forma, a idéia do que concerne à mulher não pode ser desvinculada da idéia
que se tem do próprio masculino, já que neste período um e outro, ocupam pólos
necessariamente opostos.
Para a análise da Correspondência, é importante ressaltar que os discursos
que regem as condutas têm um caráter normatizador, tanto do feminino quanto do
masculino, assim aquilo que define um, ou outro personagem, e o comportamento
representado como modelo varia de acordo com o conteúdo da carta e momento em
que é escrita.
Tendo estes pressupostos, é necessário que se faça a pergunta: Afinal, o que
se observa das relações de gênero na Correspondência? Definido por Margareth
Rago36 como a construção social e cultural das diferenças sexuais, o gênero como

35
DUBY, 1989.op cit., p. 38.
36
RAGO, Margareth. Descobrindo historicamente o gênero. Cadernos Pagu (11)1998. Disponível
em: < http://www.pagu.unicamp.br/files/cadpagu/Cad11/pagu11.08.pdf>. Acesso em 28 maio 2009.
categoria de análise histórica, nos auxilia na compreensão desse cenário medieval,
onde as vozes masculinas sobrepõem-se as femininas, e qualificam as mulheres de
seu ponto de vista unilateral, percebendo assim, as construções históricas da
diferenças entre os sexos, e da produção de um saber que legitima e perpetua a
desigualdade e dominação de um sobre o outro.
Segundo Cristina Klapish-Zuber,37 na Idade Média não se concebe ordem
sem hierarquia, assim a construção de uma “natureza” tipicamente feminina, bem
como de uma masculina, segue essa noção polarizada, de contrariedade e
necessariamente de inferioridade do feminino na relação com o masculino. Apesar
da predominância de um pensamento caracteristicamente misógino no medievo,
marcado sobretudo nas obras de Agostinho e Tomas de Aquino, houve aqueles que
mesmo se apropriando do discurso dos teóricos cristãos, pretendiam dar um aspecto
de igualdade e culpabilidade masculina na interpretação das escrituras, ou ainda de
menoridade feminina, intelectual e espiritual, na questão do pecado, como podemos
observar no discurso do próprio Abelardo na Historia Calamitatum, “As mulheres,
vista sua fraqueza, comovem mais quando caem na indigência, e sua virtude é mais
do que a nossa agradável a Deus e aos homens”.38
Apesar de se apropriar dos discursos comuns do período, Abelardo acredita
que as mulheres têm tanto uma culpa atenuada, quanto mais valorosa é sua
castidade diante da sua fraqueza e da debilidade de seu sexo, tornado a mulher
uma vitima de sua condição, embora esse discurso ainda reforce a inferioridade
feminina, não será esse tipo de pensamento que compartilham Agostinho ou Tomas
de Aquino, para eles a mulher é tanto culpada quando débil e uma coisa não
atenuaria de forma alguma a outra, a mulher é a pecadora aquela que atrai os
homens ao pecado, indiscutivelmente, a Eva responsável pela queda, assim eles
pregam um domínio e não a tutela como nos sugere os escritos de Abelardo.
Haja vista, o discurso misógino e o imaginário a cerca de uma natureza
perversa da mulher, afeta diretamente a inserção feminina nas letras. Assim, os
estudos trazidos a nós sobre uma história da mulher no medievo, atestam sobre a

p.01.
37
KLAPISCH-ZUBER, Christiane. Masculino/Feminino. In: LE GOFF, Jacques,; SCHMITT, Jean-
Claude. Dicionário temático do ocidente medieval vol 2. Baurú: EDUSC; São Paulo: Imprensa
Oficial do Estado de São Paulo, 2002. p.136.
38
Correspondência de Abelardo e Heloisa. op.cit.,p.77.
dificuldade de instrução do denominado “belo sexo”.
Chartier39 nos fala que no século XVII é provável que o número de leitores
fosse maior do que aquele que se acredita, pois a quantidade de leitores era
calculada através dos registros de assinaturas, porém o número de assinantes, ou
seja, daqueles que escreviam era inferior ao daqueles que só sabiam ler. Quando
voltamos essa relação para a instrução das mulheres, sabemos que estas condições
eram ainda mais significativas, pois a instrução era considerada um instrumento
perigoso de independência, pois a jovem letrada teria mais facilidade de se
corresponder com um amante. Se este quadro esboça um cotidiano do século XVII,
não temos motivos para pensar que no século XII as condições e o que se pensava
sobre as mulheres eram muito diferentes, no que se trata da educação. Chiara40
Frugoni em seu artigo sobre as mulheres nas imagens revela que a instrução
feminina nas letras é provavelmente mais comum do que se costuma admitir,
através de Duby41 também sabemos que as crianças meninos e meninas ficavam
sob a tutela materna até os sete anos, deste modo seria de se esperar que
aprendessem as primeiras letras com as mães e que estas fossem instruídas pelo
menos na leitura senão na escrita, é claro que esses dados referem-se à nobreza, e
pode ser até mesmo relacionado a uma burguesia ascendente, porém as mulheres
das camadas populares ainda ficavam a margem da cultura erudita.
Sabemos de inúmeras mulheres, que não apenas sabiam ler e escrever,
como possuíam conhecimentos que superavam os da maioria dos homens,
exemplos podem ser dados através da religiosa Hildergarda de Bigen, ou de leigas
como Cristina de Pisan, e da própria Heloísa como descreve Abelardo.

Ela era bastante bonita e a extensão de sua cultura tornava-a uma


mulher excepcional. Os conhecimentos literários são tão raros entre
pessoas de seu sexo que ela exercia uma atração irresistível, e sua
fama já corria pelo reino.42

Abelardo atesta assim a raridade da cultura entre as mulheres e o interesse


que isso desperta, pelo menos em um homem culto como ele. Através da

39
CHARTIER, Roger,. Práticas da leitura. 2.ed. rev. São Paulo: Estação Liberdade, 2001.p.80
40
FRUGONI, Chiara. A Mulher nas imagens, a mulher imaginada. In: DUBY, Georges; PERROT,
Michelle. História das mulheres no ocidente. vol 2. A Idade média. Porto: Afrontamento,
1990.p.494.
41
DUBY, 2001. op cit.,p.24.
42
Correspondência de Abelardo e Heloisa. op.cit.,p.39.
correspondência, podemos observar também uma valorização da instrução feminina,
já que Fulbert, tio de Heloísa, deu-lhe boa educação a fim de arranjar-lhe um bom
casamento, logo sob o olhar do século XII, uma mulher culta começava a ter valor na
sociedade, fato denunciado pela descrição que Abelardo faz do tio de Heloísa. “Não
apenas Fulbert era dos mais cúpidos, mas ainda se mostrava muito preocupado em
facilitar os progressos de sua sobrinha nas belas-letras”.43
A ambição de Fulbert contava assim, com a exibição de sua sobrinha, ela era
admirada pelo amplo conhecimento que possuía, mas é necessário ressaltar, que o
contato com as letras era só considerado como um encanto a mais, uma soma aos
atributos da dama, cujo objetivo último era o casamento, portanto, não era realmente
encorajado, mesmo assim os conhecimentos que Heloisa demonstrava, eram
motivos de orgulho e engrandecimento para seu tio que desejava estabelecer
vínculos favoráveis através de um bom casamento.
Com o que diz respeito ao casamento, sabemos que este era um assunto
entre homens, isto fica claro na carta de Abelardo quando ele e Fulbert decidem a
união em oposição à vontade de Heloísa, mesmo no século XII quando o
consentimento da mulher foi tornado obrigatório para união, a pressão familiar
imperava na decisão, assim Heloísa obedece a Abelardo e conforma-se com o
destino que ele e Fulbert determinaram para ela. Heloísa está subordinada a
decisão dos homens, assim como outras tantas mulheres de seu tempo, sua voz não
é ouvida nem mesmo quando as regras parecem mudar, elas transformam-se nos
discursos, mas nas práticas permanece o que até então era comum.
Apesar de todas as mudanças observadas nos escritos sobre a mulher no
século XII, não podemos falar de uma melhoria efetiva na condição feminina,
sabemos que estas mudanças suscitaram uma visibilidade maior das suas práticas
de resistências, como a entrada em conventos, e a rejeição de um casamento
indesejado, também observamos uma ampliação dos escritos femininos,
possibilitados pelo próprio florescimento de uma literatura no medievo, assim
também podem ser levantadas as mudanças ocorridas em face das novas imagens
de feminino, como da própria Virgem Maria, embora ela seja a única de seu sexo
para alguns poucos intelectuais da igreja ela era um modelo que poderia ser seguido

43
Ibid.,p.40.
pelas demais, elevando seu caráter e tornando-as exemplos de conduta.

2.2 Papéis e personagens: O feminino na correspondência

Cada personagem ao longo texto da Correspondência cumpre um papel,


embora os discursos modifiquem no desenvolvimento das missivas eles mantém o
objetivo principal. Ao longo do texto eles encarnam os papéis que possuíam antes
da vida ascética. Deste modo Abelardo é colocado quase sempre como o tutor, ele
orienta Heloísa, é ele que chega às conclusões e que elabora um desfecho. Heloísa
atém-se ao papel de pupila, ela questiona Abelardo e constantemente lhe pede
orientações sobre a conduta. Ambos revelam parte de seus íntimos, mas é o
discurso de Abelardo que predomina, ele se torna o mestre e modelo de Heloísa.
Na História Calamitatum Abelardo revela-se, ele descreve a si e a Heloísa, ele
ordena os acontecimentos de forma a contar sua história, embora seja possível
observar traços do juízo que ele faz sobre as mulheres e sobre os deveres dos
homens, nas respostas de Heloísa os comportamentos também são mais explícitos,
sejam nas cobranças daquilo que seu esposo lhe deve, ou na aceitação de sua
condição. Independente de a autoria ser mesmo de Heloísa, o autor se presta o
papel de se fazer uma mulher, assim a verdadeira ou pretensa Heloisa, nos revela
seu lado da história que muito se assemelha ao de Abelardo, mas ao contrário da
mulher submissa praticamente inexistente nos romances de cavalaria, Heloísa é
também protagonista, uma protagonista a sombra de Abelardo, é verdade, mas
ainda sim uma peça essencial do romance. Heloísa reivindica, ela reclama aquilo
que pelo laço do casamento é seu, a presença do amado, mesmo que por cartas.

Deste satisfação a um amigo, a um companheiro; saldaste a dívida


da amizade e da fraternidade. Mas tens para conosco uma dívida
bem mais urgente[...] O fundador do nosso estabelecimento és tu
somente depois de Deus, tu, o único edificador de nossa capela, o
construtor de nossa congregação.44

Heloísa coloca-se no plural, junto com suas irmãs ela reivindica sua parcela,
ela é serva de Abelardo, apenas para segui-lo, ela encerrou-se na vida ascética, por

44
Correspondência de Abelardo e Heloisa. op.cit.,p.92.
ele se uniu ao Cristo, mais do que a Deus, Heloísa louva Abelardo como fundador
da congregação ele é o líder e deve terminar a obra de sua conversão.
Heloísa recrimina Abelardo, enquanto ele arrisca sua vida pregando aqueles
que não lhe dão ouvidos, sua esposa pena a distancia e sem noticias, ele deve
voltar para junto de suas servas e ajudá-las na salvação de suas almas, como se
espera de um marido ou de um companheiro zeloso.
A ausência de Abelardo sentida por Heloísa é discutida por Roland Barthes45
que a revela como sendo um discurso predominantemente feminino na historiografia.
Segundo a leitura de Barthes a mulher é sedentária, é aquela que espera, o homem
pela clara construção cultural é o inconstante, o infiel, novamente se instala uma
questão de gênero, o papel de cada individuo nesta ocasião, é o que detêm
Abelardo, segundo ele próprio, é a moral e a confiança que ele tem em Heloísa. A
ausência se esboça pela conduta moral e não pelo desejo desenfreado do macho.
Mesmo assim Heloísa cobra o débito que Abelardo tem para com ela, seja
como homem da igreja seja como marido, ela aproveita-se do discurso empregado
na Historia Calamitatum.

O sexo frágil não pode passar sem a ajuda do sexo forte[...] o


homem é o chefe da mulher[...]Quase por toda parte a ordem natural
está invertida; vemos abadessas e religiosas dominar os próprios
padres[...].46

Abelardo fala da fragilidade do sexo para criticar a severidade com que as


mulheres são tratadas, ele acredita que as mulheres são vitimas de sua “natureza”,
neste caso, a dominação masculina exerce o poder do justo como coloca Cristiane
Klapish-Zuber47 deste modo o poder é exercido pelo bem do dominado, e não pelo
interesse pessoal do dominante. Essa fragilidade feminina tão exaltada no medievo
tem duas correntes principais, enquanto Abelardo acredita que vista a “natureza”
feminina, as mulheres necessitam de cuidados, orientação e piedade, outros
acreditam que a fraqueza de seu sexo se configura em ações ardilosas para
subversão da ordem. Neste sentido Abelardo se difere do clérigo medieval
comumente conhecemos, para ele a conversão de uma mulher é ainda mais

45
BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. São Paulo: Martins Fontes, 2003.p.36.
46
Correspondência de Abelardo e Heloisa.op.cit.,p.82-83.
47
KLAPISCH-ZUBER, op cit,p.136.
valorosa que a de um homem, por causa de sua inferioridade. Deste modo não se
deve utilizar o mesmo peso, nem elas devem ter as mesmas responsabilidades, as
mulheres para Abelardo eram seres delicados, que careciam de cuidados e
acompanhamento constante. Embora não pareça uma visão lisonjeira, em um
período que as mulheres eram tanto culpadas quanto inferiores essa concepção do
feminino torna-se quase admirável.
Destarte Heloísa se apropria do discurso que visa encerrá-las sob o comando
constante do masculino. Para o bem dela e de suas irmãs, Abelardo deve retornar
ao Paracleto e cuidar para suas almas.

Ela é formada de mulheres; e este sexo é débil; sua fragilidade não


decorre apenas de sua tenra idade. Incessantemente ela exige
cultivo atento e cuidados freqüentes [...] considera o que nos deves,
a nós que te somos submissas.48

Nesta parte o leitor se pergunta, Heloísa está falando da ordem fundada por
Abelardo ou de si mesma? Ela parece subverter o discurso mantendo seu
significado, mas utilizando-o em proveito de si para obter a presença de Abelardo, e
ao mesmo tempo livrá-lo dos inimigos e da região hostil em que vive. Seria então
Heloísa uma transgressora utilizando o discurso a seu bel prazer? Ainda que seja
tentadora a idéia encontrar uma mulher que utiliza-se do discurso que a oprime
fazendo-o seguir sua vontade, essa é uma visão anacrônica e que não obtém
respaldo nos estudos acadêmicos. Sabemos como foi citado no capitulo um deste
trabalho que obras como a Correspondência exibiam modelos de conduta, assim
como sabemos que a imagem que Heloisa passava após a morte de Abelardo, era a
de uma mulher sábia e de conduta exemplar, deste modo à compilação das cartas
que deram origem à obra utilizada neste trabalho, visava reforçar a imagem deixada
por Heloísa e impelir as jovens religiosas a seguirem-lhe na devoção diligente.
O modelo que se esboça na primeira carta de Heloísa dirigida a Abelardo,
reflete uma cobrança, ela sabe que se ela e suas irmãs necessitam de cuidados
ninguém seria mais indicado que o fundador da sua ordem, e anteriormente seu
marido, e isto ela faz questão de deixar claro. Abelardo é seu marido e o seu dever
para com ela persiste mesmo após terem tirado-lhe a virilidade, agora seu dever

48
Correspondência de Abelardo e Heloisa, op.cit.,p.93.
como esposo se reflete na orientação e encaminhamento para a vida em Cristo.
No texto da primeira carta de Heloísa, ela questiona a função que Abelardo
designa para ela. Heloísa ainda mantém os laços que os uniu, ela ainda ama em
todos os sentidos da palavra seja no desejo ou na afeição comum do casamento
medieval, mas e Abelardo? Uniu-se a ela pela concupiscência? Ela exige uma
resposta, ela procura descobrir o motivo do abandono.

Quando outrora me chamavas a prazeres temporais, me cumulavas


de cartas, tuas canções punham sem cessar sobre todos os lábios o
nome de Heloísa[...] Não seria mais justo excitar-me hoje ao amor de
Deus, que de o ter feito outrora ao amor do prazer! Considera, eu
suplico, a divida que tens com relação a mim; dá ouvidos a meu
pedido.49

Nesta citação de Heloísa também é possível perceber a função da carta na


aproximação simbólica dos seres, assim como a própria lembrança. Roland
Barthes50 nos fala da função correspondência e dessa ligação direta com o
pensamento, quem escreve a alguém, escreve porque ainda pensa no ser amado.
Assim a ausência de cartas também implica em esquecimento e abandono do
sentimento.
Nas palavras de Heloísa se revela a palavra de muitos padres, a união só se
dá enquanto o prazer permanece, ela é abandonada, o amor do homem se resume
ao prazer carnal, é o amor do macho. O único que ama verdadeiramente é Deus, o
único que ela deve tomar por esposo é o Cristo. Essa é a figura que Duby51 nos
apresenta do desdobramento da mulher, o corpo pertencente ao marido e a alma a
Deus, nada pertence a ela mesma. Abelardo não requisita mais para si os deveres
da esposa tudo deve ser dirigido a Deus, o sentimento que os une, assim como
todos os esposos no medievo é principalmente a caridade:52 “Sei com efeito que
rezareis por mim com um fervor igual à perfeita caridade que nos liga”.53
Observamos dois modelos femininos, por um lado àquela que reivindica o
direito de esposa, como o próprio Abelardo coloca na primeira carta.

49
Correspondência de Abelardo e Heloisa, op.cit.,p.100.
50
BARTHES, op. cit.,p.46.
51
DUBY,1989,op. cit.,p. 34.
52
Ibid.,p.30.
53
Correspondência de Abelardo e Heloisa, op.cit.,p.132.
Nós professamos formalmente que é proibido a um bispo[...]
dispensar a si mesmo, sob pretexto de religião, dos cuidados que ele
deve à sua esposa. Ele é obrigado a lhe assegurar a comida e as
vestes; basta que ele interrompa as relações sexuais.54

Dessa forma Heloísa faz uso de seus direitos, se o dever os uniu uma vez
deverá uni-los novamente.
Em outro momento na mesma, carta Abelardo parece evocar a imagem de
Heloísa como da mulher que serviu ao seu propósito, nesse caso o matrimonio e a
reprodução, uma mulher que já se encaminha para velhice, uma mulher de
aproximadamente 35 anos que deve conformar-se com seu destino e unir-se ao
Cristo. Os modelos apontados são etapas da vida feminina segundo sua “natureza”
e função na sociedade medieval, quando jovem, a mulher é cortejada, a dama deve
servir ao seu propósito de selar as alianças entre as famílias e se reproduzir, quando
seu ciclo reprodutivo e as relações entre as famílias estão estabelecidas, elas devem
entregar-se à devoção ainda mais do que quando eram jovens.
Abelardo responde a sua esposa de maneira a constrangê-la, ele faz uso do
afeto que ela nutre por ele molda-a conforme sua vontade. Ele retira de si a culpa e
coloca a responsabilidade sobre Heloísa, se ele não a escreveu é porque acreditava
conhecer sua esposa, pensava-a mais forte, mais sábia, esperava mais dela. Ele
intimida Heloísa forçando-a seguir o modelo que ele pretende.

[...]esse mutismo não se deve a negligência, mas a enorme


confiança que tenho em tua sabedoria. Não pensei que tais socorros
te fossem necessários: de fato, a graça divina te cumula com tanta
abundancia de seus dons, que tuas palavras e teus exemplos são
capazes de esclarecer os espíritos em erro[...].55

Abelardo coloca Heloísa como a única capaz de interceder por ele junto ao
Cristo, para Abelardo a oração de uma mulher vale tanto ou mais do que a do
homem. A esposa diligente é capaz de redimir e salvar seu marido, ele dá exemplo
através das escrituras, Heloísa as conhece bem, através do bom comportamento,
ela é capaz de salvá-lo de seus pecados. Quanto a retornar ele não fala, uma vez
estiveram próximos em Cristo, e a calúnia os separou, “Levantou-se, bem

54
Ibid.,p.81.
55
Ibid.,p.104.
entendido,[...] um murmúrio malevolente, e aquilo que a caridade sincera me levava
a fazer, a habitual malicia de meus inimigos interpretou ignominiosamente”.56
Na primeira carta Abelardo fala que após a fundação do Paracleto, ele se
dispôs a visitar Heloísa e suas companheiras freqüentemente para auxiliá-las e lhes
assegurar a pregação, porém em virtude dessas visitas levantaram-se murmúrios
infamantes que diziam que Abelardo não suportava a ausência da antiga amante.
Dessa forma Abelardo não responde ao apelo de Heloísa, para ele é impossível o
retorno ao Paracleto, ele espera apenas que Heloísa e seu comportamento
exemplar, assim como suas orações sirvam para encaminhá-lo ao reino dos céus.
Essa terceira carta é a mais curta se compararmos as outras quatro. Na carta
Abelardo coloca sobre os ombros de Heloísa a responsabilidade pela sua salvação,
a exemplo de Mônica de Hipona mãe de Agostinho, Heloísa como tantas outras
mulheres é capaz de pela oração e comportamento, e claro pelo sofrimento, ser
instrumento da salvação de um homem, no caso, de Abelardo.
A última carta de Heloísa trazida até nós nesta compilação é a que reflete
melhor não o modelo, mas a “natureza” feminina, segundo os pensadores da igreja
católica. Paulette L’Hermitte-Leclercq descreve que é provável que a maioria das
mulheres considerava normal a submissão ao masculino e inclusive fosse
responsável pela reprodução do discurso e recondutoras do sistema hierárquico.57
Assim também coloca Chartier58 quando fala sobre a construção de uma identidade
feminina enraizada interiormente pelas próprias mulheres, e baseada nas normas
expressas pelos discursos masculinos.
Ao mesmo tempo, os séculos de afirmação da inferioridade feminina no
ideário ocidental cristão encontram ecos na fala de Heloísa, como uma característica
natural, que é perpetrada pelo senso comum e no âmbito das mentalidades. As
mentalidades aqui situadas como coloca Le Goff,59 ou seja, uma imagem
compartilhada uma sociedade em suas diferentes categorias, situando dessa forma
a fala dos filósofos cristãos medievais como promotores da diferença e

56
Ibid.,p.78.
57
L’HERMITTE-LECLERCQ, Paulette. A Ordem feudal (séculos XI – XII). In: DUBY, Georges;
PERROT, Michelle. História das mulheres no ocidente. vol. 2. A Idade média. Porto: Afrontamento,
1990.p.325
58
CHARTIER, 1995,op cit.,p.40
59
NORA, Pierre; LE GOFF, Jacques. História: novos objetos. 2. ed. Rio de Janeiro: F. Alves, 1986.
p. 71
hierarquização entre os sexos.
Abelardo ignora o pedido de Heloísa para que venha em seu auxilio, como
resultado disso, ela desespera-se, “Mas que me resta esperar, agora que te perdi?
De que adianta prosseguir essa jornada terrestre em que eras meu único apoio?”60
Ela busca incessantemente a causa de tal infelicidade. Ela é a causa ela
atraiu para seu marido o que a mulher adúltera atrai para seu amante. Heloísa busca
as referências nas escrituras que justifiquem tal destino. Ela chega à conclusão, ela
é a causa, a mulher só pode atrair a ruína daquele que ama. Heloísa invoca a
imagem de Eva pecadora, mas justifica-a através de outras mulheres julgadas
traidoras. Assim, ela atraiu o mal ao seu esposo, em vista de fazer o bem, a dor que
ela sofre é a pena pela lascívia, nas palavras da própria Heloísa: “Nada termina mal
que não tenha sido mal desde o inicio”.61
Segundo Heloísa, Abelardo é mais feliz ele ficou livre dos desejos através da
pena que Deus lhe infligiu. Heloísa não consegue arrepender-se, sua condição de
mulher a impede, torna-a fraca, débil e ela é susceptível as volúpias. Os méritos
louvados sobre sua pessoa nada mais são que inverdades, pois não se conhece o
que lha vai no intimo, sua castidade é hipócrita. Heloísa não seguiu por vocação, a
vida de castidade foi imposta apenas para agradar Abelardo, ela necessita dele para
sua conversão sincera.

Não penses que esteja curada; não prives do beneficio de teus


cuidados. Não creias que eu tenha saído da indigência, teus socorros
me são muito necessários. Não avalies mal minha força, com medo
de que eu desmorone antes de obter de ti apoio.62

Heloísa considera a fraqueza de seu sexo, ela está a perigo de se perder.


Para nós a intenção parece clara, apropriar-se do discurso que Abelardo conhece
para persuadi-lo a encontrá-la e assim tirá-lo do caminho do perigo. Seria este o
traço do ardil feminino? Talvez o usufruto do conhecimento que tanto celebram em
Heloísa? Ou apenas a confissão de suas falhas? Não podemos afirmar com certeza
o sentido e objetivo dessas revelações, ainda mais quando a autoria não é
legitimamente conferida a Heloísa. Pelo que conhecemos de outras obras

60
Correspondência de Abelardo e Heloisa. op.cit.,p.114.
61
Ibid.,p.117.
62
Ibid.,121.
semelhantes o óbvio é o mais provável, novamente o pecado é relacionado
diretamente ao feminino, se levarmos em conta que a obra tinha fins morais e era
destinada a leitura pública para instrução63 seja nos mosteiros, ou nas cortes a
interpretação mais provável era que as jovens que ouvissem a leitura se
identificassem com a figura de Heloísa e tão certo como Heloísa ouviria os
conselhos de Abelardo, elas seguiriam o exemplo da sábia e notória abadessa.
Na última carta de Abelardo descreve-se resignado com a justiça divina ele
percebe os desígnios divinos, e os aceita como um castigo paterno, ele envia as
palavras das escrituras a fim de Heloísa medite a respeito, “‘Deus corrige aqueles
que ama. Ele castiga todos aqueles que adota como filhos”.[...] “Quem poupa a vara
não ama seu filho’”.64
Agora em virtude da aproximação da morte de Abelardo, Heloísa deve se
juntar a seu esposo verdadeiro, o único que realmente amou. Abelardo não a amava
apenas cedia aos seus desejos masculinos, realmente ela estava certa era
concupiscência que os unia. Ela não deve voltar-se contra Deus, ele seu verdadeiro
e único apoio. Os acontecimentos só vieram em beneficio de Heloísa, seu esposo
mortal a atraia para perdição enquanto nesta nova união ela encontrará o verdadeiro
amor.
Feliz mudança do teu estado conjugal: outrora esposa de um ser
miserável, foste elevada até o leito do Rei dos reis, este privilegio
honroso te colocou acima, não apenas do teu esposo humano, mas
de todos os demais servidores desse Rei.65

Heloísa encarna a esposa de Cristo na fala de Abelardo, em uma linguagem


licenciosa, ela deve dividir o leito do Cristo e interceder por Abelardo junto a ele.
Novamente apenas por intercessão de suas preces Heloísa pode salvá-lo.
Quanto aos desejos que Heloisa confessa na última carta, ela deve ocultá-los,
não deve falar mais deles, pois assim como sua sinceridade pode ser motivo de
exaltação ela também pode ser mal utilizada, aquela que confessa sua fraqueza
pode na verdade estar desejando louvores não merecidos.

Assinalo-te os efeitos dessa duplicidade, porque ela é muito

63
DUBY, 1989, op cit.,p. 75.
64
Correspondência de Abelardo e Heloisa. op. cit.p.,144.
65
Ibid.,p.126.
freqüente, não porque eu suspeite de ti: não duvido de tua
humildade. Limito-me a refrear teus excessos de linguagem,
temendo que pareças, aos que te conhecem mal, “buscar glória
enquanto foges dela” [...].66

O modelo de austeridade e insensibilidade perante os sentimentos são


enobrecidos na fala de Abelardo, se Heloísa ainda deseja-o que guarde para si. Não
é adequado a uma mulher como Heloísa demonstrar sua fraqueza sua debilidade
sobre estes assuntos. Ela deve segui-lo sem reviver sentimentos e experiências
passadas, “Vem, então, minha inseparável companheira, unir-te à minha ação de
graças, tu que participaste da minha falta e do meu perdão”.67
Dessa forma Abelardo instiga Heloísa a seguir seu modelo ele se aproveita
da ascese como tratada por Roland Barthes,68 ou seja, toma-a como chantagem,
ambos estão juntos na vida religiosa já não há como subverter a situação, Heloísa
deve segui-lo deve fazer a vontade de Abelardo tornar-se uma abadessa exemplar
como a imagem que evoca posteriormente nos escritos de Pierre o Venerável.69
O texto da Correspondência assim como a imagem de Heloisa como uma
mulher excepcional, tanto em conhecimentos como em devoção funcionam como um
conjunto de exemplos, para outras mulheres. Fazendo uso do pensamento medieval
em relação ao feminino, Heloísa superou as limitações de seu sexo, e apesar de
todas as dificuldades mostra-se como modelo de conduta.
No entanto, necessita-se ter cuidado sobre a interpretação dos escritos de
Heloísa, e àquilo que eles significam para nós. Se por um lado Heloísa parece ser a
heroína ideal, que requisita a presença do amado e que subverte os valores
buscando a reaproximação, também é preciso lembrar que no medievo esse
discurso não representa um modelo a ser seguido, mas sim um mau exemplo que
deve ser reprimido, assim Heloísa poderia ter sido vista como um reforço daquilo
que se tinha como “natureza” feminina. Se a mulher é débil, ela assim pode parecer
nos escritos variando de acordo com aquele que lê e interpreta, o requisito da
presença de Abelardo pode ser tido como uma prova de sua fraqueza e não de sua
astúcia. Se casarmos a interpretação das cartas, com aquilo que escreve Pierre o

66
Ibid.,p.136.
67
Ibid.,p.142.
68
BARTHES,op. cit.,.p.30.
69
DUBY, 1995, op cit.p.57.
veneráve,l70 ou seja, a imagem de Heloísa como a mulher filósofa e modelo de
abadessa, as interpretações tornam-se um tanto conflitantes com a imagem que
Heloísa evoca para nós.
Isso demonstra nada mais do que as múltiplas faces de um mesmo
personagem que é revistado e reinventado constantemente, e que ao longo dos
anos vem sendo carregado de um fardo interpretativo indissociável assim como o
texto que lhe é atribuído.
De tal modo a imagem de uma Heloísa resignada e dedicada à vida ascética
é estranha para nós. Essa representação de Heloísa é exatamente oposta àquela
que vemos nos primeiros minutos do filme de Clive Donner,71 uma Heloísa que
renega e culpa Deus e que serve somente a Abelardo. Qual dessas imagens se
aproxima mais com a da verdadeira Heloísa? Qual delas revela melhor o
pensamento e realidade feminina? Nunca poderemos saber ao certo, mas é provável
que a Heloísa real bem como as suas companheiras possuísse um pouco de cada
uma dessas figuras.

70
DUBY, 1995, loc cit.
71
EM NOME de Deus, op cit.
CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Heloísa que encontramos aqui não é aquela que queremos, àquela que
vence o discurso misógino do medievo e lança-se a novas possibilidades. Essa não
é uma questão de realidade ou ficção, é apenas a interpretação e a representação
fazendo de seu papel. A imagem atual de Heloísa como àquela que celebra o amor
livre, como colocado Duby,72 é aquela que toca os corações e que mantém a história
viva, porém essa da qual falamos aqui, como exemplo de conduta feminina no
medievo, também ilustra mudanças, talvez aparentemente muito menos
significativas para nós, e para o imaginário que temos de revoluções e finais felizes,
mas ainda assim uma mudança. Também sabemos que a escrita é regida por
normas, e muitas vezes para podermos nos expressar é necessário que se sigam às
regras e que se reprimam os sentimentos. Assim Heloísa se faz ouvir, ou pelo
menos seu modelo se faz, através daquilo que lhe é permitido, aquilo que é possível.
A Heloísa libertadora e romântica fica reservada ao imaginário
contemporâneo, ao cinema, ao discurso que se modifica através dos tempos. Como
coloca Harlan73 é impossível que se faça à interpretação de algo despido daquilo
que já foi escrito, então é provável que se encontre aqui vestígios da Heloísa que
queremos fazer existir a qualquer custo, daquela que faz sentido para nós e que foi
sendo carregada de significados.
A história de Abelardo e Heloisa que conhecemos, é aquela não exatamente
com final feliz, mas na qual o amor triunfa, o amor sobrevive mesmo após os anos
de separação e sofrimento. Essa história é a que motiva enamorados do mundo
inteiro a visitarem o túmulo dos amantes medievais, e que levanta lendas sobre o
abraço fúnebre de Abelardo. Essa é que faz sentido no campo de uma história
fictícia, em que o amor triunfa sobre as regras e diferenças impostas. Porém no
campo da história acadêmica e dos estudos de gênero, nos interessa os papéis que

72
DUBY, 1995, op cit.p.58.
73
HARLAN, David. A história intelectual e o retorno da literatura. In: RAGO, Margareth; Oliveira
Gimenez, Renato Aloizio de. (org). Narrar o Passado, Repensar a História. Campinas: Unicamp,
2000. p.27.
ambos cumpriram na sustentação ou na perpetuação do discurso de naturalização e
distinção dos sexos. Discursos estes que ecoam e que reproduzem em linhas gerais,
a inferioridade feminina discutida no medievo.
REFERÊNCIAS
Fontes

Correspondência de Abelardo e Heloisa/ texto apresentado por Paul Zumthor;


[tradução Lúcia Santana Martins]. – 2ª ed. – São Paulo; Martins Fontes, 2000. –
(Gandhara).

Obras de referência

ARISTÓTELES. Arte Poética. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br>.


Acesso em: 3 fev. 2009.

BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. São Paulo: Martins


Fontes, 2003.

CHARTIER, Roger. A história cultural entre práticas e representações. Rio de


Janeiro: Bertrand Brasil; Lisboa[Portugal]: Difel, 1990.

______. Cultura escrita, literatura e história: conversas de Roger Chartier com


Carlos Aguirre Anaya, Jesús Anaya Rosique, Daniel Goldin e Antonio Saborit. Porto
Alegre: Artmed, 2001.

______. Diferenças entre os sexos e dominação simbólica. Cadernos Pagu


(4)1995. Disponível em:
<http://www.pagu.unicamp.br/files/cadpagu/Cad04/pagu04.04.pdf>. Acesso em: 28
maio 2009.

______. Práticas da leitura. 2.ed. rev. São Paulo: Estação Liberdade, 2001.

COMTE, Auguste. Discurso Preliminar sobre o Espírito Positivo. Disponível em:


<http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000028.pdf>. Acesso em: 8
mar. 2009.

COSTA, Luísa; BORGES, Maria João; CORREIA, Rosa. Glossário de termos


literários. Disponível em: <http://faroldasletras.no.sapo.pt/glossario.html#imagem>.
Acesso em: 14 abr. 2009.

DUBY, Georges. Eva e os padres: damas do século XII. São Paulo: Companhia das
Letras, 2001.

______. Heloísa, Isolda e outras damas no seculo XII. São Paulo: Companhia das
Letras, 1995.

______. Idade Média, idade dos homens: do amor e outros ensaios. – São Paulo:
Companhia das letras, 1989.

DUBY, Georges; PERROT, Michelle. História das mulheres no ocidente. Porto:


Afrontamento, c1990.

EM NOME de Deus. Direção: Clive Donner. 1988. 1DVD(115 min.). Grupo Paris
Filmes. DVD. Color. Legendado. Port. NTSC.

FOUCAULT, Michel,. O que é um autor?. 4. ed. Alpiarça: Vega, 2000.

FRUGONI, Chiara. A Mulher nas imagens, a mulher imaginada. In: DUBY, Georges;
PERROT, Michelle. História das mulheres no ocidente. vol 2. A Idade média.
Porto: Afrontamento, 1990.

HARLAN, David. A história intelectual e o retorno da literatura. In: RAGO, Margareth;


Oliveira Gimenez, Renato Aloizio de. (org). Narrar o Passado, Repensar a História.
Campinas: Unicamp, 2000.

KLAPISCH-ZUBER, Christiane. Masculino/Feminino. In: LE GOFF, Jacques,;


SCHMITT, Jean-Claude. Dicionário temático do ocidente medieval vol 2. Baurú:
EDUSC; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2002.

KRIEGER, Ana Luisa Pereira; Universidade do Estado de Santa Catarina. Entre


piolhos e fadas: amor, casamento e adultério nos romances as Brumas de Avalon e
as crônicas de Artur. 2008. 68 p. TCC (graduação em História ) - Universidade do
Estado de Santa Catarina, Centro de Ciências Humanas e da Educação - FAED,
Curso de História, Florianópolis, 2008.

L’HERMITTE-LECLERCQ, Paulette. A Ordem feudal (séculos XI – XII). In: DUBY,


Georges; PERROT, Michelle. História das mulheres no ocidente. vol. 2. A Idade
média. Porto: Afrontamento, 1990.

NENNIUS. História dos Bretões. Tradução de Adriana Zierer. Disponível em:


<http://www.ricardocosta.com/>. Acesso em: 8 mar. 2009.
NORA, Pierre; LE GOFF, Jacques. História: novos objetos. 2. ed. Rio de Janeiro: F.
Alves, 1986.

Pequenas Fábulas Medievais: Fabliaux dos séculos XIII e XIV / estabelecimento do


texto, tradução para o francês moderno e seleção Nora Scott; tradução Rosemary
Costhek Abílio. – São Paulo: Martins Fontes, 1995. – (Coleção Gandhara).

PESAVENTO, Sandra. Contribuição da história e da literatura para construção do


cidadão: a abordagem da identidade nacional. In: LEENHARDT, Jacques;
PESAVENTO, Sandra (org). Discurso histórico e narrativa literária. Campinas:
Ed. da UNICAMP, 1998.

RAGO, Margareth. Descobrindo historicamente o gênero. Cadernos Pagu (11)1998.


Disponível em: < http://www.pagu.unicamp.br/files/cadpagu/Cad11/pagu11.08.pdf>.
Acesso em 28 maio 2009.

RÉGNIER-BOHLER, Danielle. Ficções. In: DUBY, Georges; ARIES, Philippe.


História da vida privada, 2: da Europa feudal à Renascença. São Paulo:
Companhia das Letras, 2004.

SAMARA, E.; SOIHET, R.; MATOS, M. I. (org). Gênero em debate: trajetórias e


perspectivas na historiografia contemporânea. São Paulo:EDUC, 1997.

VAINFAS, Ronaldo. História das Mentalidades e História Cultural. In: CARDOSO,


Ciro Flamarion S.; VAINFAS, Ronaldo; ESSUS, Ana Maria Mauad de Sousa
Andrade. Domínios da história: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro:
Campus, 1997.

WHITE, Hayden. Trópicos do discurso: ensaios sobre a crítica da cultura. São


Paulo: editora da Universidade de São Paulo, 2001.

ZIERER, Adriana; PAES FILHO, Orlando. Artur. 1. ed. São Paulo: Planeta do Brasil,
2004. - (Universo Angus).

ZINK, Michel. Literatura. In: LE GOFF, Jacques,; SCHMITT, Jean-Claude.


Dicionário temático do ocidente medieval vol 2. Baurú: EDUSC; São Paulo:
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2002.

ZUMTHOR, Paul. A letra e a voz: A “literatura” medieval. São Paulo: Companhia


das Letras, 1993.